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sábado, 14 de agosto 2010

Sobre o conflito colombiano

geografia_mapa_colombia.jpg
Este post foi inspirado por um comentário da Ana Paula a um texto anterior. Agradeço à Ana Paula pela interlocução.

Saltam aos olhos nas discussões mais histéricas da direita sobre a Colômbia alguns fatos, vários deles óbvios pra quem olhou o assunto com um mínimo de interesse:

No conflito colombiano, o dinheiro da droga financia todos os lados, incluindo paramilitares e Estado. Falar de “narcoguerrilheiros” com relação às Farc é tão correto como falar de “narcoparamilitares” e “narco-estado”. É, digamos, correto num sentido (na medida em o dinheiro da droga é o eixo do financiamento) e incorreto em outro (na medida em que aqueles grupos cumprem vários outros papeis, que vão além do narcotráfico e não se resumem a ele).

À direita não interessa a reintegração pacífica das Farc, porque isso acarretaria a perda do seu bicho-papão, o desaparecimento da suposta ameaça que, sabemos, convoca toneladas de grana americana, através de projetos como o Plan Colômbia--emblema do estrepitoso fracasso que é a "guerra as drogas". Com o péssimo histórico de intervenção norte-americana na Colômbia, as coisas pioram ainda mais. As iniciativas de desarmamento com as que concordaram as Farc durante o governo de Belisario Betancourt (1982-86) resultaram em assassinatos de milhares de ex-guerrilheiros reinsertados: um enorme naco de todos os ex-combatentes que toparam ser candidatos ou líderes comunitários. O estado colombiano chegou ao ponto de chacinar líderes das Farc desarmados que se dirigiram a um encontro de negociação: o tipo de crime de guerra que teria horrorizado a qualquer um, de Napoleão a Clausewitz a Churchill. Ao longo das últimas décadas, a Colômbia viveu no que poderíamos chamar a Democracia dos Esquadrões da Morte. Tudo isso com dinheiro americano enviado para o exército sendo canalizado, direto, às mãos de paramilitares, processo documentado nas ligações de Ever Mendoza (codinome HH) e Mario Montoya, general colombiano condecorado em Washington.

Os colombianos sabem que a raiz do problema é o reconhecimento de que a Colômbia não vive uma “guerra ao terrorismo” (essa é uma “guerra” declarada pelos EUA, num estranho uso do termo, diga-se), mas um estado permanente de guerra civil. Esse condição, ao contrário do que sugeriu recentemente um ignorante editorial do Estadão, não começa com as Farc. Quando estas surgem, o conflito já tem pelo menos 15 anos. De forma que é totalmente enganoso e mentiroso dizer que "os colombianos estão sujeitos ao terror das Farc há 40 anos". Se o Estadão quiser fazer historiografia, tem que voltar a outra data: 9 de abril de 1948, assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, candidato liberal à Presidência, que vinha promovendo um esforço de paz para retirar a Colômbia do estado em que ela vivia desde o século XIX, o de intermitentes guerras civis (no século XIX foram quatro que atingiram dimensão nacional: 1876-77, 1885-86, 1895, 1899-1902).

Quando surgem as Farc, nos anos sessenta, já são mais de dez anos de matanças generalizadas na Colômbia. As Farc não eram o que são hoje: surgem como reação compreensível de autodefesa de camponeses e trabalhadores rurais, temperados de guevarismo, como todas as guerrilhas da época. Com o tempo, o isolamento e o beco-sem-saída do conflito, as Farc enveredaram pelo caminho que se conhece: o sequestro, o banditismo comum, as relações com o dinheiro da droga. Não é, hoje, evidentemente, um projeto que alguém de bom senso possa “apoiar” em qualquer sentido. Mas só por ignorância ou má fé se pode imaginar que esse era o caso em 1965.

Nas últimas décadas, as Farc são responsáveis por atrocidades e crimes. Mas em qualquer levantamento das atrocidades colombianas, bem mais de dois terços dos horrores são perpetrados por paramilitares e Estado (e, pior, às vezes pelas duas forças conjuntamente). Até os relatórios das gringuíssimas agências de direitos humanos mostram isso.

Ninguém em sã consciência vai "apoiar” as Farc, mas elas são um dos atores armados a se sentar à mesa de negociação. Elas têm 60 prisioneiros. 600 dos seus homens estão em cárceres do estado. Uma enorme proporção dos que se desarmaram e se converteram em “reinsertados” foi vítima de assassinato. É óbvio que, dado o histórico da Colômbia, algum tipo de garantia de segurança é o básico para qualquer ator armado que se desarma. Esse foi um dos eixos de processos de paz como o da Irlanda do Norte. Mas enquanto o conflito colombiano for entendido com a língua estadunidense da “guerra ao terrorismo”, isso não acontece. Porque com o “terrorista” você não se senta.

Enquanto a solução definitiva de paz não acontece, no Brasil uma direita irresponsável e um jornalismo pedestre, ignorantes da diferença entre Medellín, Bogotá, Cali e Barranquilla, ficam brandindo termos como “narcoterroristas”, sem incentivar nenhuma saída que não seja mais violência. Fazem isso agora, sabemos, por puro desespero político-eleitoral. Vêm enganando, felizmente, um número cada vez menor de incautos.



  Escrito por Idelber às 20:23 | link para este post | Comentários (25)


Comentários

#1

Fico honradíssima de ter colaborado para uma extensão do assunto. Assino embaixo deste também! :-)

Ana Paula Medeiros em agosto 14, 2010 9:28 PM


#2

Perfeito o post. De fato, há interesse em um dos lados da guerra civil de não reconhecer a sua existência - a semântica explica muito aqui: guerra ao terrorismo implica, automaticamente, uma guerra justa e a desqualificação do inimigo - que, nem inimigo é, é terrorista, um misto de inimigo público e criminoso, mas nem um nem outro. O Daniel Heller-Roazen publicou uma interessante genealogia da pirataria no Direito Internacional - o pirata é o "inimigo comum da humanidade" - na qual mostra como os gaviões de Bush fizeram uso da figura do pirata pra justificar juridicamente o ataque aos "terroristas" e as detenções em Guantanamo. Taxar alguém de terrorista é justificar previamente o seu massacre. Abraço

Alexandre Nodari em agosto 14, 2010 9:46 PM


#3

Sem contar que boa parte da simpatia da direita pela Colômbia se nutre fortemente da figura do venezuelano Hugo Chávez. Refiro-me à Colômbia de Uribe, é claro, já que antes dele e do Chávez só se falava da Colômbia do narcotráfico. De uns anos para cá é que o discurso da direita brasileira passou a bater nessa tecla da Colômbia das Farc/terrorismo/narcotráfico/esquerda/Foro de São Paulo/PT/malditos comunistas/a culpa é do Fidel e blá-blá-blá.

E é mais do que sabido que o recente rompimento (já superado) entre a Colômbia e a Venezuela foi tão somente um factoide, uma estratégia de Uribe para não perder o poder assim que deixasse a presidência. Mas o novo presidente, que tb não é flor que se cheire, pelo menos parece rezar de uma cartilha um pouco mais mansa do que a do Uribe.

Ricardo Cabral em agosto 14, 2010 10:39 PM


#4

Idelber,

A Colômbia, aliás, sempre foi um Estado problemático. Desde os tempos da República de Grã-Colômbia - que incluía também Venezuela, Panamá e Equador e todo o processo de desmembramento posterior que resultam nas fronteiras atuais.

As semelhanças com o Brasil são enormes, o cultivo de café e uma oligarquia rural envolvida nesse ramo, as grandes desigualdades, uma cultura popular parecida - o ponto é que lá é como se fosse aqui caso os oligarcas da República Velha tivessem dado um jeito de sobreviver a 29; em suma, o mundo dos sonhos dos donos do Estadão que você citou aí em cima.

O assassinato de Gaítan, um dos episódios mais emblemáticos da história latino-americana foi apenas o marco do atual ciclo de violência. O ponto é que as bases econômicas e sociais sobre as quais aquele país foi construído sempre foram incapazes de absorver razoavelmente as camadas que acendiam - nem de responder as demandas sociais várias. Infelizmente, apesar de toda a comoção provocada pelo crime que o vitimou, não houve uma força política organizada capaz de catalisar devidamente o clamor das massas. Antes que eu me esqueça, nessas ironias da História, Gaítan foi assassinado antes de se encontrar, naquele dia, com o jovem líder estudantil cubano Fídel Castro que foi brutalmente influenciado por aquele evento.

depois, modo como a elite local sabota o processo de distensão e abertura nos anos 80 comprometeram severamente aquele país. Toda a violência, concentração de renda e instabilidade são elementos centrais da estagnação da vida local e a política de Uribe foi um passo adiante desse abismo - comenta-se que a Colômbia só perde para o Sudão em número de refugiados. Como tratei recentemente no meu blog, não obstante a situação de lá, gravíssima por sinal, o uso dessa situação por Serra, mais do que um gesto desesperado da campanha - ou um erro no tracejo da política externa -, trata-se de um ato desumano que reflete não apenas sua incapacidade política como também sua falta de discernimento - e depois, há quem diga que critica-lo é catastrofismo, fazer o que...

abraços

Hugo Albuquerque em agosto 14, 2010 11:36 PM


#5

Você conhece o filme Bob Roberts, de Tim Robbins, Idelber?

Bruno Marcondes em agosto 15, 2010 1:44 AM


#6

Gostei da sua dialética, ao analizar o conflito. Sem a guerrilha, o governo colombiano não teria o seu "Diabo", que justificasse o envio de todo esse capital norte americano.

Não à toa o Hugo Chávez aconselhou, certa vez, aos guerrilheiros que trocassem a guerrilha pela política.

Abraços!

Bruno Marcondes em agosto 15, 2010 1:52 AM


#7

Off-topic: O Biscoito, nesses quatro dias, chegou aos 2 milhões...

Hugo Albuquerque em agosto 15, 2010 2:19 AM


#8

Oi, Hugo, agradeço a lembrança, mas esse contador é muito recente. Infelizmente, não temos um número certo do total de visitas do Biscoito desde o começo, mas é bem mais.

Idelber em agosto 15, 2010 2:34 AM


#9

Idelber,
Que alegria reencontrar o "Biscoito". Você não tem ideia de como fez falta este espaço nos últimos meses.
Pena que você não pode ficar para o show do Mautner em BH. Foi uma maravilha. Ele enviou-lhe aquele abraço de "neurônios saltitantes".

Mariano em agosto 15, 2010 6:18 AM


#10

Parabéns pelo retorno.Na minha modesta opiniāo,a esquerda latino americana ganha mais com vc on-line.
A Colombia,segundo Gabriel Garcia Marquez,nāo conhece a a paz desde a sua independência.
As Farc conseguiram sobreviver durante todos estes anos porque nunca conseguiram atingir o centro do poder. passaram 40 anos na periferia,nunca tiveram a força suficiente para ir mais longe. Para existir foi obrigada a vender a alma. Hoje nao vejo diferença alguma entre as três forças implicadas na luta com respeito aos métodos.As outras duas forças envolvidas fazem o jogo sujo de sempre, "senhores de forca e punhal",para usar uma expressāo de Gabo. Esperava das Farc uma mudança de métodos de luta. A situação política na América Latina cria atualmente oportunidades para estabelecer variantes mais integradas as lutas populares e menos violentas.
Não sei se as Farc conseguirão fazer está manobra, foram longe demais.
Assisti a um documentário sobre uma prisão na Colombia onde os paramilitares, as Farc e prisioneiros comuns dividem o mesmo espaço. Se tivesse que escolher ficaria com os presos comuns.
Busco uma esquerda latino america de alma limpa,de cara lavada.

Marconi em agosto 15, 2010 8:09 AM


#11

E aqui mais uma prova de que o orçamento trilionário do Plano Colômbia não serve para outra coisa que não retroalimentar a guerra que os dirigentes americanos e colombianos dizem combater:


http://www.jornada.unam.mx/2010/08/15/index.php?section=mundo&article=021n2mun

Lauro Mesquita em agosto 15, 2010 11:12 AM


#12

Caro Idelber, que prazer ter você de volta, comentando em seu blog !! eh sardade !!

mas vamos ao seu post de sábado:

Todo esse discurso contra as FARC é para esconder as covas coletivas e os falsos positivos. Milhares de cidadãos colombianos foram assassinados pelos paramilitares e mercenários da direita colombiana e enterrados em covas coletivas. Milhares de jovens foram assassinados pelas forças armadas colombianas sob a suspeição de pertencerem às fileiras dos insurgentes colombianos. Estes, são os denominados "falsos positivos". Os falsos positivos são rapazes e moças apanhados pelas forças armadas colombianas para "fazer número" (numa expressão popular muito conhecida por nós) no discurso do narco-presidente Uribe contra a guerrilha das FARC. E, entre esses cidadãos chacinados pelas tropas do narco-presidente, não são computados os assassinatos de sindicalistas e de politicos de oposição. Estes dois ultimos pertencem a estatisticas proprias.

Marcus Vinicius (Helcid) em agosto 15, 2010 12:39 PM


#13

Objetivamente, a situação da Colômbia me lembra muito a de Angola, com sua guerra civil interminável entre um MPLA pós-comunista corrupto e uma UNITA pró-EUA, alimentada a diamantes de sangue. Bem ou mal, os dois lados sendo o que se sabia, fazer a paz exigia aceitar o que se tinha, e não ficar na posição de buscar um sujeito kantiano da moralidade universal. E foi o que se fez quando a morte do Savimbi privou os EUA do instrumento que usavam para atiçar o fogo. A situação atual é ótima? Nem de longe, mas pelo menos há paz e um intervalo de respiro para um povo infelicitado.

Carlos em agosto 15, 2010 4:43 PM


#14

Obrigado, Mariano, que bom saber que Mestre Mautner falou de mim aí em BH. Abraços.

Interessante essa comparação com Angola, Carlos. Mas eu diria que mesmo nos momentos de maior corrupção, a legitimidade popular do MPLA era infinitamente superior àquela de que gozam as Farc hoje. É verdade que há um respiro, hoje, em zonas que foram muito violentas, como Medellín. Mas em áreas rurais o respiro é bem limitado, diga-se. Um abração.

Idelber em agosto 15, 2010 6:15 PM


#15

Talvez não tenha me explicado bem: não é que haja um "respiro" atualmente na Colômbia, e sim que a condição necessária deste respiro no futuro seria que as partes beligerantes fossem admitidas a negociações em pé de igualdade, sem considerações quanto ao seu direito de serem reconhecidas como partes beligerantes - que foi o que foi feito em Angola.

Carlos em agosto 15, 2010 7:33 PM


#16

Ah, sim, Carlos, eu havia entendido mal por onde passava a comparação. Claro, fechamos.

Idelber em agosto 15, 2010 7:54 PM


#17

Olá!
Gostei do seu post muito oportuno sobre as Farc e a longa "guerra civil" na Colombia. Meu novo romance - sai em outubro - trata um pouco desse "espinhoso" tema tão mal compreendido pelas notícias que chegam até aqui. Chama-se "Com esse ódio e esse amor" - de um poema do Arguedas - e na verdade trata de duas histórias entrelaçadas - a de uma jovem engenheira que vai construir uma ponte na Colômbia (daí entram as Farc), e o argumento de um filme que outro personagem está fazendo sobre a história de Tupac Amaru. Meio ambicioso, não? Mas sem um pouco de ambição acho difícil escrever algo que valha a pena. Um abraço, Maria José

Maria José Silveira em agosto 15, 2010 8:42 PM


#18

A questão é que o conflito colombiano deixou de ser eminentemente político. Um dos atores perdeu este estatuto, independente do quanto seus agentes ainda creiam em alguma plataforma. A legitimidade interna das FARC é limitadíssima e, externamente, está nos extertores. Não me admiraria se a conversa do Santos com o Chavez fosse na linha do "eu não insisto mais nessa história de bases guerrilheiras, reabro o comércio bilateral que você tanto precisa e você pressiona os guerrilheiros a deporem as armas". Pode ser uma impressão fruto de informações superficiais, mas o Santos parece um jogador muito mais habilidoso do que o Uribe que ganhou a parada para a direita colombiana por anos a vir.
A existência de um inimigo a demonizar poder ser útil e pode levar à permanência do embate por muito tempo, mas somente se as FARC se tornarem praticamente inócuas do ponto de vista militar e político - o que o governo colombiano vem conseguindo. E como os negócios das drogas continuarão de qualquer forma, talvez o cálculo que a nova fase do conflito (desde Uribe) trouxe para a mesa da direita seja similar ao da máfia pós-mãos limpas: discrição. Talvez realmente se esteja procurando eliminar as FARC, em qualquer sentido que se queira pensar nisso. Assim, negócios poderão fluir pelas mãos tradicionais sem os atuais sobressaltos.

João Paulo Rodrigues em agosto 16, 2010 3:05 AM


#19

É interessante notar a semelhança deste com outros conflitos, em especial o Basco. Não interessa ao governo espanhol negociar com a ETA, ela alimenta os fascistas tanto do PP quanto do PSOE. Um membro do próprio PP chegou a declarar que a ETA é a desculpa que precisam para manter a repressão, um típico discurso Franquista em um país que, como o Brasil, não revisou sua lei da Anistia.

Raphael Tsavkko em agosto 16, 2010 3:57 AM


#20

Um ponto não contemplado se trata dos verdadeiros interesses estadunidenses na região. A Colômbia, tal como o Afeganistão (lá a matéria prima é putra), coloca-se á testa no ranking da produção de substâncias básicas para preparo de drogas. A ação estadunidense é cortina de furmaça para acessar este "recurso não contabilizado", normalmente utilizado pela CIA para financiar suas ações terroristas em nações recalcitrantes à política do Pentágono, defensor dos interesses corporativos da nação sobre o mundo inteiro. Aliás, tanto Colômbia como Afeganistão não possuem indústria química, indispensável para a produção de drogas. Quem possui? Os EUA.

marcos nunes em agosto 16, 2010 10:58 AM


#21

Olá Idelber,

Parabéns pelo post, mas me permita complementar o debate com uma vertente pouco debatida mas muito polemizada: a internacionalização do conflito colombiano.

As FARC, como bem comentou o Marconi, nunca teve força para chegar ao centro do poder, mas atua fortemente na periferia, onde há a ausência do Estado. Chegou a ocupar cerca de 40% do território do país, estabelecendo assim como um Estado paralelo ao Estado central.

Três fatores levaram as FARC a internacionalizar suas atividades: a impossibilidade de chegar as zonas urbanas com força suficiente para manter-se ai, a pressão do governo Uribe em voltar a o ocupar a periferia e o fornecimento de drogas para outros mercados. Portanto, as FARC não são apenas um ator político local, mas um ator político paradiplomático (diplomacia paralela).

E este tema da paradiplomacia é essencialmente importante para entender o momento atual. Não foi a toa que Santos, no seu segundo dia após a posse, declarou que nenhum país ou orgão internacional estava autorizado em negociar condições com as FARC. Ele tenta com esta declaração acabar com a diplomacia das FARC e fortalecer a do Estado, que foi debilitada e desacreditada pelo governo Uribe. Esta declaração reconhece ainda as FARC como um interlocutor.

Acredito que Santos terá mais sucesso que Uribe por dois motivos: reconhecimento das FARC como um ator político internacional e entender que a ocupação do Estado na periferia não se dá apenas através de soldados e bases gringas, mas de apoio aos direitos econômicos e sociais, elementos que Uribe negligenciou (e daí o fracasso do Plan-Colômbia).

A ignorância do governo Uribe sobre tal fato foi tão elevada que ele usou até mesmo simbolos de instituições internacionais em tarefas militares, como por exemplo, o episódio do resgate de Ingrid Betancourt, quando usou fardas da Cruz Vermelha para enganar os sequestradores. O que ele essencialmente fez, foi usar um ator internacional para dialogar com as FARC.

Aqui na América Latina a paradiplomacia ainda é pouco discutida, mas as FARC e outros atores, que não necessariamente atuam com interesses de conflito, entenderam a globalização melhor que os jornais.

Um forte abraço e espero ter ajudado em algo.

Márcio Pimenta em agosto 16, 2010 12:22 PM


#22

Oi, Márcio, também compartilho um otimismo (moderado) com o Santos. Em certo aspecto, parecia até mais linha-dura que o Uribe, mas algumas das movidas que fez até agora foram promissoras. A se conferir. Abraço.

Idelber em agosto 16, 2010 4:17 PM


#23

Fiquei chocado com essa notícia.

Assassinaram na Colômbia a delegada de Direitos Humanos que auditou a fossa comum de La Macarena

Você ficou sabendo de mais alguma coisa?

http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=5970:assassinaram-na-colombia-a-delegada-de-direitos-humanos-que-auditou-a-fossa-comum-de-la-macarena&catid=257:repressom-e-direitos-humanos&Itemid=131

Lauro Mesquita em agosto 25, 2010 1:45 PM


#24

A associação entre FARC e narcotráfico foi uma estratégia muito bem montada pelos Estados Unidos. Habilmente divulgada e repetida pelas empresas de informação, tornou-se uma "verdade" graças à força da sua propagação, alcançando inclusive setores daquilo que por força da tradição ainda denominamos esquerda, um nicho mais ou menos intelectualizado da classe média envergonhada de assumir sua identidade mais propriamente liberal.
Confesso a dificuldade de uma apreciação real e efetiva do processo colombiano, já que as fontes de informação são antes veículos ideológicos. Mesmo a aparente liberdade da internet padece dos alinhamentos dos internautas.
De qualquer forma, a demonização das FARC tem algo que transcende às fronteiras colombianas: o profundo temor do renascimento da opção pela luta armada. Por isso as FARC são anatemizadas e sobre elas se desencadeia uma tempestade bélica, política e social, uma verdadeira tentativa de liquidá-la de todos os modos.
Ainda que seja possível a aproximação alegada sem qualquer comprovação com as drogas, levianamente repetida, não é essa a questão central. O que incomoda é a sobrevivência de uma forma de luta do século passado que assusta a radicalizada elite colombiana, também ela militarizada no pensamento e na visão da defesa de seus interesses.
O impasse promovido por forças antagônicas que persistem décadas num conflito sem vencedores é uma verdadeira tragédia.
É uma posição confortável, pra não dizer covarde, ligar as FARC ao narcotráfico, colocá-las numa ridícula lista de organizações terroristas, subestimá-las, aprisionando-as à órbita de Chávez (como se não sobrevivessem sem o suposto apoio do presidente venezuelano). Essa tarefa nos revela bem a mentalidade daqueles que a sustentam pois deixa muito claro, naquilo que silenciam, o que não lhes causa nenhum constrangimento: a extradição de colombianos para serem julgados por "crimes políticos" (?) nos Estados Unidos, verdadeira destruição da ordem jurídica nacional, num atentado à soberania colombiana; a transformação do exército colombiano em uma divisão do exército norte-ameri:cano supervisionada pelo Comando Sul; a banalização das atrocidades cometidas contra a oposição, com o assassinato de milhares de sindicalistas e líderes comunitários; as fossas coletivas que so encontram comparação com aquelas produzidas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial; a presidência exercida por Uribe, de notórias ligações com os cartéis do narcotráfico.
A esquerda de salão hoje existente no Brasil deveria olhar com mais cuidado o processo político colombiano. Ela, que silencia sobre a violência no campo e nos bantustões urbanos, preocupada apenas com processos eleitorais viciosos, com uma urna eletrônica dotada de infalibidade divina, talvez não esteja muito preocupada com o que também ocorre no Brasil. O poder é ocupada cada vez mais por gansters, o país não funciona sem as máfias que dominam a saúde, a educação, o financimento público, o INSS, o sistema financeiro, as verbas de campanha, a publicidade, a construção, as obras públicas. Se o que temos é uma república de bandidos, o que fica são perguntas dolorosas, angustiantes: Vamos reforças essa podridão votando num processo eleitoral que serve apenas para perpeturar essa lama? Participar de uma eleição na qual a política sequer participa? Estabelecer falsas distinções entre candidatos cujos múltiplos tons - : triunfalista, oportunista, paterno-maternal, infantilizador e muitos outros - não esconde o fato de pertencenterm os mais fortes concorrentes a um partido único? Que diferenças guardam Dilma, Serra e Marina, a não ser de embalagem, de modo de apresentação: uma sombra de Lula, outra, representando uma desastrosa oposição de direita, e a última, uma versão do ecocapitalismo?
Dezesseis anos de governo, e o PT-PSDB no poder foi incapaz de aumentar a consciência e a organização popular. O índice de sindicalizados é baixíssimo. Criou-se o Lulismo, versão adaptada para o nosso tempo do pai da pátria, fruto de uma concepção de poder na qual o povo não existe, apenas recebe migalhas, paliativos e traições (como a questão agrária).
Se a Colâmbia tem o narcotráfico como interferência negativa no seu contexto político, é importante lembrar que o tráfico no Brasil já atua nessa área. Já percebeu a importância do poder e já se organiza para fortalecer a sua base legislativa e executiva. Afinal, grande parte da população brasileira já percebeu que as eleições são compradas e que aqueles que têm bala na agulha possuem condições de êxito. As milícias já operam no Rio de Janeiro e sempre operaram no campo, em defesa dos latifundiários.
O que acontecerá quando o povo se cansar de milícianos, traficantes, policiais-bandidos, políticos-bandidos, juízes-bandidos, mídia-mafiosa e semelhantes? Ou será que alguém ainda acredita em eternidade?
Perdoe, Idelber, o longo desabafo, mas não aguento mais a política eleitoral. E temo algo que ninguém que conheço teme: a colombianização do Brasil ou a sua mexicanização. As duas palavras são feias fonetica e semanticamente. Acho que já temos sujeira em excesso, não merecemos mais. Já bastam as eleiçõs que nos fornecem mais do mesmo. Do mesmo não, do pior.

Zantonc em setembro 12, 2010 5:33 PM


#25

meus amigos.olhem o mundo e olhem em diversas direções não apenas em um ponto de vista mais em diversos pontos pensem quem faz as guerras quem promove a violência o trafico as drogas o bem o mal;
diga-se de passagem quem esta acima do bem e do mal certo todos respondem é DEUS mais isso não é uma verdade no mundo real quem esta acima é o poder dinheiro. estados unidos fazendo promovendo destruindo manipulando matando destruindo financiado a merda toda no mundo achando que estão certos de tudo e sobre tudo. quem manda é o dinheiro e quem tem pode sim fazer as regras do jogo comprar tudo e todos em tão não devemos fazer
nada a respeito onde o bem não existe e sim poder e dinheiro devemos ensinar isso aos pobres e não vans filosofias

marcelo em novembro 8, 2010 11:31 AM