Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.
Uma sugestão, como forma de respeito e afeto, por Katarina Peixoto
Katarina Peixoto enviou este texto a alguns amigos. Ele é belo demais para que fique numa caixa de correios. Pedi permissão para publicá-lo. É de interesse especial dos gaúchos, mas realmente todo mundo deveria ler.
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Tenho muita coisa a dizer e algumas a sugerir, e agora é madrugada e eu tô podre de cansada. Mas este é um pedido de voto, e um compartilhamento de um abraço em cada um e cada uma. Inclusive e bem de muito naqueles meus amigos que não votam em quem eu voto. Também para vocês eu escrevo, não para pedir voto, exatamente.
Mas sabem aquele oboé emendando os movimentos da Pastoral de Beethoven? Aliás, vocês por um acaso já pensaram que aquele maluco fez uma sinfonia em que a imaginação não surrupia a música em nem um milésimo de segundo e nos devolve um mundo como semeadura e colheita, assim, guiados por um oboé? Pelo menos não ultrapassa a fronteira, porque a Pastoral pode ser goiaba, às vezes, mas é linda e hepática. Luminosa, como a primavera, mesmo que eu tenha asma.
Então é o seguinte: sem ufanismo nem lulismo nem petismo, vivemos num outro país. Mas não é de mito que quero falar. Tem um monte de coisas sérias que interpelam o atual estado de coisas, e o meio ambiente (não o da Arca de Noé, obviamente), importa muito.
A experiência Lula e as mortes e desaparições do último período produziu cicatrizes que não apenas doem, como fornecem um certo charme sobrevivente. Sobreviver é tão insularmente determinado que ter charme é o mínimo que se exige, enfim.
Se você não vota em Dilma, não tem problema. Isso não o impedirá de sonhar e projetar um futuro. Se você detesta a Dilma e o PT, problema menor ainda. O PT, penso eu, meio que acabou. Tudo tem um custo, o que jamais se reduz a um preço, na vida. Então, isso não impedirá de você confiar que as instituições e o futuro serão mais tranquilos.
A Dilma não é somente séria. Não é somente republicana e workaholic. Não é apenas mineral em termos de caráter e força. Ela é nossa, viu? Ela também é música, numa palavra.
Chega a ser assustador pegar alguns dos artigos e ensaios de intelectuais, agentes da finança global e analistas econômicos heavy a respeito de nosso, brasileiro, futuro. Muitos deles estão na Carta Maior e outros, mais entusiastas, como os do Financial Times, deixariam alguns artigos da Caros Amigos à sua direita. O que não é exagero é que este ano o Brasil tem a escolha mais cara do Planeta a fazer: 20 trilhões de dólares, do Pré-Sal.
Nossos filhos poderão viver num país como aqueles que eu, na minha adolescência, via como muito distantes.
E isso sem virar a China. E sem a barbárie desigual da Índia. Com SUS (quero crer melhor), com pesquisa, universidade, escolas, IPEA. SEM MISÉRIA.
Pode-se pensar que uma paisagem é objeto de viagem hippie. Minha aversão aos hippies impede essa frase de fazer sentido: o que faz sentido é a paisagem como objeto de vida real. De coisa feita de carne e, agora, cimento. Uma paisagem de palafita virar cimento e saneamento.
Saber que ali, logo ali, naquela parada de ônibus, você não verá um menino com lombrigas saindo pelo ouvido.
Não é um paraíso, mas já é algo menos distante da dignidade.
Quem está contra a Dilma, em termos de relação de força são basicamente as 6 famílias e um setor do PSDB e o Dem – motivo de orgulho para nós, óbvio. O grande capital financeiro, o grande capital industrial e produtivo (agrobusinesse e construção civil), a indústria naval e o universo de pequenos e médios está conosco.
Não é delírio algum dizer que a mídia das 6 famílias assumiu uma posição de vanguarda tão delirante, enquanto delirante, como as vanguardas troskas do alasca, na década de 60. Um comportamento meio vulnerável à tal da “moral bolche”, uma flexibilidade comportamental que opera a despeito da realidade e militantemente contra a verdade.
Eu, Katarina, do auge de minha relevância impressionante, acho isso ruim. Preferiria que as forças político-partidárias fossem mais orgânicas e programáticas. A experiência Lula desarrumou as coisas e nós estamos no meio da bagunça.
É por isso que eu escrevo, afinal, pedindo uma certa paciência. Se você não tem candidato a proporcional, seguem as minhas sugestões, de gente que sobreviveu à bagunça, com charme, coluna vertebral da moralidade e dos compromissos de pé, clareza sobre quem é o inimigo e um amor que beira o incompreensível, pela militância e pelo equilíbrio das relações injustamente desiguais que marcaram o Brasil antes dos 20 trilhões.
São eles meus amigos, alguns mais, outros menos. E nós, aqui, e nossas famílias, votarão neles.
Henrique Fontana (1313) – Moço que abdicou do caminho mais fácil da família para obedecer ao seu coração e a sua mente privilegiadamente inteligente. Eu não acredito que inteligência é mérito, mas a inteligência de Henrique é assustadoramente real. E ele não a vendeu e não a vende. Ele respeita e não lava. Ele negocia e defende. Não vende, não compra, não tira onda da minha cara. Além disso ele é patologicamente apegado à praça. Uma coisa assustadora, mas necessária, enfim. É um deputado federal que merece ser reeleito, para o bem, a construção e não o melhor do mundo, mas o melhor do congresso nacional. Isso já é muita coisa. Para mim é necessário e suficiente.
Elvino Bohn Gass (1320) – Moço de família alemoa de Santo Cristo, católico não reacionário nem das libertaçã. É o sujeito mais decente e sério que conheci e conhecerei. Compromissado com a agricultura familiar, a justiça tributária, o republicanismo e a democracia. Ele é tão sério que chego a pensar que seu futuro gabinete terá de contratar um psiquiatra, caso ele chegue a Brasília. Sofrerá no congresso, mas sua determinação e seriedade não deixam, senão os psicopatas e sicopantas, indiferentes. Eu tenho orgulho também de ele ter se mantido de pé, quando sentia dor e perplexidade ouvindo os áudios e lendo as transcrições das peças judiciais vinculadas à corrupção do Detran e da então prefeitura de Canoas. Ele sofria, não celebrava. E muitas vezes não conseguia a agressividade toda para inquirir, dada a perplexidade diante da bandidagem. Ele é raro. E necessário.
Stela Farias (13113): candidata a estadual, que com Elvino enfrentou a turma que andou assaltando o governo do estado nos últimos 7 anos. Sob vários aspectos ela dispensa apresentações, porque foi prefeita, porque é bastante conhecida. Mas este pedido de voto reside na confiança nela. Pelo seguinte: Stela é uma guerreira, uma companheira, uma mente e uma energia da natureza operando na política. Ela, junto ao Elvino, são quadro miraculosamente republicanos, cuja falta de maldade chega a preocupar. Mas isso não é elogio de inocência: ela é um puta quadro nosso. Professora, mãe, militante, workaholic, corajosa contra os que ladram e mordem.
Raul Pont (13400): O político sem qualidades, porque só as tem como virtudes. Então, não carece de qualidades, mas de voto na urna, para ser consagrado. Raul é uma honra e um orgulho, uma confiança e uma alegria. Sujeito que, assim como o Henrique, gosta tanto dessa loucura que a transforma numa história. E que, de uma maneira só sua, desta vez, respeita a história e a leva a sério em cada gesto e em cada combate. Poder votar em Raul Pont é uma das razões para acreditar que faz sentido viver em sociedade, apostar na generosidade, escutar e respeitar.
Tenho o maior orgulho e confiança nesses 4 companheiros. E acho que eles são todos os 4 figuras de que todos nós, e sobretudo aqueles que votam nos PTB e quetais da vida, necessitamos, em nome da república, da democracia e dos compromissos.
E como eu sou trabalhadeira mas não sou boba, seguem alguns vídeos animados para nós.
Um do último programa do Tarso. Eu peço encarecidamente que vocês o vejam todo, até o final. Estamos todos ali, desta vez não como obo, mas como flauta transversa, informal, convicta.
Caso o leitor tenha paciência de procurar os arquivos dos jornais brasileiros, verá que até muito pouco tempo atrás, os tucanos planejavam sair de Minas Gerais com 2 milhões de votos de vantagem sobre Dilma Rousseff. Essa era a matemática da vitória de José Serra: 5 milhões de votos de frente em São Paulo, 2 milhões em Minas e 1 milhão no Paraná. Desde bem antes da volta do blog, antes mesmo da sensacional declaração de José Serra de que não entende mineirês, eu já compartilhava artigos no Google Reader dizendo que Dilma venceria em Minas com ampla vantagem. Não era necessário saber muito para apostar nisso.
Confirmou-se a previsão. Dilma dará uma bela surra de votos em Serra, tanto em Belo Horizonte como no interior. Mas, nas eleições para o Palácio da Liberdade e o Senado, as coisas têm outra cara.
Os números mais recentes do DataFolha são os seguintes: para o governo do Estado, Antonio Anastasia, do PSDB, tem 43% das intenções de voto (52% dos válidos), e Hélio Costa (PMDB) tem 36% (43% dos válidos). Na simulação de segundo turno, Anastasia lidera por 48% a 40%. O candidato a vice-governador na chapa de Hélio Costa é o popular ex-prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias, do PT. Há dois quadros possíveis hoje: um segundo turno entre Costa e Anastasia ou vitória de Anastasia já de cara no domingo.
Para o Senado, a única coisa realmente definida é que Aécio Neves (PSDB) leva uma das vagas. Ele tem, no momento, 67% das intenções de voto segundo o Datafolha. Itamar Franco (PPS) teria 43%. Fernando Pimentel (PT) subiu dois pontos e tem 34%. O suplente do provecto Itamar Franco é Zezé Perrella, dirigente do Cruzeiro indiciado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Até os pombos da Praça da Liberdade sabem que o PT está pagando o preço pela desastrada manobra de Pimentel em 2008. O acordo, costurado com Aécio Neves e enfiado goela abaixo do PT, entregou a Márcio Lacerda (PSB), ligado ao aecismo (o PSB em Minas, assim como o PV, são legendas de aluguel de Aécio), uma prefeitura de esquerda que acumulava 16 anos de sucessos e uma taxa de aprovação em níveis lulísticos, de mais de 80%, numa cidade em que, ao contrário de São Paulo e Porto Alegre, o antipetismo praticamente inexiste.
Por outro lado, Pimentel tem uma folha de serviços prestados e foi um bom prefeito. Cumpriu um papel importante na consolidação da equipe de Dilma. Considerando a onda vermelha que vem por aí no domingo, eu não me surpreenderia se ele ainda reunisse forças para uma virada. É difícil, mas não está fora da ordem do possível. Nos últimos dias, a campanha de Pimentel tem intensificado as menções ao suplente de Itamar, com um recado bem simples: votar em Itamar é fazer de Zezé Perrella um Senador da República.
O companheiro de chapa de Pimentel é Zito Vieira, do PcdoB, que faz uma campanha de poucos recursos. Ele não deve segurar muitos votos na chapa, o que é o grande problema para Pimentel, já que além de convencer o eleitor a votar nele, Pimentel deve convencê-lo a não entregar o segundo voto a Itamar.
Como PT e PMDB estão coligados nas proporcionais, outro dado importante a se observar na apuração de domingo será o número de deputados de cada legenda eleitos para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa. Minas será vermelha na eleição presidencial, mas o resto da cédula sofrerá as consequências da hecatombe de 2008—o que é uma pena, pois o PT vinha num crescendo constante no estado há duas décadas. A estas alturas, é impossível prever qual será o preço e até quando ele terá que ser pago.
PS: Saiu na Revista Fórum mais um texto meu: O que é um terrorista? Fiquem à vontade para comentá-lo aqui também.
PS 2: Sucedem-se as matérias elogiosas a Dilma Rousseff na imprensa internacional. Ontem foi a vez da Nature (uma das principais revistas científicas do mundo), da prestigiosa Foreign Policy e, de novo, do Guardian.
PS 3: Inacreditavelmente, depois que sete ministros do STF já haviam se pronunciado contra a exigência de dois documentos na eleição de domingo, Gilmar Mendes pediu vistas, mesmo com a votação já definida. Ricardo Noblat afirma que foi depois de um telefonema de José Serra.
PS 4: Aconteceu, no domingo, uma eleição na Venezuela. Havia 165 cadeiras em jogo. O PSUV, de Hugo Chávez, conseguiu noventa e oito dessas 165 cadeiras. Mas, para o Estadão, o que ocorreu foi "A Derrota de Chávez". Depois não entendem por que estão morrendo.
***** Saiu, muito oportunamente, carta de José Eduardo Dutra, presidente do PT, conclamando a militância para ir às ruas e garantir a vitória de Dilma Rousseff no domingo. Mais que nas duas eleições anteriores (Lula I e Lula II), há uma sensação geral de renascimento da militância do PT, depois de um período em que o partido fez a transição para o modelo da militância remunerada. Depois de ir ao comício final de Lula, Dilma e Mercadante em São Paulo, Azenha confirmou essa percepção, que eu já vinha tendo também.
****** Por falar em São Paulo, tudo indica que a eleição para governador se encaminha para um segundo turno, no qual Alckmin teria que encarar 27 dias de Mercadante, Lula, Dilma (provavelmente eleita) e toda a troupe de blogs sujos na ofensiva. O tucanato tem muito medo de perder São Paulo, pelos motivos que todos conhecemos. Para acompanhar notícias de São Paulo, recomendo o blog do Rovai, que tem intensificado as postagens nesta reta final.
******* Ainda sobre São Paulo, destaco três textos acerca da difícil escolha que encaram as mulheres de esquerda na eleição ao Senado: Camila Pavanelli, Kellen Gutierres e, discordando das duas, Mary W. Não vou entrar na conversa, que está muito boa, mas quero fazer um comentário ao texto da Mary: a estas alturas do campeonato, não dá pra dizer que um Senador não "faz diferença" na base da Dilma. Um Senador pode fazer a diferença entre poder ou não poder aprovar uma emenda constitucional, por exemplo (para o que é necessária uma maioria de 3/5, que a base de Dilma está em condições de conseguir nesta eleição). No Senado, um votinho é muita coisa.
******* O Toledo, do Estadão (que, aliás, tem um bom blog, bem melhor que os da Folha), publicou um mapa que representa as intenções de voto em Dilma, Serra e Marina em todo o país, dividido em microregiões. Os números são do Ibope. Dilma lidera em 82% das 255 áreas. No território vermelho, Dilma lidera com mais de 5 pontos sobre Serra. No território azul, ocorre o contrário. Nas áreas cinzas, há empate técnico. Veja o mapa:
******* A expectativa com a eleição é tanta que passei uns 40 minutos ontem no site do Weather.com, revisando a previsão do tempo para o domingo nas principais cidades brasileiras. Não há previsão de chuva para nenhuma capital nordestina, o que é excelente notícia para nós. Parece que haverá chuvas esparsas em Sampa e pancadas ocasionais tanto no Rio de Janeiro como em Belo Horizonte.
******* Pesquisas: de acordo com fontes deste blog, o Ibope que sai hoje não confirmará os números do Datafolha de terça-feira. Quando você estiver lendo isto, provavelmente já saberá se eu acertei. No instituto do Sr. Frias, os números são: Dilma com 46%; Serra, 28%, Marina, 14% e outros candidatos 1% (isso dá a Dilma 51% dos votos válidos, ou seja, perigo real de segundo turno). No Vox Populi, os números são outros: Dilma 49%, Serra 25% e Marina 12% (o que dá 57% dos válidos para Dilma, ou seja, vitória no primeiro turno com folga). No Tracking interno do PT (via Rovai), os números estão bem mais próximos ao Vox: Dilma 51%, Serra 23% e Marina 11% (de novo, vitória no primeiro turno com alguma gordura). Não é possível que tanto Datafolha como Vox estejam certos, pois a diferença entre eles está bem além da margem de erro. O tira-teima é domingo. O Biscoito, assim como o Rovai e Celso de Barros, continua apostando: vamos levar no domingo mesmo. Quanto ao Datafolha, salvo engano de Cecília Figueiredo, ele publicou pesquisa em que a soma total dos votos é 109%.
******* Na imprensa internacional, continua o destaque a Dilma. A maioria já deve ter visto, mas ainda não demos o link aqui. O Independent fez bela matéria, que agora está disponível em português, graças ao trabalho generoso de Katarina Peixoto. Mais no estilo Veja, a Newsweek também publicou artigo. Na Argentina, o Página 12, sempre atento a questões relacionadas a militares, fez matéria sobre a reunião no Clube Militar.
******** No Sul do Brasil: Beto Richa, candidato tucano ao governo do Paraná, conseguiu impugnar mais duas pesquisas. Eu não sei a quantas anda o Judiciário paranaense, mas ele deve explicações: o Paraná é o único estado brasileiro sem números atualizados nas corridas para governador. Não assisti aos debates desta terça-feira, mas parece que no Rio Grande do Sul, Yeda Crusius levou um belo sacode-Iaiá. Ainda no Rio Grande, o RS Urgente publicou post demonstrando mais uma falsificação de afirmativas de um petista.
Atualização para os pobres mortais sem Twitter: Já saiu a pesquisa do Ibope. Como previsto, os números são bem diferentes do Datafolha: Dilma 50%, Serra 27%, Marina 13%. Dilma tem 55% dos válidos e venceria no primeiro turno com gordura. Ou o Datafolha cala a boca de todo mundo no domingo, ou deve longas, muitas e detalhadas explicações à sociedade brasileira.
O debate de ontem à noite, na TV Record, mostrou quão equivocados estavam os estrategistas tucanos que imaginavam que José Serra daria surras de argumentação em Dilma Rousseff nos confrontos ao vivo. Bastou aparecer uma equipe de jornalistas que não faz entrevista combinada para que Serra perdesse a compostura e, mais uma vez, saísse reclamando das perguntas que lhe foram feitas. Creio que é possível discutir se a maior vencedora do debate foi Dilma Rousseff ou Marina Silva. Mas acho que dificilmente um tucano acreditaria, de boa fé, que José Serra ganhou pontos ontem na TV Record. Também acredito que nenhum tucano de boa fé diria que a TV Record favoreceu Dilma. Ela também enfrentou perguntas questionadoras e duras. A diferença é que Serra também teve que enfrentá-las. Dilma está mais que acostumada a isso. Serra, não.
O debate da Record foi o mais importante até agora, por motivos óbvios. Ele teve lugar em rede nacional de TV, chegou a marcar 14 pontos de audiência (a média total do programa foi 9) e aconteceu uma semana antes da eleição. Na minha avaliação, Serra foi muito mal, Plínio fez um papel bisonho, Marina mostrou uma melhora considerável em relação aos debates anteriores (e pode ter ganhado pontos de quem já decidiu não votar em Dilma ou Serra) e a candidata do PT, encarando tarefa difícil, saiu-se muito bem. Como o empate lhe favorece e ela claramente prevaleceu nos dois embates diretos com a outra figura de destaque da noite, Marina, o campo dilmista comemorou vitória, a meu modo de ver, com razão.
O debate teve três grandes momentos de sacode-Iaiá: um de Marina em Plínio, outro de Ana Paula Padrão em Serra, o terceiro de Dilma em Marina. Estes eu achei que foram os três sacode-Iaiá incontestáveis, de claros nocautes sem apelação. No primeiro, Marina lembrou a Plínio o seu abuso dos rótulos. Falou firme e com altivez acerca do respeito ao outro. O recado foi dado de maneira claríssima e, pela própria reação da plateia, ficou nítido o nocaute. No segundo, Ana Paula Padrão lembrou a Serra o uso da imagem de Lula e a desesperada insistência do candidato do PSDB em esconder Fernando Henrique. Para piorar a situação de Serra, Ana Paula mencionou a recente declaração de FHC, feita no exterior, de que a vitória de Dilma já estaria garantida. A resposta do candidato misturou ataques à jornalista, coisa que é bem do seu feitio (já terá pedido a cabeça dela à Record?), com algumas frases que devem ter feito a equipe de Dilma vibrar: acusações ao PT de ser “ingrato” com Fernando Henrique. A acusação pode até ser verdadeira. É fato que existem setores do petismo que se recusam a dar a FHC o seu quinhão de méritos na estabilização da economia. Mas a veracidade da acusação não faz com que ela deixe de ser, eleitoralmente, um tiro no pé. Do ponto de vista do PT, quanto mais o nome de FHC for mencionado, melhor. Sim, é injusto. Quem disse que política tem a ver com justiça?
O terceiro sacode-Iaiá foi categórico e ocorreu no único momento em que Marina decidiu repetir a cantilena da qual havia abusado no debate anterior: a retórica udenista sobre a corrupção. Ao interpelar Dilma a respeito do caso de nepotismo na Casa Civil, ouviu a resposta de que a investigação estava sendo feita e que tanto em 2005, quando Dilma assumiu o cargo, como agora, à raiz do caso Erenice, ela tomara medidas para coibir os malfeitos. Marina replicou que era inaceitável que isso se repetisse e que pelo jeito as medidas não estavam surtindo efeito. Com certeza, não esperava a tréplica que veio: Dilma lembrou que tomou as mesmas medidas da própria Marina quando vieram à tona casos de corrupção no Ministério do Meio Ambiente comandado por ela. Lembrou-lhe, com elegância, que ninguém tem monopólio sobre a moral. De forma implícita, nocauteou o argumento tantas vezes usado por Marina nesta campanha, o de que ela supostamente seria mais limpa ou ética que o governo do PT – do qual ela fez parte durante sete anos e que só resolveu abandonar às vésperas da eleição.
Os camaradas do PSOL sabem do meu respeito por e de minha interlocução com o partido. Inclusive, a partir de algumas conversas com psolistas no Twitter, quero oferecer o espaço do Biscoito, a partir de novembro, para que façamos uma ampla discussão sobre os rumos do partido. Poderíamos armá-la a partir de um texto meu e dois ou três textos de militantes do partido que queiram contribuir, publicando todos os textos num mesmo post e, a partir daí, usando a caixa de comentários para a conversa. Esta é uma promessa do blog, caso interesse, é evidente.
No entanto, o meu respeito não me impede de dizer que o papel de Plínio ontem foi grotesco, bisonho. Esqueceu-se de que ele não saiu do PT quando estouraram casos de corrupção, mas quando perdeu a eleição para presidente do partido. Mostrou estar desinformado sobre o ProUni. Chamou Dilma de Marina. Teve a oportunidade de uma tréplica e não a usou, pois não sabia o que estava acontecendo. Falou da União Soviética como se ela existisse. Fez uma infantil correlação entre o aumento das investigações sobre a corrupção e um suposto aumento da própria, como se o Brasil nunca tivesse tido um Engavetador-Geral da Repúbilca. Repetiu a cantilena sobre salário mínimo de R$ 2.000, 10% do PIB para a Educação e uma série de outras promessas pouco factíveis, respondendo, quando perguntado sobre de onde sairia o dinheiro, com o chavão da ruptura com os banqueiros—sem nos dizer o que faria o Brasil em estado de isolamento ante o sistema financeiro internacional.
Vejamos como se comportam os jornalistas da TV Globo no próximo debate, o último. Para os que gostam de contrapor, às críticas à parcialidade da Globo, alusões a uma suposta parcialidade da Record para o lado oposto, fica o lembrete: ontem, todo mundo encarou perguntas duras dos jornalistas. Mas só Serra saiu reclamando delas.
A IstoÉ publicou este mapa das eleições nos estados, que dá uma boa ideia da dimensão da vitória lulista que se aproxima. Alguns dos números indicados na matéria já estão desatualizados e, na maioria dos casos, as mudanças recentes favorecem as forças governistas.
Entre as mudanças importantes dos últimos dias, estão:
1) Paraná: o tucano Beto Richa liderava mas, impulsionado pela onda vermelha nacional e pelas fortes candidaturas ao Senado (Gleisi e Requião, que devem se eleger), Osmar Dias, candidato único da base lulista, já virou. Beto Richa impugnou a divulgação de três pesquisas na Justiça, o que certamente é indício que ele não quer ver os números atuais divulgados. A virada lulista no Paraná já foi noticiada, inclusive, pela própria IstoÉ.
2) São Paulo: mesmo com a grande torcida da mídia por uma vitória de Alckmin no primeiro turno, deve se confirmar a previsão de Renato Rovai. A parada vai para o segundo turno. A última pesquisa Vox Populi mostra uma queda de 32 pontos para 12 na diferença entre Alckmin e Mercadante. Os números atuais do Vox são: Alckmin: 40%, Mercadante 28% Russomano 7%. Ainda há 13% indecisos. Caso se confirme o segundo turno, Alckmin deve ver-se bem acuado, tendo que enfrentar 27 dias de campanha contra Mercadante, Dilma provavelmente eleita, Lula e os blogs sujos centrando todo o fogo em São Paulo.
3) Pará: Ali o tucano Simão Jatene ainda lidera, mas a situação da petista Ana Júlia já esteve bem pior. A curva dela é ascendente e tudo indica que, no segundo turno, Lula e cia. devem ser capazes de costurar o apoio do candidato peemedebista, que hoje anda por volta dos 7%. Nada definido ali, pois.
4) Nordeste: Em todo o Nordeste se confirma a vitória do lulismo, com a exceção do Rio Grande do Norte, onde a pefelê Rosalba Ciarlini pode se eleger no primeiro turno. Nos outros estados, as vitórias lulistas estão praticamente garantidas, algumas delas por margens acachapantes, como a homérica humilhação que Eduardo Campos (PSB, neto de Arraes) imporá ao peemedebista "autêntico" e antilulista Jarbas Vasconcellos em Pernambuco.
5) Rio de Janeiro: O moralismo de Gabeira sofrerá uma derrota inesquecível. Sabe-se lá o que será dele depois destas eleições.
Por outro lado, devem se confirmar mesmo as vitórias da direita em Santa Catarina, em Roraima e no Mato Grosso do Sul. Minas Gerais ainda é uma incógnita.
Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 3, final)
(se você caiu aqui do nada, leia primeiro isto, depois isto e aí volte).
--Is that a soccer jersey? era uma pergunta simples de se responder, mas o garoto não resistiu: começou a tentar recitar as glórias do Tricolor do Morumbi que, sabemos, são muitas. Ele não havia chegado à terceira palavra quando o pai e a mãe interromperam o que faziam para acompanhar a conversa do filho com o “americano”, com aquela cara radiante e subserviente só encontrada na República Morumbi-Leblon e nos ladinos da América Central. Ele não havia chegado à quinta palavra quando eu subitamente lhe dei as costas, como se ele não existisse, e passei a conversar de novo com L.T., que a estas alturas já havia sacado qual era a brincadeira. Enquanto o garoto ainda balbuciava e os pais nos olhavam, à espera de atenção, eu disse a L.T.:
-- Die Schuhe. Sag etwas über die Schuhe.
Meu alemão falado é horroroso, péssimo, capenga mesmo. Mas L.T. é generoso comigo sempre que—em geral animado por umas biritas—resolvo praticar um pouco com ele, que tem proficiência nativa. A mudança de língua ali tinha a função de garantir que os membros do Brasil dos 4% não entendessem que a senha agora era uma gozação aos mocassins. Emendando de bate-pronto, com os burgueses paulistanos ainda sem entender por que eu havia feito uma pergunta e lhes dado as costas, L.T. dirige um olhar ostensivo aos mocassins do sujeito, escandalosamente aponta com o dedo, vira em minha direção e diz bem alto:
-- Who wears mocassins with golden chains around them? For God's sake, where did those come from?
Eu nem precisei fazer força. O entusiasmo de L.T. era tal, sua gargalhada-Sílvio Santos tão contagiante, que eu também terminei rindo com vontade. De vez em quando, dirigíamos o olhar a eles, para que ficasse bem claro que era deles que estávamos rindo. Agora sim. Não sei se compreenderam a frase, mas com certeza começaram a entender que estávamos tirando um sarro.
Nessas horas você vê a natureza essencialmente colonizada da República Morumbi-Leblon. Se estivéssemos fazendo a mesma coisa na condição de brasileiros, a pancadaria já teria comido solta no Aeroporto de Miami. Se estivesse acontecendo em português essa brincadeira idiota (sim, sim, reconheço, era uma brincadeira babaca, grosseira e esnobe a que fazíamos, mas lembrem-se, aqueles sujeitos passaram um bom tempo ali humilhando uma família negra), a reação com certeza teria sido outra. Como éramos “gringos”, o olhar deles era simplesmente aquele sorriso meio sem graça, impotente.
A brincadeira ia encaminhando-se ao seu final, mas ainda faltava o golpe de misericórdia. Dirigindo-me ao pai da família, soltei a pergunta:
-- Where are you all from?
Essa ele me respondeu de bate-pronto:
-- Brazil.
Era a senha de que eu precisava:
-- Oh, Brazil! Do you know Sancho Santos, by any chance?
Aqui cabe uma explicação. “Sancho Santos” é uma criação da banda de rock da Carolina do Norte, Southern Culture on the Skids. A canção, se não me falha a memória, intitula-se “Viva de los Santos”. A gozação feita pela banda em seus shows alude à total ignorância do estadunidense médio acerca de tudo o que está ao sul do Rio Bravo. Sempre que se encontra com alguém da América Latina, o personagem pergunta: como vai o Sancho Santos? Em outras palavras, a banda sugere que para o gringo médio, México ou Uruguai, Honduras ou Brasil, é tudo Sancho Santos.
Evidentemente, não há nenhum Sancho Santos para se conhecer no Brasil, mas o sensacional é que sempre que você encontra a burguesia colonizada brasileira e pergunta, em inglês, pelo Sancho Santos, eles dizem que ele vai muito bem. Não falha nunca.
-- How's Sancho Santos doing?
-- He is fine, he is fine.
L.T. já estava tendo convulsões de gargalhadas. Enquanto ele ria e preparava a facada final, eu dava as costas à família racista e me dirigia agora aos meus conterrâneos, falando com eles em tom de voz bem baixo, inaudível para a turma que estava do outro lado:
-- Boa noite, pessoal, vocês são de Minas, não são?
-- Somos, como você sabe?
-- Eu reconheci o sotaque. É parecido com o meu, sacumé. São de Belo Horizonte?
-- Sim, de BH.
-- Eu sou da Cidade Nova, e vocês?
--- Pertinho! Do Caetano Furquim.
Sim, leitores, no Brasil de Lula existem famílias do Caetano Furquim viajando ao exterior.
-- A gente viu o que estava acontecendo aqui. Queria ser solidário. Ainda faltam duas horas e meia para o voo. Eu conheço um bar/restaurante cubano aqui ao lado, muito bom. Eu e meu amigo queríamos convidá-los para tomar uma cerveja, dar um refrigerante aos meninos. Vamos?
-- A gente tem medo de perder o voo, somos novatos.
-- Deixem com a gente, não tem perigo. Tem muito tempo. É bobagem ficar em pé naquela fila que fazem, não faz diferença.
Do lado de lá, eu ouvia um L.T. ainda gargalhante dizer:
-- That's funny. I always thought that Sancho Santos didn't exist. But maybe he does.
[engraçado, sempre pensei que o Sancho Santos não existisse. Mas talvez ele exista].
Falando agora bem alto, em português, para que a família de racistas me ouvisse, eu disse:
-- L.T., vamos ali no La Carreta tomar uma cerveja com meus conterrâneos.
L.T., cujo português, eu já disse aqui, é impecável, respondeu:
-- Vamos sim. Isso aqui já deu.
Os racistas nos olharam estupefatos. O intercâmbio em português tinha, evidentemente, o propósito de transmitir aos racistas a única mensagem que importava transmitir ali: vocês se comportam como verdugos ante seus compatriotas negros e como cachorrinhos amestrados com qualquer gringo que apareça tirando sarro de vocês. Se havia melhor maneira de transmitir essa mensagem, ela não estava disponível pra mim naquele momento. Fiz o que deu, com os recursos que tinha.
Na saída, dirigi um olhar cheio de hostilidade e desprezo aos racistas, virei as costas, peguei na mão do garoto de 12 ou 13 anos da família belo-horizontina negromestiça e nos dirigimos todos ao La Carreta, que fica a menos de 50 metros do saguão onde estávamos. Passamos uma hora agradabilíssima, em que conversamos, inclusive, sobre as semelhanças entre as culinárias mineira e cubana.
Aos racistas mais eu não disse e mais não me foi perguntado.
Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 2)
Em primeiro lugar, impõe-se um comentário antes de continuar a história (se você caiu aqui do nada, leia isto primeiro). Eu não esperava todo esse surto de interesse que se gerou na caixa de comentários. Honestamente falando, o post só ficou incompleto porque já era bem tarde e eu não tinha condições físicas de escrever mais, o que eu espero que não aconteça hoje. A história, na verdade, não é tão interessante assim, portanto rebaixem as expectativas.
Em segundo lugar, à guisa de explicação aos leitores mais novos que chegam do Twitter e não conhecem a trajetória do blog, recorro ao testemunho dos leitores históricos para que fique claro que não sou do tipo de pessoa que sai dando carteiradas. Há 1.200 posts e mais de 38.000 comentários aqui, e em nenhum deles você encontrará o anfitrião dizendo tenho tal e qual título ou ganhei tal e qual prêmio. Já entrei de sola em muitas discussões, mas não com esse tipo de argumento.
Faço a ressalva porque dar uma carteirada foi exatamente o que fiz na noite do dia 22 de setembro em Miami, com a família racista típica do Brasil dos 4%. Digo isso sem orgulho nem vergonha, foi simplesmente o que aconteceu. Foi só a forma que encontrei para revidar aquela agressão que a família negromestiça vinha sofrendo ali. Tratou-se, no entanto, de uma carteirada de um tipo muito particular. Continuemos a história, pois.
Havíamos parado no momento em que eu e L.T. nos sentamos no chão, de frente para as duas famílias que ocupavam, cada uma, uns seis assentos daquelas insuportáveis salas de embarque do Aeroporto de Miami. Como dito, havíamos chegado conversando em espanhol mas, exagerando um pouco no tom de voz, eu disse a ele:
Now we're gonna have some fun. When I switch languages, you do the same, right away. [tradução livre: vamos brincar de Neymar e Ganso com esses bacacas. Mude de língua na hora em que eu mudar]
Meu amigo belga, cujo Q.I. está bem mais próximo de Goethe que de Eliane Cantanhêde, sacou imediatamente que alguma gozação viria. Pela altura da minha voz naquela frase, ele deve ter percebido que a gozação jogaria com a minha completa certeza de que eles não entenderiam, ou entenderiam precariamente, o que nós disséssemos em inglês. Foi dito e feito.
Cabe aqui uma explicação para quem não tem tantas horas de aeroporto como eu. Nada faz os racistas da República Morumbi-Leblon se transformarem de carrascos sádicos em cordeirinhos dóceis e obedientes como a chegada de um estadunidense. Qualquer um. Eles tiram a pele de lobo e adotam aquela constrangedora subserviência colonizada, estilo Celso Lafer. Como L.T. fala com perfeito sotaque do meio-oeste e o inglês é praticamente uma língua de infância para mim, o sucesso da impostura estava garantido. A ignorância da República Morumbi-Leblon é algo com o qual você sempre pode contar.
O leitor Ticão, num comentário ao post anterior, adivinhou exatamente a indumentária do chefe da família racista: jeans Yves Saint Laurent e um par de mocassins cheios de penduricalhos dourados. A senhora fazia o gênero perua, com um collant de oncinha e uma quantidade enorme de quinquilharias nos braços. O filho, de uns 20 e poucos anos, trazia seu iPod e vestia uma camisa de mangas compridas—no calor de Miami em setembro!--do São Paulo Futebol Clube. Essa camisa do Tricolor do Morumbi será importante para a continuação da história. Nos outros três assentos ocupados pela família paulistana, uma quantidade imensa de badulaques eletrônicos se amontoava, desde telas planas de computador até, incrivelmente, uma tostadeira.
A primeira frase havia chamado a atenção da família racista, mas não o suficiente. Ainda não prestavam atenção em nós. Era o que eu queria – só lançar uma primeira isca-- para ter alguns segundos e dirigir, sem que eles me vissem, olhares de cumplicidade, sorrisos e sinais de positivo com o polegar para a outra família, que a estas alturas tampouco sabia que eu era brasileiro. Depois de estabelecido esse primeiro contato de cumplicidade, fiz a eles o tradicional gesto com a palma da mão direita estendida na vertical, como quem diz deixa com a gente.
Nesse momento, no entanto, L.T. quase estragou meu plano. Ao bater os olhos na gigantesca tostadeira, ele não se conteve e começou a rir. L.T. tem uma gargalhada bem parecida com a de Sílvio Santos, então vocês imaginem. Já havíamos chamado a atenção de todo mundo. Era necessário agir rápido. Apontando para a camisa do rapaz, perguntei:
Is that a soccer jersey?
Enquanto o rapaz, em inglês balbuceante, tentava me responder, eu ia arquitetando em minha cabeça a vingança, que será narrada em detalhes na terceira e última parte desta saga.
Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 1)
Um dia terei que reunir meus causos de aeroporto. Eles parecem acontecer meio aleatoriamente, mas não há como negar que eu os procuro. Se aeroportos costumam ser lugares onde não ocorre nada de importante e tudo se arrasta na brutalidade do eternamente igual, os roces ocasionais entre pessoas, línguas, religiões e nacionalidades diferentes podem produzir a faísca, a centelha de um acontecimento. Ao longo dos anos, desenvolvi um certo faro para esses estranhos lugares e aprendi a reconhecer quando se aproxima uma história.
O Brasil dos 4%, da ressentida fração da classe média que lê a Veja, do Instituto Millenium, dos três jornalões, de Ivete Sangalo, Hebe Camargo, Ali Kamel e Regina Duarte, o Brasil, enfim, da rancorosa ignorância monoglota dos bairros chiques de São Paulo encontrou-se, pessoalmente, numa sensacional disputa de bola ombro-a-ombro, com o Brasil da nova classe C do Lula, o Brasil de pele negromestiça com algum dinheirinho sobrando no bolso, o Brasil dos nordestinos que se reúnem com parentes há muito não vistos no Sul Maravilha, alguns deles já com um carrinho, outros com a casa própria, outros fazendo sua primeira viagem ao exterior, todos eles, no entanto, com sua marca registrada, que é a nova dignidade estampada no rosto.
Essa disputa de bola aconteceu na noite do dia 22 de setembro, no Aeroporto Internacional de Miami. Meninos, eu vi.
Zanzando pelos aeroportos do mundo e, em especial, do Brasil nos últimos anos, aprendi a reconhecer um novo fenômeno: o olhar de ódio, desprezo e ressentimento que os membros dos 4% dirigem ao Brasil da Nova Classe C que, segundo eles, não deveria estar lá. É um olhar carregado de história, do sinhô que se sente desrespeitado pelo batuque do escravo à madame que se sente ultrajada quando a empregada doméstica reclama seus direitos trabalhistas. Se você quer entender a onda de ódio que caracteriza a campanha da oposição e da mídia nas últimas semanas, basta mapear a frequência com que esses encontrões têm acontecido no Brasil contemporâneo. Afinal, a Nova Classe C começou ocupar estacionamentos e saguões de aeroportos, lugares que os 4% acreditavam ser cativos seus, propriedade sua exclusiva.
O voo 927 da American Airlines, que sai de Miami rumo a Santiago, segue viagem rumo a Guarulhos, e isso explica a imensa maioria de brasileiros que se amontoava na sala de embarque na noite de 22 de setembro. Lado a lado, vi duas famílias: uma branca, dirigindo à vizinha, negromestiça, o olhar de ódio que aprendi a reconhecer. Eu havia topado com meu amigo L.T., belga de origem flamenga que, como sói ser o caso com seus compatriotas, tem uma grande facilidade para as línguas. Este dado é importante para entender o que se segue.
Decidimos nos sentar no chão, de frente para as duas famílias, e foi quando eu percebi que a hostilidade dirigida pela família branca à negromestiça não se limitava ao olhar. Acompanhavam-no com comentários do tipo tem gente que não se enxerga, feitos na cara da outra família, que tentava continuar seu próprio bate-papo enquanto circulavam entre si sua caixa de cookies adquirida, suspeitava eu (e depois comprovei que acertara), na visita a algum parente expatriado em busca de melhores oportunidades durante a era FHC. Aquilo foi me enchendo de raiva. Não demoro muito para identificar sotaques, e depois de 2 ou 3 minutos eu já havia detectado que a família branca era paulistana e a negromestiça, mineira.
L.T. e eu havíamos chegado à sala de embarque conversando em espanhol, que é uma das quatro línguas que usamos entre nós, segundo a conveniência e o humor (o português de L.T. é perfeito, com sotaque carioca e tudo). Vendo aquela agressão, e sem ânimo para um bate-boca que, com certeza, teria sido desagradável, bolei uma brincadeirinha. Poderia ter dado incrivelmente errado, mas deu certo.
A brincadeirinha com a qual L.T. e eu nos unimos à família da Nova Classe C, que terminou lavando a alma ante as agressões de membros dos 4%, na noite do dia 22 de setembro de 2010, no Aeroporto Internacional de Miami, será o tema do próximo post.
Saio daqui a pouco rumo a Santiago, primeira parada no caminho que me leva ao encontro de uma urna da 27ª zona eleitoral de Belo Horizonte no dia 03, para cravar o que será seguramente o voto mais emocionante desta já longa vida de votos. Acompanhado dos meus dois filhos, deixo lá o meu grão de areia que se junta à avalanche de dezenas de milhões que vão consagrar o governo Lula e fazer de Dilma a primeira Presidenta do Brasil. Se você não vê que está se aproximando um momento histórico, esfregue os olhos e pingue o colírio. Daqui a 100 anos, esta primeira década do século XXI será consensualmente vista por historiadores como mui singular, ah, isso vai. O povão já viu.
Devo estar bem instalado e equipado de excelente conexão de internet, como sempre é o caso quando desfruto da incomparável hospitalidade chilena, de forma que a blogagem e a tuitagem não devem sofrer interrupções. Por ora, deixo um breve mapinha de blogolândia para as eleições.
O Biscoito e o Blog do Alê estão em permanente contato no Twitter, trocando pitacos. O Alê sabe dos números e é a minha grande recomendação para esta temporada eleitoral. Trabalharemos em parceria. Para ler o que publicam as quatro famiglias, cancele logo sua assinatura (paga para ter email UOL na era do Gmail por que mesmo, mô fio?) e acesse o Clipping do Planejamento, o Conteúdo Livre ou o ArquivoEtc. O blog do Favre também faz bons clippings. Fortaleça as revistas realmente incômodas aos poderosos e os excelentes blogs e sites jornalísticos que oferecem o indispensável contraponto.
Sob a tag Eleições, o Último Segundo-iG e a Rede Brasil Atual têm publicado boas coisas. Há alguns sites (genuinamente) apartidários que valem a visita, como o Vote Brasil, com notícias e números, e o Eleitor 2010, com relatos sobre irregularidades. Vale a conferida também o blog de Jairo Nicolau. Sempre bom é ter aí os links aos institutos com presença nacional: Ibope, DataFalha, Sensus, Vox Populi., cujo tracking diário é anunciado na aba direita deste gráfico.
A melhor blogosfera de esquerda do Brasil é a gaúcha. Para acompanhar o sacode-Iaiá que a Sra. Yeda Crusius vai levar nas urnas dia 03/10, se ligue no RS Urgente, de trabalho jornalístico, na lâmina afiada de Cristóvão Feil--que cunhou o impagável lulismo de resultados-- e no Jornalismo B. Também gaúcho, o Cloaca News deve se divertir neste período eleitoral, assim como o farão o Blogoleone e o Eugênio e a Cláudia, do Dialógico.
No campo da oposição, eu acompanho o Blog do Noblat, de assustadoramente despencada credibilidade, mas que vale a pena ser lido neste seu crepúsculo, pois ainda é acompanhado por políticos. Nessa turma, o blog mais legível sobre temas eleitorais é o do Fernando Rodrigues. Às vezes, ao corrigir redações de alunos da graduação e desesperar-me com os anacolutos, também leio um pouco sobre política no Blog do Josias, para me lembrar de que poder ser comparado favoravelmente com algo é um atributo universal, de todas as coisas. Os links deste parágrafo vão com a tag=nofollow, porque os três blogueiros em questão nunca linkam ninguém, a não ser o próprio aparato midiático que os hospeda.
Com certeza faltou gente boa. Entre os blogs com notícias regionais, há muitos que merecem a recomendação, como o pernambucano Acerto de Contas, mas me falta o tempo para uma lista completa agora.
Estes aí ficam como indicações e a caixa aceita outros. Volto em breve, já do Chile.
PS: Além de dica cartográfica aos leitores regulares do blog, talvez a lista acima sirva de algo, um dia, para o jornalista da Folha que disse ao sociólogo espanhol Manuel Castells que "quase não há discussão política na internet brasileira, só torcidas organizadas trocando provocações". Nunca é tarde para alfabetizar-se.
PS 2: A quem interessar possa, aí vai o pdf com o itinerário das minhas palestras na Pontifícia Universidade Católica de Santiago, a quem agradeço pelo convite.
Blog endossa Vanessa Grazziotin (PC do B, 656) para o Senado-AM
Esta é a eleição que o Biscoito acompanha com mais entusiasmo e interesse, portanto não poderia faltar o vídeo. Está aí meu endosso enfático a Vanessa Grazziotin (nº 656), do PC do B, candidata ao Senado pelo Amazonas:
Vanessa está numa briga de foice pela segunda vaga ao Senado com Artur Neto (a.k.a. Arthur Virgílio), do PSDB, aquele da "surra em Lula". As últimas pesquisas foram publicadas em A Crítica e no Portal Amazônia. Nesta última, há um errinho. Onde se diz que a sondagem foi realizada entre 11 e 15 de agosto, leia-se 11 e 15 de setembro. Essa informação está confirmada. Se você quiser o pdf completão, com a pesquisa da Perspectiva em detalhes, é só clicar aqui.
Como sempre, a caixa está aberta para que você endosse seu candidato (sem spam) e converse, se quiser, sobre as eleições ao Senado nos vários estados.
PS: A compilação de informações para este vídeo contou com o auxílio luxuoso de Fabiana Motroni.
O assunto que me ocupa hoje é complexo, multifacetado, cheio de nuances. O papel que a religião tem cumprido nesta campanha eleitoral ainda não foi bem analisado, provavelmente não o será por um bom tempo e o máximo que este post pretende é levantar algumas indagações iniciais. Como sabe quem lê o Biscoito, sou ateu convicto e participante de movimentos em defesa do estado laico. Não acredito que religiões devam ser “respeitadas”, se por “respeito” entende-se o comum neste caso, ou seja, a blindagem delas a questionamento, crítica, paródia ou ridicularização. Entendo-as como ideias sujeitas à apropriação, como quaisquer outras. Isso é diferente de não respeitar as pessoas religiosas como interlocutores adultos e maduros ou mesmo como eventuais parceiros de alianças políticas. Afinal de contas, o maior presidente da história do Brasil é um firme crente em Deus, e isso não o impediu de ir muito mais longe que o sociólogo ateu no reconhecimento dos direitos dos casais homossexuais.
Discordo frontalmente dos amigos ateus que repetem uma rasa cantilena sobre a suposta equivalência entre Record e Globo como dois males idênticos e intercambiáveis. Essa cantilena é fruto da confusão mais característica das análises de uma certa classe média (e rara, diga-se, entre o povo pobre): a confusão entre moral e política. Se querem me dizer que Record e Globo se equivalem moralmente, eu posso considerar a propositiva como digna de elucubração. Se o que estamos discutindo é política, como suponho ser o caso aqui, eu digo a esses amigos ateus: no em dia em que a TV Record ajudar a patrocinar um golpe de estado contra um governo legítimo, ocultar e beneficiar-se do assassinato de centenas e da tortura de milhares de brasileiros, editar criminosamente um debate presidencial para influir na eleição e esconder o maior acidente aéreo da história brasileira para exibir fotos ilegalmente obtidas das mãos de um delegado, de novo com puros objetivos eleitorais, aí eu discuto essa suposta equivalência no terreno da política. Se alguém vir o jornalismo da Record tratar o MST como um bando de criminosos, que é como ele é retratado na Globo, por favor me avise. O próprio MST já percebeu que ele é tratado de outra forma por lá.
Não há como se tratar do papel da religião na campanha eleitoral de 2010 sem falar da figura de Marina Silva.
Haverá post ainda nesta segunda-feira aqui no Biscoito, sobre um tema que é de interesse de muita gente. Por enquanto, para quem quiser passar o tempo, deixo o link ao meu FormSpring, onde respondi umas vinte perguntas na noite de domingo. Entre as recentemente respondidas, talvez esta, esta e esta sejam as de maior interesse.
Volto antes do pôr do sol com um texto semidecente, que será publicado também na Fórum. Fiquem à vontade para usar esta caixa para comentar ou descer o sarrafo em qualquer resposta minha no FormSpring, essa diabólica ferramenta onde as perguntas parecem se reproduzir como coelhos.
Aí vão alguns links para sua navegação dominical. A maioria eu já compartilhei no Twitter ou no Google Reader, mas eles aparecem aqui acompanhados de comentários que não cabem ou não são apropriados naquelas duas ferramentas.
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Aécio sairá do PSDB foi a bomba lançada esta semana por matéria de Maurício Dias para Carta Capital. Imediatamente depois, Aécio deu entrevista negando veracidade à matéria. Maurício Dias contra-atacou, reiterando o afirmado. Para quem conhece o modus operandi de Aécio, que é um pouco diferente do de Serra, tudo ali faz sentido: a matéria em si e o próprio desmentido. Para bom entendedor, meio recado basta, ainda mais tratando-se de velhos conhecidos como são Minas Gerais e São Paulo.
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Por pura coincidência, claro, imediatemente depois a vice-procuradora-geral eleitoral Sandra Cureau decidiu investigar a verba de publicidade governamental da revista, a partir da denúncia de “um cidadão”. O Biscoito Fino e a Massa não conseguiu averiguar se algum “cidadão” solicitou também investigação das verbas federais e estaduais recebidas por veículos como Globo, Veja, Folha e Estadão. Quem sabe alguma solicitação chegue às mãos da Dra. Cureau, já que ela afirma que é só fazer a denúncia que ela investiga. Mino Carta, evidentemente, reagiu.
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Imagine que um ministro do PT utilizasse uma empresa de arapongagem para espionar adversários e até aliados políticos. Agora imagine que, poucos anos depois, esse mesmo petista, na condição de governador de estado, contratasse essa mesma empresa, pela bagatela de R$ 2,5 milhões de reais, para cuidar da “segurança de comunicações” do estado. Não sei, mas algo me diz que se isso ocorresse, estaríamos vivendo em regime de permanente gritaria pré-apocalíptica. No entanto, a nossa imprensa parece não ter descoberto que José Serra fez exatamente isso. Talvez o silêncio sobre o assunto tenha algo a ver com os polpudos negócios do estado de São Paulo com essa mesma imprensa.
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Três boas opções de informação à cada vez mais ilegível mídia escrita brasileira são o (nosso velho conhecido) Terra Magazine, competentemente pilotado pelo Bob Fernandes, o Rede Brasil Atual e o Opera Mundi. Foi na Rede Brasil Atual que descobri uma estatística incrível: os paulistanos passam 30 dias por ano no trânsito. A única coisa que me surpreende no Opera Mundi é que eles, praticando excelente jornalismo, ainda estejam hospedados no UOL. Não tem o menor sentido.
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Homônimo do imortal personagem de Lima Barreto, Policarpo Júnior, da Revista Veja, é conhecido por razões, digamos, um pouco menos nobres que o nacionalismo que animava o herói de Lima. Segundo informações obtidas por um blog mineiro, o Sr. Policarpo parece estar agora às vésperas de entrar em apuros com a polícia. É o Professor BetoBlog do LEN quem conta o caso. (Obrigado pela correção, Lolita!)
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A partir do inacreditável episódio da prisão de um universitário carioca acusado de … fazer fotocópias!, Alexandre Nodari escreveu um belo texto sobre direitos autorais, que gerou também alguns comentários excelentes. A partir de pesquisa do Alexandre com fontes primárias, o texto desenterra um momento chave dessa história, uma Instructio do Papa Clemente VIII. Vale a leitura. Na sequência, Nodari emplacou outro texto fundamental sobre a complexa relação entre liberdade de expressão e censura.
Por falar no assunto, vale a pena assistir ao vídeo do passeio dado por Lula a alguns jornalistas no gabinete presidencial:
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A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manteve em seu portal, durante 72 horas, uma carta hidrófoba do Bispo Luiz Gonzaga Bergonzini que fazia explícita campanha contra Dilma Rousseff e acusava o PT de ser “contra os valores da família”. A carta foi retirada quando o dano já havia sido causado. Agora está lá uma nota genérica e neutra sobre as eleições. No entanto, a carta hidrófoba circula em vários fóruns da internet assinada por Dom Bergonzini, mas apresentada como se fosse a palavra da CNBB (como se vê aqui ou aqui). Digamos que, nos dias de hoje, se eu demorar 72 horas para corrigir algo no blog, é melhor deixar o erro lá. A correção não faz muita diferença se for tão lenta.
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Correntes de emails com insultos ou calúnias dirigidos a Dilma têm circulado também entre evangélicos. Em reação a elas e a outras manifestações anti-Dilma, um grupo de batistas lançou uma bela carta. Apesar do clima criado por setores do evangelismo, na verdade o apoio a Dilma entre a comunidade evangélica é bastante expressivo.
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Hoje, às 16 horas, na mítica esquina da Paulista com Augusta, em São Paulo, ocorre um beijaço em defesa do casamento igualitário. Paulistanos, larguem o computador um pouquinho e vão beijar. Os amigos e amigas gays e lésbicas, na luta pelos seus direitos, agradecem.
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A ciéncia politica tucana anda tão mal das pernas que ao ler um artigo como esse e depois outro como esse, você já não sabe qual é o texto que se quer sério e qual é a paródia. Às vezes fica realmente difícil saber.
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O Celso de Barros publicou outro excelente post, desta vez sobre Marina. Acho que o Celso escolhe o eixo exato para falar do assunto, ou seja, o difícil equilíbrio que se impõe, e que Marina já deve ter percebido: resvalando para a direita, perde votos do lado "de cá" e não ganha tantos assim do lado "de lá". É mais fácil entender esse dilema que encontrar uma alternativa a ele, depois de ter rompido com um projeto de centro-esquerda tão bem sucedido como o lulismo de resultados. Se Marina tivesse rompido pela esquerda, à la PSOL, claro, o problema estaria resolvido, mas aí ela teria que se equilibrar no mui exíguo espaço que restou à esquerda do lulismo. Não é o caso. Sem alternativas, ela tem feito eco, com frequência, ao discurso udenista, cuja manifestação mais óbvia aconteceu na sua fraquíssima participação no debate de domingo passado.
Acredito que o eixo escolhido pelo Celso é perfeito, mas discordo de algumas observações. Nada me leva a acreditar que Gabeira perdeu uma "eleição facílima" ao Senado, como afirma o Celso. É bastante difícil imaginar que o voto dilmista fluminense se transferiria de forma tranquila para Gabeira numa dobradinha com Lindberg. Em pequenos setores da Zona Sul, talvez. Mas entre o grosso do povão, ele perderia por margem bem superior àquela pela qual perdeu em 2008, na eleição para prefeito. Eu seria capaz de apostar minha coleção de camisas de futebol que Gabeira, caso candidato, não se elegeria Senador este ano. Isso se deve ao fato de que Gabeira claramente viaja na contramão do rumo que tomou o país. Noto no texto do Celso, e não só nesse (e, dada minha amizade virtual com ele, sei que tomará a ponderação com humor e numa boa), o que eu chamaria de síndrome-da-nostalgia-do-abraço-da-Lagoa, uma reiterada tentativa de reeditar a lendária aliança vermelho-verde de 1986. Estudando o assunto de longe e sem ser do Rio de Janeiro, me atrevo a dizer que esse é um sonho que representa uma parcela ínfima do povão fluminense que abraçou o lulismo. O mundo girou e Gabeira parece já ter feito suas escolhas.
Atualização dos números e análise de 10 eleições para o Senado
Em primeiro lugar, se você não leu ainda, leia o post inicial sobre as corridas ao Senado, e você entenderá melhor o quadro que apresento aqui. Consciente de que Dilma precisará de apoio parlamentar mais sólido que aquele do qual ele desfrutou, o Presidente Lula tem jogado tudo nas eleições legislativas, impondo, inclusive, algumas concessões amargas ao PT nas corridas para os governos estaduais (Minas Gerais talvez seja a mais amarga dessas pílulas). Os resultados já se fazem notar.
Os números que chegam são muito bons para nós; na verdade, bem melhores do que eu esperava. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar fez seus cálculos e, segundo eles, o PT deve se transformar no maior partido da Câmara e aumentar significativamente sua bancada de senadores. Desenha-se um quadro em que Dilma terá maioria tranquila para governar, talvez até mesmo a super-maioria de 3/5 necessária para a aprovação de emendas constitucionais. A esquerda aliada (PSB, PcdoB, PDT) deve crescer também. Tucanos e pefelês já sabem que vão encolher. A dúvida é o tamanho do encolhimento.
Tentei usar os números mais recentes possíveis. Aqui vão eles, com o nome do instituto sempre indicado.
São Paulo, DataFalha: Marta Suplicy (PT) 35%, Netinho de Paula (PcdoB) 34%, Romeu Tuma (PTB) 22%, Aloysio Nunes (PSDB) 22%, Ciro Moura (PTC) 11%, Moacyr Franco 7%. Confesso aqui duas coisas: em primeiro lugar, não imaginava a possibilidade de que a esquerda abiscoitasse as duas vagas no ninho do tucanato por excelência . Mas é exatamente este o quadro que se desenha. Claro que nada está definido e Renato Rovai, outro dia, alertou que a própria Marta não está garantida. Aloysio pode crescer, impulsionado pela liderança de Alckmin na corrida para o Palácio dos Bandeirantes. O mais provável, no entanto, é que a esquerda fique com as duas vagas. É um quadro histórico: os dois senadores eleitos por São Paulo seriam um negro comunista (o primeiro negro senador por São Paulo) e uma feminista que foi a primeira mulher a dissertar sobre o orgasmo na TV brasileira. A segunda confissão é que eu tinha tremenda resistência à candidatura do Netinho mas, recentemente, em conversa com Cynara Menezes, mudei de opinião. É evidente que o endosso enfático do blog vai para as duas candidaturas de esquerda.
Rio de Janeiro, Ibope: Lindberg Farias (PT) 36% Marcelo Crivella (PRB) 33% César Maia (DEM) 23% Jorge Picciani (PMDB) 20%. No DataFalha os números são outros: Crivella 40%, Lindberg 36%, César Maia 29%, Picciani 21%. Há alguns meses, parecia inconcebível que César Maia não conquistasse uma das duas vagas em disputa. Mas a onda vermelha levantou o garoto petista oriundo da UNE e ex-prefeito de Nova Iguaçu, e hoje ele é o grande favorito. A segunda vaga pode pender para qualquer um dos três que continuam no páreo. As alternativas para o eleitor de esquerda aqui são: dar seu voto ao (eleitoralmente) nanico Milton Temer, do PSOL, que certamente não será eleito, ou tapar o nariz e votar no Bispo Crivella, o que ajudaria a enterrar um cacique pefelê e daria à base de sustentação de Dilma mais um senador. Como ando pouquíssimo afeito a purismos, desejo um Congresso o mais tranquilo possível para Dilma e sei que esta é a grande chance de desferir o golpe decisivo nos pefelês, eu não teria dúvidas se morasse no Rio: iria de Lindberg e Crivella.
Minas Gerais, DataFalha: Aécio Neves (PSDB) 71%, Itamar Franco (PPS) 42% 40%, Fernando Pimentel (PT) 32%. Aqui sim, a oposição a Dilma tem um senador garantido, Aécio Neves. Ele certamente será a voz mais forte da oposição no Senado. Há um mês, a diferença entre Itamar e Pimentel era de 18 pontos: 47 x 29. Caiu para 10 8. Dilma terá grande vitória em Minas Gerais e é bem possível que ela leve Pimentel na cola. O mais importante para o eleitor de esquerda aqui é não acompanhar seu voto em Pimentel com um voto em Itamar (acredite, há eleitores progressistas em Minas pensando nisso, com base na vaga memória do nacionalismo de Itamar). Um voto em Itamar e Pimentel é, basicamente, um voto anulado, posto que Aécio está eleito. Além de Pimentel, o blog endossa Zito Vieira, do PcdoB, que não será eleito, mas poderá se cacifar para voos mais altos caso tenha uma votação minimamente expressiva. Há dois meses parecia impossível, mas hoje está claro que Pimentel tem chances de chegar. O comício de Lula, Dilma e Pimentel ontem em Juiz de Fora foi estratégico: trata-se da principal base de Itamar Franco. O dilmismo pode, então, sair do Triângulo das Bermudas com cinco das seis vagas em disputa para o Senado. O blog aposta que terá pelo menos quatro.
Rio Grande do Sul, DataFalha: Inacreditavelmente, Ana Amélia Lemos (PP) 47%, Germano Rigotto (PMDB) 41%, Paulo Paim (PT) 41%. Aqui não há muito o que analisar. A esquerda está numa briga de foice para ter uma cadeira no Senado. Tarso lidera a corrida ao Piratini e tem boas chances de liquidar a fatura no primeiro turno. O blog aposta que com o impulso dado por Tarso e com a força da militância petista gaúcha, Paim segura sua cadeira. É importante, claro, fazer campanha para que o eleitor de Paim não dê o seu segundo voto a Ana Amélia ou Rigotto. A candidata do PC do B, Abigail Pereira, tem 8% das intenções de voto no DataFalha. Luiz Carlos Lucas, do PSOL, tem 2%.
Bahia, DataFalha: César Borges (PR) 29% Lídice da Mata (PSB) 28% Walter Pinheiro (PT) 27%. Até há bem pouco tempo, César Borges, herdeiro do carlismo e único candidato da direita com chances, liderava tranquilo. Agora, embolou tudo e ele corre risco de ficar fora. O governador petista Jaques Wagner deve se reeleger no primeiro turno, o que aumenta as chances dos dois candidatos de esquerda. De toda a longa história de discrepâncias entre o voto de esquerda nas últimas pesquisas antes da eleição e o total de votos efetivamente encontrado nas urnas, a Bahia é o caso mais clássico: em 2006, as pesquisas indicavam vitória de Paulo Souto no primeiro turno. Foi Wagner quem acabou levando de primeira. A esquerda pode sair da Boa Terra com as duas vagas ao Senado. É a aposta do blog.
Pernambuco, DataFalha: Também ali o lulismo quer mostrar com quantos votos se elegem dois senadores. A vitória implicaria o enterro de um lendário cacique pefelê, ex-vice-presidente da República, inclusive. Os números do DataFalha são: Humberto Costa (PT) 47%, Marco Maciel (DEM) 34%, Armando Monteiro (PTB) 32%. Na corrida ao Palácio do Campo das Princesas, Eduardo Campos (PSB), lulista de quatro costados, está impondo a Jarbas Vasconcelos uma das derrotas mais humilhantes da história de Pernambuco, com diferença que pode chegar a 50 pontos. Tanto Lula como Eduardo Campos estão jogando pesado para alavancar Costa e Monteiro. Seria um amargo fim de linha para Marco Maciel: não conseguir renovar sua cadeira no Senado num ano em que há duas vagas em jogo. No estado de Pernambuco, a popularidade de Lula alcança soviéticos 96%.
Paraná, DataFalha: Também aqui o objetivo lulista é abiscoitar ambas cadeiras. A aliança pela qual eu desesperadamente clamava no meu Google Reader, ainda na época de hibernação do blog, acabou se formando. A chapa lulista é fortíssima e lidera com certa tranquilidade. Os números são: Gleisi Hoffman (PT) 44%, Roberto Requião (PMDB) 44%, Gustavo Fruet (PSDB) 21%, Ricardo Barros (PP) 18%. O candidato tucano ao Palácio das Araucárias, Beto Richa, tem liderado as pesquisas por margem cada vez menor. Pouco a pouco, vai se configurando a virada de Osmar Dias (PDT), candidato único do bloco lulista. Nem com o apoio de Richa o candidato tucano ao Senado, Fruet, conseguiu decolar. Fruet foi um dos parlamentares de mais visibilidade em toda a bancada tucana ao longo destes últimos anos. Era o líder nacional do bloco de oposição na Câmara quando anunciou sua candidatura ao Senado. Mesmo assim, patina há meses no patamar dos 20%. O lulismo deve levar as duas cadeiras.
Amazonas, Ibope: Sem dúvida é a eleição que o Biscoito acompanha com mais atenção e entusiasmo. Eduardo Braga (PMDB) está eleito para a primeira vaga. Tem, no momento, 80% das intenções de voto. Brigam pela segunda cadeira Arthur Virgílio, ou “Artur Neto” (PSDB), e Vanessa Grazziotin (PCdoB). Artur Neto liderou a briga por essa vaga até recentemente, mas a coisa virou na última pesquisa. O Ibope dá 39% para Vanessa e 34% para o valentão que queria dar uma surra em Lula. O Amazonas talvez seja o estado brasileiro onde os tucanos são mais detestados. Na eleição para presidente, a vitória de Dilma será esmagadora e Serra corre sério risco de ficar atrás de Marina. A campanha de Vanessa vem crescendo—ela foi recebida recentemente por multidão inédita em Manicoré, município que fica a mais de 300 km de Manaus—e os números do Ibope são anteriores à gravação do depoimento de Lula em apoio a Vanessa. O Biscoito promete festa com rojões, fogos, vídeos, pirotecnia e distribuição de brindes caso a valente militante comunista consiga derrubar o senador mais babaca da república.
Piauí, Ibope: o PT já garantiu uma das vagas. Wellington Dias tem 67% das intenções de voto e não deve ter problemas para se eleger. Também aqui a torcida do blog é forte, na corrente pra trás contra Heráclito Fortes (DEM), figura das mais repugnantes da nossa política. Os números do Ibope na disputa pela segunda vaga são: Mão Santa (PSC) 31,8%, Heráclito Fortes (DEM) 21,7%, Ciro Nogueira (PP) 15,4%, Antônio José Medeiros (PT) 8,8%. Mão Santa não é exatamente um modelo de compromisso com a res publica, mas mesmo que a segunda vaga fique com esse folclórico piauiense, haverá motivos para comemoração. Heráclito terá sido enviado à lata de lixo da história, relegado a uma provavelmente fracassada campanha à prefeitura de Teresina em 2012.
Acre, Ibope: A primeira vaga parece garantida para o PT. O ex-governador do Acre e ex-prefeito de Rio Branco, Jorge Viana, tem 63%. Seu irmão, Tião Viana, deve se eleger governador no primeiro turno. A briga pela segunda vaga mostra: Sérgio Petecão (PMN) 38%, Edvaldo Magalhães (PCdoB) 31%, João Correia (PMDB) 11%. O favorito Jorge Viana tem feito o possível para alavancar Edvaldo junto com ele, e a trajetória do comunista é ascendente. Trata-se de mais um estado em que a esquerda lulista pode levar ambas vagas.
Por hoje é isso, mas prometo voltar com números e análises dos outros estados.
PS: As fotos são, claro, de Marta, Vanessa e Gleisi, tiradas dos próprios sites oficiais linkados.
Atualização: o André Egg e o Daniel Lopes estão lá batendo cabeças e corações com os números do Piauí. É muita gente secando Heráclito.
Um dos pensadores que mais me impactaram durante a preparação do meu livrinho sobre a violência foi o urbanista francês Paul Virilio. Signatário daquelas que talvez sejam as reflexões mais originais sobre a guerra no nosso tempo, Virilio faz da velocidade a categoria central de seu pensamento. A sociedade contemporânea seria, para Virilio, essencialmente dromológica, ou seja, caracterizada pela primazia da velocidade. Daí ele extrai consequências bem interessantes para pensar a guerra, que não vêm ao caso para este post, que é sobre velocidade, paranoia e política.
Ontem, confesso, me bateu certo cansaço no Twitter. Pela primeira vez desde que me engajei na campanha, me permiti uma botecagem com meus alunos de pós-graduação, o que foi decisão muito sábia. Minha irritação não vinha de mais uma rodada de bandidagens da mídia brasileira, posto que esta já não tem o poder de afetar meu humor. Minha falta de paciência era com alguns dos próprios camaradas de esquerda. A partir da queda de Erenice Guerra—que, como qualquer queda de ministro, não advém da culpabilidade ou da inocência, mas de um cálculo político, correto ou não, da relação custo / benefício—e da notícia de uma palestra de Reinaldo Azevedo e não sei mais quem no Círculo Militar, os camaradas despirocavam no Twitter como se os tanques de Olímpio Mourão Filho, Odílio Denys e Castello Branco já estivessem às portas de Brasília.
Já adianto que não aceito que se tome este texto como um chamado à passividade ou ao imobilismo. Há alguns dias, eu alertava contra o clima de já ganhou e insistia na importância de se continuar trabalhando. Mantenho tudo o que disse lá. Que a imprensa brasileira é golpista até a medula não resta dúvida. Mas manter isso é bem diferente de pensar, agir, falar e escrever como se estivéssemos à beira de um golpe de estado para impedir a eleição de Dilma Rousseff. Desculpem-me, não estamos, e despirocar como se estivéssemos não presta nenhum serviço à campanha de Dilma. Na humilde opinião deste atleticano blog, você contribui muito mais se der aquela checada com o vizinho para conferir se ele sabe mesmo onde está o título de eleitor.
Atentos, pero sin enloquecer jamás.
Parte da piração advém da polaridade normal da eleição, da incrível saraivada de baixarias em que se transformou a campanha de Serra e do histórico de bandidagem da mídia brasileira. Mas há outra parte que é produto, creio, da velocidade das ferramentas com as quais trabalhamos hoje. Já sou veterano de cinco campanhas eleitorais na internet (2004, 2006, 2010 e duas em 2008, a brasileira e a gringa). Não há comparação entre a velocidade com que trabalhávamos nos blogs em 2006, quando inexplicáveis fantasmas instalavam grampos jamais encontrados no escritório de Gilmar Mendes (e a mídia brasileira, com sua tremenda desonestidade, não falava de outra coisa), e o que fazemos hoje no Twitter. Para dar um exemplo: as caixas de comentários do Biscoito sempre estiveram abertas para o link off-topic, com o qual o leitor me trazia alguma notícia, em geral saída do forno. Hoje, não há a menor necessidade disso, porque é improvável que você me traga uma notícia nova (relevante) que eu ainda não tenha visto no Twitter.
A coisa ali é de uma velocidade estonteante. Facilita a circulação de informações, mas nem sempre estimula o raciocínio mais sofisticado e crítico.
Discordo dos camaradas que dizem que o governo contemporizou demais com os conglomerados máfio-midiáticos. O governo agiu corretamente com eles: 1) Garantiu a liberdade de imprensa: Globo, Veja, Folha e Estadão jamais foram censurados, apesar das insistentes referências a Hitler e Mussolini na imprensa brasileira; 2) Iniciou a comunicação direta com a população, através de órgãos como o Blog do Planalto e o Blog da Petrobras; 3) Democratizou a circulação das verbas de publicidade, o que realmente enfureceu os caras; 4) Realizou a Confecom, que envolveu a sociedade civil e estabeleceu as bases para um outro modelo de comunicação.
Fazer mais que isso não é papel de governo. Combater a mídia não é tarefa do governo. É tarefa nossa. Nesse combate, superestimar o poder do adversário pode ser tão daninho como subestimá-lo. Falar como se Globo e Veja estivessem em condições de dar um golpe de estado hoje só serve para produzir confusão do lado de cá e aumentar a moral do lado de lá. Pedir que Lula vá à TV atacar uma insignificância como Mario Sabino é entregar a bola ao time deles. A bola está com a gente, lembram?
O que há que se fazer agora é fortalecer a campanha para fechar essa parada no primeiro turno. Depois da eleição, podemos pensar em uma grande ofensiva sobre esses veículos, com campanhas de cancelamento de assinaturas e, muito especialmente, intensa pressão sobre os anunciantes, atividade que não tem muita tradição no Brasil e que produz efeitos devastadores quando bem aplicada aqui nos EUA. Eu sinto que nós já temos força para isso. Tem que ser bem feito, mas temos.
Por enquanto, a tarefa é ganhar a eleição no dia 03 de outubro. Claro que essa tarefa inclui o combate a distorções da mídia. Mas ela também inclui—e às vezes nos esquecemos disso—apresentar nossa candidata a esses 10% de indecisos que ainda estão por aí. A candidata é fera, sabe das coisas, nós governamos bem e temos o que mostrar. Vamos embora pra luta com um pouquinho mais de leveza e alegria.
PS: Ainda sobre o tema do post: o site do Nassif de vez em quando cai mesmo. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia o sábio Segismundo.
PS 2: Nem vou dizer isso no Twitter para não gerar polêmica mas, caríssimos candidatos de esquerda: na humilde opinião deste blogueiro, um "tuitaço" é coisa que só serve para espantar seguidores.
PS 4: Lula e Dilma foram destaque no Clarín, que mandou repórter para cobrir as eleições brasileiras. O cabra está em Recife, atônito com o fato de que exista governante em fim de mandato com aprovação de 96%, que é o índice de Lula em Pernambuco.
Blog endossa Alessandro Molon (PT) para Deputado Federal no Rio de Janeiro
Aí vai mais um vídeo de endosso, desta vez a Alessandro Molon (1313), candidato a Deputado Federal pelo PT do Rio de Janeiro.
Como sempre, a caixa de comentários está aberta para que você endosse candidatos e apresente suas razões (sem spam). Convido também os fluminenses a que conversem sobre os dilemas que vivem os eleitores de esquerda do Rio nestas eleições para o Senado.
Independente de sua posição política, leitor, é louvável e digna de aplausos a coluna de domingo da Ombudsman da Folha de São Paulo, Suzana Singer. A coluna foi dedicada inteiramente ao acontecimento que tomou o Twitter brasileiro de assalto no dia 05 de setembro. Autista ao extremo, a Folha sequer noticiou o fato que chegou ao topo dos Trending Topics mundiais e foi discutido até mesmo em salas de redação dos EUA. Em vez disso, a versão online do jornal preferiu apresentar uma tosca matéria que dizia que os TTs “não significavam nada” e que a chegada dos brasileiros ao Twitter estava “incomodando os gringos”.
Em todo caso, a Ombudsman merece nossos parabéns por ter tratado o tema sem luvas de pelica. Para os que dizem que “tanto petistas como tucanos” reclamam da Folha, basta agora oferecer o link à coluna da própria Ombudsman, que afirmou com todas as letras que José Serra só aparece na Folha para fazer “denúncias”. Nada sobre seu governo recente em São Paulo. Nada sobre promessas inatingíveis, por exemplo. A coluna de domingo já foi reproduzida por meia internet, mas copio o texto aqui na íntegra, pois quero acompanhar meus parabéns com duas correções importantes. Primeiro, o texto de Suzana:
O ATAQUE DOS PÁSSAROS
A manchete de domingo desencadeou uma onda anti-Folha no Twitter, que o jornal ignorou
A FOLHA VEM se dedicando a revirar vida e obra de Dilma Rousseff. Foi à Bulgária conversar com parentes que nem a candidata conhece, levantou a fase brizolista da ex-ministra, suas convicções teóricas e até uma loja do tipo R$ 1,99 que ela teve com uma parente no Sul. Tudo isso faz sentido, já que Dilma pode se tornar presidente do Brasil já no primeiro escrutínio que disputa.
Mas, no domingo passado, o jornal avançou o sinal ao colocar na manchete “Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. O problema nem era a reportagem, que questionava a falta de iniciativa do Ministério de Minas e Energia para mudar uma lei que acabava por beneficiar com isenção na conta de luz quem não precisava.
Colocar uma lupa nas gestões da candidata do governo é uma excelente iniciativa, mas dar tamanho destaque a um assunto como este não se justifica jornalisticamente.
Foi iniciativa de Dilma criar a tal Tarifa Social? Não, foi instituída no governo Fernando Henrique Cardoso. É fácil mexer com um benefício social? Não, o argumento de que faltava um cadastro de pobres que permitisse identificar apenas os que mereciam a benesse faz muito sentido. Existe alguma suspeita de desvio de verbas? Nada indica.
O lide da reportagem dava um peso indevido ao que se tinha apurado. Dizia que a propaganda eleitoral apresenta a candidata do PT como uma “eficiente gestora”, mas que “um erro coloca em xeque essa imagem”. Essa tem que ser uma conclusão do leitor, não do jornalista.
Uma manchete forçada como a da conta de luz, somada a todo o noticiário sobre o escândalo da Receita, desequilibrou a cobertura eleitoral. Dilma está bem à frente nas pesquisas de intenção de voto e isso é suficiente para que se dê mais atenção a ela do que a seu concorrente, mas, há dias, José Serra só aparece na Folha para fazer “denúncias”. Nada sobre seu governo recente em São Paulo. Nada sobre promessas inatingíveis, por exemplo.
Os leitores perceberam a assimetria. Durante a semana, foram 194 mensagens à ombudsman protestando contra o noticiário, mas o maior ataque ocorreu no Twitter, a rede social simbolizada por um pássaro azul, que reúne pessoas dispostas a dizerem o que pensam em 140 caracteres. Até quinta-feira passada, tinham sido postadas mais de 45 mil mensagens anti-Folha.
CRIATIVIDADE
Os internautas inventaram manchetes absurdas sobre a candidata de Lula: “Empresa de Dilma forneceu a antena para o iPhone 4″, “Dilma disse para Paulo Coelho, há 20 anos: continue a escrever, rapaz, você tem talento!”, “Serra lamenta: a Dilma me indicou o Xampu Esperança” e “Errar é humano. Colocar a culpa na Dilma está no Manual de Redação da Folha“.
O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares (“trending topics”) do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.
Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.
Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal.
Não dá para desprezar essa reação e a Folha fez isso. Não respondeu aos internautas no Twitter e não noticiou o fenômeno. O “Cala Boca Galvão” durante a Copa virou notícia. No primeiro debate eleitoral on-line, feito por Folha/UOL em agosto, publicou-se com orgulho que o evento tinha sido um “trending topic”. Não dá para olhar para as redes sociais apenas quando interessa.
A Folha deveria retomar o equilíbrio na sua cobertura eleitoral e abrir espaço para vozes dissonantes. O apartidarismo -e não ter medo de crítica- sempre foram características preciosas deste jornal.
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Nada tenho a acrescentar à primeira parte da coluna, que é de notável honestidade para os padrões da Folha. Mas, para que fique correto o registro histórico, a bem da verdade dos fatos, algumas coisas precisam ser corrigidas na segunda parte. Vou devagar, porque há muita coisa misturada ali.
impulsionado, em parte, pela militância política
Isso não é incorreto, considerando-se que, de qualquer internauta que esteja tirando sarro de uma matéria mentirosa sobre Dilma, pode se dizer que ele está na “militância política”. O problema começa em seguida.
segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha,
Os internautas que participaram da brincadeira do dia 05 de setembro são testemunhas de que nenhum dos tuítes originais lançados na rede continham a tag #ondavermelha. A brincadeira começou logo depois do horário de almoço e varou noite adentro. Já bem avançada a madrugada, aconteceu algo que, infelizmente, a Suzana—acredito que por falta de experiência com as redes sociais, e não por má fé—deixou de apurar de forma correta.
11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede.
Aqui há algo factualmente incorreto. Não houve nenhum chamamento da campanha do PT. A cúpula da campanha não chamou ninguém. A coordenação de internet da Dilma sequer participou do #Dilmafactsbyfolha. Suzana poderia ter comprovado isso recorrendo aos arquivos do Twitter. Sei que o Twitter não é a plataforma mais amigável para checar fatos ocorridos há dias. Mas com um pouquinho de paciência para clicar algumas vezes no more que fica na base da página, você descobre o que quiser. O que aconteceu foi outra coisa e eu explico.
Já entrada a madrugada, o perfil @ptnacional, que não tem nada a ver com a direção do PT nem com a coordenação da campanha de Dilma (e isso pode ser comprovado visitando o próprio perfil), passou a republicar os tuítes dos internautas como se fossem criação sua, sem dar RT e sem informar quem eram os autores. Como sabem meus leitores, não sou exatamente um paranoico obcecado com o problema do plágio. Isso está documentado no blog. Quando encontro algum texto meu plagiado ou reproduzido sem crédito, o máximo que faço, se tanto, é publicar o link por aqui e avisar aos leitores. Em geral, isso é suficiente para que a pessoa, envergonhada, apague o plágio.
No entanto, o caso do dia 05 de setembro, eu notei de cara, era grave, porque o perfil @ptnacional tem mais de 6.000 seguidores e com certeza é confundido por muita gente com o perfil oficial do partido. Os plágios sucediam-se às dezenas, e eu só tomei a iniciativa de denunciá-lo (digo isso também para os amigos tuiteiros que me criticaram por “excesso de zelo ou paranoia”, "exagero" ou até por “ego”) porque eu previa que isso podia acontecer: o movimento ser desqualificado como “coisa do PT”, já que esse perfil (que é de um simpatizante do partido) estava agindo de forma irresponsável, plagiando, acrescentando a tag #ondavermelha e, fim da picada, exigindo RT ao seu plágio no momento em que os autores do tuítes reclamavam. Muitos outros tuiteiros denunciaram o fato na hora.
Reitero: isso aconteceu de madrugada, quando a esmagadora maioria dos internautas já havia ido para a cama com dores no estômago, provocadas pelo excesso de gargalhadas. A brincadeira já havia alcançado o topo dos TTs e produzido todo o efeito do qual sabemos. O grave erro da pessoa responsável pelo perfil @ptnacional não aumentou em nada o impacto do movimento e, mais importante, não retirou seu brilhantismo, que foi exclusivo mérito de internautas que atuavam espontânea e anarquicamente, como já relatei aqui.
Evidentemente, o PT não pode ser responsabilizado por algo feito por um perfil manejado por um simpatizante, da mesma forma que o Flamengo não pode ser culpado por um crime cometido por um torcedor rubro-negro, a não ser, claro, que se detecte cumplicidade com o malfeito (“um malfeito”, viu, Noblat, é diferente de “algo mal feito”). Essa cumplicidade, chamamento ou participação não existiu no caso do #DilmafactsbyFolha.
Considerando-se a extrema honestidade e coragem de Suzana Singer no tratamento deste episódio, seria elegante de sua parte publicar uma errata, já que o exposto aqui não é questão de opinião, mas da ordem do erro factual puro e simples.
Para conversar: Números das presidenciais nos estados
Mais tarde haverá um post com texto mas, por enquanto, gostaria de deixar com vocês o mapa atualizado dos números da eleição presidencial em cada estado brasileiro, já que tanto Ibope como Datafolha acabam de publicar novas pesquisas. Este belíssimo mapa é fruto do trabalho do Alexandre Porto, que tem dado um show com os números nesta eleição, tanto em seu blog como no Twitter. Para saber como vão Dilma, Serra e Marina em cada estado, é só clicar no território correspondente. Haverá várias colunas, com os números de cada instituto:
Parabéns e obrigado ao Alê por nos proporcionar esta ferramenta. Como veem, o Brasil inteiro já é vermelho, com a exceção do Acre. Se você quiser saber como vão os números do Ibope para as corridas ao Senado, é só procurar aqui.
Aí vai minha contribuição desta semana para a Revista Fórum. Como de costume, deixo um trecho aqui e coloco o link para para que você termine de ler lá na Fórum. Querendo debatê-lo, é só voltar aqui.
Já é um clichê repetido à exaustão que a grande mídia tem sofrido um tranco duro durante esta década de disseminação do acesso à internet. Não quero aqui martelar outra vez este ponto, mas analisar, de forma breve, uma variação recente da resposta de alguns jornalistas ao processo que poderíamos chamar de “choque de transparência”. Trata-se do termo “militância”, sistematicamente usado por jornalistas para desqualificar as críticas recebidas pela grande mídia na internet.
Em primeiro lugar, vale lembrar uma diferença entre os blogs, principais instrumentos de crítica da mídia na primeira metade da década, e o Twitter, plataforma de micro-publicações que adquire cada vez mais importância na internet brasileira. Muito pode ser dito aqui e existe gente maisqualificada que eu para falar dos aspectos técnicos da coisa. Limito-me a apontar o óbvio: por mais barulho que os blogs fizessem, era relativamente simples ignorá-los. Um blog opera em seu espaço próprio, que o jornalista da grande mídia, mesmo visitando, pode ignorar ou fingir ignorar. No Twitter, não. Cada jornalista e veículo de mídia possui seu próprio perfil, mas opera no mesmo ambiente que todos os outros tuiteiros. Uma avalanche de menções a alguém dificilmente poderá ser ignorada sem que se caia no ridículo. Por isso a ombudsman da Folha foi obrigada a dedicar a coluna inteira deste domingo ao #DilmafactsbyFolha. Teria ficado feio demais fingir desconhecimento de uma experiência tão impactante como aquela.
Uma das grandes chatices da reta final do processo eleitoral brasileiro é esperar o escândalo semanal com o qual a Veja tenta derrubar o candidato do PT. Tudo indica que esse processo, que vem se repetindo com tediosa previsibilidade, está prestes a chegar ao fim de sua vida útil. Não por “censura” ou qualquer outra coisa do tipo, mas por pura ineficiência mesmo. Lá pelas priscas eras de 2006, funcionava mais ou menos assim: a Veja lançava o lamaçal de acusações. O Jornal Nacional repercutia, martelando o assunto durante dois ou três dias. Crise generalizada. Os petistas começavam a juntar papeis e lançar notas para desmentir as acusações, coisa nem sempre fácil de ser feita, posto que provar a não-existência de algo para alguém que sequer chegou perto de oferecer indícios de sua existência é um exercício que se aproxima muito mais da metafísica do que da política. Depois do escândalo na Veja e no JN, a Folha, o Globo e o Estadão passavam a “investigar” o balão de ensaios, e toda a política brasileira ficava refém da ladainha durante algumas semanas. O jogo se esgotava, só para ser reiniciado com outra “denúncia”, que repetia de novo o mesmo ciclo. É o que foi tentado este ano, com a modorrenta história da quebra do sigilo de Verônica Serra. Apesar de não ouvirmos falar de outra coisa durante semanas, a ópera bufa não alterou em nada as intenções de voto em Dilma. Agora, é Serra quem não quer que se investigue o caso.
Nas eleições de 2006—e os arquivos do Biscoito estão aí, para quem quiser ver--, a oposição apostou todas as suas fichas nesse jogo. Em coordenação com Gilmar Mendes e a mídia, ela passou semanas martelando a tese de um grampo que jamais ninguém ouviu e de cuja existência a investigação da Polícia Federal não encontrou nenhum indício. Mesmo assim, preciosas laudas que poderiam ter sido dedicadas a discutir política externa, saúde ou educação foram perdidas repercutindo a suspeita indignação de Gilmar Mendes acerca de um grampo que tinha tanta materialidade como a Libertadores vencida pelo Corinthians.
Se a oposição quer mesmo entender por que vai levar uma surra nas urnas, deveria começar por aqui: o joguinho morreu. Acabou. Ele não funcionou. Em primeiro lugar, porque as pessoas não são burras, e não vão votar contra o governo que multiplicou o seu poder aquisitivo e melhorou significativamente sua autoestima só porque uma revista lança um monte de acusações desconexas, sem qualquer relação com jornalismo de verdade. Em segundo lugar, porque resta no Brasil um único conglomerado máfio-midiático de poder manipulatório real, e redes de televisão como a TV Globo não rasgam dinheiro. Ontem, um episódio bem interessante ilustrou a diferença entre a situação atual e a de 2006.
Não repercutiram. O fato, me parece, é bastante significativo. Todos se lembram de como foram conduzidas as entrevistas com os candidatos à Presidência da República. O Jornal Nacional não é exatamente um espaço simpático a Dilma Rousseff. Mas o lixo lançado pela Veja era tão pouco fundamentado que nem mesmo na escolinha Ali Kamel ele emplacou nota suficiente para passar.
Antes da revista chegar às bancas, ela já está desmoralizada.
É uma nova etapa, mais decadente, da fábrica de factoides. Este post, mais que chegar a essa óbvia constatação, serve simplesmente como prólogo para recomendar a leitura de um texto que eu considero uma das melhores coisas já escritas na internet brasileira. O Celso de Barros pegou o lixo da Veja e mostrou como se fazem diamantes com esterco. Antes de comentar aqui, portanto, vá lá no Celso ler esta pérola e tenha convulsões de gargalhadas eruditas.
São 8:54 h em Brasília. A esta hora, há exatos 37 anos, a aviação chilena começava seu bombardeio ao palácio presidencial La Moneda. Depois de derrotada nas eleições parlamentares de 1972, a direita chilena decide abandonar a via eleitoral e o caminho da mera agitação e da sabotagem. Passa a preparar o golpe militar que interromperia uma das interessantes experiências de um povo na reconquista de sua autoestima.
Apesar da intensa sabotagem, dos assassinatos cometidos por grupos de extrema-direita como o Patria y Libertad, dos blecautes patronais e do clima de desestabilização promovido pelo golpismo chileno e pela CIA, a Unidade Popular (coalizão que dava sustentação ao Presidente Salvador Allende, formada pelos Partidos Socialista e Comunista, além de importantes grupos de esquerda como o MIR e o MAPU) havia conseguido ainda mais votos em 1972 que nas eleições presidenciais que levaram Allende ao poder, em 1970.
Acossado em seu palácio sob intenso bombardeio, o Doutor Allende se comporta de maneira impecável: libera os seus funcionários para que salvem suas vidas (oferta que a esmagadora maioria deles recusa, optando por resistir junto a seu amado presidente), realiza gestões para que vários chilenos se protejam em embaixadas (notadamente a cubana) e faz um inesquecível discurso pelo rádio, em que insiste que sua vida não pertence a ele próprio, mas ao povo. Esse discurso imortaliza uma frase que até hoje emociona milhões de chilenos: Pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Allende resiste por algum tempo, com uma mera pistola e sua guarda presidencial.
Na saída do palácio que fica na Rua Morandé, 80, chilenos desarmados se rendiam e mesmo assim eram espancados pelas forças policiais. Já nos primeiros dias, um imenso campo de concentração se formava no Estádio Nacional. A casa do poeta maior, Pablo Neruda, foi pilhada e saqueada. Obrigaram a viúva de Allende a enterrar seu amado em segredo, tal era o terror que tinham os militares da força simbólica do legado daquele que os chilenos chamavam de Compañero Presidente.
A experiência vivida pelo povo chileno entre o ano de 1970 e o 11 de setembro de 1973 é das histórias mais instrutivas e emocionantes da era moderna. Mesmo que você não entenda espanhol muito bem, reserve 90 minutos para assistir ao documentário de Patricio Guzmán, La Batalla de Chile. Trata-se de um filme que já trabalhei algumas vezes em sala de aula, mas hoje devo crédito ao Cristóvão Feil, por me lembrar que a obra está disponível no Google Videos:
37 anos depois, o general que traiu seu presidente e comandou o golpe é quase universalmente desprezado como um fascínora torturador que, além de tudo, revelou-se depois, roubou dinheiro do seu povo em ato de enriquecimento ilícito. A memória do médico que entregou, com dignidade, sua vida num combate desigual é cada vez mais cultuada. Especialmente nos bairros mais pobres de Santiago e de outras cidades chilenas, não é raro ver uma foto do Compañero Presidente já logo na sala de estar. É uma experiência inesquecível visitar essas áreas mais humildes, conhecidas no Chile como poblaciones, e ouvir os relatos que ilustram a admiração e o amor que a memória de Allende evoca.
A luta dos chilenos entre 1970 e o 11 de setembro de 1973 para defender seu presidente se cristaliza na trajetória dessa simples palavra, compañero, que não deixaria de impactar outras línguas e passaria, sozinha, a significar o nome de toda uma experiência histórica. Parafraseando uma consigna muito usada nas assembleias populares chilenas a partir de 1970, e num gesto de carinho pelo país que me recebeu tantas vezes e onde tenho tantos amigos, deixo aqui minha homenagem à memória desse homem e dessa experiência: Compañero Biscoito, presente.
Não deixem de assistir ao documentário de Guzmán. Trata-se não só de uma aula de história e de política. É uma aula sobre o que é a dignidade.
Aos leitores que querem mais Derrida e Jackson do Pandeiro, e menos Dilma
Era óbvio que a segunda encarnação do blog não agradaria a todos. Eu sabia disso. Aqui vai uma satisfação aos decepcionados.
Como incontáveis outros, este blog tem suas próprias características, particulares, que o diferenciam da rede com a qual ele se relaciona. Desde o primeiro dia identificado como um blog de esquerda, ele não é produzido por um político de carreira nem por um jornalista, perfis majoritários entre os blogs de esquerda de algum impacto. Escrito por um professor de literatura cuja abordagem ao texto literário sempre se pautou por uma forte relação com a filosofia, este blog faz dessas duas disciplinas, acompanhadas do futebol e da música, o cardápio principal quando o tema não é política. Convenhamos, isso gera um leitorado bem heterogêneo. Em épocas não-eleitorais, já é difícil equilibrar a coisa.
A inacreditável história de desgraças do Atlético Mineiro faz com que as pautas esportivas terminem, ocasionalmente, resvalando para o basquete universitário e o futebol americano, dois esportes que acompanho aqui nos EUA. Mas isso é outra história. Tergiverso.
Quando voltei, avisei que o grosso da brincadeira, até o dia 03 de outubro, seria a política. Prometi um post por semana sobre outros assuntos e tenho cumprido a promessa. Entendo que as críticas não são ao predomínio da política em si, mas ao fato de que os antigos posts de análise mais reflexiva deram lugar a textos mais militantes, escritos na trincheira da campanha de Dilma e dedicados, em grande parte, a combater a assombrosa coleção de mentiradas da mídia brasileira. A própria presença desse tipo de vocabulário ('mentirada', 'safadeza', 'conglomerados máfio-midiáticos') provoca um certo rechaço em alguns leitores. Esses são, em geral, os leitores que querem posts sobre outros assuntos ou discussões políticas mais reflexivas.
Eu aceito as críticas e acredito que elas procedem. A reclamação alude a um fato real. Mas não vou mudar. O caso, até 03 de outubro, não tem solução. Este post explica por quê.
A propósito da reclamação mais comum e tradicional, acerca da 'parcialidade' do blog, eu já não tenho muito mais o que dizer. Faça uma busca nos arquivos com os substantivos (im)parcialidade, isenção, neutralidade e com seus respectivos adjetivos, e você encontrará incontáveis versões da minha resposta a essa objeção. Há material até para fazer um artigo acadêmico sobre o tema.
Sempre dou boas risadas com os jornalistas que repetem a cantilena de que a militância faz as coisas se tornarem “simplistas” e aí tascam a mais simplória análise do suposto simplismo alheio. Manter-se equidistante de duas forças políticas em combate não implica isenção. Às vezes é falseamento da realidade, mesmo. Dizer, por exemplo, que petistas e tucanos podem discutir quem contribuiu mais à mudança no perfil de renda do brasileiro não é fazer análise “isenta”. É pura e simplesmente falsear a realidade. É só consultar os números do IBGE.
Sobre a outra objeção, de que a intensidade militante do blog obnubila (esta palavra vai para os que reclamam do termo “mentirada”) certas sutilezas da política, eu só posso dizer que ela procede--não sempre, acredito eu. O post sobre o PSDB, por exemplo, não me parece um ataque militante. Gerou comentários muito ricos. Mas procede, é verdade, na maioria dos casos recentes.
A razão é muito simples. Se eu escrevesse só para o João Villaverde, a Lola, o Alexandre Nodari e o Celso de Barros, todos os posts sobre política seriam reflexivos, analíticos e atentos às ambiguidades da própria esquerda. Mas, feliz ou infelizmente, não é esse o caso. Nos últimos dias, recebi dois comentários que, justapostos, explicam a situação. Um leitor, na caixa, muito educadamente e com fina argumentação, dizia que a transmissão dos comícios de Dilma demonstrava que o blog havia se transformado em “mera legenda”. Outro leitor, por email, e escrevendo dos cafundós do Brasil, me agradecia pela transmissão do comício de Betim, pois Lula ali explicou que este ano são necessários dois documentos para votar (título e mais um documento com foto). Ele não sabia disso.
Como dizemos por aqui, I rest my case.
Os posts sobre política no Biscoito continuarão a tradição de análise crítica da própria esquerda. Mas não agora. Neste momento, a minha prioridade número zero é fazer tudo o que esteja a meu alcance para ajudar Dilma Rousseff a ter a vitória mais acachapante possível no dia 03 de outubro. Todo o demais é secundário. Como eu acabei estabelecendo vínculos um pouco mais orgânicos com a campanha do que eu imaginava ao princípio, essa tendência se exacerba. Se, a qualquer momento, você achar que essa prioridade distorceu alguma percepção minha da realidade, você sabe que o contraditório aqui é bem-vindo. Mas mate a cobra e mostre a cobra morta, ou seja, argumente caso a caso, demonstrando por quê. Não prometo resposta, já que o cotidiano de uma campanha é coisa de cuja intensidade pouquíssima gente tem noção. Perguntem ao Paraíba. O seu direito de dizer ah, você só fez esse post porque é petista não será tolhido, mas não espere que eu sequer leia esse tipo de comentário.
Desculpe a franqueza, mas é melhor que a gente se entenda desde já.
PS: Um segurança pessoal contratado por Yeda Crusius, de dentro do Palácio Piratini, espionava meus amigos Marco Aurélio Weissheimer e Katarina Peixoto (incluindo-se aí seus telefones), além de bisbilhotar Tarso Genro e várias outras personalidades políticas e jornalísticas do Rio Grande do Sul. Atenção: não se trata de que “um filiado” do PSDB ou alguém que foi vizinho (hahahah, vizinho!) de um tucano possa ter cometido ato de espionagem. É um fato comprovado, de autoria de um assessor direto da governadora, locado no interior do Palácio de Governo. Até mesmo as crianças que são filhas da deputada petista Stela Farias foram espionadas. Alguém imagina o que estaria acontecendo na mídia se um governo petista tivesse feito isso?
PS 2: Andrea Neves visitou o jornal Hoje em Dia, que estava começando a fazer matérias políticas de conteúdo um pouco mais investigativo. Logo depois, foi decepada a cabeça de Orion Teixeira, editor de política, que coincidentemente acabara de reproduzir este texto em seu blog. A prática é antiga no aecismo e está documentada neste vídeo (dois links). De novo: alguém meça por favor o inferno que estaríamos vivendo se tivesse sido o PT?
Muita gente costuma dizer que o século XVIII terminou em 1789, que o século XIX terminou em 1914 e que o século XX terminou em 1991 (ou em 11/09/2001, segundo como se veja a coisa). Claro que não são afirmações a serem tomadas literalmente. São alegorias do movimento real da história.
É neste sentido, alegórico, não literal, que poderíamos dizer que no dia 05 de setembro de 2010, o jornal Folha de São Paulo morreu no Twitter. Continuará existindo, claro, enquanto suas fontes de financiamento permitirem e enquanto existirem jornalistas dispostos, ou obrigados por necessidade, a se submeter àquilo. Mas ele morreu como veículo de comunicação ao qual se possa atribuir um mínimo farrapo de credibilidade.
O mote foi a assombrosamente mentirosa manchete de ontem, que não guardava qualquer relação com a verdade, ou sequer com a própria matéria: Consumidor pagou R$ 1 bi por falha de Dilma. Quem sabe ABC sobre política, concluiu na hora: a manchete não tinha nada a ver com informação. Era algo para Serra usar em seu programa. Como o jornal morreu, não tem sentido refutá-lo com fatos. Dilma já o fez com elegância:
No meio da tarde de ontem, o Flávio Gomes, especialista em automobilismo, lançou esta, a partir de uma tuitada do @eduu27: Vamos criar o #DilmaFactsByFolha. "Dilma serviu o café de Ronaldo no dia da final da Copa de 1998" via @eduu27. Logo a Cynara Menezes, este atleticano blogueiro e outros tuiteiros começamos a elaborar possíveis manchetes para que a Folha servisse de bandeja ao programa eleitoral do Serra. Sucediam-se hilárias tuitadas como:
@flaviogomes69: Dilma a padre no Sul: "Enche os balõezinhos que dá". #DilmaFactsByFolha
@Lau_Roces A Al-Qaeda era só um grupo de árabes nerds fãs de RPG e aeromodelismo. Até conhecerem a Dilma. #DilmaFactsbyFolha
@alexcastrolll Antes de Dilma mergulhar no Mar Morto, ele não estava nem doente! #DilmaFactsByFolha
@ocachete Folha Informa: Dilma cortou a cabeça do último Highlander #DilmaFactsByFolha
@tuliovianna Dilma embebedou o Jeremias #DilmaFactsByFolha
@ludelfuego Dilma Roussef atirou o pau no gato #DilmaFactsbyFolha
@botecoterapia O fuzil chama-se AK-47 por imposição da Dilma que vetou o AK-45. #DilmaFactsByFolha
@estadodecirco Dilma para John: "Querido, deixa eu te apresentar uma amiga, esta é a Yoko..." #DilmaFactsByFolha
@drrosinha: 'Padre irlandês que agarrou maratonista brasileiro em Atenas era filiado ao PT' #DilmaFactsByFolha
@camilalpav Folha revela: Dilma seria dona do circo que separou Dumbo da mãe. #DilmaFactsByFolha
@rayssagon Dilma vendia Marlboro para bebê fumante. #DilmaFactsByFolha
@lelo13: Descoberta a identidade dá louca que gritava "Pedro, me dá meu chip": Era Dilma Rousseff #DilmaFactsByFolha
@la_simas Sociológo Demetrio Magnoli afirma que Dilma era o contato da VPR com os Panteras Negras #DilmaFactsbyFolha
@andersonscampos Repórteres da Folha apuraram junto a moradores do condomínio de Dilma que ela peida no elevador #DilmaFactsByFolha
@eduardohomem41 O Ministério da Saúde adverte: camisinhas da marca Dilma arrebentam! #dilmafactsbyfolha
@zedutra13: Exclusivo: Dilma é quem escreve as colunas do Merval. #DilmaFactsByFolha
@Katoui Folha Informática: O Twitter é Totalitário? Uma análise surpreendente dos analistas a favor do Brasil.
@jeffrodri Dilma escreveu o rascunho do AI-5. Costa e Silva deu uma amenizada. #DilmaFactsByFolha
@iavelar Confirmado que Dilma é a autora das receitas médicas de Vanusa.
@iavelar Dilma disse a Bush: "em seis meses você resolve esse negócio no Iraque".
@iavelar Dilma disse ao Ronaldo: "aquela ali é mulher mesmo".
@iavelar Em Jerusalém, 1948, Dilma disse à ONU: "É só repartir isso aqui que dá tudo certo.
@iavelar Dilma disse ao Covas em 89: "chega lá em PoA e diz que torce pro Grêmio e pro Inter, os gaúchos adoram isso"
@iavelar Escavação da Folha revela: Dilma comprou vibrador com dinheiro do mensalão, seduziu Capitu e corneou Bentinho.
@iavelar Confirmado: Dilma Rousseff é culpada pela maior humilhação que a internet já impôs a um jornal
@iavelar Dilma quebrou o sigilo do catálogo telefônico. Dados podem estar em comitê petista.
Para quem não conhece o Twitter: o caractere #, quando anteposto a qualquer palavra, a transforma numa “hashtag”, ou seja, num link que te permite encontrar todas as outras mensagens com o mesmo assunto, desde que o internauta se lembre de incluir o # colado à palavra. Programas como o Tweetdeck te permitem ler ao mesmo tempo, em três colunas, as atualizações daqueles a quem tu segues, as menções a ti mesmo por qualquer pessoa e todas as tuitadas que incluem uma determinada hashtag. Eu recomendo.
Em um par de horas, as tuitadas se sucediam numa velocidade frenética, que leitor nenhum conseguia ler na totalidade, com alusões a tudo, desde o Gênesis (Dilma criou intrigas entre Abel e Caim, por exemplo) até a Copa de 50 (Dilma levantou a saia e atrapalhou o goleiro Barbosa). Sem nenhuma coordenação, de forma espontânea e anárquica, sem qualquer orientação da campanha de Dilma ou participação de sua coordenação de internet, o #DilmafactsbyFolha ia subindo nos Trending Topics (a ferramenta que mede a popularidade de um determinado tema no Twitter) até chegar ao topo dos TT brasileiros e ao segundo lugar dos TTs mundiais. O importante site What the Trend repercutiu, com matéria em inglês. No começo da noite, eu já recebia emails de amigos norte-americanos e até o telefonema de um jornal dos EUA, perguntando: What's #DilmaFactsbyFolha?
Era a Folha de São Paulo internacionalmente humilhada no Twitter.
Evidentemente, a desonestidade da Folha permite que, na edição de segunda-feira, ela tenha ignorado dezenas ou centenas de milhares de tuitadas que correram o mundo virtual e foram comentadas em redações até aqui nos EUA, mas fizesse alusão a um tuíte de Roberto Jefferson. Tanta distração só pode ser culpa da Dilma.
PS: Se, depois desta, tu ainda não te animas a fazer uma conta no Twitter, eu não sei o que te dizer. Além de usar esta caixa para comentar o que queiras, façamos também duas coisas: selecionar alguns dos tuítes favoritos dos leitores do Biscoito (é só clicar na tag e ir descendo a página) e dirimir dúvidas para quem quer se juntar ao microblog e ainda não sabe como ele funciona. Se você ainda não me segue no Twitter, é só ir lá e clicar no "follow". Estou circulando notícias da campanha com certa regularidade por lá.
Atualização: Para a seleção de tuítes citada acima, contei com o auxílio luxuoso de Alex Castro. Valeu.
Resposta da Assessoria de Comunicação da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República a O Globo
Nota à imprensa
Em vista da matéria "Campanha nas Asas do Planalto", publicada na edição do jornal "O Globo" deste domingo (5 de setembro), a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República afirma que, a apesar de insinuar, a reportagem não aponta nenhuma irregularidade ou descumprimento da legislação ou das recomendações da Advocacia Geral da União por parte do ministro Alexandre Padilha ou de nenhum de seus assessores. Além disso, a participação da SRI nas agendas institucionais citadas em estados e municípios reafirma o caráter republicano e não-discriminatório deste governo, como evidencia o envolvimento de prefeituras e governos estaduais de partidos da oposição - aspecto omitido na reportagem.
Tendo em vista dados equivocados apresentados na matéria, a despeito das informações corretas terem sido previamente repassadas à reportagem, a SRI esclarece que:
1. A comparação de valores de gastos com diárias entre 2009 e 2010 não considera o reajuste na tabela de diárias dos servidores federais concedido em julho de 2009.
2. A comparação entre os valores de diárias recebidas pelo ministro Alexandre Padilha no período de janeiro a julho de 2009 contra o mesmo período de 2010 não leva em conta o fato de que, nesses dois intervalos, o mesmo ocupava cargos diferentes. Em 2009, ele era Subchefe de Assuntos Federativos, logo tinha atribuições mais restritas que as atuais. Ao assumir, no fim de setembro de 2009, o posto de ministro-chefe da SRI, passou a acumular, além do relacionamento federativo, a responsabilidade pela relação com o Congresso Nacional e com os conselheiros do Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDES). Além disso, o valor individual da diária paga a um subchefe é inferior ao pago a um ministro de Estado.
3. A comparação entre os valores de diárias recebidas pelo Subchefe de Assuntos Federativos, Olavo Noleto, no período de janeiro a julho de 2009 contra o mesmo período de 2010 não leva em conta o fato de que, nesses dois intervalos, o mesmo ocupava cargos diferentes. Em 2009, Olavo Noleto era Subchefe-adjunto de Assuntos Federativos, com demandas de representação menos frequentes que as atuais. Além disso, o valor individual da diária paga a um subchefe-adjunto (DAS 5) é inferior ao pago a um subchefe (Cargo de Natureza Especial).
4. Em relação aos valores de diárias recebidos pelo Assessor-chefe da SRI, Mozart Sales, a comparação é feita com períodos de tempo distintos - apenas três meses em 2009, contra sete meses em 2010. Além disso, o servidor foi nomeado como assessor-chefe (DAS 6) em janeiro de 2010, tendo, portanto, valor individual de diárias superior ao de chefe-de-gabinete (DAS 5), cargo que ocupou desde seu ingresso na secretaria, em outubro de 2009.
5. O quadro-resumo de datas apresentado na capa do jornal induz o leitor a uma interpretação equivocada, que deve ser retificada nos seguintes pontos, conforme previamente informado à reportagem:
a) A agenda oficial - reuniões do CDES e visitas às obras do PAC no Rio de Janeiro - ocorreu nos dias 22 e 23. A presença do ministro no Rio de Janeiro no dia 24 não gerou pagamento de diárias e nenhuma outra espécie de gasto público. O texto da matéria a que a chamada faz referência contradiz a informação da capa.
b) A agenda oficial do ministro não durou de 19 a 24, pois nos dias 21 e 22 ele estava em São Paulo, sua residência permanente, sem compromissos oficiais e, consequentemente, sem receber diárias.
c) O ministro não cumpriu agenda oficial em Recife no dia 27. Naquele dia, seu único compromisso institucional foi realizado em Salvador, de onde deslocou-se para Recife, conforme esclarece a própria reportagem, sem uso de recursos públicos.
6. A comparação entre o número de servidores da SRI no começo do governo Lula e o momento atual é improcedente, pois o ministério inexistia em 2003. A SRI só foi criada em 2005, a partir da junção do então Ministério da Coordenação Política com o ministério responsável pelo CDES.
Por fim, a SRI não admite qualquer tipo de cerceamento ao direito constitucional de livre manifestação política de qualquer servidor público, na sua condição de cidadão, sem prejuízo a sua missão institucional e cumprindo rigorosamente a legislação.
Reitera ainda que o exercício de sua missão institucional, de articulação com o Congresso Nacional e os entes federados e de promoção do diálogo social por meio do CDES, não será interrompido em função do calendário eleitoral.
Assessoria de Comunicação da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República
4 de setembro de 2010
A dor de cotovelo de José Serra, à qual o Presidente Lula se refere aqui
tem sua origem em incontáveis manifestações, Brasil afora, semelhantes a esta aqui
as quais, por sua vez, não vêm do nada, ou só da simpatia do Presidente, mas são frutos de fatos incontestáveis como os descritos por Lula aqui:
PS: Retirei o post que estava aí acima, com a transmissão do Dilma na Rede, porque o vídeo inicia automaticamente ao se abrir o blog. Alguns leitores acham isso meio inconveniente, e eu concordo. Vale a pena para a transmissão ao vivo, mas não tem sentido deixar aqui um programa eleitoral que roda de forma automática quando você chega a esta página.
As aventuras do careca: Fábula de um país imaginário
-- Rapaz, eu te falei que esse negócio dos nossos jornais não darem uma linha sobre a história era burrada. A imprensa inteira fazendo o maior auê e a gente dando manchete sobre o aumento da poluição em BH? Foi bandeira demais. Os caras só seguiram a pista.
-- Eu disse ao Alvim. Era só repetir a ladainha “o aparelhamento da Receita, o Estado policial, patati patatá”. Mas não. Ficaram no silêncio, deu no que deu. Ficou óbvio demais.
-- Uso do cachimbo deixa a boca torta.
-- Pois é.
-- O negócio já estava agourado lá atrás, quando o Ecim bateu na namorada. Pô, tá achando que Copacabana é Barão de Cocais? Lá vaza mesmo. A moça lá da Folha que é dona da boate contou, mas não deu nome nenhum.
-- Quem deu?
-- Aquele jornalista lá, do futebol.
-- Por que o cara fez isso?
-- Ele vive afogado em processos, o Ric o odeia.
-- O Rick o está processando também?
-- Não, sua besta, esse é outro Ric, o do futebol!
-- Ah, sei. Mas o que tem a ver?
-- É que o Ric é chapa do Ecim.
-- Isso aí foi antes ou depois daquele recado do careca, o pó pará?
-- Depois. O Ecim já sabia que o chumbo era grosso. Mas aí o Ecim já estava com a galera nossa aqui, já tinha chamado o Yruama. Quando o careca descobriu que o Rick estava processando o Yruama, endoidou. Ele é feio e desengoçado, burro ele não é. Mas aí Inês já era morta, tinha que continuar com a ladainha de que era o partido dos barbudos. Como réu, o Yruama tinha acesso aos autos. Imagina, o Yruama, repórter, macaco velho, com aquela papelada toda. O sujeito até salivou. Um franguinho assado no colo.
-- O que tem na papelada?
-- Toda a história de Lilliput nos anos 90. Como venderam tudo, as negociatas, tudim, tudim. O careca entrou em pânico.
-- O lance é que o careca tentando fingir de indignado não convence nem minha vovozinha. É mais fácil ele aprender a dançar forró que se fingir ultrajado. Aí fodeu mesmo.
-- Mas o plano não era incriminar o partido dos barbudos com o material do Yruama, aproveitando que era sigiloso?
-- Tentaram. Foram lá em Brasília com aquele delegado. O sargentão estava lá também. Não conseguiram nem um aloprado pra arrastar.
-- Mas a Óia não deu a matéria assim mesmo, dizendo que era o partido dos barbudos?
-- Os caras foram lá, mas a história era tão fantasiosa que nem o Quaresma achou que dava pra vender.
-- Mas a matéria saiu.
-- Saiu, porque ali sacumé. Até o cruzamento da mandioca com o rinoceronte eles já inventaram.
-- E aí, o que rolou?
-- A matéria saiu na internet num sábado. Veio o domingo e nada de repercussão. Veio a segunda, nada. Não sei o que rolou na segunda, mas na terça A Esfera entrou solando, publicou matéria repercutindo. O rapaz da Folha até contou que eles nem iam pegar essa história, era vexame demais, mas como A Esfera já tinha publicado, eles tinham que seguir.
-- Nem com a matéria eles conseguiram algum bobo do partido dos barbudos pra pegar um dado sigiloso e depois ser incriminado?
-- Nem um. Filhos da puta. Os barbudos estão ficando espertos.
-- Como é que eles descobrem a relação disso tudo aí com a cidade do Visconde?
-- Internet, meu filho. Lilliput em 2010 não é Lilliput em 1989. Não sei quem foi, mas às 15 h o trem já estava pegando fogo na internet.
-- Qual foi a besta quadrada que saiu da reunião dizendo “a internet já descobriu que foi o Ecim”?
-- Não sei quem foi, mas vazou isso também.
-- Como é que está Ecim?
-- Ecim está tranquilo. Agora, o careca está em pânico.
-- E o nosso esquemão aqui?
-- Complicado. Descobriram as matérias clandestinas feitas à noite aqui, pra não sair no jornal e vazar pra outros.
-- Como descobriram? Porra, estamos no oitavo andar!
-- A meia dúzia de quarteirões do Ecim. Eu já te falei, Lilliput em 2010 não é Lilliput em 1989.
-- Como se chama este bairro aqui?
-- Bairro da Serra.
-- Avenida Getúlio Vargas no bairro da Serra?
-- Eu sei, pode rir.
-- E o careca agora?
-- Ficou doidão. Não pode revelar o esquema, começou a brigar com os blogs.
-- Blogs?
-- É uma turma suja que escreve na Internet.
-- O cara quer governar Lilliput e está brigando com os blogs?
-- Desespero, mô fio. O Ecim é que é esperto. O careca odeia o Ecim até mais que ele odeia o barbudão. Do barbudão ele tem é inveja.
-- E o barbudão?
-- Estava lá em Porto Alegre quando vazou tudo. Sendo beijado pelo povo, aquela nojeira.
-- Tem perigo disso sair na imprensa?
-- Tem não. Morrem de medo, rabo preso, sacumé. O lance é que dá na mesma, está todo mundo migrando pra internet.
-- O Yruama está se cuidando?
-- Aquele ali é doido de pedra. Você sabe, ele voltou pra Minas depois que levou aquele tiro em Brasília.
Pois é, valente Deputado Brizola Neto, o lacerdismo vive. Para os mais jovens, aí vai a frase de Carlos Lacerda que emblematiza o golpismo tupiniquim: O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse; empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.*
Não há momento da história do Brasil em que, ameaçada pelas urnas, a direita não tenha recorrido a alguma variação do espírito dessa frase. Em vez de utilizar a campanha eleitoral para discutir o que interessa--saúde, educação, reforma agrária, política externa, política tributária, papel do Estado na economia--, nos vemos mais uma vez numa grotesca paródia de telenovela mexicana, rastreando um carimbo de cartório de setembro de 2009, indo atrás de contadores e advogados que assinaram ou deixaram de assinar um pedaço de papel, repetindo ad infinitum esse tedioso disse-me-disse dos factoides. A entrevista com o contador que levou à Receita Federal a solicitação de cópias das declarações de Imposto de Renda de Verônica Serra é um festival de chacotas. Quem diria, a sério, algo assim sobre qualquer candidato?: Tenho nojo de política. Mas eu voto no Serra viu? Sou eleitor dele desde que ele nasceu.
Mais uma vez, o futebol nos oferece a metáfora perfeita: a quem interessa a confusão e a bagunça extra-campo? Qual é o time que quer tumulto? Qual é a equipe que deseja levar o jogo para o tapetão? Certamente não são aqueles que estão jogando na bola e ganhando a partida. Serra parece disposto a lançar ao lixo o que lhe resta de biografia honrada. Tudo indica que sairá deste processo passando vergonha: apelando para a pancada, reclamando com o juiz, escondendo a bola, como é de seu feitio (vejam, nesse link do insuspeito Estadão, a referência a Tasso Jereissati).
Aqui, cabe uma palavra acerca do papel da mídia. Nada disso teria tomado a campanha eleitoral de assalto se não fosse pelo exército de manipuladores amestrados dos conglomerados máfio-midiáticos do país. Tento não subestimar nem superestimar o poder desses conglomerados. No ambiente volátil da internet, muitas vezes oscilamos entre os dois extremos, o da euforia (“depois da internet, morreu o poder da mídia!”) ou da conspiração maligna (“a mídia elegeu tal candidato, ela é responsável por esse ou aquele resultado eleitoral”). Acredito que a análise deve ser feita caso a caso. Creio, por exemplo, que no Sul a RBS tem um poder de distorção e manipulação que os Diários Associados não possuem em Minas Gerais. Também acho inegável que hoje já não há espaço para golpes como os perpetrados pela Globo em 1989.
Mas também acredito que não estaríamos discutindo isso se não fosse pela disposição da mídia brasileira de funcionar como porta-voz do golpismo. O Sr. Ricardo Noblat, depois de traficar mentiras sobre assassinatos, ontem entrou no ramo da manipulação de vídeo, editando e cortando uma entrevista de Dilma Rousseff, com grotesca distorção sonora ao fundo. Ele continua tendo a cara de pau de chamar isso de jornalismo.
Acabam de entrar, nada mais, nada menos, com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a impugnação da candidatura de Dilma Rousseff, por uma violação de sigilo fiscal da filha de Serra, ocorrida em setembro de 2009, sobre cujas relações com Dilma eles não possuem um fiapo, um miligrama, uma tutaméia de provas. Já tentaram isso antes. E o povo deu a resposta nas urnas, oferecendo ao pobre Alckmin menos votos no segundo turno que ele havia tido no primeiro, façanha inédita na história das eleições presidenciais brasileiras.
Pelo jeito, passaremos alguns dias nessa realidade paralela. Mas concordo com o leitor de Luis Nassif, que lembra que o relator dessa palhaçada será o Ministro Aldir Passarinho Jr., um legalista que honra a toga. O TSE é presidido pelo Ministro Ricardo Lewandowski, constitucionalista e brasileiro honrado, de quatro costados. É evidente que é preciso estar atento, mas tudo indica que o saldo do episódio será mais uma desmoralização para José Serra.
O que sua coalizão e a corja de jornalistas amestrados não parecem entender é que, num país com a história do nosso, essa é uma brincadeira muito perigosa.
PS: Band, iG e Vox Populi iniciaram ontem a divulgação do tracking diário da eleição presidencial. É um modelo que nós, aqui nos EUA, conhecemos bem. Costuma aferir bem a tendência do eleitorado. Foi o estudo do tracking que nos permitiu, aqui no Biscoito, discutir com antecedência a possibilidade de vitória de Obama no republicaníssimo estado da Carolina do Norte, enquanto Miriam Leitão dizia que a escolha de Sarah Palin havia sido um "golpe de mestre" de John McCain--afirmativa pela qual até hoje ela não se retratou. O tracking da Vox entrevista 500 pessoas por dia e divulga, diariamente, a média das últimas 96 horas. A cada dia, saem da ponderação os números auferidos quatro dias antes. Não surpreende o desespero de José Serra. No primeiro tracking, divulgado ontem, os resultados foram: Dilma, 51%; Serra, 25%, Marina, 9%. Antes da divulgação pelos portais, os números apareceram, em primeira mão, no Twitter.
* A frase foi corrigida algumas horas depois de publicado o post.