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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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domingo, 31 de outubro 2010

Comentários ao vivo sobre as eleições na Twitcam

Estou ao vivo na Twitcam comentando as eleições

PS: O papo na Twitcam foi fantástico, e rolou das 14h até as 19 h de Brasília. Agora eu tirei uma folga. Vou reeditar a experiência de vez em quando, à noite, pelo menos durante uma horinha. Gostei muito.

PS 2: No momento, a comemoração virtual deste blogueiro está rolando no Twitter. Para amanhã tento escrever algo minimamente decente. Parabéns, Dilma!



  Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post | Comentários (27)




A primeira presidenta e um inédito reencontro com o passado

Poder-se-iam elencar 13 sólidas razões no campo da política, ou um motivo mais fundamental, que aludisse à alma da nação, ou um incontável rosário de números, fatos e dados para explicar a eleição de Dilma Rousseff. Poderíamos recorrer às doutas palavras do Enéas de Souza, da Fundação de Economia de Estatística/ RS:

Ela foi uma espécie de Super-Ministro do Planejamento. Logo de saída, deu ordenação e coerência nas obras dos diversos ministérios. Deu unidade e tornou denso o trabalho do governo. Pois, antes de Dilma, as pernas estavam para um lado, os braços para outro, a cabeça jogada lá diante, e os calcanhares e os pés andavam sozinhos pela Esplanada dos Ministérios. Tudo existindo, mas, todas as partes dispersas.

Uma espécie de diáspora do governo Lula. Dilma fez como os mágicos: agregou um cenário ao conjunto e reuniu tudo num corpo só. E surgiu daí a envergadura do governo Lula. Era o que o político Lula precisava. Tinha que vir alguém que soubesse organizar as peças do governo numa cara de governo. Precisava de um ministro que planejasse e coordenasse as ações para que Lula se tornasse o estadista. E ele o foi. E é.

Assim, no final do Lula I, a população já tinha se dado conta que todo um projeto estava organizado: aumento de salário mínimo consistente, Bolsa Família, crédito consignado, ProUni. E Dilma, vindo do Ministério de Minas e Energia acrescentou o que faltava: Luz para Todos. [...]

O Luz para Todos. Se pensarmos bem foi um dos grandes projetos de Dilma. Pense o leitor e imagine. Na época, discutia com um amigo e lhe disse: “Ah, você acha que esse é um programa banal, é? Faça o seguinte, você que é classe média: apague as luzes da sua casa e fique uns 15 dias sem luz. Pense como será o seu dia; pense, sobretudo, como será a sua noite. Você está na Idade Média. São 15 milhões de pessoas que viajaram 500/600 anos”



Poderíamos seguir elencando razões e fundamentos, mas com esse rol não esgotaríamos o significado da eleição de Dilma Rousseff, posto que é por demais poderoso e simbólico o que acontece no Brasil neste 31 de outubro. Para além de toda política, para além de todos os números do Bolsa Família, do ProUni e da ascensão à classe média, essa potente simbologia repousa em dois ineditismos extraordinários de Dilma: ela é nossa primeira presidenta e nosso primeiro reencontro de cabeça erguida com o passado traumático da ditadura (ela também será nossa primeira presidente atleticana, mas o blogueiro concede que este fato é de importância ligeiramente menor que os outros dois).

O giro que descreve Enéas de Souza foi fruto, sem dúvida, da sintonia inaudita que se desenvolveu entre Lula e Dilma, já na época das Minas e Energia, mas especialmente depois que ela chega à Casa Civil em meio à tempestade de 2005, e arruma a casa no Ministério mais importante da Esplanada. O machismo com que foi representada essa sintonia na nossa mídia é mais um capítulo enlameado da história desta campanha (e razão pela qual nunca é demais recordar que os conglomerados midiáticos são os últimos a ter o direito de criticar a sujeira destas Presidenciais 2010).

Dilma Rousseff, mulher de classe média que, sem carecer, lançou-se a enfrentar a ditadura, foi barbaramente torturada e não delatou companheiros, levantou-se, sacudiu, deu a volta por cima, serviu como Secretária da Fazenda no mandato de Alceu Collares (PDT) que iniciou histórica hegemonia de esquerda em Porto Alegre, repetiu a dose como Secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul, tanto sob Collares como sob Olívio Dutra (PT), ascendeu ao governo federal, consertou a calamitosa situação deixada pelos apagões de FHC nas Minas e Energia, assumiu a Casa Civil em meio à maior crise política desde o Collorgate e pilotou a maior redução da desigualdade da história da nação, essa, ninguém menos que essa mulher foi apresentada como “poste”, “desconhecida” ou, no máximo, “bem treinada”, quando surpreendia os preconceitos dos semiletrados jornalistas brasileiros com seu impressionante domínio dos números e dos mecanismos da máquina federal.

Para ir além do pobre sexismo das análises que vimos na mídia brasileira sobre a relação entre Lula e Dilma, há que se recordar a história do PT e o profundo incômodo que, com frequência, sentia Lula ante a atuação das alas “intelectuais” do partido, desde os seus economistas e sociólogos até os militantes de classe média oriundos da esquerda organizada. Dilma vem desse mundo, mas ela é, sobretudo, uma cabeça prática, executiva, que faz acontecer, com assombrosa capacidade de assimilação e processamento de dados. A combinação que realiza Dilma entre a paixão e a entrega militantes, por um lado e, por outro, o talento prático já desprovido das enrolações retóricas de tantos quadros da esquerda, absolutamente encantou e seduziu Lula, já antes da posse em 2003. Quando todos apostavam que Luis Pinguelli Rosa seria o escolhido para a pasta das Minas e Energia, surge Dilma, já destacando-se com seu laptop, domínio dos números e conhecimento prático da matéria. Lula encontrou ali uma alma gêmea, e é esse pé de igualdade na sintonia o que retrata esta foto, mais reveladora que todas as matérias e colunas:

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Também é da ordem do verdadeiro dito mais profundamente pela imagem que pela palavra a fotografia tirada por Ricardo Stuckert nesta sexta-feira, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde Lula visitava José Alencar e prometia: Zé, nós subimos a rampa juntos, vamos descer juntos. O carinho demonstrado nesta foto diz mais que todas as análises do lulismo como recomposição da aliança de classes no Brasil. Lula e Zé:


alencarlula.jpg


As duas fotos não estão, evidentemente, desvinculadas. A capacidade de gestão de Dilma e a facilidade com que ela conversa com os vários setores da sociedade são parte integrante do pacto de classes que se arma no Brasil do lulismo de resultados, e que tem nesse gesto de amor no Sírio-Libanês o seu mais acabado emblema.

O blog deseja um bom voto a todos na Pátria Amada, promete comentários em vídeo, ao vivo, durante o dia, e parabeniza Carlos Drummond de Andrade e John Keats por fazerem aniversário no dia em que o Brasil elegerá sua primeira presidenta.



  Escrito por Idelber às 05:24 | link para este post | Comentários (67)



sábado, 30 de outubro 2010

Recomendação de transmissão ao vivo

Ao longo do fim de semana, o projeto Democracia 48 horas tem apresentado debates de alta qualidade, com temas relacionados à política, eleitoral ou não. Já passaram por lá Leonardo Sakamoto, Renato Rovai, Rodrigo Savazoni, Antônio Martins e vários outros.

Dá para assistir ao Democracia 48 h também neste link do Renato Rovai. Fique à vontade para fazer observações nesta caixa de comentários sobre os temas debatidos lá.

Entre a noite de hoje e a manhã de domingo, eu pretendo ligar a Twitcam também e abrir um post para o vídeo ao vivo.



  Escrito por Idelber às 19:55 | link para este post | Comentários (7)




Seleção de vídeos da campanha 2010

Vamos em quatro categorias: programa eleitoral, declaração de voto, humor e trilha sonora.

Melhor declaração de voto (do Mr. Cloaca News):



Melhor programa eleitoral na TV (da Dilma Rousseff)




Melhor vídeo de humor (o que segue é o número um da série; merece menção honrosa também vídeo número três):




Melhor trilha sonora (tirado do indispensável NaMaria News):





* Menção honrosa para o Mulher na Presidência:






Se gostou de algum outro vídeo, compartilhe o link aí. Mais tarde a gente volta com texto.



  Escrito por Idelber às 09:00 | link para este post | Comentários (31)




Kirchner, la muerte del padre, por Horacio Legrás

Meu amigo Horacio Legrás, autor de Literature and Subjection e professor de literatura na Universidade da Califórnia em Irvine, escreveu o texto que segue, inédito, que o Biscoito oferece em primeira mão. Na minha leitura, não há dúvidas, é infinitamente mais iluminador que qualquer coisa já publicada na imprensa depois da morte de Kirchner.

***********

Si se me permite una licencia interpretativa –y qué opción hay- yo diría que la sociedad argentina es una sociedad psicótica. Una sociedad que no ha interiorizado la ley. Por eso siempre fuimos más libertinos que libres. El venerable Kant tal vez tenía razón. No se puede ser libre fuera de la ley y la libertad consiste en darse leyes a uno mismo. Algunas leyes calaron en el espíritu nacional y otras no. Pero la LEY, como fundante y estructurante, como condición de posibilidad de toda ley futura, siempre ha estado más o menos ausente. Como los sicóticos, hablamos la lengua de la ley sin haber interiorizado realmente sus requisitos. Es una mimesis o una performance, pero ningún sujeto se funda en ese acto. Los últimos años, sin embargo, han traído consigo un lento proceso de subjetivación. Una cosa es vanagloriarse de que Buenos Aires es un gran destino para el turismo gay. Otra cosa es pasar una ley que aprueba el matrimonio homosexual. Una cosa es despotricar contra los jueces corruptos “de siempre” y otra distinta en reformar la corte suprema para que refleje las aspiraciones de los ciudadanos. Una cosa es regocijarse en la impotencia y la injusticia, otra muy distinta es tener la audacia de pretender dictarle a la realidad la norma de nuestra esperanza. Del libertinaje a la libertad.

Tal vez sea esta la ecuación fundamental –que sin duda con muchos errores y vacilaciones- Kirchner propuso a la sociedad argentina. Para que esa propuesta fuera posible todo el piso debió haber temblado bajo nuestros pies. Sobre la memoria de ese temblor, cuando lo único que existía en el horizonte era el miedo de su retorno, Kirchner construyó la totalidad de su figura política. Toda biografía de Kirchner será siempre falsa. Kirchner nunca se imaginó siquiera que el llegaría a ser Kirchner. Su carrera política comienza en el 2001 y termina en el 2007. No hay nada antes ni después –hasta ahora.

El duelo por su muerte tiene todas las características del duelo por la muerte del padre. Frente a la anomia del 2003, Kirchner impuso algo que se parecía mucho a la ley. La ley fundamental es la del deseo. La “reconstrucción” argentina podría haber empezado por muchos lados, por cualquier lado. Kirchner simplemente nombró los lugares de constitución de un deseo porque alguien tenía que darle nombre a las cosas. Fue él como pudo ser cualquier otro. Pero eso no cambia el hecho de que fue él. Subordinación del poder militar al civil, reforma de la corte suprema, política de derechos humanos. No es casual que todas estas medidas estén íntimamente unidas al universo de la ley. Se debe desear ésto y no otra cosa. Esa es la función del padre. La frase “estar huérfano” que veo repetida en los diarios, refiere a mi parecer a esta realidad fundamental. Despues del 2007, Kirchner continuó siendo el padre, no sólo para los kirchneristas, pero en forma más importante y vital, para los anti-kirchneristas que se aferraron a él como ese único resto que los podía confirmar como sujetos de una palabra. ¿No se entrevee ya, en estas horas, la vacuidad de un Macri o de un De Narvaez, su pertenencia a un universo pre-edípico y pre-simbólico de la cultura política argentina? No es sólo una función del silencio. Reutemman, Duhalde o Binner son tan opositores como ellos, pero la muerte de Kirchner no los afantasma, porque Kirchner nunca fue para los últimos el registro desde donde la realidad comenzaba a tomar consistencia.

Como muchas veces se dice en las películas comerciales de Hollywood –de La guerra de las Galaxias a Harry Potter- el héroe es más poderoso muerto que vivo. Algo de esto, creo, ocurre en el caso de Kirchner. Para que el kirchnerismo pueda concluir su ciclo histórico –un ciclo histórico que, como el del peronismo de Perón se superpone exactamente con la totalidad de la sociedad argentina y su historia- se requería que la ley que Kirchner encarnó en vida, pero que su figura impedía se propagara a todos, tome finalmente la fuerza de un evento. Ese evento es la muerte de Kirchner. A mí me parece sintomático la repetición de la palabra “huérfano” que se hace estos días para expresar el dolor ante su muerte. Igualmente sintomático se me hace que la mayoría de los carteles que veo, se refieran no a él sino a Cristina. Por último, se me hace sintomático que Cristina sea evocada las más de las veces con la palabra “presidenta.” (El cartel más grande que se ve en la manifestación en plaza de Mayo dice “Fuerza Presidenta.”) En su muerte, Kirchner devino Néstor y Cristina la Presidenta. La relación de esto último con el universo de la ley –con el universo de esa ley interior, fundante de un sujeto- me parece obvia. Hay en estas muestras un cierto retroceso de ese insoportable machismo y paternalismo argentino, de esa deferencia al falso padre, quien no funda nada, que solamente vive en la ética del libertinaje porque nunca tuvo la fuerza o el coraje de pelear por la libertad.



  Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post | Comentários (10)



quinta-feira, 28 de outubro 2010

Seis anos de Biscoito Fino e a Massa

Eis que este blog, iniciado em 28 de outubro de 2004, completa seis anos -- ou cinco, dependendo de como você faça a conta. Ficamos parados de agosto de 2009 a agosto de 2010. Este é só um minúsculo post para não deixar a data passar em branco, um pouco como aquelas festas de aniversário só com um bolinho e algumas cervejas e refrigerantes. Algo muito mais importante que o aniversário de um blog vai acontecer no próximo domingo.

A quantidade de gente que eu teria que agradecer é tão grande que só de pensar eu desisto. Mas não posso deixar de mencionar Fábio Sampaio, responsável pela nossa poderosa retaguarda, Alexandre Nodari, a quem importuno quase diariamente, já há tempos, com pedidos de ajuda dos mais variados tipos, Nemo Nox, que desenhou a arte do blog, e Rafael Galvão, que me ajudou em inúmeros fronts quando eu ainda engatinhava na blogagem. À minha outra casinha virtual, a Revista Fórum, fica o agradecimento pela parceria e pela infinita paciência com meus frequentes atrasos nos artigos. À primeira leitora deste blog, Cipy Lopes, deixo o agradecimento também. Obrigado ao meu amor, que tem paciência infinita com as postagens da madrugada, blogueira pioneira que foi.

Há muitos leitores novos chegando, então não custa dar a dica já óbvia para os leitores históricos: à esquerda, você encontrará sempre os links que lhe permitem navegar por assuntos ou por datas. O histórico do blog está todo aí. O Biscoito nunca apagou um post (a não ser as recentes transmissões de comícios, que acionam um filminho automaticamente uma vez que o comício termina). Todas as correções a posts já publicados, a não ser as insignificantes, como as ortográficas, são feitas com a rasura, de forma que o leitor saiba que o erro estava lá originalmente.

Já passei da fase de divulgar números de visitação, mas digamos o seguinte: este blog é acessado por um número de leitores que eu jamais imaginei possível quando inaugurei a bodega. Aos leitores que me acompanham desde o começo, muito obrigado. A você que chegou em algum momento posterior do percurso, obrigado. Aos comentaristas habituais: obrigadíssimo, vocês são a pulsação da coisa. Aos comentaristas que vêm regularmente para discordar de forma civilizada e apresentar outro ponto de vista, muito obrigado. Aos trolls, obrigado também, porque vocês me divertem.

Talvez uma boa maneira de comemorar seja pedir aos leitores que deixem na caixa de comentários o link ao seu post favorito (um link por comentário, senão ele fica preso como junk). Isso seria uma boa orientação para os novos, que acabam de chegar com as eleições. Se você lê o blog e nunca comentou, este é um bom momento para se apresentar.

Chego a Nova Orleans nesta sexta-feira à tarde, de volta do Chile e, a partir daí, entraremos em ritmo bem acelerado de cobertura da reta final das eleições. Penso fazer, inclusive, uma cobertura multimídia, com alguns vídeos com a minha cara barbuda dizendo trotskagens atleticanas.

É isso, então. Tim-tim. Parabéns pra nós. Seis anos nesta tranqueira, com postagens quase diárias, não é todo dia que se comemora.



  Escrito por Idelber às 19:12 | link para este post | Comentários (103)




Néstor Kirchner (1950-2010)

Começa daqui a pouco, na mítica Casa Rosada, o velório do ex-presidente argentino Néstor Kirchner. Se os méritos de um político se julgam pela sua capacidade de transformar o senso comum de seu tempo, não há como escapar da conclusão: Néstor foi um dos grandes. Ele mudou os paradigmas. Os mais jovens talvez não se lembrem, mas 2001 representou um colapso não só da economia argentina, mas de toda uma imagem de país letrado e europeizado, construída ao longo de 100 anos. A fuga de capitais foi fatal, dada a vulnerabilidade que em o menemismo deixara a nação. A descapitalização forçou uma corrida aos bancos que, por sua vez, levou o governo a impor o corralito, na prática um congelamento das contas bancárias. Famílias inteiras, de classe média, eram lançadas à mendicância. Multidões iradas tomaram as ruas. Fernando de la Rúa foge de helicóptero e quatro presidentes se sucedem em uns poucos dias.

Néstor havia sido militante da Juventude Peronista, advogado, prefeito de Río Gallegos e duas vezes governador de Santa Cruz, província isolada dos centros decisórios do país. Não era exatamente um político conhecido. Quando se candidatou, em 2003, o que mais se ouvia é que se tratava de uma "marionete" (títere) de Eduardo Duhalde. Obtém, no primeiro turno, 22%, conquistando uma vaga no segundo contra Menem, que conseguira 24%. Quando as pesquisas começam a indicar que Kirchner venceria com mais de 70% dos votos, Menem se retira da disputa. A pancadaria verbal que lhe dirige Néstor, acusando-o de irresponsável, por colocar em risco a democracia, já dava uma ideia do que seria o governo do sujeito: ele não tinha papas na língua.

701px-Kirchner_marzo_2007_Congreso.jpg


Desmoralizada no cenário internacional e afogada em dívidas, presidir a Argentina não era exatamente o sonho de consumo de um político. O que aconteceu dali em diante terá que ser bem narrado um dia pelos livros de história, mas não foi nada menos que fulminante e surpreendente. O novo presidente entrega uma banana ao FMI e começa a priorizar o mercado interno. Acusa dois membros da Suprema Corte de extorsão, promove seus impeachments e inicia a renovação que faria dela um modelo de aplicação de uma política de direitos humanos. Promove a aposentadoria compulsória de dezenas de oficiais das Forças Armadas envolvidos com torturas durante a ditadura. Dá prosseguimento à política iniciada por Alfonsín (e interrompida por Menem) de processar torturadores, só que agora com intensidade e frequência inauditas. O calote no FMI, paradoxalmente, aumenta o poder de barganha da Argentina, e sua dívida é reestruturada em um terço de seu valor nominal. Com uma retórica poderosa, que sempre foi parte integral de sua política, Néstor ia recuperando a autoestima do país. A inequívoca política de direitos humanos lhe conquistou a adoração dos grupos dedicados à causa. Não é de surpreender que ontem o povo tenha tomado a mítica praça.

Em 2007, quando conclui seu mandato, a Argentina havia se recuperado significativamente e Néstor contava com notáveis índices de aprovação. Mas o casal Kirchner surpreende o país anunciando que a candidata seria Cristina. Néstor continua trabalhando nos bastidores e conclui sua trajetória política como presidente da Unasur, posição na qual conquistou o respeito de todos os líderes da América do Sul, inclusive dos direitistas Uribe (Colômbia) e, depois, Piñera (Chile). Tinha uma enorme empatia com Lula, com quem, já em 2003, troca impressões sobre as ditaduras latino-americanas que ficariam marcadas na memória do mandatário brasileiro.

A truculência e o jogo de bastidores são parte da política peronista desde os anos 40. Néstor sabia usar o método como poucos. Elevou o "bate e sopra" à condição de arte da política. Sabia utilizar os inimigos comuns como instrumento para o fortalecimento de sua coalizão. A imensa desolação que tomou conta dos meus amigos argentinos residentes aqui no Chile tinha razão de ser: entre os membros do projeto de centro-esquerda que governa a Argentina desde 2003, Néstor era o mais bem situado nas pesquisas de opinião para as eleições de 2011. A dobradinha com Cristina estava em condições de oferecer dois fortes nomes à Presidência e ao Governo da Província de Buenos Aires. O comentário de Federico Galende, filósofo argentino residente em Santiago, diz tudo: era um realista como Alfonsín, mas sabia jogar.

Sempre é triste ver morrer um grande político mas, no caso de Kirchner, trata-se de nada menos que uma tragédia. O quadro sucessório para 2011 fica bem confuso sem ele, e o blog sinceramente espera que, passada a esperada trégua, esta desgraça não abra as portas para uma volta da direita. A alta popularidade de Néstor era um enorme triunfo da coalizão de centro-esquerda.

O blog deixa este modesto obituário como nota de reconhecimento a homem de coragem. Não são muitos os que teriam o valor de encarar o turbilhão que encarou Néstor em 2003. Diante do caos absoluto, ele levantou, sacudiu, deu a volta por cima. Não é pouco.


PS: A matéria feita pelo Jornal da Globo sobre Kirchner é uma coleção de infâmias sexistas.

PS 2: As buscas por PHA, Nassif, Vianna, Brizola e Biscoito já ultrapassaram as buscas pelos blogs UOL-Globo-Veja (incluídos Noblat e Reinaldinho).

PS 3: Amanhã o Biscoito completa seis anos de atividade (obrigado pela lembrança, Flávia). Ainda não sei se vale a pena comemorar o aniversário de um blog que ficou parado um ano. Parece trapaça com os números.



  Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post | Comentários (39)



terça-feira, 26 de outubro 2010

O maiô de Dona Marisa, ou: quem são os verdadeiros jecas do Brasil? por Rodrigo Nunes

Tendo recebido uma bolsa de estudos no exterior, passei quase todo o governo Lula distante do Brasil. Antes de meu retorno, no ano passado, minha única vinda ao Brasil desde 2003 fora por um mês, em janeiro de 2005. Num dos poucos momentos que tive na frente da televisão, acabei assistindo um programa (bastante conhecido) onde se discutiam os destaques do ano anterior. Muita coisa aconteceu em 2004, no Brasil e no exterior, mas uma das apresentadoras do programa optou por destacar “o maiôzinho da Dona Marisa”. Com tantos estilistas brasileiros de renome internacional, se perguntava, como pode a esposa do presidente usar uma coisinha tão jeca? Não foi nem a irrelevância da escolha, nem o comentário, mas o tom que mais me chamou a atenção: o desdém que não fazia o menor esforço em disfarçar-se, a condescendência de quem se sabe tão mais e melhor que o outro, que o afirma abertamente.

Veio-me imediatamente uma piada corrente durante as eleições de 1989, quando pela primeira vez Lula ameaçara chegar ao poder. Ele e Dona Marisa passam pela frente do Palácio Alvorada, e Lula diz a ela, “É aqui que vamos morar”; ao que Dona Marisa responde, “Ai, Lula, não! Essas janelas vão dar muito trabalho para limpar”. A piada explica tudo: no Brasil, uma camada da população tem sua superioridade sobre a outra tão garantida, que não vê necessidade de dissimular essa distância, mesmo em público. Ser ou não primeira-dama, aqui, é secundário; pode-se rir na TV da “jequice” de Dona Marisa do mesmo modo em que se faz troça do perfume que põe a empregada quando termina o trabalho, e pelo mesmo motivo – porque a patroa pode, e a subalterna, não.

Um mau momento de má televisão teve, para mim, a força de várias revelações. Em primeiro lugar, sobre o país em que eu então vivia, a Inglaterra. Um comentário desses, lá, receberia condenação pública. Alguém certamente acionaria o Ofcom, órgão que fiscaliza a imprensa, para exigir providências. Se fosse na BBC, rede pública de TV e rádio, talvez o autor fosse demitido. Não por atentar contra a esposa de uma autoridade, ou por essa bizarra “liturgia do cargo” que a cada tanto se invoca no Brasil, mas por ser uma manifestação pública de preconceito. O quê tem a ensinar o livre exercício desse preconceito sobre o Brasil? O que tem a ver com a grita (“Estalinismo! Chavismo! Retrocesso!”) cada vez que se fala em fiscalização da mídia, coisa corriqueira naqueles países (Reino Unido, Suécia, Portugal, EUA...) em que nossa elite não cansa de querer espelhar-se; e com que, até hoje, pouquíssimas sejam as instituições brasileiras públicas que se comparem, em qualidade de serviço, a uma BBC?

Nos anos 70, Edmar Bacha popularizou o termo “Belíndia” como descrição do país: um pouco de Bélgica e muito de Índia, o Brasil era muito rico para poucos e muito pobre para muitos. A auto-imagem que mantém os habitantes de nossa “Bélgica” consiste em ver os dois lados da moeda sem sua conexão necessária. Para esses, o verdadeiro Brasil é o deles – branco, remediado, educado. A “Índia” sem lei do lado de fora dos muros não somente existe por si só, sem nenhuma relação causal com a riqueza do lado de dentro, como é aquilo que atrasa o país; não fosse a plebe, já seríamos Bélgica, ou seja, já não seríamos principalmente Índia. A pobreza dos pobres não resulta da má distribuição da riqueza que se gera, pelo contrário: os pobres são culpados de sua própria pobreza. Mais do que isso, o potencial sub-aproveitado do país nada tem a ver com o a maioria da população ser sistematicamente excluída na educação, nos direitos, na renda; pelo contrário, “é por conta desse povinho que o país não vai para a frente”.

Essa é a cara de uma elite pós-colonial: crê-se um ser estranho na geléia geral da colônia, padecendo num purgatório de nativos indolentes e enfermidades tropicais. Comporta-se todo o tempo como se ainda tivesse a caravela estacionada ali na costa, pronta para zarpar de volta à metrópole. Mas sofre mais ainda porque, não muito no fundo, sabe que não pode voltar, e que chegando lá será apenas mais um subdesenvolvido, um imigrante, um “moreninho”, um jeca. Parte de sua truculência vem de saber que jamais será aquilo que quer ver no espelho, e que aquilo que menos quer ser é o que realmente é; de precisar provar para si que é diferente de quem exclui e discrimina, já que nunca será igual a quem gostaria de ser.

No fim das contas, ela sabe que sua verdadeira cara não é nem a das socialites da Zona Sul, nem dos intelectuais de Higienópolis, mas a do grileiro da fronteira agrícola, do “coroné” do agreste. E que, no fim das contas, o que a mantém no topo não são os rapapés de seus salões, mas o bangue-bangue de seus jagunços. Da modernidade do primeiro mundo a que gostariam de aceder, só o que lhes interessa são os sinais externos de consumo e distinção social, não o histórico de direitos sociais, democratização das instituições, criação de equipamentos públicos e reconhecimento de minorias e setores desfavorecidos. Seu modelo sempre foi menos a Bélgica, a Escandinávia, a Alemanha ou o Reino Unido, e mais o excesso kitsch de uma Miami, a opulência caipira de uma Dallas.

A falta de uma instituição como a BBC (ou boas escolas públicas) tem tudo a ver com essa maneira de desejar o desenvolvimento apenas o suficiente para manter as bases dos privilégios existentes. É a mesma dinâmica que vê crescerem, paralelamente, o crime organizado e a indústria dos condomínios fechados e da segurança privada: as camadas superiores da sociedade brasileira trocam direitos – inclusive o direito de desfrutar da cidade e de seus bens sem medo – por consumo. Da porta para dentro, luxo; da porta para fora, faroeste. Cada vez que um debate sobre democratização ou fiscalização da mídia é silenciado por acusações de autoritarismo, o que temos é a jagunçada defendendo os latifúndios comunicativos que algumas poucas famílias grilaram há um bom tempo. É de fazer rir a fingida consternação de alguns grupos e interesses com os riscos que hoje sofreriam as “instituições republicanas”, quando a história das instituições brasileiras no geral demonstra que elas sempre interessaram tão-somente na medida em que permitiam liberdade de ação para uns e limites para outros. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. A fragilidade institucional sempre foi não apenas instrumento de reprodução da desigualdade, como ainda é o que permite a manifestação explícita do preconceito. Modernidade à Daslu: o luxo “de primeiro mundo” sustentado pela sonegação de impostos; a finesse que se assenta na barbárie de um estado de natureza.

Haverá sido a distância, e a experiência de conhecer o quê foi a modernidade pela via da criação de direitos, que fez nosso preconceito social saltar-me aos olhos; mas também tenho a impressão que as coisas tenham, nestes anos, se tornado ainda mais escancaradas. A polarização seria, sem dúvida, uma consequência do governo Lula. Nem tanto do próprio presidente, de tendência (talvez demasiado) conciliadora, mas da dificuldade de aceitação, por parte de quem faz e consome a grande mídia de massa brasileira, do que aconteceu no país nos últimos anos. O crescimento econômico experimentado nos últimos anos foi a perfeita demonstração da falácia que culpava os pobres por sua própria pobreza, e a do país: ele não teria sido possível se a pobreza não tivesse caído 43% (20 milhões de pessoas), se 31,9 milhões (mais de meia França) não tivessem ascendido às classes ABC, ativando um mercado interno potentíssimo que permaneceria em potencial enquanto essas pessoas estivessem excluídas do consumo mais básico. Graças ao ciclo virtuoso que se formou foi possível, por exemplo, aumentar o orçamento da educação em 125%, expandir 42 universidades federais, criar 15 novas, construir mais escolas técnicas (240) que em todo o século anterior (140).

Mais importante que qualquer número: políticas como o Bolsa Família e o ProUni abrem a perspectiva de um ciclo virtuoso de criação de direitos. Tais ciclos, como demonstra o retrocesso brutal que a Europa atravessa, não apenas não são irreversíveis, como não se mantém sem a mobilização social que garanta sua expansão. Mas o fato de que hoje milhões de pessoas se percebam como detentoras de direitos a exigir do Estado, ao invés de clientes a trocar seus votos por favores de um “painho” na época da eleição, não apenas é um salto qualitativo para a democracia brasileira, como cria justamente as condições para novos saltos da organização popular. Construir direitos e instituições, no lugar do clientelismo e do casuísmo da república dos bacharéis: se essa tendência se consolida, terá sido a maior herança desses últimos oito anos. É pouco ainda, mas já é muito.

O que para alguns é difícil de engolir é que, quando o Brasil finalmente deu um passo para deixar de ser Belíndia, não foi por obra da “Bélgica”, mas da “Índia”. Para quem se projetava no sangue azul de Odete Roitman, custa aceitar que a cara do Brasil hoje é de Raquel Acioli, a ex-marmiteira que batalhou para subir na vida da novela Vale Tudo. Os episódios mais lamentáveis dessa eleição – os emails e mensagens apócrifos, o uso do telemarketing na propagação de boatos (criação de Karl Rove nos EUA, depois seguida por John Howard na Austrália), a mobilização de um discurso conservador e obscurantista que culminou com fazer do aborto uma questão eleitoral pela primeira vez na história do país – são, mais uma vez, os punhos de renda rasgando a fantasia e abraçando o mais desbragado faroeste. Partido e candidato que um dia representaram uma vertente modernizante das classes média e alta de São Paulo, de quadros intelectuais e tecnocratas bem-formados, dissolveram-se na geléia geral em que quatrocentão e “painho”, uspiano e grileiro, socialite e “coroné” existem, desde sempre, em continuidade e solidariedade uns com os outros. As promessas desesperadas de ampliação do Bolsa Família vindas de quem até pouco tempo o desdenhava como “Bolsa Vagabundo”, ou a cortina de fumaça que se constrói ao redor do debate do pré-sal, indicam que, atualmente, é impossível eleger-se no Brasil negando certos direitos recém-descobertos por vastas parcelas da população. A elite, mais do que nunca, precisa esconder seu verdadeiro programa.

Resta-lhe, então, partir para um jogo que começou nos EUA nos anos 80, e cuja eficiência na Europa cresceu muito na última década: tirar a política do debate político e substituí-la pelos cochichos igrejeiros, pelo apelo a um passado mistificado e a um moralismo espetacular – que instrumentaliza os medos causados por um tecido social cada vez mais esgarçado e propõe falsas soluções simples e regressivas, ao invés de confrontar-se verdadeiramente com a complexidade crescente dos problemas. É um “fim da política” que cobre a política que realmente lhe está por trás. Assim, por exemplo, o governo inglês anuncia, na mesma semana, o perdão de uma dívida de 6 bilhões de libras da empresa Vodafone e um programa de cortes de serviços sociais maior que qualquer coisa jamais proposta por Margaret Thatcher. Ou, depois do mercado financeiro ter usado a crise grega para dobrar a União Européia com a ameaça de um ataque ao euro, volta-se a culpar os imigrantes pela sobrecarga de serviços sociais de orçamentos cada vez mais reduzidos – culminando com o recente apelo de Angela Merkel por “uma Europa de valores cristãos”.

Talvez seja apenas no momento em que a Europa regride que a elite brasileira poderá, enfim, realizar seu sonho: juntar-se a seus “iguais” de ultramar na vanguarda de um retrocesso que mobiliza o medo e o reacionarismo mais rasteiro contra direitos e instituições historicamente conquistados. Afinal, a “lavagem” dos votos da extrema-direita, pela qual o centro dá uma cara “respeitável” ao conservadorismo “selvagem”, tornou-se o maior negócio político de nossos tempos. (Quem sabe, mesmo, agora a extrema-direita comece a prescindir de intermediários: ver o PVV de Geert Wilders na Holanda.)

Rasgada a fantasia, fica tudo claro. Quem quer Estado apenas na medida em que este garante privilégios; quem tira os sapatos no aeroporto de Miami e entra na justiça para que o porteiro o chame de “doutor”; quem troca direitos por capacidade de consumo; quem sonega impostos e abomina as gambiarras e “gatos” das favelas; quem diz o que quer, denuncia todo questionamento como ameaça à liberdade de expressão, e então demite o funcionário que o faz ouvir o que não quer (como fez o Estadão com Maria Rita Kehl); quem se queixa da falta de autoridade e do “jeitinho”, mas suborna o policial e espera que as legislações ambientais ou trabalhistas não se apliquem aos seus negócios; quem ainda se comporta como se estivesse com a caravela ancorada, sem nenhum interesse no país a não ser o lucro rápido para partir de novo, e então se queixa que “esse país não vai para a frente” – esses são os verdadeiros jecas do Brasil. A boa noticia é que, pelo menos por hora, eles estão perdendo.

Rodrigo Nunes é doutor em filosofia pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, pesquisador associado do PPG em Filosofia da PUCRS (com bolsa PNPD – CAPES), e editor da revista Turbulence

PS de Idelber: Antonio Luiz Costa e La Pasionaria avisam, no Twitter, que a piada sobre as janelas e o maiô aconteceu quando Lula era candidato ao governo do estado em 1982. Continua valendo, claro, a argumentação do Rodrigo na sua essência, mas está corrigido o dado factual.



  Escrito por Idelber às 15:35 | link para este post | Comentários (77)




Um discurso histórico de Lula

Na avalanche de informações e escândalos própria ao período pré-eleitoral, é comum que acontecimentos muito importantes deixem de receber a atenção devida. Basta dizer que na semana passada, o anúncio do IBGE, de que havíamos atingido a menor taxa de desemprego da história da República, recebeu no Jornal Nacional aproximadamente dez segundos, enquanto sete minutos eram dedicados a uma bolinha de papel.

Neste espírito, convido os leitores que ainda não viram a que assistam esse discurso improvisado do "presidente analfabeto". É um pronunciamento histórico.






  Escrito por Idelber às 06:56 | link para este post | Comentários (43)



domingo, 24 de outubro 2010

Dom Angélico Sândalo Bernardino lê importante carta sobre as eleições

Um trecho:

INFELIZMENTE, destoando da orientação oficial da CNBB Nacional e Sul 1, irmão Bispo de Diocese localizada na grande São Paulo, na publicação, no início de julho de 2010, “ EM QUEM NÃO VOTAR “, após considerações sobre o aborto e posicionamentos do PT, afirma “ recomendamos a todos os verdadeiros cristãos a que não dêem seu voto à sra. Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam liberação do aborto”.

{...}

Foi o prato cheio de que a oposição à candidata à Presidência da República se serviu, de maneira facciosa,parcial, para instrumentalizar a Igreja, dividir comunidades, tornar temas religiosos, o aborto, focos principais de debates, levando muitos a crerem que votar em Dilma , é contrariar a orientação da Igreja Católica. Ora, isto é mentira, uma vez que a Igreja oficialmente não se posicionou a respeito de NOMES e PARTIDOS, PODENDO, POIS O CATÓLICO CONSCIENTEMENTE VOTAR em Dilma, em candidatos do PT. Contra a instrumentalização do aborto para fins eleitorais, ergueu-se valorosa a voz profética de D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, no artigo “ DESMONTE DE UMA FALÁCIA”.


Seja você religioso ou ateu, é uma bela carta, disponível na íntegra lá na Rede Brasil Atual. Caso prefira assistir à leitura de Dom Angélico, segue o vídeo abaixo.


Para variar, a nossa imprensa deu destaque às sandices de Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, de que o PT é o "partido da morte", e ignorou a voz lúcida de Dom Angélico Sândalo Bernardino.



  Escrito por Idelber às 09:46 | link para este post | Comentários (40)



sábado, 23 de outubro 2010

Folha de São Paulo publica a ficha policial falsa da bolinha de papel (cuja autencidade não pôde ser provada, mas também não pode ser negada)

Depois da grosseira montagem feita pela Escola Ali Kamel de "Jornalismo", que provocou embaraço e vergonha até mesmo na redação da própria Globo,



eis que o bolinhagate, que fez de Serra motivo de chacota até na imprensa argentina, se conclui agora com a publicação, ao melhor estilo Folha de São Paulo, da ficha policial falsa da bolinha de papel:


ficha-policial-falsa.jpg


PS: A desmontagem da palhaçada do Jornal Nacional foi feita por Daniel Florencio e a ficha policial falsa, ao estilo Folha, é obra do designer gráfico João Márcio Dias de Alencar.



  Escrito por Idelber às 10:57 | link para este post | Comentários (109)




Eventos deste sábado na campanha de Dilma

Se você está acessando este blog em Belo Horizonte na manhã do dia 23 de outubro, saia da frente do computador, porque é hora de ir para a Contorno! Confira abaixo os locais de concentração. Se você está em BH, mas acessando o blog à tarde ou à noite, conte-nos como foi o evento na caixa de comentários. Se você está em outra cidade brasileira, confira abaixo do cartaz a programação dos eventos Dilma neste fim de semana. Compareça, vista vermelho, leve sua bandeira, consiga material de campanha e converse com indecisos. É hora de ir para as ruas:

cartazabracocontornover.jpg


São Paulo está cheia de eventos neste sábado. Em primeiro lugar, os eventos com Dilma:

10:00 h Carreata Diadema
Concentração - Jardim Rosinha - Largo redondão - centro (final da Av. São José)
Caminhada com Dilma e Lula, às 10h Avenida São João, Centro (próximo ao Redondão do Rosinha).

11: 00 h - Carreata Carapicuíba
Concentração - Heliponto Helipark - Rua Fortunato Grilenzone, 417


Outros eventos em São Paulo:

às 9h: Ato com Lideranças Evangélicas da Capital em apoio a Dilma
Auditório Diretório Estadual – Rua Abolição, nº 297, Bela Vista

às 9h: Caminhada do Comitê de Igualdade Racial. Praça Patriarca, com a presença do ministro da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Eloi Ferreira Araújo.

às 10 h: Atividade de Mulheres do PPL (Partido Pátria Livre), na Avenida Paulista (em frente ao prédio da Gazeta)

10:30: Caminhada na Vila Madalena. Rua Fradique Coutinho, esquina com Rua Wisard.

Em Guarulhos:
às 9 h: Ato com Lideranças Evangélicas em apoio a Dilma, com a presença do Prefeito Sebastião Almeida.

Em Várzea Paulista
às 9 h: Caminhada com a presença do ministro dos Esportes, Orlando Silva. Rua Força Publica, nº 90

Em São Carlos:
às 9h: Mobilização no Comitê Suprapartidário – Rua Padre Teixeira, nº 2419, Centro

Em Jales:
às 9h30: Inauguração do Comitê Cristão Pró-Dilma, Verdade e Justiça, Rua Hum, nº 759, Centro

Ainda em Jales
às 9h: Ato Político na Associação Nipo Jalense - Rua 14, nº 2427, Centro, com a presença do ministro da Previdência, Carlos Eduardo Gabas

Em Ribeirão Preto
às 10 h: Plenária com Michel Temer, no Centro de Eventos Taiwan – Rodovia Ribeirão Bonfim, Salão Esmeralda, com a presença do ministro da Agricultura, Wagner Rossi.

Em Jundiaí:
às 11 h: Caminhada no Calçadão, com a presença do ministro dos Esportes, Orlando Silva

Em São Carlos
às 14h: Carreata, na Avenida Luciano Eduardo Félix, Parque Douradinho

Nos municípios da região de Itapecerica da Serra:
Caravanas Regionais, com adesivagem e panfletagem

CARAVANA A
9h - Vargem Grande Paulista – Centro
11h - Cotia
13h - Taboão da Serra (Estrada Kizaemon Takeuti, Jardim Pirajussara)
14h30 - Embu (em frente à paróquia do Jardim Santo Eduardo)

CARAVANA B
9h - Embu-Guaçu (Praça Inácio Pires, atrás da Prefeitura)
11h - São Lourenço da Serra (Praça Central)
13h - Juquitiba (Praça Central)

ENCONTRO DAS CARAVANAS
15h - Ato Político em Itapecerica da Serra (em frente à fonte da Av. XV de Novembro)


Osasco - Encontro Virtual de Blogueiros e Twitteiros no Comitê Central da Dilma presidente, 15h, V. Yara. Concentração no Viaduto Metálico e caminhada até o Comitê.

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Rio de Janeiro, ainda neste sábado:

Lindberg Farias visita bairros do Rio (10:00 Tijuca - Pça Saens Pena; 12:00 Vila Isabel - Petisco da Vila; 14:00 Calçadão de Campo Grande e 16:00 em frente ao Shopping de Santa Cruz)

9h panfletagem e bandeiraço no calçadão de Campo Grande (Concentração no relógio marco zero).

10h30 militantes do PT de Copacabana, veteranos da antiga 5ª Zona, voltaram a ocupar a Galeria Menescal nas manhãs de sábado e estarão lá.

09h Mini comício na praça do Alcântara/São Gonçalo.

09h30 Caminhada no calçadão de Nova Iguaçu, concentração altura das Lojas Americanas.

10h Panfletagem no Saara.

10h Panfletagem na Praça Saens Pena.

10h Panfletagem na Praça do Méier.

10h Panfletagem na Avenida 28 de setembro (Petisco da Vila).

10h Panfletagem e Caminhada no Largo do Machado.

16h Panfletagem no Engenhão.

16-19h Panfletagem na Central do Brasil.

Atividade juventude e movimento negro, 9h, Piabeta/Magé

Panfletagem, 10h, Aterro do Flamengo

Banquinha na Praça da Matriz em São João de Meriti, 10h

Caminhada pelo Calçadão de Nova Iguaçu, 10h

Panfletagem LGBT na Farme de Amoedo, 20h

Panfletagem na Praça da Prefeitura em São João de Meriti, 19h


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Rio Grande do Sul:

BT_RS13.jpg

Em primeiro lugar, noticie-se que está lançado o site RS 13, que vai centralizar informações sobre a campanha de Dilma no Rio Grande.

Porto Alegre:

Caminhada da Cultura com Dilma às 11h, no Largo Glênio Peres.

Mutirão "Lugar de Mulher é na Presidência", às 10 h. Concentração: Praça do Bairro Tristeza (zona Sul de Porto Alegre) em frente à Igreja Nossa Senhora das Graças. Caminhada e panfletagem nas seguintes comunidades:

- Vila São Vicente Martir
- Vila São Gabriel
- Vila Nossa Senhora das Graças (Beco do Resvalo)


Canoas :

Caminhada, 10h, Centro (Tiradentes com XV de Janeiro)
Caminhada, 15h, Niterói (Santa Teresinha com Monte Castelo)

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Pernambuco:

Recife – Ato da Juventude com Dilma (passeio Ciclístico, Skateata, grupos de corredores, passeata), 15h, Saída do Parque da Jaqueira.

Lagoa de Itaenga, às 8:00 - Panfletagem na Feira Livre do Centro da Cidade.

Caruaru, às 9 h, panfletagem e adesivaço na mítica Feira.

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Bahia:

Carreata em Ilhéus, às 9 h.

Carreata em Itabuna às 11:00h

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Alagoas:

Maceió – Plenária de mobilização, 14h, Comitê Dilma da Fernandes Lima.

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Sergipe: Eventos do Na Rua com Dilma:

6h30 – Feira da Coroa do Meio – Nucleo dos Petroleiros

08hs- Panfletagem nos Mercados. Concentração : G Barbosa do Mercado.

09h- Carreata em Aracaju (Governador)

Concentração: Colina do Santo Antônio

17h- Carreata em Simão Dias (Governador)

17h Carreata na Barra dos Coqueiros (Marcio Macedo e Setoriais)

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Isso foi o que eu consegui compilar daqui, daqui, daqui e daqui. Se você foi a algum desses eventos, dê o seu testemunho. Se quiser acrescentar notícia sobre algum outro, fique à vontade.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post | Comentários (43)



quinta-feira, 21 de outubro 2010

Fita crepe é o caralho! Meu nome é bolinha de papel, porra!

O dia de hoje mereceria um post caprichado. Ontem, dois conglomerados máfio-midiáticos brasileiros aprofundaram um pouco mais o seu processo de ridicularização. De manhã, a Folha foi desmoralizada pelo texto de sua própria reportagem e, à tarde, pela Polícia Federal. À noite, a Rede Globo de Televisão foi desmoralizada por ... uma bolinha de papel.

Haveria muito que se escrever, mas eu sou obrigado a dar outra pausa no blog. Viajo de novo no domingo, desta vez para o Chile, convidado a um encontro internacional de especialistas na obra de Walter Benjamin, que se reunirão em Santiago, em evento comemorativo dos 70 anos da morte do grande pensador alemão. Nas próximas duas semanas, então, o calendário do blog é o seguinte: até domingo estarei escrevendo a minha apresentação e até quinta-feira que vem estarei no Chile. Haverá atualizações no blog, mas elas acontecerão de forma bem lenta e precária. Na quinta-feira, eu retorno do Chile e, aí sim, entro de sola na cobertura da reta final da campanha e da apuração dos números de domingo, esperando que Dilma me dê aquele presente de aniversário no dia 31. Enquanto eu estiver a maior parte do tempo offline, volta a moderação de comentários. E a aprovação vai demorar, portanto, paciência.

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Deixo com vocês alguns links que valem a pena serem lidos. Primeiro, sobre o episódio da quebra do sigilo da filha de José Serra, leia:


Na Rede Brasil Atual: A Folha desmente a Folha. E não assume.

No Renato Rovai: Folha livra Aécio e implica PT.


Depois de a Folha estampar manchete tentando implicar o PT numa quebra de sigilo oriunda de guerra intra-tucana (PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma), o UOL foi obrigado a encontrar um cantinho para a nota da Polícia Federal que desmascara o jornal.


O que a investigação da Polícia Federal confirmou é aquilo que, de forma alegórica e críptica, mas evidentemente compreensível para quem tivesse um pouquinho de familiaridade com o tema, O Biscoito Fino e a Massa relatou no longínquo dia 03 de setembro, quando toda a imprensa brasileira armava um auê com a acusação que José Serra fez a Dilma, e da qual, agora, ele não quer nem ouvir falar. Se o que relatei aqui no dia 03 não fosse a verdade, não teria ocorrido tanta confusão lá na Av. Getúlio Vargas, 291, não é mesmo, caros amigos do Estado de Minas?


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Sobre o episódio de Campo Grande, sugiro, em primeiro lugar, que você assista ao vídeo do SBT:



Depois de passear pelas mentiras de Noblat, mentiras da Veja, mentiras de Indio, mentiras da Globo, entenda por que Serra levou tantos seguranças ao evento em Campo Grande lendo a explicação de Flávio Loureiro acerca do ódio que mantêm por ele os trabalhadores conhecidos como mata-mosquitos, cujo sindicato se localiza precisamente em Campo Grande. A reintegração desses trabalhadores, escorraçados por Serra na época em que era Ministro da Saúde, foi conseguida em 2005. Para quem não se lembra, os trabalhadores mata-mosquitos levaram uma enorme réplica de um mosquito da dengue à inauguração do comitê de Serra em 2002.

Depois, acompanhe, estarrecido, as declarações deslavadas de um médico que deveria ser imediatamente investigado pelo Conselho Federal de Medicina.

No Twitter, claro, a farsa de Serra, Globo e médico foi imediatamente ridicularizada. Bombaram durante toda a noite e chegaram ao topo dos Trending Topics as tags #boladepapelfacts e #SerraRojas (para quem não acompanha futebol: Rojas é um goleiro da seleção chilena que simulou ter sido atingido por um foguete no Maracanã, em episódio que nos rendeu uma capa de Playboy--'a fogueteira'- e que é lembrado até hoje pelos chilenos como uma das maiores vergonhas da história do futebol no país). Siga os links sobre as tags para deliciar-se com mais um espetáculo de criatividade tuiteira.

Não posso deixar de notar que minha querida Democracia Socialista arrasou ontem no Twitter. Quem iniciou a tag #SerraRojas foi o Deputado Doutor Rosinha e quem iniciou a tag #boladepapelfacts foi o Mateus Araújo, ambos ligados à corrente política petista com a qual este blogueiro também mantém suas relações de simpatia e preferência.

O título que escolhi para este post não foi ideia original minha: é cortesia d'Opetista, a quem copiei. Ele alude, para quem não se lembra, a uma famosa frase de Zé Pequeno no filme Cidade de Deus.

Volto, então, intermitentemente ao longo da próxima semana e com força total na próxima quinta. Agora eu preciso ir ali, me preparar para não fazer feio em Santiago, porque o time que estará lá é de primeira.



  Escrito por Idelber às 07:03 | link para este post | Comentários (95)



quarta-feira, 20 de outubro 2010

Belo Horizonte prepara o abraço à Contorno com Dilma

Acontece em Belo Horizonte, neste sábado, dia 23/10, com concentração a partir das 9:30h da manhã até as 12h, o abraço à Contorno com Dilma. A ideia não foi minha, mas surgiu aqui no Biscoito e o blog convoca todos os leitores belo-horizontinos encarecidamente: se você gosta deste espaço, se alguma vez, alguma coisa que escrevi lhe serviu de algo, se você tem apreço pela comunidade que montamos aqui, faça-me este favor. Dedique algumas horas dos próximos três dias a telefonar para amigos, parentes e conhecidos, e ajudar na convocação do ato. Se você não mora em Belo Horizonte, mas tem amigos ou parentes por lá, você pode ajudar também. Eu prometo fazer minha parte, telefonando aos que não usam a internet com frequência.

É muito importante sair às ruas e conversar com outros eleitores neste momento.

Aqui vão os mapinhas dos treze pontos de concentração:

contorno-com-dilma.jpg

contorno-com-dilma-2.jpg




Aqui vão as informações que você pode precisar para ajudar na organização do ato. O comitê da Dilma fica na Rua Santa Catarina, 846 - Lourdes. O email é casadilma arroba gmail ponto com. O email criado pelos organizadores do evento é contornocomdilma arroba gmail ponto com.

O Diretório Estadual do PT fica na Rua Bernardo Guimarães, 3087, Barro Preto, Telefone: 31-3115-7613. O Diretório Municipal do PT fica na Rua Timbiras, 2330, Lourdes, Telefax 31-3291-5997. O PCdoB de Minas fica na Rua Mucuri, 69, Floresta (Fone: 31-3214-0068), ali nas imediações do Amarelinho. É uma linda e acochegante casa, por sinal, onde este trotskista sempre foi muito bem-vindo.

A acumulação de forças para o ato de sábado vai contar com um evento na UFMG. Na sexta-feira, dia 22, às 11 h, o Ministro da Educação, Fernando Haddad, vai palestrar na Faculdade de Educação (campus) sobre “Desafios e possibilidades da educação brasileira”. Haverá panfletagem e bandeirada das 7:30 às 8:30, das 11 às 13hs e das 17 às 19hs, nas portarias da Antônio Carlos e da Catalão. A UFMG, minha alma mater, está em peso com Dilma. Um ex-Reitor e dois ex-Vice-Reitores escreveram um belo texto de apoio também.*

Fica aqui o convite, então, para que você nos ajude a fazer do evento de sábado um sucesso. Ligue para os amigos e parentes, e se mande para a Contorno no sábado de manhã. Peço aos leitores do blog que deixem esta caixa de comentários para mensagens relacionadas à organização e divulgação do abraço à Contorno, ou notícias sobre eventos similares em outras cidades.

Organizadores, se eu puder fazer algo mais, me avisem, por favor.

*Texto corrigido. Obrigado, Maria.



  Escrito por Idelber às 05:44 | link para este post | Comentários (43)



terça-feira, 19 de outubro 2010

Para você, eleitor indeciso, por Ricardo Lins Horta

Ricardo Lins Horta escreveu este texto, recheado de fontes. Ele é dirigido aos leitores indecisos. Fique à vontade para repassá-lo mas, por favor, preserve os links. Eles são a fundamentação do argumento. Se você não consegue copiar o post mantendo os links, escreva-me e eu lho envio por email.

********
Esta mensagem é dedicada a você, eleitor consciente e crítico, cujo voto é fundamentado em argumentos, que ainda está indeciso.

Ela é dividida em tópicos para facilitar: você pode ir direto onde lhe interessa.

Tudo o que será exposto nesta mensagem terá dados e respectivas fontes (clique nos links), diferentemente de tantos spams eleitorais e correntes apócrifas que surgem por aí.

Se você discordar de algo - o que é perfeitamente legítimo - o debate poderá se dar em cima de evidências, em vez de boatos e achismos.

Os argumentos defendidos são:

Tópico 1: Não é verdade que houve "aparelhamento da máquina administrativa" na Era Lula;

Tópico 2: Não é verdade que "houve mais corrupção no governo Lula"; pelo contrário, os últimos 8 anos foram marcados por um combate inédito a esse mal;

Tópico 3: Não é verdade que "a economia foi bem no governo Lula só porque este não mudou a política econômica de FHC";

Tópico 4: Não é verdade que o governo Lula "enfraqueceu as instituições democráticas"; pelo contrário, hoje elas são muito mais vibrantes e sólidas;

Tópico 5: A campanha de José Serra é baseada nas fanáticas campanhas da direita norte-americana, daí o perigo de referendá-la com seu voto.



Tópico 1: Não é verdade que houve "aparelhamento da máquina administrativa" na Era Lula;
Você já deve ter ouvido por aí, tantas vezes, que o PT e o governo Lula "aparelharam o Estado", usando dos cargos em comissão para empregar amigos, apaniguados e militantes, certo?

Pois bem, então lhe perguntamos: quantos são esses cargos em comissão no Poder Executivo federal? São 200 mil, 80 mil, 20 mil? Você faz ideia de qual é esse número preciso?

Primeiramente, acesse este documento aqui: o Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento, última edição, de julho deste ano.

Vejamos: na página 33, você pode ver que há hoje, no Executivo federal, um total de 570 mil servidores civis na ativa.

Os ocupantes de DAS (cargos de direção e assessoramento superior) são 21,6 mil (página 107).

Porém, os de recrutamento amplo, ou seja, aqueles que foram nomeados sem concurso, sem vínculo prévio com a administração, são quase 6 mil (página 109), ou pouco mais de 1% do total de servidores civis. Se você considerar apenas os cargos que são efetivamente de chefia (DAS 4, 5 e 6), não chegam a mil e quinhentos.

Parece bem menos do que se diz por aí, não é mesmo? Agora vamos lá: para que servem esses cargos? Não custa dizer o óbvio: em democracias contemporâneas, o grupo que ganha o poder via eleições imprime ao Estado as suas orientações políticas. Em alguns países, o número de comissionados é maior (caso dos EUA); em outros, menor (como na Inglaterra). É natural que seja assim.

O que dizem os estudos internacionais sérios sobre a máquina administrativa brasileira? Vá aqui e baixe um estudo da OCDE sobre o tema. No Sumário Executivo, você verá que o Brasil não tem servidores públicos em excesso, embora o contingente de servidores esteja em expansão e ficando mais caro; que há necessidade de servidores sim, para atender às crescentes demandas sociais; que uma boa gestão de RH é essencial para que isso se concretize; e que o governo federal deve ser elogiado pelos seus esforços em construir um funcionalismo pautado pelo mérito.

Vamos então falar de meritocracia? O que importa é que o governo Lula perseguiu uma política de realização de concursos e de valorização do servidor público concursado sem precedentes. Basicamente, com os novos concursos, a força de trabalho no serviço público federal retomou o mesmo patamar quantitativo de 1997. A maior parte dos cargos criados pelo PT, porém, foi para a área de educação: para as universidades e institutos técnicos já existentes ou que foram criados. Volte no Boletim Estatístico e veja a página 90, sobre as novas contratações em educação. Houve muitos concursos para Polícia Federal e advocacia pública, além de outras áreas essenciais para o bom funcionamento do Estado.

O governo Lula regulamentou os concursos na área federal (veja os arts.10 a 19 deste Decreto), recompôs as carreiras do ciclo de gestão, dotou as agências reguladoras de técnicos concursados (veja a página 92 do Boletim Estatístico), sendo que nos tempos de Fernando Henrique, elas estavam ocupadas por servidores ilegalmente nomeados.

E então? você ainda acha que houve inchaço da máquina pública? Dê uma olhada nos dados deste estudo aqui.

E os tucanos, que alegam serem exímios na gestão pública? O que têm para mostrar?

Nos tempos de FHC, o contingenciamento levou à sistemática não realização de concursos. Para atender às demandas de serviço, a Esplanada nos Ministérios se encheu de terceirizados, temporários e contratados via organismos internacionais, de forma ilegal e irregular. Eram dezenas de milhares deles. Em 2002, apenas 30 servidores efetivos foram nomeados! O governo Lula teve de reverter isso, daí a realização de tantos concursos públicos.

Você sabia? O Estado de São Paulo, governado por José Serra, tem proporcionalmente mais ocupantes de cargos em comissão por habitante do que o governo federal.

E os técnicos, concursados, como são tratados por lá? Bem, eles não estão muito felizes com o Serra não.

Talvez porque as práticas que o PSDB mais condena no governo federal sejam justamente aquelas que eles praticam no governo estadual...



Tópico 2: Não é verdade que "houve mais corrupção no governo Lula do que no FHC"; pelo contrário, os últimos 8 anos foram marcados por um combate inédito a esse mal;
Muitos eleitores revelam a sua insatisfação com o governo Lula enumerando casos como o mensalão, as sanguessugas, Erenice Guerra, Waldomiro Diniz, Correios. Porém, uma memória que não seja curta pode se lembrar de casos como SUDAM, SUDENE, Anões do Orçamento, mensalão da reeleição, SIVAM, etc, para ponderar que mais do que exclusividade deste ou daquele governo, escândalos de corrupção são um mal da nossa cultura política.

Cientistas sociais sabem que é muito difícil "medir" a corrupção. Como a maior parte dela nunca vem à tona, não chega a ser descoberta, noticiada e investigada, nunca se tem uma noção clara do quanto um governo é realmente corrupto. O que importa, então, é o que um governo faz para combater essa corrupção. E nisso, o governo Lula fica muito bem na fita.

Vamos começar pela Polícia Federal. Logo no início do governo, foi feita uma limpeza no órgão (até a revista Veja chegou a publicar uma elogiosa reportagem de capa). Desde então, foram realizados uma série de megaoperações contra corruptos, traficantes de drogas, máfias de lavagem de dinheiro, criminosos da Internet e do colarinho branco (veja uma relação dessas operações aqui). Só em 2009, foram 281 operações e 2,6 mil presos. Desde 2003, foram quase dois mil servidores públicos corruptos presos. Quem compara os números não pode negar que a PF de FHC não agia, e que a PF de Lula tem uma atuação exemplar.

E a Controladoria-Geral da União? Inicialmente, FHC criou a tímida Corregedoria-Geral da União. Foi Lula que, a partir de 2003, realizou concursos públicos para o órgão e expandiu sua atuação. Hoje, a CGU é peça-chave no combate à corrupção. Graças ao seu trabalho, quase 3 mil servidores corruptos já foram expulsos. A CGU contribuiu no combate ao nepotismo e zela pelo emprego das verbas federais via sorteios de fiscalização. E o Portal da Transparência, você conhece? Aquele "escândalo" do mau uso dos cartões corporativos só apareceu na imprensa porque todos os gastos das autoridades estavam acessíveis a um clique do mouse na Internet.

Vamos ficar nesses casos, mas poderíamos citar muitos outros: o fortalecimento do TCU como órgão de controle, um Procurador-Geral da República que não tem medo de peitar o governo (o do FHC era chamado de "engavetador-geral da República", lembra-se?), o Decreto contra o nepotismo no Executivo Federal. Numa expressão, foi o governo Lula quem "abriu a tampa do esgoto".

Se uma pessoa acreditar menos numa mídia que é claramente parcial, e mais nas evidências, a frase "o governo Lula foi o mais republicano da nossa história" deixará de parecer absurda. Que tal abrir a cabeça para isso?


Tópico 3: Não é verdade que "a economia foi bem no governo Lula só porque este não mudou a política econômica de FHC";
Quando se fala em política macroeconômica implantada por FHC, refere-se geralmente ao tripé câmbio flutuante, regime de metas de inflação e superávit primário. Vamos poupar o leitor do economês: basicamente, o preço do real em relação ao dólar não é fixo, flutuando livremente; o Banco Central administra os juros para manter a inflação dentro de um patamar; e busca-se bons resultados nas transações fiscais para pagar as contas do governo.

Nem sempre foi assim, nem mesmo no governo FHC: até 1998, o câmbio era fixo. Todo mundo se lembra que, em janeiro de 1999, a cotação do dólar, que valia pouco mais de um real, subitamente dobrou. Talvez não se lembre que isso ocorreu porque FHC tinha mantido artificialmente o câmbio fixo durante 1998, para ganhar a sua reeleição - que teve um custo altíssimo para o país - e logo depois, vitorioso, mudou o regime cambial (no que ficou conhecido como "populismo cambial"). O regime de metas de inflação foi adotado só depois disso. Ou seja, FHC não só não adotou uma mesma política macroeconômica o tempo em que esteve no Planalto, como também deu um "cavalo-de-pau" na economia, que jogou o Brasil nos braços do FMI, para ser reeleito.

Que política macroeconômica de FHC então é essa, tão "genial", que o Lula teria mantido? A estabilidade foi mantida, sim, e a implementação do Plano Real pode ser atribuída ao governo FHC (embora Itamar Franco, hoje apoiador de Serra, discorde disso).

Mas Lula fez muito mais do que isso. A inflação não voltou: as taxas de inflação foram mantidas, entre 2003 e 2008, num patamar inferior ao do governo anterior. E com uma diferença: a estagnação econômica foi substituída por taxas de crescimento econômico bem maiores, com redução da dívida pública.

A alta do preço das commodities no mercado externo favoreceu esse quadro (reduzindo a inflação de custos), mas não foi tudo. O crescimento da economia também foi favorecido pelo crescente acesso ao crédito: em 2003, foi criado o crédito consignado, para o consumo de massa de pessoas físicas - e deu certo, puxando o crescimento do PIB; o BNDES se tornou um agente importantíssimo na concessão de crédito de longo prazo (veja esta tabela), induzindo outros bancos a paulatinamente fazerem o mesmo.

Os aumentos reais do salário mínimo e os benefícios do Bolsa Família foram decisivos para uma queda da desigualdade social igual não se via há mais de 40 anos: foi a ascensão da classe C.

Isso tudo é inovação em relação à política econômica de FHC.

E quando bateu a crise? Aí o governo Lula foi exemplar. Ao aumentar as reservas em dólar desde o princípio do governo, dotou o país de um colchão de resistência essencial. Os aumentos reais do salário mínimo e o bolsa família possibilitaram que o consumo não se retraísse e a economia não parasse - o mercado interno segurou as pontas enquanto a crise batia lá fora. E, seguindo o receituário keynesiano - num momento em que os economistas tucanos sugeriam o contrário - aumentou os gastos do governo como forma de conter o ciclo de crise. Deu certo. E a receita do nosso país virou motivo de admiração lá fora.

No meio da pior crise global desde a de 1929, o Brasil conseguiu criar milhões de empregos formais. Provamos que é possível crescer, num momento de crise, respeitando direitos trabalhistas, sendo que a agenda do PSDB era flexibilizá-los para, supostamente, crescer.

Você ainda acha que tucanos são ótimos de economia e petistas são meros imitões?

Então vamos ao argumento mais poderoso: imagens valem como mil palavras.

Dedique alguns minutos a este vídeo, e depois veja se você estaria feliz se Serra fosse presidente quando a crise de 2008/2009 tomou o Brasil de assalto.

Se você tem mais interesse nessa discussão, baixe este documento aqui e veja como andam os indicadores econômicos do Brasil neste período de crescimento, inflação baixa e geração de empregos.



Tópico 4: Não é verdade que o governo Lula "enfraqueceu as instituições democráticas"; pelo contrário, hoje elas são muito mais vibrantes e sólidas;
Mostramos no tópico 2 que os órgãos de controle e combate à corrupção se fortaleceram no governo Lula. Além deles, os outros Poderes continuaram sendo independentes do Executivo. O Legislativo não deixou de ser espaço de oposição ao governo (que Arthur Virgílio não me deixe mentir), e lhe impôs ao menos uma derrota importante. O Judiciário... bem, além de impor ao governo derrotas, como no caso da Lei de Anistia, está no momento julgando o caso do mensalão, o que dispensa maiores comentários.

E a imprensa? Ela foi silenciada, calada, em algum momento? Uma imagem vale por mil palavras - clique aqui.

O que se vê, na verdade, é o oposto. Foi o Estadão, que se diz guardião da liberdade, quem censurou uma articulista por escrever este texto, favorável ao voto em Dilma.

Neste vídeo, uma discussão sobre as verdadeiras ameaças à liberdade de expressão.

Sobre democracia, é impossível não abordar um tema que foi tratado à exaustão neste ano de 2010: o terceiro Plano Nacional dos Direitos Humanos, PNDH-3.

Muito se escreveu sobre seu caráter "autoritário", sobre a "ameaça" que ele representaria à democracia. Pouco se escreveu sobre o fato de ele ser não uma lei, mas um Decreto do Poder Executivo, incapaz, portanto, de gerar obrigações em relação a terceiros. Não se falou que se tratava de uma compilação de futuros projetos de governo, que teriam que passar pelo crivo do Poder Legislativo. Não foi mencionado que ele não partiu do governo, mas de uma Conferência Nacional, que reuniu os setores da sociedade civil ligados ao tema. E pior, a imprensa deliberadamente omitiu que seus pontos polêmicos já estavam presentes nos Planos de Direitos Humanos lançados no governo FHC.

Duvida? Leia este texto e este aqui. Ou ainda, veja com seus próprios olhos: neste link, os três PNDH's.

Olha lá, por exemplo, a temática do aborto no PNDH-2, de 2002 (itens 179 e 334).

Por fim: você realmente acha que um governo que traz a sociedade civil para discutir em Conferências Nacionais, para, a partir delas, formular políticas públicas, é antidemocrático? Pense nisso.


Tópico 5: A campanha de José Serra é baseada nas fanáticas campanhas da direita norte-americana, daí o perigo de referendá-la com seu voto.
Quem acompanhou as eleições de 2004 e 2008 para a Presidência dos Estados Unidos sabe quais golpes baixos o Partido Republicano - aquele mesmo, conservador, belicista, ultrarreligioso - utilizou para tentar desqualificar os candidatos do Partido Democrata. Em 2004, John Kerry foi pintado como o "flip flop", o "duas caras". Em 2008, lançaram-se dúvidas sobre a origem de Obama: questionaram se ele era mesmo americano, ou se era muçulmano, etc. Em comum, uma campanha marcada pelo ódio, pela boataria na Internet, pela disseminação do medo contra o suposto comunismo dos candidatos da esquerda e a ameaça que representariam à democracia e aos valores cristãos.

Você nota aí alguma coincidência com a campanha de José Serra, a partir de meados de setembro de 2010?

Não?

Então vamos compilar algumas acusações, boatos e promessas que surgiram nas ruas, na internet, na televisão e nos jornais, com o objetivo de desconstruir a imagem da candidata adversária, ao mesmo tempo em que tentam atrair votos com base em mentiras e oportunismo.

Campanha terceirizada:
Panfletos pregados em periferias associaram a candidatura de Dilma a tudo o que, na ótica conservadora, ameaça a família e os bons costumes;
Panfletos distribuídos de forma apócrifa disseram que Dilma é assassina, terrorista e bandida, com argumentos dignos da época da Guerra Fria;
E você acha que isso foi iniciativa isolada de apoiadores, sem vínculo com o comando central da campanha? Sinto lhe informar, mas não é o caso: é o PSDB mesmo que financiou e fomentou esse tipo de campanha de baixo nível.

Oportunismo religioso:
- José Serra distribuiu panfletos em igrejas, associando seu nome a Jesus Cristo;
- José Serra pagou campanhas de telemarketing para associar o nome de Dilma ao aborto;
- Até hino em igreja evangélica o Serra cantou;
- José Serra começou a ir a missas constantemente, de forma tão descarada que chamou atenção dos fiéis;

Promessas de campanha oportunistas:
- O PSDB criticou o Bolsa Família durante boa parte do governo Lula; mas agora, José Serra propõe o 13º do Bolsa Família;
- O PSDB defende a bandeira da austeridade fiscal e da contenção dos gastos públicos - foi no governo FHC que se criou o "fator previdenciário"; mas para angariar votos, Serra prometeu um salário mínimo de 600 reais e reajuste de 10% para os aposentados;
- O PSDB criticou o excesso de Ministérios criados por Lula, mas nesta campanha, Serra já falou que vai criar mais Ministérios;
- O DEM do vice de Serra ajuizou ação no STF contra o ProUni, mas agora diz que defende o programa;
- O PSDB se pintou de verde para atrair os eleitores de Marina no 1º turno, mas é justamente o partido de preferência da bancada ruralista e dos desmatadores da Amazônia;

Incoerência nas acusações:
- Serra acusou a Dilma de ser duas caras, mas ele mesmo entrou em contradição sobre suas relações com o assessor Paulo Preto;
- Serra tentou tirar votos de Dilma dizendo que ela era favorável ao aborto, sendo que ele, como Ministro, regulamentou a prática no SUS;
- Mônica Serra chamou Dilma de "assassina de crianças", sendo que ela mesma já teve que promover um aborto;
- José Serra nega que seja privatista, mas já foi defensor das privatizações, tendo o governo FHC a deixado a Petrobras em frangalhos;
- Serra acusa Dilma de esconder seu passado, mas ele mesmo esconde muita coisa;
- A campanha de Serra lança dúvidas sobre o passado de resistência de Dilma, mas omite que dois dos seus principais apoiadores, Fernando Gabeira e Aloysio Nunes Ferreira, pegaram em armas na resistência contra a ditadura, e que ele, Serra, também militou numa organização do tipo;
- Serra associa Dilma a figuras controversas como Renan Calheiros, Fernando Collor e José Sarney, mas esconde o casal Roriz, Roberto Jefferson, Paulo Maluf, ACM Neto, Orestes Quércia e outros apoiadores nada abonadores. Aliás, antes do Indio da Costa (que aliás pertence a uma família de tutti buona gente), quem era cotado para vice dele era o Arruda, do mensalão do DEM, lembra-se?

Isso sem citar os boatos que circulam nas ruas, nos ônibus, nas conversas de bar e entre taxistas.

E então: você ainda acha que a campanha de Serra é propositiva, digna, limpa? Um candidato que se vale de expedientes tão sujos para chegar ao poder merece o seu voto?



Por fim: então por que votar em Dilma Rousseff?

Se você está disposto a dar uma chance para Dilma nestas eleições e quer saber bons motivos para tanto, remetemos aos três textos abaixo.

http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7171

http://www.amalgama.blog.br/10/2010/para-voce-que-nao-votou-na-dilma/ (especialmente para quem votou em Marina no 1º turno)

http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/10/10/frei-betto-dilma-e-a-fe-crista/ (se você acha que a questão religiosa importa, quando bem utilizada no debate eleitoral)

Boa leitura e boa reflexão: e um desejo para que a campanha, doravante, seja marcada pelo debate de projetos de país, propostas concretas e dados, não por calúnias, boatos e achismos.



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (183)



segunda-feira, 18 de outubro 2010

Serra utiliza funcionárias da Secretaria de Educação de SP em horário eleitoral

O programa do candidato José Serra, apresentado na noite do dia 15 de outubro, traz algumas imagens interessantes, que aguçaram a minha curiosidade e me levaram a uma pesquisa que trouxe curiosos resultados. Para quem não tem paciência de ver o vídeo até o final, pule para o minuto 04:10 e comece a observar a “sala de aula” do programa de Serra:

serra-programa-1.jpg



Curiosamente, não há um único fio saindo dos laptops retratados no programa de Serra. Até aí, nada de extraordinário. Entendemos que se trata somente de uma simulação. Afinal de contas, o sujeito que inventou a favela de plástico e a Elba que não é Elba não teria nenhum problema em simular o laptop de bateria infinita.

Mas impõem-se algumas outras perguntas sobre os componentes do vídeo. Quem são esses alunos? Essa é uma aula de quê? Onde eles se encontram? Onde isso foi filmado? Quando? Aí a coisa começa a ficar bonita e interessante mesmo. Por volta do minuto 04:48, vemos a seguinte imagem:

serra-programa-2.jpg

A “aluna” do vídeo de José Serra é ninguém menos que Silvia Galletta, funcionária de alto cargo que trabalha na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Silvia Galetta é Gerente de Apoio Pedagógico da Fundação para o Desenvolvimento da Educação da Secretaria de Educação de São Paulo. Ela responde ao Sr. João Thiago de Oliveira Poço. O organograma está disponível neste pdf. Repito: uma funcionária de alto cargo na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo aparece no vídeo eleitoral de José Serra simulando ser uma professora ou aluna. Ela trabalha no prédio da praça da República. Será que o vídeo foi gravado em hora de expediente?

Mas as interessantes simulações não terminam aí. Por volta do minuto 04:40, vemos outra imagem:

serra-programa-3.jpg

Quem é a “professora” que aparece no horário eleitoral de Serra explicando as maravilhas do seu projeto educacional? Outra funcionária paga com o dinheiro do contribuinte paulista, desta vez Nely Aparecida Silva, concursada na Fundação para o Desenvolvimento da Educação. Ela também está locada na Secretaria da Educação, no prédio da Praça da República.

Em que horário em que foi gravado o vídeo? As citadas funcionárias participaram de livre e espontânea vontade ou terá havido, digamos, algum outro estímulo? Elas estão cientes de algum impedimento legal regulando a participação de funcionários públicos em horário eleitoral? De onde vieram os laptops? Quantos outros participantes deste vídeo são funcionários públicos locados na Secretaria de Educação?

Com a palavra, o Sr. José Serra.



  Escrito por Idelber às 12:53 | link para este post | Comentários (68)



domingo, 17 de outubro 2010

Áudio da CBN com o vexame de José Serra e Tasso Jereissati em Canindé (CE)

O ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, provocou tumulto com um padre que se posicionou contra a campanha de boatos utilizando a Igreja Católica e o aborto.

A confusão ocorreu durante compromisso de campanha do candidato tucano à Presidência, José Serra, na Basílica de São Francisco das Chagas em Canindé, no Ceará. O ex-governador tem montado uma agenda religiosa neste segundo turno, tentando se aproveitar da campanha de boatos contra a adversária, a petista Dilma Rousseff.

O problema começou quando o padre disse que eram falsos os panfletos que circulavam pela igreja afirmando que Dilma é favorável ao aborto e às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Foi então que Jereissatti se irritou, afirmando que um “padre petista” como aquele estava “causando problemas à igreja.” De acordo com a reportagem da Agência Brasil, os administradores da paróquia não informaram o nome do padre.

O texto acima é da Rede Brasil Atual, que mostra mais um grosseiro episódio de exploração da religião por parte de José Serra nesta campanha.

O Biscoito acrescenta o áudio da CBN com o relato do vexame:



  Escrito por Idelber às 18:02 | link para este post | Comentários (19)



sexta-feira, 15 de outubro 2010

Seminário Mindlin: confirmando o convite

Este post é simplesmente para reforçar o convite aos paulistanos: acontece hoje, sexta-feira, na Casa de Cultura Japonesa (Av. Prof. Lineu Prestes, 159, no campus da USP), uma mesa-redonda com a minha presença e as de Roberto Taddei e Maria Clara Paixão de Sousa, sobre o tema "Novos olhares: Leitores na Biblioteca Digital". Ela é parte do Seminário Mindlin, organizado pelo maravilhoso projeto Brasiliana USP.

O evento começa às 14 h e a minha ideia é falar um pouco da experiência da leitura de blogs. Alguns leitores me perguntaram sobre a possibilidade de transmissão pela internet. O colóquio está sendo transmitido pelo IPTV-USP mas, pelo que entendo, a coisa só rola em Windows Media Player. Em todo caso, se você está em São Paulo e tem interesse no tema, o mais seguro é aparecer por lá mesmo.

Como eu estarei em trânsito no fim de semana, esta caixa está fechada e a moderação de comentários está instalada para os outros posts. Eu devo voltar ao blog no domingo à noite, com observações sobre o debate presidencial Folha/Rede TV!. Entramos, pois, em breve recesso de 72 horas.

Deixo meu agradecimento a todos os que me acolheram, hospitaleiros, aqui em São Paulo, muito especialmente ao Guaciara. Valeu, Sampa.



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post



quinta-feira, 14 de outubro 2010

O ambientalismo e o segundo turno das eleições

Pode-se argumentar que o governo Lula não foi longe como poderia ter ido na área de meio ambiente. Está aí o Blog do Sakamoto, vigilante e crítico, para nos lembrar de tudo o que ainda resta por ser feito. O que é indiscutível é que houve avanços enormes em relação ao governo tucano e que haveria grande retrocesso nesta área com a eleição de José Serra. Na questão do trabalho escravo, por exemplo, na qual o Sakamoto é um dos maiores especialistas brasileiros, há dois dados fundamentais. O governo Lula libertou quase seis vezes mais escravos que o governo FHC. Dilma assinou um compromisso contra o trabalho escravo. Serra, não.

Em setembro de 2009, a insuspeita Folha de São Paulo publicou reportagem de Marta Salomon mostrando que o desmatamento na Amazônia havia sido o menor desde 2004. Dez meses depois, já na Agência Estado, a mesma Marta Salomon, que faz jornalismo investigativo sério sobre o assunto, mostrava mais uma queda no desmatamento.

As conquistas nesse campo são méritos tanto da gestão de Marina Silva como da Carlos Minc, que continuou o trabalho de Marina. Não é segredo para ninguém que houve e há tensões no interior do governo, o que é perfeitamente natural num governo democrático de coalizão. Da mesma forma como há tensões entre o Ministério da Agricultura, mais alinhado com os interesses do agronegócio, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, mais pautado pelos interesses dos trabalhadores rurais, também há tensões entre as áreas do governo responsáveis pela implementação de projetos, como a Casa Civil, e o Ministério do Meio Ambiente. Essa pluralidade de perspectivas pode e deve ser defendida. O que não podemos é entregar o Palácio do Planalto a uma coalizão hegemonizada por aqueles denunciados por Carlos Minc nesta entrevista:







A Operação Arco de Fogo foi fundamental para a redução contínua do desmatamento na  Amazônia. A ação combinada da polícia Federal, IBAMA, ICMBio e Força Nacional de Segurança desarticulou a exploração ilegal de madeira, gerando forte resistência política. O principal articulador dessa resistência foi o PSDB, como afirma o próprio site do partido. Na ofensiva contra a Operação Arco de Fogo, os senadores da oposição se aliaram ao setor madeireiro, um dos principais interessados no bloquear o trabalho da PF, do IBAMA e da FNS.

Curiosamente, a votação de José Serra no Norte do Brasil no primeiro turno é proporcional ao desmatamento. No Arco de Fogo, no Pará, onde se concentram os municípios que mais desmatam, Serra venceu, como mostra o gráfico abaixo:


Serra-Madeireiros.jpg



A coalizão que apoia Dilma Rousseff não está livre de desmatadores, é verdade. Mas a diferença entre a composição total das forças que apoiam Dilma e aquelas que apoiam Serra é abissal. Trata-se de eleger um governo alinhado com um projeto político no qual figuras como Marina Silva e Carlos Minc tiveram papel protagônico ou ceder terreno para que as Kátias Abreu tenham a última palavra sobre as políticas agrícola e ambiental. Em sua esmagadora maioria, os desmatadores estão com Serra. Os ambientalistas, em nome de uma pureza inatingível, não podem se omitir. A opção é eleger Dilma e lutar por espaço dentro de seu governo como fizeram, no governo Lula, Marina Silva e Carlos Minc.



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quarta-feira, 13 de outubro 2010

O anti-Foucault, por Pedro Meira Monteiro

Meu amigo Pedro Meira Monteiro, de Princeton University, um dos grandes intelectuais brasileiros da nova geração, acaba de escrever este texto como reação a uma palestra de Mario Vargas Llosa em sua universidade. Pedi permissão para publicá-lo aqui no Biscoito.

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O anti-Foucault

Uma das muitas virtudes do pensamento conservador é lembrar, aos que temos a veleidade de afirmar-nos imunes à cantilena da conservação, que o nosso discurso é sempre guiado por fantasmas. De fato, não há voz que se sustente sem espectros. Quando falamos, a potência muitas vezes inconfessável que nos move é aquela que trabalha por materializar, diante de nós mesmos e dos que nos ouvem ou leem, um fantasma.

Anteontem, em Princeton, Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu uma palestra intitulada “Breve discurso sobre la cultura”. Em sua fala, o alvo era, sem nenhum pejo ou temor, a figura “sofística” de Michel Foucault.

Incomoda profundamente, a Vargas Llosa, que a figura da Autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, a qual, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele cuidadosamente utiliza no singular). Até aí, nada de propriamente surpreendente, já que a postura conservadora do escritor peruano é bastante conhecida. O que me surpreendeu foi ver um módulo do pensamento conservador, que eu tive a oportunidade de estudar em detalhe em outro momento, reaparecer, quase intacto, diante dos meus olhos incrédulos.

Quando escrevi sobre o visconde de Cairu – um economista do início do século XIX no Brasil – , flagrei-lhe, em meio ao mais empedernido conservadorismo, algo que então considerei quase genial: a capacidade de apaixonar-se quando expende seus argumentos contra um alvo. A questão é menos simples do que parece: é que um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos. (Por isso, em geral, o conservador é aquele que sabe, com razoável ou inquebrantável segurança, o que é a “barbárie”.) No caso de Cairu, a soltura dos corpos se revelava plenamente na loucura da massa torpe e ignara (a Revolução Francesa), e nos avanços subsequentes do “dragão corso” (Napoleão Bonaparte) pela Europa. Eis o paradoxo: o autor, que cautelosamente reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se ele mesmo tomar pela paixão do discurso, lançando-se aos mais incríveis golpes de efeito poético, comparando, por exemplo, as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço. O velho ranzinza (o frei Caneca chamava-lhe “rabugento sabujo”) deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação, e de seus demônios, que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.

Guardadas as diferenças e as proporções (Vargas Llosa é, naturalmente, um bom escritor), o autor peruano tem também o seu dragão, que não é corso, mas é ainda francês. Sua ira mal contida, derramada anteontem contra Foucault, chegou a momentos de incrível ousadia, como quando o espírito “sofístico” do filósofo de maio de 68 é lembrado em paralelo à degradação de seu corpo. É que Foucault, sendo o emblema mesmo da geração de 68, e herói-intelectual daquela aventura tresloucada, entregou-se também aos desvios do corpo e da alma. Foi com pasmo que ouvi Vargas Llosa evocar as famosas e já folclóricas excursões do filósofo francês pelas saunas e bares gay de San Francisco, até o ponto de que sua morte com AIDS (referida também na palestra) ficasse no ar, como uma espécie de justiça poética e maldita, que recai sobre aquele que tragicamente negou o aspecto dissoluto de sua vida moral.

Houve outros momentos de pasmo para mim, como quando sua ira se estendeu a toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, e quando, dos teóricos pós-estruturalistas (De Man, Derrida), ouvimos as piores coisas, pelo menos até que, num estranho golpe de misericórdia, se dissesse que o que tal pensamento produziu não é muitas vezes mais que uma inútil e aparatosa “masturbação” (sic).

Eu respeito o pensamento conservador, e respeito especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a coragem de defendê-lo e de, ao mesmo tempo, sustentar publicamente sua voz, cultivando, ademais, a forma do diálogo. Há, contudo, pelo menos um equívoco grande naquilo que disse ontem o ganhador do prêmio Nobel deste ano: em dado momento, ele reproduziu a já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Derrida, nada ou pouco se compreende. Foi aí que pulei da cadeira, e vi meu próprio demônio diante de mim: não é verdade que ele nada tenha compreendido dos textos de Derrida! Que não compreendeu os textos em si, o seu “breve discurso” deixa claro. Mas ele compreendeu – e como conservador, compreendeu perfeitamente – que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio. Mas desvio de quê? Rumo a quê? À cultura? Ou estamos todos perigosamente fugindo da cultura? Cultura de quem? Para quem?

Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é um discurso de retenção, de contenção, e de recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo, ou do Corpo.

É de fato uma enorme questão, que o “Breve discurso sobre la cultura” tem o mérito de trazer de novo à baila. Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge.

Princeton, NJ, 13 de outubro de 2010.



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José Serra, o privatista

Entre as pancadas que aparentemente José Serra não esperava receber no debate da Band de domingo passado, um dos mais incisivos foi o lembrete de Dilma: Candidato Serra, você foi ministro do Planejamento na época áurea das privatizações. E foi chefe do plano nacional de privatizações do Brasil. Eu gostaria de saber quantas empresas você privatizou nesse período além da Vale e das empresas mencionadas aqui - por exemplo, a Light? (Eu gostaria, inclusive, que todos os autores do comentário machista acerca de como Dilma está “bem treinada” soubessem o quanto da estratégia de domingo foi iniciativa dela, fora de qualquer script pré-estabelecido). Em todo caso, com essa pergunta, Dilma foi no nervo: as relações de José Serra com a privataria ainda merecem muitas linhas.

Em algumas comarcas, a figura de José Serra ainda é associada ao protagonismo do estado na economia—talvez pela comum confusão entre dirigismo econômico e autoritarismo político. Na verdade, é o insuspeito Fernando Henrique Cardoso quem atesta que José Serra é um privatista de pura cepa:



O decreto número 1.510, de 1o de junho de 1995, já citado pelo Rovai, dispôs sobre a inclusão da Companhia Vale do Rio Doce no Programa Nacional de Desestatização. As três assinaturas que constam do decreto publicado no Diário Oficial na sexta-feira, 02/06/1995, são de FHC, Raimundo Brito e José Serra. O blog entra em modo “recordar e viver” e lhes traz um fac símile do Diário Oficial daquela sexta-feira em que o Brasil começou a entregar a Vale:

diario-oficial-2.jpg


A afirmação de que sob José Serra o Brasil correria o risco de entregar as riquezas do pré-sal não é “terrorismo eleitoral”, mas puro exercício de lógica condizente com a história passada do candidato. Afinal de contas, em um ano como Ministro do Planejamento, Serra privatizou 19 empresas (o número omitido por ele na resposta à pergunta de Dilma). Entre elas, estão a Light e a Excelsa, abrindo o setor elétrico para a privataria, a Copene, liquidando o setor petroquímico, e o Meridional, permitindo a entrada de capital estrangeiro na venda dos bancos oficiais. O esquemão é conhecido: emprestamos grana, via BNDES, a juros bem camaradas, para que a iniciativa privada adquira, com dinheiro público, patrimônio público—com os lucros, evidentemente, passando a mãos particulares, com frequência estrangeiras. Entre 1991 e 2002, o Brasil privatizou 165 empresas públicas.

Não foi nenhum “terrorista eleitoral” do PT, mas o próprio governo tucano quem afirmou, com todas as letras, segundo relato da insuspeita Veja, que este governo não retarda privatização ... e vai vender tudo o que der para vender:

serra_privatiza_1995_05b.jpg
(daqui)

Quando você ouvir um serrista argumentar que aquelas privatizações eram necessárias, mas a riqueza do pré-sal não corre perigo, vale a pena ter em mãos outra coleção de documentos, a saber, todo o rastro do plano tucano de mudar a legislação referente ao pré-sal, privilegiando de novo o regime de concessão da produção, por oposição ao regime de partilha, adotado no governo Lula.

No dia 22 de março,o deputado economista Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES), presidente do Instituto tucano Teotônio Vilela, deu entrevista ao Valor Econômico, na qual não só defendeu o modelo dos anos 90, como afirmou explicitamente falar em nome de Serra. Parafraseando o deputado tucano acerca do modelo para o pré-sal, disse o Valor: Cotado a coordenar a elaboração do programa de governo tucano à Presidência, o deputado fala em nome do candidato a presidente, o governador José Serra, e diz que o partido está fechado na defesa do modelo de 1997 para a campanha. No dia 05 de outubro, de novo no Valor Econômico, o assessor técnico para a área de energia da campanha de Serra (PSDB), David Zylbersztajn, disse que aconselhava o candidato a abandonar o modelo do atual governo federal, baseado na partilha, e adotar, para o pré-sal, o regime de concessões de campos de petróleo. A defesa das concessões está em site tucano oficial.

Demétrio Toledo, que estuda o assunto, já demonstrou, com conhecimento de causa, que foi um modelo de fortalecimento do bem público o responsável pelo sucesso social da Noruega na exploração do seu petróleo. Para quem ainda tem dúvidas sobre o desastroso legado das privatizações dos anos 90 na América Latina, o blog fortemente recomenda o documentário argentino Memoria del saqueo, que mapeia a pilhagem do patrimônio público nos anos Menem.

São, então, dois modelos bem diferentes de relação com o bem público. Se tornarmos a diferença entre eles clara o suficiente, a população brasileira responderá, como respondeu em 2006.


PS: Cristina Lobo, da Globo, mentiu no Twitter ao afirmar que Dilma havia se desculpado pela "agressividade" no debate da Band. Corrigida em duas ocasiões, em tuítes replicados mais de cinquenta vezes, ela não reconheceu o erro e cinicamente disse: Ok. Dilma não se desculpou, lamentou... Ta bem agora?, sem acrescentar que Dilma não lamentou nada que ela própria tivesse feito, mas sim o comportamento da campanha de Serra. Assim funcionam os mentirosos pagos pelas quatro famiglias. É impossível determinar o limite entre o analfabetismo e a desonestidade desses sabujos.


Atualização às 14:38: Para quem insiste que foi a privatização que universalizou a telefonia celular, recomendo enfaticamente o texto de alguém que conhece bem o assunto, Sergio Leo: A ideologia e a privatização das teles.



  Escrito por Idelber às 04:05 | link para este post | Comentários (87)



terça-feira, 12 de outubro 2010

Convite aos paulistanos: Seminário Mindlin 2010

Acontece nos dias 13, 14 e 15 deste mês, a partir de amanhã, portanto, o Seminário Mindlin 2010, sobre o tema "O Futuro das Bibliotecas". O seminário é organizado pela Brasiliana USP, um projeto da Reitoria da Universidade de São Paulo, concebido e inicialmente coordenado pelo Prof. István Jancsó. Como você pode comprovar seguindo o link, a Brasiliana Digital é uma das maiores e mais belas bibliotecas online da contemporaneidade.

A equipe USP reunirá, na Casa de Cultura Japonesa (Av. Prof. Lineu Prestes, 159, Cidade Universitária), um grupo de pesquisadores para discutir temas que vão desde a arquitetura das bibliotecas até os e-livros e as políticas públicas para a preservação de acervos digitais.

Convido todos os leitores paulistanos do blog ao evento, cuja programação vai copiada abaixo:

13/10 Quarta-feira

19:30
Sessão de abertura
Homenagem a José Mindlin
Homenagem a István Jancsó
Lançamento da Brasiliana Digital
Versão 2.0

14/10 Quinta-feira

14:00
Novas Casas:
Arquitetura das Bibliotecas
. Ana Paula Megiani — Coordenação
. Angelo Bucci
. Eduardo de Almeida
. Rodrigo Loeb

16:30
Novas Formas:
e-livros
. Edson Gomi — Coordenação
. Matinas Suzuki
. Diego Andrade de Mello
. Susanna Florissi

15/10 Sexta-feira

14:00
Novos Olhares:
Leitores nas Bibliotecas Digitais
. Esmeralda Vailati Negrão — Coordenação
. Idelber Avelar
. Roberto Taddei
. Maria Clara Paixão de Sousa

16:30
Novos Marcos:
Políticas Públicas para Acervos Digitais
. Sueli Mara Soares Pinto Ferreira — Coordenação
. Manuel J. Pereira dos Santos
. Samuel Barichello
. Marcos Wachowicz



  Escrito por Idelber às 15:06 | link para este post | Comentários (8)




O pós-debate, por Lauro Mesquita e Idelber Avelar

Este post foi escrito a quatro mãos pelo titular do blog e por Lauro Mesquita, do Blog do Guaciara.

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A campanha de Dilma Rousseff passou por compreensível baque na semana passada. A candidata superou Lula em número de votos, a coligação elegeu uma bancada acachapante e, com a exceção de José Agripino, todos os grandes adversários do projeto Lula desabaram. Mas Dilma e todos os seus eleitores ficaram cabisbaixos. A expectativa é mesmo um fantasma que se torna um peso quando não se cumpre. Da euforia de se ter a primeira mulher na presidência e a inédita vitória do PT no primeiro turno, fomos congelados por uma falsa derrota que se baseava numa campanha que retrocedia em 40 anos as conquistas femininas no Brasil.

De repente, era mais importante silenciar sobre a opinião conservadora e preconceituosa de alguns religiosos do que se posicionar sobre os direitos da mulher. Parecia que a campanha caminhava para um jogo de silêncios e desculpas em que todos os passos deveriam ser medidos e as palavras calculadas, em que a vitória só seria possível às custas de constrangimento.

O risco de derrota tinha se tornado iminente, como disse um amigo, e era mencionado em voz baixa de conspiração. Até que, na noite de domingo, tudo mudou. Dilma partiu pra cima de Serra e, pela primeira vez, o obrigou a se explicar.

Dilma fez questão de apontar o aborto como uma questão de saúde pública e de mostrar que era vítima de uma campanha baseada em spams. Além disso, fez questão de delimitar qual deve ser o papel do Estado em um governo seu e a característica necessariamente privatizante de um governo tucano. De lambuja, desmascarou o batido argumento do aparelhamento do Estado; levantou suspeitas sobre o sumiço dos R$ 4 milhões do caixa serrista e, principalmente, marcou a mulher de Serra como uma das articuladoras da campanha de ofensas orquestradas pelo núcleo da campanha do PSDB/DEM/PPS. Dilma foi incisiva quando denunciou a campanha caluniosa da coalizão serrista:

O silêncio e a bem apontada tergiversação de Serra valeram mais do que qualquer explicação. O sujeito estava visivelmente nervoso. Os lábios se pregavam ao seu dente, a voz havia diminuído o volume, num esforço descomunal para se conter e até as perguntas se perdiam nas anotações do até então confiante tucano.

Dilma cumpria um roteiro que toda sua militância aguardava. Já no domingo de manhã, eu notava no Twitter que o clima nos bastidores era outro. A entrevista de Rovai com Padilha furava os jornalões, que anunciavam um debate "paz e amor". Dilma respondia com firmeza a todos os ataques e boatos que os tucanos espalhavam sem provas. E, melhor, se posicionava em relação a fatos como o caso de Erenice.

A reação se esboçou já no debate. O Serramilcaras criado pela Dilma ocupava os trending topics, as pesquisas qualitativas do PT eram motivo de comemoração para os partidários da candidata já nos estúdios da Band. A militância amanheceu com sorriso nos lábios. Pela primeira vez, após três semanas de porrada, sentia que havia levado o adversário às cordas e obrigando-o a ficar na defensiva. `

Já antes de terminar o debate, as qualitativas que chegavam ao PT eram excelentes. Mostravam que Dilma havia não só animado a militância, como também influenciado os indecisos. Claro que se trata somente de um debate com 4 pontos de audiência, mas na era da internet o impacto de um debate como esses é bastante difícil de se medir de antemão. Os vídeos circulam. E a performance de Dilma foi contundente.

Dilma pautou o debate e mudou o rumo da conversa. As milhares de pessoas que se reuniram em Ceilândia debaixo de chuva torrencial haviam se comprometido com a candidatura dela, agora não só uma sucessora de Lula, mas a porta-voz de um projeto próprio para o Brasil que pensa o País respeitando a sua diversidade, seus potenciais e sua singularidade. A campanha tem novos roteiristas e eles estão empolgados e na rua.


PS: O grosso deste texto foi escrito por Lauro Mesquita. O titular do blog está em São Paulo, deliciando-se com a melhor gastronomia do mundo, e muito animado. A revisão do texto contou com a ajuda dela.



  Escrito por Idelber às 06:11 | link para este post | Comentários (69)



domingo, 10 de outubro 2010

Conversa livre sobre o debate presidencial Band

Não haverá blogagem ao vivo do debate de hoje à noite entre Dilma Rousseff e José Serra, mas eu vou postar algumas observações no Twitter. Para você que está fora do Brasil e quer ver pela net, acompanhe o Site Dilma e o Dilma na Rede. O Renato Rovai, no blog e Twitter, sempre tem boas observações. Rede Brasil Atual e Terra Magazine são ótimas opções de notícias.

A caixa de comentários está aberta para a conversa sobre o debate.



  Escrito por Idelber às 21:13 | link para este post | Comentários (176)



sábado, 09 de outubro 2010

Prêmio Nobel de Literatura para Vargas Llosa

A Revista Eñe, caderno cultural do Clarín, me pediu um texto sobre o Prêmio Nobel para Mario Vargas Llosa. Minha intenção era traduzi-lo ao português para os leitores do blog mas, dado o avançar da madrugada, vai em castelhano mesmo. Façam o esforço aí.

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A la Academia Sueca le gustan las simetrías simbólicas en sus premiaciones, lo que no quiere decir, desde luego, que ellas tengan algo que ver con la literatura. En el panteón del Nobel, para cada Gabriel García Márquez, hay un Octavio Paz. Para cada José Saramago, hay un Mario Vargas Llosa. La oscilación es tan previsible que resulta difícil adjudicarle buena fe a las declaraciones del escritor peruano, de que no se consideraba parte del identikit del Nobel, por sus supuestas “posiciones incómodas”. Es bien sabido que también la incomodidad, en sus varias versiones, ya es una cuota que se reparte salomónicamente en Estocolmo. Ahora le toca el premio al gran portavoz de la derecha neoliberal, quizás el último escritor latinoamericano de alguna importancia a mantener la creencia en la redención por las letras, en lo literario como instrumento de ilustración y modernización de la cultura.

Lo mejor de la obra de Vargas Llosa — sin duda, sus cuentos y novelas juveniles — es una lograda autopsia de una masculinidad en ruinas. Tanto en la novela La ciudad y los perros como en los cuentos de Los jefes se instala el drama del Bildungsroman en suspenso, interrumpido, incapaz de trascender la circularidad de los ritos adolescentes de iniciación. El tema de Vargas Llosa no dejará de ser éste, aunque la “maduración” del escritor pondrá en escena el traslado de esa lógica adolescente al campo de la política.

Vargas Llosa aún produce dos magníficas obras en los sesentas, La casa verde y Conversación en la catedral. Ambas, especialmente la primera, son hitos en la incorporación de las técnicas de vanguardia a la novelística latinoamericana: el monólogo interior, la multiplicidad de voces y registros narrativos, la quiebra de la linealidad temporal. Vargas Llosa sería uno de los más eufóricos en el gesto que caracterizaría el boom de los años sesentas, a saber, la asociación entre dichas técnicas y una presunta puesta al día de la literatura latinoamericana, proceso al cual algunos llegarían a atribuir un potencial redentor, sustitutivo de nuestro retraso social y económico.

Algo ya se notaba en La guerra del fin del mundo, uno de los pocos relatos genuinamente reaccionarios sobre Canudos, pero cuando Vargas Llosa escribe Historia de Mayta, su obra ya es pura ideología. El proceso coincide con la consolidación de su convicción de que la “ideología” sería siempre un atributo perteneciente a los demás. Dicha mistificación toma aquí la forma de un binarismo entre la ilustración y el retraso, la democracia y el populismo, el progreso y el chavismo. Aparentemente sin advertir que estos binarismos son la encarnación esencial de la ideología en nuestros tiempos, Vargas Llosa ya los utilizara para, como crítico normalizador, domesticar la obra de José María Arguedas en un estudio. Si se pudiera hablar de una verdadera incomodidad a estas alturas, ella sería la (no) relación de Vargas Llosa con el vasto mundo que la obra de Arguedas representa y significa, éste sí, un mundo de alguna exterioridad incapturable por la industria de los premios.



  Escrito por Idelber às 04:16 | link para este post | Comentários (40)



sexta-feira, 08 de outubro 2010

Comparação entre os governos FHC e Lula

Lula-vs-FHC-2.jpg




Copie, circule. Este é o debate que nos interessa, não esses sofismas, acusações e ilações sobre fé e moral. A luta política com política se ganha. A mensagem é simples: nós governamos o Brasil melhor que eles, com mais crescimento, distribuição de renda e liberdade, que inclui sempre, claro, tanto a liberdade de culto como a liberdade de não ter fé nenhuma. A verdadeira diferença que deve ficar clara nesta campanha é a diferença entre dois projetos políticos, expressa de forma nítida nesta comparação.

Este belo cartaz foi feito pelo @ilustreBOB (que bloga aqui) e eu o roubei lá do Celso. Para quem quiser realmente se aprofundar nos números, o blog sempre sugere este pdf.



  Escrito por Idelber às 15:42 | link para este post | Comentários (93)




Links

Poucas coisas interessam menos a quem estuda literatura a sério que o Prêmio Nobel de Literatura que, evidentemente, não tem qualquer relação com o literário enquanto tal. Como este ano a honraria coube a Vargas Llosa, multiplicaram-se os pedidos de declaração por aqui, como imagino que tenha acontecido com profissionais de literatura em toda a América Latina. A quem interessar possa, conto que a Revista Eñe, caderno cultural do jornal argentino Clarín, me pediu uma nota sobre o tema. Ela sai neste sábado. A Eñe está disponível pela internet, na íntegra.

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Alguns leitores me perguntaram também sobre o caso Maria Rita Kehl / Estadão, em que a nossa grande mídia mais uma vez demonstrou seu compromisso com o "pluralismo". Depois de publicar o texto "Dois pesos...", Maria Rita Kehl, uma das maiores pensadoras da língua, foi demitida por delito de opinião. Eu me pronunciei no Twitter, logo que o caso começou a se desenrolar. Claro que o Estadão escalou um sabujo qualquer para referendar a versão do patrão. Pobre jornalismo brasileiro.

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Combinemos: às vezes Ciro Gomes aparece e diz o que tem que ser dito.

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Está confirmada a informação que havíamos circulado aqui há algum tempo: os EUA realmente mataram pelo menos 71 guatemaltecos usados como cobaias, em experimentos com sífilis e gonorreia nos anos quarenta.

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Ainda na Fórum, há um artigo com o qual eu não concordo na totalidade, mas que vale ser lido: Por que Netinho de Paula não foi eleito.

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Com este, sim, concordo na íntegra: Reflexões dos pampas sobre a campanha de Dilma, de Paulo Cezar da Rosa.

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Ainda no Jornal Sul 21, que está cada vez melhor, aliás, eu indico Os verdes e a depuração democrática, de Paulo Abrão Pires Jr., e o sensacional recado de Luiz Cláudio Cunha, Toninho, Churchill e o demônio, escrito para/sobre o candidado psolista ao governo do Distrito Federal, Toninho, que chegou a quase 15% dos votos e, logo depois do primeiro turno, anunciou que na decisão entre o petista Agnelo Queiroz e Weslian Roriz, ele ... votaria nulo! Ainda no Distrito Federal, o Partido Verde já declarou apoio ao candidato petista.

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O Partido dos Trabalhadores passou a ser não só a maior agremiação na Câmara dos Deputados, mas é também, a partir de agora, o partido com maior presença em Assembleias Legislativas pelo país. Em 2006, havia 164 deputados estaduais do PMDB, 152 do PSDB, 126 do PT. Em 2010, o PT passou a ser o primeiro, com 149, seguido de PMDB (147) e PSDB (123). Os tucanos, os demos e o PPS encolheram não só na Câmara e no Senado, mas também nas Assembleias Estaduais. Vai ser bem difícil para os jornalistas pagos pelas famiglias escreverem, desta vez, que "tucanos e petistas podem discutir quem venceu". Não que o Globo não tenha tentado, claro. O Alexandre Porto tem a lista dos novos deputados e senadores do PT.

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Mui apropriadamente para os dias de hoje, Cynthia Semíramis republicou seu post Técnica infalível para não divulgar boatos. Para você, eleitor de Dilma Rousseff, não custa ter aí o link anti-boatos. O site da campanha também abriu um espaço para desmentir os spams da boataria.

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Nenhuma discussão será mais importante nos próximos 23 dias que os rumos da política econômica e social que queremos para o país. Nenhum tema coloca o embate em termos mais favoráveis para Dilma. Atentemos, então, para textos como este: O que um governo Serra faria com o pré-sal?

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Foi divulgada a notícia de que a bancada feminina na Câmara havia diminuído. Não é verdade. O resultado não foi nenhuma maravilha neste front, mas a bancada se manteve com o mesmo número na Câmara e cresceu um pouco no Senado.

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Ainda sobre o grande tema dos últimos dias, o voto evangélico, Maria Inês Nassif escreveu uma boa coluna: O voto do pecado e o poder satânico.

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Pesquisadores e professores de filosofia do país escreveram uma bela carta de apoio a Dilma Rousseff. Ela contém as assinaturas de vários comentaristas deste blog, como o nosso amigo João Vergílio, da USP. Parabéns.



  Escrito por Idelber às 04:42 | link para este post | Comentários (36)



quinta-feira, 07 de outubro 2010

10 vitórias das forças políticas que apoiam Dilma em 03 de outubro

vanessa.jpg Da mesma forma em que, na avaliação dos votos marinistas, não cabe tomar as calúnias e os spams pseudo-religiosos como se fossem a identidade da candidatura verde, a avaliação do campo dilmista não pode, não deve, de jeito nenhum, deixar que a decepção pela não decisão em primeiro turno nas presidenciais obscureça um fato indiscutível das eleições à Câmara e ao Senado: a esquerda teve uma grande vitória, talvez seu mais significativo triunfo na história das legislativas da República. Este é, inclusive, um potente argumento em favor de Dilma Rousseff e contra José Serra. O Congresso que acabamos de eleger se alinha esmagadoramente com Dilma; Serra não teria mais que 25% da Câmara na base da sua coalizão. Com toda aquela “paciência” e “poder de negociação” que são típicos seus, imaginem o inferno que viveríamos nas relações do Executivo com as duas casas. Os números são cabais.

1) Câmara: Há três partidos, entre os de alguma importância, que encolheram em mais de 15% na Câmara. Quem são eles? A trinca do antilulismo: o PSDB encolheu 20%, o DEM 34% e o PPS 45,5%. É um tremendo recado das urnas. PTB e PMDB também encolheram, em 13,6% e 11,2%, respectivamente. A esquerda lulista, sem exceções, cresceu: o PT volta a ser a maior bancada da Câmara, com 88 deputados e crescimento de 6%. Seus três aliados preferenciais na esquerda tiveram ótima performance. O PSB saltou de 27 para 34 (+26%), o PDT foi de 24 para 28 (+16,7%) e o PcdoB subiu de 13 para 15 (+15,4%).

O campo dilmista deve saber desses números, tê-los na ponta da língua e usá-los como potente argumento nestes 25 dias: o Congresso que elegemos está alinhado com Dilma, não com Serra. O ex-governador de São Paulo não é conhecido por sua maleabilidade e capacidade negociadora. É eleger Dilma ou tornar um inferno as relações entre o Executivo e Legislativo brasileiros.

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Senado da República

2010 foi o ano em que o PSOL elegeu o mesmo número de senadores que o DEM. O signatário deste blog acredita que as mudanças descritas abaixo, em particular, farão do Senado da República um lugar mais comprometido com a realidade da maioria do povo. Com a exceção do revés parcial em São Paulo, onde as pesquisas indicavam dobradinha lulista, mas só uma senadora do lado governista se elegeu-- e felizmente foi Marta Suplicy--, todas as outras expectativas principais e batalhas chave se resolveram a contento para a esquerda. A eleição da própria Marta, claro, conta como uma das vitórias significativas, dado o contexto e o perigo. É a primeira da minha lista para o Senado, segunda vitória importante, então, das legislativas.

3) Amazonas: Foi a mãe de todas as batalhas no terreno alegórico: o mais estridente, arrogante, histriônico, histérico e parlapatão Senador da República, Arthur “dou surra em Lula” Virgílio, foi a nocaute, obra de mulher, jovem e comunista, Vanessa Grazziotin. Este blog apostou na corrida desde o primeiro momento como seu objeto de desejo. Na época, Vanessa ainda estava dois dígitos atrás. Sempre acreditei nessa mui especial vitória, e o vídeo em que declarei apoio à Senadora Grazziotin contém minhas razões. gleisi.jpg

4) Piauí. O Brasil é um lugar mais respirável, tolerante e bonito para se viver sem a figura de Heráclito Fortes no Senado. Perguntem ao Daniel. Ainda por cima, caiu o Mão Santa também. Apostamos na corrente pra trás do Heráclito desde o começo e celebramos esse belo golpe desferido sobre o atraso coronélico. Wellington Dias, do PT, se elegeu, e o outro Senador, Ciro Nogueira (PP), é da base de apoio a Dilma.

5) Ceará. Seria chamado de louco quem dissesse, há uma década, que Tasso Jereissati se candidataria ao Senado, num ano em que há duas vagas em disputa, e não conseguiria se reeleger. As vitórias de Eunício e Pimentel na corrida ao Senado são, talvez, o golpe mais violento sofrido pelo PSDB nestas eleições, junto com o sacode-Iaiá comunista do Amazonas. Talvez não seja ruim para o partido, inclusive, na medida em que pode favorecer o surgimento de lideranças mais propositivas do que Tasso tem sido.

6) Bahia. Duas vagas para o Senado em disputa na Bahia, e o carlismo não levou nenhuma. Esse fato, por si só, também teria sido impensável até pouco tempo atrás. Ocorreu uma baita renovação, com as eleições de Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB). Ambas, especialmente ela, já são figuras históricas na cidade de Salvador. Em contraste com a redução (pequena, mas real) da bancada feminina na Câmara, Lídice é parte de uma significativa vitória das mulheres de esquerda nestas eleições para o Senado, e foi parte de um barba-cabelo-bigode na Bahia, que incluiu a reeleição do governador Jaques Wagner em primeiro turno.

paulo%20paim%201.jpg 7) Paraná. Também aqui o lulismo levou ambas as vagas, e a renovação inclui outra mulher de esquerda: Gleisi Hoffman foi uma grande aposta para o Senado em chapa com Roberto Requião. Ela terminou em primeiro, cheia de moral, e Requião se elegeu em segundo. Hoffman faz do Senado um lugar mais inteligente e receptivo à sociedade. Requião, além de trazer sua perspectiva nacionalista, com certeza não contribuirá para tornar o Senado um lugar mais monótono.

8) Rio Grande do Sul: Um líder histórico dos trabalhadores, Paulo Paim, enfrentou o que parecia, ao princípio, uma briga de foice com três cabeças, mas chegou em primeiro lugar com folga, também cheio de moral. O Senado brasileiro continua tendo um líder negro, continua contando a dignidade de Paulo Paim. Para completar a dobrada, Tarso Genro se elegeu governador no primeiro turno. Os petistas guascas de novo mostraram como se faz a coisa bem feita. O PMDB gaúcho, como o pernambucano, escolheu o antilulismo e sofreu pesada derrota, perdendo a vaga no Senado e não disputando sequer segundo turno contra o PT na briga pelo Piratini.

9) Pernambuco: Pela primeira vez em quarenta anos, Marco Maciel perdeu uma eleição. Desde a época de Telê Santana no comando da seleção, Brasília não terá o esguio líder do DEM como Ministro, Vice-Presidente ou Senador. Em reconhecimento à sua elegância, o blog não tripudiará. Mas considero, sim, a queda de Maciel uma grande vitória para a esquerda e para a democracia em geral. Elegeu-se a dobradinha lulista: Humberto Costa, do PT, redimiu-se de injustiças sofridas com acusações pouco fundamentadas (por denunciar um esquema de faturamento de ambulâncias que ocorreu sob José Serra, em governo tucano) e Armando Monteiro, do PTB, ligado à indústria, e que traz uma visão mais arejada que Maciel. Obrigado pelos serviços prestados, Senador. Mas já era hora. Raul Jungmann, do PPS, passou longe, muito longe de competir por uma vaga.

10) Rio de Janeiro: Elegeu-se Senador um jovem petista, Lindberg Farias, e César Maia ficou fora. Não se conta Crivella como parte de uma bancada de "esquerda", mas ele foi um Senador fiel a Lula, apesar de que os laços religiosos aqui são preocupantes. Em todo caso, é uma enorme vitória da esquerda bater César Maia de forma tão categórica, relegando-o a um quarto lugar e negando-lhe qualquer possibilidade de protagonismo como liderança nacional.

São maiúsculas vitórias que devem ser mencionadas, estudadas e trazidas à baila nestes 25 dias de campanha de Dilma Rousseff.

PS: Em especial, saudamos as eleições de Dr. Rosinha, Alessandro Molon e Jô Moraes, endossados pelo blog, respectivamente, em eleições para a Câmara no Paraná, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, assim como a eleição de Raul Pont, também endossado aqui, para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

PS 2: Basta aparecer uma pessoa que sabe fazer algumas continhas básicas e morre um meme do jornalismo brasileiro.



  Escrito por Idelber às 02:22 | link para este post | Comentários (60)



terça-feira, 05 de outubro 2010

O que dizem os votos de Marina e como conquistá-los

Você pode discutir qual é o peso relativo dos três (não dois) grandes blocos de votos que contribuíram para os surpreendentes 20% de Marina Silva: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico, que é crítico de algo maior que o PT, ou seja, de todo um paradigma desenvolvimentista que, ironia das ironias, o PT veio a representar melhor que ninguém; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico que, por sua vez, tampouco é homogêneo, posto que formado de uma parcela—menor, creio—de votantes que já estavam com Marina e outra parcela—maior, creio—que foi mobilizada em termos anti-Dilma às vésperas da eleição. Num debate que teria, de preferência, que se realizar com atenção aos mapas relevantes, poder-se-ia discutir à exaustão qual é a contribuição de cada um desses segmentos para o resultado final.

O que me parece indiscutível é que somente este último, o voto evangélico, chega como irrupção e acontecimento. Foi ele o grosso do voto não computado nas pesquisas. Isso me parece verdadeiro, mas não se pode pular daí para a afirmação de que foi o atraso quem impediu a vitória dilmista no primeiro turno. Essa linha de análise é sempre muito rasa.

Para a campanha de Dilma, a tarefa é dupla. Por um lado, há que se entender os recados dados por todos os segmentos que votaram em Marina, para que a partir daí ocorra a negociação e o convencimento desse eleitorado. Esses recados têm densidade, têm conteúdo, aludem a fatos reais e não se limitam, de forma nenhuma, a uma suposta “Marina no colo da direita”. Jogar por aí é não entender o jogo. Por outro lado, há que se analisar quais foram os erros de campanha de Dilma que ajudaram a impedir a esperada vitória no primeiro turno. Fazer as duas coisas já não é fácil. Fazê-las simultaneamente é mais difícil ainda, pois a primeira—ouvir realmente os eleitores de Marina—exige humildade, proximidade e empatia. A segunda tarefa—fazer a autocrítica da campanha—exige inteligência, desprendimento, distância. São duas tarefas aparentemente contraditórias, que demandam posturas e capacidades opostas, mas elas são simultâneas e complementares.

O fascinante do resultado de domingo é que todo mundo errou. Se alguém aí previu que Marina venceria em Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Nova Lima, Volta Redonda, Vitória, Vila Velha e Niterói, além de praticamente empatar com Dilma em Natal e superá-la em Campina Grande, levante a mão, mostre um link com data anterior a 03 de outubro, que eu visto uma camisa do Flamengo ou do Cruzeiro aqui, a gosto do freguês. Todo mundo errou nas previsões, inclusive o vitorioso de domingo na eleição presidencial, que foi claramente o campo marinista. Por isso o futebol, na sua imponderabilidade, é o esporte que mais tem a ver com a política democrática. Sim, trata-se do velho clichê da caixinha de surpresas, mas também do dado menos óbvio de que o futebol é o menos contábil dos esportes, e se há uma mensagem relevante que a campanha de Marina tentou transmitir é a crítica à redução do mundo a uma lógica contábil. Quando gente como Ricardo Paes de Barros, José Miguel Wisnik, Alexandre Nodari e Eduardo Viveiros de Castro coincidem numa candidatura que não é a sua, ou que não é a que você esperava que eles apoiassem, só um sectário muito desprovido de sensibilidade passaria à desqualificação sem uma escuta detida.

No campo dos erros, há que se destacar os estruturais, mais antigos, e os conjunturais, que se manifestaram de uma forma especialmente maluca nesta campanha. Os erros estruturais são parte do recado das urnas marinistas e não podem ser ignorados. O caso de Belo Horizonte é emblemático. Há exatos dois anos, o PT concluía 16 anos de governo de uma coalizão sua na cidade, com um prefeito que deixava o cargo com noventa por cento de aprovação. Esse prefeito, Fernando Pimentel, é diretamente associado a Dilma e é parte da cúpula de sua campanha. A cidade não tem qualquer tradição de antipetismo raivoso como aquele encontrado em partes de São Paulo e Porto Alegre. Como é possível que o resultado aqui tenha sido Marina Silva 39,9%, Dilma Rousseff 30,9% e José Serra 27,7%, num contexto de grande vitória da esquerda nas legislativas?

Essa parte me parece relativamente simples. As urnas disseram: “não gostamos das lambanças do PT-BH nas eleições de 2008 e do PT-MG em 2010, apesar de o PT ter governado bem a cidade. Votaremos em alguém que é suficientemente próxima aos ideais da bem sucedida prefeitura de 1992-2008, mas que se afastou do campo petista, em parte, por lambanças como essa”. Junte-se a esse recado mais estrutural a avalanche de desinformação e propaganda pra cima dos evangélicos nos últimos dias--essa avalanche realmente existiu—e você tem os ingredientes dos números que deixaram todos os junkies políticos belo-horizontinos de queixo caído. Os mesmos ingredientes se combinam em outras latitudes, como o Acre, um estado onde o PT tem fortíssimas raízes, elegeu o Governador e um Senador, mas no qual Dilma ficou empatada com Marina e bem longe de Serra. Se você é petista e não vê aí um recado além do “Marina está no colo da direita” ou do “Marina é a falência do movimento ecológico” (sim, isso foi escrito), sinto muito, você precisa ler a Flávia Cera.

É sabido que, por volta de dois meses atrás, um grupo de lideranças evangélicas procurou a campanha de Dilma, preocupadas com a disseminação de boatos e emails falsos. A campanha fez a “Carta ao Povo de Deus” e ficou por isso mesmo. Os programas de João Santana—excelentes, belíssimos, inovadores—não dedicaram um só minuto, no entanto, à refutação da pilha de spam religioso anti-Dilma disseminada para púlpitos e fiéis. A coordenação de internet não ofereceu respostas a isso. Preferiu brincar de Twitter e #ondavermelha. A campanha online foi feita à base do cada um por si, sem que se aproveitasse de forma coordenada a enorme base de recursos humanos da esquerda brasileira na rede.

Quando os evangélicos voltaram a procurar a campanha de Dilma, em setembro, o nível da loucura havia piorado sensivelmente. Algumas lideranças religiosas gravaram depoimentos de apoio à candidata petista, mas não houve uma resposta sólida e consistente da campanha. Os marqueteiros não são lá grandes fãs do potencial da rede e, por sua vez, a coordenação de internet de Dilma era pobre e fraca de ideias. É importante reconhecer isso sem que esse reconhecimento nos ensurdeça para o recado real das urnas marinistas, que transcende em muito o spam do ódio.

É evidente que temos que explicar que Michel Temer não é satanista. Aliás, podemos inclusive esclarecer que ele já fez pactos com o DEM mas, pelo que nos consta, com Satã nunca aconteceu. Mas é preciso fazer isso sem desmerecer ou desqualificar o recado dado pelas urnas marinistas em sua totalidade, sem reduzir o voto de Marina a qualquer um de seus blocos, muito menos o evangélico, justamente aquele que é mais conjuntural (apesar que não necessariamente menos numeroso) na constituição da identidade da sua candidatura.

Não há motivo para pânico. Marina tem muito mais a ver com Dilma que com Serra, e isso é o próprio Serra quem diz. Para nós, faltam 3 pontinhos. Para Serra, faltam quase 18. Marina sabe que coloca seu capital político em maus lençóis se apoiar alguém como Serra. Também sabe que não lhe interessa entregar nada de graça a Dilma agora, e há que se entender isso. É da política. Um petista reclamando que Marina não está agindo de forma a facilitar as coisas pra nós é como um lateral queixando-se de que um ponta o engana, fingindo que vai abrir o jogo para depois cortar para o meio. Ora, você tem que aprender a marcar. O jogo é jogado.

Ainda estamos bem, mas é preciso jogar com inteligência, humildade e decência e, acima de tudo, não deixar que nenhuma dessas qualidades atrapalhe as outras duas.



  Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post | Comentários (234)



segunda-feira, 04 de outubro 2010

Discussão livre sobre a eleições

Este é um post para que vocês troquem impressões sobre a eleição durante esta segunda-feira. Como eu ainda quero estudar alguns mapas antes de escrever qualquer coisa, e como a caixa anterior já está superlotada, fica aqui o espaço aberto. Na terça-feira eu volto com um texto decente.



  Escrito por Idelber às 00:32 | link para este post | Comentários (195)



domingo, 03 de outubro 2010

Boca de urna e apuração: Presidência do Brasil

22:55 A imprensa brasileira é inacreditável. Dilma Rousseff, que recebeu quase 47% dos votos dos eleitores do país, estava pronunciando-se ao vivo. A GloboNews cortou a fala dela, passando para o estúdio com Merval Pereira.

21:59 Puxo aqui pra cima o comentário feito pelo leitor Alcides: Caro Idelber, discordo que Marina seja a grande vencedora. O Brasil foi quem perdeu feio hoje. A onda verde, acho que mais forte do estado do RJ, foi apenas resultado de extremismo religioso. Sim, vc que tanto critica o extremismo nos EUA, agora saiba que ele está aqui no Brasil. De sexta até hoje, pude presenciar que frequentadores de igrejas, principalmente evangélicas foram bombardeados com o que existe de mais sórdido contra Dilma. Essas pessoas, que votariam Dlma, foram de Marina. Não tenho dúvida que se essa bomba não for desarmada, ela ficará mais poderosa e vai favorecer Serra. Será o pior dos mundos. Teremos uma eleição decidida por motivos religiosos, e um candidato eleito que não representa seus eleitores, sendo apenas beneficiário de uma campanha do radicalismo religioso. Desconfio que no segundo turno não haverá debate político. Será uma sucessão de boatos e desmentidos e a palavra mais ouvida será Deus e Jesus.


21:25 Sem dúvida, são muito surpreendentes os números. Marina se cacifa para negociar politicamente em excelentes condições nos próximos dias. Ela tinha entre 12% e 14% nas últimas pesquisas e chegou, na hora da onça beber água, a quase 20%.

20:42 Está matematicamente decidido que haverá segundo turno nas presidenciais. Apurados 87,74% dos votos, Dilma tem 45,62%, Serra 33,26% e Marina, 20,02%.

19:59 Com 107.752.278 votos apurados, (79,34%) Dilma tem 36.862.926 (45,43%), Serra tem 27.507.364 (33,90%) e Marina tem 16.585.820 (20,44%).

18:50 Saiu a boca de urna do Ibope: Dilma 51, Serra 30, Marina 18, Plínio 1. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos. Ou seja, tudo pode acontecer.

17:20 Começaram a pingar os primeiros números no site do TSE (via Bárbara).

16:23 Resultados de Roma e Milão: Total de votos válidos: 5.596 / Dilma, 50,46% / Serra, 28,9% / Marina, 17,8% / Outros candidatos, 3,61% (via Jornal Sul21)

16:11 A votação já foi concluída em 25 países.

16:09 Decretada a prisão do ex-presidente Fernando Collor de Melo.

15:29 Entre os brasileiros residentes em Tel Aviv, venceu José Serra. Leandro Fortes notou, com sua verve baiana, que Serra também venceria na Berlim dos anos 30. Dilma Rousseff venceu em Ramalá, Palestina Ocupada.

15:27 Flavio Aguiar, via RS Urgente, nos informou o resultado da votação em Berlim: Dilma, 306, Marina, 244, Serra, 223, Outros, 26

15:26 Resultados de Paris: Paris: Dilma 964, Serra 618, Marina 462.

15:25 Para os junkies políticos que queiram acompanhar com agilidade os números, está disponível para download o software Divulga 2010, do TSE. Já trabalhei com ele e recomendo.

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Este é o post que será atualizado com boca de urna, impressões e apuração da eleição para Presidente da República, que pode consagrar, talvez já no primeiro turno, a primeira mulher a ser eleita para governar o país. Nas pesquisas divulgadas neste sábado, a situação era a seguinte, nos votos válidos: Dilma 51 x 49 do resto no Ibope, 50 x 50 no DataFalha, 53 x 47 no Vox. Os números do tracking interno do PT coincidem com os números do Vox Populi.

O blog está ligado no Alê Porto, que entende de números, no Renato Rovai, que entende de bastidores, nos excelentes Terra Magazine e Rede Brasil Atual e também na cobertura colaborativa do Democracia 48 horas.

Fique à vontade para trazer informações a esta caixa de comentários sobre a corrida para o Palácio do Planalto. Ocasionalmente, eu as pescarei para o corpo do post, sempre com crédito a quem as trouxe. As atualizações serão precedidas de hora e minuto, e feitas de forma que as entradas mais recentes fiquem por cima.


PS: Espere alguns (3, 4, 5) minutos entre cada F5, por favor, para que não tenhamos problemas com excesso de pedidos ao site de uma vez só.



  Escrito por Idelber às 15:50 | link para este post | Comentários (186)




Boca de urna e apuração: Governadores

23:17 Geraldo Alckmin está eleito em São Paulo. Havia dúvidas, por causa da impugnação de votos de PSTU, PCB e PSOL. Durante boa parte da noite, trabalhamos com a hipótese de que, caso esses votos fossem considerados, eles poderiam talvez levar a disputa para o segundo turno. Mas a conta fechou. Mesmo que esses votos fossem contados, eles não seriam suficientes (pdf).

21:10 No Distrito Federal haverá segundo turno. Agnelo Queiroz (PT) 48,41% e Weslian Roriz 31,50%.

20:51 Depois de censurar seis pesquisas, um blog, uma revista e até um tuíte, Beto Richa (PSDB) é eleito governador do Paraná com 52,44% dos votos (99,80% dos votos apurados).

19:44 No Mato Grosso do Sul, está matematicamente eleito André Puccinelli, do PMDB (56, 43% do votos, com 95% apurados).

19:04 Primeiro resultado confirmado, e é vitória lulista. Renato Casagrande (PSB) é eleito governador do Espírito Santo

18:41 No Rio Grande do Sul, a boca de urna do Ibope sugere vitória de Tarso no primeiro Tarso Genro (PT) 53%, Fogaça (PMDB) 28% e Yeda Crusius (PSDB) 15%.

18:08 No Distrito Federal ainda não dá para comemorar, mas a boca de urna do Ibope registra Agnelo Queiroz (PT) com 52%. A chance de vitória no primeiro turno é grande.

17:58 No Rio de Janeiro, Fernando Gabeira sofre a derrota mais acachapante da sua vida. O Ibope registra vitória de Sérgio Cabral no primeiro turno com 66% dos votos.

17:50 E Pernambuco continua na vanguarda do encontro entre o lulismo e as lutas históricas do povo. Com 79% segundo a boca de urna do Ibope, está reeleito Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes!

17:41 A esquerda baiana pode comemorar. Ibope registra 59% para Jaques Wagner (PT), que está reeleito. Parabéns, governador!

17:33 Haverá segundo turno no Maranhão! Números do Ibope indicam Roseana Sarney com 47%, mas Flávio Dino (PC do B) tem 27% e Jackson Lago (PDT) tem 23%

17:31 A boca de urna do Ibope deu Alckmin com 50% dos votos em São Paulo. Mercadante tem 37%.

17:26: A boca de urna do Ibope deu Anastasia (PSDB) eleito com 57% dos votos, o que já era esperado. Minas Gerais fará mesmo caixinha para a campanha de Aécio em 2014.

16:54 Já há movimentação em torno do Diretório do PT ali na João Pessoa, querida Porto Alegre, na expectativa da vitória de Tarso no primeiro turno. Cordão policial e carros de som já presentes. A informação chega via galera do Jornalismo B, no Twitter. Os guascas merecem!

14:25 Para os junkies políticos que queiram acompanhar com agilidade os números, está disponível para download o software Divulga 2010, do TSE. Já trabalhei com ele e recomendo.


Este é o post que será atualizado com boca de urna, impressões e apuração das eleições para Governador em todo o Brasil. O blog torce pelo segundo turno em São Paulo, confia muito nas vitórias de Tarso Genro (RS), Jaques Wagner (BA) e Marcelo Déda (SE) no primeiro turno e já comemora de antemão a grande vitória de Eduardo Campos em Pernambuco. Confiamos também no vira-vira paranaense para cima do piá de prédio e aprendiz de censor, e acompanhamos com interesse a performance da esquerda no Acre (Viana), no Pará (Ana Júlia) e no Distrito Federal (Agnelo).

Fique à vontade para trazer informações do seu estado. Ocasionalmente, eu as pescarei para o corpo do post, sempre com crédito a quem as trouxe. As atualizações serão precedidas de hora e minuto e feitas de forma que as entradas mais recentes fiquem por cima.


PS: Espere alguns (3, 4,5) minutos entre cada F5, por favor, para que não tenhamos problemas com excesso de pedidos ao site de uma vez só.



  Escrito por Idelber às 13:36 | link para este post | Comentários (34)




Boca de urna e apuração: Senado

23:26 Confira a composição do novo Senado da República, campo de muitas vitórias importantes.

21:52 Há muita gente decepcionada porque haverá segundo turno. Mas atenção: boa parte da direita mais raivosa está sendo varrida do Senado.

21:51 Galeguim dos óio azul, coroné Tasso Jereissati perdeu o emprego! Eunício e Pimentel são os senadores eleitos no Ceará.

20:35 A dupla lulista está eleita na corrida para o Senado por Pernambuco. Armando Monteiro tem 39,66% e Humberto Costa tem 38,60%. Marco Maciel está fora, com 12%.

20:34 Vira-vira no Amazonas, Senado: Vanessa tem 583.825 (22,38%), Artur Neto 581.400 (22,29%). 87,94% das urnas apuradas.

19:53 No Rio Grande do Sul, está reeleito, pelo Partido dos Trabalhadores, o Senador Paulo Paim. Ana Amélia Lemos, do PP, ficou em 2o. Rigotto (PMDB) está fora.

19:37 Daniel informa: Senado PI: Metade dos votos apurados, Wellington (PT) e Ciro (PP) na frente de Mão Santa (PSC) e Heráclito (DEM).

19:19 Está matematicamente eleita, pelo Partido dos Trabalhadores do Paraná, a Senadora Gleisi Hoffman. Parabéns!

17: 37 Sem dúvida, são surpreendentes os números da boca de urna do Ibope para o Senado SP: Aloysio Nunes (PSDB) 27% Marta Suplicy (PT) 25% e Netinho de Paula (PCdoB) 22%.

17:17 Morreu Aécio Cunha, pai do ex-governador Aécio Neves.

14:25 Para os junkies políticos que queiram acompanhar com agilidade os números, está disponível para download o software Divulga 2010, do TSE. Já trabalhei com ele e recomendo.


Este é o post que será atualizado com boca de urna, impressões e apuração das eleições para o Senado. O blog torce muito por alguns em especial: Vanessa Grazziotin no Amazonas, as dobradinhas lulistas em Pernambuco, Bahia e São Paulo, Paulo Paim no Rio Grande do Sul. Já comemoro de antemão a vitória das dobradinhas lulistas no Paraná e no Rio de Janeiro e torço contra Heráclito Fortes no Piauí com muitíssimo gosto. Para a intensa torcida por Vanessa, além de minha admiração pela comunista, contribui também o meu desprezo por um Senador em particular. Acompanharemos com interesse a esquerda no Brasil todo.

Fique à vontade para trazer informações do seu estado. Ocasionalmente, eu as pescarei para o corpo do post, sempre com crédito a quem as trouxe. As atualizações serão precedidas de hora e minuto e feitas de forma que as entradas mais recentes fiquem por cima.


PS: Espere alguns (3, 4,5) minutos entre cada F5, por favor, para que não tenhamos problemas com excesso de pedidos ao site de uma vez só.



  Escrito por Idelber às 12:50 | link para este post | Comentários (51)




Boca de urna e apuração: Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas

22:34: Está definida a composição da nova Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

14:25 Para os junkies políticos que queiram acompanhar com agilidade os números, está disponível para download o software Divulga 2010, do TSE. Já trabalhei com ele e recomendo.

Este é o post que será atualizado com boca de urna, impressões e apuração daquela que será a (numericamente) mais expressiva vitória da esquerda em eleições proporcionais na história da República. Todas as estimativas coincidem no crescimento da bancada do PT e do encolhimento das bancadas dos dois partidos que capitanearam a venda do público na bacia das almas durante os anos 90, PSDB e DEM. Alguns apostam que o PT será o maior partido da nova Câmara, outros que será o PMDB. De qualquer forma, eles serão os dois líderes. Computemos esses números, também com atenção às bancadas do PCdoB, PSB, Psol.

O blog torce muito por Jô Moraes em MG, Raul Pont, Henrique Fontana, Elvino Bohn Gass e Stela Farias no RS, Dr. Rosinha no PR e Alessandro Molon no RJ. Fique à vontade para trazer informações a esta caixa de comentários sobre a corrida para a Câmara e as Assembleias Legislativas de cada estado, ou sobre o seu deputado de preferência. Ocasionalmente, eu as pescarei para o corpo do post, sempre com crédito a quem as trouxe. As atualizações serão precedidas de hora e minuto, e feitas de forma que as entradas mais recentes fiquem por cima.


PS: Espere alguns (3, 4, 5) minutos entre cada F5, por favor, para que não tenhamos problemas com excesso de pedidos ao site de uma vez só.



  Escrito por Idelber às 12:34 | link para este post | Comentários (33)



sábado, 02 de outubro 2010

Blogagem ao vivo das eleições, amanhã

Caros leitores:

Meu plano para amanhã é o seguinte. A blogagem ao vivo da boca de urna e das apurações deve começar logo depois do almoço. Como sempre é o caso nas blogagens ao vivo, eu prefiro usar a caixa de comentários do blog que os serviços de chat que há por aí, como o "Cover it Live". Na medida em que um leitor traz informação nova, eu puxo o link e o comentário aqui pra cima. Amanhã, pretendo abrir quatro posts: um para que acumulemos informações sobre as corridas para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas, outro para as eleições ao Senado, outro para as disputas para Governador e, finalmente, no topo da página, o post dedicado a notícias e apurações da campanha presidencial.

Desde já, convoco os leitores nos estados a que nos ajudem com informações em primeira mão, ou mesmo com impressões da boca de urna. Se você não tem Twitter, não deixe de visitar minha página por lá de vez em quando, pois no microblog os links e fontes surgem com muita velocidade e abundância.

Apareço aqui de novo, então, amanhã, lá pelas 14 h, no máximo, com os quatro posts.



  Escrito por Idelber às 16:20 | link para este post | Comentários (28)




13 razões para votar em Dilma Rousseff

1. Dilma é a continuação do governo Lula. Esta é a mãe de todas as razões. O governo Lula é aprovado por mais de 80% dos brasileiros e acumula, em todas áreas, uma coleção de números de fazer inveja a qualquer outro governo da nossa história republicana. A pobreza caiu pela metade. Mais de 30 milhões de brasileiros se juntaram à classe média. O salário mínimo subiu 74% sobre a inflação. Mais de 14 milhões de empregos foram criados. Dilma Rousseff foi parte deste governo desde o primeiro minuto e é a legítima herdeira desse legado (pdf).

2. Dilma continua a política de fortalecimento do patrimônio público. Uma das razões pelas quais o PSDB foge da figura de Fernando Henrique Cardoso como o diabo foge da cruz é a categórica opção, feita pela esmagadora maioria da sociedade brasileira, contra o privatismo, a desregulamentação e a venda do patrimônio público na bacia das almas. Somos um país de centro-esquerda, neste sentido. Nada foi privatizado no governo Lula e empresas como a Petrobras deram um salto gigantesco, de combalida candidata a ser “desmontada osso por osso” à condição de quarta maior empresa do mundo, responsável pela maior capitalização da história da humanidade. É Dilma, não nenhum outro candidato, quem representa a continuação desse fortalecimento.

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3. Com Dilma sabemos que nossos irmãos mais pobres continuarão a ter acesso ao Bolsa-Família. Mais de 12,6 milhões de famílias foram beneficiadas pelo maior programa de transferência de renda do mundo. Não somente nós, de esquerda e centro-esquerda, mas também economistas liberais e instituições como o Banco Mundial concordam que o Bolsa-Família é parte essencial da redução da desigualdade. O principal candidato da oposição, José Serra, não conseguiu unificar sequer sua campanha ao redor de uma posição sobre esse tema. Chegou-se, inclusive, à bizarra situação de que enquanto o candidato prometia dobrar o BF, seus correligionários e sua própria esposa davam declarações que associavam o programa à “vagabundagem”. Com Dilma não tem erro: continuaremos a reduzir a desigualdade no Brasil.

4. Dilma representa uma política externa altiva, soberana e baseada no diálogo. A política externa é um dos grandes êxitos do governo Lula. Passamos de uma situação subordinada, em que discutíamos a entrada numa órbita estritamente controlada pelos EUA, que trouxe consequências tão desastrosas para os nossos irmãos do México, à condição de país internacionalmente respeitado, ouvido nos fóruns mundiais e líder incontestável da América Latina. A campanha do principal candidato da oposição foi marcada por desastrosas declarações, cheias de insultos aos nossos vizinhos. Traduzidas em política externa, seria uma fórmula certa para que o Brasil perdesse o lugar que conquistou no mundo. A opção pelo diálogo, pelo respeito às instâncias multilaterais e pela autodeterminação dos povos foi um sucesso no governo Lula e está em sintonia com as melhores tradições do Itamaraty. É Dilma quem representa essa opção.

5. Dilma provou ser uma verdadeira democrata. Nenhuma candidata à Presidência no período pós-ditatorial—nem mesmo Lula—sofreu bombardeio midiático comparável ao que foi lançado sobre Dilma Rousseff nesta campanha. Acusações falsas sobre seu passado; grosseiras infâmias sexistas; falsas notícias; manipulação de declarações suas; mentiras sobre suas contas; fichas policiais adulteradas: tudo foi lançado contra ela. Em nenhum momento Dilma moveu um dedo para calar ou censurar qualquer jornalista. Por outro lado, José Serra, tratado de forma infinitamente mais dócil pela imprensa brasileira, demonstrou amplamente que não é confiável no quesito democracia. Exigiu cabeças de jornalistas nas redações; confiscou fitas de vídeo; deu-nos uma patética coleção de pitis. Mostrou que não convive bem com a crítica. É com Dilma, não com Serra, que garantiremos a continuação da nossa condição de um dos países com mais ampla liberdade de expressão do mundo.

6. Dilma dá show de conhecimento numa das áreas mais importantes da atualidade, a energia. Em 2003, quando Dilma assumiu o Ministério das Minas e Energia, o Brasil vivia uma situação periclitante. Acabávamos de viver um vergonhoso racionamento. Dilma arrumou a casa, garantiu a segurança no abastecimento e a estabilidade tarifária. Participou diretamente da implantação do Luz para Todos, cuja meta original era 2 milhões de ligações, mas que em abril de 2010 já havia realizado 2,34 milhões de ligações, beneficiando 11,5 milhões de pessoas. Nossa produção de petróleo passou a 2 milhões de barris por dia. O pré-sal, descoberta possibilitada pelo trabalho de Dilma, dobrou nossas reservas de petróleo. Além de tudo isso, Dilma já provou ser conhecedora profunda das fontes limpas e renováveis de energia. Faça uma enquete entre os engenheiros da Petrobras. As intenções de voto em Dilma, entre eles, deve andar em torno dos 90%. Eles sabem o que fazem.

7. Dilma é a mais equipada para expandir e melhorar a educação no Brasil. Neste quesito, a comparação entre o histórico petista e o histórico tucano é uma surra de proporções inomináveis. Enquanto em São Paulo, alunos e professores sofrem com a falta de investimento e, acima de tudo, com a falta de respeito, emblematizada nas frequentes pancadarias policiais a que são submetidos, o Brasil criou, durante o governo Lula, 16 novas universidades, mais de 100 novos campi, mais de 200 novas escolas técnicas, mais de 700.000 novas vagas para pobres, a maioria negros e mulatos, através do ProUni. Os professores da rede federal saíram da situação de arrocho salarial em que viviam e agora têm um plano de carreira digno (que ainda pode e deve melhorar, sem dúvida, mas que representou um salto gigantesco em relação ao governo FHC). Se você é aluno, professor ou funcionário do ensino, ou tem filhos na escola, basta olhar para o histórico dos dois principais candidatos e você não terá dúvidas sobre em quem votar.

8. Dilma não criminalizará os movimentos sociais. O histórico tucano na relação com os movimentos sociais é péssimo. Professores espancados no Rio Grande do Sul e em São Paulo; os ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra tratados como criminosos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso; o funcionalismo público submetido a arrocho salarial e a uma total recusa ao diálogo em Minas Gerais. Sem misturar movimento social com governo, sem transigir na aplicação da lei, quando de aplicar a lei se tratava, Lula e Dilma estabeleceram com as manifestações políticas da sociedade brasileira uma relação de respeito e diálogo. É assim que deve ser. As declarações de José Serra sobre, por exemplo, o MST, são profundamente preocupantes. É com paz e negociação que se resolvem os embates entre movimentos sociais e governo, não com porrada. Dilma é a garantia de que essa política continuará sendo seguida.

9. Dilma representa um novo reencontro do Brasil com seu passado. Notável na sua capacidade de falar sobre um passado traumático, admirável na tranquilidade com que se refere às torturas a que foi submetida, Dilma teve o dom de não transformar o rancor e o ressentimento em arma política. O Brasil está anos-luz atrás dos seus vizinhos do Cone Sul naquele processo para o qual os alemães cunharam essa belíssima palavra, Vergangenheitsbewältigung, que poderíamos traduzir como o dom de acertar as contas com o passado. É Dilma quem nos pode guiar na revisão desse pretérito ainda tão recente e tão pouco saldado. Sem rancor, sem revanche, sem ódio, mas sem transigir na aplicação da lei.

10. Dilma tem com quem governar, tem equipe. Este blog respeita o voto verde e respeita Marina Silva. Mas a afirmativa, tantas vezes feita por Marina nesta campanha, de que governaria com “os melhores do PT e do PSDB”, como se não existisse um pequeno detalhe chamado política, só se explica pela ingenuidade ou pela manipulação da ingenuidade. Um político governa com a equipe política que conseguiu montar, e é a equipe de Dilma quem botou Brasília para funcionar de acordo com os interesses dos mais pobres durante os últimos oito anos. Com todos os seus problemas, é o PT, não o PV, quem tem quadros experimentados o suficiente para a gestão de um país complexo como o Brasil. Isso não é por acaso. Mais de 50% dos brasileiros que têm alguma opção partidária preferem o PT. Por volta de 30% da população escolhe o PT como o partido de sua preferência. PMDB e PSDB seguem de longe, muito longe, com 6%.

11. Dilma é mais internet para todo mundo. O principal candidato da oposição, José Serra, pertence a uma força política que já demonstrou não ter compromissos com a expansão da internet para as camadas mais pobres da população. Expressão privilegiada dos grandes conglomerados midiáticos do país, o tucanato é responsável por desastres como o AI-5 Digital, uma coleção de inomináveis asneiras destinadas a cercear, censurar e controlar a liberdade da internet. Sob o governo Lula, o acesso à rede mundial de computadores aumentou muito e é Dilma, não qualquer outro candidato, quem tem histórico e compromisso com a implementação do Plano Nacional de Banda Larga, uma verdadeira de carta de alforria informativa no país. Quanto mais gente tiver acesso à internet, mais democrática e bem informada será a nossa sociedade. Os pobres sabem disso e estão com ela, em sua esmagadora maioria.

12. Dilma tem uma bela, impecável história de vida. Representante da geração que correu risco de morte para lutar contra a ditadura com os recursos que tinha, Dilma jamais renegou seu passado. Com serenidade, ela sempre explica que o contexto mudou, que o mundo é outro, e que agora ela luta com outros instrumentos, dentro da normalidade democrática. Mas ela nunca fez as penitências meio patéticas, as autocríticas confortáveis a que nos acostumamos ao ouvir, por exemplo, Fernando Gabeira. Representante também da geração que acompanhou Leonel Brizola na recomposição do legado varguista na pós-ditadura, ela jamais renegou a herança do trabalhismo. Dilma Rousseff é a ponte entre o que de libertário e popular havia no trabalhismo brasileiro e o que de novo e transformador trouxe o Partido dos Trabalhadores. Sua presença já na administração Olívio Dutra em Porto Alegre mostrou que ela estava consciente de que essa ponte era possível. Muitos petistas—este atleticano blogueiro incluído—adotaram, especialmente nos anos 80, posturas sectárias e intolerantes ante o trabalhismo, incapazes que fomos de ver qualquer característica positiva no movimento que conferiu cidadania à classe trabalhadora pela primeira vez. Dilma é a possibilidade de aprofundamento desse diálogo entre o lulismo e tradição trabalhista que ele transforma. Essa bela história de vida está bem narrada em seu primeiro programa de TV:




13. Dilma representará uma vitória inesquecível para as mulheres brasileiras. Ainda somos um país muito machista. A violência doméstica é uma realidade cotidiana para milhares, talvez milhões de mulheres, especiamente as mais pobres. As mulheres ainda recebem bem menos que os homens pelo mesmo trabalho. A maioria da população feminina ainda acumula uma dupla jornada de trabalho. Não só por ser mulher, mas também por pertencer a um projeto político que já demonstrou ser aliado das mulheres na luta, Dilma pode contribuir a mitigar essa situação e nos fazer avançar nessa área tão urgente. Não é desimportante, claro, o fato de que ela é mulher: da mesma forma como a vitória de Lula, por si só, representou imenso ganho para a autoestima dos trabalhadores, que agora sabiam que podiam chegar lá, da mesma forma como a vitória de Obama trouxe enorme esperança para muitos negros jovens, que agora tinham a prova de que alcançar o topo era possível, a vitória de Dilma representará um enorme salto para a autoestima, as possibilidades, as aspirações de milhões de mulheres e, especialmente, de crianças e adolescentes do sexo feminino.


É por tudo isso, e muito mais, que eu voto Dilma Rousseff.



  Escrito por Idelber às 05:26 | link para este post | Comentários (143)