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quinta-feira, 28 de outubro 2010
Néstor Kirchner (1950-2010)
Começa daqui a pouco, na mítica Casa Rosada, o velório do ex-presidente argentino Néstor Kirchner. Se os méritos de um político se julgam pela sua capacidade de transformar o senso comum de seu tempo, não há como escapar da conclusão: Néstor foi um dos grandes. Ele mudou os paradigmas. Os mais jovens talvez não se lembrem, mas 2001 representou um colapso não só da economia argentina, mas de toda uma imagem de país letrado e europeizado, construída ao longo de 100 anos. A fuga de capitais foi fatal, dada a vulnerabilidade que em o menemismo deixara a nação. A descapitalização forçou uma corrida aos bancos que, por sua vez, levou o governo a impor o corralito, na prática um congelamento das contas bancárias. Famílias inteiras, de classe média, eram lançadas à mendicância. Multidões iradas tomaram as ruas. Fernando de la Rúa foge de helicóptero e quatro presidentes se sucedem em uns poucos dias.
Néstor havia sido militante da Juventude Peronista, advogado, prefeito de Río Gallegos e duas vezes governador de Santa Cruz, província isolada dos centros decisórios do país. Não era exatamente um político conhecido. Quando se candidatou, em 2003, o que mais se ouvia é que se tratava de uma "marionete" (títere) de Eduardo Duhalde. Obtém, no primeiro turno, 22%, conquistando uma vaga no segundo contra Menem, que conseguira 24%. Quando as pesquisas começam a indicar que Kirchner venceria com mais de 70% dos votos, Menem se retira da disputa. A pancadaria verbal que lhe dirige Néstor, acusando-o de irresponsável, por colocar em risco a democracia, já dava uma ideia do que seria o governo do sujeito: ele não tinha papas na língua.

Desmoralizada no cenário internacional e afogada em dívidas, presidir a Argentina não era exatamente o sonho de consumo de um político. O que aconteceu dali em diante terá que ser bem narrado um dia pelos livros de história, mas não foi nada menos que fulminante e surpreendente. O novo presidente entrega uma banana ao FMI e começa a priorizar o mercado interno. Acusa dois membros da Suprema Corte de extorsão, promove seus impeachments e inicia a renovação que faria dela um modelo de aplicação de uma política de direitos humanos. Promove a aposentadoria compulsória de dezenas de oficiais das Forças Armadas envolvidos com torturas durante a ditadura. Dá prosseguimento à política iniciada por Alfonsín (e interrompida por Menem) de processar torturadores, só que agora com intensidade e frequência inauditas. O calote no FMI, paradoxalmente, aumenta o poder de barganha da Argentina, e sua dívida é reestruturada em um terço de seu valor nominal. Com uma retórica poderosa, que sempre foi parte integral de sua política, Néstor ia recuperando a autoestima do país. A inequívoca política de direitos humanos lhe conquistou a adoração dos grupos dedicados à causa. Não é de surpreender que ontem o povo tenha tomado a mítica praça.
Em 2007, quando conclui seu mandato, a Argentina havia se recuperado significativamente e Néstor contava com notáveis índices de aprovação. Mas o casal Kirchner surpreende o país anunciando que a candidata seria Cristina. Néstor continua trabalhando nos bastidores e conclui sua trajetória política como presidente da Unasur, posição na qual conquistou o respeito de todos os líderes da América do Sul, inclusive dos direitistas Uribe (Colômbia) e, depois, Piñera (Chile). Tinha uma enorme empatia com Lula, com quem, já em 2003, troca impressões sobre as ditaduras latino-americanas que ficariam marcadas na memória do mandatário brasileiro.
A truculência e o jogo de bastidores são parte da política peronista desde os anos 40. Néstor sabia usar o método como poucos. Elevou o "bate e sopra" à condição de arte da política. Sabia utilizar os inimigos comuns como instrumento para o fortalecimento de sua coalizão. A imensa desolação que tomou conta dos meus amigos argentinos residentes aqui no Chile tinha razão de ser: entre os membros do projeto de centro-esquerda que governa a Argentina desde 2003, Néstor era o mais bem situado nas pesquisas de opinião para as eleições de 2011. A dobradinha com Cristina estava em condições de oferecer dois fortes nomes à Presidência e ao Governo da Província de Buenos Aires. O comentário de Federico Galende, filósofo argentino residente em Santiago, diz tudo: era um realista como Alfonsín, mas sabia jogar.
Sempre é triste ver morrer um grande político mas, no caso de Kirchner, trata-se de nada menos que uma tragédia. O quadro sucessório para 2011 fica bem confuso sem ele, e o blog sinceramente espera que, passada a esperada trégua, esta desgraça não abra as portas para uma volta da direita. A alta popularidade de Néstor era um enorme triunfo da coalizão de centro-esquerda.
O blog deixa este modesto obituário como nota de reconhecimento a homem de coragem. Não são muitos os que teriam o valor de encarar o turbilhão que encarou Néstor em 2003. Diante do caos absoluto, ele levantou, sacudiu, deu a volta por cima. Não é pouco.
PS: A matéria feita pelo Jornal da Globo sobre Kirchner é uma coleção de infâmias sexistas.
PS 2: As buscas por PHA, Nassif, Vianna, Brizola e Biscoito já ultrapassaram as buscas pelos blogs UOL-Globo-Veja (incluídos Noblat e Reinaldinho).
PS 3: Amanhã o Biscoito completa seis anos de atividade (obrigado pela lembrança, Flávia). Ainda não sei se vale a pena comemorar o aniversário de um blog que ficou parado um ano. Parece trapaça com os números.
Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post
| Comentários (39)
#1
Eu lembro bem da banana ao FMI...a imprensa de lá e de cá dizendo: acabou de enterrar a argentina, nunca mais terão crédito!!!! e blábláblá...
Um homem de coragem sem dúvida e casado com uma mulher também muito corajosa. A tragédia faz parte da cultura argentina e eles sabem bem como dar a volta. Fico aqui torcendo para q Cristina surpreenda a todos com garra dando continuidade à reconstrução da argentina.
cara, e qt ao lance do aniversário...larga de ser udenista...tá vendo trapaça em tudo kkkkkkkkkkkkkkkk
bora comemorar...para nós que lemos e adoramos seu blog nunca saiu do ar. Eu vinha aqui pelo menos uma vez por semana, reler alguma coisa, buscar um link.
Então, por favor, brinde-nos com um belo post comemorativo!
aiaiai em outubro 28, 2010 12:24 PM
#2
O machismo do Jornal da Globo não é gratuito, eles fizeram descaradamente um paralelo entre Cristina Kirchner/Dilma e Nestor Kirchner/Lula. Como que dizendo "e se ela ganha e o cara morre?".
Mas também assusta ver que o perigo que ronda as esquerdas latino-americanas, que começou em Honduras ano passado, tem até a contribuição da morte.
Pepino, o Breve em outubro 28, 2010 12:27 PM
#3
Voc}e é um cachorro por ter ficado parado um ano. E tô dando F5 desde ontem esperando post seu e só agora, meio-dia, quando vou embora mais cedo do trabalho. Excelente texto sobre o caboclo argentino, morte à Grobo preconceituosa. Dilma 13!
Luciano Mano Negra em outubro 28, 2010 12:54 PM
#4
O tempo não cessou de transcorrer enquanto o "Biscoito" hibernava, Idelber. A hibernação não subtrai uma ano do blog, cujos leitores, durante esse período, aguardavam, muitos ansiosamente, a retomada das atividades. São seis anos, nem mais nem menos. Belos seis anos! Celebre-os! Afinal, o tempo passa rapidamente e aniversários são comorados somente uma vez por ano.
Parabéns pelos seis anos do Biscoito, Idelber! Que venham muitos mais!
Um abraço!
Fabiano Camilo.
Fabiano Camilo em outubro 28, 2010 1:00 PM
#5
PS 3: Faz-se a comemoração dos 6 ou 5 anos do Biscoito, ao gosto do cliente :-p
daniel em outubro 28, 2010 1:29 PM
#6
Kirchner entrou para a história como o Presidente que reconstruiu a Argentina e fez seu povo voltar a se orgulhar do país em que vive.
Enfrentou o sistema financeiro internacional, promoveu a retomada do crescimento econômico, reduziu a inflação, diminuiu consideravelmente o desemprego, a pobreza e a miséria e (junto com Lula e Chávez) foi fundamental para impedir que a América do Sul aderisse à ALCA.
Acredito que Cristina Kirchner saberá honrar o legado de Néstor e que uma nova liderança surgirá para dar continuidade ao 'kirchnerismo'.
Valeu, Kirchner!
Marcos Doniseti em outubro 28, 2010 1:53 PM
#7
Noutro dia estava a ler o Facundo, que é um livro (escrito por Faustino Sarmiento, que veio a ser, inclusive, presidente argentino) cheio de imprecisões e maniqueísmos mas que tem, em seu bojo de contraposição entre a Civilização Européia e a barbárie Gauchesca, todo um detalhamento de fatos e costumes que vieram a constituir a moderna República Argentina, cuja modernidade, aliás, ficou para trás justo em razão daquele que mais a prometeu, Menem.
Quando vejo o Clarín se contrapor a Kirchner como sendo justo o Clarín a representação da civilização e Kirchner o barbarismo do gaúcho interiorano, reconheço os fantasmas de Sarmiento como o que de fato eram: fantasma, criaturas inventadas por ima imaginação que queria compreender, nem que fosse a bordoadas de eurocentrismo católico, um mundo que o ultrapassava em muito.
Ao ler, ver e ouvir a cobertura da imprensa brasileira sobre a morte de Néstor, reconheço a similaridade entre as pseudo elites desse vasto continente, ainda aquém da antropofagia indígena e oswaldiana.
Que a terra seja leve para Néstor Kirchner. Aqui, a coisa está com um peso difícil de carregar. Mas queríamos o que? Só os bônus do poder?
Alterar, de fato e mais profundamente, os paradigmas, é a tarefa que se apresenta. Seria bom deixar a complacência e o pragmatismo mais de lado após dia 31.
Senão os Menens e Efeagagás da vida revivem em seus seguidores, com toda mídia a tecer loas pelo recrudescimento da divina civilização.
marcos nunes em outubro 28, 2010 2:18 PM
#8
Descobri seu blog nessa eleição e gostei muito. Quanto a Kirchner, acredito que o mérito é mais do povo argentino, não havia conjuntura política, depois de presidentes derrubados, para uma atuação mais à direita. Foi a indignação e exaustão dos argentinos que impos a pauta do governo, Kirchner gostou da popularidade e seguiu em frente. Depois a Argentina já havia ido à direita demais, o receituário alternativo era a única possibilidade e o crescimento da economia brasileira (inclusive no país vizinho), assim como a ajuda da Venezuela e China ajudaram bem.
angel em outubro 28, 2010 2:21 PM
#9
E o comentário da Lúcia Hippólito na CBN? não sei como eu consigo ouvir...nojo:(
Cynara em outubro 28, 2010 2:39 PM
#10
Paulo Henrique Amorim "progressista"? Considero isso uma ofensa à palavra progressista.
bacana em outubro 28, 2010 2:56 PM
rabbit em outubro 28, 2010 3:02 PM
#12
Tambem conheci voce e seu blog agora nessas eleicoes, Idelber! Mais um merito pra Dilma, pq foram grandes descobertas! Parabens pelo seu blog. Estou com a impressao de que a Globo, apesar da descarada tentativa de aproveitamento da morte do Kirchner hoje no Bom dia Brasil, esta um pouco mais sutil. Sera medo?
Adriana em outubro 28, 2010 3:17 PM
#13
Tambem conheci voce e seu blog agora nessas eleicoes, Idelber! Mais um merito pra Dilma, pq foram grandes descobertas! Parabens pelo seu blog. Estou com a impressao de que a Globo, apesar da descarada tentativa de aproveitamento da morte do Kirchner hoje no Bom dia Brasil, esta um pouco mais sutil. Sera medo?
Adriana em outubro 28, 2010 3:17 PM
#14
Ao ler a cobertura da morte de Néstor Kirchner na internet, fiquei surpreendido com a ponderação da imprensa argentina - leia-se Clarín e La Nación - e com a virulência da imprensa brasileira.
Li também o El País, da Espanha, e o NYTimes, e ambos os jornais também fizeram uma cobertura ponderada, indicando virtudes e falhas do desaparecido.
Mas é de assustar - ou não - com o desrespeito e com o sectarismo de nossa mídia, que não consegue se desvencilhar de seus objetivos espúrios nem mesmo para noticiar um fato. Tudo é poluído por "projeto de ditador" e "autoritárismo populista". Não conseguem nem trabalhar com os fatos.
Fico triste por perceber somente nos últimos tempos não só as más intenções de nossa imprensa, mas também a sua pura incompetência.
Ps: Idelber, 5, 6 anos, não importa. A leitura de seu blog mudou minha percepção de mundo. Parabéns e Obrigado!
Raphael em outubro 28, 2010 3:41 PM
#15
Idelber, estou com o bacana , #10 .
Não parecer ser lá um elogio estar listado em um mesmo grupo que o Paulo Henrique Amorim.
Um esquerdista de ocasião, que surfou na popularidade e no sucesso do governo Lula. Na verdade muitos dos listados têm lá um pouco disso, e isso vale para o Nassif e o Azenha, por exemplo.
Onde estavam as críticas à esquerda que eles tinham a apresentar quando FHC tinha bons números econômicos, mas sem mudanças significativas na estrutura social, quando perseguia os movimentos sociais e quando (desde o começo) seu governo destruía o serviço público (a educação pública em especial), o que, logicamente, prejudicava os mais pobres?
Ser de esquerda só quando a esquerda dá certo é muito fácil.
E o caso do PHA é ainda pior. Já que em seu blog seus métodos são especialmente repugnantes. Como dizem, Reinaldo Azevedo às avessas. Críticas sem provas e sem embasamento, ofensas de baixo nível, assassinatos de reputação, uso do deboche em detrimento do argumento racional... Enfim, PHA faz um desfavor a imagem desses chamados "blogs progressistas".
JG_ em outubro 28, 2010 4:00 PM
#16
Fiquei verdadeiramente triste quando soube da morte do Kirchner. Mesmo sem acompanhar de perto a política argentina, imagino que ele seria o provável vencedor da próxima eleição. Fico com arrepios ante a possibilidade de vitória de algum representante da direita. Afinal, Kirchner e Lula foram os arquitetos do fortalecimento do Mercosul e do enterro da Alca.
Parece que paira sob o destino da Argentina um pendor pra a tragédia: Perón, Isabelita, os generais patéticos, Menem, e agora a inesperada e inoportuna morte de Kirchner.
Ótimo artigo, Idelber. Faltou apenas salientar a luta do casal Kirchner contra o PIG argentino. No mais, parabéns pelo aniversário do blog!
Ricardo Montero em outubro 28, 2010 4:50 PM
#17
Concordo com a Adriana do comentário #13 sobre a conduta da Globo ao longo da semana em curso.
Ou ela jogou a toalha e desistiu do Serra ou está realinhando suas forças junto com seus parceiros do PIG para uma última cartada.
Mas como sou otimista,acho que ela desistiu e já está querendo não criar um clima de confrontação com a presidenta.
Assino embaixo os comentários do JG #15 a respeito do Paulo Henrique.As vezes o leio mas não gosto de seu estilo.Se nós da esquerda reclamamos dos métodos repulsivos da direita,não podemos concordar com algumas de suas posturas.Ele as vezes achincalha demais,debocha demais e isso não é legal.Só reforça os argumentos de Reinaldo Azevedo e cia de que a campanha suja parte de nosso lado.
A melhor definição que ouvi nos últimos tempos sobre como deve ser a postura da esquerda nos embates com a direita,em momentos eleitorais ou não,foi dada pelo governador reeleito da Bahia Jacques Wagner no programa Roda Viva da TV Cultura.Ele dizia a seus companheiros nas andanças pelo interior da Bahia ainda dominada por ACM que "a cada xingamento responda com argumento".E olha que um dos entrevistadores do programa era o Augusto Nunes da Veja.
Gabriel Braga em outubro 28, 2010 5:16 PM
#18
É lastimável a morte de NK. Esperemos que essa ausência e o perigo do retorno da direita sirvam para reaproximar diversos setores da esquerda argentina.
Pino Solanas, com quem fiz um curso de cinema, há muitos anos, deveria participar desse esforço e apoiar CK, ele que era brigado com a turma dos Kirchner.
E parabéns pelos seis anos menos um, Idelber!
Jair Fonseca em outubro 28, 2010 5:20 PM
#19
Obrigado pelos comentários! Estou numa correria danada aqui no Chile, mas agora fiquei curioso: qual foi esse comentário da Lucia Hippolito mencionado pela Cynara?
Idelber em outubro 28, 2010 5:32 PM
#20
Querido Idelber, sem querer trollar, e agradecido pelo seu retrato de Kirchner chamando atenção para aspectos pouco enfatizados na cobertura tradicional, peço licença para ressalvas, só para animar o debate.
Seu retrato de um heroi só é matizado por uma frase que traduz sua aceitação pragmática da realpolitik kirchnerista: "A truculência e o jogo de bastidores são parte da política peronista desde os anos 40. Néstor sabia usar o método como poucos. "
Kirchner aliou-se aos caminhoneiros da CGT para alijar os "gordos", sindicalisats tradicionais, soltando um novo monstro na política argentina. Isso ainda vai cobrar um preço alto à viúva. Um amigo argentino com cargo no governo lá me lembrava que a guerra suja argentina não começou na ditadura, mas no governo Isabelita (sem comparações, apenas como lembrança histórica; está no filme 'O Segredo de seus Olhos', lembra?). Essa truculencia sindical e partidária, ás vezes quasi-mafiosa, não combina com democracia, me perdoe.
Vejo uma omissão no texto, sobre o papel do ministro da Fazenda, o Lavagna, na saída da crise argentina (papel que os jornais conservadores, pelo outro lado do espectro, supervalorizam).
Discordo de sua visão como "sexista" para a matéria da Globo, ainda que a frase que tenta resumir a relação do casal Kirchner seja muito infeliz em sua generalidade. A comoção com a morte de Néstor não é a de um ex-presidente, como bem comentou Rosendo Fraga. Cristina é um tremendo quadro político, mas cedeu para Kirchner a tarefa de ditar o estilo do governo. O cara governava, era o articulador político e era nele que residia o equilíbrio entre as forças que davam respaldo ao governo, a começar pelo sindicalista caminhoneiro Moyano. Acho reducionsita tachar quem chama atenção para esse fato de "machista".
O calote do FMI era inevitável, ainda que pressionassem para continuar no sistema falido herdado de Menem. Mas não é essa redenção popular; trouxe problemas graves até hoje, entre eles a falta de investimentos e de fontes de financiamento (de que se queixam governo e industria argentinos, aliás, quando botam barreiras aos produtos brasileiros, alegando que nós temos o BNDES, eles não).
A manipulação dos índices de inflação é coisa grave, e distorce inclusive a avaliação sobre o crescimento argentino. A inflação é um bicho cruel e danoso aos pobres e está desarticulando a economia. Kirchner vinha perdendo; perdeu a queda de braço com o setor rural no Congresso e as eleições legislativas recentes; a cosia não estava tão boa para o casal e há quem diga que isso ajudou a pifar o coração o cabra.
Apoio sua intenção de mostrar o aspecto de líder e figura histórica de Kirchner, mas há um lado profundamente negativo na gestão dele e da mulher que não devem ser esquecidos e não são invenção da imprensa canalha.
(E, PQP, essa de comemorar o sucesso do "progressista" Paulo Henrique Amorim foi triste; quase tanto quanto ver alguém nos comentários comparando Nassif e Azenha, caras com currículo, a esse oportunista).
SLeo em outubro 28, 2010 5:37 PM
#21
Excelente comentário, querido Sergio, concordamos quanto às omissões do meu texto (era um obituário!) e discordamos radicalmente quanto à matéria da Globo. Se dizer que "quem governa é ela, mas quem manda é ele" não é sexista, sinceramente, não sei o que é sexismo.
Note um detalhe: você está entre os "indispensáveis" do Biscoito. Procure o link ao PHA.
Idelber em outubro 28, 2010 5:44 PM
#22
Também não gosto muito do gênero que faz o PHA. Embora tenha ótimas tiradas e invente palavras e expressões certeiras, não dá pra comparar seu estilo com o do Nassif e o do Azenha.
E eu prefiro PHA, Nassif e Azenha do nosso lado - eles que estiveram na barriga do monstro e lhes conhece as entranhas, como diria Martí - do que do lado de lá.
São jornalistas muito importantes. E que têm todo direito de fazer seus blogues e assumir suas posições, como quaisquer blogueiros.
Ou não?
Jair Fonseca em outubro 28, 2010 6:00 PM
#23
Assim, você me deixa sem graça, professor. Sabemos que meu Sítio é bem dispensável, me comoveu quando o vi nessa lista; fico feliz quando diverte. Indispensável é sua amizade.
A frase "quem governa é ela, mas quem manda é ele", único ponto da matéria que poderia ser classificado de sexista, merece ser levada em conta. Afinal, é verdadeira ou não? Eu acho que é. Embora desajeitada, limitada pelos constrangimentos de tempo das matérias de TV. Menos que sexista, vejo um texto vítima da superficialidade com que a televisão trata assuntos complexos.
Mas, vendo análises até de kirchneristas, é difícil negar que é um resumo, ainda que precário, da situação de fato. Cristina era a presidente, tomava decisões, assumia posições, mas questões fundamentais do governo eram de Kirchner, que era o esteio da aliança política que sustenta o governo. Não por outro motivo se fala em possíveis mudanças (não creio) com a morte dele. O repórter quis traduzir esse poder de Néstor numa frase só e fez um resumo deselegante, vai.
SLeo em outubro 28, 2010 6:05 PM
#24
Duas coisas imperdíveis nessas eleições:
http://48hdemocracia.com.br/ (com o Rovai da Fórum e convidados)
Twitcams do Zé de Abreu. Ele divulga no twitter dele: @realjosedeabreu
Fernando em outubro 28, 2010 6:11 PM
#25
Caro Idelber,
Nesse ano que você passou ibernando, minha frequência quase diária ao blog manteve-se intacta. Mesmo parado, o Biscoito manteve-se atual e atuante para mim. Comemore o aniversário do Biscoito. Sua dedicação merece esse reconhecimento.
Cajueiro
Cajueiro em outubro 28, 2010 6:17 PM
#26
Parabéns, seis anos de Biscoito, um para mais ou um para menos. bjs
maira parula em outubro 28, 2010 7:27 PM
aiaiai em outubro 28, 2010 7:55 PM
#28
Primeiramente parabéns pelos seis anos de blog, você é um dos esteios dos blogueiros progressistas.
Quanto aos jornalistas citados, mesmo PHA dando umas "apeladinhas", colocá-lo como o R.A. do lado de cá é um exagero e uma injustiça. Quanto aos outros dois citados, gosto de ambos e acho que eles tem história, currículo e caráter para estarem onde estão. Independentemente de ideologias (o Nassif até onde sei é capitalista e não esconde isso), eles se ligaram (ou desligaram)foi na falta de caráter do jornalismo super engajado à direita, que ignora e muitas vezes até traveste a verdade factual, praticado na chamada grande imprensa.
Um abraço.
Sérgio Troncoso em outubro 28, 2010 9:29 PM
#29
Sérgio Leo, eu comparei o estilo condenável do PHA ao do Reinaldo Azevedo, a referência a Nassif e Azenha é outra.
Sei que são jornalistas sérios e "tem currículo". Quando eu digo que eles têm um pouco do "surfar na onda do Lula" (foi a única referência que eu fiz ao dois), o que eu questiono é que eles estão bem mais para governistas - apoiadores de um governo que acham merecedor, o que é legítimo - do que para um histórico de "progressistas", encarando-se essa expressão como algo próximo de esquerdistas mais tradicionais.
Uma coisa é dizer que PHA e RA não merecem respeito, outra é dizer que Nassif e Azenha gostam do PT de hoje, porque veem nele o PSDB de 1990. Por isso que eu digo há bem menos esquerdismo ou progressismo neles do que essa pecha de "blogs progressistas" alardeia.
Às vezes tenho a impressão de que os incomoda MAIS o partidarismo descarado da grande mídia em prol do PSDB, do que a perspectiva de um governo do PSDB.
JG_ em outubro 28, 2010 9:32 PM
#30
Bem, já que estou esperando um sanduíche aqui no aeroporto de Santiago, e com uns minutinhos para queimar, vou entrar nessa conversa sobre os blogs chamados "progressistas" -- palavra que eu não costumo usar como autodesignação. Eu gosto de dar nome aos bois e eu sou de esquerda mesmo.
Pois então, PHA, Nassif e Azenha. Eu os tenho como aliados no campo macro, porque nos encontramos alinhados com o mesmo projeto político neste momento. Mas não os vejo como iguais, nem política, nem eticamente.
PHA cumpre seu papel, eu acho, principalmente como humorista, agent provocateur, enfant terrible. Nesse processo, simplifica as coisas, comete injustiças e faz coisas inaceitáveis. O ataque ao Sergio Leo foi grotesco, do nada. O Sergio sabe que eu já bati nele à beça, igual gente grande. Mas eu tenho um código de ética nessas questões: bata com a violência que quiser, mas não bata desonestamente. Podem me acusar de alguma vez ter me excedido na pancada. Manipulação desonesta de citação eu nunca fiz.
Dos três, tenho um respeito muito maior, infinito, pelo Azenha. Gosto do Nassif, mas no blog do Azenha você jamais verá um texto de alguém reproduzido sem link. Isso é muito importante para blogueiro blogueiro mesmo (desses, acho que só o Azenha o é mesmo --como você pode ver aqui--, pois no caso dos outros dois, os textos nunca linkam ninguém). O link é a respiração da rede.
Outra coisa que diferencia o Azenha é que você jamais verá, no blog dele, alguma elucubração maluca de leitor transformada em post. No recente episódio em que o Nassif anunciou que o Lula estava indicado ao Prêmio Nobel, por exemplo (baseado numa matéria da Época de 2003), ele recebeu o comentário do leitor, jogou lá em cima como post e depois, quando se revelou a barriga, ele disse, no Twitter: "o leitor se enganou". Ora, ele também se enganou. No momento em que você transforma um comentário em post, você está assumindo uma responsabilidade.
Reitero: gosto muito do Nassif, tenho ótimas relações com ele, ele sempre me tratou muito carinho. Mas faço esses reparos publicamente (sabendo que mais cedo ou mais tarde chegarão a ele) porque acho que ainda há, ali, um espaço para a aprendizagem de algo essencial ao blog: o link. Blogar é linkar.
Ao longo deste último ano, tenho tido mais contato com o Azenha, e passei a admirar muito, muito mesmo, a ética dele. É uma pena que ele não tenha tempo de escrever mais, porque quando escreve, ele mata a pau. O outro que admiro demais é o Rodrigo Vianna. Esses dois, na minha opinião, estão, como blogueiros, acima dos demais que vêm da grande mídia, por mais méritos que os outros tenham em outros aspectos.
Idelber em outubro 28, 2010 10:06 PM
#31
Idelber, se você quiser mesmo entrar no grupo dos "blogs progressistas", você primeiro teria que mudar o nome do Biscoito pra "Blog do Avelar", colocar uma foto sua no topo do blog, publicar mais textos de outros do que seus, e, como você mesmo disse, passar a não lincar ninguém. Ter trabalhado na Globo também conta pontos.
É uma piada, manjada até, mas é curioso como quase todos os exemplos dos tais "blogs progressistas" respondem sim a 80% desses quesitos.
Quem lançou essa cartilha "de jornalista a blogueiro em 10 passos"?
Tenho a impressão de que foi o Noblat, mas é triste pensar que ele seja a grande referência de jornalista-blogueiro.
JG_ em outubro 28, 2010 10:34 PM
#32
Sobre isso do Nassif dando bobeira por publicar comentário de leitor sem checar a fundo, eu lembrei de um recente:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/marina-pela-minha-tradicao-eu-seria-favoravel-a-apoiar-o-pt
O post deixa um clima de conspiração no ar. Como mostra o google, vários blogs menores reproduziram logo "o PIG escondeu a fala da Marina".
Fui assistir ao vídeo da entrevista e vi que não era nada daquilo. A pergunta de um leitor é que colocava a tal frase e Marina respondeu negativamente (não sei se encarou a pergunta de forma errada mesmo, ou deu uma escapada por ponderação política). A matéria estava mal feita mesmo e foi corrigida, só isso.
Custava o Nassif - sabendo da repercussão que um post seu gera - dar uma simples checada (que não lhe tomaria 5 minutos) e não dar início a um boato descabido?
Cheguei a comentar lá a respeito, com link pro vídeo. Acho que ele também não lê todos os comentários.
JG_ em outubro 28, 2010 10:58 PM
#33
Idelber,
Só para complementar, pois morei na Argentina e lembro bem da sucessão à época. Todos na Argentina já sabiam que ele sofria de problemas gravíssimos de saúde (embora eu não tenha visto se os obituários brasileiros comentaram o assunto; não leio mais os jornais daqui). Foi por esse motivo que Cristina se candidatou – e não Néstor. Jamais imaginei que ele morreria enquanto ela estivesse governando. Hoje percebo o ato de grandeza dele: evitou que sua debilidade física afundasse definitivamente seu país. Imagina o que aconteceria hoje com a Argentina se Néstor fosse o presidente.
Abraços!
Zeca em outubro 28, 2010 11:26 PM
Pedro em outubro 28, 2010 11:52 PM
#35
Idelber, incrível como a ideologia pauta a imprensa por aqui, mesmo em questões em que ela nunca deu muita bola como a política latino-americana. Democracia só é bom quando a direita ganha. E dá-lha cacetada em Morales, Lugo, Chavez, casal Kirchner, Correa, Vásquez. Uribe e Piñera são os únicos que são respeitados. Recorde-se que os cavaleiros do apocalipse Menem, Fujimori, Salinas, FHC e outros "campeões do neoliberalismo" eram referidos com termos elogiosos e saudados como excelentes gestores.
Me deu asco, nojo mesmo, o tratamento que Globo e Veja deram à morte de Kirchner, em clima de quase comemoração, que chegou à escancarada comemoração nos blogs ultradireitistas.
Não me considero informado o suficiente para julgar Kirchner, mas não há como negar sua importância na recuperação argentina e na proeminência que conseguiu no deserto de figuras relevantes que é a política argentina. Respeito é o mínimo que merecem sua memória, sua família e a nação argentina.
Henrique Araújo em outubro 29, 2010 10:54 AM
#36
Só vi agora o link para a matéria (com tom de editorial) do Jornal da Globo. Para lá do sexismo, aquilo é um aviso aos brasileiros do que pode ocorrer com o Brasil se uma mulher assumir o poder e o caudilho/operário morrer. Aqui Waack analisa o futuro do Brasil se valendo da Argentina:
"Nestor Kirchner continuava governando através de sua mulher Cristina, que ia devolver o cargo a ele no ano que vem. O personalismo do líder populista é sempre um problema para instituições democráticas. É perigoso quando o caudilho está vivo e também quando ele morre".
Instituto Millenium, um abraço para vocês, pois serão mais quatro anos de muito sofrimento. Nós, que estamos do outro lado, sabemos como é duro esperar. Afinal, levamos 500 anos para chegar ao poder.
Zeca em outubro 29, 2010 2:46 PM
#37
Idelber, o comentário da Lucia Hippolito se você tiver estômago, pode ouvir no site da CBN, foi no dia 27/10.
Dino em outubro 29, 2010 8:03 PM
#38
¡Gracias! Excelente análisis. Hecho con...
¡MUY BUENA LECHE!
Te siento mi hermano. Casi como al ilustre académico ERASMO D'ALMEIDA MAGALHAES de Universidade de Sao Paulo.
De nuevo... ¡GRACIAS!
Aníbal LENTINI ITURRALDE em outubro 31, 2010 2:02 PM
#39
Idelber e JG, concordo que a alma dos blogs (e da internet) é o link, hoje em dia quem mata a cobra tem que mostrar o link. Mas a proposta do Nassif é fazer do blog dele uma central de informações, por isso ele faz tantos posts com conteúdo dos leitores. Isso gera algumas derrapadas, mas ele tem uma capacidade, muito maior que a média dos jornalistas famosos, de pedir desculpas. Vejam que ele criou recentemente a figura do post Em Observação. Eu não concordo com várias posições do Nassif mas ele as mantém, pelo menos, desde que trabalhava na Folha e não costuma fugir do pau contra interesses poderosos (outras coisas raras no meio jornalístico).
André em novembro 16, 2010 10:18 PM