« José Serra, o privatista ::
Pag. Principal
:: O ambientalismo e o segundo turno das eleições »
quarta-feira, 13 de outubro 2010
O anti-Foucault, por Pedro Meira Monteiro
Meu amigo Pedro Meira Monteiro, de Princeton University, um dos grandes intelectuais brasileiros da nova geração, acaba de escrever este texto como reação a uma palestra de Mario Vargas Llosa em sua universidade. Pedi permissão para publicá-lo aqui no Biscoito.
**********
O anti-Foucault
Uma das muitas virtudes do pensamento conservador é lembrar, aos que temos a veleidade de afirmar-nos imunes à cantilena da conservação, que o nosso discurso é sempre guiado por fantasmas. De fato, não há voz que se sustente sem espectros. Quando falamos, a potência muitas vezes inconfessável que nos move é aquela que trabalha por materializar, diante de nós mesmos e dos que nos ouvem ou leem, um fantasma.
Anteontem, em Princeton, Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu uma palestra intitulada “Breve discurso sobre la cultura”. Em sua fala, o alvo era, sem nenhum pejo ou temor, a figura “sofística” de Michel Foucault.
Incomoda profundamente, a Vargas Llosa, que a figura da Autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, a qual, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele cuidadosamente utiliza no singular). Até aí, nada de propriamente surpreendente, já que a postura conservadora do escritor peruano é bastante conhecida. O que me surpreendeu foi ver um módulo do pensamento conservador, que eu tive a oportunidade de estudar em detalhe em outro momento, reaparecer, quase intacto, diante dos meus olhos incrédulos.
Quando escrevi sobre o visconde de Cairu – um economista do início do século XIX no Brasil – , flagrei-lhe, em meio ao mais empedernido conservadorismo, algo que então considerei quase genial: a capacidade de apaixonar-se quando expende seus argumentos contra um alvo. A questão é menos simples do que parece: é que um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos. (Por isso, em geral, o conservador é aquele que sabe, com razoável ou inquebrantável segurança, o que é a “barbárie”.) No caso de Cairu, a soltura dos corpos se revelava plenamente na loucura da massa torpe e ignara (a Revolução Francesa), e nos avanços subsequentes do “dragão corso” (Napoleão Bonaparte) pela Europa. Eis o paradoxo: o autor, que cautelosamente reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se ele mesmo tomar pela paixão do discurso, lançando-se aos mais incríveis golpes de efeito poético, comparando, por exemplo, as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço. O velho ranzinza (o frei Caneca chamava-lhe “rabugento sabujo”) deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação, e de seus demônios, que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.
Guardadas as diferenças e as proporções (Vargas Llosa é, naturalmente, um bom escritor), o autor peruano tem também o seu dragão, que não é corso, mas é ainda francês. Sua ira mal contida, derramada anteontem contra Foucault, chegou a momentos de incrível ousadia, como quando o espírito “sofístico” do filósofo de maio de 68 é lembrado em paralelo à degradação de seu corpo. É que Foucault, sendo o emblema mesmo da geração de 68, e herói-intelectual daquela aventura tresloucada, entregou-se também aos desvios do corpo e da alma. Foi com pasmo que ouvi Vargas Llosa evocar as famosas e já folclóricas excursões do filósofo francês pelas saunas e bares gay de San Francisco, até o ponto de que sua morte com AIDS (referida também na palestra) ficasse no ar, como uma espécie de justiça poética e maldita, que recai sobre aquele que tragicamente negou o aspecto dissoluto de sua vida moral.
Houve outros momentos de pasmo para mim, como quando sua ira se estendeu a toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, e quando, dos teóricos pós-estruturalistas (De Man, Derrida), ouvimos as piores coisas, pelo menos até que, num estranho golpe de misericórdia, se dissesse que o que tal pensamento produziu não é muitas vezes mais que uma inútil e aparatosa “masturbação” (sic).
Eu respeito o pensamento conservador, e respeito especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a coragem de defendê-lo e de, ao mesmo tempo, sustentar publicamente sua voz, cultivando, ademais, a forma do diálogo. Há, contudo, pelo menos um equívoco grande naquilo que disse ontem o ganhador do prêmio Nobel deste ano: em dado momento, ele reproduziu a já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Derrida, nada ou pouco se compreende. Foi aí que pulei da cadeira, e vi meu próprio demônio diante de mim: não é verdade que ele nada tenha compreendido dos textos de Derrida! Que não compreendeu os textos em si, o seu “breve discurso” deixa claro. Mas ele compreendeu – e como conservador, compreendeu perfeitamente – que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio. Mas desvio de quê? Rumo a quê? À cultura? Ou estamos todos perigosamente fugindo da cultura? Cultura de quem? Para quem?
Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é um discurso de retenção, de contenção, e de recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo, ou do Corpo.
É de fato uma enorme questão, que o “Breve discurso sobre la cultura” tem o mérito de trazer de novo à baila. Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge.
Princeton, NJ, 13 de outubro de 2010.
Escrito por Idelber às 17:31 | link para este post
| Comentários (42)
Cristiano em outubro 13, 2010 6:15 PM
Cristina em outubro 13, 2010 6:17 PM
#3
Idelber,
que maravilha texto. Obrigada por publicá-lo. Lembrei de quando Ferreira Gullar disse que Hélio Oiticica procurou a própria morte quando subiu a Mangueira. Porque quando o corpo se apresenta ele pode ser insuportavelmente real. E aí não tem como segurar. Vargas Llosa não entendeu o significado do seu prêmio, que só foi dado por essa ausência de fluidos, porque, de certa forma, o seu discurso é limpinho.
Um beijo
Flávia Cera em outubro 13, 2010 6:34 PM
#4
Eu tenho sérias dúvidas sobre a preservação da inteligência de Vargas Llosa. Ela demonstrou problemas em Canudos -- apesar da sensacional narrativa -- e teve morte súbita e irremediável com Mayta.
Esse discurso que teu amigo PMM nos traz é algo que beira o patético (pelo moralismo) e só encontra seu lugar efetivo no cômico (pela pretensão).
Baita post, baita informação, prêmio ridículo.
Milton Ribeiro em outubro 13, 2010 7:03 PM
#5
com certeza Vargas Llosa não é merecedor do Nobel. premio ridículo. merecido mesmo é dar o Nobel pros genios da literatura Marilena Chuí e Emir Sader
adilson em outubro 13, 2010 7:11 PM
#6
Ótimo texto, fundamentado e bem escrito. Vira e mexe, os conservadores caem de pau em Foucault e tudo que ele representa. A frase final ( "Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge." é perfeita!
Cláudio Costa em outubro 13, 2010 7:15 PM
#7
O problema dos conservadores é esta necessidade de defender até o fim a cultura e a ideologia de um passado que nunca voltará a ser. Para manter a ilusão de que isso é possível, cometem contorcionismos alógicos em seu discurso, negam o que tentam defender e defendem o que tentam negar.
É triste, mas o que dizer de quem só olha para o passado?
Radical Livre em outubro 13, 2010 7:22 PM
#8
Eu creio que o Nobel, em si, é ridículo. É o tipo da boa intenção que o inferno está cheia. Como hierarquizar saberes e como dizer que fulano ou sicrano é o grande escritor - qual o critério? Vargas Llosa, por sua vez, representa toda uma geração de intelectuais-sabujo da América Latina, que tiveram uma passagem tão translúcida quanto rápida pela esquerda - mas que mantiveram como constante em suas carreiras o desprezo pelo elemento popular de sua gente - para depois se aliar ao mais desumano dos projetos do conservadorismo, aquele que é construído em torno de um simulacro de liberdade que equivale a pior das prisões. É de uma estirpe cujos análogos, no Brasil, se viram violentados pela eleição de Lula por conta do simbolismo de um homem da plebe rude ter chegado ao poder. Essa palestra dele foi o cúmulo.
Hugo Albuquerque em outubro 13, 2010 7:27 PM
#9
Posição libertária essa de respeitar a soltura do(s) corpo(s) do próprio Llosa, que, por sinal tem se manifestado apenas folcloricamente, como um ponto extemporâneo no qual mantemos o olhar para saber, com alguma exatidão, para onde não ir.
Rondinelly em outubro 13, 2010 7:39 PM
#10
Idelber, ainda que na condição de leigo em tudo, me permito dizer o seguinte: que se perde muito tempo nas humanidades com Derrida, se perde. Mas, ao dar-se crédito ao relato do Pedro, o Llosa perdeu uma grande oportunidade de apontar o pior de Derrida: sua incrível ignorância das ciências.
daniel em outubro 13, 2010 7:47 PM
#11
Acho que o Pedro toca o dedo na ferida em seu texto, e é uma pena que alguns comentários não tenham entendido que o problema não é discordar de Derrida ou Foucault mas sim desqualificar por completo o discurso crítico dos dois. A agressividade ressentida com que algumas pessoas se dirigem ao trabalho dos dois nesse ato de desqualificação é prova de duas coisas:
1. O poder provocador dos dois continua intacto; certos setores da intelectualidade, conservadora ou não, não conseguem engolir os dois de jeito nenhum.
2. Essa sanha agressiva não diz tanto sobre os dois autores como diz sobre essas pessoas que querem apagar tudo o que os dois disseram, voltar o relógio para antes de 68. E acho que, no caso extremo de Vargas Llosa, trata-se de voltar o relógio até antes de 1848 e esquecer toda a crítica que se fez sobre o liberalismo clássico, de forma cada vez mais contundente, por todo o século XX.
Paulo Moreira em outubro 13, 2010 8:30 PM
#12
Uma resposta derridiana: Vargas Llosa não pode/quer ler Derrida/Foucault/etc. Il ne pveut pas lire...
Marcelo R. S. Ribeiro em outubro 13, 2010 9:30 PM
#13
É a volta de Jackson Derrida.
Jair Fonseca em outubro 13, 2010 10:14 PM
#14
Textão esse - raios me partam se não foi um prazer decifra-lo. Recomendo a leitura, imediatamente após, do texto publicado no Clarin- espanhol não é alemão, dá pra entender perfeitamente. Agora - me esclarece: publicar esse texto, e a ênfase q vc está dando ao Nobel tem alguma coisa com o momento meio de brochada q estamos vivendo, depois de 3/10? Afinal, VL resolveu cair em cima de um ícone como Foucault, de forma petulante e desrespeitosa. Como, por sinal, a direita é useira e vezeira em fazer. Será q vc está tentando um vislumbre do q será um governo Serra, pelo viés intelectual e científico? Ao ler o texto, sei lá pq, lembrei de FHC ordenando q se esquecesse tudo q ele havia escrito, aquele outro cara (acho q foi o Gianotti) dizendo q tinha "posto no lixo todos os livros de Marx" e o Sérgio Motta chamando o trabalho de Ruth Cardoso (em minha opinião bem mais digna q o marido "príncipe"...) de "masturbação sociológica" - por sinal, não é curioso como conservadores costumam a apelar sempre ao mm vocabulário?.. Bem, provavelmente estou delirando, pra variar...
bitt em outubro 13, 2010 10:15 PM
#15
Belo texto.
MVL ressuscita a "República das Letras" do século XIX na América do Sul. Será esse o siginificado de pós-moderno: a reabilitação do espírito desencarnado? Dicurso limpinho, eugênico, sem dúvida: só falta propor o expurgo da arte contemporânea, a exemplo do que fizeram com o expressionismo alemão, ou com a ocultação de Floriano Peixoto da 1ª República brasileira, e exigir que Derrida, lá das profundas, venha responder a um interrogatório policial.
Nobel com pinta de título nobiliárquico.
Fascismo da hora, não é Foucault?
Simone del Río em outubro 13, 2010 11:38 PM
#16
Eu gostaria de usar a última oração em alguns textos meus. Eles fogem do corpo e do risco que se impõe nas aventuras da esquerda. A esquerda sempre se arrisca. A brochada foi importante em 03/10 porque se seguiu como resposta natural à punhalada pelas costas que Lula levou da Erenice, a imperdoável. Mas são coisas da esquerda isso. A direita não trai, não erra e não peca. Com eles são somente acidentes e ações individuais. Vc BITT disse no seu comentário quase tudo sobre o que nos espera se alguns intelectuais continuarem defendendo a democracia em neutralidade. Tomem posição ora. Aceitem os riscos que a democracia e a esquerda sempre nos apresentara do seu modo torto e avesso. Vou trabalhar para manter a boca do jacaré aberta e olhar a direita e os conservadores fugirem.
Daniel Boeira em outubro 14, 2010 12:34 AM
#17
A Veja e o Estadão concorrem lance a lance para levar Vargas Llosa como colunista, cogitam até colocá-lo como vice de Serra no lugar de Índio da Costa.
Giorgio Gislon em outubro 14, 2010 2:16 AM
#18
Caro Paulo: vou por aí também: o texto toca o ponto onde certa esquerda sem-libido se encontra com a direita raivosa: a negação de 68.
Abraços
Alexandre Nodari em outubro 14, 2010 2:18 AM
#19
Que bom estar acordada às duas da manhã, trabalhando, para ler um texto desses. Pincei duas frases, que me pareceram lapidares, ou tiveram um significado especial para mim:
"um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos".
Isso me remete tremendamente ao momento fogueira de inquisição que vivemos hoje no debate eleitoral.
E a segunda:
"o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio".
Seria petulância minha reivindicar subscrever uma frase dessas, mas eu me emocionei ao lê-la. Vou dormir com ela na cabeça, porque resume tanta coisa na minha vida. E transborda tão lindamente também para a vida pública, que daria panos pra manga pensar mais sobre o assunto.
Ana Paula Medeiros em outubro 14, 2010 3:09 AM
#20
Ah, só pra complementar: esse texto caiu bem no momento em que estou mergulhada na Microfísica do Poder, como parte da bibliografia do meu projeto de tese.
Ana Paula Medeiros em outubro 14, 2010 3:11 AM
#21
6 pontos percentuais de diferença, e contando...
nelio em outubro 14, 2010 9:59 AM
#22
Algo sério, agora: ao Llosa deve-se dar a justiça de que é um dos poucos romancistas que também se desenvolve com valor no campos do ensaio. Uma das exceções raras, tal qual Coetzee, Saul Bellow, Mann (que já fazia o ensaio no próprio corpo de seus romances), Canetti (que, talvez, seja o inverso: um excepcional ensaísta que cometeu um ótimo romance), Pamuk e não me lembro quem mais. E é sintomático que os modelos de influência do peruano sejam ou autores restringidos à produção romanesca, ou inéptos infelizes que sempre se davam mal quando saíam da prosa (o primeiro time: seu festejado Flaubert; o segundo time: Faulkner, Hemingway e Sartre).
Considerando o acima, devemos interpretar o discurso de Llosa como vido de um narrador potente, e não de um filósofo profissional. O romancista tem a vantagem de não fazer parte de nenhum corpo de ofício do pensamento, sendo livre para misturar erudição com a vox populi. E foi o que fez Llosa ao analisar Foulcalt. Suas palavras são as do opinador que se agarra legitimamente à sua condição de leigo extremamente versátil. Foucalt é uma sumidade entre os catedráticos, mas, por mais que seja influente, não o é entre os leitores, mesmo os profissionais. O fato novelesco de ter exposto a contaminação do HIV que sabia-lhe incubado, aos seus amantes eventuais, pode ser um detalhe plástico que não conspurca sua obra intelectual, mas para um romancista, que encarna a consciência de uma moral social e de uma ética espiritual, é algo condenável. Llosa, num ensaio da juventude, repetiu a moral de que por detrás de um escritor há que se ter um homem. Baseado nesse princípio que ele proferiu esse ataque (?) a Derrida e aos filósofos profissionais. Fez sua tarefa de adstringir o meio muitas vezes frio e i-numano que prevalece no pensamento profissional, mostrando que os moldes bem solidificados, petrificam.
nelio em outubro 14, 2010 10:25 AM
#23
Esse ataque mesmo não tem nada de novo. Nada de novo debaixo do sol. Repetição do covarde ataque a Foucault em Oublier Foucault do Baudrillard e que ele repete, com requinte de cafajestia (referência a AIDS, a simetria entre o corpo que se desfaz ante ao vírus e o intelectual que se desconstrói em 84), em Cool Memories. Ad Hominem é um esporte interessante quando não se chuta bellow waist. Mais um motivo para desprezar Llosa?
Luiz em outubro 14, 2010 11:16 AM
#24
Nelio,
Essa história de que o Foucault saiu em uma alucinada missão nas noites de São Francisco infectando homens inocentes em saunas e joints S/M é conversa pra boi dormir que o Miller inventou, almost out of thin air, de algo que o Daniel Defert nunca disse. Todo o mundo sério ignora o "Passion of Michel Foucault". Não é só uma biografia ruim. É um exercício explícito de descanonização. Tainted por esse objetivo de fazer o Foucault descer do pedestal. Entre outras bobagens que ele disse (além da que você citou) ele afirma que as aventuras S/M do Foucault tomaram como que um misticismo, uma estética mística, para o intelectual. Atirar pedra no intelectual (e homem) Foucault virou esporte depois da sua morte. Mas vamos com calma, né.
(Em tempo, a quem interessa, há biografias sérias por aí, como a de David Macey)
Luiz em outubro 14, 2010 11:30 AM
#25
Pode-se realmente argumentar que os textos de Derrida soam pouco compreensíveis para nós, habitantes dos primeiros decênios do século XXI (do amanhã não tenho a pretensão de falar). Mas se assim é, que mal eles podem causar? Como podem gerar uma reação direcionada e perigosa por parte de um grupo considerável de pessoas?
Já no que toca a Foucault, alvo principal dos disparos, esta crítica não se aplica de forma alguma, então o bicho pega mais abaixo. Espanta-me que ainda hoje, em pleno 2010, após a humanidade ter lutado tanto para descriminalizar o sexo, alguém que se diz intelectual, ainda utilize a conduta sexual de um escritor como base para criticar suas idéias. Aqui cabe aquela velha expressão popular, o que tem a ver o ...ú com as ...alças?
Já que a vida íntima dos participantes do debate de idéias entrou na pauta, mais adequado seria que o palestrante tivesse exposto a sua, para que os ouvintes pudessem ter algum termo de comparação. Certamente ele pouco ou nunca lançou mão da prática da masturbação, coisa tão ridícula e expúria quanto um pensamento de Derrida.
MCarlos em outubro 14, 2010 11:53 AM
#26
Foucault mesmo é um capítulo de um'A Vida de Homens Difamados.
Pelo visto, sua obra incomoda muitíssimo, até hoje, para se tornar o centro do tal discurso difamatório do Nobel de Literatura.
Quanto ao Nelio, quanta barbaridade! "Ineptos infelizes"?!?! Faulkner, do "segundo time"??!!
Vade retro!
Jair Fonseca em outubro 14, 2010 11:55 AM
#27
Vamos pra campanha, que um cenário de pesadelo se acerca do Brasil!
Jair Fonseca em outubro 14, 2010 12:28 PM
#28
Taí Luiz, não sabia disso. O Miller a que se refere é quem? Henry? Mas acho saudável a desconstrução de mitos. Bernhard fazia isso muito bem. Em O Imitador de Vozes, em poucas e belas palavras de um dos minicontos, desconstroi um dos meus heróis da juventude, Knut Hamsun; em Extinção, faz o impensável: desconstroi a fixação pelo idioma original da obra, afirmando que há traduções que são muito maiores.
Acho importante essa posição de Llosa. É mais que pura provocação. Alguém do cacife dele conhece a fundo Derrida, sabe reconhecer a verdade de quando Adorno disse não haver mérito em ser entendido por completo, que o texto deve ter uma complexidade e uma insolvencia para alcançar níveis concentrados do discurso. Não é bom, agora, julgar Llosa pelo seu posicionamento político. Ele é muito mais coerente em suas ideias e suas críticas ao Estado doente da América latina, do que o já há muito finado Garcia Márquez, que sempre que se dedica a falar sobre política incorre em constrangimento.
nelio em outubro 14, 2010 1:21 PM
#29
Jair, dá um tempo, cara! Isso aqui, apesar de não parecer, pode ajudar a Dilma muito mais do que a saturação constante, que ninguém mais ouve.
Por um momento, é bom dizer: fodam-se a Dilma e o Serra!
nelio em outubro 14, 2010 1:24 PM
#30
Jadir, só agora li seu comentário mais acima. Volta lá no que eu escrevi, cara: não disse que o Faulkner prosador é de segundo time. Faulkner é tão grande quanto Shakespeare, e não exagero. O que disse é que grandes narradores, como Faulkner, Hemingway e Sartre, quando se lançaram a escrever sobre política, eram de dar vexame. "Sempre se davam mal QUANDO SAÍAM DA PROSA". Aprenda a ler!
nelio em outubro 14, 2010 1:28 PM
#31
Nelio, aprenda, você, a escrever, se quiser ser entendido.
Jair Fonseca em outubro 14, 2010 1:33 PM
#32
Tá claro o que eu escrevi, vc que me julgou pelo meu anti-dilmismo.
nelio em outubro 14, 2010 1:38 PM
#33
#28
James Miller, autor da infame "Passion of Michel Foucault", um apanhado de calúnias transvestido de biografia.
O boato de que Foucault sabia ser soro-positivo, e que saiu por aí em meados de 83-84 infectando gente em Toronto e São Francisco começou em Miller.
Luiz em outubro 14, 2010 1:44 PM
#34
Nelio, coisa que não sou é patrulheiro.
Pouco me importa se és tucano ou nazista, em relação à literatura.
Aliás, um dos meus ficcionistas preferidos é Céline, nazista de babar.
Mas como esse crápula escrevia bem sobre o que há de pior na condição humana!
Jair Fonseca em outubro 14, 2010 2:07 PM
#35
Olha só, não é só nas mesas de bar que caem as dessemelhanças, Jair. Um de meus livros preferidos é Viagem ao Fim da Noite, do Céline, e concordo plenamente contigo. Chego a amar esse crápula que tinha um senso de humanismo invertido, apesar de seus três panfletos em que esquematizava para o partido nazista meios de por fim ao "problema judeu".
nelio em outubro 14, 2010 4:15 PM
#36
Porra, Idelber, você conhece o PQ (apelido dele na faculdade, não me pergunte porque)?. Mande um abraço pra ele.
NPTO em outubro 14, 2010 4:40 PM
#37
Quando escreveu "Viagem ao Fim da Noite", Céline não era fascista ainda. Embora a própria metáfora do "fim da noite" já possa prenunciar algo assim.
"Morte a crédito" e "Norte" são extraordinariamente bem escritos, também. Não tão poéticos quanto o "Viagem", mas igualmente um mergulho desassombrado na abjeção.
Falando nisso, tentei ler "Bagatelas por um massacre" e não deu. São realmente terríveis, devido ao ódio panfletário contra judeus e bolcheviques, principalmente contra judeus bolcheviques! Seria ridículo se não fosse trágico...
Aliás, é incrível esse comprazimento do texto no que é odioso e odiento. De passar mal.
Jair Fonseca em outubro 14, 2010 7:31 PM
#38
"Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge."
Que precisão cirúrgica, Idelber. E que condenação dos infernos essa, passar uma vida inteira driblando o medo e, o que é pior, tendo totais condições para enfrentá-lo.
Cláudia em outubro 14, 2010 11:13 PM
#39
Belo texto!
Ele não entendeu também Foucault, para reduzir a obra ao homem e falar como se todos os problemas evocados pelos textos fossem "tresloucados", coisa de aventureiro nos termos acima.
E sem querer acaba fazendo o 'sofista' Foucault se encontrar com Sócrates: não denunciaram os dois sempre essa autoridade travestida de autoria, de "verdade"?
Catatau em outubro 15, 2010 12:49 AM
#40
Jair, li o Viagem e o De Castelo a Castelo, que achei mais impactante ainda que o primeiro. Uma coisa curiosa: o Viagem há uma passagem muitíssima engraçada, quando o narrador, médico e alterego do autor, é deslocado a prestar serviços numa região isolada (preciso reler, faz uns dez anos), e as descrições das torturas morais que sofreu durante o trajeto de navio, temeroso de que a tripulação o matasse, é de matar de rir. Já o De Castelo, que descreve sua fuga junto a exilados nazistas após a guerra, não tem um pingo de humor, mas é uma experiência incomparável.
nelio em outubro 15, 2010 10:32 AM
#41
Nao existe desenvolvimento sustentavel..isso é mais que obvio. Ecologia é conversa mole de pequenos burgueses tolos, fúteis e consumistas querendo purgar sua culpa...só isso.
Tião Medonho em outubro 17, 2010 10:14 AM
#42
Hahaha, estava lendo a Folha, achei que já tinha lido aquele texto e, sim, era o texto do Pedro Meira Monteiro!!!! Neste sábado, dez dias depois de sair no Biscoito.
Você, meu caro, pode comemorar sua precedência sobre a midia tradicional. Eu comemoro o fato de que o professor de Princeton não tem a visão estreita da Marilena Chauí, cedeu o texto ("especial para a Folha" é o que tem no crédito) e com isso disseminou ainda mais o excelente texto que você trouxe com antecedência a seus leitores. Leiotres, aliás, que fizeram o texto render ainda mais, com excelente debate...
SLeo em outubro 23, 2010 11:32 PM