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sábado, 09 de outubro 2010

Prêmio Nobel de Literatura para Vargas Llosa

A Revista Eñe, caderno cultural do Clarín, me pediu um texto sobre o Prêmio Nobel para Mario Vargas Llosa. Minha intenção era traduzi-lo ao português para os leitores do blog mas, dado o avançar da madrugada, vai em castelhano mesmo. Façam o esforço aí.

*******************


A la Academia Sueca le gustan las simetrías simbólicas en sus premiaciones, lo que no quiere decir, desde luego, que ellas tengan algo que ver con la literatura. En el panteón del Nobel, para cada Gabriel García Márquez, hay un Octavio Paz. Para cada José Saramago, hay un Mario Vargas Llosa. La oscilación es tan previsible que resulta difícil adjudicarle buena fe a las declaraciones del escritor peruano, de que no se consideraba parte del identikit del Nobel, por sus supuestas “posiciones incómodas”. Es bien sabido que también la incomodidad, en sus varias versiones, ya es una cuota que se reparte salomónicamente en Estocolmo. Ahora le toca el premio al gran portavoz de la derecha neoliberal, quizás el último escritor latinoamericano de alguna importancia a mantener la creencia en la redención por las letras, en lo literario como instrumento de ilustración y modernización de la cultura.

Lo mejor de la obra de Vargas Llosa — sin duda, sus cuentos y novelas juveniles — es una lograda autopsia de una masculinidad en ruinas. Tanto en la novela La ciudad y los perros como en los cuentos de Los jefes se instala el drama del Bildungsroman en suspenso, interrumpido, incapaz de trascender la circularidad de los ritos adolescentes de iniciación. El tema de Vargas Llosa no dejará de ser éste, aunque la “maduración” del escritor pondrá en escena el traslado de esa lógica adolescente al campo de la política.

Vargas Llosa aún produce dos magníficas obras en los sesentas, La casa verde y Conversación en la catedral. Ambas, especialmente la primera, son hitos en la incorporación de las técnicas de vanguardia a la novelística latinoamericana: el monólogo interior, la multiplicidad de voces y registros narrativos, la quiebra de la linealidad temporal. Vargas Llosa sería uno de los más eufóricos en el gesto que caracterizaría el boom de los años sesentas, a saber, la asociación entre dichas técnicas y una presunta puesta al día de la literatura latinoamericana, proceso al cual algunos llegarían a atribuir un potencial redentor, sustitutivo de nuestro retraso social y económico.

Algo ya se notaba en La guerra del fin del mundo, uno de los pocos relatos genuinamente reaccionarios sobre Canudos, pero cuando Vargas Llosa escribe Historia de Mayta, su obra ya es pura ideología. El proceso coincide con la consolidación de su convicción de que la “ideología” sería siempre un atributo perteneciente a los demás. Dicha mistificación toma aquí la forma de un binarismo entre la ilustración y el retraso, la democracia y el populismo, el progreso y el chavismo. Aparentemente sin advertir que estos binarismos son la encarnación esencial de la ideología en nuestros tiempos, Vargas Llosa ya los utilizara para, como crítico normalizador, domesticar la obra de José María Arguedas en un estudio. Si se pudiera hablar de una verdadera incomodidad a estas alturas, ella sería la (no) relación de Vargas Llosa con el vasto mundo que la obra de Arguedas representa y significa, éste sí, un mundo de alguna exterioridad incapturable por la industria de los premios.



  Escrito por Idelber às 04:16 | link para este post | Comentários (40)


Comentários

#1

Gratificante leer esta crítica de una gran síntesis. Además de La ciudad de los perros, me he recordado de otro relato, por supuesto menos complejo, que de nuevo giraba en torno a una masculinidad en crisis, Los Cachorros, y su personaje "pichulita". Si no estoy mal la edición que leí hace ahora tantísimos años, tenía unos chicos acostados haciendo lagartijas y un cura de sotana dirigiendo los ejercicios. Es un libro, que a raíz de la enfermedad de mi padre, empaqué en el verano.
Los últimos libros de Vargas Llosa apenas los leí. Quizás es tiempo de leer La historia de Mayra para asentar una perspectiva diacrónica de Vargas LLosa.
Gracias por el artículo!

monica em outubro 9, 2010 7:49 AM


#2

É isso! Você citou os livros dele que ainda valem a pena!Lembro também de Batismo de fogo, aos 16 anos, gostei muito dele.

maria andréia em outubro 9, 2010 7:56 AM


#3

Bildungsroman. Faltou o "n"

O que seria "identikit"?

Cuma? em outubro 9, 2010 9:14 AM


#4

Sempre bom ajustar o foco, sobretudo de um autor cujo obra já se encerrou. É o último representante da "cidade letrada", que, como você disse em livro, virou pó no 11 de setembro de 1973.
PS: "La ciudad y los perros" saiu com título incrível de "Batismo de Fogo" no Brasil. Depois, corrigiram.

enio em outubro 9, 2010 10:09 AM


#5

Idelber,

sucinto e ótimo texto sobre a trajetória literária de Vargas Llosa. Concordo, os melhores livros do escritor peruano continuam sendo os primeiros. Destes, aponto a ausência, entre as magníficas obras dos anos 1960, apenas de Os filhotes, escrito entre A casa verde e Conversa na catedral. Contudo, ao contrário da Monica, não a considero uma narrativa menos complexa do que estes dois romances e A cidade e os cachorros. Diria que é uma excepcional novela lamentavelmente pouco recordada.

Um abraço!

Fabiano Camilo em outubro 9, 2010 11:55 AM


#6

Como sou mal informada! Nem sabia que "La ciudad y los perros" era "Batismo de fogo"! Minha edição é de mil novecentos e antigamente mesmo.

Maria Andréia em outubro 9, 2010 12:17 PM


#7

Idelber,

Na mosca - especialmente o último parágrafo, onde você passa pela questão da transformação de Llosa; em Pantaleón y las Visitadoras, uma obra sua do início dos anos 70, ainda que ele esteja satirizando a instituição do exército peruano, a única figura humana - e, poranto, normal - da obra é o próprio Capitão Pantaleón, um militar - e isso, ocorre, vejamos, oito anos antes de La Guerra del Fin del Mundo, quando se inicia esse processo que você descreveu.

O intelectual Llosa é o exemplo de intelectual de esquerda latino-americano vindo de extratos medianos/altos de sua sociedade; em sua juventude, esteve próximo do pensamento de esquerda, o existencialismo (como era mesmo? Entre Satre e Camus?), mas que não compreendeu a essência do mecanismo de exploração e, sobretudo, nunca entendeu verdadeiramente o elemento plebeu de sua gente - e compreender o elemento plebeu, em se tratando de América Latina, é tudo.

Ainda que discordasse bastante dele, ainda o respeitava, até, claro aquele lamentável episódio, que acontece há pouco mais de um ano, quando o governo García - o qual ele apóia e tem seu carguinho lá - resolveu ceder enormes extensões de terra para as madeireiras em sua Amazônia, produzindo um enorme confrontos com a população indígena, o que fez com que o mandatário daquele país enviou tropas do exército para "pacificar" a situação - onde está Llosa? Atacando Chávez e a ameaça que ele representa para a Democracia no continente. Em outras palavras, com seu país pegando fogo, Llosa, se fingiu de morto e apelou para o atual bode expiatório mór da América Latina.

Embora tenha pressionado o lamentável Governo García nos últimos meses - ser defensor dos direitos humanos quando se está próximo de ganhar um Nobel é sempre de bom tom -, ameaçando abandona-lo, é pouco, muito pouco; ter o desplante de atacar a política externa brasileira e dizer que o México (nem os mexicanos concordam com isso) é um exemplo, trata-se de um misto de cegueira política com o ódio imenso de ter visto os governos plebeus da região - que ele sempre condenou - terem dado certo - sobretudo, é ilustrativo de pequenez intelectual.

Hugo Albuquerque em outubro 9, 2010 12:43 PM


#8

Querida Mónica, !que alegría verte aquí! Sí, vale la pena echarle un vistazo a Historia de Mayta. Aunque sea la representación más odiosa de la militancia política que he visto en la literatura (o quizás precisamente por esto), se trata de un momento privilegiado para observar el giro de Vargas Llosa. Un abrazo grande, es un placer y un honor tenerte aquí.

Idelber em outubro 9, 2010 1:17 PM


#9

Enio, eu não tinha nem ideia dessa história de "Batismo de fogo". Obrigado pelo detalhe.

Idelber em outubro 9, 2010 1:33 PM


#10

Nunca li nada do Vargas LLosa, só li aquele panfleto horrorozo escrito pelo filho dele.

Hoje é aniversario de John Lennon, 70 anos.

Gabriel Caio em outubro 9, 2010 2:46 PM


#11

Interesantísima reseña!

Ariel em outubro 9, 2010 2:46 PM


#12

Nunca li nada do Vargas LLosa, só li aquele panfleto horrorozo escrito pelo filho dele.

Hoje é aniversario de John Lennon, 70 anos.

Gabriel Caio em outubro 9, 2010 2:48 PM


#13

Idelber, quando você nao gosta de algo ou alguém, nao gosta mesmo... Entendo perfeitamente sua ojeriza a História de Mayta. Mas nao consigo entender sua leitura de A Guerra do Fim do Mundo. Para mim é um livro lindíssimo, e que vê os personagens do movimento de Canudos com grande simpatia. No meu entender é um livro sobre os vários tipos de motivações que levam as pessoas para uma revolução; Canudos aí é uma metonímia. Há tb muito senso da tragicidade. É isso que você considera uma leitura reacionária?

Anarquista Lúcida em outubro 9, 2010 3:06 PM


#14

A quem você daria um Nobel, dos escritores norte americanos contemporâneos, Idelber? Don Delillo, Paul Auster, Cormac Macarthy, Thomas Pynchon?

Bruno Marcondes em outubro 9, 2010 3:34 PM


#15

Ana, o que caracteriza, na minha opinião, uma leitura reacionária de Canudos é algo que não tem nada a ver com o livro ser "lindo" ou os personagens terem "simpatia". O reacionarismo é uma concepção de história, uma forma de ver o seu movimento. Eu não uso o termo como insulto, mas como descrição de um entendimento particular do que é Canudos, que vejo emblematizado no livro de Vargas Llosa, a saber, a ideia de que a rebelião popular é fruto do fanatismo, da fé cega no líder carismático, da ausência ou atrofia da Ilustração na América Latina. Parece-me relativamente claro que essa é a concepção de história que subjaz ao romance. Subjaz, na verdade, a toda a obra de Vargas Llosa, incluindo-se sua obra crítica.

O fato de A guerra do fim do mundo ser uma leitura reacionária de Canudos não o impede de ser "lindo". Aliás, a lindeza é parte constitutiva desse reacionarismo.

Idelber em outubro 9, 2010 5:02 PM


#16

Excelente juicio sobre Vargas Llosa. Parabéns! A veces, al abandonar los proyectos juveniles que suponen cierto grado de exploración, los escritores y las escritoras se instalan en un terreno más cómodo, marcado por una miopía cultural e ideológica. Es el caso de Vargas Llosa.

Juan G. Gelpí em outubro 9, 2010 6:38 PM


#17

Querido Juan, qué honor y alegría tenerte por acá. Que vuelvas siempre, estás en tu casa. Un abrazo grande,

Idelber em outubro 9, 2010 6:43 PM


#18

Prezado Idelber,

Aproveitando a verdadeira liberdade de expressão, a propiciada pela Internet, tive a ousadia (ou seria heresia?) de publicar uns artigos sobre literatura:
http://www.portalibahia.com.br/falabahia/?p=7554
http://www.portalibahia.com.br/falabahia/?p=9348
http://www.portalibahia.com.br/falabahia/?p=17594
Saudações atleticanas
twitter.com/lincolnpinheiro

Lincoln Pinheiro Costa em outubro 9, 2010 7:18 PM


#19

Bom, Idelber, nao creio que todo movimento popular seja fruto de fanatismo religioso. Mas movimentos messiânicos do tipo de Canudos, embora provocados por outros fatores, tem como força motivadora a religiao, e outros fatores de natureza mais subjetiva, que aliás acho que o Vargas Lhosa tematiza bem. Tanto que os rebelados resistiram a 3 expedições do exército brasileiro, e estavam resistindo à quarta, quando, com a morte do Conselheiro, o movimento implode.

Aliás, nao é você que gosta do O Futuro de uma Ilusao? Nao gosta tb do Psicologia das Massas e Análise do Eu? Explica bem isso.

Anarquista Lúcida em outubro 9, 2010 7:19 PM


#20

Ana, não entendi nada. Nem o que o Freud tem a ver com Vargas Llosa, nem de onde você tirou que a religião foi a força motivadora de Canudos, nem quem decidiu por esse epíteto tão simplista ('messiânico') dirigido ao movimento como um todo. Enfim, melhor deixar o papo por aqui, porque é muito pouco provável que a gente se entenda.

Idelber em outubro 9, 2010 8:26 PM


#21

Li dois livros do Llosa. Gostei de a guerra do fim do mundo. Não considero que a posição política dele influa na escrita a ponto de prejudicar a qualidade.
O mesmo ocorre com o García Marquez. Deste posso dizer que o melhor de todos é doce cuentos peregrinos. O único que não me desfiz após ler.
Para passar tempo tem um excelente autor que é totalmente oposto às minhas convicções políticas, nem por isto eu criticaria o seu trabalho. Não existe nada melhor para ocupar as horas ociosas que acompahar o comissário Montalbano, do Andrea Camilleri.
Outros autores quando são claramente panfletários são melhores. Jorge Amado, para mim, se enquadra neste caso. Quando tinha uns quinze anos li a trilogia Subterrâneos da liberdade, é nunca mais consegui esquecer. Embora fosse uma literatura típica de agraciado com o prêmio stalin da paz.
Graciliano Ramos é a mais perfeita tradução da impossibilidade do talento verdadeiro ser contaminado pelas crenças políticas.
Para os bons escritores o talento supera a ideologia. O mesmo deveria ocorrer com os críticos.

Jorge Nogueira Rebolla em outubro 9, 2010 9:55 PM


#22

sinceramente, Idelber... vc não acha q é ridícula esta sua mania de julgar os outros apenas pelas suas convicções políticas? é algo totalmente medíocre e maniqueísta determinar o valor da obra de um escritor por estes valores q vc segue. Vragas Llosa é um dos GRANDES da literatura sulamericana. fico a imaginar ´qual o método adotado por você enquanto professor de universidade. lamentável sua conduta.

luis obama em outubro 9, 2010 11:34 PM


#23

Bem, eu poderia explicar o que Freud tem a ver nao com Vargas Lhosa mas com a derrota de um movimento messiânico após a morte do líder. Mas, já que você nao está interessado em outras análises diferentes da sua, tudo bem.

Agora, acho meio surpreendente um marxista de hoje ficar só com fatores causais "de última instância", e nao se interessar pela mediação que há entre esses e os fatores subjetivos subjacentes à ação dos atores sociais.

Há um livro muito bom sobre isso que li há mais de 30 anos, a tese de doutorado de Janaína Amado, que frequenta às vezes este blog. Nao sei se ainda há a venda, nem me lembro do título, mas é uma análise do movimento dos muchers no Sul. Achei muito bom.

Anarquista Lúcida em outubro 10, 2010 1:53 AM


#24

Jorge, concordo plenamente quanto a Jorge Amado. Acho que ele se realiza mesmo naquelas obras bem panfletárias. Até o ciclo do cacau eu gosto muito.

Ana, estou interessadíssimo em outras análises que não a minha. Se você tiver uma, por favor, sinta-se à vontade para apresentar.

Luis, parece-me bem óbvio que o texto está dizendo explicitamente que Vargas Llosa é um grande escritor. Está escrito lá, com todas as letras. Se você quiser saber algo sobre meu método no magistério, é bem fácil. Há vários alunos e ex-alunos meus na internet, é só consultar Alex ou Camila, por exemplo. Sobre como eu trabalho a relação política / literatura, e a interferência ou não daquela na análise desta, eu recomendo esta resposta lá no meu FormSpring.

Idelber em outubro 10, 2010 2:37 AM


#25

Sabe, acho que o que você nao gosta no livro é exatamente o que eu gosto, só que interpretado de forma radicalmente diferente. Você diz que o livro faz uma leitura reacionária dos movimentos sociais, interpretando-os como fruto de fanatismo. Eu acho que o livro se indaga sobre os fatores subjetivos que levam cada sujeito em particular a fazer uma opção pela participação nos movimentos. Isso nao significa que nao haja fatores causais mais estruturais, apenas que esses fatores se manifestam filtrados pela subjetividade. Por isso falei do livro da Jana, que li há muito tempo, nao me lembro direito, mas mostrava muito claramente o peso dos fatores subjetivos numa revolta em particular. E era um livro de História, nao de ficção.

Nao sou historiadora, muito menos uma especialista em Canudos. Mas acho que nao dá para desprezar o fator do messianismo religioso no movimento. E é nisso que vejo um fator de tragicidade, porque o que dá a energia que "une" as pessoas para o movimento se constituir -- a força da crença, a certeza de serem escolhidos por Deus, e a identificação com o líder -- é ao mesmo tempo o que o derrota, quando a realidade se faz sentir e a uniao imaginária se rompe.

Claro, você pode dizer que Llosa quis implicar que é o caso de todo movimento revolucionário. Sempre teria algo de crença, de fé numa verdade garantidora. Aquela velha história do dia que chegará, e da "História na mao". Nao creio que em momentos realmente revolucionários seja assim, pelo menos nao necessariamente, mas será que nao há algo de reconhecível nessa visao?

Eu gosto do cinismo cético do Lhosa. Para mim um dos achados do livro é o fato do personagem anarquista -- que eu adoro, compreensivelmente, acho um personagem lírico -- tenta falar com o povo, e o faz em escocês. E só é compreendido pelo barao latifundiário local, o único com cultura suficiente para saber, naquela época, o que é um anarquista. É irônico? É. Mas, independentemente das intenções do Lhosa com isso, isso me bate fundo. Há uma verdade aí, a gente goste dela ou nao (mas nao quero dizer que ela seja absoluta...).

Bom, esse comentário já está grande demais. Chega.

Abs

Anarquista Lúcida em outubro 10, 2010 3:28 AM


#26

Estava aqui relendo e me lembrando da critica do Alan Sokal ao artigo do Roberto Campos sobre o livro "Imposturas Intelectuais".

Dizia o Sokal que a vontade de enxergar o mundo dividido em "direita e esquerda", entre "certo e errado", entre "preto e branco" havia cegado o velho liberal para o que realmente importava nas conclusoes do livro.

Acontece o mesmo aqui.Exatamente o mesmo.

A vontade de transferir para a literatura do Llosa as suas posicoes politicas que, diga-se, aparecem obliquamente em seus romances e nao fazem parte central da narratoria, somente conseguiu cegar o autor da critica ao que realmente importa: Vargas Llosa demorou demais a ser premiado.


Premio este que, caso deixe Philip Roth morrer antes de agracia-lo, perdera toda e qualquer (da pouca) importancia que ainda lhe resta.

PS - La fiesta del chivo fica de fora por que razao? Essa eu ainda nao entendi.

Jorge em outubro 10, 2010 9:56 AM


#27

#14
Entre todos esses tu vc citou apenas o Pynchon se encontra na lista dos grandes escritores que, de uma forma ou de outra, inovaram.

E, obviamente, como disse acima, o unico que seriamente merece o Nobel de Literatura chama-se Philip Roth.

Jorge em outubro 10, 2010 10:04 AM


#28

Está muito desestimulante essa campanha. Eles encontraram a pauta: o conservadorismo religioso. A midia agora só fala de aborto.

Bruno em outubro 10, 2010 10:59 AM


#29

Nunca fui muito fã do Vargas Llosa. Depois que ele escreveu uma crônica super preconceituosa sobre a época em que o filho foi fã de reggae, algo como "O Etíope", qualquer vontade de ler livros dele se esvaneceu.

OT: Que me desculpe o Idelber, mas acho mais legal comentar os 70 anos de Lennon. Existe um tributo muito legal a John feito pelo cineasta experimental Jonas Mekas, seu amigo por muitos anos. Ele traz cenas - sempre com uma câmera acelerada e "nervosa", como é do estilo de Mekas - de uma vernissage em uma galeria de N. York, um aniversario de Lennon com a presença de artistas como Andy Warhol e Miles Davis (Lennon e Davis batem uma bolinha de basquete na garagem), um documento da sessão de fotos daquela capa do disco Two Virgins, em que o casal Lennon e Ono aparecem nus e o Caetano iria copiar no “Jóia”.

E, no final, um registro do famoso show no Madison Square Garden e do dia da morte de Lennon, quando milhares de pessoas atravessaram o Central Park até o edifício Dakota para prestar uma última homenagem ao brilhante cantor e compositor. A trilha é composta por entrevistas, gravações caseiras de John e solos de bateria.
O trecho em que ele bate bola com Miles Davis está aqui . A primeira parte, que leva para as outras duas, pode ser vista neste link .

Leo Vidigal em outubro 10, 2010 1:54 PM


#30

Jean Franco nota uma coisa interessante de "Guerra do Fim do Mundo". Trata-se de uma crítica à luta armada, às guerrilhas na América Latina dos anos 1960 e 1970, usando como base Canudos. Ou seja, quase 30 anos atrás, Vargas Llosa já antecipava a visão que é sim reacionária da História, neoconservadora de hoje, de ver as lutas populares como puro fanatismo. Isso é um ponto de vista político muito claro de Marito.

enio em outubro 10, 2010 2:17 PM


#31

Anarquista,acho que existe um lado que é preciso estar atento.
Quando caracterizamos o movimento (canudos) por ter sido simplesmente um movimento liderado por um fanático religioso, fica envenenada qualquer outra possibilidade.
Seria prudente uma consideração sobre a situação social daquele momento histórico positivista, a barbárie humana na qual estavam inseridos os 'revoltados'.
E ai, qualquer consideração à subjetividade que não a miséria humana, a vontade imensa do estado em manter as camadas sociais despossuídas 'em ordem' e a aplicação das teorias racistas de Spencer como fator de revolta serão apenas ilações.
Havia, à época, a política de a promoção oficial da política de migração de europeus pra 'branquearem" a população brasileira.
Havia punições exemplares contra qualquer alternativa de projeto social das camadas mais baixas, e aos negros eram negados o direito às tarefas livres assalariadas. E havia um grande contingente de negros e mulatos na pupulaçnao de Canudos, e o próprio Conselheiro era mestiço.
A própria igreja condenava o movimento. O que somou um item a mais a renegação à qual aquela populaçnao estava submetida.
Sem a cor certa, sem instrucão e 'sem religião', e o saber como instrumento de poder que legitimava o futuro massacre, como essa população pode ser classificada como seguidores de um fanático religioso?
Qual seria a subjetividade que leva um ser a combater um estado de injustiça, senão o próprio sentimento de injustiça?
Por fim, o massacre de canudos foi produto de histeria coletiva levado a cabo por articulistas de importantes jornais da época, que manipulavam os fatos. Circularam à eepoca a 'notícia' de uma aliança entre o povo de canudos e os monarquistas, tipo as mateerias de Veja atualmente.Depois disso houve o massacre.
Nascia ali a ciênca da comunicação, o 'jornalismo'. Mantendo o povo refém do medo e da vingança contra os ' jagunços'.
Uma curiosidade; a cidade criada por Conselheiro se chamava Belo Monte.
Abrs

fm em outubro 10, 2010 2:46 PM


#32

Idelber,

Sobre a questão do Messianismo e Apocalipsismo de Canudos, eu sugiro o trabalho do Pedro Lima Vasconcellos, professor da pós em Ciências da Religião da PUC-SP.
Parece que ele publicou a sua tese em livro em 2010:
(http://www.ufal.edu.br/ufal/noticias/2010/08/livro-sobre-canudos-inaugura-a-colecao-estudos-culturais/)

Luiz em outubro 10, 2010 2:54 PM


#33

Fm, vejo tudo isso que você diz, e concordo. Só que esses sao os aspectos que chamei de estruturais. Sao complementares. Uns nao excluem os outros.

Anarquista Lúcida em outubro 10, 2010 2:57 PM


#34

"La fiesta del chivo fica de fora por que razao? Essa eu ainda nao entendi."

Ele respondeu uma pergunta (minha, aliás) sobre o Festa do Bode no formspring:

"Um lixo, um pedaço sólido de ideologia, o único romance que conheço no qual não há nenhum personagem simpático ao leitor exceto um policial. Desculpe-me, não quero parecer hostil, mas não respondo mais perguntas sobre Vargas Llosa. Quando eu abri o FormSpring, realmente não esperava uma enxurrada de perguntas sobre esse babaca."

Não gostei mesmo da resposta, pessoalmente. Primeiro, porque a opinião do Idelber é oposta à minha: parece que lemos livros diferentes. Mas isso é irrelevante. O problema é que ele define FdB como um "pedaço sólido de ideologia" sem precisar o que é ideologia, nem porque a ideologia seria tão danosa, nem onde se mostraria que FdB seria um "pedaço sólido" desta matéria radioativa.

E é engraçado que o Idelber defina uma mesma pessoa como um "grande escritor" e um "babaca", heh.

Gabbardo em outubro 10, 2010 4:06 PM


#35

Anarquista, o que eu quero dizer é que seria impossível saber quais eram as subjetividades de cada revoltado, sem que, desprezando o momento histórico, se tome isso como ficção.
E mesmo sendo ficção, isto pode, e certamente estará, contaminada pelo fator ideológico de uma estrutura ideológica ou outra do momento histórico em que a reflexão for feita.
Vejo como impossibildade absoluta, isolar indivíduos de um momento histórico para fazer uma leitura de fatos históricos. Quem dirá, fazer isso, individualmente, com fatos acontecidos séculos atrás. Penso, acima de tudo, que a única chave é a estrutura do momento histórico.
Não é possível desprezar, que quem 'fez' de canudos o que foicanudos , foi a estrutura de poder da época.
Segundo seu raciocínio, então caberia também uma uma nova visão, pela análize individual dos agentes pró poder à época de canudos, desprezando, ou deixando em segundo plano, qualquer fator de poder da estrutura política da época? Dissociando-os de suas funções como agentes dentro da estrutura política à época.

fm em outubro 10, 2010 4:08 PM


#36

Uai, Gabbardo, não entendo... Eu achava que grandes jogadores de futebol, grandes músicos e grandes escritores podem ser, ao mesmo tempo, babacas...

Ou não?

Desculpe o tom agressivo da resposta no FS, mas era a 37a pergunta sobre Vargas Llosa :-)

Idelber em outubro 10, 2010 4:35 PM


#37

Não foi o tom agressivo, Idelber, que me incomodou, foi não ter embasado a resposta. Ainda não sei porque o FdB é um pedaço sólido de ideologia, nem o que tu entende por esta palavra.

Eu pessoalmente acho (obviamente, posso estar equivocado) que dificilmente babacas se tornam grandes escritores.

Gabbardo em outubro 10, 2010 4:54 PM


#38

Mas Fm, quem falou em isolar os personagens das suas circunstâncias históricas? Eu nao disse nada disso... Só que essas circunstâncias sao filtradas pela subjetividade dos personagens. UMA COISA NAO IMPEDE A OUTRA!

Olhe, acho que sobre esse livro, que afinal de contas é de ficçao, nao dá para desenvolver isso muito mais. Mas veja o livro da Janaína Amado de que falei, A Revolta dos Muckers, que nao é de ficção. Vi na Livraria da Cultura que ainda é vendido. Como foi uma revolta com poucos personagens, ela conseguiu acompanhar tragetórias e motivos individuais. O livro é muito interessante, recomendo.

Agora, quanto à relação da reflexao do Lhosa com o momento dele, aí concordo bastante. Acho que talvez uma das diferenças minhas para com Idelber e provavelmente muitos de vocês é de idade. Eu tinha 20 anos em 1968, e vivi pessoalmente alguns dos dilemas existenciais do início dos anos 70. Por isso, mesmo nao necessariamente concordando com o Lhosa, reconheço muitos aspectos da realidade que ele enfoca... (ou talvez que eu projete sobre o que ele diz, tb é possível). Mas isso seria muito longo de desenvolver.

Anarquista Lúcida em outubro 10, 2010 10:42 PM


#39

Gabbardo,
volto ao meu comentário. O Idelber (na minha modestíssima opiniao) leu os livros, colocou-os sob a rubrica política do autor (reacionário, direitista, neocon, conservador, anti-progresso, anti-Cuba, etc, etc, etc) e deixou o conteúdo dos livros um pouco de lado.

A crítica vem falando que o Llosa depois de 1970 nao presta; foi exatamente quando ele comecou a expor as suas idéias "políticas".
Enfim, se é impossível separar o homem de suas pré-condicoes de análise (Gadamer) deve-se ao menos tentar analisar o mais objetivamente possível. Rotular um grande escritor de babaca simplesmente porque é um "reacionário anti-povo" é nao perceber que a literatura é muito, infinitas vezes, maior que as mesquinharias políticas.

Jorge em outubro 11, 2010 1:42 PM


#40

Muito bom. Você dimensiona bem a obra de Vargas Llosa e o escritor. Eu gostei muito do final do artigo. É de uma precisão notável sobre a obra de Arguedas e a contraposição de Vargas Llosa aquele vasto mundo descrito pelo ainda não devidamente reconhecido escritor.

Branca em outubro 12, 2010 12:13 PM