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segunda-feira, 29 de novembro 2010

Wikileaks: O maior vazamento da história, o embaraço de Hillary com o Cablegate e a cumplicidade da imprensa dos EUA

alg_julian_assange.jpgLiberais e conservadores brasileiros, chegou a hora. Depois do 11 de setembro diplomático desencadeado neste fim de semana pelo mais impactante vazamento da história moderna-- 250.000 comunicações, a maioria secretas, entre o Departamento de Estado e embaixadas estadunidenses ao redor do mundo--, e do completo sufocamento do tema na TV dos EUA, não resta fiapo de credibilidade à ideia da imprensa 'mais livre do mundo', com que tantos brasileiros à direita do espectro político se referem aos conglomerados de mídia norte-americanos. Para quem se lembra da extrema docilidade com que as mídias eletrônica e escrita dos EUA replicaram a patacoada das armas de destruição em massa do Iraque em 2003, esta foi a cereja do bolo. Não importa o partido que esteja no poder (Democratas ou Republicanos), quando se trata dos interesses imperiais estadunidenses, não sobrevive na mídia gringa um farrapo de compromisso com a verdade ou com a pluralidade de pontos de vista. Ponto final. Podemos passar para o próximo assunto? Grato. Continuemos.

Como já tratamos amplamente aqui, os poderosos usam dois pesos e duas medidas nos casos de “vazamento”, “grampo” ou qualquer obtenção de informação que ocorre naquela zona cinza entre o legal e o ilegal. Conforme a conveniência, enfocam-se na forma ou no conteúdo. Assim aconteceu com os dossiês dos aloprados petistas sobre a corrupção realmente existente no Ministério da Saúde de José Serra, do suposto, miraculoso e etéreo grampo sobre Gilmar Mendes e Demóstenes, e da quebra de sigilo da filha de Serra (cuja forma só importava até o momento em que apurou-se que foi tucano mesmo). Inacreditavelmente, aqui nos EUA, tanto o governo como o parlamento só reagiram à montanha de revelações do Wikileaks com ameaças pesadas contra Julian Assange e equipe. Sarah Palin, sem perder a chance de usar o episódio eleitoralmente contra Obama, sugeriu que os EUA "cacem Assange como a Bin Laden". Sobre o conteúdo dos documentos, nem um pio. Para isso, contaram com a sempre dócil imprensa norte-americana que, no pronunciamento de hoje de Hillary Clinton, não fez sequer uma única pergunta que tratasse do conteúdo das revelações.

E revelaram-se coisas para todos os gostos. Os EUA disseram à Eslovênia que lhe conseguiriam uma reunião com Obama caso os eslovenos aceitassem receber prisioneiros de Guantánamo, o que demonstra o tamanho da batata quente em que se transformou o campo de concentração paralegal [pdf] instalado por George W. Bush. Na Alemanha, os EUA ficaram em saia justa. Os vazamentos mostram tentativa de espionagem gringa sobre o Democratas Livres (liberais de centro-direita, uma espécie de DEM desagripinizado) e comentários feitos nos telegramas da embaixada se referem ao Chanceler alemão como “vaidoso e incompetente”. Hillary quis bisbilhotar o histórico de saúde mental da Presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner. Revelou-se que Israel fez lobby incessante, permanente por um (na certa irresponsável e catastrófico) ataque americano ao Irã, embora nem só de lobby sionista viva o interesse bélico anti-persa: também o rei saudita, confirmam os documentos do Wikileaks, fez pressão pelo ataque. Aliás, não são só os EUA que ficam mal na fita com esses cabos. Os governos árabes, com sua tradicional combinação de subserviência ante Israel e obscurantismo e truculência ante suas próprias populações, também receberam algumas boas lambadas com os vazamentos.

Até agora, as duas revelações sobre as quais valeria a pena um exame mais detido, pelo menos do ponto de vista brasileiro, são duas bombas: a primeira, a de que o estado espião e desrespeitoso da lei internacional, que se consolidou com Bush, foi mantido com o Departamento de Estado de Hillary sob Obama. A segunda é de que até os EUA sabiam que o golpe em Honduras, com o qual pelo menos setores de sua diplomacia colaboraram, era uma monstruosa ilegalidade.

Confirmando a primeira bomba, há um espantoso telegrama em que se detalham planos para espionar o Secretário-Geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, que de forma alguma pode ser descrito como alguém hostil aos interesses americanos. Os planos de espionagem incluíam até mesmo o cartão de crédito de Ki-Moon. A ordem veio diretamente do Departamento de Estado de Hillary que, obviamente, em seu pronunciamento de hoje, nada disse sobre o assunto. Nada lhe foi perguntado tampouco.

Sobre a segunda bomba, Cynara Menezes já disse tudo. Durante meses, bizantinos debates sobre a constituição hondurenha serviram para mascarar o fato cabal de que o golpe que depôs Zelaya não tinha um farrapo de apoio na lei internacional ou mesmo na bizarra legalidade estabelecida pela constituição hondurenha. Ancorados principalmente numa retórica da Guerra Fria herdada da mesma diplomacia estadunidense agora desmascarada, os direitecas brasileiros recorreram aos sofismas de sempre para justificar o golpe. Agora, ficou claro: alô, Revista Veja, nem os gringos acreditavam na mentirada.

Sobre o Brasil, até agora, há pouco, a não ser o já conhecido dado de que os EUA tentaram nos impor uma lei antiterrorismo, da qual o governo Lula-Dilma (o cabo faz explícita referência à atuação dela) conseguiu se safar. De novidades nesse front, há a participação de um especialista brasileiro, André Luis Woloszyn, como uma espécie de “consultor” para os estadunidenses interessados em adequar a legislação alheia a seus interesses: “é impossível”, disse ele, “fazer uma lei antiterrorismo que não inclua o MST”. O caso me parece gravíssimo.

As bombas vão se sucedendo com rapidez só comparável à desfaçatez com que a mídia dos EUA as ignora. O Wikileaks repassou seus vazamentos a cinco veículos de mídia: Le Monde, Der Spiegel, El País, Guardian e New York Times. Destes, a cobertura mais tímida e manipuladora, sem dúvida, é a deste último, totalmente focado na punição a Assange e na “legalidade” de seus atos, com pouca coisa sobre o conteúdo embaraçoso para os EUA. Uma manchete no lugar de destaque do site, na noite desta segunda-feira, dizia: “"Vazamentos mostram o mundo se perguntando sobre a Coreia do Norte". Haja óleo de peroba.

PS: Como grande destaque desta segunda-feira, o Presidente equatoriano Rafael Correa ofereceu guarida a Julian Assange, “sem perguntar nada”, para que ele “apresente suas informações não só na internet mas em outros fóruns públicos”. Realmente a Sociedade Interamericana de Imprensa deve ter razão: a “liberdade de imprensa” está ameaçada nos regimes “populistas” latino-americanos. É nos EUA que ela vai bem.



  Escrito por Idelber às 23:49 | link para este post | Comentários (82)




Associação de Amigos da ENFF rebate matéria da Folha

Daqui a algumas horas, entra um texto sobre o caso Wikileaks. Por enquanto, deixo-os com a resposta da Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, a uma impressionantemente desonesta matéria da Folha.


29 de novembro de 2010
Da Página do MST

Leia abaixo nota da Associação dos Amigos da ENFF sobre reportagem publicada neste domingo na Folha de S. Paulo:

NOTA DA ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA ENFF

No dia 28 de novembro, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma reportagem de autoria de José Ernesto Credendio, segundo a qual a Escola Nacional Florestan Fernandes estaria passando por uma “crise financeira”, a qual seria motivada por “restrições impostas aos repasses do governo federal para o movimento”.

Diante do exposto, a Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes vem a público para esclarecer os fatos e desfazer uma série imensa de equívocos, incrivelmente reproduzidos em tão poucas linhas.

1. A ENFF, desde a sua origem, nunca dependeu de recursos federais, embora seja essa uma demanda legítima, dado que ela é resultado do esforço concentrado e da mobilização de milhares de cidadãos brasileiros: trabalhadores, trabalhadoras e jovens que aspiram construir um centro de estudos e pesquisas identificado com as necessidades mais prementes dos povos do Brasil, da América Latina e de todo o mundo.

2. Como a própria reportagem esclarece, aliás em total contradição com o afirmado anteriormente, os recursos para a construção da escola foram fornecidos “pela União Europeia, pelo MST e pelas ONGs cristãs Caritas (Alemanha) e Frères Des Hommes (França)”, além de ter contado com recursos assegurados por campanhas com apoio de Chico Buarque, José Saramago e Sebastião Salgado.”

E mais ainda: a reportagem omite o fato de que a construção da escola, concluída no ano 2005, contou com o trabalho voluntário de cerca de 1.100 brasileiros e brasileiras que entenderam a necessidade premente de uma escola dessa natureza, oriundos e oriundas das mais variadas categorias profissionais e de movimentos sociais. Seus cursos sempre foram ministrados em caráter voluntário, espontâneo e benévolo por mais de seiscentos renomados intelectuais e professores universitários brasileiros e internacionais,

3. Finalmente, a escola não passa por uma “crise financeira”, como afirma a reportagem, simplesmente por não se tratar de um banco, nem de empresa privada. Sofre, é verdade, carência de recursos econômicos para desenvolver os seus projetos, como sofrem dezenas de milhares de escolas públicas brasileiras e toda e qualquer instituição autônoma, independente e identificada com a luta de nosso povo.

4.Precisamente porque a Escola Nacional Florestan Fernandes não depende de recursos federais, mas confia na capacidade do povo brasileiro de manter o seu funcionamento autônomo, soberano e independente, criou-se a Associação dos Amigos da ENFF, no início de 2010.

As campanhas promovidas pela Associação não têm apenas o objetivo de angariar fundos: elas também contribuem para promover o debate sobre a necessidade de que o povo brasileiro construa os seus próprios centros de educação e pesquisa, até para aprimorar sua capacidade de defender-se de ataques insidiosos promovidos com frequência pela mídia patronal, pelos centros universitários que reproduzem as fábulas das classes dominantes e por intelectuais e jornalistas pagos para distorcer os fatos.

Associação dos Amigos da ENFF



  Escrito por Idelber às 18:16 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 27 de novembro 2010

A Semana nas Comunicações, a Denegação de MOSCOU e uma receita de #Mordalingua

Nas derrotas futebolísticas, há um momento em que você sente que o jogo está perdido. É um instante de chegada meio mágica, retrato do imponderável do futebol. Enquanto que nos outros esportes coletivos pode-se supor uma fórmula matemática que combine a diferença de pontos com os minutos ou posses de bola restantes e nos dê uma equação universal que localiza esse momento, no futebol, como atesta qualquer um que tenha jogado ou mesmo assistido com atenção ao esporte, só mesmo o devir particular de cada jogo vai lho dizer.

Um 3 x 0 aos 30 minutos do 2º pode ser um jogaço em aberto, como sabemos os fanáticos do time das impossíveis viradas (contra e a favor). Por outro lado, uma equipe pode perfeitamente estar batida de forma categórica depois de um simples 1 x 0 aos 10 do 1º. Omitamos, por incontáveis, os exemplos.

Esse momento epifânico, que só no futebol é imponderável, é o descrito em “Rosa dos Ventos”:

Pois transbordando de flores/ A calma dos lagos zangou-se/ A rosa-dos-ventos danou-se/ O leito do rio fartou-se/ E inundou de água doce/ A amargura do mar // Numa enchente amazônica/ Numa explosão atlântica/ E a multidão vendo em pânico/ E a multidão vendo atônita/ Ainda que tarde/ O seu despertar

Relembre com Chico:


(Se você trabalha num grupo de mídia brasileiro e nunca se perguntou sobre o que a 2ª estrofe de “Rosa dos Ventos” pode estar lhe dizendo sobre o seu lugar hoje, a piedosa recomendação deste blog é que você o faça antes de continuar as tarefas do dia. A pergunta, com certeza, é mais urgente).

A tese deste post é que, durante esta semana, uma parcela significativa dos conglomerados máfio-midiáticos brasileiros deu-se conta de que o jogo está perdido.

Ele ainda será jogado durante algum tempo mas, como previu “Rosa dos ventos”, está perdido para eles. Que jogo é esse e que parcela é essa, o que significam “perdido” e “dar-se conta”, e até mesmo qual é o sentido da palavra “brasileiros” naquela frase são temas que merecem reflexão, se queremos ter uma visão matizada, não ufanista do processo. Antes, uma palavra sobre o termo mais polêmico, “conglomerados máfio-midiáticos”, que será doravante usado neste blog de forma também intercambiável com o acrônimo MOSCOU.


intro_moscow.jpg
Foto de Jochem Wijnands, no Getty, museu montado por meu amigo Tom Reese


Meu não-uso do termo PIG advém de que, apesar de a própria executiva da Folha reconhecer textualmente que a imprensa brasileira substituiu os partidos de oposição no governo Lula, apesar de sabermos que, em várias partes do Brasil, ela é partido mesmo o tempo todo (como no caso da RBS no Sul), e apesar de ser visível o componente golpista do seu DNA em diversos momentos de sua história, não acho que a metáfora “partido golpista” tenha referencialidade suficiente; é unitário demais. Não há, por exemplo, como assistir ao Seminário de ontem sobre mídia, ouvir Merval Pereira e Renata LoPrete, e não perceber a imensa diferença intelectual, moral e ética entre eles. É um bom achado humorístico, a sigla PIG, e eu a leio sob esse tipo de licença poética. Não a uso.

“Conglomerado máfio-midiático” é diferente, porque você pode perfeitamente ser funcionário de um conglomerado mafioso e continuar fazendo, no seu canto, um trabalho sério e honrado, como bem sabem os datilógrafos e faxineiros do PPS (ou do PTB, pra não dizerem que só falo mal da oposição). Com esse tipo de preocupação em mente, o antenadíssimo gringo Colin Brayton cunhou, em português, sim sinhô, o acrônimo MOSCOU: Mídia Orquestrada por Sociedade Civil de Oligarcas Unidos. Como também numa orquestra podem existir reais sonoridades dissonantes, prefiro MOSCOU a PIG.

Pois bem, MOSCOU percebeu que o jogo está perdido, argumentávamos. Mas também “perdido” aqui requer explicação, para que não se leia o que não está escrito.

Eles perderam, mas isso não quer dizer que o vitorioso seja “a internet”, “a blogosfera” ou muito menos a blogosfera “progressista”--termo que merece um digno funeral em breve, pelo menos como suposição de que representa universalmente a esquerda. Note-se que eu proponho que MOSCOU perdeu. Não presumo saber quem ganhou. Aliás, o segundo argumento do post é este: MOSCOU já perdeu o jogo, mas quais serão os vencedores é matéria que ainda não sabemos. Ao contrário do que argumentam os que reclamam do Fla x Flu, esta não é uma partida com dois jogadores.

Ganha a democratização da informação, é óbvio, quando perde MOSCOU. Mas quais são as vozes concretas que encarnarão dita abertura, ou seja, qual será o bloco hegemônico a emergir das ruínas, é matéria ainda mais nebulosa do que parece, na opinião da ala trotsko-atleticana de blogolândia.

Continuemos com a tese do post: MOSCOU deu-se conta de que perdeu o jogo. Mas como “deu-se conta”?

MoscowSouvenirs1.jpg
bonequinhas-souvenir de Moscou


Mais ou menos como a palavra “talvez” em Derrida, que sempre significa seu antônimo, ou seja, “com certeza”, entendo o termo “dar-se conta” aqui como o oposto de “perceber”. MOSCOU dar-se conta de que perdeu o jogo deve ser entendido freudianamente, ou seja, como Verneinung (denegação [pdf]). Ainda não entenderam nada do que está acontecendo, isto me parece óbvio, mas algo neles percebe, um “algo” freudiano, ou seja, inconsciência.

Só assim é possível ler a coleção de micos com que O Globo e uma colunista de MOSCOU nos brindaram esta semana, na esteira da entrevista do Presidente Lula ao grupo de blogueiros. Listemos alguns desses micos, poupando a paciência do leitor com uma abundância de links:

1) O Globo afirma que Cloaca News é o primeiro pseudônimo que “participou de entrevista”, provavelmente se esquecendo da existência de Truman Capote e Stanislaw Ponte Preta, entre incontáveis outros; 2) Na mesma matéria, O Globo usa intercambiavelmente os termos “apócrifo” e “pseudônimo”, o que qualquer consulta a qualquer dicionário da língua desautoriza: são termos mutuamente exclusivos, aliás. As Escrituras não são “de pseudônimo”, e quando Truman Capote assina In Cold Blood, por definição, não se trata de algo “apócrifo”; 3) A mesma matéria d'O Globo, não assinada, mas tão ruim que poderia ter sido escrita por um ator de filme pornô ou personagem de ficção científica, diz que José Serra os “teria classificado” de blogs sujos, sem ter feito, portanto, a pesquisa básica no próprio MOSCOU, que lhe confirmaria que a paternidade do sintagma “blogs sujos” é mesmo do candidato do Jornal Nacional nas últimas eleições; 4) o episódio em que a acho-colunista Dora Kramer tentou dar aulas de Direito a um dos maiores Penalistas do Brasil merece um parágrafo a parte, para que se entenda porque eu vejo “dar-se conta”, na frase-tese do post (MOSCOU deu-se conta de que perdeu), como sinônimo de “denegação”.

Sem guglar o nome “Túlio Vianna”, Dora Kramer interpretou a pergunta do Doutor em Direito pela UFPR, Professor da UFMG e autor de Transparência Pública, Opacidade Privada, a Lula, sobre a possibilidade de nomeações mais, digamos, à esquerda para o STF (enfim, sem citar Konder Comparato, o Túlio fez a pergunta número 1 que eu teria feito) como se Túlio não soubesse o que é separação de poderes, passando, enquanto isso, atestado de não ter, ela, nem vaga notícia sobre o assunto. Ela confundiu prerrogativa presidencial de indicação de Ministros ao STF com suposta violação da separação de poderes.

Tentemos desenhar. Imagine, leitor, o mico.

Um colunista com QI abaixo da média, de um jornal em decadência, com vendas declinantes, pertencente a um conglomerado que viu reduzidas as suas chances de realizar mutações em bolinhas de papel, interpela o Professor Luiz Antonio Simas para lhe explicar o que é um samba de enredo e qual a diferença entre a Beija-Flor e a Deixa Falar, cometendo, no processo, confusão entre quem foi Noel Rosa e quem é Martinho da Vila.

Esse é o nível do monumental mico que a colunista Dora Kramer pagou esta semana no Estadão.

Em qualquer imprensa genuinamente pluralista do mundo, seria abalador ou detonador de carreira, e sobre isso perguntem Arianna Huffington no dia 21 de dezembro, em São Paulo. Acho que ela concordaria. Daí, enfim, que a locução verbal "dar-se conta de", na frase-tese deste post, deva ser lida como signo do seu antônimo: ainda não entenderam nada, é evidente, mas algo neles entendeu.




PS: Ainda sobre o tema deste post, eu gostaria de alistar alguém que entende de programação para uma receita de gerador eletrônico de #Mordalíngua: o mecanismo é muito simples. Visitamos os arquivos de MOSCOU, digitamos "Merval", "Leitão" ou "Cantanhêde" e mandamos a máquina rastrear verbos no futuro ou no condicional. Tudo o que eles preveem dá errado. São a confirmação viva de que "até relógio parado acerta duas vezes ao dia" é só isso, um clichê falso. É perfeitamente possível estar errado sempre. É um talento notável, convenhamos. Mas ele existe.

PSTU (apud NPTO): De forma relacionada ao post, mesmo que tangencialmente, o blog acompanha o zumbido de que o Ministro Paulo Bernardo pode ser o encarregado da Pasta das Comunicações no governo Dilma. O blog tenta ter informação independente e não trafica boatos, mas acompanha com interesse e torcida. Seria excelente combinação de firmeza, tato político e ponderação num ministério chave.

PSTU do B: O Biscoito anuncia, esta semana, três coautores: colunistas convidados que escreverão, cada um, um post quinzenal (os confirmados são dois homens e uma mulher). Ainda estamos em negociações com a quarta convidada.



  Escrito por Idelber às 05:34 | link para este post | Comentários (66)



quarta-feira, 24 de novembro 2010

Histórica entrevista do Presidente Lula a blogueiros

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É um marco histórico na democratização das comunicações o evento que acontece daqui a pouco no Palácio do Planalto: Lula concederá a primeira entrevista de um Presidente da República a um grupo de blogueiros. Trata-se de acontecimento histórico, a ser celebrado e assistido por quem tem interesse na luta pela informação livre e democrática no Brasil. A entrevista será transmitida pelo Blog do Planalto e por qualquer blog que queira fazê-lo. O código é livre. Caso acesse o Biscoito nesta manhã, a partir das 9 h, você poderá vê-la e comentá-la aqui (também vale a pena seguir a tag #LulaBlogs no Twitter):

Tendo sido a internet tão decisiva na articulação da campanha de Dilma (tanto na contraposição à visível parcialidade da grande mídia como na crítica à barragem de baixarias advindas da campanha de Serra), o reconhecimento de Lula aos blogs é mensagem clara, como o foram a entrevista do próprio Lula ao Terra e a entrevista de Dilma à Record. Parabéns ao Renato Rovai que, a partir do Encontro de Blogueiros Progressistas, botou sua bela caderneta de endereços e telefones para funcionar e conseguiu a entrevista. Obrigado a ele pelo convite para que eu fosse parte do time de entrevistadores, que catastroficamente não pude atender, posto que ficaria um pouco caro ir ao Brasil só pra isso, tendo comprado passagem já para o começo de dezembro.

Em todo caso, ficam aqui a transmissão ao vivo, os votos de parabéns e a sugestão de que os camaradas-blogueiros resistam à tentação de deslumbramento tão inevitável quando o interlocutor é Lula. Sem replicar a hostilidade da grande mídia, é possível fazer uma entrevista questionadora, incisiva, que vá além da mui merecida celebração da vitória de Dilma para a qual trabalharam tanto o Presidente como a grande maioria dos blogueiros que estão lá hoje (o Altino Machado, até onde notei, apoiou a Marina).

Como contribuição, deixo quatro possíveis perguntas que, acredito, estariam em consonância com esse espírito de uma entrevista iluminadora e, ao mesmo tempo, não puramente celebratória--já que, afinal de contas, a campanha acabou e nós vencemos. Aqui vão elas. Com sorte, algum dos camaradas as verá a tempo e se animará a formular uma variação de alguma delas:

1. Presidente, há críticas na internet, entre apoiadores leais do governo, ao conjunto das nomeações que o Sr. fez ao Supremo Tribunal Federal. Sem citar o nome de qualquer Ministro atual, o Sr. teria algo a dizer sobre a perda da oportunidade de se ter Fábio Konder Comparato no Supremo? O Sr. lamenta essa ausência ou mantém a convicção sobre suas nomeações?


2. Presidente, também entre apoiadores leais ao governo, há a avaliação de que a aliança com o PMDB foi importante para o sucesso e a estabilidade do governo, além de inevitável para a aprovação de legislação na Câmara e especialmente no Senado. Mas também muitos argumentam que no caso particular do Maranhão, o preço ficou bastante alto. O Sr. tem algo a dizer aos petistas maranhenses? Dá para prescindir dessa aliança em particular num futuro próximo? Acha que o ex-presidente José Sarney teria entendido como uma ingratidão pela lealdade dele ao Sr. uma simples neutralidade sua na corrida ao Senado pelo Amapá em 2006, na qual ele concorreu com Cristina Almeida, mulher, negra, socialista e amapaense, ao invés do apoio discreto, mas real, que o Sr. ofereceu a Sarney?


3. Diga lá, Presidente: o Sr. se surpreendeu com a virulência com que a Globo aderiu à campanha de José Serra, chegando àquele patético ponto dos sete minutos de JN dedicados à bolinha de papel, mesmo tendo a emissora sido bem tratada no seu governo, contando, inclusive, com o Ministro das Comunicações? Entendemos que o investimento do governo na democratização da informação foi notável mas, em retrospecto, o Sr. acha que uma relação não de confronto, mas de um pouco mais de distância e indiferença ante a Globo teria sido mais produtiva e saudável? O que Sr. tem a dizer aos milhares de ativistas que tornaram possível a Confecom e a campanha de Dilma na internet, e que se impacientaram com a proximidade de setores do governo a uma corporação de mídia tão manipuladora e direitista em seu jornalismo?


4. Para continuar com as perguntas acerca de um possível arrependimento com concessões feitas, e em relação com a pergunta anterior: entendemos que não interferir diretamente no futebol e não criar confrontos com a CBF, entidade privada, foi boa política. Mas não teria valido a pena mover os pauzinhos para isolar um pouco Ricardo Teixeira e sua turma? O preço político pago pelo governo teria sido tão alto assim?


São contribuições questionadoras, não-chapa branca, a uma entrevista que tem, também, todo o direito de ser uma celebração dos blogs de esquerda com o exitoso presidente que eles apoiaram.

Muita, muita vontade de estar aí. Parabéns e celebremos.




P.S. - Já que os direitos reprodutivos foram tema chave na campanha e Denise Arcoverde e Maíra Kubík Mano levantaram, no Twitter, questão pertinente sobre a composição do time que entrevista Lula, cabe um comentário de alguém que participou intensamente da campanha, foi convidado para a entrevista e tem um histórico de diálogo com a blogosfera feminista. O machismo e a separação de papéis de gênero informam a composição do time de entrevistadores de hoje não como dado subjetivo do organizador, mas na medida em que informam o mapa particular de blogolândia com o qual trabalham Renato e outros camaradas-blogueiros oriundos do jornalismo. Na medida em que as mulheres estão sub-representadas num certo conjunto de lideranças jornalísticas na internet (mesmo dentro da esquerda), a assimetria de gênero visível em nossa sociedade se reproduziu na composição do grupo que está agora em Brasília. A razão pela qual várias possíveis blogueiras-entrevistadoras ficaram fora do radar do Renato é a mesma que fez com que, provavelmente, Celso de Barros também tenha ficado. Mas o fato de que Conceição Oliveira e Conceição Lemes tenham sido as únicas blogueiras convidadas é relevante, assim como é lamentável a ausência da C. Oliveira (há notícias desencontradas sobre se a C. Lemes vai ou não). Com a liberdade de quem é amigo tanto de Túlio Vianna como de Cynthia Semíramis (amigo de cada um deles e do casal), digo que o convite feito a ele e não a ela foi um lapso importante, já que, enquanto blogueira, ela teve uma participação bem mais intensa na campanha que ele. Vanessa Lampert teve atuação tão positiva e decidida como qualquer dos blogueiros convidados. Fica o toque, não como reprimenda ao querido Renato, mas como lembrete do que ainda falta à esquerda (e à esquerda dos "grandes blogs" em particular que, como apontei antes, é majoritariamente oriunda do jornalismo) no que diz respeito a questões de gênero.



  Escrito por Idelber às 04:36 | link para este post | Comentários (76)



sábado, 20 de novembro 2010

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

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"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."
Luiz Gama

Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.


A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.


Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.


Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

PS: Fonte da imagem.

* *P.S. em 24/11: O livro Caçadas de Pedrinho é publicado pela Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, mestre em Comunicação Social/UnB e editor do jornal Ìrohìn, pelo envio de seu excelente artigo "A propósito de Caçadas de Pedrinho".


Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor
20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra




  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (167)



quinta-feira, 18 de novembro 2010

Clube de Leituras (com Brasiliana): "As Academias de Sião", de Machado de Assis

Esta é uma edição do Clube de Leituras em parceria com o maravilhoso projeto Brasiliana USP Digital, onde recomendamos que leia "As Academias de Sião", de Machado de Assis. A única regra do Clube é a proibição ao pedido de desculpas por não ser especialista em literatura.


machado_de_assis.jpgAlguma tinta já foi gasta para elucubrar sobre se Borges teria ou não conhecido algum texto de Machado de Assis. Nessas matérias, costuma ser impossível ter certeza e, mesmo tendo-a, impossível determinar qual o grau de “influência” de um texto sobre o outro. Tendo sido Borges um sujeito que não escondia seus linques, tenho lá minhas dúvidas mas, em todo caso, é um exercício inútil. Independente disso, “As Academias de Sião” é um conto protoborgeano de Machado, não há dúvidas.

Academias” talvez seja o espécimen mais acabado do flerte de Machado com o fantástico em sentido estrito (Darlan Luna, em trabalho de doutorado para a UFF, conta dezesseis[pdf]). Ao contrário de variantes posteriores, mais presas a fórmulas, como o realismo mágico, no fantástico não há surpresas inverossímeis “maravilhando” o leitor. A suspensão da descrença ocorre de forma imediata, como nos contos de fadas (apesar de que há alusões a lugares “reais”, como Sião, que remete a Jerusalém *). Já na segunda frase de “Academias”, o leitor sabe que a verossimilhança realista está suspensa. É, literalmente, um mundo imaginário, como Tlön Uqbar, Orbis Tertius. Fantástico em estado puro, como teria apreciado Borges, que gostava dos gêneros reduzidos ao seu núcleo essencial.

Em “Academias”, no entanto, o mundo imaginário aparece para compor uma alegoria de algo que só aflora em Borges como denegação, espaço proibido, um não-tema: o gênero e o sexo. Em época de definições “científicas” tão fixas sobre o que eram o masculino e o feminino, Machado, sabiamente, prefere lidar com a caracterização deles em terreno fantástico, fabular: Kalaphangko é rei, homem, mas tem a alma feminina, definida como “olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas” (a alma masculina, por oposição a isso, não se sabe o que seja: o conto não nos diz, a não ser por pistas dadas depois da troca de almas). A guerra entre interpretações—seriam as almas dotadas ou não de masculinidade ou feminilidade, marcadas ou não em gênero, sexuadas ou não, neutras ou não—gera a guerra civil que leva à reorganização baseada na academia de sábios, uma espécie de gestora da Loteria da Babilônia que administra o consenso.

Só a bela Kinnara, mulher em alma masculina, aprova o terror pós-apocalíptico. Definida inicialmente (antes da troca de almas) como búfalo com penas de cisne, ela é o protótipo da mulher feminina fisicamente mas poderosa, viril, “masculina”, dominadora: consegue do rei da declaração de que a tese das almas não-sexuadas é herética, e restabelece-se a paz. Até aí, claro, poder-se-ia dizer que, apesar de almas estarem em corpos “trocados”, Machado trabalha, como aponta a Profa. Marta Cavalcante de Barros em sua tese (pdf, p.54 passim), com definições tradicionais, positivistas do que é o masculino e o feminino (como também notou Milton Ribeiro). Seria assim, claro, se a primeira parte não tivesse sido um componente do plano de Kinnara: a troca de almas.

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Aqui, partimos para o transexual fantástico: a troca de almas que propõe Kinnara (aceita pelo Rei, por seis meses) é, na verdade, uma destroca, uma volta das almas ao ponto de reintegração com o corpo no qual estão alojadas, no qual sempre deveriam ter estado alojadas, uma reconciliação delas com sua essência, enfim. Lembrando Buoso e a cobra (em Dante), evocando Ovídio e Luceno (e suas metamorfoses), Machado nos conta a primeira providência tomada por Kalaphangko, agora rei com alma masculina, ou seja, a de Kinnara: conceder todas as honrarias à academia sexual. Junto com a centralidade da academia, o rei impõe ajuste fiscal, decapita inadimplentes, pensa em guerra.

O nome de Kinnara alude à amante por excelência nas mitologias budista e hindu, meio humana e meio cavalo (ou pássaro), que jamais procria. O troca-troca entre Kalaphangko e Kinnara, por sua parte, pode ser colocado em diálogo com uma infinidade de figuras andróginas ou transexuais, como Ardhanarishvara, uma das formas de Shiva ou, porque não, Oxumaré, o orixá de todos os ciclos, que é macho e é fêmea, e garante a unidade do mundo.

Mas enquanto nas cosmogonias há o fechamento na redondeza do ciclo (ainda que esse fechamento, pelo menos na cosmogonia yorubá, seja também mil aberturas), em Machado o ciclo se interrompe. A troca tem que acabar em seis meses e Kinnara está grávida, abrindo a enorme, complexa pergunta: o filho de um casal de almas coincidentes com sua essência sexual (homem masculino, mulher feminina) mas depois destrocados para o que era originalmente (homem feminino, mulher masculina) vai gerar exatamente o quê? Qual combinação de “essências” macho e fêmea pode se esperar aqui? Ainda é válido falar de “essências” macho e fêmea? O que seria um filho macho de um pai-ex-feminino-que-voltará-a-ser feminino e uma mãe-ex-masculina-que-voltará-a-ser-masculina?

Como sempre em Machado, o questionamento dos valores dominantes da época não se dá com a proposta de uma ordem alternativa, mas com emergência de uma cena em que todas as ordens parecem, literalmente, a mesma galhofa. Contra a fixidez do essencialismo de gênero, uma proliferação de combinações onde as essências iniciais já não sobrevivem intactas.

O desenlace do conto é conhecido: o rei chama os acadêmicos para resolver a pendenga gerada pela data de validade da troca. Para a estupefação do rei, os acadêmicos só fazem falar mal uns dos outros (só intelectual, nunca moralmente! que sirva de consolo...). Kalaphangko e Kinnara destrocam as almas, o príncipe é “restituído à forma anterior” e uma procissão dos acadêmicos passa, com seu slogan pretensioso, ante a descrença de Kinnara, que não entende como eles podem ser ao mesmo tempo a “claridade do mundo”, como diz seu hino, e uma multidão de camelos, como dizem eles mesmos uns dos outros.

O fechamento é Machado em estado puro, reforçando o caráter fantástico do conto: quem tiver soluções à dúvida de Kinnara, que mande cartas a “nosso cônsul em Xangai, China”.

Como a maioria da contística machadiana, "As Academias de Sião" abre vastas portas, e o dito aqui, e nos textos lincados, é uma pequena fração do que dá para elucubrar a partir desse notável sacolejo num conjunto de ideias recebidas sobre gênero e sexo. Leia lá e me diga o que achou, aqui ou em seu blog.

* Atualização: Além de remeter a Jerusalém, Sião também remete à Tailândia, o que havia me passado batido na releitura da madrugada, tendo me passado despercebida a menção a Bangkok no texto. Agradeço ao leitores que mo apontaram. Creio, no fundo, que é de pouca monta, dado o gênero do conto: a localização aqui não altera a dinâmica fantástica do texto. Mas pode haver controvérsias, inclusive porque ela pode alterar, sim, evidentemente a reverberação simbólica dos elementos do conto.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (38)



quarta-feira, 17 de novembro 2010

Aviso (2)

Por incrível que pareça, terei que me desculpar de novo: imprevistos por aqui, e o raio do fuso horário desta época do ano (4 horas entre Nova Orleans e Brasília), me impediram de produzir o texto para o Clube de Leituras a tempo. Se for para começar à tarde, melhor começar no dia seguinte. Continue, pois, navegando pela maravilha. Lá está "As Academias de Sião". Você já pode consultar o texto do Milton Ribeiro e, se quiser se aprofundar mesmo, o segundo capítulo da tese da Marta Cavalcanti de Barros, que é sobre "Academias" (sugestão do leitor Frank).

Amanhã eu volto de verdade.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (6)



terça-feira, 16 de novembro 2010

Aviso

A quem passa por aqui para o Clube de Leituras, minhas desculpas. Por motivos vários, não foi possível fazer um texto decente para hoje. Adiemos a coisa por 24 horas, enquanto eu me preparo melhor, então. Vá lendo, ou relendo, "Academias de Sião". Dê mais uma passeada pelos maravilhosos arquivos da Brasiliana, e amanhã eu estarei pronto.

No meu Google Reader, no Twitter e, especialmente, no FormSpring, há muita coisa nova para se ler também.

Até amanhã, pois.


PS: Hoje, às 19:30 de Brasília, tem transmissão ao vivo da minha Twitcam. O tema é a recente onda homofóbica e xenofóbica no Brasil.



  Escrito por Idelber às 05:58 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 14 de novembro 2010

Links de domingo

Aí vão alguns links dominicais para seu prazer navegador:

Alguém no PCdoB deveria bater um papo com o Deputado Aldo Rebelo. Está ficando vexaminoso. Depois de traficar informação falsa sobre a não existente “censura” a Monteiro Lobato, o deputado escreveu um artigo para a Folha em que, movido pelo salutar desejo de combater a xenofobia anti-Nordeste, mistifica a história do Brasil com expressões do tipo "heróis nacionais como Caxias" e "a elite ilustrada paulista jamais renegou a origem indígena". Prestes deve estar se revirando no túmulo, com um comunista louvando Caxias, Raposo Tavares e Pedro de Toledo. Um poço de mistificação, o artigo.

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O blog da Companhia das Letras publicou um texto de Lygia Fagundes Telles sobre Monteiro Lobato precedido de um cabeçalho da editora do blog, Marta Garcia, em que se dizia que o Conselho Nacional de Educação havia recomendado que Caçadas de Pedrinho “ não fosse distribuído pelo governo nas escolas públicas brasileiras”. Alertado por inúmeros leitores, entre eles este membro da ala atleticana do trotskismo, de que a informação era falsa, o blog da Companhia teve a nobreza de se retratar e incluir uma correção. Parabéns à Companhia das Letras. Na Veja, a Lya Luft também traficou a patacoada de que Lobato foi "banido". Dessa aí, evidentemente, não há que se esperar nenhuma retratação.

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Por falar em editoras: ainda não sei se escreverei um post completo sobre isso mas, no meu modo de ver, a Editora Record está pagando um mico federal ao armar esse escândalo pela premiação do Jabuti a Leite Derramado, de Chico Buarque. O chororô se dá por causa da derrota de um livro, Se eu fechar os olhos agora (do jornalista da Globo Edney Silvestre), que não tem absolutamente nada de muito especial. Na modesta opinião deste blogueiro, o melhor romance do ano passado não foi nenhum dos dois. Foi O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho. A história das mesquinharias envolvendo prêmios literários foi narrada de forma definitiva por Borges no conto “O Aleph”. Mas a queixa da Editora Record-- de que houve vitória de seu candidato numa categoria e derrota dele para o segundo colocado da categoria no prêmio geral -- já aconteceu várias vezes no Jabuti, inclusive com a Record sendo beneficiada. Minha querida Luciana, não entre nessa. Conversem com o Cristóvão Tezza. Com certeza ele terá palavras sensatas sobre o caso. Como contribuição, deixo o PDF de um longo (longuíssimo) artigo meu sobre o valor literário, que sai publicado no próximo número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. De qualquer forma, é ridículo dizer que, num confronto entre Leite Derramado e Se eu fechar os olhos agora, o segundo perdeu porque "foi roubado". Trata-se de um romance infinitamente mais convencional e formulaico (e eu gosto do Edney, pessoa gentil e afável, que se prepara muito bem para seus programas). Mas me desculpem: escritor que é escritor escreve e ponto. Não fica chorando por prêmio. Escreva: o reconhecimento vem por acréscimo.

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No NaMaria News, mais um post indispensável (dizer "um post indispensável do NaMaria News", claro, é o maior pleonasmo blogueiro que há) mostrando uma das mil razões pelas quais Gabriel Chalita não deve, não pode ser Ministro da Educação. Há outras. Revelá-las-emos aqui.

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No Viomundo, o Professor Miguel Nicolelis, da minha querida Duke University, detonou os palpiteiros da mídia com requintes de crueldade numa entrevista sobre o ENEM. Parabéns mais uma vez ao Azenha, sempre atinado.

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A Carta Capital desta semana veio com chumbo grosso de Leandro Fortes sobre as maracutaias de Gilmar Mendes em Diamantino. Entre elas, a incrível história do prefeito de oposição, derrubado três vezes pelas oligarquias de Mendes. Parabéns ao Leandro pela matéria e parabéns a ele e ao querido Bob Fernandes pela volta do Baêa à primeira divisão, seu lugar de direito.

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O Partido Socialismo e Liberdade tomou uma ótima iniciativa: entrou com ação pedindo que STF declare a omissão do Congresso em regulamentar o direito de resposta. Isso já tinha sido tentado pela Fenaj que, pelo que parece, não tinha competência legal para fazê-lo. Vejamos agora.

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Nos próximos dois dias, visite a Brasiliana e leia “As Academias de Sião”, de Machado de Assis. Bateremos um papo sobre o conto aqui, na terça-feira, como parte do Clube de Leituras trotsko-atleticano.

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Para você que gosta de futebol americano, o Blog do Alê traz um sensacional vídeo mostrando que o jeitinho brasileiro também já deu as caras no esporte.

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Neste fim de semana, aconteceu maratona mundial de protesto contra o muro israelense do Apartheid. No Brasil, o Ciranda.net tem se destacado na luta.



  Escrito por Idelber às 08:49 | link para este post | Comentários (41)



sexta-feira, 12 de novembro 2010

Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica

monteiro-lobato-nascimento-pai-emilia.jpgNossa indústria de escândalos precisa de urgente renovação. Depois do “Ministério da Educação acéfalo” que só acertou em 99,94% das provas do ENEM, há uma polêmica sobre Monteiro Lobato que, aliás, será do agrado dos que reclamam do Fla x Flu entre lulismo e antilulismo. Desta feita, há governistas e oposicionistas em ambos os lados da polêmica. Isto não a torna, evidentemente, mais interessante.

Aldo Rebelo, o Prof. Deonísio da Silva, Augusto Nunes e dezenas de tuiteiros fizeram uma tempestade numa xícara d'água contra uma suposta “censura” sofrida pelo autor de Urupês. Em comum entre todos eles, a ausência de qualquer citação do parecer que foi pedido ao MEC sobre Caçadas de Pedrinho (ou, no caso de Aldo, a presença de citações distorcidas do texto). O blogueiro do Serra, que eu saiba, ainda não surtou com o tema, mas não duvide. Se, depois de ler algo da obra infantil de Lobato, você ler o parecer do MEC sobre o tema, perceberá a pobreza da indústria do escândalo.

O pedido de parecer recebido pelo MEC se relaciona com algo comum no ensino de obras literárias, em especial para jovens ou crianças: a contextualização necessária para que epítetos, comportamentos discriminatórios, racismo explicito, ódio a povos ou a orientações sexuais etc., sancionadas e apresentadas como normais no contexto em que a obra foi escrita ou no interior dela (e qual é a relação entre obra e contexto em cada caso, claro, é um vasto problema), sejam lidos criticamente e não replicados como modelo pelos alunos. Não é tão fácil como parece. No caso de Monteiro Lobato, é imensamente difícil.

O Deputado Aldo Rebelo diz: Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” — a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

O Deputado Aldo Rebelo vive num mundo onde todas as discussões acerca da cultura se dão num terreno ameaçado, pelo estrangeirismo ou pelo politicamente correto. O Deputado tem uma concepção estática, patrimonialista de cultura nacional. Para ele, o passado é uma coleção de sacralidades intocáveis. É o oposto de uma concepção benjaminiana acerca do que é o pretérito.

A comparação feita por Aldo, entre Lobato e Nelson Rodrigues, é estapafúrdia, por ignorar o contexto em que se faz o pedido de parecer ao MEC: o da obra Caçadas de Pedrinho em salas de aulas do ensino fundamental e médio. Ora, salvo engano meu, não há garotos de 4º ou 5º ano lendo Vestido de noiva ou Bonitinha, mas ordinária nas escolas públicas ou particulares brasileiras. Se eles se introduzem à obra de Nelson na adolescência tardia ou depois, na faculdade, essa situação não tem nada em comum, entendamos, com um garoto negro ou mulato de 10 ou 11 anos de idade sendo introduzido social, coletivamente à pesada linguagem racista que se encontra em parte da obra de Monteiro Lobato. Este blog tem tentado ser contido mas, com vossa permissão, sugiro que só uma besta-quadrada ou um malintencionado não enxerga isso.

Pois muito bem, dados os fatos de que 1) Monteiro Lobato é peça chave da nossa tradição literária, especialmente canônico e fundacional para a literatura infantil; 2) uma obra como Caçadas de Pedrinho está eivada de linguagem pesadamente racista; 3) essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação; coloca-se aí um problema nada simples para o educador. Quem acha que é simples que faça, por gentileza, o exercício de imaginar alguns dos trechos animalizadores de negros, citados pelo Sergio Leo, numa sala de aula com, digamos, 20 ou 22 crianças brancas ou brancomestiças e 3 ou 4 crianças negras ou negromestiças. Imagine, monte seu plano de aula e me conte. É uma situação que tem o potencial de ser tremendamente traumática para a criança.

O que fazer, então? Ninguém, em nenhum momento, falou em “proibir” ou “censurar” Lobato. Em nenhum momento se falou sequer de emendar o texto de Lobato, coisa com a qual eu, particularmente, não teria grandes problemas (pelas mesmas razões do Alex), desde que fosse bem feito.

Na verdade, basta ler o raio do parecer do MEC para ver que, concorde-se com o texto ou não, ele está escrito dentro de um espírito razoável: fornecer ao educador instrumentos (introdução, notas ao pé de página etc.) que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social. O parecer não está escrito em jargão de especialista, mas está informado pela leitura de alguns dos melhores estudiosos de recepção de obras literárias no Brasil, como Marisa Lajolo (que, além de ser estudiosa de estética da recepção, é autora de um artigo importante [pdf] sobre o negro em Lobato).

O parecer explica, em linguagem clara, algo que é amplamente consensual entre estudiosos de literatura: que nenhuma obra literária está completamente “solta”, “livre” dos valores de sua época e que nenhuma grande obra é simplesmente um reflexo desses valores tampouco. Cada obra rearticula, reescreve, chacoalha, reinterpreta os valores de seu tempo. Em outras palavras, o mesmo Monteiro Lobato cujos diálogos estão eivados de racismo pode servir para questionar o racismo. O mesmo Conrad que está encharcado de colonialismo pode servir para questionar a empreitada colonial. O mesmo Nelson Rodrigues que está empapado de misoginia pode ser lido de forma feminista, emancipatória. Mas estas duas últimas tarefas, em sala de aula, são menos explosivas e complexas que a primeira, posto que no caso de Lobato você está lidando com garotos de 10, 11 anos de idade.

Um aparato de notas é o mínimo a que um professor tem direito para trabalhar com as perorações racistas de Emília numa sala de aula do século XXI. Inventemos escândalos mais inteligentes. Aqueles baseados na sacralização dos documentos de cultura passados estão ficando meio tediosos.

Suponho estar óbvio que o parecer do MEC sequer desestimula (que dirá proíbe) a adoção de Caçadas de Pedrinho ou de qualquer outra obra de Lobato. O Alex diz nos comentários a este post (cuja conversa continua aqui) que ele não adotaria a obra e eu entendo suas razões. Aliás, eu me atreveria a dizer que só quem nunca segurou um pedaço de giz não entenderia. De minha parte, eu não sei se adotaria o livro ou não. Optei por dar aulas para adultos, em parte, para não ter que tomar decisões como esta (como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum). Eu certamente não a adotaria num contexto em que os garotos negros fossem pequena minoria em sala de aula. É sempre caso a caso. O parecer do MEC não substitui a decisão de cada professor. Só oferece elementos para subsidiá-la.

Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita. Esta gerou pelo menos dois ótimos textos: do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. Fiquemos com eles.



  Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post | Comentários (124)



quinta-feira, 11 de novembro 2010

Clube de Leituras terça-feira, em parceria com Brasiliana USP

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Os visitantes deste trotsko-atleticano blog estão convidados a uma reedição do tradicional Clube de Leituras, na próxima terça-feira. Um dos textos, imposto por centralismo democrático pelo Comitê Central dos bastidores biscoiteiros, é “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis incluído em Histórias sem data. Para fazer dobradinha com ele, qualquer outro texto, desde que você o encontre no baú infinito da Brasiliana USP.

Há algumas semanas, combinei com a turma que toca o projeto Brasiliana USP uma reedição do Clube que enviasse os leitores do Biscoito a esse extraordinário acervo digital montado pelos Profs. Pedro Puntoni, Maria Clara Paixão de Sousa, Carla Piazzi e equipe. É difícil escolher algo na Brasiliana. O acervo já digitalizou escritores clássicos, temas antológicos, obras raríssimas, livros pouco conhecidos de autores manjados, enfim, a Brasiliana é uma perdição.

Este post é só para abrir o debate sobre qual(is) seria(m) o(s) texto(s), de Machado ou não, mais indicado(s) para acompanhar "Academias de Sião" na próxima terça, e também para que você compartilhe links a pérolas encontradas no baú infinito da Brasiliana USP. Ficamos, então, de decidir-nos por mais um ou dois textos. Feita a escolha, eu coloco a atualização aqui no post. Na terça-feira nos reunimos para o tradicional bate-papo.


Atualização: Ficamos combinados com um único conto, "As Academias de Sião", de Machado de Assis, que dá pano para muitas mangas. Na madrugada de segunda para terça eu coloco o post aqui.



  Escrito por Idelber às 04:27 | link para este post | Comentários (18)



quarta-feira, 10 de novembro 2010

ENEM não pode ser um vestibular nacional, por Ana Maria Ribeiro

Minha amiga de muitos anos, Ana Maria Ribeiro, Técnica em Assuntos Educacionais na UFRJ (Instituto do Coração/ Complexo Hospitalar UFRJ), é a autora do texto que segue. O Biscoito o publica em primeira mão, como contribuição à parcela séria dos debates suscitados sobre o ENEM a partir do último fim de semana.

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O Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) foi instituído há mais de dez anos. Na sua implantação, o então governo do PSDB desejava que este fosse o instrumento para sua intervenção nos conteúdos do Ensino Médio em nível nacional. Para tal, convocou todas as universidades federais, algumas comunitárias e confessionais, propondo o seu uso para ingresso nas universidades. Intencionava o então governo implementar seu projeto de intervenção no currículo e diretrizes do ensino médio, de responsabilidade da esfera estadual, através de seu sistema federal de ensino – as instituições superiores federais e privadas. O ENEM foi implantado, mas não foi aceito pelas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) como instrumento de ingresso. Naquele período, a principal critica formulada contra seu uso era a minimização de conteúdos, assim como a retirada de vários conteúdos considerados importantes para acesso ao ensino superior. Entretanto, varias instituições privadas não hesitaram em usar o ENEM como processo seletivo e com isso reduzir os custos com provas e bancas.

No governo Lula o ENEM passou por uma grande reformulação e foi transformado num instrumento de aferição de habilidades e competências  cumprindo sua função e avaliação de uma etapa importante da formação: o ensino médio. Este forte instrumento possibilitava uma radiografia importante, mas o fato de não ser obrigatório deixava de fora um contingente importante de estudantes brasileiros, o que reduzia sua eficácia no processo de avaliação do sistema.

Sendo o Ensino Médio de responsabilidade dos Estados e o papel do Ministério da Educação complementar, algumas iniciativas começaram a ser desenhadas buscando uma ampliação do escopo desta avaliação. Os especialistas do MEC não tiveram duvidas de que a melhor forma de ampliar o uso do ENEM seria a obrigatoriedade para ingresso na universidade pública.

Com um novo enfoque nas habilidades e competências, seu formato agradou os educadores e a proposta de inclusão do ENEM no processo de seleção de alunos às instituições federais não encontrou grandes resistências. Soma-se a essa posição a clara, e explicita, política governamental de apoio às IFES com o REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Federais). Ou seja, se estabeleceu ao longo destes anos um grau intenso de confiança entre os gestores universitários e governo federal possibilitando a construção de reais parcerias. Para algumas IFES seria necessário inserir no novo modelo do ENEM conteúdos, de forma a possibilitar testar o instrumental necessário para o ingresso no ensino superior.

A partir daí começamos a identificar os problemas cujas consequências se assiste, mais uma vez, nesta segunda edição do ENEM, neste novo modelo. Ao buscar atender a solicitação dos reitores das IFES, o ENEM passou a tentar responder a avaliação de conteúdos, habilidades e competências e a ser instrumento de vários tipos diferentes de avaliação. Ao tentar avaliar vários parâmetros, passou a correr o sério risco de não conseguir avaliar nada. Ao utilizar o método do Teste de Resposta ao Item (TRI), para que o teste possa ter uso atemporal, estabeleceu-se um mecanismo de difícil compreensão na sua correção, o que aumenta a insegurança dos jovens sobre o real resultado. Outro aspecto é que, para atender aos quesitos do TRI, as questões são longas, com textos que tornam sua resolução cansativa. Em síntese, a metodologia adotada para o novo modelo do ENEM, a partir de 2009, ao querer atender a expectativa de facilitar o ingresso nas IFES e a pretensão de se transformar num Vestibular Nacional Único no país, se transformou em uma prova cansativa, confusa e com alto poder decisório para a conquista de vagas concorridíssimas no ensino superior brasileiro. Há no ENEM hoje um forte componente explosivo por ter todos esses elementos embutidos.

Como defensora do ENEM como um exame nacional que deve ser mantido e fortalecido e de utilização pelas Instituições de Ensino Superior--publicas e privadas--para acesso aos cursos de nível superior, não posso concordar com sua desconstituição e destruição. Para sua manutenção, é necessário que tenha um foco claro e objetivo e, portanto, ele não pode se transformar no único processo de seleção centralizado e organizado por um órgão executivo de governo. O MEC não pode se transformar numa grande Comissão de Vestibular Nacional. O papel do Ministério da Educação deve ser o de impulsionar, financiar e coordenar, mas jamais o de executar.

As universidades federais têm ampla experiência na execução deste tipo de concurso, que difere completamente dos tradicionais concursos públicos. Foram anos e anos de aprendizagem e de atenção especifica, buscando seu aprimoramento e os cuidados com nossa juventude que o mesmo requer.

Os problemas identificados pelos candidatos na aplicação do ENEM 2010 são variados e, na sua maioria, passiveis de superação desde que o MEC o responda com clareza e rapidez. Neste sentido, a anulação das provas realizadas no sábado e uma nova aplicação na primeira quinzena de janeiro é a saída mais justa e real frente ao sério problema do erro do cartão de resposta. Todas as demais questões levantadas são pequenas e de fácil acerto, mas o erro no cartão e a falta de sincronia da fiscalização em nível nacional induziu ao erro milhares de candidatos e possibilita que alguns menos escrupulosos possam se apresentar como vítimas depois da verificação do gabarito. A injustiça estaria disseminada. A nova aplicação das provas de sábado em nada atrasaria o processo, visto que a leitura do cartão poderá se dar em paralelo a correção das redações possibilitando a manutenção do calendário de inicio das aulas em março de 2011 nas IFES.

Para o futuro, desejamos um repensar do papel do MEC e de atuação mais contundente das universidades federais na aplicação e na execução da seleção de seus alunos. Cada um na sua função constitucional, esse é o caminho.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (36)



terça-feira, 09 de novembro 2010

Sobre a privataria na educação e a mídia brasileira (com um convite à Twitcam)

19:38: Já está rolando a Twitcam ao vivo

Seria bastante tedioso seguir o auê que se armou na mídia brasileira acerca do erro detectado em 2.000 provas do Enem este fim de semana, especialmente tendo só as informações de que dispomos: um erro técnico, assumido pela gráfica, e que atinge 0,06% dos envolvidos no exame nacional. De uma discussão que teria sentido e que valeria a pena ter-- qual a falha que o Inep poderia ter sanado e como evitá-la da próxima vez – passa-se logo a julgamentos peremptórios sobre a ideia em si (que é excelente) ou, pior, o ministério como um todo. “Acéfalo” foi o mínimo que ouvi de gente que deveria ter visão mais matizada das coisas.

Isso ocorreu, lembremos, por falha de impressão em provas que afetaram zero vírgula zero seis por cento dos três milhões e meio de estudantes envolvidos num processo nacional, que cria condições para que o país se livre de uma de suas piores máfias, aquela que se encastelou durante décadas ao redor desta nefasta instituição chamada vestibular. Não é à toa que a gritaria é braba. Grana, baby, grana.

É tedioso o debate sobre a significação desse erro em particular quando se perde o quadro geral do ENEM também porque, como educador, seria, para mim, motivo de júbilo ter algum dia uma taxa de 99,04 99,94% de acerto. Aliás, eu a entenderia como um sucesso absoluto. Se, ao final da carreira, eu descobrisse que somente em 0,06% dos casos euj fui, por exemplo, injusto na nota (por desatenção, cansaço, erro de memória ou matemática, interferência involuntária de outra emoção etc.), eu certamente me daria por satisfeito e realizado. Caramba, nem em doutas decisões (pdf) de magistrados encontra-se uma taxa de acerto de 99%, sequer em questões como ortografia ou aplicação das regras de pontuação. Mas, para o Estadão, o erro que atingiu 0,06% dos alunos do ENEM (que podem repetir o processo fazendo exames análogos, óbvio, especialmente sendo, como são, um grupo estatisticamente minúsculo) prova que há uma hecatombe no Ministério da Educação brasileiro. Seria só mais uma grita, se não fosse bem mai$ que i$$o.

Como sempre, claro, há que se precaver contra conclusões apressadas, mas dadas algumas coisas que sabemos, não custa perguntar: estão claramente declarados todos os interesses que incidem sobre os interlocutores acerca desse negócio? Este blog entende que ainda não estão suficientemente explícitos, por exemplo, os laços que ligam certos setores da educação privada do Brasil com certos grupos de mídia e suas respectivas famiglias. Quando digo que não estão “explícitos”, me refiro, claro, a laços encontráveis no Diário Oficial. Nos próprios canais de TV, jornais e revistas desses grupos, evidentemente, não há sequer menção desses laços.

Sabemos que a Editora Abril entrou no negócio (digamos na galinha dos ovos de ouro) do livro didático, tendo ela já acedido—cortesia do tucanato paulista—ao ganso dos ovos de ouro das assinaturas sem licitação, bagatelas de oitenta milhões de reais. Sabe-se também do amplo trânsito que tem no Grupo Folha o conselheiro do oligopólio editorial Santillana, Paulo Renato Costa Souza, ex-ministro da Educação do tucanato e atual secretário de Educação de São Paulo. Sabemos, por exemplo, que em meia dúzia (entre dezenas e dezenas) de canetadas da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de SP—cujas funcionárias às vezes aparecem em programa eleitoral--, a bagatela de nove milhões de reais irrigou os cofres de Globos e Folhas por assinaturas, claro, de licitação inexigível, mais ou menos tão inexigível como a autenticidade da ficha policial falsa de Dilma recebida pela Folha como spam, se é que me faço entender. Também é sabido que a Veja com frequência atua como o “braço armado” do Grupo Abril para aniquilar concorrentes no negócio, em operações já mais que observadas nas matérias da revista sobre o ensino. Para quem quiser se aprofundar nessa documentação, referência ineludível é o livro de Geraldo Sabino Ricardo Filho, A boa escola no discurso da mídia – Um exame das representações sobre educação na revista ‘Veja’ (1995-2001) (Editora Unesp).

Menos documentadas estão outras histórias, como por exemplo o bizarro episódio em que o estado de São Paulo dispensa a famosa inexibilidade (o princípio que rege todas as compras de assinaturas dos grandes grupos de mídia por lá) e realiza uma licitação para a aquisição de DVDs “Novo Telecurso”, tanto para o ensino fundamental como para o médio. Êba! Capitalismo e livre concorrência! Seria para se celebrar mesmo. Especialmente, como veremos, no Jardim Botânico.


Com fulminante rapidez, o edital é publicado em 25/07/99 e o resultado do certame sai em em 11/08/99, com vitória do Grupo Globo-- o que não chega a surpreender, dado o fato de que a Fundação Roberto Marinho, salvo engano deste atleticano blog, é a única entidade que produz qualquer porra chamada “Novo Telecurso”. Evidentemente, os pagamentos com dinheiro público paulista não falharam. R$ 4 milhões depositados em 26 de agosto e mais R$ 9 milhões no dia 29 de agosto.

Mas as diversões proporcionadas por esse curioso caso não param por aí. A Fundação Roberto Marinho licita com exclusividade três editoras, e somente três, para distribuir os materiais do telecurso: duas delas são conhecidas, a Posigraf (da Positivo) e a IBEP Gráfica LTDA (manjadas de quem acompanha as compras da Secretaria da Educação de SP). A terceira é de estatuto deveras nebuloso: Editora Gol LTDA. Será que a existência de tão insólita e desconhecida editora, licitada como uma das três exclusivas distribuidoras do “Novo Telecurso” que faz negócios de dezenas de milhões de dinheiro público não seria de interesse de algum jornalista da mídia brasileira?

Pode ser, mas esperemos sentados. Enquanto isso, continuamos aprendendo com o NaMaria News, de onde saíram os dados para os dois parágrafos anteriores.

Como algumas dessas questões voltaram a me interessar, decidi marcar uma sessão da Twitcam para esta terça-feira, às 19:30, horário de Brasília. Para quem quiser compilar coisinhas sobre esse bilionário negócio, o blog recomenda, além do NaMaria News, os arquivos do Cloacão sobre Paulo Renato e um texto da revista Veja, de 20/11/91 (encontrável lá nos arquivos), intitulado “A Máquina que Cospe Crianças”-- e mais o que a diligência de vocês desenterrar, é claro. Há verdadeiras pérolas sobre este assunto escondidas por aí.

Entrando a Twitcam, eu aviso aqui no blog. De qualquer forma, o link estará no meu Twitter às 19:30.


PS: Antes disso, e bem a propósito, começa, com transmissão ao vivo pela net, o Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, promovido pelo governo federal e dedicado, entre outras coisas, a examinar experiências de regulação no setor de comunicações eletrônicas em países como Argentina, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal e Reino Unido. Acontece ao longo do dia de hoje, terça-feira, e amanhã.



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (82)



segunda-feira, 08 de novembro 2010

Só a justiça pode trazer paz para esta região de trevas, por Robert Fisk

O Biscoito oferece, em português, a última coluna de Robert Fisk para o Independent, texto contundente escrito a partir do recente massacre de cristãos em Bagdá. A casa agradece Paula Marcondes e Marcos Veríssimo pela tradução, à qual eu fiz um ou outro retoque estilístico: trabalho a seis mãos, portanto (com méritos maiores de Paula e Marcos), para circular em nossa língua um texto que merece ser lido. Com a palavra, a clareza moral e bem informada de Robert Fisk.

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A velocidade com a qual os povos do Oriente Médio se assustam com o massacre da Al-Qaeda à igreja de Bagdá é um sinal de como é frágil o terreno em que eles pisam.

Ao contrário dos nossos noticiários da televisão ocidental, a Al-Jazeera e a Arábia mostram todo o horror de tamanha carnificina. Braços, pernas e torsos decapitados não deixam dúvidas sobre o que significam. Todo cristão na região entendeu o que esse ataque significou. Sem dúvidas, dada a natureza sectária das agressões aos xiitas iraquianos, eu estou começando a me perguntar se a Al-Qaeda em si--longe de ser o centro/ a essência/ a fonte do "terror mundial", como imaginamos--pode ser uma das organizações mais sectárias já inventadas. Não há, suspeito eu, apenas uma Al-Qaeda, mas várias, alimentando-se das injustiças da região, uma transfusão de sangue que o Ocidente (e estou incluindo aqui os israelenses) injeta em seu corpo.

fisk-1.jpgNa verdade, eu me pergunto se os nossos governos não precisam desse terror--para nos assustar, assustar muito, para nos fazer obedecer, para trazer mais segurança às nossas vidinhas. E eu me pergunto se esses mesmos governos irão algum dia acordar para o fato de que nossas ações no Oriente Médio estão colocando em risco a nossa segurança. O Lord Blair de Isfahan sempre negou isso--até mesmo quando o homem bomba de 07/07 explicou cuidadosamente em seu vídeo póstumo que o Iraque era uma das razões pela qual ele cometeu o massacre em Londres--e Bush sempre negou, e Sarkozy vai negar se a Al-Qaeda cumprir sua mais recente ameaça de atacar a França.

Agora, para a Al-Qaeda, "todos os cristãos" do Oriente Médio devem ser alvos também, dispersando essas ameaças como minas espalhadas pela região. Cerca de dois milhões de pessoas da comunidade cristã do Egito terão que ser protegidas durante as duas semanas do festival religioso Luxor, rodeadas por centenas de seguranças da polícia estatal, após a reivindicação da Al-Qaeda de que duas mulheres muçulmanas estão sendo mantidas contra a sua vontade pela Igreja Copta. É meramente incidental que isso possa ter se originado na decisão dessas mulheres de se divorciarem de seus maridos--e portanto pela conversão para pôr fim a seus casamentos, já que a Igreja no Egito não permite o divórcio.

Agora a contaminação se espalhou para o Líbano, onde as tensões entre xiitas e sunitas se intensificaram por causa da exigência do Hezbollah de que se rejeitem as acusações do tribunal da ONU sobre o assassinato do antigo primeiro-ministro Rafiq Hariri. O que poderia ter passado por um ato de vandalismo em qualquer outra época - a profanação de um túmulo cristão - agora tem declarações de amor passional e fraternal feitas por todos os clérigos do país para que não se sugira que os muçulmanos foram os responsáveis. Em Jiye, uma agradável cidade costeira ao sul de Beirute, alguém arrombou as cinco portas da abóbada da Igreja de São Jorge e tirou o corpo de George Philip al-Kazzi--morto por velhice no dia 23 de Julho de 2002--de dentro do túmulo, deixando-o com o crânio esmagado. Esse foi o terceiro ataque desta natureza na cidade em 10 anos.

O Padre Salim Namour, do monastério Saint Charbel - cujo nome vem do padre maronita morto há muito tempo e sobre quem se acredita que chora uma vez por ano - afirmou que sua cidade era um modelo de coexistência e fez um pronunciamento que poderia ser parte de orações em quaisquer igrejas e mesquitas do Oriente Médio. "Não podemos pensar desta maneira", disse ele. "Enterramos os mortos de nossos camaradas muçulmanos e eles enterram os nossos." O vice-presidente do Alto Conselho Islâmico Xiita, Xeique Abdel-Amir Qabalan, chamou o massacre  de "bárbaro", um ato que "não tem nenhuma relação com qualquer religião ou humanidade e que não pode ser aceito logicamente." Os bispos maronitas libaneses depois condenaram o bombardeio a Bagdá como um "ato criminoso inútil". 

O Ocidente é impotente para ajudar esses cristãos com medo. As ações de políticos "baseados na fé"--na fé cristã, obviamente--causou uma nova tragédia cristã no Oriente Médio. (O fato de eu ter conhecido recentemente vários americanos na Califórnia que achavam que o cristianismo era uma religião "ocidental", em vez de oriental, provavelmente diz mais sobre os Estados Unidos que sobre o cristianismo.) 

Ninguém em sã consciência acharia que a al-Qaeda dispenderia suas energias em um ato tão mesquinho - apesar de revoltante - no Líbano. Mas a al-Qaeda existe no Líbano. Temos a palavra do presidente Bashar al-Assad sobre o assunto. De fato, é interessante escutar o que Assad disse sobre o tema na semana passada - uma vez que suas relações com o Hezbollah e o Irã xiita não o tornam mais amigável ao grupo de bin Laden. Em uma entrevista ao jornal Al-Hayat, ele disse: "Falamos sobre a al-Qaeda como se ela existisse como uma organização unificada e bem estruturada. Isso não é verdade. Ela age mais como uma corrente de pensamento que chama a si própria de al-Qaeda. Essa organização é o resultado (de uma situação), e não uma causa. É o resultado do caos, de um desenvolvimento fraco. É o resultado de erros e de uma certa direção política." Dizer que essa organização "existe em todos os lugares, tanto na Síria como em todos os países Árabes e islâmicos, não quer dizer que ela seja amplamente disseminada ou mesmo popular". 

Ainda assim, Assad não pode absolver seu próprio regime ou os regimes dos estados árabes cujas leis de segurança proíbem quaisquer reuniões políticas - além daquelas aprovadas por oficiais do governo - e portanto há muito tempo forçam os muçulmanos a discutir política na única instituição que visitam regularmente: a mesquita. Por certo, a maior ironia nesta semana foi ouvir nossos senhores e mestres louvando a presteza do regime Wahhabi, na Arábia Saudita, por alertar ao Ocidente sobre os pacotes-bomba nos aviões, quando foi essa mesma Arábia Saudita que acalentou Osama bin Laden e seus comparsas por muitos anos. 

Porque os ditadores do Oriente Médio também gostam de assustar suas populações. A elite dominante do Egito tem nojo dos seus pobres, mas quer ter certeza de que não haverá revoluções islâmicas no Cairo. E o Ocidente quer assegurar-se de que não haverá revoluções islâmicas nem no Cairo, nem na Líbia, nem na Argélia, nem na Síria, nem na Arábia Saudita. (Completem a lista.) O problema mais premente é que a al-Qaeda está tentando minar esses regimes, assim como tenta minar o Ocidente. Desta maneira, colocam o próprio Iraque no mesmo saco - é de certa forma irrelevante que o Iraque seja uma democracia, já que não há governo e eles estão ocupados demais executando seus velhos inimigos baathistas para proteger seu próprio povo -, juntamente com os cristãos e os xiitas do país. E continuamos a lançar mísseis não-tripulados no Paquistão, a bombardear inocentes no Afeganistão, a tolerar os regimes torturadores do mundo árabe e a permitir que Israel roube mais terras dos palestinos. Receio que será a mesma história de sempre: é a justiça que trará a paz, e não guerras de inteligência contra o "terror mundial". Mas nossos líderes se recusam a admitir isso.



  Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 07 de novembro 2010

Links de domingo

Aí vai uma seleção do que me saltou aos olhos nas leituras de fim de semana na internet:

O Pedro Alexandre Sanches fez uma lista sensacional de troféus desta eleição. Meus destaques são o de melhor eleitora, o Troféu Marisa Letícia, para Maria Rita Kehl, e o de pior eleitora, Troféu Weslian Roriz, para Monica Serra. O troféu de ativista virtual mais bem humorado ficou com José de Abreu e a de mais mal humorada com Soninha. Na distinção entre as duas trilhas sonoras há um bom contraste também.

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Poderíamos acrescentar aí, já sem relação a não ser oblíqua com as eleições, o Troféu Justiça Poética e conferi-lo ao Jabuti 2010, que premiou nossa maior psicanalista, uma pensadora de centralidade e importância indiscutíveis na cultura brasileira: Maria Rita Kehl e seu O Tempo e o Cão. Autora que já poderia ter sido premiada com Deslocamentos do Feminino ou A Fratria Órfã, ela chega à consagração como uma das maiores ensaístas da língua com a crônica da sua entrada no tratamento de depressões, depois de mais de duas décadas de trabalho analítico freudiano. Além da entrevista com o Valor, sugiro também, de Kehl, o relato sobre a experiência com o MST. Leio a obra mais recente e premiada de Kehl em exemplar gentilmente emprestado pelo meu chapa Tiago Mesquita. Além do próprio livro, recomendo a resenha de Danieli Machado Bezerra para a Revista Teoria e Debate.

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Vai voltar uma revista chilena que foi efêmera, mas que marcou um momento importante dos debates culturais do país. O primeiro número da segunda dentição de Extremoccidente sai em breve. Já publicamente pendurado no meu Google Docs, ainda com frases em diversas cores, está o rascunho da carta de reapresentação assinada por mim, Federico Galende (argentino em Santiago) e intelectuais chilenos como Pablo Oyarzún, Nelly Richard e Willy Thayer. O primeiro número trará artigo meu sobre a eleição de Dilma, uma versão castelhana do texto que sai na próxima Fórum.

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Também pendurado no meu Google Docs, para download público, há um texto assombroso. Meu amigo Eduardo Cadava (competentemente traduzido ao espanhol por Mariela Pacchioli) escreveu, para a revista mexicana Acta Poética, uma análise das relações de Marx com a literatura com elegância e pertinência raramente conseguidas. Porque Cadava entendeu que a chave não é, nem nunca foi, como fazer leituras “marxistas” da literatura ou, em outras palavras, comprovar o marxismo como método transformando os textos literários em cobaias. Mais interessante e curioso é ler no próprio texto de Marx um tecido de referências à literatura (e à literatura chamada “moderna” em particular, que se inicia, digamos, com o Dom Quixote) como dispositivo de separação entre a ficção (alucinação, delírio, fantasia, distorção, ideologia) e a chamada realidade. Esta distinção não é nunca, claro, tão simples como pareceria à primeira vista a partir da oposição entre Quixote e Sancho—dado que fica mais manifesto ainda no segundo volume da obra de Cervantes, em que o cavaleiro aparece lendo sua própria história. Em todo caso, baixe este pdf se tiver fôlego para a leitura de um estudo acadêmico da mais alta sofisticação.

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Várias listas de erros de José Serra pipocaram pela internet nas últimas semanas, mas esta me pareceu a mais completa.


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Consciente ou inconscientemente, o Deputado Rodriguinho Maia (DEM), está traficando patacoada. Ao contrário do que ele afirma, a não formalização do pedido de impeachment de Lula em 2005 não foi iniciativa de FHC coisa nenhuma. Isso foi decidido em reunião entre Jorge Bornhausen e Irineu Marinho, depois que o catarinense passou pelo crivo global as hipóteses de José Alencar e Severino Cavalcanti como os próximos na linha sucessória. Consulte o barriga-verde, Rodriguim.

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Não deixe de ler a defesa do pessoal da Falha contra a patética ofensiva judicial da Folha de São Paulo, que quer reclamar de roubo de marca num claro caso utilização paródica. A Folha, que adora apontar para os EUA como modelo de democracia, deveria consultar a robusta jurisprudência estadunidense que define, para esse tipo de caso, duas alternativas: 1) gargalhada do juiz na cara da parte querelante, nem indo a matéria a tribunal; 2) Indo o caso ao tribunal, gargalhada coletiva deste nas fuças do querelante, que pode até tomar processo por demanda frívola. Hipócritas defensores da "liberdade de imprensa", esses da Barão de Limeira.

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Mas está sem dúvida excelente a entrevista da Folha com João Santana, o marqueteiro de Dilma e Lula nas últimas duas eleições. Está tudo dito lá.

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Ótima iniciativa de Raul Pont no Rio Grande: Retomada do controle pleno da Refinaria Alberto Pasqualini.

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Na Carta Maior, há uma alvissareira notícia acerca de recente reunião das centrais sindicais latino-americanas para criar uma rede de informação continental e encaminhar a luta pela democratização da mídia.

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Saiu o número mais recente da ótima Revista UFG, onde já tive o prazer e a honra de publicar. O número é um dossiê art déco, mas o destaque é a entrevista (pdf) com Antonio Nóbrega.

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No blog de Luiz Nassif, o Thomaz Braga fez uma ótima defesa do financiamento público de campanha.

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No Outras Palavras, Antonio Martins tece interessantes observações sobre o ineditismo da dobradinha que se arma entre Lula e Dilma na política brasileira.

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Terceira diáspora: o porto da Bahia e Terceira diáspora: culturas negras no mundo atlântico são os dois novos livros de minha amiga Goli Guerreiro, autora de A Trama dos Tambores. Os dois novos volumes são publicações da Editora Corrupio, se originaram no blog Terceira Diápora e agora recebem resenha de Hermano Vianna.

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E finalmente, da série "Tirem as crianças da sala", um vídeo do YouTube: Corno peruano filma a mulher com o padre. Ela depois se diz vítima de acosso, o padre some, do corno não se sabe. Santa Igreja Católica Véia de Guerra.

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Bom domingo a todos.



  Escrito por Idelber às 06:28 | link para este post | Comentários (7)



sábado, 06 de novembro 2010

Orquestra Contemporânea de Olinda e a música pernambucana como realização antropofágica

50236_133745751391_1667_n.jpgJá há duas décadas, Pernambuco tem sido o mais fértil caldeirão de hibridismos musicais do Brasil. Não se trata de que você não pudesse perfilar argumentos fundamentando a riqueza sonora de várias outras comarcas, do Rio ao Pará, passando por Bahia, Minas e Maranhão. Mas tem sido em Pernambuco, acredito, que a combinação feliz entre ritmos, melodias e instrumentações de gêneros distintos, de origens sociais, regionais e étnicas diferentes, tem se dado com mais frequência e acerto. Há uma impressionante artéria de comunicação entre o local e o global no polo Recife/Olinda, estendendo-se para dentro do estado sem perder a densidade. Desde o Mangue Beat (que eu prefiro entender como uma constelação de cenas, e não como um “movimento”), passando pelo notável renascimento do maracatu entre músicos mais jovens ou pelo diálogo frevo-jazz ou pelas várias releituras recentes do forró, Pernambuco tem dado uma aula de antropofagia oswaldiana, mostrando que a base musical da cultura brasileira é tão forte que nada tem a temer ante a deglutição de quaisquer sons de outras latitudes. Todos os outros sons lhes servem, nada do que é humano lhes é estranho.

Neste baú de profundidade aparentemente infinita, um lugar de destaque cabe à Orquestra Contemporânea de Olinda.

Idealizada pelo percussionista Gilú, a Orquestra reúne duas grandes turmas: a banda que vinha de experimentos como o Bonsucesso Samba Clube e Orchestra Santa Massa, e o conjunto do Grêmio Musical Henrique Dias, que é a primeira escola profissionalizante de frevo de Olinda, fundada em 1954. Da primeiro grupo, saíram Tiné (vocais e efeitos), Maciel Salú (filho do grande Mestre Salustiano, vocais e rabeca), Hugo Gila (Baixo), Rapha B (Bateria) e Juliano Holanda (guitarra). Comandada pelo Maestro Ivan do Espírito Santo (flauta, sax alto, barítono e tenor), a turma do Grêmio incluía também os metais de José Roque (trompete), Ibraim Genuíno (trombone) e Alex Santana (Tuba). A base é um encontrão entre o frevo e o jazz (e o funk), mas a Orquestra Contemporânea de Olinda também tem um pé na eletrificação suingada do samba realizada por Jorge Ben no começo da década de 60, como é audível em “Ladeira”:



(clique aqui para ver o clipe de “Ladeira”).


Pois bem, onde, no Brasil, um grupo oriundo da primeira escola profissionalizante de um ritmo regional poderia se encontrar, se unir, ombro a ombro, com a garotada das guitarras e baixos que fazia/ escutava rock e funk? A resposta correta é em qualquer lugar, evidentemente, porque a música brasileira é o nome da nossa inscrição na eternidade: com ela, o impensável pode acontecer, sempre, no lugar em que menos se espera. Mas em Pernambuco sucede algo desta ordem, da esfera do encontro musical inusitado e feliz, a toda hora, como que a cada esquina, há mais de vinte anos. É inacreditável.

Todo um estudo poderia ser feito das mil e uma reapropriações da rabeca na música jovem pernambucana. A exemplo de outras bandas das últimas décadas, a Orquestra Contemporânea de Olinda integra a rabeca na textura do som, indo bem além da introdução e do ocasional solo. O melhor exemplo é “Balcão da Venda”, que deixo em bela execução ao vivo, no Festival de Inverno de Garanhuns:




Como se sabe, vir a New Orleans e deixar boquiaberto um público acostumado à excelência musical não é para qualquer Zé Ruela. Imagine um forasteiro pandeirista no Rio, contista em Minas Gerais ou chef na cidade de São Paulo. Não é matéria simples. Sem as condições ideais de apresentação (por exemplo, forçados a tocar num auditório pequeno, com um público universitário em poltronas), pode até ser temerário, razão pela qual eu cheguei a ficar apreensivo antes da apresentação da Orquestra em maio último. A minha suspeita durou cerca de dois minutos.

Na primeira canção, o público já estava atônito com a variação rítmica e as sucessivas surpresas melódicas. Ao cabo de dez minutos, já não restava muita gente sentada. Depois de meia dúzia de frevos recheados de sonoridades latinas e afro-atlânticas, o auditório explodia naquele frenesi que, para qualquer expatriado, em fugaz momento que seja, produz o engasgo de orgulho e agradecimento pelo destino de ser cidadão de um lugar onde se faz música assim. A Orquestra Contemporânea de Olinda saiu ovacionada, claro, e papeou com os novos fãs longamente antes de sair para a noite de New Orleans, onde ainda curtiram uma legítima banda de metais nova-orleaniana, essa prima em primeiro grau das orquestras de frevo. Deixaram saudades por aqui Gilú, Maciel Salú e cia.

Você encontra a Orquestra Contemporânea de Olinda no MySpace, no Facebook e no Twitter. Se está em Natal, se ligue: eles tocam aí hoje à noite. No próximo dia 12, eles voltam a se exibir em casa, na Fliporto de Olinda. Não há como recomendar um show com mais ênfase que aquela que este blog reserva para o estrondo sonoro que é a apresentação ao vivo da Orquestra. Não morra sem ver.

PS: Ao longo destes anos de (mini)pesquisa sobre a música de Pernambuco, muitas pessoas de lá me ajudaram. Mas a Ana Garcia, do lendário projeto multimídia Coquetel Molotov, merece um agradecimento especial, pela orientação e generosidade em Recife.



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 04 de novembro 2010

Lançamento brasileiro de Em Estado de Memória, de Tununa Mercado

Talvez algum dos leitores antigos do blog se lembre deste livro, posto que ele já foi listado aqui entre os quinze maiores do meu panteão pessoal argentino: Em Estado de Memória (1990), da cordobesa Tununa Mercado, publicado originalmente em 1990, já traduzido ao inglês, chega finalmente às mãos do leitor brasileiro, em tradução minha para a Editora Record. Não sei quando é o lançamento, mas a notícia é que a obra já está indo para a prensa.Vale ficar de olho, pois se trata de uma das narrativas mais inquietantes a ter saído da recente experiência das ditaduras latino-americanas. Como aperitivo, ofereço, então, o texto que acabo de escrever para a orelha do livro e, mais abaixo, um capítulo inédito. Primeiro, a arte da capa para a edição brasileira:

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Em Estado de Memória, de Tununa Mercado, é um dos textos mais sofisticados de toda a memorialística da América Latina pós-ditatorial. No momento de sua publicação (1990), a autora já havia vencido o importante Casa de las Américas, com Celebrar a mulher como uma páscoa (1967), e publicado o volume de contos eróticos Cânone de alcova (1988). Entre uma publicação e outra, Tununa passou pela emblemática experiência do exílio argentino no México, ponto de partida de Em Estado de Memória.

Tudo neste texto é singular: a voz narrativa não é exatamente testemunhal nem ficcional; os personagens que o habitam não são, a grande maioria, nem puras vítimas nem meros verdugos; sua visão da derrota da esquerda na Argentina não é nem arrependida nem nostálgica. Em estado de memória é um petardo, ao mesmo tempo engajado e crítico do engajamento. Não surpreende, então, o fato de que quatro de seus grandes intertextos sejam a Fenomenologia de espírito, de Hegel (com sua insistência no arrastar-se das coisas na desolação como fundamento de todo devir), a psicanálise (com seu implacável desnudamento da ficção de soberania do sujeito), a história e a cultura mexicanas (com sua singular, trágica identificação com os povos ameríndios derrotados) e a vida e a obra de León Trótski (de tantos laços com a própria história mexicana e com o legado da derrota política no século XX).

O texto de Tununa realiza um percurso fragmentado, não linear entre sua saída para o México e a volta à Argentina, mais de uma década depois. Ao se concluir a leitura, muito pouca coisa resta em pé da mitologia dos períodos ditatoriais, seja dos mitos propagados pelos ditadores, seja daqueles que floreceram entre as forças que resistiam a eles.


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Capítulo inédito:


Corpo de pobre

Todos os domingos, voltando à cidade do México, em geral de um fim de semana na casa de amigos, eu escrevia sem escrevê-lo o primeiro parágrafo de um longo texto que sempre senti como um desencadeamento, mas logo a cadeia se enredava ou simplesmente ficava truncada. A frase inicial, isso sim, brotava quase de imediato, uma vez que o automóvel havia percorrido os primeiros quilômetros e nos afastávamos da zona dos vulcões. A imagem que me ocorria era: a marcha vai deixando para trás, em dobras regulares e num ritmo implacável, um trajeto que se parece ao da memória, feito de postas, relevos, súbitos escurecimentos sob arvoredos copados, pontos cegos no horizonte, enormes poços de sombra, tênues resplendores que parecem dissipar a noite em semente e dotá-la de luz. Para trás, à medida que avançamos, vai ficando, assim o imaginava, uma gigantesca vela preenchida pelo vento (e crivada pelo tempo), um telão pelo qual as partículas se insinuam até desaparecer muito longe e muito às nossas costas.

Mercado_big.JPG Essas partículas, deu-me por imaginar, eram mortos que entravam pelos meus olhos e saíam pela minha nuca, amontoados nas rajadas da memória, suspensos pelo caminho até que a grande vela os remontasse ao passar. Nenhum, em particular, se projetava, nem fazia esforço para instalar-se em mim de maneira predominante; estavam lá à espera de uma espécie de seleção de minha consciência, como se apenas pretendessem ter uma legitimidade nessa primeira página que eu escrevia, no assento traseiro de um carro. E o que é mais estranho ainda nessas figuras suspensas a meu alcance é que não desfraldavam suas histórias grandiloquentes, mas deixavam sentir, em sua pura singularidade, as posturas, as palavras e os atos menores que haviam tido alguma significação para mim, os gestos mais representativos, por assim dizer, que os uniam a mim.

O cemitério era vastíssimo e lá havia todo tipo de mortes e de mortos; minha seleção se produzia por turnos, e no tempo em que eu retinha algum ou alguma, isolava-se, numa síntese prodigiosa, a peculiar qualidade com que cada uma dessas presenças ocupava um lugar na minha vida: uma mão que retém a minha, uma energia solta por um corpo que me abraça, um sopro que embaça, emocionado, meu espelho. E, para trás, a vida me aparecia, nesse tipo de imagens, perfurada por milhares de grandes e pequenas perdas, e tudo escapava pelas fendas dessa grande vela inchada.

Na lembrança do outro não se resgata sua pessoa completa, mas simples e aparentemente efêmeras modalidades que, em algum instante, também fútil na aparência, se manifestaram; eu diria que estou fixada a esses mortos por esses detalhes, e com anterioridade eu o estava da mesma maneira quando eles viviam: pelo exercício de uma mania, pela expressão de um empenho no marco da vida doméstica.

O ponto no qual Mario Usabiaga se fixou indelével em mim foi um meio-dia do ano de 1981 quando, com impaciência, me deu uma bronca porque deslizei, nem mesmo arrastei, uns centímetros, o bife que eu fazia sobre a chapa, e mais uma bronca me deu nessa mesma ocasião quando pus o sal na carne antes de virá-la; ele me explicou que havia impedido que ela se selasse, com o primeiro movimento irresponsável de arrastá-la sobre a chapa e que, ao colocar-lhe sal quando a virei, havia feito com que se perdesse todo seu suco. A partir desse momento fiquei ligada a ele: cada vez que eu punha um bife para assar, suas duas normas ressoavam e ressoam em mim como se eu o estivesse ouvindo, e o reflexo continuou reiterando-se com mais força ainda depois que ele morreu, e sobretudo porque está morto. Não sei se com este arbítrio de voltar ao ponto de referência admonitório que me ata a ele vou encontrar consolo, mas uma coisa é certa, ele não vai embora de mim, e no dia em que suas palavras deixem de ressoar em todos os meio-dias semelhantes àquele em que junto a mim ele fixou suas leis, eu o terei traído na memória e, consequentemente, terei me deixado ganhar pela insignificância.

Os pontos de inflexão dessa vida e as marcas que deixaram em minha lembrança se sucedem a partir de 1970. A primeira cena é em Bahía Branca; ele estava fazendo um churrasco. Estão sua mulher e seus filhos, estamos nós também. Não percebo então que ele não mexe a carne de jeito nenhum, não lhe finca o espeto, nem tampouco a salga quando a vira, e sim só no final. No meio da reunião chega, sem avisar, Alberto Burnichón, editor itinerante e vital, ser único, que leva de cidade em cidade, por todo o país, as plaquetas de poesia que ele mesmo imprime com cuidado artesanal; ele, espécie de pai de poetas, foi morto, depois de sequestrado, pelos militares em 1976. Mario recebe-o como um embaixador e sabe despertar nele toda sua sagacidade e senso de humor. Em outra cena, meses depois, Mario dança com Diana Galak depois de um jantar em minha casa; alguém coloca música e eles se levantam como se estivessem num salão, tomam-se nos braços e mexem-se com suavidade, sem reparar as testemunhas nem o espaço que os limita, entre cadeiras, a uma superfície de quatro azulejos. Ele se separou de sua mulher e dança com esta garota jovem, distante de nós, convencida de possuí-lo.

Outros gestos seus: tirava a mecha de cabelo liso que lhe caía sobre a testa para inclinar-se sobre sua máquina de escrever durante as intermináveis jornadas nas quais traduzia do inglês um livro de mais de mil páginas. Diana, a garota que dançava, quase morria no quarto ao lado. E não se pode dizer mais do que isso do transcurso dessa grande tragédia na qual esta vida se viu envolvida: abandono, cárcere, abandono, reencontro, morte final. Procurei uma carta sua, a duras penas, na noite passada, procurei-a como se nela fossem embora a minha vida e a dele; me levantei no meio da noite a revirar pastas, mas ela não estava e pensei, devo tê-la separado numa especial que embalei e que levava um rótulo de identificação, RECORDATóRIO, porque contém os vestígios dos amigos mortos. Enquanto procurava, recuperei, como se eu mesma o esculpisse, um gesto de Mario Usabiaga do qual eu me negava a tornar-me consciente porque me machucava, e que consistia em reprimir, como num endurecimento corporal, como se enfrentasse alguma coisa insuportável, a violência que alguns de meus relatos verbais--ou minha maneira de relatar--lhe provocava. Vê-se que ele não aguentava que eu não encadeasse minhas ideias como ele queria, e uma vez mais me queima a sensação de não ter seguido suas leis, e a ferida se reabre quando procuro essa carta na qual, estou convencida, desapareceu qualquer recusa dele a mim, e sua letra é solta, distendida, quando diz que tem saudades de mim, e é lacerante quando descreve seus primeiros meses de regresso à Argentina, que seriam os últimos de sua vida.

Uma vida na qual cada segmento está referido ao que alguém disse, fez ou assinalou, ao mandamento de outro surgido no instante em que se exerce uma ação sobre a realidade, uma vida assim se converte em algo religioso: invoca-se, cita-se, liga-se ou alude-se; você vai se transportando com todo mundo nas costas, e se não é Mario Usabiaga o que aparece em espírito, será outro o que se encarregue de fazê-lo, com uma estipulação semelhante: não se deve jogar os ovos na frigideira com o óleo frio, isso jamais; eu gosto das torradas menos “cruas”; o chá não deve ser guardado com as folhas porque se torna tóxico, e o mesmo acontece com o mate cozido; os ovos mornos devem ser furados para que não se quebrem com a água da fervura; e a pessoa ausente, alma ou não, que alguma vez me fez essas indicações, sem ter se proposto a isso, me absorve num sistema fechado; cola-me à realidade, me amarra com unhas e dentes às suas pequenas saliências, me condena a ela sem remissão.

Teria me custado muito explicar a esse hipotético analista, que me cobriria por trás com suas asas, o modo em que essas indicações de índole prática me costuravam à realidade, apoderando-se de mim e gravitando sobre minha autonomia psíquica, na medida em que sempre eram uma correção, um endireitamento. Eu mesma haveria de exercer sobre os outros ou, pelo menos, sobre as torpezas dos outros, incluídos os meus, uma espécie de controle que tenderia a se tornar maníaco. Essas obsessões perfeccionistas, que me impressionavam em outras pessoas, durante uma época chegaram a ser próprias a mim, como se eu admitisse que, ao ter aceitado as correções que os outros me marcavam, eu mesma me munisse de um estatuto e de uma normativa para aplicar, por minha vez, sobre os demais.

Nesse período era intolerável para mim, e ainda de vez em quando se reitera esse sentimento como se se tratasse de um reflexo condicionado, que não se tivesse um cuidado extremo ao cozinhar o arroz, que houvesse gente que, por improvisação ou inépcia, transformasse um arroz em purê; que não tivesse alcançado o estágio de cultura que permite, digamos, não abstrair o conceito, mas pelo menos a estética de grãos soltos e ligeiros; eu me erigia então num verdadeiro soldado do cozimento do arroz, de massas, ou de umas batatas, e me esforçava para fazer entender que o cozimento não cessa no momento em que se apaga o fogo, mas que persiste sobre os alimentos, e que de nada valia concluir que um arroz já estava no ponto se não se tomava a precaução de deter o processo uns minutos antes dessa certeza, prevendo a margem necessária para não chegar à condição de purê.

O ponto do arroz, o ponto da carne, os pontos a que se pretende chegar e que, se ultrapassados, rompem o equilíbrio do universo, eram os pontos de minha obsessão. E eu devo ter tido sobre quem infringia a harmonia desses tempos uma atitude corretiva e impaciente. Esse corpo de análise, a obsessão ante a minúcia, por sua repetição, poderia ter sido tomada como um sintoma de uma censura a que eu me impunha e que só aparecia exercida frente aos outros e por causa dos outros, reservando-se um efeito muito mais daninho sobre a minha pessoa. Ali havia um material de grande volume e consistência para observar, uma massa que amalgamava diversas manias e não menos diversas fobias, cuja característica era apresentar-se em partes e contra-partes, numa dialética difícil de desbaratar.

Se os “pontos” eram algo assim como o fechamento de uma forma, de certo modo uma “completude” transgredida uma e outra vez pelos outros que se obstinavam em ultrapassá-la, se as pessoas violentavam os estados justos da matéria, podia ver-se claramente que ali minha obsessão era consertar o que sobra, o que transborda e que, ao ignorar um limite, arruína o alimento ou põe a perder o estado ideal de um processo, sem deixar a possibilidade de uma retificação: o que passou já não pode ser devolvido à sua condição primigênia. Não culminar, então, deixar pela metade, dar às coisas a margem de amadurecimento, incidir só nas etapas iniciais da evolução de um elemento e depois deixá-lo abandonado à própria inércia, eram as leis dessa obsessão que preenchia todas minhas intenções e definia todos meus desejos.


Mas havia outra obsessão dentro do mesmo corpo de análise, correlativa à anterior, que era desencadeada pela falta. A impossibilidade de encher até o topo vinha acompanhada de uma sensação de carência, de despojamento e de desnudez, e digo os três termos numa seguidilha porque acredito que se cobrem um ao outro. Ninguém, em nenhuma das terapias enganosas nas quais eu me vi metida, me deu uma explicação acerca de minhas relações ambíguas com a roupa, provavelmente o objeto no qual com mais crueza encarnam-se os termos da carência, do despojamento e da desnudez. A desnudez própria dos pesadelos era para mim uma circunstância natural da vigília. Não é exagerado afirmar que, de maneira permanente, eu me encontro em condição de indigência vestimentária, não tenho o que vestir é o enunciado certeiro que fala desse estado. E estar assim, haver chegado até lá, é alguma coisa limite, mais além está o abismo.

Eu me vejo remexendo tudo nos guarda-roupas; menina, jovem, adulta, sempre procurei o que vestir em guarda-roupas empanturrados ou vazios, dá na mesma, porque as emboscadas que este ato de revirar a roupa me estendeu são independentes de os guarda-roupas estarem cheios ou vazios. Essas grutas que me sugam depois me soltaram sempre despida, desemparelhada, incompleta, desavinda; nem acordada nem dormindo jamais se cumpriu para mim o sonho de uma forma fechada que me inclua, em uma palavra, um vestido que cubra minha desnudez e que me devolva uma imagem “completa” na lua do espelho. Os guarda-roupas têm sido ingratos comigo ao longo de toda minha vida e agora ainda, quando estou a caminho do meio século, afasto-me por precaução dessas bocas e as fecho antes de dormir.

Quanto à roupa, eu não pude me subtrair, como qualquer mortal, à necessidade de vestir-me, mas nunca pude cobri-la por meus próprios meios. Com ardis eu consegui que os meus, em distintas idades, me vestissem. A decisão tem um momento chave quando, sendo muito menina, consigo convencer a uma tia-avó que a partir desse dia vou ficar quieta, como se fosse feita de massa, para que ela me vista.

Não se veja nessa paralisia uma solução cômoda; o jogo não demorou muito para se converter num mal, cuja manifestação mais angustiosa é a dependência física e cujo sintoma aparece mais agudo quando me coloco na situação de cobrir a necessidade, quando vou comprar roupa. O terror começa a se insinuar na entrada das lojas, em geral quando se trata de negócios proliferantes e massivos. Pouco a pouco, à medida que a acumulação se desfralda ante meus olhos e dá volta entre minhas mãos, eu começo a perder o sentido. O sentido voa, desaparece entre as dobras da roupa, me abandona, e eu caio chumbada.

Nessas circunstâncias, os espelhos ajudam a desencadear a crise. A luz dos provadores sobre os espelhos, a própria imagem invertida, o modo pelo qual o corpo é coberto por algo estranho a ele e a convicção de que esse elemento alheio se apodera desse corpo e o torna seu nesse recinto falsamente iluminado, todo esse acontecer é, como nos romances de desgraça, um golpe mortal. O que se revela nessa secreta sessão não é só a carência, a desnudez, o despojamento e o detestável recurso de cobrir a necessidade com algo emprestado, concebido em algum lugar para outros, algo que não haverá de cobri-la nem de cobrir-nos. Eu passei por essas situações de perda de sentido muitas vezes e acabei por instigar piedade nos meus e, de uma maneira regular, sem ter inclusive que exigi-lo, minha necessidade tem sido coberta por eles sem a obrigação de entrar em nenhuma loja nem me fechar num cubículo com triplos espelhos.

A roupa me horroriza, as saias vesgueiam, as golas não chegam a tapar o nascimento de cabelo na nuca; nenhuma aba resolve o desabrimento; não há vestido para o talhe desgraçado; nenhum calçado corrige os joanetes ou as pernas arqueadas; nenhum enfeite dá altura, confere graça ou afugenta os maus pesadelos; comprar roupa é um mísero expediente para remendar a vida. Muito poucas vezes em minha história pessoal eu me senti o que poderia chamar gratificada por uma peça de roupa sobre meu corpo, ninguém nunca pôde me convencer de que algo ficava bem sobre meus ombros. Invadida pelo trauma vestimentário, eu nunca quis ouvir elogios, como por exemplo que tudo me ficava bem, que qualquer cor me assentava e que não havia moda que não me caísse à perfeição; desouvindo qualquer apreciação reparatória de meu terror vestimentário, sempre me vi ridícula com as modas, inclusive não produziu consolo ouvir que minhas amigas me diziam, quando me soltavam as peças de roupa que já não usavam, que eu tinha “corpo de pobre”, ou seja, que tudo me ia, caía ou assentava bem, e comprovar essa ductilidade as fazia se sentirem muito generosas e desprendidas, e eu saía de suas casas com meus tesouros, levava-os ao meu guarda-roupa e lá os condenava a estarem pendurados para sempre. às vezes, quando o gosto de minhas benfeitoras coincidia com o meu, eu vestia essa roupa; entregava-me, em definitivo, a essa alienação em carne ou corpo próprio que consiste em vestir a roupa alheia.

Quando recebo de herança ou recordação a roupa de algum amigo ou amiga que acaba de morrer, eu me visto com eles; tenho a sensação de que ando com eles vestidos e até sinto usar suas mortalhas, mas não me dá medo ou apreensão, e sim consolo, como se, numa espécie de ingênua transmigração, eles tivessem se depositado numa manga, numa cinta ou numa valenciana. Vesti durante toda minha segunda gravidez, há mais de vinte anos, uma jaqueta de lã que herdei de uma morta desconhecida, uma italiana a cuja casa, depois de sua morte, uma amiga me levou para que escolhêssemos algumas peças de roupa. Quando chegamos à casa dessa senhora sem parentes, o guarda-roupa estava pletórico, ainda que penumbroso pela circunstância; eu elegi a famosa jaqueta e uma blusa de veludo vinho que tinha no decote, na borda das mangas e das cadeiras, uma franja de flores pintadas a ouro, peça esta que nunca usei e que acabei dando de presente, sem que pudesse explicar por que a havia levado daquele guarda-roupa, se por cobiça, por frivolidade ou por lástima. O certo é que cheguei a sentir-me culpada com essa morta por ter interrompido seu eterno retorno em mim através dessa blusa e, na volta do tempo, vinte e cinco anos depois, ainda me lembro do intenso cheiro de lavanda que exalava sua roupa e seu guarda-roupa, e esse oleado pertinaz é o chamado que a desconhecida me lança.

O mal dessas roupas de mortos é que você não se atreve a jogá-las fora nem dá-las de presente, e elas se eternizam no guarda-roupa. Quando são adotadas, você não imagina o espaço que a roupa desses donos ausentes pode ocupar: ficam penduradas desvalidas nos cabides, tomam a forma do gancho e são marcadas por quedas definitivas; você se aferra a essa vida fria e obscura com a mesma obstinação com que antes se aferrava a outra, talvez mais cálida e luminosa. Tenho ainda num cabide, no último de meu guarda-roupa mexicano, um casaco cinza que, sem sabê-lo, minha amiga Silvia Rudni me deixou ao morrer e me foi dado pelos seus como lembrança; eu o usei muito, era de muito bom gosto vestir Silvia mas, de repente, com o tempo, as pontas da gola se fizeram notar e, ao ver-me com ele, numa mesma unidade corporal no espelho, tive um golpe de auto-compaixão: éramos dos anos sessenta nos oitenta.

As roupas vão caindo por si mesmas, desmoronam pelos seus próprios flancos e rodam, exaustas; como não ocorre com nada ou ninguém em igual medida, são derrotadas pelo tempo. Não são muitos os que percebem o cansaço dos tecidos porque eles se desprendem dos vestidos antes de que comecem a segregá-lo, e é muito raro que um terno consiga aguentar a pressão social que lhe impõe estar fora de moda, e haveria que se ter uma forte ética para acompanhá-lo sem se deixar arrastar por sua queda. Vivi pendente de minhas roupas, das roupas alheias que chegaram a ser minhas, das roupas de amigas e amigos mortos, das roupas que outros me cederam para não condená-las ao desaparecimento ou por dadivosa veleidade, e esse destino, ir com a roupa à saga de sua decadência, ser uma única e mesma coisa com a roupa e, ao mesmo tempo, sentir a cada instante o horror dessa relação é uma das fatalidades cujo sentido teria que desbastar.

Na infância, os meus tentavam me fantasiar para os carnavais e inclusive me obrigavam a fazê-lo quando eu resistia. Fui caracterizada de “neguinha”, com o clássico vestido vermelho com luares brancos, que é também o da “formiguinha viajante”, a pele coberta de betume e várias trancinhas, as que o cabelo desse, arrematadas num coque de fitas vermelhas--porque assim pensam que são as meninas negras, como as formigas--e também de “cigana”, com o lenço na cabeça festoado com uma fileira de medalhas como brincos, bucle junto às orelhas e saia ampla e longa com babados. Quando eu me dava conta de que desaparecia por trás da máscara ou do unguento negro, e que de minha identidade só ficava o brilho das pupilas e o branco dos olhos, eu começava a chorar, provocando comentários acerca de minha pusilanimidade.

Essas fantasias penduram-se em minha memória, mas há uma em particular que balança como a mortalha da mulher da foice, a bruxa ou a “viúva” do carnaval, no salão de festas do Perpétuo Socorro, meu jardim de infância. Eram as festas de primavera e me fantasiavam de borboleta, com um vestido amarelo vaporoso de cambraia, listras café que desenhavam o corpo da borboleta e umas asas de arame cobertas de tule mosqueado que se amarravam atrás. Quando estávamos para entrar em cena e dançar nosso número-- meninas de flores e meninas de borboleta--com as antenas rígidas sujeitas ao penteado e o infalível luar junto à boca, a irmã Serafina tentou prender minhas asas ao vestido com um alfinete de gancho, mas o alfinete deslizou e pegou também, junto com o tecido e o tule, a minha pele. Entrei em cena como atravessada por um punhal, e essa pungente sensação não me abandonou até hoje. Eu nunca disse nada a ninguém sobre esse incidente, só Sor Serafina soube. Desde aquele dia eu nunca quis estar em nenhum palco.



  Escrito por Idelber às 08:32 | link para este post | Comentários (17)



terça-feira, 02 de novembro 2010

A vitória de Dilma e a falsa tese do “país dividido”

Nem bem contada estava a maior parte dos 55.752.529 votos recebidos por Dilma Rousseff e um insidioso meme começava a circular pelos meios de comunicação brasileiros, especialmente pela Rede Globo de Televisão. Parece que não entendiam, ou se recusavam a entender, o momento histórico que vivíamos. Trata-se da cantilena do “país dividido”, reforçada por um enganoso mapa em que o Brasil aparecia separado entre estados azuis e vermelhos. Acompanhado por uma série de bizarras declarações de figuras como W. Waack (“a imprensa criou o mito de Lula e ele se voltou contra ela, ingrato”) ou do inacreditável Merval Pereira (“Dilma deve saber que a oposição teve uma votação muito alta”), o mapa cumpriu o papel de sugerir uma divisão que absolutamente não existe: Dilma venceu com larga margem (12%), que em qualquer democracia presidencialista qualificaria como um sacode-Iaiá. Basta lembrar que na categórica vitória de Obama sobre McCain a diferença foi 52,9% a 45,7%, pouco mais da metade, portanto, da diferença imposta por Dilma a Serra.

Como apontou Alexandre Nodari no seu Twitter, a divisão por estados peca por impor ao Brasil um modelo que é essencialmente estadunidense, baseado no princípio de que o candidato vencedor num determinado estado leva todos os seus votos a um Colégio Eleitoral, numa eleição que é, para todos os efeitos, indireta. No Brasil, como se sabe, o presidente é eleito por sufrágio universal, e nele a ideia de estados “vermelhos” e “azuis” não faz o menor sentido. O mapa do Estadão, colorido por municípios e com várias gradações de azul e vermelho, esse sim, serve a um estudo sério, já iniciado pelo Fabricio Vasselai.

A ideia dos estados azuis e vermelhos faz menos sentido ainda depois de estudado o mapa eleitoral do pleito de 2010. A grande maioria dos estados que aparecem em azul no “país dividido” da TV Globo são unidades da federação em que Serra venceu por mínima diferença: Goiás (50,7%), Rio Grande do Sul (50,9%), Espírito Santo (50,8%), Mato Grosso (51,1%). Não se encontra, na coluna azul, nem rastro de um estado em que a vantagem se compare com a conquistada por Dilma em lugares como Amazonas (80%), Maranhão (79%), Ceará (77%), Pernambuco (75%), Bahia (70%), Piauí (69%) e vários outros. Num país com eleição por sufrágio universal e uma diferença tão acachapante entre os estados “dilmistas” e os “serristas”, só com muita desonestidade intelectual você colore alguns estados de azul e outros de vermelho, sem variação no tom das cores, para apresentar um país “dividido”.

Se a tese do país dividido não tem fundamento, menos ainda o tem a tese do país dividido entre Sul / Sudeste, por um lado, e o Norte / Nordeste, por outro. Não custa lembrar, mas essa divisão grita em desacordo com os fatos: Dilma enfiou goleadas acachapantes em Serra no Rio de Janeiro (60,5% x 39,5%) e Minas Gerais (58,5 x 41,5), além conquistar um empate no Rio Grande do Sul. Não custa lembrar aos jornalistas da Globo: Dilma Rousseff venceu as eleições no Sudeste, caso o fato tenha passado despercebido no Jardim Botânico.

Já na segunda-feira, a mídia brasileira havia conseguido insuflar uma onda divisionista que não demorou em encontrar solo fértil no nosso bom e velho racismo latente. No Twitter, proliferava o discurso do ódio aos nordestinos, desinformado até do básico dado de que Dilma teria ganho eleição mesmo se o Brasil não incluísse o Nordeste. Aludindo de forma desonesta ao “fato” que ela mesma havia ajudado a criar, a Globo relatava que havia um “embate” entre regiões do Brasil nas redes sociais, quando na verdade o único embate se deu entre a sanidade e uma minoria racista e ressentida. Começa mal, muito mal a Vênus Platinada, talvez como consequência do que aconteceu nesta eleição histórica: Dilma venceu o pleito com o debate da Band, desmontou a última armação com um vídeo do SBT e concedeu sua primeira entrevista à Record.

Sinais dos tempos.

PS: Enquanto isso, no Roda-Viva, Augusto Nunes passava por uma das maiores vergonhas da vida.

PS 2: Está ótimo o texto do Alê Porto sobre os próximos passos de Dilma.



  Escrito por Idelber às 06:14 | link para este post | Comentários (113)



segunda-feira, 01 de novembro 2010

Aviso: Twitcam hoje, às 21:30

Aqui vai um aviso aos navegantes: hoje, às 21:30, horário de Brasília, entro de novo via Twitcam. Neste mesmo post colocarei uma atualização com o link, e nesta caixa você pode deixar suas perguntas e comentários também, embora não seja necessário ter Twitter para participar do chat que se arma lá. É só escrever o nome e enviar o comentário. Em todo caso, a gente interage por aqui ou por lá.

Até daqui a pouco, então.

Atualização: Aqui vai o link para a Twitcam, já rolando.



  Escrito por Idelber às 16:30 | link para este post | Comentários (14)




Hora de festa: Análise só depois

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  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (32)