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quinta-feira, 18 de novembro 2010

Clube de Leituras (com Brasiliana): "As Academias de Sião", de Machado de Assis

Esta é uma edição do Clube de Leituras em parceria com o maravilhoso projeto Brasiliana USP Digital, onde recomendamos que leia "As Academias de Sião", de Machado de Assis. A única regra do Clube é a proibição ao pedido de desculpas por não ser especialista em literatura.


machado_de_assis.jpgAlguma tinta já foi gasta para elucubrar sobre se Borges teria ou não conhecido algum texto de Machado de Assis. Nessas matérias, costuma ser impossível ter certeza e, mesmo tendo-a, impossível determinar qual o grau de “influência” de um texto sobre o outro. Tendo sido Borges um sujeito que não escondia seus linques, tenho lá minhas dúvidas mas, em todo caso, é um exercício inútil. Independente disso, “As Academias de Sião” é um conto protoborgeano de Machado, não há dúvidas.

Academias” talvez seja o espécimen mais acabado do flerte de Machado com o fantástico em sentido estrito (Darlan Luna, em trabalho de doutorado para a UFF, conta dezesseis[pdf]). Ao contrário de variantes posteriores, mais presas a fórmulas, como o realismo mágico, no fantástico não há surpresas inverossímeis “maravilhando” o leitor. A suspensão da descrença ocorre de forma imediata, como nos contos de fadas (apesar de que há alusões a lugares “reais”, como Sião, que remete a Jerusalém *). Já na segunda frase de “Academias”, o leitor sabe que a verossimilhança realista está suspensa. É, literalmente, um mundo imaginário, como Tlön Uqbar, Orbis Tertius. Fantástico em estado puro, como teria apreciado Borges, que gostava dos gêneros reduzidos ao seu núcleo essencial.

Em “Academias”, no entanto, o mundo imaginário aparece para compor uma alegoria de algo que só aflora em Borges como denegação, espaço proibido, um não-tema: o gênero e o sexo. Em época de definições “científicas” tão fixas sobre o que eram o masculino e o feminino, Machado, sabiamente, prefere lidar com a caracterização deles em terreno fantástico, fabular: Kalaphangko é rei, homem, mas tem a alma feminina, definida como “olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas” (a alma masculina, por oposição a isso, não se sabe o que seja: o conto não nos diz, a não ser por pistas dadas depois da troca de almas). A guerra entre interpretações—seriam as almas dotadas ou não de masculinidade ou feminilidade, marcadas ou não em gênero, sexuadas ou não, neutras ou não—gera a guerra civil que leva à reorganização baseada na academia de sábios, uma espécie de gestora da Loteria da Babilônia que administra o consenso.

Só a bela Kinnara, mulher em alma masculina, aprova o terror pós-apocalíptico. Definida inicialmente (antes da troca de almas) como búfalo com penas de cisne, ela é o protótipo da mulher feminina fisicamente mas poderosa, viril, “masculina”, dominadora: consegue do rei da declaração de que a tese das almas não-sexuadas é herética, e restabelece-se a paz. Até aí, claro, poder-se-ia dizer que, apesar de almas estarem em corpos “trocados”, Machado trabalha, como aponta a Profa. Marta Cavalcante de Barros em sua tese (pdf, p.54 passim), com definições tradicionais, positivistas do que é o masculino e o feminino (como também notou Milton Ribeiro). Seria assim, claro, se a primeira parte não tivesse sido um componente do plano de Kinnara: a troca de almas.

********

Aqui, partimos para o transexual fantástico: a troca de almas que propõe Kinnara (aceita pelo Rei, por seis meses) é, na verdade, uma destroca, uma volta das almas ao ponto de reintegração com o corpo no qual estão alojadas, no qual sempre deveriam ter estado alojadas, uma reconciliação delas com sua essência, enfim. Lembrando Buoso e a cobra (em Dante), evocando Ovídio e Luceno (e suas metamorfoses), Machado nos conta a primeira providência tomada por Kalaphangko, agora rei com alma masculina, ou seja, a de Kinnara: conceder todas as honrarias à academia sexual. Junto com a centralidade da academia, o rei impõe ajuste fiscal, decapita inadimplentes, pensa em guerra.

O nome de Kinnara alude à amante por excelência nas mitologias budista e hindu, meio humana e meio cavalo (ou pássaro), que jamais procria. O troca-troca entre Kalaphangko e Kinnara, por sua parte, pode ser colocado em diálogo com uma infinidade de figuras andróginas ou transexuais, como Ardhanarishvara, uma das formas de Shiva ou, porque não, Oxumaré, o orixá de todos os ciclos, que é macho e é fêmea, e garante a unidade do mundo.

Mas enquanto nas cosmogonias há o fechamento na redondeza do ciclo (ainda que esse fechamento, pelo menos na cosmogonia yorubá, seja também mil aberturas), em Machado o ciclo se interrompe. A troca tem que acabar em seis meses e Kinnara está grávida, abrindo a enorme, complexa pergunta: o filho de um casal de almas coincidentes com sua essência sexual (homem masculino, mulher feminina) mas depois destrocados para o que era originalmente (homem feminino, mulher masculina) vai gerar exatamente o quê? Qual combinação de “essências” macho e fêmea pode se esperar aqui? Ainda é válido falar de “essências” macho e fêmea? O que seria um filho macho de um pai-ex-feminino-que-voltará-a-ser feminino e uma mãe-ex-masculina-que-voltará-a-ser-masculina?

Como sempre em Machado, o questionamento dos valores dominantes da época não se dá com a proposta de uma ordem alternativa, mas com emergência de uma cena em que todas as ordens parecem, literalmente, a mesma galhofa. Contra a fixidez do essencialismo de gênero, uma proliferação de combinações onde as essências iniciais já não sobrevivem intactas.

O desenlace do conto é conhecido: o rei chama os acadêmicos para resolver a pendenga gerada pela data de validade da troca. Para a estupefação do rei, os acadêmicos só fazem falar mal uns dos outros (só intelectual, nunca moralmente! que sirva de consolo...). Kalaphangko e Kinnara destrocam as almas, o príncipe é “restituído à forma anterior” e uma procissão dos acadêmicos passa, com seu slogan pretensioso, ante a descrença de Kinnara, que não entende como eles podem ser ao mesmo tempo a “claridade do mundo”, como diz seu hino, e uma multidão de camelos, como dizem eles mesmos uns dos outros.

O fechamento é Machado em estado puro, reforçando o caráter fantástico do conto: quem tiver soluções à dúvida de Kinnara, que mande cartas a “nosso cônsul em Xangai, China”.

Como a maioria da contística machadiana, "As Academias de Sião" abre vastas portas, e o dito aqui, e nos textos lincados, é uma pequena fração do que dá para elucubrar a partir desse notável sacolejo num conjunto de ideias recebidas sobre gênero e sexo. Leia lá e me diga o que achou, aqui ou em seu blog.

* Atualização: Além de remeter a Jerusalém, Sião também remete à Tailândia, o que havia me passado batido na releitura da madrugada, tendo me passado despercebida a menção a Bangkok no texto. Agradeço ao leitores que mo apontaram. Creio, no fundo, que é de pouca monta, dado o gênero do conto: a localização aqui não altera a dinâmica fantástica do texto. Mas pode haver controvérsias, inclusive porque ela pode alterar, sim, evidentemente a reverberação simbólica dos elementos do conto.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (38)


Comentários

#1

Nas idas e vindas pelos contos de Machado de Assis passei por cima dessa Academias (...) . Talvez me lembrasse do título, não mais. Sem a pretensão do jargão acadêmico enxergo três grandes forças no texto:

Machado se apropria de outra culturas lhe atribuir um sentido próprio, trazendo à tona o que verdadeiramente o motiva ao contar uma estória. Utiliza a alegorização para atingir o seu fim específico e que não pode ou não deve ser contado de maneira direta. Projeta a história em um cenário longínquo, num jogo de espelhos que confunde o leitor entre o que é irreal e o que é desconhecido. Aqui o conto retoma o método do idolatrado, salve, salve, O Alienista.

A força do enredo: mesmo que cubramos com um diáfano véu a verdadeira idéia por traz do texto, uma forte e bela estória se revela. Experimentei ler o texto em voz alta para minha filha. Nos moldes das Mil e uma noites, revela-se uma estória bonita, boa de se contar e de se ouvir, repleta de nomes curiosos, interpretações mitológicas, etc.

O gênio de Machado se revela ao abordar de maneira tão inteligente e diversa, antecipando discussões científicas que só seriam discutidas anos adiante (como é a questão da alma bissexual). Coitado do Freud. Discutiu a guerra de egos nas Academias sem deixar de revelar a mediocridade que costuma passar por ali. Se U-Tong trata a todos como crápulas ele também não deixa de sê-lo: pobre da alma humana, hipócrita, medíocre, invejosa, falsa e dada à traição. O que realmente pensamos um dos outros? O que dizemos ou o que pensamos, escondidinhos, segredando para nós mesmos?
E eu que quando comecei a leitura achei que se tratava de um conto sobre o homossexualismo. Ah! também é. Mas quem criou Capitu não entrega o recado assim tão facilmente: repete o jogo do mostra-esconde e faz um pacto com o leitor (característica tão cara a Machado), - Vou te contar uma estória sobre um homem-mulher e sobre uma mulher-homem, mas não deixarei de discutir a transformação sofrida pela alma humana seduzida pelo poder.

Um bom dia a todos!

Roberson em novembro 18, 2010 5:56 AM


#2

Acabei de me lembrar desse poema de Drummond:

Elegia do Rei de Sião

Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
O filho que desejava, a Ásia não deu,
e seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que Camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como um europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.

Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.

Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.

Pobre reizinho de Sião.
(Carlos Drummond de Andrade, em Alguma Poesia)

Ana em novembro 18, 2010 7:58 AM


#3

Não achei "Tlön Uqbar, Orbis Tertius" em português para lincar. Talvez alguém com mais destreza nessas coisas internéticas ache =)

Idelber em novembro 18, 2010 8:18 AM


#4

Tem esse link muito pouco ortodoxo: http://lix.in/-8c41c3

Depois escrevo minhas palavras sobre o conto.

Vinícius em novembro 18, 2010 8:33 AM


#5

Idelber, uma dúvida boba: pq vc disse “há alusões a lugares ‘reais’, como Sião, que remete a Jerusalém” e indicou o doutorado da Marta Cavalcanti de Barros, que defende que, pela aproximação do conto com a cultura oriental, ao invés de Jerusalém, Machado, ao falar de Sião, está falando da Tailândia? Acho, mesmo, o Extremo Oriente - e, portanto, a Tailândia - mais provável, já q o conto até termina dizendo que, para falar sobre a dúvida de Kinnara, deve-se enviar uma carta ao cônsul em Xangai, China.

Ulisses Adirt em novembro 18, 2010 11:55 AM


#6

Ulisses, eu acho que eu não saberia mesmo tirar a sua dúvida. "Sião" é o nome dado a Jerusalém na Bíblia, claro. A referência à tese da Profa. Marta já vai em outro contexto. Eu não sei onde entra a Tailândia, pode ser que ela tenha explicado e tenha passado batido na minha leitura.

Idelber em novembro 18, 2010 11:58 AM


#7

:-)

Obrigado, Idelber. Pelo que li do capítulo 2, ela só cita o fato rapidamente na nota 48. Não a vi se aprofundar mto no fato tb...

Ulisses Adirt em novembro 18, 2010 12:31 PM


#8

Achei muito intrigante o conto. Estou matutando para achar uma relação entre o problema do sexo da alma e as atitudes dos acadêmicos. Vou tentar elaborar algo para contribuir

OBS: No dicionário Houaiss está escrito que Sião é a Tailândia.

Pedro José em novembro 18, 2010 12:34 PM


#9

Sião é realmente um nome usado para se referir a Jerusalém, mas também é um antigo da Tailândia.
Em inglês os dois nomes são diferentes, Jerusalém é Zion e a Tailândia é Siam.

Não sei se Machado quis dar essa ambiguidade, mas ao iniciar a leitura pensei primeiro em Jerusalém e só depois me apercebi que se tratava do reino da Indochina.

André Mattana em novembro 18, 2010 1:20 PM


#10

Sim, confere, no Aurélio também: "siamês", de Sião (Tailândia). Confesso que eu fiquei com o sentido judaico de Sião na cabeça e nem me preocupei em saber se havia outros.

Mas vai ver nem faz muita diferença :-)

Idelber em novembro 18, 2010 1:48 PM


#11

Apareceram uns comentários bem legais no meu blog.

Atilio:

Tem a possibilidade de a gente ler o conto alegoricamente. Sei que hoje em dia pega até mal, mas as alegorias que o Machado fez tem que ser melhor consideradas. Se a gente elaborar a intepretação alegórica com cuidado, pode chegar a resultados divertidos e estimulantes. Em crônicas e contos dessa época Machado usou bastante esse artifício, pra comentar a vida política. Não seria disparatado enxergar uma gozação com o Dom Pedro II, que Machado, aliás, admirava. A troca das almas pode ser uma alegoria dos sucessivos trocadilhos entre conservadores e liberais, ainda que pra sustentar essa interpretação a gente precise avançar com cuidado e resgatar na história política da época da publicação do conto em jornal o que estava acontecendo.
Acho pouco provável que Machado estivesse prestando atenção nas “academias” mesmo. As faculdades de direito mal estavam aparecendo no país e em nenhuma outra crônica ou conto até onde eu tenha notícia o escritor demonstrou interesse pelo tema. Tanto que, quando em “O alienista”, Machado tira uma onda do cientificismo, não vai ser numa academia que ele aborda o ponto. Coisas a discutir. Abraço grande.

Marcos Nunes:

Abordagem interessante. Um detalhe: toda vez que lemos algo que comporta duas identidades/tipologias/classificações/etc. diferentes, podemos sobrepor todo gênero de discussão acerca de dualismos, ambiguidades, etc. Alguém imerso no repertório homoerótico, por exemplo, veria uma investigação sobre a troca de papéis sexuais. E assim por diante.

Mario Abramo:

@Milton Ribeiro:
Na verdade a academia que vence é a que declara que a alma é sexualizada, e extermina (literalmente) as outras.
@Marcos Nunes:
A Ciência (ou melhor, as ciências ditas “duras”) não finge mais ser um Absoluto teórico desde Popper. Mas alguns cientistas e boa parte da mídia sim…
[]s

Marcos Nunes, de novo:

Por falar em cabeças trocadas, muitos acham que o mote machadiano deve-se muito em razão da troca de cabeça dele com sua mulher Carolina. O tema do feminino perdeu a abordagem romântica em Machado depois que ele conheceu a potente portuguesa, exemplo puro e acabado de mulher com força masculina, no caso, a disposição para discutir, dirigir, criar, mudar, desrespeitar as regras segundo as quais os homens são a claridade do mundo, e a mulher Lilith, o lado oculto da Lua. Assim, pós-Carolina, todas as mulheres machadianas, mais ou menos submissas, articular suas artimanhas e descentralizam a lógica do discurso supostamente racional, de patente e propriedade masculina. Não é somente divertido: ele se sobrepõe ao entendimento ordinário e comum via ironia alimentada pela humanidade em sua inteireza, que é masculina e feminina sendo ambas as coisas misturadas, como a academia com suas lutas internas mas que são apenas como um organismo cujas partes se desentendem até provocar a falência de todo seu corpo, que, no entanto, se reproduz em sínteses e se multiplica em teses e antíteses. Não esquecer a zombaria machadiana ao pensamento dominante da época, o positivista, que rendeu grandes inventivas em seus últimos livros, não por Machado descrer na ciência em si, mas no Absoluto teórico que ela, a ciência, fingia (e ainda finge) corporificar.

Milton Ribeiro em novembro 18, 2010 3:09 PM


#12

Provavelmente não faz mta diferença mesmo, Idelber... Só levantei a questão, não esperava q desse toda essa conversa só nisso.

Mesmo assim, mantendo minha índole de levantar questões q talvez estejam fora do que deveria mesmo estar sendo discutido, está aqui o link de algo que escrevi no meu blog: http://incautosdoontem.opsblog.org/2010/11/18/elvis-madona-machado-de-assis/ - uma comparação entre o conto do Machado e o livro Elvis & Madona, do Biajoni.

Ulisses Adirt em novembro 18, 2010 3:13 PM


#13

Idelber, trata-se mesmo do Reino de Sião, atual Tailândia. Se as referências mitológicas (Kinnara etc.) e religiosas (budismo e hinduísmo) não fossem suficientes para indicar isso, há a citação literal da capital tailandesa no trecho "Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem de sangue academico".

outro Edson em novembro 18, 2010 3:58 PM


#14

Bangkok, claro, Bangkok. Passei batido na menção. Madrugada, mô fio, madrugada :=)

Idelber em novembro 18, 2010 4:06 PM


#15

Nunca havia lido este conto, então, só por isso já agradeço.
Talvez influenciada pelos últimos acontecimentos no brasil que mostram a força dos preconceitos e do sexismo, fiquei pensando: se a humanidade não tivesse inventado os compartimentos para o que é "feminino" e o que é "masculino", o debate sobre se a alma tem sexo não faria sentido algum. No entanto, mesmo diante do fantástico apresentado no texto, acabamos achando muito normal que acadêmicos debatam e até guerreiem pelo tema.

Só quando - em algum tempo futuro e talvez numa galáxia distante - os humanos se livrarem dessa compatimentarização é que poderão mesmo gozar da igualdade tão sonhada.

Mas, pode ser que machado estivesse apenas tirando sarro de algum político da época...vai saber!

aiaiai em novembro 18, 2010 5:25 PM


#16

Gostei de reler Machado de Assis buscando alegoria num Oriente mistificado. Idelber, duas perguntas: Machado poderia usar, para narrar o que narrou, alegorias indígenas nacionais? Outra: Qual é exatamente a diferença de realismo mágico para o realismo fantástico?

Guilherme Póvoas em novembro 18, 2010 5:45 PM


#17

Idelber,
Impossível não vir aqui agradecer essa (sua?) felicíssima escolha. Lê-se ( e propaga-se) muito Machado, mas quase sempre os textos mais conhecidos, em detrimento de uma pujante intenção argumentativa e conteúdo conceptual presente nesses contos, crônicas, "papéis avulsos". Esse ajuste vc tem feito, e lamento minha impossibilidade de participar mais das consequentes discussões, e se consuma neste admirável exemplar que é "As Academias..."
Li as intervenções e ilações dos demais leitores, aqui no Biscoito e em outro(s) lugar(es) e as achei preciosas. Estou quase certa de não ter quase nada de relevante a acrescentar mas...
Claro que embora se possa ler Machado com ampla liberdade, eu só poderia ler este conto, "de rigueur", pelo viés filosófico, você sabe.
Mas ressaltar o humor e a ironia desse schopenhaueriano, se vale essa quase contradição em termos, é chover no molhado:-)
Afinal, Machado é *sempre assim*, como se mostra, para citar apenas dois exemplos: na abertura do conto "O empréstimo" de Papéis Avulsos e em Teoria do Medalhão: o desvio (um rebaixamento) caricatural da filosofia: o trivial, os papéis velhos tomando o lugar dos "altíssimos saberes".. Pitágoras e loteria:-). Assim, nesse "As academias...", mais vale ressaltar o ceticismo radical, pirronico. Ou a indiferença. O que se vê/lê no final do conto, (o que vc chama muito bem de reforço do caráter fantástico...) eu vejo também como uma forma irônica e zombeteira de lembrar o famoso topos medieval da " inutilis inquisitio philosophiae", quase da mesma forma como ele irá glosar Shkspr no capítulo CLXIX do Quincas Borba: "...muito mais coisas do que sonha a nossa a nossa vã dialética":-)
Sempre rindo da filosofia , coisa - ifelizmente -rara entre filósofos de vocação e profissão.
Afinal, não foi de Nietzsche a (ironica até à mordacidade) sugestão para que se tentasse classificar os filósofos conforme a qualidade de seu riso?
E pra finalizar, queria lembrar/perguntar a você se entre os casos de " transexual fantástico" - vc citou Ardhanarishvara, Kinnara e Oxumaré, seria possível citar o caso de Tirésias? Que foi durante sete anos moça e depois, por mais sete anos, foi rapaz? Ciclos de sete anos e as cobras de nosso herói tebano.
Adivinhe, estou em meio a um trabalho sobre a Antígona.

Idelber, querido, muito obrigada. Mais uma vez.

Meg em novembro 18, 2010 8:18 PM


#18

Li o conto e me encantou como Machado de Assis mistura sexo, política, filosofia, antropologia, em tão poucas linhas, e se sai muito bem num conto muito louco. Não é por acaso que é considerado a nossa "sumidade" literária.
Um abraço.

Sérgio Troncoso em novembro 18, 2010 9:10 PM


#19

FHC descobre a derrota de Serra:

www.youtube.com/watch?v=lfsHjijZjJc&feature=fvst

Armando do Prado em novembro 18, 2010 9:45 PM


#20

Demorou tanto... e para evacuar isso? Da próxima vez nos apresente uma análise mais percuciente e não trivialidades inspiradas em bocejos de vigília. A Internet já está saturada de catervas de necedades.

Topsius em novembro 18, 2010 10:57 PM


#21

Idelber, queria agradecer por me apresentar o texto. Estou escrevendo uma contribuição para pôr no meu blog, mas, devido aos compromissos nos próximos dias, não posso prometer nada antes de domingo, tá valendo? Posto aqui o link quando acabar. A demora vai de acordo com minha empolgação com o conto, que é grande e forçou um texto talvez demasiadamente minucioso. Ainda assim, vou tentar, e tb abarcar as discussões presentes aqui e no milton.
abrs.,
Fred

Frederico em novembro 19, 2010 1:01 AM


#22

1) É só no meu computador que a página 268 da edição do site Brasiliana não abre?

2) Ainda bem que foi corrigida esta ideia ridícula de que o Sião em questão é Jerusalém; eu acho que ela devia ser corrigida no texto principal também.

3) Se eu bem entendi, há três interpretações sobre a questão do gênero no texto: (a) a do Milton Ribeiro, que acha que isso é só mote pra piada; (b) a da Marta de Barros, que acha que Machado estava basicamente seguindo ideias vigentes sobre gêneros, apesar de em alguns momentos antecipar Freud; (c) a do Idelber Avelar, que acha que há um verdadeiro sacolejo nas noções essencialistas de gênero.

A mais implausível é, de longe, a do Idelber. Se eu bem entendi, os argumentos dele são que Kinnara traçou o plano para trocar as almas (mas eu não entendi o que isso prova), e que a gente fica sem saber o que a/o filha/o deles vai ser (mas eu não sei de onde ele tirou a ideia de que há outra opção além de alma masculina ou feminina, num corpo masculino ou feminino). Em oposição a estas evidências ruins, há todo o texto, em que Machado essencializa (i) certas características como femininas (moleza, frivolidade, passividade) ou masculinas (agressividade, resolução, racionalidade), (ii) certas funções ou atividades como masculinas (“Sião, finalmente, tinha um rei”), e, como se não bastasse, (iii) as almas como masculinas ou femininas. Precisa de mais essencialismo que isso pra ser considerado essencialista?

Eu até aceito a tese do Milton (que isso não é a sério), mas só no que diz respeito à sexualidade das almas; as outras coisas não podem ser desculpadas facilmente assim, não. Inclino-me, então, à tese da Marta, a de que Machado apenas repetia as ideias (sexistas e essencialistas) correntes à sua época, com duas ressalvas – eu não vejo a menor antecipação de Freud, e nem acharia isso progresso.

4) O Idelber não falou nada de interessante sobre as academias; o Milton disse que academias são assim mesmo, cheias de cobras, dando a entender que devemos levar a sério a parte em que todos os membros da academia falam mal uns dos outros. Isso não me deixa muito satisfeito, na verdade.

Se for isso, o final me parece desequilibrado: supor que a academia que havia acertado sobre a sexualidade das almas seja composta de camelos me parece uma saída fácil e inverossímil para o problema de lidar com as questões de Kinnara. Não fica muito claro, também, qual o propósito de restituir Kinnara a seu corpo, ou de a ter, na última cena, confrontando os acadêmicos se dizerem sábios. Fica parecendo um final improvisado, e o pedido de explicação de Kinnara seria também o do leitor, neste caso.

Na minha primeira leitura, eu tive uma impressão diferente: a de que os sábios estavam fingindo ter uns aos outros em baixa conta, para não terem de ajudar no assassinato de Kalaphangko. Acho que essa impressão é reforçada pela cena final: assim como no final da seção I, eles parecem estar comemorando uma vitória; no caso, a única vitória plausível é eles terem impedido Kinnara de matar Kalaphangko. Isso explicaria, a meu ver, por que Machado convida o leitor a escrever a ela (porque, afinal, o leitor deveria ter a resposta), e porque a carta deveria ser mandada à China (porque ninguém quer que o rei descubra que ela pretendia matá-lo). Mas eu não estou seguro dessa interpretação, não.

5) De modo geral, porém, eu acho que falta sutileza ao texto (e a comparação com Borges só reforça isso): o mito da origem da via láctea é forçado; as menções a outras figuras (Camões, Ovídio, Dante, os Borgia, Mukunda) são extremamente didáticas (ou exibidas); algumas metáforas são constrangedoras (“Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a primavera proxima?”); é difícil entender por que as personagens resolvem destrocar os corpos, se ambos estavam satisfeitos com a troca, etc.

L.M. em novembro 19, 2010 3:32 AM


#23

Magnífica crítica, L.M. Dá gosto quando alguém critica um texto nosso tomando-se esse trabalho para argumentar. Vou tentar pensar no que você colocou, para amanhã talvez. Em minha defesa, diga-se uma coisa: o texto não diz que Sião "é" Jerusalém na história, claro que não. Só diz que o vocábulo "Sião" remete--é o termo usado-- a Jerusalém. Verdade, eu não levei em conta o sentido tailandês de Sião, e vale, sim, a pena incluir um asterisco no texto principal: vou fazê-lo (só não resolvemos ainda o que isso significa).

Claro que minha retrucada neste ponto específico não invalida nenhum outro da sua crítica. Vou tentar pensar mais a partir dela e voltar a escrever.

Gulherme (#16): vou tentar responder sua pergunta, dentro dos limites naturais de tempo e espaço daqui. Abraços gerais.

Um beijo grande, Meg, obrigado pela visita!

Idelber em novembro 19, 2010 4:01 AM


#24

Confere, L.M., página 268 não abre, nem no modo "livro normal", nem no outro. Estranho mesmo. Aqui vai um link alternativo.

Meg, perfeita lembrança de Tirésias, claro. Há uma longa lista a se fazer aí, mas Tirésias é das presenças mais ilustres =)

Idelber em novembro 19, 2010 4:22 AM


#25

Aqui abre tudo. Sem problemas com a pg 268.

Renata L em novembro 19, 2010 10:35 AM


#26

Vou dizer apenas um "muito obrigada, Ildeber" por me alcaçar este texto maravilhoso. Vou precisar ler muitas outras vezes para perceber as nuances de várias questões nele retratadas. Se eu já era apaixonada por Machado, agora sou irremidiavelmente sua maior idólatra!

Marcia Costa em novembro 19, 2010 10:45 AM


#27

e eu não conhecia esse conto!
:>/

Biajoni em novembro 19, 2010 11:31 AM


#28

Lembrei do Orlando da V. Woolf

Marcia W. em novembro 19, 2010 11:48 AM


#29

isso que é nao ter medo de polêmica...estou impressionado

Lord Jim em novembro 19, 2010 1:01 PM


#30

Idelber e demais, eu estou viajando e no famigerado mini-dell da minha mãe - não sei como ela consegue escrever nesse treco... Portanto, serei breve para não perder a paciência...
Eu acho que devemos seguir a pista da visão positivista e sugiro que a questão da sexualidade seja em parte metáfora para introduzir essa filosofia. Estou seguindo um pista talvez falsa baseada na suposição da data de 1884 para o conto e na conhecida ascenção da filosofia positiva no Brasil de então. Se isso for verdade, a meu ver, o final é uma grande ironia, porque os academicos só se reunem quando sua tese é provada pela "contra-prova"/ destroca das almas... Outra coisa, se a data for correta, não esqueçam, estamos próximos da abolição da escravatura. Ela, aliás, se dá nesse mesmo ano, no Ceará.
abrs.

Frederico em novembro 19, 2010 5:09 PM


#31

é bem provável que eu esteja erradíssimo. deixem estar.
Mas, quanto a questão das almas, eu discordo tanto da visão do Machado antecipando Freud ou os contemporaneos quanto daquela que se baseia nas afirmações textuais sem interpretá-las no contexto. Notem que a única "prova" cabal para a sexualidade anímica é o troca-troca dos príncipes. E a destroca é essencial, se os academicos a perceberam, para sua teoria, porque, sem ela, a prova seria parcial, porque, afinal, de que vale uma alma feminina num corpo identico a sua essencia, como prova da teoria?
vou tentar me explicar melhor quando tiver mais tempo.

Frederico em novembro 19, 2010 5:21 PM


#32

testando relógio novo do blog.

Idelber em novembro 19, 2010 9:51 PM


#33

Idelber,

Já que você me desculpou antecipadamente, vou dar um pitaco de leigo, que só lê por prazer, sem pretensões de fazer ciência.

O traço comum que distingo em toda obra machadiana é a ironia do começo ao fim.

Vejo no desinteresse do rei de Sião pelos assuntos de Estado - antes da troca da alma - uma crítica às monarquias e às frívolas famílias reais, que só se interessam por festas, luxos e prazer. O rei não queria saber das finanças públicas, do exército; só lhe interessava o prazer proporcionado por suas 300 concubinas.

A crítica aos acadêmicos - suprema ironia de quem fundou a ABL - é o desprezo por aqueles que pensam deter o conhecimento, aqueles "que se acham", que ficam trocando elogios em público, mas que no fundo se odeiam. Pelo menos naquele tempo a crítica se limitava às ideias, não se resvalava para as ofensas pessoais.

Por fim, ele não poupou o próprio leitor, especialmente aqueles iluminados que sabem a resposta de tudo e os convidou a descifrar o enigma.

Idelber, esta é o mais raso de todos os comentários deste post. Comentário de leigo, para quem a literatura é apenas uma fonte de prazer e que está há uma semana comemorando mais uma derrota da Globo, a de 4x1 em Sete Lagoas.
Saudações Atleticanas.

Lincoln Pinheiro Costa em novembro 20, 2010 1:02 PM


#34

O choro de ontem traz um dado novo à questão, ou às questões. De que vale provar-se a sexualidade das almas quando importa mesmo é o equilíbrio? Depois de tanta maledicência atentando à feminilidade da presidenta, ela mostra que uma alma pode, sim, é ser plena de gênero: pragmática e masculina aqui, intuitiva, sensível e feminina acolá, quando urge. Tanto Lula é assim, quanto espero que o seja Dilma. No conto machadiano, me parece haver esta mensagem, ainda que subliminar ou inconsciente do autor, do valor do equilíbrio. Interessante é a necessidade da magia (o além da razão proposto pela alma masculina em corpo feminino ou o arriscar-se no desconhecido para solucionar problemas concretos, ou algo parecido) para que o tal equilíbrio (que já havia em potência) se manifestasse. O problema não estava nas almas, mas nos corpos. Pois Kalapangko e Kinnara preservam suas índoles. Apenas o ritmo é mudado para que se façam reformas que eram necessárias ao bom andamento do reino. Acho que há ali uma metáfora dos arranjos e rearranjos necessários à alma para dar conta de seus desafios. Hay que endurecer pero...
Os próprios sábios jogam um jogo de opostos (sábios camelos) para se preservar. As mútuas acusações são recursos astuciosos de auto-preservação e, porque não, também, de preservação do reino através do equilíbrio entre Kalampangko e Kinnara e do fruto deles. Ou não?
Acho que Idelber estava em parte pensando no momento político que estamos passando e na transição Lula/Dilma ? Estou errado professor?
Bem, queria apenas introduzir essas questões e, caso tenham alguma legitimidade, esperar que alguém possa aprofundá-las melhor que eu.
Um abraço!

Josaphat em novembro 20, 2010 1:03 PM


#35

porra idelber, só porque dá aulas nos eua vc acha que pode que é válido responder um comentário com "testando o relógio do novo do blog?/' Depois desse comentário tosco sobre o conto do machado vc se acha tanto assim pra simplesmente ignorar quem não é seu velho conhecido? mesmo que não seja o velho marlboro?

Frederico em novembro 21, 2010 2:27 AM


#36

Frederico, não tem ninguém sendo "ignorado" aqui. Em toda edição do Clube, as pessoas conversam de forma livre sem que eu interfira respondendo a cada um individualmente. Se eu fosse fazer isso, passaria o dia pendurado aqui compondo frases sobre o que cada um disse. Desculpe, não é assim que a banda toca.

Não existe ninguém sendo "ignorado". Existe um blogueiro com mil obrigações pessoais e profissionais, que não tem o dia pra escrever no blog com tanta frequência. Espero poder corresponder à sua demanda de atenção na próxima, já que nesta, da porta do avião para outro compromisso profissional, não vai dar =)

Idelber em novembro 21, 2010 2:39 AM


#37

É, pode ser o tal do intentio lectoris do Eco, mas eu tb li o conto como uma "crítica" ao positivismo e às academias... a questão de gênero pra mim ficou só como pretexto.
Desde o começo, essa visão do Absoluto teórico que o Marcos Nunes levantou no post do Milton Ribeiro sofreu diversas críticas, muitas vezes difamadas como "anti-científicas". E o absolutismo da Academia Francesa não devia ser desconhecido do Machado.

Mario Abramo em novembro 21, 2010 9:25 AM


#38

Talvez seja uma bobagem o que vou dizer, mas assisti em DVD "O Escritor Fantasma" do Polansky e o enredo me lembrou o conto sobre o qual estamos conversando.
Achei o filme muito bom!

rabbit em novembro 21, 2010 9:34 PM