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sexta-feira, 12 de novembro 2010
Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica
Nossa indústria de escândalos precisa de urgente renovação. Depois do “Ministério da Educação acéfalo” que só acertou em 99,94% das provas do ENEM, há uma polêmica sobre Monteiro Lobato que, aliás, será do agrado dos que reclamam do Fla x Flu entre lulismo e antilulismo. Desta feita, há governistas e oposicionistas em ambos os lados da polêmica. Isto não a torna, evidentemente, mais interessante.
Aldo Rebelo, o Prof. Deonísio da Silva, Augusto Nunes e dezenas de tuiteiros fizeram uma tempestade numa xícara d'água contra uma suposta “censura” sofrida pelo autor de Urupês. Em comum entre todos eles, a ausência de qualquer citação do parecer que foi pedido ao MEC sobre Caçadas de Pedrinho (ou, no caso de Aldo, a presença de citações distorcidas do texto). O blogueiro do Serra, que eu saiba, ainda não surtou com o tema, mas não duvide. Se, depois de ler algo da obra infantil de Lobato, você ler o parecer do MEC sobre o tema, perceberá a pobreza da indústria do escândalo.
O pedido de parecer recebido pelo MEC se relaciona com algo comum no ensino de obras literárias, em especial para jovens ou crianças: a contextualização necessária para que epítetos, comportamentos discriminatórios, racismo explicito, ódio a povos ou a orientações sexuais etc., sancionadas e apresentadas como normais no contexto em que a obra foi escrita ou no interior dela (e qual é a relação entre obra e contexto em cada caso, claro, é um vasto problema), sejam lidos criticamente e não replicados como modelo pelos alunos. Não é tão fácil como parece. No caso de Monteiro Lobato, é imensamente difícil.
O Deputado Aldo Rebelo diz: Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” — a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.
O Deputado Aldo Rebelo vive num mundo onde todas as discussões acerca da cultura se dão num terreno ameaçado, pelo estrangeirismo ou pelo politicamente correto. O Deputado tem uma concepção estática, patrimonialista de cultura nacional. Para ele, o passado é uma coleção de sacralidades intocáveis. É o oposto de uma concepção benjaminiana acerca do que é o pretérito.
A comparação feita por Aldo, entre Lobato e Nelson Rodrigues, é estapafúrdia, por ignorar o contexto em que se faz o pedido de parecer ao MEC: o da obra Caçadas de Pedrinho em salas de aulas do ensino fundamental e médio. Ora, salvo engano meu, não há garotos de 4º ou 5º ano lendo Vestido de noiva ou Bonitinha, mas ordinária nas escolas públicas ou particulares brasileiras. Se eles se introduzem à obra de Nelson na adolescência tardia ou depois, na faculdade, essa situação não tem nada em comum, entendamos, com um garoto negro ou mulato de 10 ou 11 anos de idade sendo introduzido social, coletivamente à pesada linguagem racista que se encontra em parte da obra de Monteiro Lobato. Este blog tem tentado ser contido mas, com vossa permissão, sugiro que só uma besta-quadrada ou um malintencionado não enxerga isso.
Pois muito bem, dados os fatos de que 1) Monteiro Lobato é peça chave da nossa tradição literária, especialmente canônico e fundacional para a literatura infantil; 2) uma obra como Caçadas de Pedrinho está eivada de linguagem pesadamente racista; 3) essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação; coloca-se aí um problema nada simples para o educador. Quem acha que é simples que faça, por gentileza, o exercício de imaginar alguns dos trechos animalizadores de negros, citados pelo Sergio Leo, numa sala de aula com, digamos, 20 ou 22 crianças brancas ou brancomestiças e 3 ou 4 crianças negras ou negromestiças. Imagine, monte seu plano de aula e me conte. É uma situação que tem o potencial de ser tremendamente traumática para a criança.
O que fazer, então? Ninguém, em nenhum momento, falou em “proibir” ou “censurar” Lobato. Em nenhum momento se falou sequer de emendar o texto de Lobato, coisa com a qual eu, particularmente, não teria grandes problemas (pelas mesmas razões do Alex), desde que fosse bem feito.
Na verdade, basta ler o raio do parecer do MEC para ver que, concorde-se com o texto ou não, ele está escrito dentro de um espírito razoável: fornecer ao educador instrumentos (introdução, notas ao pé de página etc.) que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social. O parecer não está escrito em jargão de especialista, mas está informado pela leitura de alguns dos melhores estudiosos de recepção de obras literárias no Brasil, como Marisa Lajolo (que, além de ser estudiosa de estética da recepção, é autora de um artigo importante [pdf] sobre o negro em Lobato).
O parecer explica, em linguagem clara, algo que é amplamente consensual entre estudiosos de literatura: que nenhuma obra literária está completamente “solta”, “livre” dos valores de sua época e que nenhuma grande obra é simplesmente um reflexo desses valores tampouco. Cada obra rearticula, reescreve, chacoalha, reinterpreta os valores de seu tempo. Em outras palavras, o mesmo Monteiro Lobato cujos diálogos estão eivados de racismo pode servir para questionar o racismo. O mesmo Conrad que está encharcado de colonialismo pode servir para questionar a empreitada colonial. O mesmo Nelson Rodrigues que está empapado de misoginia pode ser lido de forma feminista, emancipatória. Mas estas duas últimas tarefas, em sala de aula, são menos explosivas e complexas que a primeira, posto que no caso de Lobato você está lidando com garotos de 10, 11 anos de idade.
Um aparato de notas é o mínimo a que um professor tem direito para trabalhar com as perorações racistas de Emília numa sala de aula do século XXI. Inventemos escândalos mais inteligentes. Aqueles baseados na sacralização dos documentos de cultura passados estão ficando meio tediosos.
Suponho estar óbvio que o parecer do MEC sequer desestimula (que dirá proíbe) a adoção de Caçadas de Pedrinho ou de qualquer outra obra de Lobato. O Alex diz nos comentários a este post (cuja conversa continua aqui) que ele não adotaria a obra e eu entendo suas razões. Aliás, eu me atreveria a dizer que só quem nunca segurou um pedaço de giz não entenderia. De minha parte, eu não sei se adotaria o livro ou não. Optei por dar aulas para adultos, em parte, para não ter que tomar decisões como esta (como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum). Eu provavelmente não a adotaria num contexto em que os garotos negros fossem pequena minoria em sala de aula. Eu estaria mais à vontade para adotá-la (porque Lobato realmente é muito bom) se eu sentisse que estou equipado para tornar o texto um instrumento de debate do próprio racismo. É sempre caso a caso. O parecer do MEC não substitui a decisão de cada professor. Só oferece elementos para subsidiá-la.
Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita. Esta gerou pelo menos dois ótimos textos: do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. Fiquemos com eles.
Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post
| Comentários (124)
#1
Caro Idelber,
Que texto esclarecedor!
Como você bem disse:"Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita." Esta gerou o seu texto, além dos 2 ótimos citados.
Parabéns!
Grande abraço,
Lu
Luciana Mesquita em novembro 12, 2010 7:46 AM
#2
Me alegro de que tenha gostado, querida Lu. Um abração =)
Idelber em novembro 12, 2010 7:52 AM
#3
Idelber
Eu já passei um tempão discutindo esse assunto e esse link aí de 2008 foi o primeiro que tocou no que me interessa. O da Camila, quero dizer.Porque eu tenho dez anos (mais,mas eu parei de contar em 10) fazendo Oficina de Leitura com Contos de Fadas, Mitos Gregos e as obras que eu uso da literatura brasileira são as obras de Monteiro Lobato. E eu implico com essa história do Alex de dizer que o professor vai "ensinar" Caçadas de Pedrinho. Porque a gente não pode nem Ensinar História do Mundo das Crianças,porque tá completamente fora do tempo...
Eu acho que professor não "ensina" mais nada, ou pelo menos não devia...
Minha birra com o parecer do ministério é a tal "nota explicativa". Porque ela é inócua, ou seja, se destina ao leitor, que graças a Deus não vai lê-la (ou vcs conhecem alguma criança que lê introdução de livro?). Porque se lesse, seria um problema, pois o levaria a conclusões antes de ler a obra e tirar as suas próprias.
Eu sou muito a favor de discutir, de formar o professor de modo que ele possa lidar não só com essas questões como com todas as outras que surgirão.Eu devia escrever sobre isso e mais um monte, mas fico comentando no reader e nos blogs, hahaha.
Então eu acho que devia ser um tipo de Manual do Professor para o Racismo na obra de Lobato.
Eu vou ver se escrevo sobre como uso esses livros em sala de aula.
mani em novembro 12, 2010 8:00 AM
#4
hahaha, Mani, mas eu gostei muito do que você escreveu, e no geral acho o seguinte: a introdução talvez não faça grande diferença. As notas ao pé, sim, fazem. Os alunos podem não ler os prefácios. As notas eles leem.
A sua ideia de um "Manual do Professor" para o racismo na obra de Lobato não é muito diferente do que o parecer do MEC propõe. Aliás, a proposta feita com mais ênfase no parecer é essa: reforçar a capacitação dos professores para que eles lidem com temas espinhosos como esse. O parecer gasta bem mais tempo falando disso que de emendas ao texto do Lobato.
Idelber em novembro 12, 2010 8:10 AM
#5
De minha parte, acho completamente desnecessário um filtro prévio por parte do MEC. Revela uma leitura imatura e descomprometida com a História, que foi racista, exploradora mesmo, e ponto final.
Como se não existissem outras formas de preconceito hoje. Como se a História fosse a História do progresso social. As coisas são simplesmente caóticas. Não adianta dar uma de 1984.
Bruno Marcondes em novembro 12, 2010 8:20 AM
#6
O mais impressionante é como gente esclarecida entra na pilha da grande mídia sem nem ler o parecer. Vi várias pessoas que respeito falando disso no tuiter, repetindo as bobagens publicadas nos jornais, como "mec quer censurar lobato" etc.
chato, muito chato.
aiaiai em novembro 12, 2010 8:22 AM
#7
O MEC concorda com você, Bruno. Não há nenhum "filtro prévio". O ministério é responsável pela avaliação dos materiais pedagógicos usados no Brasil. Foi pedido um parecer. Um parecer matizado, cheio de nuances, e com sugestões ao professor, foi apresentado.
Segue quem quer.
Não há "filtro", em outras palavras.
Idelber em novembro 12, 2010 8:26 AM
#8
Idelber, só um errinho digitação da palavra grafada como "atraveria" no penúltimo parágrafo. Belíssimo texto!
João
João Guilherme Dayrell em novembro 12, 2010 8:30 AM
#9
Idelber, tudo bem?
Se o povo está com frescura em relação a "Caçadas de Pedrinho", imagino o que eles fariam com "O Presidente Negro" (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Presidente_Negro).
Acho que o educador pode trabalhar com qualquer obra literária. Lobato foi (e ainda é) uma referência para a literatura infanto-juvenil nacional. O livro em questão (Caçadas) tem conteúdo racista para os dias de hoje, mas "normal" para a época que foi escrito. Não significa que devemos "canonizar" ou dizer "ah, é antigo então tudo bem". Devemos contextualizá-la isso sim e, em seguida, aproveitar esses elementos "polêmicos" para debatê-los em sala de aula. A gente não pode confundir contextualização e debate inteligente com censura.
Abraços
Robson França em novembro 12, 2010 8:32 AM
#10
Corrigido, João, valeu!
Idelber em novembro 12, 2010 8:33 AM
#11
Leem nada,Idelber!
Eu trabalho com meninos (com Monteiro Lobato) na faixa etária de 9 a 12 anos. Eles acham que aquelas notas (e eu confesso que também achava,na idade deles) são pra fazer resenha, se eu peço,copiam as notas e a introdução, se tiver.Copiam até as orelhas e a contracapa, hahaha.
Eu ouvi uma notícia boa, que o MEC tornou obrigatória em várias licenciaturas uma matéria pra lidar com racismo.Esqueci o nome.
Eu amo em Lobato é a possibilidade de se lidar psicanaliticamente com todos os fantasmas, inclusive o racismo. No meu caso foi o feminismo. Taí, descobri o que eu podia escrever praquele tema da Lola "As origens do meu feminismo".
aiai
mais uma coisa que eu tenho que escrever...
mani em novembro 12, 2010 8:50 AM
Rodrigo Cássio em novembro 12, 2010 8:55 AM
#13
eu acho que a questão é a obra de Lobato PARA CRIANÇAS.o presidente negro é obra adulta.
mani em novembro 12, 2010 8:55 AM
#14
Idelber,
Li toda a obra infantil de Monteiro Lobato na infância e me lembro do prazer que isso me deu, e de como isso foi importante para minha "fundação" como leitora. Os livros eram edições antiquíssimas, herdadas do meu pai, e a figura do meu pai foi fundamental para que, com menos de 10 anos, eu pudesse fazer a leitura crítica do racismo ali contido.
É claro que, por conta própria, eu provavelmente não veria o racismo (especialmente da Emília) como mote para a reflexão antirracista. Principalmente porque a boneca é um totem de sedução em termos de personagem literária. Articulada, ácida, espirituosa, dissimulada, libertária, moleca: é impossível não se encantar com Emília, e eu certamente compraria sem perceber seus conceitos de eugenia.
Mas eu tinha meus pais para acender a luz dessa reflexão... Nenhum professor pode assumir esta responsabilidade sozinho. Hoje, como mãe de um aluno de dez anos, vejo como muitos pais simplesmente terceirizam a educação de seus filhos.
Como sempre, seus textos são faróis para minha reflexão, agora adulta. Sem abusar do Édipo, eu diria que hoje você fez o papel do velho José Henrique, há dez anos desligado deste mundo.
E sua frase "como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum" a mim pareceu verso de um sambinha brejeiro de Ismael Silva.
Bravo!
Um forte abraço, beijos!
Alessandra Alves em novembro 12, 2010 9:09 AM
#15
Pois é, Rodrigo, eu me surpreendi à beça com o artigo da Lajolo. Há parágrafos ótimos, como o quinto, que fala da variabilidade das interpretações.
Mas há afirmações simplesmente falsas: em nenhum momento o parecer do MEC diz que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Ora, o parecer afirma exatamente o contrário! É só ler.
Eu credito isso a uma questão que é bem complexa: a enorme distância entre o mundo em que vivem os pesquisadores de literatura e a realidade das salas de aula de ensino médio e fundamental, pelas quais, na maioria das vezes, esses pesquisadores jamais passaram como docentes. Dá muito pano pra manga essa questão, mas acho que alguns dos problemas que vejo no texto da Lajolo passam por aí: entregar texto sem contextualização e preparação a um garoto de 11 anos? Ora, você pode fazer isso na universidade (dando como tarefa uma pesquisa do aluno por conta própria), mas no ensino fundamental é necessário algum tipo de guia.
Às vezes tenho a sensação de que algumas pessoas acham que a excelência da obra literária é suficiente para que ela despenque numa sala de aula, sem contexto, e encante e seja entendida pelos alunos, por si só. Ora, não é assim que a banda toca.
Idelber em novembro 12, 2010 9:10 AM
#16
Desculpe apontar (apontar é feio, não é?), mas está aí uma característica própria da esquerda: achar que o mundo, elite de esquerda excluded, é feito de idiotas, que precisam de um conjunto de notas explicativas, feito pela inteligentsia, para entender o mundo como deve ser entendido.
Não podemos mesmo confiar nos professores, nem nos pais das crianças, menos ainda nas crianças, não é? A menos, claro, que já estejam devidamente instruídos.
Turma do Fla x Flu em novembro 12, 2010 9:15 AM
#17
Alessandra, que palavras bonitas, que bom ter você de volta na caixa de comentários depois de tanto tempo =)
Sim, daria um sambinha essa frase, né? Eu a vejo mais apta a aparecer num samba dor-de-cotovelo de Nelson Cavaquinho. Um grande beijo!
Idelber em novembro 12, 2010 9:16 AM
#18
Li os livros de Lobato (todos os infantis) entre os sete e 10 anos, sem qualquer orientação. Meu pai comprou a coleção completa (coisa de 15 livros, por aí), e eu fui lendo um após o outro. Minhas preferências recaíram sobre História do Mundo para Crianças e Dom Quixote para Crianças. A Chave do Tamanho me pareceu assustador. Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho estão entre os piores. Esses livros de Lobato são todos racistas e pró-estadunidenses, conforme pude perceber quando os li. lembro de ter conversado com minha mãe sobre isso. Por exemplo, quando ele teoriza sobre os contos da fada (há um volume específico sobre eles, cujo nome esqueci, bem como outro para as fábulas de La Fontaine, segundo me lembro), lidos por Dona Benta, assinala a sofisticação das histórias européias e a pobreza do imaginário daquelas de origem indígena. Várias passagens de muitos livros ressaltam o aspecto simplório e inferior dos negros, além da condição inferior das mulheres, enquanto, por outro lado, glorifica os EUA e seus supostos princípios liberais (no sentido de afinidade com a liberdade humana e de estimular as melhores qualidades da "raça"). Há uma qualidade nos livros: eles estimulam a leitura de outros. Agora, se você não vive em um mundo onde o racismo explícito de Lobato não encontra correspondência, como era o meu em um subúrbio do Rio de Janeiro, periga ratificar os preconceitos, fundamentá-los, assentá-los como valores para a vida inteira. Não recomendaria seu uso em escolas de primeiro grau. São livros que podem ser lidos, mas contém inúmeras contradições e controvérsias cuja recepção, em crianças, pode tender para a formação de arquétipos algo fascistóides. Isso só não aconteceu comigo mesmo (?) por que, suponho, a continuidade no hábito da leitura me apresentou percepções diferentes das de Lobato, levando-me a questioná-lo e, depois, francamente descartá-lo. Mesmo assim agradeço-o pelo Quixote e por me apresentar outras narrativas que, recontadas por ele mas de autorias diversas (inclusive a mitologia grega, o governo de Péricles na Grécia, e a de fonte nacionalidade própria, qual seja, a busca pelo petróleo no Sítio do Pica-Pau amarelo), me estimularam à leituras outras. Pelo que sou hoje, bem, talvez careça repensar isso tudo...
marcos nunes em novembro 12, 2010 9:24 AM
#19
Turma do Fla x Flu, tratando-se de um debate sobre o que fazer em sala de aula, na qual o livro em questão é um material pedagógico em mãos de um educador, suponho que "notas explicativas" são a essência mesma do processo.
Se não houver explanação, contextualização, orientação, imagino eu, não há magistério.
Não sei se carece de desenhar.
Idelber em novembro 12, 2010 9:26 AM
#20
"entregar texto sem contextualização e preparação a um garoto de 11 anos? Ora, você pode fazer isso na universidade (dando como tarefa uma pesquisa do aluno por conta própria), mas no ensino fundamental é necessário algum tipo de guia"
concordo não. sou a favor do livro nas bibliotecas das escolas, nos cantos de leitura, sem contextualização mesmo.acho que se se quiser adotar como paradidático,vale o contraponto, a discussão.Mas a obra de Monteiro Lobato deve estar acessível independente disso.
ai,meu deus,vou trabalhar, me tira daqui,tchau.
mani em novembro 12, 2010 9:48 AM
#21
Há sempre uma histeria quando algo que cheire ser "politicamente correto" é esboçado... Qual deve ser o papel do MEC senão orientar didaticamente? Ninguém propôs censura nenhuma, mas que o racismo (sim, é racismo...) na obra de Monteiro Lobato seja trabalhado e discutido e não simplesmente incorporado como algo normal. Quanto ao deputado Aldo Rebelo, ele tem tido um comportamento lamentável há um bom tempo... Nem digo nada daquela bobagem do dia do Saci que ele propôs (não do dia em si, mas por ser comemorado no mesmo dia que o dia das bruxas, para "competir" com uma "maléfica" influência norte-americana: uma singela festa...), mas ele teve um papel lamentável na modificação do código florestal (se aliando à UDR) e agora ficando ao lado de pessoas do nível do Augusto Nunes. Monteiro Lobato é um dos maiores escritores do Brasil, mas tem que ser visto como um homem do seu tempo, com todas as contradições de um ser humano: simpatizante do PCB, mas partidário da eugenia; nacionalista mais admirador dos Estados Unidos; moderno mas anti-modernista. Há muito mais riqueza em explorar estas contradições do ser humano do que bajulá-lo como se estivesse acima do bem e do mal.
Laércio Nunes em novembro 12, 2010 9:58 AM
#22
Mani, estamos dizendo a mesma coisa! Ninguém está dizendo que o Lobato não tem que estar nas bibliotecas, na íntegra, disponível etc.
Eu estou chamando de contextualização o que você chama de material paradidático. Se vem em forma de um apostila extra ou em forma de notas ao pé, é decisão para se tomar em cada contexto. O parecer só oferece subsídios para isso.
É o que o Laércio diz: Há muito mais riqueza em explorar estas contradições do ser humano do que bajulá-lo como se estivesse acima
do bem e do mal.
Idelber em novembro 12, 2010 10:01 AM
#23
Pensando bem, não seria nada mal se, junto à Bíblia, viesse uma nota explicativa dizendo que as manifestações de machismo, homofobia e racismo do texto não representam necessariamente a opinião do autor (Deus?)...
Laércio Nunes em novembro 12, 2010 10:03 AM
#24
Idelber, li o texto do Deonísio e me parece que ele está falando de um momento anterior ao do parecer do MEC: a avaliação do livro (e sugestão de sua proibição) pela SEPPIR. Isso é de fato um absurdo. Nos EUA, se bem me lembro do que li a respeito, em alguns estados proibiram "A Cabana do Pai Tomás", "Tom Sawyer" etc. Desde quando isso ajuda a diminuir algum tipo de racismo? Obscurantista, isso sim. Porque aí alguém vai decidir o que é certo e o que não é de se ler. E não quero delegar esse direito a ninguém.
Quanto ao parecer do MEC: Ler, discutir, sempre. Preparar melhor os professores, que é disso que estamos precisando e muito. A boa leitura, como a de Lobato, estimula. Tem passagens racistas? Sem dúvida. Mas a solução não é avisar antes, acho. É discutir durante. Discutir depois. Contrapor. Contextualizar.
Renata Lins em novembro 12, 2010 10:20 AM
#25
Caro, Idelber. Lembra que eu havia lhe falado que eu tinha lido um texto ótimo sobre o tema. Pois, então, esqueça! O seu texto foi em disparado o melhor, mais esclarecedor, muito mais importante pra mim que pretendo iniciar a minha carreira de professora, que há muito tenho adiado. Agradeço imensamente por compartilhar suas idéias que tem me ajudado a repensar sobre como eu poderei levar isso até as salas de aula. Até!
Patricia Fornitani em novembro 12, 2010 10:53 AM
#26
É isso mesmo. Literatura não é filologia. Se fosse assim, teríamos que aprender hebraico ou aramaico pra ler a Bíblia. O tempo presente do texto é uma relação com o passado, uma relação de afinidades eletivas, de redenção (Benjamin). O texto não é estático e não está separado do mundo: é um campo de forças polarizado por forças que o excedem e o atravessam, é um campo de múltiplas energizações, de fluxos e refluxos (Deleuze).
Bruno Cava em novembro 12, 2010 10:54 AM
#27
Primoroso texto, Idelber. (Sem tirar nem pôr)...
Eu, como professor de L. Portuguesa, já trabalhei com crianças, e sei que elas levam a sério textos como esse para coloborar com algum início de racismo que colheram de sua própria vivência em nossa sociedade brasileira.
Não ser a favor das notas explicativas é o mesmo que ser a favor do bullying. Será que o Aldo aprova o rodeio de gordas produzido por UNIVERSITÁRIOS paulistas?
Não ser a favor de uma releitura ou notas explicativas é se submeter ao texto, sem fazer com que a leitura seja uma reflexão para nosso mundo. É por si só um contrasenso, uma INvolução a ideia de Aldo Rebelo.
Abs!
Dandi Marques em novembro 12, 2010 10:57 AM
#28
Idelber,
O que vejo como um problema, ou um desafio, é a questão de ter crianças sendo alfabetizadas e levadas à leitura de textos literários e estas mesmas crianças terem em casa pais analfabetos ou semi-alfabetizados sem ter condições de dar um contraponto crítico, como vivido por muitos. Como encaminhar isto?
Pynkoo em novembro 12, 2010 11:15 AM
#29
O Aldo Rebelo realmente não é chegado em literatura sagrada. Toda Biblia que se preze tem nota de rodapé justamente para contextualizar o período histórico em que os textos foram escritos.
Paulo Roberto Silva em novembro 12, 2010 11:23 AM
Idelber em novembro 12, 2010 11:35 AM
#31
Eu conheci o Aldo Rebelo no fim dos anos 70, no movimento estudantil. Na época em que eles, do PCdoB, liam Stalin e Enver Hoxha a sério. Gostaria muito de ver um grupo político pecedobista lendo, hoje, esses autores clássicos sem contextualizar um pouquinho que seja.
Helio em novembro 12, 2010 11:43 AM
Conceição Oliveira em novembro 12, 2010 11:53 AM
#33
Eu confesso que também saí chutando por reflexo (em outro blog) depois de ler uma notícia de segunda mão sobre a suposta "censura" do MEC ao Lobato, sem ler primeiro o parecer original.
Porém, embora eu reconheça que o parecer do MEC não é censura (nem de longe), não posso dizer que concordo com ele.
O erro fundamental, a meu ver, é o governo se meter a recomendar livros para leitura nas escolas. A escola deve ensinar os alunos a fazer bom uso da língua, mas não deve recomendar a leitura de livros específicos, nem mesmo os tais "clássicos". Essa escolha cabe exclusivamente ao leitor. Ou seja, a escola deve ensinar Português, mas não deve se meter a definir ou ensinar Literatura.
Ao fazer uma lista de livros recomendados, o governo está tentando definir oficialmente o que é uma obra "clássica" ou "importante" (e portanto de leitura aprovada, se não obrigatória). Por implicação, ele está declarando as demais obras como "não clássicas", e portanto de menos valor ou pior.
No fundo essa é uma classificação arbitrária. O status de "obra clássica" é em boa parte auto-gerado: todo mundo lê porque é um clássico, e é um clássico porque todo mundo lê. Porque o estado tem que se meter a oficializar esse círculo vicioso?
Além disso, todo livro contém coisas boas e coisas ruins; e essa rotulação é subjetiva e muda com o tempo. Muitos dos "clássicos", por exemplo, falam da monarquia, feudalismo, escravidão, guerras e duelos em tom positivo. Quantas glosas seriam necessárias para tornar Camões ou Dumas politicamente corretos?
Aprender a ler inclui aprender a avaliar e filtrar o bom do ruim por conta própria, sem depender de notas de rodapé (e inclusive aprender a filtrar as notas de rodapé!) Mas ao recomendar um livro, o governo está implicitamente dando seu aval a todo o conteúdo, ou pelo menos ao que não for explicitamente rotulado como ruim.
Em vez de recomendar este ou aquele livro, seria muito melhor deixar que pais e professores de cada escola montem sua biblioteca como bem entenderem; e deixar que cada aluno escolha livremente os livros que deve ler.
Jorge Stolfi em novembro 12, 2010 12:13 PM
#34
Ah, desculpe, claro que os professores precisam de uma nota explicativa, que lhes diga: "olha lá, hein, educador, não pode comparar pessoas da raça negra com macacos, nem com urubus." Sem isso, nenhum processo pedagógico seria completo.
Turma do Fla x Flu em novembro 12, 2010 12:23 PM
#35
Não, Turma do Fla x Flu, a explicação seria um pouquinho mais complexa que essa. A nota que você cita é a que a gente usa para alfabetização de trolls adultos anônimos. Algo assim como "olha, comentarista de blog, é extremamente desonesto vir aqui com o IP 200.161.73.158 e assinar um dia ODEC, no dia seguinte Corretor Ortographyco, no seguinte Nilo Jóia, no seguinte Fla x Flu, no seguinte outro nome".
Idelber em novembro 12, 2010 12:28 PM
#36
Idelber
recentemente fiz, depois de velho, graduação em educação física na UFMG
tive vários "pegas", amistosos alguns, outros nem tanto, com os professores que ensinavam como dar aula nas escolas sem a menor noção da realidade da escola
isso na UFMG!
a minha proposta, que eu pretendia inclusive desenvolver na dissertação de fim de curso, era a de que todo professor de universidade pública, especialmente os que lidam com licenciatura, tivessem a obrigação de ministrar uma disciplina que fosse em escola pública, como parte de suas funções universitárias
nas escolas escolhidas para visitarmos, encontrávamos as exceções que confirmam a regra
propus então que sorteássemos a escola para as visitas, ninguém aceitou
acho realmente que esse assunto mereceria uma discussão bem aprofundada
rabbit em novembro 12, 2010 1:16 PM
#37
Pois é, Rabbit, eu adoraria ver determinadas figuras em sala de aula, com um exemplar de Caçadas de Pedrinho, achando que é só jogar o livro nas mãos das crianças que a luz se faz. Adoraria mesmo.
Idelber em novembro 12, 2010 1:19 PM
#38
Que caixa de comentários fenomenal. Tá clarificando demais vários pontos da questão pra mim. Super agradeço a todos e a vc, prof. ;-)
Yla em novembro 12, 2010 1:33 PM
#39
É tradição da casa =)
Turma de comentaristas é muito boa.
Idelber em novembro 12, 2010 1:38 PM
#40
Idelber
essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação;
Gostei que vc colocou "sancionada" em negrito, pois acho que está aí o centro da questão. O livro, em si, já sanciona o racismo, pois vem da heroína e personagem com a qual a criança mais se identifica. Se a escola ensina o livro como leitura obrigatória, sem desqualificar esse racismo MIL VEZES, essa sanção é intensificada ao cubo.
Só quem NUNCA lidou com criança, dentro ou fora da sala de aula, acha que NÃO vão acontecer cenas como:
"seu preto beiçudo!"
"paulinho, o que é isso?!"
"está no livro que a escola deu!!"
alex castro em novembro 12, 2010 1:53 PM
Ze Duarte em novembro 12, 2010 2:24 PM
#42
Bom, a meu favor eu tenho a dizer que nunca me pus um apelido que lhe parecesse simpático, não é?
E se não quer anonimato na sua caixa de comentários, basta dizer - antes.
De qualquer modo, até. (Mas que você não me convenceu do seu ponto de vista, ah, não convenceu mesmo).
Turma do Fla x Flu em novembro 12, 2010 2:34 PM
#43
E se for assim,Alex?
Essas cenas vão acontecer com livro ou sem livro, ou vc acha que metade dos meninos negros daqui de Salvador não são chamados de neguinho, negão ou pelé?
Muito pelo contrário, o livro na escola é a oportunidade de discutir, expor à luz o racismo disfarçado e Monteiro Lobato dá uma oportunidade que eu considero única, que é a de discutir o racismo amoroso, daquele que não odeia ou despreza abertamente.
Os livros politicamente corretos além de pobres literariamente transformam o racista num vilão malvado, fazendo com que seja impossível para a criança reconhecê-la entre os que a cercam.
Como disse o Idelber, quando o livro é adotado como material auxiliar na Língua Portuguesa, é discutido, exposto.
E como eu disse, uso monteiro lobato há anos e nunca tive problemas nem turmas que não respondessem positivamente à discussão.
Jorge
A escola tem bastante liberdade de escolher os livros, mas tem que ter, sim um direcionamento, por causa do programa de compra de livros, que é feito pelo governo federal. aí eu teria que entrar na questão da decisão política.
Mas é necessário que as crianças entrem em contato com a literatura na escola, mesmo porque não dá pra ter Língua Portuguesa sem literatura e alguém aí estava perguntando sobre como fazer quando os pais não tem condições pra dar o contraponto. Isso é a minha realidade no geral, é abrir a porta e esperar que eles venham a nós.
Olha, mundo ideal não tem. a gente faz o que pode e espera que o pai e a mãe em casa não chamem ninguém de "preto desgraçado" nem diga que lugar de mulher é pilotando fogão ou que viado é falso-ao-corpo.
Ao contrário, eu passo o tempo todo desconstruindo um monte de preconceitos e rezando pra que os meus não façam muito mal a eles.
E de vez em quando ainda tenho que ouvir um pai ou outro perguntando que direito eu tenho de dizer o que eu disse.Imagine se eu dissesse tudo que eu penso...
mani em novembro 12, 2010 2:37 PM
#44
A pseudonímia é permitida (não existe "anonimato" na internet), mas a multiplicação de personalidades, não.
Não o é em em nenhum blog, é daquelas coisas que não precisa avisar, sacumé? Mais ou menos assim como não usar epítetos racistas, não comparar seres humanos a animais ou ... não fingir-se de cinco!
Idelber em novembro 12, 2010 2:40 PM
#45
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk, rindo muito e concordando totalmente com comentário de Laercio Nunes, n. 23.
Essa iniciativa teria o meu total apoio!
aiaiai em novembro 12, 2010 2:44 PM
#46
Apaguei umas duplicações que havia, eram várias.
Jorge, eu reforçaria o que a Mani está dizendo: sem algum tipo de diretriz, não há a menor possibilidade de operacionalizar um currículo na área de, por exemplo, literatura. As escolas e os professores mantêm considerável liberdade, mas eu não consigo imaginar a ausência completa de diretrizes. Inclusive porque há dados como o programa de compra de livros, que dependem em termos práticos da existência de alguma linha geral a se seguir.
Idelber em novembro 12, 2010 2:47 PM
#47
Se simplesmente trocassemos o comentário racista do Lobato por algo relacionado ao torcedores do Atlético-MG vc acha que seria socialmente aceito já que faz parte do cancioneiro popular ridicularizar as frangas?
Marcelo em novembro 12, 2010 2:51 PM
#48
Idelber, o texto de Paulo Moreira Leite é excepcional, mas os comentários... Valha-me Nossa Sesnhora!!!
Clara em novembro 12, 2010 2:51 PM
#49
Numa sociedade que se propõe a fornecer um eficiente letramento às novas gerações, a variedade de textos é imprescindível. Não há que condenar a recomendação de notas explicativas em obras em geral, ainda mais nas que escancaradamente veiculam conteúdos racistas e preconceituosos. Nenhum autor é vaca sagrada. Como leitor, desde a mis tenra juventude, me guiei por paratextos nos livros que escolhia ler, muitas vezes as grandes descobertas estavam nos prefácios e notas de rodapé. Isto me fez decidir ser professor e repassar aos alunos os prazeres das descobertas de sentidos menos evidentes, o que incluía os desmascaramentos de preconceitos. Isto nunca me afastou dos clássicos ou do cânone literário.
Agora, no mundo real, sabemos que os leitores em geral leem só a superfície das mensagens (e aliás foi esta a aposta da imprensa ao iniciar o escândalo injustificável e tentar demonizar o CNE). Quem achaque é arrogância, censura, ato inquisitorial o parecer não o leu. O leitor que alega se sentir ofendido com esta suposta tutela deve lembrar que todo ato de comunicação, em maior ou menor grau, visa a interferir no comportamento do interlocutor. Afinal, quando participamos nesse blog com nossos comentários, estamos fazendo inclusive isto. E não aceitaríamos a pecha de autoritários por isso. Pois bem, estudos introdutórios e notas explicativas, como paratextos, como todo ato comunicativo, quer sim influenciar o comportamento do leitor. Podem servir para torná-lo mais crítico; embora devam se submeter a nosso senso crítico tanto quanto a obra literária ao qual se referem.
Mas o curioso é que, nessa história toda, o que se tenta inibir é o Parecer do CNE, e de uma forma autoritária. Busca de holofotes? Tentativa de associar as instituições do Governo atual e futuro com cerceamento de liberdade? Má-fé pura? Interesse editorial, para não ter de gastar numa nova edição que inclua estudos explicativos? Sjam quais forem os interesses, não foram confessados.
RBM em novembro 12, 2010 2:52 PM
#50
Clara, aquilo é público leitor de portal. Não tem jeito, é um lixo. Se o Paulo abrisse um blog artesanal, dele, ele teria outro tipo de comentarista.
Idelber em novembro 12, 2010 2:53 PM
#51
Já eu acho que devíamos proibir livros no brasil...se gente bem educada e até educadores não conseguem ler um parecer do MEC e entender é melhor não deixar literatura na mão desse povo! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
To rindo para não chorar, pq dá vergonha ver gente que é educador falando que o parecer do mec sugere abolir o livro do lobato.
para esse povo, meus três ais, bem pausados: ai ai ai!
aiaiai em novembro 12, 2010 3:03 PM
#52
Idelber,
Muito interessante e esclarecedor o seu texto. Como professora que já fui, concordo plenamente com você.
O problema é que muita gente lê textos na internet e antes mesmo de procurar enteder o que se passa abraça causas que na realidade seuquer existem.
Flávia Lara em novembro 12, 2010 3:29 PM
#53
Excelente texto! Esclarecedor.
Essa falsa polêmica se deve ao fato de que as pessoas leem as manchetes dos jornalecões e as tomam por verdades. Não se dão ao trabalho de investigar os fatos.
Muito perigoso esse endeusamento dos autores do século passado. Melhor pensar neles como deuses da mitologia grega: cheios de defeitos, embora deuses.
Hitler e seu ministro Goebbels souberam aproveitar bem essa tendência ao endeusamento de textos antigos. Pegaram os mais importantes livros "sagrados" hindus, os Vêdas*, e de lá extraíram a famosa frase: "é preciso preservar a pureza da raça ariana". Muitos sábios d'antanho se deixaram levar. Afinal, tratava-se de livros de mais de 2000 anos de idade. Não podiam ser contestados.
__________________
* Tudo indica que o racismo - discriminação das pessoas pela cor da pele - foi inventado por aqueles povos nórdicos - ancestrais dos vikings - que invadiram o território que hoje chamamos de Índia e Paquistão.
Roberto Locatelli em novembro 12, 2010 3:47 PM
#54
Idelber, a obra de Mark Twain 'As aventuras de Huckleberry Finn, também não sofreu a mesma crítica nos EUA, à algum tempo atrás? Se é que ainda não acontece.
Bem, eu nunca passei perto de uma sala de aula como professor, aliás nem mesmo passei perto do título. Nunca segurei um pedaco de giz, muito menos um giz inteiro heheheh.
Mas eu acho difícil que se apresente um texto que nomeia um negro de 'preto beiçudo' , entre outros termos, e a partir dai se inicie uma discussão sobre racismo entre alunos com idade de 10 anos, ou inferior. Ou, num outro exemplo, se for da alçada de um professor comentar sobre religião, iniciar essa aula descrevendo o que alguns padres fazem com crianças com a idade de seus alunos, e iniciar, a partir dai, um discussão sobre os valores morais religiosos.
Sinceramente, não gostaria de estar na pele de um professor.
fm em novembro 12, 2010 3:53 PM
#55
Idelber, obrigadíssimo pela recomendação e pelo texto, toca no ponto. Parabéns pela paciência com a trolagem de quem, se leu seu texto e os outros a que faz referência, deve ser analfabeto funcional e merece toda nossa compaixão.
E aviso ao Jorge: para orientar a discussão e sua profissão de fé liberal, talvez seja bom você saber que o governo não está se metendo no sacrossanto terreno da decisão privada criando listas de livros. O governo COMPRA esses livros e os distribui, daí ter de ter um critério sério de seleção.
E te garanto, o setor privado aplaude com olhos cheios de lágrimas de gratidão essa intervenção do Estado no mercado. Briga de facão por ela, aliás.
SLeo em novembro 12, 2010 4:12 PM
#56
O Sergio tocou no outro ponto chave, de que tratei aqui outro dia: a briga pelo mercado de livros didáticos e paradidáticos é peleja de foice no escuro, briga de cachorro grande mesmo.
É um mercado cativo, uma reserva que, se não me falha a memória, representa 50% ou mais do mercado editorial brasileiro.
Idelber em novembro 12, 2010 4:19 PM
#57
Ah, que vontade de terminar logo o trabalho que eu tenho que fazer e poder voltar a participar mais ativamente dos meus blogs preferidos.
Adorei a conversa. Concordo contigo 100%, e endosso a mani também. Abraços
Ana Paula Medeiros em novembro 12, 2010 4:25 PM
fm em novembro 12, 2010 4:32 PM
#59
Idelber,
Um outro problema dessa discussão, q acho incrível não ter sido ainda mencionado, então menciono eu, é que enquanto temos profissionais da educação discutindo políticas de sala de aula e métodos de ensino de literatura polêmica, grande parte da grita é puramente emocional.
Muitos dos adultos que mais vocalmente defendem Lobato estão claramente defendendo não o autor, mas sim a própria pureza presumida de suas lembranças nostálgicas de infância.
Afinal, se o livro que lemos com tanto amor e tanto prazer e tanta inocência, na verdade, é racista, então isso levanta mil outras perguntas incômodas: será que eu também sou racista? será que outros livros e filmes que eu amo também são racistas? será que o Brasil é um país racista? será que tenho obrigação de fazer algo a respeito?
Então, como vemos, é um trem de pensamento bastante perigoso. Para mim, grande parte dos defensores de Lobato (nao todos, claro, tem a Mani e outros) está histérico por denegação dessas possibilidades...
alex castro em novembro 12, 2010 4:38 PM
#60
Idelber,
Desculpe desvirtuar o assunto. Gosto de indicar alguns dos seus textos no facebook. No entanto, quando eles são postados o link ainda trás o avatar da Dilma. Como já me desgastei um pouco no front, pelo lulismo de resultados, queria pegar leve nos temas políticos. Penso que a imagem possa repelir alguns leitores cansados de eleição. Apenas uma sugestão.
Grande abraço,
e obrigado,
sempre,
Thomas
Thomas em novembro 12, 2010 4:39 PM
#61
Oi, Thomas, existe uma opção no Facebook para eliminar a miniatura ou incluir outra. É fácil, tem um quadradinho na própria janela de compartilhamento.
Idelber em novembro 12, 2010 4:41 PM
#62
Ah, na mosca, Alex, tem a leitura freudiana para se fazer aí, com certeza.
Idelber em novembro 12, 2010 4:42 PM
aiaiai em novembro 12, 2010 4:44 PM
Pepino, o Breve em novembro 12, 2010 4:55 PM
#65
ah, bom, alex, eu já ia me ofender :)
obrigada pela ressalva.
mas eu confesso que pra mim, ao contrário, foi muito difícil vencer a minha lembrança amorosa pra encontrar um jeito de lidar com todos os problemas que haviam na obra de Lobato.A minha dificuldade foi exatamente resgatar os livros da minha infância, a importância que tiveram na minha vida.
mani em novembro 12, 2010 5:15 PM
#66
Bem, depois do comentario da mani, eu decidididamente, acertei em não optar pela carreira de professor. Não que um dia tenha me passado pela cabeça.
Mas, como seria então, para um professor, abordar textos que contenham religião, sexo e drogas.
fm em novembro 12, 2010 5:51 PM
Carolina Vigna-Maru em novembro 12, 2010 5:56 PM
#68
Em relação ao comentário #33, acredito que a recomendação de títulos seja para a distribuição dos livros pelo PNBE. Se não, me desculpem o palpite errado!
Flavia em novembro 12, 2010 6:00 PM
#69
Mani,
Minha dificuldade foi exatamente igual a sua.
Devo admitir que o texto desrespeitoso do Aldo me sinalizou a ler com mais atenção os textos do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. A pá de cal é este do Idelber. Perfeito.
Araquem em novembro 12, 2010 6:02 PM
Carolina Vigna-Maru em novembro 12, 2010 6:32 PM
#71
Oi, Idelber, vou contar uma historinha que aconteceu comigo e minha filha (4 anos, se alfabetizando).
Seis meses atrás, ela ganhou uma coleção de livrinhos do Monteiro Lobato adaptado para crianças pequenas. Como eu simplesmente adoro ML (li a coleção completa aos 10 anos, "Os doze trabalhos de Hércules" é o meu favorito), por curiosidade, dei uma passada de olhos antes de ler para minha pequena. Resultado, os livros estão guardadinhos na estante, à espera que ela tenha maior idade e compreensão, quando eu poderei explicar racismo, sexismo e outros ismos. Qualquer pai ou mãe, com um mínimo de responsabilidade, sabe que nessa idade o que dizemos para as crianças é A VERDADE (para elas). Sem entrar nos méritos do parecer do MEC, sendo mãe de uma criança que estuda em colégio particular, sem um negro na salinha de aula, seria criminoso não me preocupar com isso. Preconceito se aprende, mas eu não quero ensinar isso para minha filhota.
Aline A. em novembro 12, 2010 6:41 PM
#72
Idelber,
Não há como ver esse debate sem associá-lo à introdução escrita por Wayne Booth para o livro "The company we keep", em que Booth rememora o pequeno escândalo causado, nos anos 60, por um jovem professor negro da Universidade de Chicago que se recusou a ensinar "Huckleberry Finn" por se sentir pessoalmente ofendido com todos os estereótipos negativos em relação aos negros americanos transmitidos na narrativa de Twain. No alto de suas torres de marfim, os professores da universidade não conseguiam entender porque Paul Moses - o jovem professor- não lia o romance "como um romance", isto é, respeitando a integridade de sua autonomia literária, sem fazer essas inferências extraliterárias acerca da obra.
Que os americanos tivessem uma visão redentora da literatura nos anos 60, é compreensível, já que tal visão está no centro da ideologia de uma educação "liberal". O mesmo não se pode dizer do Brasil do ano 2010. É urgente retomar uma visão materialista da literatura. Literatura é feita por seres humanos precários para outros seres humanos igualmente precários. É necessário sempre fazer uma crítica ao fetichismo da "grande obra literária", canonizada e celebrada por gerações de aldos rebelos. Fetichismo é atribuir poderes e qualidades a um objeto que de fato não os possui. A literatura só pode fazer algo a seus leitores na medida em que os leitores se tornam conscientes do que eles podem fazer da literatura. É preciso colocar o modelo idealista e redentor da literatura de cabeça pra baixo: Não é a literatura que cria um modo de agir no mundo, isto é, que na pureza de suas palavras impressas no livro nos comunica algo inefável. São os nossos posicionamentos éticos que potencializam a literatura, e a impedem de tornar-se letra morta, fixa em seus valores originários, sejam eles quais forem, para continuar dialogando com nossas angústias e problemas. Acho que é isso que está sendo feito - e deve ser feito - em relação a Monteiro Lobato.
Cesar em novembro 12, 2010 7:23 PM
#73
Idelber, em #44 'A pseudonímia é permitida (não existe "anonimato" na internet), mas a multiplicação de personalidades, não.", Vc censurou a esquiofrenia hahahahah...
Meu caso é mais complexo; em relação aos IPs, eu tenho mais de um IP, e com a mesma personalidade.
Multiplos IPs... serei eu um caso de esquizofrenia digital?
fm em novembro 12, 2010 8:45 PM
#74
Maravilha você ter tido a paciência de baixar a bola e retomar uma discussão minimamente produtiva sobre o assunto, Idelber.
O problema da grande imprensa é que, seja por preguiça ou por má vontade, eles:
1. Não leram o parecer;
2. Se bobear nunca leram Lobato e de qualquer maneira não se preocuparam em pelo menos passar os olhos no livro em questão;
3. Gritam palavras de ordem do tipo "politicamente correto" sem ter a mínima idéia do que isso significa;
4. Querem emitir uma opinião contundente, que faça pauta, mesmo assim.
Os caras são de um primarismo de dar dó, ainda mais qdo a gente lembra que eles são profissionais pagos para fazer jornalismo.
Paulo Moreira em novembro 12, 2010 9:48 PM
#75
Ai, meu saco,
depois da Dilma!
Ai, meu saco,
depois do ENEM!
Ai, meu saco,
agora, é o Lobato!
HAJA SACO!!!
À pseudocultura
do pensamento
este apontamento…
BOCA DA ALMA
by Ramiro Conceição
À luz da Biologia,
a boca termina no cu.
À luz da Poesia,
a boca termina na alma!
Entre as demências
prefiro aquela contida num beijo
ou nas 4 cordas — dum violino.
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 10:16 PM
#76
aline,se você aceitar uma sugestão, deixe os livros para quando ela puder ler sozinha.Quando os pais leem em voz alta, sancionam o conteúdo.Evite explicar antes, espere que ela questione o que precisar.
fm
as crianças são a fonte da minha sanidade. mesmo maltratadas, ignoradas, subvalorizadas, subestimadas elas resistem e respondem muito bem ao menor estímulo.
eu até postei um pouco da minha experiência com Monteiro Lobato e as crianças.
Conceição
Eu discordo completamente do artigo. Não tenho tempo pra elaborar porque, mas ele me parece completamente errado.É como dizer que o céu é azul porque o boto é cor de rosa.
talvez seja porque ela enxerga um unico aspecto, perde de vista todo o universo de fantasia, a importância psicanalítica, a vanguarda na visão da mente infantil, etc, etc.
mani em novembro 12, 2010 10:30 PM
#77
Do#76:
"...as crianças são a fonte da minha sanidade. mesmo maltratadas, ignoradas, subvalorizadas, subestimadas elas resistem e respondem muito bem ao menor estímulo." É isso...
O NENÊ DO PEIXE-BOI
by Ramiro Conceição
Quando o nenê
do peixe-boi nasce,
a mãe,
a peixe-mulher,
o leva à superfície
para respirar…
E depois desce.
No silêncio,
por sete dias
sem descanso,
pois não é Deus,
a mãe vê o seu nenê
aprender a sua parte.
Ora,
não faz a mesma coisa a arte
com seu nenê de 30000 anos?
:
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 10:50 PM
#78
Ai, meu saco,
Depois do serra,
Depois da crepe,
Agora encerra?
Não!
E vem o ENEM,
Salário que não convém,
Um Lobato que ninguém tem,
A Lajolo que vai e vem.
E o Ramiro que vem também.
fm em novembro 12, 2010 11:00 PM
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 11:07 PM
fm em novembro 12, 2010 11:14 PM
#81
Assim seja,
pra depois de todos nós!
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 11:18 PM
#82
Pela glória, que seja,
Assim é que Deus deseja,
O todo poderoso.
E por mais atado que esteja,
amém a todos nós!
fm em novembro 12, 2010 11:28 PM
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 11:33 PM
fm em novembro 12, 2010 11:36 PM
#85
Então
lhe dou de presente...
JARDIM DOS CASTANHOS
by Ramiro Conceição
Não tenho casa,
porque a tenho
sob os cabelos.
Meu jardim dos castanhos
será o que verei, vejo e vi:
uma celebração do existir.
Assim, quando vier o medo
em que o senhor é o escuro
da certeza de que - se é só,
uma alegria terei de dizer, ao olhar ao lado:
“Obrigado, por te amar até o dia que findará
pela falta de sorte, que será a nossa morte.”
Ramiro Conceição em novembro 12, 2010 11:46 PM
#86
Ok, Ramiro, vc venceu.
Eu não brinco mais com vc!
Vc é o Jason da poesia!
fm em novembro 13, 2010 12:09 AM
#87
Bem, deixemos pra lá...
Este blog é do Idelber...
Ramiro Conceição em novembro 13, 2010 12:17 AM
#88
Ramiro, quero deixar registrado que vc é muito polido.
Muito diferente do Jason dos filmes.
Estava apenas brincando, seus poemas são muito legais.
muito legal seu presente #85. Agradeço
abrs
fm em novembro 13, 2010 12:24 AM
#89
Sei que não tem tanto a ver com o post, Idelber, mas achei curioso o tom ameno com que você cita o deputado Aldo Rebelo, como uma espécie de "nacionalista excêntrico", no twitter você até falou algo como "até respeito o deputado"...
Você tem sua opinião, lógico, mas hoje em dia é difícil ver gente de qualquer matiz de esquerda que mantenha algum respeito pelo que se tornou o deputado Aldo Rebelo: O segundo membro mais importante da bancada ruralista (atrás somente de Kátia Abreu), que defende bravamente os interesses das multinacionais desmatadoras que têm financiado suas campanhas
Não sou eu quem digo isso, é gente que sabe muito sobre essa área, o Sakamoto:
Novo Código Florestal é uma bofetada no país
Quem financia a Frente Nacionalista?
Ivan Valente grita “truco!” na orelha de Aldo Rebelo
--
ps.: E como se não bastasse ser o relator desse criminoso novo Código Florestal, aqui vai outro brinde pra demonstrar quais são os interesses que o Aldo Rebelo defende atualmente e que de esquerda ele não tem mais nada:
Aldo Rebelo critica demarcação e leva Troféu Frango
JG_ em novembro 13, 2010 12:37 AM
#90
Infelizmente perdi a referência do comentarista que sugeriu a contextualização depois da leitura, isto é, em razão de uma demanda dos alunos. Achei importante.
Discuti calororosamente no portal do Nassif sobre essa questão. Acho que há problemas diferentes interpolados: a mídia, o lugar do professor,a perspectiva particular na formação de um leitor, o pronunciamento de um órgão do Estado sobre uma obra literária, mesmo com finalidade educativa.
Minha visão pessoal e de historiadora às vezes se exaspera com o rumo do multiculturalismo global. Acho ainda que uma criança não lê uma história da mesma maneira que um adulto.
"Iracema" de José de Alencar, um "épico" intencionalmente silencioso em relação aos africanos, escravos ou não, na formação da "identidade" nacional é uma obra muito mais problemática do que a imputação de racismo aos personagens de Monteiro Lobato. O destaque da adorável Tia Anastácia na obra ultrapassou isso, talvez porque o autor não fosse debatido em sala de aula. Vinha pelas mãos dos pais, amigos da família e críticos literários de bons jornais.
Simone del Rio em novembro 13, 2010 2:30 AM
#91
Paulo Moreira, eu lhe agradeço pelo comentário. O seu post sobre o assunto foi bem inspirador para mim, apesar de breve. É isso o que você disse: por mais que eu me acostume com as presepadas da mídia brasileira, ainda me surpreendo com a total falta de informação dos caras sobre o assunto acerca do qual estão falando. É incrível. Agora, o próprio blog da Companhia das Letras está traficando informação equivocada sobre a coisa. É triste.
JG: eu tenho tentado ser contido nas palavras, daí a polidez na referência ao Deputado. Confesso que há tempos tenho profundas diferenças com ele na concepção do que é a cultura brasileira. Os recentes chamegos dele com a bancada ruralista, claro, não ajudam.
Cesar, é chave o que você diz, e teríamos que voltar a essa discussão em algum momento: a sacralização da literatura, justamente por gente que, dá pra se ver de cara, não ter muito costume de ler obras literárias.
Flávia, seu palpite não tem nada de errado. É isso mesmo, é o PNBE.
Idelber em novembro 13, 2010 3:45 AM
#92
Tudo sempre acontece dentro de um contexto de ações. Supondo que o ambiente escolar é um centro inteligencia e saber, ao menos um pouco acima da média, os professores e alunos haverão de se desencumbir das contextualizações necessárias à obra de Lobato. Complica-se, explica-se, e confia-se!
Um abraço.
Sérgio Troncoso em novembro 13, 2010 9:19 AM
#93
Professor tem que contextualizar, sempre!
Estar "na pele de professor", como comentou fm, na postagem 54, é trabalhoso, desafiador, frustrante inúmeras vezes e incrivelmente libertário.
A abordagem, o recorte, o cadeamento dos conteúdos, a seleção dos mesmos...tudo isso confere o modo particular de cada professor ao exercer sua atividade diária.
Pra ser bem sincera: não li e já não gostei do que Rebelo escreveu rsrsrs tenho pavor da caricatura que este senhor se transformou....
A princípio e por princípio, sou a favor do texto limpo, sem notas explicativas e blá blá blá de rodapé.
Triste é que, no mundo real, cuja concretude nos ofende muitas vezes, nem todos os professores (ou melhor, provavelmente a maioria deles) não fará a necessária contextualização.
Contextualizar, no caso, é alertar para o momento histórico que o livro foi escrito, discutir o quanto a humanidade avançou em direção a relações mais igualitárias, nas quais o preconceito deve ser sistematicamente combatido.
Só pra exemplificar, na minha prática docente, trabalhando Fisiologia Humana, nos conteúdos relativos ao Sistema Nervoso, tenho que apresentar as funções cerebrais sediadas em determinadas regiões cerebrais – localizadas, portanto. Ao apresentá-las, discuto como este conhecimento foi historicamente construído, o que inclui lobotomias e ablações em, por exemplo, sujeitos humanos acometidos por severas doenças mentais. Enfim, o “amansamento” dos loucos; que convive, historicamente, com o enclausuramento destes mesmos sujeitos em manicômios. Evidente que tal contextualização requer conhecimento e compromisso com a ampliação da dignidade dos seres humanos, pois, a seguir tem que ser discutida a visão integrada (integradora) das funções cerebrais (não somente visão localizacionista das mesmas), bem como ser apresentado o que foi E O QUE TEM SIDO a luta antimanicomial....
É contextualização comum, usual? Nem de longe. Infelizmente, o conhecimento historicamente acumulado é apresentado como passe de mágica, como se caído no colo, como se não houvesse intencionalidade.....
Sem me alongar demais, se não há condições concretas de contextualização, sim...vamos adendar (com qualidade) a obra de Monteiro Lobato em questão: notas de rodapé e demais blá blá blá farão o que o professor deveria fazer.
Isso favorecerá o aproveitamento daquele contexto histórico para discussão de como o mundo tem mudado e pode mudar (melhorar) mais ainda em direção à garantia de direitos para todos...e que, lembrando a mim mesma da bióloga que sou, que a raça é humana!
Ana Paraná em novembro 13, 2010 9:46 AM
Licinio Branco em novembro 13, 2010 11:13 AM
#95
Também vou contar minha historinha. Nunca li um livro de Monteiro Lobato. Tenho 58 anos, sou advogada, formada em direito pela usp em 1980; uma filha de nordestinos parda, que só estudou em escola pública, uma exceção à regra.Nos livros escolares volta e meia havia um texto do Lobato. Eu lembro que os textos eram lidos em voz alta e que a minha vontade era me esconder embaixo da cadeira. Sem saber direito eu já sentia que, nos livros dele, os negros eram tratados como se fossem inferiores.A grande maioria dos alunos era branca. Eu também frequentava a biblioteca infantil Anne Frank, no Itaim Bibi (SP-capital); sempre gostei muito de ler,ia todos os dias,tanto que aos 14 anos ganhei uma medalha de leitora assídua da biblioteca. Já tinha lido a biblioteca quase toda. Só agora me dei conta que nunca li nada de ML, embora a biblioteca tivesse as obras completas.Mas foi algo inconsciente. Não me lembro de ter dito que não gostava do ML, simplesmente não lia.Acredito que a polêmica atual, sobre a qual ainda não tenho opinião formada, me fez lembrar de coisas que aconteceram há quase 50 anos.
Neide Imbrisha em novembro 13, 2010 1:28 PM
#96
Uau, que bacana o depoimento. Obrigado, Neide!
Idelber em novembro 13, 2010 1:29 PM
#97
Só um ponto que não entendi: os alunos ainda lêem Lobato? Na rede estadual de São Paulo os alunos no Ensino Médio tem dificuldade para assistir filme legendado(!).
Na verdade, o ponto é que Lobato é particularmente popular com uma fatia da população adulta porque ele sempre romantizou o interior, ponto que esta mesma população, que cresceu tendo contato com sítio, tende a idealizar(Sim, por isso que quadrinhos de temática rural, como Chico Bento e Urtigão costumavam ser populares).
Para as crianças de hoje, esta identificação é bem mais distante.
André Kenji em novembro 13, 2010 2:11 PM
Diana em novembro 13, 2010 11:25 PM
#99
A polêmica é boa, mas tomara que chegue até os professores das escolas públicas. Vejo aqui em Salvador, uma cidade com grande parte da população negra, que muitos professores são racistas.
Socorro em novembro 13, 2010 11:39 PM
#100
Muito obrigado e parabéns, Diana. A correção é sempre nobre. Um forte abraço.
Idelber em novembro 14, 2010 12:46 AM
#101
Uma coisa me incomodou muito: o Haddad ter entrado na onda de achar que o Parecer continha veto à obras literárias e inclusive falar em "mutilação da obra". Será que ele também deixou de ler?
Flavia em novembro 14, 2010 7:01 AM
#102
Oi, Flavia, aí é que me vem a dúvida: eu ainda não vi nenhuma gravação do Haddad falando em "mutilação da obra". Sim, eu vi nos jornais, provavelmente os mesmos que você viu.
O problema é que no Brasil é impossível confiar no que dizem os jornais. Foram eles que mais traficaram a mentira a respeito da "censura" a Lobato. Portanto, até que eu veja algum documento do MEC com a assinatura do Haddad, ou alguma gravação, eu vou dar ao Ministro o benefício da dúvida. Anda impossível acreditar em jornal. Os caras mentem sem nenhum escrúpulo.
Idelber em novembro 14, 2010 9:32 AM
#103
Tenho lido algo sobre a polêmica sobre a literatura infantil de Monteiro Lobato, e confesso que devo ser muito ingênua, porque o que me sobrou desta literatura... foi o gosto pela leitura e pela literatura, desde o tempo que eu não sabia ler e meu pai lia para nós (passadas tantas décadas, ainda me lembro das figuras que ilustravam os livros).Surpreendia-me mesmo, era o fato de que muitos de meus alunos de cursos de licenciatura, em universidade federal, nunca tivessem lido um livro de literatura!!! Penso que as crianças hoje estão muito expostas a TV que não poupa preconceitos, de gênero, de idade, raciais, xenofobia, e em relação a outros países.
Fico cheia dúvidas ...
Elisabete Otero em novembro 14, 2010 10:23 AM
#104
Concordo com o parecer. Mas acho que se está passando depressa demais da constatação de que a obra infantil de Lobato contém passagens racistas -- e contém mesmo -- para a idéia de que a obra é racista. Lobato é múltiplo, há uma evolução clara entre os livros, e, assim como há passagens racistas, há passagens de questionamento.
Eu diria que o problema de Lobato nao é com a figura do negro, e sim com a do povo brasileiro. Ele faz parte de uma longa tradição de intelectuais brasileiros (começando mais ou menos com Sílvio Romero) que tenta entender o subdesenvolvimento brasileiro versus o desenvolvimento norte-americano, e "acusa" o povo de ser responsável por isso (essa história está bem escrita no livro O Caráter Nacional Brasileiro, de Dante Moreira Leite). No início, a "causa" dos problemas é só racial, mas com o avançar do tempo outras explicações vao sendo aventadas. Lobato, embora tendo permanecido preso às mesmas questoes, até que deu respostas diferentes para elas, diagnosticando que a causa do atraso era sobretudo a falta de ferro e petróleo. E, no que diz respeito à "parcela de culpa" do povo, a causa passou a estar mais no tradicionalismo imputado ao povo e na influência nefasta da Igreja Católica.
Especificamente sobre Tia Nastácia, nao se pode esquecer de que Lobato a colocou, em O Minotauro, no papel de Teseu: ela domou o Minotauro! E na Reforma da Natureza ela tb foi, junto com D. Benta, consertar os problemas do mundo ao fim da Segunda Guerra: a cultura erudita junto com o bom-senso do povo. E há trechos da própria Emília, depois de chamar Tia Nastácia de ignorante, começar a questionar, lembrando-se de tudo o que Nastácia sabe, e que é ela quem faz: fez a Emília, fez o Visconde...
Um trecho de questionamento de que gosto bastante está em Hans Staden (acho... estou citando de memória...). Pedrinho pergunta a D. Benta qual a raça superior. D. Benta responde: "É a ariana, meu filho". Mas prossegue: bom, pelo menos é o que dizem os historiadores, que sao todos arianos. E conta uma fábula em que um leao passou por ma cidade e viu uma estátua em que caçadores matavam um leao. Muito diferente seria essa estátua, pensou o leao, se os leoes fossem escultores. Pessoalmente acho que, para os leitores da época de Lobato, que seriam todos praticamente brancos, esse tipo de trecho é mais desconstrutor do racismo do que discursos retóricos sobre a necessidade de gratidao ao negro, que há por ex. em Cazuza (sendo que a mesma gratidao -- o mesmo discurso, os mesmos motivos -- tb seria devida ao burro...).
Agora uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Impossível achar que crianças de 8 ou 9 anos, de agora, possam desfazer a impressao causada pelos xingamentos da Emília com uma análise desse tipo.
Anarquista Lúcida em novembro 14, 2010 1:15 PM
#105
Prezado Idelber,
Eu conheci a obra de Monteiro Lobato quando tinha 3 ou 4 anos pela leitura de meu pai e praticamente me alfabetizei por ela. Hoje sou jornalista e tenho 55 anos e não sei se minha memória me trai. Mas o que lembro é que estudava em um colégio público, um Grupo Escolar de pavilhões azuis de madeira e tinha muitos colegas negros, judeus e um chinês cujo o nome não esqueço Paulo Wong (o Paulo dele obviamente foi aportuguesado, pois quando chegou falava pouquíssimo português)cujos pais tinham uma quitanda próxima da escola. Outra coisa que lembro era a paixão geral de todos pelos livros de Lobato e não era só dos brancos. E que eu saiba os pais de meus colegas negros não proibiam seus filhos de lerem ML sob alegação de racismo e tínhámos entre 8 e dez anos. E tenho certeza que ela não me tornou racista.
Em relação acredito que houve um exagero por parte da mídia em supervalorizar o parecer do CNE e ao mesmo tempo zelo excessivo dos acadêmicos negros em relação ao caso. Será que eles consideram que a única forma de preconceito é o racismo? Esquecem eles que as pessoas com deficiência física, sensorial ou intelectual e os LGTB não sofrem um preconceito maior e muita vezes mais cruel? Ainda ontem um cidadão LGTB foi barbaramente espancado por skinheads numa das principais artérias de SP.
ML é um mal menor na minha opinião.
dudu guimaraens em novembro 14, 2010 1:54 PM
#106
É um ponto de vista interessante, semelhante ao meu. Lobato estava também numa 'sinuca de bico', pois seus contemporâneos eram, assim como ele, influenciados pelo racismo-científico. Mudando de assunto, quando há o interesse das elites (leia-se mercado editorial, que se sentiu ameaçado de perder a boquinho, no caso uma licitação), a escola pública entra na pauta do dia...lamentável.
Marcos V em novembro 14, 2010 6:31 PM
#107
Olha, Idelber, não posso dizer que fiquei tão traumatizado quanto o Paulo Moreira Leite por conta das ofensas racistas da Emília, mas como ele também morria de pena da Tia Nastácia.
E essa foi de minhas primeiras exposições à ambiguidade de sentimentos: adorava a Emília, mesmo deplorando várias das atitiudes dela. Meio sem querer, Monteiro Lobato me ajudou a ensinar que as pessoas (ou bonecas) que amamos estão longe de serem perfeitas.
Outro ponto: vários dos textos que comentam o caso, apontam a inexistência de contraponto à figura simplória e submissa (não me parece acurado descrevê-la como burra) de Tia Nastácia.
Discordo. O Saci tb é negro. Pode-se discutir se a o quanto de racista tem a própria criação dessa personagem no folclore brasileiro, mas me parece inquestinável que, nos livros de Lobato, burro e submisso ele não é. Muito pelo contrário.
O que posso dizer sobre a minha experiência particular com o Sítio, é que não me legou, via Nastácia, uma imagem de um negro estúpido e submisso. O que guardo, sempre, é uma cena d'O Saci (que meu pai me lia à noite, quando eu ainda não sabia ler por conta própria), em que o personagem-título e Pedrinho estão refugiados na selva, e o perneta arrasa com a pose de sabichão menino-da-cidade, mostrando quão pouco ele sabe das coisas da mata e da visa.
Murilo em novembro 14, 2010 11:37 PM
Murilo em novembro 14, 2010 11:39 PM
#109
Ei, Idelber, a Nilma Gomes, parecerista, foi minha professora na Faculdade de Educação e participou de minha banca de defesa do mestrado. Pessoa muito especial e ponderada. Gostei muito das recomendações feitas por ela, que tem um excelente trabalho pela educação antirracista.
Um beijo,
Fefê
Fefê em novembro 15, 2010 10:44 AM
#110
Bacana saber que você a conhece, Fefê. O parecer está belissimamente escrito. Foi mais um motivo pelo qual eu me enfezei um pouco com essa história. Todo mundo que leu o parecer concordou que ele é muito razoável. Beijão, vamos ver se desta vez nos encontramos. Já faz umas três visitas a BH que não te vejo.
Idelber em novembro 15, 2010 10:59 AM
#111
[Idelber, esse é um email de reposta da minha irmã, Michelle Peixoto, pedagoga e contadora de histórias ao seu texto sobre o Monteiro Lobato]
Pois é, ainda não me interei bem dessa polêmica (logo mais vou ler os outros artigos que ele indica etc), mas só posso franzir a testa e me lembrar...
De quando eu tinha uns oito anos e ganhei aquela coleção do Lobato e passei a ler um livro atrás do outro com uma paixão religiosa!
Apesar dessa veneração toda que eu tinha pela Emília e cia., não me lembro nunca de ser influenciada pelos seus comentários racistas a ponto de eu mesma concordar com eles. Na verdade, acho mesmo que esses comentários passaram batidos pela minha consciência de criança, muito mais preocupada com o que me dizia respeito - a coragem destemida do Pedrinho, a audácia de dizer o que pensava da Emília (na maior parte das vezes, ficava muito claro que a Emília era uma tolinha superficial sem coração nem piedade que, eventualmente, tinha alguma idéia bastante criativa...), a fantasia fértil da Narizinho, a
inteligência acadêmica do Visconde, o talento de tia Nastácia na cozinha (que vontade de comer seus bolinhos...) e para lembrar das histórias do povo (que vontade de ouvir suas histórias...), a amorosidade da vovó Benta na educação de seus netos, etc. etc.
Mas talvez eu nem desse ouvido a esse racismo implícito (que hoje em dia me parece gritante, tenho que concordar) porque sempre fui criada por minha mãe para não ser preconceituosa, para valorizar todas as etnias e culturas existentes, para respeitar as diferenças humanas sejam quais forem - com exceção àquela gente que, ao contrário de nós, quer dominar o outro por se achar superior. Nesses daí, minha mãe dá guarda-chuva na cabeça ou, no mínimo, um sermão bem dado!
Bom, mas pra quem quer servir de advogado do diabo e tentar botar panos quentes no Lobato, sugiro a leitura d´O Saci. Esse personagem que habitualmente é visto como um pretinho abusado e impertinente, que só presta para fazer maldades por aí, no livro de Lobato se torna uma voz denunciante e crítica. Quem quiser saber o que ele critica, vai lá ler, uai. Vai ver que o neguinho não tem nada de burro não, é até muito mais esperto que a Emília...
E pra terminar, que tal as próprias professoras resgatarem seu papel histórico e social e assumirem de uma vez por todas um olhar crítico sobre todo e qualquer material que utilizarem em sala de aula? Afe, precisa o MEC ainda pra dizer o óbvio e ululante (que toda obra deve ser contextualizada, blá blá blá). Ê povo, cresce e aparece!
O problema, a meu ver, é o da polícia do politicamente correto, que ao invés de olhar o problema radicalmente, fica roendo pelas beiradas (quero saber se o povo que tá aí reclamando do racismo da Emília é a favor de cotas nas universidades...) e arrotando hipocrisia.
Monteiro Lobato teve muitas outras idéias equivocadas - por exemplo, apostou irrestritamente no petróleo como salvação da lavoura. Taí a gente agora no meio de um
colapso ambiental e continuando a jogar as fichas em quem? No pré-sal.
Mas o cara foi um gênio literário, um empreendedor como poucos (a primeira editora nacional, gente!) e um defensor da escola para todos.
Guardadas às críticas aos seus preconceitos (muitos!), fez uma revolução tão importante na literatura infanto-juvenil, que eu considero um crime não apresentá-lo às crianças.
Claro, com uma professora tão consciente quanto a minha mãe contextualizando seus textos para as crianças. E incluindo outros textos que interajam com a Emília, apresentando a cultura afro-brasileira com a beleza e a riqueza que ela continua tendo. Viva tia Nastácia, tio Barnabé e sua cultura popular. E viva a Emília e sua independência ou morte!
Michelle Peixoto
Alexandra Peixoto em novembro 15, 2010 8:25 PM
#112
Nada atrapalha mais o progresso do que a estupidez – não estamos, evidentemente, porque seria óbvio, nos referindo à estupidez dos inimigos do progresso.
Assim é o recente parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre um dos livros infantis de Monteiro Lobato, considerando-o, essencialmente, assim como a outros livros do mesmo autor, uma obra racista (literalmente: “os estereótipos raciais presentes no livro ‘Caçadas de Pedrinho’ (…) não se referem a trechos isolados (…) [e estão] presentes não só no livro Caçadas de Pedrinho, mas, também, em outras publicações de Monteiro Lobato” - Parecer CNE/CEB nº 15/2010, pág. 5, grifo nosso).
Quem escreveu uma barbaridade dessas não sabe o que é um estereótipo. A situação dos negros – sobretudo quando foi publicada a primeira versão (1924) de “Caçadas de Pedrinho”, ainda com o título “A Caçada da Onça” – era, em geral, pior do que aquela que Lobato apresenta. Tia Nastácia não tem uma posição subalterna – a de cozinheira -no Sítio do Picapau Amarelo, nem tem de aguentar o besteirol de Emília, porque seja um estereótipo, e sim porque é uma personagem que retrata a situação subalterna dos negros naquela época. Se fosse diferente, se tia Nastácia fosse a dona do sítio ou a líder dos camponeses revoltados com a exploração de Dona Benta, aí, sim, seria um estereótipo – e uma falsificação.
O autor destas linhas não é branco. E, apesar de não ser dotado desta qualidade genética (brincadeira, brincadeira – é preciso avisar, senão daqui a pouco...), recebeu seu único prêmio em concurso literário, ainda ginasiano do Colégio Pedro II, por um ensaio sobre o conto “O Engraçado Arrependido”, que Lobato incluiu em seu primeiro livro, “Urupês”. O prêmio, cortesia da Editora Brasiliense, foi outro livro de Lobato, “Cidades Mortas”.
Por isso mesmo, levei algum tempo até superar a perplexidade, tempo necessário para reler “Caçadas de Pedrinho” e, o que foi mais difícil, ler o pedantíssimo parecer do CNE.
Naturalmente, diante desse paiol de ignorância, a mídia reacionária foi mais rápida do que nós, exatamente a mídia mais entreguista, mais antipopular, mais antidemocrática - e mais racista: o “Estadão”, a “Folha de S. Paulo” (que, sempre exagerada, conseguiu até transformar Lobato em entreguista do petróleo), a “Veja”, a “Globo”, todos os que sempre odiaram Monteiro Lobato por sua identificação com o povo e a nação, todos os que diziam que ele era um mero e medíocre contador de “causos”, agora apresentam Lobato como um dos seus, para aproveitar-se do seu imenso prestígio. Não é um fenômeno o que conseguiu o CNE?
No momento em que se discute o controle nacional sobre as imensas reservas do pré-sal, um fruto da luta de Monteiro Lobato, não haveria melhor contribuição para entregá-lo do que fazer com que essa canalha se aproveite de um autor que, em vida, e em sua obra, desprezou profundamente o servilismo aos cartéis externos.
Monteiro Lobato criou um personagem de nome Conselheiro. Era um burro falante - mas era um burro muito, muito sábio.
Recapitulemos o caso: um técnico da Secretaria de Educação do Distrito Federal (e mestrando da UnB “na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais”) pediu providências à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência (SEPPIR) porque uma escola privada do DF incluía o livro “Caçadas de Pedrinho” como “obra de referência”. Segundo ele, tal obra conteria “estereotipia ao negro”. Apresenta-se como base dessa “denúncia” a justíssima legislação antirracista aprovada a partir da Constituição de 1988 – ou seja, pelo menos 64 anos depois de publicada a primeira versão do livro e 52 anos depois da versão definitiva. Do ponto de vista meramente jurídico, se fosse verdade o que o denunciante afirma, isso equivaleria a banir as histórias de Conan Doyle sobre Sherlock Holmes porque depois da publicação delas foi aprovada uma legislação contra o uso de cocaína.
A Ouvidoria da SEPPIR remeteu o pedido ao Conselho Nacional de Educação, e este foi apreciado por sua Câmara de Educação Básica (CEB), que emitiu o parecer a que nos referimos, que é, resumidamente, o seguinte (o leitor nos desculpará as longas citações, mas elas são necessárias):
“... cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE [Programa Nacional Biblioteca da Escola], de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor. (…) caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas (…) ainda apresentem preconceitos e estereótipos (…) deverão exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante” (Parecer CNE/CEB nº 15/2010, pág. 5 – grifos nossos).
Ou seja, a recomendação prioritária é de supressão, isto é, de exclusão do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) de “obras clássicas ou contemporâneas” que sejam consideradas (por quem? Pelo CNE?) com “preconceitos ou estereótipos”. Caso “os especialistas” não consigam selecionar obras sem “estereótipos e preconceitos”, insira-se uma “nota explicativa” (o parecer não esclarece com que ponto de vista ideológico o editor encomendará essa nota). Este último ponto é especialmente ridículo, já que ou o conselho é contra a compra pelo MEC de “Caçadas de Pedrinho” ou é a favor. A “nota explicativa”, além de encher o saco do leitor que cair na besteira de lê-la, é uma forma de sair pela tangente, para que o CNE diga que não tentou proibir as obras que tentou proibir nas escolas. Como disse o presidente da Câmara de Educação Básica do CNE, o sociólogo, filósofo, pedagogo e teólogo Francisco Cordão: “aconselhamos que o MEC não compre uma obra que tenha preconceito racial. Mas se é um clássico, e decide comprar, basta colocar uma nota contextualizando”. Parece até que aquilo que ele chama de “contextualização” é algo indiscutível, uma unanimidade – ou um dogma – e não exatamente o que precisa e pode ser discutido em sala de aula por alunos e professores.
O parecer do CNE foi enviado ao ministro da Educação para que fosse homologado – e o ministro devolveu o parecer ao Conselho, infelizmente sem uma posição firme a respeito, mas, segundo suas palavras, porque “é incomum a quantidade de manifestações que recebemos de pessoas que são especialistas na área e que não veem nenhum prejuízo em que essa obra, de Monteiro Lobato, continue sendo adotada nas escolas”.
Não sabemos por que seria “incomum” que tantas pessoas - “especialistas” ou não – manifestassem seu desacordo e sua indignação diante dessa parvoíce. Apesar disso, o presidente do CNE declarou que “a posição do Conselho não irá mudar”.
QUE SOBRARÁ?
As “recomendações” do CNE excluiriam, evidentemente, e só para começo de conversa, Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira das bibliotecas escolares (exceto, em última instância, se acompanhados de “notas explicativas” - mas não conseguimos imaginar o que seria uma nota explicativa sobre os preconceitos e estereótipos do “Sermão da Quinta Dominga da Quaresma”, de Vieira, ou de algum dos poemas pornográficos de Gregório).
Porém, naturalmente, se o problema são os “estereótipos”, deveríamos ser isonômicos. Por exemplo, proibir nas escolas (exceto com uma “nota explicativa”) os romances indigenistas de José de Alencar – e, aliás, não somente os indigenistas, pois há também “O Gaúcho” e “O Sertanejo” - além de “Memorial de Aires”, de Machado de Assis, que tem, nos personagens Fidélia e Tristão, tremendos “estereótipos” de felicidade conjugal. É verdade que todos esses “estereótipos” são positivos. Mas “estereótipos” são “estereótipos”… Ou não é assim?
No entanto, o que vamos fazer com uma obra que contém trechos como o que transcrevemos abaixo, de um dos maiores escritores da história da literatura brasileira, um dos poucos - com Machado e Guimarães Rosa – que são unanimidade universal?
“A imagem repulsiva me atormentava: num estrado vizinho, inteiramente nu, um negro moço arranhava os escrotos em sossego. (…) em horas de aperto desejamos triturar, rasgar a carne, suprimir de qualquer jeito a coisa insuportável, transformá-la num farrapo ensanguentado. Não, não era isso. O negro se coçava tranquilamente, como se ali não estivesse ninguém, e obrigava-me a espiá-lo. (…) O pesadelo obsceno continuava a perseguir-me. O saco escuro, repuxado a unha, alongava-se; os testículos grossos davam à porcaria o jeito de uma cabaça de gargalo fino. Cachorro. Indignava-me como quando ouço garotos a assobiar num bonde, mas naquele momento experimentava indignação multiplicada. As minúcias ignóbeis a cor, a forma, a transudação enfureciam-me contra mim mesmo. (…) O patife jazia a dois passos de mim, quase me tocava, e procedia como se estivesse inteiramente só: a cara imóvel, a tromba caída, as pálpebras meio cerradas, as pernas abertas e curvas, na posição de uma parturiente. Não se notava ali desprezo à opinião pública: notava-se indiferença perfeita. O animal nem tinha consciência de que nos ofendia. E os dedos esticavam sem cessar a pelanca tisnada. No clima de inferno tudo se evaporava e sentia-me sujo: certamente partículas da imundície me alcançavam. O meu desejo era gritar injúrias pesadas, finalizar por qualquer meio a sórdida exposição.”
Sim, leitor, isso foi escrito por Graciliano Ramos, no primeiro volume de “Memórias do Cárcere”. Pelo parecer do CNE, supõe-se, essa obra não pode ser selecionada pelo MEC para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Ou será que Graciliano apenas reproduziu o seu estado de espírito dentro do navio que o levava, preso, ao Rio de Janeiro? Mas, se vale o “estado de espírito” de Graciliano, por que não valeria o de Monteiro Lobato, ao escrever “Caçadas de Pedrinho”?
Desse jeito, nem Castro Alves sobraria, já que um dia descreveu a população do navio negreiro como “Legiões de homens negros como a noite,/ Horrendos a dançar.../ Negras mulheres, suspendendo as tetas/ Magras crianças, cujas bocas pretas/ Rega o sangue das mães”.
Vamos, então, para fora do Brasil (supomos que os estudantes também devam conhecer obras básicas de outras literaturas): estaria proibido (ou passível de “nota explicativa”) o “Oliver Twist”, de Dickens, devido àquele terrível estereótipo racial, o judeu Fagin? Ou “Ilusões Perdidas”, de Balzac, devido ao “estereótipo” de jornalista (venal, bobo e sem futuro) que é o seu personagem principal, Lucien de Rubempré? E o negro Jim, personagem de Mark Twain em “Huckleberry Finn”? Se tia Nastácia é um “estereótipo”, por que Fagin, Rubempré e Jim não seriam?
Privar crianças e jovens do acesso à obra de Lobato – e não somente da sua como das obras de outros autores – não é um prejuízo para o autor, mas para a cultura dessas crianças e jovens, já tão desestimulados de qualquer atividade cultural. Lobato continuará sendo o maior – provavelmente - escritor paulista, e certamente um daqueles escritores brasileiros que construiu uma obra que é parte constitutiva da identidade cultural nacional. Não é pouco, mas essa é exatamente a questão.
Em excelente artigo, o deputado Aldo Rebelo observou que “o caráter pernicioso dessas iniciativas [como a do CNE] não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional”. Em suma, é uma consequência da tentativa de negar a identidade cultural nacional em prol de uma falsa, e falsificada, diversidade cultural (como se a identidade nacional fosse antagônica à diversidade – e não a única forma de desenvolver uma verdadeira diversidade).
Monteiro Lobato, a propósito, também é autor de “O Presidente Negro” (ah, sim, também existe quem veja racismo – e não uma denúncia do racismo - nesse romance de ficção-científica, passado no ano 2.228, quando os norte-americanos, enfim, elegeriam um presidente negro... e os brancos, então, engendrariam um plano ardiloso: esterilizar os negros, através de um suposto tratamento para alisar os cabelos... O livro foi detestado pelos racistas da época, inclusive os norte-americanos – cinco ou seis editores recusaram a publicação da obra em inglês. Ao regressar dos EUA, onde foi nosso adido comercial, Lobato declarou: “A América que eu retratei em meu livro é exatamente a mesma América que eu encontrei lá”).
ÁGUIA
Mas voltemos à “Caçadas de Pedrinho”. O deputado Aldo Rebelo já ressaltou a parte mais absurda do parecer: os senhores conselheiros levam a sério, como se fosse a opinião do escritor, o que diz Emília, a boneca, também viscondessa de Rabicó, a “torneirinha de asneiras” dos livros infantis de Lobato, e omitem “que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: ‘Tenha paciência - dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá...’”.
Não somos admiradores da Academia Brasileira de Letras (ABL) enquanto instituição. Porém, a defesa que a ABL fez de Lobato nesse incidente não ficou amarrada ao passado, isto é, às relações conflituosas do autor com a instituição. A nota, assinada pelo presidente da ABL, Marcos Vinicios Vilaça, é bastante interessante:
“Um bom leitor de Monteiro Lobato sabe que tia Nastácia encarna a divindade criadora, dentro do sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos. Ela é quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Ela é a escolhida para ficar no céu com São Jorge. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica”.
Nada disso quer dizer que Lobato fosse tão perfeito quanto a sua tia Nastácia. Em alguns momentos, ele não foi um baluarte do progresso. Suas cartas – de que já publicamos trechos – durante a contrarrevolução de 1932 são, se nos permitem os leitores, de uma cegueira política lastimável. Infelizmente, não foi o único. Nessa época, até o pregador da industrialização do país, Roberto Simonsen, ficou com a contrarrevolução, isto é, com a oligarquia que era, exatamente, o principal obstáculo à industrialização do Brasil. E nem falemos (pelo menos não muito) das cartas de Graciliano Ramos durante e logo após a Revolução de 30 – ou do livro de Barbosa Lima Sobrinho, “A Verdade sobre a Revolução de 30” (1933), talvez a obra mais virulenta escrita contra Getúlio Vargas durante toda a década de 30, e uma das poucas que incomodou àquele grande presidente, talvez por reconhecer no autor um valor autêntico - que Barbosa Lima Sobrinho, realmente, demonstraria nas décadas seguintes.
A todos esses grandes homens poder-se-ia aplicar o provérbio russo, citado por Lenin em defesa de Rosa Luxemburg: “Muitas vezes uma águia poderá voar tão baixo quanto uma galinha, mas jamais uma galinha poderá voar tão alto quanto uma águia”. Portanto, as galinhas não têm razão em citar os voos baixos das águias, pois não conseguirão, com isso, deixar de ser galinhas.
Monteiro Lobato também demorou bastante a compreender – o que conseguiu, ao menos parcialmente, já no final de sua vida - a política de Getúlio em relação ao petróleo. Como se pode ler no seu livro “O Escândalo do Petróleo e Ferro” (junção de duas obras anteriores, “Ferro”, de 1931, e “O Escândalo do Petróleo”, de 1936), Lobato via o desenvolvimento da indústria do petróleo no Brasil com base em pequenas empresas nacionais. Ele resistia à ideia de que somente o Estado poderia impedir que o então cartel das sete irmãs açambarcasse o petróleo. A partir de alguns precedentes acontecidos no Ministério da Agricultura (naquela época o petróleo estava sob jurisdição desta pasta), Lobato argumentava que seria mais fácil ao cartel infiltrar-se no Estado para dominar o nosso petróleo do que destruir as pequenas empresas nacionais que ele concebia.
Ele não tinha razão nessa questão, como a história demonstrou. Mas nada apagará o seu papel na primeira batalha pelo petróleo – aquela em torno da existência ou não de petróleo no país, vencida em 1939, quando se descobriu petróleo em Lobato (o nome da localidade, um bairro de Salvador, nada tinha a ver com Monteiro Lobato, exceto a coincidência) – e a sua denúncia contundente do cartel do petróleo, no livro a que acabamos de nos referir.
E, mais: no governo Dutra, durante a segunda batalha pelo petróleo – a campanha do “petróleo é nosso”, pelo controle nacional através da Petrobrás – Monteiro Lobato esteve do lado certo.
Faleceu em 1948. Não pôde ver o fruto de sua luta. Mas ele disse uma vez: “Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira - mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum”.
Sou quase que obrigado a fazer uma dedicatória. Há quase 50 anos, num domingo, um menino muito introvertido foi levado por seu pai a passear no centro da cidade onde tinha chegado havia pouco – Araraquara, em São Paulo. O pai do menino entrou, então, numa livraria. Vários livros de Monteiro Lobato estavam expostos e o pai perguntou ao menino qual deles queria comprar. Algo surpreso, ele escolheu o que lhe parecia de capa mais vistosa: “Hans Staden”. Durante as semanas seguintes, sempre aos domingos, o passeio se repetiu – e a compra de mais um livro de Lobato. Foi a revelação de um mundo. Portanto, somente posso dedicar este artigo a alguém que, infelizmente, não tem mais condições de lê-lo: a meu pai, Annibal Teixeira Lopes.
Carlos Lopes em novembro 15, 2010 10:37 PM
#113
Apesar dessa veneração toda que eu tinha pela Emília e cia., não me lembro nunca de ser influenciada pelos seus comentários racistas a ponto de eu mesma concordar com eles. Na verdade, acho mesmo que esses comentários passaram batidos pela minha consciência de criança,
Obrigado pelo comentário, Alexandra. A pergunta interessante de se fazer aqui, no entanto, seria: será que sua irmã tentou saber realmente se esses comentários racistas "passaram batido" também pela consciência das crianças negras? Será que alguma vez ela perguntou a uma criança negra como ela se sentiu no momento em que leu "negro beiçudo", "vai subir em árvore", "carvão" etc.?
Essa é a questão.
Idelber em novembro 15, 2010 10:52 PM
#114
Idelber e Alexandra,
Eu sempre acho interessante qd alguém diz taxativamente q nao foi influenciado por algo, porque é sempre difícil, quiçá impossível, de sabermos e identificarnos nossas próprias influências. Então, qualquer negativa categórica é sempre interessante.
Então, eu diria que se a Michelle não foi influenciada pelos comentários racistas da Emília ao ponto de concordar com eles, talvez tenha sido influenciado por eles, digamos, ao ponto de ser contra as cotas ou de defender escritores racistas...
De qualquer modo, eu diria que ser exposto a esse tipo de comentário racista quando criança sempre nos influencia de ALGUM jeito...
Abraços,
Alex
alex castro em novembro 15, 2010 11:14 PM
#115
Oi Idelber,
Concordo demais com a sua posição. Eu acrescentaria alguns pontos. Que aqui no Brasil quaisquer orientações de órgãos responsáveis pela política educacional são tidos por entulho autoritário. Que o professor reina absoluto em sala de aula, quase sempre sem orientação da própria coordenação pedagógica da instituição de ensino. Que a capacidade do professor é presumida em todos os casos, diria até que é presumida uma certa onisciência inata.
Se não bastasse isso, esse argumento de que o parecer direciona a leitura obra, reinvindicando a obra aberta...francamente...ou desconhece a literatura ou a prórpia infância. Ou as duas coisas.
Ai, que vergonha, o Quintarola deveria ter escrito sobre isso, mas pra ser sicera, fora o aperto de costura, confesso que deu até preguiça...
Cibele em novembro 16, 2010 3:27 PM
#116
A polêmica existe e até morna pela gravidade do fato. E o seu cerne é exatamente a exigência de "notas explicativas" para a circulação da obra nas escolas. Trata-se de censura classificatória e, pior, rotulatória. Por que não um carimbo na capa: racista!
É a liberdade de expressão que está em jogo. As editoras publicarão autores com trechos polêmicos, passíveis de serem incluídos no index do Estado, somados os critérios burocráticos e os programas oficiais de compras de livros?
Aliás, diga-se, a profa. Marisa Lajolo, citada, já se posicionou contra a prática das notas. A pesquisadora critica considerarem-se as crianças como tontas (vejam o texto no link abaixo). Eu diria que são classificados como tontos também os professores e a sociedade.
A profa. Lajolo também questiona certeira: o que as notas explicarão? “A nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é um livro racista?”. E quem escreve e/ou decide? Será nomeado um “explicador-geral da República”?
O poder de compra do governo orienta práticas no mercado editorial e a cunha do CNE, pode esperar, anuncia outras ações. E aí não me preocupa tanto Lobato, que sobreviverá como Gulliver em Liliput, mas os outros (novos)autores. O que passa a ser suspeito? E como resistirão eles à censura associada de burocracia estatal e mercado?
Por fim seguem o link prometido e uma declaração de Marisa Lajolo, evidenciando a real polêmica. Fla-Flu é dividir a sociedade entre racistas (contra a censura) e não racistas (pela censura) face à liberdade da expressão.
http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/11293/quem-paga-a-musica-escolhe-a-danca
“Estamos (no Brasil) em pleno epicentro de uma polêmica nacional: o Conselho Nacional de Educação acabou de proibir a presença do livro "Caçadas de Pedrinho" (de Monteiro Lobato) nos acervos com os quais o Governo Federal provê livros para escolas públicas por considerá-lo racista e por julgar os professores incompetentes para lidar com a questão. Faço parte do grupo de educadores que considera a medida
absurda. E vos pergunto: como os Estados Unidos (melhor dizendo, autoridades educacionais norte-americanas) lidam com obras como Tom Sayer, Aventuras de Huck, Cabana de Pai Tomás? Circulam nas escolas? Não circulam? Circulam com informações de que têm conteúdo racista? Tenho o maior interesse em saber, e de antemão fico muito grata.
Abraço.
Marisa Lajolo”
Wlamir Silva, prof. de História da Universidade Federal de São João del-Rei-MG
Wlamir Silva em novembro 17, 2010 12:25 PM
#117
Eu até vinha concordando com a argumentação de Idelber até chegar na parte do "emendar o texto". Como assim "emendar o texto", cidadão? Emendar o texto de um autor canônico morto há décadas? É isso que você chama de "concepção benjaminiana" de passado?
Ah, sim, e para quem cita Marisa Lajolo como a base da decisão, saiba que ela própria divulgou um texto criticando a decisão. E aí, como fica a citação da autoridade quando a própria autoridade é contra?
Trezentos em novembro 17, 2010 8:38 PM
#118
Bem, já que todo mundo ficou louco:
Eu tb penso como o professor ai acima #116.
Foda-se que exista meia dúzia de negrinhos que queiram frequentar escolas.
Eles que se virem em sua malandragem e sapiência. Porque o valor supremo é o da liberdade de expressão no mais restrito sentido dessa expressão.
E esse direito está acima de besteiras como denegrir moralmente certas parcelas da sociedade.
Assim, aproveito para reivindicar o direito de crianças lerem textos pejorativos sobre judeus, homosexuais, pobres e toda 'minoria' que ameaça bloquear nosso direito nato à liberdade de expressão, com suas normas ditatoriais baseadas em regras de convívio e do bom senso.
Desde que não ameace nossa liberdade, as crianças, negras no caso, que se defendam, afinal elas não são tontas. E os professores também não. Combater o racismo é coisa de gente que quer cercear liberdades conquistadas a muito custo em séculos de prática. E como professores não são tontos, racismo não existe. Ou melhor, tudo que existe , o que importa, é a liberdade de expressão.
Considero um insulto pensar que, no alto de nossas cátedras, nos imaginem incompetentes a ponto de nós mesmos e as crianças para quem lecionamos, não tenham ciência do que deve ser bom o que deva ser evitado e o que deva ser relevado.
Defender esses negrinhos é uma falta de respeito com eles mesmo.
O tempo está a nosso favor. Nossa defesa à liberdade se baseia nisso, no tempo de prática. São séculos.
E vem esses caras, com suas décadas nos querer ensinar sobre liberdade?
Parabém, professor!!!
Obs. e já que me absorvi da loucura, que coisa é essa mestre, afirmar, inequivocamente, que se deve ' emendar o texto'. Eu li muito bem seu post viu?
fm em novembro 17, 2010 9:32 PM
#119
Fm, engraçadinho, o Idelber afirma, "inequivocamente", que "não teria grandes problemas" com a proposta de "emendar o texto" (que não foi feita no documento original, mas que o próprio Idelber diz que não lhe incomoda, manifestando, assim, concordância). Mais claro impossível. Logo, a julgar pela clave irônica com que se refere ao meu comentário, você realmente não leu o post.
Trezentos em novembro 17, 2010 11:19 PM
#120
A tese é interessante: a liberdade de expressão é a culpada pela discriminação e a sua supressão é a sua solução. E, assim, busquemos os catedráticos que irão proteger todos os oprimidos do horror das palavras escritas. Os racistas foram criados e ceivados por Monteiro Lobato. Os energúmenos que agridem homosexuais foram paridos pelo criador do nome da cachaça "cura veado", da qual já se exigiu a extinção. O anti-semitismo é fruto dos versos de Noel Rosa: "empenhado nas mãos de um judeu". Cuidem-se "louras burras" atacadas à socapa por Gabriel o pensador. Esperamos ansiosos pelas pedras da lei dizendo o que não pode ser dito! E aí suprima-se, emende-se, classifique-se!
Wlamir Silva em novembro 19, 2010 5:01 PM
#121
Puxa, interessante. Por acaso vc conheçe alguma escola onde as crianças bebam ou façam visitas ao showroom da tal cachaça?
fm em novembro 19, 2010 9:47 PM
#122
Muito bom. Fiz ontem meu blog, está voltado para assuntos interessantes, por favor faça uma visita e comente, o endereço é:
kemet.zip.net
Lady Egypt em novembro 21, 2010 2:45 PM
#123
Monteiro L0bato racista!
luciana em novembro 23, 2010 9:19 AM
#124
Quantos imbecis batendo palmas pra esse maluco dançar é que me espanta.
Monteiro Lobato, conteúdo racista. Aham.
Braulio Almeida em novembro 26, 2010 5:43 PM