Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email:
idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Dilma na Rede
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Escreva, Lola, escreva
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Liberal libertário libertino
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro







selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« Clube de Leituras (com Brasiliana): "As Academias de Sião", de Machado de Assis :: Pag. Principal :: Histórica entrevista do Presidente Lula a blogueiros »

sábado, 20 de novembro 2010

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

luis-gama.jpg
"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."
Luiz Gama

Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.


A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.


Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.


Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

PS: Fonte da imagem.

* *P.S. em 24/11: O livro Caçadas de Pedrinho é publicado pela Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, mestre em Comunicação Social/UnB e editor do jornal Ìrohìn, pelo envio de seu excelente artigo "A propósito de Caçadas de Pedrinho".


Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor
20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra




  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (167)


Comentários

#1

O texto é excelente e não pretendia escrever nenhum comentário, mas como ninguém o comentou ainda, aproveito para fazer uma pequena observação. Na passagem “Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação ao nazismo”, parece-me que houve um equívoco. Ao invés de “ao nazismo”, não seria “ao judaísmo”, “ao povo judeu” ou “aos judeus”?

Abraços, Idelber e Ana!

Fabiano Camilo em novembro 20, 2010 2:25 AM


#2

Gracias, Fabiano, corrigido!

Idelber em novembro 20, 2010 2:29 AM


#3

Extraordinário. O melhor texto que li sobre este caso, até agora. Emoção junto com argumentação impecável. E olha que houve outros textos muito bons, como o seu, Idelber. Gostaria muito de fazer contato com a autora, seria possível?

Helion em novembro 20, 2010 2:51 AM


#4

Ana, absolutamente brilhante, como sempre. :)

Lucia Malla em novembro 20, 2010 2:53 AM


#5

lindo, lindo, lindo.

uma coisa q sempre pergunto é: se os indignados acham q não são os educadores q tem que decidir o que se ensina em sala de aula, quem eles acham que tem que ser??

e a resposta que vou usar sempre agora é: essa discussão não é sobre vc, sobre suas leituras preferidas, sobre suas lembranças de infância, mas sobre o futuro que queremos criar pro brasil. nós também somos do nosso tempo.

deixa eu dizer de novo. lindo, lindo, lindo.

alex castro em novembro 20, 2010 2:55 AM


#6

Sim, Helion, é possível. Ana manteve um blog durante tempos, que ainda está no ar. Há um email para comunicação com ela lá.

Idelber em novembro 20, 2010 2:56 AM


#7

Muito obrigado, Idelber. O texto me tocou muito, mas é tão pessoal que só dizendo diretamente a ela.

Helion em novembro 20, 2010 3:03 AM


#8

Eu me considero, de fato, uma pessoa com uma excelente relação com a diferença. Esforço diário de anos que se converte a cada dia em uma maior lucidez. Mas devo admitir que sempre que ouvia essa história de proibir Monteiro Lobato na escola via como mais uma hipocrisia do politicamente correto, como aquela coisa equivocada de 'não atire o pau no gato-to' (como se a criança tivesse que ser apartada de qualquer influência nociva à construção de seu caráter.)
Acho que o politicamente correto muitas vezes esconde o pior do incorretos. Detesto essas simplificações.
No entanto, a clareza de seu texto, a inteligência, a sensibilidade no apresentar das situações, a delicadeza para me propor um confrontamento com meus valores, me fez ir além da defesa rasa de um autor que antes fazia.
Concordo com tudo o que você disse; agradeço pela chance de me pôr em dúvida de maneira tão concreta e válida. Obrigada mesmo.

Isabela em novembro 20, 2010 3:24 AM


#9

Esse texto está muito bom. Parabéns à autora.

Bruno Marcondes em novembro 20, 2010 4:24 AM


#10

"não é sobre vc". é exatamente isso. emocionante o texto.

Yla em novembro 20, 2010 5:05 AM


#11

Definitivo.

Roberson em novembro 20, 2010 6:21 AM


#12

Brilhante!
Perfeito!

fm em novembro 20, 2010 8:38 AM


#13

Lindo texto, Ana, muito obrigada por colocar de forma tão clara o sentimento que tive desde a primeira vez que li alguém bradando contra a "censura" a Lobato.

No tuiter e em caixas de comentários eu apenas pedia: "pegue o livro e tente ler para uma criança negra...se você conseguir, então, tá bom, vamos liberar a coisa toda!" Ninguém me respondeu.

Novamente, obrigada!

aiaiai em novembro 20, 2010 8:51 AM


#14

Ana,
texto lindo cristalino, completo e complexo. Obrigadíssima.
Sobre a contextualização e adaptação, lembrei de um tititi que aconteceu na minha infância, anos 60. Meus pais tinham comprado uma edição das Mil e Uma Noites, minha irmã começou a ler com uma amiga. Até que um dia a amiga pergunta para a mãe: o que quer dizer "amante"? A mãe quer saber onde ela tinha ouvido essa palavra. Resumo da ópera é que a versão que meus pais tinham adquirido não era adaptada para crianças e já começa contando que o príncipe matou sua mulher e todas as outras do harém pq voltou de uma caçada mais cedo e encontrou o mulherio, os eunucos e escravos na maior orgia. Depois disso passamos a ler a versão do Malba Tahan!

Marcia W. em novembro 20, 2010 9:16 AM


#15

lindo o texto!
argumentos impecáveis.
o exercício de colocar-se no lugar do outro é dos mais difíceis e também dos mais necessários, sem o qual não há ética.

muito obrigada!!!

ana lucia vilela em novembro 20, 2010 9:41 AM


#16

Texto maravilhoso e mais uma vez fica DITO que a falta de conhecimento é fonte principal de todo preconceito.Antes de dizer sim ou não é preciso querer entender.

Aléxia R M R em novembro 20, 2010 10:10 AM


#17

Texto maravilhoso e mais uma vez fica DITO que a falta de conhecimento é fonte principal de todo preconceito.Antes de dizer sim ou não é preciso querer entender.

Aléxia R M R em novembro 20, 2010 10:10 AM


#18

Ana

Parabéns e obrigado!

rabbit em novembro 20, 2010 10:39 AM


#19

Texto absolutamente perfeito. Na mosca. Todos os babacas que andaram ironizando o MEC, sem nunca ter lido ML, deveriam receber este míssil certeiro.Ponto final. Assunto encerrado.

Maurício em novembro 20, 2010 10:43 AM


#20

Qualquer texto, seja de quem for, contendo citações racistas, homofobicas,tem de ser mantido longe de todos, muito mais de crianças.

mauro belato em novembro 20, 2010 10:45 AM


#21

Texto excelente, com argumentação e fundamentação. Jogou luz num tema que vem sendo debatido muitas vezes de forma irracional. O caso não de desrespeito a um autor tão importante em nossa literatura, e sim, como dito no texto, de contextualização. Veio ao encontro do que estava escrevendo hoje e tomei a liberdade de fazer um link.

Parabéns!

Ursula Burgos em novembro 20, 2010 10:50 AM


#22

Brilhante! Analise lucida e emocional em equilibrio perfeito. Alèm disso, o que dizer?
Parabéns!

Flavio Prada em novembro 20, 2010 11:31 AM


#23

Que lindeza de texto: mil obrigados à Ana!

Cleber em novembro 20, 2010 11:59 AM


#24

Sempre defendi que o parecer não é censura e que, sim, existe racismo em Lobato. Acredito que a questão é complexa e deve ser tratada em sala de aula por profissionais bem preparados; para tanto, há que haver investimentos na formação dos profissionais de educação em serviço. Entretanto, tão nociva quanto a postura de quem nega o racismo no texto e evoca censura no parecer é o posicionamento 'caça às bruxas' que andei observando nessas semanas, como se 'queimar' os livros do Lobato, transformá-lo em judas e malhá-lo em praça pública resolvesse esse 'imbroglio'. Obrigada pelo texto objetivo, direto, bem fundamentado e transbordante de emoção. Só alguém com muito talento poderia fazê-lo.

cris em novembro 20, 2010 12:23 PM


#25

Linkado, recomendado. Obrigatório. Valeu muito.

Rita

Rita em novembro 20, 2010 12:24 PM


#26

Ana, estou arrepiada verdadeiramente. Texto magistral. Vou divulgá-lo.

Katia Motta em novembro 20, 2010 12:36 PM


#27

Gostaria de pedir a permissão do Idelber para repassar o texto para minha lista de discussão de profissionais de estudos de linguagem, o CVL. Andei lendo coisas de arrepiar por lá e acho que o texto da Ana Maria viria a calhar. Tomo a liberdade de reproduzir aqui uma das coisas que li:


"Não existe "racismo" em literatura, nem na mais realista, porque a literatura não é o lugar de opiniões de autores, mas de representação transfigurada da realidade social e histórica. Claro que o fato social de poucas serem as personagens mulheres negras reflete a imagem (e a
realidade)social destas, mas não constitui racismo, uma vez que a literatura tem de ser abordada de acordo com seus "protocolos", que não admitem tomar o tratamento de realidades nos obras como tratados, opiniões etc. Como eu já disse aqui, Caim, do Saramago, não tem nada a ver com as opiniões do Saramago sobre a obra. Um autor pode ser punido pela lei se tiver atitudes racistas, mas não porque descreveu o racismo em suas obras. Há umas teorias literárias modernas que a meu ver transformam a literatura em documento histórico, o que ela definitivamente não é. Teremos de lutar agora pela volta ao básico, quem sabe ao conceito de mimesis ou coisa assim? Temo mais a demagogia de colocar essas personagens num papel que não costuma ser o delas na sociedade (com exceções, claro) do que o de refletir literariamente essa realidade. Se a moda de ver a literatura de modo tão redutor pegar, praticamente não haverá o que ler, porque a literatura traz as mais diversas formas de preconceito, e perversões, assim como as coisas mais sublimes da vida humana. Discordo de : "Quando uma personagem fala, ela adquire poder, faz com que o leitor siga pela perspectiva da mulher negra".", porque é uma visão mágica da língua e da realidade, reduzindo a leitura literária a uma mera identificação com personagens. O preconceito está instalado alhures. E o bom de tudo isso é que se volte a discutir o preconceito, justamente para erradicá-lo."


Não coloquei o nome do autor para não expor a pessoa, mas fiquei meio chocada com o argumento. Parece que o autor está 'torcendo' demais os fatos para poder justificar sua posição.

cris em novembro 20, 2010 12:38 PM


#28

Perfeito!
Acabei de ler o texto.
Aí meu pai chegou com a última Veja (edição 2191 - 17 de novembro). Alguém já leu? Na página 128: ''Caça à inteligência - Lida por gerações de crianças brasileiras, a obra de Monteiro Lobato sofre o cerco das patrulhas ideológicas que aparelharam o governo. Os vigilantes da correção étnica consideram Caçadas de Pedrinho racista''.

Links da matéria:
http://bit.ly/drY9y2
http://bit.ly/9CVpMq
http://bit.ly/br9JqQ

mariana carvalho em novembro 20, 2010 12:45 PM


#29

Neste Dia da Consciência Negra, tô lendo seu texto, Ana, e lembrando de muitos dos meus amigos que lutaram contra este racismo e hoje não estão mais aqui pra ver que a luta deles, e de tantos outros negros, já nos fez avançar muito, tanto que podemos ter hoje esse tipo de discussão. Vejo na minha cidade, tão negra, a violência da discriminação. No dia a dia, nos pontos de ônibus, nas ruas, nos jornais, nas abordagens da polícia. Outro dia uma mãe de santo foi presa num assentamento e colocada num formigueiro porque estava incorporada pelo orixá. Em Itapuã, dois garotos de uma banda de rap foram assassinados faz pouco tempo por policiais quando voltavam do Abaeté. Os policiais, negros como eles, vindos das mesmas escolas públicas, são também vítimas dessa educação que, ao não discutir questões como estas, não faz seu papel de combater o racismo. Mas estamos avançando. Hoje Monteiro Lobato não poderia escrever isso. E essas meninas e meninos negros têm mais armas pra lutar. Como não sentir orgulho de sua origem com uma poesia como Alegria da Cidade? Na bela voz de Lazo Matumbi, então, nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto... Alegria da Cidade
Lazzo Matumbi
(de Lazzo e Jorge Portugal)
A minha pele de ébano é
A minha alma nua
Espalhando a luz do sol
Espelhando a luz da lua
Tem a plumagem da noite
E a liberdade da rua
Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua
Será que você não viu
Não entendeu o meu toque
No coração da América eu sou o jazz,
Sou o rock
Eu sou parte de você
Mesmo que você me negue
Na beleza do afoxé
Ou no balanço no reggae
Eu sou o sol da Jamaica
Sou a cor da Bahia
Eu sou você (sou você)
E você não sabia
Liberdade Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto
Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto
Apesar de tanto não tanta dor que nos invade
Somos nós, a alegria da cidade
Apesar de tanto não tanta marginalidade
Somos nós, a alegria da cidade

Socorro em novembro 20, 2010 12:55 PM


#30

Uma boa síntese do debate, com alguns cochilos graves. É óbvio que o paralelismo sugerido entre a situação de uma criança negra no Brasil de hoje e a situação de uma criança judia na Alemanha nazista é absolutamente disparatado e ofensivo, mas já estou me acostumando a descontar os abusos retóricos que aparecem no debate público. De qualquer forma, a contextualização da discussão foi bem feita e era necessária.

Rafael em novembro 20, 2010 1:12 PM


#31

Texto perfeito!!

Resumiu e fechou uma questão ao mesmo tempo tão importante e cercada de mal entendidos de forma incisiva, sensível e mt bem fundamentada.

Parabéns, Ana Maria!!

E um bom Dia da Consciência Negra a tds!!

Letícia Castro em novembro 20, 2010 1:22 PM


#32

Subscrevo as palavras de Isabela. Obrigada, Ana e Idelber, pelo texto esclarecedor.

carol em novembro 20, 2010 1:50 PM


#33

Ana, minha emoção ao ler seu texto não me permite escrever muito. Eu só posso dizer que chorei. De vergonha pelos meus antepassados e tantos contemporâneos brancos, de orgulho de meus amigos negros, de emoção pela força e dignidade de sua postura, de admiração ainda maior por você, através destas palavras. Um beijo enorme, todo o meu respeito e carinho.

Ana Paula Medeiros em novembro 20, 2010 2:04 PM


#34

A frase "Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão?" me soa como a chave para entender a violência da reação. Porque a gritaria que se fez, vinda de gente que sequer leu o parecer (e que às vezes parece não ter lido "As Caçadas de Pedrinho" também) indica bem onde está a questão. Mostra, principalmente, como as relações de raça são um dos campos de batalha mais férteis que se tem hoje no Brasil.

A reação conservadora, reação que abarca desde um acadêmico como Demétrio Magnoli até um senador como Demóstenes Torres, com apoio integral da grande mídia, é uma demonstração tanto da importância da luta quanto de quem está vencendo. Eles já sequer conseguem defender suas posições sem cair no ridículo ou no absurdo (vide o discurso de Demóstenes na audiência pública sobre as cotas raciais nas universidades).

A matéria de Veja (linkada pela mariana acima) é um exemplo acabado de um tipo de distorção mais sofisticada. Primeiro, mas isto é uma doença típica da Veja que perdura por décadas já, o uso indiscriminado de adjetivos para atacar a honra, não os argumentos, do adversário. Segundo, naturalizar o racismo de Lobato considerando que qualquer leitura diferente da leitura conservadora é "falsear a história" e "higienizar a linguagem". Para alguém que logo em seguida vai acusar os seus alvos de terem lido Derrida de forma "torta", a expressão "higienizar a linguagem" soa quase irônica. O quadro (que o autor diz ser uma paródia, e aqui nós rimos de sua ingenuidade: uma paródia que precisa ser explicitada como tal ainda é uma paródia?) também é exemplar: comparar incomparáveis é uma das melhores armas na discussão. Alguém manda o 6º ano ler "O Mercador de Veneza"?

Mas chega, já falei demais. Maravilhoso, este texto, Ana. Acho que ninguém escreveu nada melhor sobre isto. De longe.

Paulo Candido em novembro 20, 2010 2:41 PM


#35

Se aqui fosse o Facebook eu colocaria um 'curtir' ao lado do comentário do Paulo Candido =)

cris em novembro 20, 2010 2:51 PM


#36

Parabéns, Ana, pelas palavras fortes e esclarecedoras. Adorei seu texto!

Eloí em novembro 20, 2010 2:57 PM


#37

Como negro e como fã de Monteiro Lobato, só me resta dizer que o texto de Ana Maria Gonçalves simplesmente lavou a minha alma! Obrigado, Professor Avelar!

Claudio Roberto Basilio em novembro 20, 2010 3:31 PM


#38

É isso, Ana. Nem uma palavra a acrescentar nem retirar. Continue nos ensinando: o dom da palavra clara, serena e destemida, em você, é missão. Um beijo agradecido. Fico ainda mais orgulhosa de ser sua amiga!

Maria Valéria Rezende em novembro 20, 2010 3:33 PM


#39

Agradecimentos todos à Ana e só a ela, per favore. Eu só apertei Ctrl + C/ Ctrl + V =)

Idelber em novembro 20, 2010 3:35 PM


#40

Bah. Ana 10 x 0 Veja.
Debate público 10 x 0 Indigação privada.
Acho que depois dessa, esses jornalistas da Veja vão ter vergonha de existir. Ou não, né. Eles não têm vergonha de nada.

Valdir em novembro 20, 2010 3:50 PM


#41

Acho que ja tinha uns 2 anos que nao voltava aqui, ate que vi um link no twitter sobre este assunto, que me é muito caro.

Parabéns pelo texto, que é, sem dúvida alguma, de utilidade pública.

E a luta continua!

Katia Santos em novembro 20, 2010 4:38 PM


#42

Off Topic.
Vi pelo site do Nassif e excelente video com matéria do programa "Listening Post' da Al Jazeera em inglês sobre como a mídia no Brasil se comportou durante as eleições a presidente em 2010, e como as "farsas" passaram a ser desmontadas através da Internet.
Como meu "ingrês" é fraco, e o nosso querido Idelber apareceu num dos takes, sugiro que alguém consiga as legendas e nos brinde com esse presente.
Eis o link:
http://www.youtube.com/watch?v=iTo_kuKwYVc&feature=player_embedded

Geraldo Chaves em novembro 20, 2010 4:48 PM


#43

Brilhante, Ana! E obrigada, obrigada, obrigada!

Daniele em novembro 20, 2010 4:52 PM


#44

Muito bom, linkei também no meu blog. Só queria comentar que fico muito feliz de lembrarem do caso do Tintim, porque assim que essa história do Monteiro Lobato começou, lembrei dessa história, porque lembro da minha indignação ao ler, já adulta, o "Tintim no Congo". E tenho a impressão de que na França o debate foi mais maduro, sem essa falar em censura - mas é claro que o fato de o autor estar vivo e fazer "mea culpa" colaborou pra isso também, sem dúvida.

Iara em novembro 20, 2010 4:55 PM


#45

Muito bom, linkei também no meu blog. Só queria comentar que fico muito feliz de lembrarem do caso do Tintim, porque assim que essa história do Monteiro Lobato começou, lembrei dessa história, porque lembro da minha indignação ao ler, já adulta, o "Tintim no Congo". E tenho a impressão de que na França o debate foi mais maduro, sem essa falar em censura - mas é claro que o fato de o autor estar vivo e fazer "mea culpa" colaborou pra isso também, sem dúvida.

Iara em novembro 20, 2010 4:56 PM


#46

Texto perfeito.
Faltou apenas mencionar o Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, um cujo artigo segundo “consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”.
Do Decreto resultou, em 2004, o Programa Brasil Quilombola (PBQ) como uma política de Estado para as áreas remanescentes de quilombos.
O decreto sofre processo no Supremo Tribunal Federal. A ação é movida pelo partido Democratas.

Araquem em novembro 20, 2010 6:05 PM


#47

não é por nada..mas quem leu mesmo Monteiro Lobato sabe bem... maltratado mesmo são...os médicos. Se for proibir os contos em que eles são mostrados como os maiores vilões da sociedade, nao sobra quase nada...

A mosca da sopa em novembro 20, 2010 6:13 PM


#48

Minhas lágrimas, literalmente, pularam. A questão da alteridade, tão bem abordada pela Ana Maria, é muito falada na academia e deveria ser mais praticada.
Texto brilhante! Já compartilhei também...

Luciana Mesquita em novembro 20, 2010 6:34 PM


#49

Parabéns,texto de leitura fácil.Gostei muito.Estou aprendendo,muito bom aprender com professores tão lúcidos,inteligentes.

marilda em novembro 20, 2010 6:41 PM


#50

é...fazendeiro, advogado, paulista...parece que o bom e velho JBML nao passava mesmo de, tipo assim, uma mayara petruso que escrevia bem...

Genital Lacerda em novembro 20, 2010 7:06 PM


#51

Idelber,

Li Cidades Mortas em idade já avançada e fiquei estupefato com o racismo explícito do autor.
Eu já tinha um pé atrás em relação a ele devido sua oposição ao Movimento Modernista, de quem sempre fui fã (minha filha se chama Tarsila em homenagem à Tarsila do Amaral).
Por isso, foi com curiosidade que li "A Barca de Gleyre", para saber o que ele dizia em correspondência particular o que pensava dos Modernistas. Mas, para minha surpresa, ele ignorou a Semana de Arte Moderna de 1922 em sua correspondência com Godofredo Rangel.
Agora, vou ler com curiosidade a correspondência dele com o negro Lima Barreto, um dos meus autores preferidos.

Lincoln Pinheiro Costa em novembro 20, 2010 8:17 PM


#52

Quando ouvi a noticai pela primeira vez, minha reacao foi ingenua> pensei imediatamente em Machado e na loucura que o politicamente correto pode virar.
Meu filho, que [e mestico,de cara sacou o que ocorria, apontou a impossibilidade de tal assunto ser efetivamente discutido com qualidade, dentro das salas de aula brasileiras.
Outro dia, em outro blog, li algo sobre Mark TWain e foi ai que realmente caiu a ficha pra mim.
Quando oi Tom Saywer percebi imediatamente a traducao de uma sociedade racista, ficou claro para mim, pois j[a era uma garota maior.
mas li Monteiro Lobato crian;a.
E o que [e muito, muito serio..NAO PERCEBI o racismo dele.
Isso jamais teria me voltado a mente, caso nao estivesse sendo discutido.
Eu era crianca, li e ...ACHEI ABSOLUTAMENTE NORMAL.

Isso j[a [e motivo suficiente pra deixar qq um de cabelo em p[e... a noramtizacao do racismo [e sua marma mais potente.

Vivien Morgato em novembro 20, 2010 8:30 PM


#53

Fantástico, por várias razões já observadas. Pena que não li o livro da autora. Mas suponho que o artigo, de forma ou de outra, seja pano de fundo desse trabalho. E um tremendo trabalho pois não é difícil de se ver, no tratamento todo do racismo, uma proposta política: a necessidade de reeducar-se o livre arbítrio, (uma liberdade que se faz, em mim, por exclusão das relações sociais totais).

E aqui, bem longe dos abstracionismos presentes nos rasos argumentos que vemos nas dementes Torres da vida, cabe afirmar a existência da contradição entre a ''liberdade'' de uns em oposição a liberdade dos outros.

Dai que se entendi o texto, as formas reduzidas que a ''liberdade'' de uns toma no interior da prática racista, antes de ser socialmente superada, demanda intervenção do Estado para gerar-se a liberdade dos outros.

Por seu turno, a conciliação dada pelos novos Direitos, gera a contradição entre a livre expressão do livre arbítrio, como liberdade de mercado e a liberdade dos outros, como liberdade total, a qual se quer mais concreta, pois liberdade da livre vontade pronta para uma nova ética.

Me parece que não temos como fugir desse tremendo programa que o artigo coloca em nosso colo. Fazer valer a ética que nos dota da livre vontade em superar os racismos. Grande abç. para autora.

Albério em novembro 20, 2010 8:33 PM


#54

Ana,

obrigada pelo texto lindo. É o mais completo, contextualizado e refletido que li sobre o tema.
Um beijo.

Flávia Cera em novembro 20, 2010 9:54 PM


#55

Sobretudo para o Lincoln, mas para os outros tb: repito, Lobato é múltiplo. Acho que estao passando depressa demais de um acordo dado ao parecer -- com o que concordo em gênero, número e grau -- para uma condenaçao ampla de Lobato que é parcial. Sobre o racismo na obra infantil, jã falei do "outro lado" (mas nao estou dizendo que isso invalide esse texto da Ana e outros que apontaram para o efeito perverso da obra em crianças de hoje, sobretudo negras).

Agora quero responder ao Lincoln sobre a questao do modernismo. Lobato foi horrível com Anita Malfatti. Mas protegeu o escultor modernista Vitor Brecheret (o nome é esse? estou citando de memória), e, no exercício do poder de editor que ele teve, publicou e empregou os modernistas quase todos, a quem considerava "meninos geniais", mas com a cabeça em Paris... E é bom lembrar que Oswald reconheceu Lobato, especialmente na obra infantil, como um escritor modernista (nao me peçam fonte, li isso há muito tempo), o que efetivamente se justifica sob o ponto de vista da linguagem usada na obra.

Anarquista Lúcida em novembro 20, 2010 10:01 PM


#56

No caso em questão, a maior parte da direita brasileira - que é essa desgraça que escandaliza bolinhas de papel mesmo -, se usou do caso como factóide para bater, vejam só que coisa inédita, no Lula, aquele presidente analfabeto. Claro, paremos de hipocrisia minha gente, vocês não são contra política de censura - e talvez por isso tenham disparado o alarme onde não havia fogo. Por outro lado, parte da esquerda levantou a questão da risco de censura na base do arco reflexo mesmo, faltou um cadinho de pesquisa para a turma - e se não faltou isso, o pessoal só pode ter confundido feio o que é política pedagógica com o que é a questão da censura (colocada aqui em sentido bem elementar mesmo, esse item, claro, é coisa que dá pano para manga). O teu primeiro post sobre o assunto, Idelber já mata uma parte considerável da questão e acho que este artigo da Ana sepulta qualquer dúvida sobre a contenda - aliás, me apresenta um lado do Lobato que desconhecia.

P.S. Por falar em dia da Consciência Negra, infelizmente passei o dia quase todo sem Internet por aqui e não pude postar, mas aconteceu uma coisa bem triste na Faculdade onde eu estudo dia desses sobre a qual eu tenho de escrever.

Hugo Albuquerque em novembro 20, 2010 10:33 PM


#57

Concordo com um monte de coisas que você me fez ver, mas, ao mesmo tempo me pergunto: devemos implodir os prédios de arquitetura européia em nossas cidades porque eles representam uma história que devemos renegar?
O renegar Monteiro Lobato, vai nos tornar menos escravagista do que fomos e que tornou nossa sociedade isto que aí está?
Devíamos implodir o Pelourinho em Salvador também?
Sou branca (eu acho, por ser brasileira, não tenho certeza se fora daqui seria considerada assim), da mesma forma por ser branca e brasileira, não me coloquei no lugar de criança ou adolescente negro, ou pardo ou até vermelho(os índios são vermelhos não é?)
Fiquei confusa, história não deve ser mais ensinada nas escolas? O que nossa civilização viveu deve ser excluido para evitar o sofrimento das crianças?Não é ao contrário não? O que está errado deve ser mostrado para que não se repita?

Andrea em novembro 20, 2010 10:43 PM


#58

O inacreditável é que depois de um texto desse, muito, mas muito além do didático, talvez ainda precisasse que a autora escrevesse no final "Quer que desenhe?".

Muitos parabéns à autora. Pena que muitos dos críticos tenham preguiça de ler um texto razoavelmente longo, só manchetes espalhafatosas.

Cajueiro em novembro 20, 2010 11:37 PM


#59

O mesmo Monteiro Lobato cuja obra li na minha infância, e que faz parte, portanto, do meu imaginário, numa crítica severa e injusta, (desconhecia o novo rumo das artes visuais, ou simplesmente não o compreendia) praticamente acabou com a carreira de Anita Malfatti, tachando-a de esquizofrênica pelas obras produzidas depois de sua estada na Europa, e apresentadas na sua primeira exposição individual no Brasil.
Num tempo de surto de bulling no país, talvez seja mais correto não fornecer “munição” às crianças, já que há tantos livros que não carregam esses estereótipos. Belo texto.
Dia da Consciência Negra - 20.11.2010

SôniaG. em novembro 20, 2010 11:51 PM


#60

Este é o texto definitivo sobre o caso Monteiro Lobato e a suposta 'censura'. Matou a pau. E que todos leiam "Um defeito de cor", um livro que só não chegou ainda ao cinema nacional porque nego papou mosca. Parabéns!

João Marcelo em novembro 21, 2010 12:06 AM


#61

Interessante que o Figueiredo, que decreta a Serra da Barriga como patrimônio brasileiro, já fez um comentário explicitamente racista. No final do seu governo, desentendeu-se com a Glória Maria, repórter da TV Globo, e pediu a cabeça da moça ao "Dr." Roberto Marinho referindo-se a ela como "macaca". Vazou na época. "Dr." Roberto, aliás, que passou pó-de-arroz no rosto até o fim da vida (segundo o seu capachildo Pedro Bial)...

Moco em novembro 21, 2010 12:30 AM


#62

Obrigada, Ana, pelo artigo tão necessário.

Angela-Lago em novembro 21, 2010 1:21 AM


#63

Em viagem, passei o dia longe do computador, e só agora pude voltar aqui com calma. Queria que todos que deixaram comentários, divulgaram, reproduziram etc se sintam individualmente agradecidos. Obrigada por fazerem ter valido a pena.

Obrigada, Fabiano, pela correção. Havia mais alguns errinhos, frutos da noite que passei sem dormir, escrevendo o texto antes de viajar. Se alguém encontrar mais algum, por favor, avise.

Queria também deixar um presente para vocês, esse texto fantástico do grande mestre Milton Santos, de 2003 mas sempre tão atual, e do qual destaco:

"Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito."

Daqui: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/11/268008.shtml

Ana em novembro 21, 2010 6:06 AM


#64

com tudo isso JBML inda é o autor mais subversivo num nivel muito mais profundo que todos os outros que vieram antes e depois - A Chave do Tamanho,entre outros, foi o que me ensinou a pensar sobre como as coisas todas podem ser de outro modo que não aquele a que estamos habituados. Mas como alguem disse antes de tudo ele era paulista, advogado e fazendeiro né?

a lesma lerda em novembro 21, 2010 7:48 AM


#65

vamos combinar uma coisa? antes de dar pitaco aqui que tal "neguinho" (e neguinha) sentar os gluteos na cadeira e ler Negrinha????
é o melhor libelo contra a crueldade escravagista
da zelite brasileira escrito em nossa lingua em qualquer época.

genital lacerda em novembro 21, 2010 8:01 AM


#66

Este é um dos melhores textos que lí nos últimos dias. Não necessariamento pelos as informações que trazem, para muitos novas, mas por primeiro, ter a competência de fazer perceber a estratégia da mídia em deslocar a discussão, de forma covarde, para um ponto que não faz parte do debate; segundo, por apresentar propor uma estratégia percepção de realidade. Talvez fosse a ora de, como disse Lobato, vulgarizar estas idéias. Sim, não podemos deixar isso do jeito que foi colocado pela mídia racista.

Prof. CLaudemir em novembro 21, 2010 10:54 AM


#67

Sou negra e professora mas, penso diferente com relação aos fatos abordados.

Quanto mais houver a exaltação de pessoas pela cor de sua pele, seja para defender direitos ou para compensar perdas, mais a pessoa estaria sendo segregacionada.

Protestei sobre isso no twitter. http://twitter.com/iza_rs

Mesmo assim continuo lendo sobre o assunto. Achei este texto muito informativo mas, prefiro que as pessoas não sejam de nenhuma forma, distinguidas pela cor da pele.

É cada um fazendo sua história, individualmente reinvindicando seus direitos de cidadãos e nunca, mas nunca mesmo fazer-nos de coitados diante dos fatos.

Iza em novembro 21, 2010 11:00 AM


#68

Para Andreia (#57): talvez seja melhor você reler o texto da Ana. Ou fazer uma curso de interpretação de textos.
No mais, Idelber, você já leu alguma repercussão sobre o último romance do Umberto Eco, cujo protagonista seria o autor do livro "Protocolos dos sábios de Sião"? Acho que dá também uma boa discussão.

Otto em novembro 21, 2010 11:19 AM


#69

Meu domingo, depois do Dia da Consciência negra ficou melhor depois de ler este texto. É tudo que penso.
Vou espalhar por aí: entre amigos, alunos, filhos e etc.
Maravilhoso!!!!!!!!!!!!!!

Georgina Martins em novembro 21, 2010 12:05 PM


#70

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.


FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS
by Ramiro Conceição

Quando observo, no cruzamento,
um PRETO fantasiado – de flecha,
a indicar o “FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS”,
tenho a certeza de que esse nosso mundo
não passa de um absoluto – achincalhe!

Ramiro Conceição em novembro 21, 2010 12:34 PM


#71

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.


FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS
by Ramiro Conceição

Quando observo, no cruzamento,
um PRETO fantasiado – de flecha,
a indicar o “FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS”,
tenho a certeza de que esse nosso mundo
não passa de um absoluto – achincalhe!

Ramiro Conceição em novembro 21, 2010 12:35 PM


#72

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.


FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS
by Ramiro Conceição

Quando observo, no cruzamento,
um PRETO fantasiado – de flecha,
a indicar o “FEIRÃO DE AUTOMÓVEIS”,
tenho a certeza de que esse nosso mundo
não passa de um absoluto – achincalhe!

Ramiro Conceição em novembro 21, 2010 12:35 PM


#73

Deu pau na rede, Idelber...

Ramiro Conceição em novembro 21, 2010 12:40 PM


#74

Espetacular o texto. E, pelo visto, não fui o único a lembrar "O Presidente Negro".

Como você bem colocou, Ana, devemos ver o "problema" não com o nosso ponto de vista, mas sob a ótica de alguém que sofrerá de preconceito e ódio pelo (mau) uso de uma obra que, fora de contexto - ou, melhor, dentro do nosso contexto moderno - é racista.

Sou mestiço, mais branco do que negro. Nunca sofri preconceito pela cor da pele. Mas conheço muito bem essa realidade.

Na minha opinião, o povo brasileiro ou, na melhor das hipóteses, a dita elite brasileira, sofre de racismo crônico e de hipocrisia. Enquanto não encararmos esse assunto de frente, fica complicado.

Não se trata de "censurar" obras. O problema é: como contextualizá-las sem que elas se tornem munição para o racismo? Por muito menos já surgem as piadas de mau gosto e as humilhações. Também não se trata de canonizar os autores que, embora tivessem vivido em épocas diferentes, cultivavam coisas nefastas como eugenia e perseguição racial. Será que os educadores teriam condições de passar conceitos tão complexos para as crianças?

Por isso concordo em evitar essas e outras obras de Lobato, enquanto os jovens ainda não tiverem condições de entender o contexto dessas obras e os educadores ainda não estiverem preparados para utilizar de forma adequada tal conteúdo.

Não sou educador e nem consigo me colocar no lugar de uma criança negra. Entretanto entendo o sentimento de preconceito e discriminição pelas diferenças.

Mais uma vez, parabéns pelo excelente texto Ana e Idelber!

Abraços

Robson França em novembro 21, 2010 2:26 PM


#75

Simplesmente f*** o texto, Ana Maria. Não poderíamos esperar menos da autora do maravilhoso "Um defeito de cor". Vida longa e muita disposição para continuar combatendo brilhantemente o racismo.

Tiago Gregório em novembro 21, 2010 2:41 PM


#76

acho que o que merecia uma analise tão bem fundamentada é o modo como tantas Pollyanas caem das nuvens ao tomarem conhecimento da sordidez e escrotidão de nossa boa gente..letrados, psicanalizados e viajados parecem ter acabado de chegar de outro planeta...em que buraco mental estavam enfiados esses idiotas????

A mosca da sopa em novembro 21, 2010 2:46 PM


#77

"Esse é o tipo de texto que eu mereci ter levado na cara!" É claro que estou exagerando, o texto não tem nada de agressivo, mas é um super alerta: acorda!
Li e reli TODA a coleção do Sítio do Picapau Amarelo. Desde os seis anos fez parte da minha vida e da minha paixão. No princípio, claro, era só a fantasia e uma vontade imensa de SER a Emília. Não me sentia discriminada e nem me doía seu racismo, afinal, eu não era preta... Depois, me toquei do seu desrespeito em relação à Tia Nastácia, mas encarava como mais um dos seus atrevimentos, afinal, era uma bonequinha pernóstica! Quando começou a me incomodar, já era adulta e parei de ler: tinha muitas outras leituras a fazer e a coleção ficava lá, na estante só enfeitando, no seu vermelho desbotado, mas imponente. Depois que meus filhos começaram a ler, tentei fazê-los se interessarem pela obra, mas eles sempre escaparam pela tangente, preferindo os Harry Potters da vida. Confesso que me frustrei. A polêmica do Parecer me incomodou mais por ter tanta gente criticando por indução e sem mesmo ter lido o dito cujo. Porém, esse texto me fez pensar, envergonhada. Quantos, como eu, não ignoram atitudes e práticas racistas, homofóbicas, sexistas, etc, simplesmente porque não nos dizem respeito? E olha que sempre me orgulhei por me policiar e tentar, sinceramente, eliminar os inúmeros preconceitos com os quais convivi e até pratiquei. Ainda não tinha a real dimensão de quanto fui influenciada: a pior mácula é aquela que é ignorada, porque não será combatida. Obrigada por retirar mais uma trava que me impedia de enxergar o tamanho da batalha que ainda tenho que enfrentar!

Flavia em novembro 21, 2010 3:03 PM


#78

Excelente, Ana! A leitura para crianças do Monteiro Lobato sem essa discussão é pedir que os pequenos exerçam uma espécie de adolescer antecipado, que eles questionem o pai simbólico da literatura infantil brasileira, sem que tenham habilidades para isso. Para as crianças negras, então, some-se à autoridade do autor, as evidências que só elas podem ver. Se os professores se sentem mal com o pressuposto de que nem todos estão preparados para tal trabalho, e por isso a necessidade das notas, é porque o conteúdo das notas é óbvio demais.

Cibele em novembro 21, 2010 3:36 PM


#79

Ana, repito aqui o email que te mandei, pra expressar publicamente minha opinião:
li ontem seu texto no blog e só tenho a te agradecer pela firmeza, generosidade e disposição para falar do racismo, esse assunto tão pouco democrático, como vc pontuou. Quero tb te parabenizar pelo trabalho de pesquisa,contextualizando o discurso de Lobato. Você toca em pontos fundamentais. E foca no mais importante: a gravidade de um discurso racista voltado para crianças, com o aval da escola.

Laura em novembro 21, 2010 4:39 PM


#80

Acho interessantes esses argumentos, uma mistura de "entenda por que vc não tem direito de participar desta discursão" com
"veja que caras legais concordam comigo, vc devia concordar também, não acha?".

eu não vou entrar no debate se os livros em questão devem ser lidos por crianças ou não, a decisão do MEC me parece bastante razoável.
e fico feliz de ver que o MEC está longe das radicalizações propostas aqui, que passam pela alteração do texto à proibição.
eu fui uma criança negra que leu monteiro lobato (e que nunca chegou a ver as adaptações pra TV) e que sobreviveu sem seqüelas.
talvez outras não tenham a mesma sorte.

de qualquer forma, acho que; por coerência, deveria se iniciar uma campanha de higienização do PNBE, tirando todos os livros "sensíveis".
ou pelo menos assumir que o cerne da questão é a crença (não dita) de que as crianças negras sejam mais burras que
as homossexuais, bastardas, gordas, judias, nordestinas ou filhas de drogados(as). afinal, esse é o único "mal" diretamente ligado a uma 'raça'.

marcos em novembro 21, 2010 4:43 PM


#81

Prezada Ana,
Mais uma vez vem à tona a precisão de seu raciocínio e o brilhantismo de sua escrita. Este é o melhor artigo que li em toda essa discussão. Parabéns! A cidadã faz juz à postura da romancista. Seu artigo e seu romance expressam cada vez mais a dignidade de sua consciência de cidadã. Para finalizar, lanço aqui a pergunta que não quer calar: deve o poder publico usar dinheiro público para distribuir a escolas públicas livros com conteúdo racista num país em que praticamente metade da população é afrodescendente?

Eduardo de Assis em novembro 21, 2010 5:17 PM


#82

"Bento XVI entrega anel a 24 novos cardeais"
manchete do Correio Brazilense hoje 21/11/2010...
pode uma coisa dessas????????
onde vamos parar com essa pouca vergonha?????
não se respeita mais o Santo padre???
é o fim do mundo mesmo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Strupicio em novembro 21, 2010 5:22 PM


#83

Idelber, o texto de Ana começará a incomodar e fará com seres estranhos aportem aqui, haja vista não ter moderação.

Chico Mendes em novembro 21, 2010 6:08 PM


#84

uai...o Chico Mendes reencarnou como dedo duro???

Genital Lacerda em novembro 21, 2010 6:17 PM


#85

Para o Marcos (#80): o que você diz é até um argumento para que se evite distribuir livros com qualquer um desses estereótipos. Só que você nao pode dizer que todos estão no mesmo nível. Há um histórico, no país, de escravidao de gordos ou de bastardos?

Anarquista Lúcida em novembro 21, 2010 7:15 PM


#86

Viu só Idelber? Começam a aparecer os que ficaram incomodados com as belas palavras de Ana.
.
Como este texto está atravessando todas as estradas da Internet, os raivosos aportarão por aqui.
.
São todos previsíveis.

Chico Mendes em novembro 21, 2010 8:55 PM


#87

O mané, digo, Chico..incomodado com a ausencia do professor, digo, professor mesmo, Idelber para punir os alunos levados que nao concordam em ficar quietinhos esperando que ele diga o que devem pensar..tsk..tsk..tsk...olha professor, o que o juquinha esta fazendo, ta com as mãos no bolso em vez de em cima da carteira como o senhor falou...boa coisa ele nao está fazendo...toda sala tem ao menos um desses quem nao se lembra???

Tião Medonho em novembro 21, 2010 9:04 PM


#88

Parabens pela forma e lucidez como o assunto foi tratado.
Um beijo, Beatriz

beatriz lima em novembro 21, 2010 9:06 PM


#89

Muito boa publicação! Pena que nós não temos acesso as grandes midias de massa! O texto é muito esclarecedor esucinto, e o melhor de tudo, fundamentdo em fatos acessiveis (já que "eles" não acreditam na nossa oralidade). Vou publicar esse eu texto em meu facebook, onde posso mostra ao menos aos meus amigos! Um grande abraço e axé!

Jader Florencio em novembro 21, 2010 9:42 PM


#90

Ana, aprendi muito lendo este texto tão sensível.
muito obrigada.

um beijo

Bartira

Bartira em novembro 21, 2010 10:07 PM


#91

Já fisguei o texto integralmente Idelber. Tenho o livro de Ana também. Ainda não o li mas está aqui do lado.
.
Também tem um livro racista que é um verdadeiro tabu ser comentado. O livro racista que estou me referindo é "Casa Grande e Senzala em quadrinhos".
.
99% das imagens(tirinhas) são de pessoas sorridentes. Este livro racista tem até uma cena de estupro de um branco invasor contra uma negra.
.
Este é um livro que não tem acompanhamento pedagógico em sala de aula que surta efeito. É um livro para ser eliminado dos olhares de crianças.

Chico Mendes em novembro 22, 2010 12:54 AM


#92

Pessoal,
Mais uma correção importante no texto, onde escrevi (sobre Tintim no Congo): "O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho,(...)".

O livro não é da Companhia das Letras, e sim da Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, que me enviou seu excelente artigo "À propósito de Caçadas de Pedrinho": http://www.ceert.org.br/noticiario.php?id=688

Ana em novembro 22, 2010 4:35 AM


#93

Obrigada, Cibele,, por levantar mais esse ponto importantíssimo: "A leitura para crianças do Monteiro Lobato sem essa discussão é pedir que os pequenos exerçam uma espécie de adolescer antecipado, que eles questionem o pai simbólico da literatura infantil brasileira, sem que tenham habilidades para isso. Para as crianças negras, então, some-se à autoridade do autor, as evidências que só elas podem ver."

Exatamente. Se nem os adultos estão conseguindo questionar essa autoridade paterno-literária, buscando motivos para justificá-la ao invés de questioná-la, imaginem as crianças. Poderíamos dizer que seria como apontar e combater a injustiça de um pai adotivo a quem deveriam ser gratas, sem a maturidade e o conhecimento para fazê-lo?

Ana em novembro 22, 2010 6:05 AM


#94

Obrigada, Eduardo, e sua pergunta também é chave: "deve o poder publico usar dinheiro público para distribuir a escolas públicas livros com conteúdo racista num país em que praticamente metade da população é afrodescendente?"

Impostos - algo de que a direita tanto fala, exigindo "seus direitos" porque pagam seus impostos. Será que ninguém pensou que o dinheiro usado para colocar esse livro nas escolas também vem de impostos pagos pelos pais das crianças que estão sendo desrespeitadas?

*****
Obrigada, gente. Os comentários vão cavucando um poquinho mais terreno tão nebuloso...

*****

Iza, respeito sua posição, e esse mundo do qual você fala, onde não exista distinção pela cor da pele, é o ideal que precisamos buscar, porque ele ainda não existe. Não sei se você fala sobre esse caso, especificamente, quando comenta sobre fazer-se de coitados. Se sim, você acha que é isso mesmo, que querer tratamento respeitoso é fazer-se de coitado? Não seria o contrário?

Ana em novembro 22, 2010 6:28 AM


#95

Branco e não racista, de fato não sou parte do problema, mas posso elogiar o fenomenal texto. Acho que uma criança negra não deve certamente se "identificar" com a Emília.....

bacana em novembro 22, 2010 9:30 AM


#96

Parabéns, Ana.
A fama jamais deve servir como desculpa para os erros, independente do tempo. Devemos nos lembrar de que nos anos 90 um livro causou polêmica por sua conotação racial, chamava-se A Curva do Sino, uma obra manipulada tal qual um marionete para justificar a eugenia dos autores.
Creio que faltou cuidado por parte da editora. Por que, pelo menos, não retiraram os trechos polêmicos? Só por que era Lobato? Ou, quero crer, faltou sensibilidade?

Egidio em novembro 22, 2010 10:02 AM


#97

Parabéns, Ana.
A fama jamais deve servir como desculpa para os erros, independente do tempo. Devemos nos lembrar de que nos anos 90 um livro causou polêmica por sua conotação racial, chamava-se A Curva do Sino, uma obra manipulada tal qual um marionete para justificar a eugenia dos autores.
Creio que faltou cuidado por parte da editora. Por que, pelo menos, não retiraram os trechos polêmicos? Só por que era Lobato? Ou, quero crer, faltou sensibilidade?

Egidio em novembro 22, 2010 10:03 AM


#98

Idelber, leia o seguinte post. Abre um pouco mais a ideia do avanço dos blogs "progressitas" com as devidas correções para os puristas, e ainda cito um post seu e o seu blog entra na lista de novo!

Avançam os blogs progressistas – 4 (ou blogs sujos, pagos, vendidos, oficiosos, fedidos etc -parte 1)

http://blogdacoroa.wordpress.com/2010/11/22/avancam-os-blogs-progressistas-4-ou-blogs-sujos-pagos-vendidos-oficiosos-fedidos-etc-parte-1/

Blog da Coroa em novembro 22, 2010 11:27 AM


#99

"Poderíamos dizer que seria como apontar e combater a injustiça de um pai adotivo a quem deveriam ser gratas, sem a maturidade e o conhecimento para fazê-lo? "

Não sei com certeza responder, Ana, mas me parece que sim. Não se trata de destituir esse pai. Tampouco de sorver inteiramente o seu discurso. A resposta da Lau, em que ela menciona o aval da escola, me soou ainda como o aval da mãe.

Que criança consegue se distanciar dessas duas autoridades?

Cibele em novembro 22, 2010 11:31 AM


#100

Professor, taí um link com uma analise bem interessante sobre o "Presidente Negro", de Monteiro Lobato:

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao_25/artigo_775/Visionario_espiroqueta.aspx

Claudio Roberto Basilio em novembro 22, 2010 12:56 PM


#101

Parabéns ao texto da Ana que desvelou as razões da questão tão sordidamente questionadas pela mídia. A você, que é professor ou responsável mas acha que é imprescindível a leitura das Caçadas de Pedrinho quando há tantos e melhores livros infantis, saberá condizir sua aula/leitura para as situações/caminhos apresentados no texto da Ana? Vocês irão "segurar essa onda" diante da intolerância diante da diversidade não apenas de raça, mas de classe social? Minha filha não leu Monteiro Lobato. Eu gostava mais de oferecer livros da Ruth Rocha e outros autores com valores mais humanizados. Lembro-me muito de uma peça de teatro do Ziraldo chamada Flicts - a cor que não era cor. Lembro-me que assiti esta peça com minha filha e a dor daquela não cor me levou às lágrimas. Acredito que precisamos sim escolher as leituras de nossos filhos e que também precisamos de pessoas especializadas que nos mostrem o que está "escondido" atrás de textos que o senso comum julga como "inofensivos". Não vejo esssas ações como censura, mas prudência na formação do seres humanos que amanhã serão responsáveis pela construção da sociedade. É por estas e outras que vemos a existência de "mayaras"...

Marcia Costa em novembro 22, 2010 1:01 PM


#102

Ana adorei a lucidez pesquisa e precisão de seu artigo.Quanto a parte relacionada do temor com relação a outras obras da literatura brasileira que contem racismo discriminação e builing com relação a população e em particular as crianças negras. Coloco um poema meu.


Afros Palavras no contraponto

“Macunaíma, nascido preto a feiúra do menino escondia uma esperteza, banhou-se em águas mágicas e virou branco, loiro, preguiçoso e mulherengo. Veio para a cidade e....” Mario de Andrade

Com todo o respeito Mario me apresento:
Nasci no Brasil,
negra saída do útero da noite
coroada pela força de Iansã guerreira nagô
nas mãos a espada de Ogum
carregando na pele senda ancestral
trilhada nas forças de Omolu
com Exu pratiquei a antropofagia da sobrevivência
mastiguei cultura européia,
engoli espinhos do racismo cientifico
junto com alguns sapos da democracia racial
e do racismo cordial
banhei-me sim nas águas de Oxum
e vi ressaltar o brilho das estrelas na minha pele noite
regurgitei excessos
bebi chá das folhas de Jurema da nação Tupinambá
e no tropicalismo dos meus versos
residem as minhas afros-palavras
e minhas afros-culturas

miriam alves em novembro 22, 2010 1:43 PM


#103

Texto fundamental da Ana. Sem exageros me vieram lágrimas nos olhos. Ainda bem que as crianças negras de hoje encontram pares nas escolas e um governo realmente preocupado com sua inserção na sociedade.

Eu não tive isso. Por ter recebido uma bolsa de estudos, sempre fui o único negro de minha turma, e só esse fato já era tremendamente difícil. Já escutei de colegas diretamente que o fato da contribuição negra na literatura ser pífia era uma prova da inferioridade da raça.

O que esse texto deixa bem claro, é que o preconceito não afeta apenas o seu alvo, mas toda a sociedade e a humanidade, que é privada de um convívio plural, rico e certamente impulsionador do desenvolvimento humano.

É preciso deixar bem claro, que, por trás de um discurso de receio do "politicamente correto" ser uma ferramenta de opressão da opinião na sociedade, existe um interesse puramente segregacionista que busca manter fluente a voz que durante anos se sobrepôs às vozes múltiplas da cidadania.

O preconceito não é uma voz da opinião, ele é um grito de desrespeito que tenta calar as vozes da diversidade.

Idelber, obrigado pela costumaz sensatez e vivacidade que fazem desse blog um porto seguro da navegação na rede!

Luan Crespo em novembro 22, 2010 5:27 PM


#104

Uau!
Tinha assustado com essa historia, li e sou fã do Monteiro Lobato. Mas realmente senti que tinha passagens meio "punk". Senti ao ler, quando criança mesmo (nem existia o punk!). Mas quando fiquei sabendo dessa discussão sobre as "Caçadas", não me lembrei dos detalhes, mas sim do prazer que foi ler ML. E o eugenismo do ML foi um soco no estomago. Contextualizar é preciso. Mudei a opinião sobre esse assunto. Valeu Idelber.

Flavio de Oliveira Lima em novembro 22, 2010 5:53 PM


#105

Eu só queria dizer que Ana Maria Gonçalves é tudo de bom, gênia da raça e um orgulho brasileiro.

E recomendo fortemente a leitura do super-livraço dela, o melhor que li este ano (sim, li atrasado, o livro é de 2006). Um Defeito de Cor.

Radical Livre em novembro 22, 2010 6:19 PM


#106

Texto fenomenal. Nao há mais nada que possa dizer sobre ele que ainda não tenha sido dito pelos comentários.
Só para informar ao Chico Mendes, o livro "Casa Grande e Senzala em Quadrinhos" é objeto de uma representação que a organização Observatorio Negro, de Recife, move contra a Editora, a Fundação Joaquim Nabuco, a Prefeitura do Recife (que, num governo petista, distribuiu o livro nas escolas municipais), contra o governo estadual (que num governo peessebista, anunciou que iria fazer o mesmo e voltou atrás após a aprovação de uma moção de repúdio das mulheres reunidas na 1a Conferencia das Mulheres), e contra o MinC, que empregou nada menos que R$ 300.000,00 de dinheiro público para patrocinar a edição da obra, com vistas à sua distribuição gratuita nas escolas. A representação foi feita ao Ministerio Publico Federal em 2006, foi arquivada, reapresentada e novamente arquivada com um parecer de um antropólogo que atesta que "não existe racismo no Brasil"; e apresentada também ao Ministério Publico de Pernambuco, em 2007, que instaurou um Inquerito Civil, ainda em andamento.

Ana Paula Maravalho em novembro 22, 2010 7:10 PM


#107

Texto fenomenal. Nao há mais nada que possa dizer sobre ele que ainda não tenha sido dito pelos comentários.
Só para informar ao Chico Mendes, o livro "Casa Grande e Senzala em Quadrinhos" é objeto de uma representação que a organização Observatorio Negro, de Recife, move contra a Editora, a Fundação Joaquim Nabuco, a Prefeitura do Recife (que, num governo petista, distribuiu o livro nas escolas municipais), contra o governo estadual (que num governo peessebista, anunciou que iria fazer o mesmo e voltou atrás após a aprovação de uma moção de repúdio das mulheres reunidas na 1a Conferencia das Mulheres), e contra o MinC, que empregou nada menos que R$ 300.000,00 de dinheiro público para patrocinar a edição da obra, com vistas à sua distribuição gratuita nas escolas. A representação foi feita ao Ministerio Publico Federal em 2006, foi arquivada, reapresentada e novamente arquivada com um parecer de um antropólogo que atesta que "não existe racismo no Brasil"; e apresentada também ao Ministério Publico de Pernambuco, em 2007, que instaurou um Inquerito Civil, ainda em andamento.

Ana Paula Maravalho em novembro 22, 2010 7:11 PM


#108

Formidável!
Sou branco. Achei inteligente, calmo, instigante e respeituoso.
È essa atititude que precissamos todos, para começar a ver o horror escondido sob a máscara da normalidade,da piada inocente,da trivialidade ou do prestigio antigos.

uruguay em novembro 22, 2010 8:19 PM


#109

bacana,: "Acho que uma criança negra não deve certamente se "identificar" com a Emília". - isso pode ser bem conflitante, porque a Emília é esperta, tem umas tiradas interessantes, quase todo mundo gosta dela. Mas aí tem as coisas que ela diz, que são ofensivas e tals. Como resolver esse conflito?

E quanto a não ser parte do problema, podemos todos ser parte da solução, discutindo, conversando, propondo e realizando ações efetivas, para a sociedade como um todo e para nós mesmos.

********
Egidio, houve também o caso do prêmio nobel James Watson, com aquelas declarações eugenistas e racistas que colaboram para manter a situação de desqualificação levantada no belo depoimento do Luan Crespo. Obrigada, Luan, e parabéns pela merecida e solitária vitória.

********
E, Cibele, parece que estão mesmo sem pai nem mãe...Triste isso.

******
Salve, Miriam Alves, e seu poema tem tudo a ver com o comentário da Ana Paula Maravalho. Aliás, Ana Paula, tomo a liberdade de trazer para a conversa seu artigo "CASA GRANDE E SENZALA EM QUADRINHOS: O REVISIONISMO DA ESCRAVIZAÇÃO NAS SALAS DE AULA" -
http://criancanegritude.blogspot.com/2006/08/hqs-casa-grande-e-senzala-em-quadrinhos.html

De lá, destaco a absurda observação: "A imagem de negros amordaçados com uma mascara de flandres merecem no livro em quadrinhos a seguinte justificativa: “os africanos possuíam o estranho vicio de comer terra. Para protegê-los, os senhores os prendiam ou os amordaçavam com uma mascara de metal”."

Gente, isso é um absurdo. O uso da máscara de flandres tem várias explicações, e alguns chegaram a comer terra sim, mas como tentativa desesperada de suicídio, frente às atrocidades cometidas por seus senhores, e não porque "tinham o hábito"...

Por favor, conta pra nós quem foi esse antropólogo que disse não haver racismo no Brasil.

Ana em novembro 22, 2010 8:27 PM


#110

Sensacional. É mesmo a melhor coisa que li sobre esse assunto.

Já tratei de passar adiante.

(Mas bate um desânimo danado de ler os jornalões até hoje propagando a versão da "censura a Monteiro Lobato pelo MEC"...)

Ricardo Horta em novembro 22, 2010 9:27 PM


#111

Idelber e Ana,
Pesquisando na rede (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X2007000100028&script=sci_arttext) encontrei a resenha da seguinte obra:

A CURA DA RAÇA: EUGENIA E HIGIENISMO NO DISCURSO MÉDICO SUL-RIO-GRANDENSE NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX. Silveira E. Passo Fundo: Editora Universitária de Passo Fundo; 2005. 173 pp.

O que me chamou atenção foi o seguinte parágrafo:

Ao discutir o significado do "tipo brasileiro essencial" sob bases "raciais" e "singularidades do meio tropical", a intelectualidade brasileira propôs um conjunto de projetos de intervenção social, passando, com isso, a chamar a atenção para a necessidade de se conhecer melhor o interior do país e seus complexos processos de mestiçagem. EUCLIDES DA CUNHA foi pioneiro nesse processo (o sublinhado é meu).

Idelber e Ana, eu desconhecia tal fato.


Ramiro Conceição em novembro 22, 2010 9:28 PM


#112

Ramiro, e outros interessados,
Para entender o que foi o movimento eugenista (suas várias "vertentes" e influências na sociedade atual, inclusive a ditadura da beleza) recomento o livro citado no texto:
Raça Pura - uma história da eugenia no Brasil e no mundo, Pietra Diwan, Editora Contexto

O primeiro capítulo está disponível para leitura no site da editora: http://www.editoracontexto.com.br/produtos.asp?cod=339

Depois que a coisa também deu no nazismo, os adeptos se calaram, se esconderam, trataram de apagar suas ligações com tal linha de pensamento e de pesquisa.

Ana em novembro 22, 2010 10:13 PM


#113

Ana, brilhante. Tirar o "achômetro" de uma questão e dar luz aos fatos é sempre o caminho certo. E você fez isso ao revelar o Monteiro Lobato por trás do genial escritor. Só um pequeno caso, que ilustra isso como nunca: ontem, num clube do qual sou sócio, na zona sul do Rio, chega um holandês que já mora há algum tempo por aqui, com seus dois filhos adotivos, os dois negros. É visivel o desconforto da elite ao ver seus filhinhos brancos na piscina com os "invasores". Reality sucks.

Xandão em novembro 22, 2010 10:19 PM


#114

Miriam Alves,seu poema foi para meu arquivo "Poetas" e peço licença para passar adiante.Simplemente lindo.
Abraço, Sônia

Nasci no Brasil,
negra saída do útero da noite
coroada pela força de Iansã guerreira nagô
nas mãos a espada de Ogum
carregando na pele senda ancestral
trilhada nas forças de Omolu
com Exu pratiquei a antropofagia da sobrevivência
mastiguei cultura européia,
engoli espinhos do racismo cientifico
junto com alguns sapos da democracia racial
e do racismo cordial
banhei-me sim nas águas de Oxum
e vi ressaltar o brilho das estrelas na minha pele noite
regurgitei excessos
bebi chá das folhas de Jurema da nação Tupinambá
e no tropicalismo dos meus versos
residem as minhas afros-palavras
e minhas afros-culturas


miriam alves em novembro 22, 2010 1:43 PM

SôniaG. em novembro 23, 2010 12:13 AM


#115

Outros já comentaram, mas faço questão de dizer tb: excelente o texto. Fiquei emocionado.

Fernando em novembro 23, 2010 1:15 AM


#116

Outros já comentaram, mas faço questão de dizer tb: excelente o texto. Fiquei emocionado.

Fernando em novembro 23, 2010 1:16 AM


#117

Gostaria de agradecer por você ter dedicado seu tempo pra um texto tão rico.Obrigada. Ingrid Leão

Ingrid Leão em novembro 23, 2010 1:20 AM


#118

Salve Ana. Obrigado pelo salve. Eu realmente gostei da forma lúcida e as informações das ideologias eugenista que perpassa não só a literatura de Monteiro Lobato, mas de outros autores. Foi o fruto do pensamento de um tempo de uma época, mas as conseqüências e seqüências ainda fazem vítimas.

miriam alves em novembro 23, 2010 1:25 AM


#119

Oi Sonia obrigado por ter gostado do meu poema. Eu não resisti a tentação de posta-lo. Mas pediria a você não repassá-lo, pois esta no meu livro inédito que será lançado em 2011.

miriam alves em novembro 23, 2010 1:32 AM


#120

O Terra Magazine acabou de retirar do ar um texto recém-postado em que Laura Athayde Sandroni (criadora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ) chama a condenação a "Caçadas de Pedrinho" de "idiota e hipócrita". Um dos argumentos defendendo Lobato era, incrivelmente, "O Presidente Negro"!

Tentei responder com links para este post e para a matéria da Revista Piauí sobre o livro eugenista, mas o texto foi deletado sem maiores avisos.

O cache do google ainda mostra que o texto existiu. Quem assina o feed do Terra Magazine no google reader pode ver o primeiro parágrafo do texto lá.

Cristiano Figueira em novembro 23, 2010 12:50 PM


#121

Achei um tanto exagerado e de certa forma arrogante, suas colocações sobre o tema e sobre quem tem opinião diversa. Isso pra mim é querer achar pelo em ovo, querer aparecer na mídia de alguma forma. O Racismo no Brasil não será maior nem menor sem Monteiro Lobato. Falácias e mais falácias...Oras, preto, fedorento, branquelo, azedo...
O maior racismo está nas nossas mentes e não em nossas atitudes!!!
Estamos correndo o risco de nos tornarmos um EUA, onde negros não toleram brancos e vice versa.
Sou branco, tenho amigos e amigas pretas, pretinnhas quase azuis, e sinceramente, adoro todos. A Raça é HUMANA...as cores, são nossas misturas.
Vamos abolir de vez o racismo, mas sem baboseiras desse tipo!

Luiz em novembro 23, 2010 2:54 PM


#122

Esse tipo de pensamento, tal o que está aí, muito bem argumentado, também me ocorreu no início da polêmica sobre os livros de Lobato.

Porém, penso que, para manter aceso o espírito combativo ao racismo, há de se ter sempre presentes as referências; no caso, os caminhos que deram surgimento ao racismo.

De que adianta dizer a brancos e negros (estes não imunes ao preconceito ativo, como se sabe a sobejo, a partir dos terríveis acontecimentos em Ruanda), que foram tomadas tais e outras medidas contra o racismo, sem que lhes oferecer como e porquê tudo isto ocorreu? Lobato, nada obstante, nos oferece esta explicação, o contexto histórico, o raciocínio e a face cruel da prática da eugenia e nos instiga a procurar mais.

Michel Foucault nos aponta o cerne da questão, mas a verdadeira resposta se obtém ao saber que os séculos das luzes, o renascimento, deram impulso ao surgimento da abominação.

Quando os homens pretenderam afastar a civilização das trevas de ignorância e de superstição, olhando tudo sob o ponto de vista científico, geraram algumas distorções. A partir delas é que foram surgindo certas teorias embasadoras de ideologias, que afinal se revelaram nefastos labirintos: ao invés de nos dar mais luzes, nos conduziram-nos, previamente, para as trevas.

Esqueceram-se temporariamente os homens, nesse impulso racional, que o mundo da matéria é dual e que todo o instrumento para o bem, eventualmente poderá ser usado para o mal.

Então, é preciso ter sempre presente que os intelectuais foram os idealizadores, tanto das coisas boas como das coisas más (ainda que estas, possam ter tido as suas origens nas mais subidas intenções).

Parece-me que agora, mais uma vez, enveredam pelo erro e, por isto, estou muito cauteloso para embarcar, sem restrições, nessa canoa que me parece furada. Sinto-me mais propenso a apoiar a opção para que se ponham avisos nos livros de Lobato e que os professores façam a abordagem adequada ao assunto. Afinal, é na escola que devemos aprender a ler e interpretar.

Que os intelectuais de hoje sejam mais sábios e não ponham um véu sobre o passado no intuito de preservar determinados valores, posto que assim diminuirão a compreensão e a importância dos fatos que deram azo ao surgimento das coisas ruins.

A OAB está certa ao condenar essa tentativa de “nazificação” dos livros de Monteiro Lobato.

Walter.

Walter Menz em novembro 23, 2010 3:06 PM


aiaiai em novembro 23, 2010 3:58 PM


#124

Nunca vi com bons olhos o saci pererê. Louvado na minha infancia como um idolo do folclore brasileiro, nao raro vi coleguinhas negros sendo chamados de sacizinhos.

Eu era muito amigo de um negro (que hoje é engenheiro da Braskem) e via como ele se sentia ofendido em ser comparado com o saci.

Se adentrar a fundo no material didadico das escolas dos anos 80 vc vai encontrar mais coisa. Muitas ilustracoes mostram negros em situacao desfavorael como na inconfidencia mineira, mesmo retirados do contexto de escravidao (nao era esse o assunto da materia).

Outra coisa que nunca me desceu: a exaltação do dia do soldado para puxar o saco da ditadura.

O dia do indio enquanto nao tinha o dia do negro..

Tem muita coisa pra se lembrar.. quem tiver acesso a esse material antigo pode escrever um bom livro a respeito.

Carlos em novembro 23, 2010 5:22 PM


#125

Valeu, Ana! Só hoje leio o texto.
A distorção do noticiário desse caso pela grande mídia e por outros opositores do governo até que me enganou, em parte, com o pouco tempo que tive para me informar a respeito.
E minha simpatia complacente pelas vagas e ótimas memórias que tenho de leituras do Sítio do Pica-Pau Amarelo fizeram com que eu quase engolisse essa história de censura.
Logo vi que não era nada disso.
Temos que saber lidar com antigos textos literários desse tipo, como temos que fazê-lo com velhos sambas racistas e sexistas, que estão aí, como documentos de cultura e de barbárie, como diria o filósofo.
E lembrei-me também de Fanon, quando evoca os negros colonizados pelos franceses, aprendendo a ler em cartilhas: "Nós, os gauleses..."

Jair Fonseca em novembro 23, 2010 5:22 PM


#126

É claro que minha primeira reação à suposta censura de Monteiro Lobato foi de incredulidade. Mas eu costumo cruzar as informações que leio aqui e ali. Logo descobri que não havia nenhuma censura, como quase acreditei.

Daí, comentei a história com um amigo, que credita justamente a Monteiro Lobato sua proximidade com a literatura. Ele leu "todos" os livros de Lobato e, claro, ficou passado com a minha notícia.

E eu lá, explicando o parecer do MEC (ou tentando explicar) e ponderando expressões como "macaca de carvão". Discutimos horas. Não o convenci durante nossa conversa que, entre cervejas, também enveredou por outros temas.

Daí, pintou esse texto. Sugeri que ele lesse, até porque quase toda a justificativa dele para ser contra o parecer era sua própria e inesquecível experiência com "Caçadas de Pedrinho" quando criança. Sim eu fiz lobby (*).

Depois, perguntei. "Leu? E aí, ela te convenceu?". Ele respondeu que sim. Pudera. A crítica à argumentação dele começou no título ("Não é sobre você que devemos falar"). O que uma boa argumentação e a elegância não fazem. Parabéns pelo texto.

(*) Peguei pesado no lobby para convencê-lo a ler o artigo. "A autora é quem escreveu 'Um defeito de cor', aquele livro que vc deu de presente para tua irmã". A irmã dele é profissional que trabalha um monte de autores africanos de língua portuguesa. Mora fora e veio a Porto Alegre num natal. Ele queria presenteá-la com um livro e pediu sugestões de títulos. "Um Defeito de Cor" foi a minha sugestão. Depois do Millor, Deus e todo mundo que conta, não havia muita dúvida sobre a qualidade da obra. "A única ressalva é a hipótese de ela já ter o livro". Isso não era problema porque, neste caso, a livraria trocaria o título por outro escolhido pelo(a) presenteado(a). Eu estava presente quando a irmã recebeu o embrulho. Quando ela abriu... "Ai, eu queria muito esse livro. Você acertou em cheio. Só não comprei um dia porque eu estava sem dinheiro. É um livro caro. No outro dia que tentei, tinha acabado na livraria". Incluí essa história do lobby pesadíssimo porque acho inaceitável que esse livro não esteja tão disponível assim: meu amigo disse que comprou o único exemplar disponível na capital gaúcha naquele fim de ano. A poderosa Livraria Cultura de Porto Alegre não o tinha (poderia encomendar, é claro, mas não havia tempo para isso). Ele ainda foi a outra livraria: sem sucesso. Até que um vendedor da Saraiva localizou o único exemplar em outra filial de livraria em Porto Alegre.

Fábio Carvalho em novembro 23, 2010 5:33 PM


#127

Como o comentário #123 notou, o texto do Terra Magazine foi posto no ar novamente. O título foi mudado, ficando menos agressivo, mas não notei nenhuma outra mudança.

Lá comentei, incrédulo, que - sendo o parecer do CNE correto ou não - o argumento da autora de que "O presidente negro" mostraria que Lobato "não tinha nada contra negro" só pode indicar que a autora provavelmente nem leu o livro.

Linkei esta página e o artigo de Pompeu de Toledo na Revista Piauí.

Cristiano Figueira em novembro 23, 2010 7:56 PM


#128

Parabéns Ana Maria!
Bravo!
E obrigado.

Fernando Trindade em novembro 23, 2010 10:29 PM


#129

O texto é definitivo!
Começando pelo título, que expressa de maneira brilhante onde é que está o ponto.
Passei para várias pessoas que têm/tinham dúvidas ou reagiram a essa coisa toda do parecer.
Agradeço à autora por esse banho de clareza, firmeza e sensibilidade.

lucila em novembro 23, 2010 11:00 PM


#130

Idelber,

O debate neste post está tão bom que resolvi escrever novamente.
Ontem eu li a correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto.
A atitude do fazendeiro, empresário, doutor,poliglota e paulista em relação ao pobre,mulato, sem nível superior, pinel e carioca não tinha nada de preconceituosa, apesar de todos os ingredientes presentes. Nas correspondências ficou claro que havia um grande afeto recíproco. Notei uma certa atitude paternal do ML em relação ao LB. Pode-se argumentar que o paternalismo é uma forma de preconceito. Mas aí já é muita metafísica para minha compreensão.
Saudações listradas em preto e branco.

Lincoln Pinheiro Costa em novembro 23, 2010 11:25 PM


#131

Acho que a questão, apesar de estar bem explanada, tem alguns senões.
Vou pincelar alguns.

Primeiro, não acredito que essa questão deva ficar restrita à opinião dita técnica de especialistas da área. É uma questão antes de tudo política e não tenho assim muita confiança nos especialistas. São tantas as patranhas que a Academia inventa, que sou como o gato, tenho medo de água fria.
Segundo, sou branco (ou deveria me dizer eurodescendente?), classe média, zona sul do Rio de Janeiro. Não tenho saudade do meu primeiro grau (na época era primário). Eu era branco azedo. Fui pele. Tive medo. Foi preciso desenvolver minha auto estima e aprender a enfrentar o coletivo. A "crueldade" faz parte da infância. A bondade, a solidariedade, são conquistas da sociedade, e de cada um de nós. Um preto é maltratado por ser preto, um gordo por ser gordo, um sardento por ser sardento. Compete aos pais e professores dar pistas de como as crianças devem se defender da tortura coletiva. Ou elas que descubram sozinhas. Conheço uma família negra (ou deveria dizer afrodescendente?) que ensina uma resposta óbvia para as crianças delas usarem: "sabe qual a cor do papel que uso para limpar a bunda?".

Se o Lobato era racista, fascista, terrorista, não interessa. Estamos falando de obra de literatura. Sou de esquerda mas leio escritores de direita, muito bons, ouço Caetano com prazer (e não ligo para as baboseiras que ele diz nem fico cobrando que diga outras coisas).

Caçadas deve ser vendido com tarja? Que criança vai ler? Melhor ficar em casa vendo o domingão do Faustão? Qual livro não deveria ser vendido com tarja? Verne é politicamente correto? Branca de Neve é politicamente correto? O Negrinho do Pastoreio deve ser banido?

Mas Caçadas poderia ser revisto. Vejamos:
Em vez de "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, poderia ser escrito "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem um tatu de carvão”. Ou o problema é só o "de carvão", poderia ser "como um mico leão dourado"? Ou o leitor é que preconceituosamente associa mal ao carvão, se fosse giz seria bom?

"Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta". Realmente carne preta é uma besteira, pois a carne da Tia Nastácia é vermelha, assim como o sangue do príncipe, que não é azul.

"E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Afro-descententes, euro-descendente e asio-descendentes ninguém, salvo a torcida do mais querido, gosta do pobre do Urubu. Maior preconceito contra uma ave formidável, símbolo da maior torcida.

Por outro lado, a Tia Nastácia, tão maltratada, tão humilhada, é colocada pelo autor no mesmo nível de Teseu na luta com o Minotauro... Fazer o quê?

Ah, o professor deve contextualizar. Brilhante! Se não for para isso, serve para quê? Fazer chamada?

Quanto ao Hergé, porque a implicância com Tintin no Congo? Tintin no país dos sovietes é dez mil vezes pior! Tintin na América é ridículo, se forem arrancadas as páginas preconceituosas devem sobrar duas ou três! Hergé é atroz, só escapam as obras da maturidade (Vôo 707 para Sidney, principalmente). Em todas as aventuras os pretos são boçais, falam errado, e só escapam de pior por causa da intervenção do Tintin. Em compensação, todos, eu disse todos, os criminosos são brancos...

Nas aventuras de Harry Potter os bruxos usam um pó para viajar... Alice bebia líquidos que a tornavam grande ou pequena... Mas pir-lim-pim-pim não pode! Criança que associe o po ao tóxico já não é inocente...

Aliás proponho o uso de tarja nos livros de história do Brasil, ou a proibição de leitura por menores de 21 anos. Ou são mentirosos ou são barra pesada. Os pretos, índios e pobres sofrem com o tratamento a que foram submetidos, os brancos com dinheiro tem obrigação de morrer de vergonha. E que os paulistas derrubem a estátua do Borba Gato.

Márcia, #14:
Excesso de inocência para as crianças as tornam vítimas preferenciais de todo o tipo de desajustado. Prefiro estórias mais "radicais", como em Perrault, em que a Chapeuzinho dá mole para o lobo e fica mortinha, sem a segunda chance do caçador tirá-la da barriga dele.

Anarquista Lucida, #55:
Mas Lobato não é, no vosso entender, a base da educação de qualidade? Pelo menos me parece que foi isso que li no Portal do Luis Nassif...

Cajueiro, #58:
Quem concorda com o que você pensa que está certo é legal, quem discorda é preguiçoso e burro. Isso não é racismo, certamente, mas não pode ser considerado respeito aos demais.

Cibele, #78:
"Para as crianças negras, então, some-se à autoridade do autor, as evidências que só elas podem ver.". Que criança pensa em autoridade do autor. Criança - ou adulto - lê a aventura, o romance, torce, sofre e se alegra com o destino dos personagens. Se o autor está presente, não é bom autor.

Marcos, #80:
Sou branco azedo e estou contigo. Acho que a cor dos nossos miolos é igual...

Eduardo de Assis, #81:
Me aponte um brasileiro nato de pais brasileiros etc que não seja afro-descendente. O fato de eu ser branco transparente não evita que existam negros na minha família. O que varia é a proporção... E na remota hipótese de poder me apresentar esse espécime, ele será parente de afro-descendentes... Metade...

Egídio, #96:
É proibido alterar a obra de um autor, faz parte do direito moral do mesmo. Quem desejar, escreva um livro politicamente correto, publique-o e o faça com méritos para ser lido. Sabotar o texto de terceiro não pode.

Marcia Costa, #101:
Fui um rato de biblioteca, lendo o que me caía nas mãos, ou eu encontrava nas bibliotecas. Estou firme e forte enfrentando as agruras da vida. Fico feliz de não ter sido protegido...

Xandão, #113:
O autor por trás da obra pouco tem a ver com a obra. Para analisar a música do Caetano não precisa ler nenhuma entrevista do mesmo. Se ler, talvez nem entenda mais a música. A obra literária tem autonomia em relação ao autor.
Quanto ao fato do clube, aí é que o bicho pega. Gostaria de ver esse povo todo concordante com as restrições à obra infanto-juvenil de Lobato na tal piscina. Aí é que poderíamos separar uns de outros. Magistralmente dito em Fado Tropical - é que há distância entre intenção e gesto".

Cristiano, #127
Faz parte da cultura academica deste país comentar sem ler, ou lendo as orelhas do livro. Um exemplo banal: grande parte dos livros de história dizem que a indústria era proibida no Brasil e que foi permitida pelo príncipe regente. Basta ler as duas leis para verificar-se que o que foi proibido era a produção de tecidos finos. Tecidos grosseiros e todos os outros bens eram de fabricação permitida...

Paulo Werneck em novembro 23, 2010 11:48 PM


#132

Ana, brilhante como sempre. Impressionante. Uma aula.

Bruno Freitas em novembro 24, 2010 12:33 AM


#133

Idelber, fiquei fora do ar por uns dias e somente hoje li este maravilhoso tewxto da Ana. Comovente. Vou repassá-lo.

Nilva de Souza em novembro 24, 2010 5:03 AM


#134

Idelber, fiquei fora do ar por uns dias e somente hoje li este maravilhoso texto da Ana. Comovente. Vou repassá-lo.

Nilva de Souza em novembro 24, 2010 5:04 AM


#135

Idelber, fiquei fora do ar por uns dias e somente hoje li este maravilhoso texto da Ana. Comovente. Vou repassá-lo.

Nilva de Souza em novembro 24, 2010 5:05 AM


#136

Lincoln, por favor, uma curiosidade: a correspondência de Lobato com Godofredo Rangel e Renato Khel, principalmente as cartas com os trechos citados nesse texto, estão no livro?

********
Obrigada pelo Lobby, Fábio Carvalho.

Para quem está tendo dificuldades de encontrar o livro, falei hoje com a editora e está saindo a 6a edição. :-)

*******
Cristiano, embora ela seja especialista em Lobato, realmente espero que não tenha lido. Seria menos grave.

******
Novamente, queria agradecer a todos pelos comentários, excelentes contribuições ao debate.

Ana em novembro 24, 2010 6:13 AM


#137

Nossas criancas estao carentes de Emília, narizinho, etc.
Ai que tempo bom aquele em que minha filha, hj com 24,s entava diante da tv e dizia: MAE, DE ONDE VEM O MILHO?

A inocencia sumiu e no lugar, a tragédia que vemos hj
dias felizes

Grace Olsson em novembro 24, 2010 5:18 PM


#138

Nossas criancas estao carentes de Emília, narizinho, etc.
Ai que tempo bom aquele em que minha filha, hj com 24,s entava diante da tv e dizia: MAE, DE ONDE VEM O MILHO?

A inocencia sumiu e no lugar, a tragédia que vemos hj
dias felizes
nice day

Grace Olsson em novembro 24, 2010 5:19 PM


#139

Texto chato.

Parabéns.

Refrator em novembro 24, 2010 7:41 PM


#140

Ana, #136
A correspondência entre Lobato e Lima Barreto eu li em uma publicação de 1955 do MEC, organizada por Edgard Cavalheiro e chamada "Os Cadernos de Cultura".
Ganhei este livro de meu colega de faculdade, amigo e escritor Nicodemos Sena, autor de "A Espera do Nunca Mais", obra que recomendo a todos. Mais informação sobre ele em: www.letraselvagem.com.br
"Por um mundo sem preconceito"!!!

Lincoln Pinheiro Costa em novembro 24, 2010 8:43 PM


#141

Caríssima Ana,

Aprecio muito a maneira sensata e firme como você levanta as questões. Acho que é por aí que devemos todos seguir.
Desde pequeno nunca me interessei pela obra do nosso "gênio da eugenia", justamente por perceber que os equivocados e os paternalistas dominadores o aclamavam demais. Cresci e passei a entender melhor a razão disso quando li sobre o "O presidente negro".
Hoje me interessa reinterpretar politcamente nossos grandes modernistas, bancados pela oligarquia do café que expoliava o país nos tempos da Revolta da Vacina.
Mas não é este o motivo do meu comentário. Concordo com a sua análise em praticamente tudo - inclusive sobre as coisas de que não precisamos falar.
Só questiono se devemos mesmo falar de direitos humanos. Depois de comparar duas declarações diferentes (a da Revolução Francesa e a atual), penso que eles foram criados para não produzir efeitos práticos. Comecei a perceber isso quando peguei um daqueles relatórios anuais da Anistia Internacional para trabalhar em aula.
Fora da América Latina (onde ainda temos que nos defender com o que estiver à mão), o discurso dos direitos humanos tem um forte apelo de racismo cultural e parece confirmar tudo o que o Foucault dizia sobre as metas da sociedade disciplinar.
Acho que precisamos superar ferramentas como essa, repletas de dominação simbólica, que nos tornam impotentes.
Assisti a um documentário chamado "ABC de Gilles Deleuze", em que o filósofo fundamenta esta avaliação sobre os direitos humanos e diz que a solução está na jurisprudência: aprovar leis específicas que regulamentem as garantias mínimas.
Só que ele disse isso numa realidade de França na década de 80. Aqui, a jurisprudência nunca foi suficiente. E mesmo na França atual anda mal das pernas - os imigrantes que o digam.
De qualquer modo, acho que temos que achar outras alternativas.

Um forte abraço! Saravá!

Luciano Monteiro em novembro 24, 2010 9:15 PM


#142

Caríssima Ana,

Aprecio muito a maneira sensata e firme como você levanta as questões. Acho que é por aí que devemos todos seguir.
Desde pequeno nunca me interessei pela obra do nosso "gênio da eugenia", justamente por perceber que os equivocados e os paternalistas dominadores o aclamavam demais. Cresci e passei a entender melhor a razão disso quando li sobre o "O presidente negro".
Hoje me interessa reinterpretar politcamente nossos grandes modernistas, bancados pela oligarquia do café que expoliava o país nos tempos da Revolta da Vacina.
Mas não é este o motivo do meu comentário. Concordo com a sua análise em praticamente tudo - inclusive sobre as coisas de que não precisamos falar.
Só questiono se devemos mesmo falar de direitos humanos. Depois de comparar duas declarações diferentes (a da Revolução Francesa e a atual), penso que eles foram criados para não produzir efeitos práticos. Comecei a perceber isso quando peguei um daqueles relatórios anuais da Anistia Internacional para trabalhar em aula.
Fora da América Latina (onde ainda temos que nos defender com o que estiver à mão), o discurso dos direitos humanos tem um forte apelo de racismo cultural e parece confirmar tudo o que o Foucault dizia sobre as metas da sociedade disciplinar.
Acho que precisamos superar ferramentas como essa, repletas de dominação simbólica, que nos tornam impotentes.
Assisti a um documentário chamado "ABC de Gilles Deleuze", em que o filósofo fundamenta esta avaliação sobre os direitos humanos e diz que a solução está na jurisprudência: aprovar leis específicas que regulamentem as garantias mínimas.
Só que ele disse isso numa realidade de França na década de 80. Aqui, a jurisprudência nunca foi suficiente. E mesmo na França atual anda mal das pernas - os imigrantes que o digam.
De qualquer modo, acho que temos que achar outras alternativas.

Um forte abraço! Saravá!

Luciano Monteiro em novembro 24, 2010 9:18 PM


#143

Paulo Werneck, obrigado, você me poupou muita escrita, fica mais um adendo, os comentaristas aqui tem filhos em idade escolar? Estão com problema com Monteiro Lobato na escola publica? E eu, pobre micro empresário, me fo... para pagar escola particular para minhas 3 filhotas? Estão oferecendo ML como livro paradidático nas escolas publicas, é? E eu nem sabia que nosso sistema educacional estava tão bem assim, pensava que as crianças que estudavam o curso fundamental aqui na periferia da zona leste de Sampa, sequer sabiam ler, que dirá entender sobre racismos, eugenia e afins, supostamente contidos nos livros de ML.
Me preocupo com questões mais banais como elevadores de "serviço" para separar serviçais de patrões. Batidas policiais que visam preferencialmente negros e até coisas como ninguém nunca ter estudado a fundo como na guerra do Paraguay, o Brasil ter perdido grande quantidade de soldados (na sua grande maioria negros) em desnecessárias cargas de infantaria quando a artilharia e armamentos brasileiros (belgas e franceses) tinham mais que o dobro do alcance e cadencia de tiro que dos paraguaios que usavam armas de fabricação artesanal em maioria. O que me leva a crer que houve o extermínio adrede calculado de nossos soldados, no intuito de eliminar parte da população negra do Brasil.

Dino em novembro 24, 2010 11:03 PM


#144

Ana, li o capítulo que você indicou. Foi assustador. Percebi a distorção que se apoderou desse nosso mundo - e deu no que deu.

Durante a leitura, vivenciei - anestesiado pelo tempo - alguns pensamentos macabros…

Se eu estivesse lá, qual teria sido a minha postura?
Será que eu não teria sido um dos partidários junto ao Lobato ou ao Euclides (pois diante de tais seres, certamente, seria um mosquito)?
Como analisar Heidegger e seu namoro com o nazismo?
Como analisar Prestes e a sua lealdade a Stalin?

Sim, efetivamente, são pensamentos macabros, mas sem dúvida é melhor tê-los que escondê-los (acabo de evocar um bêbado demônio brasileiro).

Creio que, sempre, é mais sadio deixar florescer os demônios em nosso jardim interior para, pelo menos, termos a chance de apasiguá-los; creio que assim corremos um risco menor à insensatez – mesmo com o perigo sempre adjacente das ideologias (no sentido marxista).

O melhor remédio para nós – se é que existe algum – é a crítica constante ao que fazemos e pensamos ou, relembrando o conto de Machado, a troca metafórica de nossas almas para que, dentro do possível, possamos mantê-las rejuvenecidas, e amorosas, durante o perigoso jogo rápido da vida.

É, parece que a saída é acreditar na estrela próxima, mas duvidar!

Bem, Ana, depois do macabro, fica um poema…


AMESTRADOR
by Ramiro Conceição

Adestro uma ameba em casa.
Já a ensinei a rir.
Vou ensiná-la a chorar
e por último - a amar.
Espero que, após todas as lições,
o bichinho vire - um ser humano.

Ramiro Conceição em novembro 25, 2010 12:30 AM


#145

Prezado Idelber,
Desculpe-me pelo equívoco ao endereçar o comentário anterior. Cheguei ao post pelo link que recebi via e-mail e confesso que não atentei aos detalhes, só agora percebi. Mas gostei muito do blog.
Um abraço!

Luciano Monteiro em novembro 25, 2010 1:14 AM


#146

Sinceramente acho inutil se discutir isso quando se é branco. É preciso sentir na pele a SUTILEZA do racismo e como isso afeta os negros.

Podem falar "ah mas nao é tanto assim.." mas pq nao é com voce.

Só o negro sabe exatamente o que é ser discriminado de forma sutil, ser sabotado por estratos sociais de forma "compreensiva e com bom senso".

Não estou revoltado, só acho que o debate deveria passar longe de quem não sente na pele as consequencias e quer dar pitaco no assunto.

Rickd em novembro 25, 2010 7:36 AM


#147

Rickd, vc está absolutamente certo. Sou branco e sei perfeitamente a não-dor. E em homenagem aos brancos que dizem "ah mas não é tanto assim" eis um texto de Lélia Gonazales:
.
“Foi então que uns brancos muitos legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. [...] E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que estava tão cheia de gente que não deu para a gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados ensinando um monte de coisa pro crioléu da platéia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. [...] A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.
Foi aí que a neguinha que estava sentada com a gente deu uma de atrevida. Tinham chamado ela para responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que estavam acontecendo na festa. Estava armada a quizumba. A negrada parecia que estava esperando por isso pra bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. Ta na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. [...] Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Teve uma hora que não deu pra agüentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga...
Agora, aqui pra nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes... Agora está queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar?”[...] Lélia Gonzáles.

Chico Mendes em novembro 25, 2010 11:43 AM


#148

Dino, #143:
De nada.

Rickd, #146:
Concordo contigo em parte. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato e a dor de um não é sentida pelo outro.
Entretanto, a vida em sociedade só pode ser discutida pela sociedade, brancos, pretos, amarelos, vermelhos, ricos, pobres, etc, etc, etc. O debate entre quem sentem o mesmo (se houvesse meio de avaliar que sentem o mesmo) e concordam entre si não seria debate, mas concordância sem qualquer resultado prático.
A condenação do branco também é ahistórica e inútil. Pretos possuiram escravos e foram eles que, em África, caçavam outros pretos para os vender aos brancos. Havia muito capitão do mato preto ou mulato perseguindo os fugitivos, e houve branco que protegeu quilombos. Isso é história, e história é um processo, que não dá para julgar.

Importante é saber o que cada um de nós faz hoje. Se somos ou não solidários. Se somos ou não fraternos. Se defendemos ou não os desprotegidos. Se tratamos ou não com respeito os demais, independentemente se são brancos, pretos, amarelos, vermelhos, ricos, pobres.

Importante é saber como tratamos nossos filhos, nosso conjuge, o vendedor da loja, o gay, o fanho, o trocador do ônibus.

Lutar contra texto literário é bobagem. Discutir Caçadas de Pedrinho a partir do reconhecimento do preconceito do Lobato, outra bobagem. O texto transcende o autor.

Alguém falou bem do texto infantil da Ruth Rocha. Deixou de ser bom por conta da declaração de voto que ela fez absolutamente preconceituosa e grosseira a favor do Serra e contra a Dilma?

Paulo Werneck em novembro 25, 2010 5:43 PM


#149

Simplesmente, extraordinário.

Enock Nicolau em novembro 25, 2010 6:32 PM


#150

Paulo #148 eu citei a Ruth como artista, mas acho que foi um equívoco o que ela falou na eleição. Minha filha nasceu em 1982. Só dava Xuxa na TV, algo terrível. Eu precisava fazer algo. Me sentia impotente diante da idiotização e da sexualização da infância no Brasil de então ( e que dura até hoje). Minha filha leu Marcelo(...), Os direitos Humanos, Direitos da Criança. Ela também leu Ziraldo, Ana Maria Machado e os contos de grimm. Quando ela cresceu mais um tanto, ela leu Machado de Assis, Ao contrário de meu gosto, detestava José de Alencar: romantismo e poesia não eram com ela. Logo eu, que amava Drummomd e Neruda. Gostou bastante da fase Realista da literatura brasileira. Daí, na adolescencia, lia Lima Barreto (recomendo o belíssimo Clara dos Anjos), Graciliano Ramos. Cresceu mais um pouco pra ler Dostoieviski.Crime e Castigo era seu favorito. Já no pré vestibular leu a coleção completa dos livros do Eric Hosbsbam porque queria entender o mundo e pensava em ser diplomata. Desistiu da diplomacia e abraçou as ciências Jurídicas. Hoje é formada em Direito e daqui a mais um ano, mestre em Direito de Família. Como fui militante sindical e fazia parte da comissão de mulheres da CUT, o feminino e a condição das mulheres sempre foi tema de debate entre nós. Muitas vezes ela não "enxergava" o preconceito e a exclusão. Hoje ela já vê como em sua infância ela e seus colegas foram "bombardeados" pela pressão dos "cabelos loiros e lisos" das apresentadoras de TV. Hoje é fã de Carice Lispector, escritora que eu tenho na cabeceira da minha cama! O problema é que ela pega os livros e não devolve! O que eu quero dizer pra você, Paulo e pra os demais é que seu filho é a pessoa mais importante do mundo e nós somos os responsáveis pela boa educação cidadã que eles precsiam e devem ter. Alguns desses livros que ela leu, muitas vezes eram indicados por amigas psicólogas e pedagogas. Eu também li muita coisa neste processo. Li Alice Miller, por exemplo, pra entender como os pais podem transformar a vida dos filhos em um inferno psicológico que não tem volta. Vamos cuidar dos pequenos durante todo seu crescimento. Vamos afastar nossos filhos de frente da TV e dar-lhes outras opção de cultura que os façam mais conscientes de seu papel na sociedade, ainda que eles demorem pra entender. O rapaz que espancou o outro na Av. Paulista é produto dessa cultura torta que não questiona nada,que não tem coragem de dizer que "Caçadas..." é racista, sim. Monteiro Lobato não é nenhum deus da literatura nacional. Quanto a Ruth Rocha, ela perdeu muito da admiração que eu tinha por ela pois agora eu sei o quanto seus textos são apenas palavras construídas e não pensamentos do seu coração. Essas coisas são boas de acontecer pra gente não se deixar levar pelo que o senso comum determina. é preciso pensar, questionar. Ou, como bem escrever Clarisse, é preciso transceder. E transcender é transgredir.

Marcia Costa em novembro 25, 2010 9:53 PM


#151

Márcia Costa, #150

Não me expliquei bem. Não tenho nada contra a literatura de Ruth Rocha, que deve ser lida (ou não lida) independentemente se a autora como cidadã é ou não progressista, ou mesmo educada. O Ferreira Gullar é, no meu entender, péssimo politicamente e muito rancoroso, mas quem sou eu para julgar a poesia dele. Adoro Caetano, suas musicas, suas letras, mas não perco meu tempo lendo suas entrevistas.

Não podemos confundir autor e obra. Um romance não é bom porque o seu autor é uma doce criatura, nem ruim porque é um cretino...

Gosto dos livros infantojuvenis do Lobato, li bastante, a Chave do Tamanho, mesmo com bobagens (morango é planta rasteira e jaca dá em árvore, ao contrário do que Lobato deu a entender) é maravilhoso.

Li também tudo do Hergé, menos Tintin no país dos sovietes (que o próprio Hergé deixou de publicar, envergonhado), que só li agora.

Ninguém poderá dizer que em alguma época de minha vida fui racista ou outros istas do mesmo jaez. Livros influenciam bem menos que o compotamento das pessoas à sua volta. Não sou perfeito, mas meus erros estão em outros campos.

Isso que estão fazendo é uma tempestade em copo d'água. Enquanto alguns estão combatendo o "racismo" subliminar da obra de Lobato, as crianças pobres (e as ricas com pais pobres de discernimento) são obrigadas a ver lixo na televisão, as meninas aprendem a oferecer o corpo, dançando na boquinha da garrafa, todo mundo se diverte com video cassetada, o BBB tem imensa audiência. Será que a fonte ou incentivo ao racismo é a leitura de Caçadas de Pedrinho? Façam-me o favor.

Paulo Werneck em novembro 26, 2010 12:35 AM


#152

Obrigada, Lincoln, achei que fosse nesse livro novo de correspondências de Lobato, o "A barca de Gleyre". Parece que nele há cartas para e de Godofredo Rangel. Seria interessante ver a seleção...

Paulo Werneck e Marcia Costa, eu quase não li literatura infantil. Como morava numa cidade pequena, que não tinha livraria, e na seção infantil da biblioteca havia apenas livros que eu lia em 5,10 minutos, ataquei a pequena biblioteca da minha mãe. Caçadas de Pedrinho fui ler agora, para escrever o artigo. Respeito a obra e a trajetória de escritoras como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, principalmente por dar visibilidade e importância à atividade de se escrever para crianças. Mas estou completamente decepcionada com as duas, que estão defendendo ardentemente a leitura de Lobato por crianças da rede pública estadual, depois de terem feito críticas à adequabilidade de Lobato às crianças de hoje:

http://www.cadaminuto.com.br/noticia/2009/09/13/ruth-rocha-e-ana-maria-machado-falam-sobre-monteiro-lobato

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100916/not_imp610479,0.php

É claro que terem mudado de ideia, talvez, e defenderem a adoção de um livro que é de difícil compreensão, não desperta interese nas crianças e ainda tem conteúdo racista, não reescreve a obra delas, mas eu me pergunto, na ordem de prioridades, onde fica o público-alvo.

Ana em novembro 26, 2010 1:26 AM


#153

Bem, eis uma das maravilhas da internet.
Onde mais eu teria acesso a um artigo desses?
Na grande mídia é que não seria.

Estou chocado com os dados revelados pela autora. Eu na minha infância li vários livros de Monteiro Lobato e nada naquelas histórias faria imaginar que se esconderia um homem com ideias tão absurdas.

Mesmo se levando em conta a época - que obviamente é preciso se contextualizar -, mas o que sai da leitura desses dados é a figura de um racista pleno de desprezo e nojo pela raça negra.

Não dá, depois de ler o que aqui foi escrito, para interpretar de maneira muito diversa as palavras da "boneca Emília" como não sendo a forma do autor expressar sem censura seus reais sentimentos de desprezo pela raça negra.

Afinal "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Roberto SP em novembro 26, 2010 11:45 AM


#154

Que Lobato era racista, nenhuma dúvida. Era latifundiário, cafeicultor, pertencia à elite branca paulista.
Por isso, nenhuma dúvida que os elementos racistas presentes na sua obra são inquestionáveis.
Tenho uma coleção dele, herdada do meu pai e que é da década de 50. Cresci lendo ele , além de outros autores.
Por isso, duas considerações ao texto quase sempre correto:
- A estética da narrativa do Lobato prendia e prende. Ele era um grande escritor na forma. Continuarei a gostar dele por isso.
- Devemos sempre mostrar Lobato para as crianças, devido a essa qualidade narrativa PRINCIPALMENTE por ele ser racista. Fazendo sempre essa advertência, para que a compreensão se dê dentro do aspecto histórico do racismo, circunscrevendo o racismo "lobatiano" no seu tempo e lugar. E ressaltando obras que podem disfarçar esse racismo, como o belíssimo conto "Negrinha", que dá nome a uma de suas obras e mostra a crueldade de uma senhora ex-dona de escravos com uma menina negra que ela criou como animal. O conto mostra também o contato da negrinha com elementos infantis brancos(uma boneca)servindo como fator de humanização dela.
A primeira vista, o conto pode passar a impressão de ser um líbelo anti-racista.
Como as crianças vão poder observar essas nuances da obra de lobato sem lê-lo?

Mauro em novembro 27, 2010 11:03 AM


#155

Ana, #152

Você me fez pensar sobre o que eu lia quando jovem. Não sei. Não me lembro de ganhar livros de presente, não me lembro bem o que li. Sei que havia Lobato, Condessa de Segur, e que minha avó mandava de vez em quando um pacote com o suplemento infantil do Diário de Notícias português, chamado Nau Catarineta, com histórias morais e quadrinhos europeus, e que herdei de minha irmã uma coleção revistas portuguesas de quadrinhos em continuação, chamada Cavaleiro Andante, na qual travei contato com Tintim, Asterix, Lucky Luke, histórias de piratas, de faroeste, etc. Li o que aparecia nos livros escolares - a canção do Paiaguá de Gonçaves Dias fez minha cabeça e me orienta até agora (Não chores meu filho, não chores que a vida, é luta renhida, viver é lutar, a vida é combate, que os fracos abate, que os fortes e os bravos só pode exaltar), enfim, uma confusão sem qualquer supervisão. Eu lia o que encontrava e eu tinha vontade de ler. Não posso me queixar. Eu tinha medo ao ver filmes do gordo e do magro! A literatura só serviu para me abrir horizontes, para me indignar com os absurdos - ninguém precisou me dizer que o Tintin era altamente preconceituoso, eu via o ridículo de colocar os negros e orientais como estúpidos, mas lia a história e torcia pela vitória do bem contra o mal, do tintin contra o Rastapopoulos (grego) e as idiotices dos detetives Dupond e Dupont (franceses), mais estupidos e retardados que todos os negros e orientais juntos, e nunca houve um movimento de eurobrasileiros ou francobrasileiros para protestar contra a humilhação dos detetives franceses.
O ponto é, deixem os jovens lerem os livros, afastem-nos da máquina de fazer doido (a TV) e dêem bons exemplos para as crianças, que elas são pequenas mas não são estúpidas.

Paulo Werneck em novembro 27, 2010 10:08 PM


#156

Ana, li sua entrevista no Correio Brasiliense deste último domingo. Espaço curtinho, não?!

Marcia Costa em novembro 29, 2010 8:26 PM


#157

Paulo Werneck, aqui concordamos sem pestanejar: "dêem bons exemplos para as crianças". Expô-las ao racismo, como forma de combatê-lo e entendê-lo, é um bom exemplo? Temos que pensar que tivemos bons exemplos familiares, que liam, que nos davam livros, que nos incentivavam a leitura e a crítica. Tivemos muita sorte. Com a maioria das famílias brasileiras não é assim, os pais não lêem, não incentivam, não têm livros em casa. Boa parte dos alunos de escola pública só lê livros indicados/fornecidos pela escola (por questões econômicas, falta de incentivo, educação deficitária, falta de bibliotecas etc...). São realidades completamente diferentes.

Aqui também acho que você compara duas coisas completamente diferentes: "nunca houve um movimento de eurobrasileiros ou francobrasileiros para protestar contra a humilhação dos detetives franceses." Me conta quando houve um processo que tenha durado vários séculos e que tenha difamado e escravizado detetives franceses apenas por serem detetives franceses, como aconteceu com os negros apenas por serem negros? Se isso existiu, aí você tem um ponto; se não, como comparar?


Marcia Costa, o que mais achei interessante foi o 4x1 :-)

Ana em novembro 30, 2010 4:05 AM


#158

Olá,

Texto belíssimo! Não há o quê tirar nem pôr! Parabéns!!

José Abílio Perez Junior em dezembro 1, 2010 1:53 PM


#159

Ana, muito obrigado por nos ajudar, com este excelente artigo, nossa luta contra o racismo. Axé e saudações.

Paulo Tavares Mariante em dezembro 6, 2010 3:49 PM


#160

Otima reflexão!

Gostaria de contatar a autora.
Abraços

Astrogildo Esteves Filho
Assessoria de Comunicação do CEAP
21 2232-7077 / 9400 8097

Astrogildo Esteves Filho em janeiro 3, 2011 4:45 PM


#161

O texto é excelente ! Parabéns à autora pela dedicação, cuidado e clareza de pensamento. O Brasil precisa de gente assim, que ouse discutir estes assuntos tão doloridos de forma construtiva e sensível !

Pedro Camargo em janeiro 25, 2011 3:26 AM


#162

Essencial... indicarei em sala de aula...

Att.

@conradrose

Conrad Rose em janeiro 26, 2011 11:18 AM


#163

Com o passar do tempo a enorme maioria da literatura de ficção envelhece e perde muito do seu poder de entretenimento, por faltar boa parte da identificação com a realidade perdida. Somos nostálgicos às nossas primeiras leituras, e talvez a isso se deva a defesa ao Lobato, sem o cuidado de o reler, como pondera a autora. Remanesce o valor histórico, e a necessidade da leitura, até mesmo para não esquecermos ter havido o racismo, que é a razão de ser da imprescritibilidade, e assim evitarmos a repetição.

pecus em fevereiro 2, 2011 5:44 PM


#164

Excelente artigo. Parabéns!

Duas pequenas correções:
- No histórico, no ano de 1996, em vez de PNDH está escrito PNHD
- No segundo parágrafo de "Outras Contextualizações" está escrito Hermé, e não Hergé.

Reblogado em: http://zumbidospalmares-cp.blogspot.com/2011/02/o-racismo-de-monteiro-lobato.html

Nathan em fevereiro 14, 2011 8:58 PM


#165

Esses textos (esse do site, e mais a Carta aberta ao Ziraldo) estão cumprindo um papel extraordinário. Especialmente devido à sua qualidade, à pesquisa e exposição criteriosa e "irrespondível". Mas também porque caem em terreno lavrado. A autora, com seu livro e posição desde muito, é uma pérola formada na cultura anti-racista instituída com muita luta, dor, sofrimento, mas também com exemplos admiráveis de superação, de alegria, de criatividade, por tanta gente simples!
O Movimento Negro Brasileiro se mostra, aqui, pedagógico, generoso - como quase sempre procedem os movimentos sociais consistentes. Apesar de tudo vão caindo aos poucos esses jeitos muito brasileiros de conservadorismo e medo. Estamos construindo jeitos brasileiros de enfrentar com seriedade e firmeza - sem perder a ternura jamais - os desafios de efetivar a República entre nós.

Amauri Mendes Pereira em fevereiro 26, 2011 1:45 PM


#166

Ainda há esperança!

roberto de carvalho em fevereiro 28, 2011 4:37 PM


#167

Ana,descrevo uma pequena história. Devo ter idade para ser tua mãe, mas como eu precisava de compreender tudo isso. São coisas que eu sinto, penso e não tenho capacidade para argumentar coerentemente. Em minha adolescencia,perguntei ao meu pai porque ele estava fazendo faculdade naquela idade(58anos). Ele esfregou o braço dizendo que não conseguia uma promoção no IAA por isso e passava a mão na pele do antebraço.Os generais eram os chefes de sessão das entidades públicas daquela época aos quais ele ensinava os serviços.Fiquei intrigada e não entendi que era a cor da pele. Na minha infancia pedia uma boneca de cabelos louros no natal, desejava penteá-las. Ele me dava uma toda de borracha, sem cabelos e dizia não encontrei uma tão bonita como vc,mas ele não encontrava bonecas negras como eu. Hoje eu estou fazendo faculdade com a mesma idade dele, 58 anos. Já minha mãe(analfabeta, solteira,empregada doméstica) irritava-se e provocava um escandalo, na vila em que morávamos, cada vez que ia pentear ou lavar meus cabelos, quantos absurdos eu ouvi, quantos complexos adquiri...hoje uso-os naturalmente e tenho compreensão pelos atos e desconhecimentos de minha mãe(naquele contexto, é claro!rs)...foi e, as vezes ainda é, muito dificil e doído analisar tudo isso, uma verdadeira catarse, sem psicanalista.Queria que nenhuma criança passasse por isso, é muito cruel e desumano...muito bom encontrar vc, tão terna, tão inteligente, tão transparente...minha alma está mais leve, me considerava uma velha revoltada,mas não, sou uma mulher indignada com a indiferença com a qual se ensina e educa-se nossas crianças para a vida...
Meu pai era negro e muito irresponsável nas questões de familia (compreendo-o agora), minha mãe é branca, como doeu até chegar aqui. Como compreendo o que é ser criança negra no nosso país, como quero que tudo isso mude...bjs Ana e muito, mas muito obrigada por tantas revelações...

Maria de Fatima em março 1, 2011 10:36 PM