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segunda-feira, 08 de novembro 2010
Só a justiça pode trazer paz para esta região de trevas, por Robert Fisk
O Biscoito oferece, em português, a última coluna de Robert Fisk para o Independent, texto contundente escrito a partir do recente massacre de cristãos em Bagdá. A casa agradece Paula Marcondes e Marcos Veríssimo pela tradução, à qual eu fiz um ou outro retoque estilístico: trabalho a seis mãos, portanto (com méritos maiores de Paula e Marcos), para circular em nossa língua um texto que merece ser lido. Com a palavra, a clareza moral e bem informada de Robert Fisk.
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A velocidade com a qual os povos do Oriente Médio se assustam com o massacre da Al-Qaeda à igreja de Bagdá é um sinal de como é frágil o terreno em que eles pisam.
Ao contrário dos nossos noticiários da televisão ocidental, a Al-Jazeera e a Arábia mostram todo o horror de tamanha carnificina. Braços, pernas e torsos decapitados não deixam dúvidas sobre o que significam. Todo cristão na região entendeu o que esse ataque significou. Sem dúvidas, dada a natureza sectária das agressões aos xiitas iraquianos, eu estou começando a me perguntar se a Al-Qaeda em si--longe de ser o centro/ a essência/ a fonte do "terror mundial", como imaginamos--pode ser uma das organizações mais sectárias já inventadas. Não há, suspeito eu, apenas uma Al-Qaeda, mas várias, alimentando-se das injustiças da região, uma transfusão de sangue que o Ocidente (e estou incluindo aqui os israelenses) injeta em seu corpo.
Na verdade, eu me pergunto se os nossos governos não precisam desse terror--para nos assustar, assustar muito, para nos fazer obedecer, para trazer mais segurança às nossas vidinhas. E eu me pergunto se esses mesmos governos irão algum dia acordar para o fato de que nossas ações no Oriente Médio estão colocando em risco a nossa segurança. O Lord Blair de Isfahan sempre negou isso--até mesmo quando o homem bomba de 07/07 explicou cuidadosamente em seu vídeo póstumo que o Iraque era uma das razões pela qual ele cometeu o massacre em Londres--e Bush sempre negou, e Sarkozy vai negar se a Al-Qaeda cumprir sua mais recente ameaça de atacar a França.
Agora, para a Al-Qaeda, "todos os cristãos" do Oriente Médio devem ser alvos também, dispersando essas ameaças como minas espalhadas pela região. Cerca de dois milhões de pessoas da comunidade cristã do Egito terão que ser protegidas durante as duas semanas do festival religioso Luxor, rodeadas por centenas de seguranças da polícia estatal, após a reivindicação da Al-Qaeda de que duas mulheres muçulmanas estão sendo mantidas contra a sua vontade pela Igreja Copta. É meramente incidental que isso possa ter se originado na decisão dessas mulheres de se divorciarem de seus maridos--e portanto pela conversão para pôr fim a seus casamentos, já que a Igreja no Egito não permite o divórcio.
Agora a contaminação se espalhou para o Líbano, onde as tensões entre xiitas e sunitas se intensificaram por causa da exigência do Hezbollah de que se rejeitem as acusações do tribunal da ONU sobre o assassinato do antigo primeiro-ministro Rafiq Hariri. O que poderia ter passado por um ato de vandalismo em qualquer outra época - a profanação de um túmulo cristão - agora tem declarações de amor passional e fraternal feitas por todos os clérigos do país para que não se sugira que os muçulmanos foram os responsáveis. Em Jiye, uma agradável cidade costeira ao sul de Beirute, alguém arrombou as cinco portas da abóbada da Igreja de São Jorge e tirou o corpo de George Philip al-Kazzi--morto por velhice no dia 23 de Julho de 2002--de dentro do túmulo, deixando-o com o crânio esmagado. Esse foi o terceiro ataque desta natureza na cidade em 10 anos.
O Padre Salim Namour, do monastério Saint Charbel - cujo nome vem do padre maronita morto há muito tempo e sobre quem se acredita que chora uma vez por ano - afirmou que sua cidade era um modelo de coexistência e fez um pronunciamento que poderia ser parte de orações em quaisquer igrejas e mesquitas do Oriente Médio. "Não podemos pensar desta maneira", disse ele. "Enterramos os mortos de nossos camaradas muçulmanos e eles enterram os nossos." O vice-presidente do Alto Conselho Islâmico Xiita, Xeique Abdel-Amir Qabalan, chamou o massacre de "bárbaro", um ato que "não tem nenhuma relação com qualquer religião ou humanidade e que não pode ser aceito logicamente." Os bispos maronitas libaneses depois condenaram o bombardeio a Bagdá como um "ato criminoso inútil".
O Ocidente é impotente para ajudar esses cristãos com medo. As ações de políticos "baseados na fé"--na fé cristã, obviamente--causou uma nova tragédia cristã no Oriente Médio. (O fato de eu ter conhecido recentemente vários americanos na Califórnia que achavam que o cristianismo era uma religião "ocidental", em vez de oriental, provavelmente diz mais sobre os Estados Unidos que sobre o cristianismo.)
Ninguém em sã consciência acharia que a al-Qaeda dispenderia suas energias em um ato tão mesquinho - apesar de revoltante - no Líbano. Mas a al-Qaeda existe no Líbano. Temos a palavra do presidente Bashar al-Assad sobre o assunto. De fato, é interessante escutar o que Assad disse sobre o tema na semana passada - uma vez que suas relações com o Hezbollah e o Irã xiita não o tornam mais amigável ao grupo de bin Laden. Em uma entrevista ao jornal Al-Hayat, ele disse: "Falamos sobre a al-Qaeda como se ela existisse como uma organização unificada e bem estruturada. Isso não é verdade. Ela age mais como uma corrente de pensamento que chama a si própria de al-Qaeda. Essa organização é o resultado (de uma situação), e não uma causa. É o resultado do caos, de um desenvolvimento fraco. É o resultado de erros e de uma certa direção política." Dizer que essa organização "existe em todos os lugares, tanto na Síria como em todos os países Árabes e islâmicos, não quer dizer que ela seja amplamente disseminada ou mesmo popular".
Ainda assim, Assad não pode absolver seu próprio regime ou os regimes dos estados árabes cujas leis de segurança proíbem quaisquer reuniões políticas - além daquelas aprovadas por oficiais do governo - e portanto há muito tempo forçam os muçulmanos a discutir política na única instituição que visitam regularmente: a mesquita. Por certo, a maior ironia nesta semana foi ouvir nossos senhores e mestres louvando a presteza do regime Wahhabi, na Arábia Saudita, por alertar ao Ocidente sobre os pacotes-bomba nos aviões, quando foi essa mesma Arábia Saudita que acalentou Osama bin Laden e seus comparsas por muitos anos.
Porque os ditadores do Oriente Médio também gostam de assustar suas populações. A elite dominante do Egito tem nojo dos seus pobres, mas quer ter certeza de que não haverá revoluções islâmicas no Cairo. E o Ocidente quer assegurar-se de que não haverá revoluções islâmicas nem no Cairo, nem na Líbia, nem na Argélia, nem na Síria, nem na Arábia Saudita. (Completem a lista.) O problema mais premente é que a al-Qaeda está tentando minar esses regimes, assim como tenta minar o Ocidente. Desta maneira, colocam o próprio Iraque no mesmo saco - é de certa forma irrelevante que o Iraque seja uma democracia, já que não há governo e eles estão ocupados demais executando seus velhos inimigos baathistas para proteger seu próprio povo -, juntamente com os cristãos e os xiitas do país. E continuamos a lançar mísseis não-tripulados no Paquistão, a bombardear inocentes no Afeganistão, a tolerar os regimes torturadores do mundo árabe e a permitir que Israel roube mais terras dos palestinos. Receio que será a mesma história de sempre: é a justiça que trará a paz, e não guerras de inteligência contra o "terror mundial". Mas nossos líderes se recusam a admitir isso.
Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post
| Comentários (14)
#1
Gostaria de linkar esse texto no facebook. Isso é possível? Como fazer?
henrique rodrigues em novembro 8, 2010 10:07 AM
#2
Uai, Henrique, é só copiar o link e jogar lá no seu Facebook, não tem segredo, não...
Idelber em novembro 8, 2010 10:10 AM
#3
Bom, o básico: Robert Fisk é incrível; violência gera violência; Deus é inocente; e os falsos heróis fazem no Oriente Médio o que é feito na África.
Agora eu queria chamar a atenção para o suposto orientalismo do cristianismo. Sabe, Jesus é um dos personagens de "O Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo). Mmm... Sinto a presença de uma polêmica interessante!
Abraços!
Aldrin Iglésias em novembro 8, 2010 10:37 AM
#4
Idelber, muito bom você disponibilisar, em português, o ótimo texto do disruptivo Robert Fisk, o primeiro a contextualizar publicamente a intenção subjetiva do termo "terrorismo" em esvaziar tratados e acordos de paz, assim como a revelar a produção de um sentido para os conflitos no Oriente Médio.
Dan Jung em novembro 8, 2010 10:55 AM
#5
Esse é o segundo texto fundamental que leio do Fisk sobre o assunto. Jornalistas também conseguem escrever textos perenes. Um alento - o único do texto - pelo menos.
Arthur Santos em novembro 8, 2010 11:04 AM
#6
Fiz. E o negócio apareceu como mágica. Me desculpe a ignorância, mas ainda sou semi-analfabeto em coisas virtuais.
Abraço.
henrique rodrigues em novembro 8, 2010 11:52 AM
#7
"Deus é inocente"
Aldrin,
ele pode até não ser o principal culpado por conflitos eminentemente político-econômicos, mas também tem seus pecados, né.
Toda vez que precisam de um bode expiatório, um arqui-inimigo, um fator pra criar a sensação de pertencimento a um grupo, fazer com que enxerguem mais facilmente que é "um de nós" e quem está do outro lado, a religião faz lá o seu papel.
Tudo bem que até guerrilhas ateias sabem rachar e brigar entre si, fingindo divergências ideológicas pra disfarçar interesses em poder político, ou mesmo que diferenças culturais já são suficientes pra criar distanciamentos. Mas pra aliciar "gente comum", que normalmente estaria à parte do confronto direto, fazê-los morrer pela causa de bom grado, uma "missão divina" tem efeito bem mais avassalador.
Se um garoto israelense até pegaria em armas pra defender seu território, sua nação, mas está disposto a dar a vida pra defender "a terra sagrada entregue por Deus ao povo escolhido", não dá pra descartar o poder de mobilização de massas da religiosidade, mesmo sabendo que nem só de religião se fez o sionismo.
JG_ em novembro 8, 2010 12:29 PM
#8
O que sempre mais me espantou não é a qualidade dos textos do Fisk, mas sim que seus textos não seja usados como modelos nas faculdades de jornalismo ao redor do mundo, principalmente aqui no Brasil. De resto monumental como sempre em expor a verdade tanto em relação aos EUA e Europa (me recuso a chamar-los de ocidente, pois ele representa muito mais do que apenas esses dois grupos), como em relação aos governos árabes, não menos inocentes em relação a sua população mantida no cabresto e sem liberdade para exercer sua própria crença.
João Vicente em novembro 8, 2010 1:11 PM
#9
JG,
Eu escrevi "Deus é inocente", para fazer propaganda para o livro do Carlos Dorneles (tem o mesmo título e é um tremendo gol de placa).
E para mostrar que as guerras religiosas são feitas por mentirosos. Aqueles assassinos dizem que agem em nome de Deus, mas na verdade agem em nome do rim, estômago... São animais piores que os animais.
É claro que se Deus existe, ele podia fazer algo contra esses vermes. Mas talvez Epicuro esteja certo e os deuses do Olimpo sejam uns tremendos preguiçosos e tão nem aí pra nós.
Ou talvez o céu esteja dizendo que a responsabilidade de combater os crimes feitos em nome da religião seja só nossa.
Deixe eu ir embora antes que o Idelber reclame que estou falando muito.
Abraços!
Aldrin Iglésias em novembro 8, 2010 3:41 PM
#10
Aldrin, pelo que a gente vê por aqui, parece que o Idelber não se importa nem um pouco que falem o quanto seja nos comentários.
A existência de um deus judaico-cristão sádico seria lindamente irônica demais pra ser verdade. =)
Mas até que os argumentos dos cristãos pra explicar a interferência seletiva do deus deles são relativamente bons.
Lá no seu primeiro comentário já deu pra sacar que você não tava isentando Deus completamente. O negócio é que eu vejo, com alguma frequência, esquerdistas criticando como o papel da religião costuma ser supervalorizado nos conflitos do oriente médio - o que é verdade -, mas às vezes fica a sensação que acabam por criar um efeito inverso, subvalorizando o quanto os artifícios que a só a religião proporciona servem tão bem a certos interesses políticos.
Comentei só por isso, pra ressaltar que pode não ser a base, mas nem por isso deixa de ter um papel bem demarcado nos conflitos.
JG_ em novembro 8, 2010 4:40 PM
#11
JG,
Infelizmente não é muito raro a esquerda fazer análises erradas.
Por mim deixava o poder para TODAS as crianças do Oriente Médio, enquanto os adultos levariam umas boas palmadas. Mas isso seria uma covardia... para as crianças! Elas não tem culpa se 100 ou 1000 anos não são suficientes para ensinar algo para os chefões da região.
Além do mais, as crianças tem que exercitar a difícil arte de ser indulgente para com os adultos. Isso é muito.
Um grande abraço e acredite: a paz virá. Os moderados de todos os lados irão vencer.
Aldrin Iglésias em novembro 8, 2010 6:32 PM
#12
GIRASSÓIS PRA SEMPRE
by Ramiro Conceição
Não contarei os mortos de Paris,
São Paulo, Vitória, Rio ou Madri.
Não cantarei aos mortos de Bagdá.
Não contarei os mortos do Haiti.
Não cantarei: porque também morri.
Ai de nós, porque a Vida estava aqui,
está aqui e estará aqui, apesar de nós!
Eu acuso a América
de doente química
do petróleo de Alá
e de ave de rapina
sobre Bagdá!
Eu acuso Washington
de criadouro de ditadores
e de abatedouro de inocentes,
ao bel-prazer de vis tesouros!
Eu acuso Manhattan de matar
Lennon em todas as Brasílias
do mundo!
A grandeza de uma civilização
não é a globalização do capital
a roubar e matar impunemente.
A grandeza de uma civilização
são os seus seios a alimentar
gerações de construtores
de estradas entre estrelas,
mares e palavras.
Porém somos ávidos por ideologias,
aptos à imundice de tudo... Contudo,
há uma Ética,
uma navalha a separar
canalhas - de canários!
Eu preciso dessa Ética pra viver!
Ramiro Conceição em novembro 9, 2010 12:24 AM
#13
Texto preciso e de mt lucidez - obrigada a tds os q colaboraram pra q pudéssemos lê-lo em português!! ( eu realmente NÃO pretendia q rimasse, mas... rs)
E a última frase: "é a justiça que trará a paz, e não guerras de inteligência..." é tão verdadeira e abrangente q se aplica tbm à nossa situação - um país mais justo e igualitário em oportunidades para tds os seu cidadãos é o q extirpará a violência q hj nos assola, e não essas ações pirotécnicas de caveirão e Cia. q só combatem efeitos, mas não as causas reais.
Não sei se minha geração verá a paz q virá da justiça, mas estamos cada vez mais conscientes e já pavimentando esse caminho.
Um abraço a tds!!
Letícia Castro em novembro 9, 2010 1:51 PM
#14
Aquele texto dele sobre os vazamentos da Wikileaks relacionados à guerra do Iraque também é excelente.
Esse cara é f*#%.
Danilo A. em novembro 10, 2010 11:24 PM