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sexta-feira, 18 de fevereiro 2011

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).


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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (326)


Comentários

#1

Um texto de tirar o fôlego. Que lamentavelmente - espero MUITO estar enganado - não vai estar nos artigos de opinião da grande imprensa. Ali Kamel merecia ler isso.

Mas enfim, não esperemos a montanha vir. Vamos a ela.

Grande beijo, Ana.

MarcosVP em fevereiro 18, 2011 9:36 AM


#2

Ana, bravo!

Katia Motta em fevereiro 18, 2011 9:48 AM


#3

Mais uma aula magna da grande Ana Maria Gonçalves! Texto urgente e brilhante, como sempre! Todavia, cabe aqui uma observação: Ziraldo sempre afirmou que "ler é mais importante do que estudar"... Pelas declarações do velho cartunista transcritas no texto de Ana Maria percebe-se que ele abandonou o bom hábito da leitura e da reflexão trazida por ela faz tempo, já que no surgimento da polêmica "Caçadas de Pedrinhos x Racismo" gente como a própria Ana Maria e articulistas como Sergio Leo e Paulo Moreira Leite colocaram o debate no seu devido lugar. Relembro isso porque eu tenho quase certeza de que se esse artigo da Ana Maria chegar nas mãos do criador do Pererê provavelmente ele dará os ombros e não passará do primeiro parágrafo, tão crente que é no "dogma" de "racismo precisa ter ódio"... E isso será lamentável para ele, que sempre propalou aos quatros ventos o seu "amor" pelas crianças e pelo universo infantil... Bão, de um jeito ou de outro, apenas para reforçar tudo que eu disse finalizar e finalizar de vez, eu digo: obrigado, Ana Maria!

Claudio Roberto Basilio em fevereiro 18, 2011 9:51 AM


#4

Só queria agradecer pelo texto. É um prazer quando lemos uma crítica assim, elegante e bastante embasada. Foge do padrão chiliquento atual.

Parabens Ana Maria

Lukas Darien em fevereiro 18, 2011 9:51 AM


#5

Arrebatador.

Parabéns pelo texto, Ana.

Pesquisa e trabalho sério. É disso que precisamos, e não trocadilhos espertinhos e engraçadinhos que caem no jogo da imprensa pra repetir: "isso é ridículo, isso é censura".

Com pesquisa e trabalho sério, você tornou indefensável o racismo de Lobato. Racismo, dos menos escondidos, mas dos mais articulados.

Se não workasse, não estávamos aqui playando...

Guilherme de Paula em fevereiro 18, 2011 10:13 AM


#6

Que carta! O pinçamento de textos de Lobato e Ziraldo e as respectivas análises expõem, em parte, o caráter de ambos os escritores. Deslindam suas almas. Revelam preconceitos. A carta é uma cartarse, também. Vou imprimir e ler com maior atenção. Gostei da abordagem da questão. Com certeza irei mais além do "ler". Vou "aprender", também.

Ignez em fevereiro 18, 2011 10:13 AM


#7

Bem feito, Ana Maria.
Foi um verdadeiro banho em quem, há muito, precisava.
Só pessoas como você poderão, com inteligencia e elegancia, pela força da verdade, salvar este país.
Até quando teremos que suportar estes "formadores de opinião" ?

Humberto Borges em fevereiro 18, 2011 10:22 AM


#8

Ôô pancada levou o Ziraldo!

Como ele, eu também pensava que as histórias de M.Lobato tinham importância na criação do pensamento coletivo brasileiro e iniciei lê-las para minha filha, As Caçadas de Pedrinho incluído. Nessa obra, é clara a grosseria com que ele se refere à Tia Nastácia e eu tinha que remendar o texto à medida que lia, para não repetir as agressões racistas do autor. Terminei, enfirm, por abandonar essa intenção porque muito do que estava alí é arcaico, do linguagar barroco às idéias do autor.

Adriano Matos em fevereiro 18, 2011 10:24 AM


#9

Recebi esse texto como um murro na cara. Estou realmente chocada e perturbada com o conteúdo das correspondências de Lobato. Mesmo depois de tanta polêmica, ainda o defendia. Mas a clareza e informações desse texto me convenceram de que não se trata de afroparanóia contra Lobato. É a revelação de que o tal racismo camuflado e "afetuoso" é muito mais danoso e tão violento quanto o racismo explícito.

Andrea em fevereiro 18, 2011 10:26 AM


#10

Nem tanto ao mar nem tanto à terra... Se a gente for pensar em quantos livros e outras obras de arte possuem conteudos imorais ( O racismo é imoraL) Tomar a parte como o todo e a partir daí condenar uma obra inteira!, é reduzir muito o valor e o uso da arte. Me incomoda mto mais os papéis dos negros na teledramaturgia brasileira. Sempre se repete os esteriótipos. Nunca vi negros em papéis de médicos, advogados, juizes, prefeitos, governadores, presidentes..... Isso, sim, me dá nojo e raiva! Sobre o Lobato, acho que ele é a cara de um Brasil rural, pobre, escravocrata, desigual, aristocrático. Sobre seus livros, cito o Millôr : " A nobreza de uma ideia não tem nada a ver com o canalha que a exprime". Que se explique para as crianças o contexto de sua obra!

daniel ferstl ferreira bastos em fevereiro 18, 2011 10:55 AM


#11

Ana, mais uma vez, obrigada! São seus os textos que a gente deve ter em mãos para contra-argumentar quando as pessoas vêm nos acenasr com a ausência de racismo no Brasil. Beijo grande.

Ana Paula Medeiros em fevereiro 18, 2011 11:02 AM


#12

Querida Ana Maria Gonçalves, adorei seu texto, tao lúcido e pontual! Parabens!
Voce desmonta e desvela as artimanhas de Ziraldo, que quer ficar sempre bem com todos.

Constancia Lima Duarte em fevereiro 18, 2011 11:10 AM


#13

Texto definitivo!

Bruno Correia em fevereiro 18, 2011 11:12 AM


#14

Ridícula sua análise das opiniões de Lobato são completamente descontextualizadas e de forma alguma podem ser consideradas avultadas pelo cartunista.

Quer dizer que se eu desenho o Ahmadinejad dançando com uma mulher, ao invés de estar fazendo humor, estou patrocinando as atrocidades contra o sexo feminino no Irã?

Caio em fevereiro 18, 2011 11:24 AM


#15

Ao Daniel Ferstl (#10): como contextualizar para uma criança negra que o autor se referia à Tia Nastácia como ''macaca'' e ''preta fedida'' porque era ''assim que se pensava na época''.

Qualquer tentativa de contextualizar o racismo para crianças será um ato de agressão contra aquelas que se sentem diretamente atingidas por ele.

Pensa o contrário quem nunca sentiu o racismo na pele. Ou quem não tem um filho negro em idade escolar.

Um amigo, branco, confessou-me esses dias que só depois de ter se tornado pai de uma menina negra é que começou a sentir o racismo brasileiro. Até então ele sabia que existia racismo, achava um absurdo que houvesse, mas nunca havia sentido, ele próprio, o racismo na pele.

''Hoje não há um só dia em que eu não vá à rua com minha filha e não volte indignado com os olhares de reprovação, com os comentários que escuto ou com o tratamento que dispensam à ela, uma criança inocente que ainda não consegue entender a razão de estar sendo tratada de forma diferente pelos coleguinhas, pelos pais dos coleguinhas ou mesmo pelas professoras. Quando maltratam a minha filhinha é como se estivessem me maltratando também. Hoje eu me sinto um negro'', disse o meu amigo.

Uma pergunta aos que acham um exagero as críticas feitas à adoção de ''As Caçadas de Pedrinho'' pelas escolas da rede pública: fossem livros com temática antissemita, tudo bem? Qual seria a reação da comunidade judaica em relação a livros que tratassem o povo judeu de forma racista ou pejorativa? A imprensa também diria que os judeus estão fazendo ''muito barulho por nada''? Ou compreenderia e endossaria sua revolta?

Para reflexão.

Bruno Ribeiro em fevereiro 18, 2011 11:33 AM


#16

É isso aí! Todo o apoio.

O daniel, aí acima, sugeriu que o contexto seja explicado às crianças e ao mesmo tempo que a arte tenha respeitada sua autonomia.

Ah, então quer dizer que, ignorando a própria estrutura da obra do Lobato, ela deve ser lida como objeto cujos valores são autônomos em relação às demandas políticas e sociais (racistas, excludentes, eugenistas) e ao mesmo tempo como objeto que, somente no racismo, não foi autônomo e deve ser referido ao contexto? Ã?

Quer dizer que o Lobato deve à arte o fato de ser bom contador de histórias e deve ao contexto o fato de ser um bom racista contador de histórias racistas? Desculpe, mas não faz sentido.

A obra de Lobato é um todo não autônomo em relação às demandas políticas, sociais e de mercado. É impossível lê-lo do ponto de vista estritamente artístico, já que a arte não tinha espaço autônomo em relação às outras demandas, e já que o próprio Lobato se posicionou contrariamente às tentativas de autonomização, pois esteve, para o bem e para o mal, ligado às exigências do mercado e da política.

O que muita gente está reivindicando é o seguinte: vamos ler sem ler. Falar de Lobato, sem falar de Lobato. Falar do racismo "lá fora", sem falar da estetização do racismo. Francamente, é um sintoma social e tanto.

Valdir em fevereiro 18, 2011 11:33 AM


#17

Ao Daniel Ferstl (#10): como contextualizar para uma criança negra que o autor se referia à Tia Nastácia como ''macaca'' e ''preta fedida'' porque era ''assim que se pensava na época''.

Qualquer tentativa de contextualizar o racismo para crianças será um ato de agressão contra aquelas que se sentem diretamente atingidas por ele.

Pensa o contrário quem nunca sentiu o racismo na pele. Ou quem não tem um filho negro em idade escolar.

Um amigo, branco, confessou-me esses dias que só depois de ter se tornado pai de uma menina negra é que começou a sentir o racismo brasileiro. Até então ele sabia que existia racismo, achava um absurdo que houvesse, mas nunca havia sentido, ele próprio, o racismo na pele.

''Hoje não há um só dia em que eu não vá à rua com minha filha e não volte indignado com os olhares de reprovação, com os comentários que escuto ou com o tratamento que dispensam à ela, uma criança inocente que ainda não consegue entender a razão de estar sendo tratada de forma diferente pelos coleguinhas, pelos pais dos coleguinhas ou mesmo pelas professoras. Quando maltratam a minha filhinha é como se estivessem me maltratando também. Hoje eu me sinto um negro'', disse o meu amigo.

Uma pergunta aos que acham um exagero as críticas feitas à adoção de ''As Caçadas de Pedrinho'' pelas escolas da rede pública: fossem livros com temática antissemita, tudo bem? Qual seria a reação da comunidade judaica em relação a livros que tratassem o povo judeu de forma racista ou pejorativa? A imprensa também diria que os judeus estão fazendo ''muito barulho por nada''? Ou compreenderia e endossaria sua revolta?

Para reflexão.

Bruno Ribeiro em fevereiro 18, 2011 11:34 AM


#18

99% dos que dizem que o professor tem que "contextualizar o racismo de Lobato para a criança" nunca pegaram num pedaço de giz.

Idelber em fevereiro 18, 2011 11:38 AM


#19

Caramba! Agora me deu muita vontade de ler o livro desta mulher. Que mulher! Perdão. Que escritora!

Jean Scharlau em fevereiro 18, 2011 11:40 AM


#20

Um primor seu texto, Ana! Maravilhosa lucidez. Ressalto ainda o absurdo de mais uma vez se retratar a mulher negra como objeto sexual: o homem branco de terno, ela de biquini. Racista e sexista esse Ziraldo.

Ju Sampaio em fevereiro 18, 2011 11:42 AM


#21

Grande texto, Ana Maria Gonçalves! Tão urgente quanto combater o racismo difundido abertamente é combater o racismo velado e mascarado em escusas justificativas como as de Ziraldo e de todos os outros que dizem que "não somos racistas", mesmo quando surgem a cada dia novas histórias de horror e preconceito! Seu texto foi brilhantemente construído, e meu desejo sincero é que ele chegue aos ouvidos que merecem ouvir essas verdades!

Parabéns!

Ayesha Luciano em fevereiro 18, 2011 11:47 AM


#22

Parabéns Ana Maria, concordo com o #4 Lukas, que estilo!

Paulo Maia em fevereiro 18, 2011 11:50 AM


#23

Que bom poder ler isso, Ana, que bom. E obrigado por mais um excelente texto contra essa literalidade que, quando muito, só consegue ver racismo na KKK, homofobia no ataque com lâmpada fluorescente ou machismo na cadeira de rodas da Maria da Penha.

Cleber em fevereiro 18, 2011 12:09 PM


#24

Grande texto. Se tivesse uma parte só a criticar, entre tanta pesquisa bem fundamentada e inteligência apurada, seria apenas o fato de ter citado a opinião de Ziraldo a respeito de Simonal e interligado-a a uma insinuação de antipatia do desenhista à cor do cantor. Bem se sabe que a figura do Simonal ainda esta em processo de reavaliação, começando pelo ótimo documentário recente produzido pelo filho do artista, mas tal julgamento do Ziraldo é compartilhado por vários contemporâneos do Simonal, incluindo outros negros.

Eu sou um exemplar da miscigenação nacional, sou branco, meu pai era negro, minha mãe descendente direto de espanhóis, e o pai de meu pai índio. Assim como grande parte da população brasileira. Não se pode negar a discriminação racial acentuada, principalmente contra os negros, que existe nesse país. E o grande mérito do texto da Ana é mostrá-la no que tem de mais perverso e tendente a manter sua perenidade: o caráter subliminar do racismo, os adendos de tradição de fazer-se piadas contra os negros, de taxar-lhes apelidos pejorativos, de, tranquila e de boa consciência, impor que o negro seja o eterno "bobo do povoado", o eterno personagem mítico de terceira categoria sobre o qual é normal cair os neologismos e distorções da língua que os enquadram sutilmente como sub-espécie. Isso é o mais terrível, e, penso, o que deve ocupar o centro dos debates sérios sobre o assunto. Há uma gramática e uma História paralelas às oficiais que correm no cotidiano das cidades históricas brasileiras, especificamente para manter a centenária mentalidade de recepção sobre os negros. É o caso da Cidade de Goiás, perto da cidade onde moro, e Ouro Preto, Diamantina, em Minas Gerais, e nas várias cidades antigas do nordeste. Nessas cidades_ exemplos potencializados do que acontece no restante do país_ a visão discriminativa contra os negros é tão arraigada, envolta com um verniz de "carisma", que tais textos e tais hermenêuticas acadêmicas como as que vemos aqui (e as que são produzidas pelas faculdades locais) não conseguem perfurar a indevassável malha de concepção cultural popular. Nada mais comum que o uso cotidiano, e espontâneo, das denominações como "macaco", das frases em jargões "só podia ser negro, mesmo", ou "mas, também, olha só a cor dele!". E, quando alguma polêmica serve a tirar essas pessoas do torpor da tradição e mostrar-lhes as consequências sociais desse "carisma" por sobre as vítimas discriminadas, essas pessoas alegam que também "não são brancas", que "no Brasil não há racismo, pois não existem negros REAIS e brancos REAIS, mas só uma alegre e freiriana miscigenação."

Não conheço a Ana Maria Gonçalves, suponho que ela escreveu algum outro texto para o Biscoito, que não me animei a ler. Confesso que quando vejo textos como esse, subscrito por uma autora que assina "negra, ecritora", fico tão desestimulado que passo adiante. O mesmo comportamento que tenho diante toda as minorias institucionalizadas e geralmente raivosas desse país: feministas, ateus, gremistas, corintianos, anti-papistas, papistas, homossexuais, anti-homossexuais. É o tipo de imersão forçada que te faz TER QUE SE POSICIONAR, e quando menos vc percebe, apesar de nunca ter sido homofóbico e de ter vários amigos homossexuais, vc já está participando de uma passeata gay, intensamente vinculado na defesa de uma causa que até então vc adotava em relação a ela a mais saudável posição requerida: a de uma indiferença respeitosa, uma isenção pacífica. De forma que ler esse texto da Ana foi, de certa forma, uma revelação da possibilidade de uma discussão cujo envolvimento e estruturas empregadas são de um âmbito bem superior ao normal dos debates sobre diferenças sociais.

Baseado nisso é que proponho à Ana a leitura, se já não a fez, dos livros do sul-africano J.M. Coetzee, em especial o magnífico romance "Desonra". Esse ganhador do Nobel, que explorou o tema do racismo contra os negros de uma forma profunda e combativa (veja "Vida e Época de Michael K."), com esse título, tem a coragem de ir além ao padrão das visões costumeiras sobre o assunto. Nesse romance, uma mulher branca é brutalmente estuprada por um garoto negro, numa fazenda na Àfrica do Sul. O pai da vítima, professor universitário decaído, um intelectual especialista em Byron, reconhece o garoto negro e aciona a polícia local. Nada é feito, há uma conivência obscena dos oficiais, todos negros, com o estuprador, que transita livremente pela cidade, chegando a participar de uma festa local e da própria casa da mulher estuprada. Até que um dia, a filha do professor lhe revela: vai se casar com o estuprador. Uma espécie de compensação histórica por parte de uma branca a todo o sofrimento por qual os negros passaram. O que é um estupro de uma branca, ela diz ao pai indignado, diante todo o histórico de estupros sofridos pelas negras africanas, perpetrados por seus senhores brancos.

Veja que o assunto é espinhoso, e necessita de muito comedimento dos debatedores para ouvir e respeitar os imensos pontos de conflito. O que Coetzee, no meu entendimento, propõe, é justamente o grau mais elevado de cogtação de possibilidades, afastando-se da retórica imbatível de ambas as partes para demonizar e se auto-vitimizar no assunto. E o que mais ocorre no Brasil, nessa e numa inúmera gama de outros assuntos, é isso: a impossibiliadade de se achar um caminho, devido ao ódio apaixonado dos oponentes, cada qual na certeza de ter a razão diante um inimigo terrível. É o caso das cotas raciais, talvez um dos monolitos principais do tema. Talvez ( e note bem, faço uma tentativa, assim como Coetzee, uma expansão da imaginação sobre o assunto), o Ziraldo esteja, inconsciente ou não, propondo isso, na junção do Monteiro com a mulata: propondo uma aproximação reativa de dois mundos repletos de idiossincrasias
e um fardo histórico de concepções temporais mutáveis que possam se juntar num nivelamento dialético isento de ódio. Não se pode esquecer que, se julgarmos um escritor (ou criador em qualquer outro campo da arte) pelo que exteriorizou de ideias, e não por sua obra, sobrarão poucos. De Shakespeara, Euclides da Cunha, Dostoiévski, Machado, Céline, todos desconsiderados por terem sido, em parte, produtos do meio de uma época histórica que tinha suas próprias incorreções políticas, num maior ou menor grau deletério.

Talvez por isso, para mostrar que o próprio homem é um elemento dialético em mutação, Coetzee, em sua auto-biografia, tenha se mostrado como um cadáver hipotético de um ser humano arrogante, icerto, corrupto.

Marcelo em fevereiro 18, 2011 12:10 PM


#25

Ana, Ana, Ana!

Nunca vi alguém enfiar e rodar o dedo dentro da ferida com tanta precisão. Elegância cirúrgica.
Obrigadissíma pelo texto.

Marcia W. em fevereiro 18, 2011 12:21 PM


#26

Cara Ana Maria, só tenho a agradecer todos os pingos nos is que vc,magistralmente, coloca.
E pra botar mais lenha na fogueira, vale notar o caráter machista da imagem. Porque lobato não está nú também ,como seria mais adequado? A mulata sorridente e semi nua servindo de objeto sexual a um branco em gravatas não é uma coletânea triste de preconceitos?

Esse afeto que Ziraldo diz é aquele que ouço de gente abastada que tem uma empregada (negra, claro) na família faz décadas - a quem não se remunera adequadamente - declarar que a serviçal é "quase como se fosse da família".

E esse quase vai longe, porque a empregada negra mora mal, come mal, gasta horas da sua preciosa vida num transporte ruim e cuida pouco dos seus próprios filhos porque dedica as horas do dia aos filhos da patroa. Tudo, é claro, com muito afeto.
É quase como se a empregada fosse gente, né? Quase como se ela tivesse direitos, quase como se tanta gente já não se tivesse sofrido demais com o racismo no país.
Tudo com "açúcar e com afeto".

obrigada mais uma vez.

ana lucia vilela em fevereiro 18, 2011 12:26 PM


#27

Parabéns, Ana Maria, pelo excelente texto.

Quando leio uma argumentação tão elegante e precisa como esta me sinto um pouquinho vingada pelo racismo que sofri quando vivia no Brasil.

Uma das lembranças mais dolorosas da infância é a de uma colega de classe que começou a me chamar de "negrinha fedida da vala". E olha que nós nem líamos Lobato naquela escola.

Os professores não tomaram nenhuma atitude. Minha mãe me aconselhou a "esquecer isso". Meu pai sequer se me deu ouvidos.

daniela em fevereiro 18, 2011 12:38 PM


#28

Nossa, o Ziraldo (que aliás é mestiço) não vai nem dormir à noite depois desta bordoada...

Moco em fevereiro 18, 2011 1:03 PM


#29

É fácil demonizar o Monteiro Lobato nos dias de hoje. Mas ele foi apenas um homem de seu tempo. Como o próprio Machado. Borges era mais racista que a turma do Ku-Klux-Klan. E já vi várias entrevistas do João Ubaldo Ribeiro mencionando "os negros", como se ele fosse branco.

Ironicamente, o próprio Ziraldo é mestiço...

Moco em fevereiro 18, 2011 1:08 PM


#30

Prezada Ana Maria, excelente texto!
Precisamos desconstruir os cânones da literatura brasileira e mostrar o quanto há de racismo nas suas obras, como a senhora muito bem demonstrou nos textos do Ziraldo. Este, um ídolo que tive durante a infância, ídolo por sua atuação nos tempos sombrios da ditadura, mas que se desfez com as fatídicas declarações em defesa do racista Monteiro Lobato e após visualizar o cartaz provocativo que fez para o bloco de carnaval.
Muito obrigado pela sua coerência, clareza e humanidade.
Abraços,
Ricardo Riso

Ricardo Riso em fevereiro 18, 2011 1:15 PM


#31

Texto brilhantemente construído com embasamento teórico, de forma contextualizada e muita sensibilidade.
Parabéns Ana Maria.
Lobato e Ziraldo: tão antiquados e tão atuais em seu preconceito racial "afetuoso", ainda tão presente na sociedade brasileira, responsável por aniquilar a vida daqueles que geneticamente possuem a cor da pele negra.
Isso vai durar até quando??

Jander Loyola em fevereiro 18, 2011 1:15 PM


#32

Texto definitivo. [2]

Mari Biddle em fevereiro 18, 2011 1:18 PM


#33

Não é impedindo crianças e adolescentes de terem acesso às ideias de Lobato e de vários outros artistas e intelectuais preconceituosos que vamos educá-las e combater efetivamente o preconceito.
O livro, sendo adotado, seria uma ótima oportunidade para o professor esclarecer o racismo e debater o tema com os alunos.
O que me preocupa no políticamente correto é o fato de tentar impedir o acesso à crueldade do preconceito, como se maquiasse a verdade nua e crua para crianças e adolescentes. Não concordo com esse tipo de educação.
Concordo com as críticas feitas à ilustração das camisas do bloco.

Karla em fevereiro 18, 2011 1:33 PM


#34

O texto é um primor. A figura do Lobato que a gente quando criança aprende a ver como um vovô bondoso contando histórias maravilhosas, se transforma - PELAS PRÓPRIAS PALAVRAS DELE - num canalha repulssivo.

E o mais espantoso é que depois de ler tudo isso tem gente que vai buscar Dostoievski para tentar justificar.

O quê?

Roberto SP em fevereiro 18, 2011 1:36 PM


#35

Pelo visto a Karla se preocupa mais com o feminismo ultrajado da mulata do que o racismo abjeto de Monteiro Lobato.

Roberto SP em fevereiro 18, 2011 1:39 PM


#36

Relmente arrebatador. Texto digno de ser usado em sala de aula, com alunos de todos os níveis escolares, para gerar reflexão. Também me entristece saber que o Ziraldo usou de forma tão baixa e tão pouco crítica a recomendação do MEC. É tudo tão demorado quando se trata de avançar na discussão sobre a questão racial no Brasil, e quando avançamos pessoas como ele resolvem "macaquear". Lamentável!

Maria Elisa Máximo em fevereiro 18, 2011 1:43 PM


#37

Pobre Lobato, e pobre infância brasileira que se vê impedida de lê-lo. É a vitória da burrice.

Mário Salerno em fevereiro 18, 2011 1:44 PM


#38

O livro, sendo adotado, seria uma ótima oportunidade para o professor esclarecer o racismo e debater o tema com os alunos.

Faça o experimento, Karla. Entre numa sala de aula com 30 alunos de 9 anos de idade, 5 deles, digamos, negras. Aí essas crianças leem no livro -- com o qual, lembre-se, elas têm uma relação de reverência, de objeto de autoridade -- que a personagem que se parece com elas é "fedida, crioula beiçuda, preta imunda". Aí você verá essas cinco crianças recebendo o impacto daquela desumanização e, muito provavelmente, sofrendo bullying dos outros colegas.

Aí você pega um pedaço de giz e começa a "esclarecer o racismo" para elas e me conta qual foi o resultado.

Boa sorte.

Idelber em fevereiro 18, 2011 1:45 PM


#39

Eu vim aqui para debater e respeitar todos que fizeram o mesmo, Roberto.
Eu só disse que não acho que vetando determinadas obras, pessoas, pensamentos, ... iremos educar realmente crianças e adolescentes.
Eu abomino qqr tipo de preconceito e por isso mesmo defendo que eles sejam expostos para os alunos para que o educador possa conduzir um debate que combata o racismo, a homofobia, o machismo, a misoginia,...
Não julgue quem vc não conhece só pq, em alguns pontos, discorda de vc, isso tbm é intolerância.

karla em fevereiro 18, 2011 1:46 PM


#40

Idelber, é isso que fazem muitas professoras do ensino básico que conheço.
Foi isso que eu fiz durantes os 8 anos que trabalhei no ensino médio em uma escola de elite de BH. No início, só recebia agressividade dos alunos e alguns protestos dos pais. Mas consegui fazer o trabalho e conquistei o respeito da maioria daquela comunidade escolar.
Me incomoda muito o fato de as pessoas serem tão agressivas e irônicas com quem pensa diferente delas.

karla em fevereiro 18, 2011 1:51 PM


#41

Excelente! Acho detestável essa postura do Ziraldo que gosta de se apresentar como irreverente, mas que reverencia o tempo todo os piores preconceitos.

Guto em fevereiro 18, 2011 1:52 PM


#42

Idelber, é isso que fazem muitas professoras do ensino básico que conheço. Foi isso que eu fiz durantes os 8 anos que trabalhei no ensino médio em uma escola de elite de BH.

Eu não estou sendo agressivo. Estou simplesmente trucando. Duvido que tenha tido experiência de trabalhar os textos racistas de Lobato, dentro de sala de aulas com crianças de 8 ou 9 anos de idade, negras, com resultados positivos e não traumáticos para elas.

Duvido. Se tiver link, fonte, documentação de alguém que tenha genuinamente ouvido os alunos negros depois da experiência de ler Lobato na infância, em sala de aula, e comprovado que foi uma experiência positiva para as crianças, é só apresentar. O blog aceita links.

Idelber em fevereiro 18, 2011 1:56 PM


#43

Texto maravilhoso, Ana. Realmente sensacional, colocando pingos nos 'is', fundamentado por pesquisa e uma análise profunda da obra de Lobato. Muito obrigada. Beijos,

Leticia.

Leticia Marteleto. em fevereiro 18, 2011 1:59 PM


#44

Idelber, eu não sei se a visão das crianças de uma obra literária passa por um auto-reconhecimento assim tão imediato. Ainda mais que os personagens das ficções infantis do Monteiro são deliberadamente imaginários para que a Dona Benta ou o saci sejam tidos como marcas de esteriótipos pessoais. Na minha infância escolar, pelo menos, nas leituras de Monteiro, não me parece que alguma vez os bullying tenham partido dessas leituras. Lembro de um livro sobre os símbolos discriminatórios do império norte-americano por detrás dos desenhos do Disney, muito popular na década de 80, que apontava o quanto o Zé Carioca era um tipo da malandragem e alienação do latino-americano, o Tio Patinhas a representação dos banqueiros capitalistas gananciosos, e assim vai. Causou muito frisson, arregimentando debates intelectuais fervorosos, e, nós, crianças naquela época, ou pré-adolescentes, continuávamos lendo e assistindo à Disney com o mesmo fascínio descompromissado de abtermos apenas diversão. Talvez a Karla esteja certa: a exposição da obra de arte, sua contextualização temporal, e o distanciamento crítico, funcionem melhor que o expurgo definitivo. E, de um certo ponto de vista, me parece até ingenuamente anacrônico a preocupação com Narizinho e Pedrinho, o Visconde de Sabugoza, diante a formas de arrebatamento muito, mas muito mais perniciosos, que cito apenas um exemplo: o jogo popularíssimo GTA, em que dá à criança a fantasia de sair matando policiais e estuprando mulheres.

Marcelo em fevereiro 18, 2011 2:01 PM


#45

Bom, não sei a que escola vc se refere porque todos sabemos que há grande diferença entre as públicas e as privadas.
Eu estudei no Marconi e presenciei isso várias vezes dos meus 11 aos meus 17 anos.
Inclusive, havia um professor de História lá, o Madeira, famoso por ser assumidamente nazista. Na minha turma de 40, havia uns 5 alunos negros que junto com o resto da turma foram obrigados a ouvir que os senhores de engenho tratavam os pobres escravos com muito carinho. Sim, o Madeira disse isso. Claro que tínhamos medo de falar no assunto com o nazista, mas sempre debatíamos com os professores de outras matérias, principalmente português, literatura e geografia.
Qto às minhas amigas professoras do ensino básico, todas lecionam em escolas públicas.

karla em fevereiro 18, 2011 2:03 PM


#46

Parabéns pela pesquisa e o texto está muito bem escrito. Essa de ficar procurando resquícios de racismo nas entrelinhas de obras artísticas é um saco. Acho desnecessário a autora assinar "negra" no fim do texto, isso por acaso muda a aceitação do conteúdo ? E se estivesse assinado "caucasiana" mudaria alguma coisa ? Eu acho que muito do racismo acontece pelo excesso de auto-vitimização, que cria uma antipatia pela causa, acho que o combate ao racismo deve começar pelo amor próprio e autoconfiança.
Flavio Vieira (mestiço)

Flavio Vieira em fevereiro 18, 2011 2:05 PM


#47

Se Monteiro Lobato estivesse vivo provavelmente seria processado e pagaria pena por cometer crime de racismo. Infelizmente não está! Assim sendo quem pagará a pena somos nós e nossas crianças que perderemos acesso a sua brilhante obra. Lamentavel! Espero que essa bolha do racismo estoure logo. Somos da mesma raça: HUMANA

ana em fevereiro 18, 2011 2:13 PM


#48

Perfeito o texto, sempre adorei lobatto, Mas agora vou tirar meus livros da gaveta e ler novamente sob uma nova ótica!

Valeu mesmo, tu manda muito bem nas palavras moça.

Jonas Porto em fevereiro 18, 2011 2:35 PM


#49

Esse mundo politicamente correto está ficando chato para caral#*%!!! Qualquer coisa é bullying, racismo, preconceito e bla bla bla. As adversidades nos tornam mais fortes, dá vontade de dar um tapão na cara desse pessoal que fica de mimimi, que só reclama das injustiças do mundo. O mundo é cruel e vai ser sempre, o racismo existe e sempre vai existir assim como o anti-semitismo, homofobia, intolerância, violência etc. Eu acho isso triste... Malgré tout c'est la vie. Meu melhor amigo de escola era negro, eu zombava dele por ser negro, zombávamos juntos do gordo por ser gordo, zombávamos do Ferrugem por ser ruivo, me zombavam por ter "monocelha", racismos e preconceitos sem filtros sociais, eramos todos amigos de verdade , faríamos piadas de nós mesmos por qualquer motivo, frequentávamos a casa do outro, zombávamos a mãe do outro. É tudo a forma como você encara as adversidades, as pessoas mais interessantes são as que sabem rir de si mesmo e levar a vida com bom humor. Eu acho um pé no saco as pessoas que querem fazer justiça (?) por 500 anos de "maus tratos", ninguém viveu tanto tempo assim pra se sentir tão injustiçado, são as vítimas da história. Devemos escrever a nossa própria história ao invés de exigirmos reparações pelo que já estava feito antes de nascermos. Escravidão, ditaduras, inquisição, guerras, campos de concentração, tortura, terrorismo, racismo, jihad... O mundo tem incontáveis injustiças e episódios escabrosos em sua história, ou ficamos criando mecanismos de reparação e cotas para os oprimidos por tudo o que já foi feito com seus antepassados (cadê a Israel dos ciganos ?) ou fazemos o bem para a natureza e para as pessoas a partir da nossa individualidade.

Flavio Vieira em fevereiro 18, 2011 2:49 PM


#50

É. Vamos parar de ler Monteiro Lobato, este odiável racista. Leiamos "Contigo", "Capricho","Veja" e outras, do mesmo nível.

Alan em fevereiro 18, 2011 2:50 PM


#51

É. Vamos parar de ler Monteiro Lobato, este odiável racista. Leiamos "Contigo", "Capricho","Veja" e outras, do mesmo nível.

Alan em fevereiro 18, 2011 2:53 PM


#52

Como muitos que comentaram anteriormwente, tive a impressão de ter levado um soco. Embora lembre de minha mãe comentando qualquer coisa (ela era bem informada). Tive mais sorte, em relação as histórias que li para meus filhos, sempre as mais fantasiosas..mas é claro que o conteúdos não deixa dúvidas. Mas confesso que costumo relevar, ao menos em parte, os entraves de muitas pessoas que admiro. Lembro de um trecho em que Nísia Floresta, feminista conhecida, fala com desprezo de uma trabalhadora européia, e também de Luciana de Abreu, também femoinista e abolicionista, falar em escravas mentirosas e interesseiras. O que de fato me causa espanto, é a idéia não de um "deslize" mas de uma estratégia pensada perpassando a obra. Isso sim, é de doer.

Talitha em fevereiro 18, 2011 2:53 PM


#53

Politicamente correto? Eu tô entendendo bem? Se o país fosse politicamente correto, a gente estaria um pouco melhor. O problema é que não existe país mais politicamente incorreto do que o Brasil. Quando o país começa a se organizar pra fazer instituições e leis mediarem conflitos, aparece um monte de babaquara pra dizer que mediar conflitos é politicamente correto. Querem o quê? Esperam que o país continue nesse pega pra capar, onde todo mundo ferra com todo mundo, onde os mais diferentes tipos de violência mediam os conflitos? Regressão e barbárie. E o outro ali acha que se trata de não ler Lobato e, no lugar, ler Capricho. Como assim? Está louco? Tomou xixi? Aterrisou de Marte nessa tarde? Sério. É inacreditável.

Valdir em fevereiro 18, 2011 3:21 PM


#54

Curioso. O Lobato agora é um autor tão importante... Tem de ser lido. Privar alguém da leitura do Lobato é um crime. Por que esse autor é logo agora tão valorizado?

Ninguém contesta que algumas coisas são inadequadas para crianças.Todo mundo critica a tevê por mostrar violência em horários inadequados. Ninguém contesta a classificação por faixa etária da programação. Pedem mais, na verdade.

Mas fazer referência a negros como "beiçudos", "fedorendos" e "macacos" não é grave. Basta alguém explicar para as crianças que era assim que se pensava antigamente... Afinal, "não somos mais racistas, se é que já fomos..."

Ahh, tá...

Guto em fevereiro 18, 2011 3:26 PM


#55

Aplausos, Ana. Textos como este precisam circular mais. Vou partilhá-lo em minhas redes e listas de discussão.

Rosa Amanda Strausz em fevereiro 18, 2011 3:30 PM


#56

Na mosca, Guto.

Idelber em fevereiro 18, 2011 3:38 PM


#57

Nossa... estou em choque.
Comprei para minha filha, tanto o dvd do Sitio do Picapau amarelo, quanto o do Menino maluquinho.
Não sei o que explicar a ela.

Vou me sentar, pensar um pouco e voltar a ler o texto. Quantas vezes me forem necessárias.

pai da ana em fevereiro 18, 2011 3:40 PM


#58

Prezada Ana,
Parabéns pela beleza de texto, pela contundência da argumentação. E pela seriedade e amplitude da pesquisa, indo fundo na busca das opiniões escancaradas na correspondência. Monteiro Lobato lamentar a ausência de uma Ku Klux Klan no Brasil é de dar engulhos,fazer vomitar. Agora, quando chama a negra de "macaca" num livro para crianças, o pensamento conservador infiltrado em todos os recantos desse país, inclusive no PT e no governo, quer passar a mão na cabeça do escritor racista dizendo que ali é brincadeira, é ficção... Ora, todo mundo sabe que não existe palavra inocente, muito menos literatura neutra, voltada exclusivamente para o entretenimento... O racismo está aí, onipresente como a branquitude hegemônica e silenciosa. E quando alguém denuncia, este sim é chamado de racista! O desenho infeliz do Ziraldo reproduz um dos piores estereótipos racistas herdados da escravidão, o da "mulata assanhada", voltada exclusivamente para a satisfação das fantasias sexuais dos filhos da casa-grande! Pior de tudo é a casa-grande mental que domina até hoje as cabeças de muitos brasileiros e até brasileiras. Encerro com a pergunta que não quer calar: deve o poder público usar dinheiro público para comprar milhares de livros com conteúdo racista e colocá-los em escolas públicas?

Eduardo de Assis Duarte em fevereiro 18, 2011 3:40 PM


#59

Quando a Federação Israelita do Rio de Janeiro entrou com um recurso para impedir que um carro alegórico da Unidos da Tijuca que trazia uma suástica e uma imagem de Hitler desfilasse na Sapucaí (não lembro exatamente em que ano, mas foi bem recente), eu não ouvi nem li nenhuma reclamação contra os judeus. Ao que me consta, ninguém chamou os judeus de ridículos ou disse que eles estavam fazendo "muito barulho por nada" ("que saco! Até no Carnaval essa gente vem criar problema!!"). Entretanto, quando o MEC, a pedido da SEPPIR, determinou a retirada de Caçadas de Pedrinho da bibliografia básica da rede pública de ensino, os racistas de plantão gritaram, espernearam e deram chiliquinho público por causa de um suposto desrespeito à obra de Monteiro Lobato. Ora, bolas!! Vão se catar!! Por que os judeus podem usar mecanismos legais contra a exibição pública dos símbolos do Terceiro Reich (segundo os alemães e alemãs com quem já conversei, a venda do Mein Kampf é proibida em território alemão por conta da forma como os judeus são tratados no livro por Hitler. E aí, racistas de plantão, vocês também acham isso errado?), mas nós, negros e negras, não podemos impedir que as nossas crianças sejam identificadas por termos como "macaca de carvão", "pretas beiçudas", "fedorentas", dentre outros termos racistas??

Não estamos fazendo nada de errado. Só temos o direito de exigir que as crianças negras não sejam mais massacradas do que já são (vocês podem não querer ver assim, mas o racismo é uma grave violação de direitos humanos - contra a qual vocês simplesmente fingem que não veem). Vocês acham que é fácil ouvir uma criança dizer que é feia por conta da cor da sua pele e da textura do seu cabelo? Vocês acham que é fácil ouvir uma criança dizer ao pai ou à mãe que sofreu humilhações racistas na escola sem que o corpo docente ou a coordenação tomasse nenhuma atitude contra isso (quando não são estes os primeiros a incitar a humilhação, é claro)? Vocês acham que é fácil ver uma criança negra implorando para que a mãe a leve ao salão de beleza para alisar o cabelo para se ver livre das piadinhas de mau gosto feitas pelos amigos? Vocês não sabem o que é isso, pois ou vocês não tem filhos ou os filhos de vocês não são negros. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Vou contar um caso que ouvi num curso que tomei no Instituto Cultural Steve Biko, primeiro cursinho pré-vestibular popular do Brasil, atuante há mais de 18 anos: uma adolescente, negra, tinha uma raiva profunda dos seus cabelos "duros". Havia feito de tudo para deixá-los lisos, mas sem sucesso (diz o palestrante que ela chegou até a passar ferro de roupa no cabelo). Como não conseguiu o que queria, tomou uma medida radical: ateou fogo ao cabelo, pois, para ela, era preferível não ter cabelo nenhum a ter os cabelos "de pixaim". Teve queimaduras de segundo e terceiro graus na cabeça, ficou muito tempo internada, e por pouco não morreu no hospital. Após receber alta, a equipe de coordenação do ICSB tomou conhecimento do caso dela e iniciou um longo e penoso trabalho para fazê-la aceitar o seu corpo como ele é. Hoje, ela está bem, recuperada, e se tornou mais uma militante antirracista de Salvador.

É contra isso que nós estamos lutando. É para que casos como esse não mais se repitam que nós exigimos a exclusão do livro de Lobato ou ao menos uma nota de advertência no início do texto. Mas vocês não entendem isso, né? E também não querem entender, pois não são os filhos de vocês que sofrem com isso. Preto tem mais é que se f...

Rogério Santos em fevereiro 18, 2011 3:43 PM


#60

Karla,

se a minha filha fosse bem negra, você fosse sua professora e resolvesse discutir racismo usando Lobato, teríamos sérios problemas, pois não ia permitir que minha filha fosse exposta a tamanho constrangimento,desconforto e sofrimento. Ela não precisaria saber que no passado pessoas como ela eram chamadas de macacas, fedidas, burras... Não há nada de educativo nisso! Aliás, há sim. Vc iria ensinar às crianças brancas mais maldosas (e elas existem!) como chamar os coleguinhas negros durante o recreio.

Andréa em fevereiro 18, 2011 3:44 PM


#61

Pessoal, muito obrigada pelos comentários. É bom ter interlocutores, é bom poder falar aberta e seriamente desse assunto, tantas vezes negado e escondido. Obrigada.

Comentando alguns comentários:

Andrea #9 - o racismo velado é ainda mais perigoso, porque ele apenas se insinua, apenas atinge o alvo sem que ninguém ao redor perceba. É como lutar contra o vento descolado pela trajetória da flecha, e não a flecha em si.

Daniel #10 - sabe o que acho que é ainda pior? Quase nunca vemos negros, na vida real, exercendo as profissões de médicos, advogados, juizes, prefeitos, governadores, presidentes. E isso começa lá na infância. Se você seguir dois dos links do texto, vai entender boa parte do problema: grande parte das crianças negras têm rendimento abaixo do das crianças brancas, por causa de preconceito sofrido dentro da escola, seja por parte de colegas, professores, funcionários etc. Isso é grave. E ao invés de pensar nisso, boa parte das pessoas pensa no Lobato. Concordaria com a brilhante fase do Millôr se o canalha em questão, Lobato, não tivesse confessado que fazia uso da literatura para atingir seus objetivos.

Carlos #14, por favor, contextualize por favor a minha descontextualização, porque não entendi. Quanto ao Ahmadinejad, primeiro pense que você deveria ser, antes, um ativista da causa feminista, como Ziraldo é escritor para crianças (não só, eu sei, mas nesse caso a opinião dele é ouvida por causa disso), querendo ser levado a sério e defendendo que Ahmadinejad também o é (feminista), mesmo que as atitudes dele provem o contrário. É esse o contexto. Entendendo isso, dê uma olhada nos comentários #15 e 16#. Tendo Lobato assumido o que fazia, é difícil separar a arte do artista. Vira panfleto.

Pois é, Ju #20, ainda tem essa e muito mais, que preferi deixar de fora para não dispersar o assunto.

Exatamente, Cleber #23, está aí o mito da democracia racial, que é bom que continue, para o bem da grande nação brasileira. O custo disso, que pague quem sempre pagou.

Obrigada pelo comentário, Marcelo #24. Muita coisa aí para comentar e outras nas quais vou pensar com calma. Quanto ao Wilson Simonal, houve muita coisa dita sobre ele no Pasquim, como tê-lo ridicularizado pelo carro que ele tinha, por ter mordomo, por comer caviar, entre outras coisas mais. Talvez eu devesse ter explicado mais ou nem ter colocado, não sei.
Escrevi um outro texto recente sim, sobre o mesmo assunto, que gostaria muito que você lesse. Sobre a questão do posicionamento, eu acho bem mais complicada e vou tentar escrever mais tarde, assim como sobre o Coetzee. Mas sobre o Ziraldo querer fazer a reaproximação, duvido. Talvez até seja isso que ele acha que faz, pois comenta que o fez para acabar com a polêmica, para porvar que o racismo, sem ódio, não existe. Não tem a menor noção do que está falando e, consequentemente, do que está fazendo.

#26 - Exatamente, Ana Lucia, o mito do (a) senhor (ou senhora) bondoso (a)...

Karla, #33, dê uma lida no comentário da Daniela #27. As crianças, ao sofrerem racismo, algumas vezes se arriscam a contar aos pais (muitas vezes não contam, e sofrem sozinhas, porque sabe que vai fazê-los sofrer). Quando contam, algumas vezes são desacreditadas ou ignoradas, porque às vezes é isso mesmo que os pais acham que é o certo fazer. Não porque aceitam que os filhos sejam humilhados, mas porque sabem que, muitas vezes, o sofrimento vai ser duplo, porque não vai dar em nada. Você realmente acha que um professor vai conseguir resolver um problema desses?
Informe-se também um pouco melhor, porque ninguém está proibindo nada. O caso é colocar uma nota explicativa no texto, o que a meu ver é pouco. Por mim, há vários outros livros maravilhosos para se discutir racismo em sala de aula, como os do Nei Lopes. Quem quiser comprar os livros do Lobato que compre, que até leve para a sala de aula, não vai ser proibido. Mas não é uma afronta quando já h;a nota explicativa de que a ortografia mudou e que as onças não podem mais ser caçadas, enquanto que nada sobre o racismo? Concordo com você sobre os preconceitos serem expostos ao alunos (#39), mas sou terminante contra expor os alunos ao preconceito do preconceituoso. E isso, com dinheiro público, inclusive com impostos pagos pelos próprios pais de alunos que se sentirão ofendidos...

Moco, #29, se não criticarmos o Lobato por algo que ele ajudou, conscientemente, a plantar, em qualquer época que seja, como pederemos ser realmente pessoas do nosso tempo, vendo o inaceitável acontecer e deixando pra lá?

Flávio Vieira, #46 e #49, ensine a fórmula, por favor, de desenvolver amor próprio e confiança sofrendo racismo. É muito mais complicado do que se imagina. E você realmente acha que muitos casos não são racismo e sim auto-vitimização, é isso? E os casos que acontecem e não são relatados (a grande maioria, por vários motivos), são o que?
E eu tô de saco cheio é desse papo de quem não para de repetir que tá com saco cheio do "politicamente correto" :-) Quer continuar desrespeitando, vá em frente, e arque com as consequências. Vocês são muitos, vai ter muita gente pra trocar gozações e brincadeiras... Agora, vir patrulhar quem quer realmente fazer alguma coisa para que todos sejam tratados como iguais, é o fim da picada.

Ana em fevereiro 18, 2011 3:52 PM


#62

Quem quiser discutir esse assunto a sério, tem que pensar, refletir, escutar, encarar argumentos como o do Rogério. O resto é patacoada de quem quer esconder e negar o óbvio com vagas alusões a "explicar o contexto" ou diatribes contra o mais vago ainda "politicamente correto". A realidade está aí. Já tentou enxergar?

Obrigado, Rogério.

Idelber em fevereiro 18, 2011 4:03 PM


#63

Guto, #54, sabe o que achei mais interessante. Se você clicar ali nos links que estão sobre os nomes de Ana Maria Machado e Ruth Rocha, vai lê-las dizendo que a literatura de Monteiro Lobato está ultrapassada, que os livros dele são graficamente horríveis, que as crianças de hoje nào conseguem entender a ortografia antiga, e que inclusive, para que os netos da Ana Maria Machado o conhecesse, ela teve que lê-lo para eles, etc etc etc. Ou seja, o que livros assim tão desinteressantes assim estão fazendo no currículo escolar. Isso, elas disseram mais ou menos um ano antes de começar essa polêmica. Depois, bem, leia a nota assinada por elas, Ziraldo, Lygia Bojunga, Pedro Bandeira e Bartolomeu Campos de Queirós: http://armazemcultura.com.br/?p=1346

Como assim?

Ana em fevereiro 18, 2011 4:04 PM


#64

sei que o que vou escrever aqui poderá ser voltado contra mim, mas não acho correto censurar o livro do lobato. na verdade, deixar que ele circule é mais um modo de combater o racismo, de explicitá-lo, denunciá-lo. a responsabilidade de combater o racismo é do professor, da família; evitar que o livro circule é um grande equívoco, até porque monteiro lobato, gostemos dele ou não - e eu não gosto, justamente por achá-lo preconceituoso - faz parte da nossa história e da formação do nosso país.

pedro borges em fevereiro 18, 2011 4:09 PM


#65

Desde épocas mais remotas meus avós tinham capataz(como chamavam os empregados)e eram negros na grande maioria, sempre foram tratados com respeito, eu aprendi assim que pessoas devem ser tratadas com respeito desde quando juz a ele.E meus avós eram austríacos portanto muito brancos(arianos).Então acho tão ridículo que passado tantos anos ainda se vê esse tipo de confronto racista, ainda mais nos meios acadêmicos.

Laura Gimenez em fevereiro 18, 2011 4:10 PM


#66

Peraí, então. Vamos falar ipsis litteris o que é a proposta deste texto. Vocês querem que sejam probidos os livros de Monteiro Lobato, que sejam banidos das escolas e livrarias, e os remanescentes das estantes queimados? Trocando em miúdos e sem retórica, é isso?

Concordo com alguém aí em cima. Desde quando Monteiro Lobato passou a ser "clássico", literatura brasileira de primeira? Eu sei que o texto do post, realmente excepcional, mira com presteza no racismo, mas não será o mote um tanto supervalorizado demais?

Se passassemos a proibir literatura, de qualquer naipe de grandeza e qualidade, vamos fazer um exercício de montarmos uma listinha?

-Shakespeare, Dostoiévski, Céline, Knut Ramsun: descartados por serem TODOS antissemitas.

-Nietzsche: não dá, o suposto pai da ideologia nazista.

-Saul Bellow: racista, uma vez que perguntou ostensivamente onde estava o Tolstoi dos congoleses. Vai para a fogueira.

-O próprio Tolstoi, acima citado: descartado, uma vez que no fim da vida declarou que os mujiques russos eram bestializados incultos e atolados ba ignorância.

-Mark Twain: e só ler "As Aventuras de Huckleberry Finn" para vermos o quanto o autor tratava os negros como seres cômicos, inferiores aos senhores brancos. DESCARTADO. O que seriam de nossas crianças se os lessem?

_Ralph Ellison: o grande autor negro norte-americano, que escreveu um único e definitivo romance sobre a condição dos conflitos raciais, "O Homem Invisível". Ele mesmo seria uma leitura improdutiva e corrompedora para as nossas crianças, já que a arma que usa é de mostrar com fortes graus de esteriótipos o quanto o negro é desfocado da sociedade americana, com sua obsessão por doces de batata, com sua tradição criminosa de ter descendentes com as próprias filhas, de ser joguete de arrivistas revolucinários.

O que sobra para permanecer a imaculabilidade de nossas crianças? Vamos ver, já que estarão privadas de toda a grande literatura universal_ corruptora e má-intencionada_, que tal a inocente série vaga-lume?

Êpa, acabo de me lembrar. A Série Vagalume é condenável tanto para negros quanto para brancos. É só vermos um título, que muitos aqui leram insuspeitamente na juventude, o "Tonico e Carniça". Um dos personagens, referido no título, tem o apelido de carniça, e é NEGRO. Outro, o chamam de branco azedo, e é BRANCO.

Nos sobra a reedição dos telletubes, onde ninguém era negro ou branco, mas azul, rosa, vermelho, amarelo. E, o melhor das coisas, se bem me lembro, tinha um dos telletubes que era até homossexual. Teletubes em nossas crianças!!!

Marcelo em fevereiro 18, 2011 4:16 PM


#67

Olá. O interessante é ver como o pessoal pula os comentários, principalmente os que levantam análises e possibilidades de novas discussões que saiam da caixa, como o #24. E falo sem dar razão a lados (há mesmo lados? - vejo argumentos válidos partindo de premissas bases, mas todos têm uma base similar), apenas vendo as relações de poder aqui. Onde cada um se vê com razão (superior) e não disposto a ceder a quem não tem razão (inferior), por ir contra sua opinião. Como conciliar essa discussão sem "racismo" (e não falo do preconceito à cor, uso a citação da autora que diz que racismo nasce da relação de poder) em ambas as partes? ;) Bonanças.

Leishmaniose em fevereiro 18, 2011 4:18 PM


#68

pai da ana, #57, quanto ao DVD do Menino Maluquinho, não sei. Mas quando ao do Sítio, nem se preocupe, pois todas as referências racistas foram cortadas ou adaptadas (seguindo o raciocínio do "politicamente correto"que muitos estão fazendo, seria censura, não?) nas versões da Globo. Inclusive, vai começar série nova. Segundo o diretor, "Segundo o diretor executivo da Mixer, Tiago Mello, as referências ao regime de escravidão presentes na obra original serão retiradas da animação, medida que segue o atual parecer do Conselho Nacional de Educação, que se manifestou contrá à adoção do livro Caçadas de Pedrinho nas escolas pelo seu suposto conteúdo “racista”. Mello garantiu aunda que a animação tem o pleno aval da família do escritor."
Você está vendo alguém protestar contra isso?
Aliás, muita gente que diz que não há racismo em Lobato, nunca leu Lobato, só viu as séries, já adaptadas.
Link sobre a nova série: http://www.entretendo.com/globo-vai-exibir-desenho-do-sitio-do-picapau-amarelo-em-2011/


Eduardo, #58, dá imensa tristeza perceber o jogo político por trás disso tudo. Tanto da oposição, que brada por "censura" do governo controlador, tanto da situação, que não quer tomar uma atitude divisionista. Mas nesse caso temos que brigar até o fim, entrando na justiça, se for o caso.
Parece que aqui estão as últimas novidades sobre o caso: http://www.afropress.com/noticiasLer.asp?id=2516
Se você souber de mais alguma, por favor, venha nos dizer.

Ana em fevereiro 18, 2011 4:20 PM


#69

Rogério, #59.
Muito, muito, muito obrigada pelo seu comentário.

Ana em fevereiro 18, 2011 4:23 PM


#70

Laura, tu é parente do professor Hariovaldo?

Valdir em fevereiro 18, 2011 4:23 PM


#71

Caralho, Pedro Borges (#64)! Quem é que está pedindo a censura dos livros do Lobato? Quem é que está falando em proibir que as pessoas leiam? Você não entendeu bulhufas.

Bruno Ribeiro em fevereiro 18, 2011 4:27 PM


#72

Alguem aqui já pesnou em proibir alguma criança de assistir ao Didi e seus Trapalhões? Querem maior prova de Preconceito (racial, sexual e social) que o "artista" Renato Aragão ajudou (e ajuda) a espalhar neste país? E ainda virou embaixador da UNICEF.....

Douglas em fevereiro 18, 2011 4:31 PM


#73

Fiquei sem folego com esse texto maravilhoso, daqui das ALAGOAS TERRA DE ZUMBI !!!!

JUNIOR em fevereiro 18, 2011 4:37 PM


#74

Olá. Parabenizo à autora por comentar os comentários. Boa iniciativa. :D E eu confesso estar gostando aqui de algumas colocações, embora sempre tem alguém que caia na Lei de Godwin. É incrível como discussão sobre preconceito na net, com tantos argumentos válidos sobre o assunto, sempre se cai na lei: "À medida que uma discussão na Usenet cresce, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou nazistas aproxima-se de 1 (100%)." E olha que na tradição nética, usar desse extremo indica apenas ausência de argumentos mais válidos por parte de quem a evocou. :P Bonanças.

Leishmaniose em fevereiro 18, 2011 4:40 PM


#75

Laura, #65, dá uma lida em outro texto da Ana publicado anteriormente aqui, Não é sobre você que devemos falar.

Radical Livre em fevereiro 18, 2011 4:43 PM


#76

Isso, Bruno#71, seria interessante eles explicarem o que entendem por censura e proibição de circular, e onde elas cabem nesse caso.


Douglas, #72, o "livro" dos Trapalhões não está sendo distribuído para escolas de ensino fundamental e médio, com verba pública, o que torna impossível a comparação. O mesmo vale para os casos levantados pelo Marcelo, #66

Ana em fevereiro 18, 2011 4:44 PM


#77

E tem mais. Lobato deve ser banido das escolas pq é chato pra caramba! É um desestímulo ao delicioso hábito da leitura. Liguagem, ideias e "aventuras" pra lá de ultrapassadas. Minha filha de 11 anos se orgulha de ter lido cinco livros nas férias. Nunca sai de casa sem livro na bolsa. Lê de porcarias a coisas excelentes. Desde que seja adequado para a idade, ela pode escolher o que quiser para ler. Vai aprender sozinha a diferença entre lixo e literatura. Ela ganhou dois livros de Lobato. Começou a ler e largou pq achou tudo muito chato, liguagem insuportável, histórias tolas. Parece-me que Lobato está preso no passado e que fique por lá.

Andréa em fevereiro 18, 2011 4:49 PM


#78

E tem mais. Lobato deve ser banido das escolas pq é chato pra caramba! É um desestímulo ao delicioso hábito da leitura. Liguagem, ideias e "aventuras" pra lá de ultrapassadas. Minha filha de 11 anos se orgulha de ter lido cinco livros nas férias. Nunca sai de casa sem livro na bolsa. Lê de porcarias a coisas excelentes. Desde que seja adequado para a idade, ela pode escolher o que quiser para ler. Vai aprender sozinha a diferença entre lixo e literatura. Ela ganhou dois livros de Lobato. Começou a ler e largou pq achou tudo muito chato, liguagem insuportável, histórias tolas. Parece-me que Lobato está preso no passado e que fique por lá.

Andréa em fevereiro 18, 2011 4:51 PM


#79

Mais um que mudou de opinião. Parabéns pela verdadeira AULA. Lobato deve ser estudado e compreendido sim, pelo conjunto dos seus pensamentos, incluindo os racistas, mas pelos adultos, pelos acadêmicos e estudiosos da formação do pensamento e do caráter dos brasileiros. Tiremos as crianças da sala.

Orlando Cardoso em fevereiro 18, 2011 4:51 PM


#80

Confesso que no início dessa discussão sobre o livro do Monteiro Lobato eu fui contra, pois o meu entendimento sobre o assunto (não o racismo em si, mas o racismo do Lobato) era superficial. Mas depois de ler esse belo texto, mudei de idéia.

Pedro Daltro em fevereiro 18, 2011 5:31 PM


#81

Há um termo para resumir esse artigo: mimimi. Há muito do que se criticar Ziraldo. Racismo não é um deles. E ir achincalhar Lobato nem de longe me parece o jeito mais eficiente de atrair SIMPATIA a causa. Já atenção, sem dúvida. Talvez fosse só esse o objetivo.

Rafael B. dourado em fevereiro 18, 2011 5:32 PM


#82

Prezada Ana

Seu texto possui rigor científico, parabéns. Antes de toda essa polêmica, eu tinha Lobato em alta consideração. Porém, depois de “Não é sobre você que devemos falar” - post publicado aqui, em novembro de 2010 - e, principalmente, agora, após a leitura dos trechos das cartas de Lobato, sem sombra de dúvida, NÃO DÁ PARA SUSTENTAR QUALQUER DEFESA À MEMÓRIA DE LOBATO.

Fico a pensar, cá, com os meus botões...

Quando foi que “O Sítio do Pica-Pau Amarelo” começou a ter grande penetração na “alma” brasileira?
A partir de meados dos anos 50 e, principalmente, na década de 60.

Onde e sob mando de quem?
Nos Diários Associados sob a batuta CANALHA de Assis Chateaubriand.

Onde mais?
Na década de 70, na Globo, sob a CANALHA batuta de Roberto Marinho.

Agora, duas perguntas que não querem calar...

Por que Gil fez a música tema do sítio?
Será que Gil desconhecia o perfil de Lobato?

Ramiro Conceição em fevereiro 18, 2011 5:35 PM


#83

....o nosso jeito "carinhoso" de explicar o racismo:
meu avô,tratava muito bem os seus empregados negros ( não os deixava morrer de fome),pois precisava deles para arar a terra,conduzir as carroças...mas,não permitia que entrassem na nossa "casa imaculada"...
eu gostaria de amado e respeitado mais o meu avô,não fosse essa nódoa,se não tivesse existido a cerca que ele colocava em volta dos nossos anseios de criança..que nos obrigava,eu e meus irmãos,brincar às escondidas,com nossos amigos negros.

Obrigada,Ana!!! Um texto mais que necessário.

Raquel Jacobsen em fevereiro 18, 2011 5:36 PM


#84

Obrigado Ana, pelo comentário, vou ler seu texto com mais calma, essa discussão toda aqui me fez pensar no racismo brasileiro. Pode ter certeza que depois dela não penso da mesma forma como antes de ler tudo o que foi postado aqui. Obrigado também Idelber pelo espaço, e aos demais comentadores aquele abraço e bom fim de semana

daniel ferstl ferreira bastos em fevereiro 18, 2011 5:52 PM


#85

Maravilhosa, Ana, absolutamente maravilhosa.

Dois pequenos temas, só:

a) uma dúvida que me acomete sempre que eu vejo o Ziraldo: se fôssemos nomear, qual seria a cor da pele dele? Marrom, talvez, como a do menino de seu livro autorracista e lobatoide?

b) Sobre as ideias de eugenia atuantes na sociedade paulista da qual Lobato era ponta-de-lança (africano, umbabarauma, marrom talvez?): moro em SP e não canso de me espantar com a presença persistente, até hoje, de restolhos e garatujas dos, er, "ideais" de eugenia. Exemplo elementar? José Serra e suas rampinhas antimendigos (de que cor mesmo costumam ser os mendigos? marrons?).

Pedro Alexandre Sanches em fevereiro 18, 2011 6:06 PM


#86

Maravilhosa, Ana, absolutamente maravilhosa.

Dois pequenos temas, só:

a) uma dúvida que me acomete sempre que eu vejo o Ziraldo: se fôssemos nomear, qual seria a cor da pele dele? Marrom, talvez, como a do menino de seu livro autorracista e lobatoide?

b) Sobre as ideias de eugenia atuantes na sociedade paulista da qual Lobato era ponta-de-lança (africano, umbabarauma, marrom talvez?): moro em SP e não canso de me espantar com a presença persistente, até hoje, de restolhos e garatujas dos, er, "ideais" de eugenia. Exemplo elementar? José Serra e suas rampinhas antimendigos (de que cor mesmo costumam ser os mendigos? marrons?).

Pedro Alexandre Sanches em fevereiro 18, 2011 6:06 PM


#87

Ver as coisas como elas são, no que diz respeito as características de cada raça, não significa ser racista. Numericamente, cerca de 14% da população americana é negra, assim como um pouco mais de 90% de seus presidiários também o são. Baseado nestes valores poderia dizer q nos EUA os indíviduos q compõem a raça negra apresentam um comportamento muito maior do q os de outras raças p cometer um crime ou delito, caso contrário não estariam presos. Seguindo o mesmo raciocínio lógico, científico, naquele país grande parte da produção científica é desenvolvida por mentes intelectualizadas caucasianas. Porém, independente de estarmos nos EUA ou no brasil ou em qq lugar do mundo, o comportamento das raças segue sendo o mesmo. Eh da natureza de cada uma delas agir daquela maneira, está no fator genético de cada uma delas. Foi por tentar explicar e provar isto q James Watson foi mandado embora. Mesmo depois de ter apresentado ao mundo a nova descoberta, o DNA. Foi mandado embora porque a política America do politicamente correto não permite uma análise deste nível. Eh melhor ser hipócrita ao ver a realidade nua e crua.Quando Ziraldo descreve o menino marrom ele está generalizando uma característica comum de vários meninos brasileiros. Não é preconceito. Agora, esta mania feia de brasileiro de copiar tudo de americano nem sempre é uma política correta.

carol em fevereiro 18, 2011 6:20 PM


#88

Nossa, carol, você me abriu nossos olhos. Então quer dizer que, cientificamente, está comprovado que os negros são bandidos por natureza e os brancos cientistas pela genética? Agora estou entendendo porque roubei aquelas mexericas no quintal do meu vizinho quando eu era criança. Obrigado.

Valdir em fevereiro 18, 2011 6:31 PM


FORUMDAZN em fevereiro 18, 2011 6:39 PM


#90

Que comentário foi esse acima, da Carol #87?!? Acho que tá na hora de começar a moderar comentários neste post. Isso já deixou de ser um debate saudável para virar achincalhe de racista que se acha no direito de defender teses absurdas e há muito derrubadas pela própria ciência que ela evoca.

A moça sequer tem o trabalho de se perguntar a razão de os negros estarem em maior número nos cárceres dos EUA. Atribui o fato ao DNA e não ao racismo, à desigualdade social, aos séculos de escravidão, à pobreza, à violência policial. Para essa racista nada disso existe, tudo não passa de retórica de quem se quer fazer de vítima...

É, minha gente... O racismo realmente é um câncer incurável no sangue de certas pessoas.

Bruno Ribeiro em fevereiro 18, 2011 6:40 PM


#91

Nem sempre o Racismo Bate, mas ele sempre Fere.

douglas em fevereiro 18, 2011 6:53 PM


#92

Nossa, que horror todas essas declarações do Monteiro Lobato. Não conhecia nada disso. E Ziraldo fica muito, muito mal na foto (eu adoro a Turma do Pererê, cresci com ela e com Flict). Olha, imperdoável. Parabéns a Ana Maria Gonçalves por escrever essa denúncia de fôlego que não deixa dúvidas. Ou alguém vai negar o racismo de Monteiro Lobato?

Lola em fevereiro 18, 2011 6:58 PM


#93

Ih, Valdir,

olha só: enquanto a Carol te esclarece teu próprio comportamento, obnubila o meu! Porque eu também roubei mexericas - ou vergamotas, como chamávamos lá na minha cidade - do meu vizinho. E não só isso: também apedrejei os vidros das janelas dele... E além disso me faltam publicações no currículo...

Devo ser a exceção, né não?

Felipe Vicari de Carli em fevereiro 18, 2011 6:58 PM


#94

Carol,#87 - Você só pode estar sendo irônica. Então, muito obrigada por vir aqui nos esclarecer sobre o assunto.

Aliás, você sabia que James Watson também sustentava que as mulheres grávidas deveriam poder abortar se testes comprovassem que os bebês nasceriam gays?

E que mulheres grávidas de meninas (heterossexuais, claro) poderiam ter o direito de manipular geneticamente seus fetos, para que só nascessem mulheres bonitas?

Dá para acreditar num cientista desses? Eugenia pura.

Você diz: "Agora, esta mania feia de brasileiro de copiar tudo de americano nem sempre é uma política correta."- Eu te pergunto: qual é mesmo a nacionalidade de James Watson, o dono dessa teoria absurda que você está tentando nos aplicar?

Ana em fevereiro 18, 2011 7:03 PM


#95

Ô Felipe, provavelmente o fato se dá por eu ser mulato. Então me branqueei um pouquinho, sendo assim sou melhor que você, ainda negro, portanto com mais genes bandidos nas células, portanto, com mais ações bandidas na vida. Mas não te preocupa não. Sabe essa história de transgênico? Pois é capaz que no futuro todo mundo já nasça cientista, sabe? E ninguém mais vai roubar as mexericas de ninguém. Eu acredito nisso...

Valdir em fevereiro 18, 2011 7:06 PM


#96

Andrea, não concordo com você. Como bem dito pela Ana, o preconceito velado é pior porque é mais difícil de ser combatido.
Acho perverso vc afirmar que eu ensinaria as crianças brancas a tratarem as negras pejorativamente. Vc não deve ser da área da educação para saber como esse tipo de aula seria conduzido e como a grande maioria dos alunos é inteligente o bastante para entender o objetivo que teria uma aula desse tipo. Além de perverso, seu argumento é generalizante e cruel com as crianças brancas, pois nem todas são racistas.
Ana, minha afirmação não foi feita por falta de informação, eu respondi a vários comentários que pediam a eliminação do livro e comentei por que não concordo com essa atitude.
Eu quero acreditar, sim, que o professor educador, ou seja, a Educação possa contribuir para resolver esse problema e já luto por isso dentro da Educação há tempos com vários pares.
Pensar que a escola não pode resolver o problema é grave no meu ponto de vista, pois pode levar, e leva, muitos professores a desistirem da luta.
Em tempo: se a proposta é que o livro venha com uma nota sobre o racismo, acho ótimo. Mas acho que o professor que o adote tem que ser obrigado a tratar do tema em sala de aula.
Gostei de tudo o que vc escreveu e concordo em tudo com vc. Eu só quis responder àqueles que pedem que o livro seja proibido.
Obrigada.

karla em fevereiro 18, 2011 7:16 PM


#97

É, Valdir. Problema é que até hoje eu me achava branco, mas com tanta bandidagem no meu passado, seguindo a opinião da carol, devo ter alguma aberração genética nas minhas veias. =D

Felipe Vicari de Carli em fevereiro 18, 2011 7:37 PM


#98

Parabens por essa resposta brilhante Ana Maria, o racismo tem que ser combatido sim. Ele eh sutil nos olhos do espextador e doloroso no coracao do sofredor da discriminacao. Moro nos EU a 15 anos e venho sofrendo discriminacao por todos os lados que vou. Agora estou entrando com processo contra a escola on estudo porque uma professora tem me impedido de entrar para cantar com o coro da orquestra sinfonica local, oficialmente. Venho cantando com eles por anos, mas ele nunca me passou na "audition" (nao sei a palavra correspondente em portugues)por pura racismo...

Estou brigando, e ja comecaram a me olhar estranho porque sabe que eles nao gostam qdo reclamos. Querem que aceitemos a condicao subjugada.

Abraco
Terezinha

Maria Terezinha Vaz em fevereiro 18, 2011 7:41 PM


#99

Ana,

Nem sei se voc~e vai chegar a ler este cmentário de tantos que este excelente post seu gerou. O fato é que vim aqui aapós um dos seus leitores ler um post meu sobre este mesmo assunto e me linkar com o seu.

Brilhante. Confesso que foquei bsatante tocado com as cartas de Lobato e o seu racismo orgulhoso. Receio até que o seu leitor me tenha linkado aqui por conta da defesa que fiz do direito de Monteiro Lobato de ter aquelas odiosas opiniões racistas que tinha, defesa a qual, mesmo profundamente tocado pelas suas informações eu reafirmo.

É que não considero seguro promover nenhum tipo de censura ofcial, formal, institucional de qualquer opinião, seja ela qual for. São muitos os fatores envolvidos neste tipo de decisão e as informações odiosas contidas nos livros de Lobato (e não estou falando das crianças que o leram ou lerão) precisam existir também, a elas precisamos ter amplo acesso também para formarmos juízo de valor, inclusive, contra o veneno contido nelas.

Não concordaria, por exemplo que o desenho não menos odioso da camiseta do Ziraldo fosse pribido pela censura (como a palavra 'merda' contida nela foi). Do mesmo modo acho justamente condenável o que ele eo pessaol do Pasquim fizeram censurando e cometendo o assassinato cultural do Simonal.

O que eu gostaria mesmo é as crianças do Brasil se vissem livres das eventualmente perniciosas idéias racistas contidas na obra de Monteiro Lobato por conta da consciencia de todos nós, edicadores e não educadores de que ele precisa swer lido contextualizado e criticado, inserido num processo educacional no qual todos aprendem a ser livres para discernir, até poderem decidir se serão racistas ou não, progressistas ou não segundo a sua própria consciencia.

Acho que a luta certa esta um pouco além de apenas suprimir o outro por algum tipo de força coercitiva.

Abs

Spirito Santo em fevereiro 18, 2011 8:07 PM


#100

Mas, falando sério agora, parece-me que os mais indignados quanto a essa crítica a Monteiro Lobato não conseguem conceber a literatura senão de uma forma canonizada, que venera os gênios intocáveis. Típico dessas propagandas que, para incentivar a leitura, reproduzem a ideia de que a literatura é a entrada a um mundo maravilhoso de aventura, e não mais do que isso. A literatura é também a sobrevivência da ruína de seu tempo, e isso fica claro na posição racista de Lobato. Deve-se enfrentar seu texto e essas questões, sem jogá-las para baixo do tapete? Claro que sim. Ao que me consta, entretanto, não há ninguém pretendendo criar um index librorum prohibitorium do politicamente correto, como se aventou em um ou outro comentário. Ninguém quer proscrever Lobato, creio eu. A questão colocada brilhantemente por Ana Maria é completamente diversa. É se Lobato, com seu racismo, pode inocentemente fazer parte da educação infantil – para o que bastaria colorir o racismo com a alegria do estereótipo do brasileiro. Não se pode deixar a educação refém do cânone literário. E, principalmente, para os que acham que Lobato é oportuno para fazer as crianças enfrentarem o assunto do preconceito, não se pode achar que depende delas, das crianças, resolver um problema com que sequer os adultos conseguem lidar satisfatoriamente.

Felipe Vicari de Carli em fevereiro 18, 2011 8:11 PM


#101

Felipe, sim, certamente existe alguma aberração vinda do Congo no teu DNA. Brancos não são geneticamente predispostos a roubar mexerica nem a produzir poucos artigos científicos. Já negros, sabe como é... Ainda mais agora, com as cotas, até gente como eu é capaz de entrar na universidade. Aí, já viu. Não vai sobrar mexerica nas árvores dos campi das universidades.

Valdir em fevereiro 18, 2011 8:14 PM


#102

Gullar, Jabor, Caetano, Maurício de Souza e agora Ziraldo. Não vai sobrar ninguém. Não confie em ninguém com mais de 50!

Bruno Cava em fevereiro 18, 2011 8:22 PM


#103

Karla,
com o máximo respeito, acho que você é jovem, idealista e branca. Sou negra, mãe e vivo neste planeta há 35 anos. E como estudante negra por mais de 20 anos, posso assegurar: essa sua teoria é um desastre! Repito o q disse Idelber Avelar a vc, aqui mesmo:

"Duvido que tenha tido experiência de trabalhar os textos racistas de Lobato, dentro de sala de aulas com crianças de 8 ou 9 anos de idade, negras, com resultados positivos e não traumáticos para elas."

Pois saiba, minha cara, que se você fizer isso, a criança negra em sua sala de aula vai se sentir humilhada, constrangida e vai ficar calada, torcendo para a aula acabar logo.E se fosse a minha filha nessa situação, você teria sérios problemas. Hoje eu não me encolho diante de racismo. Enfio o dedo na cara e meto um processo no rabo!

Andréa em fevereiro 18, 2011 8:23 PM


#104

perfeito.
obrigado.

Fernando em fevereiro 18, 2011 8:28 PM


#105

Texto espetacular, parabéns Ana.

Ana Cristina em fevereiro 18, 2011 8:44 PM


#106

Ramiro, #82, são boas perguntas. É impressionante o silêncio em torno desse lado de Lobato. Talvez porque tenha sido compartilhado com tantas outras figuras importantes. Aí, esconde-se tudo, de todo mundo. Só para você ter uma ideia, na Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada em 1818, à qual Lobato foi muito ligado, tinha na diretoria: Arnaldo Vieira de Carvalho, que fundou o Instituto Vacinogênico, que depois foi incorporado ao Butantã, e foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de São Paulo. Fernando de Azevedo, crítico literário do O Estado de São Paulo, educador de renome que ajudou a fundar a Universidade de São Paulo (USP). Arthur Neiva, renomado médico sanitarista. Francisco Franco da Rocha, médido fundador do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, e por aí vai, com muitos sobrenomes importantes. Tinham muito espaço em jornais, principalmente no Estado de São Paulo. Isso tudo está lá naquele livro do qual já te falei, o "Raça Pura - uma história da eugenia no Brasil e no mundo", da Pietra Diwan.
Posso estar enganada, mas pelo que procurei, por exemplo, em sites especializados em Lobato, como esse patrocinado pela Unicamp, Cnpq e Fapesp, organizado pela Marisa Lajolo, considerada maior especialista em Monteiro Lobato, não constam essas cartas reveladoras. Triste, né?
Site: http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/correspondencia.html


Pedro, #85. Como será que ele se define? Na curiosidade, fui agora n o google images e achei alguns auto-retratos pretos, marrons e outros, cor-de-rosinha :-)


Bruno, #90, é melhor não moderar não. Sem desmerecer nenhum outro, por favor, talvez esse comentário dela tenha sido dos mais importantes dessa caixa. Um belo exemplo de pleonasmo, como existe aos monstes por aí: desinformado e preconceituoso. O que não deixa de ser também um belo exemplo de coragem, porque geralmente quem pensa assim não fala.


Karla, #96, uma coisa que não se pode esquecer é que estamos falando de Brasil inteiro. Há cidades por esses interiores em que o professor de ensino básico, por exemplo, sabe pouco mais que o aluno. Como é que vamos obrigá-lo a tratar de um assunto com tantas nuances como as que estamos vendo aqui?


Força aí, Maria Terezinha, #98!


Spirito Santo, #99, fui lá ler seu texto também. Mas ainda não consigo defender o direito de ninguém ser racista. Nem na época de Lobato, nem agora. Defender isso não seria aceitar que pessoas continuem sofrendo com o racismo? Ou seja, defender que alguém possa ser racista, não seria defender que ele possa exercer seu racismo? Isso o torna contra ou a favor da lei que criminaliza o racismo?


Obrigada, Felipe, #100, uma coisa interessante lavantada na discussão do texto anterior que escrevi sobre o assunto (Não é sobre você que devemos falar) é a impressão de que muitas pessoas estão, na verdade, defendendo o leitura que fizeram dos livros do Lobato, o prazer que sentiram com as aventuras da turma do Sítio, tendo deixado o racismo passar batido. Aí está a verdadeira "censura". Ou seja: depois que sei o que sei, nunca mais vou poder sentir o que senti ao ler Lobato? Freud explica.

Ana em fevereiro 18, 2011 9:15 PM


#107

Sou branco e me orgulho demais por isso. Nao tenho vergonha de sê-lo nem de dizê-lo. Li e sempre adorei Monteiro Lobato. Vou continuar lendo, inclusive para meus filhos. Estou pouco me fudendo para vcs, "ofendidos". Racistas são vcs. Complexados!

Adler em fevereiro 18, 2011 9:30 PM


#108

Esqueci de comentar, Spirito Santo,#99, eu também sou contra a censura ao nome do bloco. Mas acho um absurdo que eles a tenham aceitado calados, principalmente quando estão falando de censura (inexistente, no caso) no tema desse ano. É muita hipocrisia...

Ana em fevereiro 18, 2011 9:32 PM


#109

Pois é, Adler (#107). Pessoas como você, que estão se fudendo, vão poder continuar fazendo piada de preto nas festas de família e encontros de turma da escola. Nosso objetivo momentâneo é apenas que tenham que se recolher, envergonhados, à esfera privada - até há bem pouco tempo, a esfera pública era de vocês também. E que vocês não possam mais usar a esfera pública pra difundir isso que você chama de orgulho mas que é muito provavelmente um racismo, sem, bem, sem se fuderem.

(Só cuidado com o que ensina aos seus filhos, porque eles não são sua propriedade. Eu nem sou negro. E votaria feliz a favor de um projeto que obrigasse pais que, comprovadamente, ensinam racismo aos filhos a passar uns bons fins de semana fazendo trabalho comunitário na favela.)

Marcos em fevereiro 18, 2011 10:50 PM


#110

Marcos, #109, nesses casos é melhor deixar falando sozinho. Senão vira circo e é exatamente o que eles querem. Millôr tem uma frase ótima: "Não se amplia a voz dos imbecis". Se for ofensivo, a gente apaga. Se for só babaca, deixa pra lá.

Ana em fevereiro 18, 2011 11:05 PM


#111

PARABÉNS, QUERIDA!!!

Sinto-me com a alma lavada!!!

Vou tentar fazer uma sintese do seu texto em uma página para panfletar no último dia do ensaio do bloco "A Merda do Ziraldo", quer dizer: "Que merda é essa?" rs rs rs...

Q bom ter escritoras como você, que ALEGRIA!

FELICIDADES & AXÉ!

Roseli Rocha em fevereiro 18, 2011 11:12 PM


#112

O texto é excelente, bastante comovente, e de um tom combativo mais que necessário.

Só gostaria de apontar algo (e não sei se alguém tocou no assunto antes de mim, já que não li todos os comentários): é negativa a vitimização de Simonal, e a associação desta com racismo (muito embora, certamente alguns ou muitos de seus detratores tenham sido racistas).
Simonal promoveu uma tortura e respaldou a ditadura (de forma irreverente ou "inocente" que seja). No final das contas, tudo saiu muito barato pra ele.

wesley em fevereiro 18, 2011 11:14 PM


#113

Viva a democracia! Um propõe trabalhos forçados aos dissidentes da ideia propalada pelo texto acima, outros apelam para a censura, querendo simplesmente cassar a palavra discordante. Lemos o que bem entendemos. Hitler adorava queimar livros, vejo que os leitores de esquerda (!?) deste blog também. Agora não concordar é ser babaca? Agora é proibido ler Monteiro Lobato? Defendo até morrer o direito do Adler, acima, de se manifestar, mesmo que não concorde exatamente com seus termos.

David em fevereiro 18, 2011 11:24 PM


#114

Como os racistas são caricatos!! Esses comentários beiram o inacreditável, de tão absurdos. Alguém aí em cima fez bem em perguntar se a pessoa é parente do professor Hariovaldo.

Ana, certeira! Pena que Ziraldo esteja "pouco se fudendo". Ali Kamel tem razão. Eles não são racistas. São cínicos.

Cajueiro em fevereiro 18, 2011 11:27 PM


#115

David, #114, por favor, onde você viu alguém aqui proibido de se manifestar? O comentário do Adler está lá, do jeitinho que ele fez e quis. Agora, foi uma provocação, e se as pessoas começarem a responder, vira briga. Gostaria muito que a gente pudesse manter o diálogo, concordando ou discordando, num nível razoável e, principalmente, no terreno das ideias, sem partir para as ofensas pessoais. Posso contar com a sua colaboração? Obrigada.

Ana em fevereiro 18, 2011 11:44 PM


#116

Gostei muito do texto que me fez chorar ao pensar nas crianças e jovens negros das escolas públicas. E nos pais, e como o negro quase não aparece na sociedade. Que tristeza que dá; e raiva também. Me causou muito repúdio aqueles que mais pareciam estar se defendendo a repeito da decisao do MEC. O Ziraldo sem duvida nenhuma é talentoso. Mas consegue ser um homem patético.

Em 5 de abril de 2008, Ziraldo — e mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante os anos de chumbo — teve seu processo de anistia aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, e foi indenizado em mais de R$ 1 milhão, além de receber uma pensão vitalícia de R$ 4.375,88.[5] Ele e o cartunista Jaguar receberam as maiores indenizações.[6] À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" tal indenização, declarando: "Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando".[5] O episódio foi comentado por seu antigo colega Millôr Fernandes, que se negou a exigir indenização, questionando: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?".[7]

Em 27 de setembro de 2008, os cartunistas Paulo Caruso e Chico Caruso deram uma entrevista ao jornalista Alex Solnik, declarando: "Ziraldo é mau-caráter" e "Ele não paga ninguém. Ele dá trambique. Ele tira emprego dos outros. Atropela." Chico Caruso ainda afirmou: "É sempre um miserável. É isso que ele é. Não só financeiramente como de caráter também." [8]

Em fevereiro de 2010, o advogado de Ziraldo tentou aumentar o valor da prestação mensal da pensão vitalícia recebida por ele para R$ 19.432,91, alegando que a soma de R$ 4.375,88 era compatível apenas com a função de jornalista, e não com as funções de direção de arte e até de presidência de jornal que o cartunista chegou a exercer. A Justiça Federal negou o pedido.[9]

gonza em fevereiro 18, 2011 11:45 PM


#117

Me uno à polêmica porque o texto me fez refletir. E me deixou bem triste... Não tinha toda essa informação sobre Monteiro Lobato - sabia que era um homem preconceituoso porque algum professor mencionou em aula no Ensino Médio, mas não com tantos fatos como os expostos aqui.
Confesso que li vários livros seus quando criança e não vi maldade alguma. Não achava chatos, ao contrário: me abriram as portas para a literatura, para a magia dos livros. Mas não li pelo currículo escolar. Na verdade, não conheço muita gente da minha idade que tenha lido Lobato... Li porque meu avô me deu coleções dele quando pequena. Meu avô, que se soubesse do caráter e intenções do autor, jamais teria presenteado sua neta com esses livros. Que era o tipo de pessoa que aparecia na hora do almoço com um mendigo em casa dizendo pra minha avó "trouxe um amigo pra comer com a gente" e que acreditava na palavra de políticos. Em suma, que também não viu mais que fantasia nas obras de Lobato.
Me pergunto: será que se eu desse os mesmos livros pra minha filha quando ela tiver a idade que eu tinha, ela vai ter outra interpretação(ou pode ser que os que eu li não tivessem tanto conteúdo racista como "Caçadas de Pedrinho"? :S)? Por um lado, acho ótimo que acrescentem notas explicando o politicamente incorreto dos livros. Por outro, acho que ensinar a discernir é obrigação dos pais. Em relação à tudo. Com ou sem notas de rodapé.


Uma curiosidade: sou a única da minha família que não é racista. Me refiro ao pequeno núcleo familiar, pais e irmã. Minha mãe não era, mas aprendeu com o meu pai a ser, e minha irmã cresceu com essa educação. Hoje se lhe perguntam, ela diz que não é racista: "Q: Casaria com um negro? R:Se amasse....sim. Q: E teria filhos com ele? R: Ah, isso não. Filhos negros não teria."
Tive que aprender aos 12 anos (de uma professora de biologia branca de cabelo pixaim) que cor da pele é nada mais que o resultado de um processo adaptativo do ser humano; que a pigmentação da pele, cabelo e olhos é uma resposta da seleção natural e mutações genéticas através dos milênios à quantidade de luz e temperatura do ambiente. Que os primeiros hominídios se dispersaram pelo mundo a partir da África, e as mudanças de cor e tamanho aconteceram muito, muito depois. Ou seja, que todos somos da mesma espécie, e o resto é o resto. E nesse dia tive um "click". Percebi que o racismo não tinha sentido. Por mais que meus pais quisessem me ensinar o contrário.


Uma outra pergunta que me faço sempre: quem não tem algum tipo de preconceito? Aquele que disser que não tem precisa de auto-vigiar um pouco melhor.

Carmen em fevereiro 18, 2011 11:51 PM


#118

Parabéns, muito legal ! ! !

Wesley Nóog em fevereiro 18, 2011 11:58 PM


#119

Eu já tinha lido o suficiente para ficar chocada num post anterior aqui mesmo no Biscoito Fino. Achei que mais nada poderia ser dito. Eis que volto ao blog do Idelber, e consegui ficar ainda mais perplexa, logo no início do texto, não só com o Monteiro Lobato, mas também com o Ziraldo (se bem que esse mais pelo meio do texto). Eu consegui chegar ao fim do post, apesar de ter muita vontade de parar (não por ser longo o post, e ele é, mas pelo conteúdo mesmo), e fiquei tão enojada que não consigo dizer mais nada.

Eneida Melo em fevereiro 19, 2011 12:15 AM


#120

Se o Davi, ou Adler, ou se forem a mesma pessoa, tivessem algo para oferecer além do vômito mental, nao seriam chamados de babacas. E olha que este blog, com este post, e estes comentários são de uma qualidade que não se vê por aí. Se os caras ficam com o ego diminuído diante desse nivel não precisam demonstrar com tanta obviedade. Nao tem um argumento mínimo além do insulto e das falácias. É preciso desenhar, por que quem sabe eles se tocam e vão procurar ajuda.

Outra coisa que me incomoda é esse tipo de lógica (além do pseudo-argumento de ofendidos complexados ou da supremacia ariana: quem não tem preconceito? Isso serve para se defender/justificar ou o que? Dentro dessa logica entao prefiro ter "preconceito" de racistas e cínicos do que ser isso. Faz algum sentido?

gonza em fevereiro 19, 2011 12:19 AM


#121

Um dos textos mais PERFEITOS que já li.

Desirée Simões em fevereiro 19, 2011 12:26 AM


#122

Há muito tempo eu sabia do racismo do Lobato, qdo descobri me senti tão mal, afinal li os livros do Sítio qdo criança. Além d seu racismo tb soube d seu machismo, algo q Ziraldo tb é.
Está d parabéns, q bela crítica!

Sara Siqueira em fevereiro 19, 2011 12:26 AM


#123

ue' Ana voce ta' chamando o professor Spirito santo de racista negro? Porque? Que artigo do blog dele voce leu e chegou essa conclusao?
Kandimba

kandimba em fevereiro 19, 2011 12:49 AM


#124

Kandimba, por favor, eu queria muito saber como foi que você chegou a essa conclusão. Sabendo, com certeza a gente esclarece esse mal entendido.

Ana em fevereiro 19, 2011 12:55 AM


#125

Míriam, de Porto Alegre, cumprimenta pelo texto forte, agudo e esclarecedor. Não esqueçamos também do belo pagamento que Ziraldo recebeu a título de compensação pelo seu sucesso devido à revolução de 64, que o tornou famoso e bem sucedido, declarando na ocasião que estava na hora "dessa merda desse país me dar alguma coisa" ... e sem censurar a palavra merda! Um abraço!

miriam palazzo em fevereiro 19, 2011 12:56 AM


#126

"Eh da natureza de cada uma delas agir daquela maneira, está no fator genético de cada uma delas. Foi por tentar explicar e provar isto q James Watson foi mandado embora. (...) Foi mandado embora porque a política America do politicamente correto não permite uma análise deste nível."

Foi mandado embora porque a mídia estúpida distorceu o que ele disse.

Ele disse que a forma de pensar de diferentes povos era DIFERENTE.

Ele não disse que a forma de pensar dos negros era inferior à dos brancos.

O que ele quis dizer é que a cultura na qual estamos imersos faz DIFERENÇA na nossa forma de raciocinar, e que portanto não fazia sentido avaliar todos por um mesmo molde. Não tem nada de racismo nisso.

Eneida Melo em fevereiro 19, 2011 1:18 AM


#127

Ai, Andrea, vc errou em quase todas as avaliações que fez de mim. Só acertou que sou branca. Mas o debate aqui não é sobre as pessoas que comentam, não me interessa de que cor vcs são, que profissão têm, se são jovens, adultos, pais, mães, heteros, homos,... O seu problema é que, querendo ou não, julga as pessoas por discordarem de sua opinião.
Se estou na mesma luta que você, mas penso diferente, qual é o problema?
Tem uma coisa que vc se esquece, quem quer lutar por algo tem que estar disposto a se expor, tem que enfrentar tudo o que vier pela frente.
Só para vc saber, tenho uma prima e afilhada negra, ela foi adotada por minha prima, entrou para a família bebezinha. Várias vezes ela passou por agressões orais na escola e, em todas, ela enfrentou e colocou o tema em debate durante as aulas, tudo com o apoio da família porque nunca quisemos que por medo de ouvir o que não queria ela se calasse. Medo de se expor é tbm uma forma de resignação.
Ana, concordo com vc, mas eu já havia dito, inclusive, sobre a diferença de escolas públicas e privadas. Por isso, as medidas devem ser tomadas na estrutura e a luta é longa, pois concordo que a maioria dos professores ainda não tem preparo para lidar com esse e com vários outros temas. Muita coisa tem que ser feita. Se vc se interessa pela Educação, posso relatar muitas medidas equivocadas que estão tornando o ensino hipócrita, escrevo livros didáticos e preparo vários materiais para uma rede de BH, estou juntando os casos revoltantes que já sofri para escrever um livro sobre a Educação no Brasil. Caso te interesse, posso te relatar tudo.
Ah, Idelber, eu não tenho como provar que aulas sobre racismo já foram bastante proveitosas em escolas por meio de link, site, etc. Mas te dou minha palavra e espero que ainda existam pessoas que acreditam na palavra do próximo sem exigir que as novas tecnologias provem algo.

karla em fevereiro 19, 2011 1:23 AM


#128

Fiquei sabendo do seu texto por um colega de faculdade e vim conferir.
Fui uma leitora de Monteiro Lobato quando criança e já naquela época sentia-me incomodada com as referências a Tia Anastácia. Li toda a coleção dele e nunca vi sentido em colocações que tanto desvalorizavam a personagem. Mais ainda porque me parecia dúbio: porque uma personagem tão afetuosa podia ser tratada de forma tão desrespeitosa? Devo ressaltar, no entanto, que pude fazer essa distinção porque li esses livros já adolescente, e, portanto, capaz de questionar o que no livro é apresentado como senso comum. Como professora que sou, não acredito que crianças do 1o. ciclo do Ensino Fundamental possam fazê-lo, mesmo com a tutoria de uma professora (que pode ser racista, inclusive), sem que as crianças negras sejam hostilizadas por isso.
Assim, agradeço por você ter colocado em palavras, com tanta propriedade, percepções e sentimentos que muitas vezes desejei colocar no papel, mas que me faltou a sua competência para fazê-lo.
O que mais me chamou a atenção é o fato de ele ser um texto consistente e embasado e que, por isso, mereceria dos que não concordam com ele uma refutação nos mesmos moldes, se fosse possível. (Fiz questão de ler todos os comentários antes de deixar aqui o meu. )Afirmações ligeiras e repetidas à exaustão como às que se referem ao "politicamente correto" e a "censura" não fazem frente a um texto como o seu. Parabéns!
Acho que o melhor de toda essa polêmica, seja qual for o resultado dela, é colocar em evidência o fato de que é, sim, inaceitável, deixar que textos racistas sejam de alguma forma legitimados pela escola. Muito menos com o dinheiro público.

Stella em fevereiro 19, 2011 3:02 AM


#129

Por que as pessoas continuam a repetir esse negócio de "censura aos livros de Lobato"?

PelamordainexistênciadeDeus.

Os livros de Lobato continuam e continuarão a ser publicados e vendidos. Estão e continuarão a estar nas livrarias e nas bibliotecas, inclusive nas públicas. Inclusive nas de escolas públicas. Cadê a censura, ou para citar o Ziraldo, Que Merda (de censura) é Essa?!

Nunca li Henry Miller em sala de aula de primário, ginásio ou colégio. Duvido que alguém tenha lido. Henry Miller está censurado? Deveríamos apresentá-lo a nossas crianças e adolescentes? Que tal D.H. Lawrence? Ou Bocaccio?

Dá pra entender que as escolas não podem pedir aos seus alunos a leitura de todas as obras literárias já escritas, nem mesmo a de todas as obras literárias pare crianças, sequer a de todas as obras literárias brasileiras para crianças? Que não há tempo nem espaço pra isso? Que é preciso selecionar, escolher? E que quando as escolhas forem polêmicas, é razoável explicar, em prefácios ou notas de pé de página, por que são polêmicas?

É complicado ver as mesmas pessoas dizerem que os livros de Lobato são uma "oportunidade de expor o racismo" e ao mesmo tempo acharem que colocar notas no livro, exatamente "expondo o racismo" de Lobato é o mesmo que censura, proibição, impedir as pessoas de ler Lobato, etc.

É engraçado também que a "defesa" de Lobato ignore exatamente o que existe de defensável em Lobato. Por que, por uma dessas ironias da história, trata-se de um autor capaz de problematizar as verdades aceitas, de convidar os leitores ao pensamento crítico. É por isso mesmo uma pena que seus textos sejam tão eivados de racismo: por que, para proteger as crianças da exposição ao racismo de Lobato - o que é claramente necessário - acaba-se por "protegê-las" também da crítica corrosiva de Lobato à pieguice social, ao filistinismo religioso, à aceitação acrítica do senso-comum, à lógica do militarismo, à fetichização da violência. Coisas de que nossas crianças todas, brancas ou negras, precisam e muito.

(Aliás, uma coisa que temo é que se os "defensores" de Lobato nesta polêmica se dessem conta do que Lobato realmente diz às nossas crianças no que toca ao respeito às tradições e aos mais velhos, Lobato perderia a maioria dos seus "defensores" num piscar de olhos.)

Já pensei bastante sobre isso, não tenho solução para o problema, a não ser uma que é distante demais, utópica demais: num mundo efetivamente sem racismo, textos racistas - e, portanto, os textos de Lobato - seriam inofensivos; num mundo em que o raciocínio crítico fosse a moeda corrente na educação e na vida, nenhum texto crítico em particular - e portanto nem os textos de Lobato - seria indispensável.

***********

Ziraldo mestiço?!

Ziraldo é branco, gente. Entra em qualquer lugar em que "negro não entra" e não toma baculejo da polícia. Mestiço de quê? Vão dizer que ele é mulato? Mestiço de índio? Fora da habitual lenda da bisavó "caçada a laço"?

Parece que virou moda muitos brancos se auto-intitularem "pardos". Talvez na esteira do nosso ex-presidente e seu pé na cozinha, gente que nunca sofreu preconceito racial agora se acha "mestiça", "mulata", "parda", "cabocla", etc. Aí, claro, como diz o Kamel, "não somos racistas", né? Afinal, não podemos ser anti-semitas se "alguns dos meus melhores amigos são judeus", então suponho que não possamos ser racistas se tivermos uma tataravó negra? Daqui a pouco chegaremos quiçá ao ponto de não nos considerarmos machistas por que "algumas das minhas melhores mães são mulheres"?

Será que além de tudo, agora vamos roubar aos negros também a própria raça?

Luís Henrique em fevereiro 19, 2011 3:17 AM


#130

Parabéns pela crítica. Tratou de todos os aspectos.Concordo com tudo, plenamente.
Novamente parabéns.
ap

Antonio Peddro em fevereiro 19, 2011 4:13 AM


#131

a questão da indenização que o Ziraldo, e outros, receberam por terem sido "perseguidos" pela ditadura militar foi bem definida, como sempre, pelo Millor Fernandes: "então eles não estavam fazendo revolução, mas investimento".

A Lesma Lerda em fevereiro 19, 2011 4:53 AM


#132

Ana,

A carta de Lobato a Arthur Neiva está publicada em algum lugar? A Sra. teve acesso às correspondências do escritor?

[]s,

Roberto Takata

Roberto Takata em fevereiro 19, 2011 5:18 AM


#133

Ui, [b]gonza[/b], se você se refere ao meu comentário com isso de "além do pseudo-argumento de ofendidos complexados ou da supremacia ariana: quem não tem preconceito?", está muito equivocada. Não estava defendendo o racismo nem o preconceito, simplesmente estaba refletindo. O racismo é só um dos muitos preconceitos que a gente encontra por aí,e muitas vezes estão tão velados e arraigados desde a nossa infância que nem percebemos.
Era só um comentário para auto-análise....

Carmen em fevereiro 19, 2011 7:41 AM


#134

Ana, nao te conhecia e me linkaram seu texto. Parabens voce me deixou sem palavras, Deus te abencoe.

Deb em fevereiro 19, 2011 8:32 AM


#135

Cada vez mais acho que Nelson Rodrigues é quem estava certo...
Detesto rótulos. Lobato é racista; Ziralodo é isso...Há que se ler , sim. Há que se lutar é por uma educação de qualidade que forme alunos críticos, que possam estabelecer suas próprias opiniões. Sou professora há 25 anos e desde o ano de 1988, venho trabalhando ano a pós ano com a obra de Lobato em sala de aula, de forma livre, crítica, sem endeusamentos...Nossos alunos têm o direito de ler Lobato e os professores têm o dever de apresentá-lo, sim. Vamos banir José de Alencar? Vamos banir Helena Morley?
E tantos e tantos outros, contraditórios, representantes de um tempo!
Para observar as contradições lobatianas, leiam os contos "O jardineiro Timótio" e "Negrinha"...
Acho caça às bruxas e politicamente correto uma atitude limitadora. Há que se esclarecer, censurar jamais. Lo siento...

Flavia em fevereiro 19, 2011 8:49 AM


#136

Seria interessante as pessoas entenderem em que discussão estão entrando para que não repitam argumentos já amplamente refutados e que têm muito pouco a ver com o que se propõe aqui. Repetindo, então o comentário do Luiz Henrique (#129):

Por que as pessoas continuam a repetir esse negócio de "censura aos livros de Lobato"?

PelamordainexistênciadeDeus.

Os livros de Lobato continuam e continuarão a ser publicados e vendidos. Estão e continuarão a estar nas livrarias e nas bibliotecas, inclusive nas públicas. Inclusive nas de escolas públicas. Cadê a censura, ou para citar o Ziraldo, Que Merda (de censura) é Essa?!

Nunca li Henry Miller em sala de aula de primário, ginásio ou colégio. Duvido que alguém tenha lido. Henry Miller está censurado? Deveríamos apresentá-lo a nossas crianças e adolescentes? Que tal D.H. Lawrence?

Mas com certeza, daqui a pouco vem mais alguém repetir a cantilena "banir", "censurar", "politicamente correto", "rótulos" etc. Não percebem que "politicamente correto" é um puro rótulo e quem que está "banindo" e "censurando" a discussão de um problema são eles.

Idelber em fevereiro 19, 2011 9:00 AM


#137

Sem palavras, Ana. Estarrecido por ainda não saber destes pormenores - digamos - epistolares, e pasmo com a descoberta. Excelente.

Nelson Moraes em fevereiro 19, 2011 9:33 AM


#138

Roberto, #132, a carta é citada na página 125 da tese "Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou: raça, eugenia e nação" defendida Paula Arantes Botelho Briglia Habib do departamento de História da UNICAMP. Está citada da seguinte maneira: "Carta de Monteiro Lobato a Arthur Neiva. N.Y. 10/04/1928. Arquivo Arthur Neiva. Código 39"

A tese pode ser baixada daqui: http://cutter.unicamp.br/document/?code=vtls000290012

Ana em fevereiro 19, 2011 10:01 AM


#139

Ana,
Fiquei comovido em ler seu texto - não só pela precisão e seriedade - mas pelo valor contextual em nossa cultura tão habituada a venerar o fascismo escondido em coletes coloridos e cabelos longos. Prefiro o reacionarismo explícito do que essa capacidade de alguns MUDERNOS de serem reacionários sem que niguém perceba. Ziraldo foi de uma confraria em Minas que dizia que o melhor movimento feminista era os quadris e seu personagem "maluquinho" já insinuou em uma tira que o concorrente "Calvin" era maricas por não gostar da outra personagem Susie. Ou seja, parabéns Ana, pelo seu esforço e sua dignidade em denunciar isso. se não mantivermos esse "tônus crítico" fica difícil demais continuar seguindo.

Gamba em fevereiro 19, 2011 10:09 AM


#140

Prezada Ana, parabenizo-a vivamente pelo seu texto. Pela maneira competente e, sobretudo, confrontadora como você o redigiu. O índice que melhor qualifica a magistralidade de sua Carta lê-se pela intensa perturbação que ele causou entre tantos leitores. Sou professor universitário e tenho me dedicado a pesquisar algumas expressões literárias daquilo que Florestan Fernandes chamou de "moral reativa" do branco brasileiro, o tipo de racionalidade auto-mistificadora que preside às nossas relações raciais. Nos comentários à sua Carta, é possível notar o impacto fulminante que sua argumentação exerceu nas ilusões mesquinhas -- e profundamente patológicas, do ponto de vista social -- que sustentam o "antirracismo" de tantos milhões de brasileiros. O desmascaramento que você fez de Lobato enfim escancarou, para muita gente, que Papai Noel não existe. Por isso mesmo, a reatividade a seu texto tende a se mostrar mais ferina, atordoada, intolerante e abstrusa.

No final das contas, o que a sua corajosa Carta eviscera é aquela "saudade do escravo" a que se referiu Joaquim Nabuco: o que tantos contestam e lamentam aqui não é o "radicalismo" da crítica a Lobato, mas a maneira como você explicitou o que está na base daquela saudade de uma Tia Anastácia sempre complacente aos xingamentos e "piadinhas" animalizantes, sempre dócil perante a sua ridicularização e exploração ostensivas, inquestionavelmente no seu "devido" lugar. Como viver sem a "verdade" inerente a essa saudade? -- é isto o que agora angustia a muitos e muitos dos que aqui protestam pela morte de Papai Noel.

Para finalizar, deixo a indicação de mais um daqueles dados que revelam o tipo de afetuosidade interracial vigente no Brasil: "Brasileiro exige mais na hora de adotar criança" .

Abraços,
Jesiel Oliveira

Jesiel Oliveira em fevereiro 19, 2011 10:16 AM


#141

Monteiro Lobato foi, sem dúvida, um homem de seu tempo. Não avançou um centímetro do pensamento estabelecido pela elite conservadora do Brasil.
Basta reler "Paranóia ou Desmistificação", no qual ele desce o pau nos Modernistas da Semana de 22.
Voltando às Caçadas de Pedrinho, além de passagens sim, racistas, há o 'fecho de ouro', quando Tia Nastácia pede para também passear na carroça puxada pelo rinoceronte: "negro também é filho de Deus".
Ana, você colocou com toda propriedade, as várias manifestações racistas e a que mais impera no Brasil é o coitadinho negro, pobre e burro. Devemos dar muita rapadura para essa gente que não cresça e se torne um traficante, dependente, homicida, assaltante e o estorvo social.
Bravo!

Em tempo: Li para meu filho, ele tem 8 anos, As Caçada de Pedrinho, ele ficou chocado com tratamento dado a tia Nastácia.Indefensável.

ANA em fevereiro 19, 2011 10:22 AM


#142

A carla é neta do professor Hariovaldo, que é pai do Adler, que é pai da carla, e sempre lê com orgulho branco a obra de Lobato pra carla e também pro David, que não concorda exatamente com o pai Adler, mas nem por isso vai achar que só porque o Adler aprova a eugenia e o racismo deve ser objeto de sua, dele David, revolta, pelo contrário, o David tá brabo com os que são contra a eugenia e o racismo porque, existindo esse tipo de gentalha, o mundo e, até mesmo o Brasil, vai virar politicamente correto, o que é um problemão, haverá leis e, pior, leis efetivas, e o Adler, a carla e o David não poderão defender que negro é bicho burro mesmo, nunca prestou pra nada, só prejudica o futuro do país, que vai indo tão bem sem qualquer lei, sem qualquer governo enchendo o saco de quem só pensa no progresso e na propriedade. Poxa vida. Acho que faz todo sentido, vocês é que não entenderam bem.

Valdir em fevereiro 19, 2011 10:37 AM


#143

Sou a favor da censura às obras racistas, seja de que quaisquer escritores! Elas constituem ainda mais sofrimento aos negros!

Mariane em fevereiro 19, 2011 10:55 AM


#144

Por favor, eu gostaria tanto que continuássemos a discutir ideias... As interpelações unicamente pessoais, contra ou a favor do argumento do texto, só levam ao que sempre acontece quando se fala de racismo e outros tabus: mudança de assunto.
Vamos manter o foco? Obrigada.

Ana em fevereiro 19, 2011 11:03 AM


#145

Bom, Valdir, com vc não tenho nada para discutir pq vc não argumenta e só faz ofender e julgar quem não conhece.
A verdade é que enqto muitos aí que não estão dentro da Educação ficam pronunciando sentenças em relação ao ensino, eu e muitos colegas trabalhamos efetivamente contra o preconceito dentro de sala de aula.
Vc não entendeu nada do que eu afirmei aqui até agora ou, pior, não quis entender para proferir frases perversas e se auto-promover.

karla em fevereiro 19, 2011 11:21 AM


#146

Postei um comentário acerca da opinião de Adler. Leio agora ataques de cunho pessoal, como o do Valdir, #142. Calma, calma.Não defendo a eugenia, como quer o Valdir, nem o preconceito - de ambos os lados, vale registrar - mas acho interessante, tal como disse a Ana no #115, manter a discussão no âmbito das ideias. Outro aí também me chamou de babaca (Gonza, ou algo assim, #120). Sabe, li o Monteiro Lobato quando criança e - perdoem minha ignorância c/c falta de orientação familiar - só agora me deparei com a realidade, graças ao texto, de que ele era extremamente racista. Mas creio que nunca é tarde para mudar e evoluir. Não sou babaca, Gonza, nem eugenista, Valdir, só me manifestei contra a censura. Só isso. Acho que baixar o nível, como vcs tanto querem, leva a discussão para um campo mais perigoso ainda. Eu teria um grande prazer em debater democracia com vcs, mas sem que para isso tivesse que sofrer ofensas e ser injustamente rotulado. Eu os respeito, como respeito o Adler, ou quem quer que tenha postado por aqui, mas não posso aceitar a generalização cega, a condenação injusta e a rotulação ofensiva. Assim, o que acrescenta ao debate o montante que Ziraldo recebe do Governo? Isso é ataque pessoal e ódio puro, gente! Não vai enriquecer a discussão.
Por fim, obrigado, Ana, pelos esclarecimentos presentes no texto. Como disse Bob Marley, "light up the darkness".

David em fevereiro 19, 2011 11:26 AM


#147

Estou impressionada com esta carta! Nunca gostei de Monteiro Lobato e isso só em assistir o Sitio do Pica Pau Amarelo, nunca havia lido os textos racista dele...agora,me entristesse muito saber que o Ziraldo nada mais é, que uma replica moderna de Monteiro Lobato e me preocupa saber que o mesmo, se encontra presente em uma emissora de TV que se diz estar preocupada com a educação de nossas crianças...lamentável!

Paula em fevereiro 19, 2011 11:31 AM


#148

@Carmen
Não citei sua assinatura porque não comentei como algo pessoal mas sim quis discutir o argumento universal: quem nao tem preconceito. Qual é a idéia por trás dele? Que não se deve criticar quem possui atitude/posição racista ou hipócrita? Deve-se ser complacente?

QUanto a sua ponderação, acho que deve-se escolher o que se quer ensinar e um ensino público deve prestar contas a todos os setores da sociedade. Não falo de escolha pessoal pois acredito que todos devem ler tudo e o que quiserem (inclusive pais para filhos sem nota de rodapé). Eu tenho o direito de criticar se eu quiser a mentalidade que voce estruturar a partir de suas leituras. Afinal para o que mais voce escreveu seu comentario? Leia o seu proprio post, e encontre suas respostas. Como voce disse, a vida nao vem com notas de rodapé.

gonza em fevereiro 19, 2011 11:46 AM


#149

@Valdir:
engenhoso e hilário!! Perfeito!

gonza em fevereiro 19, 2011 12:08 PM


#150

David, não é outro, é outra.

gonza em fevereiro 19, 2011 12:15 PM


#151

David, olha o que vc escreveu:

Viva a democracia! Um propõe trabalhos forçados aos dissidentes da ideia propalada pelo texto acima,

Opa. Quer dizer que a lei brasileira, ao prever a possibilidade de penas alternativas à privação da liberdade, instituiu "trabalhos forçados" no país?

Se for assim é muito grave, e inconstitucional, pois a Constituição brasileira explicitamente proíbe o estabelecimento de penas "desumanas ou degradantes", como o "trabalho forçado" certamente é.

Mas é mais provável que vc goste de uma hipérbole, não? Que esteja chamando a prestação de serviços comunitários de "trabalhos forçados" da mesma forma que outros chamam a proibição judicial de transmitir informações sobre processos tramitando em segredo de justiça de "censura".

outros apelam para a censura, querendo simplesmente cassar a palavra discordante.

É mesmo, David? Quem, por exemplo?

Lemos o que bem entendemos.

Grande verdade. Eu por exemplo leio, e vou continuar lendo, Monteiro Lobato - ou melhor, a obra infantil dele, porque a adulta é muito fraquinha e não vale o esforço.

Mas às vezes - e especialmente quando somos crianças - também lemos, em vez do que "bem entendemos", o que nos mandam ler. Eu por exemplo li "Senhora", de José de Alencar, não porque o meu bem-entendimento assim o dispôs, mas porque o "establishment" escolar decretou que assim devia ser. Essa é a discussão, David: não o que podemos ler como bem entendermos (que, evidentemente, já que vivemos em um regime democrático, é qualquer coisa, inclusive Mein Kampf, mas o que seremos obrigados a ler, como parte daquilo a que chamamos educação. Ou, considerando nossa idade, aquilo que nossos filhos ou netos serão obrigados a ler.

Hitler adorava queimar livros, vejo que os leitores de esquerda (!?) deste blog também.

Mais uma hiperbolezinha básica, David? Quem é que falou em queima de livros? Quem é que remotamente sugeriu algo parecido com a destruição física de livros aqui?

Agora não concordar é ser babaca?

Não é não. Não concordar é apenas isso, não concordar. Mas ser babaca também continua a ser babaquice. Dizer, por exemplo, "estou pouco me fodendo pra vcs ofendidos", não é discordar, é ser babaca.

Agora é proibido ler Monteiro Lobato?

Não me parece que seja. Os livros podem ser encontrados em qualquer livraria, aliás em edições novas, bem recentes, e de boa qualidade. Estão em qualquer biblioteca com um mínimo de qualidade. Estão até na internet. Mais uma hipérbole?

Defendo até morrer o direito do Adler, acima, de se manifestar, mesmo que não concorde exatamente com seus termos.

Lá está ele, manifestado. Qual o problema? Ele pode se manifestar, dizendo que está "pouco se fodendo" para outros, mas, curiosamente, outros não poderiam se manifestar chamando-o de babaca? Por que não, David? Mesmo que vc não concorde exatamente com os meus termos, vc não defende o meu direito de chamar o Adler de babaca? Por que?

Será por que é mais uma das suas hipérboles, confundindo a crítica a um comentário extremamente infeliz com "censura" ou "queima de livros"?

Luís Henrique em fevereiro 19, 2011 12:46 PM


#152

Karla, desculpe, mas eu tava falando sobre a carla, que é outra carla, com c, de modo que se eu não entendi nada, você também não, e foi um bruto dum mal entendido. Compreende? Eu tava falando da carla, neta do Hariovaldo, prima da Mayara, fã do Ali Kamel. Não de você, com K. Troço Cafiquiano.

David, por certo. Meu espírito avacalhador sempre me bota em maus lençóis. Mas às vezes a palhaçada do que se dá como sério deve ser explicitada como palhaçada. Eu sou, franca e abertamente, intolerante com palhaçadas e defesas do indefensável, como a tua e a da carla com c, e a do Adler com brancura invejável. Agora não falo mais, pois já desviei o assunto. Parabéns pra Ana por mais um brilhante artigo.

Valdir em fevereiro 19, 2011 12:51 PM


#153

Ah, Valdir, entendi. Pensei que fosse mais um caso, entre vários, que negligenciam minha feia letra K ;)
Vc me desculpa?
Abraço!
Ah, aproveito para pedir àqueles que se interessam em discutir sobre Educação que me mandem e-mails, pois gostaria de saber se concordam, ou não, com algumas medidas que vêm sendo tomadas pelo PNLD.
Obrigada.

karla em fevereiro 19, 2011 1:11 PM


#154

Parabéns pelo texto, Ana, pena que só o li agora. Diante de tudo isso, eu só não sei até que ponto termina a dissonância cognitiva e começa o cinismo de quem aqui - ou na esfera pública - ainda insiste na tese de censura do MEC contra a obra de Lobato. Sim, eu seria contra censura, mas sim eu também sou contra o fato que os livros continuassem a ser utilizados como se não tivessem problema algum, por isso a decisão do MEC - sob a batuta do ótimo Fernando Haddad, dos melhores quadros do PT paulista - foi nada menos do que precisa. Outro ponto que eu tenho de ressaltar é quanta gente o Governo Lula conseguiu tirar do armário - e não falo de velhos e notórios reacionários, mas sim de gente que esteve no front contra Ditadura e, de repente, mostrou a verdadeira cara porque as condições do debate público forçaram a isso. Ziraldo é um exemplo, embora Caetano seja o maior deles.

beijos e novamente parabéns

Hugo Albuquerque em fevereiro 19, 2011 1:14 PM


#155

Ana, seu texto e' bom mas nao e' perfeito nem quase perfeito como muitos comentaram. As criticas que vc faz apesar de serem importantissimas ja' foram feitas nos anos 60, 70, 80...enfim. O problema Ana e' que no Brasil o racismo e' muito primitivo, a luta contra o racismo ainda e' muito primitiva. Entao o seu texto torna-se "perfeito"

Agora quero ver vc fazendo critica aos racistas que estao vivos hoje...ai sim e' luta mesmo.

Claro que as ideologias racistas que temos hoje na sociedade sao basiadas no passado mas pra que serve esse texto se nao se pode falar sobre os racistas de hoje...

kandimba em fevereiro 19, 2011 1:18 PM


#156

Talvez saindo um pouco do tópico: eu iria mais longe. Será que não se pode fazer uma versão em texto, em vez de puramente televisiva, de um "Monteiro Lobato para crianças do século XXI"? Nas Bíblias para crianças, por exemplo, Deus não mata nem faz pacto com o diabo pra destruir a vida de ninguém.

Pois, se por um lado a Ana usa o Lobato (como, admite, usa o Ziraldo) como bode expiatório, para iluminar o funcionamento e as práticas do nosso racismo açucarado, também deve saber que a questão não se resolve banindo da comunidade o indivíduo Lobato. De um lado, evidente, é preciso quebrar a aura de santo do sujeito - mas vamos combinar que isso é assunto mesmo, ao menos 95% do tempo, para os departamentos de literatura. Num país mais avançado, poder-se-ia exigir até que os cadernos de literatura nos jornais lembrassem sempre o lado escuro em suas reportagens. Mas, pra usar o clichê, ninguém pensa nas criancinhas?

É preciso reconhecer que o Sítio do Pica-Pau Amarelo foi uma grande contribuição para a literatura nacional - e tem potentical pra continuar sendo uma grande contribuição ao imaginário infantil brasileiro. Com um uso inteligente da mitologia brasileira, personagens cativantes e histórias bem-boladas, o universo infantil de Lobato merece, IMHO, ser explorado não só pela Globo, mas pela escola e pelos pais também. As crianças do século XXI, e nisso concordo com os saudosistas, têm direito a ler A Chave do Tamanho.

Entendo que uma adaptação português-português de Lobato possa parecer insatisfatória para todos os envolvidos. Uns acharão que é demais, que não se deve, como é?, censurar um autor tão importante; outros dirão que é insuficiente, que é preciso quebrar a espinha do racismo degredando o racista. Mas isso tem mais a ver com o status canônico do autor e da obra, e talvez com uma disputa política bem mais profunda, do que com a real solução do problema. Além do mais, as crianças adorariam poder ler um Lobato aggiornado em mais do que acentos, peagás e ipsilones. Como alguém lembrou, o estilo usado é enfadonho para a maioria das crianças que estão vivas e que poderiam apreciar o conteúdo e se apropriar dele se a forma fosse, vou usar uma palavra feia, pasteurizada.

(um parêntese cuja necessidade só demonstra a miséria da argumentação: você vai continuar podendo ir na livraria e comprar todos os livros no original, ok? E inclusive vai poder lê-los pros seus filhos; o objetivo é criar uma versão que possa ser lida pelas crianças de oito anos sem a supervisão de um adulto. Existem aos montes versões assim de Dom Quixote, por exemplo.)

Enfim, ideias no ar. Parabéns pelo brilhante trabalho, Ana, e pela sempre vigilante divulgação, Idelber!

Marcos em fevereiro 19, 2011 1:18 PM


#157

Pessoal.. pega mais leve com o grande Jose Bento (que o pessoal contra e a favor nao leu, pq senão saberia que ele nao poupa ninguem: médicos, jornalistas, politicos,policia, intelectuais, e toda sorte de picaretas similares..pq iria poupar o pessoal mais bronzeado??)
depois..pensa bem; ele era um genio mas era tambem:
1-paulista
2-advogado
3-fazendeiro.
qualquer uma dessas "qualidades" sozinha ja faz um reacionario de mão cheia...

O Ziraldo é conterraneo da Miriam Leitão e ou seus suinos amestrados..então tudo tem explicação lógica e simples.

A Lesma Lerda em fevereiro 19, 2011 1:30 PM


#158

Parabéns pelo texto.
Tomei a liberdade de postá-lo no nosso blog:
www.projetogriots.blogspot.com

"Até que os leões possam contar suas próprias histórias, as histórias de caça sempre irão glorificar o caçador." (Provérbio Africano)

Leandro Quirino em fevereiro 19, 2011 1:45 PM


#159

Ana, parabéns pelo texto!

Kleber Miguel em fevereiro 19, 2011 1:49 PM


#160

Ana,
muito grato pela delicadeza da resposta...
Quanto a pergunta que fiz sobre Gil, espero sinceramente que ele desconhecia o perfil de Lobato, tal qual tantos - e me encluo entre eles.

Ana,
antes dos seus textos, eu poderia ter escrito algum poema em homenagem a Lobato, porém, agora, apesar do vazio em meu coração,
EU DIGO - NÃO!

Ramiro Conceição em fevereiro 19, 2011 1:50 PM


#161

Errata: sei que é uma merda escrever de improviso, mas sempre insisto… Portanto: 1) onde se lê “desconhecia” é “desconhecesse”; 2) onde se lê “encluo” é óbvio que é “incluo”.

Ramiro Conceição em fevereiro 19, 2011 2:05 PM


#162

BRAVISSIMA ANA MARIA!!!!!!!

BERNA em fevereiro 19, 2011 2:35 PM


#163

Queria agradecer por todos os comentários postados aqui, e dizer que me é impossível responder um por um, às vezes tendo pena de deixar passar uma observação, uma ideia que valeria muito a pena desenvolver. Mas o importante é que estão aí, estão colocadas, e continuão a servir, pelo menos para mim, como excelente fonte de consultas futuras. Obrigada de verdade.

Queria fazer uma observação em relação a algo que o Jesiel, #140, escreveu: "ilusões mesquinhas -- e profundamente patológicas, do ponto de vista social." Quando da morte de Glissant, há poucos dias, fui reler algumas das ideias dele, e achei uma indagação bem interessante. Ele se pergunta se a história da escravidão não poderia ser encarada como a história de uma neurose, onde o tráfico seria o trauma, a tentativa de esquecimento (individual ou coletiva) não seria o recalque, os delírios em torno do assunto seriam os sintomas e a recusa de se falar disso, de trazer para o presente esses problemas do passado, não seria a manifestação do retorno do recalcado.

Escravidão é memória, é o passado que foi soterrado debaixo de vários mitos e fragmentos selecionados. E o trabalho de ir lá, escavar, ver o que já virou ruína e o que ainda dá para ser recuperado é um trabalho sujo. Mas, ao mesmo tempo, necessário, e o mais urgetemente possível. Acho que todos vocês aqui, contra ou a favor de Lobato, não importa, estão contribuindo pra isso.

Eu sou otimista e acho que algum dia a humanidade ainda vai superar esse trauma. :-) O que não podemos fazer é ficar jogando mais terra por cima do assunto.

Ana em fevereiro 19, 2011 2:46 PM


#164

Parabéns pelo texto, Ana!
Não acho que tudo é ruim na obra de Lobato, que cumpriu lá um papel importante na literatura brasileira, apesar de toda sua "paranóia e mistificação", além dos seus preconceitos, comuns à mentalidade dominante de sua época.
Mas é uma pena que não se possa discutir pra valer essa questão. Ziraldo tá nem aí...
E é pena que a turma aqui sempre se refira à fórmula do maldito "politicamente correto" para não discutir a coisa de verdade.
Será que são sado-masoquistas? Gostam de maltratar os outros e ser maltratados?

Jair Fonseca em fevereiro 19, 2011 3:03 PM


#165

Felicito-a vivamente pelo desassombro e pela lucidez. A corrente quente da razão e da história com um brilho inusitado. O parecer da Prof Nilma Gomes do CNE ficará na história da luta por um Brasil mais justo e mais democrático. Às vezes me pergunto porque é tão difícil, quer no Brasil quer em Portugal,convencer a opinião pública sobre a veracidade destas duas ideias com tanta comprovação histórica atrás de si: é fácil negar a existência de racismo quando se não é vítima dele; a negação do racismo por parte de quem é vítima dele é o efeito mais insidioso do racismo. A partir destas duas ideias formulei um príncipio que ainda não teve a dita de ser adoptado por Ziraldo ou por outros cartoonistas que nos habituámos a admirar: temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.
um abraço grato pela lição de dignidade que nos deu
Boaventura

Boaventura de Sousa Santos em fevereiro 19, 2011 3:06 PM


#166

Professor Boaventura de Sousa Santos:

Que honra o senhor nos concede visitando O Biscoito Fino e a Massa. Como admirador da sua obra, da sua ética, da sua história de luta e do seu compromisso com os oprimidos, não posso deixar de registrar meu orgulho, ainda que os méritos, evidentemente, sejam todos de Ana, a autora do texto. Muito obrigado por esta visita, companheiro. A casa é sempre sua.

Receba o forte abraço do seu admirador.

Idelber em fevereiro 19, 2011 3:17 PM


#167

Excelente texto, Ana.Vou utilizá-lo (posso?)em minhas aulas. Essa do Lobato em que vê a literatura como um "processo indireto que 'work' muito mais eficientemente" é um fio da meada excelente para problematizar o racismo brasileiro e a importância da lei 10.639/2003.

Augusto Lima em fevereiro 19, 2011 3:32 PM


#168

Ana, li seu post no dia em que foi publicado, mas não consegui comentar até agora. Que o texto seja excelente, bem fundamentado, lúcido e elegante não é surpresa nenhuma pra quem já leu qualquer coisa escrita por você, mas o teor me surpreendeu e muito. Mais que isso, me entristeceu e envergonhou. Eu li muito (não todo) Monteiro Lobato quando criança, e adorava aquilo. Sinceramente, não sei se achava que as ofensas à tia Anastácia eram algo além de bobagens e grosserias ditas por uma boneca meio antipática. O que tinha ficado, pra mim, eram as histórias, e sempre me lembrei com carinho da chave do tamanho, do país da gramática, da viagem ao céu, entre tantas. Por isso,quando começou a discussão sobre "censura" aos livros, fiquei do lado dos que defendiam a manutenção de Lobato como leitura obrigatória nas escolas. E ao fazer isso, fiz o mesmo que tantos dos comentaristas aqui fizeram: entendi tudo depressa demais, e tudo errado. Não me aprofundei, não fui atrás, não pensei antes de falar. Ignorante das convicções eugenistas do autor, debitei tudo na conta do "homem do seu tempo, superficialidades numa obra maior" etc. Saber, e só fui saber aqui, graças a você, que ele escrevia com um propósito, e que o propósito era asqueroso, me atingiu como se fosse, sei lá, a descoberta de que um tio querido fosse pedófilo: o fato de não ter sido diretamente agredida por ele não torna menores a mágoa, a vergonha, a raiva por alguém que eu admirava tanto. Do Ziraldo nem falo, já tenho uma opinião formada sobre ele e ela é bem parecida com a sua. Também foi deprimente ler os comentários. Dos racistas assumidos, dos cientistas de ocasião a gente já sabe o que esperar, e não se decepciona. O que entristece mais é ver gente "progressista", que é (seja verdadeira ou oportunisticamente) contra o racismo achar que o "feminismo ultrajado da mulata" é frescura, coisa menor e sem importância, como tudo o que é "coisa de mulher". Que tipo de consciência ou coração tão pequenos são esses que só comportam um tipo de reflexão por vez - ou por vida - e que acham que qualquer outra é bobagem ? Obrigada pelo texto excelente, com todas as informações necessárias, com o fato de não ser censura bem explicado, com o conteúdo das cartas pessoais do velho bem detalhado. E obrigada até pela tristeza que ele me causou. Ela foi grande, mas ainda é bem menor do que a alegria, e por que não, o alívio que me causa ver que ainda existe gente como você, que pensa, estuda, analisa e pondera antes de entender, opinar e escrever. Enquanto houver gente assim sendo publicada, seja em livros, imprensa ou blogs, nossa raça tem esperança. E só pra deixar claro, caso alguém disposto a briga ler isso aqui, quando eu digo raça, quero dizer aquela à qual todos pertencemos, merecendo ou não: a raça humana.

Cynthia em fevereiro 19, 2011 3:33 PM


#169

"(...)me atingiu como se fosse, sei lá, a descoberta de que um tio querido fosse pedófilo" -- Eu queria expressar o que eu sentia diante dessas revelações, mas não conseguia, acho que é isso daí mesmo, obrigado, Cynthia.

Hugo Albuquerque em fevereiro 19, 2011 4:47 PM


#170

Escritora A. M. Goncalves,
Parabens! Este artigo e oportuno e objetivo. Uma aula de Historia do Brasil. Agradeco a sua dedicacao em preparar este texto. Nilton

Nilton em fevereiro 19, 2011 5:00 PM


#171

Vocês que falam sobre racismo por parte dos brancos esqueceram que os negros podem ser tão ou mais racistas que os brancos, inclusive contra outros negros.
.
Porque andar com uma camiseta escrito "100% Negro" é motivo de orgulho e andar com uma camiseta escrito "100% Branco" é considerado racismo?
Até onde sei racismo é uma via de mão dupla.
.
Quem aqui anda ou já andou de ônibus e já presenciou uma abordagem policial em uma blitz (ou comando)?
Quem aqui nunca reparou em cima de quem os Policiais negros vão ao entrar em um ônibus?
Vão direto nos negros e os chamam de coisas muito piores do que Monteiro Lobato escreveu em suas agora tão polêmicas obras.
.
Como já bem disseram ai pra cima, racismo e preconceito fazem parte do ser humano e nada e ninguém jamais vai conseguir mudar isso, tentar é o mesmo que cobrir o sol com uma peneira.
.
O que deve ser feito é cada um viver sua vida da melhor maneira e da forma mais correta possível, se cada um fizesse isso a humanidade com certeza estaria muito melhor e nem precisaríamos dessa hipocrisia chamada hoje de "Politicamente Correto".

J. Guilherme em fevereiro 19, 2011 5:23 PM


#172

falou mal do politicamente correto é batata:
temos um darwinista social, um fascista e um racista..pelo menos pra isso o PC serve com certeza...

A Lesma Lerda em fevereiro 19, 2011 5:34 PM


#173

J.Guilherme: Reclamar do politicamente correto até vale, mas dar uma de coitado porque ninguém tolera o clichê da camisa "100% branco" é contradizer tudo o que você disse - ou quer dizer que só vale tudo se a vítima não for você?

Hugo Albuquerque em fevereiro 19, 2011 5:39 PM


#174

Ana,

obrigado!

Marcia Guerra em fevereiro 19, 2011 5:40 PM


#175

texto rico e emocionante. brilhante

Leosan em fevereiro 19, 2011 5:43 PM


#176

Hugo Albuquerque acho que posso ter me expressado mal, o que eu quis passar com o exemplo da camiseta é que hoje existem dois pesos e duas medidas para a mesma situação e eu jamais me fiz de vítima durante meus 45 anos de vida, sempre fui atrás do que é meu.

J. Guilherme em fevereiro 19, 2011 5:49 PM


#177

É, pelo jeito você se expressou mal mesmo, mas não acho que você conseguiu escapar ao dois pesos e duas medidas que você denuncia, é bom lembrar que você pode dizer tudo o que você quiser, mas esperar fazer isso em segurança, aí, é querer demais, não? Todos "corremos atrás do nosso", mas se você não aceita a possibilidade de uma coexistência para melhor, não aja com um fraco e aceite que, nessa perspectiva, um dia você pode ser caçador, mas no outro você pode ser caça - só não se faça de coitado na segunda ocasião, please.

Hugo Albuquerque em fevereiro 19, 2011 6:02 PM


#178

Maravilhoso seu texto e suas reflexoes.

Maria do Carmo Ledesma em fevereiro 19, 2011 6:03 PM


#179

Tudo aqui já foi dito, e muito mais do que bem dito.
Agora é seguir em frente, continuando fazer a história!

Vanice da Mata em fevereiro 19, 2011 6:51 PM


#180

Está instalada a moderação de comentários. É um mecanismo que usamos quando sentimos que a coisa corre o risco de descambar e virar bate-boca.

Só serão publicados, a partir de agora, comentários que não interpelem outros leitores pelo nome. Querendo debater alguma ideia colocada aqui, cite o trecho e o número do comentário ou, melhor ainda, faça uma paráfrase da ideia que quer discutir.

Sei que pode parecer anódino para muita gente mas--pela experiência de blogueiro véio--, sinto que é a melhor forma de evitar que uma caixa superlotada e polêmica se transforme em bate-boca.

Então: qualquer ponto de vista é benvindo, mas não publicaremos comentários que interpelem outros leitores. É uma medida que evita que a coisa descambe.

Idelber em fevereiro 19, 2011 7:04 PM


#181

Tudo aqui já foi dito, e muito mais do que bem dito.
Agora é seguir em frente, continuando fazer a história!

Vanice da Mata em fevereiro 19, 2011 7:05 PM


#182

Ana, bem interessante suas colocações. Por isso mesmo, vou aproveitar o que você disse para praticar um pouco de dialética.
Bem adequada e oportuna sua defesa da necessidade de não se deixar a polêmica esfriar, como querem Ziraldo e outros intelectuais. Temos que fazer o contrário: aproveitar o tema e aprofundar o debate.
Mas, eu não concordo com o banimento puro e simples dos livros do autor da lista do Mec... Acho que existem outros modos de se trabalhar o livro do Monteiro Lobato com crianças e jovens, além da rasa "contextualização" (que implicaria em dizer que no tempo dele, quase todo mundo era racista... tirando o Lima Barreto). Eu aceitaria o desafio de usar o livro do Lobato com outra finalidade: justamente para chamar a atenção das crianças para o fato de que o racismo existe (até hoje), tanto nas obras literárias como nas novelas de tv.

Francisco Lacerda em fevereiro 19, 2011 7:06 PM


#183

Caros,

Achei bonito o texto, e admiro a luta pelos direitos, os todos. O Lobato, como muitos homens de sua época e de hoje, vivia no papel da sua classe e do seu tempo, olhando tudo através das suas lentes preconceituosas contra tudo o que era diferente.A literatura brasileira está cheia do olhar estrangeiro, é só ler quase todos os escritores, mesmo os melhores, e isso não tira o mérito de terem sido grandes escritores.

Tenho, contudo, algumas ressalvas sobre a carta.

Concordo que é muito complicada a discussão em sala, com crianças pequenas, sobre assunto tão delicado quanto a discriminação racial, mas dela não se pode fugir se queremos que essa história toda mude de uma vez por todas. Também penso que seria um desrespeito à capacidade de leitor - do professor e da garotada - supor que eles não entenderiam que os insultos aos negros são coisas deploráveis, talvez eles mesmos (as crianças são mais espertas) descobrissem no Lobato um autor que eles não gostam.

Outro problema, o mais sério, é considerar o texto "O menino marrom" um texto racista. Pela carta, pintei coisa horrível aqui, já que não tinha lido. E fui procurar o livro. O que encontrei foi algo muito diferente do monstro aqui pintado. É um livro belíssimo (pra quem quiser ler: http://www.4shared.com/file/jhlJJA5I/o_menino_marrom.html) que discute exatamente o assunto proposto na carta. A Ana pode dar a mão ao Ziraldo, eles estão do mesmo lado.

As discussões multiculturais ganhariam muito mais se focassem a discussão de maneira realmente multicultural e não ressentida (com razão). Talvez fosse isso que o Ziraldo quis dizer, mas foi infeliz, assim como foi a Ana quando falou sobre "O menino marrom" e separou pedaços mal-interpretados do livro para pintá-lo como racista. As infelicidades são inevitáveis quando se dá a cara a tapa.

Thais em fevereiro 19, 2011 7:43 PM


#184

Professor Boaventura,#165, grata fico eu, que admiro demais o seu trabalho. E vai ficar como um mantra: "temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza." Obrigada.

Ana em fevereiro 19, 2011 9:35 PM


#185

Gostaria de postar dois artigos escritos por um negro - mulato - na realidade, o dr. Carlos Lopes, que esclarece bastante bem vários equívocos neste texto de Ana Maria - vou tentar encaminha-los ao email de Ildeber, na esperança de trazer luz ao debate. Outra opção é acessar o site do Jornal onde foi publicado www.horadopovo.com.br e sugerir que os interessados usem a Busca da página com o nome Monteiro Lobato, e verão várias matérias, mas apenas duas sobre o tema aqui: Monteiro Lobato, “Negrinha” e a construção da identidade nacional" e o outro "Sobre Monteiro Lobato e os conselhos dos conselheiros". Desejo boa leitura. E melhor compreensão do tema!! um abraço, Francisco.

Francisco Pedra em fevereiro 19, 2011 9:51 PM


#186

Qda, magnífico, simplismente profundo, realista, brilhante suas observações. brilhantes, ainda enquanto mulheres negras ,somos relegadas aos prazeres do sexo, aos favores, ainda reconduzidas a mulheres de 2a categoria,Não somos as Rainhas do Lar, não somos as capas de revistas, não somos reconhecidas como agentes de direitos. Me choca, o Ziraldo tão proximo aos direitos humanos, ter cometido uma violação de existencia humana. Não somos a cor do pecado, não somos a Devassa, Não somos Q merda é essa.
Como filha de mineiros como vc, somos sim mulheres negras guerreiras, não somos o "cascalho da batéia" somos o mais maravilhoso diamante. Das Minas para Minas das Mulheres das Minas. Quiseram nos colocar nos campos de concentração que são os Complexos de Favelas, de SP, RJ,BH,SA,PE,MA,RGS e surpreendemente, alí está concentrado "talentos, da arte, literatura,música, engenharia,médicina,direitos, arquitetura,jornalismo," Aliádo a concentração,de coragem, determinação, alegria e resistência.
Valeu querida.
Abcs.
Parabens,
Menina,Mulher da Pele Preta.

Deise Benedito em fevereiro 19, 2011 10:41 PM


#187

Thais, #183, gostei de você ter ido atrás do livro. Você leu também a análise, que está no link da carta, assim que começo a falar dele? Lá está a interpretação que falta aqui, por isso linkei. Independente de o livro ser bom ou não, os estereótipos estão lá. Os estereótipos de sempre. E acaba a história (não a da conversa aqui, claro, mas a do livro).

Eu acho que as infelicidades podem ser evitáveis sim, Thais. Mas é um exercício constante, nem sempre bem sucedido. Com certeza já cometi algumas e ainda vou cometer outras. Aí, só tem uma solução: respeito. Outro dia estava olhando a etimologia dessa palavra que a gente usa tanto, mas que tem um sentido muito mais além. Respeito vem de respectus, "ação de olhar pra trás", "olhar de novo", "atenção". Acho que a gente tem que fazer isso quando se trata de preconceitos, de qualquer natureza. Olhar de novo. A História (não a dos livros) já cometeu infelicidades demais, está passando da hora de re-ver os estereótipos.

Ana em fevereiro 19, 2011 10:49 PM


#188

Belo texto!
Meus Parabéns!
Até fiquei feliz por nunca ter lido as obras de Monteiro Lobato, não preciso ler um rascita como ele. Mas já o Ziraldo!!! Fiquei horrorizada com seus rascimo camuflados. É uma pena! Ziraldo eu gostava de ti, hoje não mais.

Jacimar em fevereiro 19, 2011 11:10 PM


#189

Os textos citados pelo Francisco, #185, estão nos links:

- Monteiro Lobato, “Negrinha” e a construção da identidade nacional - http://www.horadopovo.com.br/2010/novembro/2915-17-11-2010/P8/pag8a.htm

- Sobre Monteiro Lobato e os conselhos dos conselheiros - http://www.horadopovo.com.br/2010/novembro/2913-10-11-2010/P8/pag8a.htm

Ana em fevereiro 19, 2011 11:12 PM


#190

Ana,

Muitíssimo obrigado pela informação.

[]s,

Roberto Takata

Roberto Takata em fevereiro 19, 2011 11:25 PM


#191

Thais,

havia dado como ponto final a minha parca contribuição a este debate, mas seu comentário me instigou a uma nova participação. Através do mesmo link por vc citado, fui até o "O menino marrom". Novamente afirmo: o texto da Ana é primoroso, e, por isso mesmo, exige ser lido com as antenas da crítica em amplo funcionamento. Por isso, digo que o texto do Ziraldo é fantástico, não havendo ali nada de sub-liminar ou deletério para quaisquer "raças" nacionais.

Marcelo em fevereiro 19, 2011 11:52 PM


#192

"Por isso, digo que o texto do Ziraldo é fantástico, não havendo ali nada de sub-liminar ou deletério para quaisquer "raças" nacionais"

Como assim Thais?

O "menino marrom" refere-se a qual significante então? A um menino que faz côcô marrom, em oposição ao menino que faz côcô cor-de-rosa? Se for algo parecido com isso a liberdade poética do Ziraldo é maior do que eu imaginava.

Alexandre em fevereiro 20, 2011 12:15 AM


#193

#Prezada Ana. Fiquei com pena de não ter encontrado a mensagem de apoio ao Parecer da Profª Nilma Gomes, mencionado no comentário do Prof. Boaventura de S. Santos, que enviei aos meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ. Gostaria que vc o lesse. Infelizmente não o encontrei. Nele,utilizo uma pequena parte da correspondência de Lobato a Godofredo Rangel para externar meu repúdio à adoção do Caçadas de Pedrinho na escola pública brasileira, pelos mesmos motivos que vc invocou em sua carta, relativos à situação da criança negra no nosso sistema educacional. Li um fragmento dessa correspondência entre Lobato e Rangel na década de 90, no momento em que redigia minha tese de doutorado, versando sobre concepção de literatura em Lima Barreto. Desde então, minha adoração por Lobato vinda da infância por causa do Reinações de Narizinho foi irremediavelmente tocada. A estetização do racismo em sua obra para a infância é danosa pq, misturado ao humor, à ironia e à afetividade, o racismo se confunde com camaradagem. E assim as crianças negras o leem: como alguém que de maneira bem humorada e afetiva lhes diz quem de fato elas devem ser. Como se já não bastasse elas não terem praticamente nada para ler que as valorize etnica e culturalmente. Outro dia uma aluna minha da graduação me perguntou como é que ela ia passar auto-estima pros seus alunos negros se ela mesma, negra, não conhecia a história dos seus antepassados, a não ser que tinham sido escravos. Não bastasse isso, e ainda adotar Monteiro Lobato como cânone. Qto ao Ziraldo, nunca tinha pensado nele como racista. Ultimamente, tenho achado que ele é um bobo que fala um monte de besteiras sobre educação como se fosse a maior autoridade do planeta. O cartaz do Bloco me irritou de tal maneira que eu que achava o "Que merda é essa?" divertido fiquei com o pé atrás. A mensagem é explícita. Só não vê quem não quer. No Brasil não existe racismo, só cordialidade. Quem é que cai nessa, meu deus? tinha muitas outras coisas pra dizer, mas já estou me perdendo. Aceite meus efusivos parabéns pela lucidez da sua carta. Com ela você "escova a história a contrapelo", mostrando a cara racista de Monteiro Lobato, e mostra tb que no Brasil existe sim essa coisa abjeta e monstruosa.
Um abraço
Maria Luiza

Maria Luiza em fevereiro 20, 2011 2:37 AM


#194

O texto é contundente, sério, bom de ler…vai ver que é por isso que não está na grande mídia. E os comentários são um capítulo à parte. Não pude resistir à tentação de adicionar o meu apenas pra reforçar que uma das principais questões não é a censura ao Lobato, mas os motivos pelos quais o governo não deve empregar dinheiro público na compra dessa obra, como bem questiona o professor Duarte, em seu comentário. Eu acho a literatura infantil no Brasil muito franzina. Comparada às opções aqui nos Estados Unidos, dá tristeza. Sem contar que livro infantil é caro. Então por que não subsidiar alguns autores novos, por exemplo? E que as famílias interessadas em apresentar Lobato aos filhos façam isso, não o Estado, às expensas do dinheiro público.
Eu me lembro uns anos atrás, durante uma convenção da Brazilian Studies Association, alguém dizendo que estava cansada dessa história de defendermos o Lima Barreto porque ele era pobre e mulato. A pessoa disse que era historiadora e que por isso sabia, ao contrário de nós, estudiosos da literatura, que devemos considerar o contexto histórico em que ele viveu, ao que respondi que ao fazer isso também devemos exercer julgamento crítico sobre a história. Apenas reproduzir fielmente valores não ajuda muito nem me parece muito “histórico”. Na mesma ocasião, tive de ouvir que Lima Barreto não se ajeitou porque não quis, pois teve o apoio de Lobato. Mas a ideia que Lobato tinha de Lima também fica clara na biografia de Francisco de Assis Barbosa e apenas confirma sua visão de mundo. No fim das contas tô de saco-cheio dessa história de “Não Somos Racistas”, de ver gente como Ali Kamel, Ziraldo, João Ubaldo, a falecida Rachel de Queirós e quetais se auto-intitulando porta-vozes de “nós”. Nós quem cara-pálida? Desse jeito todo mundo que sofre preconceito todo dia nesse paraíso racial acaba sendo sempre o “o outro”.

Selma em fevereiro 20, 2011 3:15 AM


#195

Alexandre, como o Ziraldo deveria ter nomeado seu personagem, então? "O menino afro-descendente" ou, conforme a horrível denominação do senso, "o menino pardo"? Criar-se eufemismos para algo que não necessita de eufemismos?

Gostaria muito que a Ana fosse além nessa discussão, em futuros textos a serem publicados aqui. Gostaria que ela explorasse o racismo "positivo" e o "negativo". Um dos comentários acima me fez pensar no enorme mutismo que bloqueia esse tipo de discussão, muitas vezes vindo da vitimização excessiva e revanchismo velado de parte dos negros (não digo por parte dos brancos, pois esses já são tidos como os promotores naturais desse tipo de reação). Pode-se muito bem usar uma camiseta escrita "100% Negro", como diversas vezes já vi, mas tente, um branco, usar uma camiseta escrita "100% Branco", para ver o que acontece. Pode-se ser preso sob suspeita de discriminação racial, ou ameaça, conforme a susceptibilidade dos ânimos.

Acho que estacar-se apenas no amplo tema da denúncia das estruturas racistas, históricas, sociais, culturais, elegendo-se o escritor ou indivíduo qualquer da vez a ser crucificado, esta longe de sequer resvalar num caminho para a solução do problema do racismo. Pode trazer um lenitivo, uma impressão de desabafo, uma catarse. Mas é quase ficar falando ao vento. Essa questão deve ser explorada, volto a falar, de forma auto-policiada, afim de sanar as tendências revanchistas que, mesmo num texto tão sofisticado quanto o da Ana, aparecem.

Marcelo em fevereiro 20, 2011 10:31 AM


#196

# 189:

Os textos citados pelo Francisco, #185, estão nos links:

E, infelizmente, fazem parte do nobre combate aos moinhos de vento da "proibição de Lobato". Mas o que esperar de gente que acredita em comissários que desaparecem ( http://www.newseum.org/berlinwall/commissar_vanishes/vanishes.htm )?

Luís Henrique em fevereiro 20, 2011 11:23 AM


#197

Cara Ana...

Esta carta deve ser publicizada aos quatro cantos.
sinceramente,andei meio desiludida com o parecer favorável a esta obra infâme de monteito lobato(isso mesmo, no diminutivo, tal como sua obra que infelizmente tem e teve efeito destrutivo a todas (os) que leram a mesma). mas, agora, sinto-me revigorada ao ler suas palavras tão profundas e sinceras... quero parabenizá-la e dizer que estou divulgando-á. precisamos nos fazer ouvir e quem sabe um dia, bem próximo eu espero, esta e outras obras que nos fere de morte seja banida de nossa literatura, assim como as charges do não menos racista ziraldo (no diminutivo também).

Axé e verdade pra vc!

Sheila Dias

Sheila Dias em fevereiro 20, 2011 12:49 PM


#198

Parabéns pelo texto.

Vc diz o que eu sinto, e as vezes não consigo expressar!

Obrigada

Andrea CPR em fevereiro 20, 2011 12:56 PM


#199

Minha mulher enviou-me o link desse post porque sabe que eu gosto de bons textos e sobretudo porque debatemos várias vezes Monteiro Lobato em casa. E eu o li inteiro e com imenso prazer. Também com um pouco de TOC li todos os comentários, do primeiro ao último e uma coisa que notei é o seguinte: as pessoas precisam aprender a interpretar texto.

Para aqueles que insistem eu desafio: onde está escrita a frase "Nós queremos a censura ou banimento dos livros do Lobato"? Bom, não achando algo assim podem falar "Tá subentendido, a imprensa disse...". Então fica a minha pergunta novamente: onde está escrito no TEXTO que é defendida a censura ao Lobato?

Lamentável ter que ficar repetindo o tempo inteiro que não é censura e as pessoas ressuscitarem esse argumento tosco. Defendem idéias como se defendessem penalti polêmico no jogo do Corinthians. Pessoal: na análise de texto não cabe paixão e sim que se atenha ao que foi escrito.

Em tempo: o texto me fez refletir e ver que o que eu mais gostava no Monteiro Lobato era a adaptação dos anos 70 do Sítio e das músicas. E deixando claro para os "não analistas": isso é um gosto meu, uma memória afetiva. Não estou endossando em momento algum o Lobato.

Concordo 100% que tenha de existir a tal nota como a da caça das onças se isso é o pleiteado. Como disse a Ana, isso ainda me parece pouco, mas é o mínimo.

Outra coisa que talvez o pessoal não note aqui é que ainda que fosse um pedido de censura (de novo, não o é), o que é positivo é que isso está sendo discutido, debatido e avaliado.

Diferente de discussão de penalti, o debate muda alguma coisa.

Vida longa e próspera!

Rogério Prudente em fevereiro 20, 2011 1:00 PM


#200

Mais uma vez Ana Gonçalves nos brinda com uma análise profunda e profícua na luta contra essa chaga que tantos males nos faz, contra o racismo todo esforço é pouco.

Allysson F Garcia em fevereiro 20, 2011 1:21 PM


#201

Gostei muito deste texto e concordo com sua essência. Pelo que pude constatar ao ler o parecer sobre Caçadas de Pedrinho, não se propõe ali que o livro seja proibido, senão que haja uma nota de esclarecimento a professores e alunos sobre pensamentos e preconceitos racistas presentes no citado livro. Como professor, acho quase impossível não trabalhar com obras literárias clássicas brasileiras que não contenham estereótipos racistas, declarados ou subliminares. É que a imensa maioria de nossos escritores ditos clássicos, assim como a elite sócio-econômica à qual pertenciam, estavam imbuídos de inúmeros conceitos (preconceitos) racistas, os quais inevitavelmente apareceriam em seus trabalhos. Ou seja, se não estivermos dispostos a trabalhar com esse material, quase não teremos nada mais a utilizar, posto que era quase que exclusivamente essa elite que tinha condições concretas de publicar seus trabalhos.

Assim que, para mim, contextualizar a obra de Lobato (ou de qualquer outro escritor) é deixar patente para os alunos com os quais estamos trabalhando a base ideólogica por trás de seu trabalho, as razões que explicariam (sem justificar) a presença de tantos estereótipos de cunho racista em sua obra. Este trabalho fundamental de esclarecimento deveria ser feito de modo intenso ANTES de que a leitura do livro em si tivesse início. Acredito que, desta maneira, poderemos atingir aos dois objetivos principais que devem nortear nosso trabalho como professores: levar ao conhecimento efetivo de nossos alunos o melhor da produção literária existente (de um ponto de visto estético-literário), ao mesmo tempo que denunciamos os preconceitos racistas presentes na mesma.

Jair de Souza em fevereiro 20, 2011 1:31 PM


#202

Quero parabelizá-la, Ana, pelo texto perturbador, eu já sabia sobre o assunto do Lobato expressar os teus pensamentos de eugenia em suas "historinhas inocentes para crianças", mas não tinha lido dados tão contundentemente expostos como aqui. Aos demais digo: só passei a compreender melhor o que a escravidão perpetuou na vida dos negros brasileiros após 3 anos morando em uma comunidade de descendentes quilombolas. Sendo eu branca, pude entender os efeitos dos ecos da história da vida dessas pessoas. É comum crianças que se achem uma "merda" por aqui, meninas que querem alizar os seus cabelos "pixains" porque preferem cabelos "bons", que acham que nunca irão conseguir nada na vida porque são menos inteligentes que os filhos dos brancos (descendentes dos "senhores de escravos bonzinhos" que tinhamos por aqui). Afinal a pergunta que não quer calar: em que os livros do Lobato poderiam compribuir para a construção da identidade desse nosso povo multicultural e multiétnico? Vai ajudar a desfazer todo esse processo de racismo sendo trabalhado em instituições públicas? Duvido!Concordo com o comentário acima, nossa literatura infantil está débil há muito. Porque não incentivar as novas gerações na criação de livros que imprimam novos paradigmas, que sejam estmulantes e instigantes? Trabalho na Universidade Federal desta referida cidade de remanescentes quilombolas, aqui estimula-se os alunos de pedagogia a trabalharem a auto-estima destas crianças, dentre outras questões referentes aos abismos sociais, através de livros alternativos construidos com materiais reaproveitados e que imprimam os contextos e conflitos por eles vividos no dia-a-dia. Não precisamos gastar mais dinheiro com lixos como Lobato.
Quanto ao Ziraldo, bom, o que dizer de alguém que comercializa as suas militancias?Ótimo artista, péssimo caráter, no fim, espelha-se na criação as crenças e verdades do criador!
Ana, meu respeito e admiração.
Luana Lombardi

Luana em fevereiro 20, 2011 1:57 PM


#203

Rogério Prudente,

o texto da Ana nos remete a uma encruzilhada retórica, de forma que dou a cara a tapa para ser batida e me desvisto de qualquer pudor intelectual ao perguntar: nas últimas consequências, o que está sendo proposto no texto? Tirando as reviravoltas dialéticas de uma escritora cerebral, que escreveu, entre outras publicações, um romanção de quase mil páginas (que pretendo ler), o que suavizaria o tom de indignação de um texto que, a meu ver, está longe de ser desapaixonado (contrariando a sua opinião)? Colocando-se esse texto na matemática da mínima distância entre dois pontos, a linha reta traçada nos levaria a concluir o quê?

Sei que a discussão é o ponto positivo para a promoção de uma sensação maior de que vivemos numa democracia, mas a minha interpretação do texto (sinceramente pedindo licença para ser honesto, mas não ofensivo, ao Idelber a à Ana), é que se censure as obras de Lobato, e se tenha uma leitura mais racialmente engajada quanto às amenidades do Ziraldo. No menino marrom, do Ziraldo, eu não vi nada de ofensivo, aliás vi algo da mais simplória ingenuidade comparando-se à auto-crítica dos artistas negros norte-americanos. Há uma quantidade de séries televisivas feita e interpretada por negros, na qual se usa, com um humor libertário, toda as pre-concepções e estigmas adotados pela sociedade em relação aos negros. Pegue-se, p. ex., a série Todo Mundo Odeia o Chris, em que a professora do personagem título o presenteia com atitudes discriminatórias diariamente. Acho que os EUA estão à frente nessa questão, por os negros ali terem-se desatrelado substancialente do revanchismo e da auto-piedade. Veja-se o rap ali produzido que já criou uma mítica negra própria, que fala de si mesma e de sua posição quanto à sociedada de forma combativa e identitária, sem a atmosfera policial e auto-depreciativa desse mesmo estilo de música feito aqui.

Ainda convido aos interessados, e à Ana, a leitura de O Homem Invisível (infelizmente há décadas sem reedição no Brasil), e como Ralph Ellison, o maior escritor negro norte-americano, tem uma visão evoluída e mais progressisita sobre a questão. Como ele passa por todo inferno da mentalidade racial dos EUA sem passar a mão na cabeça do negro, sem ser panfletário, sem pudores de mostrar o negro com todas as consequências de seu atraso social promovido por séculos de exploração espiritual mutiladora, sem tentar compensar esse atraso por propostas emergenciais políticas ou de transcodificação de programas ortodoxos. O quanto, ao encerrar o livro com a frase bombástica, "quem sabe se, nas esferas mais baixas, eu não falo também por vocês?", Ellison desmascara o ciclo de ódios e vícios do conhecimento instituído que mantêm brancos e negros em eterna oposição.

Marcelo em fevereiro 20, 2011 2:06 PM


#204

Marcelo,

Ao você imputar a idéia de "revanchismo" a todos aqueles que optaram por um posicionamento político em favor de profundas mudanças sócio-estruturais e simbólicas para a população negra afro-descendente do Brasil, não compreende bem o que está em jogo em todo esse debate, além de se apresentar com um posicionamento que eu diria no mínimo como "reacionário". E a tua exigência por um comedimento no debate faz ignorar completamente os sentidos de URGÊNCIA dos sujeitos políticos negros e não-negros, para uma revisão e interferência imediatas nas estruturas racistas brasileiras. Por que urgente e imediata? Por que há pouco mais 120 anos da abolição somente AGORA, nos anos 2000, estamos discutindo políticas de reparação pelos crimes da escravidão e inclusão maciça a cidadania e a dignidade da população negra brasileira. 12O ANOS Marcelo! Não é ravanchismo, é urgência. Para ontem. O Brasil levou um século para reconhecer sua relação social exacerbadamente racializada e que, ao mesmo tempo a escamoteia.
E para mim, pessoalmente, se ao enfatizar essas relações de racismo no Brasil, dói para alguém, ou que as pessoas ficam com medo de se verem como racistas, sinto dizer que não há "revolução sem sangue nas ruas", ou seja, de que não há mudanças profundas, sem que alguém sofra com isso, no íntimo de sua subjetividade, no profundo de sua alma.
Sinto muito Marcelo, o teu comedimento, é um subterfúgio para escamotear e frenar o debate sobre o racismo, para sofrer menos, para não dar razão ao outro, e acusá-lo de revanchista.

Alexandre em fevereiro 20, 2011 2:39 PM


#205

Outra coisa, bem diferente, é acusar o Ziraldo por ter ajuizado a União pelos prejuízos causados pela perseguição política durante a ditadura militar. Quem, como o Millôr, não quis entrar na Justiça, não entrou. Quem quis, entrou, ganhou, e muito bem ganho. Se não queremos que nossos impostos sejam gastos em reparações por malfeitos do Estado, temos que ser mais rápidos em derrubar ditaduras opressivas.

Luís Henrique em fevereiro 20, 2011 2:55 PM


#206

Sabe, Marcelo, #195, eu queria muito que você me explicasse a partir de que ponto deve ser iniciada uma discussão sobre racismo com quem fala em racismo "positivo" e "negativo". A partir de que ponto deve ser começada uma conversa com quem fala em "vitimização excessiva e revanchismo velado por parte de negros", ignorando o valor simbólico de uma camiseta onde se lê "100% negro" e outra onde se lê "100% branco", levando em conta racismo científico, eugenia, escravidão e a influência nefasta de tudo isso na História.

Assim como você, # 24, também sou fruto da miscigenação nacional, filha de pai branco e mãe negra, bem clara. Poderia assumir qualquer identidade aí nesse meio, mas me assumi negra. Há pouco tempo, porque antes de começar a pesquisar para escrever Um defeito de cor, eu vivia bem alienada, desfrutando indiretamente de privilégios que nunca fiz nada para merecer. Porque é exatamente isso que acontece: se alguém está em desvantagem, e está mais do que provado que o negro está em desvantagem nesse país, é porque alguém, direta ou indiretamente, conscientemente ou não, está levando vantagem. A vantagem não desaparece no ar: é tirada de uns para ser dada a outros. O mesmo acontece com os héteros (homens e mulheres) e com os homens: levam vantagens em relação a homossexuais e mulheres. (É óbvio que ninguém precisa ser e/ou se assumir negro ou homossexual, por exemplo, para ser a favor de direitos iguais para todo mundo. Não existe a menor relação entre uma coisa e outra, basta a sensibilidade e a vontade de se colocar no lugar do outro). Mas quando alguém, de dentro, aponta essas vantagens e diz que elas não têm razão de ser, corre o risco de ser acusado do que você chama ,no seu comentário #24, de "minorias institucionalizadas e geralmente raivosas". Eu não TIVE QUE; se quisesse, no Brasil, poderia ter passado a vida sem me posicionar, desfrutando dos privilégios que isso me acarretaria; mas EU QUIS, depois de ler o que li sobre a história da escravidão, depois de ouvir o que ouvi sobre os efeitos dessa escravidão nos dias atuais, depois de ver o que vi nos lugares onde passei a circular.

E, de verdade, sinto muito se o fato de eu assinar meus textos assim, "negra e escritora", "identidade e função" nas quais venho trabalhando para exercer de fato e de direito, sabendo que vai ser assim pelo resto da vida, com erros e acertos, te façam dizer coisas como essas, no seu comentário #24: "Não conheço a Ana Maria Gonçalves, suponho que ela escreveu algum outro texto para o Biscoito, que não me animei a ler. Confesso que quando vejo textos como esse, subscrito por uma autora que assina "negra, ecritora", fico tão desestimulado que passo adiante." Acho que é exatamente disso que a gente fala aqui: acabar com preconceitos, ouvir e se interessar pelo que o outro tem a dizer. Ou, mais ainda, se colocar no lugar do outro e tentar imaginar como ele se sente.

Conheço Coetzee de livros e pessoalmente. Estive como convidada na mesma edição da FLIP que ele e outra nobel sul-africana, Nadine Gordimer. Como também conheço, de livros e pessoalmente, a norte-americana Toni Morrison. Todos têm livros ótimos que denunciam escravidão e preconceito a partir das próprias experiências e vivências, que não deixam de ser universais. Conheço também a literatura de Ralph Ellison, #203, e seus contemporâneos, como Richard Wright e James Baldwin. Juntos, e com mais alguns e algumas, esses três foram super importantes para a deflagração do Civil Rights - o que contradiz o que você diz: "sem tentar compensar esse atraso por propostas emergenciais políticas". Procure ler um pouco sobre a biografia dele, e vai descobrir também que foi super influenciado por sua esposa, Fanny McConnell Ellison, fotógrafa, diretora de teatro e ativista que já militava bem antes de eles se casarem, e que o ajudou a editar The invisible man.

Mas, para falar de Brasil, de algumas situações especificamente nossas, prefiro autores nacionais. Nós existimos, Marcelo, apesar de alguns também sermos "negros e escritores", e tem muita gente escrevendo coisa boa por aí. Em literatura infantil, se realmente te interessar, gostaria de sugerir "Histórias do Tio Jimbo", do Nei Lopes. Leia esse livro e compare-o com qualquer outro sobre o qual há denúncia de peconceitos e estereótipos. Mas há muitos outros também, de autores negros ou não, é só procurar. E também não há silêncio sobre alguns assuntos sobre os quais você diz que há. Pode até não haver diálogo, porque há muita resistência e pré-conceito. Há várias discussões acontecendo por aí, é só procurar e se dispor a ouvir. Boa sorte!

Ana em fevereiro 20, 2011 2:59 PM


#207

argumentação genial. parabéns!

Matheus em fevereiro 20, 2011 3:10 PM


#208

Um dos grandes equivocos, não só teu Marcelo, como de muita gente, é comparar o racismo dos EUA com o Brasil. São relações muito diferentes. E o mais grave: achar que o racismo de lá, é o racismo "verdadeiro", e aqui "nem tão verdadeiro", "nem tão real".

Nos EUA, pode se dizer, a estrutura racial é "objetiva", sem escalas; aberta. Lá o "inimigo" é declarado. Aqui no Brasil, o racismo passa por um filtro, um filtro de subjetividade que escamoteia a relação, que faz as pessoas negar a sua existência, e ao mesmo tempo praticar intensamente (um paradoxo peculiar nosso).

Quanto a "auto-piedade", posso dizer que essa é uma forma de deslegitimar, o discurso político do outro, sem ao menos tentar compreende-lo. Ou seja, afinal de contas por que essas pessoas enfatizam tanto o seu próprio dissabor. Mas é claro, né Marcelo, as pessoas precisam lidar e se acostumar com seus dissabores. Se acostumem, não é isso?. Lidem com o racismo que vocês sofrem. Mas com a condição de não imputá-lo a mais ninguém, só vocês tem o direito de sofrer com isso. Aguentem no osso, quietos. Isso é um problema de vocês.

Alexandre em fevereiro 20, 2011 3:14 PM


#209

Bom, estou expressando o que penso sobre o assunto. Não sou especialista em nada, o que, de certo ponto, me beneficia. Sobre O Homem Invisível, livro que já li um sem número de vezes, visto meu interesse de sempre em literatura norte-americana, digo que os traços que citei no meu comentário acima procedem: nessa obra Ellison aprofunda-se como não vi par (só em "Desonra", do Coetzee, em seu devido nicho) na "história das mentalidades" raciais norte-americanas. Quanto à biografia, aí entraríamos num dos motes de seu texto, Ana, e do meu posicionamento a respeito: uma coisa é a vida, as cartas que nunca se pensava publicáveis, do escritor; outra, a sua obra.

Gostaria de saber, pragmaticamente, o que vc, enquanto negra, propõe para solucionar o problema racial brasileiro (novas leis, notas de rodapé maiores que o corpo do texto, uma guerra civil?) e, por quê é diferente um negro ostentar sua negritude de um branco idem?

Acho validíssimo seu debate, defendo-o onde quiser que a minha pequena participão pudesse sustentá-lo, mas penso que sua riqueza maior são as novas ideias que aparecem pelo caminho, ideias à primeira vista antagônicas da causa principal, e também, aceitar que tal debate faça surgir os mesmos discursos feitos, as mesmas poses de atitudes. Essa caixa de comentários pode ser um exemplo rico disso: as mesmas ideias guardadas ressurgem, querendo se confrontar, um se arvora branco com prazer, outro se diz mãe e assombrada com a educação, num ou noutro sentido. E, quem somos nós para não assumirmos a legitimidade dessas pessoas se expressarem, se dizerem brancas ou negras? Eu jamais usaria uma camiseta escrito 100% branco, assim como acho ridículo e alienado ver alguém vestindo uma com 100% negro.

O que digo é que o racismo venenoso, encalacrado, o racismo fóssil ainda vivo e perpétuo, não é o que se costuma querer combater do alto da cátedra. É o que acontece, como disse, no cotidiano das pequenas cidades, o que se entrelaçou com a "cultura" e nela fez ninho. O racismo dos livros, dos salões de debate, das esferas acadêmicas, só serve para turbinar os ingredientes da potência retórica e da lucidez dos aspectos livrescos do problema: sua medida histórica, social, biológica, etc, etc. Propõe-se a seleção analítica do racismo impresso, seu combate minucioso, enquanto o padeiro ainda é chamado de Seu Criolo (há um onde moro), o engraxate mesmo tendo a pele branca sendo chamado de "neguim da graxa"; o promotor da minha cidade, um negro, quando vira as costas e entra em sua Hilux, não ouvindo as piadas de alguns de que "ele é o promotor mesmo, não o motorista dele?"

E talvez Monteiro Lobato sirva com perfeição a acender o pavio do discurso, mas a forma como esta sendo feito talvez não seja a mais propícia, com insinuações de proibição das obras dele.

Agora, querer criar uma hermenêutica própria do racismo brasileiro, desconsiderando os avanços obtidos em outros países, será o caminho correto? Conhecendo Coetzee, Ana, deve ter lido seu romance-ensaio Elizabeth Costello, algo de tamanha transcedência que vai da filosofia à exploração kafkiana da guetização étnica. Ele, propondo o distanciamento sobre a questão sul-africana, afim de proporcionar, quem sabe, uma nova amplitude sobre a questão, fez de sua personagem uma escritora australiana, escrevendo e palestrando sobre a situação australiana. Será que algum escritor nacional, negro ou não, foi capaz de fazer algo parecido, desencarnar-se de toda a acirrada atmosfera passional, para ver com objetividade?

Quanto a vc, Alexandre, não tentei matar o discurso nem ser reacionário, e não acho ser a "revolução pelo sangue" a solução para o dilema. Mas acho que, por sob tudo isso que foi dito, é sempre bom estar em alerta para os perigos de que as palavras percam seu encanto ambíguo, e apenas o grotesco dessa insinuação apareça.

Marcelo em fevereiro 20, 2011 4:10 PM


#210

Alguem tem como se certificar de que o Ziraldo lerá mesmo esse texto? Está tão bem escrito, conduzido e moralmente conciso que seria uma PENA caso passasse incólume pelo Ziraldão. Quero só ver qual vai ser a resposta dele.Sonho como um 'mea culpa', um 'ok, errei', mas provavelmente teremos uma análise superficial da situaçao ou um xingamento dispensado à autora.

Bashir em fevereiro 20, 2011 4:17 PM


#211

Ana, sobre seu primeiro parágrafo no #206: o racismo é um caminho de duplo sentido, e também utilizei aspas para racismo "negativo" e "positivo". Se 100% negro é mentira, do ponto de vista biológico (que aliás há tempos o conceito de raça já foi desbancado), essa frase só se justifica por ser um lema cultural de guerra. Sendo 100% negro, tudo por fora dessa órbita é 0% negro, é uma nulidade a ser combatida, a ser preenchida pelo universo de um sentido só que é ser negro. No que isso pode contribuir para a resolução do problema? 100% negro é 100% revisionista do passado, em busca de compensação? Compensação em que sentido? Quando um quadro de guerra está montado na psique social, será que uma lado está livre para confontar e ganhar, sem que se o anteponha o lado contrário? Não haverá uma turba de assíduos defensores de um Brasil 100% branco? Colocar as coisas nesse termo (que não é o seu caso), é relegar tudo à barbárie.

Marcelo em fevereiro 20, 2011 4:23 PM


#212

Caríssima Ana Maria, obrigada pela clareza de espírito, por compartilhar conosco um texto tão lúcido e verdadeiro! Mais "Um defeito dos ausentes de cor": Intolerância Racial! Adorei o seu livro "um defeito de cor" Parabéns por suas veias literárias tão intensas! Cordiais abraços!

Denise Guerra em fevereiro 20, 2011 5:07 PM


#213

Luana, #202, belíssimo depoimento, muito obrigada.

*****
Pessoal, todos vocês, concordantes e discordantes, deixaram aqui contribuições riquíssimas para esse debate. Com certeza vou voltar muitas vezes a essa caixa de comentários, reler, aprender, pescar ideias que, no clamor dos acontecimentos, passaram batido. Obrigada mesmo a todos.

Quero agradecer principalmente ao Idelber. Pela postura combatente e corajosa que sempre me inspira, pelo espaço, pela paciência e, principalmente, pelo apoio.

Ana em fevereiro 20, 2011 6:13 PM


#214

Ana, acredito que tentar vencer o ressentimento causado por todas as injustiças históricas e barbaridades cometidas até aqui, seja o próximo passo a ser dado na dissolução do preconceito e discriminação. Seu texto é brilhante, sua narrativa contundente, mas ainda é um ataque, e por reflexo. Concordo com você quanto as ideias eugenistas e perigosas de Lobato. Compartilhei seu texto no facebook, tudo isso precisa ser discutido e esse é o ponto positivo. Criticar alguém que é parte do cimento de nosso alicerce é como criticar a nós mesmos. Como se tivéssemos fazendo coro, sendo cúmplices, por ter deleite e identificação com tão brilhante obra. Minha opinião é que devemos ter consciência da existência, inclusive em nós, de todas essas mazelas. Devemos ouvir de tudo e extrair o que é bom. Não existem bons moços, existem seres humanos com suas ideias. Todo artista é contaminado por suas próprias ideias, algumas vezes traído por elas, e longe de ser dono da verdade. Isso cabe ao Ziraldo, mas quem a possui? Quanto as ideias, umas, espero a maioria, serão feijões e outras pedras, ambas no mesmo pacote. Não existe ninguém tão brilhante que não possa ser contestado, nem devemos nos culpar pelo deleite na obra desses artistas maravilhosos. Se tivermos discernimento, sabe lá Deus de onde vem, e bom senso, se existe e sabe lá de quem, talvez nossos dentes continuem inteiros. Digo isso porque a paixão e o ressentimento podem nos cegar e fazer enxergar só as pedras. E ainda reavivar questões já superadas como um foco de incêndio.
Não seja você, alguém com uma cabeça tão linda esse foco. Sejamos felizes, não existem negros, brancos, gays, héteros ou qualquer outra segregação. Existem apenas seres humanos, o resto é criação nossa, levantar qualquer bandeira que não seja de paz é estupidez. Precisamos praticar a tolerância e o perdão, sei que você pensa estar fazendo exatamente isso, por isso lhe escrevo isso e peço que releia o seu texto e me desculpe a audácia. Você possui minha simpatia e virei um leitor e indissociavelmente um crítico seu. Com respeito e admiração.

Jocih Machado em fevereiro 20, 2011 7:33 PM


#215

Olá, Ana.

Agradeço a resposta ao meu comentário. Não havia lido o seu artigo sobre o livro antes, por isso li e volto aqui para comentá-lo. Aprecio o seu fôlego teórico, aprendi bastante sobre o lugar do negro na sociedade brasileira. Mas devo discordar da sua leitura. Lá você afirma que o Ziraldo dilui a identidade do menino marrom por não aceitá-lo como negro. A minha leitura é contrária, a história é exatamente sobre a busca da identidade, que passa pela sua cor, mas não só pela sua cor, passa também pelo olhar que a sociedade tem da sua cor (o episódio da professora e da escola é sobre essa descoberta, o episódio do adolescente que pensa sobre o seu lugar no mundo também)e por TANTAS outras coisas (as palavras - ingredientes do humano; a descoberta da morte - o episódio da velhinha (ele vai ajudá-la depois, não é assim?); a descoberta de que a nossa história é sempre maior (independente da raça) que a do robinson crusoe). Assim como você mesmo afirma lá, o olhar etnocêntrico imposto aos povos negros e indígenas formadores do brasil é um olhar limitante. Por que deveríamos, então, reescrever uma história do mesmo jeito mal-contado, só revertendo papéis?
Outro problema que vejo com a análise é pressupor pensamentos ideológicos do autor. É preciso lembrar que a literatura é a literatura, é a mentira com aparência de verdade, que não necessariamente é mimética à realidade, mas que pretende reconstruir significados que depois voltam a ser verdade pela experiência, mas ela não É a experiência.
Penso que supor pensamentos ao autor não se deve. Pois aí vai haver gente querendo dizer que o Machado de Assis era racista porque narrou o "Pai contra mãe" ou porque teve coragem de mostrar a todos o olhar burguês sobre o negro.
A arte é pra levar os homens e os povos além, e nela o bem e o mal não podem ser julgados pelo nosso filtro de bem e mal social, já que é recriação.
Sabe, insisto aqui na discussão porque respeito (no sentido mesmo que você colocou na sua mensagem, de voltar atrás, de rever) a sua carta, e o seu artigo e a sua opinião e quero saber mais sobre as análises multiculturais, mas sempre me surpreendo com o grau de ressentimento (como já disse, muito bem justificado) e de poder de imposição que encontro nelas.
Termino aqui com o dito do Riobaldo, narrador do Grande Sertão: Veredas, sobre contar histórias, sobre a literatura:

"Apreciei demais essa continuação inventada (alguém inventara a continuação final de uma história verdadeira). A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de OUTROS movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar."

Abraço!

Thais Travassos em fevereiro 20, 2011 7:44 PM


#216

Ana,
Primeiramente, parabéns pelo texto e referências.


Lembro de ter lido as obras de Monteiro Lobato quando criança. Na época, com meus 6, 7 anos, não tinha ideia do quão racista ele era - eu não conseguia ver o racismo em sua obra - o que não era realmente a questão central do texto, na minha visão de mundo daquela época.
Embora não visse o racismo de Lobato, sempre soube de um Brasil racista, tema constantemente exposto para mim, através das histórias de vida do meu pai, e de todo o preconceito que sofreu por ser negro e de família pobre. Sem panos quentes, sem tapar sol com a peneira, dizia: "Minha filha, a vida é difícil pra todo mundo, mas estude muito, estude pra ser a melhor, porque esse país é racista e você é negra, e pra você vai ser mais difícil".


Não acredito, ao contrário de muitos, que o Brasil não seja um país racista. Considero o racismo no Brasil um dos piores do mundo, já que 'não existe' - então como não existe não precisa ser falado, comentado, discutido.


Não acredito que privar as crianças de conhecerem quaisquer obras - racistas ou não - resolva o problema do racismo. É como se se deixasse de produzir filmes sobre o Holocausto os judeus não sofreriam mais com o anti-semitismo. Sim, estou colocando de uma forma muito simples, mas a verdade é que o horror da Segunda Guerra é constantemente lembrado.


Então por que fingir que Monteiro Lobato não escreveu o que escreveu? Sim, também era o retrato de uma época - ou vamos ser ingênuos e achar que SÓ Monteiro Lobato pensava assim? Mais nenhum outro...não é bem por aí... Ou então vamos banir grande número de obras literárias porque elas contêm referências e insultos aos negros? Vamos banir "O Cortiço", onde Aluisio de Azevedo escreve "e tinha de estirar-se ali, ao lado daquela preta fedorenta a cozinha e a bodum de peixe!"? Não acredito que a coisa se deva dar por aí. Vamos fingir que o racismo nunca existiu? (e se nunca existiu, ainda existe?)

E por que ninguém se manifesta contra o papel constante dos negros como domésticas, pobres, motoristas, capangas, marginais,ignorantes nas telenovelas? Isso também constroi um ideal errado do que o negro representa. Sim, é uma triste realidade, mas o grande problema a meu ver é que não se enaltecem os negros que realmente realizaram e realizam coisas importantes - os advogados, médicos,escritores, artistas, professores da vida real,e não apenas os jogadores de futebol.

Mais: uma criança negra em idade escolar (6 aos 10 anos) possivelmente já foi chamada de nomes derrogatórios suficientes para não se espantar com o "macaca", "fedorenta" da Tia Nastácia..Não estou dizendo que isso seja positivo, aceitável.(Apenas estou contrapondo com o que disseram sobre "crianças brancas aprenderem como chamar os colegas negros") É possível também que crianças negras em idade escolar também respondam aos xingamentos chamando as crianças brancas de "azedas" "fantasminhas" "branquelos". Não tem o mesmo peso "psicologico" talvez, mas da forma como foi colocado, parece que as crianças negras são tão somente pobres-coitadas que não são capazes de responder à altura. Me desculpem, eu discordo. O que precisamos é de menos vítimas e mais lutadores.

Juliana em fevereiro 20, 2011 8:21 PM


#217

Essa demonização de Monteiro Lobato como racista nada mais é que uma ridícula imitação politicamente "correta" do que estão tentando fazer com Mark Twain nos Estados Unidos. Agora incluir Ziraldo nesse rolo vai além do ridículo, é pura debiloidice mental mesmo.

Miguel Falcão em fevereiro 20, 2011 8:50 PM


#218

Seu texto "desmata o Amazonas de nossa ignorância", permitindo-nos refletir de forma mais plena.
Obrigada por isso.

Denir Camacho Ferreira em fevereiro 20, 2011 9:03 PM


#219

Em resposta ao Marcelo #203:

"o texto da Ana nos remete a uma encruzilhada retórica, de forma que dou a cara a tapa para ser batida e me desvisto de qualquer pudor intelectual ao perguntar: nas últimas consequências, o que está sendo proposto no texto? "

Como eu dise antes o que o texto propões é : a inclusão de uma nota de esclarecimento.

Vale a máxima do jogo do bicho: "Vale o que está escrito". Achar algo mais do que está escrito no texto é ir para divagações que a própria autora do texto já negou várias vezes ao longo dos comentários ou tentar extender a discussão para outros pontos que não são os discutidos nele.

Li o livro do Ralph Elisson no original. É muito bom. Também adoro o "Todo mundo odeia o Chris". Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não é engraçado um sujeito bater na porta da minha casa, olhar para a minha mulher e perguntar se "a patroa está em casa", embora seja praticamente o que faz a senhora Morello do seriado. E como disse a Ana, não se pode comparar os racimos dos EUA e daqui, quanto mais com qualquer lugar do mundo ou mesmo com o que sofreram os judeus. É jogar numa vala comum estereotipada assuntos muito delicados. Mas... como disse antes: isso é fugir do que se propõe o texto.

A nota, ao meu ver, é uma coisa tão minimamente ridícula nessa celeuma toda do Lobato, que não entendo porque não está lá há mais tempo.

Estamos falando de livros escolares, que tem essas notas ou coisas similares que são distríbuidos pelo Estado que como foi dito pela Ana, só estaria sendo coerente com o estatuto da Criança e do Adolescente.

Quem não gostar disso tem uma opção: coloque o filho em uma escola que não adote os livros do Estado.

Mas para mim o ponto final da discussão é : se realmente entrarem com alguma ação legal e for definido pela lei que tem que ter a nota, acabou a conversa. Goste-se ou não a lei deve ser obedecida e depois questionada. Ou vamos entrar na discussão do penalti novamente...

Rogério Prudente em fevereiro 20, 2011 9:44 PM


#220

Boa Noite Ana

Possua as seguintes características :
Meu tataravô por parte de mãe foi escravo ...
Meu tataravô por parte de pai chamava-ve Francesco Gallo ...

Aprendi com meus pais e com a vida algumas coisas...
Que o conhecimento é a maior virtude do ser humano
O conhecimento é a ÚNICA maneira de crescer .
Sem ele você não consegue desenvolver-se , expressar-se , escolher , etc.
Falar de racismo é alimentá-lo .
Calar-se é alimentá-lo .
ESTUDAR , Trabalhar com dignidade é vencê-lo .
Meu nome é Paulo Galo.
Não é Negro Paulo Galo,
ou Pai de família Paulo Galo,
ou Engenheiro Paulo Galo,
ou Filho de imigrante nordestino Paulo Galo ,
ou Paulistano Paulo Galo
é somente Paulo Galo .
Parece que tenho nariz largo , cabelos crespos e a pele escura , parece , pois não tenho muito tempo para me olhar no espelho . Aliás creio que todas as pessoas que vivem hoje no mundo ficam 0,01% do seu tempo em frente à um espelho .
Não entendo porque temos que nos intitular de negros ou palmerenses ou maçons.

Negro não é título , não é profissão .
Fala-se que a escravidão do Brasil (em 400 anos) matou cerca de 6 milhões de escravos .
Fala-se que Stalin matou 20 milhões de russos .
Fala-se que o holocausto na 2a Guerra (em menos de 10 anos)matou a mesma quantidade de pessoas .

Quem capturou/prendeu/comercializou os escravos na Africa tinha A MESMA COR DA PELE que os escravos capturados.
Quem capturou/prendeu/assassinou os judeus na Alemanha/Polonia tinha A MESMA COR DA PELE que os judeus capturados.
Quem capturou/prendeu/assassinou os russos na antiga URSS tinha A MESMA COR DA PELE que os russos capturados.
Na África do Sul brancos matam negros
Na África do Norte árabes matam árabes
Na África do (Meio) negros matam negros


Ódio é humano
O conhecimento é humano .

Não sei de quem é a frase mas "O maior inimigo do amor não é o ódio , mas a indiferença"

Se Monteiro Lobato ou Ziraldo ou Michael Jacson (não sei a cor dele) , ou os comerciantes negros de escravos negros da África não gostam/gostavam de negro, não dê ouvido à eles.

Vamos estudar , vamos crescer .
Sabe o que os judeus fizeram depois do holocausto... Estudaram e cresceram.
Sabe o que os descendentes russos assassinados pos Stalin fizeram depois da Revolução Russa fizeram...Estudaram e cresceram.
Não esqueceram o que sofreram . Não gostariam de passar pelo mesmo . Apenas estudaram e cresceram.
Façamos o mesmo.

Obrigado

Paulo Galo em fevereiro 20, 2011 11:57 PM


#221

Um conhecido, famoso e antigo livreiro me respondeu assim: o 'O Menino Maluquinho'? Tenho,ainda não li, mas deve ser a autobiografia do Ziraldo.

SôniaG. em fevereiro 21, 2011 12:22 AM


#222

É simples fazer o teste. Quem não tiver filhos, e tiver paciência, que pegue os livros do Sítio pra ler. Os xingamentos, especialmente à Tia Nastácia, não estão somente nas Caçadas de Pedrinho. Há em outros também, e "negra beiçuda" é o menor deles.
Ao ler os livros para meu filho, volta e meia eu engasgava, e substituía as palavras, pulava trechos.
É inegável. Mesmo quando eu era criança, aquilo me causava estranheza. Isso que eu sou branca, e tinha uma avó constrangedoramente racista.

Nisia em fevereiro 21, 2011 12:35 AM


#223

O post faz uma confusão danada entre eugenia e racismo, e para mim é até estranho que num blog que se percebe tão "letrado" e onde quem discorda é sempre desafiado a postar "referências".

Eugenia se propunha a ser a "ciência" (entre aspas mesmo) que promoveria o melhoramento da humanidade através do descarte dos indivíduos mais fracos, como é perfeitamente explicado no ótimo e arrepiante documentário Homo Sapiens 1900. Diversos países europeus - principalmente Alemanha e países nórdicos - e os EUA tiveram práticas eugênicas por décadas a fio, sendo que na Suécia, elas se estenderam até o ano de 1975, na forma de esterilização dos indivíduos "inaptos". Logicamente, os racistas se apropriaram dessas ideias para dar um ar de respeitabilidade a suas próprias agendas odientas. Interessantemente, a prática do nudismo tem suas origens em práticas de eugenia, pois o mesmo era visto como uma maneira de não se "contaminar com as fibras industrializadas" e "promover uma interação direta do corpo com a terra". (Veja uma crítica de um dos livros a respeito.)


Outras provas de que a eugenia não se confunde com o racismo são os filmes feitos no início do século XX que propagavam suas ideias. O mais notório é o infame The Black Stork ("A Cegonha Preta"), onde um eugenista advoga abertamente o sacrifício de crianças "defeituosas" - não se cita em momento nenhum de que "raça" ou "cor", e a criança que se debate no filme - numa cena revoltante, de cortar o coração - é branca.


Outro caso emblemático foi o "The Negro Project", concebido por Margareth Sanger, uma das pioneiras do campo da educação sexual e do controle de natalidade. É difícil encontrar opiniões não exaltadas ou encharcadas de religiosidade e fanatismo, mas o link que coloquei a respeito é uma boa introdução. Trocando em miúdos, o que aconteceu é que muitos líderes negros começaram a discutir sobre se deviam ou não adotar os preceitos de Margaret Sanger sobre controle de natalidade, de forma a formar famílias menores e mais fortes. Houve cientistas negros inclusive que escreveram artigos a respeito apoiando a iniciativa. E, novamente, é interessante ver que as práticas modernas de controle de natalidade e de liberação da mulher que a pílula anticoncepcional possibilitou também tiveram suas origens na eugenia.


Assim, concordo com o Ziraldo - quando ele diz que racismo sem ódio não é racismo. Entendo que o "racismo sem ódio" a que ele se refere é a eugenia, a qual era antes de tudo uma teoria pseudocientífica tida como importante em seu próprio tempo. Agora, daí a identificar a frase de Ziraldo com o racismo e o eugenismo de Monteiro Lobato usando um conjunto de frases de um livro tiradas de fora de seu contexto é desonesto. No mínimo, é tão simplista (e furado) quanto dizer que "Deus é amor, o amor é cego, logo Stevie Wonder é Deus".


Mais: não faço a mesma leitura do desenho que a autora do texto. Para mim, a leitura seria que ambos têm suas qualidades, e que todos nós poderemos ser melhores se celebrarmos as qualidades de ambos - e aí, não me refiro só aos atributos físicos. (Ou a autora considera a mulata retratada como um ser não inteligente, só porque usa um recatado biquini branco, algo comum de se ver num bloco carnavalesco?)


Outras interpretações: a mulata é tão mais esperta que ML que conseguiu convencê-lo a abandonar seu eugenismo e cair no samba; ou ainda, as convicções de ML eram tão débeis, tão fracas - ou a força da cultura do negro e do mestiço, tão grande - que nem ele aguentou e caiu no samba.


Para finalizar, se não ficou claro até aqui: deploro o racismo. Não sei quantas vezes eu briguei com o meu pai por conta das grosserias racistas que ele falava. (Ele parou quando uma amiga minha, negra, linda, veio a um aniversário e por pouco ele não soltou uma besteira.) Deploro igualmente a eugenia, embora seja interessante como adotamos hábitos e soluções que tenham sido inspirados e preconizados por ela.


Por outro lado, não dá para ficar jogando fora os bebês com a água do banho, e em minha opinião as últimas polêmicas deste blog só levam a isso. ML é um personagem importantíssimo da história do Brasil contemporâneo, e não se pode simplesmente desprezar as contribuições que fez e tentou fazer ao Brasil, que amava. Tem-se que avaliar o saldo não só de sua produção, mas também de seu legado. E seu principal legado foi inventar a literatura infantil brasileira, a qual praticamente inexistia. Dentro de seus defeitos e limitações, é um feito que nunca lhe poderá ser tirado.


Da mesma maneira, acho que a folha de serviços prestados pelo Ziraldo ao Brasil compensa em muito as várias gafes que produziu durante sua já longa vida. O simples fato de ele ter ousado enfrentar o regime ditatorial que assolava o país na época do Pasquim já o faz maior do que todos nós. Sua defesa de ML deve muito mais a Voltaire do que aos racistas e eugenistas. E quanto à suposta ironia do Ivan Lessa, eis o restante do texto do Ivan: interpretem como bem entenderem.


Pagaram uma miséria, os militares de então. O que agora, uns 30 anos mais tarde, foi devidamente corrigido. Mas corrigido que não é brincadeira. Corrigido para valer. Corrigido como não está no gibi. Ou como não está nos clássicos do humorismo da esquerda engajada feito os Zeróis, os Menininhos Maluquinhos, a turma do Pererê, o Flicts, a Supermãe, as anedotas de salão em brochura.


No spoonerism (todos ao dicionário) clássico de Millôr Fernandes: “A justiça farda mas não talha.”



Encerrando esse longuíssimo comentário, estou com a Juliana. Vitimizar a vítima de racismo só vai... Vitimizá-la. Ao invés, temos que dar a essa vítima - do passado, do presente e do futuro - mais instrumentos para que enfrente o racismo de frente. Não consigo crer que todas as pessoas sejam tão frágeis assim como você dá a entender - do contrário, você nem estaria aqui escrevendo esse texto e eu não o comentaria, como fiz.

Zarastro em fevereiro 21, 2011 2:40 AM


#224

O post faz uma confusão danada entre eugenia e racismo, e para mim isso é estranho num blog que se percebe tão "letrado" e onde quem discorda da opinião do blogueiro (e dos que lhe são favoráveis) é sempre desafiado a postar "referências".

Eugenia se propunha a ser a "ciência" (entre aspas mesmo) que promoveria o melhoramento da humanidade através do descarte dos indivíduos mais fracos, como é perfeitamente explicado no ótimo e arrepiante documentário Homo Sapiens 1900. Diversos países europeus - principalmente Alemanha e países nórdicos - e os EUA tiveram práticas eugênicas por décadas a fio, sendo que na Suécia, elas se estenderam até o ano de 1975, na forma de esterilização dos indivíduos "inaptos". Logicamente, os racistas se apropriaram dessas ideias para dar um ar de respeitabilidade a suas próprias agendas odientas. Interessantemente, a prática do nudismo tem suas origens em práticas de eugenia, pois o mesmo era visto como uma maneira de não se "contaminar com as fibras industrializadas" e "promover uma interação direta do corpo com a terra". (Veja uma crítica de um dos livros a respeito.)


Outras provas de que a eugenia não se confunde com o racismo são os filmes feitos no início do século XX que propagavam suas ideias. O mais notório é o infame The Black Stork ("A Cegonha Preta"), onde um eugenista advoga abertamente o sacrifício de crianças "defeituosas" - não se cita em momento nenhum de que "raça" ou "cor", e a criança que se debate no filme - numa cena revoltante, de cortar o coração - é branca.


Outro caso emblemático foi o "The Negro Project", concebido por Margareth Sanger, uma das pioneiras do campo da educação sexual e do controle de natalidade. É difícil encontrar opiniões não exaltadas ou encharcadas de religiosidade e fanatismo, mas o link que coloquei a respeito é uma boa introdução. Trocando em miúdos, o que aconteceu é que muitos líderes negros começaram a discutir sobre se deviam ou não adotar os preceitos de Margaret Sanger sobre controle de natalidade, de forma a formar famílias menores e mais fortes. Houve cientistas negros inclusive que escreveram artigos a respeito apoiando a iniciativa. E, novamente, é interessante ver que as práticas modernas de controle de natalidade e de liberação da mulher que a pílula anticoncepcional possibilitou também tiveram suas origens na eugenia.


Assim, concordo com o Ziraldo - quando ele diz que racismo sem ódio não é racismo. Entendo que o "racismo sem ódio" a que ele se refere é a eugenia, a qual era antes de tudo uma teoria pseudocientífica tida como importante em seu próprio tempo. Agora, daí a identificar a frase de Ziraldo com o racismo e o eugenismo de Monteiro Lobato usando um conjunto de frases de um livro tiradas de fora de seu contexto é desonesto. No mínimo, é tão simplista (e furado) quanto dizer que "Deus é amor, o amor é cego, logo Stevie Wonder é Deus".


Mais: não faço a mesma leitura do desenho que a autora do texto. Para mim, a leitura seria que ambos têm suas qualidades, e que todos nós poderemos ser melhores se celebrarmos as qualidades de ambos - e aí, não me refiro só aos atributos físicos. (Ou a autora considera a mulata retratada como um ser não inteligente, só porque usa um recatado biquini branco, algo comum de se ver num bloco carnavalesco?)


Outras interpretações: a mulata é tão mais esperta que ML que conseguiu convencê-lo a abandonar seu eugenismo e cair no samba; ou ainda, as convicções de ML eram tão débeis, tão fracas - ou a força da cultura do negro e do mestiço, tão grande - que nem ele aguentou e caiu no samba.


Para finalizar, se não ficou claro até aqui: deploro o racismo. Não sei quantas vezes eu briguei com o meu pai por conta das grosserias racistas que ele falava. (Ele parou quando uma amiga minha, negra, linda, veio a um aniversário e por pouco ele não soltou uma besteira.) Deploro igualmente a eugenia, embora seja interessante como adotamos hábitos e soluções que tenham sido inspirados e preconizados por ela.


Por outro lado, não dá para ficar jogando fora os bebês com a água do banho, e em minha opinião as últimas polêmicas deste blog só levam a isso. ML é um personagem importantíssimo da história do Brasil contemporâneo, e não se pode simplesmente desprezar as contribuições que fez e tentou fazer ao Brasil, que amava. Tem-se que avaliar o saldo não só de sua produção, mas também de seu legado. E seu principal legado foi inventar a literatura infantil brasileira, a qual praticamente inexistia. Dentro de seus defeitos e limitações, é um feito que nunca lhe poderá ser tirado.


Da mesma maneira, acho que a folha de serviços prestados pelo Ziraldo ao Brasil compensa em muito as várias gafes que produziu durante sua já longa vida. O simples fato de ele ter ousado enfrentar o regime ditatorial que assolava o país na época do Pasquim já o faz maior do que todos nós. Sua defesa de ML deve antes a Voltaire do que aos racistas e eugenistas. E quanto à suposta ironia do Ivan Lessa, eis o restante do texto do Ivan: interpretem como bem entenderem.


Pagaram uma miséria, os militares de então. O que agora, uns 30 anos mais tarde, foi devidamente corrigido. Mas corrigido que não é brincadeira. Corrigido para valer. Corrigido como não está no gibi. Ou como não está nos clássicos do humorismo da esquerda engajada feito os Zeróis, os Menininhos Maluquinhos, a turma do Pererê, o Flicts, a Supermãe, as anedotas de salão em brochura.


No spoonerism (todos ao dicionário) clássico de Millôr Fernandes: “A justiça farda mas não talha.”



Encerrando esse longuíssimo comentário, estou com a Juliana. Vitimizar a vítima de racismo só vai... Vitimizá-la. Ao invés, temos que dar a essa vítima - do passado, do presente e do futuro - mais instrumentos para que enfrente o racismo de frente. Não consigo crer que todas as pessoas sejam tão frágeis assim como você dá a entender - do contrário, você nem estaria aqui escrevendo esse texto e eu não o comentaria, como fiz.

Zarastro em fevereiro 21, 2011 3:16 AM


#225

Caríssima Ana;

Paradoxalmente fico muito contente e triste ao me deparar com sua reflexão reveladora, sincera e justa do quanto ainda temos trabahos a fazer para acabar com o racismo neste país.

Infelizmente nosso histórico e as provas do presente, prova que este país ainda está bloqueado para a participação horizontal das etnias presentes em solo nacinal.

Creio que leituras como essa que nos possibilita devam ser cada vez mais presentes para mudarmo um poruco do curso das ondas racistas ainda pesentes em nosso cotidiano.

Obrigado pela reflexão.

Atenciosamente;

Juliano Gonçalves Pereira em fevereiro 21, 2011 10:35 AM


#226

Obrigado ! Obrigado por ser nossa voz, por abrir nossos olhos, por revelar tantas coisas.
Gostaria muito que esse texto fosse publicado em todos os lugares, nas escolas, na tv, pois ao povo falta informação.
Obrigado mesmo.

Eduardo Silva em fevereiro 21, 2011 10:52 AM


#227

Os argumentos da carta tocam num ponto essencial do racismo “enrustido” de nossa formação societária. A possibilidade de tomar certas idéias comuns sobre as cores dos brasileiros de modo inofensivo, sem crítica, cai por terra quando se tem em mente o que a carta destaca, que é o sentimento de uma criança em sala de aula ao ver retratada sua condição social com menos respeito, por menor que pareça. O respeito igual é um direito básico. Sobretudo na infância. E é apenas um ponto de partida para se poder então se formar pessoas aptas a enfrentar as tantas competições e disputas pela vida afora. As lutas do dia a dia já são tantas que não são necessárias discriminações de base, como as raciais. Infelizmente, elas são fortes. Daí, portanto, a importância de as instituições (escola por exemplo) não abrirem mão do princípio do respeito e dignidade iguais.

Maria Cristina em fevereiro 21, 2011 11:19 AM


#228

Parabéns e obrigado por nos acrescentar tão importantes palavras e argumentos que nos fortalecem nesta luta de combate ao racismo, que encontra mais racistas e toma novos contornos, se sofisticando. Mas encontram em vc bravas guerreiras que podem dar respostas a altura e nos fortalecer para responder com força, sabedoria e muita competencia. Vamos usar toda a midia alternativa anti racista para soltar a sua, a nossa voz.
AXÉ!!!

Glorya Ramos em fevereiro 21, 2011 4:01 PM


#229

Nós, precisamos disso!

Há anos,os não negros brasileiros falam em nosso nome. E se espantam, se enfurecem mesmo, quando discordamos.
Na segunda mestade do século XIX,Luiz Gama, poeta,político,jornalista e por que não dizer,pioneiro da negritude no país escravocrata, dizia que "todo escravo que mata o seu senhor, está agindo em legítima defesa."Pois é...

Um ditado popular sintetiza a pusilanimidade de uma parcela da intelectualidade brasileira não negra: Pimenta nos olhos dos outros é refresco, no nosso arde.

Valeu Ana.

luiz carlos em fevereiro 21, 2011 4:19 PM


#230

Ana, você lavou a minha alma, pelos preconceitos sofridos por minha avó, uma mulata.

Lucila em fevereiro 21, 2011 5:49 PM


#231

Ana e Idelber,

O texto, acachapante, de tão lógico e rico, já foi por demais comentado e esmiuçado aqui. Eu, normalmente, não comento, embora acompanhe sempre os posts e as discussões.

Mas senti, estimulado pelo comentário da Cynthia #168, que devia contar uma experitência pessoal.

Eu também li o "nosso" (?!) eugenista na infância, lá pelos 1965/1970, e adorei a fantasia e imaginação daquele universo paralelo que era o Sítio do Picapau Amarelo. Passei ao largo da crítica que ora se faz, e vivi com aquelas lembranças todas até 3 anos anos atrás quando, querendo apresentar as aventuras aos meus filhos, então com 6 e 5 anos, comecei a ler, para e com eles, as Caçadas de Pedrinho.

Antes até que eu pudesse perceber o que estava acontecendo, a minha filha reclamou do tratamento dispensado à Tia Nastácia, que não "podia ser tratada daquele jeito", e o meu filho reclamou da morte da onça, que, "coitadinha, tem que ser preservada".

Cobraram explicações, e não consegui convencê-los com a justificativa de que a história se passava em outro tempo, de outros valores. A solução foi uma releitura da estória, numa versão pessoal em que suprimi o racismo e os maus tratos, às pessoas e aos animais, para que sobrasse a aventura na "roça". Desta eles gostaram.

Ano passado, num bate papo com amigos, contei esta história. Na mesa estava um professor do Doutorado em Literatua da UFBA que, achando o episódio interessante e a abordagem espontânea das critanças, diferente, disse que o levaria aos seus alunos, como estudo de caso.

A historinha, muito simples, serve para valorizar e exaltar tudo que a Ana escreveu, de maneira tão eloquente e pungente.

Obrigado, Ana. Agora posso explicar melhor aos meus filhos os "por ques" daquele enredo aviltante. Você foi brilhante, na mesma medida em que o Ziraldo foi (é?) opaco.

Wagner Duarte em fevereiro 21, 2011 7:10 PM


#232

Oi Ana.

Acho que falta incluir nos comentários que o chilique da Globo em relação à tal "censura" tem a ver com o fato de as obras de Monteiro Lobato serem da Editora Globo.

Abraços

Paulo Morais em fevereiro 21, 2011 7:45 PM


#233

Ana Parabéns! Texto fundamentado e brilhante vou divulgá-lo! Um forte abraço!

Naná Sodré em fevereiro 22, 2011 12:57 AM


#234

Quero fazer meu comentário a partir de um caso muito semelhante: "As aventuras de Tintin" de Hergé. Muitos devem conhecer. Ícone na Bélgica, considerado o "Disney europeu" sua obra infanto-juvenil, composta de vários volumes em quadrinhos, foi traduzida para mais de 40 línguas, sendo um grande sucesso mundial. É um grande clássico que tem o seu valor positivo. Todavia, alguns volumes estão impregnados de racismo, antissemitismo, colonialismo e anticomunismo.
Há muitas semelhanças com o caso em questão. Os títulos mais racistas foram criados entre as décadas de 1930 e 1950, no contexto da eugenia nazi-fascista da mesma época do Lobato, mas com o agravante de serem HQ's, muito mais apelativas às crianças e a todos. Foram feitas edições corrigidas, desenhos animados adaptados, mas os originais estão aí, e continuam sendo mundialmente vendidos.
O caso está sendo julgado pela justiça da Bélgica. Para maiores informações:

Tribunal ouve autores de acção contra «Tintim no Congo»
2010-11-23 17:02:39
Bruxelas - Um tribunal belga ouviu esta segunda-feira, os argumentos expostos por um cidadão congolês e uma associação francesa, que sustentam que a banda desenhada «Tintin no Congo» é racista e ofensiva em relação aos africanos.
A acusação pretende proibir a história e não é propriamente um processo contra o autor da banda desenhada. «Não queremos que seja um julgamento contra Hergé (o desenhista belga do personagem), e sim contra uma época na qual o racismo estava ancorado nas mentalidades», declarou o advogado de um dos autores da acção, citado pela agência belga de notícias.
O processo aberto pelo cidadão congolês residente na Bélgica, Bienvenu Mbutu Mondondo, e pelo Conselho Representativo de Associações Negras (CRAN) de França, que querem proibir a venda de «Tintim no Congo», publicado em 1931. Os autores da acção procuram que, pelo menos, exigem que nas novas edições exista uma advertência que explique o contexto da época, quando a actual República Democrática do Congo era uma colónia belga.
(c) PNN Portuguese News Network

Vou então colocar minha opinião pessoal:
O que estamos vivendo hoje é uma revisão histórica. Na era da internet, a censura, o banimento de uma obra, é impossível, pura ilusão.
Assim, o papel da educação fica ainda mais reforçado. Porque as crianças vão lá no site ver tudo, falo isso pela minha experiência como professor. Então, é lógico que não vai se trabalhar Monteiro Lobato numa classe de educação infantil, numa aula de literatura, este tema cabe melhor numa série mais adiantada, de fundamental II ou médio, em uma aula cujo tema transversal seja a própria questão do preconceito, dentro de um planejamento pedagógico, e não como muitos imaginam, de se utilizar a leitura do "Sítio do Picapau Amarelo" tal como se fazia com as crianças das gerações passadas. Quando o Lobato escrevia e as crianças liam, nem existia televisão. Elas brincavam na rua de pião, pipa, bambolê, bolinha de gude, futebol, carrinho de rolimã e soltavam balão. A criança de hoje vive num mundo completamente diferente. Ela tem acesso a absolutamente tudo através da mídia, inclusive a conteúdos muito alarmantes. Hoje é a própria criança que leva os temas para a sala de aula, daí então o trabalho tão fino e delicado do educador, que nas condições mais adversas ainda consegue explicar a um adolescente o que significa "contexto histórico".
A educação deveria começar é pelos pais das crianças, para saberem exatamente o que são os contos infantis que estão lendo para elas antes de dormir, se é que ainda tem o amor de fazer isso, ou deixam elas largadas e esquecidas assistindo televisão.

Antonio Ramos em fevereiro 22, 2011 3:45 AM


#235

Complementando meu comentário anterior, quero dizer que não estou jogando nenhuma "carapuça do saci", mas apenas dizendo que todos nós temos responsabilidade nisso, (pais, professores, autores, editores e mídia), pois o que estamos vivendo é uma revolução, um processo de releitura, revisão e reavaliação de valores do passado, que inclusive fizeram parte de nossa própria educação, uma grande mudança e revolução causada pela internet. Não podemos fechar os olhos para isso tomando opiniões parciais e extremas, porque toda obra de arte tem seu lado positivo e negativo, umas mais e outras menos, tudo vai depender é da leitura crítica e do respeito às diferentes opiniões. Há muitos desenhos do Pato Donald e do Pernalonga da época da Segunda Guerra que foram banidos por serem declaradamente racistas, mas eles estão no Youtube! Então não tem jeito, devemos todos ser professores, a começar de nós mesmos, estando abertos às mudanças que o mundo de hoje exige.

Antonio Ramos em fevereiro 22, 2011 12:40 PM


#236

Oi Ana,

muito obrigada por este texto elucidativo.
Acho difícil acrescentar algo mais ao que já foi dito e re-dito aqui por você.
Idelber, sou fã eterna do seu blog.
Grande abraço,

Ananda em fevereiro 22, 2011 3:55 PM


#237

Apoiada apoiadíssima! Tem muita coisa maravilhosa pra gente ler com as crianças, ninguém mais precisa "ficar reconhecendo o valor literário" etc. etc. etc. Criança não é crítico, o que interessa pra elas é o valor formativo, que passa pelo emocional, está centrado no emocional, sobretudo no início da infância.
Eu não tenho estômago pra ler o Monteiro Lobato, acho ele um seboso, e no mínimo desconfio dessa suposta nostalgia, desse saudosismo de Ruth Rocha e Ziraldo. "Ah, a minha infância..." A infância de vocês foi num mundo que não existe mais, dá licença. Que formou a parte boa a a ruim de vocês. Se tem uma porção de coisas que piorou pra caramba, ao menos deixem nossos filhos aproveitarem as poucas que evoluíram! Racismo é crime, não importa se o criminoso é "afetuoso" ou sincero.
Também agradeço à Ana pela paciência de explicar tão bem (que eu por exemplo não tenho mais), a lucidez e a coragem.

Talitha em fevereiro 22, 2011 6:20 PM


#238

Bravíssimo Ana, já tinha lido uma resenha sobre "Defeito de cor" com grandes elogios ao estilo, vivacidade e comprometimento com as questões afrobrasileiras, mas ler o texto acima confirmou a fama..., parabéns também (e duplamente :-)) ao Idelber.

Falando em Lobato..., por coincidência recebi hoje um email-spam da editora globo dando o seguinte link : http://www.mundodositio.com.br/institucional/teaser.xhtml

Não é à toa que a "defesa" de Lobato tem sido tão forte por parte do poderoso grupo midiático, o "filão ML" apesar de já bem explorado pelo mesmo, ainda pode render uns bons trocados...

Ah ! Idelber, sabes por acaso onde consigo uma cópia da velha lei sobre o a "declaração de defeito de cor" ?

Abração !

Juarez Silva (Manaus) em fevereiro 22, 2011 6:30 PM


#239

Obrigada pela luz que me iluminou através de seu texto. Estou sentindo vergonha por esses racista!

Vania Aires em fevereiro 22, 2011 10:26 PM


#240

Por que não demonstrar o racismo de Monteiro Lobato para leitores adolescentes ? Corta-se a recomendação para a leitura por crianças e se utiliza ele exatamente denunciando o racismo. Evita-se a censura (que é a prática menos eficiente para o caso), e enfrenta-se a questão de frente, sem se acovardar (e se acovardam mesmo os que gritam palavras de ordem aos ventos).

Diogo em fevereiro 22, 2011 10:43 PM


#241

Excelente documento! Admirável!

Yure Romão em fevereiro 22, 2011 11:29 PM


#242

Ana Maria, seu texto é primoroso! Estou divulgando no meu perfil de FB. Parabéns pela coragem! Sou fã do Ziraldo mas assino embaixo suas colocações.

Natalia em fevereiro 23, 2011 10:42 AM


#243

Discordo. Monteiro Lobato beijando a mulata é uma sacação genial em termos de mensagem anti-discriminatória, e Lobato foi um produto do seu tempo. Não que isso desculpe o racismo dele, mas a discriminação infelizmente faz parte do inconsciente humano, e exige um esforço consciente a fim de superar. E não é privilégio dos de pele clara, como comprovam os estudos do Project Implicit, da Harvard. É só fazer os testes online. Entendo a revolta sentida pelo preto (desculpem-me, mas acho a expressão "negro" artificial, hipócrita e paternalista) contra a discriminação, mas esse estigma tem que ser superado por todos nós. Juntos. De mãos dadas. Há pretos tão ou mais racistas que o Lobato. É uma questão de conscientização individual que envereda pelo filosófico e espiritual, e como política, futebol e religião é perda de tempo discutir, paro por aqui.

arnaldo em fevereiro 23, 2011 11:39 AM


#244

O texto é muito bom, muito bem embasado e sou favorável às políticas de inclusão social de negros e pobres. Mas nem por isso concordo com modificações em textos de qualquer autor que seja. Não adianta embelezar Monteiro Lobato com o que ele não é. Que ele seja um racista, eugenista e reconhecido como tal de acordo com o que escrevia. Que seu texto sirva de debate intenso nas escolas. Que se mostre às crianças que ele estava errado. Mas digo não a qualquer tipo de censura. Pois senão ninguém mais poderá escrever o que pensa, e portanto ninguém mais poderá pensar diferente de uma cartilha estabelecida. E esse direito é sagrado. Como Monteiro Lobato tinha direito de pensar como quisesse, desde que não cometesse atos racistas. Uma ideia pode ser defendida, qualquer que seja ela, por mais absurda que seja, por mais ignorante e falaciosa... E portanto pode também ser atacada. Mas que tenhamos direito às ideias e que disso, desse debate, a sociedade extraia o que for positivo. Sempre atraves do debate. E sempre com a verdade dos fatos. Racismo é uma merda e me orgulho de nascer num país mestiço, em que eu tenha sangue de tudo quanto é "raça". Sejamos então mais abertos ao debate, mais verdadeiros ao encarar a realidade, sem que nos utilizemos de ferramentas que maquiem os textos de tempos em que vingavam outro tipo de pensamento, atrasado, incorreto. Para que possamos evoluir precisamos entender o passado com a verdade, factual. Esconder isso não é positivo e gera distorções.
Ana Maria, parabéns pelo texto e por seus pensamentos coerentes. Mas ainda assim discordo de qualquer mudança nos textos de Monteiro Lobato.

Torreal em fevereiro 23, 2011 11:58 AM


#245

Caríssima Sra Ana Maria Gonçalves,

parabéns pelo belíssimo, esclarecedor e contundente artigo.

Fico triste por ter a certeza de que o cartunista - assim como a maioria dos brasileiros - nunca irão reconhecer o seu racismo e - como disse alguém acima - não irá passar do primeiro parágrafo na leitura desse artigo. Fico mais triste ainda de saber que artigos como este não serão publicados em jornais de grande circulação e não terão espaço nas emissoras de TV porque "não interessa" este tipo de informação para a grande população.

E assim nós vamos seguindo, como bem disse o cartunista, com o nosso "racismo afetuoso" - uma contradição em termos - que nos faz "até" abraçar os negros, ter um amigo negro, achar um negro bonito, limpo, etc, etc, etc. Quantos de nós não já ouvimos isto: "Eu não sou racista, tenho até um colega negro!!!!!"

Enquanto esse país não assumir seu racismo em relação aos negros vai continuar difícil a luta pelo combate e erradicação da discriminação e preconceito seja de que esfera for e é por isso que acredito na força das palavras, do gesto tocante de não se calar, mesmo que em alguns ou muitos momentos nos vejamos impotentes perante o grande monstro que é o preconceito.
E é nessas horas que leituras de artigos como o seu nos enchem de orgulho e alegria, nos encorajam a continuar acreditando na possibilidade de um dia isto acabar e nos fazem erguer a cabeça e seguir em frente pelo simples fato de saber que não estamos sozinhos nesta luta que as vezes me cansa, mas nunca me faz desistir primeiro porque sei meu valor, sei da minha dignidade e humanidade, sei do meu papel e da minha importância no mundo e pessoas como você Ana Maria me fazem afirmar isto com mais força e mais altivez.

Parabéns e Muito Obrigado.
Com respeito e grande admiração,

Everton Lima
Recife - PE

Everton Lima em fevereiro 23, 2011 12:01 PM


#246

Chocada!
Que Monteiro Lobato, a quem tantos de nós dedicamos tanto carinho, tivesse esse pano de fundo.
E, mais au=inda, que escritores como Ziraldo justifiquem e perpetuem isso.
Chocada!

Clarisse Goldberg em fevereiro 23, 2011 3:08 PM


#247

Idalba véio de guerra,

Como sabe ando afastado da blogoseira, não tenho lido muito blogs e muito menos comentado neles. Mas esta é uma discussão importante, e que ao mesmo tempo, me deixa meio inquieto.

Deixe-me primeiro avançar minha posição quanto ao problema: sou contra o banimento do livro de Lobato das escolas. E a favor de que sua leitura seja usada para formar consciências críticas. Já vi pelos seus comentários aí em cima que você não concorda com esta opinião. Normal.

Diante disso, porém, eu queria resgatar um trecho de um post seu em uma polêmica anterior, sobre as críticas de Ali Kamel a livros didáticos "de esquerda":

"Na maioria das vezes, quem grita contra lavagem cerebral ou doutrinação está julgando a inteligência alheia com o metro de que é capaz a própria. Em época de Google, falar de lavagem cerebral em 7a, 8a série – qualquer que seja o conteúdo do livro didático – é passar atestado de completa ignorância da realidade da sala de aula do século XXI, seja no Brasil ou em qualquer lado, em escola pública ou particular."

Tomei a providência de procurar saber em que série se utiliza o "Caçadas de Pedrinho" de Lobato. Não achei muitas referências, nem mesmo no portal do MEC; em uma dissertação, uma mestra diz que ele é mais utilizado na quinta série.

Claro, a diferença entre a quinta e a sétima série pode mesmo ser grande do ponto de vista do equipamento cognitivo do aluno. No entanto, não deixa de ser curioso notar que, por coincidência, um programa de TV popular aqui e mundo afora chama-se, justamente, "Você é mais esperto que um aluno de quinta série?". E muita gente mesmo não é...

De qualquer forma eu acho _ julgando pelo que você mesmo disse no post sobre o Ali Kamel _ que o poder de fogo que você utilizou aí nos comentários é desproporcional à essa diferença cognitiva entre uma criança de 11 e outra de 13 anos. Talvez você esteja usando dois pesos e duas medidas, não acha não?

Grande abraço!

Hermenauta em fevereiro 23, 2011 3:22 PM


#248

belíssimo texto e muito informativo também! descobri a misoginia do lobato quando escreveu sobre o trabalho da Tarsila. sempre o achei racista, ao ter acesso ao Sítio do Pica Pau... mas ler o que ele realmente escreveu e seu racismo declarado, me deu muito nojo da canalhice dele.

obrigada Ana, por ter tido estômago para ler tantas coisas terríveis e selecionar o suficiente para nós.

abraços e saudações!

Letícia em fevereiro 23, 2011 3:24 PM


#249

Salve, Hermenauta! Que prazer tê-lo aqui. A objeção é inteligente e pertinente, como sempre são as suas, e merece resposta. Ela vai meio na correria, mas vai.

Acho, sim, que a diferença entre uma criança de 9 anos e uma criança de 11 anos é significativa, mas o grosso da minha resposta à sua objeção não seria isso. Seria outra coisa.

No caso da minha crítica ao Kamel, lembremos, o contexto era uma suposta doutrinação esquerdista nos livros didáticos; ou seja, era algo que está no terreno das ideias, algo exterior aos sujeitos, às crianças ali presentes.

No caso em questão aqui, estamos falando de textos que atingem diretamente a própria subjetividade da criança, textos que falam dela, da cor da pele dela, de quem ela é enquanto ser humano. E falam de uma forma que sanciona inclusive--com a autoridade que costuma ter o texto lido como "grande obra literária"--um bullying potencial, tremendamente traumático para uma criança de nove anos.

Em outras palavras, mesmo que fosse verdade que os livros didáticos brasileiros apresentassem uma versão "comunista" da história nacional ou universal, os alunos de 11 anos têm muito mais elementos para questioná-la do que têm as crianças de 9 anos para se defenderem de uma representação da sua pele, da sua cor, do seu cabelo como algo subhumano. A coisa ali toca nelas, diretamente, e produz efeitos bem poderosos.

Acho que é essa a diferença entre os dois casos.

Abração e obrigado pela visita!

Idelber em fevereiro 23, 2011 3:34 PM


#250

Ótimas colocações, que estes fatos se perpetuem para mostrar SEMPRE que a raça deve ser uma, na construção da educação de todos. Obrigado.

Andre em fevereiro 23, 2011 5:00 PM


#251

As vezes me pego a pensar como algo uma "simples leitura"pode ser danosa e perigosa.Peprodutora e legitimadora do racismo.Por isso enquanto educadora estou sempre a selecionar miniciosamente cada texto que vou apresentar para as minhas crianças, isso porém só acontece porque busco referências em profissionais como você Ana.Parabéns!!!!!!

silvana em fevereiro 23, 2011 7:51 PM


#252

Ana Maria,

Muitos de nós, certamente, já sabíamos da "fama" de Lobato, sobretudo quem é ligado a área de Letras como eu. Contudo, desconhecia o teor de suas declarações e de suas intenções( e quem sabe, práticas) tão explícitas a cerca do racismo.
Os trechos destacados por você neste texto, ilustram de forma brilhante a sua crítica ao Ziraldo, que a mereceu, como muitos a merecem. Como você bem coloca, o fez de "bode expiatório".
Sem dúvida, não existem inocentes. Todos sabemos o quanto praticamos, ainda que apenas por uma repetição do que ouvimos e vimos a nossa vida inteira, o racismo. Nunca houve e hoje há menos ainda, espaço para esse tipo de comportamento, melhor, esse tipo de sentimento. Parabéns pelo texto. Eu não lia um tão bom e tão direto, há muito tempo. Muito obrigada.

Iara Caldwell em fevereiro 23, 2011 9:54 PM


#253

Prezada Ana,
Gostaria de Parabeniza-la pelo excelente texto e suas reflexoes.
Sinceramente,

Augusto Barcelos em fevereiro 24, 2011 2:39 AM


#254

Poesia : Devolva a perna do saci
Autor : Giovane Sobrevivente

Devolva a perna do Saci lobato
Devolva a perna do Saci lobato
Devolva a perna do Saci lobato
Era uma tarde de sábado
Onde todos jogavam uma pelada
Na defesa
Giovane limeira e maka
No meio de campo Jocelha Lander e Lindinalva
No ataque Hamilton o saci e a tia Anastácia
Der repente aconteceu a desgraça
A cidade toda fechada
Era monteiro lobato de moto cerra machado e faca
Tia Anastácia foi seqüestrada ficou revoltada e foi libertada
O saci teve a perna serrada
Derrepente apareceu Jorge conceição com toda boiada salvado toda negrada dizendo devolva a perna do saci lobato .


Giovane sobrevivente
poeta
ator
Militante do MNU-BA
TEL 71-8808-4234

Giovane Sobrevivente em fevereiro 24, 2011 11:45 AM


#255

Poesia : A revolta de Tia Anastácia
Autor : Giovane Sobrevivente
Movimento Negro Unificado – MNU
TEL – 71-8808-4234

Tia Anastácia estar revoltada
Tia Anastácia estar revoltada
Tia Anastácia estar revoltada
Hoje eu estive com tia Anastácia
Ela me desse que estar muito revoltada
Porque o Sitio do Pica-pau Amarelo estar tirando ele como otária
Ela faz os bolinhos e Dona Benta recebe a medalha
Farinha de trigo tem que ser Tia Anastácia

Giovane Sobrevivente em fevereiro 24, 2011 11:48 AM


#256

PARABÉNS PELO TEXTO. FICO MUITO FELIZ DE TER ALGUEM QUE POSSA EXPRESSAR TAO BEM O QUE É SOFRER POR SER NEGRO.OBRIGADA!MARAVILHOSO!

veronica em fevereiro 24, 2011 12:14 PM


#257

Ana seu texto é lindo, competente e um case de argumentação engajada, encarnada...Parabéns!
Edméa Santos
Professora do PROPED-UERJ

Méa em fevereiro 24, 2011 1:11 PM


#258

Oi Ana!
Nunca algo me havia sido tão impactante quanto o seu texto. É de uma profundidade e de uma dimensão imprescindível para quem quer compreender, e principalmente saber se defender desse cancer que é a "Democracia Racial Brasileira".
HAROLDO OLIVEIRA.
Produtor Musical, compositor, poeta e músico.

Haroldo Oliveira em fevereiro 24, 2011 2:32 PM


#259

MARAVILHOSO. DISSE TUDO!!!!!!

Tania Muller em fevereiro 24, 2011 2:42 PM


#260

Grande,

Bem, eu acho que estamos falando de duas coisas diferentes.

Ao fazer uma diferenciação entre o efeito do texto racista sobre a criança negra, e o efeito do texto "esquerdista" sobre a criança em idade escolar, você está chamando a atenção para a gravidade relativa do problema _ DADA a existência do efeito.

O que eu quis dizer foi que o seu próprio texto anterior nos levaria a crer que o efeito em si simplesmente não existe.

Pessoalmente, acho que sua posição anterior está mais próxima da verdade, no geral. E que um uso mais crítico dos textos por parte dos professores resolveria o resto desse problema em particular (porque, por exemplo, nem todo mundo tem ampla disponibilidade de informação em casa, um problema mais pronunciado entre os mais pobres _ que entre nós infelizmente são de fato os negros).

Além disso, fiquei olhando a lista dos livros do MEC e pensando quantos daqueles livros e autores escapariam de um olhar mais arguto. Mesmo em uma obra célebre de ninguém menos que Machado de Assis, ele mesmo negro, consta a seguinte passagem, tratando da repartição da herança do pai do personagem principal, Brás Cubas:

"Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até à janela que dava para a chácara, — e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas Cotrim adiantou-se e disse a mesma coisa.

— Isso nunca! não faço esmolas! disse ele."

Outra passagem do livro:

"Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

— Meu senhor! gemia o outro.

— Cala a boca, besta! replicava o vergalho."

Ambas são cenas que você há de convir, são indigestas para nosso paladar atual.

Enfim, e para não prolongar muito a discussão: eu não fico confortável com propostas cuja consequencia acaba sendo, inadvertidamente ou não, camuflar e esconder as cicatrizes do nosso passado coletivo, as coisas feias e as coisas belas que entretanto estão inextricavelmente entretecidas no grande tapete de nossa cultura. Posso parecer antiquadamente idealista, mas ainda acho que o Sol é o melhor detergente.

Grande abraço para você e para a Ana!

Hermenauta em fevereiro 24, 2011 4:39 PM


#261

DEMOCRACIA E CENSURA São as duas palavras mais usadas convenientemente pela elite branca e reacionária.

Segundo essa elite, eleiçõe diretas por exemplo é o que vai garantir a democracia nas ditaduras não alinhadas com os EUA e Europa, porém essas mesmas eleições não são suficiente para o reconhecimento da Venezuela como um pais democrático.

O caso do Lobato é tão sério que merecia mesmo ser censurado, pois a obra dele é criminosa, racismo é crime, está na lei, permitir que Monteiro Lobato permaneça em sala de aula é no mínimo cumplicidade com o crime.

Mas podemos também não censurá-lo e considerá-lo como inadequado para crianças, como qualquer programa ou filme violento ou pornográfico.

Que tal contextualizar Nelson Rodrigue para as criancinhas do primeiro grau.

Estou sugerindo ao Ziraldo que contextualise Os 7 Gatinhos para sua próppria neta.

luiz carlos gá em fevereiro 24, 2011 6:04 PM


#262

Parabéns a autora e ao blog.
Parabéns a todos os comentadores (caramba, quanto tempo investi pra ler os 261 comentários anteriores, mas a qualidade do debate me fisgou); aprendi muito sobre o tema do preconceito, eugenia, racismo e sobre leitura, interpretação, irritação, paciência, decepção, cuidado, ampliação de referências...


Apesar de parecer uma questão centrada no preconceito, me parece que Ana Gonçalves está nos impulsionando a mergulhar fundo em nossa fé/prática democrática. Me parece que na questão racial a proposta apresentada é irretocável: desvela e fundamenta a visão estratégicamente preconceituosa de Lobato e traz uma proposta concreta:

“Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas...”
Não há qualquer referência à proibição de livro, caça às bruxas, censura ou coisa parecida. O que incomoda é que o modo como isso é colocado não nos permite fingir que isso, também, nos diz respeito. Mexe com todos nós. Não é uma questão que envolve só os negros. Tem a ver com a inclusão de novos contingentes participativos, tem a ver com partilha de poder. Tem a ver com projeto de nação, incluindo pequenos e grandes atos do cotidiano.

O conteúdo do texto (e quase a totalidade dos comentários) é luz que transforma as trevas da nossa ignorância. A questão do “racismo cordial brasileiro” consegue agregar tanta crueldade que consegue ser, ao mesmo tempo, perversa, dolorosa e silenciosa - tanto para quem sofre diretamente quanto para quem se esforça (muito) para ignorá-la – ou para adiá-la.

Tenho 52 anos e só aos 36 fui descobrir que era negro. Até então, desfrutava da ignorância de me considerar moreno e, até, ser solidário pela luta dos negros (lá, eles). Os primeiros anos não foram fáceis; mas quando compreendi que não foi apenas uma fraqueza/ocultação pessoal e familiar, e sim uma estratégia de sobrevivência (muito comum, por sinal) de uma família pobre que queria que seu filho fosse alguém na vida – como os pretos eram humilhados e tinham menos oportunidade, então minha família não se identificaria com aquilo. Atravessar esse véu do “racismo cordial” sem ser seduzido por usar da mesma violência que ele vem se utilizando há séculos um desafio a mais.

Para a maioria dos acomodados (sejam opressores, vítimas, indiferentes, de direita, de esquerda...) seria mais conveniente a manutenção da “suposta invisibilidade” do negro (e por extensão das demais miniorias políticas). Entretanto, a crescente democracia brasileira já não permite deixar tanta coisa embaixo do tapete e a aurora já começa a se apresentar.

Grato Ana Gonçalves e Idelber por contribuírem com mais um raio de sol para o fim dessa noite escura. Vocês estão ajudando a dar uma grande sacudidela que derruba máscaras, dessacraliza mitos e escancara a urgência do autoconhecimento pessoal e social.
Mantenham-se firmes no modo fundamentado, consistente e ao mesmo tempo suave e acolhedor da diversidade. Foi estimulante conhecer o blog.

Washington Carlos Oliveira em fevereiro 24, 2011 6:39 PM


#263

Ana, Idelber,

1. Vi o gorjeio sobre a matéria no Globo, fui ver. Segundo eles, a carta aberta foi postada "num blog", assim sem nome nem link! Seja como for, parece que nem desenhando, fazendo mímica, tem gente que nem sequer finge que não tá nem aí e só acha um saco esse pessoal com mania de copiar o PC dos gringos, além de quererem cotas ainda vão atrapalhar o carnaval deles.
2. Até o Hermê apareceu! Ana tem poder!

Marcia W. em fevereiro 24, 2011 7:02 PM


Chico Mendes em fevereiro 24, 2011 7:15 PM


#265

Realmente uma vergonha Ziraldo!!!

Ana Paula em fevereiro 25, 2011 1:15 AM


#266

Só mais uma coisa, que me ocorreu hoje cedo, e eu paro de encher o saco. :)

O Pedro Malan tinha uma frase interessante: de que no Brasil até o passado é incerto. Bom, talvez essa frase não seja tão inovadora assim para um historiador. A despeito disso, com a pobre da literatura ocorre algo completamente diverso: ela está fixada no papel, não tem como escapar, o que foi dito, está dito para sempre (ou até que se queimem os livros e os "tablets"...).

O problema é que o Zeitgeist muda. O que aliás é até bom. Mas só que de repente, se perdermos as rédeas dele, corremos o risco de acabar vendo uma parte apreciável do nosso patrimônio transformar-se em material censurável, algo vergonhoso e digno de opróbio. Não sei porque mas essa possibilidade me lembra um pouco a distopia de "1984".

Por outro lado, para ser totalmente honesto, não podemos deixar de pensar nas fábulas infantis medievais, que eram MUITO mais sinistras do que as versões "adocicadas" que temos hoje (sendo a Chapeuzinho Vermelho um caso clássico). Vai ver, quem sabe, estamos passando por um processo parecido.

abração!

Hermenauta em fevereiro 25, 2011 9:46 AM


#267

Que texto lindo!

Obrigada, Ana.

Janaina em fevereiro 25, 2011 11:52 AM


#268

Sei que existe muitos escritores maravilhosos, mas fazia tempo que não lia um texto tão exuberante.

Francisco,

Parabéns professora Ana Maria Gonçalves

Francisco Barbosa de Souza em fevereiro 27, 2011 1:46 AM


#269

Defender um réu confesso? Lobato era racista, isto é fato, não adianta espernear.

"sem dúvida, um homem de seu tempo..."
Ser racista foi uma decisão dele, poderia ter escolhido o outro lado (como muitos fizeram).

Muito infantil da parte dos defensores do Lobato tentar passar uma imagem de "bobinho" dele.

"Fi-lo porque qui-lo" Diria ele se estivese vivo.

Seguindo a lógica do "bons artista podem tudo", vamos fazer um bloco para o terceiro reich.

E Ziraldo desenhar lobato com uma negra foi pura canalhice, Canalha.

É a escola ensinando que o branco é superior. Isso eles adoram.

Que é mestre em censura E MANIPULAÇÃO é a globo:

*DITADURA MILITAR
*MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE
*LIVROS DE História DO MARIO SCHMIDT

"NÃO SOMOS RACISTA"

"Comerciante que matou estudante por causa de racismo vai a juri popular"

http://www.acritica.net/index.php?conteudo=Noticias&id=33457

Ali Kamel, os bons tempos(pra vcs) do Homer Simpson, ACABOU!
Agora é Lisa, é Bart.

Nós estamos vendo as sacanagens.
Vocês vão pagar!

Ralph em fevereiro 28, 2011 2:02 AM


#270

Sou mulher, negra, 58 anos. Com persistencia,passei no enem e no vestibular e desde o ano passado estou cursando Lic. Ciencias Sociais na UFRJ.
No período passado cursei a materia; Pensamento Social Brasileiro. Li vários pensadores brasileiros:Paulo e Caio Prado, Oliveira Viana,S. Buarque de Holanda,Silvio Romero,Gilberto Freire, Florestan Fernandes(ñ deu tempo). Fiquei chocada com a crueldade dos termos usados para descrever o povo brasileiro. Emocionada, sem conseguir conter as lágrimas, critiquei alguns autores.A professora falou desta tal contextualização...Curiosa quiz ler como os escritores franceses, estes são referencias academicas universal, se referiam ao seu povo.Iniciei por dois romances; Os Miseráveis e o Conde de Monte Cristo. Que diferença!!!
Comecei a ler o romance Um Defeito de Cor...pura SERENDIPIDADE, Ana Maria Gonçalves. Muito prazer em te conhecer. Parabens

Maria de Fatima em março 1, 2011 12:32 PM


#271

Quer dizer que, agora, o escritor não tem mais valor algum, que não trabalhou pelo desenvolvimento econômico-social e intelectual do povo brasileiro, nas campanhas em prol da saúde pública, da nacionalização do petróleo, da autonomia de nosso pensamento, através de sua escrita libertadora e de seu enorme esforço para divulgar livros, num país que importava ideias de fora. É preciso que nos recordemos da lições da História: na década de 1910, nossa gente via o Brasil com lentes embaçadas que deformavam a realidade brasileira.

Para que possamos emitir um julgamento criterioso sobre Monteiro Lobato, é necessário fazer uma leitura atenta de sua obra completa (infantil e adulta) a fim de constatar a evolução de seu pensamento. Ele participou do movimento eugenista, sim, mas o abandonou logo que surgiu o livro de Gilberto Freire "Casa Grande & Senzala".

Ele próprio nos conta isso no prefácio que fez para a biografia de Gilberto Freire, escrita por Diogo de Melo Menezes. Vejam só e me digam o que acham dos condicionamentos a que fomos sujeitos e ainda somos expostos hoje.

"Em todos esses capítulos da futura 'História do Brasil' outra coisa não fez Gilberto senão revelar-nos a nós mesmos, contar o que somos, e porque somos assim e não de outro modo. Toma-nos a mão, como Virgílio tomou a de Dante, e vai nos ensinando a ver claro as coisas do Brasil. E nós abrimos a boca, porque, apesar de 'sermos Brasil', várias crostas, sobretudo a do narcisismo, nos têm impedido de ver-nos sem esta ou aquela tendenciosa deformação da realidade.
Gilberto Freyre tem o destino das Grandes Esclarecedores. Antes de sua amável e pitoresta lição, vivíamos num caos impressionista, atrapalhadíssimos com os nossos ingredientes raciais, uns a negá-los, como os que têm como 'patriótico' esconder o negro, clarear o mulato e atribuir virtudes romanas aos índios, outros a condenar isto em nome daquilo - tudo impressionismo dum ingenuidade absoluta e muito revelador da mais completa ausência de cultura científica na nossa gente culta e até em nossos sábios." ("Prefácios e entrevistas",p.84-85)

Enfim, considero a iniciativa do debate muito oportuna num país que está dando seus primeiros passos no sentido de desenvolver uma democracia plena. E nós podemos auxiliar nesse processo de democratização, exercitando nossa própria voz. Afinal,era isso mesmo o que o escritor almejava.

E, se a obra de Monteiro Lobato nos têm estimulado à discussão, parabéns a ela!...

angelina castro em março 1, 2011 8:24 PM


#272

eu sou o melhor no dd tank e vc

elias em março 2, 2011 11:10 AM


#273

A lucidez do texto é exemplar. Alguém precisava desmascarar o lado sórdido de Lobato e o fanfarrão do Ziraldo. Perfeito e sem ódio.

Aldo Guerra em março 2, 2011 12:00 PM


#274

Estão vendendo a ideia de que Lobato era uma espécie de Hitler brasileiro. Pior: com frases cortadas, descontextualizadas, sem referência de página que permita ir atrás do contexto original. É possível provar qualquer coisa pegando frases descontextualizadas. Veja, por exemplo, o site Porra, Maurício. No livro A reforma da Natureza, Tia Nastácia é chamada à Europa para dar conselhos aos líderes mundiais. Um escritor racista escreveria isso?

Gian Danton em março 2, 2011 6:31 PM


#275

"Frases descontextualizadas"? Neste post? Quais?

Idelber em março 2, 2011 6:36 PM


#276

Idelber,
várias frases citadas começamm pela metade. E não há uma referência que me permita ir atrás do texto original. A carta citado a Kun Klus Klan, por exemplo: procurei no livro cartas escolhidas e ela não aparece. Se a carta foi publicada, é básico citar a fonte. Se a carta não foi publicada, a autora deveria citar como conseguiu essa carta inédita (foi com os parentes do Lobato?). É princípio científico básico. E, se a carta não foi publicada, isso não indica que Lobato teria se arrependido do que escreveu, assim como se arrependeu de sua opinião original sobre o Jeca? E como isso se relaciona com a forma como a Tia Nastácia é mostrada na obra infantil, sendo convidada a dar conselhos para líderes mundiais? E fico espantado ao ver gente dizendo que Lobato usava uma motoserra (#254)! Lobato foi o primeiro escritor brasileiro que falou da importância de preservar a natureza. Em tempo: Lobato, ao contrário do que é dito em vários comentários, não diz que Tia Nastácia era fedorenta. Ele diz que o urubu era fedorento... vocês é que estão fazendo essa associação. Enfim: é mais fácil demonizar Lobato, dizer que ele usava motoserra, que escreveu sua obra para difundir o racismo nazista do que discutir a sério o preconceito. Ah, sim: eu concordo que o livro As caçadas de Pedrinho deveria vir com uma nota, assim como vários outros livros da época.

Gian Danton em março 2, 2011 7:07 PM


#277

Quanto à carta citando a Ku Klux Klan, era só ter lido a caixa de comentários:

Roberto, #132, a carta é citada na página 125 da tese "Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou: raça, eugenia e nação" defendida Paula Arantes Botelho Briglia Habib do departamento de História da UNICAMP. Está citada da seguinte maneira: "Carta de Monteiro Lobato a Arthur Neiva. N.Y. 10/04/1928. Arquivo Arthur Neiva. Código 39"

A tese pode ser baixada daqui: http://cutter.unicamp.br/document/?code=vtls000290012


A carta efetivamente consta do Arquivo Arthur Neiva.

Idelber em março 2, 2011 7:17 PM


#278

Idelber, obrigado pela referência, mas é bom lembrar que a obrigação da autora era colocá-la NO TEXTO. Por favor, pode me indicar as referências das outras citações? Pode, por exemplo, indicar a fonte da carta ao Renato Kehl?
Em tempo: o fato dessas cartas não terem sido publicadas não indicam que Lobato mudou de opinião sobre o conteúdo delas?
E, por favor, alguém pode me explicar como Lobato, sendo tão racista, coloca os líderes mundiais para pedirem conselhos a ela? A sequência está logo no primeiro capítulo do livro A reforma da natureza...

Gian Danton em março 2, 2011 7:41 PM


#279

Pode, por exemplo, indicar a fonte da carta ao Renato Kehl?

Sabe aquela coloração verde que aparece antes da referência ao Kehl? Se você passar o mouse sobre ela--voila!--a palavra se transforma num link. Você clica nela. Eis a fonte.

Idelber em março 2, 2011 7:46 PM


#280

Em tempo: eu não sou contra a introdução de uma nota no livro As caçadas de Pedrinho. Pelo contrário, acho que pode ser colocada, assim como em outros livros, de Lobato ou não. Como já foi demonstrado, até Machado de Assis era racista. Essas notas podem explicar o contexto social em que a obra foi escrita. Só o que não concordo é com esse processo de demonização de Lobato e sua obra. Estão pintando-o como um Hitler brasileiro, capaz de usar moto-serra para cortar a perna de um negro!

Gian Danton em março 2, 2011 7:47 PM


#281

Outra coisa: ninguém aqui tem "obrigação" de nada. Este é um espaço pessoal, editado. Jornais e revistas citam todo santo dia sem oferecer bibliografia nem número de página. Este espaço oferece, como prova da correção de suas citações, uma abundância de links e a história de sua credibilidade. Se acha que alguma citação não está correta, corra atrás e prove. Mas imagino que pedir que alguém que sequer leu a caixa de comentários vá a um arquivo, ou consulte uma tese, é querer demais, já sei.

Idelber em março 2, 2011 7:58 PM


#282

Ana, não te conheço mas vc já é a minha escritora.
Atitude admirável.
Parabéns! Gleyde.

Gleyde em março 2, 2011 8:46 PM


#283

Meu problema é outro, como sempre quando se fala em mexer, "consertar", reescrever, transformar obras de outrem. E se resume no seguinte, que pode parecer óbvio - e no entanto -: quem decide o que é certo?

Renata Lins em março 2, 2011 9:59 PM


#284

Não querendo ser redundante, mas já o sendo, alguém queira fazer o favor de OUVIR a parte o comentário do Gian:

"E, por favor, alguém pode me explicar como Lobato, sendo tão racista, coloca os líderes mundiais para pedirem conselhos a ela ( Tia Nastácia)?"

Seria muito bom ler o que a Ana tem a sofismar sobre isso!

Marcelo em março 2, 2011 10:02 PM


#285

Idelber, pelo jeito, foi você que não leu a dissertação de Paula Habbib: Logo na introdução (p.16), ela diz que o objetivo da obra é enxergar Lobato em seu tempo histórico, como um sujeito que viveu intensamente seus equívocos e contradições. Ou seja: ele é fruto de uma época racista, em que uma mulher negra como Nastácia não poderia ser retratada como uma bem-sucedida executiva internacional. Vale lembrar que nas novelas brasileiras há até bem pouco tempo, todas as negras eram retratadas como empregadas domésticas. Aliás, a própria autora, embora defenda que Lobato era adepto da eugenia, admite que não existe consenso sobre que tipo de eugenia seria. Há, na própria dissertação, exemplos e mais exemplos de que Lobato seria adepto da corrente eugenista que previa a melhoria da população através de medidas higiênicas (ex: p. 57,p. 100). Claro que a autora toma partido da versão de que a eugenia de Lobato era racista, mas há várias contradições nesse argumento. Na página 90, por exemplo, ela argumenta que a revolta de Lobato contra o tratamento dado aos negros durante a escravidão é prova de racismo. Na página 103, ela mesma diz que o romance O choque das raças não previa a esterilização dos negros. Aliás, pode-se perguntar se Lobato, ao prever que os negros correriam para alisar os cabelos não estaria prevendo um auto-preconceito (p.103). Na página 120, ela dá uma opinião, apenas opinião, de que o editor americano de O choque das raças preferiria que o romance se resolvesse com o assassinato de negros. É puro achismo, especulação da autora. Não é mostrado nada que prove isso. E, mesmo que fosse, isso expressaria o desejo do editor norte-americano, e não de Lobato, o que, sem dúvida alguma, não autoriza a pensar, como tem-se feito aqui, que Lobato gostaria de usar uma motoserra para cortar pernas de negros. A carta em que Lobato fala da KKK é contextualizada na dissertação da Paula, e escondida aqui: Lobato, em plena campanha pelo petróleo e aço nacinais, começa a receber ataques de jornais cariocas, que publicam mentiras sobre ele (é bom lembrar que ele seria até preso por defender a nacionalização do petróleo). A forma como ele escreve é imperdoável, mas é necessário contextualizar a situação em que o texto foi escrito. Voltando à dissertação, há vários momentos questionáveis. Por exemplo, na página 139, ela diz que o fato de D. Benta e Tia Nastácia irem à Europa dar conselhos aos políticos locais é exemplo de que Lobato alinhava com o totalitarismo (?). O fato de Tia Nastácia ser considerada de grande sabedoria no mesmo livro é simplesmente jogado para baixo do tapete, pois não convinha à tese da autora. Na página 141, na análise da conversa de D. Benta com Péricles, o fato da senhora discursar contra a escravidão é mostrado como prova de racismo. Ou seja: o texto-base, de onde a Ana tira suas conclusões, é passível de críticas e tem contradições. Não é uma verdade universal. Aliás, o texto da Paula não autoriza concluir que Lobato era uma espécie de Hitler tupiniquim ou que dar sua obra para que crianças a leiam vá transformá-las em eugenistas-nazistas, versão que parece ser bem aceita aqui.

Gian Danton em março 2, 2011 10:17 PM


#286

Ana Maria, parabéns!

Hoje, depois de ler a sua carta, vou ter uma excelente noite de sono.

Continue a nos premiar com essas reflexões para que possamos, talvez, criar um país SEM RACISMO.

Joselito em março 2, 2011 10:19 PM


#287

Uau, Gian, duas horas atrás você não sabia da existência da carta do Monteiro Lobato ao Kehl! Nem de nenhuma fonte que a citasse! E agora, que eu lhe entreguei a fonte, você pinça citações da tese pra tentar nos provar que "não existe consenso sobre que tipo de eugenia seria"! Eu-ge-nia.

Perfeito. Tá. Busque outro para entreter sua trollagem.

Idelber em março 2, 2011 10:40 PM


#288

Não querendo ser redundante, mas já o sendo

Com certeza, Marcelo, foi tremendamente redundante. Essa pergunta foi respondida 50 vezes na caixa de comentários. É só saber ler.

Idelber em março 2, 2011 10:48 PM


#289

Com o perdão da minha possível ignorância, Idelber, mesmo tendo lido TODA a caixa de comentários, mas não vi aí a resposta. O Gian foi o primeiro que trouxe essa informação e o questionamento.

Marcelo em março 2, 2011 10:51 PM


#290

E você perdoará a minha falta de paciência, Marcelo. São 290 comentários. O que eu tinha a dizer está dito.

Idelber em março 2, 2011 10:53 PM


#291

E não vejo as intervenções do Gian como trollagens. Basta ler o texto dele sobre o assunto, no Digestivo Cultural.

Marcelo em março 2, 2011 11:06 PM


#292

Perfeito, Marcelo, concordemos em discordar então.

Eu me reservo o direito de ver "como ML pode ter sido racista se publicou Lima?", "como ML pode ter sido racista se tinha amigos negros?", "como ML pode ter sido racista se Tia Anastácia é um personagem simpático?", "como ML pode ter sido racista se escreveu 'O Presidente Negro'?" como variações da mesma pergunta, da mesma cantilena denegadora. Você não vê relação entre essas perguntas, já amplamente respondidas aqui, eu respeito.

Mas por favor não espere que depois de duas semanas, às vezes dias a fio respondendo perguntas formuladas sob a mesma lógica, eu ainda tenha a paciência de ficar debatendo com alguém que vem aqui dizer qual é a minha obrigação no meu blog, confessar ignorância sobre fontes, duvidar da honestidade da citação da autora, esperar que lhe entreguemos número de página, e volta uma hora depois com sofismas pinçados da fonte que lhe foi entregue, e da qual ele havia duvidado.

Não me interessa em absoluto convencê-lo.

Idelber em março 2, 2011 11:15 PM


#293

Tá bom, Idelber, eu concordo! É um assunto desgastante, e sei do seu papel de anfitrião no negócio. Tenho visitado os blogs em que esse excelente texto da Ana tem repercussão, o que indica que a coisa extrapolou os limites das duas semanas e do Biscoito, o que é ótimo. Afinal o Gean ficou horas debruçado sobre o assunto para escrever o texto dele, não na mesma proporção que a Ana, que é uma especialista, mas com a mesma honestidade de intenções. Tenho por mim que esse é um aspecto positivo à discussão.

Marcelo em março 2, 2011 11:33 PM


#294

Afinal o Gean ficou horas debruçado sobre o assunto para escrever o texto dele, não na mesma proporção que a Ana, que é uma especialista, mas com a mesma honestidade de intenções.

Você vai me desculpar, Marcelo, mas não me parece que seja a mesma honestidade, não. A Ana é pesquisadora sobre o tema do racismo há muito tempo, já escreveu muito sobre isso, livros até, veja você.

Já o Gean, ao que parece, está só trollando mesmo. "Pelo menos leu a dissertação", poder-se-ia argumentar em seu favor. Mas o fez com o propósito único, e o Idelber já falou isso aqui, de pinçar trechos eventualmente contraditórios e tentar desconstruir o texto da Ana. Repare que o cara nem se preocupou em procurar por conta própria algum texto que eximisse o Zé Bento de ser eugenista, ou racista, e tal. Isso é honesto? Difícil de afirmar categoricamente, não?

Logo, tem um abismo entre a honestidade de um e de outro. Junte-se a isso o tempo, o volume de comentários (aqui e alhures, você mesmo reparou) e a trollagem descarada, se não rolar de entender a preguiça do dono do boteco, fica complicado.

Leonardo Fazito em março 3, 2011 6:18 AM


#295

Mestre Idelber,

se me permite, gostaria de responder ao gian apenas num aspecto. Ele finaliza assim:

"Aliás, o texto da Paula não autoriza concluir que Lobato era uma espécie de Hitler tupiniquim ou que dar sua obra para que crianças a leiam vá transformá-las em eugenistas-nazistas, versão que parece ser bem aceita aqui."


Ora, em nenhum momento a Ana ou qualquer outro comentarista que concordou ou gostou do texto dela concluiu nenhuma dessas duas coisas. As conclusões aqui, querido Gean, são:
(1) Lobato era racista, não adianta tentar esconder, os escritos dele deixam isso bem claro;

(2) Devemos proteger as crianças brasileiras - principalmente as negras, pardas, ou seja quase todas - da tristeza de ler em um livro em que elas e seus ascendentes são chamados de macacos/beiçudos/carvão/etc...ainda mais quando essa linguagem está carregada da autoridade implícita por vir de um escritor tido como o mais importante da literatura infantil brasileira.!!!! Sacou?

A gente não está com medo de que caçadas de pedrinho transforme as crianças em eugenistas/racistas e sim tememos que contribua para destruir a já tão frágil autoestima de um povo que construiu esse país e ainda hoje sofre todo tipo de discriminação.

aiaiai em março 3, 2011 10:30 AM


#296

Mais um detalhe: além de ter a petulância de vir aqui dizer qual é a 'obrigação' da Ana ao escrever o texto, além de ser analfabeto internético a ponto de não saber passar o mouse sobre um palavra linkada para descobrir a fonte, além de ter a arrogância de querer chegar a um debate com 300 comentários e exigir que lhe entreguemos número de página, além de duvidar da citação oferecida pela autora (até que o livro e o número de página lhe fossem esfregados na cara), além de recorrer a essa ridícula Lei de Godwin, o sr. Gian Danton é um mentiroso. Alguém, ontem, me chamou a atenção no Twitter para o fato de esse Sr. disse que foi "proibido de continuar comentando" aqui. Fui lá no Twitter dele, do qual evidentemente eu jamais havia ouvido falar, e constatei que ele disse isso mesmo.

Não foi. Não há nenhum comentário dele retido e nenhum foi censurado.

Pois bem, agora, sim. Só poderá voltar a comentar aqui no momento em que se retratar formalmente pela mentira.

Idelber em março 3, 2011 11:17 AM


#297

Bom, há tempos eu pelejo para seguir aquela máxima do grande Tim que diz "eu quero sossego", por isso, só faço aqui, agora, o que acho ser justiça a um provável engano. Idelber, acho que entendo o porque o Gian disse ter sido censurado. Pareceu-me que ontem, com a retomada dessa caixa de comentários, o post havia DESAPARECIDO. Procurei-o até o pé da página, e nada. Só quando digitei o nome do post no google que a página voltou, e (tá, também sou, eufemizando, um distraído da internet) então vi que, no lado esquerdo do blog, tem a lista de meses para procura de textos na memória do site. Talvez seja isso que passou pela cabeça do Gian.

Leonardo, o fato de ser especialista só avaliza a Ana de uma série de vantagens para promover o discurso. Eu, que tenho diploma de especialista em outra área nada a ver com racismo, me arvoro legitimado a falar sobre pela experiência, conforme disse num comentário lá no começo da página.

Abraços!

Marcelo em março 3, 2011 2:25 PM


#298

Marcelo, eu entendo. Só que quando alguém tem qualquer tipo de problema para postar um comentário, seja porque travou, seja porque foi parar na caixa de spam, qualquer outro motivo, a mais elementar decência manda que você entre em contato com o responsável pelo blog (o meu email está postado aqui) antes de sair pela internet fazendo acusações sem cabimento.

O sr. em questão não fez nenhuma dessas coisas. Deduziu, por um problema que teve para postar, que havia sido "proibido de comentar". Fez essa acusação grave, a um site que tem sete anos de respeito à divergência, sem sequer conferir com o dono do blog se este havia recebido algum comentário seu. Quando há um tema volátil em discussão, é normal que o blog-que é pessoal e artesanal, apesar do volume de visitas que recebe--instale a moderação de comentários, por exemplo, quando o dono do blog vai dormir. Houve sim, comentários retidos aqui--pelos motivos óbvios de qualquer blog, por exemplo, por ataques pessoais à autora do texto. Mas nenhum deles era do Sr. em questão. Que agora terá que corrigir sua mentira se quiser comentar de novo.

Respeito é bom e a gente gosta.

Idelber em março 3, 2011 4:58 PM


#299

Monteiro Lobato era racista e a discussão é pertinente. Se os livros são adotados nas escolas é fundamental que venham acompanhados de notas para contextualizar. Fácil para nós branquelos fazer pouco da dor dos outros.

Fabiana Tambellini em março 3, 2011 6:35 PM


#300

Caro Idelber,

Esse texto da Ana é simplesmente ESPETACULAR!

Gostaria muito de manter contato com essa escritora. Você sabe dizer se ela utiliza com frequencia aquele endereço de e-mail que está no seu antigo blog. Será que tem outros e-mails...

abraços

Humberto Salustriano da Silva em março 3, 2011 10:34 PM


#301

Humberto: sim, aquele endereço no Gmail é atual e por ele você se comunica com ela.

Idelber em março 3, 2011 10:37 PM


#302

a alguns anos não lia um texto como esse , esclarecedor , contextual e reflexivo sobre as mazelas racistas e preconceituosas mascaradas escondidas por de trás de escritores , autores e gênios literários como Ziraldo , que a muito tempo adimirava suas obras e até trabalhava pedagógicamente com crianças e adolescentes em minhas militâncias educacionais que burramente dentro de total e sega ignorancia não percebia o mal que estava cometendo e reproduzindo . masss nunca é tarde para rever os caminhos , obrigado Ana por existir , e como sopro de olorum acordar meus olhos , mente e espírito sobre essas obscuridades perversa de certos dominantes , colonizadores travestido de negro militante libertador . muito axè para o seu ser .
JÔ Venura
arte/educador social .

Jô Ventura em março 4, 2011 11:34 AM


#303

Putesgrila!! Dizer que a higiene que Monteiro Lobato defendia estava relacionada a lavar as mãos e estender os serviços de saneamento básico para a população foi o maior disparate que eu já vi acerca deste debate. Essa foi ótima!!!

Rogério Santos em março 4, 2011 1:31 PM


#304

Lamento encher a paciência dos leitores com mais um comentário sobre isso--será o último--, mas é que tem ficar registrado. Além de não saber passar o mouse num link para descobrir a fonte, além de não saber o significado da palavra "higiene" nos textos eugenistas de começo do século, o Sr. Gian Danton pagou um dos maiores micos que já vi na internet, ao acusar o blog de "censurar" um comentário seu apresentando um printscreen falso e, depois, apagando o post em que fazia a acusação, mas esquecendo-se de que existe o cache do Google.

Idelber em março 4, 2011 3:16 PM


#305

The plot thickens

LEI No 12.388, DE 3 DE MARÇO DE 2011
Confere ao Município de Taubaté, no Estado de São Paulo, o título de Capital Nacional da Literatura Infantil.
A P R E S I D E N T A D A R E P Ú B L I C A
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o O Município de Taubaté, no Estado de São Paulo, fica declarado Capital Nacional da Literatura Infantil.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 3 de março de 2011; 190o da independência e 123o da República.
DILMA ROUSSEFF
Anna Maria Buarque de Hollanda

Hermenauta em março 4, 2011 3:22 PM


#306

É mais do que conhecida essa faceta eugenista de Monteiro Lobato. Um pequeno estudo sobre o assunto encontra-se aqui: http://www.almanaqueurupes.com/estudos/lobato/eugenia/

Há que se ponderar, no entanto, vários aspectos, entre eles o contexto histórico. Mas esse não é o assunto aqui.

Independente do contexto em que foi produzida a obra, criminalizá-la ou marginalizá-la também não é a melhor saída.
O que acho incontestável na carta ao Ziraldo é a nojenta insistência na manutenção da discurso racista.
Há tanto racismo na fala de Lobato quanto em Ziraldo. A diferença entre um e outro é que lá atrás não tinhamos outro pensador para contestá-lo.

Isso dá pano pra manga.

Parabéns, Ana, pelo belíssimo texto. É, sem dúvida, incontestável.
Azar o nosso, que cultuamos os Ziraldos por aí sem muitas vezes perceber quando é racista.

Abraços.

Angelo em março 4, 2011 6:01 PM


#307

Para quem não entende o quão pernicioso, degradante, dolorido e cruel é o racismo, aconselho ver o documentário "olhos azuis" http://bit.ly/P3Vdp Nele a socióloga Jane Elliott, usando como critério de classificação a cor dos olhos dos participantes, faz brancos americanos sentirem na pele todo o preconceito vivido cotidianamente por negros, mulheres, homossexuais.
Gostei muito do texto da Ana Maria, porque ele expõe claramente fatos graves que costumam ser minimizados. É preciso começar a usar lupas, para que todos vejam aquilo que só quem é vítima constante de racismo sofre.

Artionka Capiberibe em março 4, 2011 7:31 PM


#308

Prof. Artionka, que prazer e honra tê-la aqui.

Recomendo aos leitores do blog, com muita ênfase, o documentário "Olhos Azuis", que é realmente notável.

Idelber em março 4, 2011 7:36 PM


#309

Olá Ana!

Confesso que apesar de ter lido superficialmente sobre o debate, até ler sua pesquisa e argumentos, não achava que Lobato tivesse entranhado tal postura. Pensei que se tratava de mais um dos muitos sensasionalismos inconsistentes em busca de vitrine...
Seu texto foi decisivo para apreender o todo da questão. Agradeço e a parabenizo!
E estou perplexa com o fato do post ter mexido tanto com as pessoas.
Comento que como professora já vivenciei inúmeras situações de discriminação via desmerecimento dos alunos afrodescendentes, e por parte de vários sujeitos,não apenas dos colegas.
Não aprovando discursos de supremacia, sempre procurei instigar a desconstrução de tais ideias que só contribuem para que o preconceito persista.
Não sei qual a melhor forma de lidar com isso. A minha é contar a história e demonstrar que o homem branco cometeu uma grande violência para com os negros africanos... Que foi um fato do qual me envergonho e busco mostrar o valor indistinto das pessoas e indagar sobre situações concretas que constituem discriminação, seja do tipo que for.
Observando o entorno, penso que existem muitas falhas nas práticas docentes por preferirem ignorar os preconceitos.
Vou voltar aqui e ler mais detidamente os comentários e procurar perceber as visões aqui expressas, o que hoje não é possível.
Logo, se estiver sendo repetitiva desde já me desculpo. Entretanto, concordo com os que acham que o material não deva ser retirado, mas sim refletido criticamente, para muito além da 'contextualização'.
Os preconceitos estão aí e penso que quem não sofreu nenhum tipo de preconceito não tem ideia do que seja estar sendo vítima de um.
Incomoda-me a naturalização destas questões porque assim perpetuamos os preconceitos e as discriminações.
Defendo que este movimento ao qual pertence se junte a educadores compromissados com a formação do ser mais humano no Mundo e que construam um material didático para ser utilizado nas escolas e cursos de formação de educadores. Entretanto, penso que a causa não deve ser trabalhada individualmente pois temos preconceitos de todo tipo no País. Tenho comigo que a maioria das pessoas não faz por maldade, mas por falta de criticidade. Mas continua sendo nocivo e reprovável e precisamos trabalhar isso sim. Ainda: Sugiro que disponibilize um URL para que possamos republicar seu artigo. []s

PS Se puder sugerir, penso que não devem ser 'moderados' os comentários. É bom conhecermos a visão das pessoas para podermos dialogar.

Paula Ugalde em março 5, 2011 10:14 PM


#310

Todos são iguais perante a Lei e perante Deus! E pronto! Se MOnteiro LObato estivesse vivendo nos dias de hoje tenho certeza de que sua opinião seria outra. Ele expressava vivencias, sentimentos e pensamentos de uma certa época. Temos que acabar com esta msneira de colocar negros e brancos, uns contra os outros. Tô farta disto!

Mirian Chaves carneiro em março 8, 2011 8:53 AM


#311

Estou chocado. Nunca imaginei que Monteiro Lobato, o homem que me fez gostar de ler, tivesse instilado tanto veneno homicida cartas afora. Se é racismo, não é cordial: é instigação ao genocídio, sempre. Estou chocado.

José Marcos Thalenberg em março 8, 2011 5:29 PM


#312

Como aprendi com essa carta aberta a Ziraldo de Ana Maria Gonçalves e refleti sobre como as pessoas podem se "impor" às mentes mais desavisadas (como eu) sobre um problema que existe e faz sofrer tantos irmãos. E como fiquei revoltada ao tomar conhecimento das opiniões de Lobato (nunca li seus livros mas sei do endeusamento de algumas de suas ideias)e de Ziraldo (que conheço pouco, literalmente)mas fico perplexa com sua camuflação na formação de nossas crianças.
Valeu, Ana Maria; nunca é tarde para aprender e refletir.

Carmen Lima em março 10, 2011 9:24 AM


#313

O Deputado Estadual, do RJ, Átila nunes(PSL) nos chamou de "Bobalhões".

"Eu não sei exatamente quem foi dentro do governo que deu esssa idéia mas ele tem tempo ainda de se arrrepender: ele pode até parar de babar na gravata, ele pode trocar a dieta dieta dele de capim (tão restrita)... que deve ser evidentemente o que ele deve comer..."

http://www.youtube.com/watch?v=Eawz-lwnwWw

Ralph em março 10, 2011 7:30 PM


#314

Parabéns e obrigado, Ana.

Leandro Scapellato em março 10, 2011 11:31 PM


#315

Que maravilha seria viver no tempo de Lobato!

MB em março 11, 2011 6:19 AM


#316

Bom dia!
Li essa opinião aqui e concordo:
"Todos são iguais perante a Lei e perante Deus! E pronto! Se MOnteiro LObato estivesse vivendo nos dias de hoje tenho certeza de que sua opinião seria outra. Ele expressava vivencias, sentimentos e pensamentos de uma certa época. Temos que acabar com esta msneira de colocar negros e brancos, uns contra os outros. Tô farta disto!
Mirian Chaves carneiro em março 8, 2011 8:53 AM"

Embora um pouco ingênua, acho que Mirian tocou em pontos muito importantes, a meu ver.
O racismo existe no Brasil sim, temos que combatê-lo - não só o de cor!!! -, mas pegar trechos soltos do que um cara escreveu para amigos ou mesmo em jornais, numa época muito diferente da nossa, é tanta canalhice como alguns disseram aqui serem as opiniões de Ziraldo hoje.
Parabenizo a Ana pelo texto, mas não concordo com tudo o que ela coloca, embora concorde que há racismo no Brasil sim.
A obra infantil de Monteiro Lobato é maravilhosa, é patrimônio cultural nosso sim e os possíveis erros e contradições de Monteiro Lobato, como pessoa e escritor, precisam ser contextualizados e muito bem conhecidos antes de serem criticados. E, na verdade, estão indo muito além das críticas! Muitos estão execrando o Lobato e seriam os primeiros a queimá-lo numa fogueira se pudessem!
Não se pode combater preconceito com mais preconceito!!!! Isso é muito sério! Atenção!!!
Além disso, a arte e a livre expressão de idéias não devem ser censuradas, na minha opinião, de jeito nenhum! Temos é que garantir o espaço para que todas as idéias apareçam, em sua diversidade, e não apenas algumas!
Abraços a todos,
Regina.

Regina Milone em março 12, 2011 1:16 PM


#317

Cara Ana,

Acabo de ler seu texto e fiquei muito satisfeito com o modo como você expõe essa péssima condição moral e política de Monteiro Lobato, exemplificando-a com trechos de cartas, depoimentos, entre outras coisas. EM uma passagem, você menciona que é possível ver o racismo de lobato através de sua obra. E ai está a questão que coloco para você (sem tom de desafio e sim de esclarecimento). É possível se fazer uma análise da obra literária (no caso, O Sítio do Pica-Pau Amarelo) e se provar, apenas através da obra, os elementos que indicam racismo? Pensando-se que a arte possui uma certa autonomia em relação a realidade social, a obra, em si, pode ser considerada racista? Você faz alguma análise deste tipo ou conhece alguma publicação que o faça?

Te pergunto isto porque entendo que uma questão é o racismo do autor (que está mais que confirmado, no caso do Lobato) e outra é o racismo da obra (o qual não me é evidente, talvez mesmo por incompetência minha). Lembro-me de ser exposto, por diversas vezes, a comentários sobre o racismo de alguns filósofos iluministas e idealistas, como, por exemplo Kant. Mas não reconheço este racismo quando leio algumas de suas críticas as faculdades da razão ou do juízo. Como você pensa este problema?

Obrigado!

João Paulo Nascimento

João Paulo Costa do Nascimento em março 12, 2011 4:47 PM


#318

O que falta na sociedade é gente com coragem de questionar, cutucar e criticar. Parabéns, Ana

Bianca Barbosa em março 13, 2011 3:31 PM


#319

Urgente!

Morre o Mito da Democracia Racial

Ele já andava muito doente.
Os médicos o desacreditaram.
O único que ainda acreditava na sua sobreviência era Ali Kamel.

Deixa uma dívida enorme.

"Os ''indesejáveis'' do exército na ditadura Vargas"

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110313/not_imp691258,0.php

"As medidas para impedir a entrada de negros nas escolas militares foram tomadas quando ainda se usava a expressão "raça inferior". "O negro era o grande culpado pela miscigenação e pelo enfraquecimento do povo brasileiro", destaca o pesquisador."


"O que mais me marcou na pesquisa foi perceber a intenção de criar uma elite militar que atendesse aos interesses nacionais, que na verdade eram interesses de uma política sistemática que privilegiava brancos e católicos, influenciada até pela intelectualidade e pelas revistas da época."

Ali Kamel, YOU LOSE!

Ralph em março 14, 2011 9:47 AM


#320

TENHO UMA IDEIA GENIAL!! VAMOS FAZER UMA GRANDE FOGUEIRA E ELIMINAR TODOS OS LIVROS DE MONTEIRO LOBATO DOS ANAIS DE NOSSA HISTÓRIA, E DE QUEBRA, OS DO ZIRALDO TAMBÉM... ADEUS, NARIZINHO... ADEUS, MENINO MALUQUINHO...

Ana, sei que sua intenção é das mais elevadas, e originais também. Tenho consciência da histórica perseguição, exclusão e subjugação do povo africano e de seus descendentes. Mas os tempos são outros.

Assim, o que vimos construindo é um processo. E nós fazemos parte disso: você nos esforço da desmitificação do racismo enrustido, e eu aqui, tentando fazer a crítica da crítica.

Concordo que Lobato poderia ter herdado os princípios humanistas dos abolicionistas; uma pena que não! No entanto, fazia parte do grupo das políticas de eugenia, de branqueamento tão em voga naquela sociedade; uma lógica provinda do neocolonialismo europeu. Ora, o que dizer das críticas de Lobato em cima de Anita Malfatti? - ela quase cortou os pulsos, sabia?... E aquestão do petróleo? É... realmente... Mesmo em seu tempo, Lobato era um reacionário dos piores.

Mas era um escritor de renome na época, tanto que suas obras ainda estão aí. Em uma releitura dos anos 1970, a globo ofereceu à minha infância, a magia da cuca e do saci-pererê, os que eu mais gostava. Nesta re-leitura, não lembro do Pedrinho ofender o Tio Barnabé em nenhum momento, ao contrário: nessa relação se inspirava o respeito ao negro, ao velho, ao preto-velho, figura mítica que nasceu no Brasil e que eu muito admiro na umbanda até hoje. Assim, a re-leitura, neste caso, é um ponto.

Mas de tudo isso, o que mais me causou arrepios, foi dizer que o Ziraldo é racista. Pelo amor de deus! Racista?... Prezo mais o Ziraldo por estar trabalhando por aquilo que vc, sem ter dado conta, está levando à contra-mão.

Graças aos esforços de todos que prezam e lutam por uma sociedade mais humana, estamos vencendo as exclusões que nos envergonham: os pixotes desse país; as viúvas da seca; os excepcionais; a violência contra a mulher - processos que envolvem pessoas e que exigem projetos para além da mera punição; exigem mais: exigem um negócio que meu pai me ensinou muito bem: o bom senso.

Se não fossem essas pessoas, Obama não seria presidente dos EUA; a Lei Maria da Penha não vingava; não haveria pára-olimpíadas; não existiriam debates como as cotas para afro-descendentes e eu nem estaria aqui ou seria professor. É certo que tudo isso não se fez com passividade, mas também não se fez pelo desprezo.

Desculpe, mas sua originalidade, ao que me parece, vai para além do estilo; aparenta extrapolar com um quê de incitação ao ódio. Ódio pelo Ziraldo? que tem genuinamente o compromisso, à sua maneira, com um mundo mais humano?

Sua originalidade está, assim, ao meu ver, na contra-mão, porque espalha e não ajunta; porque apesar de cumprir o papel de esclarecer, não aponta para o bom senso que constrói, ao contrário: pretende inspirar rivalidades, algo que leva a mais segregação, que leva a mais guerras; elementos que não merecem mais lugar em nossa aldeia global.

Paulo Sergio Teixeira em março 23, 2011 9:38 PM


#321

Definitivamente, este país é um luxo! A gente tem dificuldade, como povo, como sociedade, de se olhar no espelho. É, realmente difícil, a tarefa de "se encarar". è para poucos. É preciso se gostar na rudeza e concretude do que se é. O Brasil tem se construída na lida de esconder-se a si, de si próprio. A mentalidade a partir da qual operamos cotidinamente está repleta de tentativa de mudanças para evitar mudanças efetivas.
Releituras, caro Paulo Sérgio, buscam aproveitar o que o tempo permite explicitar e/ou omitir. Depende do projeto que se tem. Não más, nem boas, necessariamente. Não mudam, entretanto a essência do original. Se é necessária maior fundamentação do que isso que foi pinçado pela Ana, sobre a obra, o pensamento e a visão de mundo de ambos os autores e homens de que trata a carta, a fim de que seja possível perceber, afinal do que se trata toda a questão, então nossas dificuldades são muito maiores, de fato.
Precisamos sim, trabalhar na construção de uma nação. Para isso é necessário todo esforço possível no sentido de nos enterdermos naquilo que somos individual e coletivamente, na nossa diversidade. É necessário entermos nosso próprio processo histórico, sim. Escamoteando verdades que nos informam isso não é possível. Não é acaso nossa história estar recheada de quase mudanças. Não se trata de coicidência, o fato de que a suposta "metidês de Simonal parecer maior que a de outros "metidos". É insuportável, claro, um preto que tenha a exata noção do seu talento e, portanto, não se finja de sortudo. Que saiba da sua capacidade e olhe para o mundo a sua volta dando a exata idéia da sua consciência.
É preferível o Tim Maia. Tão talentoso quanto muitos outros artistas, seus contemporâneos que disfarçava sua raiva a alguns produtores, seu desprezo por alguns veículos, não indo aos espetáculos ou chegando mais tarde. A luta dele era mais divertida porque seus algozes podiam reafirmar pretensas "características" dos negros.
Não se trata de ódio ou de afetuosidade. Se trata de diferenças e de tratamentos diferentes historicamente instalados entre nós, a ponto de serem "naturalizados", logo, aparentemente imperceptíveis à todos que quiserem passar ao largo.
Lembremos que estamos falando de um país cuja historia registra, entre outros, um ato do (para manter a expressão já bastante repetida) "poderoso" Rui Barbosa pensou em queimar documentos que tratassem da nossa "experiência com a escravidão" de modo a apagar a "mácula" e não chamou a atenção de todos para o fato de que a forma como abolimos a escravidão numa lei tão consisa quanto omissa, condenava os "libertos" e seus descendentes à marginalidade e, portanto, ao aprofundamento dos males iniciados quando das caçadas de que falava nas suas cartas o "poderoso" Lobato. Males como este, impresso nas camisetas do bloco do Ziraldo.
Que historia é essa! Que historia é essa, afinal?
Ana! Ana! Ana! Que grandiosidade...
Professor Geraldo Silva - São José dos Pinhais - Pr

Geraldo luiz da Silva em março 24, 2011 12:52 PM


#322

Obrigada por expressar os desejos de milhares de brasileiros.

Beatriz Silva em março 24, 2011 9:26 PM


#323

Não só excelente, preciso, cortante, mas oportuno, pois flagrou no memento exato aquele que se arvora em educador brasileiro da nação (e não de segmentos dela, como na realidade o é). Fui aos comentários e vi lá o prof. Boaventura Santos, que jamais pertenceu ao grupo acima, por óbvio. A ele quero dizer, não obstante a relativa validade da sua orientação, que não se está diante de uma relação individual onde tem pleno cabimento sua norma, isto é 'quando querer ser diferente, quando querer ser igual'. Estamos falando de Diáspora Negra, para muitos o Sexto Continente, mais de 800 milhões de sobreviventes (a vida média do escravo era de 7 anos, 3 nas atividades de risco)vivendo homem com homem, mulher negra com mulher negra {para ficar mais fácil ao homem branco). A norma não cabe aqui. A norma também não cabe no caso da História com H mesmo, de que o homem negro e a África foram excluídos. A que a Unesco vem de lançar não quer dizer senão isso. Tenho sua idade. Na nossa escola o Egito pertencia ao Crescente Fértil, não à África.Como se sentir igual ou diferente, se apagaram minha história? Nesse campo você não é diferente nem igual, você não existe, foi deletado.E se não existe na História, coisa de Homem, não o é. Aqui se trata de dizer e comprovar, a partir da boca do homem branco, que esse povo negro, no máximo, é posseiro da África (terra de ninguém, tanto assim que não habita História nenhuma, logo pasto do imperialismo de todas as épocas) e os negros, ainda segundo essa mesma boca e discurso, são parasitas da cultura dos outros, obviamente 'a nossa'.

Ailton Benedito de Sousa em abril 15, 2011 3:18 PM


#324

Ana, foi um prazer ler esse seu texto. Não deixou uma vírgula sem ser respondida. Bravo!

Netanias Alves de Lima em abril 29, 2011 7:12 AM


#325

Oi Ana. Só agora tive contato com teus textos, e estou muito (bem) impressionada com a clareza com que consegues enxergar o racismo neste nosso país. Obrigada por tornar as coisas mais transparentes (e não mais "claras", rs)

Laura Belinky Gaiarsa em maio 6, 2011 9:13 AM


#326

Parabéns Ana,excelente artigo.

Tiago Fernandes em maio 8, 2011 12:25 AM