« Israel nunca conseguirá um acordo melhor que o que rejeitou, por Gideon Levy ::
Pag. Principal
:: Por que temer o espírito revolucionário árabe?, por Slavoj Žižek »
terça-feira, 01 de fevereiro 2011
Luta antimanicomial denuncia: Mortes nos leitos psiquiátricos de Sorocaba
Já na segunda semana do mês de dezembro eu recebera a denúncia do Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba (Flamas), depois de mais duas mortes em hospitais psiquiátricos da cidade. Tornou-se rotina. A média de mortos nos manicômios de Sorocaba é altíssima e a região possui o maior número de leitos do país. Os 1.289 leitos psiquiátricos do SUS na cidade de Sorocaba só não são mais numerosos que os do Rio de Janeiro.
Ancorados em dados do Ministério da Saúde, o Fórum apresentou estudo que chegou a números assustadores: são duzentas e trinta e três mortes em manicômios entre 2006 e 2009 só em Sorocaba. O professor Marcos Garcia, da UFSCar-Sorocaba e membro do Flamas, apontou a média de idade precoce das mortes, 48 a 49 anos. Até um quarto dos óbitos é de pacientes entre 17 a 29 anos de idade. Há um enorme número de mortes por causas evitáveis. É um estado de calamidade, urgente.
A luta antimanicomial na região de Sorocaba enfrenta também um bloqueio de mídia e o próprio secretário de saúde do município é dono de três manicômios. No final de janeiro, finalmente saiu uma matéria na mídia local, que repercutiu a denúncia do Flamas. A matéria também incluía a resposta do Dr. Eduardo Zacharias, diretor de um dos manicômios da cidade, que levantava suspeita sobre se os números seriam “muito ou pouco” e argumentava que faltava “metodologia científica” ao estudo.
À evasiva resposta, os profissionais do Flamas escreveram contundente retruque, mostrando não só que a média de mortes é altíssima, como também que a faixa etária é precoce e que alto número de óbitos acontece por causas evitáveis. Como exemplo irrefutável, o texto do Flamas lembra as 13 mortes por pneumonia no intervalo de dois meses e meio, no Hospital Vera Cruz, entre 07/05 e 18/07 de 2008.
A luta antimanicomial é uma das causas que mais merecedoras de atenção de quem quer um mundo um pouco mais humano e justo. Tudo indica que os profissionais do Flamas estão denunciando um estado de coisas desesperante e muito grave. A denúncia tem o meu endosso.
Escrito por Idelber às 06:17 | link para este post
| Comentários (7)
#1
O grupo em defesa dos manicômios ainda é muito forte. Aqui em Anápolis-GO temos enfrentado uma enorme dificuldade na expansão dos CAPS e Centros de Convivência em razão da resistência oferecida por um grande Hospital Psiquiátrico. E curiosamente, nessa última noite, houve um óbito por suicídio dentro das instalações nesse hospital.
Roberson Guimaraes em fevereiro 1, 2011 8:09 AM
#2
Depois de Foucault, ou seja, após “A História da Loucura”, a denúncia contida nesse post deixa claro que, dentro desse doente mundo contemporâneo, os oriundos da miséria e incapazes à geração de mais-valia - isto é, os infantes, os loucos, os desempregados, os drogados e os velhos - não passam de lixo humano.
O que fazer? Eu, sobrevivente duma enfermidade mental mas, historicamente, um professor, um trabalhador capaz de gerar mais-valia, serei até o instante de minha morte um possível porta-voz dentro do impossível deles…
A VISITA
by Ramiro Conceição
Quem é este que reaparece
sem convite, sem confetes,
sempre com sobejos, mas não de beijos,
sim, com migalhas duma alegria na mala?
Parece que o reconheço de algum lugar,
de alguma história perdida na memória.
Ah, sim, é claro:
- Bem-vindo, senhor medo!
PS: disse-me, certa vez, um amigo esquizofrênico:
“Não faça apologia da loucura: ela é uma doença!
Ramiro Conceição em fevereiro 1, 2011 4:38 PM
#3
A LENDA
by Ramiro Conceição
Diz uma lenda que, certa vez,
Deus e um poeta se falaram:
— E, aí, poeta, algum plano imediato?
— No momento, subir a escada, entrar no quarto,
abrir as janelas, pensar-sentir… E encantá-Lo.
(Diz a lenda que Deus chorou...).
SERES DO SER
by Ramiro Conceição
Além das flores, quem és?
- Sou as cores.
Além das cores, quem foste?
- Fui amores.
Além de amores, quem serás?
- Serei o que fizeste e fazes.
Além das flores, quem eras?
- Era as cores.
Além das cores, quem foras?
- Fora amores.
Além de amores, quem serias?
- Seria o que fizeras e fazias.
Além das flores, quem sejas?
- Seja as cores.
Além das cores, quem fosses?
- Fosse amores.
Além de amores, quem fores?
- For o que fizesses e faças:
além das flores sê
os seres, sendo, sido,
além dos pecados idos.
Ramiro Conceição em fevereiro 1, 2011 5:24 PM
#4
Olha... Eu fiquei pouco tempo na Psicologia e acho muito bonito mesmo essa ideia de "humanidade" nos tratamentos psiquiátricos. Claro que defendo com ardor os direitos humanos.
Mas vivo na minha família mesmo, aqui em casa, uma história muito triste de como esse modelo atual não ta funcionando pra todo mundo (e portanto, a Constituição não está sendo respeitada, porque o direito à saúde tem que ser universal).
Eu tenho um tio, irmão da minha mãe, que desenvolveu um sofrimento psíquico, em parte por causa do uso intenso de drogas. Depois de várias passagens pela polícia (porte de drogas e roubo, principalmente), ele chegou a ficar várias vezes internado em uma instituição de tratamento da cidade (Divinópolis-MG).
Mas nos últimos anos minha avó (mãe dele) e meus outros tios (irmãos dele) não têm como pagar mais para que ele receba o tratamento na clínica. Nesse lugar ele conseguia ficar calmo e levava uma vida tranquila.
Como ele não tem mais o acompanhamento na clínica, ele ficou sob observação da minha avó e de um tio, advogado, solteiro, que mora com o irmão e a mãe. Minha avó já tem 81 anos. Meu tio é o único encarregado de cuidar das despesas da casa, e sendo um profissional liberal, não tem horários nem recursos estabilizados.
Como resultado, a situação do meu tio doente piorou muito. Agora não se pode mais "controlá-lo" e ele passa os dias pedindo dinheiro e roubando nas ruas, para usar drogas. Descobrimos recentemente que ele jogava fora os remédios que era obrigado a tomar.
Estou escrevendo isso tudo para dizer que, em alguns casos, a internação é necessária e humana. Nem todas as famílias têm os recursos e condições necessárias para cuidar de uma pessoa com sofrimento mental.
É muito bonito defender a reforma antimanicomial, mas precisa-se também ver os casos em que as instituições psiquiátricas são necessárias.
Bárbara em fevereiro 4, 2011 12:33 AM
#5
Bárbara, a reforma psiquiátrica não consiste em fechar manicômios e deixar os usuários sem tratamento, ou exigir que a família simplesmente cuide dos mesmos, como parece estar acontecendo na sua cidade. Fechar hospitais implica em abrir instituições que ofereçam tratamentos alternativos, ou seja, que o paciente seja assistido, mas sem ser excluído - como acontece no modelo manicomial. Pra isso existem os CAPS (Centros de Assistência Psicossocial), as residências terapêuticas, os centros de convivência.
Em muitas cidades o acesso à internação é dificultado sem a implementação de serviços substitutivos - e sem que a população seja informada de que eles existem, gerando revolta contra a luta antimanicomial. Vejo que não é por aí. O modelo hospitalocêntrico não funciona, existem inúmeros estudos a respeito e não é à toa que o movimento antimanicomial não é local, mas uma tendência mundial. Não podemos cair no comodismo de exigir um retrocesso a este sistema falido ao invés de cobrar que a reforma seja feita de fato, dando ao paciente o cuidado que merece, sem excluir.
Lauren em fevereiro 4, 2011 10:12 PM
#6
Lauren,
concordo com você que o modelo é falido, que se deve reformá-lo e humanizar os tratamentos. Mas pelo menos até onde vejo, isso não está acontecendo. O que está gerando problemas mais graves ainda do que os gerados pelo modelo hospitalocêntrico. Você me entende nesse ponto?
Os serviços substitutivos não adiantaram com o meu tio. Não sei como funcionam em outros lugares, mas não o vejo funcionando aqui (na minha cidade tem um chamado Cersam - centro de referência em saúde mental. Meu tio chegou a ser internado durante o dia nesse centro e foi um fracasso, ele piorou e muito durante o tratamento).
Esse é o meu único problema com o movimento antimanicomial...
Bárbara em fevereiro 6, 2011 2:35 AM
A Lesma Lerda em fevereiro 7, 2011 9:23 PM