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quarta-feira, 23 de fevereiro 2011
Na Revista Fórum: A escalada da ultradireita nos EUA
Se lições podem ser tiradas dos dois primeiros anos da presidência de Barack Obama, uma das principais terá que ser esta: é impossível dialogar com um surto psicótico coletivo. Obama tem pago um altíssimo preço político por se eleger e governar baseado num projeto de diálogo com esse surto, estratégia que se ancora na tentativa de um debate racional e razoável (ao modo sonhado pela “ética comunicativa”, do pensador liberal Jürgen Habermas) com um interlocutor imaginário, sujeito político que não quer ser interlocutor, mas inimigo encarregado de aniquilar, eliminar, destruir o adversário. Os 8 anos de governo de extrema-direita, a manipulação midiática dos ataques de 11 de setembro de 2001, a violenta crise econômica que explodiu em 2008 e a irrupção, mais forte que nunca, do racismo e da xenofobia contribuíram para a configuração de um quadro político verdadeiramente assustador nos Estados Unidos de hoje, do qual não há saída imediata à vista. O ataque terrorista no Arizona, em que seis pessoas foram assassinadas e a deputada democrata Gabrielle Giffords saiu ferida na cabeça, foi o mais recente capítulo dessa macabra narrativa.
Até mesmo o leitor da Fórum deve ter se surpreendido com meu uso do termo “terrorista” na frase anterior. Apesar de consistente com o sentido que a palavra classicamente teve —matança indiscriminada, por motivos políticos, de uma população civil desarmada, com o objetivo de disseminar o medo —, o uso do termo “terrorista”, para designar eventos como os de Tucson, tenderá a provocar estupefação hoje em dia, por um motivo dos mais simples e prosaicos. A manipulação a que foi submetido esse termo nos EUA ao longo da última década nos levou a uma situação em que a violência de extrema-direita, tão estadunidense como a torta de maçã, já não cabe sob a alcunha do terrorismo. Esta se encontra definitivamente reservada para o “outro” — em especial para o outro árabe.
Enquanto isso, uma retórica delirante se fortalece em setores dos meios de comunicação de massas e no Partido Republicano. A partir das assembleias populares (town hall meetings), propostas por Obama para a discussão da reforma do sistema de Saúde, em 2009, a retórica de extrema-direita encontrou terreno fértil. A caracterização de Obama como nazista, bolchevique e islamista — para ficarmos em três definições obviamente contraditórias entre si — já é parte da paisagem, do discurso político aceito como normal e razoável nos EUA. Os questionamentos ao patriotismo de Obama, nos quais um visível racismo não deixa de cumprir seu papel, também são matéria cotidiana na TV e no rádio dos EUA. O discurso do ódio ao diferente, tão típico dos impérios em declínio, pavimenta o caminho para tragédias como a de Tucson.
Continue lendo "A escalada da ultradireita nos EUA" no site da Revista Fórum e volte aqui caso queira papear sobre o texto.
Escrito por Idelber às 14:26 | link para este post
| Comentários (24)
#1
Ótimo texto, e que me fez retomar uma questão que surgiu quando li sobre a história dos neoconservadores num livro do David Harvey, Idelber vc que está aí nos EUA e que deve ter visto um pouco de toda a campanha das legislativas, os democratas perderam muitos postos pq os eleitores cansados de votarem em representante que representam apenas as grandes corporações estão tão desencantados com a política que decidiram nem ir votar para não se desencantar mais???
João Vicente em fevereiro 23, 2011 2:49 PM
#2
João, simplificando um pouco um quadro que tem lá suas complexidades, eu diria o seguinte: a derrota acachapante dos Democratas nas legislativas de 2010 tem a ver com
1) o fato de que a crise herdada da era Bush foi tão violenta e tão profunda que ela continuou, claro, a produzir efeitos durante a era Obama. Ela passou a ser uma "crise do Obama". Com isso, boa parte dos independentes que votaram Democrata nas eleições de 2008 penderam de novo para os Republicanos. Apesar de que Obama tomou algumas medidas para conter a crise, com algum sucesso, segundo muitos economistas--no sentido de que essas medidas impediram a disseminação de efeitos ainda mais agudos do que os realmente experimentados em 2009 e 2010--, ninguém sabe realmente o que teria acontecido ("quão piores" teriam sido as coisas) caso as políticas anteriores tivessem continuado.
2) o fato de que a "esquerda", principalmente os eleitorados jovem e negro, ficaram em casa em altíssima porcentagem, ao contrário de 2008, quando compareceram em massa. Ficaram em casa porque, basicamente, se desiludiram com o excesso de concessões de Obama.
Resumindo, acho que foi isso aí.
Idelber em fevereiro 23, 2011 3:04 PM
#3
Sobre as derrotas legislativas, tem um componente estatístico aí, se podemos chamar assim.
Diante da maioria democrata anterior, com certeza iriam perder cadeiras. E pelo que parece, historicamente o turnout é menor nas intermediárias, não?
Manoel Galdino em fevereiro 23, 2011 3:45 PM
#4
Verdade verdadeira, Manoel, que nas legislativas o comparecimento é menor. Aqui tem uma tabelinha. Mas dados os enormes números de registros de novos eleitores em 2008, especialmente jovens votando pela primeira vez, seria de se esperar que em 2010 uma proporção maior aparecesse para votar. Eu não tenho números de 2010 à mão, mas como evidência anedótica posso lhe contar que muita gente jovem que conheço ficou em casa, desiludida. Eu mesmo não fui votar (não que eu seja lá tão jovem, claro...).
Idelber em fevereiro 23, 2011 3:51 PM
#5
Muito bom texto. Mas o que se viu foi que a parte que mais perdeu dos democratas foram os centristas... e a ala direita (blue collars) foi dizimada.
Talvez isso tenha contribuído para a queda. Os deputados mais combativos conseguiram mobilizar os eleitores à esquerda, os centristas não.
Marcus Pessoa em fevereiro 23, 2011 4:43 PM
#6
Pois é. São esotéricos os motivos que levam as esquerdas no poder a quererem dialogar com as crias da pior espécie de reacionarismo. Passam a se comportar como se devessem cumprir as promessas que não fizeram, enquanto os seus próprios eleitores as vezes ficam estupefatos com certas posições. Não se trata, logicamente, de adentrar no terreno das bravatas, mas assumir uma postura, sim, de confronto de ideologias, quando necessário. Não é sempre disso que se trata? Um embate de visões de mundo? Pois se nós ganhamos o recado é que queremos ver um mundo governado por princípios de esquerda. Queremos, sim, que a direita, da forma como a entendemos, xenófoba, primitiva, fanática, beligerante, seja apagada, ou reduzida ao folclore, com seus personagens até certo ponto hilários. Como vc bem o disse, não se dialoga com loucos, nem com malandros. O caso Obama é um ótimo exemplo para que Dilma não caia na tentação e seja seqüestrada pela ideologia que derrotamos.
Cajueiro em fevereiro 23, 2011 8:41 PM
#7
Obama perdendo cada vez mais peças nesse xadrez político pode acabar inviabilizando seu governo, o que espero não implique a volta da extrema-direita ao poder.
Ainda assim, acredito ser importante a facultatividade do voto. As suas consequências negativas podem são grandes, principalmente em razão de abstenções, mas permite à sociedade e ao governo perceberem seus ganhos e perdas de uma forma mais concreta. É o que me parece.
Daniel Caceres em fevereiro 23, 2011 9:49 PM
#8
Simples. OS democratas tentaram aprovar uma reforma da saúde complexa e incompreensível na marra, que mexia(Ou supostamente mexeria) com beneficios aos idosos, que votam com maior frequencia com a média, deixando a questão da economia em segundo plano.
André Kenji em fevereiro 24, 2011 1:50 AM
#9
André, eu concordo com você que a reforma era complexa, mas não sei se "na marra" seria a expressão que eu usaria aqui. Os Democratas cederam as unhas, depois os aneis, depois os dedos, depois os braços...
Daniel! Caramba, pré-história da blogosfera voltando com tudo! Seja benvindo.
Idelber em fevereiro 24, 2011 5:18 AM
#10
Gosto de pensar que nao me espanto com mais nada...mas estou sempre me espantando: pessoas inteligentes que ainda acreditam em "politica" a, nessa epoca em que corporações mafiosas financeiras tomou conta de tudo; olha so o Brasil:
Governo, estado, congresso, eleições, democracia; apenas um carnaval televisivo para acalentar as massas e criar ilusão de participação popular.
Os politicos são apenas atores que ganham pelo papel (ridiculo) que fazem...
Lord Jim em fevereiro 24, 2011 3:41 PM
#11
Interresante esses dados postados pelo idelber nos comentários... O comparecimento caiu de 46% pra 38% de 70 pra 74... Culpa do NIXON, né? Justamente quando supostamente o novo consenso conservador americano surgiu (watergate foi só um contratempo) a mobilizaçao politica diminui. ... Dai nem adianta a demografia (a tendencia de crescimento das minorias) ajudar os democratas, se eles não se ajudam né, com esse centrismo conciliador... ... Enfim, os republicanos souberam jogar o jogo, o Obama desmobilizou e desmotivou o movimento que criou em 08 - ainda acho que se relege, porque campanhas presidenciais tem maior comparecimento e a rejeição fala mais alto, se os republicanos botarem mais um caipira louco (palin) se ferram.
Henrique K em fevereiro 24, 2011 4:07 PM
#12
Na mosca, Henrique, esse dado aí sobre a queda do comparecimento de 70 para 74 é chave para se entender a onda conservadora que vem depois. Em todo caso, a taxa de rejeição da Palin é altíssima, mas se os Republicanos vierem com alguém como Pawlenty (governador de Minnesota), não sei não...
Idelber em fevereiro 24, 2011 4:13 PM
#13
Triste constatar que esse movimento não acontece só nos EUA... Ainda não temos um "Tea Party" aqui no Brasil, nem tiroteios contra militantes de centro-esquerda, mas parece que vamos chegar lá...
A rejeição ao governo Dilma já tomando conta das redes sociais com coisas tipo "abaixo o decreto do mínimo", "como assim ela congelou os concursos públicos???!!!", "como assim o governo ta se recusando a dar um bom aumento no mínimo agora, adiando pro ano que vem, com esse aumento de 60% dos parlamentares e funcionários do Executivo???!!!" e por aí vai...
A nossa sorte é que no Brasil não temos uma cultura de guerra, de porte de armas, de tiroteios (são mais raros por aqui do que por lá).
Bárbara em fevereiro 24, 2011 7:24 PM
#14
O golpe sorrateiro que a direita pretende dar no Brasil é a implantação do voto distrital.
O voto distrital suprime a representação da minoria e limita a discussão política às demandas locais, eliminando a possibilidade de grandes transformações estruturais.
O voto distrital é tudo o que os conservadores querem.
Ricardo Petrucci Souto em fevereiro 24, 2011 9:44 PM
#15
"A nossa sorte é que no Brasil não temos uma cultura de guerra, de porte de armas, de tiroteios (são mais raros por aqui do que por lá)"
Cuma????????????? eu li direito????
e os 50.000 assassinados ao ano por toda sorte de arma??? não contam???
A Lesma Lerda em fevereiro 24, 2011 10:49 PM
#16
Idelber
Quem passou a "reforma" foi basicamente Pelosi e Reid, que eram "whips", ou sejam, contavam os votos do seu partido. E eles só o fizeram porque pressionaram e fizeram promessas financeiras a democratas em distritos e estados conservadores(As famosas Lousianas Purchases e o Cornhusker Kickback). Tanto que a reforma passou com um único voto republicano na Casa e nenhum no Senado e as pesquisas passaram a indicar um cenário horrível para muitos desses senadores democratas de estados conservadores. Ben Nelson de Nebraska está bem atrás nas pesquisas para a reeleição em 2012.
O problema dos democratas é que os republicanos sempre souberam usar gente como Lee Atwater, Frank Luntz e Roger Ailes para simplificar e deixar o mais claro possível suas propostas para o povão. Os democratas nunca souberam fazer isso, e o estimulo e a reforma da saúde são exemplos claros.
Embora acho que o Obama deveria partir para o modelo híbrido brasileiro ao invés de insistir naquela coisa desconexa.
André Kenji em fevereiro 25, 2011 12:24 AM
#17
A Lesma Lerda,
contar conta. Mas eu escrevi isso pensando no "Columbine", nos atentados... Não pensei na violência urbana, digamos, "ordinária". Claro que ela conta, claro que é uma coisa horrível, mas não era no que eu estava pensando ao escrever meu post.
Bárbara em fevereiro 25, 2011 9:08 PM
#18
Gracias, aqui não temos censura , nem tipinhos como Gustavo Chacra . Lá a censura eh enorme , no jornal que este trabalha . Bem vamos ao assunto. Queremos liberdade de imprensa para o Presidente da Wikileads . A Inglaterra eh pressionada e os juizes ingleses ameaçados pela CIA dos EUA . Querem deportar o Presidente da Wikileads para a Suécia e depois ... para o inferno de Guantânamo . De lá de Guantanamo o Presdiente da Wikileads vai sumir para sempre. Porisso quero fazer uma veemente proposta a todos para defenderem a liberdade de imprensa nos EUA.
Os EUA são covardes e não tem Democracia nem liberdade de imprensa . Lá somente dois Partidos se revezam no poder . Tudo eh proibido até mesmo o Partido Comunista chegar ao poder.
Porisso queremos liberdade de imprensa nos EUA .
Passe para frente . Liberdade para o Presidente da Wikileads.
Albert Chirac em fevereiro 26, 2011 11:46 AM
#19
O Vitiligo da Presidenta
O pessoal que defendia a brancura do Michael Jackson alegava ser decorrência do vitiligo: o mesmo vitiligo que branqueava a pele afinava o nariz e alisava o cabelo.
A submissão da presidenta aos PIGs é a mesma coisa; dizem seus defensores na “esquerda” que é pura estratégia sofisticada e sutil, além da compreensão de mentes estreitas e tacanhas.
-os cortes orçamentários que ela vai fez para agradar os banqueiros também fazem parte dessa estratégia né?
-a miséria do salário mínimo defendida e aprovada pelo governo.
- a penalização dos trabalhadores com limites drásticos em aposentadorias também.
Acho que essa turma sofre de vitiligo mental.
A mosca da sopa em fevereiro 26, 2011 11:58 AM
#20
A mosca foi na mosca...e podia ter lembrado que arranjar justificativas para o injustificavel nao tem nenhuma novidade para certa canhota. O pacto Ribbentrop-Molotov por exemplo, que colocou a Exercito Vermelho e a KGB pra fazer o serviço sujo dos nazistas na Polonia (vide massacre na floresta de Katyn que Gorbachov confessou em 1988) foi explicado como fina estrategia de Stalin para ganhar tempo.
Damastor Dagobé em fevereiro 26, 2011 2:36 PM
#21
Idelber, que tal dois postes com uma opinião de alguem que seja a favor do CL dos 13 e outro que seja a favor dos clubes dissidentes!
Aguardo.
Bosco em fevereiro 26, 2011 8:29 PM
#22
Puxa, o problema seria encontrar alguém a favor dos clubes dissidentes. Nem na torcida dos respectivos a gente anda encontrando. Sugestões?
Idelber em fevereiro 26, 2011 8:30 PM
#23
minha namorada é flamenguista (sou gremista) e apoia os dissidentes (não quis discutir)... katyn não foi bem serviço do stalin pro hitler, né, nem bate cronologicamente. Mas um serviço podre que ele teria feito foi realocar os judeus da polonia depois do famigerado tratado, de tal modo a transforma-los em elementos alienigenas nas novas comunidades facilitando a contribuiçao futura de alguns poloneses nao-judeus nos grupos de exterminio que precederam o holocausto mais ''limpo'' (himmiler teria vomitado vendo os fuzilamentos, fossas coletivas, curiosos indo ver, tinha ate soldado alemao que mandava foto pra esposa ~~eu e o porco judeu~~)
Henrique K em fevereiro 27, 2011 12:21 AM
#24
Buenas!,
Me ha encantado el articulo y me ha encantado volver a leerte, voy a recomendar esta web a todos mis amigos.
Saludos!
Ana | alcoholicos anonimos em março 18, 2011 2:24 PM