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quarta-feira, 09 de fevereiro 2011
Notas de um veranista: considerações tempestivas sobre a catástrofe ecológica da Serra Fluminense, por Carlos Eduardo Rebello de Mendonça
O Prof. Carlos Eduardo Rebello de Mendonça é o autor de Trotski: Diante do Socialismo Real.
“Feuerbach não vê que o mundo sensível ao seu redor não é algo que exista desde a eternidade, que permaneça sempre o mesmo, mas o produto da indústria e do estado da sociedade; de fato, um produto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma sucessão de gerações”
– Marx & Engels, A Ideologia Alemã.
No episódio da catástrofe de janeiro de 2011 na Serra Fluminense, os que esperavam que a mídia burguesa brasileira e as autoridades resolvessem apresentar como culpado o lumpesinato que insistiu em morar em barracos desmatando encostas, a ser disciplinado pelas autoridades públicas, enganaram-se: o que vimos foi principalmente a admissão quase que imediata dos erros do passado em matéria de políticas de habitação e de ocupação do espaço urbano, e promessas de reformas radicais, acompanhadas de apelos para que não fossem procurados culpados: a questão era agora a de concentrar-se na ação para impedir catástrofes futuras.
Não apenas este discurso que propõe olhar apenas para o futuro não parece ter conseguido evitar a repetição de práticas públicas viciadas, como as decorrentes da dispensa de licitação em caso de calamidade pública, como também padece de defeitos de argumentação. O principal é que identificar a calamidade com o “passado” em nome do “futuro” é praticar aquilo que Pierre Bourdieu chamava de indignação retrospectiva: condenar um passado tido como acabado em nome do futuro é basicamente legitimar as práticas e a autoridade presentes – marcar pontos para nós contra os gestores passados. E o problema é que, para que possamos traçar uma linha tão inultrapassável entre passado e futuro, é preciso partirmos da idéia de que o problema a nossa frente é puramente uma questão técnica: a escolha de lugares , de materiais de construção, o assentamento de populações. Ora, a questão que temos a nossa frente não é técnica, mas principalmente social: uma questão não deste ou daquele episódio de escolhas tecnológicas infelizes, mas de todo um processo histórico iniciado no passado e continuado no presente. Como dirá Žižek: o raciocínio verdadeiramente ideológico não está na internalização dos valores, mas na redução de todas as questões ao meramente contingente , ao acaso – o que nos dispensa de enfrentar a lógica real do sistema.
Não sendo eu especialista na área, o que pretendo aqui é apenas fazer um esboço quanto a certas questões que me parecem dignas de análise posterior. Isso – e mais cinqüenta anos de contato quotidiano com os problemas da Serra Fluminense, através da casa de vilegiatura que o meu avô materno resolveu, no início dos anos 1960 construir em Itaipava – predispõem-me a escrever estas notas.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a Serra do Rio de Janeiro, na década de 1960, estava longe de ser o paraíso ecológico que os articulistas da mídia consideram haver sido violado na sua pureza prístina pelos favelados das décadas subseqüentes: muito pelo contrário, lembro-me – uma lembrança apoiada nas fotografias disponíveis – que o entorno da casa em Itaipava, num terreno desmembrado de uma antiga sede de fazenda , fora uma ou outra árvore, era todo coberto por um pasto sujo onde pastavam algumas cabeças de gado mal cuidadas – a paisagem mais usual até hoje na maior parte do Sudeste rural do Brasil, com os seus restos de latifúndios cafeeiros decadentes reconvertidos para a pecuária. A Serra como “paraíso ecológico” é principalmente uma conseqüência da decadência da atividade agrícola e da reconstituição espontânea de florestas secundárias em terras mantidas como reserva de especulação; como uma vez ouvi do meu professor de jardinagem , “em Itaipava não existem árvores centenárias”.
Fora pastos de capim gordura, o que mais se via naquele entorno eram as pequenas granjas dedicadas ao negócio de venda de flores silvestres – com os caminhões que passavam diariamente para levar as cestas de flores cortadas ao mercado da Praça XV no Rio de Janeiro – e o casebre nas vizinhanças da fazenda onde morava uma família de colonos aos farrapos, com a fumaça do fogão a lenha saindo de uma chaminé cujo tubo furava a parede, crianças nuas com barrigões de verminoses várias, e os adolescentes desdentados que nos vendiam leite em garrafas recicladas com tampa de sabugo. Desenvolvimento desigual e combinado: era aquilo que se chama até hoje “agricultura de subsistência” que longe de ser produção para auto-consumo, era uma tentativa de meeeiros, parceiros e pequenos proprietários de sobreviverem – talvez acumularem – na periferia do centro capitalista. Nas noites sem luz elétrica, deixávamos o lampião na varanda, e atraíamos dezenas de besouros – muito provavelmente pragas de pasto – que eram quase que imediatamente seguidos pelos sapos cururus e eventualmente uma aranha caranguejeira. Pássaros, quase que só os anus e bicos-de-lacre, espécies de áreas de campo degradadas. Se era a “volta à Natureza”, era a Natureza da Ideologia Alemã – a Natureza como expressão da atividade produtiva humana, e como tal, da luta de classes.
À medida que passava a década de 1970, os colonos foram mandados embora, a velha sede da fazenda trocou de mãos e foi demolida para ser reconstruída como casa de campo e de aluguel para grupos por temporada (enquanto a própria fazenda virava sítio de lazer), tudo enquanto a produção de flores desaparecia quase que totalmente (permaneceram alguns negócios reconstruídos sob bases tecnológicas sofisticadas, inacessíveis ao agricultor comum) diante do uso crescente das terras como casas de veraneio e loteamentos para formação de condomínios. Eram as conseqüências regionais da contra-reforma agrária da ditadura militar: a terra convertida numa mercadoria, numa espécie de kit que permitia à pequeno-burguesia emergente da época sentir-se parte da elite, gozar numa versão reduzida do imóvel de vilegiatura que até então havia sido um privilégio da alta burguesia; a residência secundária, que até então era parte da esfera pública – do nomadismo institucional das elites políticas e sociais do Império, da República Velha e da Era Vargas, que moviam sua “corte” para suas fazendas no Verão - tornou-se um luxo privado.
Tudo acompanhado, na década de 1980, do surgimento de uma infra-estrutura de lazer “sofisticado” e de “bom gosto”: “pólos gastronômicos” vendendo uma culinária sofisticada que não correspondia a nada de local, os indefectíveis shoppings, a agricultura “orgânica” etc., etc. Paradoxalmente, o abandono da atividade agrícola tradicional fazia com que a região, em determinados lugares, tomasse uma aparência cada vez mais florestal, ainda que artificial (grande parte das espécies de plantas e animais existentes nestas áreas são produto da introdução humana, para desgosto dos puristas) – na medida mesmo em que “Natureza” e “biodiversidade” , “paisagem” eram produzidas para serem vendidas como mercadorias – a custa do evisceramento da população agrícola tradicional; uma versão em miniatura da África dos safáris, com suas reservas animais recheadas de uma fauna que jamais havia existido historicamente desta forma, e que foi criada através da expulsão deliberada das populações nativas. Era também a expressão fenomenológica do processo geral ocorrido no campo brasileiro nos últimos quarenta anos: a desumanização geral do meio rural em favor da acumulação burguesa - e, quanto a isso, era indiferente que esta desumanização fosse realizada em proveito da Natureza “intocada” e não da soja ou da cana de açúcar. Foi na década de 80 que o nosso velho caseiro foi posto para fora do pedaço de terra que vinha cultivando informalmente na propriedade de um vizinho, para que fosse construído um chalé no local.
Bem ou mal, no entanto – poderiam dizer os apologistas do desenvolvimentismo como modo de resolução de todas as contradições – o mercado de trabalho regional ajustou-se, na medida em que a mão-de-obra da região trocou, de uma geração a outra, a agricultura pelos serviços, a casa de colono pelo trabalho como garçom, balconista, camareiro, pedreiro – e que mal haveria nisto, senão da parte de quem aprecia a idiotia rural e a verminose? Como o marxismo, neste país, foi apropriado pela ideologia desenvolvimentista, continua ainda sendo necessário lembrar aos nossos marxistas (vulgares) que o velho “Desenvolvimento da Forças Produtivas” não é uma panacéia mágica, na medida em que ele realiza-se nos limites e nas condições fixadas pelas Relações de Produção – com as quais inevitavelmente entra em contradição , dizia o velho Marx do Prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política.
Os limites das Relações de Produção são os da propriedade privada burguesa – a da terra como de qualquer outra coisa. Quem passa a trabalhar na cidade depois de ser excluído do campo tem de ter onde morar – o que significa, nas condições do meio urbano brasileiro, comprar o direito de habitar; o que, por sua vez, para a população de baixa renda, significa, ou depender “da bondade de estranhos”, ou morar em um barraco construído em terras de propriedade pouco definida: encostas, barrancos, beiras de abismo, margens de rio. É claro que, neste processo de favelização, não foi negligenciável o papel de uma lumpen-burguesia especulando sobre casas de aluguel em favelas, da “demagogia” populista e assistencialista e das decisões judiciais de juridicidade e valor duvidosos; mas todos estes fatores não surgiram do vácuo e sim responderam a uma demanda social concreta – a de pessoas que não tinham onde morar regularmente. E não será enlatando refugiados ambientais em coelheiras de concreto nas periferias urbanas que o problema será solucionado. Há quem acredite nas supremas virtudes do “cacete ambiental” como instrumento de preservação ecológico; não é, pessoalmente, o meu caso.
Talvez a questão seja, em parte, a de romper com um modelo de estímulo à atividade econômica fundado num consumismo vulgar, que “consome” casas com piscina do mesmo modo que consome pólos gastronômicos; tentar estimular o acesso das massas a atividades econômicas qualificadas, que incorporem alta tecnologia e/ou manejo ambiental, também. Mas sem alguma forma de interferência nas “relações de produção”, isto é, na propriedade privada, nada de realmente sustentável será feito. Sem reforma urbana e agrária, não haverá verdadeira preservação do meio ambiente no Brasil.
O grande problema é que, se chegamos, de um lado objetivamente a uma situação em que a preservação ecológica transcende qualquer interesse de classe, em função do jogo das “externalidades” ecológicas (a corrente de uma enchente que se forma numa área favelizada devasta tanto a favela quanto mansões de veraneio e pousadas, matando sem distinção de classe, como se viu no Vale do Cuiabá), subjetivamente o desejo de preservar privilégios de classe “tradicionais” e “razoáveis” pode superpor-se até ao sentido de auto-preservação: a luta de classes não é um processo racional, diz Isaac Deutscher. Ou, como dizia Trotsky em 1905: o Capital, no exercício dos seus supostos direitos, está tão penetrado da sua Metafísica da Violência, que freqüentemente prefere arriscar a vida a perder tais direitos, e pode ir às últimas conseqüências contra quem preferir escolher a vida...
Por enquanto, é isso que há a dizer.
Escrito por Idelber às 05:04 | link para este post
| Comentários (19)
#1
Caro professor:
- Se for para recuperar os termos de um marxismo de há 150 anos, é preciso fazê-lo com maior sofisticação. "Mídia burguesa" é uma categoria analítica que não me diz nada nessa época em que operários são acionistas de multinacionais;
- "a terra convertida numa mercadoria" é uma das "conseqüências regionais da contra-reforma agrária da ditadura militar"? Se for assim, os generais trouceram o capitalismo para cá com dois séculos de atraso;
- As reduções contingenciais do desastre foram parte minoritária da reação à tragédia do Rio de Janeiro. Houve, sim, ao contrário do que o senhor afirma, análises que buscaram identificar as causas dos desabamentos no domínio da ordem, não apenas no domínio do particular. Talvez essas análises não tenha mobilizado os instrumentos que você acha mais adequados para entender o fenômeno, mas então sua crítica mirou o alvo errado. Difícil vai ser encontrar o registro de algum analista (não trato dos atores políticos) afirmando que a calamidade foi extemporânea.
Abraços
Rafael em fevereiro 9, 2011 9:59 AM
#2
Porra, o "trouceram" ali foi dose. Culpo a proximidade entre "X" e "C" no teclado, a concentração de renda e o colonialismo português.
Rafael em fevereiro 9, 2011 10:25 AM
#3
Não creio que agora trabalhadores sejam "acionistas" de multinacionais. Creio que há vários sindicatos que são acionistas de grandes empresas,um capitalismo sindical por assim dizer.
Marinho em fevereiro 9, 2011 12:51 PM
#4
Adorei! Como dizia o alex hoje no tuiter: to cheia de ler sempre as mesmas opiniões sobre os mesmos assuntos. No caso, ele falava do monte de blogs que resolveram analisar um filme concorrente ao oscar.
Ai, venho aqui ao Biscoito, e encontro originalidade e beleza em um texto sobre um assunto que foi muito falado, mas nunca com essa perspectiva.
Sobre o assunto em si, o que tenho a acrescentar é que vi esse processo no rio, depois percebi que ele aconteceu também no entorno de são paulo (campos do jordão para mim é um lugar perigoso e nojento), e senti ele acontecendo no litoral paulista. Qd fui morar em sampa, praias como camburi e boiçucanga eram praticamente desertas (1985). Aos poucos, os paulistanos foram tomando conta do pedaço e expulsando os pescadores e suas comunidades. Hoje aquela região é um inferno, pontilhado de hoteis "chics", gastronomia "sofisticada" e favelas prontas a serem derrubadas por uma chuva mais forte.
Acredito que existam outros exemplos brasil afora.
aiaiai em fevereiro 9, 2011 2:49 PM
#5
Não concordo com o Rafael, aí de cima. É sempre bem vindo quando alguém tenta compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro. Quanto ao artigo, acho que seria possível mediar com mais vagar algumas passagens de Marx para o Rio, mas talvez não seja o momento, talvez nem fosse possível. Um texto não tem que dizer e fazer tudo, oras. Por fim: recentemente li um estudo do Antonio Candido que pode estar relacionado com o que se disse no post, "Parceiros do Rio Bonito".
Valdir em fevereiro 10, 2011 9:38 AM
#6
Só não entendi a relação (fora o gancho) com a tragédia deste ano.
Thuin em fevereiro 10, 2011 9:41 AM
#7
Vou responder em ordem inversa: Valdir, é certo que, sobre a dialética da agricultura de subsistência e do latifúndio, o livro do Cândido é uma referencia obrigatória, assim como o da Ma. Sylvia de Carvalho Franco, "Homens Livres na Ordem Escravocrta".
aiaiai, muito obrigado por ter entendido o que quis dizer, mas aí eu acrescentaria que, diferentemente da ocupação do litoral, que se fez sempre no sentido de enfear , na Serra muito do que foi feito acabou por criar uma beleza que se fez ao preço da exclusão: pois "todo monumento de civilização é também um monumento de barbárie" (Benjamin).
Rafael: seu problema me parece ser algo usual, a naturalização das relações sociais, que o faz não perceber que a "mídia" é sempre a mídia DE uma classe, que o valor da terra é algo criado e REcriado socialmente, e que um erro de ortografia não é uma traição ao sentido natural de uma essência. Como dizia o escolástico Duns Escoto: "o Ato [em si] não é o ato DE nada".
Abraço a todos.
Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 10:51 AM
#8
Marinho,
os operários da Volkswagen que compraram ações da Petrobrás, por exemplo, com o FGTS são, sim, sócios da empresa. No jargão marxista, eles são proprietários dos meios de produção e exploram a mais-valia do Sérgio Gabrielli, por exemplo, que é só mais um empregado. Absurdo, não? É por isso que digo que o peixe da economia contemporânea é grande demais para ser pescado pela rede da teoria marxista de há 150 anos. O texto do professor não faz nenhum esforço criativo para atualizar as categorias de Marx, se limitando a reproduzir o jargão.
***
Valdir,
se você quer "compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro", você tem que correr pra longe da teoria marxista. A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície. Esse é um dos trunfos de Marx e é um dos pontos pelos quais ele é muito criticado, acusado de reduzir tudo ao domínio da economia.
Rafael em fevereiro 10, 2011 10:52 AM
#9
Caro professor, não havia visto sua mensagem quando escrevi a que vai acima. Antes de tudo, agradeço o voluntarismo de identificar e me informar do "meu problema". Dizer que "a 'mídia' é sempre a mídia DE uma classe", porém, não resolve o problema de identificar que classe é essa, a ão ser que você realmente acredite que o adjetivo "burguesa" transmita, hoje, a mesma informação que transmitia no século XIX. A acusação de "naturalização das relações sociais" é uma saída antiga repetida por estudantes de esquerda aos seus críticos que, por não ser falsificável, cabe na boca de qualquer um. Eu só teria condições de respondê-la se concordasse com sua premissa de que a) existem classes estanques na sociedade, e b) a oposição e o conflito entre essas classes é o motor da história e fundamenta os "fenômenos" sociais. Estando claro que não é esse o caso, creio que nos falta solo comum para prosseguir a discussão.
Abraço
Rafael em fevereiro 10, 2011 11:04 AM
#10
Rafael, não concordo com tua reflexão sobre Marx. O Marx não tá do ponto de vista da mercadoria nem do lucro, como você insinuou. Pelo amor de Deus! Ele tava tentando construir o ponto de vista do trabalho, a partir do qual descrever as relações sociais. Se isso não ficou claro pra você, me desculpe, mas você não leu Marx. Hoje, o ponto de vista a ser sustentado e aprofundado seria, talvez, o do trabalho, talvez o do "antivalor", nas palavras de Francisco de Oliveira. Seja como for, é algo a ser pensado e construído (não está dado), algo que exige estudos, práticas e esforços coletivos.
Valdir em fevereiro 10, 2011 1:02 PM
#11
Bom, humildemente recomendo a leitura do livro "Capitalismo Sindical" de autoria de João Bernardo(autor português de vários livros e artigos sobre conflitos sociais) e Luciano Pereira. Acredito que assim possamos nos aprofundar melhor sobre o assunto dos tais "sócios".
Marinho em fevereiro 10, 2011 1:04 PM
#12
Rafael, leia Marx para criticá-lo. Ou então não leia e não critique. Repetir os lugares comuns dos críticos burgueses (sim, o adjetivo é de propósito, eu sou malvado de vez em quando) não é só errado, é feio e demonstra preguiça intelectual.
Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 1:38 PM
#13
Rafael: Se Marx considerasse que a condição de classe fosse puramente objetiva, e não uma RELAÇÃO, para ele um capitalista falido e um proletário seriam a mesma coisa, assim como o proprietário de algumas quotas de um fundo de pensão seria um capitalista . Só que NÃO É ASSIM: a classe é uma categoria RELACIONAL.
Saudações
Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 2:08 PM
#14
Caro Valdir,
não discordo de seu segundo post, nem sou o radical que posso ter me feito parecer. Gosto (apesar de, imodestamente, discordar) de Marx, não tanto dos marxistas. Lembre-se, no entanto, que sua proposição combatida por mim foi a de que a análise do professor Rebello trazia "um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro". Ainda sustento que ela o traz, e que mercadoria e lucro são pontos fundamentais (em todos os sentidos da palavra) de qualquer análise marxista. Talvez eu esteja errado.
Caro Luis Henrique,
a acusação de que não li Marx cabe na boca de qualquer um. Não vamos parar por aí (por que nos contentaríamos com tão pouco?).
Caro prodessor Rebello,
agradeço o esclarecimento e acato a crítica (que, no meu juízo, ajudou a tornar o argumento melhor, ainda que não completamente convincente). Na medida em que classe é uma categoria relacional, fico curioso sobre que posição ocupa nossa atual presidente da República (filha de empreiteiros, milionária e militante de esquerda).
Abraços
Rafael em fevereiro 10, 2011 4:57 PM
#15
Rafael: Como nossa atual presidente sempre ganhou a vida de modo geral na burocracia pública - e a sua lojinha de R$1,99 foi um episódio - ela é a líder política pequeno burguesa de um partido de base social operária e ideologia predominantemente reformista.
Sem mais
Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 7:37 PM
#16
Rafael, a "acusação" parte de sua completa falta de entendimento da obra de Marx. Talvez vc tenha lido; se leu, não entendeu nada. Sua idéia de que
A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície.
não se sustenta do ponto de vista de uma leitura mínima de Marx. Marx estava muito consciente de que a "lógica da mercadoria" só ocupa o centro dos processos sociais em sociedades capitalistas (não, por exemplo, em sociedades feudais ou primitivas), portanto ele não pode ter pretendido colocar essa lógica onde vc acha que ele a colocou. O que se passa é o completo oposto: num mundo em que a "lógica da mercadoria" ocupa, de fato, o centro de todos os processos sociais, é preciso "desnaturalizar" essa lógica, mostrar como ela é o resultado de um processo histórico e de ações humanas, e não a lógica inelutável da vida em sociedade. É isso que Marx faz, apesar de vc não ter percebido.
Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 8:46 PM
#17
Caro Luis Henrique,
está claro que concordamos mais do que discordamos. Ignorando as emissões de juízo sobre minha inepta interpretação de Marx, você me diz o seguinte:
1. "Marx estava muito consciente de que a 'lógica da mercadoria' só ocupa o centro dos processos sociais em sociedades capitalistas";
2. "a 'lógica da mercadoria' ocupa, de fato, o centro de todos os processos sociais";
3. "é preciso 'desnaturalizar' essa lógica, mostrar como ela é o resultado de um processo histórico e de ações humanas, e não a lógica inelutável da vida em sociedade".
Ao que respondo:
- Não mencionei, em qualquer momento, a questão da mercadoria em sociedades feudais ou "primitivas". Quero crer que está claro, pelo contexto da discussão com o Valdir, que eu me referia à sociedade capitalista. De qualquer maneira, fica o registro do complemento: "(...) todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais da sociedade capitalista";
- Concordo (apenas na medida em que sua asserção diz respeito à interpretação marxista. Quanto a mim, não acredito que vivamos hoje ou que se tenha vivido no século XIX em uma sociedade em que "a 'lógica da mercadoria' ocupa o centro de todos os processos sociais". Acredito que outras esferas, como a política e a cultural, têm dinâmicas próprias, que interagem com mas não dependem da esfera econômica);
- Mais uma vez, em momento algum sugeri que Marx *não* pretendesse "desnaturalizar" a lógica econômica da sociedade capitalista. Não sei, portanto, qual é o alvo da sua crítica. Aliás, essa "desnaturalização" do trabalho em Marx não é nem mesmo nova, podendo ser encontrada em Hegel e até mesmo na condenação de Locke ao uso do produto do trabalho com fins de comércio (em vez de consumo próprio).
Abraço
Rafael em fevereiro 10, 2011 10:19 PM
#18
Rafael:
Quanto a mim, não acredito que vivamos hoje ou que se tenha vivido no século XIX em uma sociedade em que "a 'lógica da mercadoria' ocupa o centro de todos os processos sociais".
Bom, não creio que seja possível falar em "uma sociedade" no século XIX. Nem eram todas as sociedades do século XIX dominadas pela "lógica da mercadoria", por que não eram, em sua maioria, sociedades capitalistas.
Acredito que outras esferas, como a política e a cultural, têm dinâmicas próprias, que interagem com mas não dependem da esfera econômica)
Não se trata de "dependência da esfera econômica", mas de que a "lógica" do sistema perpassa todas as suas "esferas".
Mais uma vez, em momento algum sugeri que Marx *não* pretendesse "desnaturalizar" a lógica econômica da sociedade capitalista.
Acho que sugeriu, sim, embora talvez não intencionalmente. Senão vejamos:
se você quer "compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro", você tem que correr pra longe da teoria marxista. A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície.
Ora, o que transparece do trecho acima é que vc acredita que Marx "reduz tudo à economia" e não vê a possibilidade de "um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro". E, portanto, que, para Marx, a "lógica da mercadoria" seria... natural. Por isso, aliás, vc aconselha o Valdir a "correr pra longe da teoria marxista". Ora, trata-se exatamente do contrário: para combater o ponto de vista da mercadoria e do lucro, nada melhor do que a teoria marxista: pois ela descreve e desmonta o ponto de vista da mercadoria e do lucro exatamente para fundar a possibilidade de nos libertarmos dela.
Aliás, essa "desnaturalização" do trabalho em Marx não é nem mesmo nova, podendo ser encontrada em Hegel e até mesmo na condenação de Locke ao uso do produto do trabalho com fins de comércio (em vez de consumo próprio).
Olha, nunca li nem Hegel nem Locke, pelo menos não com a atenção suficiente para me sentir capacitado a debater se eles são ou não precursores de Marx nesse aspecto. O que posso dizer a respeito, é que nem Hegel nem Locke fundaram uma prática social que combatesse a naturalização da lógica do capital (onde é que a desnaturalização da lógica do capital de repente se transforma em "desnaturalização do trabalho", aliás?) Ou, para ficar na generalidade, citar de novo a epígrafe do texto do professor Carlos Eduardo, em que Marx critica Feuerbach:
“Feuerbach não vê que o mundo sensível ao seu redor não é algo que exista desde a eternidade, que permaneça sempre o mesmo, mas o produto da indústria e do estado da sociedade; de fato, um produto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma sucessão de gerações”
E se Feuerbach é, segundo Marx, incapaz de desnaturalizar a sociedade, não creio que alguém anterior a ele o tenha feito, pelo menos não da forma sistemática e intencional de Marx.
Luís Henrique em fevereiro 11, 2011 12:49 PM
#19
Vou dar meu pitaco no debate, já que li bastante Hegel e Locke, e já que gosto bastante de debater, e já que o Rafael tá afinzão de debater.
A questão do trabalho, no Hegel, aparece costurada com a lógica da "efetividade". O racional é o que existe, isto é, o que foi objetivado pelo trabalho humano e pela linguagem. Nesse sentido, Hegel não tem nada a ver com Locke. Locke pensa a partir do que Marx chamava de "robisonada". O individualismo, resultado da sociedade crescentemente industrial na Inglaterra, permite que o Locke pense em termos de "indivíduos" e contratos.
Hegel, pelo contrário, tentou pensar uma maneira de superar o problema do indivíduo como um ser separado da sociedade. É bem complexo o debate já que Hegel seria uma espécie de opositor do pensamento contratualista, como em Locke ou Hobbes ou Rousseau. Marx aproveita bastante do Hegel justamente porque tenta se opôr ao ponto de vista inglês, já inserido na racionalização do capital. Com Hegel, Marx partia de um pensamento ainda não racionalizado, um pensamento ainda não dividido em esferas ou quase já dividido, sei lá.
Mas o caso é que Hegel entende a propriedade como o centro da entrada na "sociedade civil", na vida contratual etc (ver os Princípios da Filosofia do Direito). O Marx opera de outra maneira. Ele dirá: os sem-propriedade também compõe a vida social, devem se unir e se fazer ouvir e planejar suas próprias vidas.
Não sei a que vem argumentar em prol da novidade ou não do pensamento de Marx sobre o trabalho. Marx parte de uma idéia de acúmulo e superação, boa parte do que ele pensou era conquistado por um conjunto imenso de comunistas, por Hegel etc. Um dos objetivos o velho barbudo era continuar Hegel e ir além das concepções de originalidade que são para ele uma ilusão das sociedades atomizadas, individualizadas, ou, nos termos do próprio Hegel, alienadas.
Marx, tenho a impressão, daria uma boa gargalhada com essa história de idéia "nova". É claro que não é novidade. Mas por que deveria ser? De outro lado, daria duas boas gargalhadas com alguém dizendo que seu conceito de trabalho está na condenação do Locke ao produto de trabalho dirigido para o comércio. Pelo contrário, o conceito de trabalho em Marx marca posição contra a racionalidade do capital que atravessa o Locke no sentido de fazer supor um homem capaz de viver por si, isto é, um homem que prescinde do trabalho do outro (quando, na verdade, ele não prescinde desse trabalho, que lhe possibilita tudo, até o ócio para pensar, apenas não o experencia como parte de sua vida).
Valdir em fevereiro 11, 2011 2:00 PM