Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email:
idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro







selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« O triste destino do anti-lulismo, por Paulo Candido :: Pag. Principal :: 31º aniversário do PT: algumas memórias »

quarta-feira, 09 de fevereiro 2011

Notas de um veranista: considerações tempestivas sobre a catástrofe ecológica da Serra Fluminense, por Carlos Eduardo Rebello de Mendonça

O Prof. Carlos Eduardo Rebello de Mendonça é o autor de Trotski: Diante do Socialismo Real.


“Feuerbach não vê que o mundo sensível ao seu redor não é algo que exista desde a eternidade, que permaneça sempre o mesmo, mas o produto da indústria e do estado da sociedade; de fato, um produto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma sucessão de gerações”
– Marx & Engels, A Ideologia Alemã.

No episódio da catástrofe de janeiro de 2011 na Serra Fluminense, os que esperavam que a mídia burguesa brasileira e as autoridades resolvessem apresentar como culpado o lumpesinato que insistiu em morar em barracos desmatando encostas, a ser disciplinado pelas autoridades públicas, enganaram-se: o que vimos foi principalmente a admissão quase que imediata dos erros do passado em matéria de políticas de habitação e de ocupação do espaço urbano, e promessas de reformas radicais, acompanhadas de apelos para que não fossem procurados culpados: a questão era agora a de concentrar-se na ação para impedir catástrofes futuras.

Não apenas este discurso que propõe olhar apenas para o futuro não parece ter conseguido evitar a repetição de práticas públicas viciadas, como as decorrentes da dispensa de licitação em caso de calamidade pública, como também padece de defeitos de argumentação. O principal é que identificar a calamidade com o “passado” em nome do “futuro” é praticar aquilo que Pierre Bourdieu chamava de indignação retrospectiva: condenar um passado tido como acabado em nome do futuro é basicamente legitimar as práticas e a autoridade presentes – marcar pontos para nós contra os gestores passados. E o problema é que, para que possamos traçar uma linha tão inultrapassável entre passado e futuro, é preciso partirmos da idéia de que o problema a nossa frente é puramente uma questão técnica: a escolha de lugares , de materiais de construção, o assentamento de populações. Ora, a questão que temos a nossa frente não é técnica, mas principalmente social: uma questão não deste ou daquele episódio de escolhas tecnológicas infelizes, mas de todo um processo histórico iniciado no passado e continuado no presente. Como dirá Žižek: o raciocínio verdadeiramente ideológico não está na internalização dos valores, mas na redução de todas as questões ao meramente contingente , ao acaso – o que nos dispensa de enfrentar a lógica real do sistema.

Não sendo eu especialista na área, o que pretendo aqui é apenas fazer um esboço quanto a certas questões que me parecem dignas de análise posterior. Isso – e mais cinqüenta anos de contato quotidiano com os problemas da Serra Fluminense, através da casa de vilegiatura que o meu avô materno resolveu, no início dos anos 1960 construir em Itaipava – predispõem-me a escrever estas notas.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a Serra do Rio de Janeiro, na década de 1960, estava longe de ser o paraíso ecológico que os articulistas da mídia consideram haver sido violado na sua pureza prístina pelos favelados das décadas subseqüentes: muito pelo contrário, lembro-me – uma lembrança apoiada nas fotografias disponíveis – que o entorno da casa em Itaipava, num terreno desmembrado de uma antiga sede de fazenda , fora uma ou outra árvore, era todo coberto por um pasto sujo onde pastavam algumas cabeças de gado mal cuidadas – a paisagem mais usual até hoje na maior parte do Sudeste rural do Brasil, com os seus restos de latifúndios cafeeiros decadentes reconvertidos para a pecuária. A Serra como “paraíso ecológico” é principalmente uma conseqüência da decadência da atividade agrícola e da reconstituição espontânea de florestas secundárias em terras mantidas como reserva de especulação; como uma vez ouvi do meu professor de jardinagem , “em Itaipava não existem árvores centenárias”.

Fora pastos de capim gordura, o que mais se via naquele entorno eram as pequenas granjas dedicadas ao negócio de venda de flores silvestres – com os caminhões que passavam diariamente para levar as cestas de flores cortadas ao mercado da Praça XV no Rio de Janeiro – e o casebre nas vizinhanças da fazenda onde morava uma família de colonos aos farrapos, com a fumaça do fogão a lenha saindo de uma chaminé cujo tubo furava a parede, crianças nuas com barrigões de verminoses várias, e os adolescentes desdentados que nos vendiam leite em garrafas recicladas com tampa de sabugo. Desenvolvimento desigual e combinado: era aquilo que se chama até hoje “agricultura de subsistência” que longe de ser produção para auto-consumo, era uma tentativa de meeeiros, parceiros e pequenos proprietários de sobreviverem – talvez acumularem – na periferia do centro capitalista. Nas noites sem luz elétrica, deixávamos o lampião na varanda, e atraíamos dezenas de besouros – muito provavelmente pragas de pasto – que eram quase que imediatamente seguidos pelos sapos cururus e eventualmente uma aranha caranguejeira. Pássaros, quase que só os anus e bicos-de-lacre, espécies de áreas de campo degradadas. Se era a “volta à Natureza”, era a Natureza da Ideologia Alemã – a Natureza como expressão da atividade produtiva humana, e como tal, da luta de classes.

À medida que passava a década de 1970, os colonos foram mandados embora, a velha sede da fazenda trocou de mãos e foi demolida para ser reconstruída como casa de campo e de aluguel para grupos por temporada (enquanto a própria fazenda virava sítio de lazer), tudo enquanto a produção de flores desaparecia quase que totalmente (permaneceram alguns negócios reconstruídos sob bases tecnológicas sofisticadas, inacessíveis ao agricultor comum) diante do uso crescente das terras como casas de veraneio e loteamentos para formação de condomínios. Eram as conseqüências regionais da contra-reforma agrária da ditadura militar: a terra convertida numa mercadoria, numa espécie de kit que permitia à pequeno-burguesia emergente da época sentir-se parte da elite, gozar numa versão reduzida do imóvel de vilegiatura que até então havia sido um privilégio da alta burguesia; a residência secundária, que até então era parte da esfera pública – do nomadismo institucional das elites políticas e sociais do Império, da República Velha e da Era Vargas, que moviam sua “corte” para suas fazendas no Verão - tornou-se um luxo privado.

Tudo acompanhado, na década de 1980, do surgimento de uma infra-estrutura de lazer “sofisticado” e de “bom gosto”: “pólos gastronômicos” vendendo uma culinária sofisticada que não correspondia a nada de local, os indefectíveis shoppings, a agricultura “orgânica” etc., etc. Paradoxalmente, o abandono da atividade agrícola tradicional fazia com que a região, em determinados lugares, tomasse uma aparência cada vez mais florestal, ainda que artificial (grande parte das espécies de plantas e animais existentes nestas áreas são produto da introdução humana, para desgosto dos puristas) – na medida mesmo em que “Natureza” e “biodiversidade” , “paisagem” eram produzidas para serem vendidas como mercadorias – a custa do evisceramento da população agrícola tradicional; uma versão em miniatura da África dos safáris, com suas reservas animais recheadas de uma fauna que jamais havia existido historicamente desta forma, e que foi criada através da expulsão deliberada das populações nativas. Era também a expressão fenomenológica do processo geral ocorrido no campo brasileiro nos últimos quarenta anos: a desumanização geral do meio rural em favor da acumulação burguesa - e, quanto a isso, era indiferente que esta desumanização fosse realizada em proveito da Natureza “intocada” e não da soja ou da cana de açúcar. Foi na década de 80 que o nosso velho caseiro foi posto para fora do pedaço de terra que vinha cultivando informalmente na propriedade de um vizinho, para que fosse construído um chalé no local.

Bem ou mal, no entanto – poderiam dizer os apologistas do desenvolvimentismo como modo de resolução de todas as contradições – o mercado de trabalho regional ajustou-se, na medida em que a mão-de-obra da região trocou, de uma geração a outra, a agricultura pelos serviços, a casa de colono pelo trabalho como garçom, balconista, camareiro, pedreiro – e que mal haveria nisto, senão da parte de quem aprecia a idiotia rural e a verminose? Como o marxismo, neste país, foi apropriado pela ideologia desenvolvimentista, continua ainda sendo necessário lembrar aos nossos marxistas (vulgares) que o velho “Desenvolvimento da Forças Produtivas” não é uma panacéia mágica, na medida em que ele realiza-se nos limites e nas condições fixadas pelas Relações de Produção – com as quais inevitavelmente entra em contradição , dizia o velho Marx do Prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política.

Os limites das Relações de Produção são os da propriedade privada burguesa – a da terra como de qualquer outra coisa. Quem passa a trabalhar na cidade depois de ser excluído do campo tem de ter onde morar – o que significa, nas condições do meio urbano brasileiro, comprar o direito de habitar; o que, por sua vez, para a população de baixa renda, significa, ou depender “da bondade de estranhos”, ou morar em um barraco construído em terras de propriedade pouco definida: encostas, barrancos, beiras de abismo, margens de rio. É claro que, neste processo de favelização, não foi negligenciável o papel de uma lumpen-burguesia especulando sobre casas de aluguel em favelas, da “demagogia” populista e assistencialista e das decisões judiciais de juridicidade e valor duvidosos; mas todos estes fatores não surgiram do vácuo e sim responderam a uma demanda social concreta – a de pessoas que não tinham onde morar regularmente. E não será enlatando refugiados ambientais em coelheiras de concreto nas periferias urbanas que o problema será solucionado. Há quem acredite nas supremas virtudes do “cacete ambiental” como instrumento de preservação ecológico; não é, pessoalmente, o meu caso.

Talvez a questão seja, em parte, a de romper com um modelo de estímulo à atividade econômica fundado num consumismo vulgar, que “consome” casas com piscina do mesmo modo que consome pólos gastronômicos; tentar estimular o acesso das massas a atividades econômicas qualificadas, que incorporem alta tecnologia e/ou manejo ambiental, também. Mas sem alguma forma de interferência nas “relações de produção”, isto é, na propriedade privada, nada de realmente sustentável será feito. Sem reforma urbana e agrária, não haverá verdadeira preservação do meio ambiente no Brasil.

O grande problema é que, se chegamos, de um lado objetivamente a uma situação em que a preservação ecológica transcende qualquer interesse de classe, em função do jogo das “externalidades” ecológicas (a corrente de uma enchente que se forma numa área favelizada devasta tanto a favela quanto mansões de veraneio e pousadas, matando sem distinção de classe, como se viu no Vale do Cuiabá), subjetivamente o desejo de preservar privilégios de classe “tradicionais” e “razoáveis” pode superpor-se até ao sentido de auto-preservação: a luta de classes não é um processo racional, diz Isaac Deutscher. Ou, como dizia Trotsky em 1905: o Capital, no exercício dos seus supostos direitos, está tão penetrado da sua Metafísica da Violência, que freqüentemente prefere arriscar a vida a perder tais direitos, e pode ir às últimas conseqüências contra quem preferir escolher a vida...

Por enquanto, é isso que há a dizer.



  Escrito por Idelber às 05:04 | link para este post | Comentários (19)


Comentários

#1

Caro professor:

- Se for para recuperar os termos de um marxismo de há 150 anos, é preciso fazê-lo com maior sofisticação. "Mídia burguesa" é uma categoria analítica que não me diz nada nessa época em que operários são acionistas de multinacionais;

- "a terra convertida numa mercadoria" é uma das "conseqüências regionais da contra-reforma agrária da ditadura militar"? Se for assim, os generais trouceram o capitalismo para cá com dois séculos de atraso;

- As reduções contingenciais do desastre foram parte minoritária da reação à tragédia do Rio de Janeiro. Houve, sim, ao contrário do que o senhor afirma, análises que buscaram identificar as causas dos desabamentos no domínio da ordem, não apenas no domínio do particular. Talvez essas análises não tenha mobilizado os instrumentos que você acha mais adequados para entender o fenômeno, mas então sua crítica mirou o alvo errado. Difícil vai ser encontrar o registro de algum analista (não trato dos atores políticos) afirmando que a calamidade foi extemporânea.

Abraços

Rafael em fevereiro 9, 2011 9:59 AM


#2

Porra, o "trouceram" ali foi dose. Culpo a proximidade entre "X" e "C" no teclado, a concentração de renda e o colonialismo português.

Rafael em fevereiro 9, 2011 10:25 AM


#3


Não creio que agora trabalhadores sejam "acionistas" de multinacionais. Creio que há vários sindicatos que são acionistas de grandes empresas,um capitalismo sindical por assim dizer.

Marinho em fevereiro 9, 2011 12:51 PM


#4

Adorei! Como dizia o alex hoje no tuiter: to cheia de ler sempre as mesmas opiniões sobre os mesmos assuntos. No caso, ele falava do monte de blogs que resolveram analisar um filme concorrente ao oscar.

Ai, venho aqui ao Biscoito, e encontro originalidade e beleza em um texto sobre um assunto que foi muito falado, mas nunca com essa perspectiva.

Sobre o assunto em si, o que tenho a acrescentar é que vi esse processo no rio, depois percebi que ele aconteceu também no entorno de são paulo (campos do jordão para mim é um lugar perigoso e nojento), e senti ele acontecendo no litoral paulista. Qd fui morar em sampa, praias como camburi e boiçucanga eram praticamente desertas (1985). Aos poucos, os paulistanos foram tomando conta do pedaço e expulsando os pescadores e suas comunidades. Hoje aquela região é um inferno, pontilhado de hoteis "chics", gastronomia "sofisticada" e favelas prontas a serem derrubadas por uma chuva mais forte.
Acredito que existam outros exemplos brasil afora.

aiaiai em fevereiro 9, 2011 2:49 PM


#5

Não concordo com o Rafael, aí de cima. É sempre bem vindo quando alguém tenta compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro. Quanto ao artigo, acho que seria possível mediar com mais vagar algumas passagens de Marx para o Rio, mas talvez não seja o momento, talvez nem fosse possível. Um texto não tem que dizer e fazer tudo, oras. Por fim: recentemente li um estudo do Antonio Candido que pode estar relacionado com o que se disse no post, "Parceiros do Rio Bonito".

Valdir em fevereiro 10, 2011 9:38 AM


#6

Só não entendi a relação (fora o gancho) com a tragédia deste ano.

Thuin em fevereiro 10, 2011 9:41 AM


#7

Vou responder em ordem inversa: Valdir, é certo que, sobre a dialética da agricultura de subsistência e do latifúndio, o livro do Cândido é uma referencia obrigatória, assim como o da Ma. Sylvia de Carvalho Franco, "Homens Livres na Ordem Escravocrta".

aiaiai, muito obrigado por ter entendido o que quis dizer, mas aí eu acrescentaria que, diferentemente da ocupação do litoral, que se fez sempre no sentido de enfear , na Serra muito do que foi feito acabou por criar uma beleza que se fez ao preço da exclusão: pois "todo monumento de civilização é também um monumento de barbárie" (Benjamin).

Rafael: seu problema me parece ser algo usual, a naturalização das relações sociais, que o faz não perceber que a "mídia" é sempre a mídia DE uma classe, que o valor da terra é algo criado e REcriado socialmente, e que um erro de ortografia não é uma traição ao sentido natural de uma essência. Como dizia o escolástico Duns Escoto: "o Ato [em si] não é o ato DE nada".

Abraço a todos.

Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 10:51 AM


#8

Marinho,

os operários da Volkswagen que compraram ações da Petrobrás, por exemplo, com o FGTS são, sim, sócios da empresa. No jargão marxista, eles são proprietários dos meios de produção e exploram a mais-valia do Sérgio Gabrielli, por exemplo, que é só mais um empregado. Absurdo, não? É por isso que digo que o peixe da economia contemporânea é grande demais para ser pescado pela rede da teoria marxista de há 150 anos. O texto do professor não faz nenhum esforço criativo para atualizar as categorias de Marx, se limitando a reproduzir o jargão.

***

Valdir,

se você quer "compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro", você tem que correr pra longe da teoria marxista. A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície. Esse é um dos trunfos de Marx e é um dos pontos pelos quais ele é muito criticado, acusado de reduzir tudo ao domínio da economia.

Rafael em fevereiro 10, 2011 10:52 AM


#9

Caro professor, não havia visto sua mensagem quando escrevi a que vai acima. Antes de tudo, agradeço o voluntarismo de identificar e me informar do "meu problema". Dizer que "a 'mídia' é sempre a mídia DE uma classe", porém, não resolve o problema de identificar que classe é essa, a ão ser que você realmente acredite que o adjetivo "burguesa" transmita, hoje, a mesma informação que transmitia no século XIX. A acusação de "naturalização das relações sociais" é uma saída antiga repetida por estudantes de esquerda aos seus críticos que, por não ser falsificável, cabe na boca de qualquer um. Eu só teria condições de respondê-la se concordasse com sua premissa de que a) existem classes estanques na sociedade, e b) a oposição e o conflito entre essas classes é o motor da história e fundamenta os "fenômenos" sociais. Estando claro que não é esse o caso, creio que nos falta solo comum para prosseguir a discussão.

Abraço

Rafael em fevereiro 10, 2011 11:04 AM


#10

Rafael, não concordo com tua reflexão sobre Marx. O Marx não tá do ponto de vista da mercadoria nem do lucro, como você insinuou. Pelo amor de Deus! Ele tava tentando construir o ponto de vista do trabalho, a partir do qual descrever as relações sociais. Se isso não ficou claro pra você, me desculpe, mas você não leu Marx. Hoje, o ponto de vista a ser sustentado e aprofundado seria, talvez, o do trabalho, talvez o do "antivalor", nas palavras de Francisco de Oliveira. Seja como for, é algo a ser pensado e construído (não está dado), algo que exige estudos, práticas e esforços coletivos.

Valdir em fevereiro 10, 2011 1:02 PM


#11

Bom, humildemente recomendo a leitura do livro "Capitalismo Sindical" de autoria de João Bernardo(autor português de vários livros e artigos sobre conflitos sociais) e Luciano Pereira. Acredito que assim possamos nos aprofundar melhor sobre o assunto dos tais "sócios".

Marinho em fevereiro 10, 2011 1:04 PM


#12

Rafael, leia Marx para criticá-lo. Ou então não leia e não critique. Repetir os lugares comuns dos críticos burgueses (sim, o adjetivo é de propósito, eu sou malvado de vez em quando) não é só errado, é feio e demonstra preguiça intelectual.

Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 1:38 PM


#13

Rafael: Se Marx considerasse que a condição de classe fosse puramente objetiva, e não uma RELAÇÃO, para ele um capitalista falido e um proletário seriam a mesma coisa, assim como o proprietário de algumas quotas de um fundo de pensão seria um capitalista . Só que NÃO É ASSIM: a classe é uma categoria RELACIONAL.

Saudações

Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 2:08 PM


#14

Caro Valdir,
não discordo de seu segundo post, nem sou o radical que posso ter me feito parecer. Gosto (apesar de, imodestamente, discordar) de Marx, não tanto dos marxistas. Lembre-se, no entanto, que sua proposição combatida por mim foi a de que a análise do professor Rebello trazia "um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro". Ainda sustento que ela o traz, e que mercadoria e lucro são pontos fundamentais (em todos os sentidos da palavra) de qualquer análise marxista. Talvez eu esteja errado.


Caro Luis Henrique,
a acusação de que não li Marx cabe na boca de qualquer um. Não vamos parar por aí (por que nos contentaríamos com tão pouco?).


Caro prodessor Rebello,
agradeço o esclarecimento e acato a crítica (que, no meu juízo, ajudou a tornar o argumento melhor, ainda que não completamente convincente). Na medida em que classe é uma categoria relacional, fico curioso sobre que posição ocupa nossa atual presidente da República (filha de empreiteiros, milionária e militante de esquerda).

Abraços

Rafael em fevereiro 10, 2011 4:57 PM


#15

Rafael: Como nossa atual presidente sempre ganhou a vida de modo geral na burocracia pública - e a sua lojinha de R$1,99 foi um episódio - ela é a líder política pequeno burguesa de um partido de base social operária e ideologia predominantemente reformista.

Sem mais

Carlos Eduardo Rebello de Mendonça em fevereiro 10, 2011 7:37 PM


#16

Rafael, a "acusação" parte de sua completa falta de entendimento da obra de Marx. Talvez vc tenha lido; se leu, não entendeu nada. Sua idéia de que

A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície.

não se sustenta do ponto de vista de uma leitura mínima de Marx. Marx estava muito consciente de que a "lógica da mercadoria" só ocupa o centro dos processos sociais em sociedades capitalistas (não, por exemplo, em sociedades feudais ou primitivas), portanto ele não pode ter pretendido colocar essa lógica onde vc acha que ele a colocou. O que se passa é o completo oposto: num mundo em que a "lógica da mercadoria" ocupa, de fato, o centro de todos os processos sociais, é preciso "desnaturalizar" essa lógica, mostrar como ela é o resultado de um processo histórico e de ações humanas, e não a lógica inelutável da vida em sociedade. É isso que Marx faz, apesar de vc não ter percebido.

Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 8:46 PM


#17

Caro Luis Henrique,

está claro que concordamos mais do que discordamos. Ignorando as emissões de juízo sobre minha inepta interpretação de Marx, você me diz o seguinte:

1. "Marx estava muito consciente de que a 'lógica da mercadoria' só ocupa o centro dos processos sociais em sociedades capitalistas";

2. "a 'lógica da mercadoria' ocupa, de fato, o centro de todos os processos sociais";

3. "é preciso 'desnaturalizar' essa lógica, mostrar como ela é o resultado de um processo histórico e de ações humanas, e não a lógica inelutável da vida em sociedade".

Ao que respondo:

- Não mencionei, em qualquer momento, a questão da mercadoria em sociedades feudais ou "primitivas". Quero crer que está claro, pelo contexto da discussão com o Valdir, que eu me referia à sociedade capitalista. De qualquer maneira, fica o registro do complemento: "(...) todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais da sociedade capitalista";

- Concordo (apenas na medida em que sua asserção diz respeito à interpretação marxista. Quanto a mim, não acredito que vivamos hoje ou que se tenha vivido no século XIX em uma sociedade em que "a 'lógica da mercadoria' ocupa o centro de todos os processos sociais". Acredito que outras esferas, como a política e a cultural, têm dinâmicas próprias, que interagem com mas não dependem da esfera econômica);

- Mais uma vez, em momento algum sugeri que Marx *não* pretendesse "desnaturalizar" a lógica econômica da sociedade capitalista. Não sei, portanto, qual é o alvo da sua crítica. Aliás, essa "desnaturalização" do trabalho em Marx não é nem mesmo nova, podendo ser encontrada em Hegel e até mesmo na condenação de Locke ao uso do produto do trabalho com fins de comércio (em vez de consumo próprio).

Abraço

Rafael em fevereiro 10, 2011 10:19 PM


#18

Rafael:

Quanto a mim, não acredito que vivamos hoje ou que se tenha vivido no século XIX em uma sociedade em que "a 'lógica da mercadoria' ocupa o centro de todos os processos sociais".

Bom, não creio que seja possível falar em "uma sociedade" no século XIX. Nem eram todas as sociedades do século XIX dominadas pela "lógica da mercadoria", por que não eram, em sua maioria, sociedades capitalistas.

Acredito que outras esferas, como a política e a cultural, têm dinâmicas próprias, que interagem com mas não dependem da esfera econômica)

Não se trata de "dependência da esfera econômica", mas de que a "lógica" do sistema perpassa todas as suas "esferas".

Mais uma vez, em momento algum sugeri que Marx *não* pretendesse "desnaturalizar" a lógica econômica da sociedade capitalista.

Acho que sugeriu, sim, embora talvez não intencionalmente. Senão vejamos:

se você quer "compreender os processos sociais de um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro", você tem que correr pra longe da teoria marxista. A grande marca de Marx é, exatamente, colocar a lógica da mercadoria e do lucro -- ou seja, a infra-estrutura -- no centro do entendimento de todos os processos sociais, políticos e até mesmo culturais -- que comporiam a super-estrutura, a superfície.

Ora, o que transparece do trecho acima é que vc acredita que Marx "reduz tudo à economia" e não vê a possibilidade de "um ponto de vista que não seja o da mercadoria e do lucro". E, portanto, que, para Marx, a "lógica da mercadoria" seria... natural. Por isso, aliás, vc aconselha o Valdir a "correr pra longe da teoria marxista". Ora, trata-se exatamente do contrário: para combater o ponto de vista da mercadoria e do lucro, nada melhor do que a teoria marxista: pois ela descreve e desmonta o ponto de vista da mercadoria e do lucro exatamente para fundar a possibilidade de nos libertarmos dela.

Aliás, essa "desnaturalização" do trabalho em Marx não é nem mesmo nova, podendo ser encontrada em Hegel e até mesmo na condenação de Locke ao uso do produto do trabalho com fins de comércio (em vez de consumo próprio).

Olha, nunca li nem Hegel nem Locke, pelo menos não com a atenção suficiente para me sentir capacitado a debater se eles são ou não precursores de Marx nesse aspecto. O que posso dizer a respeito, é que nem Hegel nem Locke fundaram uma prática social que combatesse a naturalização da lógica do capital (onde é que a desnaturalização da lógica do capital de repente se transforma em "desnaturalização do trabalho", aliás?) Ou, para ficar na generalidade, citar de novo a epígrafe do texto do professor Carlos Eduardo, em que Marx critica Feuerbach:

“Feuerbach não vê que o mundo sensível ao seu redor não é algo que exista desde a eternidade, que permaneça sempre o mesmo, mas o produto da indústria e do estado da sociedade; de fato, um produto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma sucessão de gerações”

E se Feuerbach é, segundo Marx, incapaz de desnaturalizar a sociedade, não creio que alguém anterior a ele o tenha feito, pelo menos não da forma sistemática e intencional de Marx.

Luís Henrique em fevereiro 11, 2011 12:49 PM


#19

Vou dar meu pitaco no debate, já que li bastante Hegel e Locke, e já que gosto bastante de debater, e já que o Rafael tá afinzão de debater.

A questão do trabalho, no Hegel, aparece costurada com a lógica da "efetividade". O racional é o que existe, isto é, o que foi objetivado pelo trabalho humano e pela linguagem. Nesse sentido, Hegel não tem nada a ver com Locke. Locke pensa a partir do que Marx chamava de "robisonada". O individualismo, resultado da sociedade crescentemente industrial na Inglaterra, permite que o Locke pense em termos de "indivíduos" e contratos.

Hegel, pelo contrário, tentou pensar uma maneira de superar o problema do indivíduo como um ser separado da sociedade. É bem complexo o debate já que Hegel seria uma espécie de opositor do pensamento contratualista, como em Locke ou Hobbes ou Rousseau. Marx aproveita bastante do Hegel justamente porque tenta se opôr ao ponto de vista inglês, já inserido na racionalização do capital. Com Hegel, Marx partia de um pensamento ainda não racionalizado, um pensamento ainda não dividido em esferas ou quase já dividido, sei lá.

Mas o caso é que Hegel entende a propriedade como o centro da entrada na "sociedade civil", na vida contratual etc (ver os Princípios da Filosofia do Direito). O Marx opera de outra maneira. Ele dirá: os sem-propriedade também compõe a vida social, devem se unir e se fazer ouvir e planejar suas próprias vidas.

Não sei a que vem argumentar em prol da novidade ou não do pensamento de Marx sobre o trabalho. Marx parte de uma idéia de acúmulo e superação, boa parte do que ele pensou era conquistado por um conjunto imenso de comunistas, por Hegel etc. Um dos objetivos o velho barbudo era continuar Hegel e ir além das concepções de originalidade que são para ele uma ilusão das sociedades atomizadas, individualizadas, ou, nos termos do próprio Hegel, alienadas.

Marx, tenho a impressão, daria uma boa gargalhada com essa história de idéia "nova". É claro que não é novidade. Mas por que deveria ser? De outro lado, daria duas boas gargalhadas com alguém dizendo que seu conceito de trabalho está na condenação do Locke ao produto de trabalho dirigido para o comércio. Pelo contrário, o conceito de trabalho em Marx marca posição contra a racionalidade do capital que atravessa o Locke no sentido de fazer supor um homem capaz de viver por si, isto é, um homem que prescinde do trabalho do outro (quando, na verdade, ele não prescinde desse trabalho, que lhe possibilita tudo, até o ócio para pensar, apenas não o experencia como parte de sua vida).

Valdir em fevereiro 11, 2011 2:00 PM