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segunda-feira, 07 de fevereiro 2011

O triste destino do anti-lulismo, por Paulo Candido

Um dos efeitos mais impressionantes dos oito anos de governo Lula foi a incorporação orgânica da conservação ao projeto de país ora conduzido e liderado principalmente pelo PT. Este fenômeno parece ter escapado à imprensa anti-Lula, à oposição partidária parlamentar e mesmo, em parte, aos que se querem ideólogos da direita.

A imprensa parece perdida. Calada. Entre a eleição e a posse, alguns veículos e colunistas imaginaram que poderiam ditar à presidenta o ritmo de escolha de ministros e a formação “ideal” de seu governo, como se este fosse um governo novo, inédito. Como se Dilma não tivesse vencido a eleição como a herdeira de Lula.

[Eu uso logo a inflexão de gênero simbólica, para marcar lado. Nossa ridícula grande imprensa, a Folha e o Globo à frente, insiste em “a presidente” por uma contrariedade infantil que logo se tornará apenas falta de educação. Nesta segunda mesmo O Globo publica uma nota informando que “A presidente estreia … o programa “Café com a Presidenta”. Não podendo modificar o nome do programa, o Globo escolhe deixar o leitor imaginando sobre o que a presidente conversará com a presidenta...]

Um ou outro analista ainda consegue ânimo para elogiar Dilma por seu “silêncio”, contrastado sempre positivamente com o “ruído” constante que Lula produzia. Mas rápido os mesmos analistas quase se lamentam da falta de uma pauta negativa. Um ou outro encontra ânimo para criticar o ministério, mas para logo notar que estamos ainda falando do mesmo – as mesmas pessoas, o mesmo programa de governo, a mesma base parlamentar, agora apenas um pouco maior. Nem mesmo uma tragédia da magnitude da que aconteceu na Serra do Rio conseguiu acordar os abutres de ontem. Alguém dúvida que um ano atrás Lula seria pessoalmente acusado pelas centenas de mortes em dezenas de artigos e editoriais?

A oposição partidária se desfaz de forma quase indecorosa. Ao final do processo eleitoral a oposição e sua imprensa tentaram cantar alguma vitória. Quarenta e quatro milhões de votos pareciam dar a José Serra o direito de nos ameaçar com seu breve retorno. Aécio Neves entendeu bem a frase “Isto não é um adeus, é um até logo” de seu companheiro e colocou seus planos para 2014 e 2018 em movimento imediatamente. O DEM, atrelado ao PSDB no plano nacional há oito anos, parece querer obedecer Lula ao pé da letra – como a eleição não foi suficiente para “extirpar” este partido da política nacional, os democratas contemplam o haraquiri público. As siglas tributárias menores, PPS e PV, se uniram em um “bloquinho” na esperança de ao menos não morrerem de solidão. Se Marina Silva conseguir firmar-se como liderança nacional talvez haja futuro para o PV e sobrevida para o PPS, na sua função de sigla auxiliar de alguma força que possa lhe dar alguma visibilidade e talvez algum cargo (uma subprefeitura ou talvez a coordenação de algum assunto virtual, qualquer coisa assim). Enquanto isto os dez governadores eleitos da oposição (oito do PSDB e dois do DEM) já declararam seu amor incondicional pela presidenta e por seu governo. La nave vá.

Esta catástrofe iminente, este pânico um tanto deslocado, eles não deixam de ser algo surpreendentes. Afinal, não custa repetir, a oposição conquistou de forma legítima 44 milhões de votos e 10 governos estaduais, entre eles São Paulo e Minas. Não haveria muita dificuldade em “recuar para os estados” e gestar um retorno organizado em 2014 ou 2018, até mesmo coordenando os programas estaduais em contraponto ao governo federal. Claro, alguém vai objetar que estamos falando da oposição brasileira, uma gente que em oito anos não conseguiu sequer articular um programa de governo alternativo minimamente coerente ( “Eu vou melhorar o que está dando certo e arrumar o que está dando errado” não é um programa de governo, é só um desejo ardente que ninguém pergunte muito).

Os ideólogos, enquanto isto, se descabelam. Denunciam Aécio por trair Serra. Denunciam o rebaixado deputado Guerra por apoiar Aécio. Quase choram com as trapalhadas do DEM (que se dão também em torno de e incentivadas por Aécio). Pedem oposição sem tréguas ou prisioneiros ao governo Dilma. Mas neste quadro de derretimento de seus partidos, não se sabe a quem pedem tal oposição. Com certeza não a Aécio. Cabe aqui o desvio. Me parece que há um engano sério em considerar tanto o PSDB quanto o DEM representantes naturais do conservadorismo no Brasil. E seguindo o rastro deste engano talvez nós possamos levantar uma ou outra ideia sobre a situação atual e futura da oposição e do governo

A interpretação que segue passa por caminhos pouco trilhados. Não a considero exclusiva nem principal, mas suplementar. Não é o caso de desprezar os fatores pessoais, as rivalidades internas, as avaliações estratégicas de cada grupo como causas do quadro triste que a oposição nos apresenta. Mas acho que vale acrescentar um fator menos aparente e mais simbólico, por assim dizer. E talvez o suplemento se mostre essencial para definir e entender o estado das coisas oposicionistas.

Eu proponho que, com o encerramento dos dois governos de Lula tanto o PSDB quanto o DEM perderam sua razão de existir. E que junto com sua razão de existir ambos perderam também muito de sua vontade de viver.

O PSDB nasce no final do anos 80 do século passado, aparentemente como uma reação a Quércia, mas quase imediatamente se torna a alternativa paulista preferencial ao projeto do PT. Pode-se dizer que o PSDB nasce unicamente para o poder, para se aproximar dele e tomá-lo o mais rápido possível. Abortada a tentativa de aderir ainda ao governo Collor, o partido adere ao governo Itamar e, graças ao plano Real, assume o poder em 1994. Assume no mesmo ano o governo de São Paulo, seu estado natal e para sempre sua jóia mais cara. Todo o trajeto do PSDB até a derrota em 2002 é marcadamente social-democrata (e isto é importante frisar). Para o bem ou para o mal, os tucanos estarão para sempre identificados com uma centro-esquerda universitária e com uma classe média mais ou menos progressista (no sentido globalizado da palavra), ainda que seu suporte no complexo financeiro e suas alianças à direita mostrem suas contradições. Mas, do 18 Brumário de Luis Bonaparte até o 31 de outubro de José Serra, a social democracia sempre foi este pensamento pendular que quer ser ao mesmo tempo capital e trabalho.

O DEM nasce em 2007 da mudança de nome do PFL, partido que abrigou os políticos mais “liberais” dentre os que apoiavam a ditadura e os mais “conservadores” dentre os que a ela faziam oposição. Gente como Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel. E nasce de um desejo de, ao mudar a geração de seus membros, mudar também a natureza de seu discurso. O DEM deseja desde o primeiro momento ser o partido conservador brasileiro e é assim recebido pela imprensa e pelos ideólogos mais à direita da imprensa. A vida real tende a desmanchar rapidamente nossos desejos: tanto a tentativa de renovação quanto qualquer ilusão de independência que o DEM pudesse ter fracassaram sob o impacto da realidade eleitoral e partidária de 2010. O partido não teve a capacidade de apresentar candidatos viáveis nem à Presidência nem à maioria dos estados. Seu futuro, caso continue existindo, parece ser o de eterno assistente à direita do PSDB, algo como uma garantia de bom comportamento ante às parcelas mais conservadoras da opinião pública.

Até aqui, nada de novo ou original. De um lado um partido esquerda com fortes raízes nos movimentos populares e no sindicalismo, ao centro um partido social-democrata cujo verniz de esquerda ajuda a dourar a pílula do nosso capitalismo modernizante e à direita os conservadores fiscais e sociais. Exceto que entre isto e o mundo houve Lula.

Desde sempre, mas especialmente após a vitória em 2002, a relação da imprensa com Lula foi marcada pelo preconceito de classe. Um os primeiros efeitos do preconceito é a cegueira. Cegos por seu desprezo, os analistas da grande imprensa jamais acreditaram em Lula ou em seu governo. Aguardaram o desastre como abutres aguardando a morte de sua presa. Em 2005 tiveram seus dias de glória, a vitória e o retorno ao que entendem (ainda) por “normalidade” ao alcance da mão.

Incentivados e fundamentalmente dependentes de sua relação com esta imprensa, os partidos de oposição se deixaram redefinir, para além de suas diferenças ideológicas ou programáticas, como partidos anti-Lula. Não fundamentalmente anti-PT nem anti-esquerda, nem ao menos anti-governo, mas anti-Lula. Desinformados pelo preconceito de seus próprios intelectuais e jornalistas, estes partidos e seus políticos se deixaram enredar numa armadilha magistral tecida pelo PT por mais de uma década antes da chegada ao poder. Uma armadilha que os levou de representantes naturais de determinados grupos sociais a um vazio ideológico que ao que tudo indica não tem volta ou saída.

O pânico cultivado durante os meses que antecederam à vitória de Lula em 2002 ajudou a criar um primeira cortina de fumaça, especialmente ao ser substituído por um alívio coletivo. O PT no poder não estava destruindo a economia, estatizando meios de produção e expropriando latifúndios. Naquele primeiro momento, forçado a uma aliança com pequenos partidos e pedaços esparsos do PMDB, o governo Lula apenas cuidava de consertar a administração econômica desastrada dos últimos anos de FHC e a lançar pequenos balões de ensaio em direção à sociedade, como o Fome Zero. A cara do governo não era muito diferente do governo anterior, ainda que o espírito fosse completamente outro. Onde havia um marasmo e uma resignação à nossa pequenez e desimportância ante à globalização e aos desejos dos países centrais, aparecia agora uma estranha altivez, um orgulho que a análise preconceituosa interpretou como bravata de um presidente despreparado. Orgulho de pobre, por assim dizer.

Mas a impressionante retórica de Lula e sua inteligência, somados a operadores sutis e extremamente habilidosos e competentes como Dirceu, Palocci e Dilma (esta última ainda considerada apenas uma ministra “técnica”) escondia um movimento que apenas no final do primeiro mandato, já sem os dois primeiros, se revelaria inteiro.

O preconceito e a ignorância da imprensa e da oposição ajudou muito. Na verdade, ambos foram instrumentais na construção do Lula mitológico, tanto por ação quanto por inação. Ao atribuir a Lula uma estatura quase divina, a oposição apenas fez crescer o mito e efetivamente passou a enfrentar um fantasma, um espectro. Não era contra o Lula real e seu governo que gente como Artur Virgílio e Tasso Jereissati bradava nas tribunas do Senado, mas contra um monstro de sua própria invenção, cujas intenções traduziam os temores e desejos profundos da oposição muito mais que as ações do governo: terceiro mandato, ameaças à liberdade de expressão, aparelhamento do Estado, só para citar alguns (a lista é imensa). Combater cada uma destas fantasias exigiu esforços sobre-humanos da oposição. Esforços absolutamente infrutíferos: as fantasias continuam tão fortes quanto antes pois, enquanto fantasias, não podem ser destruídas por combate direto. Na verdade nem existem, exceto no inconsciente de seus receptáculos (no caso em pauta, no inconsciente coletivo de uma certa elite intelectual e política).

Enquanto a oposição se desgastava combatendo um Lula imaginário e ajudando a definir por contraste o que André Singer chamou de “lulismo”, aumentando cada vez mais a estatura mitológica do presidente, o Lula real e seus auxiliares operavam para destruir qualquer possibilidade da oposição vencer a luta real. De uma forma quase cruel, a vitória em 2006 sobre a tentativa de golpe e o segundo mandato, com a maturação dos programas sociais, a aliança ampla com o PMDB e a inserção dos novos programas (PACs, Minha Casa Minha Vida, etc) subtraem da oposição muito mais que bandeiras, retiram dela sua própria identidade política.

Em primeiro lugar, os projetos sociais de largo alcance do governo Lula acoplados à gestão eficiente da economia retiram de forma brutal o PSDB do espaço social-democrata no espectro político. O Partido da Social Democracia Brasileira havia governado o país por oito anos e feito nada ou quase nada pelos miseráveis, exceto repetir o discurso liberal (no sentido bem clássico) de salvação pelo mercado. O Bolsa Família foi recebido por esses sociais democratas com resmungos de Bolsa Esmola. Outros programas não tiveram recepção melhor. Seu auto-engano é tal que ainda esta semana a coordenadora de Internet da campanha da oposição escreve em seu blog, talvez esquecida que a campanha terminou faz mais de três meses, que “estamos saindo de um governo entre medíocre e horrível”. Claro que a ex-subprefeita vive uma confortável vida de classe média em um bairro central de São Paulo. E claro que a candidata do governo medíocre e horrível venceu a eleição contra o ex-governador apoiado pela ex-subprefeita (ex-governador que então só poderia então ser adjetivado ao inverso, de excelente e lindo? Serra?).

Em segundo lugar, não menos importante na avaliação geral do governo, durante os mandatos de Lula o Brasil se tornou uma voz ativa no cenário internacional. Sob vaias e críticas pesadas da imprensa e de seu braço político, incapazes de enxergar a necessidade e a oportunidade única do que estava sendo feito. Aliás, neste aspecto o governo FHC foi mais que medíocre, beirou a alta traição. Sempre pronto a “retirar os sapatos” para as necessidades das grandes potências, é até espantoso que o Brasil não tenha seguido a Argentina na aventura iraquiana de Bush. De 1994 a 2002 tudo se passou como se Fernando Henrique, muito ao contrário de “esquecer o que escreveu”, tentasse dar ao mundo uma demonstração prática da Teoria da Dependência.

Por fim, a criticada aliança à direita, aliança que repetia quase que integralmente a aliança do governo anterior inclusive nos nomes (Nelson Jobim, Renan Calheiros, os Sarney e uma longa lista de etceteras), completou durante o segundo mandato o movimento de pinça, negando ao DEM seu habitat natural e fechando na prática a porta conservadora ao PSDB (como a última campanha, ao invés de refutar, demonstrou).

Este último ponto merece ampliação. O Brasil é um país conservador. Mesmo se não existissem as inúmeras pesquisas confirmando tal percepção, um simples passeio atento pelas ruas é suficiente para verificar tanto a religiosidade que perpassa todos os aspectos da vida social do país quanto o racismo, a homofobia, o machismo e a violência generalizada contra grupos fragilizados (incluídos, além das óbvias minorias implicadas antes, todos os pobres e miseráveis). Mas este conservadorismo não se traduz nem em linhas partidárias claras nem em um programa único. O Brasil é um país conservador sem conservadores, por assim dizer, pois não necessita deles. O estado natural não precisa se explicar ou se fazer representar, ele simplesmente é.

Assim, os conservadores se espalham por todos os partidos e se dividem pelas bandeiras conservadoras de forma não-linear. Além disto, fora das caricaturas ideológicas da imprensa e da internet, não existe “o conservador”. A mesma pessoa pode ser contra o aborto e a favor do casamento homossexual. Contra a abertura dos arquivos da ditadura e a favor da liberação da maconha. O mesmo intelectual pode achar que raça não existe mas que o Bolsa Família é uma boa ideia. Ou seja, o objetivo político mais interessante não é se identificar claramente como conservador mas se tornar fiador do discurso da conservação.

E fiador do discurso da conservação, não por palavras mas por atos, o PT se tornou. Exemplos não faltam. A senadora Katia Abreu pode espernear seu oposicionismo agrícola à vontade, mas foi durante o governo Lula, com o Incra supostamente “aparelhado” pelo MST, que a reforma agrária saiu da pauta da sociedade. Não se abriram os arquivos da ditadura. Andou-se muito pouco na proteção das minorias. A mera discussão dos direitos reprodutivos se tornou anátema. Há inúmeros exemplos. Todo o discurso radical caiu por terra, seus representantes isolados ou mesmo expulsos do convívio “civilizado”. As determinações econômicas se sobrepuseram sem trégua a qualquer outra consideração. As necessidades políticas pequenas falaram em um volume quase ensurdecedor.

É preciso enfatizar que o todo do governo é maior que a soma das partes. Nem o governo Lula foi intrinsecamente conservador nem seus sucessos ou fracassos foram absolutos. A garantia da conservação aparece aqui não como simples imobilismo mas como oportunidade de negociação, de luta. O que Lula fez foi apenas retirar aparentemente o governo da frente de batalha, ainda assim deixando avançar as pautas ideológicas pelas bordas. Basta lembrar a Confecom e o PNDH 3, tão atacados pela imprensa e pela oposição.

Qual o resultado deste movimento, do qual eu destaquei três aspectos mais proeminentes (há outros, claro)? O resultado, pode-se dizer, é o governo Dilma e a perspectiva dos lendários 20 anos no poder para o PT e seus aliados. O resultado foi o asfixiamento do PSDB e do DEM, o desaparecimento de seus espaços políticos vitais, a derrota acachapante da oposição parlamentar ao governo Lula. Senadores históricos perderam seus mandatos e vagam insones por suas mansões coloniais no Nordeste, tentando ainda entender o que houve. O próprio presidente do PSDB foi “rebaixado” de senador para deputado.

A aliança oposicionista vai à eleição de 2010 sem programa de governo. Tateando aqui e ali, consegue uma única pauta, o fanatismo religioso do movimento anti-aborto. Que não funciona porque, após o primeiro impacto, a ação das forças conservadoras que apoiam o governo Lula recoloca a campanha no eixo. Serra tenta ser pró-Lula, depois tenta encampar todos os programas sociais do governo Lula como ideias suas ou do PSDB, um erro estratégico por muitas razões. Primeiro porque era mentira, mas isto nunca deteve a oposição. Segundo porque expõe a posição fragilizada de seu partido: não podem mais assumir em discurso o que o governo Lula fez na prática. A exigência de paternidade vem junto com uma admissão implícita de incompetência, geraram programas mas não souberam torná-los ferramentas de transformação social.

Nos anos precedentes tanto a imprensa quanto seus políticos tinham quase certeza de vitória em 2010. Não haveria Lula. Não haveria transferência de votos para um “poste”. A leitura de textos tão recentes quanto o final de 2009 mostra analistas declarando que o candidato do PSDB, Serra ou Aécio na época, venceria fácil. Nenhum deles percebeu que muito antes da escolha de Dilma como candidata o jogo já estava praticamente jogado.

E o “pós-jogo” é psicologicamente avassalador para a oposição. Eu disse antes, PSDB e DEM perderam suas razões originais para existir. Como é possível ser anti-Lula se não há Lula? Tentam, ainda, manchar sua biografia, falar em herança maldita (de Dilma para ela mesma, por sinal), se preocupar com passaportes e férias e aluguel de jatinhos. Mas a realidade concreta sempre se sobrepõe às fantasias. Lula não buscou o terceiro mandato O aparelhamento do Estado é ilusório. A imprensa sempre falou o quis contra Lula e o governo e continua falando (mas agora, outro indicador do preconceito que pautava as redações, sem os subtons de ódio e desprezo sempre presentes nas críticas a Lula). A oposição como que perdeu seu único objetivo, seu único lastro, sua paixão. A oposição perdeu Lula.

Estes partidos não vão desaparecer necessariamente, mas certamente não serão mais a referência. Aécio, quando fala em pós-Lula e em “refundação” indica que entendeu o quadro melhor que muitos. Refundação é um reinício do zero e zero é quase só o que restou das ideias originais do PSDB. A batalha entre aecistas e serristas pelo controle do DEM também mostra que acabou também a aliança automática com o PSDB paulista. É bem possível que grandes parcelas do DEM mudem-se para o PMDB e, consequentemente, para a situação.

Da velha oposição restam os hipnóticos 44 milhões de votos, que Serra não cansa de citar. Entretanto, fora do campo retórico estes votos não são representativos. Não que estes eleitores não o sejam, apenas eles se tornaram agora um problema da vencedora. É Dilma que precisa convencer os que não votaram nela da sua capacidade para o cargo que ocupa. Mas além disto, estes votos não são de Serra. Um quarto deles talvez tenham vindo de Marina, e não apenas dos eleitores conservadores de Marina. Outra parte significativa veio do DEM. E boa parte veio de alas do PSDB agora hostis a Serra. Ou seja, a proposta (por assim dizer) que teve 44 milhões de eleitores se desfez e seu candidato não tem mais nenhum poder sobre estes votos. Insistir em lembrar a votação de 2010 apenas torna mais dolorosa a tarefa de buscar um novo programa de oposição.

Quanto à imprensa da oposição, ela está numa espécie de lua-de-mel com Dilma, espantados com seu estilo discreto e suas atitudes firmes. Ainda sequer notaram algumas mudanças fundamentais na maneira de governar. Oscilam entre reclamar da continuidade e louvar a novidade. Talvez não tenham notado que o governo que entra é uma nova fase de um mesmo movimento, mas não é, de forma alguma, apenas a repetição da etapa anterior (agora sem Lula).

Desta longuíssima análise ainda ficaram de fora alguns pontos importantes. Marina Silva especialmente. Pois Marina talvez seja a encarnação mesma do espírito do governo, uma mescla de ideias de esquerda, um certo conservadorismo social e a perspectiva ambiental, que traria algo de novo para a gestão econômica. Não tenho dúvida que Marina como candidata do PT venceria a eleição no primeiro turno e enterraria a carreira de Serra de forma ainda mais melancólica. Mas a eleição é apenas um ponto de parada em um caminho muito mais longo. Marina talvez seja o pós-Lula, mas só pode existir o pós-Lula após Lula. E em 2010 foi Lula quem venceu a eleição. Eu também apenas mencionei os movimentos de Aécio, que parecem bastante interessantes. E por fim, eu disse que Dilma é a herdeira de Lula. Há imensa diferença entre o mero continuar e o herdar. E Dilma já dá mostras de ser uma herdeira à altura de seu antecessor, gostemos ou não de suas escolhas. Sobre tudo isto falo em outras oportunidades.

[Meu email é paulo ponto candido arroba gmail ponto com - críticas, sugestões e convites para beber cerveja são bem-vindos. No Twitter, PauloCOF]



  Escrito por Paulo às 17:00 | link para este post | Comentários (62)


Comentários

#1

Ih! Audiência caindo. Mais do mesmo. Ninguem aguenta.

Fortunato em fevereiro 7, 2011 6:05 PM


#2

A atitude da oposição é de espanto, ao passo em que não soube trabalhar num cenário em que tinha sempre que tomar partido por um dos lados do governo.

Fazenda vs BC, Min. da Agricultura vs Min. do Dese. Agrário, Defesa vs Sec. de Direitos Humanos.

Esta pra mim foi a maior chave de perna que o Lula encaixou.

Tiago Aguiar em fevereiro 7, 2011 6:12 PM


#3

Eu gostei do texto. Dá o que pensar. A sacada do conservador indefinido e fluido é boa mas, sei lá, um partido que saiba unificar esse conservadorismo tupiniquim não está descartado, e uma eleição é sempre uma incerteza. Me parece.
Uma pequena e quase irrelevante correção:
O 18 de brumário não se relaciona com Luís Napoleão, mas com Napoleão, o legítimo.

Josaphat em fevereiro 7, 2011 7:00 PM


#4

Josaphat, a referência é a um texto famoso de Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte . Tem algumas passagens antológicas desancando o "murismo" e a ingenuidade dos social-democratas.

Paulo Candido em fevereiro 7, 2011 7:07 PM


#5

Paulo, sério mesmo, gosto dos seus textos, mas tanta prolixidade já é chato, que dizer com um assunto tão desgastado.

---

E só uma coisa, é comum entre apoiadores do PT insistir nessa história de que a oposição não tem projeto. Bobagem. E digo isso mesmo sendo um apoiador do PT.

Eles têm um projeto até parecido com o do PT, com alguns pontos discordantes. Como em qualquer democracia do mundo, partidos de centro e partidos de centro-esquerda se parecem mesmo, com a diferença de que os primeiros estão mais à a direita (oooohhh).

"Mas o PSDB se desvirtuou, se deslocou para a direito". Tá, então pergunta ao pessoal do PSOL o que eles acham do PT.

A questão é que o partido de centro foi ineficientes na gestão econômica de seu último mandato, perdeu a eleição, e o partido concorrente de centro-esquerda conduziu melhor a economia. Apenas isso.

Assim que o PT começar a cometer erros que afetem a qualidade de vida da população, e vai cometer em algum mandato, perderá o poder para o PSDB. Então os tucanos poderão reproduzir esse mesmo discurso, de que o PT perdeu porque o seu projeto para o país se esgotou. E a roda gira.

Camon guys, o histórico de eleições democráticas pelo mundo está aí. Partidos ganham eleições seguidas até fazerem bobagem e um adversário muito próximo assumir o seu lugar.

Tentar entender as divergências internas da oposição é uma coisa, mas a partir daí deduzir que estão desesperados e sem rumo, é um pouco demais. O DEM está perdido mesmo, mas é um satélite. Quando foi que o PMDB não esteve perdido? Mas o Aécio está aí, costurando uma série de alianças com o DEM, como liderança no Senado, possivelmente com o PSB... Vai ser um candidato fortíssimo em 2014. Isso é estar sem rumo?

---

Pô, Paulo, eu estava achando o clima dos temas políticos ótimo aqui no Biscoito, olhando pra frente, discutindo-se as possíveis mudanças do governo Dilma, em áreas como cultura e comunicação. Mas aí você vem e faz exatamente o que criticou em alguns, remoer a eleição e o governo Lula. Acho que você anda lendo muito Soninha e Reinaldo Azevedo. Esquece essa gente, cara.


JG_ em fevereiro 7, 2011 7:21 PM


#6

Estou até agora procurando o esquerdismo na Marina, que não passa de uma tucana com pitadas de fundamentalismo e ecologia conservacionista.

Sou eleitor do PT desde a minha primeira eleição, em 1989, mas não vejo na Dilma uma candidata forte para 2014. Ela tem sérias limitações de oratória e encadeamento de raciocínio. Seria engolida pelo Aécio em um debate. O PT só leva se o homem voltar...

Moco em fevereiro 7, 2011 7:29 PM


#7

Moco (#6),

Dilma não foi engolida por Serra, mesmo sendo sua primeira eleição, com notável inexperiência.

Por que ela seria engolida por Aécio em 2014, depois de passar 4 de anos como presidenta exercitando em pronunciamentos e entrevistas a sua "oratória e encadeamento de raciocínio"? E ainda mais tendo um governo cheio de feitos próprios pra mostrar?

Deixem Lula virar história, sério mesmo. O PT precisa disso, pro seu próprio bem.

JG_ em fevereiro 7, 2011 7:39 PM


#8

JG_


Eu não posso te dar a resposta longa, pois tenho que sair. Mas a resposta curta é, sim, eu sei - este texto é a introdução de alguns outros. Achei que era preciso dizer da onde vinham algumas coisas antes de partir para análises mais fundas.


Olha que eu nem disse que o PSDB foi para a direita. Disse mais que ele se perdeu atirando no alvo errado. E claro que o PT vai errar e perder uma eleição algum dia.


Mas que o PSDB está perdido, acho que está. Desde 2002. Com certeza desde de 2006. Não falo do PMDB porque meu objetivo aqui era localizar o estado da oposição. E note que eu mencionei Aécio favoravelmente no contexto da confusão mental tucana.

Paulo Candido em fevereiro 7, 2011 7:40 PM


#9

Paulo,

Parabéns por esse verdadeiro voo panorâmico pela conjuntura atual. Concordo praticamente com tudo como você deve saber, talvez só discorde de algo ali pelo décimo parágrafo: O PSDB sempre se posicionou de maneira dúbia no espectro político e, quando FHC ascende ao trono pela sua proximidade pessoal com o Poder, ele sepulta qualquer vocação realmente social-democracia do partido, pondo-o à direita do centro ao montar uma ampla aliança que, frise-se, excluía sindicatos e movimentos sociais - tratados todos como meros arcaísmos a serem tratados com piedade na Nova Renascença. Com efeito, isso não é social-democracia e FHC, que fez pouca questão do novo partido assim se chamar quando de sua fundação, sabe muito bem disso, ele só trabalhou no grande vazio de um partido que nasceu com ares modernizantes, mas que nunca passou de uma acidental cisão do PMDB - como você bem narrou, o que, com certa proximidade com Collor, exclui qualquer conteúdo esquerdista do partido em seus primeiros anos.

No que toca ao momento atual, é preciso considerar um fator que você não tenha dado tanta importância: Geraldo Alckmin. Por mais obtuso que o Governador Paulista possa parecer, é bom não tirar os olhos dele. Quando você encontra um tatu em cima de uma árvore, antes de rir da situação, é melhor entender como ele chegou lá - naturalmente, não com as próprias habilidades, mas com as de algo ou alguém suficientemente forte para coloca-lo lá, portanto, tome cuidado. Aécio Neves, com seu direitismo chique e contido, não considerou essa variável e imaginava que batida a poeira da (provável) derrota de Serra, ele seria aclamado pelo partido, mas isso até agora não aconteceu - muito pelo contrário, boa parte dessa confusão inteira dentro do PSDB se deve ao fato de existirem setores de sustentação importantes do partido, em São Paulo, que não querem o ex-governador mineiro como presidenciável de jeito nenhum.

A luta que se trava no PSDB é também geográfica, antes de ser de visões de mundo, na verdade, ela é de visões de mundo por conta da variável geográfica. Ela só ficará mais definida, claro, com os destinos do DEM, a refundação - e aí sim, haverá mesmo um refundação - do PMDB paulista, mas me parece certo que nenhuma saída dos futuros embates políticos resultaram numa grande aliança dentro do partido.

Quanto ao PT, o fato é que a direita caiu na falácia do Lulismo. Na verdade, o Petismo não acabou, o Lulismo sempre existiu e foi ali o seu plano B, posto em prática de forma absoluta quando o partido precisava lamber suas feridas, mas a situação interna ainda não é boa. Por ora, a imprensa tradicional, ainda não saiu do Governo Lula, atacar Dilma exige que ela, da noite para o dia, passe a atacar justamente o inverso daquilo que ela estereotipou em Lula. Mas a mídia corporativa vai se rearticular, cedo ou tarde. Por ora, a ameaça que eu vejo é uma burocratização interna na base governista, um perigoso (e nada improvável) movimento onde a direita possa tentar engolir o projeto por dentro, mas isso são mais quinhentos.

P.S.: Josaphat, creio que o Paulo fez uma referência a uma obra de Marx chamada Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte - O Dezoito de Brumário de Louis Bonaparte - que, como o próprio nome sugere, se refere a Louis e não ao tio dele.

Hugo Albuquerque em fevereiro 7, 2011 7:51 PM


#10

e os democratas, como o senhor, se regozijam com a absoluta falta de oposição no Brasil. o que é normal, "neffepaiff" que, em seus mais de 500 anos, não sabe o que é liberalismo. uma boa explicação para o seu provincianismo e anti-americanismo de cartilha. Brasil, à frente, o atraso.

paulo henrique em fevereiro 7, 2011 7:53 PM


#11

Parabéns Paulo, belo texto. Nos últimos dias deu para quase sentir esse vazio que tomou conta tanto da imprensa oposicionista como dos psdb e dem.
Só fico um pouco triste porque eu realmente acho que seria melhor para o brasil ter uma oposição de verdade. Mas, parece que até isso o PT vai ter que ajudar a construir kkkkkkk

Outro ponto interessante é a história do conservadorismo brasileiro. Eu concordo com o que vc escreveu. Apenas acrescento que acho que esse conservadorismo tente a crescer. As classes D e E que estão subindo de patamar econômico, ainda serão muito conservadores em aspectos relacionados aos direitos humanos. Só vai dar para dar uma virada nisso quando os filhos dos que hoje ascendem estiverem maduros e para isso vamos precisar de escolas boas e universidades que promovam o conhecimento e digam não a trotes grotescos. O caminho ainda é longo, portanto.

aiaiai em fevereiro 7, 2011 8:09 PM


#12

Paulo e Hugo:
Errar, errar. Je n'ai pas lu tous les livres!
Obrigado pela correção.

Josaphat em fevereiro 7, 2011 9:39 PM


#13

"Um dos efeitos mais impressionantes dos oito anos de governo Lula foi a incorporação orgânica da conservação ao projeto de país ora conduzido e liderado principalmente pelo PT

Não é uma característica tão própria da era Lula, Paulo. Não tenho medo de errar quando digo que o PT andou mais na direção do PSDB durante os governos FHC do que o PSDB na direção do PT durante os governos Lula. Já há algum tempo que o Brasil está se posicionando.

PS: Ha, nego citando o Dezoito Brumário em alemão num comentário de blog é demais pra minha cabeça, ô molecada insegura. Se é para registrar o título original, que fique a correção: Der achtzehnte Brumaire des Louis Napoleon.

Rafael em fevereiro 7, 2011 9:49 PM


#14

Rafael: Se é ou não demais para sua cabeça, isso é outra questão, eu, pessoalmente, só estou citando para lembrar que o Paulo não se equivocou; ainda que a referência sobre o título original valha a título de curiosidade (hoje em dia, mesmo em alemão, ela trata o mesmíssimo personagem por Louis Bonaparte no título - como, aliás, já acontecia no século 19º), em substância, isso não muda nada.

Hugo Albuquerque em fevereiro 8, 2011 12:02 AM


#15

Paz e bem!

Idelber escrevestes:

"O DEM nasce em 2007 da mudança de nome do PFL, partido que abrigou os políticos mais “liberais” dentre os que apoiavam a ditadura e os mais “conservadores” dentre os que a ela faziam oposição. Gente como Antônio Carlos Magalhães e Tancredo Neves."

A memória está te traindo, Tancredo não fez parte do PFL, em 1982 com Magalhẽas Pinto tentava criar o PP (Partido Popular), quando os generaisgorila alteraram a lei eleitoral, o PP se fundiu com o PMDB (na verdade foi absorvido).

Eugenio Hansen, OFS em fevereiro 8, 2011 12:52 AM


#16

Eugênio,

Só um reparo, o texto é meu e não do Idelber ("por Paulo Candido", no título)
Mas você tem toda razão, eu ia escrever uma coisa e em uma revisão qualquer mudei e esqueci. Tancredo não fez parte da Fente Liberal e sim do Partido Popular. Corrigi o texto.

Paulo Candido em fevereiro 8, 2011 5:11 AM


#17

Paulo, gostei do texto. Conforme voce falou, é um texto panorâmico, que prepara outros textos, mas é importante fazer essa avaliação geral.
Gostaria apenas de fazer um comentário. Claro que concordo com voce que os tais 44 milhões de votos não são exclusivos do Serra nem do PSDB, e que agora os resultados obtidos pelo governo Dilma poderão mudar pelo menos algumas das intenções de voto entre os que votaram em Serra na última eleição presidencial. Entretanto, há um ponto de vista que me preocupa nesses 44 milhões de votos, e gostaria de ler seu comentário sobre ele.
A campanha do Serra foi tão explicitamente truculenta e fascista (mistura de afirmações claramente caluniosas, com obscurantismo religioso e incentivo a posturas preconceituosas) que me preocupa o simples fato de algumas pessoas terem sequer admitido votar no que a campanha Serra representava naquele momento. Mesmo que esses votos tenham de baseado nas mais variadas razões (por considerarem Serra o "menos pior", ou por rejeição a Lula e/ou ao PT, por distorções cotidianamente veiculadas pela velha mídia, etc), tanta gente ter votado num representante de uma campanha tão fascista faz supor que parte dessa votação (difícil dizer qual é o percentual dessa parte, mas acho que não é pequeno) é formada por pessoas que podem se deixar seduzir, novamente e por variadas razões, a discursos desse tipo. Ou seja, há aí um potencial de votos na extrema direita que é preocupante.

Cláudio Freire em fevereiro 8, 2011 8:51 AM


#18

Fale sim, gostei demais de toda a sua análise. Juntou todas as noções esparsas que eu mesma tinha a respeito da situação política e social do Brasil num todo muito coerente e agradável de ler.

Parabéns!

É por causa de textos raros como esse que sempre venho ao blog do Idelber com altas expectativas.

Quanto aos assustadores 44 milhões de votos, eu não teria toda a tranquilidade que vc parece ter.

Serra vive de mencioná-los porque é realmente um espanto que

1 - tendo o Serra feito uma campanha tão ruim desde o início - favela cenográfica, tentando se fazer passar como um "continuador" de Lula, etc

2 - se batendo contra um governo com 87% de aprovação nas pesquisas

3 - tendo apelado em desespero para um discurso nitidamente fascista que nunca antes se havia visto de forma tão explícita no Brasil

Mesmo assim e o que é pior - até por causa disso - ele conseguiu chegar praticamente num "empate" com a candidata de um governo que mesmo a oposição é levada a admitir (mesmo que por vias tortas) que foi de muito sucesso.

A sua análise de que a população brasileira é conservadora por natureza me agradou bastante e gostaria que num próximo artigo vc desenvolvesse mais esse tema.

Tenho pra mim que mais do que motivação religiosa, o conservadorismo brasileiro é fruto da mídia em todos os seus tentáculos - desde a pequena rádio do interior, até a Rede Globo e suas novelas e seu Jornal nacional - repetindo e ensinando os valores da classe dominante.

Me vem a lembrança de um documentário de Luiz Bunuel num lugarejo miserável da Espanha nos anos trinta em que as crianças famintas e descalças eram ensinadas na escolinha pelo Padre a "não roubar".

Enfim, aqui no Brasil esse discurso do "não roubar" é tão forte na cabeça das pessoas que mesmo os miseráveis defendem a ideologia do patrão.

O governo federal deveria lançar programa educacional de cidadania e direitos, mas isso é o anátema da grande imprensa que tem horror aos órgãos públicos de comunicação.

Deveria se criar um jornal de qualidade com um discurso diferente da pauta única do Globo, FSP e Estadão, mas que não fosse um repetição de jargão ideológico.

Enfim ampliar o discurso público de esquerda para diminuir e combater esse discurso conservador que envenena a cabeça dos brasileiros desde 1500.

Assunto longo e complexo.

Aguardo seus próximos artigos.

Roberto SP em fevereiro 8, 2011 9:55 AM


#19

Visito este blog, porque os textos são, para mim, uma aula.Mesmo quando discordo, há sempre o que aprender. Apenas quero acrescentar um ponto de quem convive e conhece bem as pessoas mais simples.
Os 44milhões de votos no Serra, vieram também das promessas de 13º p/ bolsa família e mínimo de 600,00 reais. Além do cabresto de alguns padres e pastores(em troca favores). Esses votos não são ideologicos nem conservadores. São votos na "lei de Gerson" que o PT, sendo partido de massa, esqueceu de trabalhar nesse espaço, achando que os programas sociais seriam suficientes p/ contemplar o povão. Em matéria de manipulação, as raposas de plantão, são mais experientes que o PT.

Ertha Lucia em fevereiro 8, 2011 11:38 AM


#20

paulo henrique , a intenção passa longe de regozijar-se com a falta de oposição - no próprio texto está claro que eu não imagino que a oposição vai desaparecer. Apenas acho que a oposição antiga está com os dias contados e a nova oposição ainda engatinha.



Hugo, longe de mim achar Alckmin obtuso. Aliás, acho um erro sério de avaliação considerar qualquer face política visível (especialmente em cargos executivos fortes) obtusa, burra ou ignorante. Eu apenas acho que Alckmin é uma liderança regional fortíssima mas sem novas perspectivas nacionais. Ele vai cobrar caro tanto de Kassab quanto de Aécio, mas acho que se alinha.



Quanto à social-democracia ou à falta dela no governo FHC, minha impressão é que ele se preocupou bastante em manter o verniz e a imprensa fez coro. O discurso estava ali, ainda que os atos dissessem o contrário. Mas está não é a natureza mesma do social-democrata?



Claudio e Roberto, acho que aqueles 44 milhões de votos são muito heterogêneos, como observei no texto. Existe sempre o perigo de um partido de extrema direita aparecer e fazer algum estrago, mas eu acredito no que disse lá: o conservadorismo é difuso e incoerente - uma plataforma comum iria tanto atrair quanto repelir eleitores. Talvez por isto este partido não exista, ainda que as forças conservadoras possa ser mobilizadas vez por outra, como Serra tentou.

Paulo Candido em fevereiro 8, 2011 11:54 AM


#21

Se a grande imprensa está quieta, não vejo como bom sinal. Não dá pra subestimar o golpismo dessa turma, nem aqui nem no Egito. No começo dos anos Lula também houve reclamações sobre o governo não ser tão à esquerda quando queríamos.

Mas agora é diferente. Estamos numa situação estranha, dilmistas-lulistas torcem o nariz pro governo, enquanto serristas elogiam ou, pelo menos, assentem silenciosamente.

Pode até ser estratégia de Dilma para ganhar aceitação, uma prudência de quem começa, mas também pode ser um engessamento do bloco governista e do PT, a perda da arte da ambigüidade que fazia Lula dar um sentido de esquerda ao centrão. Se isso morrer, do governo de centro-esquerda só sobrará o centro.

O PT jamais teve tanta força institucional e ao mesmo tempo me parece tender mais do que nunca ao P em vez do T. Cimenta-se um consenso autoritário (e surdo), que beira o fascismo aqui no Rio de Janeiro, mas cujo agenciamento está migrando à Brasília. Veja o MinC, expropriado do movimento de redes e commons (que vem construindo-o há 8 anos) e entregue na base da canetada à aristocracia cultural carioca, e à indústria cultural com quem divide lucros.

Esse P não analisa a composição de classe do T, não enxerga o T senão como abstração.

O governo Lula foi tão potente e bem-sucedido, do ponto de vista democrático, porque não governou para realizar um modelo, mas para as pessoas reais. Já o governo Dilma vem com o modelo, um modelo um tanto velho, cujas palavras de ordem e argumentos podem ser usados tanto à esquerda quanto à direita, porque são vazias.

Por isso, talvez o antilulismo esteja mais perto do que imaginemos, no nosso quintal, em nossa sala, em nossas camas. Esquerda e direita são posições dinâmicas.

Bruno Cava em fevereiro 8, 2011 1:22 PM


#22

Tomara que voce tenha razão, Paulo. Vamos aguardar para sentir os próximos movimentos.
Minha preocupação nem é o surgimento de um partido de extrema-direita, mas sim que algumas lideranças mais expressivas da atual oposição (Aécio ou Alckmin) assumam, com cores mais ou menos fortes, tal discurso. Seria péssimo para a formação política de muitas pessoas.

Cláudio Freire em fevereiro 8, 2011 1:33 PM


#23

Perfeito. Agora é pegar o texto e mostrar pros Mervais, Noblais e Jabois (desculpe os plurais)como não se deve fraudar uma eleição com bolinhas de papel.

ari alves em fevereiro 8, 2011 2:04 PM


#24

Bruno,


Eu ainda estou olhando para o novo governo sem julgar. O caso do MinC achei preocupante, para dizer o mínimo. Mas gostei, por exemplo, da Dilma resolver finalmente enfrentar o PMDB mais, digamos, subterrâneo (e em uma conjuntura favorável - este ano ela vai precisar tomar uma série de medidas que a oposição, PSDB e DEM, vai ter que apoiar de qualquer jeito). Acho cedo para dizer para onde vai o barco.



Mas não acho que contraditório tenha desaparecido. Nem que o governo Dilma venha com um modelo acabado para ser implantado. Acho que apenas é um governo, agora, mais quieto. As contradições estão aí, basta cutuca-las que elas saem da toca. De qualquer forma, eu não sou petista, apenas um observador razoavelmente simpático ao PT - com seus erros e suas falhas ainda é a melhor esquerda que nós conseguimos produzir em toda a nossa História. Erram bastante e com frequência, mas acertam muito também.

Paulo Candido em fevereiro 8, 2011 2:06 PM


#25

Paulo,

Eis aí o ponto: Falta de perspectiva nacional, o Alckmin não tem mesmo - como nenhum grande político paulista -, o que pode lhe faltar é apoio para tanto. Isso não lhe faltou em 2006 e ele foi candidato. Neste exato momento, ele está embolando o jogo na disputa para a Presidência do PSDB ao mesmo tempo em que varre o legado de Serra do Palácio dos Bandeirantes - basicamente, ele enfraquece a figura de Serra ao mesmo tempo em deseja coloca-lo, enfraquecido, na presidência do partido, o que é uma afronta a Aécio e sua manobra para manter Sérgio Guerra por lá (afinal,o agora deputado apesar de ter sido fiel a Serra, não deixou de se mostrar favorável a Aécio em 2014). E há quem não se agrade de Aécio e um jogo passe por fora de São Paulo.

Quanto à social-democracia, não aquilo não foi social-democrata. Não havia participação de setores da sociedade que caracterizam minimamente um governo social-democrata: FHC se mostrou como a opção mais confiável para levar aquele programa de estabilização monetária adiante em salões que, certamente, estavam longe e acima do PSDB, bem como soube vender um projeto de estabilização como se fosse o projeto. Coincidência ou não, apesar da ampla aliança que marca o Plano Real, ela não incluía os trabalhadores (um mero detalhe) - e num ambiente onde era anunciado até mesmo "flexibilização" das relações trabalhistas, a mensagem que ficava é que nessa nova era, os recursos socialmente produzidos não poderiam (quem sabe por uma conveniente questão de equilíbrio sistêmico) estar a disposição de quem as produziu, nem como como horizonte. Isso, no meu entender, está à direita do centro.

abraço

Hugo Albuquerque em fevereiro 8, 2011 2:06 PM


#26

Uma aula da "conjuntura política" atualmente.. grande texto, abc!

Henrique em fevereiro 8, 2011 3:20 PM


#27

[b]Paulo,[/b]

Compreendo o papel que você quis cumprir com seu texto, e achei ótimo. Seria injusto acusar como limitações a ausência de discussões cuja abordagem, desde o início, você não colocou como objetivo.

Mesmo assim, acho que precisamos analisar com mais cuidado como o conservadorismo reagiu aos 8 anos de governo Lula (e vice-versa), e até que ponto as categorias governo-oposição são suficientes para encarar esse fenômeno. Você dá algumas pistas no seu texto quando fala de como o governo Lula acabou atraindo setores conservadores e tornando-se fiador de seus projetos, mas creio que a análise deve ir além. O governo Lula em seus oito anos conseguiu inúmeras conquistas, mas conseguiu (como seu próprio texto aponta) impor um consenso conservador na esfera pública brasileira (ao qual em idos tempos o próprio PT, bem ou mal, com ou sem contradições, se contrapunha) que empurrou diversas e importantes pautas da esquerda para um gueto do qual tentam e não conseguem sair. Mesmo no caso do PNDH3, exemplos de uma estratégia de "comer pelas beiradas" fruto das contradições do governo, dos setores que o apóiam e da própria sociedade brasileira, na hora da verdade, quando o governo teve que assumir uma postura clara diante desta contradição, foi para a opção conservadora, para o centro. Iniciativas de esquerda importantíssimas, construídas duramente e palmo a palmo durante oito anos, foram desfeitas ou engavetadas, em respeito às alianças conservadoras, usadas como moeda de troca para sua manutenção.

Não quero dizer que o Estado deva ser um farol de progresso e iluminação para a sociedade, não é papel dele. Mas o PT que assumiu o governo e teve de lidar com este estado de coisas, construindo um leque de alianças contraditório (se por vontade própria ou obrigado a isso não é o foco da questão) é o mesmo PT que durante anos foi um dos grandes articuladores da esquerda, contra esses setores conservadores. O PT contaminou todos esses setores com a agenda e os interesses de governo, que levou-os a um impasse: aderir a essa dinâmica, de boa ou má vontade, com um grau menor ou maior de crítica, [b]mas preservando o governo quando ele se choca com os movimentos sociais, cortando na própria carne para isso[/b], ou romper e cair no gueto. Isso gerou e gera uma crise ainda sem solução e (na minha opinião) com consequências nefastas para a democracia, para a esquerda e para os trabalhadores e movimentos sociais.

Se o PT quer ser o fiador de uma agenda conservadora para garantir a governabilidade e o sucesso de uma agenda social (de esquerda, vá lá), precisa haver então um outro pólo de articulação viável para a esquerda. E se não conseguir organizá-la é um problema da própria esquerda, e que deve ser resolvido independentemente do PT, sua influência em cercear esse processo e sua parcela de responsabilidade no fracasso (até agora) desse processo não pode ser deixada pra lá.

André em fevereiro 8, 2011 6:57 PM


#28

Não sei se tem a ver com o tema do artigo, mas ta me incomodando e vou dividir com vocês...

Eu to assustada. De verdade. Tenho visto cada coisa (principalmente na internet, mas em outros meios também) que até Deus, se ele existir, duvidaria.

É impressionante e assustador ver a que ponto o preconceito, a ignorância e o conservadorismo está chegando na cabeça das pessoas. Não sei de quem ou de que é a culpa. (Eu apostaria na mídia, na verdade, nos jornalecos de 25 centavos e no JN.) Você vê as pistas disso em pequenos detalhes, como uma discussão sobre pena de morte, com pessoas teoricamente inteligentes e educadas e etc, defendendo o fim dos direitos humanos e a volta dos castigos do "ancien regime". Ou como as pessoas não aceitam debater sobre o aborto, mesmo com tantas mulheres (e fetos) morrendo aí, todos os dias, sem nenhum amparo.

Serra teve muito mais votos do que mereceu, com aquela campanha horrorosa. O que nos faz pensar: o que se passa na cabeça dos 44 milhões de pessoas que votaram nele? Eles concordam com aquilo tudo? Eles também acham que a Dilma é homossexual, o Temer é satanista e todos do PT são assassinos de criancinhas? Eles também acham que Bolsa-Família é bolsa-esmola? Que movimentos sociais são bandidos que deveriam ser torturados e sacrificados em praça pública?

Não consigo entender que movimento é esse que prega todo o tipo de regressão à estágios anteriores que estamos ultrapassando com tanto esforço e luta e sofrimento.

Bárbara em fevereiro 9, 2011 1:00 AM


#29

Adorei seu texto. Análise lúcida, panorâmica e muito didática. Já enviei para minha lista de contatos. Parabéns.

Cézar (Ponta Grossa -PR) em fevereiro 9, 2011 4:27 AM


#30

Duas palavrinhas: Texto chato.

Sami em fevereiro 9, 2011 11:14 AM


#31

Bárbara,


também compartilho com o seu medo, mas em sentido contrário. Quantas pessoas defendendo que o Brasil saiu do atraso e está vivendo uma era de ouro com o governo do PT, sendo que a realidade educacional, cultural, sanitária, e de infraestrutura de modo geral, continua precária como sempre foi. E Lula com seus programas neoliberalistas, favorecendo como nunca antes nesse país os Bancos, anulando a força de sindicatos comprando-os e colocando para gerenciá-los agentes corporativos, sob interesses das empresas. E comprando o silêncio o apaziguamento do populacho com assistencialismos politiqueiros. Então, me assusta que pessoas iguais a vc, maniqueístas, use esse discurso de predestinados "me espanta que milhões tenham votado no Serra", como se vcs fossem os esolhidos e mais esclarecidos, e não tão enganados e ingênuos quanto aqueles que vc condena sem reservas. Visite os SUS das cidades, as escolas públicas, os interiores coronelistas, como o Maranhão do apanagiado e grande amigo lulista José Eterno Sarney; percorra as malha rodoviária brasileira e veja o quanto ela é precária. Depois, visite parte dos milhões que "o Lula retirou da miséria", os escravos sem direitos trabalhistas e com o pé atolado na dívida de financiamento de artigos obsoletos que o governo deu de presente aos bancos, escravos que trabalham em supermercados e empresas, 12 horas por dia, para ganharem um salário mínimo que não lhes dá para o sustento, em rítimo norte-americano mas com paga africana. Disso, eu tenho muito medo, mas a sua veneração por um governo que remete a suas utopias esquerdistas da juventude não lhe deixa ver esse lado da verdade; assim como esse bater na mesma tecla, cansativo e insosso de textos como esse post.

Marcelo em fevereiro 9, 2011 2:01 PM


#32

Marina Silva é uma vergonha, um perigo. seu "certo conservadorismo social" é uma visão medievalista religiosa, ligada ao neopentecostalismo de pior espécie.

que não permitam esta mulher ter vida longa na política.

Raphael Tsavkko Garcia em fevereiro 9, 2011 2:12 PM


#33

Marcelo,

eu sou uma usuária do SUS e estudante de escola pública. Já vi coisas piores. Hoje nas universidades federais a gente vê quadros brancos e prédios novos e não falta mais giz, nem água, nem luz, e tem internet gratuita em quase todos os prédios e não tem mais greve. Minha avó está sendo super bem cuidada no SUS, faz todos os exames. Eu mesma marquei uma consulta ao dentista esses dias no posto de saúde. E to falando de cidade no interior, de 200 mil habitantes (Divinópolis - MG).

Também não acho que sou maniqueísta não. Percebo os erros de todos os lados. Mas me parece que os erros da "direita" (já que estamos falando em maniqueísmo) são piores.

O governo Lula NUNCA foi e NUNCA será neoliberalismo. A menos que você esteja usando a palavra com um sentido que eu não conheço. O governo Lula teve a característica que parar com as privatizações. Investiu pesado no social. Um governo neoliberalista deixaria tudo para a iniciativa privada - exceto a proteção da propriedade privada. Um governo neoliberalista não investiria em projetos de transferência de renda, de investimento na educação superior.

É um absurdo você falar isso.

Bárbara em fevereiro 9, 2011 5:16 PM


#34

"O governo Lula teve a característica DE parar com as privatizações."

Saiu errado. Perdão.

Bárbara em fevereiro 9, 2011 5:18 PM


#35

Este é o ponto, Raphael! Marina é a pior de todas, pior até que o PSDB!

Respondendo ao JG_ (comentário #7):
Serra teria perdido até para um poste, desde que este tivesse sido apoiado pelo Lula. Aécio é carismático, bom de oratória e um político nato, embora, ao meu ver, não passe de um Collor com mais verniz.

Moco em fevereiro 9, 2011 5:27 PM


#36

Bárbara, os investimentos na educação do Lula foram os mesmos abaixo de 5% do FHC. A melhora das universidades começaram na era FHC, eu era estudante nesse período e me lembro. Apesar das ameaças de privatizações do FHC, muito combatidas pelos estudantes, foi nessa época que ocorreu uma pequena mudança substancial: a necessidade meritocrática entre o corpo docente. O professor tinha que ter mestrado ou doutorado, conforme o cargo, o que, nas faculdades federais, tais pós-graduações foram oferecidas pelo governo. Abrir universidades a torto e a direito, como o Lula promoveu, está longe de significar crescimento educacional ou melhoria de ensino. Hoje tem-se uma banalização do ensino superior, que "formam", ou diplomam-se profissionais sem a mínima capacitação que só vão lotar as filas de desmpregados ou de trabalhadores temporais no comércio. Eu conheço dezenas deles, e tenho certeza que vc tambem. Juntando-se isso ao SUS, que vc diz ser uma maravilha aí na terra encantada de Minas, temos o caso da enfermeira que matou uma menina com aplicamento de medicação errada, e inúmeros erros médicos noticados pela imprensa quase diariamente. Eu também tenho que recorrer ao SUS, mas a minha realidade por aqui passa loooonge da sua.

Computadores e paredes pintadas em escola pública não diz nada, tome ai o exemplo da Coréia, que detem os maiores e melhores índices de educação do mundo, e cujos professores chegam a dar aulas no quadro negro em cavernas. Um computador na escola pública serve bem ao professor para distrair a turba de revoltados que são os alunos nos orkuts e fazendas digitais. Melhora de ensino, Bárbara, está na melhor valorização dos professores e os etcs tão bem conhecidos. Um professor, para ganhar o teto máximo da categoria _ 2000 reais_ tem que trabalhar 60 horas por semana. Computador e tinta branca serve para se ter a impressão de que tudo vai bem, para os que passam pela rua.

O Lula é tão neoliberal quanto um hipotético governo do Serra. Ou como vc explica a política de crescimento econômico centrada plenamente no finaciamento do consumo, sem a MÍNIMA preocupação com a infra-estrutura nacional? Abra os olhos, não se aliene com textos de exaustiva prolixidade dos acadêmicos do PT, cujos interesses ou são ingênuos ou pessoalmente fundamentados em benefícios pessoais. Leia, p. ex., o livro "O Lucro ou as Pessoas", do Noam Chomsky. Lula, Dilma, Serra, Sarney...tudo farinha do mesmo saco.

Marcelo em fevereiro 9, 2011 7:07 PM


#37

O MinC de Ana de Holanda,parece que entra num jogo perigoso. usa uma materia de caetano no globo atacando Lula e republica no saite do MinC.

http://www.cultura.gov.br/site/2011/02/07/pontos-teimosos-caetano-veloso/

Carlos Henrique Machado em fevereiro 9, 2011 7:58 PM


#38

@ Bárbara:

Acho que não. Que as pessoas que votaram no Serra não acreditam que a Dilma é homossexual ou matadora de crianças - como tão pouco acreditavam que o Serra expandiria o Bolsa-Família ou aumentaria o salário-mínimo para 600 reais. Elas sabiam que o candidato delas estava mentindo para ganhar votos, e não tinham problema com isso.

O que eles, eleitores de Serra, bem como o próprio candidato e seus marqueteiros, é em um Brasil que não existe mais faz algumas décadas. Um país em que o eleitorado rural, e urbano pobre, faz o que o coroné, o padre ou o pastor mandam, e é incapaz de discernir seu próprio interesse. Infelizmente para eles, a campanha do Serra foi feita tendo como alvo um público que não existe. E é por isso, aliás, que é considerada tão ruim, ridícula mesmo.

E aí, Marcelo, reside também a absoluta incompetência da extrema-esquerda brasileira, e sua incapacidade de fazer uma crítica coerente da prática de governo do PT. Por que a extrema-esquerda brasileira também acredita na existência desse Brasil rural cujo voto o Serra quis ganhar. Se, em vez de repetir acriticamente a bobajada de que o governo Lula é a continuação do governo FHC (inclusive neoliberal, o que é ridículo, tendo em vista o naufrágio geral e internacional dessa ideologia), se dedicasse a entender como o padrão de acumulação capitalista mudou sob Lula, e a compreender as contradições desse novo modelo, então ela poderia dar uma contribuição extremamente válida. Mas a extrema-esquerda brasileira é ainda mais indigente, do ponto de vista intelectual, do que a centro-esquerda e a centro-direita. Não quer saber de análise concreta, só de chavões sem sentido; não quer saber de classe trabalhadora nem de luta de classes, só de como tomar o aparelho sindical da CUT e do PT.

Mas, voltando à Bárbara, o problema da campanha do Serra não é que o Serra, o PSDB, ou mesmo o Demo, tenham aderido à extrema-direita; o problema é que as diversas extremas direitas brasileiras (monarquistas, ultramontanos, saudosistas da ditadura militar, integralistas), que até pouco tempo preferiam se abster da luta política eleitoral exceto para eleger os Jazadis e Bolsonaros da vida, descobriram que podem influenciar a vida pública por procuração, usando a ganância dos candidatos de centro e centro-direita para ganhar palanque e visibilidade. Essa culpa o Serra vai ter de carregar.

Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 12:49 PM


#39

O que eles, eleitores de Serra, bem como o próprio candidato e seus marqueteiros, acreditam é em um Brasil que não existe mais faz algumas décadas.

Faltou o verbo da frase, malaí.

Luís Henrique em fevereiro 10, 2011 12:53 PM


#40

Marina candidata pelo PT? Deus me livre! Fico com as palavras de Dom Moacir, mentor de Marina: ela não aguenta a pressão, largou a igreja católica, largou o PT... Não tem personalidade, seu ambientalismo é igual ao do Gabeira, faz tudo por um holofote.

Leonardo em fevereiro 10, 2011 7:30 PM


#41

Luís Henrique,

O que proponho (proponho nada, vir num site de ideologia tão firmada propor uma visão diferente é inútil) é esquecer-se de direita e esquerda, e pensar na CONDIÇÃO BRASILEIRA. Queria que me explicasse, então, os pontos a que me referi do Brasil africano: a educação, a saúde, a segurança, o saneamento básico, as vias asfálticas. Esquecer-se a citação dos velhos caciques de um partido e outro, pois nomes sempre os teremos aos montes, e demonização, e santificação, santimônia, e todas essas besteiras do nosso corpo doutoral tão bem acabrestado e domado. Me explique, além das teorias pomposas do que é NEOLIBERALISTA, porque só as atitudes discretamente neoliberais do governo Lula foram acionadas e complementadas. Por que só os empresários, industrias e banqueiros foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula. Por que no país do biodísel, o álcool tem preços absurdos. Por que, no país que mais paga impostos do mundo, as famílias pobres alimentam os cofres do governo pagando diretamente metade do valor dos produtos da cesta básica em tributos, e tais famílias, que deveriam ter a melhor educação, a melhor segurança, a melhor previdência privada, a melhor saúde, apenas tem o Bolsa Família, que lhes dão esmolas subfaturadas para substituir o que lhes é devido POR DIREITO. Isso, meu caro Luís Henrique, é o mais límpido e dominador NEOLIBERALISMO, e o mais cruel, pois disfarça-se de política de BEM ESTAR SOCIAL.

Marcelo em fevereiro 11, 2011 12:19 PM


#42

Rodrigo Maia deu uma entrevista ao Valor Econômico dia 9/2.

Ao longo da entrevista Maia sempre apela para o “eleitor da classe média”, que seria o típico eleitor do DEM. Será mesmo? Reconhecer que nossa classe média é conservadora é uma coisa, mas insistir nisso é ignorar a mobilidade social e as alterações sutis nesse perfil, pois, mesmo conservadora, a classe média já viu que o PT não come criancinhas, parte dela se tornou classe média sob administrações petistas e sempre houve um segmento da classe média muito progressista que apoiava o PT mesmo quando os conservadores temiam pela deglutição de suas criancinhas. E Dilma, por mais “durona” que seja, não lembra em nada um sindicalista barbudo e raivoso. Se seu governo obtiver sucessos econômicos, a classe média a adotará mais como uma Tatcher que como um Lula (nisso, é bom lembrar postagem do Paulo Cândido no Biscoito Fino e a Massa, onde se analisa a incorporação do discurso conservador pelo PT – o que facilita o encontro do PT com perte dessa classe média que o DEM almeja).


http://outrascoisaseafins.wordpress.com/2011/02/09/notas-sobre-entrevista-de-rodrigo-maia/

Paulo Soares em fevereiro 11, 2011 4:55 PM


#43

Dilma como uma Tatcher, Paulo. Isso colabora maravilhosamente com o que eu disse aí em cima.

Marcelo em fevereiro 11, 2011 7:51 PM


#44

Marcelo,

dizer que "só os empresários, industrias e banqueiros foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula" é forçar a barra.

No governo Lula, ao meu ver, todos ganharam: estão aí os 15 milhões de empregos para não desmentir o fato; estão aí as 12 milhões de famílias que passaram a receber o Bolsa Família; está aí o salário mínimo mais alto dos últimos 40 anos.

Não reconhecer estas coisas como avanços reais é cegueira ideológica, viés simplesmente. E daí se os banqueiros, empresários e industriais também se deram bem?

E comparar a Dilma à Tatcher é pobre. Como o Rodrigo Maia é um pobre-coitado.

Radical Livre em fevereiro 11, 2011 8:20 PM


#45

Radical, a mesma tecla de sempre (sem ofensa), dos não sei quantos empregos. Mas, assim como Luís Henrique se isentou de responder, dirigo-te as mesmas questões: e a saúde, educação, segurança pública, vias asfálticas, ou seja, e a infra-estrutura e as reais condições de MELHORIA social. Por que em tudo mais além do índice estatístico de oitava ou nona economia do mundo, somos os campeões entre os PIORES DO MUNDO? A quem servem tais estatísticas de redenção econômica, baseado em que caractéres idiossincráticos são feitos?

Sub-emprego e escravidão disfarçada é o que temos no Brasil. Vc, que deve ser professor universitário (sem ofensa), ou empresário, pode ver a realidade nacional sob a ótica privilegiada da eufemização partidária. Com o seu esclarecimento, e purgando em um desses empregos dos "milhões favorecidos" da população, será que teria essa mesma opinião otimista? Cada vez mais ouço representantes dessa maioria desprivilegiada e levada na conversa mostrando descontentamento pela corrupção e fisiologismo político. Ah... se lhes dessem um pouquinho só de esclarecimento!

Marcelo em fevereiro 11, 2011 8:50 PM


#46

Como Rilke disse: "Ah! Desejar a mudança, ser incendiado pela chama!"

Ou como a frase definidora do governo Lula, que vemos em O Gatopardo: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude."

Marcelo em fevereiro 11, 2011 8:57 PM


#47

Marcelo #41:

O que proponho (proponho nada, vir num site de ideologia tão firmada propor uma visão diferente é inútil)

Então vc está fazendo algo inútil?

é esquecer-se de direita e esquerda, e pensar na CONDIÇÃO BRASILEIRA.

Não gosto disso, não acho que exista uma "condição brasileira" sem uma esquerda brasileira e uma direita brasileira (mais todas as nuances entre as duas ou para além de cada uma delas). Mas façamos de conta de que o Brasil é um país sem política, e vamos lá.

Queria que me explicasse, então, os pontos a que me referi do Brasil africano: a educação, a saúde, a segurança, o saneamento básico, as vias asfálticas.

Primeiro, eu não usaria o termo "africano" neste contexto. Mas vamos lá. O Brasil é, e continua a ser, depois de Lula, um país capitalista. Não existe capitalismo sem desigualdade social, desigualdade essa que se reflete em cada um desses aspectos: saúde, segurança e saneamento básico. Isso é assim em qualquer sociedade capitalista do mundo: é assim no Brasil e no Japão, no Quênia e na Suécia (sim, também na Suécia, inclusive durante a fase "socialista" da Suécia, com muita intervenção do Estado na economia, e nem sombra de neoliberalismo).

No Brasil as coisas se agravam porque o país é um latecomer, atrasado no seu desenvolvimento capitalista, dependente do investimento direto estrangeiro, e herdeiro de um dos piores passados pré-capitalistas possíveis: o regime escravocrata implantado aqui pelo colonialismo português, que marcou duradouramente metade da população como cidadãos de segunda classe. Daí o regime duplo na educação e na saúde: um sistema privado de alguma qualidade, caro e portanto excludente em relação à maioria da população, e um sistema público de péssima qualidade, que, no caso da educação pelo menos, é garantia da reprodução constante da desigualdade social através da desigualdade do desempenho escolar. A existência dos sistemas privados explica e garante a desqualificação do sistema público: a classe média usa os sistemas privados, e portanto não se sente motivada a exigir a melhoria do sistema público (ao contrário, percebe-se como parte da elite privilegiada, e não como parte da massa trabalhadora, por ter acesso ao sistema diferenciado). No caso da segurança, é um pouco pior: não se trata de uma segurança "boa" para uns e uma segurança ruim para outros, mas de uma única segurança, com nítido caráter de classe: a segurança da elite e da classe média contra a massa da população, que em vez de usuária da segurança, é vítima dela. Ou, se quisermos ir mais fundo, aqui a duplicidade da segurança é entre a segurança para a verdadeira elite, burguesa ou latifundiária, e a segurança para a classe média, muito menos eficaz; mas isso não faz com que a classe média se perceba como parte da massa popular - ao contrário, fundamenta o discurso raivosamente policialesco de uma parte da classe média, radicalizada para a direita.

E tudo, naturalmente, se passa como se o Brasil tivesse sido descoberto em 2002, pelo Lula, e não pelo Pedro Álvares Cabral, em 1500. Como se nada disso tivesse sido construído durante séculos, como se a terra fosse virgem, e o governo Lula pudesse inventar a sociedade brasileira ex nihilo, apagando instantaneament todo esse passado, inclusive sem necessidade de criar um movimento político de base popular contra esse estado de coisas. E tudo se passa também como se o Brasil não fosse uma federação, em que, aliás, os sistemas de saúde e segurança são primordialmente de responsabilidade dos governos estaduais, e o sistema de educação responsabilidade não só dos governos estaduais, mas também das prefeituras municipais. Te dou um exemplo: o sistema de saúde pública no Distrito Federal está à beira do caos, semi-destruído e semi-privatizado; de ruim que sempre foi, foi convertido em desastroso pelo governo José Roberto Arruda e seu sucessor eleito indiretamente (em grande parte por culpa do PT, apesar da resistência firme da corrente a que pertenço, a qual desde o escândalo da Caixa de Pandora, sempre apontou para a necessidade de intervenção federal em Brasília). Agora, o que o governo Lula deveria ter feito? Posto mais dinheiro na mão dos gestores da saúde pública do DF? 'Magina. Decretado a intervenção em Brasília, ao arrepio da Constituição, que não o permite fora do ritual jurídico apropriado (e criado o precedente para qualquer futuro governo tucano intervir contra governos locais de esquerda)? Explica aí.

Deixei por último as vias asfálticas, por que, como militante de esquerda, sou contra a sua priorização, que só nos escraviza a um modelo que busca, ridiculamente, nos fazer uma cópia de má qualidade dos Estados Unidos. Trata-se de um sistema caríssimo e ineficiente; na minha opinião, colocar dinheiro nele é jogar dinheiro fora. O que é preciso é reconstruir a malha ferroviária (aquela que foi destruída pelos sucessivos governos de direita - de direita mesmo, apesar de vc não querer reconhecer a existência de uma direita no Brasil - antes que o Lula descobrisse e fundasse o país em 2002). Mas entendo a dificuldade de fazer isso num momento em que praticamente todo transporte terrestre no Brasil depende das malditas rodovias.

Me explique, além das teorias pomposas do que é NEOLIBERALISTA, porque só as atitudes discretamente neoliberais do governo Lula foram acionadas e complementadas.

Que teorias pomposas? "Neoliberal" sempre foi uma palavra com sentido mais ou menos preciso; tem a ver com as teorias econômicas que entraram em voga a partir de sua aplicação nos governos Thatcher e Reagan (ou, se vc quiser pegar pesado, Pinochet). Não é sinônimo de "capitalismo". Os governos Geisel, Roosevelt, Palme, ou Juscelino, nunca foram neoliberais, embora todos eles tenham sido gestores bem-comportados do capitalismo, e não tenham de maneira nenhuma, eliminado a desigualdade social característica do sistema.

Agora, se vc quer reinventar a língua e dar uma nova definição da palavra "neoliberal", é outra história.

O governo Lula não deu continuidade ao programa tucano de privatizações, embora seja verdade que não as reverteu, e nem mesmo interrompeu aquelas privatizações que já estavam em curso quando da posse do novo presidente. E também é verdade que não impediu os governos estaduais que assim o quiseram de continuar privatizando. Mas o neoliberalismo, Marcelo, pressupõe a idéia de que o Estado deve se ausentar ao máximo possível da atividade econômica, que propõe seja entregue exclusivamente à iniciativa privada. O governo Lula, goste vc ou não, não foi nada disso; foi um governo que desde o início se propôs a reconstruir a capacidade de intervenção do Estado como agente econômico, principalmente como indutor da atividade econômica. Está aí o PAC, o Bolsa-Família, a recuperação do poder aquisitivo do salário-mínimo, para demonstrar isso. E, portanto, dizer que o governo Lula foi um governo neoliberal é tão ridículo quanto dizer que o governo Fernando Henrique foi fascista, ou o governo Médici social-democrata.

Por que só os empresários, industrias e banqueiros foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula.

Vc está fora da realidade, Marcelo. O governo Lula foi decididamente marcado pela redução da desigualdade social, não pelo seu aumento. Dizer o contrário é inútil, por que quem sentiu os efeitos das políticas sabe que não é verdade. A verdadeira vítima do governo Lula foi, é claro, a classe média; foi ela quem, embora provavelmente tenha até melhorado de vida em relação ao passado recente, perdeu terreno do ponto de vista relativo, ficando mais distante da elite e mais próxima da classe trabalhadora. Não é outro o motivo do ódio profundo que uma parcela dessa classe nutre pelo Lula, seu governo e seu partido. Foi essa classe média que ficou sem empregadas domésticas, ou teve de se resignar a pagar salários menos indecentes a elas. Foi essa classe média quem teve os "seus" aeroportos invadidos por parvenus, alguns dos quais até negros, imagina, e as "suas" vias asfálticas tornadas intransitáveis pelo excesso de "gente que nunca leu um livro" dirigindo automóveis.

Por que no país do biodísel, o álcool tem preços absurdos.

Por que a malha viária asfáltica, como vc bem disse, não comporta um crescimento ainda mais acelerado da frota, Marcelo.

Há pontos de estrangulamento reais em uma economia capitalista em funcionamento, Marcelo. Eles não podem ser removidos por mágica, ou pela mera vontade dos governantes.

Por que, no país que mais paga impostos do mundo

Será mesmo? Sempre achei que isso era choradeira dos "empresários, industrias e banqueiros" que vc acha que "foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula". Vc tem os dados, ou é apenas retórica?

as famílias pobres alimentam os cofres do governo pagando diretamente metade do valor dos produtos da cesta básica em tributos, e tais famílias, que deveriam ter a melhor educação, a melhor segurança, a melhor previdência privada, a melhor saúde, apenas tem o Bolsa Família, que lhes dão esmolas subfaturadas para substituir o que lhes é devido POR DIREITO.

Em grande parte por que esses impostos têm de ser desperdiçados na manutenção de meios de transporte obsoletos e insanamente caros (a malha viária asfáltica que vc tanto defende, lembra?) Em parte por que não é assim que uma sociedade capitalista funciona. Em parte por que, para dar a melhor educação às famílias pobres, é preciso fazer com que a educação pública se transforme na melhor educação, e isso é muito difícil enquanto houver um sistema alternativo de educação privada, que pode cobrar caro pelos seus serviços por que uma parcela da população acha que esse é um preço justo pela percepção de ser parte de uma elite privilegiada. Em parte por que não existe uma coisa tal como a "melhor segurança" para todos - a segurança é sempre contra alguém, percebe? - e a segurança, vamos explicitar, é a segurança da propriedade: fica difícil dar segurança à propriedade de quem não tem propriedade.

Então vamos ver: que alternativa vc propõe ao Bolsa-Família? De que modo vamos dar a essas "famílias pobres" o que lhes é "devido por direito"? Explica aí, e me mostra qual a base social real que sustentaria as medidas propostas por vc.

Isso, meu caro Luís Henrique, é o mais límpido e dominador NEOLIBERALISMO, e o mais cruel, pois disfarça-se de política de BEM ESTAR SOCIAL.

Primeiro, não, isso não é neoliberalismo, vc está reinventando o significado da palavra, tornando-a, com isso, inútil (por que já existe uma palavra para dizer o que vc quer dizer, e é a palavra "capitalismo") e prejudicial (por que ao tirar a razão de ser da palavra "capitalismo" vc absolve a classe dominante do modo-de-produção capitalista, transferindo a causa dos infortúnios da classe trabalhadora do sistema para teorias que estão longe de esgotar o arsenal de dominação da burguesia).

Segundo, e pior, vejo que vc adere à idéia do "quanto pior, melhor". Bons tempos aqueles em que a brutal dominação de classe não era mitigada por programas sociais, não é? Bons tempos aqueles em que a classe trabalhadora era ainda mais explorada e vilipendiada. Ah, se esses tempos voltassem, nós poderíamos, então sim, fazer a revolução (que o Lula atrapalhou com suas políticas de "bem-estar social).

Só que nós tivemos meio milênio pra fazer essa revolução, né, e não fizemos. Apesar de toda maravilha conscientizadora que era a dominação de classe sob aqueles governos que pra vc não existem, Fernando Henrique, Médici, Dutra, Collor, Bernardes, Ouro Preto, Saraiva, Feijó, Tomé de Souza, sabe do que estou falando?

Luís Henrique em fevereiro 12, 2011 12:15 PM


#48

Marcelo #41:

O que proponho (proponho nada, vir num site de ideologia tão firmada propor uma visão diferente é inútil)

Então vc está fazendo algo inútil?

é esquecer-se de direita e esquerda, e pensar na CONDIÇÃO BRASILEIRA.

Não gosto disso, não acho que exista uma "condição brasileira" sem uma esquerda brasileira e uma direita brasileira (mais todas as nuances entre as duas ou para além de cada uma delas). Mas façamos de conta de que o Brasil é um país sem política, e vamos lá.

Queria que me explicasse, então, os pontos a que me referi do Brasil africano: a educação, a saúde, a segurança, o saneamento básico, as vias asfálticas.

Primeiro, eu não usaria o termo "africano" neste contexto. Mas vamos lá. O Brasil é, e continua a ser, depois de Lula, um país capitalista. Não existe capitalismo sem desigualdade social, desigualdade essa que se reflete em cada um desses aspectos: saúde, segurança e saneamento básico. Isso é assim em qualquer sociedade capitalista do mundo: é assim no Brasil e no Japão, no Quênia e na Suécia (sim, também na Suécia, inclusive durante a fase "socialista" da Suécia, com muita intervenção do Estado na economia, e nem sombra de neoliberalismo).

No Brasil as coisas se agravam porque o país é um latecomer, atrasado no seu desenvolvimento capitalista, dependente do investimento direto estrangeiro, e herdeiro de um dos piores passados pré-capitalistas possíveis: o regime escravocrata implantado aqui pelo colonialismo português, que marcou duradouramente metade da população como cidadãos de segunda classe. Daí o regime duplo na educação e na saúde: um sistema privado de alguma qualidade, caro e portanto excludente em relação à maioria da população, e um sistema público de péssima qualidade, que, no caso da educação pelo menos, é garantia da reprodução constante da desigualdade social através da desigualdade do desempenho escolar. A existência dos sistemas privados explica e garante a desqualificação do sistema público: a classe média usa os sistemas privados, e portanto não se sente motivada a exigir a melhoria do sistema público (ao contrário, percebe-se como parte da elite privilegiada, e não como parte da massa trabalhadora, por ter acesso ao sistema diferenciado). No caso da segurança, é um pouco pior: não se trata de uma segurança "boa" para uns e uma segurança ruim para outros, mas de uma única segurança, com nítido caráter de classe: a segurança da elite e da classe média contra a massa da população, que em vez de usuária da segurança, é vítima dela. Ou, se quisermos ir mais fundo, aqui a duplicidade da segurança é entre a segurança para a verdadeira elite, burguesa ou latifundiária, e a segurança para a classe média, muito menos eficaz; mas isso não faz com que a classe média se perceba como parte da massa popular - ao contrário, fundamenta o discurso raivosamente policialesco de uma parte da classe média, radicalizada para a direita.

E tudo, naturalmente, se passa como se o Brasil tivesse sido descoberto em 2002, pelo Lula, e não pelo Pedro Álvares Cabral, em 1500. Como se nada disso tivesse sido construído durante séculos, como se a terra fosse virgem, e o governo Lula pudesse inventar a sociedade brasileira ex nihilo, apagando instantaneament todo esse passado, inclusive sem necessidade de criar um movimento político de base popular contra esse estado de coisas. E tudo se passa também como se o Brasil não fosse uma federação, em que, aliás, os sistemas de saúde e segurança são primordialmente de responsabilidade dos governos estaduais, e o sistema de educação responsabilidade não só dos governos estaduais, mas também das prefeituras municipais. Te dou um exemplo: o sistema de saúde pública no Distrito Federal está à beira do caos, semi-destruído e semi-privatizado; de ruim que sempre foi, foi convertido em desastroso pelo governo José Roberto Arruda e seu sucessor eleito indiretamente (em grande parte por culpa do PT, apesar da resistência firme da corrente a que pertenço, a qual desde o escândalo da Caixa de Pandora, sempre apontou para a necessidade de intervenção federal em Brasília). Agora, o que o governo Lula deveria ter feito? Posto mais dinheiro na mão dos gestores da saúde pública do DF? 'Magina. Decretado a intervenção em Brasília, ao arrepio da Constituição, que não o permite fora do ritual jurídico apropriado (e criado o precedente para qualquer futuro governo tucano intervir contra governos locais de esquerda)? Explica aí.

Deixei por último as vias asfálticas, por que, como militante de esquerda, sou contra a sua priorização, que só nos escraviza a um modelo que busca, ridiculamente, nos fazer uma cópia de má qualidade dos Estados Unidos. Trata-se de um sistema caríssimo e ineficiente; na minha opinião, colocar dinheiro nele é jogar dinheiro fora. O que é preciso é reconstruir a malha ferroviária (aquela que foi destruída pelos sucessivos governos de direita - de direita mesmo, apesar de vc não querer reconhecer a existência de uma direita no Brasil - antes que o Lula descobrisse e fundasse o país em 2002). Mas entendo a dificuldade de fazer isso num momento em que praticamente todo transporte terrestre no Brasil depende das malditas rodovias.

Me explique, além das teorias pomposas do que é NEOLIBERALISTA, porque só as atitudes discretamente neoliberais do governo Lula foram acionadas e complementadas.

Que teorias pomposas? "Neoliberal" sempre foi uma palavra com sentido mais ou menos preciso; tem a ver com as teorias econômicas que entraram em voga a partir de sua aplicação nos governos Thatcher e Reagan (ou, se vc quiser pegar pesado, Pinochet). Não é sinônimo de "capitalismo". Os governos Geisel, Roosevelt, Palme, ou Juscelino, nunca foram neoliberais, embora todos eles tenham sido gestores bem-comportados do capitalismo, e não tenham de maneira nenhuma, eliminado a desigualdade social característica do sistema.

Agora, se vc quer reinventar a língua e dar uma nova definição da palavra "neoliberal", é outra história.

O governo Lula não deu continuidade ao programa tucano de privatizações, embora seja verdade que não as reverteu, e nem mesmo interrompeu aquelas privatizações que já estavam em curso quando da posse do novo presidente. E também é verdade que não impediu os governos estaduais que assim o quiseram de continuar privatizando. Mas o neoliberalismo, Marcelo, pressupõe a idéia de que o Estado deve se ausentar ao máximo possível da atividade econômica, que propõe seja entregue exclusivamente à iniciativa privada. O governo Lula, goste vc ou não, não foi nada disso; foi um governo que desde o início se propôs a reconstruir a capacidade de intervenção do Estado como agente econômico, principalmente como indutor da atividade econômica. Está aí o PAC, o Bolsa-Família, a recuperação do poder aquisitivo do salário-mínimo, para demonstrar isso. E, portanto, dizer que o governo Lula foi um governo neoliberal é tão ridículo quanto dizer que o governo Fernando Henrique foi fascista, ou o governo Médici social-democrata.

Por que só os empresários, industrias e banqueiros foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula.

Vc está fora da realidade, Marcelo. O governo Lula foi decididamente marcado pela redução da desigualdade social, não pelo seu aumento. Dizer o contrário é inútil, por que quem sentiu os efeitos das políticas sabe que não é verdade. A verdadeira vítima do governo Lula foi, é claro, a classe média; foi ela quem, embora provavelmente tenha até melhorado de vida em relação ao passado recente, perdeu terreno do ponto de vista relativo, ficando mais distante da elite e mais próxima da classe trabalhadora. Não é outro o motivo do ódio profundo que uma parcela dessa classe nutre pelo Lula, seu governo e seu partido. Foi essa classe média que ficou sem empregadas domésticas, ou teve de se resignar a pagar salários menos indecentes a elas. Foi essa classe média quem teve os "seus" aeroportos invadidos por parvenus, alguns dos quais até negros, imagina, e as "suas" vias asfálticas tornadas intransitáveis pelo excesso de "gente que nunca leu um livro" dirigindo automóveis.

Por que no país do biodísel, o álcool tem preços absurdos.

Por que a malha viária asfáltica, como vc bem disse, não comporta um crescimento ainda mais acelerado da frota, Marcelo.

Há pontos de estrangulamento reais em uma economia capitalista em funcionamento, Marcelo. Eles não podem ser removidos por mágica, ou pela mera vontade dos governantes.

Por que, no país que mais paga impostos do mundo

Será mesmo? Sempre achei que isso era choradeira dos "empresários, industrias e banqueiros" que vc acha que "foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula". Vc tem os dados, ou é apenas retórica?

as famílias pobres alimentam os cofres do governo pagando diretamente metade do valor dos produtos da cesta básica em tributos, e tais famílias, que deveriam ter a melhor educação, a melhor segurança, a melhor previdência privada, a melhor saúde, apenas tem o Bolsa Família, que lhes dão esmolas subfaturadas para substituir o que lhes é devido POR DIREITO.

Em grande parte por que esses impostos têm de ser desperdiçados na manutenção de meios de transporte obsoletos e insanamente caros (a malha viária asfáltica que vc tanto defende, lembra?) Em parte por que não é assim que uma sociedade capitalista funciona. Em parte por que, para dar a melhor educação às famílias pobres, é preciso fazer com que a educação pública se transforme na melhor educação, e isso é muito difícil enquanto houver um sistema alternativo de educação privada, que pode cobrar caro pelos seus serviços por que uma parcela da população acha que esse é um preço justo pela percepção de ser parte de uma elite privilegiada. Em parte por que não existe uma coisa tal como a "melhor segurança" para todos - a segurança é sempre contra alguém, percebe? - e a segurança, vamos explicitar, é a segurança da propriedade: fica difícil dar segurança à propriedade de quem não tem propriedade.

Então vamos ver: que alternativa vc propõe ao Bolsa-Família? De que modo vamos dar a essas "famílias pobres" o que lhes é "devido por direito"? Explica aí, e me mostra qual a base social real que sustentaria as medidas propostas por vc.

Isso, meu caro Luís Henrique, é o mais límpido e dominador NEOLIBERALISMO, e o mais cruel, pois disfarça-se de política de BEM ESTAR SOCIAL.

Primeiro, não, isso não é neoliberalismo, vc está reinventando o significado da palavra, tornando-a, com isso, inútil (por que já existe uma palavra para dizer o que vc quer dizer, e é a palavra "capitalismo") e prejudicial (por que ao tirar a razão de ser da palavra "capitalismo" vc absolve a classe dominante do modo-de-produção capitalista, transferindo a causa dos infortúnios da classe trabalhadora do sistema para teorias que estão longe de esgotar o arsenal de dominação da burguesia).

Segundo, e pior, vejo que vc adere à idéia do "quanto pior, melhor". Bons tempos aqueles em que a brutal dominação de classe não era mitigada por programas sociais, não é? Bons tempos aqueles em que a classe trabalhadora era ainda mais explorada e vilipendiada. Ah, se esses tempos voltassem, nós poderíamos, então sim, fazer a revolução (que o Lula atrapalhou com suas políticas de "bem-estar social).

Só que nós tivemos meio milênio pra fazer essa revolução, né, e não fizemos. Apesar de toda maravilha conscientizadora que era a dominação de classe sob aqueles governos que pra vc não existem, Fernando Henrique, Médici, Dutra, Collor, Bernardes, Ouro Preto, Saraiva, Feijó, Tomé de Souza, sabe do que estou falando?

Luís Henrique em fevereiro 12, 2011 12:16 PM


#49

Luís,

"Por que, no país que mais paga impostos do mundo

Será mesmo? Sempre achei que isso era choradeira dos "empresários, industrias e banqueiros" que vc acha que "foram os únicos que realmente ganharam no governo Lula". Vc tem os dados, ou é apenas retórica?"

Pesquise no Google. Há muitas pesquisas que apontam esse fato. O Brasil só perde, em cobrança de impostos, para a Noruega. Só que lá, tudo é revertido para a população.

Não tenho memória para citar ipsis litteris o responsável pela pesquisa, mas o Brasil foi apontado, em 2010, como O PAÍS LATINO-AMERICANO DE PIOR IDH.

Vou continuar a ler seu texto acima, só parei para ressaltar que não é retórica (infelizmente), mas FATOS.

Marcelo em fevereiro 12, 2011 1:24 PM


#50

"Segundo, e pior, vejo que vc adere à idéia do "quanto pior, melhor". Bons tempos aqueles em que a brutal dominação de classe não era mitigada por programas sociais, não é? Bons tempos aqueles em que a classe trabalhadora era ainda mais explorada e vilipendiada. Ah, se esses tempos voltassem, nós poderíamos, então sim, fazer a revolução (que o Lula atrapalhou com suas políticas de "bem-estar social)."

Luís, definitivamente não é isso que eu quis dizer. Não sou um desses ressentidos da classe média que não só vc aponta, como a maior parte dos filiados no PT. Para falar a verdade, acho que esses "ressentidos" faz parte de uma mítica de guerra ideológica criada, talvez até numa paranóia sem más intenções, por vcs. Não vejo esse ressentimento se um "pobre" financia um carro e sai por aí botando banca. Afinal, de quem é a concessionária que lhe vendeu o carro, de quem são os bancos que lhe vendeu o crédito? Senão de pessoas que pertencem à classe média e às elites, felizes por aumentarem os lucros? O que pode haver é a velha e inofensiva inveja entre vizinhos, e só. Me pergunte como sei disso, e digo: pela experiência.

NÃO para quase tudo que escreveu acima, Luís. A Venezuela vende gasolina a preços de centavos para a população. E vc apontar que o governo não pode fazer o mesmo devido à manutenção dessa via asfáltica que eu tanto falo? Isso é uma daquelas respostas cíclicas que só simulam a solução às custas de entontecer o oponente no debate. Se as rodovias federais estão 80% depredadas, com grande parte intransitável (google-it, não é retórica), para onde vão os imposto abusivos que nós pagamos?

Achar que a história do Brasil começou com o Lula!! É tremendamente engraçado vc me acusar disso. Vc do PT me acusar disso? Vcs que demarcaram o ponto zero do Brasil no começo desses oito anos, não considerando nada aquém dessa data da natividade sagrada. Se um pobre, como vc gosta de dizer, pode comprar um carro, isso nos remete a Collor, que abriu o mercado automobilístico para as empresas de porte e acionou uma economia até então limitada à capenguice de algumas montadoras nacionais. Se há estabilidade na moeda, isso devemos ao Itamar e Áquele-Que-Anda-Por-Detrás-Das-Fileiras-Cujo-Nome-Jamais-Deve-Ser-Mencionado que vcs tanto demonizam.

Minhas propostas para resolver o problema? Vamos lá. Lendo alguns autores instigantes como Bauman, Perkins, Chomsky e (aiai, lá vem outro demônio) Vargas Llosa, amparo teoricamente minhas propostas. Bauman diz que o maior entrave para a democracia é a corrupão viciosa instalada na política. Tal coisa anula qualquer engajamento sincero em prol das mudanças, pois tais vícios são tão considerados normais, adendos necessários e efeitos colaterais, que a verdade fica maquiada por expressões normatizadas vazias tais como: "o jogo da política é assim, não tem como ser diferente", ou, a que vcs mais gostam, "todos os governos roubaram, isso não começou com a gente."

Muitos descontentes dissidentes do PT apontam como causa maior da traição do partido a relativização e a perda do antigo caráter moral da coligação. E aqui vou tocar em pontos que, infelizmente, já foram tão cimentados na apaiguação do dogma partidário. O Lula teve muitas oportunidades para agir contra a corrupção, e só fez afagar a cabeça dos acusados e sair pela tangente. E o caso Sarney (há 56 anos no poder, contra apenas 30 do ditador egípcio!) é o ponto chave, a encruzilhada onde se demonstra didaticamente para a educação dos incautos que o Brasil NUNCA vai ascender-se por que a corrupção NUNCA vai ser ao menos maneirada. Sarney foi poupado pelo Lula, como todos sabem, porque Sarney impediu que a ameaça de impeachmeant contra o Lula ganhasse impulso, em 2002. Só isso já descartaria a hipóstese de que nosso país ser alvo de uma tese otimista do Zygmunt.

Queiram ou não, o PT deve aceitar calado todas as críticas sobre corrupção, fisiologismo e maleabilidade ética que lhe são feitas. Contraatacar com essas palavras de guerra de PIG, imprensa golpista, etc, esses chavões de péssimo gosto e sem resultado algum, só faz aumentar a antipatia contra o partido. Se querem discutir sobre controle da imprensa, façam-no de forma mais séria e elegante (tá, e vcs, vc me responderá_ mesmo eu não sendo parte de seus oponentes_ que não tem nenhum comedimento nas línguas? Pois bem, façam diferente, pequeno gafanhoto!)

Minhas propostas: parem de enganar os professores. Deem-lhes salários condignos à importância de suas funções. Aumentem a porcentagem de menos que 5% destinados à educação _ herança do governo FHC que tanto criticam, mas que vcs não moveram uma palha para fazer diferente. Não continuem com a atitude cosmética de que computadores e paredes pintadas nas escolas resolvem o problema. Mudem esse padrão corrupto e paralizante das poíticas pedagógicas de não poder-se reprovar alunos, às custas de aumentar o engano das estatísticas progressistas escolares. Voltem a coisa para a meritocracia. Esse seu papo de que a escola privada, de classe média e alta, que são os entraves para o avanço do ensino público, francamente, me fez rir de constrangimento por alguém de texto tão límpido usar um argumento desses. No tempo do Juscelino e mesmo nos anos 60 e começo dos 70, as elites e a classe média preferia matricular seus alunos nas escolas públicas, de modos que ensino privado era uma raridade nacional.

Qualquer proposta que escrever aqui sobre todas as outras áreas, passa pela valorização real do trabalhador, seja na segurança, sanitarismo ( o Brasil purga números vergonhosos nessa área), etc.

Como efeito da bolha de crédito do governo Lula, onde se comprou carros e artigos dispensáveis, num consumismo desenfreado, atolando o trabalhador numa dívida infindável com os bancos, vemos aí a Dilma num corte de verbas astronômico anunciado semana passada, com cancelamento de todos os concursos federais.

E a questão dos sindicatos? Sou funcionário público federal, todos os anos um montante extraordinário de meu salário vai para uma conta obscura do sindicalismo nacional, que, telefonando-se para os números indicados, ninguém consegue explicar para que serve. Os sindicatos estão comprados, lotados por interesses mafiosos, como foi noticiado na imprensa PIG (e não pela Carta nem pelos blogueiros progressistas) os seis assassinatos num prazo de dois anos contra presidentes do sindicato dos transportes urbanos do Rio. Assim, as empresas ficam alicerçados pela ajudinha do governo, a distorcerem em seu favor as leis trabalhistas, explorando o trabalhador.

Sobre Liberalismo, já que estamos em dúvida, permita-me consultar especialistas no assunto. Vamos lá na introdução de "Os Lucros ou as Pessoas", do Noam Chomsky, onde Robert W. McChesney conceitua:

na página 7: "O neoliberalismo é a principal tendência da política e da economia globais nas últimas duas décadas, seguida, além da direita, por partidos políticos de centro e por BOA parte da ESQUERDA tradicional."

página 11: "Desse modo," (com o Estado como intermediador para beneficiar o ganho de bancos como o Itaú, e as grandes corporações)" reafirma-se a IRRELEVÂNCIA da política eleitoral para a maioria das pessoas e confirma-se o domínio incontrastável das grandes empresas."

Mesmo com a crise de 2007-8, o Itaú lucrou como nunca antes. Nada contra o enriquecimento exponencial dos bancos e empresas, mas só eles?? E às custas de quem??

Como funcionario público, eu sei que há uma série de medidas legais de repasse de verbas da federaçao para os estados. Se essas verbas não forem empregadas nos projetos apresentados, num prazo x, elas são devolvidas aos cofres da federação. Ou seja, há como o governo fiscalizar e promover por ele mesmo, do alto da esfera hierárquica, o desenvolvimento interno. O que falta é gestão, fiscalização, conhecimento, e boa vontade. Onde trabalho, somos seis funcionários concursados, e 15 comissionados. Como vc quer que o Brasil melhore, diante um fisiologismo que promove a incompetência, a omissão, e o empregado fantasma?

Marcelo em fevereiro 12, 2011 2:26 PM


#51

Não, Luís, eu me nego a falar do ENEM.

Marcelo em fevereiro 12, 2011 2:37 PM


#52

Olha, Marcelo, fica difícil discutir se vc vem com esta:

Pesquise no Google. Há muitas pesquisas que apontam esse fato. O Brasil só perde, em cobrança de impostos, para a Noruega. Só que lá, tudo é revertido para a população.

Não é verdade. Pesquisei no Google, e simplesmente não é verdade. Por exemplo, eis o que diz a Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/792959-carga-tributaria-no-brasil-e-maior-do-que-nos-eua-dinamarca-lidera.shtml):

Acima do Brasil, ainda na comparação com os países da OCDE, ficam o Reino Unido (35,7%), a Alemanha (36,4%), Portugal (36,5%), Luxemburgo (38,3%), a Hungria (40,1%), Noruega (42,1%), França (43,1%), Itália (43,2%), Bélgica (44,3%), Suécia (47,1%) e Dinamarca (48,3%), que tem o nível mais alto entre os países do grupo.

Como também não é verdade o seguinte:

Não tenho memória para citar ipsis litteris o responsável pela pesquisa, mas o Brasil foi apontado, em 2010, como O PAÍS LATINO-AMERICANO DE PIOR IDH.

Vamos de novo à Folha de São Paulo, aliás UOL:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2010/11/04/brasil-esta-abaixo-idh-medio-da-america-latina-diz-relatorio-da-onu.jhtm

O Brasil aparece ali com o nono maior IDH da América Latina, a frente de 15 outros países, entre os quais se incluem a Venezuela e a Bolívia (culpa do Chavez e do Evo Morales, suponho?)

Se vc quiser discutir com seriedade, largue de inventar factóides ou repetir memes.

Luís Henrique em fevereiro 12, 2011 6:08 PM


#53

E outra coisa: o livro que vc cita, do Noam Chomsky, tem copyright de 1999. Então os lucros do Itaú, que ele cita, são lucros do Itaú na época do governo Fernando Henrique, não do governo Lula.

Luís Henrique em fevereiro 12, 2011 6:34 PM


#54

E isso aqui, Luís:

"Apesar de registrar melhora na educação, o Brasil segue entre os piores colocados em ranking internacional de ensino, divulgado nesta terça-feira (7). O país ficou com a 53ª colocação entre 65 países no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)."

Tirado daqui:

http://www.24horasnews.com.br/index.php?mat=351795

E que tal isso aqui, Luís:

"O Brasil é o País onde mais se pagam impostos indiretos, segundo análise do presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), André Franco Montoro Filho.

“Atualmente, apenas 28% de tudo o que é arrecadado são provenientes dos impostos sobre a renda e a propriedade, enquanto todo o restante vem de tributos ligados à produção e à importação, como o IPI, o ICMS, a Cofins e a Cide”, diz Montoro Filho.

Os impostos indiretos são os que incidem sobre produtos e serviços, portanto mais injustos com quem ganha menos, avalia.

“Por essa razão, mesmo países como Alemanha, França e Dinamarca, onde a carga tributária é ainda maior que a do Brasil, têm sistemas tributários mais justos e modernos que o nosso.”

Tirado daqui:

http://colunistas.ig.com.br/guilhermebarros/2010/06/04/brasil-tem-maior-carga-de-impostos-indiretos-do-mundo-diz-etco/

E isso aqui:

"Metade das famílias brasileira ainda vive sem sistema de esgoto"

Tirado daqui:

http://tratabr.wordpress.com/2010/08/24/metade-das-familias-brasileira-ainda-vive-sem-sistema-de-esgoto/

Agora, quanto a seus números apresentados sobre IDH, acho que suas pesquisas se conflituam, pois o site http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=2388&lay=pde diz que o Brasil está em 14% de IDH entre os países americanos. Acha isso pouco?

"13 países da América Latina e do Caribe têm desempenho superior ao brasileiro, entre eles México (53º no ranking, IDH de 0,821), Cuba (50º no ranking, IDH de 0,826), Uruguai (43º no ranking, IDH de 0,851), Chile (38º no ranking, IDH de 0,859) e Argentina (36º no ranking, IDH de 0,863)."

Vc acha realmente meritório o Brasil estar pouco acima da Jamaica e do Paraguai?

Sobre carga tributária, conforme sua pesquisa, o Brasil está em décimo segundo. Mas todos os países à frente de nós (que sacanagem!) são do primeiríssimo mundo (dando um pequeno desconto a Portugal). Então, corrijo: o Brasil, excetuando a Escandinávia, a Alemanha e outras potências européias, é o país que mais paga impostos do mundo. É como não ter que precisar corrigir nada.

Mas, acabo que te dei um presente. Em meu coloquialismo de citar estatísticas com imprecisão, te abstive de responder a todas as outras questões mais sérias apresentadas no meu comentário.

Marcelo em fevereiro 12, 2011 6:39 PM


#55

Luís, Chomsky não cita lucros do Itaú. Repare que ao citar o excerto em meu comentário, eu retirei as aspas para intercalar uma observação minha. Agora, quero ver vc negar, com pescas pela internet, que o Itaú não teve seu maior lucro durante o boom da crise suscitada pela bolha imobiliária norte-americana, em 2007 (ou) 2008.

Marcelo em fevereiro 12, 2011 6:43 PM


#56

Para facilitar seu trabalho, Luís, aí está:


"O Itaú Unibanco registrou crescimento de 60,5% no lucro do primeiro trimestre e fechou os três primeiros meses de 2010 com o maior lucro da história entre os bancos brasileiros, segundo pesquisa da Economática,

O resultado, de R$ 3,23 bilhões, ultrapassou os R$ 2,103 bilhões registrados pelo Bradesco, e também os resultados do lucro do Banco do Brasil nos anos de 2008 e 2006, de R$ 2,347 bilhões e R$ 2,343 bilhões, respectivamente. O estudo considera e compara sempre o desempenho do primeiro trimestre."

Retirado daqui:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u729872.shtml

E isso aqui:

"O maior lucro da historia dos bancos brasileiros fora registrado em 2009, pelo Banco de Brasil, que chegou a R$ 10,148 bilhões, seguido pelo Itaú Unibanco, com R$ 10,067 bilhões, também em 2009. "Até o momento, o Bradesco tem 4 dos 10 maiores lucros da história dos bancos, Itau Unibanco e Banco do Brasil tem 3, cada."

Retirado daqui:

http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2011/01/lucro-do-bradesco-e-o-3-maior-da-historia-dos-bancos-diz-economatica.html

Marcelo em fevereiro 12, 2011 7:56 PM


#57

Bom, Marcelo, se vc olhar com mais atenção, vai ver que o décimo-quarto lugar no IDH é de 2004, enquanto o nono lugar é de 2008. Em quatro anos, todos eles durante o governo Lula, o Brasil subiu cinco posições - ou quatro se considerarmos que Cuba saiu do ranking mas provavelmente continua a dar a seus cidadãos um padrão de vida melhor que o do Brasil. Nada mal para o pior governo do mundo, vc não acha?

Por outro lado, o link que vc nos dá para mostrar como é ruim a situação da educação brasileira no governo Lula diz, textualmente:

país teve média geral de 368 pontos em 2000, 383 em 2003 e 384 em 2006 e está entre os três que mais evoluíram desde 2000, atrás apenas de Luxemburgo e Chile. A melhora ocorreu também nas áreas de conhecimento avaliadas.

Entre os três que mais evoluíram desde o ano 2000. Também não me parece tão mal para o pior governo do mundo, não é?

Quanto ao sistema tributário brasileiro, não há dúvida de que é um dos mais injustos do planeta. Tem sido assim há décadas e séculos, e sem dúvida é algo a ser mudado. E não me parece que a recriação da CPMF vá no bom caminho. Mas atribuir essa problemática exclusivamente ao governo Lula? O sistema tributario brasileiro já não era dos mais injustos sob Fernando Henrique, sob Geisel, sob Jango, sob Epitácio Pessoa, etc.?

E é sem dúvida um horror o fato de que metade da população ainda viva sem esgoto. Não era assim antes? Havia esgoto pra todo mundo em 2001, 1991, 1981, 1971? Ou a situação era ainda pior? Segundo o IBGE, o número de economias residenciais com esgotamento sanitário no Brasil aumentou de 18 milhões em 2000 para 26 milhões em 2008 - um crescimento de 44% - num período em que o crescimento da população brasileira foi de cerca de 12%.

Ou seja, parece que sim, vc considera a situação do Brasil como resultado exclusivo do desempenho do governo Lula, e ignora o fato de que os problemas que vc aponta tem origem muito mais antiga, assim como ignora o fato de que, durante os dois mandatos de Lula, esses problemas tenderam a diminuir, não a aumentar, e a diminuir num ritmo mais acelerado do que em qualquer outro período recente.

Luís Henrique em fevereiro 13, 2011 12:08 AM


#58

Luís, eu não considero o governo Lula o pior do mundo. Só desejaria que a esquerda nacional fosse mais positivamente crítica, menos tendente a achar que estamos vivendo no melhor dos mundos, menos iconizadora e mítica, para cobrar as mudanças realmente necessárias. É bom abrirmos os olhos para o quanto estamos verdadeiramente atrasados, por mais que até o governo Lula tem-se obtido progressos pontuais. Perdemos todos quando agimos com futebolismos na política, reverenciando numa alegria cega a camisa do partido enquanto milhões ainda estão perdendo suas longevidades etárias por falta de esgoto, enquanto milhões purgam a existência em trabalhos em ritmo norte-americano (12 horas por dia) e ganham valores africanos, enquanto o mesmo crime de perpetuar a alienação e a bestialidade vem acontecendo nas escolas públicas. Por isso mencionei a CONDIÇÃO BRASILEIRA, que existe abaixo das realidades forjadas pelos marqueteiros dos partidos e dos propósitos idiossincráticos dos centros de pesquisa econômica.

Marcelo em fevereiro 13, 2011 9:38 AM


#59

Só desejaria que a esquerda nacional fosse mais positivamente crítica, menos tendente a achar que estamos vivendo no melhor dos mundos, menos iconizadora e mítica, para cobrar as mudanças realmente necessárias.

Só que a sua postura não é crítica. É alienada, baseada em distorções e inverdades, completamente isenta de qualquer contato com a realidade.

Não estamos vivendo no melhor dos mundos, nem se trata de criar ícones ou mitos (para isso, basta a direita). Os problemas do governo Lula são reais e são muitos, e começam pela sempre renovada ignorância do ciclo capitalista. Mas a crítica desembasada, primária e rancorosa que vc faz não ajuda a discutir esses problemas, e sim a ocultá-los sob uma pesada manta de falsos problemas.

E vc não cobra as mudanças necessárias, Marcelo. Vc diz que elas não aconteceram, que isso é culpa do governo - e do povo, que é alienado e não entende de política - e fim. Cadê a cobrança? Aliás, cadê a simples definição de quais são essas mudanças necessárias? Serão elas as míticas "reformas" que a mídia não cansa de cobrar?

Perdemos todos quando agimos com futebolismos na política,

Desculpa, mas se tem alguém "futebolizando" o debate aqui é vc, que não quer saber de nuances. Seu mundo é em preto-e-branco (sem ofensa aos atleticanos, botafoguenses, corintianos e outros ainda menos votados), o que não é ótimo é péssimo, e o que é péssimo só pode ter uma causa, que é a vontade deliberada de fazer as coisas ficarem péssimas.

Por isso mencionei a CONDIÇÃO BRASILEIRA, que existe abaixo das realidades forjadas pelos marqueteiros dos partidos e dos propósitos idiossincráticos dos centros de pesquisa econômica.

É, o problema é que pra vc a "condição brasileira" é a-histórica, não tem nada a ver com o passado deste país. E aí, meu, não dá, né?

Luís Henrique em fevereiro 13, 2011 5:03 PM


#60

Bom, Luís. Encerro por aqui. Só agradeço que tenha perdido seu tempo, ainda mais em um fim de semana, para contrapor longas réplicas e inserções de estatísticas para investidas de alguem tão alienado, raivoso e apolítico como eu. Abraço.

Marcelo em fevereiro 13, 2011 6:35 PM


#61

Não há de quê, Marcelo. Obrigado a vc também por perder seu tempo tentando dialogar com alguém tão alienado (ou talvez simplesmente comprado) como eu, e pelo seu primoroso uso da estatística.

Luís Henrique em fevereiro 13, 2011 8:59 PM


#62

Clap, clap, clap!

Marcos em fevereiro 14, 2011 10:33 AM