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sábado, 26 de abril 2014

Notas sobre troca, dinheiro e dívida a partir de David Graeber

Tome-se a cena fundacional do manual de economia à sua escolha: no interior de uma economia baseada na troca (ou no que as traduções brasileiras de Adam Smith e cia. desgraçadamente resolveram chamar “escambo” – barter, no original), João e Maria, de um lado, Pedro e Paula, do outro, acumulam batatas, aqueles, e ovos ou couro ou milho, estes, até que se estabelece um regime de troca de excedentes. Com a complexificação da economia baseada no escambo, emerge um tradutor universal, um significante vazio que pode representar todos os outros valores (o dinheiro) e daí, depois, sistemas de crédito, gerenciamento de dívidas, bancos etc. Com variações tangenciais, o relato mantém sempre essa sequência: economia da troca (escambo) ---> surgimento do dinheiro → emergência da financeirização (créditos, dívidas, bancos).

Não é casualidade que a ciência econômica conte sempre essa história em seus manuais: ela é a história que funda a disciplina, ao ser narrada por Adam Smith em A riqueza das nações. Claro está que essa fantasia era baseada em sociedades que Smith não chegou nem perto de conhecer.

O problema com esse relato é que as coisas jamais existiram nesse estado ou, para ser mais exato, não há qualquer evidência de que haja existido uma economia baseada no escambo, e há toneladas de evidência de que ela jamais existiu. Isso não significa que as sociedades chamadas “primitivas” ou “selvagens” ou “pré- [fill in the blanks]” (pré-capitalista, pré-feudal, pré-moderna, o que você queira) não praticassem ou pratiquem a troca – só significa que essa troca não era base da economia e, em geral, era e é relação com um outro, com um inimigo, vizinho, hóspede etc. A autora do trabalho antropológico definitivo sobre o escambo, Caroline Humphrey, foi bem enfática: “Nenhum exemplo de uma economia de troca pura e simples já foi registrado, o que dirá a emergência do dinheiro a partir dela; toda a etnografia disponível sugere que tal coisa jamais existiu”.

Mas o mais interessante dessa história não é o fato de Adam Smith ter composto uma ficção sem fundamentação etnográfica, que jamais existiu em nenhum lugar. O interessante dessa história é que as coisas aconteceram exatamente ao revés: a tal “economia do escambo” jamais existiu, portanto não foi a partir dela que surgiu o dinheiro, e não foi a partir deste que surgiram as dívidas, bancos, sistemas de crédito e etecétera. Na verdade, existiam dívidas e bancos antes de existir dinheiro.

A descoberta da escrita cuneiforme entre os mesopotâmios empurra para trás em quase três milênios o nosso conhecimento da história escrita, da época de Homero (mais ou menos 800 AC) para 3.500 AC. E essa documentação confirma a evidência que, paralelamente, a antropologia vinha apresentando, ou seja, a de que sistemas de crédito, administração de dívidas etc. – ou seja, o que chamamos bancos – existiram muito antes de que houvesse dinheiro.

Sim, isso mesmo. É uma bobagem dizer que bancos existem para guardar dinheiro que, por sua vez apareceu para traduzir trocas complexas, porque humanos inventaram bancos – ou seja, sistemas de administração e gerenciamento de dívidas, concessão de crédito etc. – bem antes de existir papel-moeda. E a tal sociedade “baseada na troca” jamais existiu enquanto tal.

Essa são as premissas, abundantemente demonstradas, aliás, de Debt; the first 5,000 years, de David Graeber, que eu reputo um dos grandes livros do nosso tempo. O resumo apresentado acima é das primeiras 50 páginas. São 500 páginas no total, que demonstram: 1) o processo pelo qual se consolidou a estranha ideia de que o pagamento de uma dívida é uma questão moral; 2) a vasta história de imposição de débitos artificiais – ou seja, dívidas impostas sem qualquer relação com a suposta troca livre que a economia conta em seus manuais de fundação; 3) o caráter de instrumento de guerra a serviço dos Estados que teve a dívida nos últimos milênios. De Madagascar ao Haiti, da Índia às sociedades americanas, a dívida jamais foi a consequência de algum processo orgânico da sociedade em questão, mas uma imposição realizada pela força, um aparato de guerra e colonização, na maioria dos casos.

É leitura recomendadíssima para quem ainda toma com naturalidade, como se fosse verdade empiricamente comprovável, as ficções fundacionais da ciência econômica.



  Escrito por Idelber às 11:11 | link para este post