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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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domingo, 25 de janeiro 2009

O Obâmetro

Eis aqui um link para se guardar nos próximos anos: o Obâmetro, que compilou mais de 500 promessas de campanha de Obama e está catalogando-as sob “cumpridas”, “em andamento”, “solução de compromisso”, “nenhuma ação”, “paralizadas” e “quebradas”.

Até agora, 5 cumpridas, 14 em andamento, nenhuma quebrada em definitivo.

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488 esperam ação.

Imaginem se seria sequer possível um site desses sobre o governo Bush. É aquela mágica palavrinha inglesa, accountability, que define o contexto onde o cidadão tem como saber o que está sendo feito e cobrar.

PS: Salve, salve ciência. Welcome back. O Science Blogs já respondeu ao chamado de Obama a uma discussão sobre o lugar da ciência na nova administração.



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 17 de novembro 2008

Balanço da campanha de Obama

A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.


Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.

Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.

As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.

Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.

O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.

Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.

É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.

Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.

Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.

O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.

Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.

PS: Este texto também está publicado na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 12:49 | link para este post | Comentários (40)



sexta-feira, 07 de novembro 2008

Links

O blog reuniu numa única página e sob uma única tag, A eleição de Obama, todos os seus posts sobre a eleição presidencial norte-americana, desde o dia 08 de janeiro, em que o Biscoito publicou um guia aos pré-candidatos republicanos e democratas. Está tudo lá: a cobertura em tempo real da Super Terça, a arrancada de Obama, a resposta a quem dizia que "ninguém sabia" o que Obama havia feito no Senado, além de toda a série sobre os swing states e a cobertura da vitória final. Está tudo numa só página: A eleição de Obama (obrigado ao César pela idéia).

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O bom sociólogo Fernando Henrique Cardoso fez algumas coisas razoáveis como presidente, fez muitas coisas bem ruins mas, com certeza, não fez ao regime legal de seu país um dano maior que o de indicar Gilmar Mendes para a Suprema Corte da nação. O blog empresta sua solidaridade ir-res-tri-ta ao Doutor Protógenes Queiroz que, como indicávamos já em julho, virou investigado, pelo simples fato de investigar, dentro da lei, falcatruas dos poderosos. Protógenes conhece o Biscoito. Nossa solidariedade está com você, delegado.

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Começou a discussão entre os leitores, portanto não há tempo para que eu elabore mais que isso: gostei demais da indicação que fez Barack Obama, de Rahm Emanuel para chefe de gabinete. É legal ter um sujeito mais tough, negociador durão e partidário como chefe de gabinete. Especialmente se você tem 57 senadores e 259 deputados. Ao mesmo tempo, ao reservar a figura clintoniana para a posição de chefe de gabinete, Obama deixa a área de formulação de política, provavelmente, com a outra corrente, mais inovadora e independente. Gol de placa de Obama. Os republicanos estão borrando nas calças com Emanuel pilotando o gabinete.

******

Antes de elaborar mais sobre isso, quero manter vivas as esperanças de que Susan Rice e Kathleen Sebelius sejam parte do ministério. O extraordinário David Axelrod estará lá, com certeza.

******

James Carville, uma das cabeças da administração de Bill Clinton, acaba de assinar contrato aqui conosco, em Tulane University, para dar um curso especial de ciência política sobre eleições. Já está lotadaço. Estou pensando em pedir autorização para fazer o curso como ouvinte, entre minhas aulas de alemão, e me comportar como um verdadeiro troll, questionando-o sobre o focalismo que impuseram ao Partido Democrata nos anos 90.

******
Peralá, deixem-me entender: o Vanderlei Luxemburgo envia o auxiliar técnico para um jogo oficial do seu clube na Argentina e assiste ao dito cujo comentando para a Globo? Foi isso que aconteceu? Depois perguntam por que não escrevo mais sobre futebol, e culpam a crise do Galo.

*********
Aos leitores que estão começando a se preocupar com o excesso de entusiasmo com Obama: eu terei amplas oportunidades de criticar o gabinete de Obama por aqui, tenho certeza. Já de cara, sublinho os dois únicos momentos da campanha em que eu tive críticas fortes a Obama: a negociação sobre a FISA e a frase sobre Jerusalém na AIPAC. Ambas merecem posts mais longos. Mas, fora isso, eu afirmo, sim, que Obama é o político presidencial democrata mais confiável, do meu ponto de vista, desde Carter.

Desde que Dadá Maravilha era centroavante do Inter, digamos.



  Escrito por Idelber às 01:13 | link para este post | Comentários (70)



quinta-feira, 06 de novembro 2008

Em meio à comemoração, uma derrota importante

É chave não perder de vista as derrotas parciais que tivemos na noite histórica do 04 de novembro. Além da emocionante vitória de Obama, as coisas correram razoavelmente bem nas eleições para o Senado e a Câmara dos Representantes. Mas houve pelo menos uma derrota que me doeu muito. Na Califórnia, estado progressista, foi aprovada por 52,5% a 47,5% a odiosa Proposição 8, patrocinada por grupos religiosos, que estabelece que “somente o casamento entre um homem e uma mulher será reconhecido pelo estado”. Na mesma noite em que ajudou a eleger o primeiro presidente negro da história, a Califórnia deu uma banana para gays e lésbicas.

Vamos aos números.

Eu não gostaria de estar dizendo isso, mas é a pura verdade: o comparecimento massivo do eleitorado negro foi decisivo para a aprovação da proposição. Entre os brancos, o “não” ganhou por 51 x 49, mas entre os negros o “sim” goleou por 70 x 30. Entre os latinos, muito numerosos na Califórnia, o “sim” também venceu, por 53 x 47. Entre as mulheres negras, 75% votaram a favor de se retirar o direito dos gays ao casamento. O eleitorado feminino costuma ser muito mais progressista que o masculino nos EUA, mas nesta questão o voto foi praticamente idêntico. Os jovens votaram massivamente contra a proposição discriminatória. A turma com mais de 35 votou massivamente a favor.

John McCain apoiava a proposição e Barack Obama, professor de direito constitucional, se opunha. A histeria contra o casamento gay foi decisiva para a derrota de John Kerry em 2004 e, neste ano, Obama elaborou uma posição com mais nuances sobre o assunto. Ele não defende o “casamento gay”, mas também não defende casamento nenhum como matéria constitucional. Argumenta que o casamento deve ser deixado para que cada igreja resolva como queira, e que a lei do país se limite a garantir a todos os casais direitos idênticos (de adoção, propriedade conjunta, herança etc.) como elementos de uma união civil.

O problema é o raio da palavra, “casamento”.

Se você colocar numa cédula a idéia de restringir o direito de gays e lésbicas à adoção, herança etc. (ou seja, os direitos que costumam acompanhar o “casamento”), ela não passará, mesmo em estados mais conservadores. Basta definir o “casamento” como “a união de um homem e uma mulher” que a proposição passa, mesmo nos lugares mais liberais. É a mesma idéia, mas dependendo de como ela for formulada, o resultado é distinto. Se, amanhã ou depois, algum grupo religioso maluco resolver emendar a constituição proibindo ateus de serem professores nas escolas primárias e secundárias, a proposição passa, mesmo nos lugares mais progressistas. Esta foi uma das chaves das vitórias conservadoras nas chamadas “guerras culturais” nos EUA: mobilizar os medos e preconceitos da maioria silenciosa.

Para que vocês tenham uma idéia do absurdo da coisa: na mesma cédula em que elegeram Obama e aprovaram a proposição 8, os californianos também aprovaram a proposição 2, que exige gaiolas mais confortáveis para as galinhas. Não, não estou brincando. Siga o link. Na mesma noite em que estabeleceu os direitos das galinhas, a Califórnia decidiu que gays e lésbicas são cidadãos de segunda classe. Este blog não tem nada contra galinhas e porcos e se opõe a quaisquer maus-tratos gratuitos de animais. Mas continua firmemente antropocêntrico.

Ainda há esperanças de que numa nova Suprema Corte – com mais um ou dois juízes nomeados pelo Presidente Obama --, proposições como a número 8 sejam definitivamente declaradas inconstitucionais. Afinal de contas, elas são um tapa na cara da décima-quarta emenda à constituição americana.

Mas essa batalha é morro acima, não há dúvidas. O blog manda seu abraço solidário a todos os seus leitores gays e lésbicas, decepcionado com essa importante derrota.

PS: O nosso leitor Cesar esteve em Grant Park na noite histórica.



  Escrito por Idelber às 04:19 | link para este post | Comentários (70)



quarta-feira, 05 de novembro 2008

Barack Obama eleito presidente dos Estados Unidos. Nasce um estadista

obama-victory.jpg

Ontem à tarde, antes de começar a cobertura ao vivo das eleições, eu fui ao supermercado renovar o estoque de cerveja. Alguns amigos iam passar por aqui e eu queria ter Abitas em quantidade suficiente. Na fila do supermercado, uma daquelas senhoras bem New Orleans, negra, sorridente, com o rosto marcado pelo tempo, me pediu um documento que comprovasse a minha idade. Feliz da vida por ter sido confundido com um garoto de menos de 21 anos, eu entreguei minha carteira de motorista e ela brincou: ah, que legal ter um aniversário no Halloween!

Nos EUA, puxar papo político-eleitoral com um estranho é bem menos comum que no Brasil. Animado pela brincadeira dela, no entanto, eu me arrisquei: Ma'm, I'm feeling pretty good about tonight. Ela retrucou: I'm just hoping and praying. Subitamente tomado pela consciência de que aquela mulher, que quando menstruou pela primeira vez não podia sequer usar os mesmos bebedouros, banheiros públicos e piscinas dos brancos, estava prestes a ajudar a eleger Barack Obama presidente da república, eu comecei a sentir o nó na garganta. Perguntei a ela: did you ever think you'd live to see the day? Não era necessário completar a frase. Ao ouvir a pergunta sobre se já imaginara viver para ver esse dia, ela sabia muito bem a que eu me referia. Respondeu: No, son, I didn't. But God is good. E eu, ateu de carteirinha, desabei a chorar nos ombros daquela senhora negra e crente de New Orleans, que trabalhava por 6 dólares a hora num supermercado na noite de 04 de novembro de 2008, a noite em que nós e Barack fizemos história.

Ela encerrou o papo: fique calmo, meu filho. Vá beber sua cerveja tranquilo.

Como bom atleticano, eu tenho Ph.D. em desgraças e decepções. Uma avaliação mais ponderada dos alcances e dos limites do governo Obama terá que ser feita com calma, dentro de alguns dias – inclusive porque essa avaliação depende das quatro vagas ainda indefinidas no Senado (Minnesota, Geórgia, Alaska, Oregon). Caso os democratas conquistemos essas quatro vagas, o Presidente Obama terá a maioria mágica de três quintos (60 senadores), que garante a aprovação de qualquer projeto sem preocupação com obstruções. Até lá, é hora de comemorar.

É de se comemorar, por si só, o fim do regime mais desastrado, inepto e mentiroso da história da república. É de se celebrar o surgimento de um verdadeiro estadista, um homem que, no pódio da vitória, não esfrega seu sucesso na cara dos outros, não tripudia sobre os vencidos, não joga seus apoiadores contra os seguidores do candidato derrotado, mas opta pelo caminho oposto: a reconciliação, a união, a possibilidade do diálogo. É de se celebrar o fim da premissa de que os progressistas americanos só venceríamos à moda Clinton, fazendo concessão atrás de concessão para a direita. É de entusiasmar ter um líder que entende a internet, compreende o poder das novas tecnologias, tem um visão de futuro. O discurso de vitória de Obama foi o de um verdadeiro estadista.

Eu me orgulho de ter apostado. Desde o primeiro minuto. E me junto à festa da Dona Sarah Obama, no Quênia:

sarah-obama.jpg

Em breve, faço uma análise mais detalhada dos números. Mas adianto que as vitórias de Obama em Indiana e na Virgínia são marcos inesquecíveis. São o coroamento de uma estratégia inteligente, que redesenhou o mapa político dos Estados Unidos. Dificilmente essa garotada de 18 a 25 anos voltará à letargia política em que havia se afundado.

Como alguém que acredita na política – que acredita na desejabilidade e na inevitabilidade da política – e é pai de duas crianças, eu só posso dizer:

Obrigado, Barack.



  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (112)



terça-feira, 04 de novembro 2008

Cobertura ao vivo da noite histórica do Presidente Obama

Este post será atualizado ao longo da noite. Estamos tendo alguns problemas com o servidor, portanto, ao escrever seu comentário, guarde-o num processador de texto e tente de novo caso ele não entre. O problema não é causado pelo excesso de visitas, mas pelo excesso de chamadas ao site (cliques nos links de comentários e pedidos para que se renove a página). Portanto, quem usa leitor de RSS pode acompanhar tudo com este link, que inclui também os comentários. Seu pitaco é importante. Não desanime.

11:48: Até agora, Obama já levou Vermont, New Hampshire (que McCain tinha esperança de vencer), Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware, o Distrito de Colúmbia (da capital Washington), Maine e Illinois.

McCain já levou Kentucky, Carolina do Sul, Tennessee, Oklahoma.

Até agora, as grandes notícias são as vitórias de Obama na Pensilvânia e em New Hampshire. O resto era tudo esperado. Trata-se agora, basicamente, de confirmar Ohio ou Flórida e sair para o abraço.

12:00
. Fecharam-se as urnas em toda a região central do país e em Nova York. Dentro de uma hora, acho que dá para anunciar o resultado com certeza.

12:03: Para quem está com a televisão ligada: a MSNBC está dando um banho na CNN. Pulem pra lá.

12:04
: Faltam oito estados decisivos. McCain precisa vencer todos os oito.

12:08
. Começaram a chegar os votos de Fairfax County e de Charlotesville, em Virgínia. A diferença, que andava em 10% a favor de McCain, já caiu para 3%. Tentei fazer uma regra de três aqui, para determinar se dava para anunciar vitória. Ainda não dá, mas está com cara boa.

12:17. Os números da Flórida são bons para Obama. A disputa está muito apertada, mas a julgar pela votação de Jacksonville -- que é área militar, de McCain --, dentro de uns 30 minutos dá para ter notícias de lá.

12:31. Alguns leitores me avisam que a MSNBC já declarou Ohio para Obama. Sem ter visto o anúncio deles, o Biscoito está pronto para prever: Obama vencerá Ohio. Por que? Obama lidera sem único voto de Cuyahoga County. Ou eu fiquei doido, ou fiz a regra de três errado, ou o mapinha do NYT está errado. Tirando isso, Ohio é Obama!

12:34. Chegou a hora. Você leu aqui primeiro: BARACK OBAMA É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Daqui pra frente, é só matemática. Comemorem, porque não tem volta.

12: 47: A coisa na Flórida também está bonita, meus caros. Miami-Dade é território democrata, eu sei. Mas em geral é 55 x 45. Obama está vencendo por lá com 60 x 40. Nas áreas militares, em que McCain esperava ter grande vantagem, a diferença é pequena.

12:55. Uma multidão gigantesca se reúne em Chicago, no meu querido Grant Park, onde até joguei futebol. Meus queridos leitores, eu estou muito, muito emocionado. Este blog já errou muito, mas nesta, modéstia às favas, nós acertamos do começo ao fim. No dia 28 de janeiro, o blog declarou seu apoio a Obama e iniciou a jornada.

01: 06
. Pedro Doria me enche o saco porque McCain venceu na Louisiana. Olhe os votos de New Orleans, Pedro!

01:44. Obama lidera na Flórida com 80% dos votos apurados. Mas, como em Palm Beach, reduto obamista, somente 27% votos já foram contabilizados, o Biscoito está pronto para anunciar: Obama vencerá a Flórida!

01: 52. Uma revolução no voto popular acaba de ser confirmada: Barack Obama, um senador negro formado em Harvard, vencerá as eleições em Virgínia, estado do sul segregacionista. O Biscoito explicou o porquê há algumas semanas.

02: 00. Oito minutos depois do Biscoito, a CNN canta Virgínia para Obama. A última vez que Virgínia votou democrata, Castelo Branco era o presidente do Brasil.

03:00
. A festa começou por aqui. Chega de blogar. Amanhã, mais detalhes desta noite inesquecível.



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (132)




Pela primeira vez desde 1952, um governo sem Bush ou Dole

kayhagan-ec.jpg

É oficial: na eleição do Senado mais importante da noite -- para o blogueiro, pessoalmente --, a queridíssima Kay Hagan derrotou a outrora poderosa Elizabeth Dole. É o primeiro assento roubado dos republicanos na noite. Rumo à maioria absoluta no Senado.

Pela primeira vez desde 1952, os EUA terão um governo sem nenhum Bush nem Dole.

I'm so proud of you, Kay!



  Escrito por Idelber às 21:27 | link para este post | Comentários (8)




Explicando o mapa do NYT

Alguns leitores estão ficando confusos com o mapa do New York Times. O fato de que um estado esteja vermelho ou azul não significa que ele já esteja decidido. Você tem que olhar a porcentagem de votos que já foram contabilizados e, evidentemente, de onde vêm eses votos.

Este site traz o mapa completo das eleições anteriores, condado por condado, para efeitos comparativos.



  Escrito por Idelber às 21:17 | link para este post | Comentários (4)




Vitória de Obama na Pensilvânia

A NBC acaba de projetar: Vitória de Obama na Pensilvânia.

Isso significa: McCain tem que vencer Ohio.

O Biscoito está pronto para afirmar: se não levar Ohio, McCain perdeu a eleição.



  Escrito por Idelber às 20:50 | link para este post | Comentários (18)




Indiana

Acabei de olhar de onde vêm os 12% dos votos que já foram computados no estado de Indiana. Os números são muito bons para Obama. Não sei se serão suficientes para uma vitória no estado, mas são muito superiores ao que se esperaria de um candidato democrata nesse estado eminentemente conservador.

A região noroeste do estado, mais suscetível à influência de Chicago, e portanto mais obamista, ainda não reportou. No momento, McCain lidera com 50,8%, mas suas regiões me parecem sobre-representadas no número de votos já computados.

Se Obama levar Indiana, será uma longa, longa noite para McCain.

Atualização: No mapinha do NYTimes, observe com atenção a chegada dos números de quatro condados no noroeste de Indiana: Lake, Porter, La Porter e St. Joseph. Destes, só o último já começou a contabilizar os votos.



  Escrito por Idelber às 20:26 | link para este post | Comentários (17)




As primeiras urnas

Faltam 30 minutos para o fechamento das primeiras urnas. Os estados que concluem a votação às 10 horas de Brasília são: Geórgia, Virgínia, Vermont, Indiana, Carolina do Sul e Kentucky.

A Carolina do Sul é um dos estados mais vermelhos da federação. Aguarde vitória de McCain. Mas, se quiser brincar de estatísticas, compare a votação de Obama por lá com a votação democrata nas eleições de 2004, 2000, 1996, 1992 e 1988.

Kentucky também é território vermelho. McCain vence, mas algo me diz que será por diferença historicamente pequena.

Vermont será uma goleada memorável de Obama. É um dos estados mais progressistas da federação, e casa do nosso único senador socialista.

Os números que realmente importam virão da Geórgia, de Indiana e da Virgínia. Geórgia é o coração do Sul mais atrasado. Democrata nenhum jamais deu bola para o estado. Obama montou campanha forte por lá e, mesmo que não vença, se conseguir um bom desempenho, já será anúncio de noite feliz. Mesma coisa em Indiana, estado bem conservador, que sempre vota republicano, mas que este ano Barack contestou. Se Barack vencer em Indiana, abra a cerveja, porque será goleada.

E a Virgínia, a Virgínia, a Virgínia, que não vota democrata desde que Castelo Branco era presidente do Brasil, foi a grande novidade da campanha de Obama: ele sacou a mudança demográfica do estado, deu uma banana para a estratégia "focalizada" que havia dominado o Partido Democrata nos anos 90 e chegou ao dia da eleição como favorito no estado.

Uma vitória na Virgínia, e a coisa já se encaminha.

Às 10:30 de Brasília, mais dois estados importantíssimos fecham as urnas: a Carolina do Norte e o decisivo, pai de todos os swing states, Ohio.



  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (10)




Fotos para história

Antes de começar a cobertura, aqui vão algumas fotos deste momento histórico. Fiz questão de registrar. Primeiro, a minha matrícula na Secretaria do Estado da Louisiana, com o endereço de onde votei. Se você conhece política americana, verá, pelo meu distrito, que na eleição para o Congresso tive a ingrata tarefa de escolher entre William Jefferson e Helena Moreno (votei nesta última):

registr-inf.jpg


Abaixo, foto tirada pela mesária, antes de que eu cravasse o nome de Obama na cédula:

DSC04150.JPG


Aqui, uma auto-violação da privacidade do meu voto, com X amarelo na chapa democrata:

DSC04154.JPG



  Escrito por Idelber às 16:53 | link para este post | Comentários (16)




Os obstáculos ao voto

Depois do vergonhoso roubo das eleições de 2000 na Flórida e das muitas irregularidades que contribuiram para o resultado de 2004 em Ohio, o mais primitivo e precário sistema eleitoral do chamado Primeiro Mundo passará hoje pela sua prova de fogo. O Partido Republicano, minoritário nas grandes cidades, já tem, há algum tempo, a supressão do voto como um dos elementos centrais da sua estratégia. Este ano não foi diferente, embora, até o momento, não tenha dado muito certo.

Algumas das notícias mais preocupantes até agora são:

* No Novo México, imigrantes recém naturalizados (e portanto americanos em condições de votar) receberam visitas de intimidação de advogados do Partido Republicano.

* Na Carolina do Norte, foram impressos e distribuídos panfletos que avisavam que republicanos deveriam votar no dia 04 (o dia real da eleição) e democratas no dia 05.

* Em vários estados, os eleitores continuam recebendo ligações telefônicas gravadas com informações deliberadamente equivocadas sobre datas e lugares de votação.

* Em Richmond, Virgínia, reduto de Obama, vários eleitores relataram esperas de seis horas na fila de votação antecipada.

* Em Kansas City, Missouri, também reduto de Obama, centenas de eleitores esperaram oito horas para votar, muitos deles tendo recebido informações erradas sobre data e lugar de votação.

* Em muitos estados, os absentee ballots (cédulas para votação pelo correio) requisitados com antecedência não chegaram.

* Na Pensilvânia, o Partido Republicano tentou mas não conseguiu forçar a ONG ACORN a ceder os nomes de 140.000 eleitores que eles haviam registrado (nomes que certamente seriam usados depois para prática de intimidação eleitoral).

* Em Ohio, continua no ar o programa de rádio que anuncia que Obama mandaria os judeus para câmaras de gás.

* Em vários estados, as milícias dos Minutemen mandarão gente às urnas para contestar o direito ao voto de quem ... hmmm... não pareça americano.

O Talking Points Memo traz toda uma lista de tentativas de supressão do voto em 2008. Este, mes amis, foi um bom ano. Nem queiram saber o que é um ano ruim.


PS: Considerando o entusiasmo com Obama em New Orleans, a minha própria espera na fila de votação deve ser bem longa. Chegando de lá, eu inicio cobertura ao vivo das eleições, provavelmente no comecinho da noite, horário de Brasília.

PS 2: Na legendária cidadezinha de Dixville Notch, em New Hampshire, que mantém a tradição de reunir-se à meia-noite do dia da eleição, todos os 21 eleitores registrados já votaram. O povoado, que vota Republicano desde 1972, desta vez escolheu Obama por 15 x 6.

PS 3: É meio constrangedor ver um senador brasileiro dar palpites sobre Obama sem sequer saber escrever o nome do candidato. Em vez disso, Demóstenes deveria nos explicar a história do grampo fajuto.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (43)



segunda-feira, 03 de novembro 2008

Madelyn Payne Dunham (1922-2008)

madelyn.jpg

Eu sempre achei bonito o jeito em que ela fecha os olhos nesta foto.



  Escrito por Idelber às 19:55 | link para este post | Comentários (14)




Os últimos números

A última pesquisa do Gallup mostra Obama 53%- McCain 42%.

Não, este blog não acredita que Obama vencerá por 11 pontos. Em todo caso, é simbólico que a pesquisa da CBS desta semana tenha confirmado o assombroso número: George Bush é o pior presidente da história (pdf) na avaliação popular, desde 1952, quando essas pesquisas sobre a aprovação da Casa Branca começaram a ser feitas.

Saiu a bateria de pesquisas finais dos estados decisivos. Ela não é ruim para McCain, considerando-se a situação dos últimos dias. Mostra empates em Ohio e Missouri e McCain na frente por um ponto na Flórida e na Carolina do Norte. Lembre-se: para ser eleito, McCain precisaria vencer em praticamente todos os estados hoje considerados swing states.

Ohio, Flórida, Pensilvânia, Carolina do Norte, Virgínia, Colorado, Novo México, Nevada, Minnesota, Wisconsin, New Hampshire, Montana, Indiana e Dakota do Norte: estes são os estados que o Biscoito acompanhará com lupa.

Se Obama confirmar a Pensilvânia e vencer em mais um dos grandes, babau.



  Escrito por Idelber às 16:59 | link para este post | Comentários (11)




Kay Hagan pode fazer história na Carolina do Norte

Ninguém, nem mesmo o Partido Democrata, acreditava. O assento da Republicana Elizabeth Dole no Senado Federal era um daqueles assentos cativos. E eis que nos últimos dois meses a Democrata Kay Hagan fez isto com as pesquisas:

Neste mapinha do New York Times dá para se avaliar a possibilidade de que os Democratas conquistemos as importantíssimas 60 cadeiras que garantiriam ao Presidente Obama uma maioria à prova de filibusters.

Agora escutem esta: caso se confirme a vitória de Kay Hagan na Carolina do Norte, será a primeira vez desde 1952 que os Estados Unidos terão um governo federal sem nenhum Bush ou Dole em qualquer um de seus ramos.

É a eleição menina dos olhos deste blog, a que decidirá uma das vagas da Carolina do Norte no Senado.



  Escrito por Idelber às 13:35 | link para este post | Comentários (16)




Previsão de comparecimento recorde às urnas

O Instituto Gallup acaba de ajustar sua previsão de comparecimento do eleitorado americano às urnas para as eleições deste ano. A previsão agora é de que vote 64% da população em idade de votar.

Caso se confirme a previsão do Gallup, terá sido o maior comparecimento dos últimos cem anos.



  Escrito por Idelber às 03:10 | link para este post | Comentários (5)



domingo, 02 de novembro 2008

There's never been anything false about hope: A 48 horas de um encontro com a História

obama.jpg

(fonte, via Mary)

O futebol americano trabalha com um conceito de "desrespeito ao adversário" que é exatamente o oposto do nosso futebol. No nosso ludopédio, nenhum time cabeça-de-bagre pode se queixar caso o seu adversário continue atacando e buscando o gol numa partida em que já está vencendo 9 x 0. Respeitar o adversário é seguir tentando marcar o décimo. O desrespeito, claro, seria a embaixadinha no meio-campo (em 1991, o Primeiro Campeão Brasileiro e Único Clube do Planeta a Derrotar a Seleção Tricampeã do Mundo deu uma dessas belas demonstrações de respeito ao adversário, ao continuar buscando gols num jogo contra o Caiçara-PI, que terminou 11 x 0, naquela que é, se não me falha a memória, a maior goleada da história da Copa do Brasil).

Os esportes americanos -- especialmente o basquete e o football -- têm outra compreensão do que é respeito. A expressão run up the score designa esse ato de continuar buscando pontos numa partida que está, por exemplo, 42 x 7. Esse ato pode ser considerado despeitoso caso você continue lançando passes de 30 e 40 jardas e enfiando touchdown atrás de touchdown num jogo em que você já está vencendo por 28 ou 35 pontos. "Respeitar o adversário" aqui seria justamente "fazer a embaixadinha no meio-campo" (usar jogadas que esticam o tempo e não atacam) para deixar o relógio correr.

"Respeito" ao adversário significa, então, coisas opostas no futebol americano e no futebol futebol. Já pararam para pensar nessa curiosa diferença? Max Weber e Jean Baudrillard, para citar dois bichos de espécies bem distintas, teriam muito a dizer sobre a sociologia desse desacordo.

Foi essa a diferença cultural que me ocorreu quando fiquei sabendo que Barack Obama lançou uma barragem de comerciais no estado do Arizona, o quintal de McCain. Certamente a escolha pode ser interpretada como uma tremenda demonstração de arrogância. Mas Barack não tem culpa se a última pesquisa do Arizona mostra uma vantagem de McCain de apenas dois pontos no seu próprio estado.

A série de swing states publicada pelo Biscoito, que já focalizou Ohio, Flórida, Michigan, Virgínia, Carolina do Norte e Pensilvânia, acabou sendo interrompida pela absoluta fúria com que Obama, durante algumas semanas, transformou swing states em estados azuis, e estados vermelhos em swing states. A coluna amarela do Pollster, por exemplo, só lista estados que votaram em Bush em 2004, incluindo-se, holy fuck, Indiana, Geórgia, Montana e Dakota do Norte.

Em todo caso, o blog ficou devendo análises de Colorado, Nevada e Novo México, que são estados que conheço bem menos. Eles foram a outra novidade avalassadora da campanha de Barack, junto com -- esta sim -- a "jogada de gênio" de entender as mudanças demográficas de Virgínia e Carolina do Norte. Quanto a Indiana e Geórgia, meu Deus, eu até os conheço bem, mas nunca imaginei que fossem virar swing states.

É verdade que algumas pesquisas dos últimos três dias mostram ligeiro movimento na direção de McCain. Pela primeira vez em muito tempo há uma pesquisa que o coloca na frente em Ohio, Missouri e Carolina do Norte. Mas a batalha para ele é morro acima.

Há muita confusão entre os especialistas para determinar exatamente qual a porcentagem do eleitorado que se aproveitou da possibilidade de votar antecipadamente. Já vi estimativas que colocam esse número na casa do 27%, o que é extraordinário. Tradicionalmente, o voto antecipado favorece os Republicanos, porque a faixa etária nele sobre-representada costuma ser de idosos. Este ano, no entanto, o voto antecipado favorece Obama por mais de 50%.

Apesar de que a Louisiana é estado quase certo para McCain, aqui em New Orleans houve uma monstruosa acometida do eleitorado negro às mesas de registro de eleitores. Além de ter um compromisso importante na terça às 11:30 am (3:30 de Brasília), eu devo gastar umas duas a três horas para votar. A partir das 18:30 de New Orleans, 10:30 da noite em Brasília, estarei por aqui.

Ao longo da cobertura, vou prestar bastante atenção a algumas eleições para o Senado também, que determinarão se os Democratas terão ou não uma maioria de 60 x 40, que é a necessária nos EUA para passar legislação sem poder ser incomodado por filibusters. Se você entende inglês falado, essa explicação do incomparável Josh Marshall coloca a coisa em perspectiva. A corrida por uma das vagas de Minnesota no Senado, na qual o comediante Al Franken, Democrata, pode surrupiar o assento do Republicano Norm Coleman, será acompanhada com especial carinho por aqui.

Para relembrar o começo da jornada, aqui vai um comercial que fez história:

A programação do blog para as próximas 72 horas é:

* na Segunda, devo publicar vários posts pequenos, diferentes dos normais por aqui. Uma linha, um comentário, um link.

* na Terça à noite, chegando da cabine de votação, eu inicio uma cobertura em tempo real, para a qual você está convidado. Passe a madrugada de Terça para Quarta comigo -- e com o Pedro Doria -- porque a experiência será memorável.

PS
: Se você ainda não leu, dê uma olhada no meu Barack Obama e o possível fim da política do medo.



  Escrito por Idelber às 16:45 | link para este post | Comentários (20)



terça-feira, 21 de outubro 2008

Estados decisivos. 6) Pensilvânia

É melhor seguir com a série dos estados decisivos antes que eles desapareçam. Continua firme o movimento que caracterizou a campanha de Obama este ano: avançar sobre território vermelho e levar a batalha para o terreno republicano. Obama vem, basicamente, transformando os swing states em estados azuis e convertendo em swing states vários estados até então vermelhos. Nos últimos dias, na verdade, as pesquisas nacionais mostraram ligeiro movimento na direção de McCain, que os especialistas ainda discutem se é ruído ou se é tendência real. Essa é a boa notícia para McCain. A má notícia é que o ligeiro movimento nas diárias nacionais não tem se traduzido nos estados decisivos, que são os que contam.

Ontem, numa reportagem que gerou grande polêmica, a CNN relatou que diretores da campanha de McCain haviam concedido Colorado e Novo México, dois estados que Bush venceu em 2004. Houve desmentido, mas a se confirmar essa concessão – e o fluxo de grana da campanha de McCain parece confirmá-lo --, já não bastaria para o republicano defender Ohio e Flórida. Ele teria que avançar sobre território azul. Aí entra a Pensilvânia. O quadro nacional segundo o Pollster anda assim:


mapa-us.jpg

Obama precisa de 270 votos no Colégio Eleitoral. Colorado e Novo México são esses dois quadrados em azul claro na região sudoeste do país. Confirmando-se a vitória democrata em todo o território azul claro e escuro, está ganha a eleição, mesmo que McCain leve todos os amarelos, que são os que o Pollster hoje considera indefinidos. Parece que a campanha de McCain decidiu que sua melhor chance é tentar arrancar a Pensilvânia da coluna azul.

A Pensilvânia, junto com Ohio e Flórida, é a mãe de todos os swing states. Ao contrário dos outros dois, a Pensilvânia permaneceu azul em 2000 e 2004, e de lá para cá aumentou significativamente a proporção de democratas para republicanos no estado. O problema para McCain é que a última pesquisa que o mostrou na frente de Obama na Pensilvânia foi conduzida em abril. Desde então, Obama vem tendo vantagens que oscilam entre 8 e 15 pontos. Como virar um jogo desses? Uma olhada na demografia do estado ajuda a entender. Eis o mapinha da vitória de John Kerry sobre Bush em 2004 (de novo com as cores trocadas):

img.jpeg

Bush venceu no estado inteiro, com a exceção das cidades de Filadélfia, Pittsburgh, Allentown, Erie, Scranton e Wilkes-Barre. A questão é que todos esses condados que votaram republicano têm densidade populacional bem baixa. No total, Kerry teve 2.938.095 votos e Bush teve 2.793.847. A pontinha sudeste em vermelho mais escuro é o condado mais populoso, o da Filadélfia, de alta concentração afro-americana. 674.000 eleitores votaram ali em 2004 e o resultado foi um massacre. Kerry teve 80,4% e Bush, 19,3%. Não se surpreenda se Obama ampliar essa vantagem.

O outro condado importante é Allegheny, onde fica Pittsburgh. É o território vermelho quase no extremo oeste do estado, separado da fronteira com Ohio por outros dois condados também coloridos em vermelho. Ali votaram 645.000 eleitores, mas a vitória de Kerry foi bem mais apertada: 57,1% a 42,1%. Pittsburgh, que já foi tema de post aqui no blog, é região siderúrgica devastada pela desindustrialização. A campanha de McCain conta com a resistência de parte desse eleitorado a votar em candidatos percebidos como “intelectuais”. Conta também com um racismo residual no centro do estado, que pode aumentar a boa margem que Bush teve sobre Kerry por lá.

Os únicos condados com alta densidade populacional vencidos por Bush em 2004 foram York e Lancaster, no sul do estado, onde votaram, respectivamente, 221.000 e 179.000 eleitores. Bush venceu em ambos com cerca de 64% dos votos. Todos os outros condados republicanos são grotões com 20, 30, 40 mil eleitores, no máximo. Na peleja deste ano, tenho evitado fazer qualquer previsão, mas vou fazer uma: sem melhorar os 42% de Bush em Allegheny County, McCain não tem nenhuma chance de vencer a Pensilvânia.

Considerando-se que há 1.2 milhão de democratas a mais que republicanos na Pensilvânia e que Obama vem tendo desempenho superior a Kerry nos estados decisivos, parece impossível a tarefa para McCain, especialmente se nos lembramos da situação desesperadora da economia, que atinge em cheio a população pobre, tanto do interior como das cidades da Pensilvânia.

Se a Pensilvânia foi mesmo a escolhida pela campanha de McCain para tentar virar o jogo, restam dois caminhos: mobilizar um time de advogados para suprimir tantos eleitores quanto seja possível, o que eles já vêm fazendo (via), e preparar uma ofensiva furiosamente racista para as duas últimas semanas, incluindo-se aí imagens do já quase esquecido ex-pastor de Obama, Jeremiah Wright. É a escolha que alguns acreditam que McCain vai fazer. Sem isso, não há tortura de números que resolva. Sim, talvez você volte a ouvir falar de Jeremiah Wright nestas duas últimas semanas.




PS: Já sabíamos que Obama liderava entre os latinos com boa vantagem, mas não se sabia da grande diferença entre católicos e cristãos não católicos. Entre os hispânicos católicos, que evidentemente são a maioria, Obama massacra por 65 a 26. Entre os hispânicos cristãos não católicos, a diferença é bem menor: 51 x 41. Lembram-se de todos os comentaristas da mídia que peroraram sobre o “problema” de Obama com os latinos na época das primárias?

PS 2: Vocês não imaginam a quantidade de bobagens ditas por aí que estou cuidadosamente guardando para o dia posterior à eleição. Querem um primeiro exemplo? No dia 04 de agosto, um respeitado blog democrata pró-Hillary, o Talk Left, afirmou que a única chance de Obama vencer na Flórida era com Hillary como candidata a Vice. Assim, na tora, eles disseram que nem vale a pena gastar recursos na Flórida se Hillary não for a Vice. Última pesquisa da Flórida? Obama-Biden 48,7%, McCain-Palin 45,8%. Não estou dizendo que a vitória está garantida no Sunshine State. Estou dizendo que muita gente falou bobagem antes da hora.



  Escrito por Idelber às 14:21 | link para este post | Comentários (46)



sábado, 18 de outubro 2008

Dois links

O pai de todos os jornais conservadores, o Washington Post, endossa Barack Obama num magnífico e revelador editorial. Trata-se daquele tradicional gesto de transparência que a mídia brasileira -- com a exceção da Carta Capital -- continua recusando-se a fazer, o de declarar suas preferências numa eleição. Enquanto mantêm suas escolhas supostamente encobertas, Folhas e Globos escondem cenas como esta:

que certamente estariam sendo exibidas dezenas de vezes por dia na TV e priorizadas nas primeiras páginas dos jornais caso o governador do estado de São Paulo se chamasse Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante.

Dois pesos, duas medidas, sempre. O que falta à mídia brasileira é, sobretudo, transparência. Na contra-corrente da dissimulação, os blogueiros tendem a declarar suas escolhas abertamente. Este blog é, com muito orgulho, membro do coletivo Blogueiros com Marta Suplicy. Se você apóia Marta, pegue lá seu selinho e deixe a autorização para a inclusão do seu blog.

PS: O RS Urgente vem documentando a terrorífica atuação de outra polícia militar, a do Rio Grande do Sul.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (96)



quarta-feira, 15 de outubro 2008

Para discussão do debate Obama-McCain

Hoje, às 22 horas de Brasília, Barack Obama e John McCain se enfrentam no último debate para a presidência dos States. Lá no Pedro, com certeza, haverá blogagem ao vivo. Não haverá exatamente cobertura por aqui, porque ando corrigindo trabalhos e preparando aulas. Mas entre um A- e outro B+, vou dar uma espiada no debate e é possível que atualize este post com algumas observações. A expectativa é saber se McCain vai dizer cara-a-cara com Obama o que andou dizendo nos comícios.

De qualquer forma, mesmo que as minhas atualizações sejam parcas, fica aí a caixa para quem quiser ir comentando o debate. São 40 minutos do segundo tempo para a campanha de McCain.

22:43: Essa mídia esquerdista americana é fogo! Acabaram de tirar a câmera do rosto de Obama, que não conseguia controlar a risada enquanto McCain falava.

22: 56: Até agora, o moderador deixou que McCain tivesse a última resposta em todas as rodadas de perguntas.

Balanço: Não há muito a acrescentar ao que já disse o Pedro sobre essa quarta vitória consecutiva da chapa democrata nos debates. Quando o resultado é 60 x 30 entre os eleitores independentes, não há muito mais o que discutir. Na realidade, foi o melhor desempenho de McCain até agora, mas quando 1) os fatos não estão do seu lado, 2) você tem um péssimo temperamento, que se traduz em muxoxos, caretas, expressões de raiva etc. e 3) enfrenta um adversário que é mais hábil retoricamente, a coisa fica muito difícil.

Para piorar, McCain teve um deslize fatal: fez pouco caso da cláusula "salvo em caso de risco à saúde da mãe", para os abortos de terceiro trimestre. Para o eleitorado feminino de meia-idade que ainda está indeciso, lá nos confins da Pensilvânia, foi o tiro de morte. O outro dado interessante é que pela primeira vez apareceu a América Latina. McCain falou de sua oposição às tarifas sobre o etanol brasileiro, o que lhe teria rendido votos no Brasil, com certeza. Defendeu também o tratado de livre comércio com a Colômbia, que Obama quer reformular, sob o argumento -- verdadeiro -- de que líderes trabalhistas são constantemente assassinados na Colômbia. Os números da vitória de Obama segundo o Media Curves estão aqui. Algumas fotos interessantes de McCain podem ser vistas aqui.



  Escrito por Idelber às 20:37 | link para este post | Comentários (25)



segunda-feira, 13 de outubro 2008

Notas sobre o estado atual da campanha americana

Os últimos dias da campanha de John McCain foram de um tremendo vai-e-vem: a chapa partiu para ataques a Obama por suposta associação com alguém que foi terrorista quando ele tinha 8 anos de idade, usou apresentadores que se referiam a Barack Hussein Obama, soltou um comercial sinistro sobre o “perigo” Obama e por aí navegou durante três ou quatro dias. Os comícios começaram a fugir do controle, com seus apoiadores chegando a gritar matem-no à menção do nome de Obama. O Serviço Secreto abriu, inclusive, o inaudito precedente de interrogar membros de um comício presidencial por ameaça de assassinato. Com a reação negativa gerada pelo sectarismo, McCain retrocedeu. De uma correligionária que começava um discurso sobre Obama, o “terrorista árabe”, ele chegou a tomar o microfone, meio sem graça ou talvez a contragosto, para dizer que Obama é um homem de família decente com quem tenho algumas divergências. Foi vaiado durante alguns instantes pelo seu próprio público. Ante a menção de um correligionário de que “tinha medo” de Obama, McCain de novo se afastou do clima de ódio que sua própria campanha havia criado, tendo que dizer que Obama não era alguém de quem se deveria ter medo. A contradição é óbvia: toda a campanha de McCain se sustenta sobre a premissa de que há que se ter medo de Obama, de que há algo “desconhecido e perigoso” nele. Caindo essa premissa, a campanha de McCain fica meio desprovida de ângulo de ataque.

Ao lançar essa barragem de ataques, McCain está repetindo incontáveis campanhas republicanas que deram certo, como por exemplo contra John Kerry, em 2004. O problema é que o contexto hoje é outro. Na pior crise econômica das últimas oito décadas, com o sistema financeiro em colapso e milhões de americanos perdendo suas casas e indo para a fila do desemprego, o discurso do medo já não cola como antes. No caso desta campanha, há um problema extra para McCain. Até muito recentemente, ele era visto por boa parte da base do Partido Republicano – cada vez mais reacionária e religiosa nos últimos anos – como um conservador “independente demais”. McCain precisou conquistar essa base. O problema é que o discurso raivoso necessário para mobilizá-la assusta os independentes, justamente os eleitores que McCain precisa conquistar. A oscilação entre baixaria e civilidade na campanha é a expressão desse impasse. McCain não é esquizofrênico nem burro. Simplesmente está numa encruzilhada matemática e política que gera essa gangorra discursiva. A outra alternativa – voltar a discussão para os temas econômicos, que são os que mais interessam aos americanos – seria suicídio para McCain. Nesse quesito, Obama janta-o com ketchup e mostarda. Os fatos hoje não estão do lado de quem sempre defendeu a desregulamentação e a sapiência infinita do mercado.

Na Gallup nacional diária, a vantagem atual de Obama é de sete pontos. Até mesmo no quesito “líder mais forte” -- no qual os candidatos republicanos sempre levam vantagem – Obama lidera as pesquisas com 54% contra 40% de McCain. Deve ser uma estatística inédita numa corrida presidencial americana. Para piorar, uma das três pessoas que McCain citou como as mais "sábias" do país (e de quem ele dependeria para conselhos) comparou-o a um dos maiores racistas dos tempos modernos. A cereja do bolo é o relatório da comissão -- de maioria republicana -- que investigou a perseguição de Sarah Palin ao seu ex-cunhado, policial no Alaska, o chamado “Troopergate”: o veredito unânime foi de abuso de poder. Trata-se de uma história que a campanha de Obama certamente não vai explorar, não por magnanimidade, mas porque não interessa a Obama atacar Palin agora. Ela já é cachorro morto (aliás, gostaria de convidar a que se manifestassem nesta caixa os leitores que vieram me falar da “jogada de mestre” que teria sido a escolha da Vice de McCain).

Piores que os números da Gallup nacional são os números dos estados decisivos. No Colorado, estado tradicionalmente republicano, Obama abriu dez pontos. No Novo México, que Bush venceu em 2004, a diferença atual em favor de Obama oscila entre oito e onze pontos. Na vermelhíssima Carolina do Norte onde, no começo, até setores do Partido Democrata não acreditavam na possibilidade de vitória, Obama lidera por seis pontos. A Pensilvânia, que a campanha de McCain tinha esperança de trazer para a coluna republicana, já está merecendo abandonar a condição de swing state. Se excetuarmos uma pesquisa de setembro conduzida pela desmoralizada Zogby, não há uma única enquete que tenha dado McCain na frente durante toda a campanha. A vantagem atual de Obama oscila entre doze (pdf) e quinze pontos.

Está decidida a parada? Não. Há um exemplo anterior de um candidato que saiu de desvantagem comparável e venceu: Reagan contra Carter, em 1980. Na quarta-feira, McCain terá a última chance de reagir através de um debate. Ele andou prometendo “dar uma surra" em Obama (whip, literalmente, “chicotear”) no próximo encontro cara-a-cara. Se não o fizer de forma bem convincente, ficará dependendo de um acontecimento fora do ordinário para ter chances de virar o jogo. Afinal de contas, erros graves, na campanha de Obama, não vêm ocorrendo em grande profusão.

PS 1: Este artigo também está publicado na Agência Carta Maior.

PS 2: O blog recomenda a entrevista da Carta Maior com Maria da Conceição Tavares: Entupiu o sistema circulatório do capitalismo.



  Escrito por Idelber às 04:15 | link para este post | Comentários (111)



sexta-feira, 03 de outubro 2008

Estados decisivos. 3) Virgínia e Carolina do Norte

Virgínia e Carolina do Norte são a prova cabal de que a tradução encontrada pela Folha para swing states, “estados pêndulo”, é ruim e enganosa. VA e NC não têm nada de pendulares. Votam Republicano desde que o América-RJ era um time grande, mas este ano estão indefinidos. A Virgínia é vermelha desde 1952, com a exceção do massacre democrata de 1964, que se seguiu à morte de Kennedy. Ou seja, nenhum democrata vence por lá desde que Castelo Branco era presidente do Brasil. Na Carolina do Norte, é a mesma coisa: os democratas venceram lá em 1964 e em 1976, com Jimmy Carter, que era sulista. Mais nada. Para que vocês tenham uma idéia, o vice de John Kerry, em 2004, era John Edwards, nativo da Carolina do Norte. Nem assim tivemos qualquer chance lá. Os democratas perderam o Sul quando deixaram de ser o partido da segregação, com Lyndon Johnson. Barack Obama, pelo seu perfil, colocou estes estados na coluna indefinida de uma maneira que nenhum outro candidato democrata teria sido capaz de fazer.

Eis aqui o mapinha da vitória de Bush sobre Kerry na Virgínia em 2004 (de novo, lembro que as cores estão trocadas):

virginia-map.gif

John McCain vencerá Obama na grande maioria dos condados da Virgínia, sem dúvida. Mas praticamente todos esses condados coloridos de azul são áreas rurais ou semi-rurais, alguns com 5, outros com 10, uns poucos com um máximo de 30.000 eleitores. Bastião batista véio de guerra (alô, blogueiros da direita católica que lêem o Biscoito: para entender a Virgínia, não deixem de ler Darconville's Cat, de Alexander Theroux, livro desconhecido que é uma sensacional sátira da vida batista no Sul dos EUA: Theroux é uma espécie de Jonathan Swift católico, um gênio).

O domínio religioso e republicano no interior do estado é amplo, mas trata-se de regiões pouco povoadas. Só naquele miolinho microscópico colorido de vermelho, na região centro-leste do estado, votaram 75.000 eleitores. É a cidade de Richmond, área metropolitana com forte presença negra (58% da população). Ali a vitória de Kerry foi por 70 x 29. Finalmente, o grande prêmio é Fairfax County, lá em cima. Nesse condado, que é parte da região metropolitana de Washington, D.C. e Baltimore, votaram 461.000 eleitores em 2004, e Kerry venceu por 53 x 45. Aguarde uma vitória ainda mais significativa de Obama em Fairfax County este ano. A outra vitória importante de Kerry foi em Albermarle County (o condado grande mais ou menos no centro do estado): trata-se de Charlottesville, sede da boa Universidade da Virgínia. Kerry venceu lá por 50 x 48. Com uma criacionista na chapa republicana e uma tremenda mobilização democrata entre os jovens, duvido que Barack não amplie essa margem.

A demografia de Virgínia mudou muito nos últimos anos. O norte do estado tem recibido muitos profissionais liberais que trabalham em D.C. ou em Baltimore. Barack sacou muito cedo essa mudança e massacrou Hillary nas primárias democratas da Virgínia, com um trabalho de organização de base que deixou os outros pré-candidatos democratas a ver navios. Não se iludam: a chapa republicana ainda é ligeiramente favorita na Virgínia. Mas é inegável que as pesquisas estão deixando o campo de McCain preocupado. A última Mason-Dixon dá McCain na frente por 48 x 45, mas ela é uma exceção. A Insider Advantage dá Obama 51 x 45 McCain e, incrivelmente, a CNN/ Time dá Obama 53 x 44. Se McCain não conseguir defender a Virgínia, um estado que vota Republicano desde 1964, é porque a vaca dele foi para o brejo.

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Carolina do Norte:

Sobre este maravilhoso estado, eu poderia preencher um livro. Morei lá durante 6 anos. É a meca imortal do basquetebol. Estudei nas duas principais universidades da região, a Universidade da Carolina do Norte, onde fiz o mestrado, e Duke University, onde fiz o doutorado. A rivalidade entre Duke e Carolina no basquete é coisa muito séria, que faz o Gre-Nal ou o Galo x Raposa parecer coisa de criança. Sem dúvida, é a rivalidade mais feroz de todo o universo esportivo universitário norte-americano. Entre 1993 e 1996, eu passei pela insólita situação de ser um torcedor de Carolina dando aulas em Duke. Carolina tinha um timaço, que foi campeão nacional em 1993. A cada vitória sobre Duke, eu tirava um sarro da cara dos alunos.

O meu amor pelos Tar Heels só se compara ao meu amor pelo Galo. O legendário técnico Dean Smith, que comandou os Heels entre 1961 e 1997, é o verdadeiro Telê Santana do basquete: amado e respeitado por todos, ele foi peça chave na luta contra a segregação nos anos 60, participando de inúmeros lunch counter sit-ins contra o racismo. Não só formou grandes equipes. Formou homens, que eram exemplares também na sala de aula. Jamais trapaceou na parte acadêmica, num meio onde os técnicos freqüentemente recorrem a falcatruas para burlar os requisitos escolares e conseguir vitórias esportivas.

Confira aí o jumper do moleque Michael Jordan, que estudou português na UNC e nos deu o título nacional de 1982:

Se, dois anos atrás, você me dissesse que um candidato democrata negro estaria empatado com John McCain na Carolina do Norte, eu teria lhe aconselhado procurar um psiquiatra. Os extremos leste (o litoral) e oeste (as montanhas Apalaches) do estado são brutalmente conservadores. No miolo do estado, encontra-se o chamado Research Triangle Park, mega-área universitária formada pela UNC, Duke e a NC State, uma universidade de perfil mais técnico. A região freqüentemente aparece nos primeiros lugares dos EUA no ranking da qualidade de vida. É um lugar maravilhoso para se morar. O senador ultra-reacionário Jesse Helms se referiu, uma vez, a Chapel Hill, sede da UNC, como um “zoológico” e sugeriu construir uma cerca em volta da cidade. Em 2004, Kerry venceu Bush só ali e em parte dos extremos sul e norte do estado. O condado vermelho no extremo sul, mais a oeste, é importante: trata-se de Mecklenburg County, onde fica Charlotte, a metrópole do estado. Ali, 323.000 eleitores votaram em 2004:

NC-map.gif

Numa conversa com uma liderança da campanha de Obama, alguns meses atrás, ela me avisava que Barack ia investir pesado no esforço de trazer a Carolina do Norte para a coluna democrata. Eu dei uma gargalhada e zombei: você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms? Ela tirou um mapa da mochila, abriu-o sobre a mesa e retrucou: você conhece o estado. Venha cá e faça as contas. Durham County são quantos eleitores? Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos. Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Esse poder visionário da campanha de Obama é o grande dado da eleição deste ano. Se a candidata fosse Hillary, a campanha democrata não estaria nem sobrevoando a Carolina do Norte. Nem mesmo Bill Clinton, um sulista que venceu duas eleições de goleada, conseguiu derrotar os Republicanos em NC.

As chaves para que Obama tenha chances por lá são Charlotte, Durham, Raleigh e Chapel Hill. Se aumentar a vantagem de Kerry nessas cidades e conseguir comparecimento eleitoral superior ao de 2004, Barack pode levar. Os números atuais são bons: a Rassmussen dá Obama 50 x 47 McCain, a PPP dá Obama 47 x 45, e a ARG é a única que ainda dá McCain na frente: 49 x 46.

Se Barack vencer nestes dois estados, é porque terá vencido a eleição de goleada no Colégio Eleitoral. McCain não pode nem sonhar em perdê-los. Não há mapa de vitória para o Republicano sem pelo menos um deles.



  Escrito por Idelber às 11:09 | link para este post | Comentários (28)



quinta-feira, 02 de outubro 2008

Cobertura ao vivo: Biden x Palin

Estou a postos para o começo do debate em Washington University, St. Louis, entre Joe Biden, candidato democrata à vice-presidência, versus Sarah Palin, candidata republicana. As atualizações serão feitas neste post. De novo, estamos em dobradinha com o Pedro Dória, na parceria que vem desde as primárias. St. Louis, evidentemente, é Obamaland.

12: 21: Valeu, Pedrão. O site aqui andou precisando de Viagra, mas sobrevivemos. Obrigado, leitores, pela paciência e comentários.

12:05: Em termos de gafes de Sarah Palin, houve só uma grave, imperceptível para o eleitor médio. Ela errou o nome do comandante das tropas americanas no Afeganistão. O nome dele é David D. McKiernan. Ela o chamou várias vezes de McClellan. Além de errar o nome, ela mentiu sobre as declarações do general.

11:54: A pesquisa da CNN até agora dá Biden 76 x 22 Palin.

11:32: Conclusão: Meio anti-climático, dadas as expectativas criadas. Biden foi corretíssimo, não teve nenhum deslize condescendente, não foi agressivo, foi coerente com o programa de Barack, defendeu-o bem. Palin foi surpreendentemente fluente, não engasgou, não cometeu nenhuma gafe, repetiu bem os slogans de campanha. Tudo como dantes, o que não deixa de ser bom para Obama.

11:29: É surpreendente o desempenho de Palin. Cheio de mentiras, claro (a velha história de que Obama vai "aumentar impostos para a classe média", por exemplo, quando o plano é aumentar impostos para quem ganha mais de US $ 250.000), mas seguro, fluente e tirando as cartas certas da manga no momento certo.

11:24: Este me pareceu o melhor momento de Biden: vamos falar do "maverick" (do "independente"): McCain não foi "maverick" em questões de educação; em questões de assistência médica; em questões fiscais. Votou sempre com Bush. Foi muito bem nessa resposta.

11:12: Como o Movable Type anda me irritando pra cacete, já vou encaminhando conclusões: tudo como dantes no quartel de Abrantes. A não ser que aconteça algum desastre daqui até o final -- uma gafe de Palin, uma grosseria de Biden -- o debate ficará empatado em pontos entre os indecisos, e a campanha continuará na curva em que ela vem se desenvolvendo. O medo dos democratas não se realizou. O medo dos republicanos também não.

11:05: Não dá para negar: Palin vai muito bem. Tinha todas as cartas certas na manga. E chamou Biden na sua incoerência: "Ora, meu chapa, você votou a favor da guerra. Era uma resolução de guerra". Irrefutável.

10:57: Palin: "Obama disse que estamos matando civis no Afeganistão! Que absurdo! Nós estamos construindo escolas para as crianças!"

10: 56: Eu acho que a moderadora insistiu na pergunta sobre armas nucleares só para ver Palin pronunciar "nukular" de novo.

10: 53: Começou o joguinho de quem é mais amigo de Israel.

10: 51: Contra-jab de Biden: McCain falou que não se sentaria nem com o governo da Espanha! Um aliado e membro da OTAN, que tem tropas no Afeganistão.

10: 48: O melhor momento de Palin até agora foi a lembrança da desastrada declaração de Biden há uns meses: "seria uma honra concorrer na mesma chapa de McCain e Obama não está pronto para ser presidente". Claro que ela tinha essa na manga.

10:47: Assim como Bush, Palin pronuncia "nuclear" como "nukular". É sensacional.

10:46: Biscoito pedindo arrego total com o excesso de visitas. Está difícil atualizar.

10:31: Primeira pérola de Palin: "não vou atribuir as ações dos homens à mudança de clima". (queria dizer, claro, o contrário).

10:24: Palin responde bem, citando um plano energético pelo qual Obama votou. Biden explica que no momento de votar nos cortes de impostos para grandes empresas de petróleo, Obama votou contra e McCain a favor. E cita os 4 bilhões de cortes adicionais para elas no plano presidencial de McCain.

10:20: Porrada certeira de Biden: o plano de McCain só é capaz de dar um crédito de 5 mangos porque ele taxa seu plano de saúde, com grana que vai direto para as seguradoras. E termina com uma estocada: it's the ultimate bridge to nowhere! (a ponte para lugar nenhum é a maluquice que Palin quis construir no Alaska).

10:18: Palin já mentiu uma vez – responsabilizando McCain pela passagem do socorro na Câmara dos Deputados – e escorregou uma vez, mudando de assunto. Mas vai bem, vai bem a Palin.

10:14: Biden soltou um jab. “a governadora não respondeu a pergunta sobre a desregulamentação”. Palin mudou de assunto de novo e passou a falar de seu trabalho como governadora. A crítica é irrespondível: boa parte da população sabe que a desregulamentação está na raiz da crise.

10:11: Biden está treinadinho: atacar McCain, atacar McCain. Nenhum ataque direto a Palin.

10:09: Biden foi bem, respondendo a pergunta sobre o socorro financeiro sem responsabilizar-se por uma medida que não é nada popular. Palin recitou bem os slogans de campanha.

10:03: E rola a pelota! Pergunta para Biden sobre o socorro financeiro.

10:02: São cinco segmentos, com respostas de 90 segundos e réplicas de 2 minutos. Formato fechadão, imposto pelos republicanos.

10:01: O dia não foi nada bom para McCain. Sua campanha oficialmente desistiu de Michigan. O mapa vai ficando bem restrito para o candidato republicano.

9:59: Comentarista da CNN: As expectativas para Palin são tão baixas que se ela encadear três frases completas, já será uma vitória.

9:58: Nos debates para Governador do Alaska, Palin se saiu bem. Conseguiu “conectar-se” com o público, na base do discurso “eu sou uma de vocês”.

9:56: Como sabemos, debate é jogo de expectativas. E, neste caso, a coisa é paradoxalmente para muito complicada para Biden. Trata-se da velha história de bater em bêbado: um político experiente, com 35 anos de Senado, está debatendo com uma governadora que deu todas as provas possíveis de ignorância nas últimas semanas. A tarefa de Biden é concentrar-se nas críticas a McCain. Derrotar Palin sem parecer arrogante ou condescendente e, muito especialmente, sem parecer sexista.



  Escrito por Idelber às 21:46 | link para este post | Comentários (91)



quarta-feira, 01 de outubro 2008

Sarah Palin é incapaz de nomear um jornal americano

A jornalista Katie Couric está entrando para a história da política americana com as entrevistas que tem feito com a candidata republicana à vice-presidência, Sarah Palin. Depois de impedir que a candidata tivesse qualquer contato com a imprensa durante semanas, a campanha de McCain liberou Palin para alguns papos com Couric. Talvez tivesse sido melhor lançar Palin aos leões do jornalismo beligerante. O massacre quiçá lhe rendesse alguma simpatia ou compaixão. Com voz macia, dicção pausada, perguntas simples (que exigiriam respostas específicas) e um grande talento para conter as gargalhadas, Couric tem levado Palin a sucessivos desastres, que deixam entrever sua assombrosa ignorância. Seleciono hoje os meus dois trechos favoritos. Este é o primeiro, em que, depois que Palin afirma que havia estado lendo muitos jornais para se preparar, Couric lhe pede que cite algum. A candidata republicana é incapaz de citar o nome de um jornal americano. Confira:





Mas o campeão realmente é este vídeo, em que, ante uma pergunta sobre o recente pacote de socorro ao setor financeiro, Palin produz um dos parágrafos mais insanos da história da língua inglesa. Acompanhe o show e depois leia a tradução exclusiva do Biscoito:

Ok, qualquer um que se proponha a traduzir isso está fadado ao ridículo, mas aí vai minha melhor tentativa:

Pergunta: Por que não seria melhor, Governadora Palin, gastar os US$ 700 bilhões ajudando as famílias de classe média que estão em dificuldades com assistência médica, moradia, gasolina e comida, para permitir que elas gastem mais e coloquem mais dinheiro na economia, ao invés de ajudar essas grandes instituições financeiras que cumpriram um papel na criação dessa bagunça?

Resposta: É por isso que eu digo que eu, como todo americano com o qual eu estou conversando, estamos doentes com essa posição em que fomos colocados. Onde são os contribuintes tentando socorrer. Mas no final das contas, o que o socorro faz é ajudar aqueles que estão preocupados com a reforma do sistema de saúde que é necessária para consertar nossa economia. Uh, ajudar... oh .. tem que ser tudo para criar empregos. Consertar nossa economia e colocá-la de volta nos trilhos. Então, a reforma do sistema de saúde, e baixar os impostos, e controlar os gastos tem que acompanhar a redução de impostos e os alívios de impostos para os americanos, e o comércio. Nós temos que ver o comércio como oportunidade, não, uh, como uma coisa competitiva e, uh, que dá medo. Temos que olhar para isso como mais oportunidade. Todas essas coisas sob o guarda-chuva da criação de empregos.

É, mes amis, é o Império, na sua marcha inexorável. Assim, não há humorista que consiga chegar perto. É um caso único, em que a paródia não necessita fazer nada além de citar o original. A literatura pós-moderna tenta há décadas, mas só Sarah Palin consegue transformar a paráfrase em paródia.

PS 1: Continua a curva ascendente de Obama nas pesquisas. Os números mais comemorados hoje foram: 1) Rassmussen dá Obama 50 x 47 em Virgínia, estado republicano; 2) Rassmussen dá Obama 49 x 47 na Carolina do Norte, estado republicaníssimo. 3) Rassmussen dá Obama por 8 pontos na Pensilvânia. Digamos o seguinte: qualquer candidato republicano que esteja atrás 8 pontos na Pensilvânia e sofrendo para empatar nos bastiões vermelhos da Virgínia e da Carolina do Norte está em sérios, sérios apuros.

PS 2: Eu me interno até amanhã à noite para terminar de redigir um projeto de pesquisa. Mas volto às 22 de Brasília, para o debate que pode decidir a eleição.

Atualização: A tradução foi aperfeiçoada. Obrigado, Pedrin.



  Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post | Comentários (47)



domingo, 28 de setembro 2008

Eleições americanas. Estados decisivos: 2) Flórida e Michigan

As avaliações da Flórida e de Michigan vão juntas porque a Flórida é, para McCain, o que Michigan é para Obama: o estado que há que se defender a qualquer custo. A Flórida foi decisiva nas últimas duas vitórias republicanas e Michigan vota democrata desde 1992. Eu apostaria que a Flórida é o estado que mais preocupa McCain e que Michigan é o estado que mais preocupa Obama.

Vamos aos nossos tradicionais mapinhas, pois. Na Flórida, o mapa da vitória de Bush sobre Kerry por 52 x 47 foi este (de novo as cores trocadas, o azul é Bush e o vermelho é Kerry):

florida-map.gif

A pontinha sul, claro, é a grande região urbana de Miami e Fort Lauderdale. Em Miami-Dade, no extremo sul, lado leste, Kerry venceu, mas não foi por goleada: 52,8% a 46,6%. A explicação para a alta votação de Bush numa área metropolitana é óbvia. Trata-se da alta concentração de cubano-americanos obcecados com Fidel Castro. Eles tendem a votar nos Republicanos, ao contrário do resto da população latina dos EUA. Isto tem mudado um pouco nos últimos anos, na medida em que conseguem cidadania cubanos de uma imigração recente, de caráter econômico. Eles tendem a ser menos obsessivos com Fidel e um pouco mais pragmáticos em política interna. Tudo indica que Obama tem chances melhores que Kerry por lá, apesar das corajosas declarações de Obama, de que vai, sim, sentar-se para conversar com Raúl Castro. 50,9% da população de Miami-Dade nasceu em outro país. É uma porcentagem mais alta que a de qualquer outro condado dos EUA. 61,3% dos habitantes de Miami-Dade são latinos, muitos deles de ascendência afro (cubanos, haitianos, dominicanos etc.). Obama tem tido uma pontuação boa entre eles, desmontando o mito de que latinos não votam em negros.

Imediatamente ao norte de Miami-Dade, estão os condados de Broward (onde se encontra Fort Lauderdale) e Palm Beach. Neles, sim, Kerry venceu por goleada com, respectivamente, 64,2% e 60,3% dos votos. O medo inicial este ano era que Obama não conseguiria repetir a performance de Kerry no sul da Flórida, tanto pela importância do voto latino como pelo alto número de judeus, que supostamente se afastariam da sua tradição de votar democrata por causa do fantasma do “Obama muçulmano”. Nenhum dos dois medos se confirmou. Obama vai bem no sul da Flórida. Mas precisa estancar a sangueira no miolo do estado e no extremo noroeste, a chamada região do panhandle (o cabo da frigideira). Ali, a concentração de militares é muito alta. Bush venceu naqueles condados com porcentagens absurdas, tipo 77, 80 por cento. McCain tem chances de repetir a performance ou até melhorá-la.

Os outros condados onde Kerry venceu foram os esperados: região metropolitana de Orlando, Gainesville (onde fica a Universidade da Flórida) e Tallahassee (capital do estado, onde se encontram duas universidades importantes: a Flórida A & M e Flórida State). O resto é tudo grotão.

Além da alta presença de militares, a Flórida tem enorme concentração de idosos. É tradição por aqui aposentar-se e ir morar na Flórida. Ou seja, é terreno de McCain. Para complicar a situação de Obama, houve a ridícula briga das primárias democratas, nas quais Flórida e Michigan anteciparam as datas de suas votações, para aumentar sua influência. Foram punidos pelo Partido Democrata com a anulação dos seus delegados e o compromisso de que os candidatos não fariam campanha nesses dois estados. Essa anulação foi feita com anuência de todos os candidatos. Quando começou a perder, Hillary foi à Flórida fazer campanha, vencendo, evidentemente, a primária fictícia por lá. E daí passou a dizer que Obama queria desqualificar os eleitores da Flórida. A campanha democrata na Flórida começou, pois, morro acima.

E eis que os números são surpreendentemente positivos. A Rassmussen dá vantagem de McCain por um ponto e a NBC/Mason-Dixon dá Obama por dois. Ou seja, o estado está indefinido. Sem a Flórida, praticamente não há mapa de vitória para McCain.

Apesar de tudo, não estou muito otimista quanto ao estado. Na Flórida, são as raposas que tomam conta do galinheiro. A fraude come solta. Na eleição de 2004, eu fiz boca-de-urna para Kerry por lá. Vi coisas que não havia visto nem na ditadura militar brasileira. Cobrem-me a história que um dia eu conto.

*********

Michigan é outra demografia, bem diferente. A última vez que os Republicanos ganharam por lá foi em 1988. Trata-se de um estado industrial, fortemente golpeado pela crise econômica. Etnicamente, ele é bem mais homogêneo que a Flórida. 83% de seus habitantes são brancos. A população hispânica é minúscula. Os negros estão concentrados em Detroit. Vamos ao mapinha da vitória de Kerry em Michigan em 2004:

michigan-map.gif


Esse condado quase no extremo sudeste é Wayne County, onde fica Detroit, centro da indústria automobilística americana. Nada menos que 81% da população de Detroit é negra, uma das mais altas concentrações dos EUA. Ali, Kerry venceu Bush por 69 x 29. Obama deve vencer com margem ainda maior. Ao norte de Wayne, fica Oakland County, populosa área de subúrbios da região metropolitana de Detroit. Ali, Kerry também venceu, mas por diferença muito menor: 49,7% a 49,3%. Não acredito que Obama vença em Oakland County. Imediatamente a oeste de Wayne fica Washtenaw County, também parte da área metropolitana de Detroit. Ali ficam as cidades montadoras de Flint e Warren. É região de classe trabalhadora, mas é outro mapa para Obama. 77% são brancos. Como eu já afirmei antes, nada indica que o racismo seja um fator entre essa população, mas ainda há gente que aposta que pode aparecer o efeito Bradley (eleitores que declaram, nas pesquisas, que vão votar num candidato negro, mas que na solidão das urnas votam com seu racismo). Eu aposto que não é o caso. Mas já errei antes.

Também em Washtenaw County fica Ann Arbor, sede de uma das mais espetaculares universidades públicas do mundo, a potentíssima University of Michigan. Ali, sem dúvida, é goleada de Obama, sem efeito Bradley nenhum. Ao noroeste de Wayne e Washtenaw, também há um quadradinho vermelho, onde Kerry venceu por goleada, com 57% dos votos, já no interior do estado. Por quê? Trata-se de Ingham County, sede da Michigan State University. Kerry também venceu em dois condados do norte de Michigan: Marquette e Algers, ali na região dos lagos. É onde fica a Northern Michigan University.

Um recente acontecimento político que pode prejudicar a candidatura de Obama em Michigan é a seqüência de escândalos com prostitutas envolvendo o prefeito negro de Detroit, Kwame Kilpatrick, que acabou renunciando no último dia 04. O que ele tem a ver com Obama? Nada, a não ser o fato de ser Democrata e negro. Mas a cada aparição de Obama em Michigan, ele tem que responder perguntas sobre Kilpatrick. Imaginem se a mesma situação seria verossímil com McCain e um prefeito Republicano branco.

As pesquisas recentes em Michigan mostram que as chances de Obama manter o estado são muito boas. Prestem bastante atenção aos votos de Detroit, nem tanto à porcentagem de vitória de Obama, que será alta, mas ao número absoluto de eleitores que comparecerão às urnas. Em 2004, 864.728 eleitores votaram em Wayne County. Se Obama aumentar significativamente esse comparecimento, McCain não tem chance nenhuma no estado. Qual a estratégia dos republicanos no momento em Michigan? Tentar passar uma incrível lei – impensável no Brasil – que determina que se você perdeu sua casa, você não pode votar. A batalha em Michigan é em torno ao comparecimento às urnas. Presença massiva de eleitores é garantia da vitória de Obama.


PS: Vejam a sensacional estratégia da campanha de McCain: marcar o casamento da filha de Sarah Palin para antes da eleição. Um operador republicano afirmou: toda a televisão estaria lá, pararíamos a campanha por uma semana. Agora imaginem se Obama tivesse uma filha grávida aos 17 anos de idade. Estaríamos falando de crack, maconha e falta de responsabilidade familiar.



  Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post | Comentários (25)



sábado, 27 de setembro 2008

O primeiro debate Obama x McCain

Depois de uma semana dormindo uma média de duas horas e meia por noite, volto a atualizar o blog. Espero que as atualizações continuem com a freqüência diária de sempre. Não tenho muito a acrescentar à excelente cobertura do debate entre Obama e McCain feita pelo amigo Pedro Dória. Vou só tirar algumas conclusões do quadro atual.

Assisti ao debate no legendário bar Mother-in-Law, aberto pelo já falecido músico Ernie K-Doe, aqui em New Orleans. A multidão que se aglomerava em volta do telão era, evidentemente, obamista. Fui ao debate decidido a não me deixar contagiar por ninguém, eufóricos ou derrotistas.

A semana começou com uma bizarra estratégia de McCain. Com o colapso financeiro vivido pelos EUA, McCain anunciou uma “suspensão” da campanha e disse que não iria ao debate até que o pacote de socorro ao capital fosse aprovado em Washington. O cálculo era claro: parecer “apolítico” e mais preocupado com o estado da economia que com o processo eleitoral. Só que a jogada era óbvia demais, e no momento em que começaram a chegar as pesquisas que informavam que a grande maioria do eleitorado queria o debate, McCain ficou numa sinuca. Querendo parecer estadista, ficou parecendo fujão. Um alto operador do Partido Republicano chegou numa reunião gritando: quem foi o imbecil responsável por essa idéia? McCain terminou indo.

O Pedro tem toda a razão: é extremamente difícil avaliar debates. Até mesmo uma vitória incontestável de um lado sobre o outro no terreno dos argumentos pode sair pela culatra, caso o vitorioso pareça arrogante ou desdenhoso. Poucos debates foram tão contrastantes em termos de conhecimento e preparação como aqueles que opuseram Al Gore a George W. Bush em 2000. Mas o próprio patetismo e ignorância de Bush terminaram reforçando a percepção de que ele era um “bonachão jovial” com quem “você gostaria de tomar uma cerveja”. Bush acabou levando. Roubado, mas levou. Considerando-se o estado da economia naquele momento, deveria ter sido goleada de Gore.

Debates são um jogo de expectativas sobre quem tem a vantagem do empate. No de ontem, você poderia olhar a coisa de duas formas. Sendo a política externa o terreno no qual a percepção é de que McCain é superior, um empate favoreceria Obama. Por outro lado, seria possível dizer que, tendo Obama muito menos tendência a cometer gafes (como, por exemplo, citar países ou fronteiras que não existem), um empate favoreceria McCain.

Foi essa a impressão que tive antes de ver os números das pesquisas – que havia ocorrido um empate técnico no qual nem McCain cometeu gafes, nem Obama cometeu erros graves. No geral, um debate chato e previsível. Claro que houve mentiras. Por exemplo, a demonstrável mentira de McCain de que Obama aumentará impostos para as famílias que ganham $ 42.000 dólares por ano. Mas o resultado de um debate tem pouco a ver com veracidade ou honestidade. Tem a ver com percepção.

E eis que chegam números surpreendentemente positivos. Segundo a pesquisa da CBS entre eleitores indecisos, Obama venceu por 39 x 24 (37% acharam que deu empate). No Media Curves, Obama venceu entre os eleitores independentes em todos os quesitos. No meu modo de ver, Obama teve dois grandes momentos: o primeiro, quando lembrou a McCain que ele estava errado sobre as tais “armas de destruição em massa” do Iraque; que estava errado sobre a duração da guerra; que estava errado sobre a recepção que teriam os soldados americanos. A força do A, you were wrong; B, you were wrong; C, you were wrong foi considerável. O segundo bom momento de Obama foi na discussão sobre economia. A insistência no fato de que a crise atual é produto das políticas apoiadas por McCain foi firme o suficiente, eu achei. Mas Obama também teve momentos ruins. Ele repetiu exatas 13 vezes alguma variação da frase John McCain está certo antes de passar às discordâncias. Recortadas e editadas num comercial, elas poderão ser usadas pelos Republicanos.

Para McCain, o pior componente foi sua incapacidade de fazer contato visual com Obama. Ele simplesmente não olhava para o adversário. Os números das pesquisas parecem indicar que esse foi um elemento importante na percepção de que ele perdeu por pontos (sobre a recusa a se fazer contato visual, veja o excelente comentário deste terapeuta). Realmente, é impossível concordar com o excelente Nelson de Sá quando ele afirma (link para assinantes) que McCain “venceu” o jogo de cena. Não vi isso e os eleitores independentes também não.

No debate de ontem, Obama deixou passar várias oportunidades de criticar McCain com mais ênfase. Para muitos observadores brasileiros, Obama deveria ser mais agressivo e atacar McCain. Já recebi incontáveis demonstrações de impaciência com a “falta de reação” de Obama. Outro dia, um leitor do Biscoito teve ataques histéricos por aqui, contra a suposta “torre de marfim” na qual me encontro, não percebendo que Obama já perdeu, posto que não bate em McCain o suficiente.

O problema é que esses observadores não parecem considerar um elemento decisivo, que é a política racial norte-americana. A última coisa da qual nós, do Partido Democrata, precisamos, é um negão nervoso e enraivecido na frente das câmeras. Uma única diatribe agressiva de Obama contra McCain e a vaca pode ir para o brejo. Atitudes que, num branco, são percebidas pelo eleitor médio como “firmeza” podem, num negro, serem percebidas como ameaçadoras e selvagens. Há que se conhecer bem os Estados Unidos para entender isso. A agressão não faz parte da tática de Obama. E essa tática até agora tem dado certo. Vai ganhar? Repito, não sei. Mas Obama tem se comportado com notável consciência das extremas dificuldades que enfrenta.

PS: A grande notícia do dia é a Rassmussen de Virgínia: Obama na frente por cinco pontos. É um estado tradicionalmente Republicano. McCain deveria estar liderando por lá.



  Escrito por Idelber às 17:11 | link para este post | Comentários (48)



sábado, 20 de setembro 2008

"As mulheres voltam para Obama"

A frase não é minha. É da agência de notícias AFP.

De minha parte, aí vai uma mescla de constatação e previsão para as eleições americanas: o “efeito Sarah Palin” acabou e não volta. A única ressalva que faço quanto à previsão é a possibilidade – pequena, mas não desprezível – de que Joe Biden cometa alguma gafe no debate entre os candidatos a vice-presidente, chamando a governadora, por exemplo, de “bonitinha”. Fora isso, acabou.

20 dias depois da escolha da criacionista do Alaska para a vice-presidência da chapa republicana, onde estão os números? Exatamente onde estavam antes das duas convenções. 20 dias após a escolha que, segundo alguns comentaristas, impactaria profundamente o eleitorado feminino, em que níveis se encontra o apoio a Obama entre as mulheres? Em níveis mais altos que antes.

Aos números. O gráfico abaixo é da Research 2000, e mede a diferença entre as opiniões favoráveis e desfavoráveis sobre os quatro candidatos a presidente e vice. Depois dos fogos de artifício iniciais, veja a curva da relação favorável / desfavorável de Sarah Palin. Dez dias atrás, a relação era +15. Hoje, já está em -7:


kosfav2.jpg


Segundo outra agência de pesquisa, a Quinnipiac, há um mês Barack Obama liderava entre o eleitorado feminino por 53 x 39. Um mês depois, e com o efeito do “furacão” Sarah Palin já computado, quais são os números da Quinnipiac de anteontem? Liderança de Obama por 54 x 40 entre as mulheres.

Tomemos as mulheres brancas, que são o grupo que supostamente faria toda a diferença. Segundo a pesquisa da CBS / NYT (pdf), no dia 20/08, antes das duas convenções, McCain liderava Obama por 43 x 38 nesse grupo. Hoje, na mesma pesquisa, as mulheres brancas escolhem Obama por diferença de 47 x 45. Repito: segundo a pesquisa CBS / New York Times, o apoio de Obama entre as mulheres brancas subiu nove pontos depois de Palin. O de McCain caiu dois.

Eis aí o efeito do “furacão” Palin.

PS: Repercutir todas as notícias negativas que saem a cada dia sobre a monstruosidade que é a trajetória política de Sarah Palin exigiria um blog de dedicação exclusiva. Mas esta última talvez não tenha circulado o suficiente: no Alaska, a cidade administrada por Palin era a única que cobrava exigia pagamento das vítimas de estupro pelo exame de coleta de provas.



  Escrito por Idelber às 16:52 | link para este post | Comentários (27)



sexta-feira, 19 de setembro 2008

O sumiço dos profetas

Num momento econômico como este, não dá vontade de aproximar-se de um desses fundamentalistas do mercado -- heraldos da sapiência infinita da receita neoliberal, Marios e Alvaros Vargas Llosa, aquela penca de economistas do tucanato, os engravatados moleques de recado do FMI e a longuíssima lista de catervas e congêneres –, tocá-los suavemente no ombro e sussurar nos seus ouvidos: e aí, companheiro, como anda a sua fé no dogma?

Convenhamos, é um choque e tanto para o receituário religioso da crença na potestade do mercado: a nação do livre mercado conclui oito anos de governo do partido do “governo pequeno” com o seu Banco Central fazendo a maior intervenção da história nos negócios privados, salvando com US $ 85 bilhões um mega-conglomerado cujo negócio é fornecer ..... seguros! Você pagou para (não) ser assegurado duas vezes. Na República dos Estados Unidos Soviéticos da América (via), você tem o melhor dos dois mundos: todas as garantias de lucro são do oligopólio, todos os riscos são seus. Não é uma coisa de gênio? Por um capitalismo genuinamente socialista para todos os ricos!

Não dá vontade, talvez, de adotar uma abordagem um pouco mais agressiva e dizer àqueles economistas – aqueles, do receituário do FMI, que apareciam tanto na televisão durante o tucanato, lembram-se? -- com uma voz um pouco mais agressiva: o Sr. não suspeita, cumpadi, que a “ciência” que o Sr. está fazendo é um mero aparato de justificativas pomposas para uma estratégia de transferir ainda mais renda dos pobres para os ricos? O Sr. acredita realmente no que está dizendo ou faz de má fé?

Nos EUA, o Partido Republicano conseguiu uma extraordinária façanha: convencer uma parcela significativa do eleitorado de que o governo é “o problema”, não “a solução”. Assim, nesses termos. Portanto, votem em nós. Elejam para o governo aqueles que acham que o governo é o problema e deve fazer cada vez menos. Convenhamos, é uma plataforma que minimiza o erro.

O gerente de campanha de John McCain, Rick Davis, seu conselheiro Charlie Black, e o avaliador da escolha vice-presidencial, Arthur Culvahouse, foram lobistas dos gigantes das hipotecas. Perguntado sobre como ele reagiria à crise, McCain disse que “mandaria embora” o diretor da Security and Exchange Commission (SEC). Detalhe: a SEC é uma agência independente. Num discurso de campanha ontem, Obama bateu duro em McCain, associando-o às políticas desastrosas da administração Bush.

PS: Enquanto isso, Lula dá uma declaração histórica e o Paraíba faz um belo post.



  Escrito por Idelber às 03:52 | link para este post | Comentários (146)



terça-feira, 16 de setembro 2008

Eleições americanas. Estados decisivos: 1) Ohio

Sempre que penso em Ohio, me lembro de uma quase oferta de emprego que tive pelos idos de 1996, bons tempos da América clintoniana: era meu primeiro ano no mercado de trabalho e, por via das dúvidas, mandei papelada para todo canto, até para dar aulas de lunfardo. A quantidade de entrevistas acabou sendo absurda para os três dias de congresso do MLA, que naquele ano calhou de ser em Toronto. As universidades e os bons colleges, claro, marcavam as entrevistas para suas suítes em hotéis. As faculdades mais modestas tinham cubículos num pavilhão, o carinhosamente chamado meat market. Ali tive uma entrevista normal com um college de Ohio. Ele não ficava em nenhuma das três grandes cidades, Cleveland, Columbus ou Cincinnatti e, em vista do acontecido, permanecerá inomeado.

Para o final da entrevista, é protocolar que a universidade lhe dê a oportunidade de fazer alguma pergunta, e naquele dia eu lhes perguntei, sei lá, sobre a região, como era, o que faziam, como se entretinham. O fato é que já não me lembro bem qual foi a pergunta, mas a resposta foi uma troca de olhares insólita, desesperada entre meus entrevistadores, seguida da frase salvadora de um deles: bom, nós estamos a 10 minutos da auto-pista interestadual. Nesse dia, eu entendi que há lugares que podem se gabar de estar a 10 minutos da highway. Ali, naqueles lugares, Bush venceu a eleição de 2004 contra Kerry.

Um Republicano nunca chegou à Casa Branca sem Ohio. A última vez que o vencedor de Ohio não venceu a eleição nacional foi em 1960, quando John F. Kennedy perdeu o estado para Nixon. Este ano, Ohio é mais “essencial” para McCain que para Obama, no sentido de que há outros mapas de vitória possíveis para o Senador de Illinois. É difícil imaginar uma vitória para McCain que não mantenha Ohio na coluna republicana.

Ohio é representativo e chave também pela demografia: a população negra anda ali pelos 12.5%, mais ou menos o que tem no país todo. O interior é branco e religioso, mas não só protestante. Há mais de 2,2 milhões de católicos em Ohio, decisivos em 2004. É verdade que a marcha dos setores religiosos às urnas para Bush em 2004 foi maciça entre os evangélicos, escandalizados por uma emenda anti-casamento gay. Mas numa eleição contra o católico John Kerry, o voto católico de Ohio – nada desprezível numericamente: 26% do estado -- foi em 55% para Bush, e decidiu a parada.

Os católicos são considerados swing electorate nos Estados Unidos porque tendem a concordar com os democratas em tudo – sindicalização, benefícios sociais, política de impostos, política externa etc. -- exceto, claro, com o bicho-papão: Roe v. Wade, cuja defesa, pelo menos nominal, é ponto de honra para o Partido Democrata.

A vitória decisiva de Bush na eleição de 2004, a de Ohio, foi uma besta religiosa de duas cabeças: paranóia anti-casamento gay para arrancar, sei lá, 90% do voto evangélico e fúria anti-abortista para vencer entre os católicos por 55 a 44, contra um candidato católico com o qual o eleitorado católico concordava em todo o resto. Durma-se.

Obama pode vencer lá? Pode. Fácil? De jeito nenhum. Tem que 1) arrancar uma vitória homérica em Cleveland. Em Cuyahoga County, onde fica a cidade, Kerry venceu por 66 a 33, e Obama tem potencial para mais; 2) ter uma boa votação em Columbus e Cincinnatti; em Franklin County (Columbus) Kerry venceu por 54,5% a 45%, e Obama também pode aumentar essa diferença; 3) fazer uma mensagem populista-econômica chegar ao eleitorado da devastação pós-industrial do interior de Ohio para contrabalançar minimamente o voto conservador religioso dos grotões.

A boa notícia é que a máquina de manipulação que era a Secretaria do Estado nas eleições de 2004 já não está em mãos republicanas. Ajuda do juiz, como em 2004, o candidato republicano não terá. Este é o mapinha com o qual Bush levou o estado em 2004. As cores estão trocadas. Bush é azul e Kerry é vermelho:

ohio-map.jpg
(daqui)

Quem olha o mapa pode pensar que foi uma goleada. Mas Bush teve 2.859.768 votos contra 2.741.167 de Kerry. A região de vermelho mais forte, lá em cima, é a área metropolitana de Cleveland, Cuyahoga County. O único condado vencido por Kerry “no meio” do estado é Franklin County, onde fica Columbus. Mais uma vitória a oeste, na área metropolitana de Dayton, e outra a leste, no Condado de Athens, onde fica Ohio University. Outra lá em cima, na área siderúrgica de Trumbull County, no extremo nordeste do estado. De resto, Bush venceu tudo, tirando nos grotões a vantagem de Kerry nas urbes.

Em 1992 e 1996, Clinton levou Ohio, com seu perfil moderado para os grotões e maciço apoio entre os negros na região metropolitana de Cuyahoga County. Seis anos antes da primeira vitória, em 1986, uma certa banda de rock compôs, em homenagem ao rio que atravessa o condado, uma canção que seria quase um hino ecológico, um anúncio dos anos Clinton que viriam. É dessas canções que falam do passado antevendo o futuro. Cuyahoga é uma das pérolas do álbum Life's Rich Pageant, do REM:


Cuyahoga - R.E.M.

As pesquisas dão, no momento, vantagem de 2 a 3 pontos para McCain no estado de Ohio. Big Dog esteve lá hoje, fazendo campanha para Obama.



  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post | Comentários (26)



sexta-feira, 12 de setembro 2008

Abaixo do pescoço tudo é canela: Como os Republicanos vencem eleições

A barragem de ataques sobre Barack Obama vindos da campanha de John McCain tinha se centrado, até agora, na sua “falta de experiência”, nos imaginados ou exagerados vínculos con radicais e em supostas (e algumas reais) osciliações de Obama. Não havia acontecido nada comparável aos golpes baixos que são vistos em eleições nacionais, pelo menos não explicitamente. Até este comercial:

Se McCain conseguir vencer – ou, melhor dito, se Obama conseguir perder – estas eleições, voltaremos a este clip como um ponto chave da virada. O comercial acusa Obama de querer “ensinar sexo” às crianças antes de que elas aprendam a ler. A base da acusação é uma lei na qual Obama votou uma vez, que simplesmente previa informação sobre doenças sexualmente transmissíveis para crianças de primeiro grau. Tudo no comercial é cuidadosamente pensado: a imagem das crianças ao fundo, a voz apocalíptica anunciando a notícia, a tomada da câmera no final, de baixo para cima, sobredimensionando a figura de Obama como uma espécie de predador em potencial. O sub-texto racial e os medos que o comercial quer mobilizar são nítidos, óbvios. Basta conhecer um pouco dos grotões americanos para saber do seu potencial demolidor. A idéia é aterrorizar a família -- “Obama: Wrong for your family!” -- com a imagem do vizinho negro grandão que tem aquela pinta de que toca seus filhos demais.

Uma campanha eleitoral da direita americana realmente faz ACM parecer brincadeira da hora de recreio. Na base democrata, começa a impaciência com a falta de respostas da campanha de Obama, quando já se completam 10 dias de domínio do ciclo de mídia pelos republicanos. Ataques demolidores como esse – sem nenhum argumento, claro, mas com imagens potentes que mexem com tensões racistas bem fundas -- não podem ser respondidos com declarações de indignação e críticas políticas. Não é suficiente. Exigem comerciais explícitos, que chamem o adversário de mentiroso – coisa que a campanha de Obama não tem feito.

A única boa notícia vinda da campanha de Obama é que foi dado o sinal verde para que os grupos 527 liberais, encarregados da pancadaria, voltem a atuar. O comercial visto aqui foi lançado pela própria campanha de McCain, diga-se. Ele aparece ao final “avalizando” o conteúdo da mensagem. Este é o John McCain que ia fazer a campanha "honrada".

Ocorrem-me dois exemplos clássicos de comerciais de pânico racializado vencendo eleições nos EUA:

1. Carolina do Norte, campanha para o Senado de 1990, em que o ultra-direitista Jesse Helms vinha sendo desafiado com sucesso por uma jovem liderança negra, Harvey Gantt, que já o ultrapassara nas pesquisas. Até que este comercial anti-ações afirmativas, mostrando mãos negras "roubando" um emprego que seria de um branco, virou a eleição e Helms venceu:

2. A segunda vítima de uma intervenção midiática de pânico racializado numa eleição -- apreciem a ironia -- foi o próprio McCain, que perdeu a primária republicana da Carolina do Sul para Bush em 2000 (e com ela a indicação do partido) depois que a equipe de Bush promoveu uma push polling -- suposta pesquisa de opinião que na realidade pretende "empurrar" uma hipótese caluniosa para o inconsciente do eleitorado. A pergunta da pesquisa arquitetada por Karl Rove em 2000 foi: você estaria mais ou menos propenso a votar em McCain se soubesse que ele é pai de um filho negro ilegítimo?

Com isso e unas cositas más McCain foi esmigalhado na Carolina do Sul e nunca se refez do baque. Bush ganhou ali a indicação republicana e o mundo tem sobrevivido para contar o conto.

McCain? Contratou o arquiteto das calúnias que o destruíram em 2000.



  Escrito por Idelber às 03:28 | link para este post | Comentários (48)



quarta-feira, 10 de setembro 2008

Mini-antologia de George W. Bush

As relações de fronteira entre o Canadá e o México nunca estiveram melhores. George W. Bush, conferência de imprensa com o Primeiro Ministro Canadense Jean Chretien. Set. 24, 2001

Uma ditadura seria bem mais fácil, não há dúvida. George W. Bush, Jul 27, 2001.

Eles querem que o governo federal controle a Seguridade Social como se fosse lá um tipo de programa federal. George W. Bush, Nov. 2, 2000

É o seu dinheiro. Você pagou por ele. George W. Bush, LaCrosse, Wis., Out. 18, 2000

Se eu me tornar presidente, vamos ter atendimento de emergência, vamos ter ordens de mordaça. -George W. Bush, terceiro debate presidencial, St. Louis, Missouri, Out.. 18, 2000.

Eu acho que se você sabe o que você acredita, fica muito mais fácil responder as perguntas. Eu não sei responder sua pergunta. George W. Bush, sobre se ele desejaria voltar atrás em qualquer uma de suas respostas no primeiro debate, Reynoldsburg, Ohio, Oct. 4, 2000

Eu sei o que acredito. Continuarei a articular o que acredito e o que acredito – eu acredito que o que acredito é certo
. George W. Bush, Roma, Julho 22, 2001.

Quero dizer, houve um sério esforço internacional para dizer a Saddam Hussein, você é uma ameaça. E os ataques de 11/09 extenuaram essa ameaça para mim. --George W. Bush, Philadelphia, Dec. 12, 2005

Uau! O Brasil é grand
e --George W. Bush, depois que Lula lhe mostrou um mapa, Brasília, Nov. 6, 2005

Eu ouvi alguém dizer, “Onde está Mandela?” Ora, Mandela está morto. Porque Saddam matou todos os Mandelas. George W. Bush, Washington, D.C., Sept. 20, 2007

Para cada disparo fatal, houve em volta cerca de três disparos não-fatais. E, amigos, isto é inaceitável na América. É simplesmente inaceitável. E vamos fazer algo para resolver
. -George W. Bush, Filadélfia, Penn., May 14, 2001

Mais de duas décadas depois, é difícil imaginar a Guerra Revolucionária com qualquer outro resultado. -George W. Bush, Martinsburg, W. Va., July 4, 2007

Nesta mesma semana em 1989, houve protestos em Berlim Oriental e em Leipzig. No final do ano, todas as ditaduras comunistas da América Central já tinham caído
. -George W. Bush, Washington, D.C., Nov. 6, 2003

Veja, as nações livres são nações pacíficas. As nações livres não atacam umas às outras. As nações livres não desenvolvem armas de destruição em massa. George W. Bush, Milwaukee, Wis., Out. 3, 2003

O problema dos franceses é que eles não têm uma palavra para “enterpreneur”
. " George W. Bush, ao Primeiro Ministro Tony Blair.


É importante para nós explicarmos à nossa nação que a vida é importante. Não é só a vida dos bebês, mas é a vida das crianças vivendo, você sabe, nos calabouços escuros da Internet.




Traduções minhas. Tem muito, muito mais, no original, aqui.



  Escrito por Idelber às 05:39 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 08 de setembro 2008

Por que a vantagem de Obama não é maior?

Ao longo da semana passada, as matérias publicadas pela Folha sobre as eleições americanas repetiram um mesmo bordão, a insistente pergunta: por que a vantagem de Obama nas pesquisas não é maior? O objetivo deste post é explicar por que essa pergunta não faz sentido.

Na matéria escrita no domingo (link para assinantes), Fernando Rodrigues afirma: A economia do país está à beira de uma de suas piores recessões, como vários indicadores atestam, mas o candidato governista e republicano John McCain se mantém praticamente empatado nas pesquisas de intenção de voto com o democrata Barack Obama. Uma hipótese para explicar esse possível paradoxo é que a crise econômica tal qual tem sido noticiada na mídia, por causa dos indicadores ruins, ainda não afetou com força uma parcela considerável do eleitorado.

Jisuis, a crise econômica afetou muito mais que “uma parcela considerável do eleitorado”! A taxa de desemprego é a maior dos últimos cinco anos. O número de americanos que viram seus empregos de tempo integral reduzidos a meio horário chegou a 3,7 milhões, a maior cifra desde que o governo começou a computar esta estatística, há 50 anos. Sobre a crise imobiliária, a matéria da Folha afirma que ela fez milhares de pessoas perderem suas casas. Caro Fernando Rodrigues, as perdas de hipotecas não se medem aqui por milhares. Não se medem por dezenas de milhares. Não se medem por centenas de milhares. As perdas de casas nos EUA já há tempos se contam pelos milhões.

Por que, então, não faz sentido se perguntar por que Obama não tem vantagem grande nas pesquisas? A resposta é pateticamente simples: porque assim são as eleições americanas. Sabem qual foi o último candidato a ser eleito com mais de 50% dos votos? Bush pai, em 1988, com 53,4%. Exato, há duas décadas ninguém recebe mais de 50% dos votos aqui. Clinton foi eleito em 1992 com 43% (numa eleição atípica, já que havia um terceiro candidato, Perot, que recebeu 1 de cada 5 votos). Em 1996, numa goleada histórica de Clinton sobre os Republicanos, a diferença foi 49,2% a 40,7% sobre Bob Dole. Em 2000, quando Bush filho venceu joserobertowrightianamente, a diferença em favor de Al Gore no voto popular foi 48,4% a 47,9%. Trata-se de um sistema eleitoral onde cada um dos dois candidatos já entra com 40%. Aqui não existem goleadas de 62 a 38. Goleadas de 62 a 38 são exclusividade de países onde o governo bate recordes históricos de redução da desigualdade social e a única plataforma eleitoral da oposição é falar de grampos telefônicos.

Portanto, toda a indagação sobre o “problema” de Obama não tem o menor sentido. Os números são os esperados e quem conhece a história eleitoral americana sabe disso. Ninguém que conhece o jogo jamais achou que ia ser fácil.

O outro grande serviço que a Folha poderia prestar aos seus leitores é avisar que manchetes como Obama abre 5 pontos, McCain empata com Obama, McCain está um ponto na frente são não-fatos. Como os leitores deste blog já estão carecas de saber, as pesquisas nacionais não significam nada, pois a eleição é indireta. David Plouffe, o competentíssimo coordenador da campanha de Obama, afirmou outro dia numa conversa: “as tracking polls a gente nem olha”.

Segundo os cálculos deste blog, McCain tem, garantidos, 157 votos no Colégio Eleitoral. É a soma de Alaska, Utah, Idaho, Arizona, Wyoming, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Texas, Louisiana, Mississippi, Tennessee, Kentucky, Virgínia Ocidental, Alabama, Arkansas, Geórgia e Carolina do Sul.

Obama tem 200 votos sólidos no Colégio Eleitoral: é a soma de Califórnia, Washington, Oregon, Havaí, Illinois, Wisconsin, Vermont, Maine, Maryland, Nova York, Rhode Island, Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware e o Distrito de Columbia (da cidade de Washington).

Ganha quem chegar nos 270.

São 181 votos indefinidos: a soma de Ohio, Flórida, Pensilvânia, Nevada, Novo México, Virgínia, Carolina do Norte, Montana, Dakota do Norte, Michigan, New Hampshire, Indiana, Colorado, Iowa, Minnesota e Missouri. O mapinha, com o número de votos que cada estado carrega ao Colégio Eleitoral, é este.

As pesquisas nesses 16 estados são as únicas que importam. Em alguns deles, McCain é forte favorito, como em Missouri. Em outros, Obama é forte favorito, como na Pensilvânia. Mas é razoável dizer que em todos eles há alguma chance para ambos.

Em breve, um passeio estado a estado, por esses 16.



  Escrito por Idelber às 06:43 | link para este post | Comentários (61)



sexta-feira, 05 de setembro 2008

Aprende a guglar, McCain!

Ah, como eu vou me divertir nestas eleições! Vejam só a revolução que os blogs e a mídia independente já conseguiram realizar nos EUA. Vocês, que assistiram ao discurso de McCain ontem à noite, na convenção republicana, terão notado a imagem de uma mansão projetada atrás do candidato. A imagem é esta:

mccainhousebackdrop.jpg

Pois bem, no dia de hoje, a mídia coçava a cabeça: que porra de casa é aquela? Será uma das mansões do McCain? Por que ele projetaria a imagem de uma de suas mansões durante o discurso na convenção? Josh Marshall, no TPM, perguntou-se a mesma coisa no post de ontem à noite. Imediatamente, a fenomenal equipe de leitores do TPM pôs-se a trabalhar. E mataram a charada. Trata-se da Walter Reed Middle School, que fica em North Hollywood, na Califórnia.

Mas continuava o mistério. Por que essa escola? Chegaram à única explicação plausível. A equipe de McCain queria mostrar imagens do Walter Reed Medical Center, do Exército, onde veteranos de guerra são atendidos. Guglaram errado e pegaram a imagem da escola, que tem o mesmo nome. Resultado: a diretora da escola já emitiu um anúncio dizendo que jamais autorizou o uso da imagem e que a escola não apóia nenhum candidato. A Walter Reed Middle School junta-se, pois, a John Cougar Mellencamp, Bruce Springsteen, Wayne's World, Van Halen, Heart e Jackson Browne no rol dos que já tiveram imagens ou sons utilizados pelo Partido Republicano para fins eleitorais sem autorização.

Os democratas da Califórnia não perderam tempo e marcaram uma conferência de imprensa para o gramado da escola na tarde de hoje. O candidato John McCain confessou, há algumas semanas, que está “aprendendo a usar” um computador. Sua equipe, claramente, poderia tomar algumas aulas de guglagem com a Luiza Voll e a Bianca Bueno.



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quinta-feira, 04 de setembro 2008

Sarah Palin e a convenção republicana

palin.jpgSabe aquele jogo de futebol que você está perdendo por 1 x 0 e o zagueiro é expulso? Você faz a substituição para recompor a defesa ou parte para atacar o adversário com a zaga capenga mesmo? Seguindo a tradição do Nosso Guia, que tem a metáfora futebolística para explicar tudo, poderíamos dizer que essa é a situação do Partido Republicano nesta eleição americana. Com um presidente que tem uma das taxas de aprovação mais baixas da história e um candidato que até alguns meses atrás não era exatamente adorado pela base ultra-reacionária que foi chave nas eleições de 2000 e 2004, o Partido Republicano se viu numa encruzilhada: energizar a base direitista ou conquistar os votos dos independentes, que em geral favorecem políticas mais moderadas?

A escolha da até então desconhecida fundamentalista, criacionista e ex-secessionista Sarah Palin, do Alaska, para a Vice-Presidência, foi uma tentativa de matar esses dois coelhos com uma cajadada só. A mulher está à direita de Médici e, sendo uma fundamentalista religiosa, mobiliza a base evangélica do Partido Republicano, que andaria em cacos de vidro por ela. O cálculo foi que, sendo mulher, capturaria uma parcela dos votos de mulheres independentes ou democratas que simpatizavam com a candidatura Hillary. Nada indica que este cálculo tem funcionado, como já prevíamos, aliás. Os números da Gallup mostram que, desde a escolha de Palin, McCain aumentou, é verdade, o seu apoio entre mulheres republicanas, de 85% para 90%. O problema é que para cada eleitor que chegou, um independente pulou para o lado de Obama. Desde a escolha de Palin, McCain perdeu votos entre as mulheres independentes e democratas.

Para piorar a situação, os escândalos foram se sucedendo: Palin, candidata a Vice-Presidente numa chapa que tem como slogan “country first”, teve laços com o Partido Independentista do Alaska, organização secessionista cujo fundador discursa sobre a “maldita” bandeira americana. Apareceu sua perseguição a um policial do Alaska que estava envolvido em divórcio litigioso com sua irmã e a posterior demissão do chefe que se recusava a dispensar o policial. Ontem, o "Trooper-Gate" piorou para ela, com a revelação de emails enviados da sua conta pessoal. Na seqüência, o retrato de “reformista” e “outsider” da governadora foi perdendo credibilidade, quando saíram as notícias de que ela dirigiu um Grupo 527 de Ted Stevens, Senador do Alaska em desgraça por corrupção. Finalmente, a grande bandeira da governadora, ter sido contra a ponte para lugar nenhum (projeto que custaria a bagatela de $398 milhões), revelou-se uma mentira, já que ela foi durante muito tempo uma das defensoras da tal ponte e fez campanha em 2006 em cima do tema.

Nada disso importa, claro, porque a adorável Bristol Palin, de 17 anos, está grávida. Há que se dizer que essa gravidez indesejada é um retrato da hipocrisia da direita religiosa, que continua esbravejando contra a educação sexual nas escolas e insistindo no mantra da “abstinência” como solução, para logo assistir aos seus próprios adolescentes apresentarem o exemplo de que isso não funciona. Mas o interessante no episódio da gravidez da moça é que a campanha de McCain viu aí a possibilidade de armar o teatro da indignação moral com a revelação da história e assim desviar a atenção de todos os outros escândalos. Foi a própria campanha de McCain quem revelou a gravidez. Logo depois, passaram às expressões de indignação contra a “exploração pessoal” da vida de Palin. Ninguém da campanha de Obama teceu qualquer consideração sobre a moça. Obama logo deu uma declaração de que não falaria disso e que convidava todos os seus apoiadores a não usarem o episódio. Mesmo os blogs liberais mais importantes – que Obama evidentemente não controla – não insistiram no assunto. Mesmo assim, durante todo o dia, só se ouvia, da campanha de McCain, a retórica da indignação moral ante a adolescente supostamente massacrada. Pode até ser que cole, posto que vi gente inteligente caindo igual patinho na versão propagada pela campanha de McCain.

No discurso de Sarah Palin ontem à noite na convenção, ficou claro qual será a estratégia: tentar mobilizar raivosamente a base com ataques pessoais a Obama (esqueceu-se, claro, de que menos de três semanas atrás, ela dava entusiasmadas declarações sobre Obama). É a estratégia que funcionou nas duas últimas eleições. Os números, a demografia, o contexto e acima de tudo o candidato democrata hoje são bem diferentes. Mas se alguém esperava que McCain fosse tentar manter a fama de “moderado”, pode tirar o cavalo da chuva. Vão fazer a mesma campanha sangrenta imortalizada por Karl Rove. Resta saber se vai funcionar com os independentes. Os últimos números da Gallup e da Rassmussen -- e eu sempre enfatizo que pesquisas nacionais, em eleições americanas, significam pouco -- mostram que Obama quebrou a barreira dos 50%.

PS: Não resisti e roubei a foto do Sergio Leo.

PS 2: Convido todos os jornalistas da Veja, da Globo e congêneres, com o seu papo de que o Brasil vive um "estado policial", a irem a Minneapolis tentar filmar os protestos pacíficos que foram convocados durante a convenção republicana: centenas de presos, jornalistas independentes jogados na cadeia por cobrir o evento e, pasmem, prisões preventivas em domicílio. Mas é o Brasil que vive um "estado policial", afinal de contas, a Veja tem uma fonte anônima que garante que alguém ouviu Gilmar Mendes falar ao telefone.



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sábado, 23 de agosto 2008

Obama / Biden será a chapa democrata

Barack Obama acaba de anunciar que será Joe Biden o seu companheiro de chapa nas eleições americanas de novembro. 65 anos de idade, eleito para o Senado como um dos seus membros mais jovens em 1972, Biden é uma autoridade em política externa, o que certamente pesou na escolha. O senador de Delaware também é conhecido pelas iniciatiavas em política econômica – Biden vem de origem trabalhadora, ainda mantém seu cargo de professor e é, entre os 100 senadores, o de menor patrimônio. Entre uma escolha que seria conservadora (Evan Bayh) e outra que teria sido revolucionária (Kathleen Sebelius), Obama optou por um meio-termo.

O histórico de votação de Biden no Senado é bem razoável. A HRC (Human Rights Campaign) lhe dá uma nota de 78%, o que indica, segundo eles, apoio sólido aos direitos de gays e lésbicas. A NEA (National Education Association) lhe dá uma nota de 91%, o que indica apoio mais que sólido aos princípios da educação pública e laica. Por outro lado, ele terá que explicar a discrepância entre suas posições e as de Obama na época do início da Guerra do Iraque, assim como declarações suas, feitas durante as primárias, de que Obama não estava pronto para liderar.

Parece-me que o critério definitivo para a escolha de Biden foi, no entanto, a percepção de que a campanha precisava de um pitbull. Obama é um grande orador, mas é péssimo para responder ataques à queima-roupa. Biden tem um estilo demolidor de debater, e eu sinceramente não gostaria de estar na pele do candidato a vice-presidente na chapa republicana, que terá que encará-lo nos debates.

Biden também tem certa tendência a dar declarações polêmicas. Tediosa, com certeza, a coisa não vai ser.

Atualização
: Segundo o ranking do Progressive Punch, que acompanha as votações no Congresso, Joe Biden tem um histórico de votação mais progressista que o do próprio Obama.



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sábado, 26 de julho 2008

Obama em Berlim

É difícil dizer algo que já não tenha sido dito sobre a viagem de Barack Obama ao Oriente Médio e à Europa, cujo ponto alto foi o comício-show em Berlim, diante de 200.000 pessoas. A íntegra do discurso de Obama está no YouTube, claro:

(para quem prefere a transcrição, aqui vai o link).

A viagem à Europa é um cálculo arriscado em período pré-eleitoral nos EUA. Na arena internacional, claro, não há risco: Obama vai se transformando numa figura tão querida como os Beatles, Telê Santana ou o blog do Inagaki. Nos jornais alemães – mesmo com a sutil e indireta sugestão de que ele cobraria mais comprometimento da Alemanha no Afeganistão –, tudo foi elogio e babação de ovo: O Tagesspiegel se perguntou se alguma vez tantos alemães já se reuniram para um evento político, enquanto a repórter do Bild, Judith Bonesky, teve seu momento de tietagem explícita, abandonando todos os protocolos de distância jornalística para tirar uma foto não do, mas junto com o candidato. A viagem gerou uma enxurrada de fotos, vídeos e textos na internet (enquanto isso, como lembrou muito bem o Tiago Dória, no Brasil o TSE retira do ar sites e comunidades de candidatos).

O cálculo de Obama nesta viagem foi arriscado porque ser o queridinho da Europa é última pecha que você precisa ante o eleitorado dos grotões americanos, convictamente monoglota e xenófobo. Mas aqui Obama não tinha escolha. Apesar da forte vantagem que tem sobre McCain nas pesquisas quando a questão é a economia – e a economia americana, sabemos, não vai nada bem --, Obama precisava falar como estadista internacional e se impor no tema da política externa. Neste quesito, há a percepção de que McCain é mais forte, dada sua experiência – embora McCain, o suposto "especialista" em política externa, incrivelmente dê entrevistas falando da “fronteira do Iraque com o Paquistão”.

Cada palavra do discurso em Berlim foi meticulosamente escolhida para que Obama pudesse, por um lado, diferenciar-se claramente de Bush sem parecer, aos olhos do público americano, anti-patriótico em solo estrangeiro. Convenhamos, é uma engenharia discursiva complicada. O impacto mundial da viagem de Obama é inegável, mas ainda é cedo para saber se ela alterou, positiva ou negativamente, as pesquisas nacionais. Em 2004, a pecha de “afrancesado” foi decisiva na derrota de John Kerry. Este ano, os sites de extrema-direita tentaram capitalizar o nacionalismo americano contra Obama por sua declaração de que ele era um “cidadão do mundo”. Até agora, não colou. Mas jamais subestime a miopia de um eleitorado que votou duas vezes em George W. Bush.

PS: Sobre a viagem de Obama, nos blogs brasileiros, leia também o Tordesilhas e o Mestre Mauricio Santoro.



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segunda-feira, 21 de julho 2008

Barack Obama na Revista Fórum

A Revista Fórum deste mês traz um artigo longo (matéria de capa) escrito por mim, sobre Barack Obama. Aí vão os três primeiros parágrafos do texto:

O fenômeno Barack Obama deixou atônita a liderança do Partido Democrata, surpreendeu a favorita Hillary Clinton e fez proliferar um sem-fim de clichês. Da infeliz declaração de Caetano Veloso -- “prefiro Obama a Hillary porque gosto mais de preto que de mulher” -- à irresponsável previsão de um assassinato por Doris Lessing, sua condição de primeiro candidato negro à presidência tem funcionado como uma metonímia à qual tudo deveria ser redutível. O simplismo se exarcerbou pelo fato de que as primárias democratas foram disputadas entre ele e a primeira mulher em condições de aspirar à Casa Branca. Sexismo e racismo – elementos muito presentes na sociedade estadunidense – passaram a ser chaves explicativas mágicas. É de magnitude inegável e merecedor de análise o fato do Partido Democrata ter ungido um negro como seu candidato. Mas para se entender a dimensão do movimento Obama, há que se começar por outro lado.

A vitória de Obama representa o declínio da política consagrada no Partido Democrata pela dinastia Clinton. Depois de surrados durante década e meia pelos Republicanos, os Democratas nos acostumamos a ver a ascensão de Bill Clinton em 1992 como prova de que nossa viabilidade eleitoral dependia da estratégia clintoniana de apropriação de bandeiras Republicanas como o rigor fiscal, a “transição da ajuda social para o trabalho”, a ênfase na segurança e a política externa agressiva. Junte-se as táticas violentas de corpo-a-corpo contra os adversários, a sanha controladora sobre jornalistas e um populismo simbólico, baseado no carisma e na inteligência de Bill Clinton, e você terá os componentes do sucesso do primeiro Democrata a cumprir dois mandatos presidenciais desde Roosevelt.

Um elemento importante foi a profissionalização das campanhas eleitorais, que passaram a ser focadas em certos grupos. Ficou famosa a expressão soccer mom, cunhada por Mark Penn, conselheiro da campanha de Clinton em 1996. As “mamães do futebol” seriam aquelas que levam as filhas para a prática de um esporte que é, nos EUA, com a exceção da população latina, praticado pela classe média alta. Para essas senhoras, a questão da segurança seria decisiva e a isso havia que responder. Embora a devastação planetária dos anos Bush tenha criado a sensação de que a administração Clinton foi um paraíso, seus dois mandatos foram marcados por uma série de traições a negros, sindicalistas, feministas, gays/lésbicas e ambientalistas, parceiros fracos, sem opções à esquerda, que foram sendo rifados para que o Partido Democrata pudesse ocupar o centro do espectro político sem questionar o movimento da sociedade rumo à direita. Essa política foi vitoriosa nas eleições presidenciais dos anos 90, mas deixou um desastre no Congresso e nas eleições estaduais. Com os Clinton na Casa Branca, o Partido Democrata passou de 30 governadores em 1992 a 18 em 2000, 258 deputados em 1992 a 212 oito anos depois.

Cedi o texto com exclusividade para a Revista Fórum, portanto não posso publicá-lo na íntegra aqui. A Fórum está nas bancas, por 6 mangos e 90 centavos. Há outras matérias muito boas, incluindo-se uma sobre a Nicarágua.



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sexta-feira, 11 de julho 2008

Enquanto isso, na terra da liberdade....

Carol Kreck é uma bibliotecária de 61 anos de idade, de Denver, Colorado. A mulher deve ter um metro e meio de altura. Cometeu, no último dia 07, a imprudência de ir a uma das reuniões de debates públicos de John McCain (os chamados town hall meetings) portando um cartaz feito em casa. No cartaz, nenhuma ofensa, nenhuma calúnia ou injúria, mas uma simples equação: McCain=Bush. Ela nem mesmo tentava entrar no prédio onde se realizaria o evento, dentro do qual os cartazes são proibidos. Estava, simplesmente, plantada do lado de fora.

Por ordens do Serviço Secreto de John McCain, a senhora foi retirada pela polícia, recebeu uma citação por, pasmem, trespassing (invasão) e uma ameaça de prisão caso retornasse. A censura ao direito de expressão de Carol Kreck repete cerceamentos anteriores, acontecidos em reuniões públicas do próprio McCain com Bush. Acompanhe o vídeo:

Várias organizações da sociedade civil já documentaram a escabrosa realidade dos golpes permanentes contra a liberdade de expressão no governo Bush.

PS: De amanhã até quinta-feira, o Biscoito transmite da singular, incomparável Sumpaulo, onde participo do décimo-primeiro Congresso da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada). A quem interessar possa: minha palestra é parte do simpósio “Confinamento e Deslocamento na Criação Literária” e acontece na quarta-feira, dia 17 16, a partir das 14 horas. O tema é "Crítica e Valor". Os simpósios serão realizados nos prédios da FFLCH e da FAU.



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quarta-feira, 25 de junho 2008

Uma primeira olhada nas pesquisas americanas

Em 2004, Bush derrotou John Kerry nas eleições presidenciais americanas da seguinte forma:

800px-ElectoralCollege2004.svg.png

Apesar da diferença no número de estados, uma vitória de John Kerry em Ohio teria sido suficiente para dar um resultado diferente à eleição. Na peleja deste ano entre Obama e McCain, o Real Clear Politics lista 11 estados como indefinidos. Desses 11, nove votaram Republicano em 2004 -- a campanha de Obama vem colocando em jogo estados que, até muito recentemente, eram favas contadas para a direita, como Virgínia, Carolina do Norte e Colorado.

Veja as últimas pesquisas nos estados-chave: Ohio, Pensilvânia, Michigan, Wisconsin, New Hampshire, Virgínia, Flórida, Missouri, Colorado, Novo México, Nevada, Carolina do Norte.

Brincando com o mapinha do Real Clear Politics, você tem uma idéia exata do que Obama precisa fazer para levar. Nada na política americana recente nos autoriza a ser otimistas em excesso. Mas as chances são boas, muito boas.



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quarta-feira, 30 de abril 2008

O currículo de Obama no Senado

Produz certo cansaço ver alguns clichês sobre a eleição americana sendo repetidos sem muita pesquisa. Os mais comuns deles são que “ninguém sabe quais as posições de Obama” ou “Obama não tem currículo” ou “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”. Não compartilho do entusiasmo de alguns apoiadores que o apresentam como salvador da pátria e obviamente estou alguns quilômetros à sua esquerda na maioria das questões, mas desafio alguém a me apresentar um currículo de três anos e quatro meses no Senado que se compare ao de Obama em legislação relevante aprovada. O que caracteriza o sujeito são duas coisas bem raras: 1) um incrível talento para trabalhar com políticos de posições diferentes e encontrar soluções de compromisso; 2) uma detalhada atenção a legislação obscura e não necessariamente sexy, mas de importância incontestável.

Aí vai, então, uma listinha dedicada aos amigos e amigas que declararam que “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”. Nenhuma dessas leis vai trazer a felicidade eterna ao mundo, mas todas demonstram um estudo detalhado de problemas relevantes. Obama é autor (ou, no primeiro e no décimo casos, co-autor) de:

1) uma lei que regulamenta o financimento e os procedimentos para a eliminação de armas nucleares e convencionais.

2) uma lei que especifica punições para fraudes eleitorais e intimidação de eleitores, problema crônico nos Estados Unidos, especialmente nas regiões pobres e negras.

3) legislação que cria uma comissão para fiscalizar a ética no Congresso, com amplos atributos para investigar e punir subornos, atividades ilegais de lobistas e falcatruas do gênero.

4) uma lei que, pela primeira vez, dirigiu a atenção do Senado para a gripe aviária e balizou a pesquisa e o combate a ela.

5) uma lei que regulamentou os planos de saúde para veteranos de guerra, incluído o tratamento dos distúrbios pós-traumáticos.

6) legislação (pdf) que regulamenta e melhora as condições para testes genéticos, muito elogiada por especialistas.

7) legislação que proíbe a FEMA (agência encarregada das emergências) de contratar empresas sem licitação, prática escandalosamente comum, de New Orleans a Bagdá.

8) importantíssima legislação que cria um banco de dados público, na internet, com os gastos do governo federal.

9) legislação que estabelece novos padrões para a economia de combustível.

10) uma lei – também elogiada por especialistas – que regulamenta os processos judiciais contra médicos e hospitais sem tirar os direitos dos pacientes vítimas de abuso real.

11) legislação que criou o fundo de assistência às vítimas do furacão Katrina.

12) legislação que regulamenta os gastos de governantes com viagens.

13) uma lei (pdf) que limita severamente a atividade de lobistas no Congresso.

14) uma lei (pdf) que proíbe e regulamenta a punição por práticas enganosas nas eleições federais.

15) legislação que aumenta a segurança das indústrias químicas.

16) uma lei que torna ilegal a venda de dados pessoais por companhias que preparam imposto de renda.

17) um adendo intitulado Iraq War De-Escalation Act, que reduz o número de tropas e estabelece prazos para a saída dos americanos do Iraque.

Sim, Obama é o autor de toda essa legislação. Em menos de três anos e meio. Da próxima vez que você ouvir que “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”, já tem um link para fornecer.



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quarta-feira, 23 de abril 2008

Primárias da Pensilvânia

Foi diferença exata para não significar nada e prolongar a agonia. Havia mais ou menos um consenso de que uma vitória de Hillary por somente 3 a 5 pontos seria letal para suas pretensões de virar o jogo para cima de Obama. Também era mais ou menos consensual que uma vitória por 15 ou 20 pontos a colocaria em condições (remotas, é verdade) de começar a fazer contas para a virada. A diferença foi de 10 pontos. Fundamentais na vitória de Clinton foram suas grandes vantagens entre os donos de armas e os religiosos.

Esta vitória de Clinton por 10 pontos nos deixa onde estávamos. Da margem de quase 150 delegados em favor de Obama, Hillary recuperou, provavelmente, 6 ou 7. Acabaram-se os grandes estados onde ela poderia tirar a diferença. A próxima primária importante é no dia 06 de maio, na minha primeira morada nos EUA, a Carolina do Norte, onde Obama é franco favorito.

Posso confessar uma coisa? Já não agüento mais comentar essas primárias. Está ficando agônico. Alguém aí está com a mesma sensação de cansaço?



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quarta-feira, 16 de abril 2008

O último escândalo da política americana

Na semana que vem, depois que chegarem os resultados das primárias da Pensilvânia, no dia 22, vocês me cobrem uma reflexão sobre o poder eleitoralmente demolidor que pode ter, na política americana, o simples ato de dizer a verdade sobre a classe trabalhadora. O problema da verdade dita por Obama na semana passada – e que simplesmente não pára de ser tema de debates, programas, comerciais e ataques, tanto de Hillary como de McCain – é que se tratava de uma verdade que escondia uma verdade maior.

Ao ser perguntado, num evento de campanha, sobre como ele conseguiria os votos da classe trabalhadora da Pensilvânia, Obama fez alusão às frustrações causadas pelas muitas promessas não cumpridas pelos políticos. Para arrematar, ele disse: não surpreende que eles [eleitores de classe trabalhadora] se sintam ressentidos [bitter, "amargos"]; eles se agarram às armas ou à religião ou à antipatia contra as pessoas que não se parecem com elas ou aos sentimentos anti-imigrante ou anti-comércio como forma de explicar suas frustrações.

Soltaram os cães de dentro do inferno. Seguiram-se quatro dias de ataques pesadíssimos a Obama, “o elitista”. Hillary não resistiu e soltou mais um comercial negativo sobre o tema. McCain atacou com o bordão de que Obama está “fora de sintonia” [out of touch] com a América. Mesas-redondas, debates, programas televisivos, manchetes de jornal, tudo girou em torno disso nos últimos dias. A campanha de Hillary na Pensilvânia passou a distribuir adesivos que diziam we are not bitter. Enquanto tece loas ao papa, a campanha de Hillary também coleciona manifestações de ultraje contra o horror das declarações de Obama.

Para quem só lê o escrito, fica difícil entender o que está implícito ali. Qualquer pessoa familiarizada com a política americana, no entanto, extrai o subtexto. A pergunta não o dizia, mas se referia obviamente à questão racial. Traduzida em linguagem direta, a indagação era: como você vai ganhar esses eleitores de classe trabalhadora branca que se recusam a votar em um negro? Claro que Obama poderia simplesmente ter respondido vou fazer o possível para conquistá-los, ou qualquer generalidade do tipo. Mais uma vez, pode ser que tenha que pagar o preço por tocar temas tabus. Mas pode ser que isso acabe funcionando a seu favor.

Pessoas que não se parecem com elas significa, em linguagem codificada, negros. Obama disse o óbvio: brancos de classe trabalhadora com freqüência usam negros ou imigrantes como bodes expiatórios para suas frustrações com a perda de empregos. Não o disse assim, claro. Usou a frase citada acima. Tentou um circunlóquio que talvez tenha sido uma emenda pior que o soneto. Talvez.

Na Pensilvânia, o apoiador mor da campanha de Hillary Clinton, o governador Ed Rendall, disse claramente, quando perguntado sobre a elegibilidade dos candidatos: acho que alguns brancos não estão dispostos a votar num candidato afro-americano. A frase não era uma simples constatação. Era um ato de campanha. Era um argumento acerca da elegibilidade. É como se o porta-voz mor da campanha de Clinton na Pensilvânia estivesse dizendo: votem em Hillary, pois ela tem melhores chances de vencer, por ser branca. A isto está reduzido o debate das primárias democratas. Enquanto isso, McCain vai surfando na sua condição de darling da mídia.

Resta saber se todo esse imbróglio afetará a performance de Obama na Pensilvânia, o estado natal de Clinton, no qual uma derrota por menos de 10 pontos já será, para ele, um ótimo negócio. A julgar pelas últimas pesquisas, a barragem de ataques ainda não surtiu efeito; a vantagem de Clinton, que chegou a ser de mais de 20 pontos, está bem reduzida. Talvez seja porque, pela primeira vez em muito tempo, ao ser demonizado por um comentário controverso, um candidato democrata escolhe reafirmar o dito, ao invés de jogar o perene joguinho do recuo. Veja a resposta de Obama aos ataques:

A Pensilvânia vota no dia 22 de abril, terça-feira, e uma boa performance de Obama por lá pode terminar com estas agoniantes primárias, que ninguém aguenta mais, a não ser os Republicanos, claro, felicíssimos de ver o seu futuro adversário detonado diariamente por uma liderança democrata.

PS: Homem falsamente condenado no Texas serve 23 anos de prisão antes de ser inocentado por prova de DNA. É o vigésimo-quinto caso do tipo, só no estado de Bush.

PS 2: Sobre o escândalo provocado pelos comentários de Obama, veja mais esse texto-porrada do Rude Pundit.



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quarta-feira, 09 de abril 2008

Nova pesquisa Gallup

Saiu a última pesquisa Gallup, nacional. É a primeira vez desde os dias 27-29 de março que a liderança de Obama sobre Clinton chega a 10 pontos. Não custa lembrar, claro, que isso não tem impacto direto no processo de escolha do candidato democrata. O que conta, agora, é a primária da Pensilvânia, no dia 22 de abril, e a da Carolina do Norte, no dia 05 de maio. Em todo caso, as pesquisas nacionais são sempre um bom termômetro do estado da campanha. Eis aí a curva:

pesquisa-gallup-.gif

Mais do que a raça, o gênero, a classe social ou a região do país, a escolaridade é o critério sob o qual a os candidatos se diferenciam de forma praticamente linear. Considerando-se só os eleitores democratas ou independentes com tendência democrata, os números são os seguintes: entre os que têm escolaridade secundária ou primária, Clinton vence Obama por 53 x 40. Entre os de instrução universitária incompleta, Obama 53 x 40 Clinton. Entre os que possuem diploma universitário, Obama 59 x 35 Clinton. Entre os que possuem pós-graduação, Obama vence de goleada: 64 x 30.



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segunda-feira, 07 de abril 2008

O estado atual das primárias democratas

Há várias teorias para explicar por que Hillary Clinton continua numa campanha que, tirando uma virada de mesa, já não tem chances de vitória. Uma delas, a mais maligna, é de que sua estratégia seria enfraquecer Obama com ataques durante as primárias para que McCain vença a eleição de 2008 e ela possa ser a candidata democrata em 2012. Não acredito que seja esse o caso, mas anda difícil fugir da sensação de que, mais que enfraquecer Obama ou dividir o Partido Democrata, a campanha de Hillary anda conseguindo é comprometer o legado da própria senadora.

É lamentável, porque tirando o voto a favor da guerra do Iraque, o voto pela renovação do Patriot Act, o voto a favor da comercialização das bombas de dispersão, o voto a favor da designação da guarda nacional iraniana como “terrorista”, o voto a favor do financiamento à TV Martí, o voto contra a normalização de viagens de cubano-americanos à ilha, o voto a favor das petroleiras no Golfo do México, o voto contra a redução do financiamento a Guantánamo, o voto contra a redução do efetivos no Plan Colombia, o voto contra a redução dos cortes de impostos para os ricos, o voto a favor da famigerada cerca anti-imigração, a ausência na votação da lei de falências, a ausência na votação da lei que tentou barrar contribuições a organizações que realizam abortos e a ausência na votação da imunidade legal das telefônicas que colaboraram com Bush na espionagem contra cidadãos americanos, até que o histórico de votação de Hillary Clinton no Senado não é ruim.

Mas sua campanha vem acumulando notícias desastrosas. Primeiro, foi a incrível mentira de que ela teria desembarcado na Bósnia sob fogo cruzado de franco-atiradores, logo contradita pelas imagens de uma chegada absolutamente normal (veja o incrível vídeo). Depois, vieram as notícias de que sua campanha anda em apuros financeiros, conseqüência de uma estratégia que enfatiza o poder de grandes doadores. Para completar a semana, revelou-se que Mark Penn, seu chefe de campanha, trabalhava como lobista junto aos colombianos em favor de um acordo comercial ao qual Hillary publicamente se opõe.

Dito tudo isso, acredito que os apoiadores de Obama deveriam deixar de lado os constantes pedidos para que Hillary abandone as primárias. É melhor se concentrar em terminar a partida logo. São 35 minutos do segundo tempo, o jogo está 3 x 1, e o time pode se concentrar em fazer o quarto e liquidar a parada, ou se fechar na defesa e esperar o tempo passar; mas ficar pedindo para o outro time jogar a toalha não funciona. A disputa pode terminar caso Obama vença na Pensilvânia no dia 22 de abril. A Pensilvânia, estado natal de Hillary, onde ela tinha até pouco tempo atrás uma vantagem de 17 pontos, nunca foi um lugar em que se cogitasse vitória de Obama. Mas já há pesquisas dando pequena vantagem a ele, entre outras que ainda apontam ligeira liderança dela. Até lá, com certeza, a novela continua.

PS: São Caetano, Brasiliense, Santo André e outros já haviam aprendido a lição da humildade. Foi a vez do Ipatinga, rebaixado à Segunda Divisão do Campeonato Mineiro. O Sr. Itair Machado, presidente do Ipatinga e conselheiro do ex-Ipiranga, abusou do direito de falar bobagens durante as más fases do Galo. Cansou-se de tripudiar. Cansou-se de bater no peito para dizer que presidia a "segunda força de Minas". Pois é. A "segunda força" foi parar na Segunda Divisão. Só esperamos que a polícia investigue as fracassadas tentativas de suborno do Ipatinga a jogadores do Villa Nova.

PS 2:
O Grêmio está fora das semifinais do Gauchão. Algum dia eu entenderei por que uma grande equipe contrata Celso Roth, um notório incompetente, para ser seu treinador.



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sexta-feira, 07 de março 2008

Uma pergunta ético-política sobre a campanha americana

Está instalada uma dinâmica bem bizarra na campanha eleitoral americana. Barack Obama recebeu 600.000 votos a mais, tem uma liderança praticamente inalcançável no número de delegados, venceu mais estados e tem uma performance superior à de Hillary Clinton contra John McCain em qualquer pesquisa que você olhe. Com a recente certificação dos votos da Califórnia, mais 8 delegados foram para a coluna de Obama, o que por si só cancela todo o ganho da vitória de Hillary na terça.

Mas a julgar pela dinâmica das manchetes e das declarações de ambas campanhas, é como se Obama, e não Clinton, estivesse nas cordas. Aliás, Obama está nas cordas. Psicológica e discursivamente, enquanto Clinton está em apuros matematicamente. Se é que vocês me entendem.

A dinâmica dos últimos dez dias – e particularmente de quarta-feira para cá – é de pancada atrás de pancada do campo Clinton em Obama, incluindo-se ataques pessoais que fazem os Republicanos delirar de alegria. Obama se vê repetidamente explicando coisas anódinas, sem substância. Não parte para a ofensiva. É curioso porque, entre os dois, é ela, não ele, quem tem o armário cheio de esqueletos mal explicados. No entanto, por mais que parte da base exija, Obama se recusa a fazer ataques (veja a boa análise de Josh Marshall sobre isso) e mantém a tal campanha positiva. É de se admirar, porque se há dois políticos democratas susceptíveis a ataques éticos, é o casal Clinton.

Pois bem, eis que em pleno aeroporto de Guarulhos me vem a notícia – fonte oral – de que chegou a ser proposta dentro da campanha Obama a veiculação de um comercial que perguntasse a Hillary Clinton onde anda sua declaração de imposto de renda do ano passado, que há meses ela se recusa a apresentar, apesar de várias promessas. Tenho para mim que um simples comercial perguntando Senadora Clinton, por que a Sra. não apresenta a sua declaração de imposto de renda?, veiculado durante 48 horas entre o domingo e a terça, em Ohio e no Texas, já teria decidido a indicação democrata.

Foi proposto. Barack vetou.

Você faria? Ou acha que sujar as mãos com esse tipo de comercial agora já implica não tê-las limpas depois? Ou acredita que Barack estaria mais que justificado em veiculá-lo? Lembre-se: 48 horas perguntando pelo imposto de renda, em Ohio e no Texas, e ele já teria saído para o abraço. O que você teria feito no lugar dele? Pergunta ético-política. Estou interessado em ouvir.



  Escrito por Idelber às 21:07 | link para este post | Comentários (83)



terça-feira, 04 de março 2008

Cobertura ao vivo das primárias democratas

Atualização: esta é a trajetória da cobertura de ontem à noite. Na caixa de comentários, há algumas respostas minhas a perguntas de leitores, até o #60. Daí em adiante, não poderei mais responder comentários, pois estou preparando-me para viajar ao Brasil amanhã. Mas incentivo aos leitores que estejam mais por dentro do processo a responder as indagações dos outros. Tomem conta do bate-papo e elocubrem à vontade. Eu volto na madrugada de amanhã com outro post, antes de embarcar rumo a Porto Alegre.

Bem vindos. Este é o post que vai ser atualizado periodicamente com notícias acerca da disputa democrata de hoje. Já tenho vários links e algumas observações. Cada atualização virá com o horário de Brasília. Deixem aí seus comentários e vou incorporando-os ou respondendo-os ao longo da noite.

21:00: Acabam de fechar as urnas em Vermont. Todos os veículos de mídia projetam vitória de Obama por lá. As pesquisas de boca-de-urna dão diferença enorme em seu favor nesse estado, o que não é inesperado.

21:03: Ao longo do dia, o clima no campo Clinton foi de euforia. Vamos ver se é blefe.

21:08: Boca-de-urna em Vermont: Entre os homens: Obama 68 x 31 Clinton, entre as mulheres: Obama 57 x 41 Clinton.

21:17: 10% dos eleitores da primária democrata do Texas foram Republicanos. Um dos principais radialistas ultra-conservadores do país, Rush Limbaugh, que sempre demonizou Hillary, está convocando o eleitorado republicano para participar das primárias democratas e votar nela. A direita já escolheu a candidata que quer enfrentar, está claro.

21:25: Membro da campanha de Hillary hoje, justificando a montanha de ataques morais feitas a Obama: não é edificante, mas é necessário.

21:32: Sobre os horários: faltam ainda 2 horas 1 hora e meia para o fechamento das urnas no Texas. Ohio já fechou. Na medida em que forem pingando os números de Ohio, já dá para ter uma idéia de como vai ser a noite. Números finais, mesmo, só bem tarde, já na madrugada aí do Brasil.

21: 47: Comentário de Tom Brokaw acerca da resposta de Hillary Clinton, no 60 minutes, sobre se Obama era cristão mesmo, em vez de muçulmano: foi de um calculismo nixoniano e maquiavélico.

21:59: Os primeiros números de Ohio são bons para Clinton. São só 2% apurados, mas ela saiu na frente.

22:07: Boca-de-urna em Ohio: entre os que escolheram no último minuto, a vantagem é de Clinton por 11 pontos. Parece que as rajadas de ataques e comerciais negativos contra Obama tiveram algum efeito. A boa notícia para Obama é que tanto em Ohio como no Texas a mudança ganhou da experiência como critério de escolha.

22:14: Em Cuyahoga County, um dos maiores bastiões de Obama em Ohio, acabaram as cédulas. Êita, democracia!

22:16: A campanha de Obama conseguiu manter abertas as urnas em Cuyahoga County (que é onde fica Cleveland) até 9 PM. Teve que enfrentar uma batalha jurídica com a campanha de Hillary, que queria fechá-las.

22: 32: Os teleespectadores da MSNBC estão descobrindo agora o que os leitores do Biscoito sabem já há alguns dias: mesmo que Hillary vença as primárias no Texas por 51 x 49, a maioria dos delegados será de Obama, que deve vencer as assembléias. A alocação dos delegados favorece as áreas mais densamente povoadas, onde a vantagem é de Obama.

22:38:
Previsão do Biscoito: Se Hillary tiver mesmo vencido por 11 pontos entre os eleitores que se decidiram nos últimos dias, aguarde uma campanha sangrentamente negativa contra Obama nas próximas semanas. O setor pró-ataques pessoais da campanha de Clinton terá como argumentar que a pancadaria dos últimos dias deu certo.

22: 48
: A tal história com a embaixada canadense está detonando Obama em Ohio. É incrível como é a política: Hillary implementa NAFTA com o marido. Defende o acordo durante uma década. Muda de posição na véspera da eleição. Obama critica NAFTA desde que entrou na política. Mas uma besta-quadrada da sua campanha se reúne com um canadense, a direita canadense aproveita para atacar, vaza um memo que não tem nenhum conteúdo incriminatório, e Hillary lança uma rajada de ataques a Obama como o "incoerente". É, mes amis, política não é para inocentes.

22:51: Há uma tele-conferência dos advogados de Clinton, chamando a imprensa no Texas. É a primeira tentativa de melar as assembléias, o que este blog também já havia previsto.

23:01: É oficial: John McCain será o candidato republicano em novembro.

23:05:
Alguns leitores andam perguntando por que os números da CNN mostram 1% dos votos se já foram contados 800.000. Resposta: early voting. O 1% se refere a distritos, não a votos. Essas centenas de milhares de votos são cédulas que vieram de quem votou antes, nas semanas anteriores.

23:09: Os primeiros números do Texas são bons para Obama.

23: 25:
Também há cobertura em tempo real lá no Pedro Dória.

23:37: Agora sim, temos números significativos do Texas, divididos por condado. São mais que satisfatórios, por enquanto, para a campanha de Obama. O spin que você provavelmente ouvirá da campanha de Clinton será que o que importa é Ohio, pois se trata de um swing state.

23:50
: McCain está fazendo seu primeiro discurso como candidato republicano oficial. Como o cabra é soporífero! A sensação que dá é que eu e o Paulo Isidoro numa chapa derrotaríamos o sujeito. Se os democratas não vencerem esta, sinceramente, é hora de fechar para balanço.

23: 55: É incrível a acusação que os advogados de Hillary estão fazendo contra as assembléias no Texas. A acusação é "obtenção antecipada do pacote de papéis da assembléia" (early obtaining of caucus packages). Mas esses "pacotes" são simplesmente as instruções e as folhas em branco da assembléia! (Detalhes aqui e aqui). Também há acusações de que a campanha de Obama fechou portas antes da hora, o que, a julgar pelos condados de onde vêm as denúncias, eles só teriam feito se fossem burros. Os números das assembléias, com certeza, não sairão hoje. Clintons: fortes no tapetão desde 1992.

00:21: Com 36% dos distritos já contados em Ohio, a parcial é Clinton 57 x 41 Obama. Mas atenção: ainda não chegaram os votos de Cuyahoga County (Cleveland).

00:25: Se é teoria da conspiração ou não, julguem vocês, mas há denúncias de que a campanha de Clinton escureceu a pele de Obama nos comerciais que fez contra ele.

00:53: A MSNBC projetou Hillary Clinton vencedora em Ohio. A atual margem de vantagem que ela tem é suficiente para projetar uma vitória, mesmo com os votos de Cleveland ainda não tendo sido computados. A grande ironia, claro, é que o NAFTA -- acordo implementado na administração Clinton e odiado em Ohio -- foi um dos grandes fatores nesta vitória, graças à trapalhada de um membro da campanha de Obama com a embaixada canadense.

01:15: Megacelebração de Hillary Clinton em Ohio. É uma vitória que importa muito, e na realidade mais pela psicologia da coisa do que pela diferença de delegados. Inclusive, é possível que apesar da derrota, Obama tenha a maioria dos delegados em Ohio. O Open Left explica.

02: 29: Resumão da noite:

Clinton vence Rhode Island por 58 x 40. A alocação de delegados fica mais ou menos em 12 x 8. Tire 4 da vantagem atual de 150 para Obama.

Obama vence Vermont por 60 x 38. Os delegados ficam mais ou menos em 9 x 6. Volte a colocar mais 3 de vantagem para Obama.

Em Ohio, Clinton tem, no momento, uma vantagem de 56 x 42, com 83 % dos distritos já computados. É possível que essa vantagem diminua, na medida em que chegam os votos urbanos de Obama. De qualquer forma, Clinton vence Ohio com boa vantagem. São 141 delegados. Ainda não está clara qual será a margem no número de delegados por lá. A matemática é complicadíssima e não se espera que Clinton tire grande diferença nesse número.

No Texas, com 75% dos votos apurados nas primárias, tanto a CNN como a MSNBC proclamaram Clinton vitoriosa, apesar da diferença de votos ser minúscula. Já veterano de vários tropeços das televisões nesses assuntos, eu prefiro esperar a contagem dos votos em Houston. Nas assembléias, vencerá Obama. O Biscoito mantém a previsão de que Obama conquistará a maioria dos delegados no Texas.

Conclusões:

1.Hillary conquistou uma baita vitória psicológica e mudou a narrativa da campanha, que vinha sendo demolidora para ela. Mas a matemática dos delegados praticamente não mudou. Obama continua com quase 150 delegados de vantagem.

2.É muito improvável que Obama consiga os 2025 delegados necessários antes da convenção. Também é igualmente improvável que Clinton o alcance antes da convenção. Isto coloca mais pressão nos tais delegados biônicos (os “superdelegados”), que totalizam 20% do número total de votos na convenção. Também coloca mais pressão no Partido para que resolva a pendenga acerca dos delegados de Michigan e da Flórida.

3.Com o quatro atual, estamos naquela situação imortalizada por Luis Fernando Veríssimo em seu O Analista de Bagé: ninguém sai, ninguém sai. A única possibilidade realista de que alguém abandone a corrida é que Obama vença Hillary na Pensilvânia, que é a terra natal da senadora e o único estado realmente grande com primárias programadas. Elas acontecerão no dia 22 de abril. Se Obama vencer lá, volta a pressão para que ela abandone. Se não, a coisa talvez se arraste até a convenção. Os republicanos, claro, vão adorar. Antes da Pensilvânia, votarão Wyoming, no dia 08 de março, e Mississippi, no dia 11, ambos Obamaland.

4.Obama tem que aprender a dar umas caneladas. Não precisa abdicar de seus princípios éticos, mas algum tipo de reação mais dura aos ataques negativos ele terá que elaborar. Nesta semana, Hillary chegou a declarar: eu trago uma experiência de vida; John McCain traz uma experiência de vida; Barack Obama faz discursos. Imagine quantas vezes os republicanos vão tocar esse clip na eleição geral, caso se confirme a candidatura de Obama.



  Escrito por Idelber às 19:56 | link para este post | Comentários (80)




Disputa democrata emocionante hoje à noite

É incrível, mas São Pedro pode dar uma contribuição decisiva para os resultados das primárias democratas de hoje. É que o estado de Ohio, no congelado meio-oeste americano, deverá ter um dos piores dias do ano em termos climáticos. A meteorologia prevê uma tempestade de gelo histórica no norte do estado, especialmente no nordeste (se você nunca passou um inverno no meio-oeste americano ou em regiões similares, não imagina o que é tentar dirigir um automóvel numa tempestade de gelo). As notícias climáticas são ruins para quem? Para Obama, que tem em Cleveland uma de suas bases mais importantes no estado. O problema para Cinton é que no sul / sudeste de Ohio, onde se concentra o voto rural e católico clintoniano, há previsão de inundação. Acompanhe essa batalha da sorte (enquanto isso, nós aqui em New Orleans já estamos em clima primaveril).

As pesquisas se moveram um pouco nos últimos dias: a pequena diferença em favor de Clinton em Ohio cresceu um pouco, e diminuiu a pequena diferença em favor de Obama no Texas. Dada a situação atual da corrida, se Clinton não vencer esses dois grandes estados, haverá muita pressão para que ela abandone. Além deles, votam hoje Vermont, onde Obama deve vencer, e Rhode Island, o estado mais católico dos EUA, onde Clinton tinha enorme vantagem que caiu para coisa de 5 pontos. Os católicos são a base mais sólida de Hillary Clinton: é o único grupo social em que ela sempre o derrota. Até mesmo em Illinois, onde Obama venceu de goleada, Clinton teve a maioria do voto católico (esta lealdade dos católicos a Hillary, inclusive, mereceria um post separado: ela data de 1998; um doce para quem adivinhar por quê).

Dois eventos recentes podem ter diminuído um pouco o furor da Obamamania. O primeiro é o início do julgamento de Tony Rezko, sujeito implicado em falcatruas e fraudes, com quem Obama chegou a trabalhar depois que saiu da Faculdade de Direito. Rezko fez doações à campanha, repassadas depois a instituições de caridade quando se confirmaram suas falcatruas. Obama chegou também a comprar parte de um terreno pertencente a ele, num negócio que ele depois caracterizaria como uma “burrice”. Não há provas de maiores ilegalidades por parte de Obama nessa história, mas sem dúvida é um desgaste. E é verdade que há perguntas não respondidas sobre suas associações com o cabra.

A outra notícia que pode desgastar é um memorando que vazou da Embaixada Canadense, confirmando um contato de um alto membro da campanha de Obama com os canadenses e sugerindo que houve uma conversa sobre o NAFTA. De novo, não há nada de ilegal em que um candidato estabeleça conversas com embaixadas de países amigos. Mas foi o suficiente para que Obama passasse dois dias sob fogo cerrado da campanha de Clinton, que o acusou de criticar o acordo em público e massageá-lo em privado com os canadenses (Hillary, por sua vez, sempre elogiou o acordo implementado pelo marido, mas mudou de discurso quando se lançou à presidência, já que o NAFTA é muito impopular em estados industriais como Ohio). Depois do imbróglio, a Embaixada Canadense soltou uma segunda nota, dizendo que não havia acontecido nada demais – o que pode ter atrapalhado mais ainda, em vez de ajudar. Tem Obamaníaco por aí furioso com os canadenses.

Do lado de Clinton, pegaram mal as constantes ameaças de processo ao Partido Democrata do Texas em função das regras das primárias – que são, sim, complexas, mas que existem há anos. A campanha de Clinton espera prorrogar ao máximo o anúncio dos resultados das assembléias noturnas no Texas, porque ali a vantagem é de Obama. Se ela vencer Ohio e estiver vencendo nas primárias diurnas no Texas, aguarde tentativas de melar o jogo nas assembléias noturnas. O outro negativo foi o comercial que lançou Clinton, no melhor estilo republicano, mostrando crianças dormindo e fazendo a pergunta: se tocar o telefone da Casa Branca às 3 da manhã e os seus filhos estiverem em perigo porque algo aconteceu no mundo, quem você gostaria que atendesse o telefone? A atmosfera de medo que tenta criar o comercial é nítida. Assista-o e veja, pelas reações registradas em computador, como ele impactou negativamente a maioria dos eleitores indecisos.

Voltando ao clima de ataques pesados, Clinton passa a sensação de que está jogando sua última cartada. Ela precisa de vencer Ohio e Texas – qualquer coisa menos que isso não define a parada matematicamente para Obama, claro, mas coloca a senadora na posição de ter ouvir incontáveis Capitães Nascimento insistindo que ela peça para sair. Vai ser emocionante hoje à noite.

A partir das 20 horas de Brasília tem cobertura ao vivo aqui no blog.

PS: Sobre esse incrível imbróglio envolvendo Equador, Venezuela e Colômbia, confira os posts do Alon e do Sergio Leo, ambos muito qualificados para falar do assunto.



  Escrito por Idelber às 03:56 | link para este post | Comentários (20)



quinta-feira, 28 de fevereiro 2008

As primárias democratas no Texas

No próximo dia 04, terça-feira, o Partido Democrata realiza primárias em Vermont, Rhode Island, Ohio e Texas. A sorte da candidatura de Hillary Clinton se joga nestes dois últimos, grandes e ricos em delegados. O próprio Bill Clinton declarou em comício na semana passada que, sem vencer em Ohio e no Texas, Hillary não emplaca a indicação. Os números das quatro últimas pesquisas realizadas no Texas são: Rassmussen, Clinton 46 x 45 Obama; Survey USA, Obama 49 x 45 Clinton; Public Strategies, Clinton 46 x 43 Obama; Insider Advantage, Obama 47 x 46 Clinton. Apesar dos números apertados, o Biscoito está pronto para fazer uma previsão: Obama deverá conquistar a maioria dos delegados do Texas. O primeiro motivo é a curva:

08TXPresDems.jpg


As regras para as primárias do Texas fazem Wittgenstein parecer história em quadrinhos. Vou explicar a parte que entendo. Tem café aí? Está sentado? Vamos lá. 193 delegados estarão em jogo no Texas na terça-feira. Trata-se de um sistema híbrido, de primárias e assembléias (caucus). 126 delegados são alocados pela votação em urna, durante o dia. Os outros 67 serão disputados à noite, no sistema de assembléias. O mesmo eleitor pode votar durante o dia e ir depois às assembléias. Aqui começa a vantagem de Obama. No sistema de assembléias, onde vale a mobilização da base, a diferença em favor de Obama é enorme e não se reflete necessariamente nas pesquisas. Podem esperar uma vantagem dele no universo desses 67 delegados disputados à noite nas assembléias. As primárias do Texas permitem o voto antecipado. Até segunda-feira, já haviam votado 419.404 eleitores. São simplesmente 347.216 mais do que havia sido o caso até este momento em 2004. As primárias do Texas são abertas, ou seja, você não precisa ser um democrata registrado para votar. É outra vantagem para Obama, que goleia com folga entre os eleitores independentes. Os delegados são distribuídos pelos distritos do Senado Estadual:

TXPrimary2.jpg

Desses 31 distritos, os 4 maiores em termos de números de delegados são:

Distrito 14, Austin (8 delegados): linda, boêmia, musical, Austin é a casa da Universidade do Texas, uma das principais universidades públicas do país. É o único lugar do Texas em que eu aceitaria morar. Com enorme população universitária, deverá votar em peso em Obama. A campanha de Hillary despachou Bill Clinton para lá hoje, tentando estancar o sangue. Bill é muito querido na cidade. Os garotos escutaram e deram risadas com o Big Dog. Na terça, votarão em Obama.

Distrito 13, Houston (7 delegados): em Houston se localiza uma das maiores concentrações afro-americanas do estado. Todas as fontes de lá confirmam diferença grande em favor de Obama.

Distrito 23, Dallas (6 delegados): entre os 280.000 negros da cidade Obama leva grande vantagem. Ao contrário do que aconteceu na Califórnia, onde Clinton goleou entre os latinos, os 270.000 votos hispânicos de Dallas devem ser disputados pau a pau. Aliás, entenda-se: a população latina do Texas tem pouco a ver com a da Califórnia. 50% dos latinos da Califórnia são imigrantes. No Texas, este número é 18%. Junto com Nova York e Flórida, a Califórnia tem população latina em sua maioria hispano-falante. No Texas, Arizona, Colorado e Novo México, domina, entre os latinos, a língua inglesa.

Distrito 25, San Antonio (6 delegados): este distrito contém algumas áreas rurais além da urbe, San Antonio. Vantagem de Obama na cidade, vantagem de Clinton nas áreas rurais.

De onde saem, então, os votos de Hillary no Texas? Do sul, na fronteira com o México, e do leste do estado. Nessas regiões, Clinton vem goleando por margem considerável nas pesquisas. O problema para ela é que são distritos pequenos, cuja representatividade é prejudicada pelo sistema de alocação de delegados: vários desses distritos – 16, para ser exato -- têm direito a 4 delegados. Para abocanhar 3 dos 4 delegados, um candidato tem que ter 62.5% dos votos. Se vencer por 60 x 40 num distrito de 4 delegados, a alocação fica 2 x 2. Coisas da democracia texana.

O Texas, assim como a Flórida, tem longa história de falcatruas eleitorais. A mais conhecida delas foi o inacreditável processo pelo qual se redesenharam as zonas eleitorais em 2003, com o objetivo de criar distritos que, às vezes, vão se retorcendo como cobras no mapa -- é o chamado gerrymandering, que enclausurou os eleitores negros em bantustões com cada vez menos representatividade. Na eleição de 2006, centenas de eleitores negros denunciaram terem sido impedidos de votar. Desta vez, pelo menos a garotada não quis ter surpresas. Mais de 2.000 alunos da Prairie View A & M, histórica universidade negra, andaram a pé 7,3 milhas até Hampstead para votar no último dia 19. Digam se não é bonito:


march-to-vote.jpg
(fonte da foto)

O que mais complica as coisas para Hillary é a campanha incrivelmente desastrada que ela vem fazendo. Em primeiro lugar, há os efeitos negativos do constante discurso “tudo- é- muito- difícil- inspiração- e- esperança- não- resolvem”. Esses garotos que marcharam 7 milhas para votar não querem escutar de um candidato que eles estão se iludindo e que a esperança não resolve. Depois, repercutiu muito mal a declaração de que eu adoraria ganhar no Texas, mas ele em geral não entra no cálculo eleitoral de um democrata, frase no típico estilo Mark Penn. Ninguém gosta de escutar que seu voto não interessa – especialmente no Texas, onde os democratas já sofrem o suficiente. Todos os grandes jornais do Texas endossaram a candidatura de Obama: Austin Chronicle, Dallas Morning News, El Paso Times, Houston Chronicle, San Antonio's Express News e Fort Worth Star Telegram.

PS: Para saber tudo sobre as primárias do Texas, confira o excelente blog Burnt Orange Report, que é a fonte de boa parte das informações compiladas aqui. Veja também o Texans for Obama e o Texans for Hillary.

PS 2:
Como eu já disse aqui, uma das baixas desta campanha eleitoral é o Left Coaster, que era um excelente blog. A última explicação para o sucesso de Obama: Ah, ele tem mais dinheiro. Esqueceram de explicar por que mais de um milhão de pessoas já se sentiram inspiradas a doar para a campanha, com contribuições em média inferiores a 110 dólares por pessoa. O Left Coaster parou de postar do planeta Terra, simplesmente. Há que se entender as diferenças: Digby, um blog pró-Hillary, continua com a lucidez de sempre.

PS 3: Na terça-feira à noite, o Biscoito fará a cobertura em tempo real das primárias do Texas, Ohio, Vermont e Rhode Island, a partir das 20 horas de Brasília.



  Escrito por Idelber às 04:15 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 22 de fevereiro 2008

Obama, Clinton e política externa americana

Alguns leitores me pediram um post detalhando como seria a política externa sob Obama ou sob Clinton. Suponho que esteja claro que, com qualquer um dos dois, ela seria bem diferente do que tem sido sob Bush. Nem o eleitor mais convicto de Ralph Nader, o candidato a presidente pelo Partido Verde em 2000, teria coragem de dizer hoje que uma presidência de Al Gore teria sido idêntica à de George W. Bush. Sim, às vezes o malfadado voto útil é uma questão de compromisso com a espécie humana.

É fato que há muitas semelhanças entre os programas de Hillary Clinton e de Barack Obama. Mas talvez a política externa seja uma das áreas onde os contrastes são mais nítidos – e eles ficaram claros para quem assistiu o debate da CNN ontem à noite. Na questão decisiva do nosso tempo, a Guerra do Iraque, eles estiveram em lados opostos. No dia 11 de outubro de 2002, o Senado votou a resolução para o uso de força contra o Iraque. A emenda foi aprovada por 77 votos a 23. Exatamente 21 senadores democratas votaram com George Bush, incluindo-se aí Hillary Clinton. Dez dias antes, Barack Obama, então membro do legislativo de Illinois, participou de um comício em Chicago onde fez um veemente discurso contra a guerra.

A diferença foi decisiva nesta campanha, especialmente pela forma como Hillary lidou com o voto depois que a guerra perdeu popularidade. Entre os candidatos presidenciais que apoiaram a resolução de Bush também estava John Edwards, mas este último pediu desculpas pelo voto. Hillary preferiu racionalizá-lo, dizendo que a resolução exigia que Bush esgotasse as vias diplomáticas e que o presidente havia enganado o Congresso. O problema com a justificativa é que qualquer residente dos EUA com um mínimo de informação e independência de juízo sabia, já em 2002, que Bush mentia sobre o Iraque. A diferença é que antes éramos 10%. Hoje somos 77%. Evidentemente, a senadora fez um cálculo político que, a longo prazo, saiu pela culatra. Esse cálculo já estava nítido -- para quem sabe ler -- no discurso com o qual ela acompanhou o voto.

Também na política com Cuba há diferenças marcantes. Obama já declarou, no debate de ontem e em outros lugares, que está disposto a sentar-se para conversar, sem pré-condições, com qualquer líder estrangeiro, incluídos Raúl Castro e Ahmadinejad. Clinton defende a tese das pré-condições para o diálogo: que Cuba deve democratizar-se, liberar prisioneiros políticos, abrir a imprensa etc. antes de que possa haver qualquer negociação. A diferença se manifesta em históricos diferentes de votação no Senado. Nos últimos anos, Clinton votou duas vezes para renovar o financiamento da TV Martí, a rede americana de transmissão de propaganda para os cubanos. Obama, já no Senado, votou em ambas ocasiões contra o financiamento à TV Martí. Quanto à normalização das viagens de famílias cubano-americanas à ilha, também há diferença: Obama a favor, Clinton contra.

No que se refere ao desarmamento, os históricos de votação também são bem diferentes. No dia 06 de setembro de 2006, votou-se no Senado a emenda Feinstein, que proibia os EUA de exportar bombas de dispersão (cluster bombs) a não ser que a compra incluísse a proibição de seu uso e estocagem em áreas habitadas por civis. A emenda foi derrotada por 70 x 30. Obama votou a favor. Clinton foi uma de 15 democratas que votaram com os Republicanos para derrotá-la. No dia 26 de setembro deste ano, Clinton também votou com os Republicanos na aprovação da medida Lieberman-Kyl, que designava as forças armadas do Irã como uma organização terrorista. Foi, convenhamos, uma votação bem insólita: o Senado americano se reuniu para declarar terroristas as forças armadas de uma nação soberana. É mais um sinal do desgaste de uma palavra.

Clinton e Obama também estiveram em lados opostos de votações sobre direitos humanos, venda de armamentos e proliferação nuclear. Esse texto pega um pouco pesado com Clinton na retórica, mas todos fatos relatados ali são verdadeiros. Quanto à América Latina, a linha típica dos discursos de Obama tem sido de que a era do junior partner acabou; que a conversa será sempre horizontal; que o continente receberá o respeito de uma interlocução de igual para igual. O tema é sistematicamente mencionado em seus discursos (veja, por exemplo, esse vídeo). Há que se ver tudo com ceticismo, evidentemente. Mas não há dúvidas de que há sinais encorajadores.

PS: Quem tiver assistido o debate de ontem à noite, fique à vontade para comentar. Eu assisti e gostei muito. Foi, provavelmente, a melhor performance de ambos.

PS 2: Já não são dez, e sim onze, as vitórias consecutivas de Obama. Saiu hoje o resultado da votação nas primárias entre os democratas residentes no exterior, com vitória de Obama por 65,6% contra 32,7% de Clinton. Estão curiosos para saber como foi no Brasil? Entre os democratas residentes aí, a vitória foi de Obama por 69,6% contra 30,4% de Clinton (veja os números completos nesse pdf).

PS 3: Em breve, uma explicação sobre as incríveis primárias do Texas, onde é possível conquistar 60% dos votos e ficar com 40% dos delegados. Ou vice-versa. Ou muito antes pelo contrário.



  Escrito por Idelber às 03:29 | link para este post | Comentários (51)



quinta-feira, 21 de fevereiro 2008

Perguntas que a imprensa americana não fará, 1

Nas ocasiões em que assinalei a vergonhosa cumplicidade da grande mídia americana com as mentiras e manipulações do governo Bush, não faltou quem me colocasse o rótulo de “anti-americano”, como se aceitar uma imprensa subserviente fosse um valor americano sacramentado em algum lugar da constituição. Pois bem, ao invés de fazer críticas iradas, iniciemos hoje uma nova série no blog, que eu espero manter funcionando até as eleições presidencias americanas: perguntas que a imprensa americana jamais fará.

Um artigo da Associated Press de 1985 dizia o seguinte (tradução e grifo meus):

O deputado Tom Loeffler (R-TX), apresentou o prêmio “Lutador da Liberdade do Ano” ao líder da resistência afegã Wali Khan em nome do Conselho Americano para a Liberdade Mundial no dia 03 de outubro.

Loeffler convocou o Congresso e o povo americano para “ampliar o apoio” aos lutadores da liberdade no Afeganistão, lembrando aos ouvintes a luta da própria América pela liberdade.

O Congresso aceitou dar 15 milhões de dólares em assistência encoberta à causa afegã, sendo esta a primeira vez que os legisladores “se prontificaram” a ajudar desde o começo do conflito, de acordo com Loeffler....

Aceitando o prêmio em nome de Khan estava Pir Syed Ahmed Gailani, chefe da Frente Islâmica Nacional do Afeganistão, na qual Khan comanda 20.000 lutadores da resistência.

Outros congressistas que se juntaram a Loeffler incluíam o Deputado Eldon Rudd e o Deputado John McCain, ambos republicanos do Arizona.

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Considerando que: 1) os ataques do 11 de setembro de 2001 foram perpetrados por uma organização terrorista cujo embrião é precisamente o grupo “premiado” por McCain e seus colegas; 2) que os EUA continuam envolvidos numa guerra civil no Afeganistão contra a mesma força política que antes haviam homenageado e financiado; 3) que o Senador McCain foi parte tanto da homenagem como da aprovação do financiamento para dita organização; 4) que o Senador McCain é hoje o virtual candidato a presidente pelo Partido Republicano, não seria lógico e esperável que uma imprensa livre em algum momento colocasse a ele a seguinte pergunta:

Senador McCain, qual foi o seu papel no financiamento e na homenagem ao embrião do Talibã em 1985?

Como dito antes, não faço previsões em política. Neste caso, no entanto, prevejo sem medo de errar: nenhum veículo da grande mídia americana sequer se lembrará do episódio. É mais fácil e inofensivo investigar com quem ele trepou ou não trepou. Se algum veículo da grande mídia americana se lembrar de fazer ao Senador McCain qualquer pergunta sobre seu papel nos primórdios do financiamento americano ao extremismo islâmico no Afeganistão, eu tiro uma foto com a camisa do ex-Ipiranga e poso com a dita cuja para escárnio geral aqui no blog.

É a imprensa “livre” americana, que tantos jornalistas brasileiros tomam como modelo de democracia, enquanto se queixam dos horrores da “censura” no governo Lula, entre um impropério e outro dirigido sempre livremente contra o presidente do Brasil.

(inspiração e fonte: Juan Cole)



  Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post | Comentários (38)



quarta-feira, 20 de fevereiro 2008

Décima vitória consecutiva de Obama

Desde que os irmãos Bush nos roubaram a eleição de 2000, eu prometi nunca mais fazer previsões em política. Mas o fato é que ficou difícil, muito difícil para Clinton. Quem sabe o Alon ou o Rafael possam me ajudar a lembrar alguma eleição – no Brasil ou em qualquer outro lugar – em que tenha havido uma virada de 30 pontos em duas semanas. Porque foi exatamente isso que Obama fez em Wisconsin, no coração da base clintoniana. Há 15 dias, Clinton chegou a liderar por 13 pontos.Obama venceu ontem por 58 x 41, num estado em que a população negra não passa de 4%. Talvez não fique claro de imediato para o leitor brasileiro a dimensão desse resultado. Para efeitos de comparação, imagine Lula vencendo José Serra por 7 x 3 em Higienópolis e nos Jardins. Ou, não importa, imagine Alckmin enfiando 7 x 3 em Lula no estado de Pernambuco. Foi mais ou menos isso o que aconteceu em Wisconsin ontem, numa primária em que 58% do eleitorado era feminino e 92% branco.

Digamos, então, que o Biscoito está preparado para fazer a seguinte afirmação: as chances de Hillary conquistar a indicação democrata para a presidência dos EUA são comparáveis às do São Paulo ser rebaixado para a segunda divisão no Campeonato Brasileiro deste ano. Para alcançar Obama, ela teria que vencer Ohio, Texas e Pensilvânia por diferenças de 65 a 35, o que simplesmente não parece possível neste momento. No próximo dia 04, votam Ohio, Texas e Rhode Island.

Em futuros posts, vou tentar explicar o que me parece que aconteceu aqui nos últimos meses. É verdade que a campanha de Obama tem mobilizado – particulamente entre os jovens – uma energia que há décadas não se via na política americana. Mas também é verdade que poucas vezes na vida vi uma campanha tão incompetente como a de Hillary Clinton. Até mesmo uma campanha razoavelmente administrada teria sido suficiente para ela, dada a grande diferença de reconhecimento entre os dois nomes e a colossal diferença de poder entre os dois grupos dentro do Partido Democrata.

Mas a campanha foi enterrada pela estratégia de ignorar os lugares onde sofria derrotas (não oferecendo parabéns ao vencedor e nem mesmo agradecendo seus voluntários), pelo recurso à sistemática negatividade (as pesquisas de boca-de-urna em Wisconsin mostraram uma imensa rejeição a essa estratégia, um dia depois de que a campanha de Clinton tirou da cartola uma incrível acusação de plágio contra Obama) e pela desqualificação dos estados vencidos pelo senador de Illinois (com argumentos do tipo: assembléias não contam, estados com população negra não contam, estados republicanos não contam etc., até o ponto em que Wisconsin, que é a epítome do estado que, segundo essa lógica, deveria “contar”, terminou rejeitando-a) .

Na quinta-feira à noite há um debate na CNN. Dentro do campo de Clinton há um intenso debate acerca da estratégia. Reforçar os ataques pessoais contra Obama ou dar outro giro, enfatizando os planos e as qualidades da senadora? A briga em torno disso é tremenda: ainda existe – acreditem – um setor da campanha argumentando que a estratégia negativa funcionou, pois a margem de Obama havia sido maior na Virgínia do que foi em Wisconsin! Quanto a Obama, tudo o que ele precisa fazer no debate é não prometer bombardear o Canadá.

PS: O Biscoito saúda Digby, blogueira pró-Hillary que já está pronta para unir forças em torno de Obama para o que verdadeiramente importa, que é derrotar a máquina republicana. Ao longo desta campanha, Digby se firmou como a melhor analista política democrata na blogosfera, mantendo sanidade e ponderação ao longo do processo. No Daily Kos, a fascinação com Obama às vezes prejudica bastante a percepção da realidade. E o clintoniano Left Coaster, que era um bom blog, já não posta do planeta Terra há meses. Em breve, faço um post sobre o terrível legado desta campanha sobre a blogosfera progressista gringa. O saldo não é positivo, não.

PS 2: Não, não tenho nada a dizer sobre a aposentadoria de Fidel. Pelo menos não aqui no blog. A discussão que se armaria já é por demais previsível e eu estou um pouco cansado dela. Eu até poderia tentar fazer uma avaliação mais tridimensional sobre o legado da Revolução Cubana. Mas a discussão descamba, não tem jeito. Até mesmo aqui ela descambaria.



  Escrito por Idelber às 03:50 | link para este post | Comentários (59)



terça-feira, 19 de fevereiro 2008

Primeiras impressões da votação em Wisconsin

Ainda faltam algumas horas para que se fechem as urnas em Wisconsin, mas já há algumas notícias. A vitória nesse mui progressista estado do meio-oeste americano é importante para ambos, muito mais para Clinton que para Obama. Em primeiro lugar, porque já são oito vitórias consecutivas do senador de Illinois. Em segundo lugar, porque a demografia de Wisconsin deveria favorecer Clinton. Nove de cada dez eleitores democratas de Wisconsin são brancos (números de 2004). A porcentagem de subúrbios em Wisconsin é maior que a média nacional. Mais que pela diferença numérica de delegados, Wisconsin é chave pelo seu impacto psicológico. Uma vitória de Obama colocaria a campanha de Clinton nas cordas. Uma vitória de senadora de Nova York pode ajudar a reverter o embalo de Obama e criar as condições para o que espera a campanha de Hillary: uma virada em Ohio e no Texas, no próximo dia 04.

Em Wisconsin, Clinton liderou durante meses, a coisa ficou bem disputada nas últimas semanas e os números fresquinhos que chegam dizem o seguinte: Rassmussen: Obama 47 x 43 Clinton (pesquisa do dia 13); Research 2000: Obama 47 x 42 Clinton (dias 13/14); Public Policy Polling (pdf): Obama 53 x 40 Clinton (dias 16/17). Quanto ao American Research Group, os números são curiosos: a pesquisa dos dias 15/16 dava vitória de Clinton por diferença superior à margem de erro, 49 x 43. A pesquisa dos dias 17/18 já apontava uma diferença de 10 pontos em favor de Obama: 52 x 42. Segundo o PPP, Obama vence Clinton por 64 x 32 entre os eleitores de 18 a 29 anos de idade; vence por 65 x 27 entre os balzaquianos de 30 a 45; vence por 51 x 41 entre a turma de idades entre 45 e 60; Clinton vence Obama por 54 x 39 entre os eleitores de mais de 65 anos de idade. Obama vence entre os homens por 57 a 36 e também vence entre as mulheres, por 50 a 43. São números de pesquisas, claro.

A rádio WUWM de Milwaukee está confirmando comparecimento gigantesco às urnas em Wisconsin. Em condições normais, isso deveria favorecer Clinton. À luz da evolução dos números, não seria surpresa se favorecesse Obama, especialmente se a votação em Madison for grande. Em Madison fica o campus principal da Universidade de Wisconsin, onde fui tão bem recebido. É uma das cidades mais progressistas dos Estados Unidos, além de ter a melhor oferta de cervejas deste lado do Atlântico. Em Madison, acredito numa diferença bem grande em favor de Obama. A conferir.



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domingo, 17 de fevereiro 2008

Contrate o Duda, Hillary

Um dia há que se escrever a história de como uma senadora bem informada e competente como Hillary Clinton colocou o seu destino eleitoral nas mãos de um completo imbecil como esse Mark Penn. Trata-se de um pseudo-estrategista político que, com uma única exceção, só acumulou derrotas até hoje. Foi ele o autor da “brilhante” idéia dos focus groups, que transformou a campanha de Hillary numa colcha de retalhos de apelos a faixas segmentadas da população, tática suicida no enfrentamento contra um candidato ancorado no apelo à união e à superação das divisões. O pior de tudo é que os nomes dos grupos que o sujeito cunhou como alvos são pérolas de mistificação: “as elites impressionáveis”, “os pais permissivos”, “os aposentados que trabalham” e outras sandices do tipo. No ano passado, Mark Penn inventou o infeliz termo "a candidata inevitável", para transformar em destino o favoritismo claríssimo de que a senadora de Nova York desfrutava naquele momento. Não poucos eleitores reagiram com a compreensível indignação: uai, inevitável por quê? Eu não votei ainda!

Também foi ele o responsável pela tática de descartar a importância dos estados vencidos por Obama e passar a ignorá-los. Repetidamente, o “estrategista” afirmou que estados com assembléias em vez de primárias não contavam; que estados pequenos não contavam; que estados com ampla população negra não contavam; que estados vermelhos não contavam. Numa corrida onde Obama já venceu 22 estados contra 11 de Clinton, o sujeito me sai com essa pérola: como podemos ter um candidato que não venceu em nenhum estado significativo além de Illinois? Segundo o sábio, Connecticut, Minnesota, Missouri, Louisiana, Maryland, Utah, Washington, Virgínia, Delaware, Alaska, Colorado, North Dakota, Maine, Kansas, Nebraska, Iowa, Idaho, Alabama, Geórgia, Carolina do Sul e o Distrito de Columbia não são “significativos”. Não é surpresa, portanto, que os conselheiros da campanha de Hillary já tenham começado a brigar entre si.

A última pérola de Mark Penn já denota certo desespero. Eis a citação, em toda sua genialidade: ganhar as primárias democratas não é uma qualificação ou um sinal de quem pode ganhar a eleição geral. Se fosse, todos os indicados venceriam, porque todos os indicados ganharam as primárias democratas. É mais ou menos como dizer: "aprender a ler não é uma qualificação para ser doutor. Se fosse, todos os que aprendem a ler fariam um doutorado". Esta é a besta quadrada que coordena a campanha de Hillary Clinton. Em qualquer eleição que eu disputasse, sem hesitação eu colocaria meu destino nas mãos do Paraíba contra esse Mark Penn. Seria um massacre. O Paraíba faria xinxim de galinha do sujeito.

A última notícia é no mínimo estranha: Hillary Clinton vai deixar Wisconsin na segunda-feira de manhã, 36 horas antes do final das votações no estado, que é o único, juntamente com o Havaí, a realizar primárias na terça-feira. Se eu não conhecesse os Clintons, diria que Hillary decidiu entregar as eleições para Obama. Eis o gráfico das intenções de voto de acordo com a última pesquisa em Wisconsin:

wisc-poll-2.jpg

O salário de Mark Penn é 5 milhões de dólares por ano.



  Escrito por Idelber às 04:05 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 13 de fevereiro 2008

As primárias do Potomac

Foram realizadas na noite passada as chamadas primárias do (rio) Potomac: os estados de Virgínia e Maryland e o Distrito de Columbia votaram para escolher o candidato democrata. Já se sabia que a vitória seria de Obama. A demografia lhe era favorável: a altíssima população afro-americana do Distrito de Columbia e a concentração de jovens em Virgínia garantia uma boa performance. Mas nem mesmo a campanha de Obama esperava a goleada que aconteceu. No post anterior sobre as primárias, eu citava uma pesquisa da Rassmussen que dava Obama por 55 x 37 na Virgínia, notando que os números poderiam estar exagerados, já que entre a população de trabalhadores blue-collar (proleta) da Virgínia, Hillary tinha boa penetração. E não é que os números da Rassmussen não estavam exagerados, e sim demasiado modestos? Obama ganhou a Virgínia por 64 x 35.

A goleada em DC foi 75 x 24 e em Maryland a diferença foi 62 x 35. A pior notícia para Hillary não é exatamente a diferença, mas a demografia dos votos. Em cada um dos grupos sociais em que Hillary vinha sistematicamente vencendo, Obama virou o jogo. 6 de cada 10 mulheres de Maryland votaram em Obama. 6 de cada 10 mulheres em Virgínia votaram em Obama. Na Califórnia, a vantagem entre o eleitorado latino havia sido chave para Hillary. Em primeiro lugar, acredito eu, porque eles se lembravam da administração de Bill Clinton, onde pela primeira vez os latinos tiveram postos de liderança. Em segundo lugar, pelas conhecidas tensões existentes -- em alguns lugares -- entre negros e latinos. Pois, na Virgínia, Obama carregou o voto latino com quase 60%. Há que se conhecer os EUA para saber a revolução que representa isso. Por pura curiosidade, passei a procurar informação sobre os eleitores de mais de 60 anos de idade, que era o único grupo social em que Hillary ainda ganhava de Obama em qualquer estado. Até mesmo com os velhinhos, entre os quais Hillary costumava vencer com mais de 30 pontos, ela perdeu. Todos os grupos que constituíam a base da candidatura de Hillary vão migrando para Obama.

Para piorar a situação de Hillary, a campanha entrou em parafuso. A coordenadora foi despedida. No seu discurso de ontem à noite no Texas, ela quebrou pela segunda vez uma longa tradição da política americana, ao não oferecer os parabéns a Obama pelas vitórias e nem mesmo agradecer aos seus voluntários no Potomac. Discursou como se não tivesse havido primárias na noite de ontem. Para quem, como eu, acompanhou cinco campanhas presidenciais americanas, é sinal de que o lateral-esquerdo já está na direita levantando chuveirinhos para o volante cabecear: confusão total. Minhas fontes dentro da campanha de Hillary são poucas, mas são unânimes: pegou mal, muito mal. A aposta de Clinton é clara neste momento: ganhar no Texas, em Ohio e na Pensilvânia. Mas na terça-feira que vem falam os eleitores de Wisconsin onde, pelo que parece, Obama já virou o jogo.

Agora Obama já tem uma vantagem de mais de 100 votos sobre Hillary entre os delegados conquistados democraticamente, nas primárias. Como a estas alturas já sabem os leitores do Biscoito, 20% da convenção democrata vem de “superdelegados” -- parlamentares e burocratas no partido -- nos quais Hillary tem maioria. Mas pela primeira vez nesta campanha, Obama já vence no cômputo geral até mesmo depois que consideramos os superdelegados (veja aqui e aqui). Para piorar a situação para a senadora de Nova York, cresce entre os democratas a sensação de que os superdelegados não podem reverter a vontade dos eleitores. Um a um, os superdelegados vão migrando para Obama.

PS: Amanhã, aqui no Biscoito: um texto sobre o que eu considero a votação mais importante do Senado americano nos últimos dez anos – surpreendentemente ignorada pela imprensa brasileira.



  Escrito por Idelber às 02:09 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 11 de fevereiro 2008

Por que não engulo Hillary Clinton, por Ana Maria Gonçalves

Hoje quem escreve o post é a patroa.

Em 2005, Idelber e eu passamos um mês no Chile, exatamente quando tudo apontava que Michelle Bachelet seria a primeira mulher a assumir a presidência daquele país. Coincidentemente, eu também estava na Argentina no dia da posse de Cristina Kirchner, e voltei animada para os Estados Unidos, diante da perspectiva de acompanhar a caminhada de mais uma mulher rumo à presidência. Hillary Clinton, aliás, tinha uma trajetória bastante parecida com a de Cristina: ambas eram senadoras e tinham sido primeiras damas (na verdade Cristina ainda o era quando foi eleita, sendo empossada pelo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner).

Embora um dos meus grandes dilemas seja a incapacidade de me entregar completamente a alguma causa ou ideologia, por inércia ou falta de paciência, ou mesmo falta de desprendimento, estava torcendo pelo que seria uma grande vitória feminina. Estava torcendo por Hillary Clinton. A vitória dela representaria para mim um grande prazer, um quase capricho, um afago no ego coletivo feminino, do qual faço parte. Mas não só isso, pois também seria um fato importante ter uma mulher na Casa Branca, dada a atual conjuntura política e econômica do país e sua relação turbulenta e atravessada com o "resto do mundo". Seria interessante ver uma mulher mudando tudo isso e, quem sabe, abrindo caminho para outras mulheres.

Mesmo não votando aqui, eu queria me identificar com Hillary Clinton. Fiquei bastante frustrada quando não consegui, quando não me senti tocada pela presença ou pelas palavras dela, naquele tipo de empatia que é tão importante num primeiro momento. Eu tinha vontade de me identificar com a pessoa que eu achava que ela era: forte, inteligente, corajosa, determinada e prestes a alcançar o posto mais alto dentro da carreira que escolheu. Eu tinha dela a imagem de uma mulher que faz e acontece, e eu gosto de aprender com mulheres que fazem (ou fizeram) e acontecem (ou aconteceram). Tenho vários exemplos na família e escrevi um livro de mais de 900 páginas sobre a vida (inventada, está certo) de uma delas. Mas não consegui gostar do discurso de Hillary Clinton, não me senti representada por ela. E resolvi tentar descobrir o porquê.

Minhas impressões e descobertas:

- Hillary mal consegue deixar de admirar a si e a suas vitórias, passando a impressão de que ninguém precisa ir atrás de mais sonhos e mais conquistas, pois ela está lá, prestes a realizar o sonho mor que, generosamente, vai compartilhar com todos.

- Hillary não consegue se comunicar com pessoas que não tenham um perfil parecido com o dela. Não é por falta de esforço, mas porque tem um discurso muito autocentrado. Fala durante alguns minutos sobre um projeto coletivo de governo e todo o resto do tempo sobre um "eu" que parece ter mais importância que tudo no mundo. É sempre um "eu" fiz, "eu" farei, "eu"quero, "eu" preciso, "eu", "eu", "eu" qualquer coisa, e um "nós" de vez em quando, provavelmente ao seguir o script tantas vezes ensaiado para esse momento.

- Hillary acha que estar na Casa Branca é um direito adquirido, apenas pelo que já fez no passado.

- Hillary não tem o menor pudor em distorcer fatos, acrescentar dados e omitir informações quando percebe que pode se beneficiar da situação criada, como fez naquele caso em que acusou Obama de não ser um verdadeiro democrata.

- Hillary é capaz de continuar representando situações que tiveram certo impacto e montando teatrinhos, seja fingindo choro em mais duas situações depois daquela de New Hampshire, seja contratando (ou deixando contratar, tanto faz) aqueles rapazes que seguraram cartazes com os dizeres "Iron my shirt!", apenas para levantar a bandeira do sexismo.

- Hillary não consegue entender o que os americanos querem dizer quando clamam por "change". Essa mudança se refere ao modo de fazer política, mais que a qualquer outra coisa. É claro que uma mulher no comando da Casa Branca já seria uma grande "change", mas não vejo "change" numa líder política à moda antiga, corrompida pelo sistema.

- Hillary não vê nenhum problema em se comprometer com doações feitas por lobistas ou em chamar para si bons feitos alheios.

- Hillary é mestre em tentar agradar a gregos e a troianos, como no caso da carta de motorista para imigrantes ilegais, assunto no qual ela já mudou de lado tantas vezes que já nem mais sei se continua contra, ou a favor, ou muito pelo contrário. Na verdade ela não defende opiniões próprias, pois está sempre preocupada com o que possíveis eleitores vão pensar, ou deixar de pensar, ou muito pelo contrário também.

- Hillary quebra acordos com a mesma facilidade com que os faz. No caso das primárias na Flórida e em Michigan, por exemplo, foi feito um acordo para que nenhum dos candidatos fizesse campanha por lá. Os delegados desses estados não teriam poder de voto na escolha do candidato na convenção do partido, pois anteciparam as datas de suas primárias para que tivessem mais influência no resultado final. Todos os candidatos concordaram com isso, inclusive a Hillary. Mas ela foi a única a fazer campanha nos dois estados e a esquecer de mandar tirar seu nome das cédulas (é interessante que em Michigan, mesmo como candidata única, ela quase perde para os "uncommited"). Ganhou nos dois e agora diz que vai entrar na justiça para validar suas "vitórias".

- Hillary é covarde, ou então nos chama de burros quando fala de sua posição quanto à guerra. É orgulhosa demais para reconhecer que errou ao assinar a autorização para a invasão do Iraque. Muitos dos que a assinaram junto com ela já reconheceram o erro, como foi o caso de John Edwards. Ela diz que não errou, que continua absolutamente certa de que era a melhor decisão que tinha a tomar naquele momento com os dados de que dispunha, e que depois foi enganada por Bush. Bem, isso quase me dá o direito de pensar que ela não será esperta o suficiente para não cair em armadilhas similares, caso ocupe um dos cargos mais importantes do mundo. Ou então, ela acha que não sou esperta o suficiente para desconfiar de uma desculpa esfarrapada como essa. Todos sabiam que se iniciava ali uma guerra irresponsável, covarde, injustificada.

Vou parar por aqui, embora tenha certeza de que encontraria muitos outros motivos se continuasse pesquisando ou puxasse um pouco mais pela memória. Mas os aqui apresentados foram mais do que suficientes para me deixarem feliz por não me identificar com Hillary Clinton. Se votasse aqui nos EUA e votasse nela, estaria aprovando tudo isso aí acima. Por isso, eu fico um pouco incomodada quando leio textos como esse ou esse, que querem fazer com que eu me sinta uma menina inocente, manipulável e bobinha ou uma grande traidora alienada, por ser mulher e não apoiar uma mulher num momento tão importante. Não, eu realmente não quero me sentir obrigada a apoiar uma mulher apenas porque se trata de uma mulher, porque eu preciso de um pouco mais que isto. Eu preciso, no mínimo, de confiar nela; e na Hillary eu não confio.

Não há como deixar de admirar mulheres como as autoras dos textos que citei, e estar eternamente agradecida, pois, com certeza, sem a dedicação delas ao movimento feminista, minha vida seria muito diferente do que é hoje. Mas não consigo concordar com seus argumentos. Entendo o quanto a eleição da Hillary seria uma coroação, uma validação de tantos anos de trabalho, luta, revolta e entrega. Eis aqui algo que eu também queria ver: uma mulher na Casa Branca. Mas não a Hillary Clinton. Acredito que sua nomeação como candidata democrata será um tiro no pé do movimento feminista, pois ela levaria uma lavada do candidato republicano, fazendo com que qualquer mulher que chegue onde ela está agora tenha que se esforçar muito mais para provar que merece estar lá, para provar que não é nenhuma Hillary Clinton.

*****

Na verdade, a idéia deste texto era explicar por que sou a favor de Obama mas talvez a decepção com Clinton tenha feito com que, hoje, eu veja mais motivos para não apoiá-la do que para apoiar Obama. Foi quase um desabafo. Não tenho a menor idéia se Obama será um bom candidato ou um bom presidente, mas aquilo de que gosto nele e nem cheguei a vislumbrar nela é a capacidade de mobilizar e de fazer as pessoas acreditarem que sonhos são possíveis, que mudanças são viáveis e estão ao alcance de todos. A impressão que dá é que as pessoas querem mudar este cenário contaminado e velho representado por Hillary, com o apoio de Obama. E estão dispostas a ajudá-lo e a cobrá-lo, caso ele não esteja à altura de suas expectativas. Então, para dizer por que torço por Obama, deixo esse link e endosso esse vídeo maravilhoso (que também está transcrito aqui).



  Escrito por Idelber às 06:47 | link para este post | Comentários (58)



domingo, 10 de fevereiro 2008

Goleadas de Obama em Washington, Nebraska e Louisiana

A primeira sensação que tive durante a votação aqui na Louisiana estava correta – o comparecimento às urnas foi menor que o esperado, embora o Partido Democrata tenha continuado a tradição de levar bem mais gente para votar este ano que os Republicanos. Pelo menos algumas centenas de afro-americanos foram impedidos de votar por terem sido misteriosamente registrados como Independentes e não como Democratas, mesmo tendo clara memória de que seu registro não era esse. A segunda sensação estava errada. Eu achei que a diferença pró-Obama não seria tão grande. Terminou sendo bem maior que a prevista. Obama levou a Louisiana por 57% a 36%, uma goleada superior às mais otimistas previsões feitas pela campanha do senador de Illinois. Aqui em New Orleans, foi um massacre de 3 x 1. Obama teve 34.267 votos contra 10.239 de Clinton. As goleadas também foram superiores às esperadas nas assembléias de Washington (68% a 31%) e de Nebraska (68% a 32%). Nas Ilhas Virgens, Obama teve praticamente 90% dos votos e levou os 3 delegados da minúscula delegação do arquipélago.

Com margem de erro de um pra cá ou pra lá, Obama conquistou 52 delegados em Washington, 32 na Louisiana e 16 em Nebraska. Hillary levou 26 em Washington, 24 na Louisiana e 8 em Nebraska. No momento, portanto, a contagem dos delegados conquistados pelo voto – excluindo-se os superdelegados, que são os biônicos que podem mudar de idéia a qualquer hora – Obama tem 1.012 contra 940 de Clinton (no momento em que escrevo este post, a CNN ainda não atualizou todos os números; veja aqui e aqui). Se você vir uma alguma fonte apresentando a senadora de Nova York na frente, trata-se de uma contagem que inclui os tais superdelegados, onde ela tem uma substancial vantagem até agora. As próximas primárias acontecem na terça-feira, no Distrito de Columbia (onde fica a capital do país), em Maryland e na Virgínia. Hoje se reúnem as assembléias de Maine, estado branquíssimo onde a coisa parece estar pau a pau. Em DC e em Maryland, a expectativa é de vitória relativamente tranqüila de Obama. Na Virgínia, até há pouco tempo, havia empate técnico, mas tudo indica que a trajetória de Obama é ascendente também por lá. A última Rassmussen já dava 55 a 37 para Obama, mas o número pode estar um pouco exagerado.

Hillary pode superar a diferença pró-Obama nos grandes estados de Ohio, Pensilvânia e Texas, onde ela tem expectativa de vitória. O problema para ela é que várias semanas com manchetes anunciando vitórias seguidas de Obama podem criar um clima difícil de se reverter. Ohio e Texas só votam no dia 4 de março, e a Pensilvânia no dia 22 de abril (veja o calendário completo). Tampouco nesses estados, onde ela era favorita disparada há poucas semanas, a coisa será fácil: o maior jornal de Ohio acaba de endossar Obama.

Um cenário que alguns analistas vêm imaginando – e que a direita republicana saliva de alegria ao escutar – é que é perfeitamente possível que Obama chegue na convenção com mais delegados eleitos que Hillary, mas que ela tire a diferença nos superdelegados e conquiste a indicação. Isso significaria, na prática, que o Partido Democrata estaria escolhendo um candidato pelo voto da burocracia, contra a vontade de seus eleitores. É impossível prever quais seriam as reações caso isso ocorresse. Por exemplo, uma analista da CNN e superdelegada do Partido Democrata à convenção, a new-orleaneana Donna Brazile, já declarou que se os superdelegados escolherem o candidato, ela abandona o partido.

O outro cenário é que os superdelegados – que são, na sua maioria, gente que também terá que se submeter às urnas para renovar seus mandatos de deputado, senador etc. -- se recusem a contrariar a vontade dos eleitores e entrem no trem-da-alegria do candidato que tiver mais votos.

O outro cenário seria engraçadíssimo: que o candidato do Partido Democrata seja decidido na primária de Porto Rico, que se realiza em junho. Teríamos a hilária situação de ver o candidato democrata escolhido por cidadãos de um território que não tem direito a voto nas eleições presidenciais americanas.

Uma coisa é certa: a disputa ainda promete muita emoção e vai levar o intrincado sistema de primárias norte-americano ao seu limite.

PS: O lado republicano não se cansa de dar demonstrações de desconforto com seu virtual indicado, John McCain. O carolão-que-se-recusa-a-sair, Mike Huckabee, ganhou de lavada nas assembléias de Kansas e também venceu na Louisiana.

Atualização: Tem entrevista comigo sobre as eleições americanas lá no Imprensa Marrom.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (45)



sábado, 09 de fevereiro 2008

Notícia rapidinha do front

Aqui na Louisiana o comparecimento às urnas parece ter sido baixo. É má notícia para Obama, que esperava uma avalanche de votos em New Orleans. Se essa impressão minha se confirma, haverá que se procurar uma explicação, porque faz um dia lindo em New Orleans. A burocracia partidária estava lá em peso, religiosamente fazendo tudo para que o menor número possível de gente votasse.

Obama vence, mas não pela diferença esperada.

É só um palpite, por enquanto.

11:27: Vitória de Obama nas assembléias de Nebraska: 69% dos votos, com 3/4 dos distritos já computados.

11:38: Vitória de Obama nas assembléias de Washington. 67% dos votos, com 1/2 dos votos computados.

0:06: Vitória de Obama nas primárias da Louisiana. A margem, no momento, é 52 x 39. Os números são atualizados a cada minuto aqui.

1:43: Obama vence as Ilhas Virgens com quase 90% dos votos.



  Escrito por Idelber às 19:00 | link para este post | Comentários (5)



quarta-feira, 06 de fevereiro 2008

Balanço da super terça e a guerra do spinning

É mais ou menos como os Campeonatos Brasileiros do final da década de 1970. Um time pode liderar estando atrás. Quem está na frente, ou quem “ganhou” a Super Terça, é uma questão que depende de seu interlocutor. Adotando o ponto de vista de como as coisas estavam há três semanas, não há como negar o enorme salto de Obama. Hillary liderava em praticamente todos os estados da Super Terça, com a exceção de Illinois. E Obama venceu em treze (Alaska, Alabama, Colorado, Connecticut, Delaware, Geórgia, Idaho, Illinois, Kansas, Minnesota, Missouri, North Dakota e Utah), enquanto Clinton venceu em oito (Arizona, Arkansas, Califórnia, Massachusetts, New Jersey, New York, Oklahoma e Tennessee), com o Novo México ainda indefinido às 6:50 de Brasília.

Mas Hillary também tem motivos para declarar vitória. Ela venceu em três dos quatro grandes estados (New York, Califórnia, New Jersey, perdendo só em Illinois) e abocanhou os estados “azuis”, que costumam votar nos democratas nas eleições gerais. Obama pode declarar que ganhou num número maior de estados, venceu nos lugares onde os democratas costumam perder para os republicanos e confirmou sua elegibilidade, vencendo em estados tradicionalmente racistas como o Alabama ou “brancos” como o Utah e o Idaho. Se consideramos “goleada” uma vitória com mais de 60% dos votos, Obama goleou em oito estados, enquanto Hillary goleou só em um (Arkansas). O número que realmente importa, que é o de delegados, está praticamente empatado.

Ainda é cedo para dizer que Obama virou o jogo, mas já não é correto dizer que Hillary é a favorita, como era indubitavelmente o caso até ontem. Isso, por três motivos: 1) o dinheiro. Obama levantou 32 milhões em janeiro, enquanto Hillary levantou 13 milhões. 64% dos doadores de Clinton chegaram ao seu teto legal. No levantamento de verbas para Obama, há um vasto campo de pequenos doadores, mobilizados via internet, que ainda têm muito gás. 2) a tendência geral do voto, que nitidamente favorece Obama, considerando-se que até muito pouco tempo atrás Hillary era a candidata considerada inevitável. 3) o calendário. As próximas primárias são em lugares onde a vantagem é de Obama. No próximo dia 09 de fevereiro, os democratas de Washington State (não a capital, mas o estado, que fica no extremo noroeste do país), Nebraska, Ilhas Virgens e daqui da Louisiana darão o seu pitaco. No dia 12, reúnem-se os democratas de Maryland, que tem a maior população negra do norte do país (28%) e de Virgínia, onde Obama é favorito. Do jeito que vai a coisa, é difícil imaginar que ela se defina antes da convenção.

A campanha de Obama, ancorada principalmente nos jovens -- homens e mulheres -- não cometeu, este ano, o erro cometido pela campanha de Howard Dean em 2004. O entusiasmo dos jovens em torno a Dean em 2004 acabou criando expectativas enormes e projeções irreais. Quando Dean perdeu a primeira primária, a de Iowa, acabou tendo que fazer um discurso exaltado para manter o ânimo dos apoiadores. O discurso pareceu grosseiramente anti-presidencial e a campanha desabou. Ao longo desta semana, as lideranças ligadas a Obama fizeram questão de estabelecer objetivos modestos: se ficarmos até 100 delegados atrás e conquistarmos alguns estados, estaremos em ótimas condições. O resultado é que com os números desta terça, a base sai com a sensação de vitória.

A emocionante contagem dos votos na noite passada registrou mais um gol da blogosfera sobre a grande mídia. Enquanto apoiadores de Clinton e de Obama roíam as unhas na contagem dos votos em Missouri, o site Político e a cadeia de televisão MSNBC declararam vitória para Clinton, já que ela liderava com 3% de vantagem (a prova está aqui, graças ao Gravata). Até o mestre Josh Marshall embarcou nessa. Às 02:59 eu coloquei uma atualização que basicamente dizia: vocês são irresponsáveis; os votos que faltam são todos de Saint Louis e Kansas City, áreas de Obama! Foi dito e feito. Obama virou. Fica aí a lição. Cuidado com as projeções da grande mídia, sempre.

No lado republicano, a grande história foi o carolão. A dúvida geral antes da Super Terça era se John McCain confimaria a indicação ou se o Barbie Mitt Romney conseguiria equilibrar o jogo. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Sem grana e sem mídia, o carola Huckabee, que quer emendar a constituição para que ela se adeque à Bíblia, ganhou em todo o sul do país. A nominação dificilmente escapa de McCain, que ainda lidera com folga, mas quem lhe deu o susto foi o carolão, não o Barbie.

PS: Meu muito obrigado aos leitores que animaram a caixa de comentários nesta noite. Foi muito bom :-)



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terça-feira, 05 de fevereiro 2008

Cobertura em tempo real das primárias americanas

Este é o post que será atualizado várias vezes por hora com comentários e links sobre a Super Terça-Feira. Já estou a postos: dezenas de abas do Firefox abertas, televisão ligada entre a CNN, a MSNBC e a Fox, rádio na Air America e toneladas de informação para compartilhar. Coisa de junkie político, mesmo. Nesta noite, acompanhe também o blog do padrinho Pedro Dória que, como eu, está cobrindo em tempo real. Se houver comentários de leitores ou perguntas, tentarei dialogar ou responder aqui em cima, no post. Indicarei o momento de cada atualização com o horário de Brasília.

20: 59. Em primeiro lugar, o quadro republicano: é muito difícil que Mitt Romney, a última esperança do establishment conservador, consiga deter a avalanche John McCain. Entre democratas e republicanos, estes últimos são os únicos que podem sair da Super Terça com o candidato já definido. Seja o que for que aconteça no campo democrata, a noite de hoje pode terminar com um favorito, não com um candidato já ungido.

21:15: No campo democrata: há um ano, Hillary Clinton chegou a ter ares de candidata inevitável. Nos últimos meses, a Obamamania tomou conta de boa parte da base do partido. No momento, Obama tem 63 delegados e Hillary tem 48. Estes números são enganosos. Hillary ainda é a favorita. Na verdade, há algumas semanas a campanha de Hillary chegou a sugerir que a disputa terminaria hoje. Claramente, não será o caso. Para que assim fosse, ela teria que ter uma vantagem de 400 delegados hoje, o que não acontecerá. Para Obama, mesmo uma derrota por pequena margem hoje pode ser uma vitória. Daqui a quatro dias, as primárias democratas serão em Nebraska, Washington State, Virgin Islands e aqui na Louisiana. Esta última é um estado importante: são 67 delegados, e a vantagem de Obama aqui é nítida. Portanto, uma derrota por 100 delegados ou menos na noite de hoje não seria, para Obama, um desastre – especialmente considerando-se a questão do dinheiro, que vou tratar numa das próximas atualizações. O candidato democrata precisa assegurar 2.025 delegados. Veja este excelente guia do New York Times.

21:23: Califórnia, Missouri, New Jersey e Massachusets são estados onde a vantagem de Hillary era enorme (para ver as últimas pesquisas nestes e em outros estados, veja este post do Biscoito). Se Obama ganha um (ou dois) desses quatro estados, o impacto será considerável. Há que se registrar a diferença: em quase todas as primárias republicanas de hoje, quem vence o estado leva todos os delegados. Nas democratas, há uma combinação entre representação proporcional (pelos votos no estado todo) e "vencedor leva tudo" (dentro de cada distrito).

21:59: São duas as principais razões pelas quais o prolongamento do jogo favorece Obama. A primeira é óbvia: Hillary era a favorita inevitável há poucos meses e Obama é uma força emergente que, com certeza, tem interesse em prologar a disputa. A segunda razão é pouco comentada: 64% dos doadores da campanha de Hillary já chegaram ao seu teto legal. Este número, na campanha de Obama, é 40%. A diferença é importante. Clinton só levantou pouco mais de 10 milhões de dólares em janeiro. Obama levantou bem mais. Se o jogo se prolonga por muito tempo, o dinheiro passa a ser chave. Os doadores de Clinton são muito menos numerosos e contribuem em quantidades muito maiores – tendem a pensar na contribuição como uma compra de direitos e se frustram mais facilmente com as derrotas. Os doadores de Obama são herdeiros da mobilização de base via internet, que catapultou a campanha de Howard Dean em 2004. Uma boa performance de Obama nesta noite coloca o quadro financeiro em situação complicada para Clinton.

22:01: Fecharam as urnas na Geórgia. A CNN anuncia a vitória de Obama no estado.

22:22:
Na Geórgia, entre os negros: Obama 88 x 11. Entre os brancos: Clinton 61 x 39 (margem inferior à projetada pelas pesquisas). Entre os homens brancos, há empate, resultado superior ao esperado pela campanha de Obama. O senador de Chicago vencerá a Geórgia e, pelo que parece, com diferença maior que a esperada. Estou ansioso para ver o comparecimento em Atlanta e Athens. O estado é importante. São 87 delegados.

22:30: Quando começarem a chegar os números da Califórnia, uma coisa é certa: ou o Zogby ou a Survey USA vai ficar com cara de tacho. A diferença entre as projeções de cada instituto é absurda.

22:53: A grande história do dia (como notou o André) é a histeria da ultra-direita do Partido Republicano, inconformada com o fato de que o moderado John McCain, odiado por eles devido a iniciativas como a McCain-Feingold ou a McCain-Kennedy, provavelmente será o candidato republicano. Rush Limbaugh, o ultra-reacionário radialista, inimigo número 1 dos Clinton, declarou que apoiaria Hillary contra McCain, porque seria, segundo ele, melhor ter um inimigo claro na Casa Branca do que um Republicano que não é um conservador de verdade. Será uma delícia acompanhar esta história. Seria como ver Reinaldinho Azevedo apoiando Marta Suplicy!

23: 22. No lado republicano, a grande surpresa até agora é a performance de Mike Huckabee, o pastor carolão de Arkansas que quer emendar a constituição para que ela se conforme com a Bíblia. Huckabee vem liderando na Geórgia e no Tennessee, além de vencer na Virgínia Ocidental. John McCain, como previsto, vencerá em New Jersey. Veremos se o desenrolar na noite confirma a nominação de McCain ou se Huckabee embolou a coisa, criando uma corrida entre dois ou entre três.

23:25. Projeção de todos os canais: Hillary Clinton vence Oklahoma. Barack Obama vence Illinois. Nenhuma surpresa. Aguardemos a diferença, porque os delegados são indicados proporcionalmente.

23:29. Mitt Romney, o bonequinho de plástico, conseguiu vencer seu estado natal, Massachusetts, onde John McCain vinha ameaçando. Se não conseguisse, seria uma humilhação federal. Mesmo com este dado, e com as vitórias de Huckabee em alguns estados do sul, não acredito que a nomeação de McCain esteja ameaçada.

23:32. Primeira notícia não óbvia da noite: Hillary Clinton vencerá no Tennessee.

23:36: Os primeiros números do miolinho do sul do país (Oklahoma, Tennessee, Arkansas) não são bons para Obama. Se tendência continuar no vizinho Missouri, Cliton terá o que comemorar.

00:00: Até agora: Obama carrega Illinois e Geórgia. Hillary leva Tennessee, Oklahama e Arkansas.

00:21: Obama vence em Delaware.

00:31: Obama vence no Alabama, por margem maior que a esperada. Hillary vence em Nova York e em Massachusetts. Em Nova York, parece que a margem será grande, pois Obama não vai muito bem entre os latinos e Hillary conseguiu mais votos entre os negros do que o esperado. Foi muito sábio da parte da campanha de Obama não exagerar nas expectativas -- esse foi o erro cometido pela campanha de Howard Dean em 2004.

00:50.
Hillary Clinton leva New Jersey. Os vantagem de Obama nos arredores de Newark não foi alta o suficiente e o comparecimento nos subúrbios da Filadélfia -- área de Clinton -- foi bem significativo. Veremos como fica a divisão dos delegados.

01:07: Obama vence em North Dakota. Lá, não houve primárias, e sim um caucus. Obama lidera com 61%, com quase 90% dos votos apurados.

01:19: O Pedro Dória publicou mapas das vitórias de cada candidato. Alguns leitores -- por aqui pelo menos -- estão confusos. A alocação dos delegados é proporcional, ou seja, é de pouca monta saber quem ganhou onde se você não souber qual é a margem e qual a distribuição de delegados que ela determina. Inclusive, em alguns estados, é possível vencer o voto popular e não ter a maioria dos delegados.

01:22: Obama vence em Kansas.

01:24: Obama vence em Connecticut. É uma vitória psicologicamente muito importante, porque Hillary carregou todos os outros estados do nordeste do país (Massachusetts, New Jersey, Nova York). A vitória em CT era essencial para Obama.

01: 41:
Obama vence em Minnesota por margem que parece bem maior que a esperada. A coisa parece melhorar para ele à medida em que nos movemos para o oeste, depois de uma forte onda Clinton no começo da noite, impulsionada pelos estados do nordeste.

01: 51: Obama vence em Utah. Alabama e Utah escolhem um negro para representá-los numa eleição presidencial. Não dá para imaginar a importância histórica disso.

02:05:
Para quem quiser brincar de calcular os delegados.

02: 17: A expectativa é grande pelos resultados em dois estados: Missouri e Califórnia. Nesta última, a votação encerrou-se há poucos minutos. Em Missouri, Clinton ganha em todas as áreas rurais, mas Obama vence de goleada nas cidades: St. Louis e as imediações de Kansas City. Hillary lidera, mas St. Louis é famosa por contar os votos devagar. A importância de uma vitória lá é enorme. Se Obama vence em Missouri, fica em condições de brandir sobre Hillary a etiqueta de que ela só vence no Nordeste liberal.

02: 40: Acompanhe o pau a pau em Missouri.

02: 59: Vejam a irresponsabilidade do site Politico: já declararam Hillary vitoriosa em Missouri. Acontece que faltam 7% dos votos. Se Obama vencer por 57% neste universo, vira o jogo. E estes votos vêm de regiões onde ele tem liderado por 70%. Os caras não aprendem mesmo.

03: 02: No lado republicano, o carolão Huckabee, sem grana, sem apoio da mídia, leva Arkansas, Georgia, Alabama, Virgínia Ocidental, Tennessee. É o Huckmentum! Viva a Bíblia! O Barbie Romney apostou na chamada ao voto útil conservador contra McCain, dizendo que apoiar o carolão significava um endosso indireto ao "liberal" de Arizona. Mais uma vez, a chamada ao voto útil sai pela culatra.

03: 14:
Hillary Clinton vence em Arizona. Vitória esperada, neste estado que seguramente será "vermelho" (Republicano) em novembro.

03:19: Obama ultrapassou Hillary no Missouri. E agora, Politico? E agora, MSNBC? Sublinhe-se: ainda não estou declarando Obama vitorioso lá. Há votos de condados clintonianos (do interior) para chegar. Hillary pode virar o jogo de novo. Mas já deu para demonstrar a irresponsabilidade dos caras.

03:25: Hillary Clinton vencerá na Califórnia. É importantíssimo acompanhar qual será a diferença. Se ela não for muito grande, Obama sem dúvida sai da Super Terça em excelentes condições.

03:33:
Os primeiros números do Alaska apontam vitória enorme de Obama.

03:40: Em Idaho, Obama vence por 80 x 16. É a maior diferença da noite. Detalhe: a população negra de Idaho não chega a 1%. Há 12 mil democratas registrados no estado. Obama levou 14 mil pessoas a um comício recente em Boise.

03:56: Logo, logo, deve começar a guerra do spinning entre Clinton e Obama. Numa disputa emocionante e acirrada como esta, a Super Terça é, até certo ponto, uma guerra pelos direitos de distorção discursiva nas semanas que seguem. Obama já acumulou algumas vitórias além do esperado que lhe permitem direitos de spinning sobre o resultado. Clinton precisa virar o jogo em Missouri e dar uma goleada inesperada na Califórnia para ter algum elemento para o spinning.

04:10: O Biscoito declara Obama vencedor em Missouri, por diferença de alguns milhares de votos. Alô, Politico? Alô, MSNBC? Até você errou, Josh Marshall? Não viu que os votos que faltavam eram de Saint Louis e de Kansas City? O que é isso, cumpadi? Até meus leitores no Brasil sabiam que era cedo.

04:29:
Uma das principais líderes feministas dos EUA abandona a campanha de Hillary e abraça a de Obama.

04: 55: Resumão do dia. Clinton venceu em oito estados: Arizona, Arkansas, Califórnia, Massachusetts, New Jersey, New York, Oklahoma e Tennessee. Obama venceu em treze: Alaska, Alabama, Colorado, Connecticut, Delaware, Geórgia, Idaho, Illinois, Kansas, Minnesota, Missouri, North Dakota e Utah. Faltam dois elementos chave: quem vencerá no Novo México e qual será a diferença em favor de Hillary na Califórnia.

05:17: Aqui vai um cálculo da situação atual dos delegados democratas. Como se vê, pau a pau.



  Escrito por Idelber às 18:52 | link para este post | Comentários (104)




A decadência da Fox

Há uma história nesta campanha eleitoral americana que eu ainda não vi discutida no Brasil -- e que os fãs da revista Veja deveriam acompanhar com atenção. É o declínio paulatino da relevância e da audiência da Fox News, a outrora temida cadeia de televisão que redefiniu não só o jornalismo, mas a própria política norte-americana. A Fox conseguiu o que em 1996 parecia impossível: desbancar a CNN no negócio de notícias via TV a cabo, enquanto realizava a proeza de transformar o extremismo de ultra-direita em suposto centro do espectro político, com um slogan que era o troféu óleo de peroba do século: fair and balanced. Funcionou durante muito tempo e foi decisivo para o roubo de uma eleição presidencial americana (2000) e para o resultado da seguinte (2004). Parece não estar funcionando mais.

A partir de um chamado ao boicote liderado pelo site Fox Attacks e por vários blogueiros e ativistas progressistas, os candidatos democratas tomaram a difícil – mas, viu-se depois, acertada – decisão de ignorar o canal e não aceitar debater lá. Tratá-la como o que ela é, um canal de manipulação e doutrinação extremistas, não um veículo de notícias. Este ano, foi tudo morro abaixo para a Fox. O candidato queridinho da Fox, Rudy Nine-Eleven Giuliani, amargou uma humilhação atrás da outra nas primárias, perdendo até para o azarão Ron Paul. Teve que abandonar a corrida antes de ser esmagado dentro do seu próprio estado de Nova York, apesar de todos os esforços do canal. A estrela da Fox, o histriônico Bill O'Reilly, chegou a trocar empurrões com agentes do serviço secreto para tentar se aproximar de Barack Obama, humilhação impensável dois anos atrás. Depois da Fox excluir do seu debate o candidato anti-guerra Ron Paul, mesmo Paul tendo conseguido 10% dos votos em Iowa (quase o dobro do queridinho Guiliani), o todo-poderoso âncora da Fox, Sean Hannity, foi perseguido pelos seguidores de Paul aos gritos de Fox News sucks! (veja o hilário vídeo). Para piorar a situação, o ex-executivo da Fox, Dan Cooper, vem publicando trechos do livro em que conta toda a lama por trás do projeto do canal de notícias liderado por Robert Ailes, um sujeito capaz de ameaçar uma criança de 3 anos cujo único crime é ser filha de um jornalista que fez um retrato crítico do seu amado radialista de ultra-direita Rush Limbaugh.

O que os Democratas entenderam, finalmente, é que em alguns terrenos não vale a pena lutar. O resultado do jogo já está dado de antemão, como sabem os que já presenciaram os massacres manipulados que são as “entrevistas” da Fox com qualquer um que não compartilhe o extremismo bélico do canal. Que isso sirva de lição para os que acham válido conversar com determinados veículos, ao invés de seguir o exemplo dos incontáveis brasileiros que já tivemos o gostinho de um dia dizer ao telefone: Você é da Veja? Desculpe, com a Veja eu não falo.

Nas primárias de New Hampshire em 2004, mesmo sem qualquer oposição a Bush, a Fox teve 200.000 telespectadores a mais que a CNN na noite da primária democrata. Em 2008, com um campo de candidatos competitivos entre os Republicanos, a CNN teve 250.000 a mais. Dos dez debates mais assistidos desta campanha, cinco foram na CNN, só dois na Fox. O debate democrata da Carolina do Sul, transmitido pela CNN, bateu o recorde: foi o mais assistido da história das primárias americanas. O canal de negócios da corporação Fox, o Fox Business Network, que estreava com o intuito de fazer com a CNBC o que a Fox News fizera com a CNN, não consegue mais que ínfimos 6.300 telespectadores, ou 0,05% do mercado, bem longe dos 265.000 da CNBC (fonte).

A lição me parece clara: Fox subiu com Bush e está caindo com ele.

PS: Volto à noite, com a cobertura em tempo real das primárias democratas.



  Escrito por Idelber às 05:40 | link para este post | Comentários (58)



domingo, 03 de fevereiro 2008

O que eu quero saber também

Até que enfim há um texto imperdível, realmente indispensável para se ler no Daily Kos. Mcjoan se dirige às campanhas de Obama e Clinton com algumas perguntas: What I want to know.

A lista é perfeita. Foi completada muito bem neste e neste comentário. Este acréscimo é meu.



  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (6)




Guia completo da super terça-feira democrata

Aí vão algumas observações sobre o estado atual das pesquisas nos estados da Super Terça. Estas primárias democratas não serão do tipo “vencedor leva tudo”, mas também não são exatamente proporcionais. Na maioria dos estados, o vencedor de cada distrito leva a totalidade dos delegados do dito cujo. O saldo de gols, portanto, importa, mas vencer um estado por 60 x 40 não garante 60% dos delegados. Todos os gráficos abaixo foram retirados do Talking Points Memo e parte da minha análise também é baseada na do Josh Marshall, que tem sido um ótimo guia da campanha. Boa parte dos outros blogs democratas se perderam neste ano. A observação vale para os dois lados.

Alabama, 52 delegados: Hillary chegou a estar na frente por 20 pontos em algumas pesquisas, mas a situação atual é de empate técnico. A diferença caiu 10 pontos em uma semana. No Alabama, o eleitorado negro é parte significativa da primária democrata e há motivos para acreditar que a goleada de Obama na Carolina do Sul terá impacto por lá. A curva da pesquisa é clara:

alabama.png


Alaska, 13 delegados: Não há pesquisas. É um dos estados mais “vermelhos” (Republicanos) da União e os Clinton não são exatamente populares por lá. Tudo aqui é chute, mas eu cravaria um 8 x 5 ou um 7 x 6 para Obama.

Arizona, 56 delegados: O TPM está trabalhando com uma pesquisa que mostra Hillary na frente por 10 pontos, mas a Rassmussen de hoje já mostra 46 x 41, quase um empate técnico. A popular governadora Janet Napolitano apóia Obama e o congressista Raul Grijalva pulou do barco de Edwards para o de Obama. Este é um estado que você já pode cravar Republicano em novembro. McCain não perde lá de jeito nenhum. Nas primárias democratas, no entanto, o Arizona é importante. Escrevam aí: esta pesquisa do AZ Central, dando vantagem de 21 pontos para Hillary, está maluca.

Arkansas, 35 delegados: Não há pesquisas, mas é goleada de Hillary, claro. É o seu antigo estado. Bill Clinton lá é mais popular que Elvis Presley. A esperança da campanha de Obama é abocanhar alguns delegados graças à população afro-americana de Little Rock.

Califórnia, 370 delegados. Não há dúvidas: é o estado chave. Acompanhe com interesse qualquer movimentação de 1 ponto na Califórnia na terça-feira. Hillary chegou a estar na frente por 25 pontos. O gráfico abaixo mostra um 45 x 37, mas a Rassmussen de hoje já registra um empate técnico: 43 x 40 para Clinton. O dado mais interessante da pesquisa de hoje é que Edwards ainda consegue 9%, número que ele dificilmente manterá na terça, apesar de que seu nome ainda consta da cédula. A migração desses votos é decisiva. Para tornar a coisa mais emocionante, só 69% dos eleitores declaram ter certeza de seu voto. É um número baixo, considerando que estamos na antevéspera das primárias.

california.png

Colorado, 55 delegados
. Obama lidera por 2 pontos, ou seja, a situação é de empate técnico. Como o antigo prefeito de Denver, Federico Peña, só há pouco tempo declarou o apoio o Obama, seus números entre o importante eleitorado hispânico devem crescer.

Connecticut, 48 delegados
. Outro importantíssimo estado. Hillary teve enorme vantagem aqui, mas os apoios de Caroline e Ted Kennedy, do vizinho Massachusetts, sem dúvida tiveram seu impacto. A pesquisa que está manejando o TPM mostra empate, mas a Survey USA dá Obama 48 x 44. Não se assuste se essa diferença aumentar.

Delaware, 15 delegados
. Não há pesquisas.

Geórgia, 87 delegados. Obama está na frente por 6 pontos. Os negros representam 47% dos eleitores das primárias democratas. Ali é batata: quanto mais gente votar em Atlanta e na cidade universitária de Athens, terra do nosso querido REM, melhor para Obama. Quando mais gente votar nos subúrbios ricos e no meio do mato, melhor para Hillary.

georgia.png

Idaho, 18 delegados. Acreditem em mim: qualquer pessoa que disser que sabe o que vai acontecer lá está chutando.

Illinois, 153 delegados. Goleada fácil de Obama, senador pelo estado. É possível que seja a maior diferença de toda a Super Tuesday. Não se espante se Obama vencer com o dobro de votos de Hillary. Quanto maior for o comparecimento, evidentemente, melhor para ele.

Kansas, 32 delegados. Não há pesquisas, mas é o estado em que moraram os avós maternos de Obama e ele tem o apoio da governadora Kathleen Sebelius. O Biscoito aposta numa vitória de Obama por margem que pode ir de pequena até bem significativa.

Massachusetts, 93 delegados
. Estado importante, e não só pelo número de delegados. Hillary tinha uma vantagem imensa, mas o apoio dos nativos Ted e Caroline Kennedy fez toda a diferença. A Hassmussen ainda registra 43 x 37, mas a diferença vem caindo em ritmo vertiginoso. Se Obama vencer Massachusetts, será a virada do século. Comparável àquele 4 x 3 do Vasco no Palmeiras.

Minnesota, 72 delegados
. Há uma vantagem pequena de Clinton. Outra batata demográfica: Obama vence nas “cidades gêmeas” (Minneapolis e Saint Paul) e Hillary vence nos subúrbios ricos. As áreas rurais registravam forte apoio a Edwards e podem decidir a parada.

Missouri, 72 delegados
. Quadro muito parecido, com vantagem pequena para Clinton.

New Jersey, 107 delegados. A vantagem de Clinton aqui é bem grande. A pesquisa da Quinnipiac registra Clinton 49 x 32 Obama.

New Mexico, 26 delegados
. Não há pesquisas. Um espirro do Governador Bill Richardson aqui, para um lado ou outro, pode decidir a parada. Ele é bem popular.

New York, 232 delegados. Será uma vitória de Clinton, sem dúvida. Ela é senadora pelo estado. Mas o que se esperava era uma goleada e talvez não seja bem assim. A pesquisa da Rassmussen registra um 52 x 34. A curva é semelhante a dos outros estados, com crescimento de Obama, especialmente na cidade de Nova York. No norte do estado e nos subúrbios, é goleada de Clinton.

North Dakota, 13 delegados. Não há pesquisas. Sim, há seres humanos morando lá.

Oklahoma, 38 delegados. Vantagem bem significativa de Clinton. Edwards tinha muito apoio aqui e estava em segundo nas pesquisas, na frente de Obama. A Survey USA de 27/01 dava Hillary com 44%, Edwards com 27, Obama com 19. Para onde migrarão os 27 de Edwards é chave, claro. É bem possível que migrem majoritariamente para Hillary, aumentando ainda mais a vantagem sobre Obama.

Tennessee, 68 delegates. Vantagem bem razoável de Hillary. Tennessee deve seguir o padrão de outros estados do sul, com voto racializado. O eleitorado negro lá, no entanto, é bem menor que o da Carolina do Sul ou da Geórgia (representarão não mais que 23% das primárias democratas). Minha aposta é que Clinton leva, não sei por quanto.

Utah, 23 delegados. Num dos estados mais “vermelhos” (Republicano) e mais brancos (racialmente) do país, Hillary lidera com boa margem. Mas Obama viaja para lá amanhã. Deverá haver gente no comício que estará vendo, pela primeira vez na vida, um negro ao vivo fora da arena de basquete do Utah Jazz.

Como se vê, a tendência é de curva ascendente de Obama na maioria dos estados. Não se sabe se ela é acentuada o suficiente. O jogo estava 4 x 1 para Clinton no primeiro tempo. Estamos a 30 minutos do segundo e Obama já encostou, 4 x 3. Os quinze minutos finais serão eletrizantes. O Biscoito acompanhará, na noite de terça-feira, em tempo real.

PS 1: O custo das guerras dos Estados Unidos, em dólares de 2007.

PS 2: O blog deseja toda a sorte na casa nova ao Imprensa Marrom e ao Gravataí Merengue.

PS 3: Estou temporariamente sem acesso à Folha e ao Globo. Quem quiser, pode deixar algum comentário sobre a cobertura desses jornais.



  Escrito por Idelber às 06:22 | link para este post | Comentários (15)



sexta-feira, 01 de fevereiro 2008

A nova pesquisa Gallup

gallupjan30.jpg

Esta é a curva da pesquisa Gallup de intenção de votos nacional, feita no dia 30 de janeiro, entre os eleitores dos candidatos democratas. A outra pesquisa quentinha é da Califórnia: empate técnico.

(via o indispensável Talking Points Memo)



  Escrito por Idelber às 00:54 | link para este post | Comentários (7)



quinta-feira, 31 de janeiro 2008

John Edwards abandona a corrida

edw-nola.jpg Foi simbólica a despedida de John Edwards da campanha presidencial norte-americana. Ele viajou até aqui, New Orleans, onde havia começado a caminhada. Foi até o Lower Ninth Ward, bairro de Fats Domino, completamente devastado pela enchente que se seguiu ao furacão Katrina. Ali ele fez seu discurso (veja o vídeo). Além de emblemática musical e culinariamente, New Orleans é hoje o melhor retrato do fracasso do governo Bush, de seu descaso com os pobres, da falência do modelo entregue ao mercado que ele resolve. A cidade é também a mais eloqüente metonímia das dezenas de milhões de pobres que a América não consegue mais varrer para debaixo do tapete.

Edwards foi sua grande voz nestas eleições. Ele foi o único dos grandes candidatos a falar sistematicamente da pobreza e do colapso do sistema de saúde americano. Foi o único a enfatizar o simples fato de que o abismo entre os ricos e os pobres não diminui nos Estados Unidos, só aumenta. Não há como medir a importância que teve Edwards na campanha. Foi graças a ele que tanto Clinton como Obama se comprometeram com a proposta de um sistema genuinamente universal de assistência médica. Ele também foi o único dos grandes a encarar de frente a máquina de distorções da extrema-direita midiática americana. Em toda a base do Partido Democrata, pipocaram os agradecimentos ao longo do dia de ontem. Nas últimas cinco eleições presidenciais americanas que acompanhei diretamente, ele foi o único candidato que conseguiu empurrar o debate minimamente para a esquerda. Aqui em New Orleans, ele conquistou o respeito de todos ao mobilizar centenas de estudantes universitários e trazê-los à cidade no verão de 2006, para ajudar na reconstrução. A foto que ilustra o post (Fox News) é daquela época.

É óbvio que o apoio de Edwards a um dos candidatos pode ser decisivo. Imediatamente depois do anúncio da sua saída, tanto Clinton como Obama atualizaram seus websites com fotos de Edwards na página principal e agradecimentos a ele. Veículos de mídia que ignoraram e marginalizaram a mensagem de Edwards passaram a destacá-lo. Os funerais sempre foram ocasiões para elogios hipócritas.

São 6 da manhã na Costa Leste e a expectativa no campo de Obama é grande. Depois do discurso em New Orleans, Edwards falou com os dois candidatos restantes e arrancou deles a promessa de que o combate à pobreza seria central em suas campanhas e em seus eventuais mandatos. Edwards telefonou para Obama, mas a conversa com Clinton foi iniciativa desta última. Significará algo?

O movimento nas pesquisas é claro: Obama vem encurtando a distância que o separa de Clinton na maioria dos estados da Super Terça-Feira. Em Connecticut eles já estão empatados. A diferença na importantíssima Califórnia já diminuiu sensivelmente e agora há empate técnico, inimaginável há algumas semanas. Obama mantém a liderança na Geórgia. Em Massachussetts, a diferença de Clinton para Obama caiu de 37 para 6 pontos -- o endosso de Caroline e Ted Kennedy obviamente tem muito a ver com isso. O cálculo da Rassmussen Markets ainda é de que Clinton tem 62% de chances de ser a escolhida, enquanto Obama teria 38%. Mas o apoio de Edwards pode decidir a parada.

PS: O New York Times publica hoje uma longa matéria sobre a relação dos Clinton com mafiosos do Casaquistão.

PS 2: Também no campo republicano sobraram só dois: Mitt Romney, o ultramilionário ex-governador de Massachussetts e o senador do Arizona, John McCain, muito forte entre o eleitorado de centro mas não exatamente bem visto pela ala mais conservadora do partido. Depois da vitória na Flórida, McCain é o claro favorito. A mitologia do 11 de setembro não foi suficiente para fazer decolar a candidatura de Rudy Giuliani, que já saiu e apoiou McCain.

PS 3: Na terça-feira à noite e madrugada adentro, o Biscoito fará uma cobertura em tempo real dos resultados de 22 primárias democratas. Depois de voltar do baile de carnaval, se ligue aqui no blog, com um dedo na F5.



  Escrito por Idelber às 08:08 | link para este post | Comentários (27)



segunda-feira, 28 de janeiro 2008

Por que Obama goleou na Carolina do Sul

Nas primárias da Carolina do Sul, de novo as pesquisas estavam erradas. Elas apontavam uma vitória de Obama por 8 a 12 pontos e o que se viu foi uma lavada: Obama 55.5% x Hillary 26.5%, com Edwards conquistando só 17.5% dos votos no seu estado natal, onde ele havia vencido as primárias contra John Kerry em 2004. Obama venceu em 44 dos 46 condados. Apresento abaixo um pouco da demografia do voto – sempre importante nos EUA -- e logo depois uma rápida análise.

Nas primárias democratas da Carolina do Sul este ano, os negros representavam 55% dos eleitores. Destes, 78% votaram em Obama, 19% em Clinton, 2% em Edwards, sem diferenças significativas entre homens e mulheres. Entre os brancos, 40% foram para Edwards, 36% para Clinton e 24% para Obama. Mas Obama teve metade dos eleitores brancos com menos de 30 anos de idade. Recebeu o apoio de nada menos que 75% de todos os eleitores nascidos depois da posse de Jimmy Carter.

Hillary Clinton fez campanha pesada na Carolina do Sul e só programou a saída rápida do estado – rumo ao Tennessee – quando já estava clara a derrota. Na manhã da votação, sua equipe chegou a enviar um release dizendo que esperavam uma derrota por 12%, dando uma margem generosa que lhes permitiria, depois, pintar com cores positivas o resultado, no caso de uma diferença menor. A margem acabou sendo mais que o dobro, 27%. Foi a primeira vez nesta temporada que um candidato venceu com mais de 50% dos votos. Também foi a primeira vez que um candidato dobrou os votos do segundo colocado.

Como a demografia destas primárias não foi muito diferente da que se esperava, a explicação para tamanha lavada é clara: os eleitores recusaram o tipo de campanha que Hillary Clinton resolveu fazer, com base em mentiras, distorções, divisão racial e ataques abaixo da cintura. O que se viu na Carolina do Sul ao longo da semana passada não fica nada a dever aos momentos mais malignos de Karl Rove ou, para quem não localiza essa referência, ao feito por Collor em 1989.

Todos os links que se seguem remetem a afirmações feitas pela própria Hillary, pelo seu marido ou por líderes de sua equipe: Houve referências ao uso de drogas feito por Obama na adolescência, coisa que ele mesmo reconhece no seu livro. Houve chamadas telefônicas enfatizando o segundo nome de Obama, Hussein. Houve um spam que falsamente afirmava que Obama era muçulmano. Houve manipulação de uma afirmação absolutamente banal de Obama, de que os Republicanos haviam sido o “partido das idéias e das transformações” nos últimos tempos, o que é a pura verdade -- a manipulação tentava sugerir que ele considerava essas idéias e transformações algo positivo, coisa que ele nunca disse. Houve sutis tentativas de confinar Obama à condição de “candidato negro”, num ignóbil uso das tensões raciais tão americanas e, acima de tudo, tão sulistas. Houve mais racismo, na sugestão de que latinos não votariam num negro. Houve até mesmo uma tentativa de jogar com a ignorância dos eleitores sobre um procedimento absolutamente normal em várias casas legislativas americanas – votar “presente” ao invés de “sim” como estratégia de aprovação de uma lei – para sugerir que Obama não defende o direito ao aborto. Tudo isso para não falar na embaraçosa armação envolvendo um cartaz sexista (Iron my shirt) exibido por um radialista num comício de Hillary, "levantando a bola" para que ela falasse sobre machismo. O radialista levava adesivo de Hillary no carro e foi visto conversando com lideranças da campanha antes do incidente que, aliás, ocorreu uns poucos instantes depois de que Hillary pedisse mais luz na platéia. Feio demais.

Os eleitores da Carolina do Sul rejeitaram essa lama. Mas ainda é cedo para dizer que o favoritismo de Clinton foi abalado. Edwards já não tem chances, mas cumprirá um papel decisivo, dependendo de que atitude tome e como negocie seu considerável número de delegados. Estamos a 8 dias da Super Terça-Feira, em que 22 estados realizam primárias. Em pesquisas feitas dias atrás, Clinton liderava em quase todos eles (a exceção é Illinois, estado natal de Obama). O efeito do resultado contundente da Carolina do Sul já se fez sentir na nova pesquisa de Colorado, onde Obama virou o jogo. A Califórnia e Nova York, evidentemente, são chave, dada a quantidade de delegados que levam à convenção. Neste domingo, Obama recebeu um comovente endosso da Caroline Kennedy, filha de JFK. Seu tio Ted Kennedy, neutro até agora, deve anunciar seu apoio a Obama nas próximas horas.

Duas coisas, nesta campanha, são certas: os Democratas preferimos enfrentar qualquer candidato republicano que não seja John McCain. Os Republicanos adorariam enfrentar Hillary Clinton, que tem taxa de rejeição de 52% no começo da brincadeira e que conseguiu alienar tanta gente em seu próprio partido que milhares de ativistas já declararam que nela não votam de jeito nenhum.

PS 1: O Left Coaster, um blog que já foi bom, se pergunta (ver caixa de comentários): o que Hillary fez para ser tão odiada? Às vezes eu não sei se é ingenuidade ou se é má fé.

PS 2: A super terça-feira cai no carnaval e vocês aí no Brasil estão 4 horas na minha frente. Considerando isso, será que vale a pena fazer uma cobertura em tempo real, com o post sendo atualizado a cada 10 ou 15 minutos com informações novas, ou deixo para publicar um texto na madrugada, como de costume? Os primeiros números reais só começarão a sair às 23 h de Brasília.



  Escrito por Idelber às 03:25 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 21 de janeiro 2008

A reunião democrata em Nevada

No sábado, o Partido Democrata realizou o seu caucus em Nevada. O caucus é um tipo diferente de primária, na qual o voto não é secreto. Reúnem-se os eleitores em vários distritos e se formam grupos de apoio aos candidatos (reunião física mesmo: quem é Hillary pra cá, quem é Obama pra lá etc.). Depois de uma contagem inicial, os candidatos com menos de 15% são declarados “inviáveis” e seus apoiadores têm a possibilidade de escolher outro candidato ou largar a brincadeira. Enquanto isso, os líderes de cada grupo (chamados “capitães”) se dedicam a tentar levar os eleitores indecisos ou de candidatos inviáveis para seu grupo. Uma segunda contagem é feita. Define-se proporcionalmente o número de delegados daquele distrito. Como no caso da Wikipedia, a idéia é linda – não falta quem idealize isso como paradigma da democracia. Na prática, claro, a coisa é muito mais feia. E ficou bem feia em Nevada.

Em primeiro lugar, os números: mais de 115.000 eleitores participaram de reuniões democratas em Nevada. 2 de cada 3 eleitores do estado que participaram de um caucus escolheram o Partido Democrata. Não se trata exatamente de um estado azul: os dois últimos governadores são Republicanos e Bush venceu lá em 2000 e em 2004. Os números de sábado confirmam que os Democratas mais uma vez têm a faca e o queijo nas mãos. Concorrendo contra o desastre fiscal, político, diplomático e bélico de um dos governos mais impopulares da história, eles só não vencem se não quiserem. Isso não quer dizer que vencerão. Sua capacidade para produzir desastres é infinita. Posso estar errado, mas minha sensação é que vem mais um por aí.

Hillary Clinton venceu com 51%, Barack Obama teve 45% e John Edwards teve 4%. Foi uma derrota dura para os apoiadores do populista Edwards, que esperava ter algo em torno de 15 a 20%. Com a vitória, Hillary terá mais delegados de Nevada, correto? Errado. Devido à ausência de proporcionalidade na representação, no momento a estimativa é de que Obama tenha levado 13 delegados de Nevada, Hillary 12 (os votos de Hillary são fortemente concentrados em Clark County, onde fica Las Vegas; os de Obama são mais distribuídos). Isso significa que Nevada registrará, na convenção nacional, essa contagem de 13 x 12, correto? Não necessariamente. Os delegados serão definidos na convenção dos condados, em 19 de abril, e suas preferências podem mudar, num processo fortemente influenciado pela burocracia partidária.

Mas a história desse caucus, sem dúvida, foram as mais de 200 denúncias de fraudes e supressão de eleitores registradas contra a campanha de Hillary. Logo depois que o sindicato dos trabalhadores culinários (importante na região) declarou apoio a Obama, a Nevada State Education Association (com apoio explícito da campanha de Hillary, especialmente de Bill Clinton) entrou com uma ação judicial contra a abertura de caucus na região dos cassinos, o que facilitaria a participação dos trabalhadores de lá. A ação fracassou, mas ficou o gosto da tentativa de supressão de eleitores contrários, registrado por analistas de credibilidade. Nos próprios caucus, e limitando-me a linkar testemunhas oculares, algumas das irregularidades incluíram: fechamento de portas antes da hora, desaparição de cédulas, contagens fraudulentas e até deficientes físicos sendo arrastados contra sua vontade para o campo de apoiadores de Hillary (quanto à triste participação de um ex-presidente americano numa ação judicial que explicitamente tentava suprimir votos, até Edward Kennedy, neutro na disputa, chamou a atenção de Bill Clinton). Além disso, foram feitos milhares de telefonemas eletrônicos em Nevada -- não se sabe por ordem de quem -- que repetiam várias vezes o raramente usado segundo nome de Obama, Hussein.

Cresce em boa parte da base do Partido Democrata o sentimento – visível, por exemplo, em inúmeros diários do Daily Kos – de que caso aconteça o que se anuncia, ou seja, a vitória da candidata da máquina partidária, muitos eleitores democratas ficarão em casa ou optarão por um terceiro partido insignificante. Já ouvi de vários e várias, inclusive, a preferência por John McCain, caso ele seja o escolhido republicano. Alguns vêem nisso só uma conspiração da mídia para dividir os democratas, mas os indícios em contrário são bem conclusivos. Alguns outros dizem que tudo se cicatrizará depois da convenção. Pode ser, mas este é meu quinto engajamento em campanhas presidenciais americanas, e nunca vi tantos ativistas da base democrata -- muitos deles neutros na disputa ou apoiadores de candidatos menores -- tão enraivecidos com as táticas que estão sendo utilizadas.

PS: O homem voltou. Sim, voltou o MESTRE do CAPSLOCK



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (9)



quarta-feira, 16 de janeiro 2008

Kucinich e a democracia dos oligopólios televisivos

dnes.jpg São duas as grandes histórias do debate democrata ocorrido ontem à noite em Nevada. Sobre uma delas – o tom de cordialidade entre os candidatos e a explícita recusa de todos a colocar raça ou gênero no meio da discussão – você poderá ler na grande mídia. A outra, a subterrânea, dificilmente será noticiada por algum grande jornal com qualquer destaque: o recurso judicial impetrado pela NBC Universal Inc. para excluir Dennis Kucinich do debate. Tiveram que ir até a Suprema Corte do estado de Nevada para reverter uma decisão anterior em favor do único candidato de esquerda do campo democrata. Conseguiram.

A NBC havia sido forçada a convidar Kucinich em virtude das regras estabelecidas por ela própria anteriormente, que rezavam que o patamar mínimo para a inclusão era o quarto lugar nas pesquisas. O cálculo era claro: Bill Richardson, o bonachão e inofensivo governador do Novo México, mantinha naquele momento um sólido quarto lugar. Mas Richardson anunciou oficialmente no dia 10 de janeiro que abandonava a corrida, depois de resultados fracos em Iowa e New Hampshire. 44 horas depois de convidar Kucinich, a NBC cancelou o convite, anunciando que os critérios haviam sido "mudados".

Entre blogs democratas e analistas políticos na web, o comentário mais freqüente foi de que a presença de Kucinich provocaria o pânico de que fossem feitas perguntas sobre as denúncias de fraude em New Hampshire – Kucinich é o único candidato a ter pedido recontagem dos votos em NH, mesmo dizendo explicitamente que ele não esperava, com isso, nenhuma mudança significativa no seu próprio total de votos. Além disso, claro, está o pavor de escutar um candidato que diz claramente que os Estados Unidos não têm o direito de invadir um país que jamais os atacou. Excluído mais uma vez de um debate, Kucinich recorreu à justiça e ganhou. O Juiz Charles Thompson, do Distrito do Condado de Clark, determinou que a MSNBC deveria incluí-lo no debate.

E não é que a corporação televisiva recorreu à Suprema Corte estadual e conseguiu reverter a decisão? O debate foi realizado sem Kucinich, que se juntou a populares que protestavam do lado de fora. Dá muito o que pensar, realmente, todo esse esforço para silenciar um candidato cuja base de apoio anda pelos 4 ou 5%. Kucinich já havia sido excluído do debate da ABC em Iowa com um argumento curioso: sua campanha no estado não tinha funcionários pagos (a paid staff) ou uma sede alugada, sendo operada por voluntários num endereço residencial. Tudo isso, lembremo-nos, depois que Kucinich havia vencido o debate entre 8 candidatos democratas em agosto, segundo pesquisa da própria ABC, como mostra o quadro abaixo:

poll.jpg

É a democracia do dinheiro e dos oligopólios. O curioso é quando se denunciam estas coisas, sempre há alguém para afirmar que acreditamos em “teoria da conspiração.” Como se a política fosse outra coisa que o perene choque de conspirações opostas.


PS: Em Michigan, Hillary Clinton concorreu sem adversários (com a exceção de Kucinich). A tradição é que quando um candidato de projeção concorre sem opositores nas primárias de algum estado, costuma levar 90% dos votos. Em Michigan, quase metade dos eleitores democratas encarou a neve para votar em branco (uncommitted). Em alguns condados, o uncommitted venceu Hillary.

Atualização: a melhor análise das suspeitas de fraude em New Hampshire que vi até agora -- e ela é inconclusiva -- foi feita no Ars Technica.



  Escrito por Idelber às 03:36 | link para este post | Comentários (17)



domingo, 13 de janeiro 2008

Denúncias de fraudes nas primárias de New Hampshire

Depois das primárias de New Hampshire, começaram a pipocar, nos dois partidos, denúncias de fraudes relacionadas ao uso das famigeradas máquinas eleitorais Diebold.

No Partido Republicano, o candidato Ron Paul – o único que é crítico incondicional da guerra no Iraque – apareceu com zero votos no precinto distrito de Sutton. No dia seguinte, um apoiador de Ron Paul se apresentou e disse que ele e toda a família haviam votado no candidato, naquele mesmo distrito. Depois de confrontados com o fato, os responsáveis relataram que Paul havia recebido 31 votos em Sutton, que haviam sido deixados de fora das atas de votação por “erro humano”.

No Partido Democrata, ocorreu uma coisa curiosa: 81% dos eleitores votaram em distritos com máquinas eleitorais da Diebold. 19% votaram com cédulas de papel, contadas à mão. Onde houve votação eletrônica, Hillary Clinton venceu Obama por uma margem de 5%. Nos distritos com cédulas de papel, a vitória foi de Obama, por aproximadamente 4%; ou seja, uma diferença de 9%. Para quem quiser conferir os resultados, o link é este. Já vários dias depois das primárias, discussão segue por aí.

Nada foi provado, evidentemente. Mas a história das máquinas Diebold não inspira lá muita confiança.

(via Slashdot)



  Escrito por Idelber às 04:39 | link para este post | Comentários (18)



quarta-feira, 09 de janeiro 2008

Virada de Hillary

I will never underestimate Hillary Clinton again: a frase é de Chris Matthews, da MSNBC – uma espécie de Galvão Bueno do comentário político americano. Durante o dia de ontem, todos os sites e blogs ligados ao Partido Democrata, todos os principais canais de televisão e praticamente todos os institutos de pesquisa apontavam o mesmo cenário, uma vitória de Obama até por dois dígitos, com as primárias de New Hampshire funcionando como a coroação final. A última pesquisa da respeitada Zogby dava vitória de Obama por 13 pontos. Dentro da própria campanha de Hillary, ao longo do dia, falou-se, à boca pequena, de tentar evitar uma derrota humilhante. Líderes da campanha já confidenciavam a repórteres o desejo de pular fora. Nos comícios de Obama, havia gente saindo pelo ladrão. Parecia o Campeonato Brasileiro de 1977 ou as Copas do Mundo de 1954 ou 1982. A partida era uma formalidade. Faltou combinar com os russos, como diria Garrincha. Resultado final: Hillary 39%, Obama 37%.

Numa das surpresas mais impressionantes da memória recente, Hillary deu a volta por cima e embolou o jogo de novo. Mente quem disser que tem todas as explicações, mas aí vão alguns eventos que marcaram os últimos dias:

1.Numa entrevista transmitida nacionalmente anteontem, perguntaram a Hillary como ela agüentava o tranco. Já era o tipo de pergunta que se faz ao técnico que está perdendo o jogo por 3 x 0 no intervalo. Na resposta, ela esgasgou e chorou (veja o vídeo). A mídia deu um tremendo destaque à história. John Edwards cometeu o infantil erro de atacá-la pelo episódio, como se isso demonstrasse que ela não está “preparada”. O tiro saiu pela culatra.

2.Depois do episódio do choro, os jornais New York Post e Boston Globe publicaram manchetes bem sensacionalistas, com termos como “pânico”, “desabou”, “desespero”. Fizeram esdrúxulas comparações. O fato é que poucas figuras públicas na história da democracia americana já sofreram o abuso que Hillary sofreu nos últimos 15 anos – nas mãos da mídia e dos adversários. Nos últimos dois dias, a pancadaria chegou a níveis bem altos. A resposta veio nas urnas. Com certeza, algo de reativo houve no voto.

3.Durante o debate do último sábado, em vários momentos da polarização Barack Obama x Hillary Clinton, John Edwards se colocou ao lado daquele, apresentando-se a si próprio e a Obama como candidatos da mudança, contra Hillary, a candidata do “establishment”. A movida de Edwards era calculada: tirar Hillary da parada e reduzir a corrida a dois concorrentes, com esperança de que pudesse alcançar Obama na Carolina do Sul -- onde Edwards é bem forte. Mas o 2 contra 1 produziu a nítida impressão de um ataque coletivo a ela. Edwards foi o grande perdedor da noite: ficou nos 17%.

4.Algumas horas antes das primárias, Bill Clinton deu uma declaração – putíssimo, como poucas vezes já o vi – acusando a imprensa de entrar no oba-oba de Obama, de não questioná-lo, de aplicar um padrão duplo, de ser injusto com Hillary. Assistindo as principais redes de televisão americanas, é difícil não concordar com ele. Até mesmo eleitores que não estão apoiando Hillary se horrorizaram um pouco com os ataques e passaram a torcer por uma sobrevida da sua candidatura.

5.Quanto à demografia das primárias de New Hampshire, alguns elementos pesaram: 44% dos eleitores de NH estão registrados como independentes. É um número altíssimo. Isso significa que eles podem escolher se participam das primárias democratas ou republicanas. Obama é mais forte entre os independentes, Hillary entre os eleitores registrados como democratas. Com a expectativa de uma goleada de Obama, uma parcela alta dos independentes optou por participar da primária republicana. As mulheres compareceram em peso e totalizaram 56% do eleitorado.

Nada definido, pois. A brincadeira vai ficar muito interessante. Continua na semana que vem, em Nevada e Carolina do Sul. Termina na super terça-feira, dia 05, com umas duas dezenas de estados.

PS: Continua a conversa sobre a questão racial no post ali de baixo, acerca do livro de Risério.

PS 2: Inaugurado mais um belo projeto na Verbeat: Faça a sua parte, blog ecológico. Boa sorte e parabéns, pessoal.

PS 3: Outro golaço recente da Verbeat: ius communicatio, imperdível para quem se interessa por questões relacionadas ao direito.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 08 de janeiro 2008

Eleições americanas: um ABC

Está precisando de informação sobre as eleições americanas? Não sabe – a exemplo de Reinaldo Azevedo – o que Barack Obama pensa sobre a guerra do Iraque? Está sem paciência de ler programas políticos? O Biscoito oferece o ABC das eleições americanas em pílulas rápidas e indolores. É só imaginar que se trata de uma eleição para o grêmio estudantil. Vamos lá.

Hillary Clinton
: É a sabichona que se senta na primeira fila e só tira nota 10. Conhece melhor que qualquer um o funcionamento da escola. É a que mais terá elementos para negociar com a diretora, os professores e os funcionários. Mas por ser mulher e sabida, despertou a ira dos brutamontes da última fila. Tendo que demonstrar que é durona, foi aos poucos adotando as suas táticas. Resultado: metade quer esmagá-la por ser petulante, enquanto a outra metade suspeita que ela se transformou num dos brutamontes que a atormentavam. Perdeu a base que tinha e não foi aceita entre os verdugos.

Mitt Romney
: É o candidato da diretora. Com mais grana que todos os outros, é filho do prefeito, a quem a diretora deve favores. Tem toda a máquina a seu favor, mas precisamente por isso não consegue deslanchar, pois o grêmio não vai muito bem das pernas. Veste-se melhor que os demais, mas numa escola onde tantos andam com roupas rasgadas, isso começa a contar contra ele. Tem modos. Esbanja tanta elegância, contatos e dinheiro que sua substância – se é que a possui – já ficou perdida no meio dos assessórios.

Rudy Giuliani: É o zero à esquerda que um dia teve a fortuna de estar passeando à beira do lago enquanto uma garota se afogava. Teve a sorte de salvá-la, o que lhe rendeu fama. Deu o azar de que a eleição para o grêmio aconteceu anos depois do quase afogamento da garota. Se ela tivesse ocorrido logo depois, teria sido barbada. Como passou o seu momento, só consegue ficar repetindo: eu salvei a garota, eu salvei a garota.

John Edwards: É o bonitinho da sala, que conta, além do mais, com a fama de proteger os mais fracos contra os brutamontes que lhes roubam o lanche. Vive dessa fama. Seu problema é que os pirralhos vão crescendo e perdendo a memória da época em que apanhavam dos grandes. Se os sacos-de-pancadas compusessem 50% do alunado em condições de votar, sua eleição seria barbada. Mas entre os verdugos e as vítimas há uma vasta camada média com a qual ele tem dificuldade de se comunicar. Vive nesse dilema.

Mike Huckabee: É o pobretão que entrou com bolsa. Com jaqueta maior que seu talhe – provavelmente herdada do irmão --, ele inicialmente espanta os outros pela rudeza. Não sabe usar talheres, diz nóis foi ao invés de nós fomos e começa a cativar exatamente por isso. É daquele grupo de alunos comuns aos quais os candidatos a presidente do grêmio sempre apelam na hora do voto, e dos quais depois se esquecem. Desta vez, um deles resolveu pleitear candidatura, e justo na cabeça-de-chapa apoiada pela diretora que, obviamente, está em pânico.

Dennis Kucinich: É aquele que diz o que a maioria dos alunos quer ouvir – quando lhe permitem falar, claro. Nada de negociações escusas com a diretora, nada de tramóias com funcionários para prejudicar outros alunos, nada de puxa-saquismo aos professores. Parece bom demais para ser verdade, o que acaba sendo profecia auto-realizada. Uma parte dos alunos pensa que a maioria jamais votaria em alguém tão bom, e a outra parte pensa que mesmo se votassem, a diretora não permitiria sua posse. Vive nessa tragédia.

John McCain: É da turma da diretora, mas também com trânsito entre os alunos. Tem fama de razoável e ponderado. Aliás, é o único que circula em todos os bandos: entre os puxa-saco da diretora, os marginais, os CDF's, os desportistas e até os maconheiros. Todos o respeitam e lhe têm algum afeto, mas ninguém confia 100% nele. É oficialista demais para os da última fila, puxa-saco demais para os desportistas, certinho demais para os maconheiros e doidão demais para os CDFs. É mais ou menos como o América-RJ ou a Portuguesa-SP: o segundo time de todo mundo. No Rio Grande do Sul, por exemplo, não teria nenhuma chance. Mas como a chapa da diretora anda muito fraturada, pode acabar levando.

Barack Obama?
Esse é o aluno que vem de fora, com outra experiência. Alto, bonito, excelente orador, cativa as mulheres sem provocar ressentimento nos homens. Parece falar uma língua diferente. Ao ouvi-lo, os alunos começam a acreditar que as fraturas do grêmio serão, quem sabe, superadas. Tem o dom de fazer que as soluções pareçam mais fáceis do que pareciam antes. Até a diretora parece fascinada com ele. Parece ter algo em comum com todos: o conhecimento de Clinton, a autenticidade de Huckabee, a ponderação de McCain, a elegância de Romney, o quase heroísmo de Giuliani, os ideais louváveis de Edwards e Kucinich. Ou talvez não tenha nada disso. Se ganhar, pode provocar uma das transformações mais radicais da história do grêmio. Mas pode também causar um fracasso estrepitoso, levando a parca metade dos alunos que ainda participa do processo a terminar concordando com a outra metade na convicção de que votar nas eleições desse grêmio é, no fundo, uma grande bobagem.

Atualização: vale conferir também os excelentes perfis feitos pelo André Kenji: democratas e republicanos.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post | Comentários (80)