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terça-feira, 11 de março 2008
Clube de Leituras: The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappe
Aqui vai o convite para a próxima edição do Clube de Leituras. A partir do duro debate que ocorreu aqui na semana passada, eu e Pedro Dória nos unimos para patrocinar juntos uma conversa sobre uma obra capital: The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador israelense Ilan Pappe. Trata-se de uma reconstrução meticulosa dos eventos de 1948 na Palestina. Na verdade, Pappe volta até a década de 1920, na Europa e no Oriente Médio, para explicar as raízes da situação que se vive hoje.
Não se trata, nem de longe, de um texto “militante”. É o trabalho paciente de um historiador que dedicou décadas à tarefa. Pappe tem, em relação a outros historiadores que trataram do tema, algumas vantagens. Em primeiro lugar, ele lê árabe. Ou seja, teve condições de manejar fontes não só de seus compatriotas israelenses, mas também documentos produzidos por outras partes envolvidas no evento. Em segundo lugar, trata-se um profissional com formação em “história oral”, ramo da historiografia que é complexo e exige treinamento específico. Pappe se dedicou a rastrear fontes orais que contaram uma parte da história que jamais havia acedido, em tanto detalhe, ao registro escrito.
Pois bem, o Biscoito e o Pedro Dória os convidam para uma discussão sobre este livro no dia 05 de maio, 09 de junho segunda-feira. Evidentemente, o livro está em inglês. O que posso dizer é que o inglês de Pappe é cristalino, fácil de entender. A obra custa US$ 16.50 na Amazon, o que, com a queda do dólar, termina não sendo tão caro assim.
É claro que não é uma discussão fácil de se moderar. Sei dos riscos que estou correndo ao propô-la – a destruição, o fim puro e simples do Clube de Leituras é um deles. Mas acho que vale a pena corrê-los. A única regrinha é que tem que ler o livro. Pois bem, quem está disposto a investir trinta reais e algumas horas de leitura em inglês para participar dessa conversa? Vocês teriam quase dois três meses para fazer o pedido e a leitura. Quem se aponta? Há algum outro blogueiro que gostaria de nos ajudar a divulgar?
PS: O Odisséia Literária, do meu amigo Leandro Oliveira, está de belíssima casa nova.
Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post
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segunda-feira, 18 de fevereiro 2008
Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino
Publicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.
Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.
A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.
Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.
Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!
Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.
PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.
Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post
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quarta-feira, 30 de janeiro 2008
Preparando o papo sobre Suassuna
Aqui em Tulane, os doutorandos em literatura latino-americana andam mergulhados no mundo armorial. Tive uma grande surpresa na primeira aula sobre a Pedra do Reino, na quinta-feira passada. Ninguém achou a obra de Ariano Suassuna enfadonha ou longa demais. Passamos boa parte das duas horas e meia do seminário dando risadas com esse incrível delírio monárquico, revolucionário, sertanejo e medieval. Se você está em dúvida sobre se participa ou não do nosso papo sobre o romance no dia 18 de fevereiro, acredite: a obra vale a pena. Ainda dá tempo de começar a ler.
Há tanto material no romance de Suassuna que pensei em deixar também algumas possíveis pautas de leitura para orientar a conversa.
1.Sei que tenho alguns leitores em João Pessoa e em Campina Grande. Não me consta que tenha nenhum na fronteira sertaneja entre a Paraíba e Pernambuco. Mas quem sabe não operamos o milagre de ter algum depoimento sobre a região em que transcorre a história? Isso não é essencial para a compreensão do livro, óbvio. Mas seria divertido, mesmo porque, até onde pude averiguar, as referências são rigorosas e exatas. Portanto, paraibanos, apresentem-se!
2.Também são impecáveis, até onde confirmei, as referências intertextuais presentes na obra. São dezenas de citações de livros, revistas, folhetos, artigos. Por exemplo, realmente existiu um tal Antônio Attico de Souza e Leite, que deveras escreveu uma Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Vila Bela, Província de Pernambuco, em 1874, tal como referida no Folheto V, no começo do livro. Qualquer leitor que queira nos ajudar a rastrear parte dessa imensidão de referências terá a gratidão eterna do blog (e de futuras gerações de vestibulandos...).
3.Um dos eixos do livro é a persistência de uma cultura monárquica, messiânica e pré-moderna no sertão brasileiro. Quem quiser rastrear algo dessa história para a discussão também contribuirá muito.
4.A mescla de gêneros é um elemento chave da obra, como se nota na presença de uma série de “romances” em redondilhas maiores (versos de sete sílabas), forma tradicional na poesia popular, mas não só nela. Para quem se interessa pelo problema dos gêneros, o livro é um prato cheio. Poesia, teatro, epopéia, farsa, comédia, romance de cavalaria e uma longa lista de etecéteras: há de tudo.
5.O narrador-protagonista conta a história em 1938, da prisão, e seu relato regressa até o século XIX. O pano de fundo imediato dos eventos vividos por ele é a Revolução de 1930. Quem conhece bem a história do governo de João Pessoa terá muito a contribuir.
6. Eu vi a minisérie da Globo e, apesar de achá-la bem feita, não consegui me interessar muito. O humor foi para as cucuias, não é? Mas quem quiser trazê-la à baila, que fique à vontade.
Claro que é possível desfrutar o livro sem se preocupar com nada disso. Estas são só algumas idéias para ir esquentando os tamborins. Enquanto você se prepara, delicie-se com esse incrível vídeo de Ariano Suassuna (valeu, Serbão) e dê uma conferida nessa entrevista com ele, de onde tirei a foto que ilustra o post.
E aí, como vai a leitura? Temos sobreviventes?
Escrito por Idelber às 04:20 | link para este post
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quarta-feira, 03 de outubro 2007
Emma Zunz, de Borges
(Post do Clube de Leituras do Borges, sobre “Emma Zunz”. Quem não se animou a postar na última vez, que se anime: o conto está disponível não só no original, mas também em português. É uma das pérolas de Borges. Tendo escrito, avise, que eu ponho o link aqui. O post vai em espanhol porque é uma combinação com os alunos. A caixa de comentários está aberta, claro, para qualquer língua. Só não vale ficar se desculpando por “não estar preparado”, “não saber falar de literatura”, etc. A idéia é brincar, e que cada um diga do que gostou – ou não – e por quê).
Me encanta en "Emma Zunz" todo lo que no es “típicamente” borgeano. Casi no hay mujeres protagónicas en la obra de Borges -- aún "La intrusa", por ejemplo, es en realidad un relato sobre la relación entre dos hombres. Pero es como si Emma Zunz lo compensara en doble. Esta mujer, poderosa, trama una venganza con la minucia con la que Dupin, el detective de Poe, resolvería un crimen. Con la diferencia de que ella pone su inteligencia diabólica, claro, al servicio de la confección de un crimen perfecto, incastigable. Sólo puede hacerlo en su condición de mujer, por ser mujer. Aquí entra el segundo elemento está casi ausente en Borges, pero que se encuentra en el centro de este relato: el sexo.
El sexo es, en "Emma Zunz", lo que posibilita el asesinato perfecto. La frase “pensó que la etapa final sería menos horrible que la primera” -- ésta sí típica de Borges – ya le da al lector la medida de cuál papel se le asignará al sexo: inmundicia necesaria para la realización perfecta del plan, que incluye presentarse como “soplona” de una huelga para conseguir la cita com Lowenthal (el culpable de que su padre haya muerto como infame, bajo una falsa acusación de robo) y asesinarlo en supuesta legítima defensa, “confirmada” por las marcas del sexo con el marino en el puerto. Para subrayar la perfección del plan, el narrador nos avisa que Emma Zunz destruye el dinero recibido del marino (no sin arrepentirse después) y teje la coartada ficcional no por miedo al castigo, sino por saberse instrumento de la justicia. Miente, es cierto, pero, se nos sugiere, lo hace para decir una verdad más esencial. Son memorables las frases de cierre del relato: “La historia es increíble, en efecto, pero se impuso a todos, porque sustancialmente era cierta. Verdadero era el tono de Emma Zunz, verdadero el pudor, verdadero el odio. Verdadero también era el ultraje que había padecido; sólo eran falsas las circunstancias, la hora y uno o dos nombres propios”.
Borges sabe que la historia de Emma se “impuso a todos” no porque representaba un ultraje verdadero (por más que éste sí lo haya sido), sino porque era completamente verosímil como relato. La verdad del padecimiento de Emma, por supuesto, puede conferirle justicia a sus actos y a sus versiones de ellos, pero no puede conferirles verosimilitud. Ésta adviene de su perfección como trama, de la lógica de sus secuencias. Siempre me ha interesado esta escisión entre la verdad (lo que se conforma a los hechos, supuestamente) y la verosimilitud (lo que puede parecer que se conforma a los hechos, lo creíble, lo plausible). Me parece que “Emma Zunz” es, también, un relato sobre la diferencia entre lo verdadero y lo verosímil. Emma cuenta una mentira pero rescata con ella – nos lo dice el narrador en su conclusión -- una verdad más esencial, el nombre limpio de su padre. Su plan funciona, sin embargo, no porque su ultraje es merecedor de redención, sino porque la construcción narrativa de su venganza es impecablemente perfecta. La verdad "más esencial" es una pobre tributaria de una perfección meramente narrativa, literaria.
Hay mucho de que hablar en "Emma Zunz": el sustrato judío (emblematizado en el cambio de nombre de su padre), la extraña figura del sexo como liberación precisamente porque inmundo para uma mujer, las relaciones del cuento con la tradición del relato policial (sería interesante notar aquí paralelos y diferencias respecto a ella). Hay críticos, por ejemplo, que se han dedicado a ver cómo el cuento replica los movimientos del ajedrez. Hay otros que han propuesto lecturas psicoanalíticas. Entre la larga fortuna del relato, está también un corto metraje, sobre el cual me encantaría escuchar opiniones.
El blog te invita a que dejes, en cualquier lengua, tus impresiones sobre "Emma Zunz".
Outros posts sobre "Emma Zunz":
Biajoni
Bender
Alex Luna
Marcus
Carla
Ulisses Adirt
Capedonte
Hélder da Rocha
e Mary W
Não deixem de ler também o conto borgeano do Almirante.
Escrito por Idelber às 05:53 | link para este post
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terça-feira, 25 de setembro 2007
Mais um um papo sobre Borges
Deixemos marcado para a quarta-feira que vem, dia 03 de outubro, mais uma conversa entre vocês e meus alunos no Clube de Leituras do Borges, que tal? Para quem se anima a ler em espanhol, aí vão os links de novo: Ficciones e El aleph. Para os neófitos, não posso deixar de sugerir o excelente livro de Beatriz Sarlo sobre Borges.
Desta vez, com uma semana de antecedência, fica melhor avisado. Quem sabe até ela aparece por aí.
Na terça à noite, então, eu colocaria o post e ao longo da quarta bateríamos papo sobre Borges de novo. Se você tem preferência por algum conto, deixe aí o seu voto.
Escrito por Idelber às 18:35 | link para este post
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segunda-feira, 17 de setembro 2007
Loteria em Babilônia
(O post que se segue é um convite a uma discussão de "Loteria em Babilônia", de Jorge Luis Borges. Ele vai em espanhol porque os alunos vão passar por aqui. Mas os comentários de todos são bem vindos, claro. Leu “Loteria em Babilônia”, comente, relax, em qualquer língua: português, inglês ou espanhol)
El relato es simple: el narrador nos trae la historia de un insólito lugar, Babilonia, donde la lotería es la parte principal de la realidad . De origen plebeyo, la lotería agraciaba a sus ganadores, al principio, monedas de plata. “Naturalmente” esas loterías fracasaron porque “no se dirigían a todas las facultades del hombre”, sólo a la esperanza. El remedio para ese “natural” fracaso termina siendo la interporlación de algunos destinos adversos en el sorteo.
El leve peligro despierta el interés del público que, en vez de abonar las multas, ya pasa a escoger directamente el encarcelamiento que advenía de no pagarlas. Esa primera aparición en la lotería de elementos no pecuniarios es tratada por el narrador como punto clave en el proceso . Mientras tanto, en los “barrios bajos” una rebelión popular lograba que la Compañía responsable de la lotería “aceptara la suma del poder público”. Un rato después, lograban que la lotería fuera “secreta, gratuita y universal”. La insólita “Compañía” pasa a controlar toda la realidad, o por lo menos pasa a parecer poder estar haciéndolo a cualquier momento.
El narrador tiene prisa, dice que “la nave está por zarpar”. Está partiendo de un puerto que no sabemos cuál es. Justo le alcanza el tiempo para narrar el último estadio de la lotería: la transformación de toda la realidad en materia del azar. El sorteo de una muerte implica el sorteo del verdugo, del instrumento letal, de la fecha, en sucesión infinita –cualquier acto del azar produce infinitos otros, cualquier sorteo implica incontables otros, cualquier intervención de la Compañía demanda numerosas otras.
El resultado es que cualquiera puede estar ejecutando, “acaso, una secreta decisión de la Compañía”. Ese funcionamiento silencioso del aparato administrador de la lotería (y por lo tanto controlador de la realidad) es “comparable al de Dios” y le confiere al cuento su imagen final, hasta que el narrador, claro, nos recuerda que todo puede ser también un delirio imaginativo creado por la propria Compañía.
Como suele pasar con Borges, el cuento ha producido algunas lecturas que se repiten con unas pocas variaciones. De estas lecturas, dos me vienen a la memoria: una interpretación “filosófica” que lo toma como parábola acerca del azar, como relato acerca del intento de crear la contingencia absoluta (la indecidibilidad completa, el sorteo de todo) y de cómo tal intento termina en una maligna necesidad absoluta, en un Dios lotérico perfectamente tiránico. El segundo acercamiento toma algunos elementos del primero, pero trata de sacarle un sustrato político al cuento: con atención a la fecha de publicación del texto (1941), esa lectura observa el carácter de “Big Brother” de la Compañía lotérica y nota la rebelión “de los barrios bajos” por hacer la lotería “secreta, gratuita y universal” (palabras que, claro, tienen su historia política). A partir de allí esa interpretación subraya el resultado pesadillesco y distópico del impulso inicialmente utópico, egalitario.
Mucho se podría decir sobre estas dos posibilidades, pero las dejo por aquí. Hay, por supuesto, incontables otras lecturas. El blog los invita a compartir su experiencia con “Lotería en Babilonia”, en su lengua de predilección.
Posts relacionados:
Borges.
Reflexões sobre o conto.
Sobre um conto de Borges.
Literatura argentina: Biblioteca básica.
Cripta em duas partes.
Atualização. Também escreveram sobre o conto:
Alex Castro
Alex Tarrask.
Andre Bittencourt.
Milton Ribeiro.
Donizetti
Adriano.
Ulisses Adirt.
Bender.
Hermenauta.
Marcus Nunes ,
Hélder da Rocha
e.... Biajoni!
Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post
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sexta-feira, 14 de setembro 2007
Clube de Leituras: Borges
Umas duas gerações atrás fiz um post anunciando outra encarnação do clube de leituras, agora sobre Borges, num bate-bola com o curso de pós-graduação que estou oferecendo aqui em Tulane. Pois bem, se houver alguém por aí com interesse em discutir Borges, fique avisado que a brincadeira começa nesta segunda-feira com “Loteria em Babilônia”, conto que é parte do livro Ficciones, que está disponível na internet em espanhol.
Ao subir uma escada na noite de Natal de 1938, Borges quase arrebenta a cabeça numa janela aberta e passa algumas semanas de cama, com momentos de febre e delírio. Estava longe de ser um desconhecido: já havia escrito três volumes de poemas, cinco de ensaios e pilhas de resenhas de livros e filmes, além de ter reunido uma compilação de “causos” de criminosos. Mas, com a exceção do relato “Homem da esquina rosada”, não havia publicado contos. Em pânico com a possibilidade de ter perdido a capacidade de escrever, decide tentar o que nunca havia feito.
Segundo o raciocínio – típicamente borgeano --, se ele tentasse escrever um poema ou uma resenha e fracassasse, se sentiria completamente derrotado. Se, ao tentar um conto, não saísse nada, o fracasso não significaria tanto assim. Afinal de contas, tentara algo que nunca havia realizado. O fruto dessa tentativa foi “Pierre Menard, autor do Quixote”, conto que dá início à série de relatos pelos quais Borges se tornaria mundialmente conhecido. "Loteria em Babilônia" veio logo em seguida: foi publicado na revista Sur em janeiro de 1941.
Estamos começando a mergulhar nesses contos agora e deixamos o convite para que você se junte a nós na segunda-feira, com um papo sobre “Loteria em Babilônia”, esse relato tão insólito. Se quiser passar o fim de semana com Borges, é só baixar e ler.
PS: Obrigado à conterrânea e extraordinária blogueira Luiza Voll pela entrevista que me coloca em tão ilustre companhia.
Escrito por Idelber às 18:12 | link para este post
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sexta-feira, 25 de maio 2007
Borges
Estou preparando um curso sobre Borges. É mais ou menos como se um moleque de 13 anos, especialista em sorvetes, chegasse na Amor aos Pedaços, aí em Sampa, para escolher um sabor. São 14 semanas, com 2 horas e meia de contato em sala de aula por semana. Seria possível dedicar todo esse tempo a dois livros de Borges: Ficciones (1944 - cuja primeira metade saiu em 1941 como El jardín de los senderos que se bifurcan, volume depois completado em 1944 por Artificios) e El aleph (1949). Desses dois livros saem os grandes clássicos da contística borgeana: "Funes, o memorioso", "O jardim dos caminhos que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote", "Emma Zunz", "Três versões de Judas", "A morte e a bússola", "As ruínas circulares", "A biblioteca de Babel", "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Loteria de Babilônia", "O milagre secreto", "O aleph". Todos esses contos são paradas obrigatórias. Decidir de qual ponto de vista lê-los já é um exercício que pode tomar um tempo considerável, posto que essas duas dezenas de contos --- que a grande maioria dos leitores considera "a obra de Borges" -- geraram, e eu não exagero, algumas centenas de livros e alguns milhares de artigos dedicados a analisá-los.
Borges tem essa singularidade: é um minimalista enciclopédico. Jamais escreveu, eu acredito, nada que tivesse mais de dezesseis páginas. E gerou essas bibliotecas imensas, escrevendo, concisamente, sobre o infinito.
Neste curso eu decidi enveredar por outro caminho e examinar algumas coisas insólitas que escreveu Borges -- se você, leitor deste blog, quiser acompanhar, junte-se ao time. O curso rola da primeira semana de setembro a meados de dezembro. Para quem quer ler Borges a sério em português eu sugiro, claro, as Obras Completas em 4 volumes, da Globo, que são uma tradução integral das Obras Completas publicadas em espanhol pela Emecé. Ali tem 70% do que realmente importa.
O que significa que as Obras Completas de Borges não estão, obviamente, completas. A elas faltam: os três livros de ensaios curtos, juvenis, criollistas, populisto-nacionalistas que escreveu Borges nos anos 20: Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928). São fundamentais para entender o Borges que volta da Suiça depois da Primeira Guerra Mundial e integra-se à vanguarda poética do seu país, com um olho na ultra-modernidade européia e outro olho nas bombachas dos pampas (alô, Tiagón). Saíram reeditados em espanhol nos anos 90, são fáceis de encontrar. Que eu saiba, não existem em português.
Às Obras Completas também faltam, claro, todos os livros escritos em colaboração, compilados depois em Obras completas em colaboración, também inédita, que eu saiba, em português, apesar de que alguns dos volumes saíram, avulsos, em pindorâmico. Aqui, há dois destaques:
1) Borges, ah, Borges, escrevendo tantos livros em colaboração com mulheres sem nunca ter comido nenhuma. Ironia das mais incríveis, essa. Poupo-lhes a história de como Borges perdeu Norah Lange. É demasiado humilhante. Com outras mulheres escreveu O livro dos seres imaginários (1967 - com Margarita Guerrero, livro absurdamente indispensável, este sim, disponível em português), O que é o budismo (1977 - com Alicia Jurado), Breve antologia anglo-saxã (1978 - com María Kodama) e Introducción a la literatura inglesa (1965) e Literaturas germánicas medievales (1966), ambos com María Esther Vásquez.
2) os livros publicados com o pseudônimo de Bustos Domecq e escritos em parceria com seu amigo Adolfo Bioy Casares -- contos policiais pastichados, exacerbados ao limite da paródia. É aqui, com este pseudônimo, que Borges e Adolfito escrevem sua definitiva autópsia do peronismo, "La fiesta del monstruo", conto pouquíssimo conhecido fora da Argentina.
Aliás é o peronismo -- vocês sabiam disto? -- que transforma Borges de diretor da Biblioteca Nacional em inspetor de frangos. Não minto. É episódio pouco estudado, e o que mais me interessa descobrir é: o burocrata peronista que fez essa crueldade havia, com certeza, lido Borges. O gentleman portenho, claro, renunciou. Voltou ao cargo de diretor da Biblioteca Nacional depois, com a queda do peronismo.
As Obras Completas da Emecé -- e por conseguinte da Globo -- também não incluem a miríade de textos jornalísticos, de resenha, que Borges publicou no diário Crítica em 1933-34 (compilados num incrível livro, que inclui resenha de Borges sobre um brasileiro chamado Pedro Faria de Magalhães, alguém sabe quem é?) e os textos publicados por ele na legendária revista Sur, porta-voz da elite intelectual anti-esquerda da Argentina nos anos 1930-70.
Além disso, há os Textos recobrados, também inéditos em português, publicados em espanhol em três volumes -- crônicas, resenhas, colaborações a revistas, entrevistas, porque, como se sabe, no final de sua vida, Borges dava palpite em tudo, até em futebol e casamento, assuntos nos quais ele tinha zero experiência. Fora isto, está tudo nos quatro volumes das Obras completas da Globo aí no Brasil.
Os que mais insistiram pela volta do clube de leituras foram Meg, Alessandra, Milton e Bender. Para quem topar mergulhar em Borges, está aberto o convite. Diga lá o que você já leu e o que quer ler.
PS: quem é rei não perde a majestade.
PS 2: Sobre Borges: Mac Williams defendeu, mês passado, aqui em Tulane, sob minha orientaçao, uma brilhante tese que discute as complexas reinterpretações das várias religiões na obra de Borges. Mac, religioso (mormon) e eleitor de políticos conservadores (pelo menos até recentemente). Eu, ateu e xiita de esquerda. Poucas vezes um orientando e um orientador foram tão diferentes e se deram tão bem. Parabéns, Mac. Consulte-se, em breve, a tese de Mac na Internet.
Atualização: Ainda sobre Borges, veja-se este belo microconto do Almirante.
Escrito por Idelber às 05:07 | link para este post
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terça-feira, 07 de novembro 2006
Sobre Terras do sem fim
Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.
O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.
Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.
Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).
Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.
Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua "vocação histórica". Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.
Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.
PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).
Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post
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terça-feira, 31 de outubro 2006
Confirmando Jorge Amado

Segunda-feira vai rolar aqui uma conversa sobre Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Eu comecei a ler e já me envolvi. É curioso como isso acontece rapidamente com Jorge Amado.
No último post, Monix, Milton, Edk, Fefê, Vera, Carmen, Valéria, Isabela, Alessandra e mary w toparam a parada. Estão dentro mesmo, né? Alguém mais?
Sobre o Clube de Leituras do blog, um leitor uma vez disse que ficava sem jeito de escrever sobre literatura no blog de um professor de literatura. Fique não, viu? A idéia é brincar e trocar leituras, e não demonstrar erudição. Inclusive porque sobre Jorge Amado eu não sei porra nenhuma mesmo. De forma que estamos todos no mesmo barco.
Agora com licença que eu vou ali tomar umas biritas para festejar o niver (o meu, não o do blog - eu nasci no dia em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e John Keats, é mole?). Amanhã volto com um post decente sobre qualquer coisa, menos política.
Inté.
Escrito por Idelber às 20:34 | link para este post
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terça-feira, 17 de outubro 2006
Confirmando (ou não) discussão de Jorge Amado no Clube de Leituras

Pois bem, a discussão de Terras do Sem Fim aqui no Clube de Leituras está marcada para a próxima segunda-feira, dia 23 de outubro. Quem está lendo?
A minha situação aqui é a seguinte: ainda não comecei a ler. Esta é a semana em que corrijo trabalhos bimestrais nos cursos de graduação e de pós aqui em Tulane. Também é a semana em que meus orientandos no Ph.D estão preparando seus currículos e cartas para os concursos que começam em dezembro. Ou seja, estou atolado de trabalho. Mas se houver gente suficiente lendo, eu dou um jeito de encaixar a leitura do livro até segunda.
Se não houver gente suficiente lendo, melhor deixar para depois da eleição. O que me dizem? Quem está lendo, quem estaria pronto até segunda e quem estaria disposto a participar se a coisa for adiada, digamos, para o dia 06 de novembro?
Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post
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sexta-feira, 22 de setembro 2006
Clube de Leituras: Jorge Amado, Terras do Sem Fim
Sem desgrudar os olhos do pau que come na política, eu gostaria de voltar ao nosso Clube de Leituras. Após participar como observador da Feira Literária de Parati deste ano, eu fiz um post em que repensava minha relação com Jorge Amado, depois de passar anos replicando o julgamento negativo que a universidade fez de sua obra - por motivos que em outro momento podemos discutir. Nesse processo, senti vontade de relê-lo. Decidimos que o próximo romance a ser lido aqui no clube seria Terras do Sem Fim.
Devorei, junto com Ana, a deliciosa Navegação de Cabotagem, suas memórias. Divertimo-nos à beça com o relato de vida de Jorge: o homem foi testemunha de tudo quanto é evento importante do século XX. Ele reconstrói cada acontecimento com invejável humor, em rápidos parágrafos não organizados cronologicamente e legíveis em qualquer ordem. Depois disso, fiquei ainda mais animado para armar um papo sobre Terras do Sem Fim - romance que nunca li e que vem recomendado por um dos maiores estudiosos da obra de Jorge, o meu amigo Eduardo de Assis Duarte. Poderemos, eu acho, ter a honra da participação de Maria João Amado, neta de Jorge, que é blogueira.
Para quem não conhece, a brincadeirinha é a seguinte: marcamos uma data, lemos o livro, eu preparo um post e deixo rolar o debate. Já fizemos um bate-papo sobre Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, e uma entrevista com o autor. Depois, tivemos vários posts com discussões sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.
Acho que revisitar o humor e a picardia do velho Jorge seria um bom contrapeso nesta época de ânimos tão exaltados na política, não é mesmo? Pois bem, que tal segunda-feira, 23 de outubro, como data da primeira discussão? Teríamos um mês inteiro para ler o livro. Quem está dentro?
* A foto de Jorge foi tirada daqui.
** A outra ilustração é a capa de Terras do Sem Fim em russo. Eu acho.
Escrito por Idelber às 22:10 | link para este post
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segunda-feira, 28 de agosto 2006
Diadorim
O nome de batismo de Diadorim-Reinaldo, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, nascida num dia de “11 de setembro de éra de 1800 e tantos”, evoca muita coisa, mas chave mesmo é decompor “Deodorina”, teo + dorón, presente de Deus. Trata-se ali de um presente que Rio-baldo (baldo, segundo Aurélio: falto, falho, carecido, carente, sem naipe) não pode abrir, presente ao qual ele, portanto, não faz justiça, não dá fluência ou circulação, presente que ele não sabe receber.
O leitor em empatia com o narrador – o leitor que caiu no conto simpático do velhaco latifundiário Riobaldo que se justifica – com certeza objetará, e com razão, que Riobaldo amou Diadorim, amou-o verdadeiramente do jeito que lhe foi possível, no limite do que era concebível e aceitável numa sociedade homofóbica onde, afinal de contas, o nome de Deodorina era Reinaldo Aí, claro, entra a tragicidade do personagem Riobaldo, emblematizada no fato de que em sua essência verdadeira, mais profunda, interior ao vestuário, Diadorim era-lhe, sim, possível como objeto de amor que não perturbava suas tão queridas convenções sociais, já que biologicamente mulher.
Mas ser mulher não é uma opção possível para Deodorina numa sociedade onde ela |