Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email:
idelberavelar arroba gmail ponto com
No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




link-graphic-01-120x60.gif

 Decalogo do Blogueiro



selinho_idelba.jpg

Movable Type 3.36

quinta-feira, 18 de novembro 2010

Clube de Leituras (com Brasiliana): "As Academias de Sião", de Machado de Assis

Esta é uma edição do Clube de Leituras em parceria com o maravilhoso projeto Brasiliana USP Digital, onde recomendamos que leia "As Academias de Sião", de Machado de Assis. A única regra do Clube é a proibição ao pedido de desculpas por não ser especialista em literatura.


machado_de_assis.jpgAlguma tinta já foi gasta para elucubrar sobre se Borges teria ou não conhecido algum texto de Machado de Assis. Nessas matérias, costuma ser impossível ter certeza e, mesmo tendo-a, impossível determinar qual o grau de “influência” de um texto sobre o outro. Tendo sido Borges um sujeito que não escondia seus linques, tenho lá minhas dúvidas mas, em todo caso, é um exercício inútil. Independente disso, “As Academias de Sião” é um conto protoborgeano de Machado, não há dúvidas.

Academias” talvez seja o espécimen mais acabado do flerte de Machado com o fantástico em sentido estrito (Darlan Luna, em trabalho de doutorado para a UFF, conta dezesseis[pdf]). Ao contrário de variantes posteriores, mais presas a fórmulas, como o realismo mágico, no fantástico não há surpresas inverossímeis “maravilhando” o leitor. A suspensão da descrença ocorre de forma imediata, como nos contos de fadas (apesar de que há alusões a lugares “reais”, como Sião, que remete a Jerusalém *). Já na segunda frase de “Academias”, o leitor sabe que a verossimilhança realista está suspensa. É, literalmente, um mundo imaginário, como Tlön Uqbar, Orbis Tertius. Fantástico em estado puro, como teria apreciado Borges, que gostava dos gêneros reduzidos ao seu núcleo essencial.

Em “Academias”, no entanto, o mundo imaginário aparece para compor uma alegoria de algo que só aflora em Borges como denegação, espaço proibido, um não-tema: o gênero e o sexo. Em época de definições “científicas” tão fixas sobre o que eram o masculino e o feminino, Machado, sabiamente, prefere lidar com a caracterização deles em terreno fantástico, fabular: Kalaphangko é rei, homem, mas tem a alma feminina, definida como “olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas” (a alma masculina, por oposição a isso, não se sabe o que seja: o conto não nos diz, a não ser por pistas dadas depois da troca de almas). A guerra entre interpretações—seriam as almas dotadas ou não de masculinidade ou feminilidade, marcadas ou não em gênero, sexuadas ou não, neutras ou não—gera a guerra civil que leva à reorganização baseada na academia de sábios, uma espécie de gestora da Loteria da Babilônia que administra o consenso.

Só a bela Kinnara, mulher em alma masculina, aprova o terror pós-apocalíptico. Definida inicialmente (antes da troca de almas) como búfalo com penas de cisne, ela é o protótipo da mulher feminina fisicamente mas poderosa, viril, “masculina”, dominadora: consegue do rei da declaração de que a tese das almas não-sexuadas é herética, e restabelece-se a paz. Até aí, claro, poder-se-ia dizer que, apesar de almas estarem em corpos “trocados”, Machado trabalha, como aponta a Profa. Marta Cavalcante de Barros em sua tese (pdf, p.54 passim), com definições tradicionais, positivistas do que é o masculino e o feminino (como também notou Milton Ribeiro). Seria assim, claro, se a primeira parte não tivesse sido um componente do plano de Kinnara: a troca de almas.

********

Aqui, partimos para o transexual fantástico: a troca de almas que propõe Kinnara (aceita pelo Rei, por seis meses) é, na verdade, uma destroca, uma volta das almas ao ponto de reintegração com o corpo no qual estão alojadas, no qual sempre deveriam ter estado alojadas, uma reconciliação delas com sua essência, enfim. Lembrando Buoso e a cobra (em Dante), evocando Ovídio e Luceno (e suas metamorfoses), Machado nos conta a primeira providência tomada por Kalaphangko, agora rei com alma masculina, ou seja, a de Kinnara: conceder todas as honrarias à academia sexual. Junto com a centralidade da academia, o rei impõe ajuste fiscal, decapita inadimplentes, pensa em guerra.

O nome de Kinnara alude à amante por excelência nas mitologias budista e hindu, meio humana e meio cavalo (ou pássaro), que jamais procria. O troca-troca entre Kalaphangko e Kinnara, por sua parte, pode ser colocado em diálogo com uma infinidade de figuras andróginas ou transexuais, como Ardhanarishvara, uma das formas de Shiva ou, porque não, Oxumaré, o orixá de todos os ciclos, que é macho e é fêmea, e garante a unidade do mundo.

Mas enquanto nas cosmogonias há o fechamento na redondeza do ciclo (ainda que esse fechamento, pelo menos na cosmogonia yorubá, seja também mil aberturas), em Machado o ciclo se interrompe. A troca tem que acabar em seis meses e Kinnara está grávida, abrindo a enorme, complexa pergunta: o filho de um casal de almas coincidentes com sua essência sexual (homem masculino, mulher feminina) mas depois destrocados para o que era originalmente (homem feminino, mulher masculina) vai gerar exatamente o quê? Qual combinação de “essências” macho e fêmea pode se esperar aqui? Ainda é válido falar de “essências” macho e fêmea? O que seria um filho macho de um pai-ex-feminino-que-voltará-a-ser feminino e uma mãe-ex-masculina-que-voltará-a-ser-masculina?

Como sempre em Machado, o questionamento dos valores dominantes da época não se dá com a proposta de uma ordem alternativa, mas com emergência de uma cena em que todas as ordens parecem, literalmente, a mesma galhofa. Contra a fixidez do essencialismo de gênero, uma proliferação de combinações onde as essências iniciais já não sobrevivem intactas.

O desenlace do conto é conhecido: o rei chama os acadêmicos para resolver a pendenga gerada pela data de validade da troca. Para a estupefação do rei, os acadêmicos só fazem falar mal uns dos outros (só intelectual, nunca moralmente! que sirva de consolo...). Kalaphangko e Kinnara destrocam as almas, o príncipe é “restituído à forma anterior” e uma procissão dos acadêmicos passa, com seu slogan pretensioso, ante a descrença de Kinnara, que não entende como eles podem ser ao mesmo tempo a “claridade do mundo”, como diz seu hino, e uma multidão de camelos, como dizem eles mesmos uns dos outros.

O fechamento é Machado em estado puro, reforçando o caráter fantástico do conto: quem tiver soluções à dúvida de Kinnara, que mande cartas a “nosso cônsul em Xangai, China”.

Como a maioria da contística machadiana, "As Academias de Sião" abre vastas portas, e o dito aqui, e nos textos lincados, é uma pequena fração do que dá para elucubrar a partir desse notável sacolejo num conjunto de ideias recebidas sobre gênero e sexo. Leia lá e me diga o que achou, aqui ou em seu blog.

* Atualização: Além de remeter a Jerusalém, Sião também remete à Tailândia, o que havia me passado batido na releitura da madrugada, tendo me passado despercebida a menção a Bangkok no texto. Agradeço ao leitores que mo apontaram. Creio, no fundo, que é de pouca monta, dado o gênero do conto: a localização aqui não altera a dinâmica fantástica do texto. Mas pode haver controvérsias, inclusive porque ela pode alterar, sim, evidentemente a reverberação simbólica dos elementos do conto.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (38)



terça-feira, 16 de novembro 2010

Aviso

A quem passa por aqui para o Clube de Leituras, minhas desculpas. Por motivos vários, não foi possível fazer um texto decente para hoje. Adiemos a coisa por 24 horas, enquanto eu me preparo melhor, então. Vá lendo, ou relendo, "Academias de Sião". Dê mais uma passeada pelos maravilhosos arquivos da Brasiliana, e amanhã eu estarei pronto.

No meu Google Reader, no Twitter e, especialmente, no FormSpring, há muita coisa nova para se ler também.

Até amanhã, pois.


PS: Hoje, às 19:30 de Brasília, tem transmissão ao vivo da minha Twitcam. O tema é a recente onda homofóbica e xenofóbica no Brasil.



  Escrito por Idelber às 05:58 | link para este post | Comentários (14)



quinta-feira, 11 de novembro 2010

Clube de Leituras terça-feira, em parceria com Brasiliana USP

chernoviz_qd.gif


Os visitantes deste trotsko-atleticano blog estão convidados a uma reedição do tradicional Clube de Leituras, na próxima terça-feira. Um dos textos, imposto por centralismo democrático pelo Comitê Central dos bastidores biscoiteiros, é “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis incluído em Histórias sem data. Para fazer dobradinha com ele, qualquer outro texto, desde que você o encontre no baú infinito da Brasiliana USP.

Há algumas semanas, combinei com a turma que toca o projeto Brasiliana USP uma reedição do Clube que enviasse os leitores do Biscoito a esse extraordinário acervo digital montado pelos Profs. Pedro Puntoni, Maria Clara Paixão de Sousa, Carla Piazzi e equipe. É difícil escolher algo na Brasiliana. O acervo já digitalizou escritores clássicos, temas antológicos, obras raríssimas, livros pouco conhecidos de autores manjados, enfim, a Brasiliana é uma perdição.

Este post é só para abrir o debate sobre qual(is) seria(m) o(s) texto(s), de Machado ou não, mais indicado(s) para acompanhar "Academias de Sião" na próxima terça, e também para que você compartilhe links a pérolas encontradas no baú infinito da Brasiliana USP. Ficamos, então, de decidir-nos por mais um ou dois textos. Feita a escolha, eu coloco a atualização aqui no post. Na terça-feira nos reunimos para o tradicional bate-papo.


Atualização: Ficamos combinados com um único conto, "As Academias de Sião", de Machado de Assis, que dá pano para muitas mangas. Na madrugada de segunda para terça eu coloco o post aqui.



  Escrito por Idelber às 04:27 | link para este post | Comentários (18)



terça-feira, 31 de agosto 2010

Clube de Leituras: Rubem Fonseca e Roberto Bolaño

Este é um post do Clube de Leituras dedicado à discussão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e O Olho Silva, do chileno Roberto Bolaño. Caso você prefira ler o conto de Bolaño no original, em diagramação melhor, ele está disponível aqui. Vou escrever pouco, porque a ênfase é mesmo na conversa da caixa de comentários. A única regra do Clube é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.

********

Causou escândalo a publicação de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, em 1975. O livro chegou a ser proibido pela ditadura militar, não por motivos políticos, mas por “atentado à moral e aos bons costumes”. Fonseca inaugura uma tradição que teria longa história na literatura brasileira, estendendo-se até os dias de hoje. Não são poucos os ficcionistas (especialmente paulistanos e cariocas) que tomariam Fonseca como modelo para o retrato da violência urbana.

Em termos estilísticos, o conto apresentava certa novidade em relação às representações anteriores da violência. Desaparece o sóbrio narrador da antiga ficção realista, que descrevia os fatos a partir de uma posição distanciada. As frases são curtas, grosseiras, chulas. Já no início do relato, o texto nos instala no interior da reunião dos marginais que recebem as armas e preparam o assalto. Há que se notar a escolha do autor: em vez de narrar a partir do ponto de vista das vítimas (em cujo caso o conto se iniciaria, por exemplo, com a festa dos grã-finos, para depois passar ao choque provocado pela chegada dos assaltantes), Fonseca conscientemente escolhe o ponto de vista destes últimos. Ali se vê o ressentimento de classe, o machismo, a brutal distância que os separa do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul.

Outra marca característica da representação da violência que se inicia com Rubem Fonseca é que ela já não traz qualquer conteúdo socialmente redentor. Enquanto que em longa tradição anterior de literatura realista, a violência costumava estar associada a um projeto de transformação social, aqui ela é gratuita e irredimível. O emblema disso é a discussão entre os assaltantes, sobre se os corpos grudam ou não grudam na parede quando assassinados com metralhadora escopeta. A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda.

*******

roberto-bolano.jpg

Não sei a quantas anda a bolañomania no Brasil, mas ela vai se espalhando pelo mundo de língua inglesa com uma rapidez impressionante. "O Olho Silva" (do livro Putas Assassinas, de 2001) não é, em minha opinião, um de seus melhores contos, mas serve como introdução ao mundo de Bolaño: a melancolia dos jovens de esquerda que, nascidos na década de cinquenta, encararam nos anos setenta a derrota de seus projetos revolucionários. Bolaño é implacável com esse mundo. São temas recorrentes as idealizações retrospectivas do exílio, o egocentrismo e a mesquinharia, a vocação para a desgraça que parece acompanhar essa geração.

No entanto, Bolaño tampouco faz essa autópsia a partir de uma posição exterior. É nítida a empatia do narrador com o personagem que, em meio à homofobia da esquerda da época, demora um bom tempo para assumir sua homossexualidade. Os personagens de Bolaño perambulam pelo mundo (exatamente como seu autor, iconoclasta marginal que chegou a passar fome na Espanha) e vão tentando fazer sentido do que lhes ocorreu a partir de certas migalhas da experiência.

A castração de crianças na Índia aparece ao personagem como uma figura da fatalidade (O que aconteceu em seguida, de tão repisado, é vulgar: a violência da qual não podemos escapar. O destino dos latinoamericanos nascidos na década de cinquenta). O conto termina in media res, mas sugere que nada se alterará nesse ciclo de misérias ao qual os personagens parecem estar condenados. Parte da fascinação da literatura de Bolano advém, creio, do fato de que essa fatalidade não é representada em tintas naturalistas, ou seja, os personagens mantêm considerável iniciativa e individualidade. Mas ela não parece suficiente para reverter o movimento triturador da História.

Estes são meus dois centavos. O que acharam dos contos?



  Escrito por Idelber às 08:53 | link para este post | Comentários (88)



quarta-feira, 15 de julho 2009

Machado de Assis e a música: "O machete"

machado_de_assis.jpgO Machete foi, durante mais de um século, um conto praticamente desconhecido na fortuna crítica de Machado de Assis. Nos últimos anos, a partir de um trabalho de José Miguel Wisnik, da nova antologia editada por John Gledson e de umas tutameias que eu também andei fazendo, o relato ganhou certa circulação. Note-se a ironia de que este conto, que narra a dissolução de uma família, foi publicado ... no Jornal das Famílias! Não é genial? A data é 1878. Machado escolhe não incluí-lo em Papéis avulsos (1882) nem em qualquer outra de suas antologias. Por que, se o conto é danado de bom? É impossível saber, claro, mas gosto de brincar com a hipótese de que a representação debochada de um dos primeiros cornos de nossa prosa de ficção e a associação explicita da sexualidade com a música popular tenham feito dele um relato perturbador demais.

A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.

Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.

Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:

- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.

Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.

A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte. maxixe.JPG

Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.

Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.

Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.

Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.

Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.



PS: No Consenso só no Paredão, vai rolar hoje também a conversa sobre Extinção, de Paulo Arantes.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



terça-feira, 14 de julho 2009

Clube de Leituras: "O Machete", de Machado de Assis

'Bora fazer outra edição do Clube de Leituras? Então vamos. A proposta é que vocês leiam nas próximas 24 horas um conto genial de Machado de Assis. Trata-se de “O Machete”, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1878, e jamais compilado por Machado em livro. O relato só viria a ser republicado muito tempo depois. Ele está, claro, disponível na internet. Se você prefere o formato pdf, clique aqui. Se prefere ler em html mesmo, clique aqui.

Não quero adiantar muita coisa sobre o conto, mas trata-se de uma das primeiras reflexões sobre a música popular do Rio de Janeiro na era de surgimento e consolidação do então demonizado maxixe. A discussão será sobre “O Machete”, mas há outro conto de Machado que pode iluminá-lo consideravelmente. É o clássico “Um homem célebre”, que também está disponível em pdf ou em html.

Para preparar a discussão, você pode consultar um post do Biscoito: Machado de Assis e a invenção do pop. Eu fiz também um trabalhinho acadêmico (pdf) sobre Machado e a música, que não faz muita falta ler agora, já que o post de amanhã será, em grande medida, baseado nele.

Então, temos quorum para uma conversa sobre Machado de Assis e a música amanhã? Quem se alista?



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 04 de junho 2009

"Amor", de Clarice Lispector e "I love my husband", de Nélida Piñon

clarice.jpgClarice Lispector, invariavelmente, construía histórias em que um personagem prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Esses relatos costumam ter uma estrutura que se repete de livro para livro. Em primeiro lugar, há uma descrição do embrutecimento do mundo; depois, o acontecer inexplicável da cintilação, aquilo que, a partir de James Joyce, convencionamos chamar de epifania; finalmente, uma restauração estranha, distanciada da ordem embrutecida. Até aí, não há nada de muito novo. De certa forma, poderíamos dizer que toda literatura narra isso mesmo: ordem / ruptura da ordem / recomposição da ordem. O que é (o) “Amor” senão isso?

De onde, então, a fascinação por Clarice?

Há um momento na trajetória de Clarice, ali pelos anos 50, no período de composição do livro Laços de família (antologia na qual se publica o relato “Amor”), em que a ordem passa a ser inequivocamente associada à vida de uma mulher de classe média. É assim em A Paixão segundo G. H., em Feliz Aniversário, em “Amor”. Reparem no cuidado com que o narrador se refere ao apartamento que estavam aos poucos pagando. A ruptura dessa ordem, também nesse período, começa a ser representada pela emergência abrupta de um ser estranho a ela. Em A paixão segundo G. H., é a famosa barata. Em “Amor”, um cego mascando chiclete. A relação entre a ordem e a personagem não é simples de se definir. Não se trata de uma ordem imposta a ela, como se ela fosse uma mera marionete passiva. Mas tampouco se trata de uma ordem construída teleologicamente, a partir de um plano sobre o qual a personagem tivesse total controle: viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.

Não sei se isso fica visível numa primeira leitura, mas todo o conto está construído a partir de oximoros: felicidade insuportável, tranquila vibração, náusea doce, bondade dolorosa e por aí vai. Os adjetivos não casam com os substantivos. Esses estranhamentos com a linguagem, situações em que as palavras parecem brigar umas com as outras, são uma das marcas registradas de Clarice. Acometem suas personagens e, particularmente, as mulheres. Submetidas a uma ordem claramente patriarcal, as mulheres de Clarice nunca são militantes revolucionárias em confronto com essa ordem. Elas são sujeitos de um acontecimento no sentido forte do termo: um evento que rearranja toda a ordem, assim como o lugar da mulher em seu interior. A ordem continua lá, mas tudo se transformou: alguma coisa tranquila se rebentara, afinal ela atravessara o amor e o seu inferno.

Já perdi a conta de quantas vezes lecionei, em cursos de graduação, o texto de Clarice em contraponto com o relato de Nélida Piñon, I love my husband. Em geral, situo estas duas histórias no meio do semestre, num momento em que já conheço meus alunos. Gosto de fazer uma brincadeira secreta, comigo mesmo, tentando adivinhar quem vai gostar de qual conto. Praticamente ninguém gosta dos dois ao mesmo tempo. Quase ninguém desgosta dos dois (lembrem-se que meus alunos de graduação são todos norte-americanos; para a pós, vem gente de tudo quanto é canto, mas para a graduação, não). Esse estranho parentesco e aparente incompatibilidade entre os dois relatos sempre me intrigou.

Deixo para vocês as elucubrações sobre “I love my husband”, sobre as mil e uma outras coisas que podem ser ditas sobre o texto de Clarice, e sobre as várias aproximações e contrastes possíveis entre os dois contos.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (53)



quarta-feira, 03 de junho 2009

Clube de Leituras, com Clarice e Nélida

clispector.jpg A edição da semana passada do Clube de Leituras, dedicada a Caio Fernando Abreu, foi dos meus momentos favoritos em toda a história do blog. O Clube, que já discutiu calhamaços como Grande Sertão: Veredas e Romance da Pedra do Reino, passará agora a privilegiar textos breves. Eles permitem que nos reunamos praticamente sem aviso prévio e alcancemos muito mais gente. Minha proposta é que passemos a quinta-feira conversando sobre Clarice Lispector e Nélida Piñon.

Convido-os, pois, a que voltem aqui dentro de 24 horas tendo lido dois textos: Amor, de Clarice Lispector, e I love my husband, de Nélida Piñon. Ao concluir a leitura, você perceberá por que eles vão juntos. Possuem um nítido parentesco temático e são, ao mesmo tempo, bem diferentes do ponto de vista literário. São textos que eu leciono com certa frequência. Na graduação, especialmente, provocam reações bem diversificadas.

Como sempre, links a comentários, estudos e entrevistas são bem-vindos nesta fase preparatória. Recordo-lhes que se o site Releituras cair de novo, os textos ainda estarão disponíveis no cache do Google, aqui e aqui. Na madrugada de quarta para quinta, então, eu colocaria um post sobre os dois contos.

Temos quorum? Quem topa?



PS: Graças à cortesia de Alexandre Inagaki, minha entrevista à TV Assembléia-MG sobre o AI-5 digital já está disponível na rede.



  Escrito por Idelber às 05:37 | link para este post | Comentários (29)



quinta-feira, 28 de maio 2009

Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgEsta é uma reunião do Clube de Leituras do Biscoito, que já discutiu obras de Ariano Suassuna, Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Martín Kohan e Guimarães Rosa. O Clube tem uma única regra: é proibido pedir desculpas por não ser especialista ou doutor em literatura. A ideia é ter uma conversa tranquila, leve, solta. O meu post nunca é uma análise exaustiva da obra. É só um pontapé inicial. Comente o que quiser sobre o texto, respondendo ou não ao post (não quero ser pretensioso ao ponto de achar que derrubei o site Releituras com meu link, mas o fato é que ele não está abrindo; se ainda não leu o conto, leia-o no cache do Google).



Como é comum na grande literatura, Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, pode ser reduzido a um argumento banal. Dois homens, Raul e Saul, vêm de relações frustradas com mulheres. Eles conseguem empregos numa mesma repartição. São discretos e chamam a atenção por sua beleza e elegância. Têm em comum a paixão pelo cinema, que pouco a pouco os aproxima. Tudo acontece lentamente, apesar da brevidade do conto. O narrador nos diz que “durou tempo” o longo prólogo composto de cumprimentos casuais e trocas de cigarros. Um dia, Saul relata que chegara atrasado por culpa de um filme. Tratava-se de The Children's Hour, que narra a história do inferno vivido por duas mulheres acusadas de serem lésbicas. Como sempre na grande literatura, o intertexto não é casual.

A amizade vai se consolidando. Começam a desejar que os fins de semana passem rapidamente. Ficam juntos nas festas. Compartilham boleros. Por fim, trocam telefones. O conto é breve, mas a lentidão com que se arrasta tudo é enlouquecedora. Quando é que esses dois vão trepar, meu Deus do céu? Morre a mãe de Raul – sempre, sempre a mãe -- e Saul perde as estribeiras. Na única vez em que dormem juntos, limitam-se a olhar a brasa dos cigarros que acende o outro. No dia em que chegam juntos à repartição, as mulheres já não os cumprimentam. Este elemento é chave para o conto: não acontece nada sexual entre eles

Quando voltam das férias, os dois são chamados pelo chefe. Um anônimo lhe havia enviado cartas com termos como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio". São despedidos. Enquanto eles entram num táxi, o narrador nos diz que "ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram".

Ao contrário de boa parte da literatura norteamericana considerada “gay”, a ficção de Caio não narra a saída do armário ou a marcha militante na luta contra o preconceito. Não há nada retumbante e heroico. Fundamental, nesse conto, é o fato de que não sabemos se são gays ou não. Na realidade, é impossível saber, não importa. Eles mesmos não sabem. Une-os um afeto que ainda não tem nome. Sutil, a literatura de Caio trabalha nessas zonas de indeterminação.

O escritor argentino Ricardo Piglia defende a tese de que um conto sempre narra duas histórias. As diferenças entre as várias vertentes da narrativa moderna dependeriam das diversas possibilidades de se relacionar a história 1 com a história 2. Aqui temos a história do afeto homoerótico entre Raul e Saul e a história do pânico homofóbico dos colegas. Qual é a grande originalidade de Caio? Dissociar completamente a história 2 da história 1. Em outras palavras: não é a existência de “dois gays” no ambiente de trabalho o que desata o pânico homofóbico. Talvez, inclusive, a presença de dois gays assumidos não provocasse tal terremoto. O que enlouquece a estrutura heteronormativa é que não se sabe qual é mesmo a relação entre os dois. A ironia adicional do conto, claro, é que os dois tampouco sabem qual é a natureza do afeto que os une. Estão descobrindo. Mas o pânico homofóbico não permite que a descoberta se realize na repartição. Terão realizá-la em outro lugar.

Hipótese de leitura, então: o mais assustador para a estrutura social que administra a sexualidade heteronormativa não é a existência de gays e lésbicas, com práticas não sancionadas pelo modelo dominante. Isso também, claro. Mas o que realmente sacode as estruturas é a crise da linha divisória supostamente clara que separaria hetero- e homoerotismo. O que enlouquece a repartição é que eles não são capazes de catalogá-los.

Gosto muito, muito mesmo das frases finais do conto. Convido-os a que reflitam sobre elas. Tudo nesse relato é significativo: os títulos das canções que compartilham, o nome do gato sabiá*, o filme que os une, os nomes dos personagens. Convido-os a interpretar esses elementos. Convido-os também, claro, a discordar de minha interpretação ou a oferecer outras possíveis -- ou simplesmente dizer qual foi a sensação de ler o conto. Não há melhor homenagem a um grande autor que a proliferação de leituras diferentes e contraditórias.

Viva Caio.


*Crédito a quem corrigiu o meu inexplicável erro de transformar sabiá em gato: Milton Ribeiro.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (192)



terça-feira, 26 de maio 2009

Clube de Leituras: Um papo sobre Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgGostaria de convidar os leitores do blog para, dentro de 36 horas, iniciar mais uma edição do Clube de Leituras. Desta vez vamos fazê-lo sem grandes preparações, porque não será um romance e sim um brevíssimo conto. Eu me arriscaria a dizer que se trata do meu conto favorito em toda a literatura brasileira contemporânea, entendendo-se “contemporânea”, digamos, como o pós-Guimarães Rosa. Há nesse conto uma perfeição, um esmero, um certo equilíbrio entre o dito e o não dito.

Escrito pelo gaúcho Caio Fernando Abreu e publicado no livro Morangos mofados (Brasiliense, 1982), o relato Aqueles Dois está no centro do projeto de pesquisa que começo a desenvolver sobre a masculinidade na prosa de ficção. Eu gostaria de testar aqui algumas hipóteses de leitura e receber críticas e sugestões. Os interlocutores, evidentemente, serão creditados quando eu publicar o livro.

O plano seria, então, o seguinte: vocês leem essa maravilha. Na madrugada de quarta para quinta, eu publico uma breve reflexão sobre o relato de Caio e passamos o dia conversando. Assim, aproveitamos e nos desintoxicamos um pouco da política – o que não quer dizer que o conto de Caio não seja também político. Do que há por aí sobre Caio na internet, eu gosto muito desse depoimento (notem a participação dele no Roda Viva).

Fiquem à vontade para usar esta caixa de comentários e compartilhar outros links acerca do escritor gaúcho ou as primeiras impressões que tiveram lendo o texto. Mais não digo, para não influenciar sua leitura. Na quinta-feira conversamos.

Quem se anima?



  Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post | Comentários (50)



terça-feira, 11 de março 2008

Clube de Leituras: The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappe

pap%3Dcle.jpg Aqui vai o convite para a próxima edição do Clube de Leituras. A partir do duro debate que ocorreu aqui na semana passada, eu e Pedro Dória nos unimos para patrocinar juntos uma conversa sobre uma obra capital: The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador israelense Ilan Pappe. Trata-se de uma reconstrução meticulosa dos eventos de 1948 na Palestina. Na verdade, Pappe volta até a década de 1920, na Europa e no Oriente Médio, para explicar as raízes da situação que se vive hoje.

Não se trata, nem de longe, de um texto “militante”. É o trabalho paciente de um historiador que dedicou décadas à tarefa. Pappe tem, em relação a outros historiadores que trataram do tema, algumas vantagens. Em primeiro lugar, ele lê árabe. Ou seja, teve condições de manejar fontes não só de seus compatriotas israelenses, mas também documentos produzidos por outras partes envolvidas no evento. Em segundo lugar, trata-se um profissional com formação em “história oral”, ramo da historiografia que é complexo e exige treinamento específico. Pappe se dedicou a rastrear fontes orais que contaram uma parte da história que jamais havia acedido, em tanto detalhe, ao registro escrito.

Pois bem, o Biscoito e o Pedro Dória os convidam para uma discussão sobre este livro no dia 05 de maio, 09 de junho segunda-feira. Evidentemente, o livro está em inglês. O que posso dizer é que o inglês de Pappe é cristalino, fácil de entender. A obra custa US$ 16.50 na Amazon, o que, com a queda do dólar, termina não sendo tão caro assim.

É claro que não é uma discussão fácil de se moderar. Sei dos riscos que estou correndo ao propô-la – a destruição, o fim puro e simples do Clube de Leituras é um deles. Mas acho que vale a pena corrê-los. A única regrinha é que tem que ler o livro. Pois bem, quem está disposto a investir trinta reais e algumas horas de leitura em inglês para participar dessa conversa? Vocês teriam quase dois três meses para fazer o pedido e a leitura. Quem se aponta? Há algum outro blogueiro que gostaria de nos ajudar a divulgar?

PS: O Odisséia Literária, do meu amigo Leandro Oliveira, está de belíssima casa nova.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (48)



segunda-feira, 18 de fevereiro 2008

Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino

p-rein.jpgPublicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.

Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.

A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.

Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.

Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!

Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.

PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (41)



quarta-feira, 30 de janeiro 2008

Preparando o papo sobre Suassuna

suss.jpgAqui em Tulane, os doutorandos em literatura latino-americana andam mergulhados no mundo armorial. Tive uma grande surpresa na primeira aula sobre a Pedra do Reino, na quinta-feira passada. Ninguém achou a obra de Ariano Suassuna enfadonha ou longa demais. Passamos boa parte das duas horas e meia do seminário dando risadas com esse incrível delírio monárquico, revolucionário, sertanejo e medieval. Se você está em dúvida sobre se participa ou não do nosso papo sobre o romance no dia 18 de fevereiro, acredite: a obra vale a pena. Ainda dá tempo de começar a ler.

Há tanto material no romance de Suassuna que pensei em deixar também algumas possíveis pautas de leitura para orientar a conversa.

1.Sei que tenho alguns leitores em João Pessoa e em Campina Grande. Não me consta que tenha nenhum na fronteira sertaneja entre a Paraíba e Pernambuco. Mas quem sabe não operamos o milagre de ter algum depoimento sobre a região em que transcorre a história? Isso não é essencial para a compreensão do livro, óbvio. Mas seria divertido, mesmo porque, até onde pude averiguar, as referências são rigorosas e exatas. Portanto, paraibanos, apresentem-se!

2.Também são impecáveis, até onde confirmei, as referências intertextuais presentes na obra. São dezenas de citações de livros, revistas, folhetos, artigos. Por exemplo, realmente existiu um tal Antônio Attico de Souza e Leite, que deveras escreveu uma Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Vila Bela, Província de Pernambuco, em 1874, tal como referida no Folheto V, no começo do livro. Qualquer leitor que queira nos ajudar a rastrear parte dessa imensidão de referências terá a gratidão eterna do blog (e de futuras gerações de vestibulandos...).

3.Um dos eixos do livro é a persistência de uma cultura monárquica, messiânica e pré-moderna no sertão brasileiro. Quem quiser rastrear algo dessa história para a discussão também contribuirá muito.

4.A mescla de gêneros é um elemento chave da obra, como se nota na presença de uma série de “romances” em redondilhas maiores (versos de sete sílabas), forma tradicional na poesia popular, mas não só nela. Para quem se interessa pelo problema dos gêneros, o livro é um prato cheio. Poesia, teatro, epopéia, farsa, comédia, romance de cavalaria e uma longa lista de etecéteras: há de tudo.

5.O narrador-protagonista conta a história em 1938, da prisão, e seu relato regressa até o século XIX. O pano de fundo imediato dos eventos vividos por ele é a Revolução de 1930. Quem conhece bem a história do governo de João Pessoa terá muito a contribuir.

6. Eu vi a minisérie da Globo e, apesar de achá-la bem feita, não consegui me interessar muito. O humor foi para as cucuias, não é? Mas quem quiser trazê-la à baila, que fique à vontade.

Claro que é possível desfrutar o livro sem se preocupar com nada disso. Estas são só algumas idéias para ir esquentando os tamborins. Enquanto você se prepara, delicie-se com esse incrível vídeo de Ariano Suassuna (valeu, Serbão) e dê uma conferida nessa entrevista com ele, de onde tirei a foto que ilustra o post.

E aí, como vai a leitura? Temos sobreviventes?



  Escrito por Idelber às 04:20 | link para este post | Comentários (43)



quarta-feira, 03 de outubro 2007

Emma Zunz, de Borges

borges2.jpg (Post do Clube de Leituras do Borges, sobre “Emma Zunz”. Quem não se animou a postar na última vez, que se anime: o conto está disponível não só no original, mas também em português. É uma das pérolas de Borges. Tendo escrito, avise, que eu ponho o link aqui. O post vai em espanhol porque é uma combinação com os alunos. A caixa de comentários está aberta, claro, para qualquer língua. Só não vale ficar se desculpando por “não estar preparado”, “não saber falar de literatura”, etc. A idéia é brincar, e que cada um diga do que gostou – ou não – e por quê).


Me encanta en "Emma Zunz" todo lo que no es “típicamente” borgeano. Casi no hay mujeres protagónicas en la obra de Borges -- aún "La intrusa", por ejemplo, es en realidad un relato sobre la relación entre dos hombres. Pero es como si Emma Zunz lo compensara en doble. Esta mujer, poderosa, trama una venganza con la minucia con la que Dupin, el detective de Poe, resolvería un crimen. Con la diferencia de que ella pone su inteligencia diabólica, claro, al servicio de la confección de un crimen perfecto, incastigable. Sólo puede hacerlo en su condición de mujer, por ser mujer. Aquí entra el segundo elemento está casi ausente en Borges, pero que se encuentra en el centro de este relato: el sexo.

El sexo es, en "Emma Zunz", lo que posibilita el asesinato perfecto. La frase “pensó que la etapa final sería menos horrible que la primera” -- ésta sí típica de Borges – ya le da al lector la medida de cuál papel se le asignará al sexo: inmundicia necesaria para la realización perfecta del plan, que incluye presentarse como “soplona” de una huelga para conseguir la cita com Lowenthal (el culpable de que su padre haya muerto como infame, bajo una falsa acusación de robo) y asesinarlo en supuesta legítima defensa, “confirmada” por las marcas del sexo con el marino en el puerto. Para subrayar la perfección del plan, el narrador nos avisa que Emma Zunz destruye el dinero recibido del marino (no sin arrepentirse después) y teje la coartada ficcional no por miedo al castigo, sino por saberse instrumento de la justicia. Miente, es cierto, pero, se nos sugiere, lo hace para decir una verdad más esencial. Son memorables las frases de cierre del relato: “La historia es increíble, en efecto, pero se impuso a todos, porque sustancialmente era cierta. Verdadero era el tono de Emma Zunz, verdadero el pudor, verdadero el odio. Verdadero también era el ultraje que había padecido; sólo eran falsas las circunstancias, la hora y uno o dos nombres propios”.

Borges sabe que la historia de Emma se “impuso a todos” no porque representaba un ultraje verdadero (por más que éste sí lo haya sido), sino porque era completamente verosímil como relato. La verdad del padecimiento de Emma, por supuesto, puede conferirle justicia a sus actos y a sus versiones de ellos, pero no puede conferirles verosimilitud. Ésta adviene de su perfección como trama, de la lógica de sus secuencias. Siempre me ha interesado esta escisión entre la verdad (lo que se conforma a los hechos, supuestamente) y la verosimilitud (lo que puede parecer que se conforma a los hechos, lo creíble, lo plausible). Me parece que “Emma Zunz” es, también, un relato sobre la diferencia entre lo verdadero y lo verosímil. Emma cuenta una mentira pero rescata con ella – nos lo dice el narrador en su conclusión -- una verdad más esencial, el nombre limpio de su padre. Su plan funciona, sin embargo, no porque su ultraje es merecedor de redención, sino porque la construcción narrativa de su venganza es impecablemente perfecta. La verdad "más esencial" es una pobre tributaria de una perfección meramente narrativa, literaria.

Hay mucho de que hablar en "Emma Zunz": el sustrato judío (emblematizado en el cambio de nombre de su padre), la extraña figura del sexo como liberación precisamente porque inmundo para uma mujer, las relaciones del cuento con la tradición del relato policial (sería interesante notar aquí paralelos y diferencias respecto a ella). Hay críticos, por ejemplo, que se han dedicado a ver cómo el cuento replica los movimientos del ajedrez. Hay otros que han propuesto lecturas psicoanalíticas. Entre la larga fortuna del relato, está también un corto metraje, sobre el cual me encantaría escuchar opiniones.

El blog te invita a que dejes, en cualquier lengua, tus impresiones sobre "Emma Zunz".

Outros posts sobre "Emma Zunz":
Biajoni
Bender
Alex Luna
Marcus
Carla
Ulisses Adirt
Capedonte
Hélder da Rocha
e Mary W

Não deixem de ler também o conto borgeano do Almirante.



  Escrito por Idelber às 05:53 | link para este post | Comentários (94)



terça-feira, 25 de setembro 2007

Mais um um papo sobre Borges

Deixemos marcado para a quarta-feira que vem, dia 03 de outubro, mais uma conversa entre vocês e meus alunos no Clube de Leituras do Borges, que tal? Para quem se anima a ler em espanhol, aí vão os links de novo: Ficciones e El aleph. Para os neófitos, não posso deixar de sugerir o excelente livro de Beatriz Sarlo sobre Borges.

Desta vez, com uma semana de antecedência, fica melhor avisado. Quem sabe até ela aparece por aí.

Na terça à noite, então, eu colocaria o post e ao longo da quarta bateríamos papo sobre Borges de novo. Se você tem preferência por algum conto, deixe aí o seu voto.



  Escrito por Idelber às 18:35 | link para este post | Comentários (10)



segunda-feira, 17 de setembro 2007

Loteria em Babilônia

yseadendo2_cover.jpg(O post que se segue é um convite a uma discussão de "Loteria em Babilônia", de Jorge Luis Borges. Ele vai em espanhol porque os alunos vão passar por aqui. Mas os comentários de todos são bem vindos, claro. Leu “Loteria em Babilônia”, comente, relax, em qualquer língua: português, inglês ou espanhol)

El relato es simple: el narrador nos trae la historia de un insólito lugar, Babilonia, donde la lotería es la parte principal de la realidad . De origen plebeyo, la lotería agraciaba a sus ganadores, al principio, monedas de plata. “Naturalmente” esas loterías fracasaron porque “no se dirigían a todas las facultades del hombre”, sólo a la esperanza. El remedio para ese “natural” fracaso termina siendo la interporlación de algunos destinos adversos en el sorteo.

El leve peligro despierta el interés del público que, en vez de abonar las multas, ya pasa a escoger directamente el encarcelamiento que advenía de no pagarlas. Esa primera aparición en la lotería de elementos no pecuniarios es tratada por el narrador como punto clave en el proceso . Mientras tanto, en los “barrios bajos” una rebelión popular lograba que la Compañía responsable de la lotería “aceptara la suma del poder público”. Un rato después, lograban que la lotería fuera “secreta, gratuita y universal”. La insólita “Compañía” pasa a controlar toda la realidad, o por lo menos pasa a parecer poder estar haciéndolo a cualquier momento.

El narrador tiene prisa, dice que “la nave está por zarpar”. Está partiendo de un puerto que no sabemos cuál es. Justo le alcanza el tiempo para narrar el último estadio de la lotería: la transformación de toda la realidad en materia del azar. El sorteo de una muerte implica el sorteo del verdugo, del instrumento letal, de la fecha, en sucesión infinita –cualquier acto del azar produce infinitos otros, cualquier sorteo implica incontables otros, cualquier intervención de la Compañía demanda numerosas otras.

El resultado es que cualquiera puede estar ejecutando, “acaso, una secreta decisión de la Compañía”. Ese funcionamiento silencioso del aparato administrador de la lotería (y por lo tanto controlador de la realidad) es “comparable al de Dios” y le confiere al cuento su imagen final, hasta que el narrador, claro, nos recuerda que todo puede ser también un delirio imaginativo creado por la propria Compañía.

Como suele pasar con Borges, el cuento ha producido algunas lecturas que se repiten con unas pocas variaciones. De estas lecturas, dos me vienen a la memoria: una interpretación “filosófica” que lo toma como parábola acerca del azar, como relato acerca del intento de crear la contingencia absoluta (la indecidibilidad completa, el sorteo de todo) y de cómo tal intento termina en una maligna necesidad absoluta, en un Dios lotérico perfectamente tiránico. El segundo acercamiento toma algunos elementos del primero, pero trata de sacarle un sustrato político al cuento: con atención a la fecha de publicación del texto (1941), esa lectura observa el carácter de “Big Brother” de la Compañía lotérica y nota la rebelión “de los barrios bajos” por hacer la lotería “secreta, gratuita y universal” (palabras que, claro, tienen su historia política). A partir de allí esa interpretación subraya el resultado pesadillesco y distópico del impulso inicialmente utópico, egalitario.

Mucho se podría decir sobre estas dos posibilidades, pero las dejo por aquí. Hay, por supuesto, incontables otras lecturas. El blog los invita a compartir su experiencia con “Lotería en Babilonia”, en su lengua de predilección.

Posts relacionados
:
Borges.
Reflexões sobre o conto.
Sobre um conto de Borges.
Literatura argentina: Biblioteca básica.
Cripta em duas partes.

Atualização. Também escreveram sobre o conto:
Alex Castro
Alex Tarrask.
Andre Bittencourt.
Milton Ribeiro.
Donizetti
Adriano.
Ulisses Adirt.
Bender.
Hermenauta.
Marcus Nunes ,
Hélder da Rocha
e.... Biajoni!



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post | Comentários (37)



sexta-feira, 14 de setembro 2007

Clube de Leituras: Borges

Borges-II.jpg Umas duas gerações atrás fiz um post anunciando outra encarnação do clube de leituras, agora sobre Borges, num bate-bola com o curso de pós-graduação que estou oferecendo aqui em Tulane. Pois bem, se houver alguém por aí com interesse em discutir Borges, fique avisado que a brincadeira começa nesta segunda-feira com “Loteria em Babilônia”, conto que é parte do livro Ficciones, que está disponível na internet em espanhol.

Ao subir uma escada na noite de Natal de 1938, Borges quase arrebenta a cabeça numa janela aberta e passa algumas semanas de cama, com momentos de febre e delírio. Estava longe de ser um desconhecido: já havia escrito três volumes de poemas, cinco de ensaios e pilhas de resenhas de livros e filmes, além de ter reunido uma compilação de “causos” de criminosos. Mas, com a exceção do relato “Homem da esquina rosada”, não havia publicado contos. Em pânico com a possibilidade de ter perdido a capacidade de escrever, decide tentar o que nunca havia feito.

Segundo o raciocínio – típicamente borgeano --, se ele tentasse escrever um poema ou uma resenha e fracassasse, se sentiria completamente derrotado. Se, ao tentar um conto, não saísse nada, o fracasso não significaria tanto assim. Afinal de contas, tentara algo que nunca havia realizado. O fruto dessa tentativa foi “Pierre Menard, autor do Quixote”, conto que dá início à série de relatos pelos quais Borges se tornaria mundialmente conhecido. "Loteria em Babilônia" veio logo em seguida: foi publicado na revista Sur em janeiro de 1941.

Estamos começando a mergulhar nesses contos agora e deixamos o convite para que você se junte a nós na segunda-feira, com um papo sobre “Loteria em Babilônia”, esse relato tão insólito. Se quiser passar o fim de semana com Borges, é só baixar e ler.

PS: Obrigado à conterrânea e extraordinária blogueira Luiza Voll pela entrevista que me coloca em tão ilustre companhia.



  Escrito por Idelber às 18:12 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 25 de maio 2007

Borges

borges.jpgEstou preparando um curso sobre Borges. É mais ou menos como se um moleque de 13 anos, especialista em sorvetes, chegasse na Amor aos Pedaços, aí em Sampa, para escolher um sabor. São 14 semanas, com 2 horas e meia de contato em sala de aula por semana. Seria possível dedicar todo esse tempo a dois livros de Borges: Ficciones (1944 - cuja primeira metade saiu em 1941 como El jardín de los senderos que se bifurcan, volume depois completado em 1944 por Artificios) e El aleph (1949). Desses dois livros saem os grandes clássicos da contística borgeana: "Funes, o memorioso", "O jardim dos caminhos que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote", "Emma Zunz", "Três versões de Judas", "A morte e a bússola", "As ruínas circulares", "A biblioteca de Babel", "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Loteria de Babilônia", "O milagre secreto", "O aleph". Todos esses contos são paradas obrigatórias. Decidir de qual ponto de vista lê-los já é um exercício que pode tomar um tempo considerável, posto que essas duas dezenas de contos --- que a grande maioria dos leitores considera "a obra de Borges" -- geraram, e eu não exagero, algumas centenas de livros e alguns milhares de artigos dedicados a analisá-los.

Borges tem essa singularidade: é um minimalista enciclopédico. Jamais escreveu, eu acredito, nada que tivesse mais de dezesseis páginas. E gerou essas bibliotecas imensas, escrevendo, concisamente, sobre o infinito.

Neste curso eu decidi enveredar por outro caminho e examinar algumas coisas insólitas que escreveu Borges -- se você, leitor deste blog, quiser acompanhar, junte-se ao time. O curso rola da primeira semana de setembro a meados de dezembro. Para quem quer ler Borges a sério em português eu sugiro, claro, as Obras Completas em 4 volumes, da Globo, que são uma tradução integral das Obras Completas publicadas em espanhol pela Emecé. Ali tem 70% do que realmente importa.

O que significa que as Obras Completas de Borges não estão, obviamente, completas. A elas faltam: os três livros de ensaios curtos, juvenis, criollistas, populisto-nacionalistas que escreveu Borges nos anos 20: Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928). São fundamentais para entender o Borges que volta da Suiça depois da Primeira Guerra Mundial e integra-se à vanguarda poética do seu país, com um olho na ultra-modernidade européia e outro olho nas bombachas dos pampas (alô, Tiagón). Saíram reeditados em espanhol nos anos 90, são fáceis de encontrar. Que eu saiba, não existem em português.

Às Obras Completas também faltam, claro, todos os livros escritos em colaboração, compilados depois em Obras completas em colaboración, também inédita, que eu saiba, em português, apesar de que alguns dos volumes saíram, avulsos, em pindorâmico. Aqui, há dois destaques:

1) Borges, ah, Borges, escrevendo tantos livros em colaboração com mulheres sem nunca ter comido nenhuma. Ironia das mais incríveis, essa. Poupo-lhes a história de como Borges perdeu Norah Lange. É demasiado humilhante. Com outras mulheres escreveu O livro dos seres imaginários (1967 - com Margarita Guerrero, livro absurdamente indispensável, este sim, disponível em português), O que é o budismo (1977 - com Alicia Jurado), Breve antologia anglo-saxã (1978 - com María Kodama) e Introducción a la literatura inglesa (1965) e Literaturas germánicas medievales (1966), ambos com María Esther Vásquez.

2) os livros publicados com o pseudônimo de Bustos Domecq e escritos em parceria com seu amigo Adolfo Bioy Casares -- contos policiais pastichados, exacerbados ao limite da paródia. É aqui, com este pseudônimo, que Borges e Adolfito escrevem sua definitiva autópsia do peronismo, "La fiesta del monstruo", conto pouquíssimo conhecido fora da Argentina.

Aliás é o peronismo -- vocês sabiam disto? -- que transforma Borges de diretor da Biblioteca Nacional em inspetor de frangos. Não minto. É episódio pouco estudado, e o que mais me interessa descobrir é: o burocrata peronista que fez essa crueldade havia, com certeza, lido Borges. O gentleman portenho, claro, renunciou. Voltou ao cargo de diretor da Biblioteca Nacional depois, com a queda do peronismo.

As Obras Completas da Emecé -- e por conseguinte da Globo -- também não incluem a miríade de textos jornalísticos, de resenha, que Borges publicou no diário Crítica em 1933-34 (compilados num incrível livro, que inclui resenha de Borges sobre um brasileiro chamado Pedro Faria de Magalhães, alguém sabe quem é?) e os textos publicados por ele na legendária revista Sur, porta-voz da elite intelectual anti-esquerda da Argentina nos anos 1930-70.

Além disso, há os Textos recobrados, também inéditos em português, publicados em espanhol em três volumes -- crônicas, resenhas, colaborações a revistas, entrevistas, porque, como se sabe, no final de sua vida, Borges dava palpite em tudo, até em futebol e casamento, assuntos nos quais ele tinha zero experiência. Fora isto, está tudo nos quatro volumes das Obras completas da Globo aí no Brasil.

Os que mais insistiram pela volta do clube de leituras foram Meg, Alessandra, Milton e Bender. Para quem topar mergulhar em Borges, está aberto o convite. Diga lá o que você já leu e o que quer ler.

PS: quem é rei não perde a majestade.

PS 2: Sobre Borges: Mac Williams defendeu, mês passado, aqui em Tulane, sob minha orientaçao, uma brilhante tese que discute as complexas reinterpretações das várias religiões na obra de Borges. Mac, religioso (mormon) e eleitor de políticos conservadores (pelo menos até recentemente). Eu, ateu e xiita de esquerda. Poucas vezes um orientando e um orientador foram tão diferentes e se deram tão bem. Parabéns, Mac. Consulte-se, em breve, a tese de Mac na Internet.

Atualização: Ainda sobre Borges, veja-se este belo microconto do Almirante.



  Escrito por Idelber às 05:07 | link para este post | Comentários (52)



terça-feira, 07 de novembro 2006

Sobre Terras do sem fim

jorge-amado.jpg Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.

O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.

Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.

Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).

Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.

Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua "vocação histórica". Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.

Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.

PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post | Comentários (39)



terça-feira, 31 de outubro 2006

Confirmando Jorge Amado

terrasdosemfim.gif

Segunda-feira vai rolar aqui uma conversa sobre Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Eu comecei a ler e já me envolvi. É curioso como isso acontece rapidamente com Jorge Amado.

No último post, Monix, Milton, Edk, Fefê, Vera, Carmen, Valéria, Isabela, Alessandra e mary w toparam a parada. Estão dentro mesmo, né? Alguém mais?

Sobre o Clube de Leituras do blog, um leitor uma vez disse que ficava sem jeito de escrever sobre literatura no blog de um professor de literatura. Fique não, viu? A idéia é brincar e trocar leituras, e não demonstrar erudição. Inclusive porque sobre Jorge Amado eu não sei porra nenhuma mesmo. De forma que estamos todos no mesmo barco.

Agora com licença que eu vou ali tomar umas biritas para festejar o niver (o meu, não o do blog - eu nasci no dia em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e John Keats, é mole?). Amanhã volto com um post decente sobre qualquer coisa, menos política.

Inté.



  Escrito por Idelber às 20:34 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 17 de outubro 2006

Confirmando (ou não) discussão de Jorge Amado no Clube de Leituras

terrasdosemfim.gif

Pois bem, a discussão de Terras do Sem Fim aqui no Clube de Leituras está marcada para a próxima segunda-feira, dia 23 de outubro. Quem está lendo?

A minha situação aqui é a seguinte: ainda não comecei a ler. Esta é a semana em que corrijo trabalhos bimestrais nos cursos de graduação e de pós aqui em Tulane. Também é a semana em que meus orientandos no Ph.D estão preparando seus currículos e cartas para os concursos que começam em dezembro. Ou seja, estou atolado de trabalho. Mas se houver gente suficiente lendo, eu dou um jeito de encaixar a leitura do livro até segunda.

Se não houver gente suficiente lendo, melhor deixar para depois da eleição. O que me dizem? Quem está lendo, quem estaria pronto até segunda e quem estaria disposto a participar se a coisa for adiada, digamos, para o dia 06 de novembro?



  Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post | Comentários (20)



sexta-feira, 22 de setembro 2006

Clube de Leituras: Jorge Amado, Terras do Sem Fim

jorge-amado.jpgSem desgrudar os olhos do pau que come na política, eu gostaria de voltar ao nosso Clube de Leituras. Após participar como observador da Feira Literária de Parati deste ano, eu fiz um post em que repensava minha relação com Jorge Amado, depois de passar anos replicando o julgamento negativo que a universidade fez de sua obra - por motivos que em outro momento podemos discutir. Nesse processo, senti vontade de relê-lo. Decidimos que o próximo romance a ser lido aqui no clube seria Terras do Sem Fim. terras-do-sem-fim-russo.jpg

Devorei, junto com Ana, a deliciosa Navegação de Cabotagem, suas memórias. Divertimo-nos à beça com o relato de vida de Jorge: o homem foi testemunha de tudo quanto é evento importante do século XX. Ele reconstrói cada acontecimento com invejável humor, em rápidos parágrafos não organizados cronologicamente e legíveis em qualquer ordem. Depois disso, fiquei ainda mais animado para armar um papo sobre Terras do Sem Fim - romance que nunca li e que vem recomendado por um dos maiores estudiosos da obra de Jorge, o meu amigo Eduardo de Assis Duarte. Poderemos, eu acho, ter a honra da participação de Maria João Amado, neta de Jorge, que é blogueira.

Para quem não conhece, a brincadeirinha é a seguinte: marcamos uma data, lemos o livro, eu preparo um post e deixo rolar o debate. Já fizemos um bate-papo sobre Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, e uma entrevista com o autor. Depois, tivemos vários posts com discussões sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Acho que revisitar o humor e a picardia do velho Jorge seria um bom contrapeso nesta época de ânimos tão exaltados na política, não é mesmo? Pois bem, que tal segunda-feira, 23 de outubro, como data da primeira discussão? Teríamos um mês inteiro para ler o livro. Quem está dentro?

* A foto de Jorge foi tirada daqui.
** A outra ilustração é a capa de Terras do Sem Fim em russo. Eu acho.



  Escrito por Idelber às 22:10 | link para este post | Comentários (25)



segunda-feira, 28 de agosto 2006

Diadorim

diadorim.jpg O nome de batismo de Diadorim-Reinaldo, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, nascida num dia de “11 de setembro de éra de 1800 e tantos”, evoca muita coisa, mas chave mesmo é decompor “Deodorina”, teo + dorón, presente de Deus. Trata-se ali de um presente que Rio-baldo (baldo, segundo Aurélio: falto, falho, carecido, carente, sem naipe) não pode abrir, presente ao qual ele, portanto, não faz justiça, não dá fluência ou circulação, presente que ele não sabe receber.

O leitor em empatia com o narrador – o leitor que caiu no conto simpático do velhaco latifundiário Riobaldo que se justifica – com certeza objetará, e com razão, que Riobaldo amou Diadorim, amou-o verdadeiramente do jeito que lhe foi possível, no limite do que era concebível e aceitável numa sociedade homofóbica onde, afinal de contas, o nome de Deodorina era Reinaldo Aí, claro, entra a tragicidade do personagem Riobaldo, emblematizada no fato de que em sua essência verdadeira, mais profunda, interior ao vestuário, Diadorim era-lhe, sim, possível como objeto de amor que não perturbava suas tão queridas convenções sociais, já que biologicamente mulher.

Mas ser mulher não é uma opção possível para Deodorina numa sociedade onde ela deve vingar a morte do pai, Joca Ramiro. Diadorim, o que só tem pai; Riobaldo, o que só tem mãe. O transgendering de Diadorim (o termo aqui é exato, acho: Diadorim não é andrógino nem muito menos “hermafrodita”) é necessário devido à interdição da jagunçagem à mulher. É ali que Diadorim tem que se provar como o mais valente. Se no meio dos acontecimentos Riobaldo podia achar que “esse menino, e eu [...] éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!” (310), a ironia amarga é que é somente Diadorim quem dá cabo do demo, Hermógenes, na ponta faca, na luta fatal que Riobaldo assistiu impotente e paralizado, já que só sabia atirar. O preço da covardia de Riobaldo é a morte de Diadorim e a revelação de Maria Deodorina. Diadorim, por outro lado, morre como figura definitiva da coragem, emblema da donzela guerreira.

Diadorim é também Diá-adorar, adoração do demo e figura do demoníaco: joga Riobaldo no redemoinho do amor homoerótico e vira cifra, para ele, da obrigatoriedade do pacto. Deus é sempre um; o demoníaco está cifrado no nome de Diadorim como di + adorar, o amor do duplo. O diabo é sempre legião:

...a gente criatura ainda é tão ruim, tao, que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus -- quando o projeto que ele começa é para muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? ...Deamar, deamo...Relembro Diadorim. Minha mulher que nao me ouça
.

Em livros e artigos sobre Guimarães Rosa, Diadorim tem sido estudado a partir do topos da donzela guerreira (personagem fascinante, claro) ou como figura andrógina do coincidentia oppositorum. Alguns outros estudos recentes fazem observações interessantes sobre Diadorim como figura da poética de Rosa, como emblema da própria paixão do autor pela invenção e pelo desconhecido. Há sempre que se lembrar que o primeiro encontro de Riobaldo com Diadorim – na iniciática travessia do Rio São Francisco liderada por Diadorim com 14 anos, então “o Menino” – ocorre no porto do Rio-de-Janeiro, Janus sendo, claro, a figura do deus de dupla face, dos rituais de passagem.

Mas pouco tratada, na verdade – vejam que interessante - é a questão de Diadorim como desestabilização de uma certa masculinidade sertaneja de longa história ou como, digamos, figura da redefinição dos códigos de masculinidade mesmo. O tema é tão óbvio que pulula, mas há um ponto a partir do qual não se trata dele: Grande Sertão como romance gay. Por que tão poucos estudos sobre a experiência que é especificamente homoerótica ali? Diadorim, afinal, é mulher que vive como homem e é o amor frustrado por esse homem que Riobaldo relata. Diadorim também é di(á) + dor, a experiência do duplo e do demoníaco na dor.

O que Diadorim desestabiliza é tão grande que só depois de umas 4 releituras do romance e da leitura recente de um estudo do Willi Bolle, grandesertão.br, me dei conta de quão orgânicos são os vínculos entre Otacília, o latifúndio, a transmissão da propriedade e a solidez da família nuclear monogâmica heterosexual. Claro, já na primeira leitura fica óbvio que o amor por Otacília é a opção pela segurança e estabilidade de uma relação – forte e amorosa, sem dúvida – socialmente sancionada. Mas Bolle mapeia de uma forma bem interessante toda a trajetória de Riobaldo na segunda parte da seqüência de acontecimentos, posteriores ao pacto, até a sua assunção como chefe e a luta final onde morrem Hermógenes e Diadorim: trajetória de progressiva má fé, soberba e acovardamento, emblematizados no abandono (autoritariamente justificado) de seus comandados, em meio a possibilidades de batalha, para uma visita a Otacília. Isso se fecha na paralisia de Riobaldo, pelo medo, na batalha final. Digamos que esse medo tem raízes bem sólidas numa opção de classe e numa ordem heterossexista compulsória. Diadorim é a força desestabilizadora dessa ordem. Bolle diz bonito, no seu livro:

a figura bissexual de Diadorim é um meio para evidenciar, por contraste, o que há de unilateral e redutor no retrato do povo apresentado por Euclides. O autor d'Os Sertões valoriza o sertanejo apenas como guerreiro - postura sintetizada na frase que se tornou célebre: 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Quase todos os demais valores culturais das pessoas do sertão - suas práticas religiosas, formas de organização econômica e política, sua fala, sua sensibilidade e, em particular, todo o universo feminino - são relegados à margem ou desprezados (pag. 214-5).

bruna.jpgEu me lembro de que em 1985, quando Walter Avancini fez para a Rede Globo uma mini-série sobre Grande Sertão: Veredas, a imagem de Bruna Lombardi como Diadorim tirava da personagem, para mim, toda verossimilhança: além de “feminina” em excesso, Bruna já era conhecida demais como mulher para que toda a ambigüidade de Diadorim se deixasse entrever. Eu me lembro de pensar que uma atriz desconhecida mas fisicamente bem masculina teria sido o ideal – alguém que ninguém conhecesse, que fizesse justiça ao personagem, que é, afinal, uma figura do desconhecido e do inexplorado, das mil identidades existentes por aí ainda sem representação.

PS: Eu teria mais a dizer sobre Diadorim, mas é hora de arrumar mala. Fiquem à vontade para puxar outros fios de conversa sobre a personagem, ou outras facetas do livro. Sugestão de leitura de hoje: o volume da coleção Fortuna Crítica sobre Guimarães Rosa, que reúne um time de ensaístas de primeira, e o estudo de Bolle citado acima, belíssimo.

PS 2: Nossa próxima tarefa é Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, para dentro de algumas semanas, ok?

PS 3: Valeu, Belo Horizonte. O próximo post lhes chegará de Nawlins, onde aterrizo, com a benção dos orixás, na terça de manhã.



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (18)



sexta-feira, 11 de agosto 2006

De Paraty, em memória de Jorge Amado

jorge.jpg
Charge de Jorge Amado: Estado de São Paulo.

Não na condição de professor, escritor ou autor de nada, mas de namorado de uma autora da Record, participei ontem do jantar oferecido pela editora aqui em Paraty. Pude conhecer outro ídolo meu, o ensaísta, historiador e romancista britânico-paquistanês Tariq Ali, um dos analistas mais argutos do mundo contemporâneo e crítico dos mais incisivos da máquina assassina israelense (se você não conhece a obra de Ali, comece com Confronto de fundamentalismos, livro chave para se entender a política de hoje). Também estava presente no jantar o ficcionista gente-boa Marcelino Freire, que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti pelo seu livro Contos Negreiros. Muito simpático, o Marcelino. Parabéns, eita danado!

Mas a honra mesmo da noite foi poder conhecer membros da família Jorge Amado. Acho que o grande saldo desta Flip, para mim, será o desejo de participar da reabilitação de Jorge Amado dentro da universidade. Fazem-se muitas críticas à universidade brasileira e eu considero a maioria delas injustas. Mas neste caso, os críticos têm razão: a universidade – muito em especial a academia paulista – é a grande responsável pelo fato de que a obra de Jorge Amado tenha sido encarada com desprezo pelos estudiosos de literatura no Brasil. Aqui eu faço meu mea culpa: durante anos eu repeti essa cantilena.

Para a obra de Jorge Amado os críticos literários brasileiros sempre reservaram os piores epítetos: popularesca, folclorista, superficial, estereotipada, panfletária. Os pouquíssimos que se dedicam ao seu estudo são, em geral, vistos com condescendência (parabéns por remar contra a maré durante tantos anos, Eduardo de Assis Duarte). O meu testemunho não é nada especial: para me formar em Letras tive que ler toneladas de Marx e Freud, mas nem uma única linha de Jorge Amado – e olha que eu assistia aulas de manhã e à noite e me matriculava em tudo quanto era eletiva disponível.

Claro que li Jorge Amado – pouca coisa, uns 7 ou 8 romances – mas sempre com a sensação de estar lendo algo de pouca importância. Enquanto isso, seus livros continuavam vendendo milhões e agradando leitores mundo afora. Pois bem: eu saio desta Flip com uma vontade danada de participar de um esforço de reabilitação de Jorge dentro da universidade. Para isso, claro, vou usar o blog no que eu puder.

Portanto, queria deixar com vocês a proposta de que depois do Grande Sertão – sobre o qual ainda haverá dois ou três posts, pelo menos – nós nos dediquemos a ler um romance de Jorge aqui no Clube de Leituras. Meu voto é para Mar Morto, mas estou aberto a sugestões.

Alguém tem depoimentos, casos, relatos, opiniões sobre o genial bruxo baiano? Ontem ele teria feito aniversário: nasceu no dia 10 de agosto de 1912.

Evoé, Jorge.

Atualização 1, na segunda-feira: Maria João Amado, neta de Jorge Amado, que topou participar do clube de leituras conosco, também é blogueira!

Atualização 2: baseado em todo o dito aqui e a mim por amigos, gostaria de começar com Terras do sem fim. Terminando o papo sobre Rosa combinamos datas.



  Escrito por Idelber às 15:31 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 09 de agosto 2006

Blogueiro convidado no Clube de Leituras: Maurício Lara

(meu amigo Maurício Lara é o blogueiro convidado de hoje. Ele nos conta um pouco sobre sua relação com Grande Sertão: Veredas).

O ÚNICO LIVRO QUE EU LI

Tenho a nítida sensação de que li somente um livro em toda a minha vida. E nem foi há tantos anos assim. Foi o único que li e uma única vez. Nunca mais comecei a leitura do princípio e fui até o fim. Como nunca mais parei de folhear, folhear, ler pedaços, rabiscar... Antes achava que tinha lido vários outros; depois, não pude entender mais nada. Depois dele, parecia que pouco ou nada havia para dizer ou para contar. Estava tudo lá no Grande Sertão:Veredas, de João Guimarães Rosa.

Escrevi livros. E nem estou deles livrado, como diria Manoel de Barros. Em todos me vali do Grande Sertão, na epígrafe, no miolo do texto e/ou na inspiração. Um conta a história da eleição presidencial de 1989, a primeira depois da ditadura, que mobilizou este País e em que Fernando Collor de Melo venceu Luiz Inácio Lula da Silva. É um livro-reportagem chamado Campanha de Rua (Geração Editorial, 1994) e tem a seguinte epígrafe: “Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons...”

Outro fala de câncer. Da doença que eu tive e que marca a ferro a vida de quem com ela convive. Chama-se Com todas as letras – o estigma do câncer por quem enfrentou esse inimigo silencioso e cruel (Editora Record, 2005). Tem epígrafe do Grande Sertão: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”. E bem no final do livro: “Tudo que já foi, é o começo do que vai vir.” Toda a história do câncer e do livro foi travessia e travessia é Grande Sertão, o que se atravessa é o grande sertão.

Um outro fala de política e da relação da esquerda com o poder. É o romance Em Nome do Bem – uma alegoria da política brasileira (Editora Planeta, 2005). Está lá: “De despiço, olhei: eles nem careciam de ter nomes – por um querer meu, para viver e para morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.” O poder está no Grande Sertão, como estão Deus, o diabo, o amor, a amizade, o ódio, a vida e a morte. Tudo.

Estão lá, também, Riobaldo, Diadorim e... Otacília, a da “firme presença”. E em torno do livro muitos outros livros, que falam de Riobaldo, de Diadorim e de... Otacília, ainda que muito menos. Como só li um livro, tenho dificuldade em ler os outros, até os que falam daquele único. Fico pensando no mesmo, no de sempre. A ele recorro, folheando ou recordando, quando preciso de uma explicação, de encontrar um Norte, de me inspirar.

Não quero analisar o Grande Sertão, quero senti-lo; não quero refletir sobre o Grande Sertão, quero refletir sobre a vida e ela está lá; não quero pensar o Grande Sertão no banco da academia; quero é mantê-lo na minha cabeceira, como ele está: surrado, quase rasgado, sentido, cheirado, admirado. E para sempre.



  Escrito por Idelber às 01:42 | link para este post | Comentários (16)



quarta-feira, 26 de julho 2006

O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas

gsv-3.jpgDas várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é o relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.

O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas. Essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo. Quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.

Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.

Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira. Só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).

Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor. O único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca. No nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).

Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco. Eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.

Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro. Trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.

*******************

Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.

*******************

Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)

*******************

A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.

******************
Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).



  Escrito por Idelber às 05:48 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 25 de julho 2006

Amanhã é dia do demo

devil.jpggsv-3.jpg
Imagem: daqui.

O demo é um ponto tão bom como qualquer outro para começar a discutir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Convido quem tiver lido o livro para passar por aqui nesta quarta e participar do papo. Vai ao ar de madrugada um texto meu sobre o tema - nem que seja meio chinfrim. Ao longo do dia de hoje, quem quiser colaborar com a casa e deixar algum link interessante sobre o demônio, fique à vontade.

Imaginam o que a Bibi seria capaz de encontrar sobre o demo na Internet?

As imagens mais impactantes do dito cujo que eu conheço são os desenhos de William Blake.



  Escrito por Idelber às 05:05 | link para este post | Comentários (10)



terça-feira, 18 de julho 2006

Guimarães Rosa em imagens

rosa-menino.jpgGuimarães menino

guimaraes-casa.jpgCasa de J.G.R. em Cordisburgo, hoje museu.

gsv-2.jpg Edição contemporânea de Grande Sertão.

gsv-3.jpg Meu exemplar da 15a edição, de 1982.

gsv-espanhol.jpgGrande Sertão em espanhol. .

gsv-frances.jpgEdição de "Meu Tio, o Iauretê" e outros contos, em francês.

gsv-italiano.jpgGrande Sertão, em italiano.

redemoinho.jpgRedemoinho, xilogravura de Arlindo Daibert.

otacilia.jpgOtacília, pastel, grafite e colagem de Arlindo Daibert.

diadorim.jpgDiadorim, xilogravura de Arlindo Daibert.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post



sexta-feira, 14 de julho 2006

Clube de leituras: Antes do Grande Sertão

Guimaraes.jpg

São fracos os recursos existentes na internet sobre Guimarães Rosa. O Projeto Releituras traz um resumo biográfico mínimo com quatro contos ; há um bom artigo de um professor da medicina da UFMG, um interessante blog de citações e não muito mais. O artigo da Wikipedia não traz nem o essencial e fala de Rosa como “realista mágico,” o que é um chute bem longe do gol: o “realismo mágico”, tal como desenvolvido por García Márquez a partir de uma idéia de Alejo Carpentier em El reino de este mundo (de 1949, quando este ainda chamava a coisa de “lo real maravilloso”) tem pouco que ver com o que faz Rosa, tanto nos contos como nas novelas ou no Grande Sertão. Em Rosa não há formigas invadindo cidades ou mulheres gordas que voam. Não há essa tentativa de produzir um espanto artificial com a realidade: o realismo mágico pressupõe um olhar estrangeiro, alheio ao mundo que se narra, olhar que é a chave para que se produza o efeito "fantástico" ou “mágico”. Em Rosa, todo o contrário: Riobaldo é dali, do sertão, rigorosamente interno ao que narra. O estranhamento que aquele mundo produz não é fruto de um olhar que o vê como exótico. O estranhamento vem das entranhas mesmas.

Há excelentes estudos acadêmicos sobre Rosa, mas a universidade também já tropeçou bastante para falar dele: num colóquio recente, a chamada avisava que "Guimarães Rosa soube conciliar as reflexões e os estilos mais autenticamente brasileiros (ensaismo e oralidade) com as formas narrativas das vanguardas (fluxo de consciência, memória involuntária), como se não existissem ensaísmo e “oralidade” em outros lugares, ou como se as “formas de vanguarda” já não fossem, em 1956, tão “brasileiras” como o futebol. Ou seja, confusão pura. Generalidades sobre o “local” e o “universal” – e a combinação entre eles – são o pão-com-manteiga da crítica roseana. Já não acrescentam muito.

Nos sites de língua estrangeira há alguns chutes na arquibancada também. Um verbete americano fala de “naturalismo” em Guimarães Rosa (aliás, a tradução ao inglês de GSV, The Devil to Pay in the Backlands, é o trabalho de tradução mais horrendo já feito com um grande autor). “Naturalismo”, aqui no caso, está bem longe do justo; “naturalista” é a secura de Euclides da Cunha, autor ainda marcado por determinismos vários. Se no mundo naturalista a realidade se deduz com um grau razoável de certeza a partir de certas determinantes (raça, meio, herança genética), em Rosa tudo é turbilhão e incerteza, não só na cabeça do personagem, mas no tempo e fluxo do próprio texto. Mais inventivo e anti-naturalista, impossível.
gsv-2.jpg

“Regionalista” é outra palavra que aparece com freqüência para designar a literatura de Rosa. Aplicado a ele, o termo mais confunde que explica. O rótulo tem longa história na literatura brasileira, pelo menos desde os romances “regionais” de José de Alencar (como O Gaúcho), e designa aquela literatura (em geral rural) que se dedica não só a retratar uma região mas a criar personagem e problemática supostamente únicos àquele lugar. O regionalismo é uma fábrica de tipos (o vaqueiro, o retirante, a mulata do Recôncavo, etc.). Em Rosa não há tipos, só personagens múltiplos e fragmentados. O cenário de Rosa é, sim, rural e o lugar é tematizado repetidas vezes, mas o movimento é inverso ao do regionalismo: tudo no sertão de Rosa acaba virando mundo e englobando a própria cidade ao qual o sertão aparentemente se oporia. Quanto mais tu entras no movimento centrífugo do redemoinho, mais ele te joga, centrípeto, para o universo.

Essas são apenas algumas das palavras problemáticas que se repetem sobre Rosa. Isso não quer dizer que aqui ou ali elas não possam ser úteis, mas para descrever o que fez Rosa, são redutoras. Como ele renovou a língua mais que qualquer outro autor em português, o léxico da crítica também tardou um bom tempo para começar a dar conta do que acontecia. Ainda falta muito, mas há incontáveis trabalhos de qualidade por aí. Na vastíssima coleção de títulos, três me são especiais:

O volume da Coleção Fortuna Crítica, já esgotado mas facilmente encontrável em sebos e bibliotecas, traz uma compilação de muitos dos melhores artigos já escritos sobre Rosa, por feras como Haroldo de Campos e Benedito Nunes. Vale a pena.

O Léxico de Guimarães Rosa, de Nilce S. Martins, é um trabalho recente, assombroso, organizado em forma de dicionário. São 8 mil verbetes, com todas as invencionices de Rosa. Para quem quer ir fundo, é indispensável.

A Vereda Trágica do Grande Sertão: Veredas, da minha conterrânea (e feríssima) Sônia Viegas, é a mais aguçada leitura filosófica do romance.

Eu estou relendo o livro pela sexta vez, acho. E estou ainda mais assombrado do que fiquei em 1985, quando li pela primeira vez, no colégio.

Na semana que vem começamos uma discussão sobre Grande Sertão: Veredas aqui, organizada o demo sabe como. Talvez possamos fazê-la por assuntos, ao longo de três ou quatro posts, que poderiam tratar de temas como o fáustico (todo o drama da alma e do pacto com o diabo), o amor Riobaldo-Diadorim (que é pano pra manga que não acaba mais) a estrutura do texto e a linguagem (que tal uma coleção de citações do livro?), o rico problema da memória no texto, e o que mais nos der vontade. Provavelmente os assuntos vão se misturar. É a lei do sertão.



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 21 de junho 2006

Clube de leituras, II

Eu vou ali pegar um avião para Belo Horizonte e já chego, a tempo de ver Brasil x Japão na transmissão da ESPN Brasil: férias, que este ano demoraram a chegar.

gsv.jpg

Depois do papo sobre o Duas Vezes Junho, de Martín Kohan, ficamos de conversar sobre Grande Sertão: Veredas. Como eu disse antes, eu topo reler o romance do Rosa se pelo menos o mesmo número de pessoas que participaram do primeiro debate se animarem a ler um segundo livro - embora eu não tenha a menor idéia de como organizar uma discussão sobre um treco tão infinito como o Grande Sertão.

Se houver quórum, que tal começar a papear lá pelo dia 17 de julho, 8 dias depois do fim da Copa do Mundo? Quem começasse a ler agora teria quase um mês para digerir o livro.

E aí, quem está dentro?

PS: Vou perder Argentina x Holanda, voando entre New Orleans e Miami. Buá. Quem assistir o jogo e tiver observações pessoais, deixe-as por aqui também. O fanático futebolístico aqui agradece.



  Escrito por Idelber às 04:50 | link para este post | Comentários (29)



sexta-feira, 09 de junho 2006

Entrevista com Martín Kohan

kohan-foto.jpg O escritor argentino Martín Kohan nasceu em 1967 e é autor de nada menos que 10 livros. Escreveu os romances La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) e Segundos afuera (2005), as coleções de contos Muero contento (1994) e Una pena extraordinaria (1998) e os livros de ensaios Zona urbana: ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004), Narrar a San Martín (2005) e Imágenes de vida, relatos de muerte: Eva Perón, cuerpo y política (1998), este último em co-autoria com Paula C. Rocca. Além de Duas vezes junho, já foi lançado no Brasil Uma pena extraordinária. Não é todo dia que aparece que um cabra que, antes dos 40 anos de idade, já deixou uma marca dessas na literatura. Enquanto vocês liam o livro, eu bati um papo com Kohan por email.

1. O que eu mais gosto em Duas vezes junho é o tom, a dicção do protagonista: um recruta que é obviamente cúmplice e agente do horror, mas que quase provoca a empatia do leitor por sua simplicidade. Esse caráter despojado, contido, pouco retórico do romance contrasta com certa literatura pós-ditatorial que privilegia vozes testemunhais ou grandes máquinas alegóricas. Você pode nos dizer um pouco sobre como chegou a essa voz?

Chegar a essa voz foi realmente o determinante para poder escrever o romance. De fato, eu já tinha uma idéia razoavelmente clara da trama e da armação geral que eu me propunha fazer, e no entanto não podia começar a escrita do texto porque não havia resolvido ainda esse tom que me parecia que o romance tinha que ter: um registro sinistramente neutro em alguém que está muito perto dos fatos mas se comporta como se não estivesse, alguém que pode ver o que está acontecendo mas que se comporta como se não o visse. Encontrei esse tom e essa voz quando me ocorreu o episódio inicial da falta ortográfica. Eu tinha pensado em começar com a frase sobre a tortura de crianças, que é real e que para mim é uma verdadeira cifra do horror absoluto. Com a idéia do erro de ortografia na escrita dessa frase, e com o desvio conseqüente do narrador, que se põe a pensar no erro ortográfico e não no conteúdo do que a frase diz, encontrei essa voz e pude escrever o romance daí em diante.

Eu fico entusiasmado que você perceba uma diferença discursiva com o registro que é próprio das vozes testemunhais, porque me parece que em Duas vezes junho o que aparece tem mais a ver com uma posição geracional – a minha – que não responde à geração dos setenta e à militância, e sim a outro tipo de experiência da ditadura (não é o balanço da geração da militância, e sim a vivência cotidiana da infância, que foi minha experiência da ditadura: eu tinha nove anos em 1976).

2. Em Duas vezes junho, e também em outros textos seus, nota-se a preocupação de revisitar os mitos fundadores da nação. Parece-me chave o fato de que você tenha escolhido, na Copa de 1978, a única partida que a Argentina perdeu, e em 1982 outro momento de derrota, curiosamente também ante a Itália. Seriam as derrotas das obsessões coletivas os momentos privilegiados para vislumbrar o que constitui a nação?

Efetivamente, interesa-me muito indagar quais são os dispositivos com os quais se conforma uma identidade nacional. De fato, minha tese de doutorado teve como objeto estudar as estratégias narrativas da construção da figura do herói nacional argentino, José de San Martín. Há uma dimensão épica, heróica e vitoriosa que se deslocou evidentemente ao futebol, novo palco da pirotecnia nacionalista (sempre se fizeram objeções severas a que em 1982 se asimilassem, na sociedade, a guerra das Malvinas e a Copa da Espanha; de certo ponto de vista, no entanto, e ressalvando-se a distância evidente do que é o custo, em vidas, de uma guerra, isso me parece perfeitamente lógico).

As derrotas oferecem, neste sentido, um ponto de vista que é sempre mais interessante, porque ali não se verifica nem o destino de grandeza nem o esplendor patriótico (em suma, um lamento paranóico que na Argentina costuma pegar: que há uma conspiração adversa, mundial, se for necessário, para nos fazer perder).

Em Duas vezes junho, eu me propunha reverter a memória social da Copa de 78 como uma experiência de euforia coletiva. Já não indicar o pano de fundo trágico dessa euforia, o horror que subjazia aos festejos das partidas. Não isso, e sim outra coisa: construir uma imagem triste e desolada do que foi a Copa; não a da alegria enganosa, e sim a de uma profunda tristeza coletiva. Por isso tomei a noite da derrota (sem salvá-la com a perspectiva da vitória posterior, como quando se conta na história argentina a derrota de San Martín en Cancha Rayada já da perspectiva da vitória que ele logo teria na batalha de Maipu. Não: somente a derrota, sem revanche, sem redenção). Muita gente – na verdade toda a que não esteja tão informada sobre o futebol – já esqueceu completamente essa partida. A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota.

A idéia de que o romance tivesse uma segunda parte em 1982 ocorreu-me enquanto eu o escrevia (e só então, é claro, ocorreu-me o título). Me parecia necessário avançar com a idéia de que a cumplicidade do recruta se prolonga mais além do momento em que está sob o domínio militar. A idéia da derrota nacional poderia extender-se então a seu ponto dramático: Malvinas. E também ratificar-se no futebol: a Argentina volta a perder para a Itália (quando reparei nesse detalhe, me pareceu que não podia deixar de aproveitá-lo).

3. Considerando a paixão pelo futebol, tanto na Argentina como no Brasil, é curioso que ele não tenha cumprido um papel mais central na literatura. Claro, existem os relatos de Fontanarrosa, alguns de Osvaldo Soriano, mas em geral a literatura argentina – e também a brasileira – ocupou-se pouco do futebol. Você vê alguma explicação para isso?

Há uma certa insistência muito recente no futebol como tema literário. Não sei se durará. Há por exemplo um romance de Esteban López Brusa, La yugoslava, e outro de Sergio Olguín, El equipo de los sueños. Mas é verdade que o tema do futebol não encontra a abundância que seria de se supor. Eu acredito que é difícil escapar de alguns atalhos que o tema impõe: um olhar populista sobre o mundo do futebol ou um olhar ternurista à figura do torcedor. E também talvez outra coisa: que os escritores tendem a escrever sobre as equipes das quais são torcedores. Então é mais difícil que abordem a situação da derrota (mas uma derrota sem épica nem salvação, a pura derrota, a pura desgraça). Eu mesmo não escreveria um romance onde o Boca Juniors perdesse. Não o faria. Poderia fazê-lo com uma derrota da Seleção Argentina, em Duas vezes junho, ou a derrota célebre de um boxeador argentino em Segundos afuera (Firpo em 1923: derrubou Jack Dempsey para fora do ringue, conseguiu essa façanha, mas depois perdeu a luta e não foi campeão. Esse destino de derrota, mas com a ilusão de vitória, contém para mim toda uma cifra da argentinidade). Pude escrever sobre derrotas argentinas porque meus sentimentos nacionalistas foram sendo mitigados ou até mesmo desativados de uma maneira quase cirúrgica ao longo destes anos. Quando vejo a Seleção Argentina jogar só me interesso pelos jogadores do Boca (agora: Abbondanzieri, Riquelme, Tévez) e se algum jogador do River faz um gol para a Seleção (Crespo, Saviola, Aimar) simplesmente não o comemoro. Posso escrever então sobre uma derrota argentina, mas não o faria sobre uma derrota do Boca. E escrever sobre as vitórias da própria equipe não me resulta literariamente interessante.

4. Há uma tradição na literatura argentina que culmina, digamos, em escritores como Juan José Saer, que vê na cultura de massas a esfera da banalização e da automatização. Outra tradição, com a qual se alinham escritores como Osvaldo Soriano, abraça a cultura de massas e faz dela seu material privilegiado. Estou correto se suponho que você embaralha um pouco essa oposição? Tanto em Duas vezes junho como em Segundos afuera, você trabalha com os materiais da cultura de massas, mas nota-se uma certa distância cética com respeito a ela. Você poderia nos falar um pouco disso?

Sim, você está certo. A antinomia entre “alta cultura” e “cultura de massas” é um tanto redutora, e também esquemática, e também simples em demasia, e também rígida demais; e no entanto, no meu ponto de vista, apesar do já dito, ela é substancialmente verdadeira. Acontece com os enfoques de Theodor Adorno: inclusive ali onde exagera, ali onde evidentemente não tem razão, diz entretanto uma verdade: tem razão. É claro que é um problema para a teoria cultural ver como se continua pensando depois de que alguém formulou uma crítica tão fechada e tão taxativa, e no entanto tão verdadeira. A anedota de que Adorno nem sequer atendia o telefone nas terças-feiras à noite porque estava assistindo Daktari na televisão, e não perdia um capítulo, nos dá um certo alívio. Mas acho que é basicamente certo que há na cultura de massas um fator poderoso de alienação e banalização. E também acredito que nos seus diálogos com a assim chamada alta cultura há mais mal-entendidos e distorção do que outra coisa, porque ali há duas lógicas alternativas que estão se chocando (e não dois modos culturais afins que estariam confluindo). É o que tentei expressar com os diálogos de Segundos afuera: os personagens dialogam, mas não se escutam. E se se escutam, não se entendem. E se se entendem, não se suportam.

Além do mais, uma evidência: Saer escreveu uma grande literatura e Osvaldo Soriano não.

5. Você tem também uma carreira como crítico e acadêmico, e no entanto não se nota nos seus romances a sobre-teorização que se vê na ficção de tantos críticos-escritores (penso aqui em Sartre como paradigma disso, mas há muitos outros; na Argentina poderíamos pensar em Ricardo Piglia). Eu gostaria de saber se você trabalha conscientemente com esse dilema, o de separar as duas vozes.

Não, eu não procuro nem fujo dos contatos entre o registro da crítica e o registro da ficção. Escrevo o que me ocorre da maneira que posso, não tenho o propósito definido de enlaçar esses dois discursos, mas tampouco o de cindi-los. Escreve-se basicamente a partir do que se leu, e minhas leituras provêm com freqüência do que faço como crítico literário. Uma vez escrevi um romance sobre San Martín, porque as leituras da tese de doutorado me haviam submerso nesse mundo (mas curiosamente ele não foi visto como um romance acadêmico, e sim como um romance de mercado, porque justamente então os romances históricos entraram na moda. Ou seja, nunca se sabe, a melhor coisa é desentender-se e escrever o que se quer escrever).

Além do mais, não é verdade que os universitários escrevamos para os universitários, como tendem a supor alguns escritores que, por estar fora do mundo universitário, imaginam – e se equivocam – que o que está ali dentro é um mundo de confrarias e cumplicidades. Em todos os lugares eles acreditam ver piscadelas e sub-entendidos que os excluem, mas são seus próprios complexos e sua própria paranóia que geram neles esse efeito.


6. Há um mini-boom de tradução de literatura argetina no Brasil, depois de muito tempo de ignorância completa. Escritores como você e Alan Pauls, que eu jamais imaginaria que fossem estar disponíveis para meus compatriotas, foram publicados em tradução. No caso de que haja algum editor lendo-nos, quais ficcionistas da sua geração você destacaria como fundamentais hoje?

Eu destacaria fundamentalmente Juan José Becerra e Gustavo Ferreyra.



  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post | Comentários (20)



quinta-feira, 08 de junho 2006

Sobre Duas Vezes Junho, de Martín Kohan

LIB0518.gif

¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.

Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico. O pano de fundo é a questão quase inimaginável: a tortura de crianças como forma de chantagem sobre os pais e o roubo e venda de bebês, extensamente praticados pela ditadura argentina.

A tarefa do recruta é achar o chefe, o “doutor” Mesiano, um dos responsáveis pelo horror, a quem ele é ligado também por laços de respeito e amizade. Precisa conseguir uma resposta para essa pergunta. E o chefe não está lá.

Aí entra o futebol. O chefe foi ao jogo. É a noite da partida entre Argentina e Itália, vencida pela Itália por 1 x 0. Engenhosamente, Kohan toma a euforia pela Copa do Mundo mas escolhe o único dia de derrota da seleção. Faz dessa derrota “o momento de verdade” mascarado pelo patriotismo triunfante que o esporte ofereceu, a calhar, à ditadura dos militares.

Para esquecer a derrota, vão uma noitada com mulheres, durante a qual conhecemos Sergio Mesiano, filho do chefe, quase um pateta. Não sabe dizer ao recruta o que aconteceu no jogo, porque não entende o futebol. Depois da noitada, viaja mordendo os lábios no carro, como se algo estivesse errado. Vão a Quilmes, cidade da província de Buenos Aires, onde se decidirá quem terá direito ao próximo bebê roubado.

O encontro entre o “doutor” Mesiano e o “doutor” Padilla (o que havia telefonado para fazer a pergunta) nos dá a chave do acontecido. Uma mulher, ao fundo, grita, pede ajuda. Acaba de dar à luz. Está à beira da morte, como resultado da tortura. Mas tudo isso chega a nós sem sentimentalismo, sem arroubos retóricos, sem tom de denúncia. Chega quase como um fato banal porque, afinal, percebemos o horror pelos olhos do cúmplice.

Corte, flash forward. Quatro anos mais tarde, também em junho, o recruta lê uma lista em que aparecem os mortos na guerra das Malvinas. Encontra o nome de Sergio Mesiano. A ironia é atroz: provavelmente morreu numa ilha que ele não saberia localizar num mapa. O ex-recruta, agora estudante de medicina visita seu antigo patrão, recebe o recado de que ele está na casa da irmã, num churrasco. Parte para lá e vê o garoto, “Antonio”, o bebê roubado. A mulher dá cantadas baratas no recruta, avisa que o marido viaja muito. O “doutor” Mesiano avisa que se aproximam tempos difíceis: ele já percebe que a ditadura tem seus dias contados. Também é dia de jogo contra a Itália, pela Copa de 1982, na Espanha. Outra derrota argentina.

Depois do abraço de despedida no ex-patrão o recruta sai, liga o rádio do carro e observa que não consegue se lembrar bem dos seus sonhos. Fim da história.

A literatura argentina dos anos 80 e 90 foi rica em romances sobre o descalabro vivido pelo país entre 1976 e 1983. O regime militar argentino matou ou “desapareceu” mais de 20.000 pessoas em sete anos, cifra que faz a ditadura de Médici parecer brincadeira de criança. Mas a maioria dos textos argentinos sobre o período foram grandes máquinas alegóricas ou relatos testimoniais verborrágicos, retóricos, indignados.

Kohan faz algo que nunca se havia feito: coloca a voz narrativa na boca de um recruta, um cúmplice que não é um ideólogo, mas um subalterno. Eu me apaixonei por esse livro porque ele trabalha tão bem essa voz, a do subalterno. Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade.

A forma do romance é coerente com a escolha da voz: são pequenos parágrafos com frases curtas, secas. Há toda uma poética, uma estética anti-sentimental e poderosamente política nesse livro. O recurso ao futebol, apesar de revelar o seu papel como mascaramento patrioteiro dos horrores da ditadura, não repete o surrado clichê do “esporte como ópio do povo”. Pelo contrário: é ali, no momento de derrota futebolística, que a verdade suja da sociedade se faz visível ao leitor.

Enfim, fiquei fã do autor. E aproveito este post para parabenizar a Amauta pela iniciativa e o tradutor e editor Marcelo Barbão, por disponibilizar ao público brasileiro esse texto tão poderoso, vindo do país que produz uma das mais ricas literaturas do mundo.

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

E quero saber, claro, o que vocês acharam do livro. Digam lá.

Atualização: Amanhã estará no ar a entrevista com Martín Kohan.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (40)



terça-feira, 06 de junho 2006

Clube de Leituras e novos blogs

kohan.jpg

Como vai a leitura aí? Gostando?

Confirmo que na quarta-feira à noite eu deixo aqui um pequeno texto com alguns comentários sobre o romance Duas Vezes Junho, de Martín Kohan, e na quinta-feira vocês se encarregam da discussão. Combinado?

E aí, vamos ter fôlego para encarar Grande Sertão: Veredas durante a Copa? Quem vai ler mesmo? De quanto tempo vocês precisam?

******************

Aproveito para recomendar alguns blogs, a maioria novos:

1. O Hermenauta, que me recorda um blog do qual eu gostava muito, não me lembro bem qual.

2. Um novo, excelente blog sobre artes: com vocês, Quintarte.

3. Não tem Folha nem Globo. A melhor cobertura das eleições peruanas quem fez foi o Tordesilhas.

4. Um dos meus colunistas favoritos em todo o jornalismo brasileiro, o Marcelo Coelho, da Folha, inaugurou um blog.

5. Ainda na turma da Folha, o Luis Nassif, que escreve sobre economia e sobre choro (que combinação!), já tem blog. Qualquer dia desses a Folha vira blog.

6. Forma mais original e engraçada de se organizar um blogroll: o argentino Monolingua (vejam que piada o link para o Biscoito).

7. Quem gosta de literatura latino-americana não deve perder este blog: El boomeran(g).

Atualização: Ficou pronta a entrevista com Martín Kohan, que será publicada logo depois da discussão.



  Escrito por Idelber às 02:04 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 30 de maio 2006

Lembrete: Duas Vezes Junho

Eu comecei a reler Duas vezes junho. Já tinha me esquecido de quanto eu gosto desse romance.

Novidades para o Clube de Leitura:

1. Troquei emails com o autor do livro, Martín Kohan. Amabilíssimo, se dispôs a me conceder uma entrevista e acompanhar as discussões aqui no blog. Preferem que eu publique a entrevista antes da discussão ou depois, para não interferir ou influenciar na leitura? Em tempo: há boas entrevistas com Martín Kohan aqui e aqui.

2. Quem me escreveu também foi o Marcelo Barbão, tradutor do livro ao português e editor na pioneira Amauta. Dei-lhe os parabéns pelo desbravador trabalho de tradução de literatura hispano-americana que a editora tem feito, mas de todas formas aqui vai o reconhecimento público. A Amauta está fazendo o que já clamava por ser feito: possibilitar ao público leitor brasileiro um mínimo de contato com a riquíssima literatura dos países vizinhos. Portanto, quem for criticar a tradução do romance de Kohan, faça-o com elegância. O tradutor está olhando :-)

3. O grande Mauro Amaral fez, não um, mas dois selinhos para o Clube. Tem uma versão dark e uma versão colorida. O permalink aos posts relacionados ao Clube já está embutido. Usem a que preferirem:

selinho2_idelba.jpg


selinho_idelba.jpg
.

Muitíssimo obrigado, Mauro!

Então, só para confirmar: a data da discussão é 8 de junho, véspera da abertura da Copa. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Quem preferir ler o original em castelhano pode adquiri-lo na Prometeo ou na Cúspide (dicas do Alex Castro), ou na Bigger Books, que entrega aqui nos EUA (dica do Fábio Sampaio).

Antes do dia da discussão, vou fazer um contato com alguns blogs argentinos, para que eles venham aqui participar da brincadeira ou repercutam lá nos seus blogs.

E aí, quem já adquiriu, encomendou ou começou a ler o livro?

PS. Excelente blog uruguaio: Criticar es fácil.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (30)



sexta-feira, 26 de maio 2006

Decidido: Calendário do Clube de Leituras

Ok, depois de ouvir todo mundo e ponderar os prazos para o nosso Clube de Leituras, proponho o seguinte:

Discutiremos, sim, Grande Sertão: Veredas, mas em meados de julho, depois da Copa. Comecem a ler desde já, porque a jornada é longa.

Para esquentar os tamborins deixamos marcada para 8 de junho, quinta-feira (daqui a 14 dias) uma discussão sobre Duas vezes junho, de Martín Kohan. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Este romance é uma publicação da Editora Amauta e custa só 25 reais.

Eu acho que vocês vão gostar. E é apropriadíssimo que o discutamos na véspera da abertura da Copa, já que a história tem lugar durante as Copas de 1978 e 1982. Quem não gosta de futebol, não se preocupe: não é um romance sobre futebol, necessariamente.

Até o dia 08 de junho eu acho que posso conseguir uma entrevista com o autor e quem sabe até convencê-lo a aparecer por aqui.

Agora só precisamos de um selinho para o Clube. Eu já contactei o Mauro, mas ainda não tive resposta. Se alguém se animar e fizer o selinho primeiro, a gente usa.

Então, dia 8 de junho, aqui no Biscoito, Duas vezes junho, disponível na Cultura e na Saraiva.

Conto com todo mundo para encomendar o livro, começar a ler e ajudar a divulgar? Tudo bem assim?



  Escrito por Idelber às 16:43 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 25 de maio 2006

Sobre o clube

Vários amigos passaram por aqui e toparam a idéia do clube de leituras.

O livro mais votado foi Grande Sertão: Veredas. Para mim não seria problema, é um romance que eu já li umas quatro vezes.

Mas estou em dúvidas sobre se conseguiríamos mesmo encarar esse livro em véspera de Copa do Mundo. A minha idéia inicial era decidir e aí dar duas semanas para que todos lessem o livro.

Mas com GSV, claro, seria necessário mais tempo, o que nos coloca já dentro da Copa.

Outras sugestões que rolaram: A cidade ausente, de Ricardo Piglia; Zama, de Antonio di Benedetto; Wasabi, de Alan Pauls; Duas vezes junho, de Martín Kohan; Um artista aprendiz, de Autran Dourado; Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.

Tirando este último, todos os outros são livros relativamente curtos.

Ponderem o que eu disse aí sobre os prazos, a dificuldade do texto, e tudo mais, e aí me digam: com qual ficamos?



  Escrito por Idelber às 23:57 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 24 de maio 2006

Enquete sobre um possível clube de leituras

Um dos planos meus é falar mais de literatura aqui no blog, então eu queria deixar uma perguntinha. Suponhamos que decidíssemos montar um grupo de leitura no Biscoito, nos moldes do clube que o Alex Castro montou uma vez, e que foi muito bem-sucedido na primeira discussão (Crime e Castigo).

Qual obra literária, brasileira ou estrangeira, antiga ou contemporânea, você gostaria de ler e discutir comigo e com os outros leitores?

Não vale nada de mais de 400 páginas, porque já se viu que se o livro for longo demais não funciona. Pode ser algo que você já leu e gostaria de discutir, ou algo que não leu e tem vontade de ler.

É isso. Quem sabe a gente não começa a ler umas coisas juntos. Digam lá.

PS: Parabéns, parabéns, parabéns às Duas Fridas pelo segundo aniversário do blog! A festa é neste 27 de maio, sábado, aí na Cidade Maravilhosa. Se quiser ir, escreva para a Monix ou a Helê.



  Escrito por Idelber às 22:56 | link para este post | Comentários (31)