
Hoje eu li um livraço: Tocquevilleanas: Notícias da América, de Roberto DaMatta (Rocco, 2005), uma coletânea de artigos sobre os EUA, publicadas no Jornal da Tarde e no Estadão entre 1993 e 2004. Para quem não sabe, DaMatta é um dos principais, senão o mais ilustre antropólogo de Pindorama. Ao contrário dos antropólogos que preferem estudar índios, DaMatta fez a carreira estudando os mitos dos quais somos feitos: o Carnaval, o futebol, a cordialidade, o "jeitinho", a malandragem. Sua obra mais conhecida é o clássico Carnavais, Malandros e Heróis.
Como eu, DaMatta vive entre o Brasil e os EUA, já que está vinculado à bela universidade (católica) de Notre Dame, situada no cu do mundo chamado South Bend, Indiana (desculpe, Roberto, mas aquilo é cu do mundo mesmo).
Lendo o Roberto eu tenho uma curiosa sensação: concordo com tudo o que ele diz sobre os EUA e discordo de tudo o que ele diz sobre o Brasil. Isso não surpreende, dado que o autor é assumidíssimo admirador da tucanagem. A antropologia comparada do Roberto me deu a idéia de desenterrar, aqui no blog, 15 anos de anotações minhas sobre as diferenças e semelhanças entre os EUA e o Brasil. É tema fascinante e explosivo, que mexe com as entranhas de todo mundo.
Em primeiro lugar, uma palavra sobre o expatriado. O expatriado é um ser que nunca voltará ao lugar do qual saiu. Uma vez abandonada a pátria, babau. Você pode até desistir da empreitada e voltar, mas não se iluda com a idéia de que voltará ao país onde vivia antes. Aquele não existe mais. Sua percepção está para sempre afetada pela saída.
O expatriamento mexe com as vísceras e produz terríveis distorções de percepção. A não ser nos casos de exílio, claro, todo mundo que sai o faz porque quer, mas esse querer está sempre misturado com outras emoções. Vacilos, dúvidas, culpas vão produzindo uma racionalização da saída, através da qual a pátria deixada para trás se transforma num inferno do qual se escapou ou num paraíso perdido.
Em 15 anos de EUA já encontrei brasileiros em crise de depressão porque nos EUA não existe coxinha de galinha nem guaraná. Já encontrei um brasileiro em choro convulsivo porque não há Bombril nos EUA (meu Deus, como é possível viver sem Bombril?).
As opiniões dos expatriados sobre seus países de origem em geral são radicais, absolutas, taxativas. Já encontrei brasileiros que sustentavam piamente que nenhum carioca pode sair às ruas sem levar bala na cabeça; que todo homem brasileiro é machista; que nenhum brasileiro branco tem consciência da desigualdade racial do país; que o sistema educacional brasileiro é o pior do mundo; que os professores universitários brasileiros passam fome e que nas universidades brasileiras não há giz nem carteiras. E por aí vai.
No outro extremo, já encontrei expatriados que defendem que não há amizade nos EUA como no Brasil; que só no Brasil há companheirismo de verdade; que no Brasil brancos e negros convivem em harmonia e não há racismo; que tudo no Brasil é informal e doce.
Todas essas opiniões tomam algum aspecto verdadeiro da realidade e o mulplicam, distorcem, absolutizam. A idéia desta série que estou inaugurando hoje é fazer umas ponderações sobre esses mitos, sem deixar de notar as diferenças que acredito serem reais.
Uma delas é o olhar. Uma das coisas que me alegram ao chegar de volta ao Brasil é estar de novo num lugar onde as pessoas se olham na rua. Uma velha conhecida minha, baiana, ao comprar seu primeiro carro, me confidenciava: "Idelber, é muito legal! A cada semáforo alguém te paquera!"
Eis aí uma cena impensável nos EUA, a paquera no semáforo. Sem querer generalizar, uma adaptação curiosa que os professores estrangeiros têm que realizar nos EUA é acostumar-se com a idéia de que uma vez terminado o semestre, o aluno com o qual você trabalhou durante quatro meses cruzará com você no campus, mas não mais o olhará. Durante o semestre, sim, depois não. Não é que ele o ignore. Ele simplesmente não vê. Gastei anos para aceitar que era isso mesmo, até que dezenas de outros colegas, norte-americanos e estrangeiros, me relataram a mesma experiência. O sujeito não vê. Olha para adiante com aquele olhar vazio do qual só são capazes os norte-americanos.
Os olhares oblíquos, com double entendres, irônicos são raríssimos nos EUA, e em geral restritos aos ambientes mais cosmopolitas e povoados de estrangeiros. Roberto DaMatta notou o mesmo fenômeno: Nos Estados Unidos, não existe esse contato visual que nós, os antigos, chamávamos de flerte (pag.26). Roberto exagera, pero no mucho.
O olhar do centroavante que avisa ao cobrador do escanteio onde ele quer a bola não tem equivalentes nos esportes americanos.
O norte-americano é um ser que caminha olhando para um horizonte vazio.
Talvez isso tenha alguma relação com o fato de que tantos norte-americanos, depois do 11 de setembro, se perguntavam: Por que eles nos odeiam se somos tão bonzinhos e estamos sempre ajudando os outros países?
Atualização às 14 h: Como o assunto dá pano para manga, esclareço o que estou dizendo e o que não estou dizendo: Não estou dizendo que nos EUA as pessoas não se olham. Não é isso. Inclusive, em várias partes do país (como no Sul) é comum ocorrer algo difícil de se ver no Brasil, que é o "good morning" na rua, gratuito, a estranhos. Coisa bonita. E acho que o Roberto exagera quando diz que não há flerte nos EUA. Mas há uma gama de jogos de olhares oblíquos, irônicos, com duplo sentido, muito comuns entre nós, que são raros nos EUA. Na fórmula de Caetano: lá "branco é branco e preto é preto".