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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 02 de abril 2007

Agora vai

cigarettes.jpgAquele que é atualmente o meu blog brasileiro favorito, o Contemporânea, publicou um post recomendando “O Último Cigarro”, novela recente de Henri-Pierre Jeudy publicada aí no Brasil pela Editora Sulina. O post da Carla veio bem a calhar porque esta é a semana em que vou ganhar essa batalha; estou convicto.

Não sei se vou reviver a Fenomenologia da Fumaça aqui no blog, porque afinal de contas quem já traiu o apoio dos leitores uma vez (até um leitor de direita que me enviava “hate mail” tinha vindo se solidarizar), não tenho cara-de-pau de pedir ajuda aqui de novo. Mas enfim, aos 38 anos de idade, 23 de fumante, filho de pai morto de câncer aos 59, a hora é agora. Sim, Biajoni, Rafael, Nelson, Renata: abandoná-los-ei. Sem virar um ex-fumante chato, obviamente.

Aproveitei o ensejo para revisitar um dos meus livros favoritos. Se você entende inglês, leitor (fumante ou não), adquira em algum momento essa obra-prima: Cigarettes are Sublime, de Richard Klein. É a melhor resposta para quem diz que a crítica literária não anda produzindo nada de interessante.

A história de Richard é incrível: ele havia chegado ao topo da profissão de professor universitário sem jamais escrever um livro. Construiu sua reputação escrevendo artigos, fundando revistas, organizando antologias e dando palestras pelo mundo. Chegou a professor titular de literatura francesa em Cornell University, uma das universidades mais prestigiosas dos EUA. Fundou diacritics, a revista que foi o ó do borogodó em teoria literária nas décadas de 80 e 90. Mas nunca havia escrito um livro.

Até que a pressão se tornou insustentável: Richard, você tem que escrever um livro. Ele aproveitou a luta contra o cigarro e produziu um belíssimo tratado sobre a mortalidade, alinhavado por uma análise do papel do tabaco na cultura ocidental, uma leitura de seu lugar no cinema de Hollywood, uma avaliação do seu estatuto simbólico no existencialismo e uma interpretação daquele que é o grande romance moderno sobre o último cigarro, A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Traduzo do livro de Richard:

Fumar cigarros está permanentemente associado à idéia de suspender a passagem do tempo ordinário e instituir um outro, mais penetrante, em condições de resignação e indiferença luxuriosa, pelas quais a sensibilidade poética sente irresistível atração (p. 8)

A introdução do tabaco na Europa do século XVI correspondeu à chegada da Era da Ansiedade, o começo da consciência moderna que acompanhou a invenção e a universalização dos livros impressos, a descoberta do Novo Mundo, o desenvolvimento dos métodos científicos, racionais e a conseqüente perda das certezas teológicas medievais (p.27)

O cigarro encontra condições propícias em tempos de crises políticas ou tensão social. No entanto, somente no Segundo Império Luis Napoleão, um usuário compulsivo de todos os tipos de tabaco e homem de cinqüenta cigarros por dia, legitimou o seu uso pela aristocracia. James B. Duke e sua máquina depois o tornariam democrático (p.41)

Até hoje, em muitos países, qualquer um, de qualquer classe, pode solicitar fogo a qualquer outro, e o pedido de um cigarro nunca é recusado. . . O mais miserável mendigo tem direito de pedir fogo ao rei, e ele não poderá recusar (p.86).

O paradoxo de Zeno explica o delicioso gosto que tem, depois que você começou a parar, aquele cigarro que você fuma para provar que é livre para fumar sem se viciar de novo
(p. 98)

No prefácio, Richard explicava porque a escrita desse livro havia sido decisiva para sua vitória definitiva contra o cigarro. Se há algo que qualquer fumante ou ex-fumante sabe, é que não há receita universal: cada um tem o seu método. O de Richard foi fazer uma análise minuciosa do cigarro em suas dimensões literária, histórica, cinematográfica. O prefácio é eufórico. Exala um odor de missão cumprida. O livro foi um sucesso estrondoso e é até hoje o volume mais vendido de todo o catálogo da prestigiosa editora universitária de Duke.

Dois anos depois, estive com Richard e lhe dei os parabéns. Ele abriu um sorriso, agradeceu, enfiou a mão no bolso, tirou um cigarro e acendeu. Havia voltado a fumar.

O que não acontecerá com este blogueiro.

Atualização: Extra! Extra! Existe edição brasileira do livro de Klein: Cigarros são sublimes, publicado pela editora Rocco (valeu, Bruno!)



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (20)



domingo, 01 de maio 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 9 - Balanço Parcial

cigarro.jpg

Um dos mais talentosos escritores da nova geração, Luiz Biajoni, visitou esta fenomenologia da fumaça na sua segunda semana (ainda na velha casa, no UOL) e deixou o seguinte relato:

A mãe de um amigo, a dona Nico (não sei o nome, todo mundo chama ela assim) foi internada para cirurgia cardíaca, fumava dois maços por dia. internou dois dias antes para remédios, desintoxicar, etc... na noite anterior à operação ela saiu de fino do hospital, fugiu prum boteco... se empanturrou de coxinha e croquete e fumou uns PAR de cigarro. voltou com o maço para o hospital. lá pelas tantas, deu vontade de fumar. mas ela esqueceu os fósforos! saiu pelo hospital caçando fósforos. foi encontrada sentada num corredor, cigarro na boca, esfregando duas pedrinhas perto do algodão com alcool que tinha sido colocado na veia dela, junto com o soro. não é piada! é real!


Assim como no relato contado por Biajoni, em muitos outros nós vemos essa figura, o fumante reduzido à lama da lama. Guimbas catadas no chão, cigarros filados por qualquer motivo, tosse e mais fumaça na madrugada, pacientes terminais no hospital fumando cigarros pelo orifício do tubo alimentar.

Faz dois meses e meio que deixei de fumar e iniciei aqui uma espécie de relato periódico da experiência. Na semana passada tive recaídas com dois ou três cigarros “de festa”. Nesta semana aconteceu de novo: dois cigarros na quarta-feira (comemoração do final das aulas) e mais dois cigarros na sexta-feira (crawfish boil, festa com lagostins cozidos num panelão, tradição de New Orleans).

O paradigma é claro: tenho segurado bem a onda, contanto que não me aproxime de um bar ou de uma festa. Morando numa cidade que é pura celebração o tempo todo, a tarefa fica duplamente difícil.

Como, a partir de agora, com o fim do semestre letivo, eu estarei em mais festas do que tem sido o caso, há motivo para muita preocupação.

Mas também há algo para se comemorar. No começo do ano eu tinha muito desejo de deixar de fumar, mas o semestre que se avizinhava incluía cinco ou seis viagens para dar sete ou oito palestras sobre temas diferentes, dois cursos bem puxados, uma infinidade de obrigações administrativas na universidade, uma série de compromissos com editoras e revistas, oito ou nove alunos de doutorado fazendo tese comigo, um blog que estava crescendo muito e, para completar, uma casa inteira para transferir para o Brasil, por um ano. Mesmo assim resolvi encarar a tarefa, com a ajuda de vocês e do blog.

A grande notícia é: eu consegui!

A péssima notíca é: eu continuo morrendo de vontade de fumar em todas as festas e reuniões onde se consome cerveja. Não, eu não aceito abrir mão da minha cerveja. Aí já seria demais.

A perpectiva complicada é que, em Belo Horizonte, apesar de que eu possuo minha própria casa (paraíso-zinho reservado para mim, Alexandre e Laura, meus filhos), boa parte das refeições, reuniões de família para futebol e outras coisas são feitas na casa de minha mãe e de meus irmãos, todos eles fumantes inveterados. Na casa de minha mãe até o cachorro fuma. Manter minha resolução significará reduzir drasticamente o tempo passado na casa da família, ou sucumbiria, especialmente estando de sabático (‘férias”) e não tendo obrigações de trabalho imediatas para cumprir.

Então esse é o estado da coisa, caro Artemus, caro Tabac. Resolvi dar um tempo das elocubrações “teóricas” que tem acompanhado esta fenomenologia (voltarei a elas) e fazer um balanço real:

75 dias sem fumaça, excluídos aí aproximadamente sete ou oito cigarros fumados nos últimos quinze dias.

A alimentação continua cada vez melhor e mais variada, e a comida continua recuperando o gosto. Já consigo diferenciar até mesmo a couve do almeirão, coisas que para mim eram indistinguíveis a não ser pela visão. Texturas que antes eram imperceptíveis começam a conversar com meu paladar.

Cabelo, barba e tudo mais continuam recuperando o cheiro que deveriam ter tido desde sempre.

As energias corporais várias continuam na ascendente.

Mas por alguma razão, minha atitude neste momento é de um otimismo bem moderado e bem parcial.

Durante os próximos 28 dias, terei que fazer o que não faço há três anos: desmontar uma casa, enviar ao Brasil o que tem que ser enviado, estocar o resto e preparar tudo para que eu possa trabalhar, blogar e curtir meus filhos em Belo Horizonte pelos próximos 8 meses. Será um período de certa tensão e muita correria. Será importante não ceder à tentação do cigarro antes da viagem, porque durante a estadia em BH ela será muito, muito grande.

Apesar de que New Orleans é uma cidade muito festiva, é bem mais fácil manter a resolução aqui do que no Brasil, onde a tendência é estar rodeado de amigos fumando. Ainda não eliminei a possibilidade de recorrer ao tal do Zyban, que dizem que é poderosíssimo. Veremos.

A citação do dia vem de Arturo Toscanini, e é das mais inspiradoras: Beijei a minha primeira garota e fumei meu primeiro cigarro no mesmo dia. Desde então não tive mais tempo para o cigarro.



  Escrito por Idelber às 02:47 | link para este post | Comentários (33)



quinta-feira, 14 de abril 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 8 – O Estatuto do Cigarro no Existencialismo

sartre.jpg

Balanço catastrófico da última semana:
1. Sexta à noite: 3 cigarros (culpa dos doutorandos maravilhosos de Rutgers e do prazeroso jantar .... ou seja, fora de brincadeira, culpa minha)
2. Sábado à noite: 2 cigarros (Graciela Montaldo tentou evitar)
3. Domingo: nenhum cigarro
4. Segunda: um cigarro
5. Terça: um cigarro
6. Quarta: nenhum cigarro

Estamos em meio à uma severa recaída: a operação ilusória da cabeça do viciado replica-se na repetida ilusão: vou fumar só um cigarrinho filado do amigo e amanhã não fumo mais. Justo ao terminar de ler o potente Consciência de Zeno, caí na dialética do personagem de Svevo: acreditar que se está fumando o último cigarro é um pré-requisito para fumar o próximo. O vício reproduz-se através da crença de que foi superado.

Soem as trompetas, caros Cigarro e Silêncio, Tabagista Anômimo, Quando, Onde e Como. Houve recaída no Biscoito.

Vamos exorcizar a recaída com um post sobre o cigarro na obra de Jean Paul Sartre.

Por que Sartre?

Lembrei-me dele porque 1) foi um dos filósofos mais viciadaços em cigarro; 2) deu à fumaça uma razoável importância em sua principal obra; 3) é um dos filósofos caluniados pelo sr. Olavo que – sem indicação, obviamente, de haver lido nenhum desses sessenta livros de autoria do pensador francês – dá-se o direito chamá-lo de “palhaço”, sem citar nada.

Jean Paul Sartre foi– sabe-lo-á boa parte do leitorado do Biscoito – pilar do pensamento do século XX, como romancista, dramaturgo, filósofo, cronista, crítico literário e panfletista. Sartre faz a transição entre o pensamento de Martin Heidegger (no qual ele vai buscar o postulado da primazia da existência sobre qualquer transcendência) e o humanismo pós- guerra, do qual ele mesmo é o maior representante. Sartre também é símbolo do engajamento (palavra que ele reinventou) dos intelectuais na crítica ao colonialismo. Com Huis-Clos, definiu o teatro de uma época. Com O Idiota da Família, fez (sobre Flaubert) um dos mais obsessivos estudos de um escritor jamais feitos. Com A Náusea, definiu as pautas do romance de toda uma geração francesa. E por aí vai.

Hoje estou interessado só num parágrafo de sua maior obra filosófica, L’être et le neant (O Ser e o Nada):

Na medida em que apareço a mim mesmo como criador dos objetos através da apropriação, estes objetos são eu. A caneta e o cachimbo, as roupas, a mesa, a casa são eu. A totalidade de minhas posses reflete a totalidade de meu ser. Eu sou o que tenho (Paris: Gallimard, 1943, p. 652; tradução minha).

O objetivo de Sartre aqui é criticar, claro, a identificação burguesa entre ser e ter, entre posses e existência, entre ontologia e economia. Mas o curioso é que ao dar exemplos de objetos apropriáveis, ele sempre repete o cachimbo:

O cachimbo está ali, sobre a mesa, independente, indiferente. Pego-o em minhas mãos. Sinto e contemplo para realizar a apropriação.

Por outro lado, ao cigarro, à fumaça do cigarro, Sartre recorre para exemplificar o inapropriável : ao contrário do cachimbo, o cigarro não persiste. Nada permanece uma vez cumprido o ritual do vício. A evanescência não é apropriável; ela não entra na coleção de objetos dos quais o sujeito se apropria no seu processo de constituir-se enquanto tal. O cigarro entra pela porta dos fundos da filosofia, não tem a dignidade do cachimbo, ainda que o filosófo que haja consagrado essa hierarquia tenha sido um viciadaço em cigarros. A grande contradição: Sartre não teria escrito o teba do volume se não fosse pelos trocentos cigarros que fumou no processo.

Em outras palavras, para o existencialismo o cigarro é um fantasma que não cabe na filosofia. Ao contrário do cachimbo, o cigarro não é um dado catalogável na realidade objetiva enquanto tal (ontologia) nem é objeto de relação nossa com o mundo (fenomenologia).

Nessa obra capital intitulada O Ser e o Nada, a fumaça é a única que não cabe em lugar nenhum: ela é menos que o Ser e mais que o Nada. Nem aparência nem essência. A fumaça é uma espécie de escandaloso fantasma, espectro.


PS: A blogueira Giulia está completando quatro dias sem fumar e com certeza apreciaria uma força, uma palavra amiga de quem quiser passar lá.



  Escrito por Idelber às 04:08 | link para este post | Comentários (37)



quinta-feira, 31 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça - Semana 7

WTC-smoke.jpg

(frase da semana, H.L. Mencken: I never smoked a cigarette until I was nine)

São 45 dias desde que parei de fumar.

Não posso começar esta sétima semana da fenomenologia falando de Svevo e do cigarro como metáfora da evanescência, ou da relação entre masculinidade e cigarro em Hollywood , sem mencionar um fato, que se desdobra em duas notícias: uma péssima e uma ótima.

A péssima notícia é que no último sábado, em meio a uma embriaguez que foi de única e exclusiva responsabilidade de uma certa advogada de olhos azuis que, no bar, comigo, torcia pelos vitoriosos Tar Heels da Universidade da Carolina do Norte nas semifinais do basquete universitário deste ano, eu fumei dois cigarros.

Isso foi só o começo do pecado.

Mas foi a única parte que me fez, no outro dia de manhã, sentir-me como um reles fracassado membro desta pobre raça de seres da periferia da via láctea. Desmoronei de tanto vomitar e passar mal, além de, pela primeira vez na vida, ter uma garganta inflamada não por infecção ou gripe mas por uma sujeirada cigárrica. Essa é a notícia.

A absurdamente alegre notícia é: a fumada não provocou sensação de realização de nenhum desejo assim tão transcedental. De tarde, depois dos vômitos e do almoço, eu já estava bem, sem vontade de fumar e recuperado do piripaco que o cigarro produziu em meu organismo (com a exceção da minha garganta, que gastou mais 24 horas para sarar). Vão lá seis dias sem vontade de ir atrás de cigarros.

A partir dessa experiência não há como não notar uma diferença: em todas as minhas anteriores paradas, o cigarro que acontecia no bar era encarado como uma recaída. Daí em diante era a dialética do Svevo: acreditar que você está fumando um cigarro de livre e espontânea vontade é só uma desculpa para você acender o próximo. É aquela maravilhosa frase de Jim Jarmush (traduzo): A beleza da coisa é que, agora que eu parei, eu posso fumar um cigarro porque, afinal de contas, eu parei. Quando você cai na sedução desta frase, você já voltou a fumar.

Por isso o Biscoito se mantém alerta, não comemora nada, continua lendo Svevo, está tranqüilo e muito otimista com os últimos dias. Os planos para as próximas semanas da fenomenologia da fumaça são:

1) Uma análise do porquê de a Consciência de Zeno ser o cume do romance vanguardista. A hipótese é: a fumaça é a perfeita metáfora para aquilo que os modernistas buscam, ou seja, uma imagem que represente o efêmero, o evanescente.

2) Uma análise do lugar contraditório e absurdo do cigarro no existencialismo. Ao mesmo tempo em que, em O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre usa e abusa da metáfora da “fumaça” para descrever aquilo que não tem importância, que não tem concretude, que não tem realidade, que se dissolve, ele escreve todo o raio do livro fumando um cigarro atrás do outro. Ou seja, incoerentemente teoriza o inessencial-qua-fumaça enquanto a fumaça de seus cigarros confere ao livro seu alicerce mais essencial.

3) Uma análise da relação entre o cigarro e a morte do pai na cultura moderna.

4) Uma análise da relação entre o cigarro, a independência da mulher e a figura da femme fatale na cultura do século XX.

5) Uma análise da relação entre o cigarro, o pau e o falo na cultura inagurada por Freud (entendendo-se, claro, que no freudismo pau e falo não são a mesma coisa).

6) Uma crítica do discurso religioso, catequisador, californiano sobre a saúde, que pode parecer, meus amigos ex-fumantes, ser um discurso aliado neste momento, mas não o é, como o mostra este livro.

Em outras palavras: o blogueiro vai bem. Fumou dois cigarros na celebração esportiva, mas está otimista. Mas toda vigilância é pouca. Os próximos dois meses, de transição de New Orleans a Belo Horizonte, serão decisivos. Ainda não ouso, depois de 45 dias, enunciar a frase Parei de fumar. Poderei algum dia?



  Escrito por Idelber às 22:15 | link para este post | Comentários (31)



terça-feira, 22 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 6 - Esses fumantes incríveis e suas citações maravilhosas

Três citações. A primeira pró-tabagista, a segunda anti-tabagista, a
terceira aterrorizante.

Respondeu uma vez Groucho Marx, quando perguntado sobre ter que escolher entre sua esposa e o tabaco: seremos bons amigos!

Disse uma vez Arturo Toscanini: Beijei a primeira garota e fumei meu primeiro cigarro no mesmo dia. Desde então não tive tempo para
cigarros
. Esperto o Toscanini, vai dizer?

Mas a mais incrível é de Buck Henry: Eu parei de fumar há alguns anos para demonstrar minha força de vontade, protestar contra o aumento grotesco nos impostos sobre o cigarro e porque meu lábio inferior caiu. Se eu sinto falta do cigarro? Honestamente? Mais do que do lábio que caiu!

Este blogueiro completa 40 dias sem fumaça e saúda a volta do fantástico Tabagista Anônimo, link que nos chega via Cigarro e Silêncio.

Continuo lendo o extraordinário Consciência de Zeno, o romance modernista fundamental de Italo Svevo sobre o(s) último(s) cigarro(s).

É lindo demais escutar Nora Ney cantando De Cigarro em Cigarro.

PS: Acabo de confirmar passagem para terra brasilis!! Chego a Belo Horizonte dia 28 de maio. Saravá pão-de-queijo! Veja bem como são os bons fluidos em volta da gente: telefono para a American Airlines para comprar a passagem mais complicada da minha vida. Descubro que tenho direito a uma passagem grátis por milhagem. É mole? Iu-hu!!! A primeira viagem dentro do Brasil será dia 20 de junho, a Araraquara, para uma reunião de especialistas na obra de Jacques Derrida. Dizem que há blogueiros que lá irão, apimentar o encontro. Muito se pode dizer sobre a relação entre a desconstrução, o pensamento de Jacques Derrida, e a fumaça: o evanescente, o intangível, o que se queima e se mistura no ar. Já falaremos mais disso. No dia 29 de junho, festa em BH, lembrança definitiva de porque parei de fumar: sexto aniversário da mulher mais importante da minha vida, Laura.



  Escrito por Idelber às 17:21 | link para este post



domingo, 13 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 5

Como já sabem os que frequentam a casa há mais de uma semana, este blog é também uma operação de reflexão
[link]
sobre um vício e um instrumento de abandono dele. Na semana passada
começávamos nossa análise do grande romance moderno sobre o cigarro (e
especificamente sobre o *último* cigarro, os *vários últimos* cigarros
fumados pelo narrador): A Consciência de Zeno
[link],
de Italo Svevo. Víamos como o cigarro ali está ligado *à morte do pai*,
momento chave na vida de dois entre cada três fumantes. No romance de
Svevo o cigarro assume o caráter de metáfora, de imagem complexa da
vida. Paulatinamente recebe uma série de contraditórios atributos.
Falarei mais desse romance tão chave no alto modernismo europeu na
semana que vem, mas hoje faço um post mais confessional, porque chegou o
momento de um balanço:

Dias sem cigarro: *30*

Jarras de amendoim consumidas: *18*

Quilos de pistacchio comidos: *1.5 kg*

Caixas de Trident menta mascadas: *2,5 mega-caixas*

Caixas de chocolate Nestlé comidas: *16 caixas de 10 barras cada*

Sacos de chocolatinhos Hershey’s consumidos: *12*

Drogas ilegais consumidas: *nenhuma*

Droga farmacêutica consumida: *um analgésico duas vezes* (na época em
que a ausência da nicotina provocou dores horríveis no tecido estomacal,
como de costume na fase que começa na 2ª e termina na 3ª semana)

*Novidades incorporadas ao cardápio*:

1. mangas, uvas, pêras, ameixas, não muito presentes antes;

2. preferência pelos cozidos e pelas receitas mais molhadas (frango
ensopado em vez de assado, por exemplo);

3. substituição do suco de laranja (muito ácido) pelo suco de maçã nas
manhãs;

4. aumento do consumo de ovos;

5. freqüente acréscimo de uma refeição ao fim da noite

Favorecido por um bom metabolismo, só ganhei 0,5 kg. desde o dia do
abandono ao cigarro. O jantar de hoje (que cozinhei para uma convidada)
foi um fetuccini com brócolis e camarão. Senti nitidamente que havia
recuperado a sensibilidade ao *gosto* do brócolis. Incrível. É como
reencontrar uma velha prima que você nem sabia que era bonita. Mas nem
tudo são flores. O cérebro continua lento, disperso, incapaz de
multifuncionalidade. Ainda leio muito mal. Tarefas como pareceres ou
cartas de recomendação demoram, agora, o triplo do que demoravam antes.
Mas as dores passaram e as crises mais agudas de abstinência também.
Estou moderadamente otimista. Faltam ainda dois meses para bater meu
record. Mas o que ajuda neste momento é que eu estou piamente
convencido de que minhas tentativas anteriores de abandonar o cigarro
fracassaram porque *antes eu não tinha um blog*.

*PS de atualização, meio-dia de New Orleans*: De novo uma caixa de
comentários me comove. Muito obrigado. Este blog só tem cinco meses de
vida, mas possui os melhores leitores do mundo. Responderei os
comentários individualmente, como sempre, à noite. Saio agora para um
glorioso dia de sol na capital do jazz. A vida é bela. Axé babá. Para
quem perguntou: este blogueiro tem 1,72m e 64kg.

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  Escrito por Idelber às 03:26 | link para este post



domingo, 06 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça - semana 4

Fenomenologia da Fumaça - semana 4. O cigarro no romance modernista
europeu, parte I

Eu fumei de 1982 a 2005. Direto, com duas ou três paradas mixurucas.
Entro agora na *quarta* semana sem cigarro. O projeto é escrever a
ruptura com a fumaça em 52 capítulos. No primeiro post eu me propus a
tarefa, no segundo eu falei do leitor do blog como superego perfeito (e das suas diferenças com os superegos da era pré-blogs) e no terceiro eu descrevi o esmigalhamento, temporário, espera-se, da minha capacidade de concentração na leitura. Neste quarto eu vou explicar o termo “fenomenologia” e falar de um romance.

Ao contrário de “objeto”, ”fenômeno” designa a coisa tal como ela
aparece para nós (*phainomena* em grego relaciona-se com o verbo
aparecer, surgir *para* alguém). A *fenomenologia* aparece como ramo da
filosofia no momento em que esta, com Kant [link], decide que não pode conhecer a coisa em si. Neste sentido Kant é o fundador da fenomenologia. Esta ganharia estatuto de investigação filósofico-científica (*wissenschaftlich*) no século XX com Husserl
[link], pensador fundamental para várias disciplinas e várias correntes filosóficas posteriores. Dizer que o objetivo aqui é uma fenomenologia da fumaça, apesar da palavra pomposa, é uma forma de *não* ser pretensioso; falarei da sociologia, da estética, da história e da química do cigarro, mas jamais como especialista. A coisa será sobretudo uma descrição do que o cigarro tem sido *prá mim* (e, é lógico, com a caixa de comentários aberta para que os leitores digam o que têm sido prá eles).

A primeira parada é um livro ápice da tradição do romance fragmentário e reflexivo do primeiro modernismo. Falo do grande romance sobre o (último) cigarro: A Consciência de Zeno [link]
(1923), de Italo Svevo [link]. O cigarro
começa a existir na Europa, claro, justamente no momento em que o
*romance de desenlace *do folhetim começa a dar lugar ao romance sem
final definido, fragmentado do primeiro modernismo. Svevo era italiano de Trieste, amigo e interlocutor de James Joyce
[link] (que foi seu professor de inglês). Com *A Consciência de Zeno* ele leva, ao lado de Robert Musil e seu Homem sem Atributos [link], o romance
europeu modernista a seu último grau de *enlouquecimento
intelectualizado*. É aquele texto espedaçado da pós-primeira guerra,
onde o narrador já não tem a pretensão de certeza sobre nada do que
narra. Para muitos leitores, Musil e Svevo são 1000 páginas de viadagem, já que suas histórias não têm telos, não se chega a lugar nenhum. É a história anti-fálica. É o meu tipo de romance favorito, junto com o romance folhetinesco do século XIX.

Sobre o que é *A Consciência de Zeno*? Bom, sobre o(s) último(s)
cigarro(s) do narrador-protagonista. Dito assim, parece uma palhaçada, claro. Não é. O gênio de Svevo foi ver a fumaça na sua analogia com a literatura moderna: ambos são desvanescentes, não levam a nenhum lado, são pura perda, ambos são produtos de um mundo que se encurta. O narrador de Svevo fuma vários últimos cigarros e cada um deles só é *fumável porque concebido enquanto último cigarro*. Taí a dialética que o não-viciado não entende, até, pelo menos, que “o não-viciado” descubra qual é o seu vício e tente largá-lo. Aí essa dinâmica fica visível:
existe um momento em que *a tentativa de parar é condição onstitutiva
da continuação do vício*. Não é o caso deste blogueiro, que agora parou *mesmo*. Mas é o caso em Svevo, que contém uma verdade profunda que *me* pertence também. Há que se compreendê-la *bem*, sob pena de voltar a fumar.

Não voltarei às primeiras páginas de Svevo, mas sua lembrança é que aos 20 anos ficou muito doente. O pai tem uma importância central na cena.
“O médico disse que devia guardar cama e abster-me absolutamente de
fumar. Lembro-me desta palavra, *absolutamente*! Feriu-me, e a
febre-deu-lhe cor . . . Quando o médico me deixou, meu pai (minha mãe
havia morrido há vários anos) com um grande charuto na boca, ficou
fazendo-me companhia por um tempo. Ao ir embora, depois de ter passado a mão suavemente por minha testa ardente, disse-me: Não fume, hein!” .
. Bastava esta frase para que eu desejasse que ele fosse embora
imediatamente, para permitir-me correr ao meu cigarro. Eu chegava
inclusive a simular dormir para que ele fosse antes . . . Esta doença me proporcionou o segundo distúrbio: *o esforço de livrar-me do primeiro*”
(Tradução minha. Edição usada: *La coscienza di Zeno*, Torino, Einaude,
1987). E o que eu e o narrador de Svevo temos em comum? Muito, assim
como o mundo pós-guerra-do-Iraque tem muito em comum com aquele descrito pelos romancistas europeus de depois da primeira guerra. Já é suficiente por hoje, mas apontemos para a semana que vem o que de importante compartilhamos eu e o narrador de Svevo: a morte do pai
[link]*.
*

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  Escrito por Idelber às 00:48 | link para este post



segunda-feira, 28 de fevereiro 2005

Fenomenologia da Fumaça - Semana 2

Eu fiquei comovido com o que aconteceu na semana passada aqui na caixa
de comentários,
[link] na
primeira das minhas 52 semanas necessárias para deixar de fumar. Essa
batalha receberá aqui o nome de *fenomenologia da fumaça* (o sentido
deste termo será explicado na semana que vem). O projeto contará com
casos, pesquisa científica, elocubração filosófica, análise literária e
cinematográfica do fumo, além de mapeamento cuidadoso da história do
fumo na vida do blogueiro. A isto, concluiu o blogueiro, está reduzido o
seu intento de parar de fumar. Seria impossível embarcar noutra
brincadeirinha de que
é-só-parar-com-ajuda-de-chicletinho-e-não-fumar-mais, como se o
blogueiro não fosse filho de pai detonado aos 59 pelo cigarro, como se o
blogueiro não fumasse desde os 14. Nesta empreitada, cabe agradecer a
todos, muito especialmente a quem pintou aqui no *Biscoito* pela
primeira vez para dar força. Diga-se que aquela caixa bateu o recorde de
comentários, com 41. A caixa sobre Machado
[link]
havia tido 47, mas eu, mediador da discussão entre os alunos, havia
contribuído com 16. Na empreitada contra o fumo, não. Quase *40 pessoas*
deixaram mensagens de apoio, e o blog bateu records de visitas. *I love
you all.*

Além de dezenas de interlocutores que comentam direto (amigos já de
casa), palavrearam pela primeira vez (vários por inspiração da linda
maravilhosa Sheila Leirner [link] ) os
novos amigos blogueiros Elisa [link] , Isabel
[link] , Angela
[link] , PH
[link] , Alma
[link] , Roberto
[link] , Boczon
[link] , Celso
[link] , Lucia
[link] , Elisa
[link] (do UOL), Felicia
[link] de retorno e, muito especialmente, a
uberblogueira Meg [link] ,
companheira de disciplina que veio ao *Biscoito* pela primeira vez dar
força à batalha minha contra a nicotina. Além deles, leitores
não-blogueiros como o Umberto, Júlio, Ismael comentaram aqui pela
primeira vez, apoiando-me. Tenho, dentro de mim, já prontos, mais de 20
posts sobre a fenomenologia do fumo. São embriões de um livro futuro.
Dado o excesso de assunto desta semana, deixo para depois o primeiro
capítulo da fenomenologia, que tentará desenvolver a seguinte tese: *o
leitor de blogs é o super-ego ideal para aquele que tenta parar de fumar*.

Parar de fumar, para o viciado extremo como eu, é basicamente uma
questão de construir o super-ego fortinho o suficiente. Eu sempre
avisava aos amigos, aos familiares, à companheira: *parei de fumar;*
para depois de duas semanas proceder a esconder-me daquelas pessoas,
como um rato, para fumar o tinhoso. Humilhante brincadeirinha de
trapacear o super-ego. Ora, bem diferente é anunciar *deixei de fumar
*aos leitores de um blog e receber o *maravilhoso apoio* que recebi na
semana passada. Só um idiota mentiria aos seus leitores para dizer
que não voltou a cair no cigarro. Só um idiota se esconderia dos
leitores de um blog para fumar um cigarro.

Notícias minhas? Sigo limpinho, sem fumar, na batalha. Como é de costume
entre a segunda e a terceira semanas do intento, senti *intensas dores e
fincadas*. Como da última vez, preferi resistir à tentação de drogar-me
(com a exceção de um único dia em que, nocauteado pelas cãimbras, náusea
e dores musculares, dopei-me um pouco para suportar a dor). Mas a vida
segue no macio de si. Meu corpo reage lindamente, como sempre, ao fim da
fumaçada. Alimento-me como um touro. A levantada do pau é uma maravilha
só. Meus filhos já sabem que *pops* está sem fumar há duas semanas. A
capacidade de concentração do cérebro é uma tragédia, sem dúvida, e eu
postarei sobre isso na semana 3 ou 4, depois que eu terminar de ler o
que estou lendo sobre a nicotina, o cérebro e a produção de enzimas. Por
outro lado, o resto do corpo celebra a nova liberdade, o novo tesão e a
nova respiração. Como vão as coisas aí, linda maravilhosa
[link] ?

Foi comovente o apoio de vocês na semana passada. Nesta semana, alguém
tem histórias de* seres humanos escondendo-se para fumar, arrastando-se
para longe da visão de outros, catando guimbas nos cantos ou promovendo
atos semelhantes*? Quaisquer relatos deste tipo contribuirão à
*fenomenologia* que quero desenvolver aqui. Deixem suas próprias
histórias (ou de conhecidos) com o tabaco e com o arrastar-se na lama
que é o *viciado escondendo-se para fumar *(ou escondendo-se para comer,
ou para beber, ou cheirar ou o que seja). Gostaria de ouvir uns casos
sobre isso.

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  Escrito por Idelber às 03:21 | link para este post | Comentários (2)



sábado, 19 de fevereiro 2005

Cinco dias sem cigarro!

Quando você ler este post fará pelo menos cinco dias que parei de fumar! Desde segunda-feira! Por que venho escrevendo há cinco dias sem dizer nada? Ora, porque me resta um farrapo de orgulho, e já tendo “parado” de fumar umas 12 vezes, estou cansado de sofrer a suprema humilhação de anunciar a todo mundo "parei de fumar" e 48 ou 72 horas depois ser visto com um cigarro na mão, dizendo "pois é, bicho, não deu, não sei o quê".

Inclusive, eu cheguei a ir ao Quando Onde Como na segunda, dar uma força à Sheila Leirner, que parou. Na segunda eu já havia parado, mas não disse nada porque só fico pronto para dizer parei depois de cinco dias. Chega. Parei e pronto. Os sintomas têm sido os mesmos, já esperados:

24-48 horas: fome incrível, variação no olfato; ao invés de 2 e ½ passa-se a fazer 4 refeições por dia, a mandíbula começa a doer de tanto chiclete; mastigação louca; dorme-se e levanta-se mais cedo; respiração mais longa e de mais qualidade.

48-72 horas: recuperação de forças que você não sabia que tinha e
consciência mais aguçada das partes do corpo, que em compensação começam a “pedir” a droga; saem seres extra-terrestres de cor amarelada escura da garganta, alguns do tamanho de uma bola de tênis; às vezes anunciam sua chegada, às vezes não; macarrão-zinho de pretume começa a sair da pele depois do banho quente; volta paulatina do paladar; você começa a diferenciar a vagem do aspargo sem ter que olhar para eles.

72-96 horas: fincadas violentas no estômago, que pede a droga, mesmo
quando cheio; outra qualidade, freqüência e beleza na sua ereção; queda dramática da capacidade de multi-concentração: diminui o número de janelas e textos que eu manejo; em compensação, como não se pára o
trabalho para fumar, o dia no final rende mais; dificílima a
concentração em frases longas; aos que páram de fumar não recomendo
Proust nos primeiros dias.

Conheço os meandros das tentativas: já usei patches, chiclete de
nicotina, drogas ilícitas, endorfina, morfina, santinho, halls, vudu, o caralho a quatro. Desta vez, optei pela receita melhor: comida, amendoim, amêndoas, chiclete, doces, uma cervejinha com moderação, bastante café, chocolate e mais boa comida

Dar-me-ei o direito de blogar sobre isso *uma vez por semana*. Será como a resenha dos discos. Se eu falar nisso mais de uma vez por semana, vocês me enxovalhem daqui. Ao longo de 52 semanas, faremos uma fenomenologia da fumaça. Eu conto todos os meus casos de fumante, meu pai que morreu detonado pelo câncer aos 60 anos, os cachorros lá na casa da minha mãe que também fumam, a importância do cigarro no existencialismo, o grande romance A Consciência de Zeno sobre o último cigarro, o estudo filosófico Cigarettes are Sublime, a fumaça em Hollywood e outros temas.


Ao final de 52 semanas e 52 crônicas, depois que eu puder dizer
realmente que parei, a gente junta os textos com os comentários e leva
numa editora para publicar como livro. Hehehe! O que vocês acham? Será a primeira metódica blogo-crônica em tempo real de uma ruptura com o cigarro.

Conto com o apoio de todo mundo.

PS do dia 31 de março: o blogueiro depois deu-se conta, claro, de que estava equivocado. O Tabagista Anônimo foi o primeiro a propor uma blogo-crônica da ruptura com o cigarro, e antecede o Biscoito em muitos meses.



  Escrito por Idelber às 01:01 | link para este post | Comentários (1)