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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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segunda-feira, 14 de abril 2008
Adeus a uma revista fundamental
Deu adeus na semana passada uma das revistas culturais e políticas mais importantes da América Latina. No Brasil, para variar, nem notícia. Depois de 30 anos, 90 números e um papel central em todos os principais debates intelectuais da Argentina, Punto de Vista pendurou as chuteiras. Para mim, pessoalmente, o adeus tem um gostinho de tristeza e melancolia. Se eu tivesse que fazer uma relação das revistas mais formativas da minha vida, Punto de Vista estaria em primeiro lugar. Se eu fosse listar as 10 pessoas que mais admiro no planeta, a diretora da publicação, Beatriz Sarlo, certamente estaria entre elas.
Punto de Vista foi fundada por Beatriz junto com Ricardo Piglia, Carlos Altamirano e Elías Semán em 1978, no auge do horror da ditadura argentina. Depois se somariam intelectuais do porte de Hilda Sábato, Maria Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti. Em condições de total pesadelo político – no qual uma intelectual com passagem pelo maoísmo, como Beatriz, certamente corria perigo permanente –, Punto de Vista foi se constituindo em um dos poucos espaços onde era possível fazer crítica literária, cultural e política com alguma independência. A revista foi responsável pela introdução de nomes como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina. Nela se publicaram as primeiras leituras sérias da rica literatura contemporânea do país. Ali se chamou a atenção pela primeira vez, por exemplo, para a obra de Juan José Saer, que vinha sendo escrita desde os anos 60 e lida somente por um pequeno grupo de iniciados. Com a chegada da democracia, a revista teve que aprender a fazer tudo de novo, nas palavras de Beatriz. Reciclou-se brilhantemente. Ali se publicaram algumas das melhores reflexões sobre as Mães da Praça de Maio, os julgamentos dos militares, o novo cinema do país, os monumentos aos desaparecidos.
Desde a ditadura, Beatriz tem as portas abertas das melhores universidades americanas e inglesas, à sua disposição. Optou por ficar na Argentina. Jamais alardeou essa escolha. Nunca se encerrou na torre de marfim da academia. Em cada um dos momentos chave da história do seu país, posicionou-se clara, inequivocamente. Fez auto-críticas, revisou posições. Não tem absolutamente nenhum medo de errar. Sofre ataques horrendos, mas debate sempre com lealdade, atirando nas idéias, nunca nas pessoas. É impossível concordar com ela todo o tempo. Sobre a conjuntura argentina atual, por exemplo, minha visão está mais próxima à de Martín Kohan que à sua. Mas não consigo pensar num intelectual contemporâneo pelo qual eu tenha mais respeito.
Na despedida, Beatriz declarou: Cuando se dirige una revista el alerta es constante frente al acostumbramiento (que es mortal) o la incapacidad para conocer su actualidad (una revista vive en tiempo presente). Sólo cuando es un instrumento imprescindible para quienes la hacen, sale bien .... Algo ha comenzado a fallar y es mejor reconocerlo ahora, cuando no se ven consecuencias, que en un capítulo decadente. Una revista que ha estado viva treinta años no merece sobrevivirse como condescendiente homenaje a su propia inercia. Por eso el número 90 es el último.
Em 2003, publicou-se um CD-ROM com os primeiros 75 números da revista. Apesar de que Punto de Vista jamais quis ser uma publicação massiva, o CD-ROM esgotou três edições. Há uma quarta edição ainda à venda. No mesmo ano de 2003, eu tive a honra de publicar um artigo lá. Se você nunca leu a revista, dê uma conferida no índice de alguns números e no resumo de alguns artigos. Acredite, leitor: se você quiser dar um presente à sua inteligência – seja qual for a sua área de interesse –, invista 30 dólares nessa coleção. É coisa para a vida inteira.
No meu panteão pessoal, o adeus de Punto de Vista só se compara ao fim do Velvet Underground e à morte de Telê Santana. Nada mais chega perto.
PS: Homenagens também lá no Linkillo e no Tomás Hotel.
PS 2: É possível que Jimmy Carter e Al Gore dêem o empurraõzinho que falta para terminar a primária democrata.
Escrito por Idelber às 06:03 | link para este post
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segunda-feira, 31 de março 2008
BRASA, nono congresso: Um balanço
Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.
Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.
Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.
Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.
Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.
A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.
A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.
No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e saculejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.
O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.
PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.
PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.
PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).
PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.
Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post
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quarta-feira, 23 de janeiro 2008
A violência, entre a biologia e a sociologia
Tenho sensações contraditórias com o qüiproquó que se armou acerca da pesquisa do neurocientista Jaderson da Costa, da PUC-RS e do geneticista Renato Zamora Flores, da UFRGS. O projeto consiste em determinar os fundamentos da violência e da agressividade através da análise do cerébro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre. É o tipo de pesquisa que provoca compreensíveis suspeitas em todos nós, das ciências humanas: a aplicação de conceitos biológicos na explicação de fenômenos sociais tem uma triste história nos séculos XIX e XX, vinculada a atrocidades bem conhecidas. A pesquisa dos Profs. Flores e Costa provocou um irado abaixo-assinado de protesto, com signatários de várias disciplinas, especialmente da psicologia e do direito.
Foi o suficiente para que Reinaldinho Azevedo gritasse censura!, hipocritamente esquecendo-se de que foi ele mesmo quem organizou uma turba de fanáticos semi-analfabetos para linchar o trabalho de acadêmicas paulistas que desenvolviam pesquisa na área de redução de danos no consumo de ecstasy. A hipocrisia de Reinaldo Azevedo não consegue nem mesmo ser inteligente. Segundo ele, os signatários do protesto agem pelo medo de que se encontre algum componente neurobiológico no comportamento homicida, que ele supõe corroborar sua tese de que bandidos “escolhem” ser bandidos. Na verdade, a hipótese dos cientistas gaúchos vai exatamente na contra-mão desse pseudo-individualismo, ao (tentar) relativizar neurofisiologicamente a noção de escolha. É o próprio Prof. Flores quem diz: "Nessa questão o livre arbítrio está indo pelo ralo: as pessoas não escolhem ser violentas", argumento que ele usa, inclusive, para defender uma reavaliação da tradição jurídica sobre punição. Tudo isso, o Hermenauta já demonstrou no melhor post sobre o assunto.
Dito isso, eu acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Que os seus 68 signatários escrevessem 68 textos individuais descendo o sarrafo nas hipóteses de trabalho de Costa e Flores (de preferência com argumentos melhores e mais elegantemente escritos que os encontrados no protesto), e eu os apoiaria, feliz da vida, aqui no blog. Mas abaixo-assinado contra uma hipótese de pesquisa, por mais suspeita que ela seja? Não dá. Um abaixo-assinado pela libertação de um refém, pela revogação de uma sentença judicial, pela realização de um plebiscito ou contra uma distorção midiática é absolutamente legítimo. Mas não se reúnem iguais para fazer um abaixo-assinado contra o trabalho de um igual, muito especialmente na academia. Por mais preconceituoso ou racista que possa ser o trabalho.
Evidentemente, eu não entendo patavinas de neurofisiologia e, ao contrário dos funcionários da Veja, não finjo entender do que não entendo. Mas acredito ter algo a dizer sobre 1) retórica; 2) lutas sociais em torno de como se legitima um saber. É sobre isso que proponho que conversemos aqui, porque o caso dá muito o que pensar (claro, quem entender de biologia, intervenha, melhor ainda). Lendo a retórica do Prof. Zamora, fica bem difícil não perceber o tremendo preconceito que se imiscui na sua ciência. Ele diz:
Mas se eu abrir um laboratório dizendo vendo testes de predisposição para você evitar do seu filho ter um risco aumentado de ser alcoolista ou homossexual, você não se interessaria? Mais cedo ou mais tarde vai haver um teste desses.
Ora, ora, evitar que seu filho seja homossexual? O que é isso? Vai justificar isso com qual ciência? Qual ciência legitima a comparação da homossexualidade com o alcoolismo? Há, sim, razões ética e cientificamente legítimas para se pesquisar se a opção sexual é ou não genética. Já acompanhei um debate fascinante em que ativistas gays americanos argumentavam que, caso se comprovasse alguma base biológica para a opção sexual, a descoberta poderia ser uma arma contra o preconceito – como as descobertas genuinamente científicas costumam ser, aliás. Mas no caso dessa retórica eivada de preconceito do Prof. Zamora, a afirmação de que os grupos gays daqui de Porto Alegre também acompanham nosso trabalho e nunca protestaram me soa a 1) engano; ou 2) mentira. Pesquisando um pouco mais sobre seu colega, o Prof. Flores, descubro que é ele quem defende que há diferenças de aptidão entre os sexos em todas as atividades muito competitivas. Eu adoraria que algum cientista me explicasse como se isola esta variável no interior de uma sociedade onde a mulher sempre teve uma posição subordinada.
No entanto, como dito acima, acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Um abaixo-assinado contra uma pesquisa ainda não realizada só entrega argumentos de bandeja nas mãos dos Reinaldinhos da vida. Em segundo lugar, lamento que não haja um profissional de Letras entre os signatários, porque o texto está, pura e simplesmente, muito mal escrito. Numa frase como
Privilegiar aspectos biológicos para a compreensão dos atos infracionais dos adolescentes em detrimento de análises que levem em conta os jogos de poder-saber que se constituem na complexa realidade brasileira e que provocam tais fenômenos, é ratificar sob o agasalho da ciência que os adolescentes são o princípio, o meio e o fim do problema, identificando-os seja como "inimigo interno" seja como "perigo biológico", desconhecendo toda a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes, que culminou na aprovação da legislação em vigor - o Estatuto da Criança e do Adolescente.
estão faltando, pelo menos, dois pontos finais. Não se trata de picuinha. Se você quer intervir socialmente com o seu saber – e num abaixo-assinado de acadêmicos se trata sempre disso –, seja claro no que diz. Não misture alhos e bugalhos. Se a pesquisa viola o Estatuto da Criança e do Adolescente, explique o porquê. Trata-se de política, e não se faz política efetiva escrevendo assim. A frase pensar o fenômeno da violência no Brasil de hoje é construir um pensamento complexo, que leve em consideração as Redes que são cada vez mais fragmentadas, o medo do futuro cada vez mais concreto e a ausência de instituições que de fato construam alianças com as populações mais excluídas me dá a impressão de não ter sido lida antes de ser impressa. Pensar a violência é construir um pensamento? Que leve em consideração as Redes? Quais redes? A oração que inicia o parágrafo seguinte -- Enquanto a Universidade se colocar como um ente externo que apenas fragmenta, analisa e estuda este real, sem entender e analisar suas reais implicações na produção desta realidade -- me provoca calafrios. Será que não havia mais um cantinho para repetir a palavra real pela quinta vez? Reitero que não é implicância nem picuinha. Ao assinar um texto léxica, sintática e conceitualmente tão pobre, entregou-se a razão ao outro, mesmo que ele não a tivesse no começo da conversa. Se são 68 contra 1, fica mais feio ainda.
Por mais preconceituoso que possa ser o Prof. Costa, não dá para discordar quando ele diz que o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica. O abaixo-assinado entrega de bandeja a posição de pesquisador genuíno a professores que podem, muito bem, estar trabalhando com motivos pouco confessáveis (lembremos que um dos alunos de mestrado no grupo é o secretário da Saúde do Estado, Osmar Terra, deputado federal licenciado pelo PMDB).
Os responsáveis pelo projeto afirmam que seus estudos não pretendem reduzir tudo ao neurofisiológico e que as variáveis “psicológicas e sociais” também serão levadas em conta. Sendo assim, seria coerente da parte do Prof. Flores, antes de acusar os psicólogos sociais que, de modo geral, desconhecem o conjunto de áreas do conhecimento denominadas de neurociências e que incluem, desde a bioquímica e a genética, até a neurologia e a psiquiatria , demonstrar um pouquinho de conhecimento sobre a vastíssima bibliografia sociológica e filosófica sobre a violência, boa parte da qual, talvez, levante algumas dúvidas sobre suas hipóteses. Essa bibliografia – indispensável para quem queira estudar as “causas” da violência, por mais que pretenda localizá-las no cérebro – é arqui-conhecida e já foi compilada até mesmo em livros ruins sobre o tema.
Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post
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quinta-feira, 24 de maio 2007
Links
Para setembro: À ínfima porcentagem de leitores do blog que compram livros acadêmicos em inglês, vão aí a propaganda e o auto-jabá. A editora Palgrave lança, nos próximos meses, The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, livro compilado por Erin Graff Zivin que inclui um ensaio meu ('Cultural Studies in the Blogosphere: Academics Meet New Technologies of Online Publication'), uma versão bem aumentada e melhorada dessa palestra. A extensão veio por conta de uma polêmica com um texto de Habermas, publicado na Folha de São Paulo, em que o vetusto filósofo alemão dá mostras de não ter pensado muito bem ainda sobre a Internet. O texto inteiro do artigo eu não posso postar sem violar o copyright, claro.
Para julho: Ana Maria Gonçalves é destaque na Flip, de Parati.
Para julho e agosto este blog transmitirá direto de Recife e, no finalzinho de junho, de Santiago.
Para dentro de uns dias: Liberal Libertário Libertino transmitindo de Havana. Quem viver verá. Caso o Alex consiga boa conexão, claro.
Para já: pintou na Verbeat o Atmosfera, blog coletivo sobre o clima. 
Escrito por Idelber às 19:56 | link para este post
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terça-feira, 22 de maio 2007
Giorgio Agamben
Capitaneado pela antenada Mànya Millen, o Prosa e Verso deste sábado (link para cadastrados) dedicou uma página a Giorgio Agamben, filósofo italiano com cinco livros lançados em português, mas ainda pouco conhecido em terra brasilis. As duas resenhas – a cargo de Pedro Duarte de Andrade e Alberto Pucheu – celebram o lançamento de Profanações (Boitempo) e A Linguagem e a Morte (pela atentíssima editora da UFMG). Os livros já publicados no Brasil anteriormente, Estado de exceção, Homo Sacer e Infância e História, são até mais capitais para o pensamento de Agamben mas -- é claro -- são de se saudar os lançamentos recentes. Infelizmente, as resenhas de Andrade e Pucheu são úteis para quem já leu Agamben, mas não muito amigáveis para quem nunca o leu – contextualizam-no muito pouco. Em todo caso, para os que acompanham o pensamento italiano contemporâno, cabem duas observações sobre Agamben:
1. Ele tem pouquíssima – se é que tem – relação com o chamado pensiero debole, o “pensamento frágil” associado a Gianni Vatimo, que celebra, de alguma forma, a queda dos universais como “pátria” e “Deus” e tenta armar, a partir daí, uma ética da precariedade. Não é essa a turma de Agamben.
2. Tem ele também pouquíssimo que ver com o marxismo obreirista italiano de figuras como Toni Negri que, a partir de uma leitura eufórica da globalização, enxergam o novo comunismo nos lugares mais insólitos, até no Bolsa Família de Lula.
Agamben é um pensador que propõe menos saídas, celebra menos, indica menos caminhos. Arrasta-se no pensar com um pouco menos de pressa. Meu livro favorito de Agamben é O que resta de Auschwitz: A Testemunha e o Arquivo (ainda inédito em português, acho), onde encontramos frases como :
a notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema. E que esse saber agora se torna a pedra de toque pela qual se medirá e se julgará toda moral e toda dignidade.
Capital mesmo para o pensamento de Agamben é a definição de Carl Schmitt (sim, o conservadoríssimo e católico jurista alemão) do soberano como aquele decide sobre o estado de exceção . O conceito de estado de exceção tornar-se-ia chave para Agamben e inspiraria um belo livro, dedicado a pensar o problema da exceção (à lei, especialmente) no mundo pós 9/11 e pós-bombardeio ao Afeganistão. O vetusto debate entre as correntes jusnaturalistas e positivas do direito é revisitado por Agamben em outro livro elegantíssimo, Meios sem fim (Mezza senza fine, de 1996, que eu saiba ainda inédito no Brasil), onde ele revira de ponta a cabeça o debate jurídico sobre meios e fins.
Mas os conceitos pelos quais Agamben é mais conhecido são os de homo sacer e de vida nua, noções que ganharam ainda mais relevância depois da instalação dos campos de tortura em Guantánamo: com homo sacer Agamben nomeia aquele humano no limite do animal, aquele humano cuja morte não tem epitáfio e cuja existência é completamente descartável. Com vida nua ele designa esse estado de vida / morte, próprio a esses humanos: árabes torturados em Guatánamo e palestinos mortos sem epitáfios hoje, vítimas do regime do apartheid na África do Sul de uns poucos anos atrás. Figuras cuja proliferação diz algo, argumenta Agamben, sobre o mundo contemporâneo.
Traduzir mais citações eu não poderia, já que só possuo Agamben em inglês, os originais em italiano da biblioteca estão emprestados e eu jamais cometeria com vocês a deselegância de traduzir do inglês um texto escrito originalmente em italiano. Mas os importantes livros Homo Sacer e Estado de exceção estão disponíveis aí no Brasil, em boas traduções. Com certeza vale a conferida, mesmo para quem não é leitor costumeiro de filosofia.
Escrito por Idelber às 01:07 | link para este post
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sexta-feira, 20 de abril 2007
Cripta em duas partes
Historinhas zizekianas:
1. Um marido e uma mulher vivem um acordo de que podem manter casos extraconjugais. Se, de repente, o marido vier contar a sua mulher sobre um caso que está tendo, ela terá bons motivos para entrar em pânico: Se é apenas um caso, por que você está me contando isso?
2. Como sabemos, os EUA sempre se utilizaram do assassinato e da tortura contra adversários políticos em várias partes do mundo, através da CIA ou de regimes-gorila instalados via golpes de estado. Se agora estão reconhecendo abertamente que torturam prisioneiros no Iraque, em Guantánamo e alhures, há motivos para se perguntar: o que significa essa admissão? Por que não continuam torturando em silêncio como antes?
3. Um rapaz no velho regime comunista da Iugoslávia chega ao exército e é encaminhado ao escritório para assinar um termo de compromisso de lealdade à pátria, a Tito e ao socialismo. O oficial lhe explica que ele deve assinar a declaração livremente, de sua própria vontade. Mas que se não assiná-la será encarcerado como traidor. O jovem replica: recuso-me. Mas se o senhor me der ordens para tanto, assino na hora. O oficial retruca: a declaração é anódina a não ser que seja assinada de livre e espontânea vontade. Mas se você não assinar, será preso.
4. João e Maria vivem na mais sublime das felicidades em seu amor. Maria diz a João: meu amor é tal que eu faço qualquer coisa que você me pedir. Seja P, Q, R, X, Y ou Z: peça-me e eu farei. João retruca: meu amor por você é tanto que P, Q, R, X ou Y não fazem a menor falta. Eu só preciso de Z. Eu nem preciso de que Z seja tão bem feito assim. Só preciso que você o faça sem que eu tenha que pedir. Porque a essência de Z é que, se ele for feito depois de um pedido, perde todo o significado.
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Simplificando grosseira, brutalmente, proponhamos: há duas formas de se entender a relação entre as coisas e os signos, a ordem bruta dos fatos e a ordem porosa, heterônoma da linguagem. A turma número 1 acredita que existe a ordem do real e, por outro lado, a ordem da representação - que pode ou não dar conta, e com maior ou menor fidelidade, desse real pré-existente.
A turma número 2, à qual eu me filio, acredita que qualquer alteração na ordem dos signos produzirá algum efeito, por mais mínimo, na ordem dos fatos que aqueles signos supostamente só representariam. A turma 2 acredita que qualquer representação altera a ordem do real, qualquer mapa transforma o território.
Ambos os grupos reconhecem a existência, por um lado, dos fatos e, por outro, de valores através dos quais esses fatos são compreendidos. Mas só a turma número 2 coloca-se a pergunta: a própria distinção entre fatos e valores pertenceria à ordem dos fatos ou à ordem dos valores? A turma número 1 não entende essa pergunta.
O abismo entre as duas turmas é irreconciliável, pois reconhecer a existência do desacordo já implica automaticamente filiar-se à turma número 2. A cisão entre elas seria, então, não uma diferença mas um diferendo: uma cisão que só pode ser nomeada optando-se por um dos lados. Não há uma linguagem neutra na qual a joça possa ser nomeada.
Uma das definições possíveis de democracia é: o labor de se transformar, incessantemente, diferendos em diferenças.
PS: Se você está em algum ponto do meio-oeste americano e se interessa por cultura e literatura brasileiras, seu lugar este fim de semana é aqui. Vem pra cá. O congresso começa hoje. Às 10 da matina, 12 de Brasília, eu entro em campo com a Nação Zumbi. Wisconsin, vou lhes contar, produz as melhores cervejas que já bebi na vida.
Escrito por Idelber às 02:56 | link para este post
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segunda-feira, 09 de abril 2007
Deus, um Delírio, de Richard Dawkins
Somos todos ateus no que concerne à maioria dos deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós só vão um deus além disso.
Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo.
Bush e Bin Laden estão, na verdade, do mesmo lado: o lado da fé e violência, em oposição ao lado da razão e discussão. Ambos têm uma fé implacável de que estão certos e de que o outro é maligno. Ambos acreditam que, quando morrerem, ascenderão aos céus. Cada um crê que, quando matar o outro, seu caminho ao paraíso no outro mundo será muito mais rápido. O ilusório 'outro mundo' será bem-vindo a ambos. Este mundo seria um lugar muito melhor sem nenhum dos dois. (fonte)
Richard Dawkins, biólogo e professor da cátedra de Compreensão Pública da Ciência na prestigiosa Oxford University, talvez seja o ateu mais ilustre do nosso tempo. Pesquisador premiado, talentoso popularizador da ciência e introdutor do termo meme, uma espécie de equivalente cultural do conceito biológico de “gene”, Dawkins é mais conhecido (e atacado) por sua feroz crítica das religiões. Ao contrário dos cientistas que – apesar de ateus ou agnósticos, como o são a esmagadora maioria dos cientistas – estão reconciliados com a idéia de que ciência e religião são empresas que podem coexistir desde que os limites de cada uma sejam respeitados, Dawkins encara as religiões como uma perigosa fonte de obscurantismo que ameaça a busca da verdade, o trabalho da razão e a paz.
A culminação da sua cruzada anti-religiosa (valha o oxímoro) é o livro The God Delusion, que será lançado no Brasil pela Companhia das Letras no segundo semestre. Até onde pude averiguar, o livro deve sair com o título de A Ilusão de Deus, o que é uma tradução no mínimo imperfeita. “Delusion”, em inglês, designa um tipo de ilusão com características patológicas. “Delírio”, neste caso, talvez fosse uma melhor solução. Para piorar, a ambigüidade própria ao genitivo no português pode sugerir que é o não-existente Deus que anda iludido. . . Talvez a tradução mais conforme com as intenções do autor fosse Deus, um Delírio. Atualização: a tradução que saiu terminou optando pelo título que considerávamos melhor; parabéns aos tradutores.
Terminei de ler o livro, com tremenda admiração pela coragem e erudição de Dawkins. A obra poderia ser dividida, grosso modo, em duas partes: uma demonstração cientifica da extrema improbabilidade da existência de Deus e uma tentativa de explicação do porquê da popularidade das religiões ao redor do mundo. A primeira parte do argumento é impecável; a segunda, bem mais fraca.
Alguns dos pressupostos do livro de Dawkins são irrefutáveis. Os ateus e agnósticos formam um enorme contingente humano, mas não encontraram ainda canais efetivos para a defesa de sua visão de mundo. Prova disso é o fato de que qualquer candidato a presidente dos EUA que se declarasse ateu estaria condenado a perder a eleição. Apesar de que é improvável que qualquer amostra de 500 indivíduos norte-americanos instruídos não inclua um ateu, nenhum dos membros do Congresso tem coragem de se declarar não crente – isso implicaria condenar-se a não ser reeleito. Nenhuma pregação da eliminação de um grupo étnico ou sexual seria protegida pela primeira emenda à constituição americana, a que garante liberdade de expressão, já que ela não inclui discursos que incitam o ódio. No entanto, basta que o ódio se apresente como religioso (“a homossexualidade é um pecado!”) para que ele passe a ser aceitável. Ninguém questionaria o direito de qualquer cidadão declarar que o marxismo ou o liberalismo são idéias imbecis, mas qualquer ataque à religião nesses termos é imediatamente qualificado como um desrespeito. A religião desfruta desse curioso privilégio: a livre discussão de seus postulados continua barrada à razão, mais de 200 anos depois da revolução iluminista. Ninguém se referiria a uma criança de 5 anos de idade como "conservadora" ou "liberal", mas fala-se impunemente de "criança católica" ou "criança muçulmana", ao invés do que seria correto, "crianças de pais católicos" ou "crianças de pais muçulmanos". Ninguém tem nenhuma prova de que os religiosos são pessoas mais morais em suas ações que os ateus, mas essa associação automática continua operando em nossa sociedade, com conseqüências desastrosas. Por outro lado, há montanhas de evidências correlacionando o ateísmo a níveis mais altos de informação, preparação científica e QI, mas a palavra "ateu" ainda carrega um terrível estigma. 
Dawkins desmonta admiravelmente a hipótese deísta, mostrando que a ciência da evolução já nos forneceu os mecanismos para entender como a complexidade surge da simplicidade. É óbvio que a ciência não pode provar a inexistência de Deus, assim como não pode provar a inexistência de fadas ou do saci-pererê. Mas a hipótese deísta, de um Deus criador de toda a complexidade do mundo, além de não ser capaz de apresentar qualquer evidência que a sustente, contraria toda a evidência disponibilizada pela pesquisa científica acumulada ao longo dos séculos. A desconstrução que oferece Dawkins das “provas” da existência de Deus são alguns dos momentos mais brilhantes do livro, só comparáveis ao rolo compressor que ele passa sobre a falácia do “projeto inteligente” (intelligent design), máscara pseudo-científica recentemente encontrada pelos criacionistas para tentar conquistar espaço igual ao da ciência nas escolas e que, apesar de generosos subsídios de fundações conservadoras como a Templeton, ainda não conseguiu alistar nem meia dúzia de cientistas sérios em sua defesa.
A principal crítica feita por Terry Eagleton ao livro de Dawkins – a de que ele ignora as sutilezas da teologia – me parece, por isso, essencialmente injusta. Dawkins escreveu um livro que tenta demonstrar porque a hipótese deísta não se sustenta. Exigir que ele dedique páginas às diferenças entre São Tomás de Aquino e Duns Scott é como esperar que uma crítica racional da astrologia perca tempo debatendo as diferenças entre os astrólogos chineses e os mexicanos. Continuo achando extremamente engraçado que um marxista como Eagleton escreva frases como porque o universo é de Deus, ele compartilha de sua vida, que é a vida da liberdade. É por isso que ele funciona por si mesmo, e é por isso que tanto Richard Dawkins como a ciência são possíveis. O mesmo é verdadeiro dos seres humanos: Deus não é um obstáculo a nossa autonomia e prazer mas, como argumenta Aquino, o poder que permite que sejamos nós mesmos . Qual é a evidência que apresenta Eagleton para sua tese? Nenhuma. É porque é. Porque Aquino disse. É difícil acreditar que alguém possa escrever coisas assim e ainda declarar-se marxista. O pobre Karl deve estar revirando-se no Highgate Cemetery, com seguidores como Eagleton.
O livro também foi criticado por razões, digamos, táticas, ou seja, por “jogar gasolina no incêndio”, como argumenta Marcelo Gleiser, um ateu, nesses dois artigos na Folha (link para assinantes). Muitos acreditam que é melhor concentrar-se na crítica aos fundamentalismos religiosos, ao invés de empurrar todos os crentes para o campo inimigo. Essa é, acredito, a posição dos que reclamam do “radicalismo” ou “intolerância” de Dawkins, como alguns dos leitores dessa resenha escrita por Lucia Malla. Eu concordo com a resposta da Lucia, de que não se deve confundir ênfase com intolerância. Muitas vezes, o ataque ao “radicalismo” de alguém é só uma forma de reconhecer que seus argumentos não podem ser refutados com facilidade.
Há críticas do livro de Dawkins, no entanto, que me parecem atinadas, e Eagleton reproduz algumas delas. Dawkins tem uma tendência a exagerar a influência negativa da religião e a desprezar o papel positivo que ela pode cumprir em algumas situações. Sua análise de fenômenos sociais é grosseiramente unidimensional. Ele chega a declarar, por exemplo, que a abolição da religião representaria o fim dos problemas no Oriente Médio ou na Irlanda, o que é uma brutal simplificação. Qualquer que seja sua posição sobre a ocupação colonial eufemisticamente conhecida como o “conflito israelo-palestino”, a explicação do problema não pode prescindir de uma análise da estrutura política estabelecida a partir da fundação do estado de Israel. Que a religião passe, depois, a simbolizar o conflito para muitos dos atores nele envolvidos não quer dizer que ela seja a causa decisiva. Houve incontáveis contextos históricos nos quais judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em relativa harmonia, como por exemplo na Al-Andalus medieval (para detalhes, consultar este livro). Não é correto afirmar, como o faz Dawkins, que a situação semi-colonial da Irlanda ante a Inglaterra se remonte a uma mera rixa entre protestantes e católicos, por mais que essa seja a fachada mais visível do conflito. Ao explicar os ataques terroristas do 11 de setembro como uma mera conseqüência do fundamentalismo religioso, Dawkins ironicamente repete os argumentos da direita religiosa que é sua grande inimiga – desprezando assim a análise da evidência histórica que mostra as raízes políticas do problema.
Em outras palavras, como biologia e cosmologia o livro é impecável e confirma a sólida reputação do autor. Quando ele se move na direção do terreno das ciências sociais e da filosofia, patina. Acho inconcebível que um ateu tente explicar o papel das religiões no mundo sem engajar-se nem uma única vez com Nietzsche, Freud ou Marx. Esses três “pensadores da suspeita” ofereceram ferramentas sofisticadíssimas para a compreensão do problema. Dawkins as ignora e substitui-as por um modelo tosco, mecânico, reducionista, que se limita a explicar a religião como resquício de um modo de pensamento infantil. Mas claro, se Dawkins soubesse tanto de filosofia e ciências sociais como ele sabe de biologia e cosmologia, ele não seria Dawkins. Seria Deus.
Leituras relacionadas (em português):
Resenha de O Anti-Cristo, de Friedrich Nietzsche, cá neste blog.
O fantasma de Darwin, de José Colucci Jr.
Santa Ilusão, resenha de Hélio Schwartsman na Folha.
Resenha de Renato Zamora Flores, na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.
Capítulo de Decompondo o Arco-Íris, de Richard Dawkins.
Resenha de A Escalada do Monte Improvável, de Richard Dawkins.
Portal do Ateísmo.
Entrevista com Richard Dawkins.
Citações de Richard Dawkins.
(em inglês):
The Atheist.
Interview with Richard Dawkins.
Beyond Belief, in the New York Times.
Escrito por Idelber às 07:08 | link para este post
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sexta-feira, 09 de março 2007
Jean Baudrillard (1929-2007)
Da gama de pensadores iconoclastas que alcançam a maioridade na França nos anos 60, Jean Baudrillard não foi o de maior importância ou brilhantismo. Mas foi, certamente, o mais engraçado e o mais capaz de despertar fúria: salvo engano, foi o último de alguma estatura a morrer. Há tempos ele não me inspirava muito, mas depois de ler os fracos obituários do Globo e da Folha, não há como não registrar aqui um Requiescat in pace para Baudrillard.
Havia algo de bufão e xamã em Baudrillard: careca, baixinho, fumante, adepto de proclamações hiperbólicas e visionárias, ele influenciou o cinema (em Matrix a influência é inclusive reconhecida), a televisão, a web art e duas gerações na sociologia, nos estudos culturais e na filosofia. Operava como um agent provocateur, carreira na qual chegou ao cume com a afirmação La guerre du Golfe n’a pas en lieu (“a Guerra do Golfo” – a primeira! – “não aconteceu” ou, literalmente, “não teve lugar”): título de artigo e de livro, a frase foi cifra de uma reflexão sobre o caráter midiático, espetacularizado, tecnológico, “de videogame” da primeira Guerra do Golfo, a da CNN. O “ultramoderno processo de eletrocução” não configurou, para Baudrillard, uma guerra, mas uma “paralisia ou lobotomia de um inimigo experimental longe do campo de batalha sem qualquer possibilidade reação”. 10.000 toneladas de armas, dizia, não são suficientes para fazer uma guerra: quando os americanos finalmente saíram de trás da sua cortina de bombas, os iraquianos já haviam se escondido atrás da sua cortina de fumaça, dizia ele. Massivas mortes e destruição, claro, mas fora de toda visibilidade. Sobre o 1991-92 no Golfo, Baudrillard escreveu:
Quem poderia ter prestado mais serviço a todos, em período tão curto e a tão baixo custo além de Saddam Hussein? Ele reforçou a segurança de Israel (refluxo da Intifada, giro da opinião pública mundial para Israel), assegurou a glória das armas americanas, deu a Gorbatchev uma chance política, abriu as portas para o Irã e os Xiitas, lançou de novo a ONU, etc. tudo isso de graça, já que só ele pagou o preço em sangue. Podemos conceber um homem tão admirável? E ainda por cima nem caiu! Permanece um herói para as massas árabes. É como se ele fosse um agente da CIA disfarçado de Saddam Hussein.
Para quem acompanhou as três últimas décadas de Baudrillard, com seus insólitos paradoxos e provocações, seus aforismos vertiginosos, é difícil imaginar o autor dos primeiros livros: um pensador sóbrio, respeitoso com os conceitos. Ele dedicou-se a fazer com o estudo dos signos (semiótica, semiologia) o que Marx havia feito com a economia política: Para uma crítica da economia política do signo (1972) é uma demolição rigorosa dos restos de aristotelismo em Marx, enclaustrados no conceito de “valor de uso” – conceito cujo enterro Baudrillard prepara com pompa e circunstância. O livro pacientemente desmonta o par valor uso / valor troca e o substitui pelo par valor troca / valor signo. O “sistema das necessidades” humanas ao qual o valor de uso responderia não seria senão um mito empirista, uma hipótese falsa. Tudo é desde sempre troca e signo.
Ao contrário do que incorretamente informa o obituário do Globo, Baudrillard não foi um “feroz crítico da sociedade de consumo” nem um “crítico radical dos meios de comunicação”. Em suas primeiras obras, de Sistema dos Objetos (1968) a Sociedade de consumo (1970) a Troca simbólica e morte (1976), ele foi um teórico do consumo, um analista dedicado a desenredar os seus componentes: ali ele encontra a reprodução de desejos, a mitologia das supostas “necessidades naturais”, a produção industrial das diferenças, o caráter simulador, fantasmagórico do marketing, os embriões do que depois ele identificaria como o fim da separação entre realidade e simulacro.
Baudrillard tampouco foi “feroz crítico” desses processos na sua última fase. Nela, dedicou-se a dar à noção de “simulação” uma operacionalidade, alguma nobreza filosófica, um terreno no qual ser ferramenta para o pensamento. Sua escrita, inclusive, era uma constante mímesis dessa simulação. Em Simulacro e Simulação (1981), proclamou que a imagem passa por quatro fases, nas quais ela sucessivamente
1. reflete uma realidade básica.
2. mascara e perverte uma realidade básica
3. mascara a ausência de uma realidade básica
4. não mantém qualquer relação com qualquer realidade: é o seu próprio simulacro. 
Sobre Brasília, Baudrillard escreveu:
Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.
A realização maior do simulacro para Baudrillard seria a América, lugar da “utopia realizada”. A ela dedica um livrinho delicioso, poético, que culmina a tradição inaugurada por Tocqueville e deixa como rastro, no Brasil, a bela série de TV feita por João Moreira Salles. Algumas das páginas mais hilárias já escritas sobre Reagan ou a Disneylândia encontram-se nesse livro.
Baudrillard deixou ainda uma reflexão sobre o problema do mal como objeto situado além de toda moralidade (Transparência do |