Eu apostei porque sou torcedor. Mas acreditem, eu já temia isso. Se vocês vasculharem os arquivos do Galo é amor, verão uma série de comentários meus, desde o início do ano, malhando a diretoria do Atlético-MG pela absurda decisão que abriu a temporada: recusar-se a renovar o contrato de Leão, que tinha feito uma boa campanha no ano passado, e trazer Geninho, um dos maiores picaretas da história do futebol brasileiro. Leão é chato, cri-cri, reclamão, autoritário e vaidoso. Mas você não vê as equipes de Leão – por mais frágeis individualmente que elas possam ser – levando essas goleadas que sofrem os times de Geninho.
Há conquistas no futebol que criam famas imerecidas. O título brasileiro de 2001, conquistado pelo Atlético Paranaense, é um deles. Além daquela conquista, fruto de um surto de genialidade de Alex Mineiro, Kléberson e Kleber nos jogos finais, Geninho nunca ganhou nada. Colecionou desastres por onde passou. Conseguiu perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás. O que dizer de uma criatura que consegue perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás? Que eu saiba, Geninho é o único treinador da história a ter escalado uma equipe no 3-5-2 sem nenhum meio-campista armador. Sim, isso aconteceu nas quartas-de-finais do Campeonato Brasileiro de 2002, quando ele dirigiu o Galo contra o Corinthians no Mineirão, e escalou um 3-5-2 com três zagueiros, dois laterais, três volantes e dois atacantes: um mostrengo incapaz de chegar ao gol adversário. O Corinthians nos enfiou 6 x 2 e liquidou a fatura no primeiro jogo. Agora, Geninho inclui mais uma grande originalidade no seu currículo: o único treinador em cem anos de história do Clube Atlético Mineiro a ter levado 5 x 0 do ex-Ipiranga.
O resultado foi vexatório o suficiente para, provavelmente, encerrar a carreira de Geninho no Galo, tendo ele escalado, de surpresa, no clássico, uma equipe que jamais havia jogado junta. Entregamos o Mineiro para o ex-Ipiranga. De positivo, fica o fato de que pela primeira vez em muito tempo tivemos um clássico sem nenhum incidente de violência grave. Coisa bonita. O ex-Ipiranga é o merecido campeão mineiro. Não tem culpa da burrice da diretoria do Galo.
Parece que já errei as previsões em Minas e em São Paulo. No Rio, ainda aposto no Fogão. Caixa de comentários aberta para protestos e gozações. É do jogo.
Este blog tem uma baita tradição de acertar os resultados dos estaduais. Na semana passada, acertei as semifinais no Rio e em São Paulo. Houve protestos dos tricolores, achando que eu tinha algo contra seus times. Mas não era. Tratava-se de observação mesmo, apesar de que tenho visto poucos jogos.
Para as finais, aí vão as previsões: o Triângulo das Bermudas será alvi-negro.
Alguém aposta?
São bem-vindas as sugestões de prendas -- dentro dos limites do razoável -- para os perdedores das apostas.
2.Como sabem, as questões relativas ao direito interessam muito a este não-especialista: e é mais uma conterrânea que chega com um excelente blog nessa área: Direito é legal (cheguei lá via Favoritos).
4.Um inacreditável blog cubano: Generación Y. As caixas, incríveis, alternam entre 2, 3 e 4 mil comentários. O “debate” é meio lixão, mas o texto da moça é bom.
5.A blogosfera futebolística vai melhorando a cada dia: confira o De Primeira.
6.É uma obsessão deste blog: a subserviência da imprensa esportiva. Já vai uma semana que se noticiou que Polícia Federal está investigando os irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro, por evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. No “jornal dos mineiros”, nenhuma menção.
7.Alô, alô, cearenses, mais especialmente os torcedores do Fortaleza! O Ministério Público está investigando a tentativa de suborno do Ipatinga a jogadores do Villa Nova, na última partida da fase de classificação do Campeonato Mineiro. O que o Fortaleza tem a ver com isso? Se o Ipatinga perder o lugar na Série A, o Tricolor do Pici, quinto colocado na Série B do ano passado, assume a vaga. Mais uma vez: acontece uma operação criminosa no futebol mineiro e uma busca por “Ipatinga” no Estado de Minas não produz nenhum resultado associado ao escândalo. A imprensa mineira é realmente inacreditável.
8.Por falar em imprensa esportiva: Fabiano Angélico sugere duas boas pautas investigativas para o jornalista esportivo que não quiser ser capacho da cartolagem.
10.Em redondilhas maiores, o Almirante explica por que Hitler não chegou ao inferno, no Cordel teutônico.
11. Se você é atleticano, tem filho e mora em Belo Horizonte, prestigie o lançamento do livro infantil sobre a história do Galo: Vencer, vencer, vencer - A história do time do meu coração, do jornalista Eduardo de Ávila. Acontece no sábado, às 11 horas, na Feira Tom Jobim (ali perto do Colégio Arnaldo, Brasil com Bernardo Monteiro). O macete na Tom Jobim é chegar de manhã. De tarde a coisa se transforma um fim de festa meio melancólico. Aí vai o cartaz:
12.Se você está no sudoeste dos EUA, apareça em Albuquerque, Novo México, na segunda-feira, para escutar uma palestra e bater um papo. Aí vai o cartaz feito por essa bela instituição que me convida. Achei que ficou simpático:
PS: Ao deixar seu comentário, você verá uma página em branco. Não se avexe. O comentário entrou. Estamos trabalhando para resolver o problema. Deus já resolveu o problema com a caixa de comentários. Tudo normal :-)
Galo aos sábados: Pelé, torcedor e freguês do Galo
Circulou durante algum tempo no futebol brasileiro o mito de que Pelé teria sido torcedor do Vasco na infância. Numa entrevista à edição 1.119 da Revista Placar, de 1999, o próprio Divino Negão desmentiu:
Qual o seu time de infância? O Vasco?
Não. Essa história começou quando eu disputei um torneio por um combinado Santos-Vasco. Antes, o Antônio Soares Calçada (presidente do Vasco) até recusou o empréstimo do meu passe. Ele achava que eu era muito novo. Depois quis voltar atrás, mas aí era o Santos que não queria mais o negócio. Na verdade, eu torcia pelo Atlético Mineiro, porque meu pai, seu Dondinho, jogava lá.
João Ramos do Nascimento, o Dondinho, foi um craque sensacional, de quem se dizia que “desequilibrava qualquer jogo”. Como jogador, seu grande azar foi ter um filho sobre-humano. Mesmo assim, é de seu Dondinho um recorde que o Divino Negão jamais igualou: cinco gols de cabeça numa mesma partida. Disputando pelo Clube Atletíco Mineiro um amistoso contra o São Cristóvão em 1942, Dondinho se choca com o zagueiro Augusto – o mesmo que seria o capitão da Seleção Brasileira na Copa de 1950 – e leva a pior. Uma lesão no menisco encerra sua carreira no Galo. Ele voltaria a brilhar como artilheiro do Bauru Atlético Clube, campeão do interior de São Paulo em 1946. Eis aqui seu Dondinho com a camisa do Glorioso:
A primeira partida de Pelé contra o Galo foi no dia 30 de janeiro de 1958. Ele já se preparava para receber, na Suécia, aos 17 anos de idade, a coroa de Rei do Futebol. O Santos visitou Belo Horizonte e entrou em campo, no Estádio Independência, com Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Zito e Urubatão; Dorval, Afonsinho, Guerra, Pelé e Pepe. O Galo, começando uma entresafra depois do pentacampeonato mineiro, formou com Arizona, Anísio e Grilo; Benito, Jair e Nilsinho; Márcio, Nilson, Tomazinho, Alvinho e Dino.
Pelé abriu o placar aos 11. Jair empatou para o Galo aos 13. Tomazinho virou aos 32. Guerra voltou a empatar para o Santos aos 44. No segundo tempo, só deu Galo. Jair, Tomazinho e Márcio enfiaram mais três e o Rei conheceu a primeira de várias derrotas para o Clube Atlético Mineiro: 5 x 2, inapelável.
Também foi numa derrota para o Galo que aconteceu a última expulsão do Rei Pelé com a camisa do Santos. No dia 23 de novembro de 1969, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Santos visitou Belo Horizonte, desta vez já no Mineirão. Galo 2 x 0. Aos 25 minutos do segundo tempo, o árbitro Amílcar Ferreira expulsou de campo o Divino Negão. Ele não voltaria a ser expulso com a camisa do Santos.
Ao voltar da conquista da Taça Jules Rimet no México, Pelé disputaria em 1971 o seu primeiro campeonato brasileiro, com fome de mais uma conquista inédita. De novo, o seu time de infância o parou. No dia 05 de setembro, o Santos visitou o Mineirão e apanhou por 2 x 1, com dois gols de Dadá. Já na segunda fase, disputando uma vaga no triangular que decidiria o campeonato, Pelé adentrou novamente o Gigante da Pampulha. Mais uma vez, Galo 2 x 0, agora com dois gols de Oldair. O Santos era eliminado do Brasileirão.
De todas as derrotas de Pelé para o Galo, a mais famosa, sem dúvida, ocorreu no dia 03 de setembro de 1969. O Mineirão preparou uma impressionante cerimônia para receber as “feras de Saldanha”, que afiavam as garras para o tricampeonato:
A máquina entrou em campo, completinha, com Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo formou com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira). Dadá e Amauri marcaram para o Atlético e Pelé descontou em escandaloso impedimento. O Divino Negão era mais uma vez humilhado pelo Galo. Iniciava-se o ódio mortal da Confederação Brasileira de Desportos pelo Atlético-MG.
É verdade que o maior jogador de todos os tempos também conseguiu ganhar alguns duelos contra o Galo, notadamente na primeira metade dos anos 60. Duas ou três dessas vitórias foram por goleada. Mas, sobre esses jogos, deixemos que os historiadores santistas se pronunciem. Neste post, deixamos registradas a paixão infantil do Divino Negão pelo Galo e algumas das surras que levou ante o mais querido de Minas.
As torcidas organizadas como núcleos potenciais do fascismo
Quem se interessa por futebol deveria acompanhar com atenção o que anda ocorrendo com um dos clubes mais tradicionais do mundo, o River Plate. No último domingo, aconteceu outra tragédia no futebol argentino. Desta vez, inacreditavelmente, a pancadaria se desenvolveu entre duas facções da mesma torcida. O River enfrentaria o Arsenal no Estádio do Vélez Sarsfield, já que o Monumental de Núñez se encontrava ocupado com o Quilmes Rock. La banda de Gonzalo, facção antes comandada por Gonzalo Acro, assassinado em 2007, já não comparece ao Núñez, insatisfeita com a quantidade de ingressos que lhe é destinada. Compareceu ao jogo no campo de Vélez. La banda del Oeste, facção rival, havia chegado cedo e ocupado as populares. Foi cercada com um aparato de guerra impressionante: walkie-talkies, armas brancas de todo tipo, brutamontes anabolizados. O horror durou intermináveis minutos e deixou dezenas de feridos e detidos, incluído aí um torcedor com politraumatismo craniano. Ainda faltam 21 meses para as eleições no River, mas adivinhe quem são os potenciais apoiadores mais cortejados pelos candidatos? Sim, os bandidos, que adquiriram uma inserção dentro do clube que os torna praticamente intocáveis. (fontes: um, dois, três, quatro).
Na primeira rodada do campeonato mineiro deste ano, o Atlético jogou às 10:00 da manhã contra o Democrata, em Sete Lagoas. O Cruzeiro enfrentaria o Uberaba no Mineirão, às 16:00. Ao bater o olho na tabela, pensei: espero que a BH Trans tenha tido a óbvia idéia de mudar o lugar de chegada dos ônibus da torcida do Galo. Previ a tragédia. Não sou nenhum gênio, mas sei que (1) uma partida de futebol demora pouco menos de duas horas; (2) uma viagem de ônibus de Sete Lagoas ao centro de Belo Horizonte tarda uma hora; (3) os ônibus saem do mesmo lugar, na rua Rio Grande do Sul. Os atleticanos voltavam quando os cruzeirenses se aglomeravam para ir ver seu time. O resultado? Batalha campal, com um atleticano morto (de infarto, coitado, enquanto corria da confusão) e um cruzeirense com o crânio esmigalhado e o corpo provavelmente inutilizado por um bom tempo. Os criminosos chegaram a combinar a briga pelo Orkut. É inacreditável que alguém seja responsável pelo transporte de torcedores e não faça uma matemática tão simples como a que era necessária no dia 27 de janeiro em Belo Horizonte.
A situação das torcidas organizadas no Brasil chegou a um ponto em que não há outra saída a não ser sua abolição completa, acompanhada de investigação de suas relações com a cartolagem. Sim, eu sei que decretar sua abolição pode ferir o princípio constitucional da livre associação. Mas também sei que já há farto material juridicamente válido para imputar a elas um rastro de sangue que não deixa dúvidas sobre sua verdadeira natureza. Não cola o argumento de que só alguns de seus membros são responsáveis por crimes. A organização em si incentiva, promove e possibilita a barbárie. É inaceitável que um político – como Eduardo Paes (PSDB-RJ) – se dedique a fazer proselitismo propondo apoiar os presidentes das torcidas organizadas, que são pessoas sérias, pra impedir que a marginalidade tome conta. Pessoas sérias, meu senhor? Tenha dó. A afirmação é um descalabro de cinismo. Neste debate, estou com Vladimir Palmeira (PT-RJ), que respondeu a mesma pergunta de maneira taxativa: Torcidas organizadas, deveriam ser encerradas suas atividades, o governo deveria proibir.
Houve uma época em que coexistiam, em cada grande clube brasileiro, dezenas de agremiações de torcedores sem que houvesse nenhuma clara hierarquia. Nos últimos tempos, consolidou-se um grupo privilegiado para cada clube (Galoucura e Máfia Azul em BH; Gaviões, Independente e Mancha Verde em SP etc.). Esse gigantismo foi construído através de métodos sujos de troca de favores, extorsão, corrupção e violência. Não aceito o argumento de que há gente boa e sincera dentro desses grupos. Não é essa a questão. Também há gente sincera dentro da Klux Klux Klan Ku Klux Klan que nunca cometeu nenhum crime. Essas organizações estão apodrecidas em sua essência. Em Minas Gerais, o Ministério Público já pediu sua extinção. O Brasil não pode esperar que a coisa chegue no nível em que se encontra na Argentina. Elas têm que ser abolidas. Já.
Cruzeiro e Irmãos Perrella na mira da Polícia Federal
Poucas instituições são tão subservientes como a imprensa esportiva brasileira. Com honrosas exceções, o rádio, a televisão e as revistas especializadas são uma mescla de achismo, lugares comuns, trocas de favores e conluios com a cartolagem corrupta. Eu, que moro a milhares de quilômetros de distância, sei que a fortuna dos irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro de Belo Horizonte, não foi feita vendendo lingüiça em seus supermercados. Mas não há um só veículo da imprensa mineira com a coragem de investigar.
Como em Belo Horizonte não existem jornais – eu me recuso a dignificar com o nome de jornal aquele Diário Semi-Oficial do Governo Aécio –, coube à Revista Placar dar o furo acerca do inquérito 1541, instaurado pela Polícia Federal para investigar a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal e a evasão de divisas no Cruzeiro, que é o segundo clube brasileiro que mais lucrou com a venda de jogadores desde 2001 (o primeiro é o Santos, graças à geração Robinho / Diego). O mais revelador da história é que qualquer um que esteja bem informado sobre os bastidores do futebol mineiro sabe que evasão, sonegação e lavagem não são os crimes mais graves envolvendo dinheiro do lado de lá da Lagoa da Pampulha. Paro por aqui.
O Ministério Público de Minas Gerais havia instaurado um procedimento investigativo em 2004, tendo como alvo as relações entre o Cruzeiro e os negócios pessoais dos Perrella. Segundo a Placar, quando o MP estava por ter acesso à contabilidade, um juiz suspendeu a investigação com o argumento de que os clubes de futebol são associações de direito privado, devendo prestar conta somente a seus associados. O autor da pérola foi o juiz Saulo Versianni Penna. Mais um para nossa coleção.
A investigação atual, que eu saiba, ainda não foi noticiada pela imprensa mineira. Corrijam-me se eu estiver errado.
PS 2: Dê o seu autógrafo de apoio à Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde se encontre trabalho escravo e destinação das mesmas à reforma agrária (via Claudia).
Hoje, 25 de março, é o dia do atleticano, sacramentado recentemente pela Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ao longo do dia, a programação na cidade será intensa. Daqui a pouco, às 7 da manhã, começa o foguetório na Praça Sete. Às 9, tem Missa do Galo, na histórica Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem. Às 11, haverá uma homenagem aos fundadores, no coreto do Parque Municipal, onde nasceu o Gigante, com descerramento de placa e a presença da Charanga do Galo e da Banda da Polícia Militar. Amanhã, às 21:45, jogam Atlético e Peñarol, no Mineirão. Na quinta-feira, haverá sessão solene da Assembléia Legislativa de MG às 14 horas. Na próxima segunda, a Câmara dos Deputados, em Brasília, realiza sessão solene em homenagem ao Galo.
Já tendo escrito tanto aqui sobre o Glorioso, achei que a melhor homenagem para o dia de hoje seria selecionar minhas frases favoritas da história do Galo.
1)Se houver uma camisa alvi-negra pendurada num varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. Se não houvesse escrito nada mais, Roberto Drummond teria, ainda assim, entrado para a história só com esta frase. Resume tudo.
2)Nossa torcida vai ficar no sol, porque é fiel como a sombra. Empresário Júlio Firmino, ao escolher a linha lateral como espaço reservado à torcida do Atlético durante a construção do Mineirão.
3)João, joga a bola fora de mim. Paulo Isidoro, para o goleiro João Leite que, diz a lenda, passou a entender exatamente o que queria dizer Isidoro com “fora de mim”.
4)Parei 15 segundos no ar. Foi o meu recorde. Dadá Maravilha, explicando o gol que deu o título de primeiro campeão brasileiro ao Galo, em 1971.
5)Queria agradecer a Antártica pelas Brahmas que ela mandou para a comemoração. Toninho Cerezo, diz a lenda, antecipou os tempos de AmBev na celebração do Mineiro de 1976.
6)Você está louco? Como é que um campeonato com Pelé, Gérson, Jaizinho e Tostão vai ter Dadá de artilheiro? Se não foi campeão mineiro, como vai ser campeão brasileiro? Osvaldo Faria, ao comentar a previsão de Dadá de que ele seria artilheiro do primeiro Brasileirão e que o título seria do Galo.
7)Tem duas coisas que eu nunca aprendi a fazer: jogar futebol e perder gol. Mais uma de Dadá Maravilha.
8)Acabamos com a audácia das minorias. Nelson Campos, presidente do Galo, em 1971.
Finalmente o Comitê Editorial do Biscoito Fino e a Massa se reuniu e chegou a um consenso sobre qual é o melhor Atlético-MG de todos os tempos. Aqui vai a Seleção escalada em duas partes. Os melhores, em cada posição, desde 1970 – são os que eu vi jogar. Depois, a Seleção escolhida pelo Comitê Consultivo Sênior do blog, localizado no Mercado Central de Belo Horizonte, onde aos sábados pela manhã se reúnem atleticanos de mais de 70 anos de idade.
Seleção dos últimos 38 anos, escalada no 4-4-2: Mazurkiewcz (ou Taffarel), Nelinho, Cláudio Caçapa (ou Vantuir), Luizinho e Oldair; Gilberto Silva, Cerezo, Marcelo e Paulo Isidoro; Reinaldo e Éder.
Seleção do passado, escalada à moda antiga: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Cincunegui; Lucas, Mário de Castro, Carlyle, Ubaldo e Guará.
Maior de todos: Reinaldo (quem viu, viu; quem não viu, acha que o maior centroavante de Pindorama foi Romário).
Algumas fotos dos ídolos das antigas:
Mexicano:
Ubaldo:
Zé do Monte:
Murilo:
Guará:
Carlyle:
O grande uruguaio Cincunegui, em jogo contra a União Soviética no Mineirão:
Marcelo de Lima Henrique, o sr. dormiu bem à noite?
Eu já havia preparado links e anotações para um post sobre a judicialização do debate jornalístico no Brasil, dada a decisão da Revista Veja de processar o Luis Nassif. Nos domingos, em geral, dedico a tarde e a noite ao trabalho acadêmico, reservando um par de horas na madrugada para o post da segunda. Como já estava preparado o post, fui fazer uma das coisas que mais gosto: ver um bom jogo de futebol. Era a final da Taça Guanabara, entre Botafogo e Flamengo.
O Maracanã é, sim, o grande templo do futebol – que me desculpem os paulistas. A Taça Guanabara é o que chamamos, em outros estados, “primeiro turno”. Mas tem um charme e uma tradição incomparáveis. Esquentei uma carninha, abri uma Dos Equis Amber e fui ver a partida. Maraca lotado, jogo aberto, bonito: um sonho para qualquer fã de futebol.
Mais uma vez senti vergonha de ser brasileiro. O que foi feito com o Botafogo ontem no Maracanã é uma dessas coisas que, em qualquer país sério, terminaria na delegacia de polícia ou na barra dos tribunais. Há 18 anos acompanho basquete universitário e profissional, futebol americano universitário e profissional. Tenho meus times (Universidade da Carolina do Norte, New Orleans Hornets, New Orleans Saints, além de ter algum carinho pelo Carolina Panthers, clube que vi nascer). Nunca, em 18 anos, presenciei espetáculos grotescos de arbitragem como os que acontecem no Brasil quase todas as semanas.
Faço questão de escrever este post porque não faltam leitores que apontam “choro de perdedor” cada vez que assinalo os incontáveis roubos de arbitragem de que o Atlético-MG foi vítima ao longo dos anos. Pois bem, agora não foi com o meu time. Botafogo, Vasco, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Corinthians: para mim dá tudo na mesma. Sou Galo, sinto simpatia pelos times do sul, especialmente pelo Inter, e tenho lá um cantinho de amor pela Ponte Preta e pelo Vitória-BA. Desta vez, eu só queria ver um bom jogo. Que vencesse o melhor.
O pênalti marcado em favor do Flamengo, quando o Botafogo vencia por 1 x 0, é daqueles que teriam que ser marcados 20 vezes por jogo. Não pode segurar a camisa do adversário ao subir para cabecear? Perfeito. Que se apite 20 pênaltis por jogo então. Eu não teria problema com isso. Um outro critério, que uns poucos juízes honestos utilizam, é marcar esse tipo de pênalti quando o atacante estiver sendo impedido de fazer a jogada. Não era o caso, já que não havia nenhum perigo de gol. Mas, claro, a camisa sendo agarrada era rubro-negra. Não é preciso dizer que a mesma jogada aconteceu pelo menos 5 vezes do outro lado, sem que se marcasse nada.
Esqueçam o pênalti. Que eu saiba, existe uma regra no futebol que determina que, numa bola recuada intencionalmente com os pés para o goleiro, este não pode segurá-la com as mãos, sob pena de tiro livre indireto na área – a não ser, claro, que o jogador que fizer o recuo se chame Léo Moura e vista uma camisa rubro-negra. O cartão vermelho para Zé Carlos e o cartão amarelo para Lúcio Flávio, do Botafogo, aconteceram por quê mesmo? Uma cotovelada no adversário, em geral, é jogada para cartão vermelho – a não ser, claro, que o autor se chame Souza e vista uma camisa rubro-negra, e a vítima for um goleiro uruguaio (aliás, a xenofobia dos árbitros brasileiros é outro tema que mereceria longa discussão; Valdivia que o diga). Eu poderia listar outros exemplos.
Um árbitro que permanecerá inomeado uma vez me disse: “Idelber, se você quer prejudicar uma equipe, não espere as jogadas decisivas na área. Trave-a no meio-campo”. Assistam o VT da partida e vejam essa regra em ação. O pior é que ela não foi suficiente. O juiz roubou no meio-campo e roubou na área. O Botafogo foi imensamente superior ao Flamengo? Não, não foi. Poderia ter perdido na bola? Poderia. Desequilibrou-se emocionalmente a partir de um certo momento? Sem dúvida. Mas nada justifica a bandidagem. O impressionante no Brasil é que mesmo os melhores e mais honestos cronistas observam essas coisas e acham tudo normal. Não deve ser coincidência que, nos campeonatos cariocas, o time sistematicamente roubado seja justo aquele que é (ou era) dirigido por um ser humano íntegro, não cúmplice dos bandidos da Federação de Futebol do Estado do Rio – ainda que, nas competições nacionais, e especialmente contra mineiros e gaúchos, essa mesma equipe seja auxiliada pelas arbitragens.
Alguém em sã consciência é capaz de dizer que o pênalti que sofreu Tinga, do Internacional, no jogo contra o Corinthians que poderia ter decidido o Brasileirão de 2005, não teria sido marcado caso a sua camisa vermelha tivesse um par de listras horizontais negras? É frustrante, porque os flamenguistas (e, em menor medida, os corinthianos) já se acostumaram a ganhar dessa forma. Mesmo gente instruída e sensata se recusa a discutir o tema, não entendendo que o futebol brasileiro é um patrimônio do país, destruído e pisoteado cada vez que isso acontece. O problema transcende o esporte. É um roubo contra o consumidor, numa esfera que movimenta muito dinheiro e tem enorme significação simbólica para o Brasil, dentro e fora de suas fronteiras. Cada rubro-negro que repete "é choro de perdedor" quando acontecem esses escândalos, me desculpe, é um cúmplice do crime organizado.
Esta semana, chegou a notícia de que a Nike assinou um contrato de patrocínio com a seleção francesa por um valor cinco vezes maior que aquele destinado à seleção brasileira. Eu pergunto: em qual bolsa de apostas da galáxia a seleção francesa vale cinco vezes mais que a brasileira? Ou será que o valor oficial não é o efetivamente pago à CBF? Aliás, eu entendo que o Banco do Brasil patrocine a seleção de voleibol. Trata-se da seleção brasileira de vôlei. Alguém poderia me explicar porque a Petrobras, uma empresa estatal sem concorrência no país, patrocina o Flamengo?
Atualização: Juca, não é possível, Juca. Se você acha que essa foto encerra a discussão sobre tudo o que está dito acima, e tudo o que observaram milhões de torcedores, só nos resta dizer: então tá. Quando alguém com a integridade de Juca Kfouri começa a defender o que aconteceu ontem no Maracanã, sinceramente, dá vontade de jogar a toalha e assistir só futebol americano mesmo.
Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:
Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?
Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.
A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:
Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:
Quando mais "invocada", mais sexy ela parecia:
E o charme com que ela cantava "Malandragem"?
Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.
Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.
Sim, houve um Torneio Inter-Estadual de Clubes em 1920 e um Torneio Rio-São Paulo em 1933. Mas não seria exagero dizer que o primeiro grande campeão inter-estadual do Brasil foi o Clube Atlético Mineiro, seguindo sua tradição de pioneirismo. A Federação Brasileira de Futebol convocou os detentores dos títulos de 1936 nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo para decidir quem seria o “campeão dos campeões”.
O Galo, depois do bicampeonato de 1926-27 e da histórica inauguração do Estádio Antônio Carlos em 1929, narrados no post anterior, foi bicampeão em 1931-32. O primeiro campeonato mineiro profissional foi realizado em 1936, também com vitória do Galo, numa campanha sensacional: 12 jogos, 9 vitórias, 1 empate, 1 derrota; 49 gols pró, 14 gols contra. Foi essa conquista que carimbou o passaporte da equipe para a disputa inter-estadual, que também contou com o Fluminense, a Portuguesa de Desportos e o Rio Branco.
A estréia não poderia ter sido pior. O Galo foi às Laranjeiras enfrentar os tricolores e levou uma goleada impiedosa: 6 x 0. Chegou a se dizer que o time daria vexame. Depois de apanhar no Rio, o Galo fez uma viagem ao Espírito Santo e ficou no empate em 1 x 1 com o Rio Branco. Mais animada, a equipe voltou a Belo Horizonte sabendo que teria três jogos consecutivos em casa. Ainda mordido pela goleada sofrida no Rio, o Galo massacrou a Portuguesa por 5 x 0.
Tendo terminado o turno com 1 vitória, 1 empate e 1 derrota, o time ainda estava em boas condições de brigar pelo título, pois faria 2 dos 3 últimos jogos nas Alterosas. O próximo desafio era a revanche contra o forte time tricolor. Motivado, o Atlético-MG mais uma vez o honrou o apelido de Galo Vingador. Goleou com facilidade por 4 x 1. Já embalados, os atleticanos sabiam que o Rio Branco, jogando em Belo Horizonte, não seria páreo. E não foi. Galo 5 x 1.
A viagem para São Paulo, diz a lenda, foi cercada de tensão. Um empate já seria suficiente para garantir o título, mas o Galo fez melhor. Derrotou a Portuguesa de novo, desta vez em seus domínios, por 3 x 2, sagrando-se Campeão dos Campeões, título que depois entraria com destaque no hino definitivo do clube, composto por Vicente Mota em 1969. Como é de costume nas conquistas do Galo, a comemoração em Belo Horizonte ficou marcada nos anais como uma festa inesquecível. A Massa tomou a cidade na recepção aos ídolos.
O time Campeão dos Campeões de 1936 formava com Kafunga, Florindo e Quim; Zezé Procópio, Lôla e João Bala; Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola e Resende. Aí vai a foto, que é retirada do Estado de Minas. Note-se mais uma vez o pioneirismo do Galo (e não me canso de insistir nisso): em pleno 1936, o Campeão dos Campeões do Brasil levou às Laranjeiras uma equipe formada quase em sua totalidade por negros e mulatos:
Em pé: Floriano (técnico), Zezé Procópio, João Bala, Lôla, Florindo, Quim; na fileira de baixo: Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola, Kafunga e Resende, este último, infelizmente, quase fora da foto.
PS: O Biscoito recomenda à nação alvi-negra uma visita diária ao Galo é amor, o mais ativo dos muitos blogs atleticanos.
A equipe atleticana retratada abaixo foi a responsável pela quebra da mais longa seqüência de títulos estaduais da história do futebol brasileiro. Junto com o ABC-RN, o América-MG é o único clube a jamais ter conquistado um decacampeonato. Em Minas, isso aconteceu na época do amadorismo, de 1916 a 1925, logo depois do título pioneiro do Galo em 1915.
Depois disso, o Atlético-MG nunca mais passaria por uma seca igual. A equipe de 1926 colocou o Galo no rumo da hegemonia que o clube jamais voltaria a ceder: o de maior campeão mineiro. O título de 1926 foi surpreendemente fácil, considerando-se o jejum de uma década. Foram 10 jogos; 8 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 42 gols pró e 19 contra. O artilheiro foi Mário de Castro, o primeiro grande ídolo atleticano, com 20 gols. Eis aí os bicampeões de 1926-27, com destaque para o sensacional penteado de Neném Aluoto:
Da esquerda para a direita: Getulinho, Franco, Ruy Lage, Jairo, Getúlio, Neném Aluoto, Calígula, Ivo Melo, Amador, Mário de Castro, Cardoso, Chiquinho e o diretor de futebol Adelino Testi. A foto é do legendário Joanésio Moreira.
O bicampeonato de 1927 também foi conquistado de forma avassaladora: 12 jogos, 10 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 58 gols a favor e 18 contra. Mário de Castro de novo foi o artilheiro, desta vez com 27 gols. Naquele ano, dois jogos ficaram imortalizados. No dia 26 de novembro, o Cruzeiro, então Palestra Itália, amargaria mais um momento da freguesia que o coloca hoje 40 vitórias atrás do Atlético em confrontos diretos. Mas naquele dia foi especial: 9 x 2, até hoje a maior goleada da história do clássico. Antes disso, no dia 04 de setembro, o Galo enfrentara o Vila Nova no temido campo de Nova Lima. Saíra para o intervalo do jogo perdendo por 4 x 1. Os palestrinos comemoravam intensamente, pois se tratava da última rodada e mesmo um empate do Vila com o Galo daria o título ao Palestra. Mário de Castro se retirara para o vestiário sob intensas gozações dos vila-novenses. Diz a lenda que voltou possuído. Em 15 minutos, enfiou um, dois, três, quatro gols. Galo 5 x 4 Vila, Atlético bicampeão mineiro de 1927.
30 de maio de 1929 é outra data histórica para o Galo. Belo Horizonte era uma cidade de 40.000 habitantes e mais de 10% da população se reuniu num mesmo lugar. O Glorioso inaugurava o Estádio Presidente Antônio Carlos, para pouco mais de 5.000 pessoas, no quarteirão número 13 da 9a seção urbana, no bairro de Lourdes – hoje área nobre de BH, na época um deserto. O convidado do Galo foi o Corinthians, que saiu vencendo por 1 x 0. Mário de Castro empatou ainda no primeiro tempo. No segundo, Mário de Castro faria mais dois, Said marcaria o seu e o Corinthians diminuiria. Final: Galo 4 x 2, sobre aquele que era considerado por muitos o melhor time do Brasil. O juiz ainda anularia 2 gols do Galo.
O Galo venceu com Osvaldo, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmy, Said, Jairo, Mário de Castro e Geraldino. Aí vai uma foto da inauguração, também de Joanésio Moreira:
Fonte das fotos e informações: Atlético de todos os tempos, de Adelchi Ziller.
PS: Em breve, no Galo aos sábados: a homenagem a uma grande atleticana que foi a maior de todas na carreira que escolheu.
PS 2: No domingo de manhã, o blog publicará informações e análise sobre os primárias democratas da Louisiana e as assembléias (caucus) de Washington e Nebraska.
este texto é antigo e conhecido de muitos. Circulou pela internet como spam e com falsas atribuições de autoria. Publico-o aqui no blog pela primeira vez, como homenagem à torcida do Galo no ano do centenário.
Torcidas, as haverá mais numerosas, mas nenhum séquito futebolístico brasileiro se compara ao do Clube Atlético Mineiro em mística apaixonada, em anedótario heróico, em poesia acumulada ao longo dos anos. "A Massa", como é simplesmente conhecida em Minas Gerais, compartilha com a torcida corinthiana ("A Fiel") a honra de deixar-se conhecer com um substantivo ou adjetivo comum transformado em nome próprio, inconfundível. A Fiel, A Massa: poucas outras torcidas terão realizado tal operação de mutação de um nome comum em nome próprio.
Muito distintas são, no entanto, as torcidas dos alvi-negros paulistano e belo-horizontino. Quem já vestiu a camisa do time do Parque de São Jorge sabe que a Fiel é fiel em sua paixão, não em seu apoio. Na derrota, a Fiel é implacável; não desaparece, como a torcida do Cruzeiro. Está sempre lá. Mas é capaz de crucificar com um pequeno manifestar-se de sua raiva. Na vitória, cobra cada vez mais, e reinstala aí sua insatisfação, cuja raiz quiçá esteja no mal-resolvido trauma dos 23 anos sem título, e do grande pesadelo de duas décadas chamado Pelé. A Fiel é fiel, e sempre o foi, mas sua fidelidade se nutre de um descompasso entre a alma do torcedor e a alma do time.
No caso do atleticano, a alma do time não é senão a alma da torcida. Toda a mística da camisa, das vitórias sobre times tecnicamente superiores (e também das derrotas trágicas e traumáticas), emana da épica, das legendárias histórias que nutre sua apaixonada torcida: nem o Urubu, nem o Porco, nem o Peixe, nem a Raposa, nem o Leão, nem nenhum animal mascote se confunde com o nome do time, com sua identidade, com sua alma mesma, como o Galo com o Atlético Mineiro. E Galo é o nome da torcida (GA-LO), bíssilabo cantável e entoável como grito de guerra que ela eternizou ao encarnar em si o espírito do animal. Nenhum outro time é conhecido po