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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sexta-feira, 20 de agosto 2010

Autocrítica do dunguismo de esquerda

Durou uma semana a promessa de não falar de futebol. Diante do bicampeonato colorado da América, da linda exibição da Seleção de Mano Menezes aqui nos EUA e umas reflexões minhas posteriores à Copa do Mundo—competição da qual eu assisti a todas as partidas, incluindo aquele imortal Paraguai x Japão--, tenho um ou dois centavos a acrescentar às discussões sobre o período de Dunga na Seleção, especialmente acerca da relação do futebol com a política.

Dizendo na bucha o que o post veio dizer: acho que muita gente, não só de esquerda, mas principalmente da esquerda, incluindo este blogueiro, pecou contra a memória do grande futebol e de Telê Santana ao emprestar apoio a uma Seleção autoritária, evangélica e castradora, pelo simples motivo de que Dunga resolveu, em alguns momentos, confrontar o poder opressivo com que as Organizações Globo mandam no futebol brasileiro. Nessa disposição—a de igualar o acesso de todas as emissoras ao time, por exemplo—não há nada com o que discordar. Isso é louvável e talvez tenha sido a única coisa boa que Dunga fez na Seleção. Mas no momento em que isso se manifestava na agressão verbal a um jornalista numa coletiva (evento em que só um lado, a priori, tem microfone), passava a ser escroto e injustificável, mesmo que o jornalista tivesse provocado com muxoxos ou sorrisos irônicos. Como o poder da Globo é, de verdade, muito daninho, e posto que combatê-lo tem sido tarefa tão inglória no futebol, muitos, eu incluído, aceitaram jogar fora o bebê precioso do bom futebol (e da civilidade!) junto com a água suja do combate à Globo. Até nos dispusemos a esquecer que, evidentemente, o técnico da Seleção não significa nada nesse combate enquanto Ricardo Teixeira continuar mandando na bagaça.

Falando por mim mesmo, como sempre é o caso no blog, e sem a menor ideia de se algum dia terei companhia, me penitencio: perdoai-me, Senhor, porque dunguei. Só restam o júbilo de que o blog estava parado durante a Copa e o texto definitivo de Mary W, que explica o porquê da dungagem entre pessoas como eu.


robinhowho.JPG


Fico à vontade para fazer a autocrítica aqui porque já levei duas surras argumentativas vindas de pessoas qualificadas, de quem posso dizer que tenho orgulho de ser amigo: José Miguel Wisnik, autor do melhor livro sobre futebol jamais escrito na terra do futebol, e o Dr. Sócrates, capitão do melhor time brasileiro dos últimos 40 anos. Em Londres para o Festival Literário (onde acabei trabalhando de intérprete simultâneo no debate dos dois), o Zé Miguel, pessoa de fala mansa e pausada, que nunca esbraveja, chegou ao limite da sua ênfase, em inesquecível perorata pra cima de mim. A palavra "imperdoável" foi usada. Eu, calado, ouvia e absorvia, porque estava 100% errado e ponto. O Zé havia estado certo o tempo todo, mesmo enquanto a Seleção de Dunga conquistava seus títulos e eu vociferava contra os “negativistas”. Na Copa América, como muitos brasileiros, torci contra a Seleção, mas na competição seguinte, ao ver a virada de 3 x 2 sobre os EUA, numa TV do aeroporto de Confins, eu já havia dungado.

Na Copa, o Brasil jogou um futebol sofrível, deixou na Baixada Santista seus mais criativos jogadores, optou por não ter mexidas táticas no banco, cultivou um irritante proselitismo evangélico, se transformou num amontoado de volantes de passes laterais e eliminou da língua portuguesa a possibilidade de que se use, sem ironia, a palavra “comprometimento”. É um dano considerável. Para piorar, perdeu entrando em insólito colapso emocional na partida contra os holandeses, previsível para aqueles que, como Zé e Sócrates, vinham fazendo a crítica do modelo imposto na Seleção, surpreendente para aqueles que, como eu, havíamos dungado. Eu nunca tive ilusões de que Dunga tinha uma grande equipe, mas confesso que jamais esperei que os caras pirassem daquele jeito ao levar o gol de empate numa partida que dominavam. Depois entendi o porquê: Desequilíbrio emocional, mentalidade igrejeira, feroz repressão e falta de bola mesmo.

Desejo que muitos leitores do blog possam um dia ter a experiência de ouvir o Dr. Sócrates numa mesa, com a cervejinha, dizendo o que significa ganhar, porra? O que é ganhar? Ganhar não é porra nenhuma, não significa nada. Como Dunga, além de peitar a Globo, vinha ganhando tudo, a combinação foi sedutora para mim, e eu terminei esquecendo-me dessa lição por um ano. Inexplicavelmente, torci por essa Seleção de 2010 com intensidade inédita desde 1986. Não há nada de condenável nisso em si, claro, mas desta vez aconteceu pelos motivos errados.

Esta semana, vendo o brilho dos meninos do Mano Menezes naquele espétaculo de um 2 x 0 com sobras em cima dos EUA, recheado de tabelas em alta velocidade, jogadas surpreendentes, passes não óbvios, lançamentos de visão, dribles, alegria de jogar, enfim, eu pensei cá comigo: seria legal deixar uma autocrítica da minha dungagem.

Ei-la aqui, dedicada ao Zé e ao Magrão. Prometo não voltar a pecar.


PS: O que acharam da Copa?



  Escrito por Idelber às 08:48 | link para este post | Comentários (53)



quinta-feira, 30 de julho 2009

Times Inesquecíveis que eu vi, V

(esta adormecida série já homenageou o Grêmio 1981-83, o Internacional 1975-76, o Fluminense 1976 e o Guarani 1978. Agora, finalmente é a vez do Galo 1976-1985)


Das equipes homenageadas até agora, esta talvez tenha sido a que durou mais tempo praticando futebol de altíssimo nível. De 1976 a 1985, o Galo venceu 10 dos 12 campeonatos mineiros que jogou. Foi campeão de todos os torneios de verão imagináveis na Europa, numa época em que o prestígio dessas competições estava em seu auge. Chegou às semifinais de metade dos campeonatos brasileiros de que participou. Sagrou-se o único vice-campeão invicto da história, numa disputa de pênaltis fatídica contra um adversário que acumulara 10 pontos a menos que ele em 21 jogos. Vingou-se contra a mesma equipe, no ano seguinte, na final do torneio dos Campeões do Brasil. Foi novamente vice-campeão brasileiro na mais sensacional final de todos tempos. Deixou de vencer uma Libertadores na pior vergonha da arbitragem brasileira. Estabeleceu recordes de público e de vitórias consecutivas sobre o maior rival. Foi uma das bases da última Seleção Brasileira a realmente encantar o mundo. É verdade que lhe faltaram dois ou três troféus nacionais e internacionais que coroassem seu reinado, mas ninguém menos que Paulo Roberto Falcão a considera a melhor equipe do futebol brasileiro pós-Pelé.

Obra das categorias de base do Atlético, a geração que surge por volta de 1976 (parte dela depois de um estágio no Nacional de Manaus) reconquista a hegemonia do futebol mineiro sobre o Campeão da Libertadores. O Cruzeiro tinha um equipaço, experiente. Mas Jairzinho, Palhinha, Nelinho, Raul e Zé Carlos levaram um baile homérico do Galo de Cerezo, Reinaldo, Marcelo e Paulo Isidoro na final de 1976, no jogo que marca a virada da hegemonia. De todas as encarnações da Máquina, esta era a mais leve, lépida, ágil. O 2 x 0 de 1976 ainda é tido como um dos placares mais injustos do retrospecto do clássico. Consulte os velhos cruzeirenses e eles reconhecerão: o jogo era para ter sido uns cinco ou seis. Nessa final, o goleiro ainda era o argentino Ortiz. A zaga era Getúlio, Modesto, Vantuir e Dionísio; no meio, Cerezo, Danival e Paulo Isidoro; na frente, Marinho, Reinaldo, Marcelo. Essa equipe viveu algo que seria inimaginável hoje em dia: um de seus reservas, Marcelo, chegou a ser titular da Seleção Brasileira de Osvaldo Brandão.



Galo-1976.jpeg

A alma da equipe era a dupla Cerezo-Reinaldo, que se entendiam de maneira impressionante a 30, 40 metros de distância. A marca registrada de Cerezo era o passe longo que mudava completamente o mapa do jogo. Característico de Reinaldo era o seco, rápido, imprevisto toque de gênio: em geral, um ou dois, no máximo, antes da finalização fulminante. Antes de 1976 já se iniciara, com a conivência criminosa dos árbitros, a caça aos joelhos e tornozelos de Reinaldo. A final de 1976 foi uma triste amostra do estrago que açougueiros como Morais e Darci Menezes eram capazes de fazer. Contra Reinaldo, figura particularmente odiada pela CBD do General Heleno Nunes, com frequência valia tudo.

Mesmo assim, marcou mais de 250 gols pelo Galo. Detém o absurdo recorde -- que dificilmente será batido -- de 1,55 gol por jogo no Campeonato Brasileiro de 1977. É o maior artilheiro da história do clássico de Minas Gerais. É o maior artilheiro da história do Mineirão. Fez apresentações memoráveis pela Seleção Brasileira, mas na hora H, em 1982, não pôde completar a equipe dos sonhos de Telê Santana. Entre os que o viram jogar ao vivo, poucos não o consideram o maior de todos.

Aqui, uma seleção de jogadas de Reinaldo. A 1:46s, você verá um dos gols mais incríveis que já presenciei no Mineirão, criado por um drible de corpo com o qual Reinaldo quebra a cintura de toda a defesa do América-RN sem tocar na bola, num 6 x 0 de 1977:




A equipe que termina o Campeonato Brasileiro de 1977 vice-campeã invicta, com 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota, substituíra Ortiz por João Leite (que seria o goleiro em todo o hexacampeonato de 78-83), Getúlio por Alves (um talentosíssimo lateral que certamente teria tido chance na Seleção se tivesse jogado no eixo SP-RJ), Modesto por Márcio e coloca um ponta-esquerda legítimo, Ziza. Ângelo se firma no meio-campo e Marcelo e Paulo Isidoro se alternam ao lado de Reinaldo na frente. Cerezo passa por sua mais luminosa fase, ao mesmo tempo gênio e desengonçado.

Reinaldo, que havia sido expulso numa partida no início do campeonato, só é julgado e suspenso na véspera da final contra o São Paulo. O mesmo Arnaldo César Coelho que hoje pontifica que "a regra é clara" não expulsa Chicão, quanto este pisoteia um Ângelo que já se contorcia no chão depois de uma solada criminosa de Neca em seu abdômen. João Leite defende duas cobranças são-paulinas, mas Cerezo, Márcio e Joãozinho Paulista (que Barbatana inexplicavelmente escolhera como substituto de Reinaldo, deixando Marcelo no banco!) chutam seus pênaltis quase na arquibancada, afetados pela catimba de Waldir Perez. A cena dos meninos enlameados, deixando o campo abraçados sob os aplausos de 100.000 atleticanos e uns 5.000 são-paulinos, ainda é das imagens mais trágicas da história do futebol brasileiro. Na foto, falta Cerezo, mas esta era a equipe de 1977:



Galo-1977.jpeg



A encarnação de 1980 -- reforçada em 1981 por Nelinho -- ainda é a favorita de muitos atleticanos da velha guarda. Essa é a equipe que põe fim à maior dinastia do futebol brasileiro dos anos 70. Nas semifinais de 1980, o grande Internacional veio a Belo Horizonte e arrancou um 2 x 2. No jogo de volta, em que o Colorado, por sua história recente, era o favorito, o Galo aplicou contundentes 3 x 0 no Beira-Rio, numa das maiores apresentações da equipe. O 1 x 0 e o 2 x 3 que decidiram o Campeonato de 1980 para o Flamengo -- com arbitragens bem conturbadas e 3 expulsões atleticanas no segundo jogo -- ainda são, sem dúvida, a maior final de todos os tempos no Brasileirão. João Leite, Orlando, Osmar, Luisinho e Jorge Valença; Chicão, Cerezo e Palhinha; Pedrinho, Reinaldo, Éder eram os titulares de 1980.


Galo-1980.jpeg


Ao longo da primeira metade dos anos 80, o Galo foi o convidado de preferência dos torneios de verão europeus. Venceu praticamente todos: Paris, Amsterdã, Vigo, Bilbao e Ramón de Carranza viram apresentações históricas dessa equipe. O 4 x 1 sobre o Hamburgo em 1981 realmente deveria ser recuperado para as novas gerações. Aqui, deixo com vocês os gols do 3 x 0 sobre o Paris Saint-Germain. Depois do terceiro gol, de placa, de Reinaldo, o Galo passa a ser aplaudido de pé pelo público francês:



A equipe de 1985, com Nelinho em grande fase, ainda teve chances de voltar à final do Campeonato Brasileiro. Mas num daqueles cataclismos que só acontecem com o Galo, parou na retranca do Coritiba, num 0 x 0 em que um bigodudo chamado Rafael fechou o gol e classificou o time coxa-branca para a final mais melancólica da história do Brasileirão, contra o Bangu.

Durante esse período, o Galo teve, sim, três ou quatro derrotas traumáticas ou revoltantes em jogos decisivos, mas o normal, de todos os dias, era ir ao estádio para ver show de bola. Apesar da horrível década que tem tido desde 2000, o Galo ainda tem vantagem na história do confronto direto contra a maioria dos grandes clubes, fundamentalmente pelas vitórias acumuladas por Cerezo, Luizinho, Paulo Isidoro, Palhinha, Éder, Nelinho, João Leite. Se os Campeonatos Brasileiros tivessem sido disputados no sistema de pontos corridos, essa geração teria se sagrado pentacampeã nacional. A Libertadores e o bi brasileiro não pintaram, mas o Galo 1976-1983 é lembrado com orgulho pela Massa e com carinho por todos os amantes do futebol que o viram jogar.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (107)



sexta-feira, 19 de junho 2009

Solidariedade a mais um blogueiro processado

Até os pombos da Praça da Liberdade sabem que há, nas associações representativas do esporte brasileiro -- tanto o profissional (CBF) como o supostamente amador (COB) --, medonhas caixas-pretas que fariam o escândalo das passagens do Congresso Nacional parecerem um troco de armazém da esquina. Inclusive, o Tribunal de Contas da União já apontou superfaturamento nas obras dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro, realizadas sob a responsabilidade do Sr. Carlos Nuzman. Mas basta que um blogueiro com real conhecimento da matéria comece a publicar as denúncias para que a indústria dos processos judiciais e do silenciamento passe a operar.

O post de hoje continua a milenar tradição deste atleticano blog: a de prestar solidariedade a blogueiros processados. Vamos aos fatos.

Alberto Murray Neto é advogado, ex-atleta e formado em Estudos Olímpicos pela Academia Olímpica Internacional, na Grécia. Esteve em todas as edições dos Jogos desde 1972. É membro do Comitê Olímpico Brasileiro desde 1996, embora mantenha com ele uma relação bastante crítica. Desde outubro de 2008, Alberto tem denunciado a malversação do dinheiro público pelo COB, sempre com documentos, citações de reportagens da grande imprensa e referências a relatórios do Tribunal de Contas da União. Não se trata, nem de longe, de alguém que esteja gritando acusações sem fundamento.

No blog de Alberto, você encontrará uma análise do relatório do TCU segundo o qual o Consórcio Interamericano e os responsáveis pela licitação de serviços contratados para a Vila Pan-Americana dos jogos de 2007 deverão pagar R$ 2.740.402,54 milhões por superfaturamento ou apresentarem defesa. Você lerá também um chamado a que as assinaturas dos contratos de patrocínio do COB com empresas privadas sejam feitas à luz do dia, assim como uma crítica da absurda prática do COB de manter a sua altíssima folha de pagamento em segredo. Há vários outros posts que desmascaram o COB. Invariavelmente, os textos vêm acompanhados de documentação.

No mesmo dia em que encaminhou ao Procurador Geral da República documentação referente ao relatório do TCU que atestava o ilícito uso do dinheiro público no Pan, o escritório de advocacia de Alberto recebeu uma carta da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, do Rio de Janeiro, solicitando que a pessoa jurídica destinatária da missiva informe “os dados cadastrais do criador do blog www.albertomurray.wordpress.com, bem como, IP utilizado para sua criação, o qual, encontra-se hospedado no domínio prmurray.com.br" (a péssima utilização das vírgulas no trecho em itálico não é responsabilidade minha nem de Alberto).

Não se trata, que eu saiba, de atribuição comum de Delegacias de Repressão aos Crimes de Informática, que em geral lidam com coisas como cracking, fraudes financeiras, pornografia infantil ou ameaças. Túlio Vianna pode me corrigir se eu estiver errado. Em todo caso, a solicitação era estranha, posto que Alberto assina o blog com nome completo, está hospedado no ESPN e tem uma página de autoapresentação exaustiva. A carta tinha um nítido intento de censura.

Dias depois da publicação do seu post de protesto contra essa carta, Alberto recebe notificação de que está instaurado “procedimento policial investigatório” pelo Sr. Nuzman e seus dezesseis advogados. Ela é parte de uma carta que exige que ele identifique aqueles a quem critica no post de protesto contra a solicitação de seus dados, exigência que, a meus olhos de leigo, é descabida, posto que a tal solicitação (pelo que entendi do post de Alberto) vinha assinada pela delegada e não identificava os autores da representação. A carta dos dezesseis advogados -- e mais quatro estagiários! -- está escrita em tom sombrio e ameaçador. Ela chegou às mãos de Alberto um dia depois que ele publicara outro assombroso relatório do TCU, que identificava um sem-fim de irregularidades nos gastos do Pan.

O Sr. Nuzman deve explicações ao povo brasileiro, porque o dinheiro é público. O Tribunal de Contas da União já demonstrou amplamente que há malversação grave acontecendo no COB. Em vez de processar blogueiros, que ele apresente explicações razoáveis para a caixa-preta que ele maneja como se fosse um feudo particular seu.

A solidariedade do Biscoito está, como sempre, com o processado por crime de opinião. Aqui, a defesa da liberdade de expressão não depende de raça, orientação sexual, gênero, posição política, preferência clubística ou habilidade com trocadilhos. Ela é incondicional. Alberto Murray Neto, conte conosco.

Não adianta, Sr. Nuzman. Na era da internet, o buraco é mais embaixo. Aliás, seria interessante acrescentar à sua página na Wikipédia a informação que o Sr. está processando blogueiros.


Atualização à 1:20: O leitor Ricardo Horta, no comentário #9, abaixo, esclarece algo que está implícito no post mas que, no título e no último parágrafo, não fica bem explicado. Tecnicamente, Nuzman não está "processando" Alberto (ainda), posto que estamos em fase de inquérito policial. O mais correto, portanto, seria eu ter dito "Solidariedade a mais um blogueiro em vias de ser processado". A correção é importante e agradeço ao Ricardo por ela. A solidariedade a Alberto e a indignação com a atitude de Nuzman, evidentemente, se mantêm idênticas.



  Escrito por Idelber às 05:25 | link para este post | Comentários (41)



segunda-feira, 06 de abril 2009

Open thread: final do basquete universitário

A final entre Carolina e Michigan State começa às 22:21 h de Brasília. Dá para ver pela net e, segundo dica do Radical Livre, no ESPN Internacional aí do Brasil, com transmissão a partir das 22 h.

Se for ver o jogo, fique à vontade para comentar aqui, torcer com o blog ou secar. Quem sabe até a Profa. de basquete Suzana Gutierrez não aparece? Onde anda Su?

Nas casas de apostas, Carolina é favorita por 7 pontos. Se vitoriosos, seremos hexa (1924/57/82/93/2005).



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domingo, 05 de abril 2009

A virada mais incrível da história do basquete universitário

Qualquer apreciador de basquete sabe que uma grande equipe tem recursos para esticar bastante o tempo quando em ligeira desvantagem no final do jogo. A possibilidade da virada é uma das delícias do esporte.

Mas você já viu uma virada de 8 pontos nos últimos 17 segundos? Até que enfim achei a danada no YouTube. Eis aqui, em homenagem à vitória de Carolina ontem, um dos feitos mais incríveis da Lenda Viva num final de partida. Aconteceu em 1974 e simplesmente jogou o maior rival, Duke, para o fundo da liga durante uma década, porque disto ninguém se recupera fácil:



  Escrito por Idelber às 20:12 | link para este post | Comentários (10)



domingo, 29 de março 2009

Carolina bate dois recordes no basquete americano

O basquete universitário norteamericano viveu um fim de semana digno de registro.

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Quis o destino que eu, atleticano-sofredô-sim-sinhô, tivesse a bênção de torcer para um daqueles times que você sabe que vencerá quase sempre. A combinação é simples: uma filosofia própria que já deu certo, uma tradição de vitórias acumuladas, o legado de um indíviduo histórico. Fazem o resto a facilidade que isso acarreta na hora recrutar os melhores jogadores das escolas secundárias e a lealdade ferrenha que a ética do programa constroi entre seus ex-atletas.

Nesta tarde, os Tar Heels de North Carolina bateram o recordes de vitórias no Torneio Nacional (o NCAA), chegando a 100 e superando as 99 de Kentucky. Bateram também o recorde de presenças na Final Four (18, contra as 17 de UCLA). No Torneio deste ano, passaram pela rodada de 64 sem dificuldade, como previsto. Tiveram um pequeno susto antes de passar por LSU na rodada de 32. Massacraram Gonzaga nas oitavas e hoje, contra Oklahoma – o time que tinha o jogador do ano, Blake Griffin --, venceram com facilidade.

No sábado que vem, os Heels encaram Villanova pelo direito de enfrentar o vencedor de Connecticut e Michigan State na grande decisão de segunda à noite. A Final Four deste ano acontece na devastada Detroit.



  Escrito por Idelber às 22:00 | link para este post | Comentários (8)



quinta-feira, 26 de março 2009

Basquete

Dentro de uma hora, às 20:05 de Brasília, começam as oitavas de finais do Torneio Universitário de Basquete dos EUA. Todas as zebras já foram embora. Jogam hoje Purdue x Connecticut, Xavier x Pittsburgh, Missouri x Memphis e, imperdível, às 23 h, o parrudíssimo time de Villanova enfrenta os lépidos magrinhos de Duke University, contra quem, evidentemente, vai toda a secação deste blog.

O site da CBS Sports transmite ao vivo.



  Escrito por Idelber às 20:13 | link para este post | Comentários (6)



quarta-feira, 25 de março 2009

Globo cospe na história do basquete nacional

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Qualquer um que saiba qualquer coisa sobre o basquetebol brasileiro sabe quem é Wlamir Marques. Gigante, lenda viva, Campeão Mundial de 1959, Campeão Mundial de 1963, Medalha de Bronze nas Olimpíadas de 1960, Medalha de Bronze nas Olímpiadas de 1964, Vice-Campeão Mundial em 1954, Vice-Campeão Mundial em 1970, Medalha de Prata no Panamericano de 1963, eleito para a Seleção do Mundo em 1963, meu Deus do céu, qual é a honraria que este homem não conquistou no basquete?

Esta semana, as Organizações Globo não perderam a oportunidade de fazer uma grosseria com Wlamir Marques, com a história do basquete brasileiro e com a inteligência de seu espectador.

Wlamir havia sido convidado para ser jurado de um concurso de enterradas num evento organizado pela Liga Nacional de Basquete. Wlamir, claro, o faz por amor ao esporte. Na situação periclitante do basquete brasileiro atual, longe das glórias que ele conquistou com Rosa Branca e Amaury Passos, longe até dos quintos lugares de Oscar e Marcel nas Olimpíadas, Wlamir aceita o convite, ora bolas.

Às vesperas do evento, Wlamir recebe um telefonema do Presidente Kouros, da LNB, relatando que o diretor de esportes da Globo havia vetado a sua presença. Meio sem graça, Kouros sugeria que Wlamir fosse substituído como jurado para atender ao pedido da Globo. Com a serenidade própria aos gigantes, Wlamir assegurou a Kouros que não havia nenhum problema.

Para substituir o Bi-Campeão Mundial na condição de jurado do concurso de enterradas, a Globo impôs o nome de .... Pedro Bial.

Sim, isso mesmo, Pedro Bial.

Com sua elegância infinita, Wlamir relata o episódio. Guilherme Tadeu, a quem agradeço pela notícia, já falou sobre o assunto. O acontecimento reforça a convicção deste blog: qualquer contribuição à desmoralização da corja dos Marinho, da corja dos Civita, da corja dos Frias, é uma contribuição a um Brasil melhor.

O Biscoito ignora se a grosseria com Wlamir foi feita porque ele tem um histórico de associação com o ESPN Brasil, ou porque ele já deu (pudesse ter dado) declarações pró-PT, ou porque a Globo achou que o rosto do seu galã BBB ficaria mais bonitinho na tela. O motivo, realmente, nos importa pouco.

PS: Ações com esta têm que se multiplicar.



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sexta-feira, 20 de março 2009

Basquete: aviso aos navegantes

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É possível assistir ao vivo, no site da CBS Sports, os jogos do Torneio Universitário de Basquete dos EUA. Para os amantes do basquete, é imperdível. Já na primeira rodada, está claro que será um dos melhores dos últimos tempos.

(Obrigado à Luiza Voll e ao Fernando Serboncini pela ajuda na confirmação de que o link funciona no Brasil).

Foto: Grant Halverson.



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quarta-feira, 18 de março 2009

As melhores três semanas do esporte

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Para os Tar Heels que estejam me assistindo: eu escolhi vocês ano passado – e vocês me largaram na mão. Este ano, não me façam passar vergonha na frente do país, ok? Estou contando com vocês. Ainda tenho aqueles tênis que vocês me deram.

***********

Como diríamos por aqui, no pressure, mas o meu time terá que carregar nas costas o fardo de que essa previsão vem de Obama. Para piorar ainda mais a situação calamitosa do Partido Republicano, Obama entra agora em sintonia total com o resto do país durante três semanas: March Madness começa amanhã. Torneio dos torneios, fábrica de zebras, profuso em arremessos de último segundo decidindo jogos, ele mobiliza a paixão esportiva nos EUA – pelo menos para a esmagadora maioria da população que “tem” uma escola de coração -- com intensidade superior à gerada pela NBA ou pela NFL.

Trata-se de um torneio de 64 times que pode ter 4 ou 5 favoritos, mas que literalmente 20 ou 25 podem vencer. Ganhe seis jogos seguidos, só isso. Obama tirou 20 minutos na Casa Branca e, com riqueza de argumentos e conhecimento do jogo, preencheu a seguinte tabela, não muito diferente da minha (que escondo para não agourar):

obamasbracket09.jpg
(daqui)

Sobre os quatro times que Obama escolheu para a Final Four:

North Carolina: o mais lendário programa de basquete dos EUA, pentacampeão nacional (1924/57/82/93/2005), tem a rotação mais ampla (jogam 9, facinho), o armador mais talentoso (Ty Lawson, que com o dedão machucado fica fora da primeira rodada) e o pivô que foi o jogador do ano em 2007, Tyler Hansborough, detentor de uma pilha de recordes da liga regional mais forte dos EUA, a ACC. Tem a camisa e o favoritismo, o que é, claro, uma tradicional faca de dois legumes.

Pittsburgh: Não tem a mesma velocidade dos Tar Heels de Carolina, nem a mesma quantidade de corpos em condições de jogar em alto nível. Mas os Panthers têm mais força física e uma defesa parruda. Num eventual encontro entre os dois, um jogo na casa dos 80, 90 pontos seria de vantagem Carolina. Segurando o jogo na casa dos 60 e poucos, 70 pontos, Pitt teria grandes chances.

Louisville: No momento, é o time que ocupa o número 1 do ranking. Foi campeão da forte liga do Big East e tem uma defesa que é uma verdadeira máquina trituradora. É muito bem treinado por Rick Pitino (que havia tido muito sucesso com os rivais de Kentucky, outro programa legendário do basquete) e tem capacidade de forçar, facinho, 25 perdas de posse de bola mesmo em adversários de qualidade. Para a final de 06 de abril, a maioria dos analistas têm escolhido Louisville e Carolina.

Memphis: O único não-cabeça-de-chave que Obama escolheu, preterindo a U. of Connecticut. Memphis tem talvez o time mais atlético do torneio e, quando estabelece seu jogo de correria e passes rápidos, encaçapa 30 pontos em 5 minutos e acaba com a brincadeira. Mas Memphis paga o preço de jogar numa liga regional fraca, a Conference USA. Há 50 jogos não perdem na liga, mas mesmo assim não foram escolhidos cabeças-de-chave. Claro que o técnico já botou isso para motivá-los. Os Tigers vêm babando de vontade de chegar à Final Four e também acho que eles passam por UConn.

As rodadas de 64 e 32 acontecem neste fim de semana. As oitavas e quartas no fim da semana que vem. No seguinte, a Final Four. Por que o ESPN não transmite essa joça completa para o Brasil? Garanto que daria mais audiência que muito jogo de futebol por aí.



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quarta-feira, 11 de março 2009

Secar Parreira: Tarefa de todo amante do futebol

O Fluminense contratou o Parreira. Eu até já posei com a camisa do Tricolor das Laranjeiras e o clube tem a torcida da pessoa mais simpática da blogosfera. Mas contará a partir de hoje com a poderosa secação deste blog – e urucubaca de atleticano é a coisa mais destrutiva que existe. Torcer contra Parreira é dever de todo amante do futebol.

Sobre Parreira, que chegou a inventar na Copa um patético 6-0-4, eu mantenho tudo o que disse em 2006: trata-se de um repetidor de manuais que copia o pior do futebol italiano, gagueja em inglês e pensa que é alemão. Em quarenta anos de carreira, ganhou um Campeonato Nacional (1984) e uma Série C com o Fluminense, teve uma grande temporada com o Corinthians herdado de Oswaldo de Oliveira e nos impôs a desgraça de ganhar uma Copa do Mundo que fez mais mal que bem ao nosso futebol. Durante o resto inteiro da carreira, acumulou fracassos e arrogância. Foi um zero no São Paulo, no Galo, no Santos, no Internacional. Em 2006, dirigiu a Seleção Brasileira mais patética desde que Cruyff fez Luisão Pereira perder o rumo de casa na Alemanha.

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A cara da Seleção de Parreira

Parreira conseguiu entregar a um ex-Ipiranga comandado por Felipão a derrota mais grotesca que o Galo já sofreu num clássico, um 4 x 2 depois de estar vencendo por 2 x 0. No Brasileirão de 1999, o Galo de Humberto Ramos perdeu a final para um Corinthians que lhe era superior. Na Libertadores de 2000, o Galo de Parreira foi eliminado pelo Corinthians porque se recusou a jogar. *

Com outras Seleções que não a brasileira em Copas do Mundo, Parreira acumulou dois empates, sete derrotas e nenhuma vitória, seis gols a favor e vinte e quatro gols contra. Acaba de voltar da África do Sul, onde fracassou de novo (e ali há talento). Nas poucas vezes em que vence, Parreira tripudia sem elegância. Na maioria do tempo, põe a culpa pelas derrotas em outrem.

Apesar de tudo isso, Parreira – por causa de Copa de 1994 – sempre enchou o peito para falar em nome da “eficiência”, praguejar contra o estereótipo de futebol-arte que traz na cabeça e destilar ressentimento contra Telê Santana. Parreira e Zagallo não se aguentam de inveja, porque ganharam uma Copa cada um, e não são amados por ninguém. Telê perdeu duas e é amado por todos.

Coisas do futebol.

* Ver correção aqui e aqui.



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quinta-feira, 26 de fevereiro 2009

Pergunta

Eu acabo de concluir uma experiência bem divertida, sobre a qual vou fazer um post em breve. O canal ESPN me convidou para palestrar sobre a cultura do futebol e dos esportes, em geral, na América Latina, para cerca de 100 de seus jornalistas e executivos -- imagine, Mestre Sergio, eu na frente de 100 jornalistas numa semana como esta.

O relato virá em breve, porque a experiência em Hartford foi muito boa, mas hoje eu queria pedir um favor aos leitores.

Quinta-feira é meu dia de batente duro, com aulas o dia todo, e eu ando precisando -- não para as aulas -- de uma informação, se possível com urgência: alguém aí sabe qual o valor exato que a Rede Globo de Televisão paga pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro? Quanto pagou no último? Nos anteriores? Eu provavelmente acharia a informação no Google em alguns minutos, que agorinha não tenho.

Alguém confirma, se possível com fonte?



  Escrito por Idelber às 12:56 | link para este post | Comentários (62)



quarta-feira, 11 de fevereiro 2009

Lembrete: Carolina e Duke

Se você estiver acordado à meia-noite de hoje aí no Brasil, tem conexão banda larga e gosta de basquetebol, o programa é um só: Carolina visita Duke. É o maior clássico do basquete universitário, de longe. O jogo será transmitido pelo site do ESPN (clique no "360" na hora do jogo).

Os jogadores de quarto ano universitário (os "seniores") da equipe de Carolina jamais perderam em Duke, o que é o equivalente a três anos de traulitadas coloradas sobre o Grêmio no Olímpico, por exemplo. Babado forte. As duas equipes lideram a liga regional mais importante do basquete americano, a ACC, com campanhas 7-2.

Ignoro se o ESPN Internacional, aí no Brasil, transmitirá o jogo pela televisão. Alguém confirma?



  Escrito por Idelber às 15:54 | link para este post | Comentários (8)



quinta-feira, 29 de janeiro 2009

Basquete universitário, 09

Sim, são-paulinos chatos, eu também sei o que é torcer para um time que ganha sempre. Desfruto dessa maravilhosa sensação desde 1990, torcedor que sou dos North Carolina Tar Heels, nesse que deve ser o mais eletrizante-emocionante-espírita dos esportes, o basquete universitário americano. Este post é uma explicação sobre o que faço atualmente enquanto não estou assistindo aos Campeonatos Estaduais do Brasil no satélite gringo da Globo, que eu decidi que já não vale mais a pena pagar (o Campeonato Mineiro começou como sempre, com pênalti roubado para os Perrella).

Nós, brasileiros, gostamos de tirar onda com europeus e argentinos porque o Campeonato Brasileiro pode ser, teoricamente, vencido por 10 a 12 times sem que isso seja zebra. O torneio nacional universitário dos EUA, que reúne os 64 melhores do basquete em março -- depois do fim dos amistosos e das ligas regionais, que se jogam de outubro a fevereiro --, pode ser vencido por 20, 25, 30 equipes sem grandes surpresas. É o torneio mais sensacional que eu conheço, pau a pau com a Liga dos Campeões européia. As zebras sempre acontecem, claro, porque o torneio se joga no mata-mata. Vença seis jogos seguidos e você é campeão nacional.

A Universidade da Carolina do Norte, primeira universidade pública dos EUA, é o esquadrão que mais venceu jogos nesse torneio nacional. Foi dirigido, durante décadas, por um técnico que é uma lenda viva e figura histórica na luta contra o racismo no sul dos EUA. Do alto dos seus 1,60 e pouco, Dean Smith acompanhou muitos negros a protestos em lanchonetes.

Carolina é pentacampeão americano (1924/57/82/93 e 2005), segundo time que mais chegou entre os semifinalistas nessa grande festa que é a Final Four e potência hegemônica na liga regional mais forte do país, a Atlantic Coast Conference. É, sem dúvida, junto com Kentucky e UCLA, o programa mais legendário do college basketball. Nele jogou um certo Michael Jordan, que no seu primeiro ano de faculdade foi campeão nacional acertando o jumper decisivo. Jordan, para quem não sabe, estudou português na UNC. Aqui, o arremesso do título nacional de 1982:



Chapel Hill é um caso único de uma cidade de 55 mil habitantes que tem uma arena esportiva para 22 mil pessoas que lota todos os jogos. Você, que mora na BH de 3 milhões e vê 2 mil almas penadas irem ao Mineirão numa quarta-feira depois da novela para ver Atlético e Ituiutaba, imagina o que é uma cidade de 50 mil levar 20 mil ao ginásio duas vezes por semana? Esse é o eletrizante basquete que se vive todo ano, de outubro ao começo de maio, em Chapel Hill. É realmente uma pena que os canais de TV a cabo no Brasil não transmitam. É muito mais interessante que a temporada regular da NBA.

Até agora, vamos com 17 vitórias e 2 derrotas. Ontem, outra típica vitória de Carolina: em Tallahassee, o time de Florida State – traumatizado por ter perdido 20 dos últimos 23 jogos contra os Tar Heels – liderou até o final em casa, mas entregou o ouro, levando a cesta decisiva com 1 segundo:


(vá arrastando a linha aqui para ver a evolução de uma típica vitória de virada dos Heels)

Seria de mau agouro eu dizer que somos favoritos para chegar à Final Four, mas digamos que o melhor jogador do basquete universitário do ano passado – Tyler Hansbrough --- já poderia estar na NBA ganhando milhões. Só voltou a Carolina para jogar seu último ano de faculdade porque quer o caneco. Nosso último título nacional – o regional a gente ganha todo ano -- foi em 2005:



O site do ESPN transmite jogos, caso alguém se interesse. Em todo caso, combinemos que eu vou dando notícias da temporada do basquete universitário e vocês me avisam se acontecer algo fora do normal nos Campeonatos Estaduais – além da existência de um campeonato onde não há times da capital.



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domingo, 07 de dezembro 2008

O envelope de Tardelli

Corrupção e histórias mal contadas existem em qualquer lugar mas, convenhamos, há certos enredos que só ocorrem com a Confederação Brasileira de Futebol. Longe de mim querer comentar um campeonato cujos jogos não acompanhei, mas os acontecimentos deste sábado merecem registro. A CBF cancelou a escalação do árbitro Wagner Tardelli para o jogo Goiás x São Paulo, um dos dois embates que definem o título da temporada (o São Paulo precisa de um empate para levantar o caneco; se perder, e o Grêmio vencer o Galo, o título é dos gaúchos). A explicação dada pela entidade é que ela inteceptou um envelope com dinheiro destinado a ele. A CBF diz que não desconfia de Tardelli e que sabe quem é o autor da tentativa de suborno. Mas não diz.

Num segundo momento, foi acrescentado à história o dado de que Wagner Tardelli teria recebido ingressos para o show da Madonna, no Morumbi. O São Paulo ofereceu sua explicação para a história. Segundo Marcelo Damato, membros do Superior Tribunal de Justiça Desportiva teriam confirmado que a trama foi descoberta por acaso pela polícia, durante interceptações telefônicas de terceiros, autorizadas pela Justiça. O Ministério Público teria avisado a CBF.

O novo árbitro do jogo, Jaílson Macedo Freitas (BA), não é do quadro da FIFA e foi o único juiz brasileiro a marcar uma falta por retenção de bola do goleiro por mais de seis segundos durante este campeonato. Foi justamente a favor do Grêmio, num jogo no Olímpico contra o Figueirense. O Tricolor perdia por 1 x 0 e só empatou na cobrança dessa infração que, segundo Juca Kfouri, não aconteceu (curiosamente, nem mesmo os compactos do jogo postados no YouTube mostram a falta). Na época, Mário Sérgio, técnico do Figueirense, saiu revoltadíssimo com a arbitragem. Agora, o São Paulo se diz prejudicado com o bafafá.

O sensacional é que nenhuma teoria conspiratória que se possa inventar carece de verossimilhança quando se trata da CBF.



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sábado, 15 de novembro 2008

Na dança da degola

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Já rebaixado:

Ipatinga-MG, 31 pontos: Que me desculpe o amigo do Vale do Aço, mas eu não poderia rir mais dessa sequência de desgraças. O Ipatinga, o clube, precisava de uma dose de humildade. O ex-pretendente a "segunda força de Minas" foi rebaixado no Campeonato Mineiro e pego no vexame de uma tentativa de suborno a jogadores de um clube infinitamente maior que ele -- o Leão do Bonfim, glorioso tricampeão mineiro de 1932/33/34, instituição que o Ipatinga ainda tem que comer muito feijão para alcançar. Depois, no Nacional, o Ipatinga não deu para a saída. Está mais próximo da Série C que de voltar à A: um triste fim para a soberba e falta de sentido de proporções. Tchau, Itair Machado. Vá fazer piadinha com o Atlético de Três Corações, que é do seu tamanho. O Galo lhe mostrou por que o epíteto Vingador é conhecido no Brasil todo.

Na dança da degola (em ordem decrescente de desespero):

Figueirense. 35 pontos: O Avaí, do meu amigo Joca Wolff, já subiu, numa épica campanha. Depois de uma década sendo sinônimo de "sucesso" em Santa Catarina, o Figueira pode virar time de segunda, justo no ano em que o maior rival chegou à primeira. Ah, a fortuna.

Portuguesa, 36 pontos: Anda alto no ranking da simpatia por aqui. Se vai subir um Santo André da vida, que fique a Lusa também. Hoje tem um pega-pra-capar com o Fluminense, num jogo de "seis pontos". Depois, duas boas chances de pontuar, em casa, contra Goiás e Sport, ambos já sem ambições. A Lusa fica, oxalá.

Vasco, 37 pontos, um jogo a mais: Seria um castigo dos deuses o Vasco descer justo no ano em que Eurico foi posto pra fora. Em seu favor no ranking da simpatia por aqui está o fato de que, bem, no Rio eu sou Vasco. Contra ele, está o secreto desejozinho de que o Vasco passe pelo purgatório da Série B e volte numa campanha que deixe clara a extensão do desastre que foi a herança de Eurico Miranda. Pode descer à beça depois da rodada deste fim de semana; semana que vem, pega o São Paulo. Reforçando a secação, está, claro, a vontade de ver o Renato Gaúcho pagar pela língua também.

Náutico, 37 pontos: O Náutico chegou a fazer barulho no começo do campeonato, mas daí foi morro abaixo. Contra ele, no ranking da simpatia, há o fato de que os Aflitos são a casa mais problemática -- e possivelmente a de pior gramado -- da Série A. O Timbu tem dois jogos de vida ou morte, contra o Figueira, em Floripa, e contra o Atlético-PR, em casa. Sério candidato à degola.

Fluminense, 37 pontos: No ranking da simpatia, só tem a seu favor os bacaníssimos torcedores como Lucia Malla. De justiça poética, o rebaixamento teria o fato de que o Flu nunca subiu da B para a A jogando bola. Só ganhou a C mesmo, na época do mergulho no inferno. O Flu pega Inter e São Paulo fora de casa, além da desesperada Lusa no Rio. Se chegar à última rodada dependendo só de si, salvar-se-á: o jogo é com o Ipatinga no Maracanã. Mas pode chegar lá já quase rebaixado, ou dependendo de ganhar e secar os outros.

Atlético-PR, 38 pontos: Dos muito ameaçados, é o que está em situação melhorzinha. Tem jogo em casa contra o Vitória (time que não quer mais nada) e chance de confirmar a vaga na última rodada, também em casa, contra o Flamengo. Entre uma data e outra, tem Botafogo no Rio e um duelo do desespero com o Náutico em Recife. Se conseguir bater o Timbu nos Aflitos, praticamente se garante na Série A, já que o Furacão deve conseguir alguns pontinhos em casa.

Santos, 40 pontos: O Santos do meu querido Zé Miguel só cai mesmo numa tragédia daquelas.

Faça aí o seu bolão. A torcida -- não o palpite -- deste blog é Ipatinga, Vasco, Fluminense e, para a última, Figueira ou Náutico. Seria bonito ver a Segundona com dois grandes do Rio.

PS: Eu já quase não escrevo sobre futebol, desprovido que ando (por escolha) de satélite global. Mas continuo lendo e aprendendo com o Balípodo, Impedimento, Futepoca, Além do Jogo, Jucão , PVC e outros ótimos blogs de futebol que há por aí. Vejam este chutômetro do Balípodo, que primor.



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sábado, 06 de setembro 2008

Los goles de penal no se festejan



  Escrito por Idelber às 16:34 | link para este post | Comentários (8)



sexta-feira, 05 de setembro 2008

Julio César, que mora na Itália, manda Lula morar na Argentina

Foi via Além do Jogo que eu cheguei neste fantástico qüiproquó. O Presidente Lula, que entende bem mais de futebol que o Dunga, disse:

Quando vejo o Messi, na minha opinião o melhor jogador do mundo, perder uma bola, ele sai correndo até recuperar ou fazer falta. Os nossos perdem a bola e cruzam os braços.

O goleiro Julio César, que mora na Itália, responde:

Fiquei muito chateado realmente, como cidadão brasileiro, principalmente quando ele citou o caso do Messi [...] Então que vá morar na Argentina.

Mas a comédia não termina aí. Diego, que não é nem um pouco pretensioso, preferiu não responder, dizendo:

Seria falta de ética comentar o trabalho dele em público. Não posso fazer o que ele fez. Sou uma figura pública, sou formador de opinião.

Numa coisa, reconheçamos, Lula foi injusto. Todos sabem que os jogadores da Seleção Brasileira, quando perdem a bola, não cruzam os braços. Sabemos que quando perdem a bola eles ajeitam o meião.

Enquanto isso, no Chile, o prêmio para uma vitória sobre a Seleção Brasileira é menor do que o oferecido por uma vitória contra a Colômbia.

Atualização: Estão sensacionais, hilários mesmo, os comentários deixados pelos leitores sobre o imbróglio aqui.



  Escrito por Idelber às 13:17 | link para este post | Comentários (75)



segunda-feira, 25 de agosto 2008

Essa vale olhar no Google

Enquanto a casa ainda não está em condições de fazer um post decente, aqui vai uma adivinhação que, suspeito, posso liberar para googlagem:

Qual seleção de futebol escalou, numa Copa do Mundo, o goleiro reserva numa partida porque o titular ia comentar futebol numa estação de rádio? Qual é essa Seleção e em que Copa isso aconteceu? Essa eu quero ver.

Sabem cumpadis? Nobres colegas? Grande fodão? Este com certeza sabe, mas ele não lê o Biscoito.

Quem acertar primeiro, leva um romance à escolha da minha coleção. Logo que acontecer, eu dou a resposta com a fonte.



  Escrito por Idelber às 21:44 | link para este post | Comentários (15)



quinta-feira, 21 de agosto 2008

A decisão das meninas

No município de Dois Riachos, sertão alagoano, um mundaréu de gente já está reunida na casa da melhor jogadora do mundo, Marta, para acompanhar a final. O Brasil pode conquistar daqui a pouco a sua primeira medalha de ouro olímpica no futebol.

fut-fem.jpg


Com elas, que deram um show inesquecível contra a Alemanha, na semifinal. O jogo contra os EUA será duríssimo, claro. As americanas são uma potência no futebol feminino. A partida começa às 10 h de Brasília. Não haverá transmissão em tempo real por aqui, como anteontem, mas é possível que eu atualize este post durante o jogo com alguns comentários.

Que bacana seria ver essas meninas voltarem com o ouro no peito.

Atualização no intervalo
: Os últimos 15 minutos do primeiro tempo foram bem melhores para o Brasil que os primeiros 30. As americanas fazem uma marcação inteligente: não é exatamente marcação por pressão, mas compacta, começando na intermediária brasileira. Como a linha de zaga do Brasil não tem um toque de qualidade, o Brasil teve muitos problemas na saída de bola. O segredo do sucesso brasileiro é a bola chegar redondinha para as talentosas meio-campistas e atacantes. Os EUA bloquearam isso com sucesso durante, especialmente, os primeiros 30 minutos. Sem dúvida, a jogadora mais fraca do time é a zagueira Erika que, traumatizada pelo gol que entregou contra a Alemanha, chuta a bola para onde aponta o nariz. A melhor da linha de zaga é a lateral-direita Simone, que apóia muito bem (e é bem coberta por Ester quando sobe). Marta teve alguns lampejos, mas duas vezes tentou resolver sozinha, quando tinha boas opções de passe. Na terceira, tentou um passe no meio da zaga quando a melhor opção era a jogada individual. Com o perdão do clichê, é um jogo de xadrez. Quem fizer o primeiro gol dificilmente perde a partida.

Rapidinhas antes da prorrogação: Se o Brasil não tem uma zagueira melhor que Érika no banco, é melhor jogar com dez jogadoras. É a única que parece não ter noção do que fazer com a bola. A atacante americana, Rodríguez, perdeu o gol mais feito das Olimpíadas, cara a cara com Bárbara. Tentou um gol por cobertura quando era só escolher o canto. O Brasil teve muita sorte de não perder o jogo no segundo tempo.

Comentário final
: Pois é, não deu. EUA 1 x 0, na prorrogação. As meninas lutaram muito e honraram a camisa, ao contrário dos homens. Não entendi, sinceramente, a mudança tática no intervalo do primeiro para o segundo tempo. O Brasil dominou amplamente os últimos 15 minutos do primeiro tempo num 4-4-2 em que a lateral-direita Simone apoiava muito e era bem coberta por Ester. Mas voltou para a segunda etapa quase que num 3-5-2, em que Renata foi recuada para jogar como zagueira e Simone e Maycon viraram alas. A defesa perdeu ainda mais consistência, que já não era seu forte, e o meio-campo não ganhou qualidade. Num dos muitos vacilos da frágil zaga, levamos o gol. Depois, na base do desespero, tivemos várias chances, mas não rolou. Parabéns, meninas, pela luta.



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quarta-feira, 20 de agosto 2008

Adivinhação: Não vale olhar no Google

Já que estamos em quarta-feira futebolística, aí vai uma adivinhação. Não vale olhar no Google, senão perde a graça. Estou confiando na honestidade de todo mundo, hein?

A pergunta é: além de Porto Alegre, Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Milão, qual é a outra cidade a ter pelo menos dois campeões mundiais inter-clubes? Não é São Paulo, porque não consideramos nem o título de 2000 do Corinthians nem o de 1951 do Palmeiras.

Repetindo, então: Seis cidades possuem pelo menos dois campeões mundiais. Buenos Aires (que tem três: Boca, River e Vélez), PoA (Grêmio e Inter), Montevidéu (Peñarol e Nacional), Madri (Real e Atlético) e Milão (Inter e Milan).

Qual é a sexta cidade?
Não vale olhar no Google, não valem respostas do Milton Ribeiro nem do Luiz de Porto Alegre. Se você não resistir e guglar, não diga, para não estragar. É só para quem sabe mesmo, sem consulta. Provinha de livro fechado, como a gente diz no colégio.



  Escrito por Idelber às 17:19 | link para este post | Comentários (26)




Longuíssima peroração sobre o indizível em futebol

O pobre do Lédio Carmona está sendo massacrado no seu próprio blog por haver dito o óbvio ululante: a Argentina é superior ao Brasil e já não é de hoje. Desde, pelo menos, 2002, o futebol argentino – em seleções e em equipes – é muito superior ao brasileiro. Por que, então, vínhamos aplicando goleadas nos hermanos e ganhamos três títulos em cima deles nesse período? O objetivo deste post é responder essa pergunta e refletir um pouco sobre algo que é praticamente proibido dizer no Brasil.

Interessam-me esses lugares do indizível numa cultura. Tome o caso dos EUA. Você pode espinafrar Bush, xingar os dois partidos, dizer que o país passa a pior crise desde a grande depressão, criticar o Congresso, o Judiciário, a imprensa. Pode tudo – ou melhor, quase tudo. Experimente dizer que há anos os EUA já não estão entre os 20 países mais democráticos do mundo; que qualquer país da Europa Ocidental tem um sistema político mais democrático que os EUA. Experimente demonstrar, por A + B, que as eleições brasileiras ou argentinas são infinitamente mais democráticas que as americanas. Da esquerda do Partido Democrata à direita do Partido Republicano, vão pirar, como se você tivesse xingado a mãe. O sujeito sente que um mito essencial à sua identidade está sob ataque e reage com violência. Claro que nós somos a terra da democracia! Como ousa questionar isso?

No Brasil, acontece algo parecido com o futebol. Você pode xingar o técnico da Seleção. Pode espinafrar a CBF. Pode discutir a escalação do time. Pode pôr a culpa nos cartolas. Pode tudo – ou quase tudo. No momento em que você questiona o mito de que o Brasil tem o melhor futebol e os melhores jogadores do planeta, ou – heresia das heresias! -- ousa dizer que a Argentina tem um futebol melhor que o nosso, você é execrado como uma espécie de lesa-pátria, um gringo de Iowa vendendo segredos de estado a Brezhnev em plena Guerra Fria.

O titular deste blog, que já se meteu em 367 polêmicas políticas, só se assustou uma única vez com hate mail. Foi na Copa América de 2007, em que eu confessei que ia torcer pela Argentina como forma de acelerar a queda de Dunga. Previ, como quase todo mundo, que a Argentina ia golear. Depois que o Brasil encaixou aquele 3 x 0, a raiva e a virulência dos comentários e emails que recebi foram muito, muito instrutivas. Continuo dizendo: a pior coisa que aconteceu com o futebol pindorâmico foi ganhar aquele jogo de goleada. A patriotada insana tomou as rédeas. O dunguismo ganhou fôlego e os que queremos colocar um pouco de racionalidade no debate sobre o futebol brasileiro viramos traidores da pátria.

Antes de passar aos últimos Brasil x Argentina, conto uma história pessoal: eu nunca fui nenhum Reinaldo, mas era, sim, um centroavante de qualidade. Fui artilheiro de várzea em BH, essas coisas. Uma vez, no Cachoeirinha -- quem for de BH e conhecer a cena, explique o que é jogar futebol de várzea no Cachoeirinha --, enfrentei uma linha de zaga que habitaria meus pesadelos durante anos: era Ranca-Tôco, Babão, Noite Ilustrada e Alemão. Só batiam da cintura pra cima. Aos 20 minutos, eu já havia caído 8 vezes. Apanhei igual cachorro sem dono. No segundo tempo, eu consegui quebrar o tornozelo de Noite Ilustrada, que havia me derrubado umas 20 vezes no jogo. O cara tinha de bíceps o que eu tenho de coxa. Depois da peleja --- vitória nossa por 2 x 1 –, me disseram, ao saber que eu ia jogar algumas partidas na Argentina: porra, vão te arrebentar todinho; depois que quebrarem sua perna, avise pra gente. Em Buenos Aires, fui anulado em quatro partidas seguidas, coisa que jamais havia acontecido no Brasil. Sem levar uma única pancada. Só zagueirão se antecipando na bola e ganhando a jogada no corpo. Ali eu vi que tinha que rever meus estereótipos, contruídos em anos de xenofobia anti-argentina cultivada pela mídia brasileira. Energúmenos como Galvão Bueno têm uma responsabilidade criminosa nisso.

A Argentina sempre teve melhores goleiros e zagueiros. Qual é a diferença agora? Eles têm melhores volantes, armadores e atacantes. Ou há algum Messi por aí falando português? Se a Argentina é superior desde, pelo menos, 2002, por que ganhamos três títulos contra eles? Como sempre, foi uma soma de fatores. Vamos olhar a coisa caso a caso.

Na Copa América de 2004, no Peru, ganhamos nos pênaltis. Foi aquele 2 x 2 com gol do Adriano aos 45 do segundo. O Brasil levou um baile durante 90 minutos. A Argentina chegou ao final vencendo só por 2 x 1 por pura displicência, erros nas finalizações e porque Júlio César – que é um goleiro apenas mediano – fez ali uma das grandes apresentações da sua vida. No final do jogo, Tévez deu aquela fatídica pisada na bola. Humilhados, os brasileiros se encheram de brios e numa pelota espirrada na meia-lua, Adriano encaixou o empate. Num jogo desses, é facílimo prever quem vence os penais.

Na Copa da Confederações de 2005, ali sim, sobramos. Foi 4 x 1. O Brasil jogou com a formação que eu defendia para a Copa do Mundo. Sem os vovôs nas laterais. Cicinho jogando muito. Robinho armando o jogo, Zé Roberto como segundo volante, Adriano no auge, e Ronaldo Gorducho fora do time. A Argentina entrou em campo com Germán Lux, Collocini, Placente, Heinze, Zanetti; Cambiasso, Bernardi, Riquelme, Sorín; Delgado e Figueroa. Ninguém, ninguém na imprensa brasileira ressaltou o fato de que a Argentina estava com meio time reserva. Éramos só nós, os imbatíveis.

Nas Eliminatórias, trocamos um 3 x 1 para cada lado. O nosso, no Mineirão, foi com três gols de pênalti. O deles, em Núñez, foi um baile. Na Copa, a Argentina caiu num jogo fatídico contra a Alemanha, em que venciam, sofreram a contusão do goleiro, Pekerman fez uma substituição inacreditavelmente burra e o time lutou até o final. Nós caímos de 4, literalmente, com Roberto Carlos ajeitando a meia e Ronaldo levando chapéu de Zidane.

Aí veio a Copa América de 2007. Essa, sim, foi acontecimento espírita comparável ao Campeonato Brasileiro de 1977, onde um São Paulo de Necas e Totonhos foi campeão em cima de um Galo de Cerezo e Reinaldo. Era o Brasil quem estava com o time B. A Argentina havia dado espetáculos inesquecíveis durante o torneio. O Brasil capengou, levou baile do México e se classificou – a imprensa ufanista não se lembra – em um jogo escandalosamente roubado contra o Uruguai. A euforia na Argentina era tal que todo mundo falava em goleada. Para piorar, pela primeira vez na história do Brasil, acontecia o impensável: uma parcela significativa dos brasileiros confessava que ia torcer pela Argentina, que afinal de contas era quem jogava futebol ali. Aos 10 minutos de jogo, o Brasil já vencia por 1 x 0 com gol de Julio Baptista num lançamento de longe. Atônita, a Argentina viu que era a amarelinha. Depois do gol contra de Ayala, o jogo ficou fácil. Em nenhuma dessas goleadas, a Argentina deu pancada no final. Como é que terminou o jogo ontem mesmo?

O retrospecto é favorável ao Brasil. Somos melhores? Não. Os melhores são eles.

O melhor volante do Brasil, Lucas, chegou para ser reserva de Mascherano no Liverpool. O jogador que a imprensa brasileira incensou como o novo Pelé é reserva no Real Madrid. O craque da temporada brasileira até agora era um chileno. Um chileno! O melhor jogador do Brasileirão de 2005 foi um argentino, espancado por zagueiros e discriminado por árbitros por ser estrangeiro. Ironia das ironias, Tévez foi escorraçado pela torcida do Corinthians quando era o único bom jogador do time, responsável direto -- junto com Zveiter -- pela conquista do Brasileirão e, pior ainda, o único que honrava a camisa do clube. Hoje, dá show de bola e conquista títulos na Inglaterra, enquanto o Corinthians come poeira com o Brasiliense e Bragantino. Nossos jogadores, via de regra, já não saem para Itália e Espanha. Os destinos preferenciais agora são Ucrânia, Cazaquistão e Arábia Saudita. Esta semana, o mais respeitado comentarista de futebol do país disse que Valdivia não decide partidas (a essa estultícia, há uma boa resposta aqui). Até quando vamos ter que aturar patrioteiros dizendo que se o Brasil armar o time como deve ser, ganha tudo de barbada?

Nós, brasileiros, somos insuportavelmente arrogantes e xenófobos quando o tema é futebol. É claro que é possível discutir a escalação do Dunga. Claro que é burrice queimar um dos três jogadores da cota de mais de 23 anos de idade para deixá-lo no banco. Claro que Kaká teria feito alguma diferença. Claro que se pode dizer que Ronaldinho não deveria ter ido. Claro que é possível armar um time superior ao do Dunga. Qualquer um arma um time melhor que Dunga!

Mas dizer que, com um bom técnico e uma escalação acertada, o Brasil teria ganho o sonhado ouro é tapar o sol com a peneira, porque o problema é estrutural. São décadas de saqueio do futebol brasileiro. São décadas de gangues criminosas controlando a estrutura do esporte. Se eu, fanático absoluto por futebol, cheguei ao ponto de dispensar um satélite da Globo Internacional na minha casa, já que não me dá nenhum gosto assistir o futebol brasileiro – e não é pela crise do Galo, posto que já assisti incontáveis campeonatos com o Galo em crise --, é porque o buraco é mais embaixo.

O líder do Campeonato Brasileiro é uma equipe comandada por Celso Roth. Isso, pra mim, já é o corolário definitivo dessa discussão.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post | Comentários (120)



terça-feira, 19 de agosto 2008

Brasil x Argentina!

Daqui a pouco, às 10 h de Brasília, começa um daqueles eventos esportivos ante os quais não dá para ficar indiferente: Brasil e Argentina disputam as semifinais do futebol olímpico. Uma vitória brasileira e um subseqüente ouro são garantias de Dunga no comando da seleção principal por mais um bom tempo. Apesar de tudo, vou me conter para não torcer para a Argentina, já que para os hermanos, eu só dou azar.

O Impedimento vai fazer uma cobertura ao vivo e eu também, mesmo sem ter anunciado com a antecedência apropriada, vou atualizar este post com comentários sobre o que promete ser a hilária transmissão mexicana da Telemundo. Nada, nada é tão engraçado como uma transmissão mexicana de futebol brasileiro.

Portanto, se passar aqui pelo blog na manhã desta terça, desligue o Galvão Bueno e se ligue na F5. Aqui e lá no Impedimento. A partir das 9:50 h de Brasília, o post será atualizado a partir deste ponto.

Atualizações
(leia de baixo para cima):

12: 01: Missão cumprida por hoje. Mexicano e argentino se despedem na Telemundo, visivelmente em mala onda. Esperemos que desta vez o Dunga caia. Valeu, turma do Impedimento, pela parceria.

11: 53: O Brasil vai rumo à glória maior, o Bronze.

11: 49: Fim de jogo! Baile histórico da Argentina no segundo tempo. Se houvesse mais quinze minutos, teria sido uns 5 ou 6 a zero. Com pena do Brasil, o juiz termina a partida com menos de um minuto de desconto.

11: 45: Brasil começa a distribuir golpes de caratê em Pequim. Será que o Galvão Bueno está dizendo que os "argentinos são traiçoeiros"?

11: 43: Thiago Neves expulso! É vexame total. Locutor argentino e comentarista mexicano quase saem na porrada sobre a justiça ou não do vermelho a Thiago Neves.

11:41: Vai ser a disputa de Bronze mais melancólica da história. A Bélgica levou um sapeca iá-iá inesquecível da Nigéria. O Brasil perdeu até o rumo de casa com a Argentina.

11: 40: Lucas expulso! É baile tangueiro em Pequim.

11: 35: Repete-se a final olímpica de Atlanta, em 1996: Nigéria x Argentina. Só esperamos que desta vez, se houver algum brasileiro assistindo o jogo em bar de Buenos Aires, não comemore gols da Nigéria nem morra espancado.

11:34: Gooooooooooool da Argentina! 3 x 0. Riquelme.

11:33: Pênalti para a Argentina! Comentarista mexica: Marca muy mal, marca muy mal Breno.

11:31: Messi entorta Breno, que retruca com um golpe de jiu-jitsu.

11:29: Finalmente sai Diego, tendo dado dois passes para frente no jogo todo, um deles para o Sóbis em impedimento. Entra Jô, ou Djô, como prefere o locutor da Telemundo.

11:28: Havia mesmo impedimento no gol do Brasil. Nada a reclamar.

11: 23: Gol anulado do Brasil, em impedimento depois da cobrança de Ronaldinho. Mexicano de cara provoca: ¿había?

11: 22: Locutor argentino indignado com o amarelo para o argentino ao pé da barreira.

11:21: Carrinho de Pareja na bola. Diego cai, levanta a cara, olha para o árbitro, e se lembra de que tem que fingir que se machucou e fazer careta.

11:19: Entram Thiago Neves e Pato no Brasil. Saem Hernanes e Sóbis.

11:18: É a batata do Dunga assando em Pequim!

11:16: Gooooooool da Argentina! Aguero de novo! Explode o rosarino da Telemundo: Argentina se acerca a la final!

11: 15: Na transmissão mexicana, o argentino e o mexicano continuam brigando para decidir se Dimaria queria cruzar ou não.

11: 13: Bola na trave do Sóbis! Logo depois, chute do Rafinha. O Brasil acordou. Por que não acordam na hora de sair do vestiário?

11:12: Briga sensacional na transmissão mexicana. O comentarista mexicano diz que Dimaria não queria cruzar, mas chutar, e errou o chute! O locutor argentino protesta ¿estás desmereciendo el gol argentino? No importa si no la quería cruzar!

11:10: Goooooooooooooool da Argentina. Le pega Messi, le pega Messi, le pega Messi. Aguero completa!

11:08: Só mesmo na China para a torcida gritar Brasil, Brasil depois de 50 minutos de uma peladas dessas. Se fosse no Mineirão já estariam gritando ô Maradona, vai se f%&ê / o Aécio cheira mais do que você.

11:07: Renan, Lucas, Ronaldinho, Anderson, Sóbis. Já descobri o problema. Tem gaúcho demais no time!

11:06: Opa, o Sóbis estava habilitado. Erro do bandeira.

11:05: O Diego deu um passe para frente! Para o Sóbis, em impedimento.

11:03: Vai recomeçar a peleja. A torcida do blog é que alguém faça gol e não tenhamos que suportar 120 minutos dessa tristeza. Qualquer lado.

Intervalo: Horrendo primeiro tempo. Argentina bem melhor, trocando passes no campo do Brasil, pelo menos. Ronaldinho uma lerdeza só. Diego é o armandinho de sempre. Anderson não apareceu hora nenhuma. Marcelo fez uma jogada. Rafinha foi o único que, em algum momento, levou perigo.

10: 45: comentarista mexicano: Ha sido um primer tiempo muy entretenido, con mucha dinámica. Quero meu Galvão Bueno!

10:43: Aos 42 minutos de jogo, o primeiro chute a gol do Brasil. Da intermediária.

10:42: primeiro chute a gol de verdade do Brasil. Hernanes, de longe, por cima.

10:40: hahaha, foi só eu elogiar o Rafinha e ele entrega uma bola limpa para o Messi fazer o gol. Quase a Argentina abre placar, de novo.

10: 38: Medalha de ouro para a Nigéria já!

10:35: Quase Breno entrega o ouro! Piores jogadores até agora: Breno e Diego. Melhor: Rafinha.

10:34: Que jogo chato da porra.

10: 32: Quase gol da Argentina no cruzamento do Messi. Já estão merecendo, pô!

10:31: Amarela para Hernanes. Argentina troca quatro passes seguidos! Coisa de gênio para esse jogo.

10:30: Marcelo encaixa um drible ninguém sabe como e cruza errado.

10:27: Locutor: hay que tener cuidado con la explosividad de Ronaldinho!. Caramba, "explosividade" de Ronaldinho é mais ou menos como a erudição de Paulo Coelho.

10:24: É implicância minha? Contra-ataque de 4 contra 3, Diego segura a bola, segura, segura, e depois dá um passe para o lado, com a defesa já armada. Armandinho da porra.

10:21: Um dia, algum dia, eu vou ver o Diego dar um passe para a frente.

10:19: Amarelo para Breno. De qual esporte saiu esse cara?

10: 17: Luta greco-romana na área do Brasil, com Breno e Aguero.

10:13: Típico Brasil x Argentina. Eles mais contundentes no começo. Daqui a pouco a bola esbarra no ombro do Anderson e o Brasil faz 1 x 0.

10:12: Quase gol da Argentina. Locutor: a bola furou a rede!

10:11: Jogadaça do Rafinha, furo incrível do Sóbis. Entre Sóbis e Pato, que saudades do... Reinaldo!

10:09: Que falta faz o Elano! Não há nada como assistir uma transmissão em espanhol com Elano em campo. O locutor chileno adorava dizer, a cada passe do Elano, Elano que abre! (em espanhol : el ano=o ânus)

10:08: hahahah. O locutor argentino protesta contra o amarelo para Zabareta. No lo tocó!. O comentarista mexicano retruca: tocou, sim! Guerra intra-hispano-americana na transmissão.

10: 06: Cantor: y la quiere Messi, y la quiere Messi, y la quiere Messi!. Quase gol da Argentina.

10:01: Começou! Alex Silva lembra Júnio Baiano com o bicudão pra cima.

9:57: Últimas partidas entre Brasil e Argentina: 0 x0 no Mineirão (18-06-08); Brasil 3 x 0 na Final da Copa América (15-07-07); Brasil 3 x 0 em amistoso na Inglaterra (09-03-06); 2 x 2 na Copa América (Brasil nos pênaltis); Brasil 3 x 1 nas Eliminatórias (06-02-2004) no Mineirão.



  Escrito por Idelber às 06:02 | link para este post | Comentários (64)



domingo, 29 de junho 2008

50 anos da Conquista da Copa do Mundo na Suécia

O 29 de junho de 1958 é o único, verdadeiro e incontestável 07 de setembro que conheceu esta terra. No qüinquagésimo aniversário do enterro definitivo do complexo de vira-latas, reveja os gols:

Poucas partidas são tão cercadas de histórias como aquele 5 x 2 sobre a Suécia:

* Djalma Santos jogou ali sua única partida no torneio. Foi o eleito o melhor lateral-direito da Copa.

* A Suécia tinha o direito de jogar a final com seu primeiro uniforme, o amarelo. O Brasil teve que comprar camisas azuis e bordar sobre elas o escudo da CBD na última hora. Ante a superstição de alguns, o chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, fez o famoso comentário de que o Brasil não perderia, pois aquela era a cor do manto de Nossa Senhora da Aparecida.

* Zito relata que os jornais suecos contavam com a ajuda da chuva para vencer o Brasil. Não contavam com o cavalheirismo dos organizadores da competição, que protegeram o gramado com um toldo.

* Vários dos craques entrevistados coincidem em dizer que sentiram que iam vencer a partida no momento em que a Suécia abre o placar. Didi vai ao fundo do gol, pega a bola e caminha vagarosamente para o centro do campo. Ali, dizem muitos, ficou sacramentado que se manteria a escrita de que todas as finais de Copas do Mundo eram decididas de virada. Essa escrita só ruiu em 1970, quando o Brasil abriu o placar contra a Itália, mas mesmo assim levantou o caneco.

* Os dois gols da virada brasileira, em jogadas de Garrincha pela direita, seguidas de cruzamentos rasteiros e finalizações de Vavá, estão entre os mais parecidos jamais marcados numa partida de futebol. Muitos espectadores vêem esses gols e juram ter visto um replay.

* Diz Bellini que hesitou por um momento sobre o que fazer ao receber a taça. A pedido dos fotógrafos, decidiu erguê-la acima da cabeça. Inventou um gesto depois repetido muitas vezes e que, hoje, qualquer brasileiro conhece.

* Reza a lenda que o extraordinário ponta-esquerda Canhoteiro acabou sendo cortado (em favor de Zagallo e Pepe, que foram à Suécia) porque nos treinos, escalado contra o seu compadre Djalma Santos, ele evitava jogar o seu melhor futebol e contribuir para o corte do amigo.

* Pelé recebeu ali, aos 17 anos, a coroa de "Rei do Futebol". Mas nem todos se lembram que quem foi eleito o melhor jogador da Copa foi Didi.

Outros links:
Arquivos da Rádio Nacional.
Narração dos gols.
Futepoca (tem bons arquivos sobre 1958).

PS: No seu artigo de hoje na Folha (para assinantes), Eliane Castanhêde diz que George W. Bush "fala espanhol". A informação é falsa seja qual for a sua definição do que é "falar" um idioma. Bush balbuceia algumas palavras em espanhol. Só isso.



  Escrito por Idelber às 03:14 | link para este post | Comentários (19)



sexta-feira, 20 de junho 2008

Sobre patriotismo e seleção

Ontem, durante o programa de rádio que fiz na Identidad FM, Alejandro Horowicz e Elsa Drucaroff me olharam atônitos quando eu disse que não poucos brasileiros torceram (ou pelo menos declararam ter torcido) pela Argentina, contra o Brasil, na final da última Copa América. Há 20 anos isso teria sido impensável, mas é fato que a secação vem se tornando comum. Nós nos vemos cada vez menos representados pela camiseta amarela. Ricardo Teixeira, Nike, a banalização da Seleção com jogos caça-níqueis, a compreensível falta de interesse de jogadores que já estão instalados no mercado europeu e não precisam da Seleção como vitrine, a piada de mau gosto que é ter Dunga como técnico: tudo isso, junto, vai minando qualquer veleidade patriótica no futebol. Na sua genial coluna de hoje (para assinantes) na Folha, Xico Sá afirma que a conquista da Copa em 1994 foi a pior coisa que poderia ter acontecido ao nosso futebol. Teria começado ali, segundo o galã cearense-pernambucano, o dunguismo, a doença infantil do teixeirismo. Eu completo o insight de Xico com o seguinte comentário: a segunda pior coisa que nos aconteceu foi ter vencido a Copa América dando aquele espírita e improvável baile de 3 x 0 na Argentina, numa competição que os hermanos haviam dominado com um futebol eficiente e vistoso, e a cuja final nós chegamos capengando, praticando um ludopédio dunguístico, grotesco.

No Impedimento, o Milton Ribeiro escreveu um excelente texto (que gerou uma ótima discussão nessa que é das melhores caixas de comentários da blogosfera) defendendo a secação da Selecinha, basicamente com o argumento de que uma hecatombe – do tipo ficar fora da Copa – poderia produzir algum sacolejo positivo no barraco do nosso futebol. Estou com o Milton. Raramente consigo torcer contra o Brasil, mas não é por falta de vontade. Enquanto continuarmos ganhando essas Copas América com uma mescla de sorte, lampejos individuais, ajudas dos árbitros e medo dos adversários, ainda haverá Teixeiras e Dungas para tapar o sol com a peneira. Quando um jogador medíocre como o lateral Gilberto tem a cara-de-pau de dizer, depois do último Brasil x Argentina, que o problema é que a Argentina vem jogar no Brasil e eles aplaudem o Messi (omitindo o fato de que Messi foi aplaudido aos 40 do segundo tempo, depois de outra horrorosa apresentação do escrete), é porque o insulto ao torcedor já virou moeda corrente, ao que qualquer cabeça-de-bagre pode recorrer. Aqui, não há como esquecer dos ilustres antecessores de Gilberto, naquela que eu considero a cena mais grotesca, melancólica e deprimente da história do nosso futebol: a comemoração da conquista de 1994, com jogadores, técnico e coordenador segurando a taça e insultando seus compatriotas jornalistas e torcedores com palavras de baixo calão. O adequadíssimo coroamento foi o tráfico de três aviões de muamba vindos dos EUA, sobre os quais não se pagou imposto de alfândega por imposição da CBF, com o argumento de que “a Seleção havia dado uma alegria ao povo”.

Sinceramente, não tenho paciência para aulas de patriotismo de quem vem dizer que a tarefa do brasileiro é apoiar a Seleção incondicionalmente. Se quiser apresentar esse argumento aqui, leitor, fique à vontade, mas não há qualquer chance de eu levá-lo a sério.

Em tempo: pela primeira vez desde o início das Eliminatórias por pontos corridos, o Brasil está fora da zona de classificação para a Copa. Pela primeira vez em sete anos, perdemos dois jogos seguidos. Pela primeira vez em 18 confrontos, perdemos para a Venezuela, que nunca havia conseguido sequer um empate contra o Brasil. Há 300 minutos o Brasil não marca um gol.

PS: Não deixem de conferir essa sensacional montagem mostrando como o jornalismo esportivo pode ser besta. É sobre a Argentina, mas poderia se aplicar perfeitamente ao Brasil também.



  Escrito por Idelber às 05:47 | link para este post | Comentários (55)



quarta-feira, 18 de junho 2008

Roberto Fontanarrosa, uma homenagem

Abriu hoje, no Imago (Rua Suipacha, 658, Buenos Aires), uma exposição de mais de 200 obras do genial humorista e escritor argentino Roberto Fontanarrosa, el Negro, que morreu no ano passado aos 62 anos. Fontanarrosa nasceu em Rosario e começou a fazer um estrondoso sucesso no Clarín, nos anos 70, com suas tirinhas. Foi o criador de personagens que marcaram a cultura argentina, como o verdugo Boogie, o oleoso e o gaucho Inodoro Pereyra. De todos os grandes escritores argentinos, foi o que mais registrou o futebol. Torcedor fanático do Rosario Central (diz a lenda que não há Gre-Nal, não há Cruzeiro x Atlético, não há Boca x River que se compare à feroz rivalidade entre Rosario Central e Newell's Old Boys), El Negro se reunia com a torcida do clube a cada 19 de dezembro, para celebrar o famoso gol de palomita ao qual ele dedicou um conto clássico. Os relatos de Fontanarrosa sobre o futebol estão reunidos no volume Puro fútbol, de 2000, leitura obrigatória para os literatos ludopédicos.

A festa foi concorrida e eu fiz questão de tirar algumas fotos para compartilhar com os leitores do blog:

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A mostra fica em cartaz até o começo de agosto. Passando por Buenos Aires, não deixe de conferir. O filme que acompanha a exibição é emocionante.



  Escrito por Idelber às 02:22 | link para este post | Comentários (20)



sexta-feira, 13 de junho 2008

Na churrascaria com César Luis Menotti

A grande crítica literária argentina Florencia Garramuño e um dos maiores musicólogos das Américas, Federico Monjeau, são testemunhas de que não lhes minto: na noite desta sexta-feira, 13 de junho, o técnico da Seleção Argentina campeã do mundo em 1978, César Luis Menotti, jantou na Parrilla Peña, na Rua Rodríguez Peña quase esquina com Viamonte. O cabra é gigantesco – eu não sabia. Deve ter um metro e noventa e tantos.

Pois bem, eu, que não gosto muito de incomodar famosos em jantares, arrumei um jeito de me apresentar quando fazíamos o intervalo de fumantes do lado de fora:

--- Professor Menotti, eu sou brasileiro, e o Sr. nos proporcionou um grande desgosto em 1978.

Menotti, gênio, na bucha:

--- Quem mandou vocês tirarem Reinaldo do time? Com ele na equipe, vocês nos teriam derrotado em Rosario, fácil, fácil.

Eu ia perguntar sobre os 6 x 0 no Peru mas, depois dessa, preferi falar da carne. Figuraça, o grande Menotti.


PS: Saiu matéria caseira sobre o segundo Departamento de Espanhol e Português mais produtivo dos EUA.

PS 2: Hoje, o Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, publica minha resenha de Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik. Dêem lá uma conferida (cortesia do link: Luiz).



  Escrito por Idelber às 23:52 | link para este post | Comentários (12)



quinta-feira, 29 de maio 2008

Histórias do futebol: Obdulio Varela

obdulio.jpg Diz a lenda que na noite de 16 de julho de 1950, Obdulio Varela saiu sozinho para tomar uma cerveja no Rio de Janeiro. Por si só, esse fato já é um testemunho da diferença entre o futebol de então e o de hoje. Varela, o capitão da Seleção Uruguaia, acabara de protagonizar o mais chocante feito da história das Copas do Mundo: a vitória de virada sobre a favorita Seleção de Zizinho e Ademir, proclamada campeã por antecipação pelos jornais brasileiros.

Depois de algumas cervejas, El Negro Jefe é chamado pelo dono do bar. Havia um torcedor brasileiro que queria falar com ele. Varela se levanta preparado para o pior: um xingamento, uma agressão. O torcedor se aproxima, encara-o olho a olho, abraça-o e desaba num choro desesperado e convulsivo. Conta a lenda, ainda, que o capitão uruguaio consolou esse torcedor durante mais de meia hora.

Muito tempo depois, numa entrevista, Varela diria que nesse momento, com o torcedor brasileiro chorando em seu peito, ele se havia dado conta da dimensão daquela derrota para o Brasil. Também afirmaria que se soubesse que aconteceria tal tragédia nacional, ele não teria se esforçado tanto para ganhar, pois, afinal de contas, só os cartolas uruguaios lucraram com aquela vitória.

Eu lamentei muito não ter tido a oportunidade de entrevistar El Negro Jefe antes de sua morte, em 1996. Estive no Uruguai em 1995. Por uma fatalidade, o encontro não rolou. Varela é o autor da inesquecível frase: Los de afuera son de palo.

PS: Assisti ao épico 2 x 2 entre Fluminense e Boca Juniors ontem, em Avellaneda. Se aquele Noronha pode comentar futebol, eu posso dar aulas de física nuclear. O jornalismo esportivo brasileiro é uma vergonha. O televisivo é o pior de todos.



  Escrito por Idelber às 15:31 | link para este post | Comentários (46)



terça-feira, 27 de maio 2008

Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik

Afirmo sem medo de errar: chega às livrarias esta semana o melhor e mais sofisticado livro já escrito sobre o futebol na terra do futebol. Recebi a pérola ainda em estágio de provas, não pela minha amizade com o autor, mas graças ao Jornal do Brasil, que me encomendou uma resenha. Veneno remédio: O futebol e o Brasil (Cia. das Letras, 2008), de José Miguel Wisnik, é um livro sobre o futebol como jamais foi feito no Brasil. Não é uma história do esporte no país. Não é um estudo sociológico. Não é uma biografia de jogadores. Não é uma análise da política do futebol. É tudo isso e muito, muito mais. Acima de tudo, é um minucioso poema sobre o que o futebol diz sobre nós, sobre quem somos, sobre a fatalidade e a delícia de ser brasileiro.

Fico sem jeito de escrever o post, porque não quero antecipar e atrapalhar a resenha. Vou dizer algumas coisas que só posso dizer no blog e não no jornal: devorei as 430 páginas numa noite. Caramba, há quantos anos eu não lia 430 páginas numa noite! Acho que a última vez foi com Irmãos Karamazov.

Zé tem aquela qualidade maravilhosa: é um dos maiores intelectuais do país e gosta de futebol. Os livros de sociologia do futebol, em geral, são escritos por gente que não sabe diferenciar um meia-armador de um centroavante. Os que conhecem as minúcias do jogo e das arquibancadas, em geral, não escrevem livros. Zé é a indispensável ponte entre esses dois mundos. O cabra nasceu em 1948 em São Vicente e lá morou até 1966. Ia ver Pelé na Vila Belmiro todo fim de semana. Imaginem o que acontece com uma pessoa dessas. Há um momento do livro em que ele faz alusão a esse fato. Página 39: Um amigo dez anos mais novo, e também torcedor do Santos, ao ver filmes do auge da era Pelé, afirmou sem hesitar que o fato de eu ter sido exposto, em tenra idade, à força daqueles fatos, como se isso fosse normal, produziu danos irreparáveis à minha personalidade. Ele não foi mais explícito que isso, mas a frase me atinge. Na melhor das hipóteses, ela se refere à minha incurável tendência a ver sentido em tudo. Este livro é o resultado mais direto da resistência, longamente ruminada, dessa síndrome.

Há uma magistral leitura da diferença entre Pelé e Garrincha a partir de uma cisão chave: Garrincha, o que não tem pai, aquele que escapa à função paterna. Pelé, aquele sujeito inserido na estrutura edípica, prometendo, em 1950, ao pai que chorava – seu Dondinho, brilhante, mas fracassado craque – que um dia ele traria uma Copa para o Brasil. Há uma brilhante interpretação da pré-história do futebol, incluindo-se aí uma bela análise da função do tlachtli entre os aztecas. Há toda uma reflexão sobre a codificação das regras do futebol, pelos ingleses na segunda metade do século XIX, como a racionalização do que ameaçava ser puro jogo, mero ludismo. E há, acima de tudo, uma pergunta insistente: o que o modo brasileiro de jogar futebol – a nossa radicalização daquilo que o jogo tem de mais próprio, por oposição ao produtivismo e à matematicidade dos outros esportes – diz sobre quem somos. Tudo isso é o começo do livro. O seu miolo é a análise refinadíssima de todos os grandes momentos do esporte entre nós, de Marcos de Mendonça e Friedenreich até Ronaldinho Gaúcho e Robinho.

A leitura que faz Zé Miguel dos dois antológicos não-gols de Pelé na Copa de 70 (o chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia e o corta-luz assombroso em Mazurkiewicz) estão entre as páginas mais poéticas já publicadas pelo ensaísmo brasileiro. Lembram-se das jogadas, não é? Na segunda, quando o duríssimo jogo contra o Uruguai já havia sido resolvido com a virada brasileira por 3 x 1, Tostão faz um passe em diagonal da esquerda para a direita, criando um vazio na defesa como só ele sabia fazer. Pelé vem correndo na diagonal oposta. No momento em que Pelé e a bola se encontrariam, acontece o absurdo, o imprevisível: Pelé recusa-se a tocá-la, passa direto, e sua trajetória forma, com a bola, um X que abraça Mazurka – um dos maiores goleiros de todos os tempos – para que o Divino Negão a recolha do outro lado, tocando-a para o gol. Mazurka, impotente, permanece congelado, no tempo dos humanos. A bola passa a centímetros da trave direita. Lendo o livro de Zé Miguel, você entende tudo o que essa finta diz sobre o Brasil.

Chega. Se não, eu fico sem nada para dizer ao JB. Veneno Remédio, de Zé Miguel, chega às livrarias esta semana. Pare de ler blogs e vá lá comprar. É sério candidato a livro do ano.

PS: Há um belíssimo texto novo na Palestina.

PS 2: Pouco a pouco, Alexandre Nodari vai compondo um extraordinário blog. Gostei muito da idéia das "frases feitas": posts que produzem seu efeito a partir da justaposição de duas citações.



  Escrito por Idelber às 00:12 | link para este post | Comentários (30)



domingo, 27 de abril 2008

Geninho e seus recordes

Eu apostei porque sou torcedor. Mas acreditem, eu já temia isso. Se vocês vasculharem os arquivos do Galo é amor, verão uma série de comentários meus, desde o início do ano, malhando a diretoria do Atlético-MG pela absurda decisão que abriu a temporada: recusar-se a renovar o contrato de Leão, que tinha feito uma boa campanha no ano passado, e trazer Geninho, um dos maiores picaretas da história do futebol brasileiro. Leão é chato, cri-cri, reclamão, autoritário e vaidoso. Mas você não vê as equipes de Leão – por mais frágeis individualmente que elas possam ser – levando essas goleadas que sofrem os times de Geninho.

Há conquistas no futebol que criam famas imerecidas. O título brasileiro de 2001, conquistado pelo Atlético Paranaense, é um deles. Além daquela conquista, fruto de um surto de genialidade de Alex Mineiro, Kléberson e Kleber nos jogos finais, Geninho nunca ganhou nada. Colecionou desastres por onde passou. Conseguiu perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás. O que dizer de uma criatura que consegue perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás? Que eu saiba, Geninho é o único treinador da história a ter escalado uma equipe no 3-5-2 sem nenhum meio-campista armador. Sim, isso aconteceu nas quartas-de-finais do Campeonato Brasileiro de 2002, quando ele dirigiu o Galo contra o Corinthians no Mineirão, e escalou um 3-5-2 com três zagueiros, dois laterais, três volantes e dois atacantes: um mostrengo incapaz de chegar ao gol adversário. O Corinthians nos enfiou 6 x 2 e liquidou a fatura no primeiro jogo. Agora, Geninho inclui mais uma grande originalidade no seu currículo: o único treinador em cem anos de história do Clube Atlético Mineiro a ter levado 5 x 0 do ex-Ipiranga.

O resultado foi vexatório o suficiente para, provavelmente, encerrar a carreira de Geninho no Galo, tendo ele escalado, de surpresa, no clássico, uma equipe que jamais havia jogado junta. Entregamos o Mineiro para o ex-Ipiranga. De positivo, fica o fato de que pela primeira vez em muito tempo tivemos um clássico sem nenhum incidente de violência grave. Coisa bonita. O ex-Ipiranga é o merecido campeão mineiro. Não tem culpa da burrice da diretoria do Galo.

Parece que já errei as previsões em Minas e em São Paulo. No Rio, ainda aposto no Fogão. Caixa de comentários aberta para protestos e gozações. É do jogo.



  Escrito por Idelber às 18:25 | link para este post | Comentários (75)



sexta-feira, 25 de abril 2008

Apostas para os estaduais

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Este blog tem uma baita tradição de acertar os resultados dos estaduais. Na semana passada, acertei as semifinais no Rio e em São Paulo. Houve protestos dos tricolores, achando que eu tinha algo contra seus times. Mas não era. Tratava-se de observação mesmo, apesar de que tenho visto poucos jogos.

Para as finais, aí vão as previsões: o Triângulo das Bermudas será alvi-negro.

Alguém aposta?

São bem-vindas as sugestões de prendas -- dentro dos limites do razoável -- para os perdedores das apostas.




  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (54)



sexta-feira, 11 de abril 2008

Links vários

Enquanto o blogueiro se recupera de uma daquelas mastodônticas gripes, aí vão alguns links para seu prazer navegador:

1.Qualquer dia desses a Gabriela Zago me convence a aderir ao Twitter. Veja a interessante experiência de leitura que ela descreve.

2.Como sabem, as questões relativas ao direito interessam muito a este não-especialista: e é mais uma conterrânea que chega com um excelente blog nessa área: Direito é legal (cheguei lá via Favoritos).

3.Em definitivo: o Biscoito Fino e a Massa não consegue acompanhar o Febeapá do judiciário.

4.Um inacreditável blog cubano: Generación Y. As caixas, incríveis, alternam entre 2, 3 e 4 mil comentários. O “debate” é meio lixão, mas o texto da moça é bom.

5.A blogosfera futebolística vai melhorando a cada dia: confira o De Primeira.

6.É uma obsessão deste blog: a subserviência da imprensa esportiva. Já vai uma semana que se noticiou que Polícia Federal está investigando os irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro, por evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. No “jornal dos mineiros”, nenhuma menção.

7.Alô, alô, cearenses, mais especialmente os torcedores do Fortaleza! O Ministério Público está investigando a tentativa de suborno do Ipatinga a jogadores do Villa Nova, na última partida da fase de classificação do Campeonato Mineiro. O que o Fortaleza tem a ver com isso? Se o Ipatinga perder o lugar na Série A, o Tricolor do Pici, quinto colocado na Série B do ano passado, assume a vaga. Mais uma vez: acontece uma operação criminosa no futebol mineiro e uma busca por “Ipatinga” no Estado de Minas não produz nenhum resultado associado ao escândalo. A imprensa mineira é realmente inacreditável.

8.Por falar em imprensa esportiva: Fabiano Angélico sugere duas boas pautas investigativas para o jornalista esportivo que não quiser ser capacho da cartolagem.

9.Tem post novo, porrada pura, no Palestina do Espetáculo Triunfante.

10.Em redondilhas maiores, o Almirante explica por que Hitler não chegou ao inferno, no Cordel teutônico.

11. Se você é atleticano, tem filho e mora em Belo Horizonte, prestigie o lançamento do livro infantil sobre a história do Galo: Vencer, vencer, vencer - A história do time do meu coração, do jornalista Eduardo de Ávila. Acontece no sábado, às 11 horas, na Feira Tom Jobim (ali perto do Colégio Arnaldo, Brasil com Bernardo Monteiro). O macete na Tom Jobim é chegar de manhã. De tarde a coisa se transforma um fim de festa meio melancólico. Aí vai o cartaz:

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12.Se você está no sudoeste dos EUA, apareça em Albuquerque, Novo México, na segunda-feira, para escutar uma palestra e bater um papo. Aí vai o cartaz feito por essa bela instituição que me convida. Achei que ficou simpático:

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PS: Ao deixar seu comentário, você verá uma página em branco. Não se avexe. O comentário entrou. Estamos trabalhando para resolver o problema. Deus já resolveu o problema com a caixa de comentários. Tudo normal :-)




  Escrito por Idelber às 02:14 | link para este post | Comentários (22)



sábado, 05 de abril 2008

Galo aos sábados: Pelé, torcedor e freguês do Galo

Circulou durante algum tempo no futebol brasileiro o mito de que Pelé teria sido torcedor do Vasco na infância. Numa entrevista à edição 1.119 da Revista Placar, de 1999, o próprio Divino Negão desmentiu:

Qual o seu time de infância? O Vasco?

Não. Essa história começou quando eu disputei um torneio por um combinado Santos-Vasco. Antes, o Antônio Soares Calçada (presidente do Vasco) até recusou o empréstimo do meu passe. Ele achava que eu era muito novo. Depois quis voltar atrás, mas aí era o Santos que não queria mais o negócio. Na verdade, eu torcia pelo Atlético Mineiro, porque meu pai, seu Dondinho, jogava lá.

João Ramos do Nascimento, o Dondinho, foi um craque sensacional, de quem se dizia que “desequilibrava qualquer jogo”. Como jogador, seu grande azar foi ter um filho sobre-humano. Mesmo assim, é de seu Dondinho um recorde que o Divino Negão jamais igualou: cinco gols de cabeça numa mesma partida. Disputando pelo Clube Atletíco Mineiro um amistoso contra o São Cristóvão em 1942, Dondinho se choca com o zagueiro Augusto – o mesmo que seria o capitão da Seleção Brasileira na Copa de 1950 – e leva a pior. Uma lesão no menisco encerra sua carreira no Galo. Ele voltaria a brilhar como artilheiro do Bauru Atlético Clube, campeão do interior de São Paulo em 1946. Eis aqui seu Dondinho com a camisa do Glorioso:

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A primeira partida de Pelé contra o Galo foi no dia 30 de janeiro de 1958. Ele já se preparava para receber, na Suécia, aos 17 anos de idade, a coroa de Rei do Futebol. O Santos visitou Belo Horizonte e entrou em campo, no Estádio Independência, com Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Zito e Urubatão; Dorval, Afonsinho, Guerra, Pelé e Pepe. O Galo, começando uma entresafra depois do pentacampeonato mineiro, formou com Arizona, Anísio e Grilo; Benito, Jair e Nilsinho; Márcio, Nilson, Tomazinho, Alvinho e Dino.

Pelé abriu o placar aos 11. Jair empatou para o Galo aos 13. Tomazinho virou aos 32. Guerra voltou a empatar para o Santos aos 44. No segundo tempo, só deu Galo. Jair, Tomazinho e Márcio enfiaram mais três e o Rei conheceu a primeira de várias derrotas para o Clube Atlético Mineiro: 5 x 2, inapelável.

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Também foi numa derrota para o Galo que aconteceu a última expulsão do Rei Pelé com a camisa do Santos. No dia 23 de novembro de 1969, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Santos visitou Belo Horizonte, desta vez já no Mineirão. Galo 2 x 0. Aos 25 minutos do segundo tempo, o árbitro Amílcar Ferreira expulsou de campo o Divino Negão. Ele não voltaria a ser expulso com a camisa do Santos.

Ao voltar da conquista da Taça Jules Rimet no México, Pelé disputaria em 1971 o seu primeiro campeonato brasileiro, com fome de mais uma conquista inédita. De novo, o seu time de infância o parou. No dia 05 de setembro, o Santos visitou o Mineirão e apanhou por 2 x 1, com dois gols de Dadá. Já na segunda fase, disputando uma vaga no triangular que decidiria o campeonato, Pelé adentrou novamente o Gigante da Pampulha. Mais uma vez, Galo 2 x 0, agora com dois gols de Oldair. O Santos era eliminado do Brasileirão.

De todas as derrotas de Pelé para o Galo, a mais famosa, sem dúvida, ocorreu no dia 03 de setembro de 1969. O Mineirão preparou uma impressionante cerimônia para receber as “feras de Saldanha”, que afiavam as garras para o tricampeonato:

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A máquina entrou em campo, completinha, com Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo formou com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira). Dadá e Amauri marcaram para o Atlético e Pelé descontou em escandaloso impedimento. O Divino Negão era mais uma vez humilhado pelo Galo. Iniciava-se o ódio mortal da Confederação Brasileira de Desportos pelo Atlético-MG.

É verdade que o maior jogador de todos os tempos também conseguiu ganhar alguns duelos contra o Galo, notadamente na primeira metade dos anos 60. Duas ou três dessas vitórias foram por goleada. Mas, sobre esses jogos, deixemos que os historiadores santistas se pronunciem. Neste post, deixamos registradas a paixão infantil do Divino Negão pelo Galo e algumas das surras que levou ante o mais querido de Minas.

PS: Confira o sensacional Canto do Galo. Veja também a lista completa de jogos do Galo até 2006.

PS 2: Foto do seu Dondinho: Futebol, Política e Cachaça.



  Escrito por Idelber às 07:17 | link para este post | Comentários (23)



sexta-feira, 04 de abril 2008

As torcidas organizadas como núcleos potenciais do fascismo

Quem se interessa por futebol deveria acompanhar com atenção o que anda ocorrendo com um dos clubes mais tradicionais do mundo, o River Plate. No último domingo, aconteceu outra tragédia no futebol argentino. Desta vez, inacreditavelmente, a pancadaria se desenvolveu entre duas facções da mesma torcida. O River enfrentaria o Arsenal no Estádio do Vélez Sarsfield, já que o Monumental de Núñez se encontrava ocupado com o Quilmes Rock. La banda de Gonzalo, facção antes comandada por Gonzalo Acro, assassinado em 2007, já não comparece ao Núñez, insatisfeita com a quantidade de ingressos que lhe é destinada. Compareceu ao jogo no campo de Vélez. La banda del Oeste, facção rival, havia chegado cedo e ocupado as populares. Foi cercada com um aparato de guerra impressionante: walkie-talkies, armas brancas de todo tipo, brutamontes anabolizados. O horror durou intermináveis minutos e deixou dezenas de feridos e detidos, incluído aí um torcedor com politraumatismo craniano. Ainda faltam 21 meses para as eleições no River, mas adivinhe quem são os potenciais apoiadores mais cortejados pelos candidatos? Sim, os bandidos, que adquiriram uma inserção dentro do clube que os torna praticamente intocáveis. (fontes: um, dois, três, quatro).

Na primeira rodada do campeonato mineiro deste ano, o Atlético jogou às 10:00 da manhã contra o Democrata, em Sete Lagoas. O Cruzeiro enfrentaria o Uberaba no Mineirão, às 16:00. Ao bater o olho na tabela, pensei: espero que a BH Trans tenha tido a óbvia idéia de mudar o lugar de chegada dos ônibus da torcida do Galo. Previ a tragédia. Não sou nenhum gênio, mas sei que (1) uma partida de futebol demora pouco menos de duas horas; (2) uma viagem de ônibus de Sete Lagoas ao centro de Belo Horizonte tarda uma hora; (3) os ônibus saem do mesmo lugar, na rua Rio Grande do Sul. Os atleticanos voltavam quando os cruzeirenses se aglomeravam para ir ver seu time. O resultado? Batalha campal, com um atleticano morto (de infarto, coitado, enquanto corria da confusão) e um cruzeirense com o crânio esmigalhado e o corpo provavelmente inutilizado por um bom tempo. Os criminosos chegaram a combinar a briga pelo Orkut. É inacreditável que alguém seja responsável pelo transporte de torcedores e não faça uma matemática tão simples como a que era necessária no dia 27 de janeiro em Belo Horizonte.

A situação das torcidas organizadas no Brasil chegou a um ponto em que não há outra saída a não ser sua abolição completa, acompanhada de investigação de suas relações com a cartolagem. Sim, eu sei que decretar sua abolição pode ferir o princípio constitucional da livre associação. Mas também sei que já há farto material juridicamente válido para imputar a elas um rastro de sangue que não deixa dúvidas sobre sua verdadeira natureza. Não cola o argumento de que só alguns de seus membros são responsáveis por crimes. A organização em si incentiva, promove e possibilita a barbárie. É inaceitável que um político – como Eduardo Paes (PSDB-RJ) – se dedique a fazer proselitismo propondo apoiar os presidentes das torcidas organizadas, que são pessoas sérias, pra impedir que a marginalidade tome conta. Pessoas sérias, meu senhor? Tenha dó. A afirmação é um descalabro de cinismo. Neste debate, estou com Vladimir Palmeira (PT-RJ), que respondeu a mesma pergunta de maneira taxativa: Torcidas organizadas, deveriam ser encerradas suas atividades, o governo deveria proibir.

Houve uma época em que coexistiam, em cada grande clube brasileiro, dezenas de agremiações de torcedores sem que houvesse nenhuma clara hierarquia. Nos últimos tempos, consolidou-se um grupo privilegiado para cada clube (Galoucura e Máfia Azul em BH; Gaviões, Independente e Mancha Verde em SP etc.). Esse gigantismo foi construído através de métodos sujos de troca de favores, extorsão, corrupção e violência. Não aceito o argumento de que há gente boa e sincera dentro desses grupos. Não é essa a questão. Também há gente sincera dentro da Klux Klux Klan Ku Klux Klan que nunca cometeu nenhum crime. Essas organizações estão apodrecidas em sua essência. Em Minas Gerais, o Ministério Público já pediu sua extinção. O Brasil não pode esperar que a coisa chegue no nível em que se encontra na Argentina. Elas têm que ser abolidas. Já.

Leia mais: Desesperança, belo texto de Douglas Ceconello sobre a tragédia de Criciúma.
Arquivos sobre violência do excelente blog Além do Jogo.



  Escrito por Idelber às 03:36 | link para este post | Comentários (23)



quarta-feira, 02 de abril 2008

Cruzeiro e Irmãos Perrella na mira da Polícia Federal

Poucas instituições são tão subservientes como a imprensa esportiva brasileira. Com honrosas exceções, o rádio, a televisão e as revistas especializadas são uma mescla de achismo, lugares comuns, trocas de favores e conluios com a cartolagem corrupta. Eu, que moro a milhares de quilômetros de distância, sei que a fortuna dos irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro de Belo Horizonte, não foi feita vendendo lingüiça em seus supermercados. Mas não há um só veículo da imprensa mineira com a coragem de investigar.

Como em Belo Horizonte não existem jornais – eu me recuso a dignificar com o nome de jornal aquele Diário Semi-Oficial do Governo Aécio –, coube à Revista Placar dar o furo acerca do inquérito 1541, instaurado pela Polícia Federal para investigar a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal e a evasão de divisas no Cruzeiro, que é o segundo clube brasileiro que mais lucrou com a venda de jogadores desde 2001 (o primeiro é o Santos, graças à geração Robinho / Diego). O mais revelador da história é que qualquer um que esteja bem informado sobre os bastidores do futebol mineiro sabe que evasão, sonegação e lavagem não são os crimes mais graves envolvendo dinheiro do lado de lá da Lagoa da Pampulha. Paro por aqui.

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O Ministério Público de Minas Gerais havia instaurado um procedimento investigativo em 2004, tendo como alvo as relações entre o Cruzeiro e os negócios pessoais dos Perrella. Segundo a Placar, quando o MP estava por ter acesso à contabilidade, um juiz suspendeu a investigação com o argumento de que os clubes de futebol são associações de direito privado, devendo prestar conta somente a seus associados. O autor da pérola foi o juiz Saulo Versianni Penna. Mais um para nossa coleção.

A investigação atual, que eu saiba, ainda não foi noticiada pela imprensa mineira. Corrijam-me se eu estiver errado.

PS: Fac símile da Placar roubada do Dolabela.

PS 2: Dê o seu autógrafo de apoio à Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde se encontre trabalho escravo e destinação das mesmas à reforma agrária (via Claudia).



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terça-feira, 25 de março 2008

O Centenário do Galo e oito frases históricas

O Biscoito Fino e a Massa saúda o Clube Atlético Mineiro no dia do seu centenário. Aqui no blog há um farto material sobre a fundação do clube, seus fenomenais goleiros, suas primeiras conquistas, o primeiro título nacional, os maiores craques da história, cinco de seus grandes jogos e o seu maior patrimônio, a mítica torcida. Milhares passaram a noite em vigília nos bares de Belo Horizonte, como registra em fotos o Dolabela.

Hoje, 25 de março, é o dia do atleticano, sacramentado recentemente pela Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ao longo do dia, a programação na cidade será intensa. Daqui a pouco, às 7 da manhã, começa o foguetório na Praça Sete. Às 9, tem Missa do Galo, na histórica Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem. Às 11, haverá uma homenagem aos fundadores, no coreto do Parque Municipal, onde nasceu o Gigante, com descerramento de placa e a presença da Charanga do Galo e da Banda da Polícia Militar. Amanhã, às 21:45, jogam Atlético e Peñarol, no Mineirão. Na quinta-feira, haverá sessão solene da Assembléia Legislativa de MG às 14 horas. Na próxima segunda, a Câmara dos Deputados, em Brasília, realiza sessão solene em homenagem ao Galo.

Já tendo escrito tanto aqui sobre o Glorioso, achei que a melhor homenagem para o dia de hoje seria selecionar minhas frases favoritas da história do Galo.

1)Se houver uma camisa alvi-negra pendurada num varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. Se não houvesse escrito nada mais, Roberto Drummond teria, ainda assim, entrado para a história só com esta frase. Resume tudo.

2)Nossa torcida vai ficar no sol, porque é fiel como a sombra. Empresário Júlio Firmino, ao escolher a linha lateral como espaço reservado à torcida do Atlético durante a construção do Mineirão.

3)João, joga a bola fora de mim. Paulo Isidoro, para o goleiro João Leite que, diz a lenda, passou a entender exatamente o que queria dizer Isidoro com “fora de mim”.

4)Parei 15 segundos no ar. Foi o meu recorde. Dadá Maravilha, explicando o gol que deu o título de primeiro campeão brasileiro ao Galo, em 1971.

5)Queria agradecer a Antártica pelas Brahmas que ela mandou para a comemoração. Toninho Cerezo, diz a lenda, antecipou os tempos de AmBev na celebração do Mineiro de 1976.

6)Você está louco? Como é que um campeonato com Pelé, Gérson, Jaizinho e Tostão vai ter Dadá de artilheiro? Se não foi campeão mineiro, como vai ser campeão brasileiro? Osvaldo Faria, ao comentar a previsão de Dadá de que ele seria artilheiro do primeiro Brasileirão e que o título seria do Galo.

7)Tem duas coisas que eu nunca aprendi a fazer: jogar futebol e perder gol. Mais uma de Dadá Maravilha.

8)Acabamos com a audácia das minorias. Nelson Campos, presidente do Galo, em 1971.

PS: Não deixe de conferir a página especial da TV Alterosa em comemoração do centenário.



  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 14 de março 2008

Galo aos sábados: A seleção de todos os tempos

Finalmente o Comitê Editorial do Biscoito Fino e a Massa se reuniu e chegou a um consenso sobre qual é o melhor Atlético-MG de todos os tempos. Aqui vai a Seleção escalada em duas partes. Os melhores, em cada posição, desde 1970 – são os que eu vi jogar. Depois, a Seleção escolhida pelo Comitê Consultivo Sênior do blog, localizado no Mercado Central de Belo Horizonte, onde aos sábados pela manhã se reúnem atleticanos de mais de 70 anos de idade.

Seleção dos últimos 38 anos
, escalada no 4-4-2: Mazurkiewcz (ou Taffarel), Nelinho, Cláudio Caçapa (ou Vantuir), Luizinho e Oldair; Gilberto Silva, Cerezo, Marcelo e Paulo Isidoro; Reinaldo e Éder.

Seleção do passado, escalada à moda antiga: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Cincunegui; Lucas, Mário de Castro, Carlyle, Ubaldo e Guará.

Maior de todos
: Reinaldo (quem viu, viu; quem não viu, acha que o maior centroavante de Pindorama foi Romário).

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Algumas fotos dos ídolos das antigas:

Mexicano:

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Ubaldo:

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Zé do Monte:

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Murilo:

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Guará:

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Carlyle:

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O grande uruguaio Cincunegui, em jogo contra a União Soviética no Mineirão:

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  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (30)



segunda-feira, 25 de fevereiro 2008

Marcelo de Lima Henrique, o sr. dormiu bem à noite?

Eu já havia preparado links e anotações para um post sobre a judicialização do debate jornalístico no Brasil. Nos domingos, em geral, dedico a tarde e a noite ao trabalho acadêmico, reservando um par de horas na madrugada para o post da segunda. Como já estava preparado o post, fui fazer uma das coisas que mais gosto: ver um bom jogo de futebol. Era a final da Taça Guanabara, entre Botafogo e Flamengo.

O Maracanã é, sim, o grande templo do futebol – que me desculpem os paulistas. A Taça Guanabara é o que chamamos, em outros estados, “primeiro turno”. Mas tem um charme e uma tradição incomparáveis. Esquentei uma carninha, abri uma Dos Equis Amber e fui ver a partida. Maraca lotado, jogo aberto, bonito: um sonho para qualquer fã de futebol.

Mais uma vez senti vergonha de ser brasileiro. O que foi feito com o Botafogo ontem no Maracanã é uma dessas coisas que, em qualquer país sério, terminaria na delegacia de polícia ou na barra dos tribunais. Há 18 anos acompanho basquete universitário e profissional, futebol americano universitário e profissional. Tenho meus times (Universidade da Carolina do Norte, New Orleans Hornets, New Orleans Saints, além de ter algum carinho pelo Carolina Panthers, clube que vi nascer). Nunca, em 18 anos, presenciei espetáculos grotescos de arbitragem como os que acontecem no Brasil quase todas as semanas.

Faço questão de escrever este post porque não faltam leitores que apontam “choro de perdedor” cada vez que assinalo os incontáveis roubos de arbitragem de que o Atlético-MG foi vítima ao longo dos anos. Pois bem, agora não foi com o meu time. Botafogo, Vasco, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Corinthians: para mim dá tudo na mesma. Sou Galo, sinto simpatia pelos times do sul, especialmente pelo Inter, e tenho lá um cantinho de amor pela Ponte Preta e pelo Vitória-BA. Desta vez, eu só queria ver um bom jogo. Que vencesse o melhor.

O pênalti marcado em favor do Flamengo, quando o Botafogo vencia por 1 x 0, é daqueles que teriam que ser marcados 20 vezes por jogo. Não pode segurar a camisa do adversário ao subir para cabecear? Perfeito. Que se apite 20 pênaltis por jogo então. Eu não teria problema com isso. Um outro critério, que uns poucos juízes honestos utilizam, é marcar esse tipo de pênalti quando o atacante estiver sendo impedido de fazer a jogada. Não era o caso, já que não havia nenhum perigo de gol. Mas, claro, a camisa sendo agarrada era rubro-negra. Não é preciso dizer que a mesma jogada aconteceu pelo menos 5 vezes do outro lado, sem que se marcasse nada.

Esqueçam o pênalti. Que eu saiba, existe uma regra no futebol que determina que, numa bola recuada intencionalmente com os pés para o goleiro, este não pode segurá-la com as mãos, sob pena de tiro livre indireto na área – a não ser, claro, que o jogador que fizer o recuo se chame Léo Moura e vista uma camisa rubro-negra. O cartão vermelho para Zé Carlos e o cartão amarelo para Lúcio Flávio, do Botafogo, aconteceram por quê mesmo? Uma cotovelada no adversário, em geral, é jogada para cartão vermelho – a não ser, claro, que o autor se chame Souza e vista uma camisa rubro-negra, e a vítima for um goleiro uruguaio (aliás, a xenofobia dos árbitros brasileiros é outro tema que mereceria longa discussão; Valdivia que o diga). Eu poderia listar outros exemplos.

Um árbitro que permanecerá inomeado uma vez me disse: “Idelber, se você quer prejudicar uma equipe, não espere as jogadas decisivas na área. Trave-a no meio-campo”. Assistam o VT da partida e vejam essa regra em ação. O pior é que ela não foi suficiente. O juiz roubou no meio-campo e roubou na área. O Botafogo foi imensamente superior ao Flamengo? Não, não foi. Poderia ter perdido na bola? Poderia. Desequilibrou-se emocionalmente a partir de um certo momento? Sem dúvida. Mas nada justifica a bandidagem. O impressionante no Brasil é que mesmo os melhores e mais honestos cronistas observam essas coisas e acham tudo normal. Não deve ser coincidência que, nos campeonatos cariocas, o time sistematicamente roubado seja justo aquele que é (ou era) dirigido por um ser humano íntegro, não cúmplice dos bandidos da Federação de Futebol do Estado do Rio – ainda que, nas competições nacionais, e especialmente contra mineiros e gaúchos, essa mesma equipe seja auxiliada pelas arbitragens.

Alguém em sã consciência é capaz de dizer que o pênalti que sofreu Tinga, do Internacional, no jogo contra o Corinthians que poderia ter decidido o Brasileirão de 2005, não teria sido marcado caso a sua camisa vermelha tivesse um par de listras horizontais negras? É frustrante, porque os flamenguistas (e, em menor medida, os corinthianos) já se acostumaram a ganhar dessa forma. Mesmo gente instruída e sensata se recusa a discutir o tema, não entendendo que o futebol brasileiro é um patrimônio do país, destruído e pisoteado cada vez que isso acontece. O problema transcende o esporte. É um roubo contra o consumidor, numa esfera que movimenta muito dinheiro e tem enorme significação simbólica para o Brasil, dentro e fora de suas fronteiras. Cada rubro-negro que repete "é choro de perdedor" quando acontecem esses escândalos, me desculpe, é um cúmplice do crime organizado.

Esta semana, chegou a notícia de que a Nike assinou um contrato de patrocínio com a seleção francesa por um valor cinco vezes maior que aquele destinado à seleção brasileira. Eu pergunto: em qual bolsa de apostas da galáxia a seleção francesa vale cinco vezes mais que a brasileira? Ou será que o valor oficial não é o efetivamente pago à CBF? Aliás, eu entendo que o Banco do Brasil patrocine a seleção de voleibol. Trata-se da seleção brasileira de vôlei. Alguém poderia me explicar porque a Petrobras, uma empresa estatal sem concorrência no país, patrocina o Flamengo?

Atualização: Juca, não é possível, Juca. Se você acha que essa foto encerra a discussão sobre tudo o que está dito acima, e tudo o que observaram milhões de torcedores, só nos resta dizer: então tá. Quando alguém com a integridade de Juca Kfouri começa a defender o que aconteceu ontem no Maracanã, sinceramente, dá vontade de jogar a toalha e assistir só futebol americano mesmo.



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sábado, 23 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: Homenagem à maior de todas

Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:

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Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?

Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.

A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:

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Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:

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Quando mais "invocada", mais sexy ela parecia:

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E o charme com que ela cantava "Malandragem"?

Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.

Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.



  Escrito por Idelber às 05:36 | link para este post | Comentários (48)



sábado, 16 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: O Campeão dos Campeões de 1936

Sim, houve um Torneio Inter-Estadual de Clubes em 1920 e um Torneio Rio-São Paulo em 1933. Mas não seria exagero dizer que o primeiro grande campeão inter-estadual do Brasil foi o Clube Atlético Mineiro, seguindo sua tradição de pioneirismo. A Federação Brasileira de Futebol convocou os detentores dos títulos de 1936 nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo para decidir quem seria o “campeão dos campeões”.

O Galo, depois do bicampeonato de 1926-27 e da histórica inauguração do Estádio Antônio Carlos em 1929, narrados no post anterior, foi bicampeão em 1931-32. O primeiro campeonato mineiro profissional foi realizado em 1936, também com vitória do Galo, numa campanha sensacional: 12 jogos, 9 vitórias, 1 empate, 1 derrota; 49 gols pró, 14 gols contra. Foi essa conquista que carimbou o passaporte da equipe para a disputa inter-estadual, que também contou com o Fluminense, a Portuguesa de Desportos e o Rio Branco.

A estréia não poderia ter sido pior. O Galo foi às Laranjeiras enfrentar os tricolores e levou uma goleada impiedosa: 6 x 0. Chegou a se dizer que o time daria vexame. Depois de apanhar no Rio, o Galo fez uma viagem ao Espírito Santo e ficou no empate em 1 x 1 com o Rio Branco. Mais animada, a equipe voltou a Belo Horizonte sabendo que teria três jogos consecutivos em casa. Ainda mordido pela goleada sofrida no Rio, o Galo massacrou a Portuguesa por 5 x 0.

Tendo terminado o turno com 1 vitória, 1 empate e 1 derrota, o time ainda estava em boas condições de brigar pelo título, pois faria 2 dos 3 últimos jogos nas Alterosas. O próximo desafio era a revanche contra o forte time tricolor. Motivado, o Atlético-MG mais uma vez o honrou o apelido de Galo Vingador. Goleou com facilidade por 4 x 1. Já embalados, os atleticanos sabiam que o Rio Branco, jogando em Belo Horizonte, não seria páreo. E não foi. Galo 5 x 1.

A viagem para São Paulo, diz a lenda, foi cercada de tensão. Um empate já seria suficiente para garantir o título, mas o Galo fez melhor. Derrotou a Portuguesa de novo, desta vez em seus domínios, por 3 x 2, sagrando-se Campeão dos Campeões, título que depois entraria com destaque no hino definitivo do clube, composto por Vicente Mota em 1969. Como é de costume nas conquistas do Galo, a comemoração em Belo Horizonte ficou marcada nos anais como uma festa inesquecível. A Massa tomou a cidade na recepção aos ídolos.

O time Campeão dos Campeões de 1936 formava com Kafunga, Florindo e Quim; Zezé Procópio, Lôla e João Bala; Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola e Resende. Aí vai a foto, que é retirada do Estado de Minas. Note-se mais uma vez o pioneirismo do Galo (e não me canso de insistir nisso): em pleno 1936, o Campeão dos Campeões do Brasil levou às Laranjeiras uma equipe formada quase em sua totalidade por negros e mulatos:

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Em pé: Floriano (técnico), Zezé Procópio, João Bala, Lôla, Florindo, Quim; na fileira de baixo: Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola, Kafunga e Resende, este último, infelizmente, quase fora da foto.

PS: O Biscoito recomenda à nação alvi-negra uma visita diária ao Galo é amor, o mais ativo dos muitos blogs atleticanos.



  Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post | Comentários (13)



sábado, 09 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: 1926-1929

A equipe atleticana retratada abaixo foi a responsável pela quebra da mais longa seqüência de títulos estaduais da história do futebol brasileiro. Junto com o ABC-RN, o América-MG é o único clube a jamais ter conquistado um decacampeonato. Em Minas, isso aconteceu na época do amadorismo, de 1916 a 1925, logo depois do título pioneiro do Galo em 1915.

Depois disso, o Atlético-MG nunca mais passaria por uma seca igual. A equipe de 1926 colocou o Galo no rumo da hegemonia que o clube jamais voltaria a ceder: o de maior campeão mineiro. O título de 1926 foi surpreendemente fácil, considerando-se o jejum de uma década. Foram 10 jogos; 8 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 42 gols pró e 19 contra. O artilheiro foi Mário de Castro, o primeiro grande ídolo atleticano, com 20 gols. Eis aí os bicampeões de 1926-27, com destaque para o sensacional penteado de Neném Aluoto:

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Da esquerda para a direita: Getulinho, Franco, Ruy Lage, Jairo, Getúlio, Neném Aluoto, Calígula, Ivo Melo, Amador, Mário de Castro, Cardoso, Chiquinho e o diretor de futebol Adelino Testi. A foto é do legendário Joanésio Moreira.

O bicampeonato de 1927 também foi conquistado de forma avassaladora: 12 jogos, 10 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 58 gols a favor e 18 contra. Mário de Castro de novo foi o artilheiro, desta vez com 27 gols. Naquele ano, dois jogos ficaram imortalizados. No dia 26 de novembro, o Cruzeiro, então Palestra Itália, amargaria mais um momento da freguesia que o coloca hoje 40 vitórias atrás do Atlético em confrontos diretos. Mas naquele dia foi especial: 9 x 2, até hoje a maior goleada da história do clássico. Antes disso, no dia 04 de setembro, o Galo enfrentara o Vila Nova no temido campo de Nova Lima. Saíra para o intervalo do jogo perdendo por 4 x 1. Os palestrinos comemoravam intensamente, pois se tratava da última rodada e mesmo um empate do Vila com o Galo daria o título ao Palestra. Mário de Castro se retirara para o vestiário sob intensas gozações dos vila-novenses. Diz a lenda que voltou possuído. Em 15 minutos, enfiou um, dois, três, quatro gols. Galo 5 x 4 Vila, Atlético bicampeão mineiro de 1927.

30 de maio de 1929 é outra data histórica para o Galo. Belo Horizonte era uma cidade de 40.000 habitantes e mais de 10% da população se reuniu num mesmo lugar. O Glorioso inaugurava o Estádio Presidente Antônio Carlos, para pouco mais de 5.000 pessoas, no quarteirão número 13 da 9a seção urbana, no bairro de Lourdes – hoje área nobre de BH, na época um deserto. O convidado do Galo foi o Corinthians, que saiu vencendo por 1 x 0. Mário de Castro empatou ainda no primeiro tempo. No segundo, Mário de Castro faria mais dois, Said marcaria o seu e o Corinthians diminuiria. Final: Galo 4 x 2, sobre aquele que era considerado por muitos o melhor time do Brasil. O juiz ainda anularia 2 gols do Galo.

O Galo venceu com Osvaldo, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmy, Said, Jairo, Mário de Castro e Geraldino. Aí vai uma foto da inauguração, também de Joanésio Moreira:

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Fonte das fotos e informações: Atlético de todos os tempos, de Adelchi Ziller.


PS:
Em breve, no Galo aos sábados: a homenagem a uma grande atleticana que foi a maior de todas na carreira que escolheu.

PS 2: No domingo de manhã, o blog publicará informações e análise sobre os primárias democratas da Louisiana e as assembléias (caucus) de Washington e Nebraska.



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sábado, 26 de janeiro 2008

Galo aos sábados: A mística da massa

este texto é antigo e conhecido de muitos. Circulou pela internet como spam e com falsas atribuições de autoria. Publico-o aqui no blog pela primeira vez, como homenagem à torcida do Galo no ano do centenário.

Torcidas, as haverá mais numerosas, mas nenhum séquito futebolístico brasileiro se compara ao do Clube Atlético Mineiro em mística apaixonada, em anedótario heróico, em poesia acumulada ao longo dos anos. "A Massa", como é simplesmente conhecida em Minas Gerais, compartilha com a torcida corinthiana ("A Fiel") a honra de deixar-se conhecer com um substantivo ou adjetivo comum transformado em nome próprio, inconfundível. A Fiel, A Massa: poucas outras torcidas terão realizado tal operação de mutação de um nome comum em nome próprio.

Muito distintas são, no entanto, as torcidas dos alvi-negros paulistano e belo-horizontino. Quem já vestiu a camisa do time do Parque de São Jorge sabe que a Fiel é fiel em sua paixão, não em seu apoio. Na derrota, a Fiel é implacável; não desaparece, como a torcida do Cruzeiro. Está sempre lá. Mas é capaz de crucificar com um pequeno manifestar-se de sua raiva. Na vitória, cobra cada vez mais, e reinstala aí sua insatisfação, cuja raiz quiçá esteja no mal-resolvido trauma dos 23 anos sem título, e do grande pesadelo de duas décadas chamado Pelé. A Fiel é fiel, e sempre o foi, mas sua fidelidade se nutre de um descompasso entre a alma do torcedor e a alma do time.

No caso do atleticano, a alma do time não é senão a alma da torcida. Toda a mística da camisa, das vitórias sobre times tecnicamente superiores (e também das derrotas trágicas e traumáticas), emana da épica, das legendárias histórias que nutre sua apaixonada torcida: nem o Urubu, nem o Porco, nem o Peixe, nem a Raposa, nem o Leão, nem nenhum animal mascote se confunde com o nome do time, com sua identidade, com sua alma mesma, como o Galo com o Atlético Mineiro. E Galo é o nome da torcida (GA-LO), bíssilabo cantável e entoável como grito de guerra que ela eternizou ao encarnar em si o espírito do animal. Nenhum outro time é conhecido por tantas vitórias improváveis só conquistadas porque a Massa empurrou. Quem possui uma torcida como esta, é praticamente impossível de ser derrotado em casa (Telê Santana).

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Pelos idos de 69 ou 70, o timaço do Cruzeiro já tetra ou pentacampeão entrava em campo mais uma vez e parecia que de novo ia humilhar o Atlético, que já amargava o quinto aniversário do Mineirão sem nenhum título estadual. A superioridade técnica de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Raul, Piazza e cia. era simplesmente incontestável. Mesmo naquele clássico durante vacas tão magras, a massa atleticana era, como sempre foi, maioria no Mineirão. Impotente, ela viu Dirceu Lopes abrir o placar e o time do Cruzeiro massacrar o Galo durante 45 minutos. No intervalo, a massa que cantava o hino do Atlético foi inflamada por um recado de Dadá Maravilha pelo rádio: Carro não anda sem combustível. A fanática multidão encheu-se de brios, fez barulho como nunca, entoou o grito de guerra como nunca, encurralou sonoramente a torcida cruzeirense, e o time do Atlético - infinitamente inferior, liderado pelo artilheiro Dario - virou o placar para 2 x 1 e abriu caminho para a reconquista da hegemonia em Minas, selada com o título estadual de 70 e o Brasileiro de 71. Nenhum dos jogadores atleticanos presentes nessa vitória jamais se esqueceu da energia que emanava das arquibancadas, e que literalmente ganhou o jogo.

Nenhuma testemunha ocular de alguma das façanhas da torcida do Atlético deixou de reconhecer que não há torcida igual. O Galo é o primeiro time brasileiro a alcançar a marca de 10 milhões de torcedores presentes no estádio durante o Brasileirão. Foi campeão de público em dez edições do Campeonato (1971, 1977, 1990, 1991, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999, 2001), além de liderar todas as divisões do futebol brasileiro em 2006, com média de 31.622 torcedores por jogo no ano em que a equipe disputou a Série B.

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Também as derrotas contribuíram para a mística e paixão atleticanas: como em 1998, quando o visitante Corinthians trouxe ao Mineirão sua máquina que se preparava para ser bicampeã brasileira e campeã mundial. O Galo se recuperava no Campeonato Brasileiro, vinha de uma vitória sobre o Grêmio no Olímpico e a Massa mais uma vez lotou o estádio. Com seu toque de bola, o Corinthians envolveu o time atleticano e no meio do segundo tempo já aplicava impiedosos 5 x 0, enquanto tocava a bola, colocava os atleticanos na roda e esperava o fim do jogo. Vendo seu time humilhado por um adversário superior dentro de seu próprio terreiro, a massa se levantou e cantou durante mais de 10 minutos o belo hino, mais alto e com mais amor que nunca. Nenhum jogador presente se esqueceu e um ano depois o Galo devolveria ao Corinthians os 5 x 1 do Mineirão, com sonoros 4x0 no Maracanã.

Só a tragédia de 1950 se compara ao silêncio sepulcral que envolveu o Mineirão em 05 de março de 1978, quando a grande equipe atleticana de Cerezo, Reinaldo, Paulo Isidoro, João Leite e Marcelo perdeu nos pênaltis o título que todos já consideravam seu, incluindo-se, às vezes parece, os próprios adversários são-paulinos. O time do Atlético jogou sem Reinaldo, suspenso num julgamento criminosa e maliciosamente marcado para a última semana do campeonato; foi empurrado pela torcida, mostrou-se muito superior ao São Paulo (como havia feito durante todo o campeonato em que acumulou 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota), encurralou o adversário durante 120 minutos, mas o gol não saiu. O título foi perdido nos pênaltis, mesmo depois de duas grandes defesas de João Leite em cobranças são-paulinas. Ângelo, um dos craques do jovem time atleticano, deixou a partida quebrado por Neca e pisoteado por Chicão. Nunca mais seria o mesmo. O Galo, base da seleção brasileira de Osvaldo Brandão do ano anterior, saiu de campo vice-campeão invicto, 10 pontos à frente do campeão, com os 11 jogadores abraçados. A Massa recebia aí sua grande tarefa dos próximos anos: realizar o luto pelo enorme trauma. Começou a tarefa no domingo seguinte às 10 da manhã, levando legiões de bandeiras para uma amarga partida contra o Bahia no Mineirão. Nenhuma outra derrota de um favorito no Brasileirão se revestiria de tanta mística apaixonada. A partir daí a Massa acumularia 10 títulos mineiros em 12 anos. Veria o Galo vencer uma legião de torneios europeus (Paris, Amsterdã, Vigo, Bilbao, Ramón de Carranza) e realizar uma seqüência de campanhas sensacionais no Brasileirão, interrompidas na final ou semifinal em jogos fatídicos.

A magia atleticana se encarnaria no seu torcedor mais famoso, Sempre, cujo nome real não se conhece, tal é força do apelido. Durante décadas, Sempre ocupou as arquibancadas do Independência e do Mineirão, com sua bandeira e seus ditos legendários. Nunca deixou de comparecer e nunca vaiou o time, embora chorasse nas derrotas. Foi dos primeiros a entoar o hino composto por Vicente Motta em 1969 e depois aprendido por milhões em todo o Brasil. Abria e fechava o clube diariamente. Participou de epopéias memoráveis da massa atleticana, como num jogo dos anos 50, depois do qual a multidão carregou no colo o artilheiro Ubaldo, de sunga, ao longo dos 5,5 kilômetros que separam o estádio Independência da Praça Sete; como quando 20.000 atleticanos invadiram o Maracanã e empurraram o time à conquista do Primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, sobre o Botafogo de Jairzinho.

O Furacão de 70 sentiu seu peso de novo cinco anos mais tarde, na decisão do Mineiro de 76 - quando a Massa, mesmo tendo comemorado só 1 dos 11 campeonatos mineiros anteriores, tomou conta do Mineirão para empurrar uma turma de meninos de 18-21 anos (de nomes Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro, Danival, Marcelo) a vitórias contundentes sobre o campeão da Libertadores. Estava aberto o caminho para o hexacampeonato de 1978-83.

Se houver uma camisa alvi-negra pendurada no varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. O achado do cronista Roberto Drummond resume a mitologia do Galo: contra fenômenos naturais, contra todas as possibilidades, contra forças maiores, a torcida atleticana passa por radical metamorfose e se supera. Superou-se tantas vezes que já não duvida de nada, e cada superação reforça ainda mais a mística, como uma bola de neve da paixão futebolística. Nenhum atleticano hesitaria em apostar na capacidade da Massa de transformar o impossível em possível a qualquer momento, de fazer parar aquela tempestade que açoita o pavilhão alvi-negro deixado solitário no varal.

Não surpreende, então, o sucesso que tiveram os jogadores uruguaios que atuaram no Atlético Mineiro, do grande Mazurkiewcz ao maior lateral-esquerdo da história do clube, Cincunegui. Se há uma mística de garra e amor à camisa que se compara à atleticana, é a da celeste, não mineira, mas uruguaia. Só à seleção uruguaia a pura paixão por um nome e um símbolo levou a tantas vitórias inacreditáveis, improváveis, espíritas, puramente heróicas. Em 1966, as duas camisas legendárias se encontraram e o Galo derrotou o Uruguai duas vezes (26/04/66 - Atlético 3 x 2 Uruguai, 18/05/66 - Atlético 1 x 0 Uruguai).

Ao contrário das torcidas conhecidas por sua origem étnica (Palmeiras, Cruzeiro, Vasco), por sua origem social (Fluminense, Grêmio, São Paulo), ou por seu crescimento a partir de uma grande fase do time (Santos, Cruzeiro), qualquer menção da torcida do Atlético Mineiro evoca, invariavelmente, a substância mesma que constitui o torcer. O amor ao time na vitória e na derrota, o apoio incondicional, a garra, a crença de que sempre é possível virar um resultado, o hino entoado unissonamente: a legião fanática que ama o Galo acima de tudo sabe que ser atleticano é unir-se num estado de espírito, compartilhar uma memória e fazer da esperança uma permanente iminência.

A massa atleticana é a prova maior de que, mesmo em época de profissionalização total do futebol, do negócio futebol, para o povo brasileiro este é acima de tudo paixão por uma cor, um nome, um símbolo, a memória de um instante que pode ser um gol, um campeonato, um abraço ou um beijo. Galo é o nome que mais radical e verdadeiramente expressa, para tantos milhões de brasileiros, o inexplicável dessa paixão.

PS: O blog deseja boa sorte aos amigos Alex Castro e Lucia Malla em suas novas casas.



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sábado, 19 de janeiro 2008

Galo aos sábados

kafung.jpgReúna atleticanos de quatro ou cinco gerações diferentes. Se quiser lançar uma bomba incendiária capaz de gerar polêmica por vários dias, é só fazer uma singela pergunta: quem foi o maior goleiro do Galo em todos os tempos?

Se tivéssemos que fixar uma data para o início da mística dos goleiros do Atlético, seria o 19 de janeiro de 1935. A manchete do Estado de Minas anunciava: “Kafunga, novo keeper para o Athlético”. O niteroiense Olavo Leite Bastos havia protagonizado uma experiência insólita. Foi o goleiro da Seleção Fluminense massacrada por 10 x 2 pela Seleção Mineira em 1933 e, mesmo assim, havia sido eleito o melhor em campo. Na chegada a Belo Horizonte, Kafunga diria: O score me acabrunhou tanto que tentei abandonar o futebol. Depois, esqueci a derrota, ou por outra, a ‘lavagem’, e recomecei a jogar. Mas o que não pude esquecer foram aquelles tiros de Said, dentro da área… Naquella época, não podia eu prever que viria dar com os costados em Bello Horizonte e, muito menos, que jogaria no team do homem que me fez passar por muitos sustos e dissabores.

Ele fecharia o gol do Galo de 1935 até 1954. É o recordista em número de jogos realizados com o manto alvi-negro: foram 714 partidas. Dos 39 títulos mineiros conquistados pelo Atlético, nada menos que 12 contaram com Kafunga no gol. Foi ainda campeão dos campeões (do Sudeste) de 1936 e campeão do “gelo” na Europa em 1950. Ainda é possível encontrar, no Mercado Central ou em Lourdes, atleticanos que dão gargalhadas ante a menção dos nomes de Taffarel ou João Leite. Goleiro era Kafunga, dizem, convictos. Além do legado de jogador, deixou imensas contribuições à língua portuguesa: cabeça de bagre, não tem coré-coré, gol barra limpa, despingolar (verbo que Kafunga adorava usar para se referir às arrancadas de Paulo Isidoro) e vapt-vupt foram algumas de suas criações. Mil novecentos e Kafunga é até hoje uma expressão que circula em Minas Gerais para designar um passado longínquo. Fez inesquecível carreira como comentarista de rádio e televisão. Em seu velório, em 1991, atleticanos e cruzeirenses choravam juntos. Nós nos acostumáramos a imaginar que Kafunga não morreria nunca.

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Dali em diante, raríssimas vezes não nos sentimos seguros com nossos goleiros. Ainda na década de 50, Veludo, Sinval e Mão de Onça seriam ídolos da torcida. Na duríssima segunda metade dos anos 60, Mussula garantiu muitas partidas equilibradas contra o time superior que tinha o Cruzeiro. Na modesta equipe que conquistou o Campeonato Brasileiro em 1971, Renato participou de todas as 27 partidas. Numa época em que o Brasil esbanjava atacantes, sofreu só 22 gols. A Massa continua adorando-o, pela fidelidade que mantém ao clube. lmazurkiewicz.jpg

mazurc.jpgNo ano seguinte, chegaria o maior de todos. Algo de idealização retrospectiva da infância haverá nisto, mas jamais voltei a ver um goleiro como Ladislao Mazurkiewicz. Mais conhecido no Brasil pelo drible que lhe aplicou Pelé na Copa de 1970, Mazurka seria o responsável direto pela conquista do tricampeonato da Taça BH em 1972, numa época em que o Cruzeiro ainda possuía uma equipe indubitavelmente superior. Ele não era alto, mas tinha reflexos apurados, saída perfeita, colocação impecável e muita garra. Deu continuidade ao casamento feliz entre os jogadores uruguaios e o Galo, iniciado com o lateral-esquerdo Cincunegui e continuado pelo zagueiro-central Oliveira.

De 1977 até 1989, e entre 1991 e 1992, a meta do Galo teve um sucessor à altura. João Leite ganhou doze campeonatos mineiros, uma Copa Conmebol e vários torneios de verão na Europa. Ajudou a levar o Galo a dois vice-campeonatos nacionais. Na fatídica decisão por pênaltis de 1977 contra o São Paulo, João Leite encaixou no peito as duas primeiras cobranças, de Getúlio e Chicão, ambas no cantinho (sentado na arquibancada, daquele lado do estádio, eu pensei: com um goleiro destes, o título já é nosso). João Leite inovou nos pênaltis, ao flexionar os joelhos com os braços abertos, movendo-se antes da cobrança só na vertical – e portanto rigorosamente dentro da regra. Num esquadrão de craques como Cerezo, Reinaldo, Éder e Luisinho, o “goleiro de Deus” não era das estrelas mais badaladas. Mas jamais deixou de ter a confiança da Massa. Poderia, inclusive, ter ido mais longe na Seleção Brasileira, que teve sua meta defendida por goleiros bem inferiores durante a década de 80.

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Nos anos 90, a mística se manteria com Taffarel, campeão mineiro em 1995 e campeão da Conmebol em 1997, e com Velloso, vice-campeão brasileiro em 1999 e campeão mineiro em 2000. Já no novo século, o Galo revelaria um dos melhores goleiros dos últimos tempos, Diego, campeão mineiro de 2007 e logo depois vendido ao Almeria, da Espanha.

Traz um certo peso, a camisa 1 do Galo.



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sábado, 12 de janeiro 2008

Galo aos sábados

O mais movimentado campo de peladas da jovem Belo Horizonte ficava nas imediações do Parque Municipal. Diz a lenda que a primeira idéia de fundação do novo clube de futebol ocorreu no dia 22 de março de 1908. Mas aos domingos realizavam-se corridas de bicicletas que levavam moçoilas ao Parque. Atraídos pelos rabos-de-saia, os garotos adiaram o plano. Numa conspiração sensacional, 19 deles mataram aulas na quarta-feira seguinte e no dia 25 de março nascia o Atlético Mineiro Futebol Clube, cujo primeiro campo de jogo foi um terreno batido de, no máximo, 75 m x 30 m, na Rua Guajajaras, entre São Paulo e Curitiba. Só em 1911 o clube conseguiria uma cancha um pouco melhor, na Avenida Paraopeba (atual Av. Augusto de Lima).

O Galo não foi o primeiro clube de futebol da cidade. Existia então o Sport Club Futebol, contra quem o Atlético jogou sua primeira partida, em 21 de março de 1909. O Galo venceu por 3 x 0 e o esquadrão que entrou em campo foi Eurico Catão, Mauro e Leônidas; Raul Fracarolli, Mário Toledo e Hugo Fracarolli; Mário Neves, Aníbal Machado (sim, o escritor), Margival, Zeca Alves e Benjamin Moss. No domingo seguinte, novo jogo e nova vitória do Atlético por 2 x 0. Inconformado com as derrotas, o Sport pediu nova revanche para um mês depois. Apanhou de novo, desta vez de 4 x 0. Do Sport Club Futebol não mais se ouviu falar. Desapareceu.

Na assembléia realizada no seu quinto aniversário, em 25 de março de 1913, o nome passou a ser o que mundo conheceria: Clube Atlético Mineiro. O Galo já havia sofrido sua primeira derrota em 1912, para o Granbery, de Juiz de Fora, por 5 x 1. Convidados para a revanche, os granberyanos visitaram a capital no dia 04 de maio de 1913. A vingança foi doce: Atlético 7 x 0. Nascia a lenda: o vingador.

Em seu livro Os Subterrâneos do Futebol, João Saldanha inclui o Atlético na longa lista de times que não aceitavam negros e mulatos. Como já foi dito neste blog, é mentira. O Galo é um dos pouquíssimos grandes clubes brasileiros que jamais conheceu a segregação. Como dizer não basta, resolvi matar a cobra e mostrar o pau. Eis aqui, pela primeira vez na Internet, acredito, a foto tirada por Joanésio Moreira da equipe do Atlético que conquistou o primeiro campeonato de Belo Horizonte, a Taça Bueno Brandão de 1914:

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Da esquerda para a direita, em pé: Morethzon, Alfredo Coutinho, Ferreira, Lé, Mourinha, Romeu; na fila de baixo: Tedinho, Jorge Pena, Afonso Coutinho, Mário Lott e Nilo Zauli.

Com a fundação da Liga Mineira de Esportes Atléticos em 1915, realizou-se naquele ano o primeiro campeonato mineiro oficial, com a participação de Atlético, América, Yale, Higiênicos e Cristóvão Colombo. Campeão? O Atlético, que inaugurava a tradição de conquistar a primeira edição de praticamente todos os torneios que disputa. A campanha do título consistiu em 7 jogos: 5 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 20 gols a favor e 5 contra. O primeiro artilheiro do Glorioso foi Meirelles, com 7 tentos anotados naquele campeonato.

Fonte: Enciclopédia Atlético de Todos os Tempos, de Adelchi Ziller.

PS: Para comemorar o centenário, o Biscoito publicará aos sábados os principais momentos da história do Galo. Convido os atleticanos que queiram me ajudar a que enviem informações ou fotos ao endereço de email fornecido no canto esquerdo superior da página.



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (11)



terça-feira, 11 de dezembro 2007

Corinthians na segundona

Vou deixar para o Inagaki a tarefa de ser elegante. Farei um post para ser xingado. Se os corintianos forem elegantes nos xingamentos, eles não serão apagados. Combinemos uma coisa? A torcida do Corinthians tem que baixar a bola e entrar na segundona com outra atitude. Se mantiver a que tenho visto, vão ficar 10 anos por lá. O caderno Aliás, do Estadão, publicou no domingo uma nota do publicitário corintiano Washington Olivetto que termina com uma frase sombria e ameaçadora. Lembrem-se meninos: não saber ganhar é ainda pior do que não saber perder. Parece que a grande maioria dos corintianos ainda não entendeu a corrente-pra-trás que uniu contra eles todo o Brasil, com a exceção, talvez, dos vila-novenses de Goiás. Gremistas e colorados, atleticanos e ex-ipiranguenses: todo mundo torceu junto. E não foi por inveja da Fazendinha.

Essa corrente tem duas raízes: a revolta do público espectador com as manipulações da Rede Globo e a memória, muito viva, de todas as maracutais nas quais o Corinthians já esteve envolvido. Só o Flamengo supera o Corinthians em títulos roubados. Como se sabe, o último título ganho pelo Flamengo sem a ajuda do apito foi o tricampeonato carioca de 1955, quando o ataque era Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha. Dali pra frente, foi tudo José Roberto Wright.

Como é do conhecimento até do mundo mineral, roubar campeonatos para Flamengo e Corinthians é o pré-requisito para comentar arbritragens na Globo. Algo me diz que o sucessor de Wright e Márcio Rezende de Freitas na telinha de Galvão Bueno será o Carlos Simon. A queda do Corinthians vem sendo tratada pela imprensa de forma completamente diferente das quedas, anteriores, de Palmeiras, Fluminense, Botafogo, Grêmio e Galo, como se o Corinthians fosse maior que algum deles. Foi constrangedor assistir a transmissão da última rodada do campeonato. Parecia que o Olímpico presenciava uma partida da Seleção Brasileira contra um combinado de estupradores nazistas. Um amigo latino-americano olhava, incrédulo: mas essa transmissão é nacional? Eu digo: sim, é nacional. O cabra: mas Goiás e Rio Grande do Sul não são parte do Brasil? Por onde começar a explicar essas coisas para quem não é brasileiro?

O Corinthians há tempos é um time de segunda que estava na primeira ganhando títulos através de terceiros. Venceu o Campeonato Brasileiro mais vergonhoso da história, o Zveirtão de 2005. Ganhou a Copa do Brasil de 2002 sobre o Brasiliense com uma das arbritragens (de Simon) mais tendenciosas que já vi desde o serradouradazo de Wright em 1981. Ganhou o Brasileirão de 1999 sobre o Galo num jogo também apitado por Simon, em que o lateral Índio jogava voleibol e jiu-jitsu dentro da área. Em 1977, o Corinthians saiu da fila de 23 anos num jogo em que Dulcídio Wanderley Boschilla expulsou Rui Rei, da Ponte Preta, aos 8 minutos do primeiro tempo. Ganhou Foi vice-campeão no Paulistão de 1998 (obrigado, Serbão) graças à ajuda de Javier Castrilli contra a Portuguesa na semifinal. A lista é infinita. Tudo isso para não falar, claro, da associação com criminosos procurados pela Interpol.

Nada disso, óbvio, é culpa dos corintianos que sofrem nas arquibancadas. Mas o torcedor que celebrou a parceria com a bandidagem internacional cantando el el el, Kia é da Fiel deveria, sim, refletir um pouco. Assim como Washington Olivetto, que em 1999 deixou-se fotografar tomando champagne quando o Palmeiras perdeu o título mundial para o Manchester United. Esse papo de que quem perdeu foi a Série A, sinceramente, é coisa de quem vai acabar parando na Série C.

PS: Nação alvi-negra (a da Série A): acontece hoje aí em Belo Horizonte, às 18 horas, na Av. Bandeirantes, 619 (Sion), o lançamento do livro Galo: uma Paixão Centenária, com textos e edição de Eduardo Murta, textos complementares e pesquisa de Frederico Jota e Alexandre Simões, e fotos de Eugênio Sávio. É o pontapé inicial para as comemorações do centenário do Galo.

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  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (71)



terça-feira, 30 de outubro 2007

5 jogos inesquecíveis

O excelente blog gaúcho Impedimento listou 5 jogos inesquecíveis da dupla Gre-Nal e convidou os torcedores de outros times a que fizessem suas listas. Aí vai a do Galo:

Botafogo 0 x 1 Atlético-MG. Maracanã. Jogo final do Brasileirão de 1971. Na euforia do tri, o Brasil organiza seu primeiro campeonato nacional, com vários favoritos: o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Botafogo de Jairzinho, o Palmeiras de Ademir da Guia, o São Paulo de Gérson. Sem um único craque, o Galo de Dadá conquista o título. Obra pessoalíssima de Telê Santana.

Atlético 2 x 1 Seleção Brasileira. Mineirão em 1969. Inesquecível por vários motivos. Reza a lenda que aí começa o ódio mortal ao Galo na CBD (futura CBF), manifesto depois em incontáveis maracutaias contra o time mineiro nos campeonatos brasileiros. Reza outra lenda que daí data a proibição de que a Seleção jogue contra clubes. O Galo atuou com o uniforme da seleção mineira. Ao anotar o seu gol, Dadá levantou a camisa, deixando entrever o manto alvi-negro por baixo. O Mineirão foi à loucura. Pelé descontou para o Brasil em impedimento. As feras de Saldanha nesse jogo eram Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo venceu com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira).

Internacional 0 x 3 Atlético-MG. Semifinais do Campeonato Brasileiro de 1980. Foi o Galo quem enterrou a maior dinastia do futebol brasileiro dos anos 70, e foi em pleno Beira-Rio. O jogo de ida havia sido um sensacional 2 x 2 no Mineirão e o Inter era favorito. Mas Cerezo, Reinaldo e Éder fizeram chover em Porto Alegre, o Galo foi à forra pelas semifinais de 1976.

Atlético 2 x 0 Cruzeiro
, final do Campeonato Mineiro de 1976. Inesquecível pelo show de bola. O Cruzeiro escapou de algumas goleadas históricas durante o reinado de Reinaldo. A final de 1976 foi um desses casos. A dupla de zaga do Cruzeiro (Morais-Darci Menezes) começa a protagonizar algumas tentativas de assassinato em campo, que se repetiriam pelos próximos anos. É o jogo que marca a troca da hegemonia na rivalidade mineira: o Cruzeiro havia ganhado 9 dos 11 campeonatos anteriores a ele. Depois dessa vitória, o Galo comemoraria 11 dos próximos 14.

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Atlético 4 x 2 Cruzeiro. Quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1999. Era a época do Brasileirão em mata-mata com os 8 primeiros. O Cruzeiro havia se classificado em segundo, o Galo em sétimo. Os azuis já falavam em revanche contra o Corinthians (o primeiro classificado), para quem haviam perdido a final de 1998. Esqueceram-se de que ainda não haviam enfrentado o Galo. Na melhor de 4 pontos, não houve necessidade de terceira partida. 4 x 2 e 3 x 2, com shows de Marques, Caçapa e Guilherme.

Quem quiser usar os comentários para se lembrar de jogos de seu time, claro, que fique à vontade, desde que não sejam jogos contra o Atlético.



  Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post | Comentários (23)



domingo, 23 de setembro 2007

Cansei

Sim, amigos, eu aderi ao "Cansei". Mudei-me de casa (finalmente comprei casa em New Orleans) e não carreguei comigo o satélite que trazia o sinal da minha querida Rede Globo. O motivo?

Não suporto mais assistir a jogos de futebol do Brasil. Chega. Vejam só: segundo a Revista Placar, a seleção do atual campeonato brasileiro seria: Rogério Ceni, Coelho, Breno, Thiago Silva e Kléber; Richarlyson, Hernanes, Thiago Neves e Valdívia; Leandro Amaral e Guilherme.

Esses são os melhores do Brasil atualmente. Deixo uma singela pergunta aos meus eruditos leitores de boa memória: haverá um único jogador dessa lista que teria vaga de titular em algum dos 12 principais clubes do Brasil entre, digamos, 1977 e 1980?

Depois da revelação, pela PF, da bandidagem no Corinthians, e da constatação de que o futebol piora a cada dia, este blog, que detesta discursos apocalípticos do tipo antigamente-era-tudo-melhor, acaba de aderir ao apocalipse quando o assunto for futebol. Estamos no fundo do poço.

PS: Ainda sobre futebol, um textículo na Germina deste mês.



  Escrito por Idelber às 01:29 | link para este post | Comentários (16)



segunda-feira, 16 de julho 2007

Campeões, quem diria, com sobras

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essa era a Argentina saindo do primeiro tempo do jogo.

O Rivail, meu inseparável companheiro de arquibancada no hexacampeonato mineiro de 1978-83, pontificou ao final de um daqueles 6 ou 7 Brasileirões em que o Galo, depois de somar mais pontos que todos os outros times, frustrou o sonho do bicampeonato em mais uma semifinal ou final fatídica: Não adianta, Idelber. O futebol é um esporte regido por um Deus pior que o do Velho Testamento: egoísta, ciumento, vingativo e com ódio da humanidade. Bem, o blog vem dar a cara a tapa e parabenizar a Seleção de Dunga. Que atire a primeira pedra quem previu que essa seleção fosse enfiar uma goleada tão inapelável na Argentina.

O que aconteceu nas prévias a este jogo foi inédito no Brasil. Na sua coluna de domingo na Folha, ninguém menos que Tostão escreveu:

Em outras épocas, se um torcedor brasileiro dissesse que iria torcer para a Argentina, seria internado como louco ou exilado. Os tempos mudaram. Muitos dizem que vão torcer para o Brasil perder porque faria justiça ao melhor time da Copa América, Dunga poderia sair e ninguém se iludiria com certos atletas. Outros querem torcer contra o Brasil, mas pega mal. O torcedor está confuso.

Ter uma parcela da torcida brasileira chegando às raias da heresia de torcer pela Argentina foi uma motivação e tanto para o time de Dunga. É inconfundível a cara de um time que entra para morder a bola. Pesou, quem vai negar, o incrível jabuti que os argentinos carregam nas costas há década e meia quando vêem a amarelinha. Levando um gol de placa daqueles aos 4 minutos de jogo, então, nem se fala. O fato é que quando Ayala empurrou a segunda bola para dentro do gol, a Argentina já estava morta. E eu me vi xingando o Júlio Baptista quando ele atrapalhou, em impedimento, o que seria o quarto gol do Brasil, pelos pés do Robinho.

Mão à palmatória, pois. Retiro alguma coisa do que eu disse sobre o Dunga? De jeito nenhum. Continuo achando que foi péssimo para o futebol brasileiro ganhar essa Copa América com essa comissão técnica. Mas se houve uma vitória incontestável no futebol mundial dos últimos anos, foi esse 3 x 0. Há os que vemos um futuro sombrio, justificado com os louros dessa vitória; há os que mudaram de opinião sobre Dunga e o “futebol de resultados”; e há os que celebram a desmoralização dos “pessimistas” e “traíras” da crônica esportiva, que não entendem nada de futebol. É do jogo. Aliás, se há algo que a história do nosso futebol ensina, é que o melhor papel que a crônica esportiva pode cumprir é o de desacreditar a seleção. Não falha nunca.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (39)



sexta-feira, 13 de julho 2007

Copa América 2007: A era Dunga 2

Se Dunga fosse escritor, ele seria aquele sub-sub-sub-Rubem Fonseca, semi-alfabetizado, que leva a língua a níveis inauditos de tosqueira, repetição e previsibilidade. Se Dunga fosse uma banda de rock, seria uma das de arranjos bem óbvios, melodias primárias e muita pretensão – algo como Journey ou RPM. Se Dunga fosse uma comida, seria um daqueles pratos pseudo-franceses com muita pompa e nenhuma substância, que “acabam antes da hora”. Se o time de Dunga fosse da política, ele seria o Conselho de Ética do Senado, recheado de figuras que ninguém conhece e a quem ninguém deu voto.

Se alguém como Dunga tivesse sido o técnico da seleção em 1982, o Brasil teria entrado em campo com: Waldir Peres; Perivaldo, Orlando Fumaça, Rondinelli e Wladimir; Chicão, Caçapava, Teodoro e Biro-Biro; Nílton Batata e Serginho Chulapa (crédito ao leitor seusilva, do Juca Kfouri, pela idéia da escalação).

Segundo o professor Dunga, este seria o escrete que teria ganho a Copa de 1982, por oposição ao time de Telê Santana, que “jogava bonitinho”, “fazia firulas” e “não deu resultados”. Se a Seleção Nike-CBF-Dunga ganhar a Copa América, serão mais três anos, pelo menos, de viram? e vocês vão ter que nos engolir. Será o inferno, a facada final no nosso futebol. Toda vez que a mediocridade e a tacanhice, a serviço da corja da CBF, tomar conta da seleção brasileira, vou torcer contra mesmo, coisa que nunca havia conseguido fazer e que fiz pela primeira vez no Chile (nos 3 x 0 roubados, não nos 6 x 1 vergonhosos).

O papel de todo patriota do ludopédio brasileiro é torcer para que a aconteça a lógica na final da Copa América e a Argentina dê uma goleada histórica nessa palhaçada. Aliás, qual das três possibilidades abaixo você acha que se concretizará no domingo?

a) a Argentina derrota a Seleção CBF-Nike com tranqüilidade, por dois ou três gols de diferença;
b) a Argentina enfia na Seleção CBF-Nike um massacre para ficar na história dos confrontos, de 4 ou mais.
c)Papai Noel desce na Venezuela de Chávez e leva a seleção-brucutu de Dunga a vencer os argentinos.

O palpite do blog é 4 x 1, porque quem tem Robinho acaba fazendo um gol de honra. Que se desgoste da Argentina o quanto se quiser, mas uma cacetada de Riquelme e cia. sobre a seleção Nike-CBF seria a melhor coisa que poderia acontecer ao futebol brasileiro neste fim de semana.



  Escrito por Idelber às 03:41 | link para este post | Comentários (46)



segunda-feira, 28 de maio 2007

Gaúcho de uma figa

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Pronto. O Dunga convocou o goleiro Diego, do Galo, para a Seleção. Agora é que o moleque não completa nem mais meia dúzia de jogos pelo Atlético mesmo.

Ah, como eu odeio esse Dunga.

Aliás, por que continuamos nos importando com futebol mesmo?



  Escrito por Idelber às 19:56 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 20 de maio 2007

Gol mil de Romário

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As reações irão do viva o baixinho ao a contagem é uma farsa!, mas todas têm algo em comum: fãs e descrentes coincidem no até que enfim!

Romário merece comemorar, posto que o feito era tão importante para ele. Mas foi sim, uma ironia bem significativa que tenha sido de pênalti. Não poderia ser de outra forma -- se o maior de todos, com uma contagem mais rigorosa, teve que aceitar esse destino, é justo que com Romário também assim fosse.

Romário foi o maior responsável pela conquista da Copa de 1994. Mas seu momento mais sublime foi contra o Uruguai, no Maracanã, no jogo que definia a classificação do Brasil para aquele Mundial. O Uruguai levou o 2 x 0 mais barato de sua história. Ali, naqueles 90 minutos, o baixinho foi Pelé.

PS: o ex-Ipiranga que se cuide...



  Escrito por Idelber às 21:10 | link para este post | Comentários (22)




Times inesquecíveis que eu vi, IV

Esta série, que já louvou o Internacional 1975-79, o Grêmio 1981-83, o Fluminense 1975-76, homenageia hoje o Guarani 1978.

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Entre 1977 e 1979, poucas cidades do mundo tiveram – se é que alguma teve – duas equipes de futebol comparáveis àquelas de Campinas. Vice-campeã paulista em 77 e em 79, tendo perdido o primeiro título de maneira dramática, suspeita e inesquecível, a Ponte Preta maravilhou o mundo com um meio-campo sublime (Vanderlei, Marco Aurélio e Dicá), um extraordinário goleiro (Carlos), uma dupla de defensores de área onde jogavam um quarto-zagueiro de Seleção (Polozzi) e um dos maiores zagueiros-centrais que o país já viu (Oscar). Eu me arrisco a dizer que o foi o maior esquadrão da história do Brasil a jamais ter conquistado um título.

Mas a história reservava a grande conquista para os bugrinos. Depois da tremenda injustiça que foi o Campeonato Brasileiro de 1977 – no qual o encantador time do Atlético-MG terminou vice-campeão invicto, batido nos pênaltis por uma determinada equipe de brucutus formada no Morumbi sob Rubens Minelli – o Guarani de Campinas redimiu o futebol arte, o futebol toque-dribles-lançamentos no Brasileirão de 1978. Eu vibrei com essa conquista. Amei Careca. Nem que viva 200 anos, me esquecerei da final em que os campineiros humilharam o arrogante goleiro Leão, do Palmeiras.

Essa inesquecível equipe contava com um volante experiente, veterano de muitas conquistas, que cadenciava o jogo como ninguém. Ele tinha o melhor passe que já vi num ser humano dentro de uma cancha. Qualquer bola que saía de seus pés parecia enviada com as mãos. A equipe contava com um bigodudo exímio cobrador de faltas, que lançava como ninguém. Completando o meio-campo, havia um perigoso e valente meia que recebeu um apelido injusto. Estes dois meio-campistas depois dariam alegrias à fanática torcida do primeiro campeão brasileiro.

Numa época em que se falava muito da morte dos pontas, o glorioso Guarani de 1978, comandado por um mineiro matuto, trazia dois ponteiros natos, um endiabrado ponta-esquerda revelado pelo São Bento de Sorocaba e um ponta-direita que brilharia em outras equipes. Além de tudo,claro, a equipe trazia Careca, essa espécie de duplo menos talentoso de Reinaldo, que tinha, no entanto, mais força física que Reinaldo-- além de ter talento suficiente para encantar o mundo. Careca representou, para quem pensava em reconcilar o futebol-força com o futebol-arte, a possibilidade de um encontro no meio do caminho, que mantivesse, para os torcedores, um mínimo de magia. Ele brilhou lindamente nesse campeonato, marcando 13 gols, assim como o bigodudo que era exímio cobrador de faltas.

Como é de costume nesta série, vocês relatam quem são os profissionais em negrito e qual é a escalação da equipe fotografada acima. Se demorar mais de 24 horas, é humilhação pública para o blog.

PS: para depois que vocês escalem a equipe, fica a pergunta: quantos dos campeões brasileiros de 1978 jogaram no glorioso, no mais amado de Minas, o primeiro campeão brasileiro?



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post | Comentários (26)



terça-feira, 01 de maio 2007

Piadas do campeonato mineiro de 2007

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- Ei, amigo, você viu o quarto gol?
- Não.
- O Fábio também não!

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- Você sabia que o Campeonato Mineiro vai ser decidido no tapetão?
- Não. Por quê?
- Porque o Cruzeiro não aceita o fato de que o Galo jogou as duas partidas da final em casa.

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- Você sabia que com a provável vitória de 4 x 0 do Galo no segundo jogo o Cruzeiro será campeão?
- Não. Por quê?
- Porque o Cruzeiro jogava por dois resultados iguais.

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- Como se chama mesmo aquele grande escritor... Machado Assis?
- Não. É Machado de Assis.
- E aquele grande descobridor, Vasco Gama, não é?
- Não. É Vasco da Gama.
- E aquele grande goleiro do futebol brasileiro, Fábio Costa?
- O do Santos?
- O do Cruzeiro.
- Não. Esse é o Fábio de Costas.

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- Você sabe por que o Fábio teve que pegar duas bolas no fundo do gol?
- Não.
- Porque quando é de quatro as duas bolas têm que estar no lugar.

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PS: OK, amanhã o blog volta à programação normal. Eu prometo. Mas antes, façam o favor e vejam esta entrevista e este vídeo.

PS 2: E aquela investigação do Ministério Público sobre o enriquecimento da família Perrela, alguém sabe como anda?



  Escrito por Idelber às 05:24 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 30 de abril 2007

Galo campeão mineiro de 2007

Qual a grande diferença entre os pequenos ou médios e os verdadeiramente grandes? Ela não reside tanto no cavalheirismo do saber perder, mas no ganhar com classe. Por isso Parreira e Zagallo jamais chegarão aos pés de Telê Santana. Em décadas recentes, um pequeno time da colônia italiana que já passou por meia dúzia de nomes veio a desbancar o América-MG como maior aspirante a rival do Clube Atlético Mineiro, o único grande time do povo de Minas. Tendo ganhado alguns títulos, o ex-Palestra e ex-Yale abusou do direito de exibir a falta de classe de quem ainda não vence com naturalidade, não está acostumado a ganhar, não chegou ainda a ser grande.

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No começo deste Campeonato Mineiro, quando o Atlético perdeu os dois primeiros jogos e estreou na lanterna, o Sr. Perrela declarou que o Galo tomara "gosto pela segunda divisão", que deveria cuidar-se "para não ir disputar a segundona do Mineiro", que o ex-Ipiranga jogaria com a equipe júnior: típicas declarações de clube que ainda não é grande, que tem o complexo próprio àquele que somente aspira a ser rival de. Tratava-se de um Campeonato Mineiro que o ex-Ipiranga disputaria quase totalmente em BH e ao redor, enquanto o Galo visitava as fronteiras com ES, SP, RJ e GO. Eles falaram, falaram, falaram. Menosprezaram o primeiro campeão de BH, de Minas, do Brasil, primeiro a encantar a Europa, primeiro e único do mundo a bater a Seleção Brasileira.* Oh, quantas vezes queimarão a língua antes de aprender que o apelido Galo Vingador não é gratuito? Já se esqueceram da lição do Campeonato Brasileiro de 1999? Abusaram do direito de exibir sua condição de novos ricos e de demonstrar, com declarações apressadas, seu ressentimento e inveja da mais respeitada do Brasil:

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A vingança foi doce. Neste que é o único grande clássico brasileiro com um diferencial histórico de quase 50 chapuletadas a mais de um lado sobre o outro, ficou claro outra vez qual é a ordem natural das coisas. A diferença agora é que o Galo restaurou a ordem com um massacre marcado por algo que eu, pelo menos, jamais havia visto no futebol: um goleiro ir ao fundo da rede para buscar duas bolas numa só viagem. Senão vejam este inacreditável vídeo, no qual Fábio, o guarda-metas ex-ipiranguista, entra, talvez, para a história do futebol como o único arqueiro a ir buscar a bola do quarto gol com a do terceiro ainda lá no fundo do barbante.

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Em vez de ocupar os tradicionais 2/3 do Mineirão que, mais uma vez, ocupou ontem, a massa alvinegra preencherá 90% do estádio no jogo da entrega das faixas, domingo que vem. Será um espetáculo inesquecível. Salve, Galo Metal. Salve Tristão, Doutor Cláudio, Dolabela, Mineiras, Uai.

Galo, campeão mineiro de 2007.

Atualização. Eis aqui a imagem inédita na história do futebol, a de um goleiro buscando bolas de dois gols:
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O piti completo do goleiro Fábio pode ser visto nesse vídeo.

* Atualização II: Artur Perrusi me corrige com razão: O Santa Cruz também já venceu a Seleção Brasileira. Foi por 2 x 1, no dia 10 de outubro de 1934. Valeu, Artur.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (40)



domingo, 29 de abril 2007

Na bola de cristal

Previsões do Biscoito para as finais que começam hoje:

Em São Paulo, dá Santos.

No Rio, dá Botafogo.

No Rio Grande, dá Grêmio.

No Paraná, Paraná Clube.

Em Minas, Galo.

Ou seja, o blog aposta na lógica, contra as zebras. Semana que vem vocês me cobram.



  Escrito por Idelber às 01:46 | link para este post | Comentários (9)



quinta-feira, 05 de abril 2007

Faltou combinar com os russos

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Eu sou um mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro e pelos cariocas. Como a maioria dos atleticanos, tenho, na Cidade Maravilhosa, simpatias cruzmaltinas. A primeira camisa de time de futebol que tive foi do Vasco da Gama. Não me canso de contar a história do Campeonato Carioca de 1923, em que o bravo time de negros e mulatos do Vasco deu um baile nos quatro grandes (na época o América-RJ era grande) e começou a enterrar a segregação racial no futebol brasileiro, então disfarçada de amadorismo aristocrático.

Mas confesso que vibrei muito ontem quando o Gama marcou, aos 48 minutos do segundo tempo, o gol que eliminou o Vasco da Copa do Brasil. Não foi por birra com Romário ou com a festa preparada para o seu (segundo suas contas) milésimo gol, que acabou, de novo, não saindo. Foi simplesmente porque eu não suporto a imprensa esportiva do Rio de Janeiro. Alguém precisa avisá-los que a capital mudou para Brasília e que as transmissões ocorrem em cadeia nacional.

Eu me lembro de jogos entre, digamos, Flamengo x Grêmio ou Fluminense x Internacional em que o telespectador da Globo tinha a nítida sensação de que Grêmio e Internacional eram equipes estrangeiras. A transmissão de Vasco x Gama feita ontem pelo Sport TV (e veiculada aqui nos EUA pela Globo Internacional), com narração de Milton Leite e comentários de Paulo César Vasconcelos, foi dessas coisas que insultam a inteligência de qualquer um que tenha concluído o ensino primário.

Não me refiro à torcida descarada pelo gol de Romário. Ela é natural. Tampouco implico com as análises táticas que tratam o jogo como se somente uma equipe estivesse em campo – “o Vasco não está conseguindo fazer isso”, o “Vasco precisa fazer aquilo”. Já estou acostumado com isso também. Onde a miopia do comentarista carioca via incapacidade do Vasco havia simplesmente um esquema de marcação que se aproveitava da obsessão dos cruzmaltinos com o milésimo de Romário. Até aí tudo bem. Normal.

Mas as declarações do comentarista PCV, de que o Gama “estava felicíssimo” com um empate por 1 x 1 que o eliminaria da Copa do Brasil e “comemoraria” a eliminação (talvez porque os boçais do Centro-Oeste devessem ficar felizes de serem eliminados sem derrota) foram tão insultantes e tão contraditórias com o que se observava no campo que eu me peguei torcendo contra a minha segunda maior paixão futebolística. Só para contrariar.

O Gama havia empatado com o Vasco no DF em 2 x 2 e, portanto, o empate em 1 x 1 no Rio o eliminava da competição, já que o gol na casa do adversário é o primeiro critério de desempate na Copa do Brasil. Várias vezes durante o jogo o comentarista PCV disse: “O Gama vai comemorar o empate”, “o Gama está feliz com o resultado”, “o Gama só quer enervar o Vasco” e outras pérolas de bairrismo rasteiro. Dei-me ao trabalho de fazer estatísticas: o Gama teve mais posse de bola, chutou mais vezes a gol, teve mais escanteios e jogadas de linha de fundo que o Vasco. Algum erudito leitor pode me explicar como uma equipe dessas está “feliz com o empate”?

Até o juiz resolveu dar uma mãozinha. Praticamente não houve paralizações no segundo tempo, mas Sua Excelência resolveu dar 4 minutos de acréscimos, na esperança de que alguma bola espirasse para Romário. O feitiço virou contra o feiticeiro. 48 do segundo, falta contra o Vasco, tirambaço de Marcelo Uberaba, bola no ângulo, gol do Gama, 2 x 1, Vascão fora da Copa. Bem feito.

Na saída, os jogadores do Gama desabafavam: Deus é justo. Vocês ficam fazendo festa antes da hora, levaram ferro! O pior é que nenhum dos nossos ilustres jornalistas esportivos pareceu entender que o desabafo era contra eles, mais que contra o clube cruzmaltino.

galo-3.jpg PS: Antes do recente confronto entre Atlético-MG e América-RJ pela Copa do Brasil, as duas equipes haviam se enfrentado 36 vezes, com vantagem de uma vitória para os cariocas (12 x 11, com 14 empates). Isso bastou para que o Ameriquinha estampasse em seu site que o Galo era “freguês”. Como o Santo André ano passado, o Ameriquinha descobriu a diferença entre um time grande e um time pequeno. E a importância de não se abrir a boca antes da hora. Especialmente contra o Galo. Bye bye. Galo nas oitavas, invicto há 11 jogos.

PS2: Alguém aí sabia que o pai de Pelé jogou no Galo?

PS3: Enquanto isso, o Campeão do Mundo vive seu inferno astral, cujas raízes estão explicadas aqui, por quem entende do assunto.



  Escrito por Idelber às 04:28 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 29 de março 2007

Sobre a Copa 2014 e o Mineiro 2007

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1. Com quatro dias de atraso, aí vão os parabéns pelos 99 anos de glórias do primeiro campeão da cidade de BH, primeiro campeão mineiro, primeiro campeão brasileiro, primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol, primeiro clube brasileiro a deslumbrar a Europa, único clube de futebol do planeta a derrotar a Seleção Brasileira, recordista absoluto de público da história do Campeonato Brasileiro, dono da mais apaixonada torcida e do mais cantado hino de futebol do Brasil, paixão maior do povo de Minas Gerais. Parabéns, Galo!

2. Quando saiu a tabela do Campeonato Mineiro deste ano, bati o olho e disse: “foi feita na sede do Ex-Ipiranga.” Não é verdade, claro. Ela foi escrita na Federação Mineira de Futebol, com a participação de todos os clubes, inclusive com os energúmenos, imbecis diretores do Clube Atlético Mineiro. Mas ela é prova cabal da diferença de poder existente nos bastidores do futebol mineiro. Pois bem, 90 dias depois de eu - não especializado em futebol, com dois filhos, namorada, orientandos, um emprego, livro para escrever, blog para manter, etc. – ter feito uma constatação que me demorou 90 segundos, o técnico atleticano Levir Culpi descobriu a América e viu que a tabela grosseiramente favorece o ex-Ipiranga.

Desculpa antecipada de perdedor? Não. Aliás, essa é a razão pela qual esperei que o Galo confirmasse a classificação para as finais para fazer este post. Já estamos lá e brigaremos pelo título.

Mas se você, leitor, fosse representante do Galo na confecção da tabela, você aceitaria isso? 12 equipes, 11 jogos para cada, somente em turno. Como são três equipes de BH, Galo e ex-Ipiranga jogam 9 vezes contra equipes do interior. Desses 9 jogos, o ex-Ipiranga faz 5 em BH e 4 fora. O Galo faz 4 em BH e 5 fora. Sim, trata-se de uma pequena vantagem. Até que observamos onde são os jogos de cada um. A pequena vantagem se transforma num monstro. Colocando entre parêntesis a distância, em kms, de cada cidade a BH, temos a seguinte combinação: O ex-Ipiranga joga em Andradas (527, sua única viagem longa), Sete Lagoas (56), Nova Lima (15), Ipatinga (217). Termina o Campeonato Mineiro viajando 815 kms. O Galo vai a Governador Valadares (324), Poços de Caldas (468), Ituiutaba (527), Divinópolis (114), Juiz de Fora (255). Não termina o Campeonato antes de viajar 1.658 kms. O ex-Ipiranga disputa o Campeonato em BH e em volta da cidade. O Galo viaja para a fronteira com o Rio de Janeiro, com São Paulo, com Goiás e com o Espírito Santo. Faltou marcar um jogo do Galo para Caxias do Sul ou Mossoró. É frustrante quando as pessoas responsáveis por vê-lo na hora – pessoas cuja única função é cuidar disso - não conseguem enxergar o óbvio e deixam que o mais querido de Minas seja prejudicado. Repito: o Mineiro deste ano é nosso. Mas que os energúmenos que dirigem o Galo prestem atenção na próxima.

2014.jpg 3. Não me entusiasma nem um pouco a idéia de o Brasil sediar a Copa de 2014. Mais que preocupar-me com o possível vexame logístico e organizativo, penso no risco de se colocar ainda mais poder e dinheiro em mãos de gente da laia de Ricardo Teixeira, em conluios nem sempre muito claros com a iniciativa privada e com o dinheiro público. Os últimos dias mostraram a “transparência” que terá o processo: o maior estádio particular do Brasil – e também um dos mais modernos –, o Morumbi, já foi praticamente descartado, sob a esdrúxula justificativa de que as obras necessárias “ficariam muito caras”. Dos grandes estádios brasileiros que competem pelo direito de sediar jogos, só cinco são particulares: Arena da Baixada, Arruda, Morumbi, Beira-Rio, Olímpico. Todos os outros – Maracanã, Pacaembu, Engenhão, Mineirão, Mangueirão, Fonte Nova, Castelão, Serra Dourada e Mané Garrincha – pertencem ao poder público; vários deles precisam de reformas tão ou mais caras que as necessárias no Morumbi (imaginem a farra). Como o São Paulo Futebol Clube não se curva à quadrilha de Ricardo Teixeira, o Morumbi fica fora. Aguardem outras decisões suspeitas. O Ubiratan Leal, que sabe tudo, noticiou que em Brasília, já há um movimento de parlamentares contrários à Bancada da Bola para criar uma agência nacional apenas para fiscalizar os gastos na organização da Copa. Seria bacana que as feras do jornalismo blogueiro de Brasilia ficassem de olho na lambança que vem por aí.

4. Ainda sobre futebol: Milton Ribeiro dá uma excelente espanada no assunto 1.000 gols de Romário x 1.000 gols de Pelé.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (9)



quarta-feira, 15 de novembro 2006

ESPN Internacional rende-se à mística da torcida do Galo

“São muito mais apaixonados pelo Atlético que os torcedores de qualquer outro time no qual joguei. É difícil de explicar mas acho que tem a ver com a cultura aqui, os torcedores são em maioria pessoas humildes e o futebol é o ponto alto. Para muitos, o Atlético é a única grande paixão. Ontem à noite foi incrível; o povo estava na rua comemorando até as cinco da manhã.”

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Considerado um gigante adormecido, o clube conhecido como Galo não é apenas um dos times brasileiros de mais torcida, mas também um dos mais consistentes. Apesar de que o clube ganhou o Campeonato Brasileiro somente uma vez, em 1971, ele chegou entre os quatro primeiros outras 13 vezes.

É o time em que jogadores como Cicinho, Gilberto Silva, Toninho Cerezo e Éder adquiriram destaque, e também onde o legendário técnico Telê Santana construiu seu nome. O Galo orgulhosamente se gaba de ser o único clube a ter batido a seleção brasileira, superando um time que incluía Pelé, Carlos Alberto Torres, Gérson, Rivellino e Jairzinho num amistoso pré-Copa em 1969.

Sob o título Os Melhores Torcedores do Brasil? (Brazil´s Finest Fans?) e fechando com a frase "com torcedores como esses qualquer coisa é possível", a ESPN Internacional fez matéria de capa babando com a torcida do Galo e saudando a volta do clube a seu lugar (dica da Ana do Mineiras, Uai!).

PS: no mundo da falsa atribuição, dá-lhe mais do meu ensaio sobre o Galo aparecendo na internet atribuído a Armando Nogueira.

PS 2: no mundo da cartolagem, dá-lhe Eurico Miranda vencendo mais uma eleição suspeita no Vasco.



  Escrito por Idelber às 11:50 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 24 de outubro 2006

Vamos subir, Galô!

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No dia 14 passado, o meio-campista Vander e a equipe do Santo André descobriram a diferença entre um time grande e um time pequeno. Em sétimo lugar na tabela, o Santo André precisava da vitória em casa contra o líder Galo para seguir sonhando com a série A. Cometeram o erro fatal: eles, cujo o primeiro uniforme é branco, resolveram usar camisas azuis para "amedrontar" o primeiro campeão brasileiro. Erro número 1: um time grande jamais muda o uniforme em função do adversário, e os pequenos que o fazem geralmente pagam o preço. Erro número 2: ninguém no Santo André sabia, pelo jeito, que o Galo pode até ser eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará, mas tem larguíssima vantagem sobre o Cruzeiro em confrontos diretos - a maior de todos os grandes clássicos brasileiros, aliás. Se há algo que não "amedronta" o Galo, é uma camisa azul.

Aos 2 minutos de jogo do segundo tempo, o meio-campista Vander cometeu o terceiro erro fatal: ao marcar o gol de empate, mandou a multidão alvi-negra (que era maioria no próprio estádio do Santo André) "calar a boca". Ora, há que ser muito suicida para mandar calar, na hora de um empate, uma torcida visitante que está em maioria. Se for a torcida do Galo, é um tiro no peito. O Santo André até cresceu no jogo, mas a torcida mais apaixonada do mundo encheu-se de brios e gritou até o fim. Aos 43m, contra-ataque do Galo, gol de placa de Tchô, Galo 2 x 1, Santo André mais um aninho na Segunda Divisão. Vander, na próxima, pensará duas vezes antes de pôr o indicador entre os lábios na frente da mais apaixonada do mundo.

No sábado passado, a torcida do Galo bateu de novo o recorde de público do futebol brasileiro em 2006, com quase 60 mil pessoas no Mineirão. A goleada sobre o Avaí praticamente carimbou o passaporte de volta para a Primeira Divisão. Os poucos pontinhos que faltam devem ser conquistados nas próximas rodadas. Em meio à euforia, até mesmo o Sr. Mílton Neves fez questão de aparecer no Mineirão, fazer média com a torcida e bajular os cartolas, numa tremenda confusão entre jornalismo e politicagem.

É hora de reiterar o óbvio: os méritos da iminente subida à Primeira Divisão são, em primeiro lugar, da mais apaixonada do mundo, que arranjou forças para incentivar um time que não havia vencido ninguém fora de casa no primeiro turno. O que aconteceu no jogo contra o Avaí neste sábado foi indescritível. Depois da goleada, um desolado catarinense testemunhava: "contra essa torcida, não dá". Inconscientemente, ele citava Telê Santana, autor da frase "quem tem uma torcida como essa é quase impossível de ser derrotado em casa". Em segundo lugar, os méritos são dos garotos que vieram das categorias de base e puseram os corações nas chuteiras; depois, de Levir Culpi, que soube colocá-los para jogar. A diretoria do mais querido de Minas continua criminosamente omissa, burra e sem planejamento, para não dizer mui, mui suspeita. Aliás, com raríssimas exceções - São Paulo, Internacional, Botafogo - os clubes brasileiros continuam em mãos das mesmíssimas corjas. Comandada pelo Sr. Ricardo "BMG" Guimarães, a atual diretoria do Galo é responsável pela pior crise técnica e financeira da história do clube e não merece nenhum laurel por este belo movimento que está unindo atleticanos em todo o Brasil. Vamos subir, Galô! - mas sem nos deixarmos cegar, ok?

Enquanto isso, na série A, tudo na mesma chatice. E na Série C, olha o Ipatinga aí, gente.

Leia e veja mais: Vamos Subir, Galô!
Do Balípodo: Torcer, torcer, torcer, esse é o nosso ideal.
No Youtube: A massa alvi-negra faz a festa no Mineirão.
Youtube: Galo 2 x 0 Sport, melhores momentos no campo e nas arquibancadas.
Movimento 105 minutos (dica da Ana)

PS: O Prêmio The BOBs já escolheu os dez blogs finalistas em língua portuguesa. O Biscoito convida seus leitores para comparecerem e votarem no Pensar Enlouquece.

Atualização: ... e convida também a votar no blog da Alcinéa Cavalcante, que concorre ao prêmio Repórteres sem fronteiras.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (24)



sábado, 02 de setembro 2006

Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia

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Imagine um país que é o melhor do mundo no futebol, mas cujo esporte é dirigido por máfias, enraizadas em redes capilares de clientelismo local que se ramificam até os altos escalões dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Imagine que esse país há década e meia vive sob ditadura militar, regime que se alimenta de e reforça o controle destas máfias sobre a maior paixão cultural e esportiva de seu povo. Imagine que esse sistema se reproduz por toda sorte de falcatruas, incluindo-se aí o suborno, a corrupção, o deslavado uso de vagas no Campeonato Nacional como instrumento de troca política, a total falta de prestação de contas do uso do dinheiro público repassado à Confederação Nacional de Desportos e do dinheiro arrecadado pelos clubes, uma estrutura ditatorial baseada na ausência de poder decisório dos responsáveis pelo espetáculo (os jogadores), submetidos a concentrações e a decisões autoritárias nunca discutidas. Imagine que essa cultura anti-democrática se reproduz pelo terror, já que todos os jogadores sabem que a carreira é curta, o país é cheio de craques, o “passe” (ou seja, o direito de ir e vir de um emprego) não lhes pertence e, para os poucos que conseguem a fama, esta é efêmera. Imagine o medo. Imagine o Brasil em 1979.

Agora imagine que os jogadores e comissão técnica de um dos dois clubes mais populares do país se reúnem e decidem: de aqui em diante, aqui nesta casa reina a democracia. Tudo será decidido entre todos, tudo é passível de discussão, do detalhe na camisa à tática de jogo aos planos para a semana de folga. Nossa vida será permanentemente reinventada pelo diálogo coletivo. Tudo será novo.

Continue lendo Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na revista literária Germina. A edição deste mês está belíssima e inclui também um dossiê sobre Minas Gerais.



  Escrito por Idelber às 20:07 | link para este post | Comentários (15)



terça-feira, 25 de julho 2006

A nova era Dunga

Isso é inaceitável. Chega. É palhaçada demais. Alguém aí tem alguma sugestão sobre para qual seleção torcer em 2010?

Atualização:
Saíram o Zangaddo e o Soneca e entraram o Dunga e o Branco de Neve! (de um leitor do Juca Kfouri).



  Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post | Comentários (26)



quarta-feira, 12 de julho 2006

Quem é Zinedine Zidane?

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Copa do Mundo? Chega! Ça suffit! Enough is enough! !Basta ya! Genug! Tudo bem. Mas essa cabeçada do Zidane tem que ser mais discutida. Porque ela é tão simbólica e rica de sentidos, não é mesmo?

Lembremos: esta Copa foi promovida pela FIFA como parte da luta contra o racismo no futebol. A partir das oitavas quartas (obrigado, Daniel), os capitães de cada equipe leram, antes de iniciada cada partida, uma declaração contra o racismo (bem, no caso do capitão brasileiro, gaguejou seria o verbo mais apropriado). Não é amargamente irônico que a seleção mais multicultural, mais etnicamente inclusiva da Europa tenha dado adeus ao título no momento em que seu capitão – ninguém menos que o maior craque da última década – decidiu que não engoliria um insulto racista? Interessa-me a cena, como vislumbre do que está em jogo quando se fala de racismo no futebol.

Materazzi já admitiu que insultou, embora diga que não foi com epíteto racista. O grupo SOS Racismo diz que tem fontes confirmando que Zidane foi chamado de “terrorista sujo”. Até aí, na minha cabeça, era uma palavra contra a outra. Mas se há uma habilidade que você desenvolve dando aulas, é a de pegar o mentiroso na mentira. E Materazzi, ao dizer que “não é culto” (je ne suis pas cultivé) e que “não sabe o que significa” a palavra “terrorista”, está mentindo: mentira tão transparente como a do aluno que mata três avós por semestre, sempre na véspera de provas.

Em primeiro lugar, os pingos nos devidos is: Zidane é o maior jogador de futebol do mundo; Materazzi é um carniceiro, um assassino em potencial. Exagero? Vejam esse vídeo aqui com suas pérolas, que poderiam ter enviado ao hospital ou ao cemitério algumas de suas vítimas. Não condeno o craque que revida a violência de zagueiros brucutus; aliás, como sabe quem joga futebol, se você é atacante, talentoso e não revida, você tem os dias contados. Como foi muito lembrado desde domingo, Pelé já quebrou propositalmente a perna de um adversário alemão no Maracanã em 1965. No México, em 1970, o Rei quase esmigalhou o crânio de um uruguaio com uma cotovelada que bem poderia ter mandado o cabra desta para a melhor. Cenas similares aconteceram na carreira de todos os grandes craques.

Por isso não se trata aqui de dizer quem está certo ou errado. A coisa é mais complexa. Não há nada que eu ache mais repugnante do que o discurso da indignação santa tão presente em mesas-redondas sobre futebol: aquela coisa do tipo como esse grande jogador pode ter feito isso?. Por aí não se chega a lugar nenhum.

Tudo naquela cena – o trote aparentemente calmo de Zidane com Materazzi falando nas suas costas, a virada tranqüila, a cabeçada calculada, a ausência de qualquer outra agressão ao italiano caído – parece indicar que Zidane pensou sim no que estava fazendo. Se for o caso, não se poderia ler a cabeçada como a última grande jogada do gênio, dizendo à FIFA e ao hipócrita mundo do futebol: Fiquem com a taça, eu acabo de condenar a Copa anti-racismo a ser ganha com um epíteto racista. Esse gesto, para mim, vale mais que a Copa.

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Sim, porque na hora da cabeçada ele sabia, eu sabia, quem acompanha futebol sabia que ali, naquele momento, a Copa tinha dono, e era a Itália. E quem dominou o jogo na prorrogação foi a França. Então, a pergunta do boleiro seria: por que não esperar a bola entrar em jogo e quebrar o tornozelo do cabra, como Pelé fazia? Com certeza Zidane teria o talento para fazê-lo sem ser expulso, escapando no máximo com um amarelo. Por mais voltas que se dê a esse incidente, não vejo outra conclusão: Zidane sabia muito bem o que fazia. Com o ato, expressou-se, falou. Sobre o racismo, disse o mesmo que havia dito nessa maravilhosa entrevista de 2004.

Suponhamos que Zidane não tivesse revidado. Suponhamos que ele tivesse arregimentado uma testemunha de sua equipe, procurado o árbitro do jogo e afirmado que, como capitão, ele lhe comunicava que a Seleção Francesa não continuaria enquanto Materazzi permanecesse no campo de jogo. E completasse dizendo que na Copa anti-racismo era inaceitável que alguém que usa agressões racistas disputasse uma final. Não teria sido um qüiproquó delicioso, que confrontaria a FIFA com os limites, a hipocrisia da sua própria campanha, impotente até mesmo para punir torcidas espanholas que imitam macacos quando os jogadores negros pegam na bola?

com-camisa-de-portugal.jpgA foto mais bonita da Copa para mim: Zidane com a camisa de Portugal, aplaudindo a torcida portuguesa (Rafex também gostou).

Zizou pode estar triste agora, é natural, mas tenho certeza que está tranqüilo. Materazzi pode estar eufórico com o tetracampeonato da Itália, mas garanto: tranqüilo ele não está. Não, eu não acredito no papo da revista alemã Der Spiegel de que a FIFA pode até tirar o título da Itália. Seria como acreditar na democratização da CBF. Mas quanto mais essa história venha à tona, e quanto mais o tempo passe, mais o revide de Zizou será lido na sua humanidade, e mais a agressão racista de Materazzi será colocada onde deve.

Uma das maiores imbecilidades que a dupla Parreira-Zagallo repete aos quatro ventos é que a história só se lembra dos vencedores. Pura balela. Até minha avó sabe quem foi Puskas. Até especialistas em futebol se esquecem de quem foi Fritz Walter. Por quê? Porque Puskas foi gênio, Walter foi simplesmente o capitão de uma seleção que ganhou a Copa, nada mais.

E sabem que acho o silêncio (temporário, pelo que parece) de Zizou dos mais nobres? Seus compatriotas o entenderam. Blogueiros de outros lugares também. Entre os leitores do Le Monde, solidariedade e respeito. E depois de tudo, minha admiração pela seleção francesa, pelo papel histórico desse time na luta contra a praga do racismo só aumentou.

E a saída de Zizou foi exatamente como a entrada: pela porta da frente, redefinindo o lugar de cada um dos que ficaram.

Salut, Zizou.

Atualização: Não deixem de ler A cabeçada de Zidane , uma história de honra e racismo, maravilhoso texto de Zélia Leal Adghirni; Semideuses, um petardo em três parágrafos de Drex Alvarez; Notas Finais sobre a Copa, de Gravataí Meregue; Demasiadamente Humano, de Alexandre Inagaki, de quem roubei os links aos textos citados nesta atualização. Parece que pelo menos na blogosfera a hipocrisia da mídia bem-pensante teve uma resposta à altura.



  Escrito por Idelber às 03:41 | link para este post | Comentários (57)



terça-feira, 11 de julho 2006

O eterno retorno nietzscheano

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(capa da Revista Placar em 11 de novembro de 1983)



  Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post | Comentários (13)



segunda-feira, 10 de julho 2006

Os cinco mais da Copa

E não é que o Zidane avacalhou com o post que eu trazia quase pronto, independente do resultado da final? Na impossibilidade de fazer a homenagem à despedida de Zizou, fica aqui uma seleção do que eu gostei nesta Copa.

Cannavaro é o melhor zagueiro que vi jogar desde Figueroa. Até os 109 minutos da final, ele era simplesmente o maior zagueiro da Copa. Com a cabeçada de Zidane em Materazzi, Cannavaro arrebatou a coroa de craque do mundial.

felipão.jpg Felipão: Pegou um time com Pauleta, Postiga e Costinha e os levou às semifinais da Copa.

german-fans.jpgTorcida alemã: Nenhum único incidente grave, um astral maravilhoso, identificação com o (antes desacreditado) time alemão e uma lição: é possível ser uma potência futebolística e celebrar com alegria um terceiro lugar. Desde que conquistado com luta e honra, claro.

contra-espanha.jpg Zidane: jogou bola como ninguém nesta Copa. Deu um passeio no Brasil, um vareio na Espanha, mostrou mais arte que qualquer outro jogador. Mas provavelmente não escolherão como craque da Copa um atleta que deu uma cabeçada daquelas no adversário - qualquer que tenha sido a ofensa.

klinsmann.jpg Klinsmann: pela primeira vez, um técnico alemão vibrante, comemorando gols, identificado com a torcida. Armou um time ofensivo e forte a partir de uma Alemanha que havia virado motivo de chacota na Europa. Numa Copa de um único craque, não deixa de ser apropriado que dois destaques tenham sido técnicos motivadores.

Minha seleção da Copa: Buffon (ITA), Zambrotta (ITA), Thuram (FRA), Cannavaro (ITA) e Lahm (ALE); Vieira (FRA), Máxi Rodríguez (ARG), Zidane (FRA) e Cristiano Ronaldo (POR); Henry (FRA) e Klose (ALE).



  Escrito por Idelber às 03:06 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 04 de julho 2006

Recordes estabelecidos pelo time do autor de "Formando Equipes Vencedoras" em 2006

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Se Zinedine Zidane fosse brasileiro, Parreira começaria com ele no banco (um comentarista do blog de Juca Kfouri).

Jogador mais pesado a vestir a camisa da Seleção em Copas: Ronaldo, 95,5 kgs, contra a Croácia.

Maior número de passes laterais ou para trás na história do Brasil nas Copas
: 187 contra a Croácia.

Maior número de derrotas com a camisa canarinho para uma mesma seleção em competições internacionais: Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo, com três derrotas e meia para a França.

Maior número de derrotas de um técnico da seleção de seu país dirigindo outras seleções em Copas
: Carlos Alberto Parreira, com zero vitórias, dois empates e sete derrotas.

Maior número de recordes individuais quebrados por uma equipe que não passou das quartas-de-final: Brasil de 2006, com 2 – o recorde de Ronaldo de gols marcados e o de Cafu, de partidas disputadas.

Tempo mais longo gasto na arrumação de uma meia durante uma partida da Seleção em Copas
: Roberto Carlos, 1 min. e 18 seg durante o gol da França.

Maior número de tropeços nas próprias pernas de um jogador brasileiro em Copas: Ronaldo, com 17 em 5 jogos.

Maior número de chapéus sofridos por jogadores da Seleção Brasileira em Copas
: 3, todos aplicados por Zinedine Zidane.

Menor número de titulares da Seleção Brasileira desembarcando num aeroporto nacional pela porta da frente depois de um Copa: 1

Maior número de torcedores brasileiros mandando o técnico da Seleção ir tomar no cu em território estrangeiro: 8.550, na Alemanha, durante a partida contra a França.

Há vários outros recordes. Alguém se habilita a contribuir com a lista?



  Escrito por Idelber às 22:20 | link para este post | Comentários (30)



segunda-feira, 03 de julho 2006

Sobre cair de pé e cair de quatro

Eu sou torcedor do Clube Atlético Mineiro. De derrotas eu entendo. Não que nos faltem vitórias: elas são numerosas e algumas foram heróicas, conquistadas sobre adversários superiores. Mas o Galo é marcado, sim, por derrotas famosas, algumas trágicas pelo cruel papel do acaso, outras revoltantes pela participação da arbitragem. Mas os atleticanos nos orgulhamos de torcer para um time que jamais caiu de quatro, jamais perdeu sem honrar a camisa. O Galo jamais perdeu como o Brasil em 1974 ou em 1998 (com Zagallo) ou, especialmente, como o patético Brasil de 2006 (de Parreira). gol-frança3.jpg

O preâmbulo é para dizer que eu não sinto nenhuma necessidade de tripudiar sobre uma Seleção Brasileira pelo simples fato de ela haver perdido. Não o fiz em 1982 ou 1986, quando já era fanático por futebol: aquelas seleções não me roubaram o direito de me sentir triste pela derrota de meu time.

Também não quero fazer um post com tom de eu não disse?, porque não há nenhum mérito em ter dito o que estava óbvio para qualquer um que acompanha futebol de perto.

Mas não há como não fazer um balanço do fim melancólico, da derrota estrepitosa, da mui reveladora e emblemática humilhação final sofrida pela concepção de futebol imposta por Zagallo e Parreira à Seleção nas últimas 3 décadas e meia, concepção só interrompida durante dois intervalos em que Telê dirigiu o escrete nos anos 1980.

Em primeiro lugar, Parreira é um pretenso cientista, um tecnocrata do esporte que fala sempre em nome de uma suposta “eficácia”. É desportista, mas fala com o tom professoral do “mestre” que ainda não aprendeu a lição número um que sabe qualquer professor: a de que o conhecimento é um processo e que ninguém detém a verdade absoluta e final. Parreira se dirige a seus compatriotas com o tom de quem explica o óbvio a um bando de retardados mentais: é um caipira que repete manuais, copia o pior do futebol italiano, gagueja em inglês e pensa que é alemão: “Futebol bonito não ganha jogo”, “quem quiser espetáculo que vá ao circo”, “em Copa dar show é ganhar”, entre outros insultos à nossa inteligência. Há ironia mais deliciosa do que o fato de que sua seleção jogou feio e perdeu para um time que, além de vencer, jogou bonito?

Quando gente como Tostão, Soninha, Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho (e muitos outros que entendem mais de futebol que eu) cobravam, nas primeiras partidas, que o time brasileiro jogasse bem, Parreira respondia com seu bordão de que “jogo bonito não ganha Copa”, como se alguém estivesse pedindo shows de passes de calcanhar, lençóis e bicicletas. Mas quem acompanha futebol sabe que quando Parreira e Zagallo destilam seu ódio contra o “futebol bonito”, na verdade o termo é um código para atacarem Telê Santana, para expressarem seu infinito rancor e inveja de Telê – porque Telê perdeu duas Copas e é amado e reverenciado. E eles ganharam uma Copa cada um e não são amados por ninguém.

Eles puderam, durante 12 anos, enfiar suas platitudes nossa goela abaixo porque ganharam a Copa de 1994 – e aí passaram a falar em nome da “eficiência”. Naquela Copa medíocre, bem inferior a esta, Parreira montou, sim, um time capaz de se defender, enervar o adversário, segurar a bola e contar com o lampejo de gênio definidor de Romário, a quem, diga-se de passagem, Parreira só aceitou convocar no último jogo das eliminatórias, quando o Brasil corria o risco de passar o vexame histórico de não se classificar.

E o que mais esse homem ganhou na vida, meu Deus do céu, que lhe dê direito de falar com tanta empáfia em nome da “eficiência”, pontificar com a certeza de quem sabe a verdade última sobre o futebol? O Campeonato da Série C com o Fluminense? Uma Copa do Brasil com o Corinthians recebido armadinho das mãos de Osvaldo de Oliveira? A classificação para a Copa do Mundo com a Arábia Saudita, jogando contra o Cazaquistão? E mais o quê, em quase quarenta anos de carreira como técnico? Que grande eficiência é essa?

Da mesma forma como não sabe ganhar – quando ganha comporta-se com prepotência e soberba – Parreira não sabe perder. Suas declarações das últimas 24 horas são indignas de um técnico da Seleção. É uma mistura de meias-verdades, transferências de responsabilidade, desculpas esfarrapadas, falsos silogismos, non sequiturs e tudo quanto é truque retórico para fugir do encontro com as lições que ele deveria ter a mínima honestidade de enfrentar. Senão vejamos:

1. Parreira diz que não se arrepende de nada do que fez. Caramba, mas ele mudou o time para o jogo decisivo e escalou a formação que quase todos queriam, com mais um meio-campista (Juninho) no lugar de um centroavante (Adriano; deixemos de lado o fato de que uma parte significativa queria a saída de Ronaldo)! Ora, ou ele tem que se arrepender de ter feito essa mudança ou ele tem que se arrepender de não tê-la feito antes, quando todos já a pediam. Ou ele acha que um grupo de 11 jogadores que jamais jogaram ou treinaram juntos renderiam o suficiente contra as melhores seleções da Copa? E o sujeito tem a parcimônia de se defender com o argumento de que “todos aprovaram as mudanças que eu fiz na equipe”! Ele passa meses escalando um time que quase ninguém aprova, aí na véspera do primeiro jogo de verdade da Copa ele escala, sem jamais ter treinado, a formação pedida pela maioria. Perde e se defende com o argumento de que fez a mexida que todos pediam! Eu quero crer que jamais justificaria um erro ante meus alunos com um argumento esfarrapado desses. Assumiria o erro.


2. Parreira diz que “sabia que a França jogaria desta forma, defendendo-se com nove atrás”. Será que ele viu outro jogo? No jogo que eu vi a França atacou com nove jogadores. Ele diz também que “sabia que eles iriam explorar as jogadas de velocidade para o Henry e as bolas paradas com o Zidane”, mas mesmo sabendo disso, ele escala uma equipe onde um dos seus zagueiros, grotescamente, na posição em que Napoleão perdeu a guerra, se dedica a arrumar a meia enquanto Zidane cobra uma falta para o Henry que esse zagueiro teria que estar marcando? Vejam bem, a França mereceu marcar muitos mais. De forma nenhuma sugiro que aquele lance foi uma fatalidade, ou que é tão importante assim. Eles teriam ganhado de qualquer forma. Eu só pergunto: é ou não é emblemático do time de Parreira que o mais arrogante, o mais mascarado, o mais pretensioso dos jogadores tenha sido imortalizado nesta posição?
napoleão-2.jpgRoberto Carlos perde a majestade que nunca teve.

3. Parreira diz que “tivemos que recuperar alguns jogadores que chegaram de uma temporada européia muito desgastante. Além disso, fizemos um único amistoso oficial antes do Mundial”. Ora, se os jogadores brasileiros vinham de “desgastante” temporada européia, onde jogam os atletas franceses, italianos, alemães, portugueses? Na liga de Botsuana? E de quem é a responsabilidade se nenhum amistoso real foi marcado na fase de preparação da Copa? De quem é a responsabilidade se nem mesmo treinos em campo inteiro o time brasileiro fez? Como ter a cara-de-pau de dizer que “não se arrepende de nada”?


4. A uma observação feita por milhares no Brasil inteiro e registrada aqui neste blog nos dez primeiros minutos do jogo contra a Croácia – a de que Ronaldo não tinha a menor condição de jogar a Copa – Parreira respondeu, depois da vitória ilusória sobre o Japão, com um vai tomar no cu dirigido aos críticos, como se dois gols sobre o Japão provassem algo; depois da derrota para a França, ele veio com o “argumento” de que “Ronaldo foi o nosso jogador mais incisivo, com três chutes a gol”. Tanta discrepância com a realidade não pode ser fruto de cegueira; é má fé mesmo. No jogo que eu vi, Ronaldo tropeçava na própria banha, caía sozinho pedindo falta, levava lençóis de Zidane e coroava a “atuação” com um dos momentos mais grotescos da Copa: uma “cortada” de vôlei na bola depois de uma cobrança de falta francesa, seguida de reclamação com a arbitragem pela marcação do toque, como se existisse no futebol alguma regra que autorizasse o toque de mão para se proteger de boladas na bochecha. Desculpem-me, há algumas coisas no esporte que são incontornáveis: se você tem 1,65m você não joga basquete na NBA, se você tem 95 kgs dificilmente estará em condições de jogar futebol no nível exigido por uma Copa do Mundo.

5. Sim, os jogadores, exceção talvez feita a Dida, Juan e Lúcio, todos têm culpa também. Mas o time foi um reflexo fiel do seu comandante: cheio de vaidade, incapaz de reconhecer o erro, desdenhoso com o adversário, preocupado em quebrar recordes pessoais. Ao longo de 360 minutos de futebol o Brasil tentou entregar bolas para que um atleta obeso e quase imóvel pudesse quebrar o recorde de gols em Copas; programou-se para que um outro pudesse quebrar o recorde de participações em Copas; no fim de um jogo, um atleta nega a outro o passe para um gol feito, porque havia prometido homenagem ao filho; numa quarta-de-final de Copa, um jogador ostensivamente grita com o outro sai fora para não deixá-lo bater uma falta. Nunca houve tanto divórcio entre as simbólicas e estatísticas realizações individuais e a (inexistente) realização coletiva.

6. Por último, a forma como se perdeu foi vexaminosa. Lembra-se da eliminação da Argentina? Você iria ao aeroporto vaiar compatriotas seus que fossem eliminados daquela forma? Eu consideraria a possibilidade de ir lá recebê-los e aplaudi-los. Lutaram 120 minutos contra um adversário gigante, empataram um jogo que era uma vitória quase certa porque o técnico cometeu um erro tático, caíram no último pênalti. Choraram sem esconder o rosto, como homens (não aquele choro meio adolescente, envergonhado, de Beckham, que pode ter se machucado feio mesmo, não sei). Tá certo, armaram lá seu empurra-empurra quando o alemão provocou. Mas saíram de cabeça erguida. O apito final de Brasil x França foi humilhante. Nos jogadores brasileiros, nem raiva nem lágrimas: posturas blasê que ocupavam o lugar da vergonha ou, por outro lado, Robinho e Cicinho sorrindo e pulando para abraçar o pescoço de Zizou, o mestre, parabenizando-o como o faríamos eu, você ou qualquer outra testemunha do jogo.

Zidane transformou os jogadores brasileiros em espectadores de sua arte, em plena quarta-de-final de Copa do Mundo. Não foi justiça poética divina, ver os craques da seleção “eficaz”, “competitiva”, “de resultados” de Parreira não só eliminados pela epítome do futebol-arte, mas reduzidos a render-lhe reverentes homenagens ao final, mais visíveis ali que qualquer decepção pela derrota?

Que da vergonha desse primeiro de julho fique pelo menos esse bonito legado.

Pense nisso, Parreira.

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* Todas as citações não acompanhadas de link são tiradas do diário Lance, edição de 02 de julho de 2006.

* Fotos: a primeira, de Ana Maria Gonçalves, do filme do Le Monde. A segunda, roubada de Milton Ribeiro.

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PS aos memoriosos futebolísticos do blog. Há alguns anos, Parreira e Felipão se enfrentaram numa partida em que a equipe de Felipão venceu por 4 x 2, de virada, estilo feliponesco. Foi um resumo antecipado da Copa de 2006. Quem se lembra desse jogo?

PS a todo mundo. Replico aqui a pergunta que fez o cumpadi Inagaki no Pensar Enlouquece: quem você gostaria de ver como técnico da Seleção, entre os possíveis, os prováveis e os impossíveis?

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Atualização às 17:30: Já são 36 comentários e ninguém adivinhou qual foi o 4 x 2 que Felipão enfiou no Parreira? Vocês querem fazer este blog passar vergonha?



  Escrito por Idelber às 01:33 | link para este post | Comentários (56)



sábado, 01 de julho 2006

Crônica de uma eliminação anunciada

A Argentina de Pekerman caiu tragicamente. O Brasil de Parreira caiu grotesca, melancolicamente.

A derrota é dele. parreira-2.jpg

Tomara que ele tenha pelo menos a hombridade de assumi-la. Conhecendo-o, eu duvido.

E parabéns ao Maestro Zizou.

zidane.jpg

Além de ser craque, joga com a alegria que a tecnocracia arrogante e medíocre de Parreira tirou da Seleção Brasileira.

Atualização às 18:14: Parece que Parreira não tem nada a dizer. Quando o Brasil foi eliminado em 1982, fazendo gols e jogando bem, Telê Santana abriu o vestiário alguns minutos depois da derrota. Parabenizou os italianos, agradeceu a hospitalidade espanhola, respondeu perguntas e assumiu a responsabilidade pela derrota. Saiu ovacionado pela imprensa do planeta inteiro. O Brasil se despediu de cabeça erguida: dignidade, dignidade infinita de Telê Santana. Exatamente o oposto de Carlos Alberto Parreira - arrogante nas vitórias e covarde nas derrotas.

Atualização às 19:50: Ambos os técnicos conseguiram proezas históricas hoje. O Felipão levou Portugal às semi-finais. O Parreira conseguiu juntar alguns dos melhores jogadores do mundo e fazê-los sumir. (Ticcia)



  Escrito por Idelber às 18:54 | link para este post | Comentários (59)




Portugal virou Rio Grande

felipão.jpg

Por onde andam os críticos de Felipão?



  Escrito por Idelber às 15:55 | link para este post | Comentários (7)



sexta-feira, 30 de junho 2006

Ah, Argentina, que castigo

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Ah, a infinita crueldade do futebol. Não é esse afinal o segredo do seu encanto?

O plano de jogo da Argentina foi perfeito. Ou quase. Mas nesse “quase” os hermanos dançaram. Até os 20 do segundo tempo, Pekerman havia feito tudo certo. Errou numa substituição. E a Alemanha ganhou mais germanicamente que nunca.

Eu, argentinófilo assumido, fiquei triste, sim: a Argentina não merecia o castigo. Pekerman montou o time perfeitamente: é um 3-5-2 que se recita como um 4-4-2. Ou seja, o lateral-direito é na verdade o terceiro da linha de zagueiros. Pela esquerda, Sorín jogava livre para atacar, às vezes fechando como ala, às vezes apoiando como um verdadeiro ponta-esquerda. Na frente, Pekerman foi ousado ao tirar Saviola, mais cerebral e menos guerreiro, e iniciar o jogo com Tévez, que infernizava a saída de bola alemã. No meio-campo, entrou Lucho González, que dá combate e cria, e ficou no banco Cambiasso, que não tem o mesmo talento criador. O esquema foi ousado: a marcação era feita no campo alemão. A Argentina tinha a bola durante 63% do tempo, e não era aquela vantagem ilusória, de quem tem mais posse de bola mas se mantém no próprio campo. A Argentina controlou o tempo do jogo no primeiro tempo e, se não criou grandes chances de gol, pelo menos impediu que a Alemanha montasse suas blitzes; de quebra, colocou-se na posição de ganhar todos os rebotes no meio-campo. No primeiro tempo a Alemanha não viu a bola e no lado esquerdo do ataque argentino os pobres Mertesacker e Friedrich comiam o pão que o diabo amassou com Tévez e Sorín.

A Argentina foi recompensada no comecinho do segundo tempo com o gol de Ayala. E ainda por uns bons 10 ou 15 minutos parecia que a Alemanha não teria poder de reação. Seu meio-campo não acertava passes, Ballack estava completamente apagado. Era a hora de matar o jogo, enfiar o punhal goela abaixo do bicho. Faltou a Pekerman instinto matador. Sacou Riquelme (que realmente não vinha bem) e colocou Cambiasso, volante. Mexeu mal, num momento em que mandava no jogo. E logo depois, no momento de sacar Crespo (que, lento e preso entre os zagueiros, já não era efetivo), Pekerman mexeu pior ainda: não teve confiança no jovem craque Messi, que teria certamente infernizado a defesa alemã nos contra-ataques. Pôs o limitado Cruz, que não só tem feições de boliviano: tem futebol de boliviano também.

A Alemanha cresceu mas, mesmo depois de empatado o jogo e iniciada a prorrogação, era a Argentina quem tinha mais gás, era ela quem tinha poder de definição. Os alemães sabiam que tinham vantagem nos pênaltis, que só chama de “loteria” quem não entende nada de futebol. Findo o segundo tempo da prorrogação era nítida a expressão de confiança entre os alemães: chegamos onde queríamos. Lehmann fez o resto, também ajudado por um erro anterior de Pekerman, que deixou em Buenos Aires o grande Germán Lux e levou o jovem Franco para a reserva de Abbondanzieri. O Pato se machucou durante o jogo e entrou Franco. Franco não teve culpa no gol que levou, mas tampouco chegou sequer perto de pegar algum pênalti.

A Argentina foi ousada na preparação e nos primeiros 70 minutos de jogo. Pagou caríssimo pela falta de instinto matador no que restava do jogo. Contra a Alemanha, é pecado mortal.

PS: Blogs argentinos que linkam o Biscoito: Linkillo, Monolingua, Conejillo de Indias, Salón Mati, Mejor en fiestado e vários outros.



  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post | Comentários (21)



quinta-feira, 29 de junho 2006

Palpites para as quartas

Enquanto você se cura da Síndrome de Insuficiência Futebolística causada por essa pausa de 48 horas na Copa, deixe aí o seu palpite para as quartas. Aqui vão os meus, acompanhados da devida falta de credibilidade de quem acertou só 60% na primeira fase.

Itália x Ucrânia
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Desde que o futebol foi inventado, no ano 513 a.C., os italianos passam das oitavas-de-final derrotando uma seleção menor com um pênalti aos 45 do segundo ou um gol de bola espirrada na prorrogação. Podem conferir. Remonta a Rômulo e Remo. Desta vez não foi diferente com a Austrália. A Ucrânia chega às quartas mas para mim é, junto com os tchecos, a grande decepção da Copa: levaram um sapeca-iaiá da Espanha, se classificaram roubado contra a Tunísia e protagonizaram com a Suíça o 0 x 0 mais grotesco da história das Copas, coroado por uma disputa de pênaltis onde os suíços não acertaram o gol uma só vez (deve ter sido a única seleção eliminada duma Copa sem levar um gol sequer). Foi digno de vídeo cassetada, aquilo. Passa a Itália, por 1 x 0 porque afinal é a Itália.

Alemanha x Argentina
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Essa é a verdadeira briga de cachorro grande. É o jogo da Copa. Daqui sai um finalista. Meu filho vai matar aula para assistir, com bênçãos da família inteira: há coisas mais importantes que a escola. Você pode dizer que o Brasil é favorito contra a França, com certeza deve dizer que a Itália é favorita contra a Ucrânia, e até que a Inglaterra é favorita contra Portugal. Mas aqui quem acha que a Alemanha é favorita por jogar em casa não se lembra de quão entalado está na garganta dos argentinos aquele pênalti inventado na final da Copa de 1990. A Alemanha está para a garganta argentina assim como a Argentina está para a garganta inglesa. O time alemão surpreende positivamente nesta Copa, mas a Argentina tradicionalmente encaixa bem o jogo contra eles. E vai jogar pela honra. Passa a Argentina.

Jogo inesquecível no passado: Argentina 3 x 2 Alemanha, na final da Copa de 1986. Maradona dá o seu baile, a Argentina abre 2 x 0 e tem pinta de que vai golear. O já veterano Rummenigge entra no time alemão, incendeia os caras e em 10 minutos a Alemanha empata o jogo, bem no seu estilo. Tudo cheirava a prorrogação, quando Maradona escapuliu um segundo; dois segundos depois Burruchaga estava na cara do gol, com a bola lhe dizendo: faça, meu filho. Foi a única vez que um ser humano ganhou uma Copa sozinho.


Brasil x França

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Émerson parece continuar sua sina de melhorar a seleção brasileira contundindo-se. Tudo indica que entra Gilberto Silva, o que dará pelo menos um passe melhor ao meio-campo-de-pior-passe da história da seleção, desde que Friedenreich fez nas Laranjeiras o gol que originou o choro de Pixinguinha. Dizem por aí que Parreira tem dado muita atenção a Robinho, o que pode indicar que Adriano sai do time: não é quem eu tiraria, mas já melhora. A França queria mesmo era derrotar a Espanha do técnico racista Aragonés, a Espanha que vinha soberba enquanto os bleus comiam poeira e humilhação. Para a França que correu o risco de dar um vexame à la 2002 e fazer mestre Zizou despedir-se melancolicamente, as quartas estão de bom tamanho. Vão jogar duro, claro, mas nem o Parreira consegue impedir que passe o Brasil.

Jogo inesquecível do passado: Pensaram na final de 1998 ou nos pênaltis de 1986, imberbes desmemoriados, pois não é não. O jogo inesquecível é Brasil 3 x 1 França, no dia 15-05-1981, quando mestre Telê Santana e a troupe do Clube Atlético Mineiro Brasil Futebol Clube fizeram o Parc des Princes se levantar para aplaudir o show de Luizinho, Cerezzo, Reinaldo, Éder e dois coadjuvantes razoáveis chamados Zico e Sócrates. Foram 3 mas poderiam ter sido 7. No final da partida os jogadores franceses quase que batiam palmas. Nesse jogo o estádio parou para ovacionar Reinaldo, que deu a mais longa, acrobática e inusitada seqüência de dribles jamais realizados no espaço correspondente a um guardanapo. Meninos, eu vi. Ali nasceu a máquina da qual Parreira e Zagallo morrem de inveja e despeito até hoje.

Portugal x Inglaterra
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Sabem que eu acho que passa Portugal, para delírio da Ticcia? A Inglaterra tem mais talentos, claro, ainda mais contra um Portugal que joga sem Deco. Mas o time da Inglaterra ainda não mostrou nadica de nada nesta Copa: Lampard, Gerrard, Beckham, Owen e Rooney não apresentaram o que se esperava deles. O único que tem estado bem em todos os jogos é J. Cole. No time inglês, o que me incomoda não é nem a tática, é uma certa atitude blasê. Perfeita para um time candidato a ser eliminado pelo Felipão. Vejam só, eu me inteirei via Feminista de Frankfurt que em Portugal as declarações do Parreira contra a qualidade do espetáculo Portugal x Holanda repercutiram super mal (cá entre nós, como se o Brasil estivesse dando grande espetáculo) e, para piorar, circulou um vídeo do Milton Neves dizendo que Portugal é timinho, o que gerou muita revolta entre leitores portugueses. Daí, claro, foi um passo para que saísse uma pilha de comentários xenófobos anti-Brasil. Mas alguém tem que avisá-los que no Brasil quem acompanha esporte não leva Mílton Neves muito a sério, e que Portugal é o segundo time de quase todo mundo. Ou alguém torcerá contra Felipão? Passa Portugal, na raça.

Jogo inesquecível do passado: Inglaterra 2 x 1 Portugal, em 26-7-1966, semifinais da Copa. Eusébio marcou mas, diz a lenda, Bobby Charlton jogou a partida mais irretocável já feita com a camisa do English Team. Eu não vi, mas é o que dizem.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 28 de junho 2006

Agora é a tal da corrente

ronaldo.jpg


Pois então. Está combinada a história, né? Até o final da Copa, nós fingimos que aceitamos que esse é o melhor time do Brasil, o Parreira finge que acredita que é isso mesmo, os adversários fingem que têm medo, e vamos que vamos porque já estamos nas quartas. E esse time da França é ruim demais. Semifinais, já estamos aí, e depois é Zagallo esgoelando só faltam dois e tudo como dantes como no quartel de abrantes, porque afinal de contas precisamos é de pão e circo, e o ano promete hexa seguido de reeleição.

Combinamos assim? Nós nos estribuchamos exigindo mais meio-campistas – que chega de duas torres paradas lá na frente – o Parreira nos xinga vai tomar no cu, porra, porque afinal ele está certo sempre, e o Brasil vai avançando, com a ajuda inestimável da ruindade dos adversários e da boa-vontade das arbitragens. E no final será que será a mesma história de 1994, eles levantando e taça e xingando-nos, isso aqui é para vocês, seus traíras, para depois rirem da nossa cara trazendo 5 aviões de muamba não declarada?

Se for, não há problema. Até que já estou acostumado com esse papel do torcedor que torce para que dê certo o time que ele acha que não pode dar certo. Se ganhar, ora, que se dê ao nosso pobre treinador o direito de dizer a frase de que ele gosta tanto, eu estava certo.

Mas em verdade eu lhes digo:

* Jamais em quase 30 anos de futebolismo eu vi um 3 x 0 tão no sufoco como esse. O Brasil foi vergonhoso no segundo tempo. Não sei se repararam, mas as vaias do público só foram abafadas pelos gritos de sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor porque afinal de contas, eu posso falar mal da minha mãe / do meu país, os outros não.

* Às vezes o faro de expatriado percebe algumas coisas mais rapidamente: estou enganado ao supor, depois de umas duas semanas no Brasil, que a Rede Globo de Televisão decretou que Ronaldo está jogando bem, e que, de tão decretada, a afirmativa passou a ser verdadeira, passou a ser aceita pela maioria como verdade, contra todas as evidências?

* Se é para passar o jogo recuando a bola para o goleiro, que ponham o Rogério Ceni que sabe jogar com os pés, né Mary W? Quantas bolas o pobre do Dida foi forçado a chutar para fora?

* O Brasil melhora ou não melhora quando um dos centroavantes é substituído por um meio-campista?

* O Valdir Bigode seria ou não seria titular nesse ataque de Gana? Lembram do Valdir Bigode? É o homem que mais perdeu gols preparados por um garçom na história do futebol brasileiro (o garçom aqui sendo o maravilhoso Marques). Até o Valdir Bigode é melhor que esses atacantes de Gana. Vão chutar mal assim lá no raio que os parta.

PS: Eu errei várias previsões no bolão da Copa. Mas acertei que a Espanha cairia fora. A Espanha treme. Não adianta. Treme mesmo. Morri de rir de quem achava que eles chegariam nas finais. Foi o típico jogo não propriamente ganho por uma camisa, mas perdido por uma camisa.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 26 de junho 2006

Leitura labial pega os palavrões de Parreira

- Agora vamos ver, filhos da puta! E ainda pedem pro Ronaldo ir embora. "Tira ele...". Vai se foder, vai tomar no cu, porra!.

Incrível. Neste vídeo (via Pensar Enlouquece via Samjaquimsatva).



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (24)



sexta-feira, 23 de junho 2006

Este post não é sobre Brasil 4 x 1 Japão

juninho.jpgAntes do jogo Brasil x Japão circularam duas notícias interessantes sobre a seleção brasileira: a primeira foi divulgada para todo mundo, a segunda era exclusividade da TV Globo.

A primeira: a comissão técnica divulgou o peso atual de Ronaldo e o peso com que ele chegou à Alemanha. Chegou com 95 quilos, 13 a mais que seu peso “ideal”, que é 82 kg. Desde então, emagreceu 4,5 kg e está agora com 90,5 kg.

A segunda: a TV Globo divulgou, algumas horas antes do jogo, que Ronaldo, Émerson e Cafu, com cartões amarelos, não jogariam e seriam substituídos por Robinho, Gilberto Silva e Cicinho. De acordo com o Juca Kfouri, que tem boas fontes e não costuma se enganar nessas coisas, numa conversa com um produtor da Globo, o assessor da CBF, Rodrigo Paiva, teria dito: “só sabíamos dessa escalação eu, Parreira e Zagallo. Vocês não receberam essa informação de nenhum dos três. Então vão quebrar a cara.”

Quebraram, mas talvez a longo prazo a maior prejudicada seja a seleção. Como se sabe, Parreira sacou Émerson e Cafu, mas entrou com Ronaldo. Sacou também Adriano, Zé Roberto e Roberto Carlos. Entraram Robinho, Juninho, Gilberto Silva, Cicinho e Gilberto. Beleza.

Ainda passado de sono do vôo internacional para BH, e sem saber dessa divulgação feita pela Globo de manhã, comentei com ela, minutos antes do jogo: é a típica mudança feita por um treinador que age de má fé. Com “má fé” quero dizer: a preocupação do cara não é acertar, é mostrar que antes ele já estava certo. O tempo todo. Chega a ser irritante.

Por que? Ora, porque no momento em que toda a torcida e crônica esportiva brasileiras pediam a saída de Ronaldo e a entrada de Juninho e/ou Robinho, com as 5 mudanças que fez, Parreira se colocava numa win-win situation. De qualquer jeito ele ganharia. Se o time jogasse mal, empatasse, perdesse ou ganhasse de pouco do Japão, ele poderia dizer: “Estão vendo como o meu esquema anterior era o certo?”

Se o time jogasse razoalvelmente bem e ganhasse de goleada, de preferência com um ou mais gols de Ronaldo (porque afinal de contas é impossível um time como o Brasil enfrentar uma baba aberta como o Japão, jogar bem e não colocar o seu centroavante em condições de fazer um ou mais gols), ele poderia dizer, como já deve estar insinuando: “Estão vendo, Ronaldo calou a boca de vocês!”

E é o que já está se ouvindo por aí. O Juca Kfouri, coitado, está que leva bordoada no seu blog, como se Ronaldo tivesse feito chover em Dortmund. Marcou dois gols, igualou o record de Gerd Müller e previsivelmente foi eleito o melhor do jogo pelo comitê da FIFA. Parabéns para ele. O comitê da FIFA na certa não contou os 61 passes de Juninho no jogo (60 deles certos) ou os 14 dribles de Robinho (11 deles certos) ou os 17 desarmes de Gilberto Silva (sem uma falta sequer). Viu os dois gols de Ronaldo, e escolheram não ver todas as vezes em que ele não chegou na bola ou foi desarmado por estar fora de forma. Parabéns para eles.

Mas que conste: quem será sacrificado na brincadeira, muito provavelmente, é um atleta que está em condições físicas, técnicas, táticas e psicológicas infinitamente superiores às de Ronaldo e que joga na mesma faixa do campo que ele: Adriano, que vai acabar saindo do time, porque já não há como conter o clamor por Robinho.

Tudo bem. Provavelmente passaremos por Gana. E depois?



  Escrito por Idelber às 03:33 | link para este post | Comentários (29)



sexta-feira, 16 de junho 2006

No blog da copa

Há vários posts novos no nosso Verbütsfussballbloge, incluindo-se um post antológico do Almirante. Passem por lá.



  Escrito por Idelber às 14:04 | link para este post



quinta-feira, 15 de junho 2006

Parreira inventa o revolucionário esquema 6-0-4

parreira.jpgParreira e Golias: separados no nascimento?

Com outras palavras, o Milton Ribeiro já explicou a coisa lá no Verbütsfussballbloge, mas quem achou a expressão exata foi a Mary W: o time do Parreira joga no 6-0-4. Depois do 3-7-0 inventado pelo Geninho no Corinthians, é a grande invenção da tática tupiniquim: um time sem meio-campo. Não pode dar certo mesmo.

Todas as grandes equipes têm uma cabeça pensante no meio-campo, um armador de jogadas. É o velho meia-armador: o Brasil de 58 e 62 tinha Didi, o Brasil de 70 tinha Gérson, o Inter dos bons tempos tinha Falcão, o Galo tinha Cerezzo, o Flamengo tinha Adílio, extraordinário jogador ofuscado pelo brilho de Zico. Não há como armar uma grande equipe sem um cérebro pensante no meio-campo (não, isto não é um pleonasmo: há uma legião de cérebros não-pensantes por aí).

O Brasil de Parreira, tendo em mãos uma geração talentosíssima, joga com dois volantes (Emerson e Zé Roberto), dois meias-atacantes (Kaká e Ronaldinho Gaúcho, este último atuando completamente fora de sua característica), dois centroavantes (Adriano e Ronaldo) e nenhum armador nato. O resultado é que o time não tem meio-campo propriamente dito: ele vira uma sucessão de compartimentos estanques.

Emerson é um bom volante de contenção, mas é incapaz de criar jogadas na saída de bola do Brasil. Zé Roberto até tem algum talento criador, mas no esquema de Parreira ele é destruidor, roubador de bolas e responsável pela cobertura de Roberto Carlos – funções que ele executa bem, mas que não lhe deixam tempo nem energia para criar nada. Quando o Brasil recupera a bola, essas funções ficam nos pés de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, que têm que voltar para atuar numa faixa do campo que não é a sua.

Kaká demonstrou raça contra a Croácia e voltou para buscar jogo. Mas aí ele sai de sua característica, que é a arrancada a partir da intermediária adversária. Ronaldinho, recebendo bolas lentas no círculo central e tendo diante de si toda a defesa adversária, jamais será o jogador que conhecemos no Barcelona. Para piorar as coisas, a dupla de ataque é redundante: tanto Ronaldo como Adriano são finalizadores, jogadores de área. Adriano até tentou, mas jamais será capaz de sair da área para armar tabelas. Não sabe fazer isso. Ronaldo andou em campo. Com dois tanques lá na frente e sem meio-campo, não dá. Juca Kfouri disse isso outro dia no blog dele e eu também falei da impossibilidade de que Ronaldo e Adriano joguem juntos exatamente um ano atrás.

De tanto ser chamado de retranqueiro, parece que Parreira, por pirraça, resolveu montar um time com um excesso de atacantes – só na teoria, claro, ele é um time “mais ofensivo”. Termina sendo até um time mais defensivo, porque não consegue manter a bola no campo do adversário.

Muita gente se pergunta por que Ronaldinho Gaúcho – apesar de às vezes jogar muito bem na seleção – não consegue repetir lá as atuações encantadoras que faz no Barcelona. Parreira responde com o papo-furado de que no Barcelona ele brilha porque é a única estrela, e na seleção tem que dividir o palco. Nada disso: ele não brilha porque meia-atacante nenhum vai brilhar recebendo a bola no círculo central, sem arranque e tendo 6 defensores pela frente.

Conclusão clara para quem conhece o plantel da seleção: o Brasil precisa de Juninho Pernambucano, armador nato, que além do mais sabe dar combate. Isso possibilitaria adiantar o Ronaldinho Gaúcho para que ele atuasse na faixa do campo onde ele é o melhor do mundo. Possibilitaria também que a bola chegasse a ele e a Kaká na faixa de campo em que eles arrebentam.

Quem deve sair? Ronaldo, claro. Será que vocês vão achar que é arrogância minha se eu disser que isso é o óbvio do óbvio?



  Escrito por Idelber às 02:16 | link para este post | Comentários (17)



terça-feira, 13 de junho 2006

Blogagem ao vivo da estréia do Brasil

Já estou a postos aqui em New Orleans para a estréia do Brasil. Laptop conectado, telão ligado, cervejinha na geladeira. A história das últimas 24 horas foi o pedido de prisão de Cafu por um promotor italiano no caso dos passaportes falsos e depois a sua absolvição pelo juiz.

Ao longo do jogo, vou atualizar este post a cada 5 ou 10 minutos com comentários. Quando você se cansar do Galvão Bueno, passe por aqui e deixe seu pitaco.

1 min: ótima notícia. Lúcio não está dormindo.

5 min: segundo grande desarme do Zé Roberto. O cabra joga.

10 min: duas coisas me preocupam: a vulnerabilidade defensiva quando o time perde a bola e a lentidão do Ronaldo. Esse impedimento dele foi ridículo.

14 min: patada atômica de Roberto Carlos. Única razão para jogar com ele no time titular: esses chutes.

20 min: o time brasileiro é muito vulnerável quando perde a bola. É um problema. Ronaldo continua me dando a impressão de lentidão total em campo.

26 min: Alívio no rosto dos jogadores croatas, de terem suportado o 0 x 0 durante mais da metade do primeiro tempo.

30 min: Até o comentarista gringo percebeu que o Ronaldo está andando em campo.

31 min: Falta para o Brasil !

38 min: Cruzamento croata passa razante pela defesa do Brasil. Ninguém na bola. Jogo fica típico das estréias, bem tenso.

43 min; Golaço de Kaká! Igualzinho o que ele fez na Copa das Confederações contra a Argentina.

45 min.: Detalhe interessante: Kaká sofre falta (mais um lance de jogo perigoso, realmente). Começa a rolar pelo gramado e o árbitro mexicano discretamente passa por ele e diz: estás bien. Kaká se levanta na hora.

Bom, não deu para blogar o segundo tempo. Não fez falta. Não sei ainda o que vão dizer aí no Brasil, mas para mim os destaques do time foram Dida, Lúcio, Juan e Emerson. O que diz algo sobre o jogo, suponho.

PS: Ronaldo deve ser sacado do time. . Não sou só eu que digo. Oito de cada dez comentários a esse post do Juca Kfouri pedem a saída imediata de Ronaldo. E o próprio Juca também.



  Escrito por Idelber às 15:11 | link para este post | Comentários (44)



segunda-feira, 12 de junho 2006

Copa do Mundo: Pílulas

Depois de assistir México 3 x 1 Irã e Portugal 1 x 0 Angola, não há cristão nem ateu que consiga fazer um post decente. Então o de hoje é só para vocês brincarem na caixa de comentários mesmo. O link ao vídeo que fecha este post chegou via Megeras.

* Eu disse aqui que o Equador não passava, ele ganhou da Polônia, e o Biscoito já começou a levar sarrafo na blogosfera equatoriana :-) Continuo torcendo, mas pelo amor de Deus não se empolguem. Faltam dois jogos ainda. Ganhando da Costa Rica, aí sim, ficam bem na foto. Seria legal ver o Equador nas oitavas. Mas a empolgação exagerada é o pior inimigo nessas horas.

* Confundindo chute para fora por fair play com passe errado, traduzindo just married por "apenas casados", sugerindo Rogério Ceni na linha da seleção, traduzindo Schumacher who? por "Cadê o Schumacher?", confundindo Costa Rica com Costa do Marfim, quem pode ser? Galvão Bueno, é lógico. Época de Copa é época de Eu odeio Galvão Bueno.

* Portugal x Angola e México x Irã disputaram neste domingo duas pelejas de um esporte que se parecia vagamente com o futebol.

* Eu não entendo quando meus amigos portugueses se queixam da ruindade do time pondo a culpa em Felipão ou dizendo que perderam a final da Copa da Europa por responsabilidade dele. Não conheço o futebol português o suficiente para dar pitaco na escalação, mas qual a última vez em que a Seleção portuguesa havia chegado à final da Copa da Europa antes de Felipão mesmo?

* Comentário do narrador da rede norte-americana ABC, durante o jogo México x Irã: "Caminhando pelo estádio de Nuremberg onde se realizavam os comícios nazistas, não dá para não ficar imaginando o que pensam os jogadores iranianos sobre a posição do seu líder sobre o Holocausto". Nesta segunda-feira, jogam EUA e República Tcheca. Aguardo ansiosamente o comentário do narrador sobre como os norte-americanos se sentem jogando para um país que apoiou Hitler de 1933 até 1938. Êta povo que não se enxerga.

*Craque da Copa até agora: Robben, da Holanda. Como é bom ver um time jogando no velho 4-3-3, com pontas natos! Não o defendo como fórmula, mas que é bom ver a Holanda insistindo nele, ah, isso é.

* No geral, acho que as arbitragens até agora estão excelentes.

* É a Soninha que afirma em seu blog: Quase todo mundo por aqui teme uma falcatrua... Uma das teorias da conspiração possíveis: a Confederação aceita perder a Copa para uma seleção européia, em troca de ter garantida a sede de 2014. É um pouco menos bizarra que a de 98, que dizia que os jogadores teriam aceitado entregar o jogo. . .

*García Márquez uma vez disse: yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.

* Há bem mais coisas sobre a Copa lá no nosso Verbütsfussballbloge.

* Lula calado é um poeta.



  Escrito por Idelber às 01:43 | link para este post | Comentários (38)



quinta-feira, 08 de junho 2006

Sobre Duas Vezes Junho, de Martín Kohan

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¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.

Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico. O pano de fundo é a questão quase inimaginável: a tortura de crianças como forma de chantagem sobre os pais e o roubo e venda de bebês, extensamente praticados pela ditadura argentina.

A tarefa do recruta é achar o chefe, o “doutor” Mesiano, um dos responsáveis pelo horror, a quem ele é ligado também por laços de respeito e amizade. Precisa conseguir uma resposta para essa pergunta. E o chefe não está lá.

Aí entra o futebol. O chefe foi ao jogo. É a noite da partida entre Argentina e Itália, vencida pela Itália por 1 x 0. Engenhosamente, Kohan toma a euforia pela Copa do Mundo mas escolhe o único dia de derrota da seleção. Faz dessa derrota “o momento de verdade” mascarado pelo patriotismo triunfante que o esporte ofereceu, a calhar, à ditadura dos militares.

Para esquecer a derrota, vão uma noitada com mulheres, durante a qual conhecemos Sergio Mesiano, filho do chefe, quase um pateta. Não sabe dizer ao recruta o que aconteceu no jogo, porque não entende o futebol. Depois da noitada, viaja mordendo os lábios no carro, como se algo estivesse errado. Vão a Quilmes, cidade da província de Buenos Aires, onde se decidirá quem terá direito ao próximo bebê roubado.

O encontro entre o “doutor” Mesiano e o “doutor” Padilla (o que havia telefonado para fazer a pergunta) nos dá a chave do acontecido. Uma mulher, ao fundo, grita, pede ajuda. Acaba de dar à luz. Está à beira da morte, como resultado da tortura. Mas tudo isso chega a nós sem sentimentalismo, sem arroubos retóricos, sem tom de denúncia. Chega quase como um fato banal porque, afinal, percebemos o horror pelos olhos do cúmplice.

Corte, flash forward. Quatro anos mais tarde, também em junho, o recruta lê uma lista em que aparecem os mortos na guerra das Malvinas. Encontra o nome de Sergio Mesiano. A ironia é atroz: provavelmente morreu numa ilha que ele não saberia localizar num mapa. O ex-recruta, agora estudante de medicina visita seu antigo patrão, recebe o recado de que ele está na casa da irmã, num churrasco. Parte para lá e vê o garoto, “Antonio”, o bebê roubado. A mulher dá cantadas baratas no recruta, avisa que o marido viaja muito. O “doutor” Mesiano avisa que se aproximam tempos difíceis: ele já percebe que a ditadura tem seus dias contados. Também é dia de jogo contra a Itália, pela Copa de 1982, na Espanha. Outra derrota argentina.

Depois do abraço de despedida no ex-patrão o recruta sai, liga o rádio do carro e observa que não consegue se lembrar bem dos seus sonhos. Fim da história.

A literatura argentina dos anos 80 e 90 foi rica em romances sobre o descalabro vivido pelo país entre 1976 e 1983. O regime militar argentino matou ou “desapareceu” mais de 20.000 pessoas em sete anos, cifra que faz a ditadura de Médici parecer brincadeira de criança. Mas a maioria dos textos argentinos sobre o período foram grandes máquinas alegóricas ou relatos testimoniais verborrágicos, retóricos, indignados.

Kohan faz algo que nunca se havia feito: coloca a voz narrativa na boca de um recruta, um cúmplice que não é um ideólogo, mas um subalterno. Eu me apaixonei por esse livro porque ele trabalha tão bem essa voz, a do subalterno. Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade.

A forma do romance é coerente com a escolha da voz: são pequenos parágrafos com frases curtas, secas. Há toda uma poética, uma estética anti-sentimental e poderosamente política nesse livro. O recurso ao futebol, apesar de revelar o seu papel como mascaramento patrioteiro dos horrores da ditadura, não repete o surrado clichê do “esporte como ópio do povo”. Pelo contrário: é ali, no momento de derrota futebolística, que a verdade suja da sociedade se faz visível ao leitor.

Enfim, fiquei fã do autor. E aproveito este post para parabenizar a Amauta pela iniciativa e o tradutor e editor Marcelo Barbão, por disponibilizar ao público brasileiro esse texto tão poderoso, vindo do país que produz uma das mais ricas literaturas do mundo.

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

E quero saber, claro, o que vocês acharam do livro. Digam lá.

Atualização: Amanhã estará no ar a entrevista com Martín Kohan.



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terça-feira, 06 de junho 2006

Post novo no blog da Copa

O Brasil e as Arbitragens, post novo meu no Verbütsfussballbloge. Comentários abertos lá.



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sábado, 03 de junho 2006

Links para a Copa

Hoje, só links:

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Gostaram? É a bela arte de Roberto Fontanarrosa.

Soem as trombetas. Está no ar o novo blog coletivo da Verbeat sobre a Copa do Mundo: Verbütsfussballbloge. Eu escreverei lá também durante a Copa, junto com um time de respeito.

O vídeo mais assistido nesta semana no Youtube foi o frangaço de Kuszczak, o goleiro da Polônia. Para mostrar que ele não é um frangueiro, um torcedor polonês foi lá e subiu um vídeo de uma de suas grandes defesas.

E, para acompanhar a Copa, o New York Times já fez um blog. Já erraram uma vez, ao dizerem que Pelé saiu contundido da Copa de 1962 por pancada dada por adversário - na verdade ele distendeu o músculo da coxa sozinho, na partida contra a Tchecoslováquia. Não resisti, fui lá e dei uma corrigida na informação (educadamente, claro).

Durante a Copa, não dá para deixar de visitar o blog de um brasileiro que mora na Argentina: com vocês, Haja Corazón.

Há muitos vídeos interessantes no vídeo blog Batendo Bola (cheguei lá via Marmota, que também recomenda o World Cup Blog).

A cada quatro anos é a mesma história. Parte da população que não gosta de futebol se junta a nós, outra parte continua tranqüila fazendo o que faz sempre (ir ao cinema, ler livros, etc.: atividades que continuam perfeitamente disponíveis para todos) e uma ressentida minoria se dedica a destilar veneno em textos cheios de rancor. Ganhando o campeonato do mau humor este ano estão o Manifiesto antimundial e o texto do ex-filósofo e atual bufão televisivo espanhol Fernando Savater (este homem, há quarenta anos, escrevia bons livros).

E em homenagem à última flor do Lácio, vejam que maravilha eu achei:

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  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 31 de maio 2006

Palpites para a Primeira Fase da Copa

copadomundo.jpg Aqui vão meus palpites para a primeira fase:

Grupo A: Alemanha, Polônia, Costa Rica e Equador. Os donos da casa pegaram uma moleza. Eu já assisti essa equipe do Equador várias vezes nos últimos dois anos. É uma baba. A Costa Rica não assusta ninguém. Crave Alemanha e Polônia sem medo. E olhe que a Polônia anda mal das pernas, perdendo 3 jogos seguidos e sofrendo incrível gol de goleiro na reposição de bola! Mas sinceramente, não vejo nem Equador nem Costa Rica incomodando os europeus nessa chave.

Grupo B: Inglaterra, Suécia, Paraguai e Trinidad e Tobago. O jogo decisivo do grupo, obviamente, é entre Suécia e Paraguai. O que é bom na seleção paraguaia é velho. O que é novo é ruim. A Suécia, no seu último amistoso, não conseguiu fazer um gol sequer nos seus sofríveis vizinhos finlandeses. A Inglaterra passa com certeza. Aposto no Paraguai para a segunda vaga porque, pela sua defesa, eles têm mais chance de arrancar um ponto da Inglaterra do que os suecos.

Grupo C: Argentina, Holanda, Sérvia e Montenegro, Costa do Marfim
. Os hermanos, mais uma vez, tiveram um azar incrível no sorteio. Sem dúvida, é o “grupo da morte”. Os marfinenses são hoje a mais forte seleção africana, Sérvia e Montenegro herda o legado do forte futebol iugoslavo e a Holanda é favorita sempre que participa. Qualquer coisa pode acontecer aqui, mas eu só sei que a Argentina passa. Seria um escândalo se fossem eliminados na primeira fase em duas Copas consecutivas. Argentina e Holanda, no sufoco.

Grupo D: Portugal, Irã, Angola, México. Os angolanos são os simpáticos debutantes nessa que é primeira Copa com três países de língua portuguesa. O Irã encerrou a preparação com uma bela vitória sobre a Bósnia – perdiam por 2 x 0 e viraram para 5 x 2. A lógica manda cravar Portugal e México, mas atenção com o Irã, que vai entrar bem motivado, depois de ser vítima da palhaçada anti-esportiva da União Européia.

Grupo E: Itália, Gana, EUA, República Tcheca. Aqui eu cravo a zebra. A seleção italiana está abaladíssima pelos escândalos de manipulação de resultados lá na bota. Certo, nada disso é novo, e a equipe tem tradição de chegar mal, começar mal e crescer durante a competição. Mas acho que desta vez não acontece. Os EUA, razão principal para que a FIFA tenha reservado quatro vagas para a fraquíssima CONCACAF, se classificam junto com a República Tcheca. A Itália fica fora, para desconsolo da mulherada.

Grupo F. Brasil, Croácia, Japão, Austrália. Não acho que o Brasil vá ter grandes dificuldades para se classificar e não acredito que a Austrália arranque mais que um ou dois empates. O jogo decisivo aqui é Croácia x Japão. Tenho toda a simpatia pela seleção do Zico, mas acho que dá Brasil e Croácia – apesar do horroroso uniforme desta última, o mais feio da Copa.

Grupo G. França, Suíça, Coréia do Sul, Togo. Desta vez, a França passa sem grandes percalços, deixando Suíça x Coréia do Sul como o jogo decisivo do grupo. A Suíça está na Copa, mas isso não significa muito. Classificou-se para a repescagem num grupo em que, além da França, primeira colocada, estavam Irlanda, Israel, Chipre e Ilhas Faroe – e mesmo assim quase perdem a vaga para os israelenses. Seu grande mérito foi eliminar, na repescagem, a Turquia, terceira colocada em 2002. Meu palpite é França e Coréia do Sul.

Grupo H. Espanha, Ucrânia, Tunísia, Arábia Saudita. A Tunísia fez bonito no seu último amistoso e goleou Belarus. Mas não acho que dê conta de complicar as coisas para a Espanha e a Ucrânia. A Ucrânia é um dos meus palpites de zebra para as fases finais. Olho neles: possuem um dos melhores atacantes do mundo, Shevchenko e um dos mais tarimbados goleiros da competição, Shovkovskiy. A Espanha tem a antiga fama de morrer na praia, mas neste grupo não há por onde: Espanha e Ucrânia.

O meu palpite, então, é que o Brasil pega os gringos nas oitavas-de-final, reeditando o horrendo jogo de 1994.

PS: Vocês acreditam que o meu vôo para o Brasil sai exatamente na hora do jogo Argentina x Holanda, provavelmente o melhor da primeira fase? Na hora de comprar a passagem olhei os horários de jogos do Brasil, claro, e me esqueci de olhar os outros. Chego aí algumas horas antes de Brasil x Japão. Até o dia 22 assistirei os jogos com os "maravilhosos" comentaristas gringos.

Atualização: Vejam também os palpites do Mestre Fábio Sampaio.



  Escrito por Idelber às 23:47 | link para este post | Comentários (40)



domingo, 28 de maio 2006

Famas exageradas: Zagallo, o “vencedor”

zagallo.jpg Insuportável na Copa do Mundo é ter que agüentar Zagallo. Zagallo imagina o planeta como uma gigantesca bola amarelofóbica. Todos “tremem” ante a amarelinha, todos “têm medo” de enfrentar o Brasil, todos têm pesadelo com a nossa seleção.

Não importa que a Holanda de Cruyff nos dê um vareio de bola, que sejamos derrotados por diferença de três gols pela primeira vez nas Copas ante a França, que a Nigéria vire um 3 x 1 em cima da gente em menos de 15 minutos – todos em jogos contra equipes comandadas por Zagallo. O velho continua no seu delírio egocêntrico e patrioteiro.

Deselegante e grosseiro, amigo das piores pessoas, Zagallo já aproveitou para fazer promessas idiotas, oferecer suposições bobas sobre o medo alheio e – seu passatempo predileto – insultar Telê Santana, a quem odeia. Afinal, a Telê são dedicados o amor e respeito universais de que, apesar de todas as conquistas, Zagallo jamais desfrutou. Sua raiva de Telê é exacerbada pelo fato de que o Fio de Esperança foi o verdadeiro inventor do ponta que fecha pelo meio, invenção que o Lobo adora reclamar para si.

Nas derrotas, Telê Santana assumia integralmente a responsabilidade; nas vitórias, transferia todo o mérito aos atletas. Zagallo é exatamente o oposto: cansa-se de falar das “suas” vitórias e nas derrotas (algumas delas grotescas) acovarda-se atrás de desculpas, insulta jornalistas ou põe a culpa em fatores externos ou nos jogadores.

Depois da derrota do Sarriá, Telê Santana deu uma coletiva em que foi aplaudido de pé pela imprensa do mundo inteiro. Depois da derrota na França em 1998, Zagallo protagonizou uma das cenas mais embaraçosas da história da seleção: insultos e gritos contra jornalistas depois uma final de Copa do Mundo.

Um dos grandes mitos do futebol brasileiro – mito bem exagerado – é o de Zagallo “grande vencedor”. Vejamos se o mito resiste à análise.

Zagallo comandou a seleção brasileira em três Copas do Mundo e uma Olimpíada. Na primeira Copa, em 1970, foi campeão, herdando de João Saldanha a equipe pronta, com os maiores meio-campistas e atacantes que o planeta já viu jogar. Zagallo fez mínimas alterações naquela equipe: Clodoaldo entrou e Rivellino foi deslocado para a ponta-esquerda. Mas alguém tem dúvidas de que teríamos sido campeões da mesma forma com Piazza no meio-campo e Edu na ponta-esquerda?

Para a Copa de 1974, Zagallo contava com uma das maiores gerações de craques da história do futebol: Pelé e Tostão já não estavam, mas o Brasil ainda tinha Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Carpeggiani, Leivinha, Paulo César Caju, Rivellino, Jairzinho e inúmeros outros craques, todos no auge. Zagallo conseguiu, com todas essas opções, montar uma seleção grotesca, que passou 180 minutos sem fazer gol (0x0 com Iugoslávia e 0x0 com a Escócia) e só avançou da primeira fase graças a um frango homérico do goleiro do Zaire (que garantiu o 3 x 0 que precisávamos, contra uma seleção que a Iugoslávia havia derrotado por 9 x 0). Depois, na segunda fase, Zagallo fez questão de dizer que a Holanda “não era nada”, num momento em que já havia dois anos que a Laranja Mecânica e o Ajax encantavam o mundo. O resultado foi o que se viu: Brasil eliminado levando um show de bola e apelando no final.

Nas Olimpíadas de 1996 em Atlanta, o Brasil se preparou como nunca para tentar conseguir o único título futebolístico que ainda não tem: o ouro olímpico. O regulamento permitia a presença de três atletas com mais de 23 anos, o que nos possibilitou levar uma equipe com Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo, Dida, Bebeto e Aldair. A empáfia de Zagallo, que insistiu que a Nigéria “tremeria com a amarelinha”, influiu diretamente no time que, displicente e irresponsavelmente, começou a dar toques de calcanhar no momento em que vencia o jogo por 3 x 1, aos 32 do segundo tempo. Resultado final: Nigéria 4 x 3 Brasil, na morte súbita.

Na Copa de 1998, outra talentosa geração foi parar nas mãos de Zagallo e – há que se reconhecer – os seus dotes de motivador foram fundamentais na vitória nos pênaltis sobre a Holanda, nas semifinais. Na final, o comandante escala um jogador que acabava de ter uma convulsão, numa das grandes irresponsabilidades já cometidas no comando do time. A equipe entra visivelmente preocupada com Ronaldo e leva um vareio de bola da França, sofrendo pela primeira vez uma goleada em Copas do Mundo.

Aliás, só em três edições da Copa do Mundo o Brasil perdeu mais de um jogo. Em duas dessas três edições o técnico era Zagallo.

Sim, ele foi campeão carioca com o Flamengo em 2001, com um gol de Petkovic no último minuto. Não se lhe pode negar uma coisa: uma sorte incrível, que já vem de anos. Vale lembrar que o ponta-esquerda titular da seleção às vésperas da Copa de 1958 era Pepe, que se contundiu um pouco antes da competição. Zagallo inclusive não deveria ter ido: os grande pontas do Brasil naquele momento eram Pepe e Canhoteiro.

Depois da Copa de 1998, Zagallo foi contratado para dirigir a Portuguesa de Desportos. Com um grupo talentoso em mãos, ele levou a equipe às últimas posições do Campeonato Brasileiro, iniciando a queda da Lusa rumo à Segundona.

Mas segundo Zagallo, ele é o “único pentacampeão do mundo”, já que em 1994 foi coordenador técnico e em 2002 era comentarista da Globo.



  Escrito por Idelber às 21:35 | link para este post | Comentários (32)



segunda-feira, 15 de maio 2006

A lista de Parreira

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Saiu a lista de Parreira, sem grandes surpresas. Não surpreende tampouco que Zagallo, o rei das grosserias, tenha aproveitado para insultar a memória de Telê. Sobre isso escrevemos outra hora.

Grande notícia
: Roque Júnior está fora da Copa!

Comentários sobre a lista:

Goleiros: Dida, Rogério Ceni e Júlio César. É uma pena que Marcos esteja de fora, mas é a decisão correta. Ele está há tempos sem jogar. O Juca Kfouri teria convocado Gomes no lugar de Júlio César. Também não sou grande fã de Júlio César, mas com Dida e Rogério me sinto tranqüilo.

Laterais: Cafu, Cicinho, Roberto Carlos e Gilberto. Os três primeiros estavam confirmadíssimos e a última vaga estava entre Gilberto, Serginho, Júnior e Gustavo Nery. Apesar de todo o lobby do Galvão Bueno e da Rede Globo, Gustavo Nery está fora, com toda razão: não tem bola para vestir a amarelinha, nunca teve. Eu não levaria Gilberto. Levaria Zé Roberto como lateral titular, com Roberto Carlos na reserva e um lugar no meio-campo para Juninho Pernambucano.

Zagueiros: Lúcio, Juan, Luisão e Cris. Dos males o menor, Roque Jr. ficou fora. Eu levaria Cláudio Caçapa (mesmo em recuperação) ou Alex no lugar de Cris. Agora é torcer para que Lúcio não se machuque.

Meio-campo: Émerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho, titulares. Gilberto Silva, Edmílson, Juninho Pernambucano e Ricardinho, reservas. Perfeito, mas eu jogaria com Juninho no time titular e Zé Roberto na lateral esquerda. Muita gente não gosta de Émerson, e eu também não, mas no esquema do Parreira não vejo como prescindir dele.

Ataque: Ronaldo, Adriano, Robinho e Fred. Perfeito.

Provavelmente foi das convocações mais consensuais da história da Seleção. Alguma discussão aqui ou ali, mas não há grandes polêmicas. A lista é muito boa.

Sobre as outras seleções, os meus palpites são:

Campeões do mundo que desta vez não têm fôlego para ir longe: Alemanha e Itália (não, não acredito nem no favoritismo "caseiro" da primeira nem no "bom momento" da segunda).

Campeões do mundo que têm time para ir até o fim: Inglaterra e Argentina.

Times que sempre morrem na praia mas que desta vez podem levar: Holanda e Espanha.

Muito cuidado com: México e Ucrânia.

Em breve, um blog sobre a Copa, com um título esquisitíssimo em alemão, e participações de feras como Milton Ribeiro e Ubiratan Leal, além de palpiteiros como eu.



  Escrito por Idelber às 13:48 | link para este post | Comentários (32)



sexta-feira, 21 de abril 2006

Morreu o Mestre


(morreu hoje em Belo Horizonte o mestre, o melhor de todos, o maior técnico de futebol brasileiro de todos os tempos. Não há personalidade mais querida no mundo do futebol que Telê Santana. Adorado muito especialmente por atleticanos, são-paulinos, gremistas, palmeirenses e tricolores cariocas, Telê tinha a admiração de todos. Como homenagem, o blog republica o post feito no dia 27 de julho do ano passado, quando Telê comemorou 74 anos. Foi o seu último aniversário)

tele.jpgCom um dia de atraso, o blog saúda o 74o aniversário de Telê Santana, comemorado neste dia 26 de julho. Seria exagero dizer que foi o maior técnico da história do nosso futebol? Com certeza, foi o maior entre os que eu vi.

Como jogador, no Fluminense, do alto dos seus 57 kg, inventou uma posição: a do ponta que fecha para o meio, recua, ajuda na marcação e arma o contra-ataque.

Mas as maiores glórias foram como técnico. Três anos depois de encerrada a carreira, em 1965, recebe o comando do Fluminense e leva a equipe ao título do Campeonato Carioca de 1969 e do Roberto Gomes Pedrosa de 1970, o Brasileirão da época. Ainda em 1970 assume o Atlético-MG e quebra a hegemonia de 5 anos do ex-Ipiranga, que tentava o hexacampeonato.

Ainda sob a euforia do tricampeonato da seleção no México, a antiga CBD decide organizar o primeiro certame realmente nacional do nosso futebol, o Campeonato Brasileiro. Naquele pioneiro Campeonato de 1971, havia vários favoritos: o Santos de Pelé; o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha; o Botafogo de Jairzinho e Carlos Alberto; o Palmeiras de Ademir da Guia; o ex-Ipiranga de Tostão e Dirceu Lopes.

Mas quem papou o título foi o Galo de Dadá.

Obra pessoalíssima de Telê Santana, que forjou uma equipe campeã com 11 jogadores limitados, que sabiam suas funções e seguiam fielmente o seu técnico. Só Telê Santana foi capaz de quebrar a hegemonia do rolo compressor do Internacional, conquistando com o Grêmio - de novo, no comando de um limitado elenco - o histórico Campeonato Gaúcho de 1977.

Na Seleção Brasileira, armou a maior máquina de jogar futebol que vimos desde a era Pelé, o escrete de 1982 - que parecia jogar por música, sempre ofensivamente, surpreendendo o espectador e o adversário com jogadas geniais. Perdeu a Copa de 1982 numa fatalidade e começou aí o absurdo mito do "Telê pé frio".

A corja da CBF, a camarilha da Rua da Alfândega, jamais lhe perdoou alguns pecados: um deles, o de ser mineiro. O outro, o de ser avesso à politicagem e ao conchavo. O terceiro, o de jamais aceitar interferências no seu trabalho. E finalmente o de jamais deixar de denunciar a violência e os árbitros e cartolas coniventes com ela.

Uma vez, perguntaram ao grande Zico se havia algum treinador que jamais havia mandado bater num adversário. Zico respondeu: somente Telê.

Por tudo isso, torci muito pela seleção de 1986, que poderia ter sido a redenção de Telê no comando do Brasil. Mas de novo, numa fatalidade povoada de penais perdidos, o Brasil foi eliminado da Copa e o futebol ofensivo de Telê foi substituído por retrancas e brucutus. Ganhou força o mito do "pé frio".

Assumiu o Galo de novo e, às vesperas da decisão do Campeonato Mineiro de 1988, teve que ouvir durante toda a semana que o ex-Ipiranga já festejava o bicampeonato, pois tinha a melhor equipe e enfrentava um "pé frio". Os garotos do Galo, quase todos oriundos dos juvenis, fizeram um pacto pela vitória por Telê, por amor a Telê. A massa tomou 2/3 do Mineirão, como é de costume nos clássicos mineiros, e gritou o nome do seu técnico ao longo do jogo. Os meninos se encheram de brios e venceram por 1 x 0. Galo campeão mineiro de 1988. Uma multidão esperou Telê para carregá-lo nos ombros.

Mas ainda faltava a grande volta por cima.

Em outubro de 1990, o São Paulo era uma equipe em crise, já há quatro anos sem títulos importantes. Telê assume o Tricolor e em menos de um ano monta o maior esquadrão da história do clube. Naquele time, Telê burilou peça por peça. Um certo lateral direito apenas esforçado recebeu horas e horas diárias da atenção do mestre (especialmente nos cruzamentos) e em pouco tempo se transformou no Cafu depois capitão do pentacampeonato.

Com Telê, o São Paulo foi campeão dos dois campeonatos mais importantes do país em 1991, o Paulista e o Brasileiro. Em 1992 levou o São Paulo ao título da Libertadores. Ganhou o campeonato mundial interclubes. Trouxe ao seu time outro mineiro apedrejado depois da tragédia da Copa de 1982, o já veterano Toninho Cerezzo. Sob a batuta de Cerezzo, Raí e Telê, o São Paulo repetiu a dose em 1993: campeão da América e campeão mundial. Durante 5 anos no São Paulo, Telê fartou-se de ganhar títulos, de calar a boca dos críticos e de encantar o mundo com o futebol bonito e ofensivo que a seleção brasileira jamais voltou a jogar desde que ele deixou de ser seu treinador.

Vive agora com a saúde bem debilitada, mas cercado, aqui em Minas Gerais, de um amor absolutamente unânime.

Hoje à noite jogam Atlético-MG e São Paulo no Mineirão. Seria uma linda oportunidade para que as torcidas dos dois clubes prestassem uma homenagem àquele que foi o maior técnico de suas histórias.

Evoé, Telê.



  Escrito por Idelber às 16:13 | link para este post | Comentários (27)



domingo, 02 de abril 2006

Testes infalíveis para escalar as seleções de todos os tempos

ubaldo.gif Ubaldo, que, dizem os mais velhos, era melhor que Reinaldo.

Uma das instituições saborosas que o gênero conversa sobre futebol legou à cultura são as inevitáveis seleções de todos os tempos, a escolha dos melhores em cada posição, os 11 verdadeiramente supimpas que jogaram por cada clube, por cada país ou pelo planeta. Esse gênero, praticado por fanáticos de futebol de todas as gerações, compara os craques de diferentes épocas. Padece, portanto, de uma assimetria: só uma parcela ínfima do eleitorado viu Domingos da Guia, Leônidas ou Patesko jogar. Uma parcela maior, mas também pequena, tem anos suficientes para ter visto Zizinho ou Ademir de Menezes ao vivo. Hoje em dia, já bem mais de 50% da população brasileira é jovem o bastante para jamais ter visto o Rei Pelé em ação. Como escalar qualquer seleção de todos os tempos numa mesa em que a maioria começou a curtir futebol vendo Zico? E uma boa parte nem de Zico se lembra, já que foi introduzida aos encantos da bola por Bebeto e Romário? Aí é que entra o papel do videotape, mas não só do vídeo: mais que qualquer outra coisa, entra aí o papel do anedotário, da contística, das lendas do futebol, propagadas oralmente e por escrito.

Como comparar essas diferentes épocas? Com a ajuda da música e da literatura, claro.

Conheça os testes infalíveis para escalar as seleções de todos os tempos, o texto deste mês no Alegorias, a minha coluna na Germina.

(e quem tiver outros testes infalíveis do gênero, volte depois para compartilhar).



  Escrito por Idelber às 21:47 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 24 de dezembro 2005

Texto novo na Germina

river.jpgboca.jpg



Como diria Borges, o que segue é verdadeiro, excetuando-se os nomes próprios, lugares e datas. A história é conhecida, mas vale a pena relatá-la aos mais jovens: corria o ano de 1905, na cidade de Buenos Aires, já a cosmopolita capital do território que, um par de décadas antes, havia concluído a matança de seus índios e optado pelo nome de República Argentina. O perfil da cidade se alterara bastante com a imigração, predominantemente operária e européia. No começo do século XX só os Estados Unidos receberam mais imigrantes que a Argentina. Vinham da Itália, Rússia, Europa central, Espanha. A maioria da Itália. No bairro operário de La Boca, havia dois times de futebol, River Plate e Boca Juniors. O bairro era da colônia italiana, mas os nomes dos times já mostram que, em matéria de futebol, a herança inglesa não se apaga facilmente.

O diacho é que não só tinham o mesmo bairro-sede, mas também idênticos uniformes: camisa branca com listras transversais vermelhas, como a seleção peruana. Habitar a mesma sede, vá lá, mas camisa igual ninguém agüenta. Foi marcada uma partida para decidir a questão. O acordo que fizeram essas duas equipes, no longínquo ano de 1905, sempre me pareceu um testemunho dessa máquina insólita que é o futebol: o vencedor manteria a camisa, mas teria que se mudar do bairro. O perdedor continuaria em La Boca, mas teria que arranjar outro uniforme. Só mesmo no futebol trocar de casa é mais fácil e aceitável que trocar de camisa. Trocar de partido, de mulher, de bairro, tudo isso não é nada. Trocar de camisa, eis aí a verdadeira punição.

A peleja foi disputada como o são todas as pelejas argentinas: brigada no meio campo, com muita catimba e provocação.

Continue lendo Falsa pero verdadeira crônica sobre as origens de Boca e River, o texto deste dezembro no Alegorias, minha coluna na Germina.



  Escrito por Idelber às 01:32 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 28 de novembro 2005

We'll be back

galo.jpg

Alguém me ajuda a escolher o melhor consolo?

a. Nos jogos da Série B não há narração de Galvão Bueno.

b. Os jogos da Série B são às terças e sextas, deixando o fim de semana livre.

c. Acompanhando a Série B eu terei oportunidade de ir duas vezes a Recife.

d. Jogando pela Série B não temos que enfrentar o Goiás.

e. No sofrimento e na humilhação extremas nos tranformamos em pessoas melhores, como propõe a Santa Madre Igreja.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (37)



sábado, 26 de novembro 2005

Até a pé nós iremos

(Letra e música são de autoria, claro, de Lupicínio Rodrigues, o gremista negro nascido num ano em que o Grêmio ainda não aceitava negros)

Até a pe nós iremos
para o que der e vier
mas o certo é que nós estaremos
com o Grêmio onde o Grêmio estiver

Noventa anos de glórias
tens, imortal tricolor
os feitos da tua história
canta o Rio Grande com amor

(aqui o acordeom de Borghettinho, por favor)

Nós, como bons torcedores
sem hesitarmos sequer
aplaudiremos o Grêmio
aonde o Grêmio estiver

Lara o craque imortal
soube seu nome elevar
hoje com o mesmo ideal
nós saberemos te honrar

****************

Um time de qualquer outro lugar do Brasil teria saído de campo e melado o jogo: pênalti absurdo inventado, quatro jogadores expulsos, um atleta agredido covardemente por um policial criminoso, meia hora de paralisação antes da cobrança do pênalti para o Náutico que, se convertido, jogaria por terra um ano de trabalho do Grêmio. Qualquer outro time teria melado o jogo. Não os gaúchos.

Voltaram a campo, o fantástico Galatto defendeu o pênalti e o grande Anderson, negro como o pioneiro Tesourinha 53 anos antes, fez o gol que foi, de verdade, um ato institucional de Deus - no dia em que outro árbitro debilóide, o sr. Djalma Beltrami, quase provoca uma tragédia com mortos e feridos no estádio dos Aflitos, em Recife.

Salve Grêmio. Essa talvez tenha sido a mais incrível vitória de um time de futebol que eu já vi na vida, em 25 anos de boleiro.

Não dá uma inveja danada do Rio Grande do Sul de vez em quando?



  Escrito por Idelber às 18:49 | link para este post | Comentários (36)



terça-feira, 01 de novembro 2005

Times Inesquecíveis que eu vi, III

(esta série já homenageou o Internacional 1975-6 e o Grêmio 1981-3; esta vai com dedicatória para Lucia Malla, Luninha e todos os tricolores)

fluminense-1976.jpg

A praxe é que vocês escalem a equipe. Bem, a escalação desta máquina é tão fácil que se nós não a tivermos até 2 da tarde na caixa de comentários será uma humilhação pública para este blog.

Desses da foto, 9 vestiram a camisa da seleção brasileira, e mais 1 a da seleção do seu país. Só o último em pé à direita pode dar algum trabalho, por nunca ter sido de seleção. Junto com o Inter de 75-6, foi a primeira máquina que vi jogar.

Como a escalação é muito fácil, deixo outras perguntinhas, em negrito ou em links, sobre esse verdadeiro escrete: ele foi montado por um certo presidente que inventou uma certa prática para sacudir de novo o que um músico-poeta chamou de "a capital do futebol". Sobre esse time um certo jornalista roqueiro recentemente escreveu um livro.

Junto com outra máquina, esse foi um dos dois grandes times brasileiros dos anos 70 que venceu estaduais e encantou, maravilhou a Europa durante seus torneios de verão, mas nunca ganhou um Nacional ou Libertadores. Na sua primeira semifinal de Brasileirão foi eliminado em casa, pois seu treinador, otimista, falou demais e o comandante do adversário usou suas declarações no vestiário, incendiando a sua equipe, que naquela tarde, por sinal, apresentou ao Maracanã dois monstros da bola. Na segunda semifinal, também em casa, foi eliminado numa inesquecível invasão de torcedores adversários, no jogo que inicia o desmanche da máquina, que durou dois anos.

Esse Fluminense marcou época e papou com facilidade os Campeonatos Carioca de 1975 e 1976, dando shows inesquecíveis (houve um 4 x 1 sobre o excelente Vasco da época que ficou na história). Com vocês a palavra sobre quem são os jogadores e os referentes dos negritos e link.



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (46)



sexta-feira, 28 de outubro 2005

Brincadeira de Adivinhação - Campeonato Brasileiro

Brincadeirinha de adivinhação deste blogueiro mui masoquista:

Quais serão os quatro times rebaixados à segunda divisão do Campeonato Brasileiro neste ano de 2005?

No final do campeonato a gente sorteia um presentinho entre os leitores que tiverem acertado.

PS: O que os grandes meios de comunicação de massa estão fazendo que ainda não contrataram o Ubiratan Leal? O cara é muito melhor que todos os comentaristas de futebol da TV brasileira. Uma visita ao Balípodo vale 15 mesas-redondas de domingo à noite.

PS 2: O Juca Kfouri e o José Roberto Torero são jornalistas experientes, com vasta trajetória na crônica esportiva. Mas só agora estão descobrindo o que é administrar um blog. No blog do coitado do Juca, de cada 5 comentários, 3 são tamancadas à sua corintianice e suposta falta de imparcialidade. Outro dia o blog do Torero publicou uma carta da tia do rapaz ponte-pretano assassinado na semana passada e teve que aturar um monte de vândalos insultando a vítima. Vamos ver quanto tempo durarão aquelas caixas de comentários no formato em que estão hoje.



  Escrito por Idelber às 03:50 | link para este post | Comentários (28)



quinta-feira, 13 de outubro 2005

Êta, Joguinho Ruim

corner.jpghinchada.jpg

Noite linda no Estádio Nacional (gracias, Claudio), mas o time do Chile realmente não merece ir à Copa. Acho que não vi três passes certos consecutivos na noite toda. Milton, o que dizer de um time cujo grande craque é o volante brucutu do ex-Ipiranga?

Torcida não faltou, mas não deu. Notinhas interessantes para os fãs de futebol:

* Quase 40% do Estádio Nacional está reservado para a tribuna de luxo (onde os políticos entram de graça, e quem quiser pagar, desembolsa 70.000 pesos, ou 140 dólares) e a de semi-luxo (22.000 pesos, ou 44 dólares). Quem vai de arquibancada paga um preço razoável (6.000 pesos, 12 dólares), mas se localizará necessariamente atrás de um dos gols. Nenhum estádio brasileiro separa os ricos dos pobres dessa forma tão brutal.

* O gigantesco outdoor da Coca-Cola situado na entrada do estádio é uma réplica da imagem (muitíssimo difundida no Chile, e presente em livros escolares, etc.) dos chilenos fincando a bandeira em território boliviano, momento de vitória na Guerra do Pacífico, que tirou da Bolívia a saída para o mar no século XIX. No lugar da bandeira chilena, claro, uma bandeira da Coca-Cola.

* A polícia chilena, nos estádios, se comporta com particular grosseria, falta de sensibilidade e burrice. São eles, em geral, que começam todas as provocações.

* O Chile perdeu a classificação por causa da pífia campanha no primeiro turno, quando o treinador ainda não era Nelson Acosta. A torcida não perdoou o técnico anterior: Olmo / concha de tu madre / por tu culpa / no vamos al Mundial era o que mais que se ouvia no final do jogo.

*A noite foi tranqüila porque era jogo da seleção, mas os clássicos entre Universidad de Chile e Colo-Colo (a equipe financiada e sustentada por Pinochet) causam batalhas campais de fazer inveja a qualquer Mancha Verde ou Gaviões da Fiel.



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quarta-feira, 12 de outubro 2005

Marmelada à vista?

Na área futebolística, a coisa anda fervendo entre chilenos, argentinos e uruguaios. O Chile depende não só de vencer o Equador hoje, mas também de uma "mãozinha" da Argentina, que teria que arrancar um ponto do Uruguai em Montevidéu, e outra do Paraguai, que teria que pelo menos empatar com a Colômbia em Assunção. Em condições normais, empates ou vitórias guaranis e argentinas nessas partidas seriam resultados esperáveis.

Mas aí começam as suspeitas: há uma tradicional simpatia entre uruguaios e argentinos, e uma igualmente histórica má vontade entre argentinos e chilenos (os dois países quase entraram em guerra em 1978, quando eram, ambos, governados por ditaduras de direita!). Nas eliminatórias passadas, o 1x1 que levou o Uruguai à Copa foi conseguido exatamente contra uma já classificada Argentina, numa partida bem estranha.

Pasmem: numa pesquisa feita pelo Clarín (jornal argentino), quase a metade (48%) dos leitores estava de acordo com que a Argentina facilitasse as coisas para o Uruguai com o objetivo de eliminar o Chile e a Colômbia da Copa. Somente 52% disseram que "a Argentina deve entrar para ganhar sempre". Dieguito Armando Maradona entrou na briga, dizendo: "Quem são os chilenos e os colombianos para pôr em dúvida a honra do jogador argentino?"

Quem lê este blog sabe da minha admiração pela Argentina, mas parece que Dieguito esqueceu-se de como a alvi-celeste chegou às finais do Mundial de 1978, num episódio vergonhoso que desmoralizou e enterrou definitivamente o outrora respeitável futebol peruano.

Só para que conste: o árbitro do jogo entre Colômbia e Paraguai é Márcio Rezende de Freitas, que as torcidas do Santos e do Atlético-MG conhecem muito bem. Então combinemos: hoje à noite eu vou, com ela, ao Estádio Nacional torcer pelo Chile (já temos ingressos!) e vocês fiquem de olho na maracutaia aí. Eu já não duvido de nada. Alguém aí duvida? Alguém aposta em marmelada?

PS: Dá-lhe, Galo! Nos três últimos jogos contra a mulambada, o Galo acumula um 11 x 3 (6x1 em Ipatinga, 3x1 no Mineirão, 2x1 no Rio). Nada como a mulambada e o ex-Ipiranga na mesma semana para levantar a moral do time.

PS 2: Segue a discussão aqui embaixo sobre o referendo das armas
de fogo. Meu interesse é muito menos fazer campanha pelo sim do que estimular o debate. Há ótimos argumentos ali, dos dois lados. Continuem o papo por lá também.



  Escrito por Idelber às 05:08 | link para este post | Comentários (7)



segunda-feira, 10 de outubro 2005

Futebol - Série B e Eliminatórias da Copa

Bem, apesar de toda a nossa torcida e do belo segundo tempo dos chilenos contra a Colômbia em Baranquilla (num calor de 40 graus, o que é o equivalente a levar um carioca para jogar em La Paz), la Roja só arrancou um empate e ficou na seguinte situação:

Brasil, Argentina, Equador e Paraguai carimbaram passaporte para a Copa da Alemanha. A vaga da repescagem, a ser disputada contra a Austrália, está entre Colômbia, Uruguai e Chile.

Se o Uruguai derrota a Argentina em Montevidéu, a vaga é sua.

Se a Colômbia vence o Paraguai em Assunção, fica com a vaga desde que o Uruguai não vença a Argentina, pois apesar de ter o mesmo número de pontos que o Chile, tem um saldo de gols bem superior.

O Chile fica com a vaga se derrotar o Equador em casa e Uruguai e Colômbia não passarem de empates em seus duros jogos contra a Argentina e o Paraguai.

Como Uruguai e Colômbia têm jogos muito difíceis, a confiança aqui no Chile é grande. Nesta quarta-feira eu vou pisar pela primeira vez no Estádio Nacional, onde dezenas de milhares de presos políticos padeceram num dos maiores campos de concentração da história latino-americana.

Enquanto isso, no Brasil, parece que Grêmio, Santa Cruz, Náutico e Lusa devem disputar o quadrangular que vai apontar os dois times que sobem para a Série A do ano que vem.

Pelo que vêm jogando, Grêmio, Santa Cruz e Náutico são os favoritos. Acho que as vagas ficam com Grêmio e um dos pernambucanos. Muito provavalmente os dois clássicos regionais decidirão a coisa no quadrangular final.

Alguém arrisca palpites nestas duas decisões?

PS: O Chile sempre foi pioneiro em termos de privatizações. Mas eu ainda não tinha visto a estrada totalmente privatizada, e com tecnologia eletrônica. Não se trata de um mero pedágio: as novas estradas inauguradas ao redor de Santiago exigem dos veículos que nela transitam um aparelhinho "medidor" de quilômetros rodados naquela via. A maquininha, que parece um abridor de porta de garagem, marca o trajeto feito e depois você recebe a conta a domicílio. Dentro em breve: as maravilhas da privatização do ar, que eu acho que é o único que falta privatizar por aqui.



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domingo, 25 de setembro 2005

O mais novo escândalo do futebol brasileiro

bola.jpg


A bomba do fim de semana foi a reportagem da Revista Veja que relatou investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo) e da Polícia Federal acerca de uma quadrilha que fraudava jogos do Campeonato Brasileiro através de um árbitro, o sr. Edílson Pereira de Carvalho. Há suspeitas de envolvimentos de outros árbitros também.

Por uma propina de 10 a 15 mil reais, o sr. Edílson (o mesmo que xingou os jogadores argentinos Tévez e Sebá, do Corinthians, de "gringos de merda") manipulava o resultado de uma partida, em geral a vitória do time considerado favorito. Ao ser designado para um jogo, ele avisava à quadrilha de apostadores (empresários e donos de bingos) que "garantia" um determinado resultado, fazendo com que a quadrilha ganhasse fortunas em sites de apostas.

A partir de uma denúncia da revista, a Polícia Federal conseguiu autorização judicial para escutas telefônicas, e pescou pérolas como esta conversa entre Edílson e o empresário Nagib Fayad anterior ao jogo entre Vasco e Figueirense:

Edilson: Amanhã eu faço Vasco e Figueirense.

Fayad: Qualquer coisa eu ligo pra ocê. Tô desanimado.

Edilson: O Figueirense joga sem cinco titulares. E o Vasco tem de ganhar de qualquer jeito (...). Vou marcar falta no meio-de-campo. Se o cara reclamar, meto pra fora (...). Não joga Edmundo, Cléber, Bilú e Axel (do Figueirense) (...)

Fayad: É brincadeira. Faz o seguinte: deixa eu ligar pra ocê até meia-noite, deixa que eu vou ver o que fazer.

Edilson: Tá jóia, o que você quiser. Pode jogar até os carros que você tem que amanhã eu saio de escolta (do jogo) do Figueirense.

O Vasco venceu o jogo por 2 x 1, com um gol de pênalti escandaloso. O Figueirense já fala em virada de mesa.

Em compensação, num jogo também apitado por Edílson, o Vasco foi derrotado pelo Botafogo por 1 x 0 no dia 08 de maio, com um pênalti que o próprio árbitro afirmou não haver existido. A lista de partidas apitadas por Edílson é uma sucessão de manipulações vergonhosas.

O safado já está preso, mas tudo indica que ele é só a ponta do iceberg.

Vale lembrar que esta é a última de uma série de escândalos de manipulação de resultados no futebol brasileiro.

Entre 1981 e 1982, a Revista Placar, então dirigida pelo jornalista Juca Kfouri, desmascarou a chamada Máfia da Loteria Esportiva. A Loteca nunca mais foi a mesma, mas o processo se arrastou na justiça com poucos resultados.

Em 1995, o ex-árbitro Wilson Roberto Catani foi flagrado no telefone dizendo ter recebido R$ 18 mil para beneficiar o Botafogo de Ribeirão Preto na Série A-2 do Campeonato Paulista.

Em 1997, Ivens Mendes, que comandava a Conaf (Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol), foi apanhado em gravações pedindo dinheiro ao presidente do Corinthians, Alberto Dualib, e ao homem forte do Atlético-PR, Mário Celso Petraglia. Os dois cartolas foram suspensos mas já voltaram aos seus cargos.

Em 2002, Armando Marques chegou a ser afastado da Comissão de Arbitragem de CBF após coagir um árbitro a mentir na súmula. Armando Marques, o mesmo que escandalosamente roubou o ex-Ipiranga na final do Brasileirão de 1974 contra o Vasco, também voltou ao cargo (até eu, um atleticano que no Rio tem simpatias pelo Vasco, devo admitir que a final de 1974 foi uma vergonha de roubo).

Vale lembrar que tática descrita pelo sr. Edílson - inventar falta no meio-campo e se alguém reclamar, pôr para fora - foi exatamente a mesma usada pelo sr. José Roberto Wright na partida decisiva da Libertadores de 1981 entre Atlético-MG e Flamengo no Serra Dourada, encerrada antes dos 40 minutos do primeiro tempo, porque 5 jogadores do Galo haviam sido expulsos pelo mesmo sr. que hoje "comenta" e pontifica sobre arbitragens para a Rede Globo. Sobre os interesses econômicos envolvidos naquela disputa pela hegemonia no futebol brasileiro no começo dos anos 1980, muito já se disse, mas nada se provou.

Se há uma instituição que eu admiro neste país, é a Polícia Federal. Mas com esse histórico, fica a pergunta: será este escândalo mais um a terminar em pizza?



  Escrito por Idelber às 04:33 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 23 de setembro 2005

Times Inesquecíveis que eu vi, II

gremio83.jpg

A série Times inesquecíveis que eu vi continua com uma provocação aos meus amigos colorados: Milton, Gejfin, Elenara e Marmota.

Em compensação, acho que o Tiagón e o Roman vão gostar.

Inaugurei esta série com uma homenagem ao Colorado de 1975/76, o primeiro time que aprendi a amar.

Mas no dia 10 de dezembro de 1983, aos 3 minutos do primeiro tempo da prorrogação, o relógio do Estádio Nacional de Tóquio marcava Grêmio 1 x 1 Hamburgo da Alemanha. Um certo craque, cuja cara está cortada nessa foto, aplicou três dribles seguidos e fuzilou o goleiro Stein, que está procurando a bola até hoje. Grêmio 2 x 1 Hamburgo.

Grêmio campeão do mundo de 1983
.

O caminho que levou a essa conquista começou no Morumbi, em 1981. Ainda me lembro da decisão daquele campeonato brasileiro.

Entre a Anistia (1979) e as primeiras eleições livres sob ditadura (1982), existiram, no Brasil, três times: Atlético-MG, São Paulo e a mulambada (direitos autorais do termo "mulambada" são do meu amigo Marcos VP).

O resto era resto.

Por isso, quando o Grêmio foi ao Morumbi decidir o título de 1981 com o São Paulo de Oscar, Darío Pereyra e Marinho Chagas, ninguém apostava nos gaúchos.

Menos eu. Lembro bem o que pensei: "A defesa dos caras é muito sólida. Eles vão acabar ganhando esta joça". Com um gol de Baltazar, o primeiro pop star evangélico do futebol brasileiro, o Grêmio levou o caneco de 1981, e abriu o caminho para a conquista da Libertadores e do Mundial de 1983.

Para cada time inesquecível a gente escolhe a característica mais marcante: a desse time do Grêmio era a combinação entre a marcação implacável e a saída para o ataque com toque refinado.

Para cada time homenageado, pedimos aos leitores que escalem a equipe: neste, falta um jogador na foto, mas imagino que os gremistas saberão quem é.

Quem se habilita a escalar a máquina? E quem se habilita a sugerir outros times pós-1975 para esta série?



  Escrito por Idelber às 01:53 | link para este post | Comentários (26)



segunda-feira, 29 de agosto 2005

No Museu da Bombonera

No fundo pelas mesmas razões pelas quais eu acabo nunca indo ao Preservation Hall em New Orleans, nenhum dos meus amigos e conhecidos argentinos havia visitado uma super (e recente) atração turística da cidade: o museu do Boca Juniors, que fica no mesmo prédio da Bombonera. Eles têm lá suas razões extra, também: o presidente do Boca é o ultra conservador político da direita argentina, Mauricio Macri (obrigado pela correção, Santiago), que obviamente tenta usar o sucesso do time como alavanca eleitoral.

Mas abstraindo isso, o museu do Boca Juniors é passeio obrigatório para o amante do futebol em Bs. As. É superior aos museus que já vi na Europa, como o do Real Madrid. Mesmo numa manhã de sexta gelada, há uma muvuca de turistas do lado de fora. Há bares, churrasqueiras na rua, bailarinos de tango e até um pintor que faz um poster com craques e dois lugares para alguém pagar mico na foto:

Bombonera-fora.jpgpintura-jogo.jpg


Lá dentro começa um passeio vertiginoso. Três andares de troféus, cinema em 360 graus, televisões, computadores, fotos e camisas. Primeiro, uns 10 metros por 3 altura com fotos pequenas de centenas de jogadores do time em todos os tempos, com suas respectivas datas de estréia. Do outro lado da parede, estrelas amarelas com nomes de sócios. Subindo a rampa que sai desse corredor, emoldurações de camisas que o Boca usou ao longo da história:

estrelas-boca.jpgCamisas-Boca.jpg


Ao final da primeira volta do caracol, um dos dois pontos mais impressionantes do museu. Para cada ano em que o Boca foi campeão, há três televisores sobrepostos a um painel com a campanha completa do time. O televisor do meio mostra os gols e momentos especiais do campeonato, o da esquerda mostra eventos daquele ano na Argentina e o da direita os acontecimentos mundiais. É televisão para encher horas e horas de visita. Coloque aí uns 30 anos que o Boca foi campeão, vezes 3 TVs, são umas 90 TVs com imagens rolando sem parar. No caminho para o segundo andar, uma sala com fotos gigantes de vários ídolos do Boca. No detalhe o maior goleiro da história do time, Gatti:


painel.jpggatti.jpg

A galeria de troféus é vasta e inclui Campeonatos argentinos, Libertadores e um caneco mundial inter-clubes, mas eu preferi fotografar o troféu de um torneio desimportante, que o Boca conquistou em 1951 surrando a mulambada. O futebol brasileiro não deixa de estar presente dignamente no museu, no entanto. A única camisa não boquense exposta é a 10 do Rei, usada por Ele na final da Libertadores de 1963, quando o Santos derrotou o Boca:

DSC00533.JPGCamisa-santos.jpg

A parte mais impressionante do museu elude qualquer foto: uma sala escura, com um cinema em 360 graus simulando que você é um atleta do Boca, subindo o túnel, entrando em campo (o surround sound do lugar é incrível e altíssimo) até o momento de êxtase em que através de uma câmera situada atrás da bola o filme sugere que você, espectador, está fazendo um gol por cobertura na Bombonera lotada. Experiência poderosa, a do cinema 360. O passeio inclui também uma visita às instalações e ao gramado da Bombonera,

Bombonera.jpgBombonera-dentro.jpg

onde o que mais me impressionou foi quão íngremes e altas são as arquibancadas, e quão perto o torcedor fica do gramado (o torcedor sentado na primeira fila lá embaixo fica a um máximo de quatro metros da linha lateral).

A visitinha é barata, 9 pesos, o que dá uns 7 reais e 50 :)

Não dá para concluir esse post sem dizer o óbvio: seria legal se o futebol brasileiro cuidasse mais da sua memória. O único museu digno do nome que eu conheço é o do São Paulo F.C., que está a anos-luz de ser comparável ao do Boca.

PS 1: As provocações estimulam os grandes. Parabéns ao Paraíba por um dos melhores posts da história de seu blog, quase tão bom como aquele.

PS 2, sobre o furacão Katrina: eu já encarei vários furacões em New Orleans, mas nenhum com essa gravidade, com essa força e com essa certeza de que vem de frente. O servidor de Tulane já está fora do ar, portanto meu email de lá está inacessível. O do blog funciona firme e forte. Quem for de reza, que reze pela cidade, pelos meus amigos, pelo cachorro do Alex e se sobrar um tempinho pelos meus livros e CDs, estocados num galpãozinho que eu espero que sobreviva. Amigos de New Orleans, fiquem à vontade para, quando puderem e tiverem acesso à internet, usar o blog para dar notícias trocar recados e tranquilizar a gente.



  Escrito por Idelber às 03:30 | link para este post | Comentários (18)



sexta-feira, 05 de agosto 2005

No Rastro de Pelé

estatua-pele.jpg

Há uma história interessante sobre esta estátua de Pelé, localizada aqui no centro de Três Corações, sua cidade natal (Pelé nasceu aqui e mudou-se criancinha para Bauru, SP). Diz a lenda - e eu vendo o peixe como me passaram - que se programou uma homenagem ao Rei na cidade, mas que ele pôs obstáculos ou exigiu cachê para comparecer. Indignados, fazendeiros da região ameaçaram "laçar" a estátua e arrancá-la da praça. Já com a imprensa reunida na rua, telefonaram ao Rei e lhe comunicaram a decisão. Só aí ele viu a gravidade da coisa e resolveu aparecer. Realizou-se a homenagem e a estátua continua lá, embora a bola que a acompanha seja roubada de tempos em tempos. A casa onde Pelé nasceu localizava-se no número 86 do que é hoje a Rua Edson Arantes do Nascimento. A casa já não está lá. Há um lote vago no lugar.

Não há um museu Pelé em Três Corações, mas a memória do Rei ocupa uma grande sala da Casa de Cultura da cidade, esta:

eu-pele-museu.jpg

Eu esperava encontrar só uma coleção de fotos e uns parcos documentos, mas há um vasto arquivo. Quem se interessa pela carreira do Rei deveria passar por aqui em algum momento. São uns 12 livros enormes, com recortes de imprensa que vão desde os primeiros anos de Pelé no Santos até eventos recentes.

Com a grande maioria das pessoas que conversei, senti uma certa má vontade com Pelé, o que não me surpreende. Cedo aprendi que se há alguém, em algum lugar, fazendo-lhe uma homenagem, haverá alguém, em outro lugar, dizendo que você é um ingrato que não agradeceu a homenagem suficientemente. É a lei da vida. Não seria Pelé que escaparia dela.

Mas no Brasil estamos acostumados a pensar que Pelé é sobre-humano. Os erros todos, quem os cometeu, afinal de contas, foi o Édson. Essa separação, inventada pelo próprio, nos redime. Podemos açoitar, criticar, ridicularizar. Ao fim e ao cabo, o objeto do açoite é Édson, não Pelé. Pelé é intocável.

pele-quadro.jpg


Foi Édson, não Pelé, quem fez campanha para um candidato malufista à prefeitura de Santos. Foi Édson, não Pelé, quem fez as pazes com Ricardo Teixeira e a cartolagem corrupta. Foi Édson, não Pelé, quem se prestou, por motivos políticos, a fazer para a FIFA uma lista dos 120 melhores jogadores vivos onde entrava Nagaka mas não Nilton Santos ou Rivelino.

No papo que houve na caixa de comentários de ontem, meu amigo Afonso dizia algo muito interessante: ao contrário de Maradona, Garrincha, Reinaldo e outros ídolos, Pelé não possui uma faceta trágica, essencial aos heróis.

Eu concordo. Pelé foi o negão que ousou dar certo, administrar bem seu dinheiro, virar empresário, interferir na administração do futebol. O contraste com Garrincha não poderia ser mais agudo. Todos amam e se compadecem de Garrincha. É raro encontrar alguém que, mesmo reconhecendo Pelé como o maior da história do futebol, não tenha algo negativo para dizer sobre ele fora do campo.

Eu também tenho (aquela lista da FIFA foi foda!), mas prefiro sempre louvar Pelé. Não sei, talvez seja orgulho de expatriado. Algum de vocês viu o filme Pelé Eterno? Eu o assisti três vezes, e em todas elas saí com os olhos marejados, não tenho vergonha de dizer. Nestes 15 anos vivendo fora do Brasil, convivi, por exemplo, com muitos africanos. São unânimes: Pelé nos mostrou o caminho. Pelé nos demonstrou o que um negro pode fazer neste mundo. Pelé nos passou um exemplo de auto-estima. Pelé foi à Africa e parou uma guerra.

Na primeira vez que fui ao México, o oficial de imigração que examinava meu passaporte levantou o rosto, deu um sorriso e disse: Usted viene del país de Pelé. Bienvenido.

Essa é a importância política de Pelé, mais além de suas "opiniões" políticas, que interessam muito menos. Ser brasileiro depois de Pelé é outra coisa. Caetano resumiu lindamente: Pelé disse love, love, love.

Como lembrou o Paulo Zobarán aqui ontem, o Brasil dos anos 50 se arrastava no que Nélson Rodrigues chamou complexo de vira-lata, a sensação de que perderíamos sempre, de que qualquer minúsculo país cisplatino (com todo meu respeito ao Uruguai) poderia vir aqui e nos ganhar uma Copa do Mundo.

Alguém já parou para pensar que Pelé também é um motor da bossa nova, que só um Brasil já campeão do mundo teria moral suficiente para arrancar do coração do jazz o batuquê primordial dos tambores, preservado ali no violão sincopado de João Gilberto? Em 1958 enterramos o complexo de vira-lata na Suécia. Em 1958 sai o LP de Elizeth Cardoso que inaugura a bossa nova, Canção do Amor Demais.

Será que não se poderia fazer mais para preservar e transmitir a memória de Pelé? Será que não merecíamos uns especiais na televisão de vez em quando? Há centenas de gols e jogos gravados que as novas gerações ainda não viram. Será que o transformamos em mito para que ele viva no passado sem nos incomodar? Qual é a diferença entre um mito, um ídolo e um herói? Quando teremos o 1958 da nossa política?



  Escrito por Idelber às 05:35 | link para este post | Comentários (33)



quarta-feira, 27 de julho 2005

Feliz Aniversário, Telê Santana

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Com um dia de atraso, o blog saúda o 74o aniversário de Telê Santana, comemorado neste dia 26 de julho. Seria exagero dizer que foi o maior técnico da história do nosso futebol? Com certeza, foi o maior entre os que eu vi.

Como jogador, no Fluminense, do alto dos seus 57 kg, inventou uma posição: a do ponta que fecha para o meio, recua, ajuda na marcação e arma o contra-ataque.

Mas as maiores glórias foram como técnico. Três anos depois de encerrada a carreira, em 1965, recebe o comando do Fluminense e leva a equipe ao título do Roberto Gomes Pedrosa de 1969, o Brasileirão da época. Em 1970 assume o Atlético-MG e quebra a hegemonia de 5 anos do ex-Ipiranga, que tentava o hexacampeonato.

Ainda sob a euforia do tricampeonato da seleção no México, a antiga CBD decide organizar o primeiro certame realmente nacional do nosso futebol, o Campeonato Brasileiro. Naquele pioneiro Campeonato de 1971, havia vários favoritos: o Santos de Pelé; o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha; o Botafogo de Jairzinho e Carlos Alberto; o Palmeiras de Ademir da Guia; o ex-Ipiranga de Tostão e Dirceu Lopes.

Mas quem papou o título foi o Galo de Dadá.

Obra pessoalíssima de Telê Santana, que forjou uma equipe campeã com 11 jogadores limitados, que sabiam suas funções e seguiam fielmente o seu técnico. Só Telê Santana foi capaz de quebrar a hegemonia do rolo compressor do Internacional, conquistando com o Grêmio - de novo, no comando de um limitado elenco - o histórico Campeonato Gaúcho de 1977.

Na Seleção Brasileira, armou a maior máquina de jogar futebol que vimos desde a era Pelé, o escrete de 1982 - que parecia jogar por música, sempre ofensivamente, surpreendendo o espectador e o adversário com jogadas geniais. Perdeu a Copa de 1982 numa fatalidade e começou aí o absurdo mito do "Telê pé frio".

A corja da CBF, a camarilha da Rua da Alfândega, jamais lhe perdoou alguns pecados: um deles, o de ser mineiro. O outro, o de ser avesso à politicagem e ao conchavo. O terceiro, o de jamais aceitar interferências no seu trabalho. E finalmente o de jamais deixar de denunciar a violência e os árbitros e cartolas coniventes com ela.

Uma vez, perguntaram ao grande Zico se havia algum treinador que jamais havia mandado bater num adversário. Zico respondeu: somente Telê.

Por tudo isso, torci muito pela seleção de 1986, que poderia ter sido a redenção de Telê no comando do Brasil. Mas de novo, numa fatalidade povoada de penais perdidos, o Brasil foi eliminado da Copa e o futebol ofensivo de Telê foi substituído por retrancas e brucutus. Ganhou força o mito do "pé frio".

Assumiu o Galo de novo e, às vesperas da decisão do Campeonato Mineiro de 1988, teve que ouvir durante toda a semana que o ex-Ipiranga já festejava o bicampeonato, pois tinha a melhor equipe e enfrentava um "pé frio". Os garotos do Galo, quase todos oriundos dos juvenis, fizeram um pacto pela vitória por Telê, por amor a Telê. A massa tomou 2/3 do Mineirão, como é de costume nos clássicos mineiros, e gritou o nome do seu técnico ao longo do jogo. Os meninos se encheram de brios e venceram por 1 x 0. Galo campeão mineiro de 1988. Uma multidão esperou Telê para carregá-lo nos ombros.

Mas ainda faltava a grande volta por cima.

Em outubro de 1990, o São Paulo era uma equipe em crise, já há quatro anos sem títulos importantes. Telê assume o Tricolor e em menos de um ano monta o maior esquadrão da história do clube. Naquele time, Telê burilou peça por peça. Um certo lateral direito apenas esforçado recebeu horas e horas diárias da atenção do mestre (especialmente nos cruzamentos) e em pouco tempo se transformou no Cafu depois capitão do pentacampeonato.

Com Telê, o São Paulo foi campeão dos dois campeonatos mais importantes do país em 1991, o Paulista e o Brasileiro. Em 1992 levou o São Paulo ao título da Libertadores. Ganhou o campeonato mundial interclubes. Trouxe ao seu time outro mineiro apedrejado depois da tragédia da Copa de 1982, o já veterano Toninho Cerezzo. Sob a batuta de Cerezzo, Raí e Telê, o São Paulo repetiu a dose em 1993: campeão da América e campeão mundial. Durante 5 anos no São Paulo, Telê fartou-se de ganhar títulos, de calar a boca dos críticos e de encantar o mundo com o futebol bonito e ofensivo que a seleção brasileira jamais voltou a jogar desde que ele deixou de ser seu treinador.

Vive agora com a saúde bem debilitada, mas cercado, aqui em Minas Gerais, de um amor absolutamente unânime.

Hoje à noite jogam Atlético-MG e São Paulo no Mineirão. Seria uma linda oportunidade para que as torcidas dos dois clubes prestassem uma homenagem àquele que foi o maior técnico de suas histórias.

Evoé, Telê.

Atualização: e quem faz aniversário hoje, um dia depois de Telê (info via Meg) é o mestre e cumpadi Alexandre Inagaki. Parabéns, e muitos anos de vida e saúde.



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quinta-feira, 21 de julho 2005

Times Inesquecíveis que eu vi, I

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1. A Revista Placar reuniu umas duas dúzias de "especialistas" para escolher os melhores esquadrões brasileiros da era pós-Pelé.

Como tudo o que acontece quando se chama um time de "especialistas", o que se viu foi uma monstruosidade.

Em resposta, este Biscoito inaugura a série "Times Inesquecíveis que eu vi", e o primeiro primeiríssimo é esse aí.

De cada time elegeremos sua característica mais notável.

Esse aí era o que tinha a saída mais implacável da defesa para o ataque.

Quem vai saber escalar?

********************

2. Que Oxumaré acompanhe o jogador cearense que morreu domingo depois bater um pênalti.

3. Por falar em Ceará, o Galo ressuscitou em Fortaleza. Atleticano é uma raça irrecuperável. Hoje eu vi uns dois dizendo "se brincar a gente belisca uma vaguinha na Sul-Americana". Ah, paixão incorrigível.

4. Que viva o Balípodo, o melhor site de análise de futebol da internet brasileira. Eu participo da promoção de aniversário.

5. Em breve: um post de análise dos desdobramentos do caso do bravo, bravíssimo Grafite (que você se recupere logo, grande).

6. Minha frase favorita no universo futebol: Quem pede recebe, quem desloca tem preferência. Outras candidatas?

********************

PS: Eu ia fazer um post provocando todos os amigos que há uns 20 dias atrás disseram esse negócio de mensalão nunca pode ser provado.... Mas por que tripudiar, se mesmo os que estávamos corretos continuamos sendo surpreendidos com a extensão inimaginável da lama?

PS 2: Prova cabal do mensalão, além de muitas outras: O Bispo Rodrigues, do PL-RJ, apontado por Jefferson como um dos operadores, chora lágrimas de crocodilo na TV depois de revelado que ele mesmo (não o assessor, não a cônjuge, mas ele mesmo) fez saques de dezenas de milhares de reais na conta de Marcos Valério. Como diz o Marcelino, êta danado!



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segunda-feira, 11 de julho 2005

Hitler e as Copas que a Argentina não Ganhou

Festa de aniversário de 4 anos do Burburinho e Nemo Nox me convidou a enviar um texto. Publicamos este aqui, do qual lhes deixo a introdução e depois um link à continuação lá na revista.

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O torcedor fanático por futebol não vive nem no presente, nem no passado, nem no futuro. O tempo verbal do apaixonado pela bola é, por definição, o mais-que-perfeito do subjuntivo. Que diacho é isso? É o famoso "se não tivesse tido". Se não tivesse chovido, se o juiz não tivesse roubado, se fulano não tivesse se contundido, se não tivéssemos perdido o pênalti. Não há torcedor que, ante a derrota de seu time, não recorra aos encantos do mais-que-perfeito. Um exemplo clássico tem como protagonista o técnico Evaristo de Macedo. Ao ver seu Flamengo massacrado pela Ponte Preta por 3 x 1, Evaristo recorre à pérola: "se eles não tivessem feito dois gols no começo, o jogo teria terminado 1 x 1".

Pois bem, conta a lenda que o grande Friedenreich, nosso primeiro grande gênio da bola, aquele que marcou, nas décadas de dez, vinte e trinta, mais gols que Pelé, viu o Brasil retornar da Suécia em 1958 com seu primeiro caneco. Contemplando a festa, comentou, inconsolável: "Se cariocas e paulistas não tivessem brigado em 1930 (briga que nos fez levar uma seleção carioca à Copa do Uruguai, sem Fried), agora seríamos bicampeões." Fried nem se preocupou em falar da copa de 1950. Para ele o que importava era a Copa do Uruguai, onde não teria tido para ninguém caso ele estivesse no time, junto com outros paulistas, como o goleiraço Athié e o endiabrado Feitiço. Em 1930 o mais-que-perfeito do subjuntivo entrou na vida de nosso futebol para nunca mais sair.

Mas das copas que não ganhamos falarei em outra oportunidade. Hoje quero falar do namoro traumático dos argentinos com o mais que perfeito.

Sem deixar de voltar para bater um papo sobre Hitler, a Argentina e as copas, ou os encantos do mais-que-perfeito no futebol, continue lendo Hitler e as Copas que a Argentina não Ganhou, na festa de aniversário do Burburinho.



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sábado, 25 de junho 2005

Sobre a última tamancada no deutschefreguês

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Dentro das circunstâncias e apesar dos muitos gols perdidos por displicência, falta de instinto matador ou de tranqüilidade, eu gostei da seleção brasileira contra a Alemanha hoje, especialmente no segundo tempo.

Confesso que nas vitórias contra a Alemanha eu sinto muito mais o gostinho especial que a maioria dos brasileiros sente nas vitórias contra a Argentina. Nada contra o país nem o povo, mas me causa repugnância esse futebol tosco, medíocre, medroso, violento e parasita do acaso que jogam os alemães. Menino, torci pela Holanda contra eles em 1974 e, sim, torci pela Argentina contra eles em 1986 e 1990 nas finais de Copa. Quanto menos títulos e partidas esses caras ganharem, melhor será para o futebol. E contra o Brasil eles tremem mesmo.

Agora, antes que parte da imprensa esportiva sufoque todo mundo no ufanismo, algumas observações críticas sobre a seleção:

1. Roque Jr. e Lúcio simplesmente não têm condições de vestir as camisas que foram de Domingos da Guia, Bellini, Mauro, Piazza, Luís Pereira, Oscar e Luisinho. A zaga do Brasil é uma cacofonia de instrumentos tocando atravessado. Agora é rezar pela recuperação do Cláudio Caçapa, que é muito superior a esses dois e conhecido do Parreira desde os tempos de Atlético-MG.

2. Nem uma eventual conquista dessa Copa das Confederações significará que a seleção está pronta ou mesmo jogando um futebol aceitável, nem uma possível derrota na final contra Argentina ou México implica que essa formação mais "ofensiva" adotada recentemente pelo Parreira seja a culpada. O Brasil leva gols porque tem uma zaga fraquíssima, laterais que avançam, com freqüência, em jogadas onde Brasil não mantém a bola no ataque (levando a famosa "bola nas costas") e para completar uma dupla de volantes muito limitada (especialmente o Emerson): situação que deixa qualquer equipe vulnerável, claro.

3. Antes que comecem a dizer que Adriano ganhou o jogo sozinho: sim, ele foi muito bem nos momentos que pôde jogar na sua posição e na sua característica, mas sempre que - especialmente no primeiro tempo - teve que sair da área para fazer tabela, a coisa não funcionou. Adriano é uma arma poderosa, mas nesse esquema não há lugar para que Adriano e Ronaldo Fenômeno joguem juntos. Com dois centroavantes típicos, um anula o outro, e gente que entende muito mais que eu já explicou o porquê. Se Ronaldo estiver gordo, lento, fora de forma ou deprê na época da Copa, eu jogaria com Adriano, Robinho, Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Senão, Adriano ainda seria uma ótima opção no banco. Adriano e Ronaldo, de jeito nenhum: jogando assim, o Brasil ficaria muito mais estanque e previsível.

4. Como a Copa é na Alemanha, país que tem tradição de chegada, eles são os favoritos naturais da Europa, junto com Brasil e Argentina. Mas acontece que hoje qualquer equipe alemã entra em campo contra o Brasil sem acreditar muito que pode ganhar. Isso acrescenta um plus de favoritismo ao Brasil, por mais que Parreira faça opções equivocadas.

5. Aos amigos que discordaram da idéia de algum dia prescindir da lei do impedimento: tá legal, eu aceito o argumento. Mas não me altere o samba tanto assim: dizer que propor mudança em regras vai contra o espírito do jogo não é verdade. Cartões vermelhos, amarelos, substituições, proibição de que o goleiro agarre com a mão bola atrasada, tudo isso foi inovação relativamente recente. No caso do impedimento, a última mudança feita nas "regras" foi a orientação da FIFA para que as arbitragens só apontem a posição ilegal do atacante quando este tocar na bola: emenda horrível, muito pior do que o soneto.



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quarta-feira, 22 de junho 2005

E a regra do impedimento?

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Considerando que:

1. Já tem médico espanhol demonstrando que é impossível para o globo ocular observar sempre com exatidão se um jogador está impedido ou não (link via Marmota);

2. Sucedem-se os erros mais absurdos na marcação dos impedimentos em tudo quanto é jogo que a gente assiste;

3. Os energúmenos dos bandeirinhas insistem em desobedecer a orientação da FIFA, que é a de que no caso de dúvida, deve-se dar preferência ao ataque (desobediência compreensível, pois se um ser humano fica 90 minutos com um bastão na mão e só tem umas poucas oportunidades de levantá-lo, ora, ele o fará sempre que puder);

4. O aumento vertiginoso da velocidade do futebol já pode muito bem ter invalidado o perigo que a regra tenta coibir, que é a "banheira";

Não seria o caso de começar a gritar pelo fim da lei do impedimento, como propõe o Dr. Sócrates?

Eu já expliquei e defendi muito a regra do impedimento, para gringos que não sabiam por que ela existe. Mas confesso que estou mudando de opinião.

O que vocês acham?



  Escrito por Idelber às 03:38 | link para este post | Comentários (24)



quarta-feira, 08 de junho 2005

Algumas Notas sobre Xenofobia Anti-Argentina

Em primeiro lugar eu gostaria de convidar a que voltassem aqui todos os leitores que apareceram na época do post sobre Grafite/Desábato para dizer que a Seleção Brasileira seria recebida a pedradas em Buenos Aires, que o Brasil seria massacrado a pancadas e que a polícia argentina estaria pronta para levar qualquer brasileiro para a cadeia por qualquer coisa.

Em segundo lugar, alguns comentários sobre o jogo de ontem, ou melhor, sobre a transmissão brasileira:

1:40: depois de uma dividida normal, Galvão Bueno nos diz: "esse Killy González é desleal, só entra para quebrar".

3:40: gol da Argentina, depois de uma triangulação de toques rápidos típica do futebol argentino. G.B.: "Gol da Argentina numa bobeira da defesa do Brasil". Nenhuma menção à bela jogada argentina.

11:00: Depois de sofrer falta normal, Adriano se levanta e tenta agredir Ayala. Falcão: "se o árbitro tivesse mostrado o amarelo o Adriano não teria feito isso". Penso comigo: "será que o Adriano antevê o futuro?" Porque obviamente ao se levantar para agredir o argentino ele não tinha nem idéia do que faria o árbitro.

17:00: gol da Argentina. G.B.: "outra bobeira da defesa do Brasil".

40:00: terceiro gol da Argentina.

46:00: Roque Jr. faz falta e, caído, chuta Ayala. G.B.: "os jogadores brasileiros estão começando a revidar". Penso comigo: 'revidar o quê?'

No segundo tempo, com a reação do Brasil, G.B. e Casagrande nos dizem, várias vezes, que aquele era o jogo real. Uai, penso comigo, o que eu vi no primeiro tempo era um jogo imaginário? Parece que o jogo só é "real" quando o Brasil é superior.

Mas o grande destaque da noite aconteceu aos 21 do primeiro tempo. G. B. nos avisa que a palavra milonga pode ser traduzida como malandragem. Gardel revira-se no túmulo.

O sociólogo brasileiro Ronaldo Helal que reside em Buenos Aires e, como eu, se dedica ao estudo da cultura argentina, concedeu à Folha uma entrevista (link para os que têm UOL) em que afirma: Aqui, quase não há piadas com brasileiros. No Brasil, não vejo matérias elogiando o futebol argentino . . Assisti ao jogo do Brasil [contra o Paraguai] em Buenos Aires . . . Três momentos me chamaram a atenção no segundo tempo. No início, o locutor disse: "Eles jogam se divertindo. Muita técnica, uma beleza!". Depois, quando o Brasil fez 3 a 0, disse: "Agora para os amantes do bom futebol, vamos assistir ao luxo do Brasil". No final, ele disse: "Toda a magia e fantasia do jogador brasileiro". Não imagino o Galvão Bueno falando assim dos argentinos.

Ronaldo Helal tem toda a razão. Eu sonho com um Brasil onde nós conhecêssemos sobre eles 10% do que eles conhecem sobre nós; onde as transmissões de futebol não fossem essa palhaçada xenófoba; e onde todos os argentinos que aqui chegam fossem recebidos com o carinho de que eu, pelo menos, desfruto sempre que chego lá.

A propósito, um dos maiores romances latino-americanos dos últimos tempos, Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, acaba de ser lançado em português, pela editora Amauta. Não percam. O romance transcorre durante a Copa de 1978, desmontando todo o delírio patriótico que cercou aquela Copa. Ainda estou esperando um romance brasileiro que reflita criticamente sobre a nossa relação patrioteira com o futebol.

Pronto. Podem meter o pau.



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domingo, 05 de junho 2005

A "Apostila" de Parreira e o Roubo de Textos

A sequência de matérias inaugurada pela Folha na sexta-feira, sobre o plágio cometido por Carlos Alberto Parreira, é muito séria. O jornal, que é cuidadosíssimo ao fazer afirmações , não titubeou ao dar manchete: Único Livro de Parreira, o Teórico do Futebol, é Plágio. Lendo os detalhes, é difícil chegar a outra conclusão.

A investigação da Folha mostra que nada menos que 10 das 50 páginas “escritas” por Parreira para o seu Evolução Tática e Estratégia de Jogo eram traduções literais do livro de Charles Hughes, Soccer, Tactics and Teamwork (1973). Essas 10 páginas são traduzidas do livro de Hughes e reproduzidas em português sem aspas, sem referência à fonte e publicadas num volume com o nome de Parreira. Se isso não é plágio, não sei o que é.

Há uma referência ao livro de Hughes ao final, numa “bibliografia recomendada”. Mas não há nada que indique ao leitor que essas 10 inteiras páginas são uma tradução literal de um texto publicado em 1973 por outra pessoa em outra língua. Sem contar, claro, o fato de que quando citamos, muito raramente citamos dez páginas inteirinhas em seqüência.

O livro de Hughes é, explicitamente, um manual para que “equipes menores” tenham chances de enfrentar equipes superiores.

A única declaração de Parreira sobre o caso até agora – tanto à Folha como ao Globo – foi de que ele “traduziu mesmo” e de que se tratava de uma apostila que não foi “vendida como livro”. Ora, o que configura o plágio não é o ato de lucrar, mas o fato de copiar sem citar a fonte. Não é preciso ser advogado especializado em direitos autorais para saber isso. O fato de eu não cobrar entradas para o Biscoito não me dá o direito de copiar 10 laudas do Pensar Enlouquece ou do Kit Básico da Mulher Moderna e não citar a fonte, como o se o texto fosse meu. É crime do mesmo jeito.

A estratégia de resposta de Parreira parece ser a de que ele “traduziu” e “outros” colocaram aquilo entre duas capas. Parece um pouco de conversa para boi dormir, né? Sinceramente, não acredito que alguém empreste seu nome para um livro – seja lá lançado como “apostila” ou não – sem saber qual é o conteúdo que está entre a capa e a contracapa. Muito menos um sujeito como o Parreira, que não é exatamente analfabeto.

A ironia é que o plágio foi revelado justo no fim de semana em que a seleção de Parreira finalmente jogou com um quarteto ofensivo, fez uma bela exibição no Beira-Rio e goleou o bom time do Paraguai, contrariando os ensinamentos do retranqueiro Hughes, que Parreira “cita” em português.

O plágio é um crime contra a propriedade intelectual, tema que me interessa muito. Roubar bens materiais é crime codificado e reconhecido como tal por todos, mas o plágio freqüentemente é tratado como coisa menor, como se roubar um texto fosse menos grave que roubar um carro. Não é. Texto é produto de trabalho, igualzinho um carro.

Entrevistado pela Folha, Charles Hughes disse que não processará Parreira porque já "não tem idade para essas coisas".

Há muito o que se explicar aqui neste caso, porque Parreira nunca foi profissional de quem se esperasse luxemburguices. Mas eu não vejo muito por onde explicar isso, não, a não ser chegando à conclusão a que chegou a Folha.



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sexta-feira, 27 de maio 2005

Seleção Brasileira x Clubes

A partir de qual jogo os confrontos da seleção de futebol contra clubes brasileiros passam a ser proibidos, ou pelo menos fortemente desaconselhados pela antiga Confederação Brasileira de Desportos? Quando e onde ocorreu esse histórico embate? Qual foi o resultado final e qual dos gols dessa partida foi anotado em situação irregular? Se alguém souber a escalação das duas equipes, claro, aí fica mais bonito ainda.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (16)




Seleção mineira dos últimos 30 anos

Dida, Nelinho, Vantuir, Luisinho e Paulo Roberto; Cerezzo, Palhinha e Paulo Isidoro; Ronaldinho, Reinaldo e Éder.

Discordâncias?



  Escrito por Idelber às 03:56 | link para este post | Comentários (11)




Um jogador do Bahia que cometeu suicídio

Um jogador do Bahia uma vez cometeu suicídio depois de um clássico contra o Vitória, por um motivo relacionado a algo ocorrido na partida. Quando aconteceu esse jogo e o que ocorreu nele que levou esse jogador a suicidar-se? É das histórias mais insólitas que eu já ouvi sobre o futebol brasileiro.



  Escrito por Idelber às 03:55 | link para este post | Comentários (4)




Animais na Seleção Canarinho

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Já vestiram a camisa da seleção brasileira, desde as priscas eras, pelo menos 14 jogadores conhecidos por apelidos que são nomes de bichos. Quais são eles e em que época jogaram pela seleção?



  Escrito por Idelber às 03:44 | link para este post | Comentários (13)




Quem Disse?

1. “Treino é treino, jogo é jogo”.
2. “Não me venha com a problemática que eu não tenho a solucionática”.
3. “O pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”.
4. “Quem tem que correr é a bola”.
5. “Já acabou? Que campeonato curtinho essa tal de Copa do Mundo!”


(a frase número cinco não é uma citação exata, mas é uma reconstrução bem aproximada, feita de memória)



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (5)




Seleção gaúcha dos últimos 30 anos

Manga, Arce, Figueroa, Anchieta e Paulo Roberto; Batista, Falcão e Paulo César Caju; Ronaldinho Gaúcho, Dadá Maravilha e Mario Sérgio.

Discordâncias?



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Galo x Corinthians

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Eu não sei onde vocês vão estar no domingo às 15 horas, mas eu estarei na Churrascaria Farroupilha, na subida da Abraão Caram, entrada do Mineirão. Atleticanos da Sagrada Família, da Zona Leste e amigos da Galo Metal - confirmada a esquentada dos tamborins para o jogo contra o Curíntia.

Aproveitando a ocasião, fica a pergunta:

Qual foi o primeiro jogo entre Galo x Corinthians? Quando e onde aconteceu? Que ocasião ele marcava, ou seja, por que esse jogo é especial? Qual foi o placar final? Vamos ver quem aparece com as respostas e alguns detalhes sobre esse jogo histórico.



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 24 de maio 2005

A Metafísica do Pênalti Perdido

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Conversando com Rafael Galvão sobre futebol e literatura outro dia, não coincidíamos na apreciação do escritor austríaco Peter Handke. Eu gosto, Rafa acha um saco. Mas concordávamos que o sujeito não entende de futebol. Só alguém que não entende do assunto pode escrever um romance chamado A Angústia do Goleiro diante do Pênalti. Ora, qualquer criança sabe que se há alguma angústia, ela é do batedor. O goleiro só tem a ganhar. O post de hoje é uma reflexão sobre essa estranha expressão, perder um pênalti.

Para perder-se alguma coisa, supõe-se que nós a tenhamos. Mas quem tem o pênalti, desde o momento em que ele é marcado, é o goleiro. O goleiro é o dono do pênalti, mas só o cobrador pode perdê-lo. Perder o que não se tem, eis aí a tragédia do pênalti para o batedor. Quem já amou sabe do que falo. A partir do momento da marcação, o atacante recebe um presente de grego, um presente ao qual ele só pode, na melhor das hipóteses, fazer jus: confirmar o que todos esperam e fazer o gol. Ele só pode, se convertê-lo, ficar quites. Se não convertê-lo, estará em débito com o presente recebido, terá se mostrado indigno de recebê-lo: um mau recebedor de presentes, um ingrato. Não há angústia do goleiro na cobrança do pênalti. A verdadeira angústia é a do batedor: a angústia dos que só têm a perder.

Quem se lembra dos pênaltis convertidos? Ninguém. Só os pênaltis perdidos têm morada na memória. Quantos gols de pênalti terá feito o Zico? Dezenas muitas. Mas todos se lembram do pênalti perdido em 1986, contra a França. Convertido, aquele pênalti teria levado o Brasil às semifinais da Copa do Mundo. Não há jogador mais amado pelos atleticanos que Toninho Cerezzo, mas a memória mais marcante desse que tanto ganhou nunca deixou de ser o pênalti chutado quase nas arquibancadas na decisão de 1977, no fatídico 05 de março de 1978, de tão triste memória para todos nós que achamos que o futebol e o jiu-jitsu devem continuar sendo dois esportes diferentes.

Os italianos, coitados, são especialistas em reminiscências de penalidades máximas. Lembram-se de serem eliminados nos pênaltis das copas de 90, 98 e, claro, de Baresi, herói e grande craque da decisão de 94, zagueiraço que anulou Romário e Bebeto durante 120 minutos, chutando para o espaço, ironicamente, o pênalti que começou a entregar o tetracampeonato ao modesto escrete feijão-com-arroz de Parreira.

Dos pênaltis convertidos só nos lembramos por coisas alheias ao pênalti mesmo, como o milésimo gol de Pelé. Até nisso o pênalti foi irônico: aquele que marcou gol de tudo quanto foi jeito, de letra, de cabeça subindo na testada, de cabeça mergulhando no peixinho, de costas, por cobertura, de voleio, de bicicleta, de meio-voleio, espírita, de placa, além de quase todas as combinações possíveis entre eles, o gênio que fez mil duzentos e tantos desse momento único que não conhece nenhum outro esporte, pois ele, o Rei maior, teve que se resignar a marcar o milésimo de pênalti, arrastado, chorado, com o goleiro Andrada quase pegando a bola pelo rabo, quase humilhando o Rei ali na boca da butija, com o teatrão todo preparado já para a festa do seu gol mil. A bola entrou e o Rei escapou por pouco, como escapou tantas vezes, mas não eludiu o gostinho amargo de que o milzão foi feito ali, na obrigação protocolar do penal.

Pois bem, dos pênaltis convertidos eu só me lembro, sempre, desse do Pelé. Dos perdidos, não saem da minha memória o do Zico, durante o jogo com a França em 1986 (e também as cobranças desperdiçadas por Sócrates e Júlio César na disputa de penais), o de Cerezzo em 1978 e o de Edmundo, pelo Vasco, na decisão do campeonato mundial da FIFA contra o Corinthians em 2000.

Dia de exercício de memória futebolística no Biscoito. O tema é pênaltis perdidos. Vocês com a palavra.



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quarta-feira, 18 de maio 2005

Uma Enquete sobre o Futebol na Era Pós-Pelé

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O maior lateral-esquerdo da história do futebol, o homem que só vestiu a camisa do seu amado Botafogo durante toda a vida, o homem sem cuja malandragem o Brasil jamais teria conquistado o bicampeonato no Chile, Nilton Santos completou oitenta anos anteontem. Evoé, Enciclopédia. Eu já tive a honra de conversar com esse gigante.

Estreou na seleção brasileira em 1949, foi reserva em 1950 (muitos dizem que, se ele houvesse jogado, aquele gol do Uruguai não teria saído nunca...), titular em 1954, campeão em 1958, bicampeão aos 37 em 1962. Jogou 85 partidas com a camisa canarinho. Suas histórias do Botafogo com Garrincha e João Saldanha de técnico são das coisas mais saborosas do folclore do futebol brasileiro. Quem quiser beber dessa fonte inesgotável de sabedoria, aproveite enquanto é tempo. O homem mora no Rio e passeia no calçadão.

Em homenagem a Nílton Santos, aqui vai uma pequena pesquisa:

Qual o melhor time de futebol do Brasil depois da era Pelé? Falo do melhor, do que jogou melhor futebol, não necessariamente do mais vitorioso.

1. O Internacional de Falcão e Figueroa (1975-76)
2. O Fluminense de Paulo César Caju e Marinho Chagas (1976)
3. O Atlético-MG de Reinaldo e Cerezzo (1977-82)
4. O Flamengo de Zico e Júnior (1980-82)
5. O São Paulo de Telê e Raí (1991-92)
6. O Palmeiras de Rivaldo e Roberto Carlos (1993-94)
7. O Grêmio de Felipão e Paulo Nunes (1995-97)
8. O Corinthians de Marcelinho e Vampeta (1998-99)
9. O Santos de Diego e Robinho (2002-04)


Ganha quem escolher a resposta certa. Heheh. Brincadeirinha, é para discutir à vontade mesmo.



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segunda-feira, 16 de maio 2005

Nascer para o Futebol

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Há algo mais intolerável que a pergunta qual a graça de ver 22 homens correndo atrás de uma bola? Parte da minoria que não ama o futebol expressa aí seu ressentimento e desconforto com nosso gozo. Claro, para essa pergunta não há resposta, a não ser a de Louis Armstrong sobre qual é a graça do jazz: Man, if you gotta ask, you'll never know. Se você tem que perguntar, não vai saber nunca.

Quando lhe perguntavam pelo amor ao futebol, lembrava-se da primeira vez. Naquela tarde havia 103.000 pessoas no segundo maior estádio coberto do mundo, como gostavam de dizer. Apesar de criança, fanático por futebol, ele sabia que o momento era especial: poucas vezes vira-se uma máquina que jogasse por música como aquela. Tinha o maior centroavante da sua época, o gênio desengonçado, o neguinho endiabrado, o goleiro de Deus. Um dos reservas desse time foi titular da seleção brasileira. Franzinos, magrinhos, talentosíssimos, eles jogavam juntos desde o infantil. Atuaram 20 vezes, com 17 vitórias e 3 empates. Chegavam ao último jogo invictos, com dez pontos a mais que o visitante. A final do campeonato parecia uma mera formalidade.

Entra com o tio e a imensidão do estádio lhe afeta no pescoço. Como abarcar tudo aquilo? Diz a frase que anos depois seu filho diria no mar: vem me ajudar a olhar.

Naquela tarde o gênio centroavante não entraria em campo. Como é comum no país do futebol, ele havia sido esmigalhado pelas chuteiras dos brucutus e depois expulso de campo por reclamação.

Circula a notícia de que o neguinho endiabrado ficará no banco. Perplexidade na torcida. Por quê? O adversário é limitado mas forte, pegador e disciplinado. Há uma diferença de uns 10cm e uns 10kg por jogador entre as duas equipes.

O primeiro tempo é muito violento. No gramado molhado, as divididas são na sola e os anfitriões franzinos levam a pior. Tentam tocar a bola, mas o gol não sai. O volante brutamontes do adversário pisoteia o armador da equipe, que sai arrastando-se.

No segundo tempo, melhoram, com a entrada do neguinho que devia ter começado jogando. O time cria várias chances. O grande ponta-esquerda que seria campeão nacional no ano seguinte perde um gol feito. O jogo termina 0 x 0. Nos 30 minutos da prorrogação o time continua atacando. A legião fanática grita. O gol não sai e o até então único invicto dos Campeonatos Brasileiros terá que confirmar o seu título nos pênaltis.

Seu grande goleiro defende as duas primeiras cobranças mas, provocados pelo goleiro adversário, três companheiros seus perdem pênaltis. A equipe visitante brutamontes ergue a taça. Concluía-se a mais injusta final da história.

Os meninos, canelas esfoladas, sangrando, retiram-se abraçados, de cabeça erguida, chorando, numa cena entre patética e trágica. Os 103.000 fanáticos demoram longos minutos para levantar-se. Pouco a pouco, vão se unindo num aplauso, não entusiasmado mas firme, convicto. O garoto pensa, caralho, 1950 no Maracanã deve ter sido assim. A saída da multidão tarda horas, num ritual que, durante os quase 30 anos subseguintes nos estádios, ele jamais veria de novo: 100 mil pessoas levantando-se em silêncio e movendo-se de maneira irritantemente lenta, como se esperassem com sua lentidão reverter o tempo.

A primeira ida ao estádio do garoto havia sido a derrota mais traumática da história do seu clube.

Essa é a diferença entre o fã e o não-fã: para o fã, uma tragédia assim sela e consolida o amor ao clube. O não-fã não entende como. O garoto que teve seu batismo num estádio não teve dúvidas, ali no chororô, de que a mosca havia picado e que ele voltaria muitas vezes. Depois de algum tempo ele teceria a estranha teoria de que a Copa do Mundo perdida pelo Brasil quatro anos depois tinha sua raiz naquela derrota do seu time. Mas essa teoria é para outro momento.

Essa foi a primeira visita daquele garoto a um estádio de futebol. Alguém tem histórias de quando visitou um estádio pela primeira vez? E alguém vai adivinhar quem são os jogadores aos quais se alude em negrito no post?

PS: Muito obrigado ao Mestre Gravatá pela entrevista. Aos que chegam via Globo, boas vindas.



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quinta-feira, 12 de maio 2005

Outra Adivinhação - Desafio sobre o Futebol Brasileiro

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A adivinhação de hoje é para os amantes do futebol.

1. Qual foi o grande clube do futebol brasileiro que eliminou sua execrável prática de não ter jogadores negros no seu plantel ao contratar um craque do rival?

Em que ano aconteceu isso?

Qual era esse grande craque?

Depois que terminarem, brinquemos com mais duas perguntas:

2. Qual título conquistado por um grande time é considerado um marco na incorporação do jogador negro aos clubes de futebol de elite no Brasil?

3. Qual grande craque negro brasileiro declarou sou campeão do mundo mas ainda sou barrado nas boates da zona sul?



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quarta-feira, 11 de maio 2005

Blogueiro Convidado, Felipe Victoriano. Futebol e Ditadura Militar no Chile

(é um orgulho meu ser amigo e orientador de Felipe Victoriano, que vira doutor no próximo dia 24. Felipe é um dos maiores ensaístas chilenos da sua geração, autor de uma tese de mestrado sobre os desaparecidos e de uma série de textos críticos sobre literatura. Convidei-o a que hoje nos contasse uma história: a da conversão do Estádio Nacional do Chile em campo de concentração. Essa história se mistura com a da partida de futebol fictícia que o Chile disputou contra a União Soviética depois do golpe militar e que classificou o Chile para a Copa de 1974. Se for um esforço ler em espanhol, vale a pena. O tema hoje é futebol e sangue. Com a palavra, Felipe Victoriano) .

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Para recuperar la historia que une al Estadio Nacional de Chile a la dictadura de Pinochet, será necesario rescatar un episodio que, según el escritor Eduardo Galeano, se conserva como “el partido más patético de la historia del fútbol”. Dos semanas después del golpe de estado en Chile, el 26 de septiembre de 1973, se jugó el partido de ida por un cupo al mundial de fútbol de Alemania, el mundial del 74’, entre la selección chilena y la selección de la Unión Soviética, en el estadio Lenin de Moscú. El partido de vuelta estaba programado para el 21 de noviembre, y se jugaría en El Estadio Nacional, por entonces, campo de concentración y tortura de la junta golpista.

El encuentro de ida no fue televisado, y según trascendió, concluyó con un histórico empate a cero, ante aproximadamente 60 mil personas, y respecto del cual se harían célebres los talentos defensivos de Quintano y Elías Figueroa. Sin embargo, la clasificación al mundial dependía del partido en Santiago. El presidente de la federación de fútbol soviética, Valentín Granatkin, había manifestado su rechazo a jugar el partido de vuelta en El Estadio Nacional. La decisión final provino del Kremlin. De acuerdo al libro de Gilberto Agostino, Vencer ou Morrer. Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, el centralismo de Moscú operaba con estrictos cálculos de Estado, los cuales diseñaban el comportamiento deportivo de sus selecciones. Habría que recordar que, por aquel entonces, el Dínamo de Kiev ganó el campeonato nacional, desplazando así a los equipos de la capital, de tradición eslava. El festejo en Ucrania fue censurado, temiendo se produjera una efervescencia incontrolable de sentimientos nacionales. Tal vez, entre los jerarcas, se comentaban los sucesos de 1942, cuando el Dínamo de Kiev venció a una selección de Hitler, en plena ocupación alemana: Los once fueron fusilados con las camisetas puestas, en lo alto de un barranco, cuando terminó el partido.

Sin embargo, las razones de no presentarse a jugar, aparecerán oficialmente el 2 de noviembre de 1973, difundidas por la agencia UPI: por consideraciones morales los deportistas soviéticos no pueden en este momento jugar en el estadio de Santiago, salpicado con la sangre de los patriotas chilenos (…) La Unión Soviética formula una resuelta protesta y declara que en las condiciones actuales, cuando la Federación Mundial de Fútbol, obrando contra los dictados del sentido común, permite que los reaccionarios chilenos le lleven de la mano, tiene que negarse a participar en el partido de eliminación en territorio chileno y responsabiliza por el hecho a la administración de la FIFA. La URRS no jugaría el partido de vuelta, menos en El Estadio Nacional. En términos formales, esto significaba que Chile clasificaba al mundial de fútbol por “secretaría": la Unión Soviética no pisaría El Estadio Nacional, salpicado con sangre, permitiendo así la victoria del elenco chileno por falta de rival.

Sin embargo, un detalle importantísimo en este contexto, sería la mención que el comunicado soviético hace de la FIFA. Tendría expresa relación con una comitiva, liderada por un suizo y un brasileño, que arribaron a Chile en su representación el 24 de octubre, y con manifiesta intención de garantizar El Estadio Nacional como escenario viable para una eliminatoria. Estuvieron 48 horas, dentro de las cuales se reunieron con el ministro de defensa de facto, almirante Patricio Carvajal, y visitaron el estadio, en cuyos recintos permanecían aún cerca de 7 mil personas detenidas por los militares y sus organismos de inteligencia. Jorge Iturriaga, en un valiosísimo artículo dedicado a conservar la memoria de estos hechos, resume así la presencia de la FIFA a los días de instaurada una de las dictaduras más feroces del Cono Sur: Para cerrar su visita al país, los emisarios ofrecieron una conferencia de prensa con el ministro de defensa (…) a quien le regalaron un prendedor de corbata y unas colleras de oro con el sello de FIFA. ‘El informe que elevaremos a nuestras autoridades será el reflejo de lo que vimos: tranquilidad total’. El brasileño tranquilizó a los dirigentes chilenos: ‘No se inquieten por la campaña periodística internacional contra Chile. A Brasil le sucedió lo mismo. Pero luego pasará’.

Pasó en Brasil, cuando Emilio Garrastazu Médici capitalizó el triunfo de la selección de Pelé en el mundial de México, en 1970. En dicha oportunidad, el propio dictador impuso a su tirador preferido, Dario, en clara desavenencia con el entonces entrenador de la escuadra brasilera, João Saldanha. Se temía –recuerda Agostino- que el entrenador llegara a México con una lista de presos políticos en el bolso, y, en entrevista colectiva, delante de los micrófonos y cámaras de todo el mundo, denunciara las violaciones a los derechos humanos que venían ocurriendo en Brasil.

Se haría célebre, sin embargo, la frase de Saldanha, o presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time, costándole el puesto algunos días antes de que saliera la selección a México. Sucedió, ciertamente en Argentina, 8 años después. Una vez el Papa enviara su bendición, al son de una marcha militar, el general Videla condecoró a Havelange en la ceremonia de la inauguración, en el Estadio Monumental de Buenos Aires. A unos pasos de allí, estaba en pleno funcionamiento el Auschwitz argentino, el centro de tormento y exterminio de la Escuela de Mecánica de la Armada.

Han pasado treinta años de los “incidentes” que llevaron a Chile, recién iniciada la dictadura, al mundial de fútbol de 1974. Sin embargo, lo que vuelve citable esta historia radica en el hecho de que, mientras la presencia de la escuadra soviética fuera descartada con anticipación, dejando con ello la clasificación en el bolsillo, el encuentro de vuelta en El Estadio Nacional se jugó de igual manera aquel 21 de noviembre de 1973.

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Las razones por las cuales se jugó el partido de vuelta con la “URSS” en El Estadio Nacional, pueden resultarnos, ahora, anecdóticas. Jorge Iturriaga nos revela que acudieron sólo 11 mil espectadores ese domingo de septiembre. La selección chilena vistió de rojo, con una formación compuesta por los mundialistas Quintano y Figueroa, Reinoso, Valdés y el gran Carlos Caszely. La parodia fue completa: el orfeón de carabineros tocó el himno nacional, izándose la bandera chilena. Un árbitro hizo sonar el silbato y dos jugadores chilenos salieron en busca del ‘arco soviético’. Trotando, sin rivales enfrente, pasándose la pelota entre ellos, los chilenos llegaron a un arco vacío. A un metro de la línea de gol, Chamaco Valdés convierte un tanto ficticio.

Ese gol ficticio, le deba la clasificación a Chile al mundial de Alemania de 1974, constituyendo el triunfo deportivo más importante iniciada la dictadura. Sin embargo, la puesta en escena de ese gol ficticio necesitó devolver El Estadio Nacional a una significación que había perdido. En efecto, mientras la Asociación Chilena de Fútbol (ACF) organizaba aquel patético encuentro en El Estadio Nacional miles de chilenos permanecían prisioneros, sufriendo los nuevos procedimientos de la política represiva impuesta por los militares. Tal vez, esto último venga expresado de modo siniestro por las palabras de un miembro del Comité Ejecutivo de la FIFA, ante la negativa soviética de pisar el Estadio Nacional: Si Granatkin dice que el Estadio Nacional está ocupado con detenidos, yo saco una carta en la cual el Gobierno de Chile asegura que varios días antes del 21 de noviembre dicho escenario estará a disposición del fútbol.

El Estadio Nacional, el recinto deportivo más grande de Chile, se convirtió tempranamente el día del golpe en el lugar de la imaginación concentracionaria de la dictadura. Dicha imaginación había calculado el número de “enemigos” con relación a la capacidad de público que El Estadio Nacional poseía (80.000 espectadores), convirtiéndolo aquel 11 de septiembre en el campo de concentración más grande en la historia del país.

En esa oportunidad, para cerrar la "gloriosa" jornada de clasificación al mundial, fue invitado el Santos de Brasil, sin Pelé: Chile 0 Santos 5. En el mundial de Alemania del 74’ Chile no ganará ni un sólo partido.



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segunda-feira, 09 de maio 2005

Por que os gringos não gostam de futebol

(esta crônica é conhecida só dos primeiríssimos leitores do Biscoito, pois ela esteve publicada na última página da velha casa. Aparece aqui recauchutada e com novos links)

Do Japão ao Paraguai, da Tailândia à Espanha, dos territórios ocupados da Palestina à Africa do Sul, o futebol reina inconteste como o favorito da esmagadora maioria. O belo filme A Copa, do cineasta Khyentse Norbu, mostra a deliciosa saga de um grupo de monges budistas tibetanos durante a copa de 1998, proibidos de assistir os jogos pelo monge-mor. No meio da tentativa comovente de alugar uma televisão e ver a final entre Brasil e França, o adolescente aprendiz de monge apostava: Ronaldo vai arrebentar. . .. Acertou, claro, mas com quatro anos de atraso.. O futebol é o mais próximo que o século XX chegou à unanimidade total no esporte.

Mas nos EUA, como esporte de massas, o futebol não emplaca mesmo. Pergunte a qualquer gringo por que ele não consegue se apaixonar pelo futebol. A resposta é a mesma: not enough scoring (não há gols suficientes). O americano acha impossível suportar um jogo de noventa minutos que termine 0 x 0 ou 1 x 0. Preferiria assistir Jorge Kajuru e Eurico Miranda numa pelada de solteiros e casados que terminasse 8 x 7 do que se deliciar com 1 x 0 antológicos como Brasil x Inglaterra da Copa de 70 ou Cruzeiro e Inter na final do Brasileirão de 75.

Continuo achando falsa essa explicação que eles mesmos encontram para o seu desgosto com o esporte. Não é raro encontrar um gringo deliciando-se com um jogo de futebol americano que dura quase quatro horas e termina 10 x 7, o equivalente a uma modorrenta vitória de um e meio gols contra um. O “gol” do futebol americano, o 'touchdown', a entrada de um jogador com a posse de bola na “zona final” do adversário, vale 7 pontos(6 + ponto extra chutado). Quando a equipe não consegue avançar a bola até a zona final, mas é detida num ponto próximo dessa zona (você “detém” uma equipe quando impede que ela ande 10 jardas em 4 tentativas), essa equipe recebe o prêmio de chutar o projétil com o objetivo de enviá-lo acima daquela trave de cabeça para baixo. Quando o bicudão é alto o suficiente, o prêmio são 3 pontos. Ou seja: um 10 x 7 significa que uma equipe marcou um gol, a outra marcou outro e uma delas recebeu, uma vez, o prêmio de consolação do bicudão dos 3 pontos – que nem é comemorado direito, a não ser quando é no último segundo e decide a sorte de um jogo.

Isso depois de quatro horas de peleja, aproximadamente 250 saídas de bola, das quais numas 230 a bola não anda mais que um metro, dezenas de paralisações para comercias ou, se você estiver no estádio, 2 horas de garotas dançando ao som de “We will rock you”, do Queen. Depois eles não entendem porque ficam barrigudos.

O problema do gringo com o futebol não é, portanto, a falta de scoring. Há que se ver, nos esportes mais populares dos EUA (beisebol, futebol americano, basquete), o que eles têm em comum, por oposição ao futebol. Tomemos o basquete. Se uma equipe tiver maior porcentagem de aproveitamento de arremessos, menos perdas de posse de bola, mais rebotes e mais conversões na linha de lance livre, essa equipe ganhou. É impossível que não ganhe. A matemática e a estatística dizem a verdade do jogo. Trata-se, como no futebol americano, de um jogo gerencial, que é radiografável na frieza do quadro estatístico.

A imprevisibilidade do lance que pode decidir uma partida se limita, no basquete, aos jogos que são pau-a-pau até o fim. Impossível que uma equipe seja dominada por 48 minutos em todos os quesitos listados e ganhe o jogo num lance de sorte.

Qualquer criança brasileira sabe que isso não se aplica ao futebol. Digamos que ontem jogaram Flamengo x Palmeiras no Maracanã. O Flamengo teve 65% da posse de bola, ¾ no campo do Palmeiras. O Flamengo teve 15 escanteios, o Palmeiras um. O Flamengo chutou a gol 18 vezes, o Palmeiras duas. O Flamengo foi à linha de fundo 12 vezes, o Palmeiras nenhuma. O Flamengo teve dois pênaltis a seu favor, o Palmeiras nenhum. Diagnóstico: O Urubu massacrou o Verdão no Maraca. Diz algo sobre o resultado do jogo este diagnóstico? De forma nenhuma. O jogo pode muito bem ter terminado 2 x 0 para o Palmeiras. Qualquer torcedor brasileiro se lembrará de um dia em que seu time foi vítima de uma dessas.

Eis aí o fascínio do futebol. O futebol é um esporte fatalista, reácio a qualquer previsibilidade. E não há característica da ideologia dominante nos EUA, nem a arrogância, nem a ingenuidade auto-centrada, nem a crença na própria bondade, que seja mais típicamente americana que o horror à imprevisibilidade, ao estalar incalculável do acontecimento. O americano típico é aquele que, ao descobrir que a mulher está grávida, afoga a alegria da promessa de nova vida no cálculo da poupança para a futura universidade do filho. No ataque às torres em 2001, até mais comum que o lamento pelas mortes ou o xingatório patriótico de brutamontes ferido, foi a pergunta indignada: Como não conseguimos prever isso?

Como no futebol a contabilidade e o cálculo não dizem nada da verdade do jogo, como o futebol é por definição imatematizável, como ele premia o acontecimento singular, único, e não a matemática gerencial do basquete ou do beisebol, o gringo não consegue apreciá-lo. Mesmo que o jogo termine 5 x 4.

PS sobre mais um caso para o folclore deste blog
: quando amigos torcedores e parentes seus começam a lhe enviar spams com um texto seu assinado por outro, é porque a coisa está grave. Não me importa muito, mas o texto que está circulando por email entre torcedores do Atlético-MG, essa crônica de amor ao Galo, foi escrita por mim e não por Armando Nogueira. Claro que Mestre Armando na certa não tem nada a ver com a confusão. Algum doido foi ao meu site, não viu meu nome, achou que o texto tinha cara de Armando Nogueira e botou para circular como spam com o nome dele. E está circulando à beça com a informação errada, embora o equívoco não deixe de honrar-me. Ah, essa internets!



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 03 de maio 2005

Previsões para o Campeonato Brasileiro

O especalista é Ubiratan Leal, que já fez suas previsões. Mas como este Biscoito acertou metade de seus pitacos para os estaduais (acertei RS, PR, SP, BA), aqui vão os palpites para o Brasileirão.

1. O Fortaleza não será rebaixado. Levará algumas tamancadas fora de casa mas acumulará pontos suficientes no Castelão para permanecer na primeirona. Eu torço por isso. Torço pela volta de pelo menos um clube baiano à primeira divisão.

2. Já existe jogador carioca anunciando que com as vitórias nas duas primeiras rodadas o futebol do Rio renasceu. Bobagem. Só o Fluminense tem alguma chance de ir à Libertadores. Flamengo, Vasco e Botafogo lutarão na parte de baixo da tabela e se brincarem encaram degola. Triste decadência daquela que Jorge Ben cantou como ‘a capital do futebol’.

3. Internacional, Cruzeiro e Atlético-PR foram alardeados por setores da imprensa como os únicos não-paulistas com chances de abocanhar o título. Acho que os três têm condições de brigar por vagas nos torneios latino-americanos, mas nenhum deles leva o caneco. Acho que falta banco a essas três equipes.

4. Meus favoritos para o rebaixamento: Juventude e Paraná Clube. Muita gente comemoraria se o primeiro caísse: ninguém merece jogar na serra gaúcha no inverno, não é mesmo? O Paraná Clube deve cair porque o PR está um pouco sobre-representado no Brasileirão (3 times, enquanto Bahia e Pernambuco estão fora) e também porque o clube possui o uniforme mais feio do Brasil. Eu também não me importaria que o Brasiliense voltasse à segundona. Time meio antipático. E não há nenhuma grande necessidade de que o DF tenha representação na primeira divisão.

5. Claro que o estado das coisas no campeonato muda no meio do ano, quando os times brasileiros são acossados pela grana européia, os jogadores mais talentosos e promissores vão embora e reiniciamos o anual encontro com a sina e miséria do nosso futebol, apesar da riqueza de talentos.

6. Quem será o campeão? Um dos seguintes cinco times: São Paulo, Santos, São Caetano, Palmeiras ou Atlético-MG. Aposto nos quatro primeiros porque o futebol de São Paulo continua bem superior ao do resto do Brasil. Não aposto no Corinthians porque não acredito que a linha de contratações imposta pela MSI no clube leve a qualquer lugar. Não deixo de apostar no Galo porque, ora bolas, é o meu time.

7. Por falar em Galo, o Tristão tem razão: faltam ao Atlético quatro zagueiros. Dois titulares e dois reservas. Lamento se houver algum parente ou amigo do Adriano lendo o Biscoito em BH, mas quem convenceu aquele rapaz de que ele podia jogar futebol não tinha nada na cabeça. Com 36 anos e 2 décadas de Carltons e Marlboros nos pulmões eu jogo mais que ele. Pelo menos uma testada na bola para dentro do meu próprio gol, aos 46 do 2º tempo, com meu time ganhando de 3 x 2 e quebrando um tabu de 35 anos, um gol contra maldito desses, eu garanto que eu não faria. Esse rapaz já fez sérios danos ao meu coração ao tentar sair jogando com a bola. Se a diretoria conseguir entregar um ou dois bons zagueiros ao Tite, prestem atenção no Galo.

8. Não seria legal se mais gente contribuísse com a Wikipedia em português? Eu fui lá ontem e acrescentei algumas frases ao verbete sobre o Galo. Ficou bacaninha.

9. Blogosfera de Minas Gerais, que tal irmos todos ao Mineirão no dia 29 de maio ver Clube Atlético Mineiro x Selección Argentina del Corinthians? Eu estarei com lá com certeza. Quem sabe a gente não faz um podcast com o Mineirão lotado? Como eu amo a primeira pisada no Mineirão depois de regressar do exterior. Há 15 anos é um vício.

Vai uma aposta aí?



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terça-feira, 05 de abril 2005

Orgiástica Comemoração Basquética

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Hoje o Biscoito não bloga sobre nada. A Carolina do Norte, minha primeira escola, é campeã nacional de basquete!

Em 1990, eu saí de BH porque uma certa universidade daqui me prometeu uma bolsa: a cidade em questão se chamava Chapel Hill. O bichinho tinha 40.000 habitantes e recebia um futuro-blogueiro que havia jurado nunca morar em nenhum lugar onde não houvesse pelo menos 500.000 seres humanos. Eu me enganei com aquele pueblo. Tinha 40.000 habitantes, mas lá havia mais fítas VHS com filmes indianos do que em todo o território brasileiro, mais restaurantes mediterrâneos que em toda Buenos Aires. Seriamente cosmopolita, o lugar. A cidade tem uma linda história: o ultra-reacionário senador republicano Jesse Helms uma vez fez campanha prometendo colocar uma "cerca" em volta da cidade. O astral é leve, progressista, hospitaleiro. Digamos o seguinte: é o que seria Curitiba se ela tivesse o tamanho de Caxambu.

Lá eu morei seis anos, fui lindamente recebido. A Universidade da Carolina do Norte é a mais antiga universidade pública dos EUA e peça chave na história da desmontagem do racismo no sul do país. O grande técnico do time de basquete durante as décadas de 1960-90, Dean Smith, é conhecido por seu papel chave nos sit-ins anti-racistas dos anos 60 (estilo: vou sentar aqui neste restaurante com meus amigos negões e quero ver quem vai deixar de nos servir, vai dizer?). Admiração, admiração infinita por Dean Smith. Em Carolina Michael Jordan aprendeu não só a ser o melhor basqueteiro do mundo, mas também a ser homem. Eu tenho orgulho de ter um mestrado em literaturas luso-brasileiras pela Universidade da Carolina do Norte (a tese foi sobre o primeiro e único Guimarães Rosa). Torço fervorosamente por eles no basquete.

Na grande finalíssima da noite de hoje contra Illinois, Carolina mostrou porque é a grande escola do basquete. O blogueiro Michael Bérubé cantou vitória para Illinois antes da hora, aceitou minha aposta e me deve uns pacotinhos de livros.

Foi memorável a festa. Para informação geral, o blogueiro não fumou nenhum cigarro.

PS futebólico 1: não percam os extraordinários textos de Ubiratan Leal sobre o esquema de Parreira, sobre o aniversário de um dos mais legendários clubes de futebol do mundo, o grande Boca Juniors e sobre o que teria sido do futebol brasileiro se não se houvessem desenvolvido os campeonatos estaduais.

PS futebólico 2: quanto ao estado das previsões do Biscoito, acertamos São Paulo e erramos Rio e Minas. Tudo indica que acertaremos Rio Grande, Goiás e Pernambuco. A final do Paraná é Atlético e Coritiba, portanto tudo pode acontecer. O Biscoito aposta no Furacão. Dando tudo certo manteremos a média do ano passado, de acertar uns 70% dos palpites.

PS futebólico 3: No quesito bibliografia acerca do futebol, não há dúvida, a Argentina nos dá de 10 x 0. Só agora começaram a sair em massa bons livros sobre o futebol em português. Sugiro três, muito em especial: sobre as falcatruas da FIFA há Como eles roubaram o jogo, de David Yollop (acerca dele ver posts do Rei Açúcar e do Ubiratan), sobre as origens do futebol no Rio , Footballmania: Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938, de Leonardo Affonso de Miranda Pereira e sobre a história das relações futebol-política Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, de Giberto Agostinho.

PS futebólico 4: Tostão mais uma vez deu show de bola na sua coluna do domingo na Folha. Diz o mestre Tusta: houve contra o Uruguai uma seleção brasileira sem áudio e outra com áudio -a da TV Globo, que transmitiu o jogo. A seleção sem áudio, real, jogou com muita garra, marcou bem no meio-campo e na defesa, mas teve pouquíssimo brilho. Do meio-campo para a frente, ficava embolada com três duplas na faixa central (dois volantes, dois meias e dois atacantes). Ninguém atuava pelos lados . . . A seleção com áudio, a que é assimilada e repetida pela maioria das pessoas e que passa a ser a verdadeira, fez uma grande partida, além de jogar com garra. Parecia que o Brasil dominava o jogo e que as grandes chances de gol eram da seleção brasileira. Tostão diz tudo com uma classe impressionante. O que fazem a Rede Globo de Televisão e o Sr. Galvão Bueno nas transmissões de futebol da seleção brasileira é um atentado contra o público, contra o Brasil, contra a objetividade, contra o jornalismo esportivo e contra a inteligência de qualquer ser humano que saiba diferenciar um escanteio de um arremesso lateral. É uma palhaçada, pura e simplesmente. É uma questão de democracia derrubar a voz desse homem.

PS 5: Contei que nós somos campeões?



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segunda-feira, 28 de março 2005

Prolegômenos esportivos a um post sobre duas mulheres

Eu estou preparando um post em homenagem a duas mulheres. Ainda não é este. São duas mulheres que eu aprendi a chamar pelo primeiro nome. Não é lindo isso, leitor, aprender, ao longo dos anos, a chamar alguém pelo primeiro nome? Ambas são doutoras, mas hoje para mim elas já são Cat e Beth. Dra. Cat reside em New Orleans e Dra. Beth reside em Belo Horizonte. Cat é minha advogada e Beth é minha analista (de linha freudo-lacaniana). Como é que fui mexer com advogada e com analista? Aguardem os próximos capítulos do Biscoito. Por enquanto, isto: sem mais elementos para embasar-me, eu as escolhi porque eram mulheres. E foi um sucesso.

Maravilhosa cervejada e comemoração da vitória: Quando os compatriotas brasileiros chegam aos EUA eu gosto de apresentar-lhes um evento que é genuína cultura popular estadunidense bacana – o campeonato nacional de basquete universitário, os NCAA’s . Trata-se de uma competição que tem lugar no coração das pessoas, entre as universidades nas quais elas estudaram. Sobre a escola para eu qual eu torço, cabe uma palavra. A Universidade da Carolina do Norte, pública, foi fundada em 1789. Escola de Michael Jordan, poderosa no basquete, teve no leme durante décadas Dean Smith, baixinho branquelo genial, responsável por inter-raciais sit-ins (manifestações em restaurantes) importantes na derrocada do racismo nos anos 60. A UNC é também respeitada por graduar todos os seus jogadores-alunos, sem babaquices ou falcatruas. Os torcedores da legendária UNC (que andava em baixa desde a aposentadoria de Dean) estamos comemorando a sensacional campanha deste ano. Na celebração da ida às semifinais neste domingo, o blogueiro descobriu que há uma legião de torcedores (ex-alunos) da UNC em Nova Orleans, incluindo umas belas advogadas de olhos azuis. Os NCAAs são o que a cultura esportiva dos Estados Unidos tem de melhor: mulherada ouriçada no sports bar, cervejinha gelada, high-fives. No próximo sábado tem mais. Por falar em esportes, saudações aos blogs atleticanos Martelo, Sarapalha, e Mineiras, Uai (power trio que inclui uma torcedora do ex-Ipiringa). O Biscoito decreta: a blogosfera belo-horizontina é mais atleticana que o Café Nice da Afonso Pena.

Para os leitores que chegam agora: eu escrevo sobre literatura. O primeiro livro, sobre narrativa latino-americana, pós-ditadura e luto, saiu em inglês, espanhol e no Brasil ficou assim. O segundo, sobre violência, fuçável online, é este aqui. Eu gosto de dar pitacos sobre música, já escrevi sobre a música de Minas Gerais, metálica e clubedaesquínica. Sobre política, eu digo, com revolta, isto, com paciência, isto, sem paciência, isto.

Nesta transição ao pontocom, eu devo agradecimentos a cinco seres humanos de generosidade infinita. Aos prezados e à linda, gratidão muy mucha. A casa está ficando chique que vocês nem imaginam. Aproveitem as letrinhas do sistema anti-spam do UOL enquanto é tempo. Contagem regressiva para a nova, maravilhosa casa, abençoada por cobras criadas: DOIS



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sábado, 26 de março 2005

Feliz Aniversário Galo

O Clube Atlético Mineiro foi fundado, ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, não por desportistas de elite, mas por 22 meninos que mataram aula. Ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, o Galo já era, na década de 1910, um time de negros e mulatos, numa época em que o futebol brasileiro ainda era segregado. Disso nós muito nos orgulhamos.

O Galo é pioneiro em tudo:


primeiro campeão da cidade de BH (1908)
primeiro campeão do estado de MG (1915)
primeiro campeão de um torneio inter-estadual brasileiro (Campeão dos Campeões do Brasil, 1936)
primeiro time brasileiro a excursionar vitoriosamente pela Europa (1950)
primeiro e único clube de futebol do mundo a derrotar a seleção brasileira de futebol (1969)
primeiro campeão brasileiro de futebol (1971)
primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992)

Parabéns ao Galo, por 97 anos de glórias. Este post será atualizado a cada 10 minutos com impressões sobre o clássico deste sábado, entre o Galo e o ex-Ipiranga, pelas semifinais do campeonato mineiro.

10 minutos de jogo: como sempre, a massa é maioria no Mineirão (mesmo pela televisão dá prá ver). O Galo já teve uma chance e Fred, do ex-Ipiranga, já recebeu amarelo por jogo violento. 12 minutos: quase gol do Galo, em finalização de Fábio Jr. 17 minutos: bate-rebate na área do ex-Ipiranga. Galo domina o jogo. Massa enlouquecida. 20 minutos: ex-Ipiranga equilibra o jogo e ganha escanteio. 26 minutos: o Galo mete uma bola na trave!! Mais um cartão amarelo para o ex-Ipiranga (Batatais). 28 minutos: Fred, do ex-Ipiranga, perde um gol na cara. Jogo sensacional no Mineirão. O ex-Ipiranga usa o toque mais miúdo, o Galo joga mais em velocidade. 32 minutos: amarelos para Fabio Jr., do Galo e Dracena, do ex-Ipiranga, por bate-boca. Jogo tenso na Pampulha. 35 minutos: sai Edson e entra o garoto Quirino no Galo. 37 minutos: falta contra o Galo, batida prá fora. Ex-Ipiranga volta a equilibrar o jogo. 39 minutos: falta contra o Galo, que começa a tomar sufoco. 46 minutos: Galo, no contra-golpe, quase marca. Empate é justo neste primeiro tempo.

Segundo tempo, 4 minutos: Zagueiro Adriano, do Galo, se machuca seriamente e sai chorando muito. Entra Henrique. 10 minutos: escanteio para o Galo. Massa em polvorosa. 13 minutos: Renato perde gol feito para o Galo. Sai Renato contundido. Galo queima a última substituição, entra Leandro Smith. Muito azar. 17 minutos: desvio na barreira e gol do ex-Ipiranga. Melda. Galo perde por 1 x 0. 23 minutos: ex-Ipiranga trunca o jogo e o Galo, sem 4 titulares, não reagiu ainda. 27 minutos: ex-Ipiranga mete bola no travessão. Jogo fica muito complicado para o Galo. 38 minutos: Galo mete bola na trave! 44 minutos: Fábio Jr. é expulso. A coisa fica muito feia. Termina o jogo, 1 x 0 ex-Ipiranga. O Galo precisa de uma vitória por 2 gols de diferença na próxima semana em Ipatinga. Não é o fim do mundo. Já saiu de buracos maiores.



  Escrito por Idelber às 12:47 | link para este post | Comentários (2)



sexta-feira, 04 de março 2005

Morreu Rinus Michels

Morreu Rinus Michels [link], aquele que muitos consideramos o maior técnico de futebol da história. Montou uma das poucas seleções mundiais a ficarem conhecidas por um nome cinematográfico, cultural, que marcou época: Laranja Mecânica
[link]. O seu time holandês de 1974 redefiniu o sentido da expressão *massacre* no futebol: contra eles, o Brasil apelou feio. Marinho Chagas deu pontapés e Luiz Pereira foi expulso. Se você nunca viu a camisa canarinho *humilhada* em campo, pegue um vídeo desse jogo. Foi 2 x 0 prá eles, mas poderia ter sido 5.
Tudo armação de *Rinus Michels*. Seus times se organizavam em lozangos móveis, tentaculares, pelo campo. Tinham pontas e centroavantes. Foi a única vez numa Copa do Mundo em que a Seleção do Brasil foi literalmente *posta na roda*. Que descanse em paz o grande *Rinus Michels*.

Um dos melhores instituições de ensino superior dos Estados Unidos, o
Smith College [link], acabou de fazer uma excelente contratação: venceu outras duas universidades no leilão por minha ex-aluna, amiga e doutora *Ibtissam Bouachrine*. Ibtissam é dessas poliglotas que fazem os metidos a poliglota-zinhos envergonharmo-nos:
falante *nativa* de árabe e francês, seu inglês e seu espanhol são de
fluência e intonação nativas. Além disso tudo, como *medievalista*,
estuda hebraico e fala e entende italiano. Não satisfeita, lê o
*Biscoito Fino e Massa* em português. Quando a tese dela virar livro eu conto prá vocês como o argumento é o fino do fino. Evoé e parabéns a *Ibi*. I'm just so proud of you.

Nestes primeiros sessenta dias de 2005, os dois blogs que mais enviaram leitores ao *Biscoito* foram o Liberal Libertário Libertino
[link] e o Pensar Enlouquece [link]. Obrigado Alê. Obrigado Ina.

Chico Buarque de Hollanda [link] pode ter
qualquer mulher que queira no Brasil. Pegou uma casada e Contigo
[link] fotografou. Noblat
[link] visitado por gente ilustre. A história é muito boa e só não blogo sobre ela por absurdo excesso de assunto e falta de tempo. Saio em dez minutos para a night de Nova Orleans. Mas nesta hora, o *Biscoito* deseja, ao marido envolvido, consciência dos *dois postulados* básicos da psicanálise: 1) o Grande Outro, de Pinto monumental, não existe; mesmo que agora Ele lhe pareça, meu amigo, ser a própria cara do Chico, acredite, Ele não existe. 2) Se o terreno da conversa é o desejo e sua satisfação, tudo é imperfeito e fracassado.

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  Escrito por Idelber às 21:18 | link para este post



terça-feira, 08 de fevereiro 2005

Previsões do Biscoito para os Campeonatos Estaduais


(/links não levam aos sites dos clubes e sim a textos bacanas sobre
futebol/)

*Campeonato Paulista*: O melhor time é o Santos
[link] , o mais regular é
o São Caetano [link] , o mais cheio de
estrelas é o Corinthians
[link] . Mas este *Biscoito*
aposta que Leão introduzirá culhões no Tricolor Paulista
[link] , que
este ano não morrerá na praia. Para o título do melhor campeonato
estadual do país, aposto no São Paulo F.C
[link] .

*Campeonato Mineiro*: Este é o ano do Galo
[link] ganhar o Ruralzão. O
glorioso não fica 5 anos em jejum desde que Costa e Silva ocupava o
Planalto. No Cruzeiro
[link] ,
Levir Culpi confirmará a fama de Le-vice. O outrora grande América-MG
[link] ,
depois de rebaixado do Nacional, da Série B para o inferno da Série C,
corre sério risco de passar a humilhação de ser rebaixado no Campeonato
Estadual.


Campeonato Paranaense: O Atlético-PR
[link]
vem se mantendo na elite do futebol brasileiro há anos. Ano passado
cantou vitória antes da hora no Estadual e perdeu para o Coritiba
(time chatinho que não adotou o nome da cidade por puro puritanismo
com a letra U). No Nacional-2004 o Atlético-PR cantou vitória de novo
e perdeu o título. No Estadual deste ano deve impor sua melhor
estrutura. Dá Furacão.

*Campeonato Baiano*: O Vitória-BA [link] ,
conhecido mundialmente pelas suas categorias de base, no ano passado
investiu em medalhões de garra e dedicação duvidosas e pagou o pato:
rebaixado para a Série B. O Bahia
[link]
quase subiu, mas morreu na praia. No Estadual, o Vitória ainda sentirá o
trauma e o Tricolor leva o título.

*Campeonato Goiano*: Este não tem nem graça. Ninguém em condições de
desbancar o Goiás
[link] .

*Campeonato Pernambucano*: Com os três grandes times do estado na
Segundona, o Sport
[link] continua sendo o
favorito. Mas o *Biscoito* aposta que o time de meninos do Náutico
[link] leva o título.

*Campeonato Gaúcho:* Em geral quando um time grande sofre uma baita
cacetada nacionalmente, é de se esperar que se recupere no Estadual. Mas
o time do Grêmio [link] é ruim
demais (sorry, Tiagón [link] ). O
título fica com o Colorado
[link] do Mílton
[link] .

Ah, já ia esquecendo, *Campeonato Carioca*: No estado onde hoje se
pratica o pior futebol entre as principais praças futebolísticas do
país, não se sabe quem é o mais horrível. O Flamengo
[link] continua
sua despencada e está em último lugar (quando Júnior Baiano é a voz do
bom-senso no time, algo vai muito mal). O Vasco
[link] colhe os frutos da sua
administração suspeita e autoritária. Quase todo mundo aposta no
Fluminense [link] ,
único carioca a não ser humilhado no Nacional-2004. Minha previsão
maluca do ano vai para o Cariocão: o título fica com o Botafogo
[link] .

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  Escrito por Idelber às 17:11 | link para este post



segunda-feira, 20 de dezembro 2004

Tarde inesquecível no Mineirão

Eu já disse isso em *outro lugar*
[link] . Se um antropólogo marciano
descesse no planeta Brasil para entender a magia do futebol – não a
fórmula nem as táticas – mas a *essência da paixão* pelo futebol, ele
poderia começar com o Flamengo no Maracanã ou o Corinthians no Morumbi.
Mas não teria o curso completo até presenciar a mais apaixonada e
mística torcida, a legião que segue o *Clube Atlético Mineiro*
[link] , a Massa do Galo.

Meninos, eu vi: *a Massa ganhou mais uma so-zin-ha*. Foi o maior público
do campeonato brasileiro de 2004. O borderô oficial foi 47.002. Mas
havia 60.000 fanáticos no Mineirão. O Galo há quatro anos não é campeão
de nada. Desde 1971 não ganha um título nacional importante. O time
estava em 20^o lugar e precisava vencer para não ser rebaixado. E a
Massa bateu o recorde de público do Campeonato. Quem explica isso?

2:40, depois de uma manhã maravilhosa com os filhos, cervejinha na mão,
vestido com o manto sagrado branco (por sugestão da leitora @lice), este
blogueiro estaciona no lugar de sempre. 2:50, cena comovente: um ônibus
de *Belém do Pará* lotado. Converso com M., uma dessas lindas morenas
jambo do norte: ´viemos empurrar o Galo´. Em 30 anos de visitas a
estádios de futebol, é a primeira vez que vejo alguém atravessar o país
para ver um jogo que não envolve um time de seu estado. 3:00, abraços
nos amigos da Galo Prates, que me mostram as novas bandeiras. Chamam-me
carinhosamente de Galo Gringo. 3:10, abraços na única torcida organizada
*musical* do futebol brasileiro, a *Galo Metal
[link] *. 3:20, tomo meu lugar
nas cadeiras numeradas, ao lado do legendário torcedor P., que lembra
que no dia 19/12/71, há exatamente 33 anos, ele presenciava no Maracanã
o primeiro título brasileiro do Galo. Digo a P. que meu filho Alexandre
também é do dia 19/12, que ele completa hoje 8 anos e que dali sairei
com ele e Laura para comemorar.

3:30, já quase não há lugares vazios no Mineirão. Uma certa tensão
percorre o estádio. Ninguém ali ignora que o São Caetano tem uma equipe
superior à nossa. Digo a P.: *o time terá que encarnar o espírito do
animal*. 3:40, lembro-me dos jogos em que a Massa lotou o estádio e teve
decepções traumáticas. 3:55, o Galo entra em campo: foguetório e o som
ensurdecedor daquele que é, do primeiro ao último verso, o hino de clube
mais cantado do mundo: *Nós somos do Clube Atlético Mineiro / jogamos
com muita raça e amor... *4:10, começa o jogo e o limitadíssimo time do
Atlético corre, mas sem muita efetividade. 4:20, bate-rebate na área do
Galo e o São Caetano por pouco não marca. 4:30, gol do Criciúma contra o
Coritiba em Santa Catarina. Com esta combinação de resultados, o Galo
está na segunda divisão. 4:35, o Galo começa a mandar no jogo. A Massa
grita e eu sinto o concreto do Mineirão *tremer*.

4:44, o menino Quirino, negro, pobre, formado em casa, como é de nossa
tradição, escapa pela direita, dá um drible no defensor do São Caetano,
e cruza. A bola vinha caindo nos pés de Alex num ângulo de quase 180^o ,
ou seja, se ele entra chutando ela vai nas arquibancadas. Por
transmissão de pensamento, os 60.000 fanáticos avisamos a Alex: mate a
bola com calma, o goleiro está caindo. Alex escuta, recebe a redonda
desajeitado na barriga, e enfia de dedão prá dentro do gol. O Mineirão
enlouquece. O excelente time do São Caetano começa a bater cabeça, errar
passes fáceis, discutir entre eles mesmos. A Massa começava a ganhar o
jogo para o seu time. 4:54, termina o primeiro tempo. P., do alto dos
seus 70 anos, verte umas lágrimas e me diz: ´é, Idelber, *baixou o
espírito do animal*´. Penso comigo o que já pensei tantas vezes: sei que
é só um jogo de futebol, mas por que, toda vez que presencio isso, eu
arrepio todo, o peito engasga, os olhos enchem d´água? Idealização de
brasileiro expatriado? Não sei, *mas é bom demais*.

5:15, o São Caetano pressiona. Mas Rodrigo escapa pelo meio, lança Alex
na direira, e de novo de dedão Alex enfia pro fundo das redes. 2 x 0
Galo. Logo depois, mais um gol, 3 x 0, e é só festa e cantoria no
Mineirão. Essa disponibilidade com que qualquer um quer abraçar qualquer
um é das coisas mais lindas do futebol.

E parabéns ao *_Santos_* [link] , que numa partida
assistida por um público em 50% inferior ao do Galo, sagrou-se campeão
brasileiro com toda justiça.

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  Escrito por Idelber às 14:32 | link para este post



segunda-feira, 13 de dezembro 2004

Reze pelo Galo

*Reze pelo Galo*

Matemática do *desespero* no Campeonato Brasileiro: Grêmio e Guarani já
rebaixados. Vitória-BA, Criciúma, Botafogo, Galo e Flamengo lutando para
escapar de mais duas vagas para a degola. Os dois primeiros afogando-se
porque dependem de ganhar seus jogos e torcer por tropeços de
adversários, o Botafogo numa dificílima, porque só depende de si, mas
tem que bater o poderoso vice-líder Atlético-PR na Arena da Baixada (se
não, terá que ligar o radinho e torcer).

O Galo depende de *vencer* o São Caetano no Gigante da Pampulha neste
domingo. Se ganhar, segue na série A. Se perder ou empatar, dificilmente
escapa da Série B – o poço assustador de onde subir é muito duro.

O Galo é a maior paixão da maioria do povo pobre de Minas Gerais:
primeiro campeão da cidade (1914), primeiro e mais freqüente campeão
mineiro (38 vezes), primeiro campeão brasileiro (1971), primeiro
brasileiro a excursionar pela Europa e encantar (1950), primeiro campeão
dos campeões estaduais do Brasil (1936), primeiro e único time do mundo
a vencer a Seleção *Brasileira* de Futebol (a de Pelé em 1969), primeiro
campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992), time que mais vezes
chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro (14), único entre os
grandes times brasileiros do Sudeste a incluir negros e mulatos já na
sua *fundação* (1908).

Mais do que por todas essas coisas, o Galo é conhecido *pelo poder e
paixão da sua torcida* [link] , e pelo
seu hino, que já começa duas oitavas acima de qualquer outro hino de clube.

Claro, 70.000 fanáticos vão lotar o Mineirão este domingo, inclusive
este blogueiro. Haja coração.

Figuinha, flores para Iemanjá, velinha prá Santo Antônio, qualquer coisa
está valendo agora.

Se alguém tiver uma opinião sobre se eu devo usar a camisa No. 1
(listras brancas e negras verticais) ou a camisa No.2 (toda branca)
deixe um alô por favor.

*Série coisas horríveis do Brasil II - *Ser obrigado a ouvir o Galvão
Bueno se quiser assistir futebol ao vivo. Não que ele não seja bom
locutor. Ele o é sim. Mas qualquer monopólio é *insuportável* e gera
arrogância. Se o cara já é arrogante de entrada, a coisa fica dura de
lascar.

*Série coisas maravilhosas do Brasil II - *Poder ver a *Soninha*
esbanjar inteligência, lucidez, visão renovadora do futebol, charme e
tudo mais na televisão (ESPN Brasil). Parabéns vereadora. Gente como
você sustenta meu restinho de esperança no PT.

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  Escrito por Idelber às 13:07 | link para este post