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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 04 de dezembro 2014

Idelber Avelar responde

1- Depois de deixar os inquisidores urrarem durante uma semana, coloquemos alguns pingos nos is sobre sexo, privacidade e crimes na internet, em 20 partes.

2- Ouvi calado durante sete dias uma das maiores tentativas de assassinato de reputação da história da internet brasileira, baseada em divulgação criminosa de mensagens privadas.

3- Se estou movendo ações cível e criminal contra os responsáveis, tanto pela violação de privacidade como pela difamação? É evidente que sim. Agora, já em posse da ata notarial que permite a responsabilização penal dos responsáveis, respondo.

4- Em primeiro lugar: os linchadores estão falando de alguém com 29 anos de magistério, centenas de ex-alunas, dezenas de ex-orientandas já professoras e ZERO reclamações formais por seu comportamento com mulheres dentro de sala de aula ou na universidade, além de média sempre, em todos os cursos, superior a 4,5 na escala de 5 pontos através da qual professores/as são avaliados por alunos e alunas.

5- Comecemos por aí, então. É dessa pessoa que estão falando.

6 – Deixei que os inquisidores recolhessem suas “provas” e o que conseguiram?

a) Um print de interação privada erótica com mulher adulta, não só criminosamente publicado, mas propositalmente recortado.

b) Um print de conversa com menor de idade que logo terminou por minha iniciativa e exatamente por isso, à luz da revelação da idade dela.

c) Dois relatos anônimos completamente mentirosos, vejam só, um deles já apagado!, não sem antes ser devidamente registrado em ata notarial.

7- Ou seja: tentaram durante uma semana e não conseguiram UMA, umazinha “denúncia” assinada por quem quer que seja.

8- Ficou alguma dúvida da combinação entre ressentimentos pessoais e ressentimentos políticos que motivou a abundante prática de crimes contra a honra na internet brasileira nos últimos sete dias?

9 – O moralismo reduzido aos métodos do macarthismo e do stalinismo.para assassinato de reputação não conseguiu nada melhor que isso.

10– Sim, gosto de sexo. Sim, falo muito de e faço muito sexo. Com quatro regrinhas claras: consensualmente, com adultas, jamais com chefes ou subordinadas e em privacidade.

11 – Anal, ménage, BDSM, cuckolding: é isso que escandaliza o “feminismo” no século XXI? Coisas que fariam Sade bocejar de tédio no século XVIII? Retrocedemos 250 anos, é isso?

12 - “Feminismo”, sim, entre aspas, pois essa mistura de fogueira inquisitorial, moralismo e misandria nada tem a ver com Beauvoir, Butler, Muraro, Irigaray, Michele Barrett, Chodorow, Mary Wollstonecraft e tantas outras que me ensinaram a pensar e ler o mundo.

13 - Por que são sempre anônimas aquelas que a fogueira inquisitorial chama de "vítimas"? Medo de quê, a não ser de assumir publicamente que também eram parte do jogo, que são donas de seu desejo?

14 – Termos como “abuso” ou “assédio”, aplicados a conversas virtuais nas quais duas partes estão em interação ativa, e para as quais o botão “bloquear” está sempre disponível, só significa uma coisa: a confinação da mulher ao lugar de vítima, como se ela não fosse dona de seu desejo.

15 – Alunas de Tulane foram assediadas por inquisidores em busca de alguma declaração de que eu as tivesse tratado com algo que não fosse profissionalismo e respeito. Conseguiram? NADA.

16- Ex-colegas e ex-orientandas minhas foram caçadas pelo tribunal em busca de alguma manifestação de que eu as tivesse tratado com algo que não fosse profissionalismo e respeito. O tribunal conseguiu? NADA.

17 -- Às centenas de pessoas que me escreveram em solidariedade nos últimos dias: muito obrigado.

18- Às muitas pessoas que me escreveram perguntando como poderiam ajudar, a resposta é simples: divulguem este comunicado entre os amigos e entre aqueles que disseminaram difamação. O comunicado está disponível também em meu Facebook: https://www.facebook.com/idelber.avelar e no Twitter (http://twitter.com/iavelar). E cobrem de blogs, revistas e tuiteiros a veiculação do direito de resposta, tema do qual se reclama tanto quando a “grande mídia” publica algo de que não gostamos.

19- As arrobas que já estão com seus crimes lavrados em ata notarial terão o prazer de descobri-lo por si sós, quando receberem a notificação judicial já em curso.

20- Por motivos que suponho também óbvios, só voltarei a falar do tema depois que transitar em julgado a sentença que, tenho certeza, punirá os responsáveis.



  Escrito por Idelber às 09:06 | link para este post



terça-feira, 08 de março 2011

Links para o 8 de março

Aí vão alguns links recomendados pelo blog para este 8 de março:

Segundo estudo da Fundação Perseu Abramo, uma mulher é vítima de violência no Brasil a cada 24 segundos. Em 80% dos casos, os agressores são maridos e namorados. Inaugurado em janeiro deste ano, o blog Quem o Machismo Matou Hoje? compila as notícias dos horrores da violência contra as mulheres. Vale a visita, como lembrete reiterado da realidade para a qual o 8 de março deve nos alertar. O blog também tem perfil no Twitter.

Agora em domínio próprio, o blog coletivo Blogueiras Feministas reúne várias das mais destacadas blogueiras do Brasil com postagens diárias. Chamo a atenção especialmente para as postagens sobre mídia, que mapeiam a reprodução cotidiana da cultura machista na grande imprensa.

A Universidade Livre Feminista é a responsável pelo belo projeto Biblioteca Feminista, um centro de documentação e repositório de teses, livros e artigos sobre questões de gênero. A biblioteca está organizada em pastas temáticas e algumas delas, como a de políticas públicas, já têm um acervo considerável.

Dois sites governamentais enfocados em políticas públicas são o Observatório da Igualdade de Gênero e a página da Secretaria de Políticas para as Mulheres, portais com informações acerca das ações do governo no combate à discriminação, à violência e ao machismo.

Outros dois portais que valem a pena ter entre os favoritos são o da Agência Patrícia Galvão e o da Sempre Viva Organização Feminista, espaços de debates, opinião e notícias.

O blog Livros Feministas já tem um belo arquivo de obras para baixar. Recomendadíssimos são os dois clássicos O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir e Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf.

Para quem quiser revisitar a ubíqua presença do machismo nas últimas eleições, os arquivos do blog coletivo Sexismo na política são parada obrigatória.


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Textos, alguns deles já clássicos, que este blog recomenda para o dia de hoje:

Dispenso esta rosa, de Marjorie Rodrigues, uma magnífica explicação do porquê de os parabéns e a rosa não serem exatamente a melhor tradução do espírito do 8 de março.

Na mesma linha, Os machistas no dia internacional da mulher, de Cynthia Semíramis, analisa alguns dos clichês aparentemente elogiosos nos quais se diluem as pautas de luta feminista.

Da lavra de Leonardo Sakamoto, A dura vida das jornalistas brasileiras discute o machismo nas salas de redação.

Também saído do forno, o ótimo texto da Beauvoiriana analisa como o machismo se reproduz também na indústria editorial: Mulheres sem voz. O perfil dela no Twitter é o Literariamente.

Para quem se interessa pela luta pelo direitos reprodutivos das mulheres, há um texto imperdível da Dra. Diana Curado: Três anos de aborto legal, seguro e gratuito em Portugal, que demonstra, entre outras coisas, que a legalização não representou um aumento no número de cirurgias e que neste período não ocorreu uma só morte relacionada a aborto no país.

E para quem ainda não teve a notícia, aí vai: o governo Kassab acaba de despejar o Centro de Informação da Mulher, o maior acervo sobre a mulher da América Latina.

As postagens d'O Biscoito Fino e a Massa sobre feminismo, homofobia, tratamento da sexualidade na literatura e assuntos correlatos estão agrupadas na tag Gênero.

Recebam todas--e todos--o convite a que compartilhem na caixa de comentários outros links relevantes neste 8 de março.



  Escrito por Idelber às 05:46 | link para este post | Comentários (10)



domingo, 19 de dezembro 2010

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar

kollontai.jpgUma das coisas que aprendi sendo amigo e interlocutor de Mary W é que a própria resistência (entendida em sentido freudiano) ao feminismo é um fenômeno sociologicamente interessante, um dado a se estudar, um caso, diria a Mary, com sua sintaxe e seu uso do negrito inconfundíveis. Essa sacada dela coincide com algo que eu lhe disse certa vez durante um chope: quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros "corretivos" de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando 'divido' o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

O acontecido já foi relatado por Cynthia Semíramis e Lola Aronovich, e só me interessa aqui como sintomatologia do blogueiro progressista que faltou à aula em que o feminismo explicava em detalhe como o pessoal está imbricado com o político, como a apropriação e a simultânea desqualificação do trabalho das mulheres têm sido componentes históricos de uma hierarquia de gêneros que se impõe com tremenda brutalidade. O blogueiro progressista provavelmente nem notou que o Jornal Nacional mais uma vez se permitiu comentários sobre a aparência de Dilma que jamais se permitiria sequer sobre Lula. Mas a Marjorie Rodrigues notou.

Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

O progressismo blogueiro refletiu pouco, me parece, sobre como até suas referências a si próprio estão encharcadas de sexismo. O encontro progressista em São Paulo (que contou com interlocutores e amigos meus, que foi uma bela iniciativa à qual fui convidado, e a cuja continuação eu desejo sucesso) foi, em várias ocasiões, apresentado por seus principais protagonistas, quase todos homens, como “o” encontro de blogueiros, “o primeiro encontro” nacional, “a primeira grande” reunião.

Ora, o que isso tem a ver com o sexismo?

O progressismo blogueiro formado por homens jornalistas oriundos da grande mídia ou pautados por ela desconhece tanto a história de blogolândia que, como diria Macedonio Fernández, se a desconhecesse um pouquinho mais, já não caberia nada. Isso não seria problema se ele não tivesse a pretensão de falar em nome de uma totalidade "progressista". A primeira pessoa levada a um portal por seu trabalho em blogs foi uma mulher, Daniela Abade. A primeira vez que em um livro foi vendido via blogs aconteceu também num blog feminino, o Udigrudi. Talvez a mais massiva troca de experiências e formação de comunidade num livro de visitas de blog ocorreu pelo trabalho de duas mulheres feministas. Refiro-me ao Mothern de Laura Guimarães e Juliana Sampaio, que também representou a primeira vez em que um blog virou série de televisão. A mais longeva comunidade blogueira em atividade na rede provalvemente é a do imperdível Drops da Fal. Cynthia Semíramis, a feminista cujo texto-resposta foi recusado no espaço que transformou “feminazi” em post, tem mais história na rede que qualquer das lideranças masculino-jornalístico-progressistas (é coautora, por exemplo, de um texto clássico sobre a questão jurídica na internet). De Marina W a Cláudia Letti a Meg Guimarães, há uma história de pioneirismo de mulheres em blogolândia que se deveria conhecer com mais interesse e humildade, se é que a palavra "progressista" vai preservar ainda um farrapo de relação com alguma experiência que possa ser chamada de emancipatória.

Confesso que sinto um pouco de vergonha alheia quando vejo blogueiros progressistas referindo-se ao seu (notadamente importante, sublinhe-se) encontro como “o” encontro de blogueiros ou como “a primeira” reunião ou a si próprios como “os” progressistas. Tudo isso enquanto ignoram completamente a história que lhes precede, na qual o protagonismo feminino é indiscutível. Na história que lhes é contemporânea, o protagonismo feminino não é nada desprezível tampouco, mas também a ignoram.

O jornalismo masculino progressista não apenas desconhece essa história. Ele não parece interessado em conhecê-la, não suspeita que familiaridade com ela problematizaria alguns elementos de sua prática. Fazendo tantas referências adâmicas a si próprio, contribui para a invisibilização e o silenciamento da história de blogolândia construída pelas mulheres. Daquele jeito convicto bem próprio dos ignorantes em denegação, o blogueiro jornalista-progressista jura que isso que não tem nada a ver com o machismo. Provavelmente ele não também não se perguntou se essa invisibilização terá algo a ver com vícios oriundos de 100 anos de um modelo em que jornalistas, quase sempre homens, falavam, na maioria das vezes sobre assuntos que domina(va)m assombrosamente mal, e leitores e leitoras recebiam calados.

Caso o jornalismo blogueiro masculino progressista tenha inteligência, humildade e decência, escolherá escutar o que sobre o feminismo disseram as próprias feministas. A bibliografia não é exatamente pequena. Sempre se pode começar com O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, passar à Mística Feminina, de Betty Friedan, chegar a Problemas de Gênero [pdf], de Judith Butler, escolhendo, no caminho, mil outras veredas possíveis. Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria enintitulada "sistemas duais", que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes). Essa polêmica está apresentada num livro de Michelle Berrett, intitulado Women's Oppression Today, que seria uma ótima pedida traduzir. De Patrícia Galvão a Rose Marie Muraro, é possível informar-se, um pouquinho que seja, sobre a história no Brasil.

Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.


PS: A primeira oração do título é tirada de um texto de Paulo Candido. A segunda é tirada de um texto de Ana Maria Gonçalves. Na foto, Alexandra Kollontai, líder feminista da Oposição Operária russa da década de 1920 (daqui).

PSTU: Registro com alegria e gratidão que passei a fazer parte da seletíssima lista de recomendações do Blog do Sakamoto. Obrigado, Leonardo, a quem leio há tempos.

PSTU do B: O grupo que chamo neste texto de jornalismo blogueiro masculino progressista inclui desde amigos queridos e/ou pessoas que genuinamente admiro até pessoas com a qual tenho interlocução protocolar, com variados graus de interesse, até pessoas a quem não costumo ler. Ao contrário do que sempre faz este blog quando discorda de alguém, desta vez o grupo vai nomeado assim, no abstrato, sem links nem nomes, não porque ele seja homogêneo, mas porque, afinal de contas, não é de você que devemos falar.


Atualização em 21/12: Como toda polêmica, esta terá valido a pena se bons textos tiverem sido produzidos e posições tiverem sido explicitadas, reveladas. Tentando manter fidelidade ao subtítulo do post, recomendo os posts de Renata Winning, Niara de Oliveira, Lola Aronovich e Cris Rodrigues.



  Escrito por Idelber às 04:59 | link para este post | Comentários (257)



quarta-feira, 08 de dezembro 2010

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica

Julian Assange é o primeiro geek caçado globalmente: pela superpotência militar, por seus estados satélite e pelas principais polícias do mundo. É um australiano cuja atividade na internet catupultou-o de volta à vida real com outra cidadania, a de uma espécie de palestino sem passaporte ou entrada em nenhum lugar. Ele não é o primeiro a ser caçado pelo poder por suas atividades na rede, mas é o primeiro a sofrê-lo de um jeito tentacular, planetário e inescapável. Enquanto que os blogueiros censurados do Irã seriam recebidos como heróis nos EUA para o inevitável espetáculo de propaganda, Assange teve todos os seus direitos mais elementares suspensos globalmente, de tal forma que tornou-se o sujeito mundialmente inospedável, o primeiro, salvo engano, a experimentar essa condição só por ter feito algo na internet. Acrescenta mais ironia, note-se, o fato de que ele fez o mais simples que se pode fazer na rede: publicar arquivos .txt, palavras, puro texto, telegramas que ele não obteve, lembremos, de forma ilegal.

Assange é o criminoso sem crime. Ao longo dos dias que antecederam sua entrega à polícia britânica, os aparatos estatal-político-militar-jurídico dos EUA e estados satélite batiam cabeças, procurando algo de que Assange pudesse ser acusado. Se os telegramas foram vazados por outrem, se tudo o que faz o Wikileaks é publicar, se está garantido o sigilo da fonte e se os documentos são de evidente interesse público, a única punição passível, por traição, espionagem ou coisa mais leve que fosse, caberia exclusivamente a quem vazou. O Wikileaks só publica. Ele se apropria do que a digitalização torna possível, a reprodutibilidade infinita dos arquivos, e do que a internet torna possível, a circulação global da hospedagem dessas reproduções. Atuando de forma estritamente legal, ele testa o limite da liberdade de expressão da democracia moderna com a publicação de segredos desconfortáveis para o poder. Nesse teste, os EUA (Departamento de Estado, Justiça, Democratas, Republicanos, grande mídia, senso comum) deixaram claro: não se aplica a Primeira Emenda, liberdade de expressão ou coisa que o valha. Uniram-se todos, como em 2003 contra as “armas de destruição em massa” do Iraque. Foi cerco e caça geral a Assange, implacável.

Wikileaks é um relato de inédita hibridez, para o qual ainda não há gênero. Leva algo de todos: épica, ficção científica, policial, novela bizantina, tragédia, farsa e comédia, pelo menos. Quem vem acompanhando a história saberá da pitada de cada uma dessas formas literárias na sua composição. O que me chama a atenção no relato é que lhe falta a característica essencial de um desses gêneros: é um policial sem crime, uma ficção científica sem tecnologia futura, uma novela bizantina sem peregrinação, comédia sem final feliz, tragédia sem herói de estatura trágica, épica sem batalha, farsa sem a mínima graça. Kafka e Orwell, tão diferentes entre si, talvez sejam os dois melhores modelos literários para entender o Wikileaks.

Como em Kafka, o crime de Assange não é uma entidade com existência positiva, para a qual você possa apontar. Assange é um personagem que vem direto d'O Processo, romance no qual K. será sempre culpado por uma razão das mais simples: seu crime é não lembrar-se de qual foi seu crime. Essa é a fórmula genial que encontra Kafka para instalar a culpa de K. como inescapável: o processo se instala contra a memória.

O Advogado-Geral da União do governo Obama, que aceitou não levar à Justiça um núcleo que planejou ilegalmente bombardeios a populações de milhões, levou à morte centenas de milhares, torturou milhares, esse mesmo Advogado-Geral que topou esquecer-se desses singelos crimes e não processá-los, peregrinava pateticamente nos últimos dias em busca de uma lei, um farrapo de artigo em algum lugar que lhe permitisse processar Julian Assange. O melhor que conseguiram foi um apelo ao Ato de Espionagem de 1917, feito em época de guerra global declarada (coisa em que os EUA, evidentemente, não estão) e já detonado várias vezes—mais ilustremente no caso Watergate—pela Suprema Corte.


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À semelhança do 1984 de Orwell, o caso Wikileaks gira em torno da vigilância global mas, como notou Umberto Eco num belo texto, ela foi transformada em rua de mão dupla. O Grande Irmão estatal o vigia, mas um geek com boas conexões nas embaixadas também pode vigiar o Grande Irmão. Essa vigilância em mão dupla é ao mesmo tempo uma demonstração do poder da internet e um lembrete amargo de quais são os seus limites. Assange segue preso, com pedido de fiança negado (embora o relato seja que o Juiz se interessou pela quantidade de gente disposta a interceder por ele e vai ouvir apelo) e, salvo segunda ordem, está retido no Reino Unido até o dia 14/12. A acusação que formalmente permitiu a captura é o componente farsesco do caso, numa história que vai de camisinhas furadas em sexo consensual à possíveis contatos das personagens com a CIA.

No campo dos cinco "escolhidos" para repercutir a rede anônima, não resta a menor dúvida: cabeça e tronco acima dos demais está o Guardian, que tem tomado posição, feito jornalismo de verdade, e mantém banco de dados com o texto dos telegramas. Brigando pelo segundo lugar, El país e Spiegel, com o Le Monde seguindo atrás. Acocorado abaixo de todos os demais, rastejante em dignidade e decência, o New York Times, que se acovardou outra vez quando mais era de se esperar jornalismo minimamente íntegro. A área principal da página web do jornal, na noite de 07/12, não incluía uma linha sequer sobre a captura que mobilizou as atenções de ninguém menos que o Departamento de Estado:


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Enquanto isso, a entrevista coletiva de Obama acontecia com perguntas sobre o toma-lá-dá-cá das emendas entre Republicanos e Democratas, e silêncio sepulcral sobre o maior escândalo diplomático moderno dos EUA. Nada como a imprensa livre.

A publicação dos telegramas não para, evidentemente, no que é outra originalidade do caso: a não ser que você acredite que a acusação sexual na Suécia foi a razão real pela qual o aparato policial do planeta foi mobilizado para prender Assange, cabe notar que o “crime” que motivou a prisão continuará sendo praticado mesmo com o “criminoso” já capturado. O caso Wikileaks inaugura o crime que continua acontecendo já com o acusado atrás das grades: delito disseminado como entidade anônima e multitudinária na Internet. 100.000 pessoas têm os arquivos do Cablegate, proliferam sites espelho com os telegramas já tornados públicos. E a Intifada está declarada na rede, com convocatórias a ataques contra os sites que boicotaram o Wikileaks.

Atualização: e os EUA estão mesmo tentando com os britânicos e suecos a extradição de Assange para processá-lo por ... espionagem!

Atualização II: No Diário Gauche, há um belo vídeo com entrevista de Assange em Oxford, com legendas e tudo.



  Escrito por Idelber às 02:37 | link para este post | Comentários (52)



quarta-feira, 01 de dezembro 2010

Sexismo, eleições e conservadorismo, por Cynthia Semíramis

O Biscoito estréia hoje um outro modus operandi. Continuaremos com a marca do blog, que é a publicação de textos inéditos, mas eu não serei o único a escrever. Já temos três novos colunistas recrutados. A primeira é Cynthia Semíramis.



Aproveitarei a oportunidade como blogueira convidada d' “O Biscoito Fino e a Massa” para comentar alguns aspectos que me chamaram a atenção durante o período eleitoral, e que têm potencial para se tornarem grandes problemas nos próximos anos. O post de hoje é sobre sexismo e ascensão política e social das mulheres.

A campanha eleitoral em si foi sexista, embora bem menos do que esperávamos. É interessante observar que a maioria desses episódios não veio de políticos, mas dos meios de comunicação, que procuraram valorizar um modelo de feminilidade extremamente restrito, focado em aparência e controle do corpo feminino. É por isso que o aborto esteve em pauta durante parte do período eleitoral, e é por isso que a maioria das críticas a Dilma resvala, em algum momento, na questão estética ou questiona sua capacidade de liderança.

Após a eleição, tivemos alguns episódios sexistas direcionados a Dilma Rousseff. Monica Waldvogel comentou que Dilma é uma mulher sozinha (pois não tem marido!) e insinuou que o país talvez não aceite se ela arrumar um namorado; alguém se lembra de perguntas semelhantes na época em que o divorciado Itamar Franco assumiu a presidência? A Folha de São Paulo fez um vexaminoso momento Caras vigiando a ida de Dilma a uma praia em Itacaré. Discutiu-se à exaustão se Dilma será "presidenta" ou "presidente". A especulação sobre Dilma destinar 30 % dos ministérios a mulheres rendeu algumas grosserias inclusive de quem se considera de esquerda.

Esses episódios já eram esperados. Afinal, sexismo independe de posição política, grau de escolaridade ou classe social. Nossa sociedade é bastante preconceituosa e está mais interessada em julgar uma mulher pela aparência e submissão do que pelo bom desempenho profissional. Ainda temos poucas mulheres em cargos políticos, o que implica em um período de adaptação para que as pessoas e os meios de comunicação aprendam a se comportar de forma menos sexista.

É importante notar que o acesso ao poder político não é garantia de respeito ou de segurança para mulheres. Uma observação que surgiu durante a discussão sobre feminicídio no Fazendo Gênero 9 foi de que em alguns países a maioria das mortes de mulheres não tem mais a motivação tradicional ligada à posse da mulher (morte causada pelo ex-marido que não aceita a separação, por exemplo, e que é situação corriqueira no Brasil). Passaram a ser mortes causadas por ódio porque as mulheres estão tendo ascensão social e política. E os meios de comunicação têm papel fundamental nesse processo.

Uma das formas encontradas para fazer as mulheres se retirarem da vida social é criar um clima de violência e medo que as faça retornar ao espaço privado. Isso pode ser obtido tanto com reportagens sensacionalistas sobre crimes cometidos contra mulheres quanto com o descaso na aplicação de leis que exigem proteção de mulheres em caso de violência. Diversos juízes se recusam a aplicar a Lei Maria da Penha, mas apenas um juiz foi punido pelo CNJ por ter utilizado linguagem imprópria e discriminatória de gênero ao se recusar a aplicar a lei Maria da Penha. Em sites jurídicos pode-se encontrar diversos comentários defendendo o juiz; os comentaristas optam por criticar uma lei que e ignorando a situação de desespero das mulheres vítimas de violência intra-familiar.

Outra variante desse modelo é incentivar uma visão conservadora, valorizando apenas as mulheres que se mantêm dóceis e em segundo plano, sem grandes ambições além de cuidar de si mesmas, da casa, dos filhos, e trabalhar para pagar as contas do mês. Esse movimento pode ser visto em diversas crônicas recentes, que buscam determinar como as mulheres devem se comportar para serem aceitas socialmente – e sempre o comportamento esperado é o de submissão à vontade masculina e retorno a um mundo no qual mulheres não podiam ir além de se casar, agradar o marido e cuidar dos filhos.

Esse conservadorismo é um ponto a ser observado nos próximos anos, para que a pressão cultural (através principalmente da grande mídia, que serve de inspiração inclusive para a mídia alternativa e para a blogosfera) e o aumento de violência contra mulheres (através da impunidade dos agressores) sejam combatidos e não atrapalhem a ascensão das mulheres em todas as áreas. A julgar pela campanha política, tenho minhas dúvidas que o sexismo continuará se dirigindo somente contra a presidenta Dilma Rousseff. É mais provável que seja dirigido contra todas as mulheres, repreendendo-as por se recusarem a seguir o modelo conservador.


Cynthia Semíramis



  Escrito por Idelber às 21:12 | link para este post | Comentários (51)



domingo, 31 de outubro 2010

A primeira presidenta e um inédito reencontro com o passado

Poder-se-iam elencar 13 sólidas razões no campo da política, ou um motivo mais fundamental, que aludisse à alma da nação, ou um incontável rosário de números, fatos e dados para explicar a eleição de Dilma Rousseff. Poderíamos recorrer às doutas palavras do Enéas de Souza, da Fundação de Economia de Estatística/ RS:

Ela foi uma espécie de Super-Ministro do Planejamento. Logo de saída, deu ordenação e coerência nas obras dos diversos ministérios. Deu unidade e tornou denso o trabalho do governo. Pois, antes de Dilma, as pernas estavam para um lado, os braços para outro, a cabeça jogada lá diante, e os calcanhares e os pés andavam sozinhos pela Esplanada dos Ministérios. Tudo existindo, mas, todas as partes dispersas.

Uma espécie de diáspora do governo Lula. Dilma fez como os mágicos: agregou um cenário ao conjunto e reuniu tudo num corpo só. E surgiu daí a envergadura do governo Lula. Era o que o político Lula precisava. Tinha que vir alguém que soubesse organizar as peças do governo numa cara de governo. Precisava de um ministro que planejasse e coordenasse as ações para que Lula se tornasse o estadista. E ele o foi. E é.

Assim, no final do Lula I, a população já tinha se dado conta que todo um projeto estava organizado: aumento de salário mínimo consistente, Bolsa Família, crédito consignado, ProUni. E Dilma, vindo do Ministério de Minas e Energia acrescentou o que faltava: Luz para Todos. [...]

O Luz para Todos. Se pensarmos bem foi um dos grandes projetos de Dilma. Pense o leitor e imagine. Na época, discutia com um amigo e lhe disse: “Ah, você acha que esse é um programa banal, é? Faça o seguinte, você que é classe média: apague as luzes da sua casa e fique uns 15 dias sem luz. Pense como será o seu dia; pense, sobretudo, como será a sua noite. Você está na Idade Média. São 15 milhões de pessoas que viajaram 500/600 anos”



Poderíamos seguir elencando razões e fundamentos, mas com esse rol não esgotaríamos o significado da eleição de Dilma Rousseff, posto que é por demais poderoso e simbólico o que acontece no Brasil neste 31 de outubro. Para além de toda política, para além de todos os números do Bolsa Família, do ProUni e da ascensão à classe média, essa potente simbologia repousa em dois ineditismos extraordinários de Dilma: ela é nossa primeira presidenta e nosso primeiro reencontro de cabeça erguida com o passado traumático da ditadura (ela também será nossa primeira presidente atleticana, mas o blogueiro concede que este fato é de importância ligeiramente menor que os outros dois).

O giro que descreve Enéas de Souza foi fruto, sem dúvida, da sintonia inaudita que se desenvolveu entre Lula e Dilma, já na época das Minas e Energia, mas especialmente depois que ela chega à Casa Civil em meio à tempestade de 2005, e arruma a casa no Ministério mais importante da Esplanada. O machismo com que foi representada essa sintonia na nossa mídia é mais um capítulo enlameado da história desta campanha (e razão pela qual nunca é demais recordar que os conglomerados midiáticos são os últimos a ter o direito de criticar a sujeira destas Presidenciais 2010).

Dilma Rousseff, mulher de classe média que, sem carecer, lançou-se a enfrentar a ditadura, foi barbaramente torturada e não delatou companheiros, levantou-se, sacudiu, deu a volta por cima, serviu como Secretária da Fazenda no mandato de Alceu Collares (PDT) que iniciou histórica hegemonia de esquerda em Porto Alegre, repetiu a dose como Secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul, tanto sob Collares como sob Olívio Dutra (PT), ascendeu ao governo federal, consertou a calamitosa situação deixada pelos apagões de FHC nas Minas e Energia, assumiu a Casa Civil em meio à maior crise política desde o Collorgate e pilotou a maior redução da desigualdade da história da nação, essa, ninguém menos que essa mulher foi apresentada como “poste”, “desconhecida” ou, no máximo, “bem treinada”, quando surpreendia os preconceitos dos semiletrados jornalistas brasileiros com seu impressionante domínio dos números e dos mecanismos da máquina federal.

Para ir além do pobre sexismo das análises que vimos na mídia brasileira sobre a relação entre Lula e Dilma, há que se recordar a história do PT e o profundo incômodo que, com frequência, sentia Lula ante a atuação das alas “intelectuais” do partido, desde os seus economistas e sociólogos até os militantes de classe média oriundos da esquerda organizada. Dilma vem desse mundo, mas ela é, sobretudo, uma cabeça prática, executiva, que faz acontecer, com assombrosa capacidade de assimilação e processamento de dados. A combinação que realiza Dilma entre a paixão e a entrega militantes, por um lado e, por outro, o talento prático já desprovido das enrolações retóricas de tantos quadros da esquerda, absolutamente encantou e seduziu Lula, já antes da posse em 2003. Quando todos apostavam que Luis Pinguelli Rosa seria o escolhido para a pasta das Minas e Energia, surge Dilma, já destacando-se com seu laptop, domínio dos números e conhecimento prático da matéria. Lula encontrou ali uma alma gêmea, e é esse pé de igualdade na sintonia o que retrata esta foto, mais reveladora que todas as matérias e colunas:

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Também é da ordem do verdadeiro dito mais profundamente pela imagem que pela palavra a fotografia tirada por Ricardo Stuckert nesta sexta-feira, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde Lula visitava José Alencar e prometia: Zé, nós subimos a rampa juntos, vamos descer juntos. O carinho demonstrado nesta foto diz mais que todas as análises do lulismo como recomposição da aliança de classes no Brasil. Lula e Zé:


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As duas fotos não estão, evidentemente, desvinculadas. A capacidade de gestão de Dilma e a facilidade com que ela conversa com os vários setores da sociedade são parte integrante do pacto de classes que se arma no Brasil do lulismo de resultados, e que tem nesse gesto de amor no Sírio-Libanês o seu mais acabado emblema.

O blog deseja um bom voto a todos na Pátria Amada, promete comentários em vídeo, ao vivo, durante o dia, e parabeniza Carlos Drummond de Andrade e John Keats por fazerem aniversário no dia em que o Brasil elegerá sua primeira presidenta.



  Escrito por Idelber às 05:24 | link para este post | Comentários (67)



terça-feira, 31 de agosto 2010

Blogueira convidada: Sexismos à parte, por Marjorie Rodrigues

O texto de hoje é de autoria de minha amiga Marjorie Rodrigues. Ele é inédito e foi escrito a convite do Biscoito.

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Devo confessar que, no começo do ano, estava um pouco apreensiva em relação a como seria cobertura jornalística das eleições presidenciais. “Podem esperar que vem muito sexismo por aí”, cheguei a twittar. Afinal, teríamos uma situação inédita: duas mulheres entre os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas – sendo que uma delas representa o governo que a imprensa, tomando para si o papel de oposição, tanto tem se esforçado para derrubar.

Vale lembrar que a participação das mulheres na política brasileira ainda é muito tímida. Os partidos dizem ter dificuldades para cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas. Creio que este é um problema, acima de tudo, cultural. As mulheres se candidatam pouco e as pessoas têm desconfiança em votar nelas, em grande parte, devido à idéia de que mulher “não serve” para política. De que os homens são racionais e as mulheres, sentimentais. De que o comando econômico e político é território masculino, enquanto às mulheres cabe o campo da domesticidade, do cuidado de crianças, doentes e idosos; às mulheres cabe à moda, o enfeite, o supérfluo. Enquanto não rompermos com a idéia arcaica e rígida de que há coisas “de menino” e coisas “de menina”, acredito que o aumento de mulheres em cargos eletivos será um caminho árduo.

Enfim. A imprensa é um dos meios que formam o imaginário coletivo. Portanto, é um dos meios pelos quais é disseminada esta mensagem de que mulher não serve para governar. As últimas eleições presidenciais americanas, as quais acompanhei com bastante entusiasmo, tiveram duas mulheres em posições de destaque (Hillary Clinton e Sarah Palin) e foram um show de preconceito de gênero.

Logo, não pude deixar de pensar: como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia que escancaradamente nos reduz a bundas, nos compara a objetos, dá espaço a vozes ultraconservadoras e ridiculariza o movimento feminista? Como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia desenfreada, monopolizada, que fala o que quer e muito raramente é punida por isso? Como seriam estas eleições num país cujos principais humoristas acham racismo e sexismo o cúmulo do cool?

Já no ano passado, as perspectivas não eram das melhores. Há cerca de um ano, o jornalista Marcelo Coelho publicou em seu blog um texto em que media o sex appeal de várias mulheres na política. Jorge Pontual fez o mesmo no twitter, embora tenha voltado atrás e pedido desculpas. Ruth de Aquino caiu no ridículo de entrevistar um psicanalista para dar bronca nos tiques e trejeitos “pouco femininos” de Dilma: “abaixa esse dedo em riste! Seja mais delicada!”. Então, pensei: “ai, ai, ai. Se a coisa já tá assim agora, imagine quando a campanha começar pra valer?”.

Bom, de fato, a mídia não me decepcionou. Sexismo há, e muito. O trio Estado-Folha-Globo (para não citar os jornais regionais, menores, que pegam carona na cobertura destes) fez reportagens de, no mínimo, meia página sobre as roupas, a maquiagem e as transformações estéticas das candidatas. A Folha de S. Paulo chegou a entrevistar o marido de Marina Silva, para ver se ele aprovava as mudanças que ela fez no visual.

Já a revista Veja publicou uma matéria sobre “quão decisivo é o fator beleza numa eleição”. (estranho... Se é tão importante assim, por que nunca tinham escrito sobre o assunto? Só foram escrever agora, que temos duas mulheres? Embora políticos homens sejam citados na matéria, o foco são as mulheres. E são majoritariamente fotos de mulheres que ilustram a reportagem).

Celso Kamura, o cabeleireiro responsável pela mudança no corte de Dilma, também ganhou entrevistas extensas no caderno de política. É necessário? É relevante? Acho que não. Mas, se fosse, cadê as entrevistas com o pessoal que cuida do visual de Serra e de outros candidatos do sexo masculino? O pior foi a ambiguidade utilizada pelo Estadão, na entrevista com Kamura: “este é o homem que faz a cabeça de Dilma”. Recurso já utilizado antes, pela revista Marie Claire, que intitulou uma entrevista com Dilma com "a mulher do presidente".

(Particularmente, também vejo muito de sexismo na mania de chamarem a Dilma de “poste” e dizerem que Lula será seu “tutor”. Ora, Dilma foi Secretária de Minas e Energia de um estado importante, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil. Que o carisma de Lula é algo importantíssimo na campanha, não há dúvidas. Mas daí a usar a palavra “tutela”, sei não. Sinto cheiro de sexismo aí.

Mas Dilma tem se saído muito bem com isso. “Decidam: uns dizem que eu sou mulher de ferro, outros dizem que sou um poste...”, disse ela na famigerada entrevista ao JN. A entrevista chamou a atenção das pessoas pelo nível de grosseria e afetação do casal Bonner e Fátima. A mim, no entanto, o mais chocante foi eles terem passado quase metade do tempo estipulado fazendo inquisição sobre o temperamento, a postura, a conduta da candidata. Ora, a opressão que nós, mulheres, sofremos está muito baseada em códigos de conduta: não se vista assim, não fale assado, não cruze as pernas desse jeito. Eu jamais esperaria que uma das primeiras perguntas da entrevista do JN fosse: “candidata, é verdade que você é grossa?”. Pô, que pergunta é essa?

Mas, como disse, a saída da candidata petista foi de mestre, apontando o óbvio: não dá para uma pessoa ser mandona e capacho ao mesmo tempo. Dilma, ao dizer, “decidam-se”, deixou claras as limitações e contradições da mania de dicotomizar as mulheres: ou puras ou putas, ou santas ou diabas, ou mandonas ou submissas. Há toda uma miríade de meio-termos. As mulheres são mais complexas do que isto)

Mas enfim, divago. Como dizia, sexismo não falta na cobertura. No entanto, ele não tem tido o efeito sobre o eleitorado que eu pensei que fosse ter. Hillary perdeu as primárias sendo amplamente ridicularizada. Dilma só se fortalece, só cresce. Embora a imprensa chie, invente dossiês, tente reduzi-la a um poste ou um bibelô, a candidata do PT avança nas pesquisas. A ponto de podermos até pensar em uma vitória no primeiro turno.

Não sei quanto a vocês, mas eu me emociono deveras diante da possibilidade de ter a primeira presidenta do Brasil. Ainda mais ganhando assim, de lavada, contra um candidato autoritário, tacanho, que sequer a própria campanha foi capaz de conduzir sem trapalhadas. Ainda mais sabendo que não é qualquer mulher. É uma baita mulher.

Claro que a gente deve evitar o clima de “já ganhou”. Até outubro, tem chão. Mas estou otimista. Não tem como não ficar otimista ao ver essa discrepância entre as pesquisas e a cobertura jornalística. É um sinal não só de que o sexismo tem menos poder do que eu pensava, mas também de que a imprensa tradicional está perdendo um tiquinho de seu poder.

E, caso Dilma seja mesmo eleita, um bom horizonte se abre. Ter uma mulher no cargo mais importante da república, um cargo de extrema visibilidade, será um incentivo e tanto para que outras mulheres tomem coragem para se candidatar. Para que outras mulheres tomem coragem para agir politicamente em suas comunidades, municípios, estados. E, principalmente, para que parte do eleitorado deixe de torcer o nariz para candidatas mulheres. Coisas boas hão de vir.



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (48)



segunda-feira, 13 de julho 2009

Ateus, saiam do armário! Ateísmo e falsas simetrias

O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão*. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.

* Atualização em 15/02/2011: Para entender a rasura, visite esse post.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (674)



quinta-feira, 11 de junho 2009

A esquerda e a luta contra a homofobia

divorce.jpgEis a minha coluna deste mês na Revista Fórum, que chega em breve às bancas.

Nos Estados Unidos, a luta pelo casamento gay passa por um momento contraditório. Ela acumula vitórias nos lugares mais inesperados, como Iowa, e uma derrota catastrófica no habitat natural do movimento, a Califórnia. Não é ideal a posição conciliadora de Barack Obama, que defende as uniões civis -- que possibilitariam conquistas fundamentais, como os direitos de plano de saúde conjunto e de herança --, enquanto reserva o termo “casamento” para as uniões heterossexuais. Mas, pelo menos, Obama dá um passo adiante em relação à tradicional hipocrisia do Partido Democrata, que sempre contou com os votos de gays e lésbicas para, logo depois, rifá-los no jogo político.

Qualquer conhecedor da história da esquerda sabe como tem sido longo e acidentado o caminho de reconhecimento da luta gay/lésbica. Na esquerda tradicional, dos Partidos Comunistas, o completo descaso vinha, muitas vezes, recheado de homofobia explícita. Isso mudou, claro, e hoje uma Deputada como Jô Moraes, do PC do B de Minas, é uma das vozes mais incisivas na luta contra a homofobia. O PT, que sempre foi mais atento que a esquerda tradicional para as questões relacionadas à mulher e ao negro, demorou certo tempo em realmente acolher a luta antihomofóbica. Resta ainda um longo caminho que percorrer.

O crescente sucesso da parada gay de São Paulo e as iniciativas pioneiras de Marta Suplicy são capítulos dessa história, mas ela foi construída com uma luta que custou o sangue de muitos anônimos. O jornal O Lampião surge em 1978, em condições dificílimas. Em 1979, constitui-se em São Paulo o primeiro grupo de homossexuais organizados politicamente, o Somos. Seguem-se o Somos/RJ, Atobá e Triângulo Rosa no Rio, Grupo Gay da Bahia, Dialogay de Sergipe, Um Outro Olhar de São Paulo, Grupo Dignidade de Curitiba, Grupo Gay do Amazonas, Grupo Lésbico da Bahia, Nuances de Porto Alegre e Grupo Arco-Íris do Rio, entre outros (as informações são do GLS Planet). Somente em 1985 o Conselho Federal de Medicina decide desconsiderar o artigo 302 da Classificação Internacional de Doenças, onde constava a homossexualidade. Pelo menos nisso, o Brasil se antecipou. Só em 1990 a Organização Mundial da Saúde decide eliminar a homossexualidade da lista de doenças. A data da decisão histórica, 17 de maio, passaria a ser o Dia Internacional de Combate à Homofobia.

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Em sua esmagadora maioria, os heterossexuais – mesmo aqueles engajados na luta pela justiça social -- ainda não refletiram o suficiente sobre os efeitos devastadores da homofobia. Não se trata somente dos sutis gestos de discriminação cotidiana e das piadinhas homofóbicas, reproduzidas diariamente nas interações sociais e na programação da mídia. Trata-se de direitos básicos, como o de adoção, herança, plano de saúde e constituição de união matrimonial reconhecida pela lei. Trata-se do direito à imagem e à honra. Muitas vezes, trata-se simplesmente do direito de andar de mãos dadas com seu amor pelas ruas sem correr o risco de ser espancado.

Os homicídios homofóbicos no Brasil aumentaram 55% em 2008. Foram 190 no ano passado, contra 122 em 2007. Estes são os números oficiais, compilados pelo Grupo Gay da Bahia com base nos boletins de ocorrência. Imaginem quais serão os números reais. Nesse horror quase medieval, há mortes com requintes de crueldade, a pedradas, por exemplo. Recentemente, o odioso projeto de lei 4508/2008, do Deputado Olavo Calheiros (PMDB/AL), que visa proibir a adoção de crianças por homossexuais, começou a tramitar como se não fosse a excrescência inconstitucional que é. O projeto cospe no artigo 226, § 4º, da Constituição Federal, mas o Congresso o examina como se fosse a mais razoável das leis.

Ideias absolutamente inconstitucionais, como a que proíbe homossexuais de lecionar em escolas primárias, são discutidas com argumentos “ponderados” até por gente de esquerda. Está categórica, sociologicamente provado que, em potencial, um padre é uma ameaça sexual muito mais grave a uma criança que um(a) professor(a) gay ou lésbica. Mas reproduz-se mesmo em comarcas progressistas o estranho estereótipo que associa, contra todas as evidências, a homossexualidade à pedofilia. A bizarra noção de que gays e lésbicas são máquinas sexuais incontroláveis, prontas para disparar a qualquer momento, tem ainda profunda inserção no chamado inconsciente coletivo.

É urgente o apoio maciço e incondicional da esquerda ao Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que criminaliza a homofobia e pune a discriminação e a agressão contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais. O projeto se encontra, no momento, em trâmite no Senado. A leitura do projeto e o contato com os Senadores podem ser feitos através do site NãoHomofobia. Atualmente, não há nenhuma proteção específica ante a agressão e a discriminação homofóbicas, comparável à que temos contra o racismo.

A Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT é formada por 211 deputados federais e 18 senadores. Dos grandes partidos, o PT ainda é, de longe, o que se sai melhor na foto. De seus 11 senadores, 9 são membros. Mas ainda é pouco. Não há razão aceitável para que Tião Viana (PT-AC) e Marina Silva (PT-AC) não se juntem à Frente. Se, em vista de suas crenças religiosas, a Senadora Marina Silva tem “problemas de consciência” para se juntar a essa causa, que ela os resolva no âmbito privado. Na esfera pública, ela tem a obrigação de defender o programa do PT. Chega de conferir aos progressistas religiosos esse estranho privilégio, o de omitir-se (ou, pior, adotar uma postura reacionária) nas questões fundamentais do nosso tempo, sempre que estas entrem em choque com a leitura que lhes inculcaram de um livro apócrifo de fábulas judaicas.

Sempre defendi que a melhor forma de se imbuir do espírito de luta pela justiça social é ouvir as vítimas com atenção. Quer entender o racismo? Abandone as fáceis, imaginárias simetrias entre negros e brancos e escute as histórias de vida narradas por aqueles. O apelo do post é muito simples: procure seu amigo gay ou sua amiga lésbica e pergunte, indague muito. Não pressuponha que sabe o que eles vivem. Escute com atenção. Você se surpreenderá.


PS: Reúno-me esta noite, na Cobal do Humaitá, com amigos blogueiros cariocas. Devo chegar lá por volta das 21:00. Está confirmado, pois, o chope.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post | Comentários (117)



quinta-feira, 04 de junho 2009

"Amor", de Clarice Lispector e "I love my husband", de Nélida Piñon

clarice.jpgClarice Lispector, invariavelmente, construía histórias em que um personagem prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Esses relatos costumam ter uma estrutura que se repete de livro para livro. Em primeiro lugar, há uma descrição do embrutecimento do mundo; depois, o acontecer inexplicável da cintilação, aquilo que, a partir de James Joyce, convencionamos chamar de epifania; finalmente, uma restauração estranha, distanciada da ordem embrutecida. Até aí, não há nada de muito novo. De certa forma, poderíamos dizer que toda literatura narra isso mesmo: ordem / ruptura da ordem / recomposição da ordem. O que é (o) “Amor” senão isso?

De onde, então, a fascinação por Clarice?

Há um momento na trajetória de Clarice, ali pelos anos 50, no período de composição do livro Laços de família (antologia na qual se publica o relato “Amor”), em que a ordem passa a ser inequivocamente associada à vida de uma mulher de classe média. É assim em A Paixão segundo G. H., em Feliz Aniversário, em “Amor”. Reparem no cuidado com que o narrador se refere ao apartamento que estavam aos poucos pagando. A ruptura dessa ordem, também nesse período, começa a ser representada pela emergência abrupta de um ser estranho a ela. Em A paixão segundo G. H., é a famosa barata. Em “Amor”, um cego mascando chiclete. A relação entre a ordem e a personagem não é simples de se definir. Não se trata de uma ordem imposta a ela, como se ela fosse uma mera marionete passiva. Mas tampouco se trata de uma ordem construída teleologicamente, a partir de um plano sobre o qual a personagem tivesse total controle: viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.

Não sei se isso fica visível numa primeira leitura, mas todo o conto está construído a partir de oximoros: felicidade insuportável, tranquila vibração, náusea doce, bondade dolorosa e por aí vai. Os adjetivos não casam com os substantivos. Esses estranhamentos com a linguagem, situações em que as palavras parecem brigar umas com as outras, são uma das marcas registradas de Clarice. Acometem suas personagens e, particularmente, as mulheres. Submetidas a uma ordem claramente patriarcal, as mulheres de Clarice nunca são militantes revolucionárias em confronto com essa ordem. Elas são sujeitos de um acontecimento no sentido forte do termo: um evento que rearranja toda a ordem, assim como o lugar da mulher em seu interior. A ordem continua lá, mas tudo se transformou: alguma coisa tranquila se rebentara, afinal ela atravessara o amor e o seu inferno.

Já perdi a conta de quantas vezes lecionei, em cursos de graduação, o texto de Clarice em contraponto com o relato de Nélida Piñon, I love my husband. Em geral, situo estas duas histórias no meio do semestre, num momento em que já conheço meus alunos. Gosto de fazer uma brincadeira secreta, comigo mesmo, tentando adivinhar quem vai gostar de qual conto. Praticamente ninguém gosta dos dois ao mesmo tempo. Quase ninguém desgosta dos dois (lembrem-se que meus alunos de graduação são todos norte-americanos; para a pós, vem gente de tudo quanto é canto, mas para a graduação, não). Esse estranho parentesco e aparente incompatibilidade entre os dois relatos sempre me intrigou.

Deixo para vocês as elucubrações sobre “I love my husband”, sobre as mil e uma outras coisas que podem ser ditas sobre o texto de Clarice, e sobre as várias aproximações e contrastes possíveis entre os dois contos.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (53)



quinta-feira, 28 de maio 2009

Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgEsta é uma reunião do Clube de Leituras do Biscoito, que já discutiu obras de Ariano Suassuna, Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Martín Kohan e Guimarães Rosa. O Clube tem uma única regra: é proibido pedir desculpas por não ser especialista ou doutor em literatura. A ideia é ter uma conversa tranquila, leve, solta. O meu post nunca é uma análise exaustiva da obra. É só um pontapé inicial. Comente o que quiser sobre o texto, respondendo ou não ao post (não quero ser pretensioso ao ponto de achar que derrubei o site Releituras com meu link, mas o fato é que ele não está abrindo; se ainda não leu o conto, leia-o no cache do Google).



Como é comum na grande literatura, Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, pode ser reduzido a um argumento banal. Dois homens, Raul e Saul, vêm de relações frustradas com mulheres. Eles conseguem empregos numa mesma repartição. São discretos e chamam a atenção por sua beleza e elegância. Têm em comum a paixão pelo cinema, que pouco a pouco os aproxima. Tudo acontece lentamente, apesar da brevidade do conto. O narrador nos diz que “durou tempo” o longo prólogo composto de cumprimentos casuais e trocas de cigarros. Um dia, Saul relata que chegara atrasado por culpa de um filme. Tratava-se de The Children's Hour, que narra a história do inferno vivido por duas mulheres acusadas de serem lésbicas. Como sempre na grande literatura, o intertexto não é casual.

A amizade vai se consolidando. Começam a desejar que os fins de semana passem rapidamente. Ficam juntos nas festas. Compartilham boleros. Por fim, trocam telefones. O conto é breve, mas a lentidão com que se arrasta tudo é enlouquecedora. Quando é que esses dois vão trepar, meu Deus do céu? Morre a mãe de Raul – sempre, sempre a mãe -- e Saul perde as estribeiras. Na única vez em que dormem juntos, limitam-se a olhar a brasa dos cigarros que acende o outro. No dia em que chegam juntos à repartição, as mulheres já não os cumprimentam. Este elemento é chave para o conto: não acontece nada sexual entre eles

Quando voltam das férias, os dois são chamados pelo chefe. Um anônimo lhe havia enviado cartas com termos como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio". São despedidos. Enquanto eles entram num táxi, o narrador nos diz que "ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram".

Ao contrário de boa parte da literatura norteamericana considerada “gay”, a ficção de Caio não narra a saída do armário ou a marcha militante na luta contra o preconceito. Não há nada retumbante e heroico. Fundamental, nesse conto, é o fato de que não sabemos se são gays ou não. Na realidade, é impossível saber, não importa. Eles mesmos não sabem. Une-os um afeto que ainda não tem nome. Sutil, a literatura de Caio trabalha nessas zonas de indeterminação.

O escritor argentino Ricardo Piglia defende a tese de que um conto sempre narra duas histórias. As diferenças entre as várias vertentes da narrativa moderna dependeriam das diversas possibilidades de se relacionar a história 1 com a história 2. Aqui temos a história do afeto homoerótico entre Raul e Saul e a história do pânico homofóbico dos colegas. Qual é a grande originalidade de Caio? Dissociar completamente a história 2 da história 1. Em outras palavras: não é a existência de “dois gays” no ambiente de trabalho o que desata o pânico homofóbico. Talvez, inclusive, a presença de dois gays assumidos não provocasse tal terremoto. O que enlouquece a estrutura heteronormativa é que não se sabe qual é mesmo a relação entre os dois. A ironia adicional do conto, claro, é que os dois tampouco sabem qual é a natureza do afeto que os une. Estão descobrindo. Mas o pânico homofóbico não permite que a descoberta se realize na repartição. Terão realizá-la em outro lugar.

Hipótese de leitura, então: o mais assustador para a estrutura social que administra a sexualidade heteronormativa não é a existência de gays e lésbicas, com práticas não sancionadas pelo modelo dominante. Isso também, claro. Mas o que realmente sacode as estruturas é a crise da linha divisória supostamente clara que separaria hetero- e homoerotismo. O que enlouquece a repartição é que eles não são capazes de catalogá-los.

Gosto muito, muito mesmo das frases finais do conto. Convido-os a que reflitam sobre elas. Tudo nesse relato é significativo: os títulos das canções que compartilham, o nome do gato sabiá*, o filme que os une, os nomes dos personagens. Convido-os a interpretar esses elementos. Convido-os também, claro, a discordar de minha interpretação ou a oferecer outras possíveis -- ou simplesmente dizer qual foi a sensação de ler o conto. Não há melhor homenagem a um grande autor que a proliferação de leituras diferentes e contraditórias.

Viva Caio.


*Crédito a quem corrigiu o meu inexplicável erro de transformar sabiá em gato: Milton Ribeiro.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (192)



terça-feira, 26 de maio 2009

Clube de Leituras: Um papo sobre Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgGostaria de convidar os leitores do blog para, dentro de 36 horas, iniciar mais uma edição do Clube de Leituras. Desta vez vamos fazê-lo sem grandes preparações, porque não será um romance e sim um brevíssimo conto. Eu me arriscaria a dizer que se trata do meu conto favorito em toda a literatura brasileira contemporânea, entendendo-se “contemporânea”, digamos, como o pós-Guimarães Rosa. Há nesse conto uma perfeição, um esmero, um certo equilíbrio entre o dito e o não dito.

Escrito pelo gaúcho Caio Fernando Abreu e publicado no livro Morangos mofados (Brasiliense, 1982), o relato Aqueles Dois está no centro do projeto de pesquisa que começo a desenvolver sobre a masculinidade na prosa de ficção. Eu gostaria de testar aqui algumas hipóteses de leitura e receber críticas e sugestões. Os interlocutores, evidentemente, serão creditados quando eu publicar o livro.

O plano seria, então, o seguinte: vocês leem essa maravilha. Na madrugada de quarta para quinta, eu publico uma breve reflexão sobre o relato de Caio e passamos o dia conversando. Assim, aproveitamos e nos desintoxicamos um pouco da política – o que não quer dizer que o conto de Caio não seja também político. Do que há por aí sobre Caio na internet, eu gosto muito desse depoimento (notem a participação dele no Roda Viva).

Fiquem à vontade para usar esta caixa de comentários e compartilhar outros links acerca do escritor gaúcho ou as primeiras impressões que tiveram lendo o texto. Mais não digo, para não influenciar sua leitura. Na quinta-feira conversamos.

Quem se anima?



  Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post | Comentários (50)



quinta-feira, 21 de maio 2009

Sobre um recente recrudescimento da misoginia e da homofobia

A misoginia e a homofobia campearam soltas na mídia brasileira nas duas últimas semanas. 17 de maio, dia internacional de luta contra a homofobia, foi escolhido pela Zero Hora para a publicação de um lixo inominável escrito por Paulo Sant'Ana, que confunde com travestis com homossexuais, mistura identidade de gênero com orientação sexual (estranhamente rebatizada de “tendência” sexual), usa termos chulos como os “sapatões” e destila preconceito, homofobia, misoginia, ignorância e desinformação em doses cavalares. Não há o que comentar nesse texto. É só seguir o link e horrorizar-se. Como não leio a Zero Hora, ignoro se o jornal já se desculpou pelo festival de insultos. Aposto que não (cheguei lá via @carolinamaia, a quem agradeço).

Antes disso, houve a famigerada entrevista de Maria Mariana à Época, na qual a ex-celebridade promove seu novo livro, Confissões de mãe, dizendo coisas como: 1) amamentar é para a mãe que merece; 2) Deus quer o homem no leme; 3) se a mulher parir naturalmente, será uma mãe melhor; 4) apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. Tudo é coroado com uma pérola de tremenda irresponsabilidade: Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto.

Não sobrou nada que desconstruir no festival de sandices de Maria Mariana, já que uma série de blogueiras escreveram respostas incisivas: Marjorie Rodrigues, Lu Monte, Lola Aronovich, Groselha News, Cam Seslaf, Cynthia Semíramis e várias outras. Na Cynthia, você encontrará uma lista (quase) completa dos posts. Quais são, então, meus dois centavos com este texto? Uma singela pergunta: Por quê? Por que a Folha dedica espaço a um livro recheado de sandice misógina escrito por uma atriz decadente? Por que a Revista Época apresenta como “polêmicas” declarações que evidentemente não são da ordem da polêmica, mas da ordem da falsidade?

Para ser honesto, eu não sabia quem era Maria Mariana. Pelo que vi depois, era minha mesmo a lacuna. Em minha cultura televisiva, falta tanta coisa que não cabe mais nada. Lembro-me vagamente, sim, de algo chamado “Confissões de adolescente”. Ao ver a foto da atriz, algum flash de memória surgiu. Mas foi só isso.

Seria natural se, digamos, Ana Maria Braga lançasse um livro e os veículos de mídia corressem para fazer a cobertura. Trata-se de alguém que, bem ou mal, está em evidência. É notícia. Mas uma figura que há mais de uma década não aparece em lugar nenhum? Por que ela é notícia? Quão irresponsável deve ser um veículo de mídia para etiquetar de “polêmicas” declarações como as de Maria Mariana sobre depressão pós-parto? Polêmico seria dizer que Veja é um veículo jornalístico ou que José Roberto Wright é um homem honesto. O que ela diz sobre depressão pós-parto é, pura e simplesmente, fal-so. É como dizer que a Terra tem a forma de uma pizza ou que Belo Horizonte é a capital de Rondônia. Apresentar isso como “polêmico” é desinformar, mentir. Entendamos que há coisas da ordem da opinião e coisas da ordem do fato. Brincar com essa diferença num tema como a depressão pós-parto é criminoso. Não há outra palavra.

Estamos entrando num período em que a misonigia será peça chave do jogo político. Claro que, no sentido mais amplo da palavra “política”, ela sempre o foi. Mas hoje, num momento em que as possibilidades de proteger e ampliar as (limitadas) conquistas sociais dos últimos seis anos serão, até segunda ordem, representadas pela candidatura de Dilma Rousseff à presidência, a coisa adquire uma dimensão suplementar.

Pesquisa recentemente realizada pela Fundação Perseu Abramo mostra que a situação do preconceito ainda é grave. Como sabe qualquer sociólogo que tenha refletido um pouco sobre a linguagem (sim, eu sei, eles são poucos), as pesquisas que medem preconceito, por definição, apresentam um quadro menos ruim que o real. É axiomático que preconceito é algo que nem todo mundo assume, muito menos numa entrevista.

Desde que cheguei ao Brasil, vi quatro “reportagens” sobre Dilma na televisão. Todas começavam com menções a elementos politicamente irrelevantes como o cabelo, a plástica e o vestido. Homens também se vestem, fazem plástica e mudam o cabelo. Mas é Dilma, não Serra, quem tem que aturar a cantilena infinita sobre sua aparência. E olha que, no quesito aparência, Serra é um prato cheio.

Marjorie convocava, outro dia, um sexism watch para acompanhar as menções a Dilma na mídia. Pelo jeito, terá que ser trabalho coletivo. Nenhum(a) blogueiro(a) sozinho(a) conseguirá dar conta, mesmo blogando tem tempo integral.

Claro que o destaque completamente desproporcional dado pelos Marinho e pelos Frias a um livro irrelevante, escrito por uma atriz decadente, convocando uma volta obrigatória das mulheres à domesticidade, não tem nada a ver com o fato de que o projeto popular de esquerda, odiado por esses grupos de mídia, está sendo representado hoje pela candidatura de uma mulher. Não tem nada a ver. Imaginem.


PS: O melhor blog jornalístico do Sul está de casa nova. Vida longa ao RS Urgente.

PS 2: Também de casa nova, e também no OPS, está o Até aqui tudo bem, um dos meus blogs favoritos no momento.


Atualização: Antes que o mal-entendido se dissemine, cabe esclarecer: o post não afirma que Maria Mariana foi usada contra Dilma. O post afirma que o episódio Maria Mariana ganha relevância extra num contexto em que Dilma é candidata. O post não afirma que Marinhos e Frias se reuniram para dar destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente como forma de prejudicar Dilma. O post afirma que o destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente reforça uma misoginia já presente na sociedade brasileira e contra a qual a candidata de esquerda se enfrenta diariamente.



  Escrito por Idelber às 10:33 | link para este post | Comentários (151)



domingo, 22 de março 2009

Tortura, verdade e democracia

(aí vai o texto da minha coluna deste mês na Revista Fórum)

Os últimos oito anos em que a coalizão de ultradireita que governou os EUA assumiu a prática da tortura como política estatal só aumentaram a importância de se dirimir alguns mitos acerca do tema. Um desses mitos é a crença – disseminada amplamente entre setores da esquerda – de que a prática da tortura seria uma espécie de negação da essência da democracia, ou que a democracia seria algo como um antídoto contra a tortura, ou que esta, no fundo, negaria os valores democráticos, de racionalidade e liberdades individuais. O fato histórico concreto, no entanto, é o oposto: no momento em que “democracia”, “verdade”, “racionalidade” estavam sendo inventadas, a prática da tortura foi componente fundamental no processo em que esses ideais se faziam. Ali, na origem mesma da democracia, a tortura já era um de seus elementos chave.

Tortura e verdade (Editora Routledge, 1991, não traduzido no Brasil) é um livro revolucionário da classicista estadunidense Page DuBois sobre a prática judicial da tortura, na Grécia Antiga, em suas relações com a produção da noção filosófica clássica de verdade, assim como na construção da oposição binária entre escravo e cidadão livre. O livro parte de uma premissa: “a assim chamada alta cultura – práticas e discursos filosóficos, forenses e civis – vai de braços dados, desde o começo, a partir da antiguidade clássica, com a inflição deliberada de sofrimento humano”. DuBois passa a mapear o processo pelo qual, na pólis ateniense, o corpo do escravo é juridicamente convertido em objeto de tortura e em canal privilegiado da verdade. Por um bom tempo nos tribunais atenienses, o homem livre não podia ser torturado, mas o escravo sim. Não só era comum torturar escravos, mas se pressupunha que o escravo produziria a verdade quando torturado.

A palavra que designa “tortura” em grego, basanos, evolui de um sentido anterior de “pedra de toque que testa o ouro” para uma acepção mais ampla de “teste que define se algo é genuíno ou real”. Com o tempo, o vocábulo teria passado a significar “interrogatório através de tortura” e o próprio ato de torturar. Numa reconstrução cuidadosa, DuBois examina os contextos em que basanos aparece na épica homérica, em poetas aristocráticos como Teógnis e Píndaro, em trágicos como Sófocles e Ésquilo, na sátira de Aristófanes, na historiografia de Heródoto, nos discursos de Demóstenes e Licurgo e nas obras filosóficas de Platão e Aristóteles. É em Sófocles (aprox. 497-406 a.C.) que DuBois observa a transição do sentido de basanos de “teste” para “tortura”. A tortura não só era amplamente praticada na democracia ateniense, mas foi um componente fundamental de como a verdade viria a ser concebida e de como a diferença entre cidadão e escravo seria estabelecida.

Na democracia grega, o testemunho jurídico do escravo era tido como verdade se, e somente se, esse testemunho fosse extraído sob tortura. Na medida em que o escravo era uma valiosa propriedade, passível de ser danificada pela tortura, era a prerrogativa de seu dono oferecê-lo para o basanos. Essa prática não podia ser aplicada a cidadãos, aos homens livres. A tortura operou, então, para fixar e controlar a própria instabilidade da dicotomia entre cidadão e escravo. O pensamento grego nunca conseguiu naturalizar a separação entre homens livres e escravos, já que os livres de hoje podem converter-se nos escravos de amanhã, por exemplo através da derrota numa guerra. Esse pensamento tentou, mas foi incapaz de fundamentar biológica ou ontologicamente o fato social da escravidão, apesar dos melhores esforços de Aristóteles, que naufragam na tentativa de explicar por que os escravos são desprovidos de razão. Se há uma diferença natural entre o cidadão e o escravo, como é possível que os livres possam se tornar escravos ao serem derrotados no campo de batalha? Como justificar ontologicamente a estrutura política que permite a sistemática imposição de dor sobre certos seres humanos e não sobre outros?

O Livro III da Política, de Aristóteles, encara essa mais inglória das tarefas, definir o que, afinal de contas, é um cidadão e o que o diferenciaria do não-cidadão: “Os residentes estrangeiros [metoikoi] (...) não participam senão imperfeitamente da cidadania, e os chamamos de cidadãos só num sentido qualificado, como poderíamos aplicar o termo a crianças que são jovens demais para estar registradas ou a idosos que foram desobrigados das funções estatais”. Metoikoi é o nominativo masculino plural derivado do verbo metoikos, que significa “mudar de residência, emigrar e estabelecer-se em outro lugar”. Quanto mais Aristóteles acredita que a expressão exata é “imaterial” e que “o que queremos dizer está claro”, mais embaçada e confusa torna-se a fronteira. Quando Aristóteles termina de excluir as mulheres, as crianças, os escravos, os idosos, os residentes estrangeiros e outros não-cidadãos, resta-nos uma categoria à beira do desmoronamento. Não se trata de que pouco a pouco, depois de eliminar todos, não permaneça ninguém. Alguém sempre se qualificará como “cidadão”: o domínio dos homens adultos nascidos em Atenas, falantes de grego e donos de propriedades mostra que a ontologia pode estar capenga, mas isso não a impede de operar politicamente para favorecer os mais poderosos.

O que Aristóteles chama de “cidadão” é aquele lugar virtualmente vazio que sobra uma vez que eliminemos todos os não-cidadãos. O horror da não-cidadania é também um vazio voluptuoso que ameaça tragar todos os cidadãos, porque eles poderão ficar velhos, perder suas propriedades, ser exilados ou conhecer a derrota na guerra. Como diferenciar o cidadão do não-cidadão se o destino daqueles é juntar-se a estes quando fiquem velhos, se exilem ou percam uma guerra?

A prática da tortura na democracia grega cumpriu um papel na estabilização dessas fronteiras meio impossíveis de estabilizar, entre cidadão e não-cidadão e entre homem livre e escravo. O escravo é aquele que pode ser torturado. E por que ele é torturado? Porque da tortura [basanos], emerge a verdade [aletheia]. Ali, ao lado dos tribunais onde se torturavam os escravos, a filosofia ocidental inventava o conceito de verdade, a prática política inventava a democracia e a jurisprudência inventava o que se entenderia por justiça. Que fique estabelecido, pois, que nenhuma dessas disciplinas tem as mãos completamente limpas se formos relatar em detalhe a história da tortura no Ocidente: a própria invenção dos seus conceitos chave é parte da institucionalização da tortura na pólis grega.

A hipótese de DuBois é que o estabelecimento do corpo do escravo como corpo que pode ser torturado (e que será necessariamente verdadeiro quando submetido à tortura) foi chave na constituição mesma do conceito de aletheia, de “verdade”, para os gregos. Se recordamos A verdade e as formas jurídicas (pdf), texto de Michel Foucault apresentado pela primeira vez no Rio de Janeiro em 1973, duas concepções de verdade entraram em choque no pensamento grego. Por um lado, há a compreensão mais antiga da verdade como produto de uma luta, uma batalha, uma prova através da qual algo emerge: concepção épica. Por outro lado, há a concepção da verdade como essência enterrada e escondida, esperando para ser desvelada e trazida à luz, extraída de uma interioridade desconhecida que o conhecimento tentaria penetrar: concepção mais propriamente filosófica. Esta é a ideia sexualizada, bem masculina de verdade, que prevaleceria em última instância. Esse processo de extração da verdade mantém uma dívida com a tortura exercida sobre o corpo do escravo, já que é a sanção jurídica da tortura que confere à filosofia a metáfora que organiza o seu conceito central, a verdade.

O basanos dissolve a resistência, traz à luz, arrasta rumo à visibilidade. A metáfora que descreve a tortura replica o movimento do filósofo que arranca a verdade de sua condição velada. É n' O Sofista, de Platão, que melhor se deixa ver o laço entre, por um lado, a extorsão através da qual o filósofo traz à luz a verdade, arrancando-a do sofista, que permanece cego, inconsciente e, por outro lado, o processo característico da produção jurídica da verdade através do corpo do escravo: “A melhor maneira de obter a confissão da verdade seria submeter o próprio enunciado a um leve grau de tortura [basanistheis]”, diz Platão. Há uma analogia entre o suplício sofrido pelo escravo no tribunal e aquele imposto ao sofista. Como o escravo, o sofista somente revela a verdade sob violento interrogatório e pressão. As odiosas narrativas hipotéticas com que a administração Bush e seus lacaios na mídia racionalizavam a tortura – “imagine um terrorista com informação sobre a explosão de uma bomba nuclear, etc.”: o cúmulo da ficção – não deixam de ter, é importante sublinhar, seus antecessores mais “nobres”, nas origens mesmas da democracia e filosofia ocidentais.

É possível mapear, no pensamento grego, uma concepção antidemocrática de verdade entendida como algo que se arranca do corpo do outro. O processo descrito por Platão evoca diretamente o basanos em seu contexto legal. A metáfora platônica transforma o sofista num corpo que deve submeter-se a um sofrimento, um suplício imposto pelo logos. A lógica e a dialética são artes da tortura, nela estão implicadas e assim foram teorizadas, no momento mesmo de sua constituição e sistematização, no texto platônico. A caça ao sofista inaugura uma longa tradição de metaforização da verdade como encarceramento na filosofia ocidental, tropo que retornaria, por exemplo, na luta épica de Descartes para impor uma derrota humilhante à dúvida.

A violência através da qual emerge o conceito de verdade na Grécia traz marcas das hierarquias de gênero. O pensamento grego estabeleceu extensos vínculos entre a verdade e o escondido, o segredo, a potencialidade feminina, a interioridade tentadora encerrada no corpo humano. A mulher e o escravo são receptáculos da verdade que não têm, eles mesmos, acesso a ela como sujeitos. Sua função é fornecer o acesso ao homem livre, ao cidadão. A confecção do conceito de verdade foi contemporânea da sexualização das metáforas baseadas no ato de arrancar à luz algo dormente numa interioridade. A extração da verdade seria, então, um tropo sexualizado por excelência, que funda a compreensão que tem o Ocidente da diferença sexual. Os pólos masculino e feminino vêm a ser dialeticamente constituídos num processo violento e assimétrico, no qual o feminino é o espaço circunscrito como interioridade e penetrado pelo masculino. A tarefa viril do filósofo seria extrair a verdade de um receptáculo e trazê-la à luz num processo de extração – e assim, claramente, teoriza-a Platão, n’O Sofista.

A tortura não é, portanto, antagônica à verdade ou antídoto da democracia. Não é de uma esfera alheia ao direito. A tortura nunca foi escandalosa em democracia nenhuma (algumas delas simplesmente exportaram, “terceirizaram” sua prática para outras comarcas). A sanção jurídica da tortura no mundo ocidental nasce não só contemporaneamente a, mas também em relação de sustentação mútua com o albor de todas essas noções: verdade, democracia, justiça, direito.

A diferença entre uma visão materialista histórica e uma visão liberal da atrocidade e da tortura se remete, em grande parte, a um abismo: o liberalismo é incapaz de compreender essa história – as origens comuns da tortura e da democracia, da tortura e do direito, da tortura e da verdade –, pois afinal de contas ele próprio, liberalismo, não passa de um capítulo dessa mesma história. O materialista histórico, comprometido com o legado dos vencidos, não pode se dar ao luxo de ignorar que o estado de emergência que vivemos com os torturadores de Bush e Olmert não tem sido a exceção, mas a regra.

Ilustração: "Tortura com água". Xilogravura. Praxis Rerum Criminalium (1556), de Joost de Damhoudere.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (40)



domingo, 08 de março 2009

Apoio às feministas e ao CISAM no caso da menina de 9 anos, estuprada em Alagoinha

Reconhecemos e aplaudimos a solidariedade, compromisso e eficiência que determinou o aborto legal realizado pela equipe de atenção à saúde do CISAM - Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, e em especial aos médicos Prof. Olimpio Moraes e Dr. Sérgio Cabral. Esta instituição mostrou seu compromisso com a saúde, com a vida, com a cidadania e direitos humanos da população que por ela é atendida.

A crítica contundente de setores conservadores religiosos a um trabalho tecnicamente competente e em consonância com as leis nacionais e normativas internacionais reflete uma vez mais seu arcaísmo e desumanidade.

O mundo acompanha atentamente a história desta menina pernambucana de 9 anos de idade, e seguramente apoiará a perspectiva daquelas/daqueles que defendem os direitos reprodutivos como direitos humanos.

É a íntegra do abaixo-assinado da Comissão de Cidadania e Reprodução, que merece todo o apoio. Assine lá.



Atualização: Ainda sobre o mesmo assunto, ofereço, meio horrorizado, mais este link.



  Escrito por Idelber às 17:35 | link para este post | Comentários (41)



quarta-feira, 15 de outubro 2008

Homofobia e falsa indignação

Nos EUA, costuma-se distinguir entre racismo e o que chamamos race-baiting, que é usar o racismo alheio para benefício próprio, geralmente político-eleitoral. Ninguém em sã consciência diria que Bill Clinton é racista, mas parece-me inegável que ele tentou se aproveitar do racismo sulista contra Barack Obama nas primárias democratas da Carolina do Sul. Há que se conhecer o contexto americano para saber tudo o que se escondia na aparentemente inocente frase ah, não se preocupe, Jesse Jackson também ganhou as primárias da Carolina do Sul em 1984 e 1988.

A campanha de Marta Suplicy errou, e errou feio, ao introduzir as perguntas é casado? tem filhos? no final de um comercial em que fazia uma série de indagações legítimas sobre o passado político de Gilberto Kassab. Se existe algum falante de português deste lado do Atlântico que ainda não viu o anúncio, ele está aqui. Não me parece honesto negar que essas perguntas tentavam jogar com a homofobia alheia. Não me parece honesto dizer que “são perguntas como quaisquer outras”. Não me parece respeitoso com a inteligência alheia tergiversar, como o fez Jilmar Tatto (PT-SP), dizendo que “quando vou à periferia, me perguntam se sou casado, essas coisas”. A pergunta claramente tentava induzir uma reação homofóbica. A resposta do grupo LGBT de apoio à Marta, criticando o comercial, foi na veia. Acho que Marta errou uma segunda vez ao não assumir a responsabilidade pelo anúncio, colocando-o nas costas do marqueteiro. Um anúncio veiculado por uma campanha é de responsabilidade do candidato. Se viu ou não viu, se aprovou ou não aprovou, importa pouco. Ela é responsável pelo que sua campanha veicula. Reitero: condeno o comercial e condeno o fato de que Marta lavou as mãos.

Mas é no mínimo curioso ver os dois pesos e duas medidas da mídia brasileira. A Folha de São Paulo dedicou praticamente metade de seu caderno Brasil desta terça a essas duas frases no comercial de Marta. Vejamos qual é o histórico da Folha de São Paulo no respeito à vida pessoal da própria Marta Suplicy. Infelizmente, os links são restritos a assinantes.

No dia 28/10/2002, a Folha publicou coluna de Danuza Leão que dizia: Os estrangeiros usavam camisa esporte, e o único de terno e gravata era Luis Favre, com seu olhar de mormaço. No dia 18/05/2002, o Painel se preocupou em dizer: Depois de cada ato ou inauguração, a prefeita de SP, Marta Suplicy (PT), invariavelmente telefona para Luis Favre. Para relatar como foi o evento. Como se isso fosse notícia relevante. Ou como se tivesse sido notícia no caso de um político homem. O jornal não demonstrou nem meia linha de indignação no dia 10/08/2002, quando Garotinho disse: prefiro falar sobre o assunto com o franco-argentino que é de fato prefeito de São Paulo. Tampouco apareceu indignação alguma no dia 29/10/2001, quando Paulo Maluf se referiu a Favre como “gigolô”. Pelo contrário, o jornal designou a reação dos petistas contra a injúria como “discurso ensaiado”. No dia 15/02/2002, a Folha publicou coluna de Bárbara Gancia que concluía com a monstruosidade: Sabe por que ele é franco-argentino e não vice-versa? Porque não existe argentino-franco.

Não, leitores, essa baixaria xenófoba não saiu na Veja nem na Capricho. Saiu na Folha. O mais respeitado jornal brasileiro.

No dia 21/04/2001, a Folha reproduziu um texto de Cláudio Humberto – sim, aquele mesmo – que continha tantos insultos contra Marta Suplicy e Luis Favre que o Biscoito, simplesmente, se recusa a linkar. Era um anúncio pago de pura difamação, publicado pelo maior jornal brasileiro. Procurem no google. O fato é que o próprio ombudsman sugeriu um “erramos”, que jamais foi feito.

Eu poderia continuar até amanhã de manhã, linkando matérias em que a vida de Marta foi enxovalhada e ridicularizada, numa mescla perversa de sexismo e xenofobia. Que ela seja criticada pelas duas frases sobre Kassab que jogavam com a homofobia alheia. Mas quando será que os mesmos arautos da falsa indignação reconhecerão o seu telhado de vidro? Será que o jornal O Globo tem autoridade para criticar Marta por envolvimento na vida privada do adversário quando esse mesmo jornal, no dia 14/12/1989, publicou esse editorial sobre a infinitamente mais desprezível tática de Collor contra Lula no caso Miriam Cordeiro? No blog do aprendiz de pitbull da Veja, é hora de indignação contra o comercial de Marta. Talvez o blogueiro da Veja tenha se esquecido de que seu histórico de referências a gays e lésbicas é uma coleção de monstruosidades.

Comentando a repercussão do comercial em seu blog sob o título “O milagre de Dona Marta”, Noblat afirma que nunca antes na história deste país os mais destacados blogueiros haviam falado a mesma língua, defendido o mesmo ponto de vista. A lista de links fornecidos por Noblat é, salvo um, de funcionários da grande mídia. Com a exceção de Pedro Dória, não reconheço nenhum deles como “destacado blogueiro”. Suponho, caro Noblat, que há diferentes listas de “destacados blogueiros”. A minha inclui Alexandre Inagaki, Marco Aurélio Weissheimer, Fal Azevedo, Mary W. Certamente não inclui Daniel Piza ou Rosane de Oliveira. Na minha lista de “blogueiros destacados” não houve unanimidade nenhuma. O post mais inteligente, de longe, foi o da Mary W. Outra coisa que talvez valesse a pena dizer a Noblat é que o epíteto “Dona Marta” é insuportavelmente sexista.

Suponho que é consenso entre os leitores do Biscoito que a vida privada de cada um é problema de cada um. Suponho que também seja consensual que, para gays e lésbicas, sair ou não sair do armário é decisão de foro íntimo, que inclui consideração de tantos fatores que a última palavra é sempre decisão pessoal e intransferível. Mas quando há suspeitas de que um prefeito cria uma secretaria de desburocratização para abrigar seu suposto companheiro, a pergunta sobre o nepotismo e a transparência é, sim, de interesse público. A campanha de Marta não soube levantá-la. Espero que a indignação moral contra Marta leve a nossa mídia a um pouco de reflexão sobre o seu próprio telhado de vidro.



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (191)



segunda-feira, 28 de julho 2008

Em Terapia

Quando filmou O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, Héctor Babenco se colocou uma pergunta interessante: como fazer um filme em que os personagens estejam entediados mas o público não? Foi o que me veio à mente neste fim de semana, enquanto eu e Ana encarávamos a maior maratona televisiva das nossas vidas: 43 episódios da série “Em Terapia” (In Treatment), da HBO, baseada num original de muito sucesso em Israel. Eu quase não assisto televisão, mas sou capaz de apostar que é das melhores coisas que a telinha produziu nos últimos tempos.

Filmes e programas sobre psicanálise são, em geral, tediosos e inverossímeis. In Treatment segue-se quase como um filme de suspense, alinhavado por uma bela fórmula: nos episódios de segunda a quarta, você acompanha três pacientes diferentes; na quinta, um casal; na sexta, o próprio terapeuta, Paul Weston (Gabriel Byrne), cada vez mais pirado, vai consultar Gina (Dianne Wiest), uma analista com quem ele tem velhos ressentimentos e discordâncias de método.

A série foi ultra elogiada pelos jornais de qualidade, como o New York Times e o Wall Street Journal. As resenhas negativas ficaram por conta do San Francisco Chronicle e da Slate. Na blogosfera brasileira, já andaram falando do assunto a Carla Rodrigues e a Ivana Arruda Leite, ambas com comentários positivos.

É irresistível a paciente das segundas: Laura, uma jovem e charmosa médica, está vivendo com Paul a clássica transferência erótica, só que desta vez com conseqüências imprevisíveis para o terapeuta. Nas terças, Paul encara Alex, um tenente negro da marinha americana cujo pai matou acidentalmente o avô ao bloquear sua respiração asmática para evitar ruídos durante um ataque da Ku Klux Klan à casa. Alex acaba de voltar do Iraque, onde jogou uma bomba numa escola e matou 16 crianças. Forte, imponente, arrogante e seguríssimo de que não sente culpas, Alex tem uma das trajetórias mais fascinantes da série. Nas quartas, Sophie, uma ginasta de 16 anos, chega de um acidente que pode ou não ter sido uma tentativa de suicídio, talvez provocada por uma bizarra situação familiar, na qual ela idolatra o pai egoísta e ausente enquanto despreza a mãe dedicada. Nas quintas, Jake, pobretão aspirante a compositor, e Amy, bem-sucedida mulher de negócios, farão parecer fichinha qualquer crise que seu casamento tenha passado. É o dia mais punk da série, e também aquele em que ocorre a reviravolta mais radical. As sextas estão reservadas para o choque de ver como o sagaz terapeuta transforma-se num cego papagaio de denegações quando o tema é sua própria crise. Na medida em que se aproxima do fim, a série faz as várias histórias se encontrarem.

O método retratado na série não é exatamente a psicanálise. Trata-se daquela variante bem norte-americana da psicologia, a terapia do ego, que parte da estranhíssima – para nós, freudianos – premissa de que o papel do terapeuta é forjar uma aliança com a parte saudável do ego do analisando. Daí o fato de que Paul fale bastante nas sessões, transformando a busca num romance policial onde a empatia com as personagens é inevitável. In Treatment está disponível para download por aí, inclusive com legendas em português. Vale a pela conferir, Doutor Cláudio.



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quinta-feira, 24 de abril 2008

Ocupação colonial, feminismo e vida nua

Do loooongo trabalho que vou apresentar hoje à tarde aqui no Simpósio de Direitos Humanos na Universidade de Minnesota, escolhi três parágrafos polêmicos para traduzir e publicar aqui no blog. Aí vão, dedicados à Mary W, para quando ela tiver tempo de passar por aqui:


Um outro exemplo de como se negociam as fronteiras no discurso dos direitos humanos se encontra num artigo publicado por Piya Chatterjee e Sunaima Maira, intitulado An Open Letter to All Feminists: Support Palestinian, Arab, and Muslim Women. O artigo levanta uma questão interessante, ao assinalar que as feministas norte-americanas têm apoiado fortemente as lutas contra os assassinatos “de honra”, a mutilação genital e os casamentos forçados no mundo árabe, mas não dizem praticamente nada sobre a violência sofrida pelas mulheres árabes como resultado das ocupações ocidentais. Nas palavras de Chatterjee e Maira: “incomoda-nos o fato de que as feministas norte-americanas ... estejam participando num discurso seletivo de direitos humanos que ignora os crimes de guerra e os abusos de direitos humanos dos Estados Unidos.” Segundo as duas autoras, uma série de afirmações de feministas norte-americanas acerca das mulheres árabes ou muçulmanas têm sistematicamente se focalizado nelas somente como vítimas de sua própria cultura, e não como vítimas da violência colonial ou imperial perpetrada pelas ocupações. Note-se que Chatterjee e Maira em nenhum momento sugerem que as feministas parem de denunciar, por exemplo, a mutilação genital ou os casamentos forçados. Não se trata disso.

Não estamos aqui diante do velho debate do universalismo contra o particularismo, da defesa dos direitos humanos versus a defesa das tradições culturais locais. Na realidade, mais atenção, por parte das feministas norte-americanas, ao trabalho realizado por mulheres do Terceiro Mundo sobre essas questões já as teria levado à conclusão de que a própria oposição entre universalismo e tradições locais – ambos os termos, ou seja, a totalidade da dicotomia – só se mantém na medida em que nos situamos no ponto de vista do sujeito imperial do Primeiro Mundo: “é assustador que nestes tempos catastróficos, muitas feministas liberais dos Estados Unidos só enfoquem as práticas misóginas associadas com as culturais particulares locais, como se estas existissem em cápsulas, longe da arena da ocupação imperial”. Ao usar a expressão “discurso seletivo dos direitos humanos universais”, as autoras levantam um aparente paradoxo, na medida em que a universalidade supostamente eliminaria a seletividade. O universal, pensaríamos, não é seletivo.

Na verdade, por trás desse paradoxo se encontra o processo de constituição de todo universal. Qualquer categoria universal se fundamenta sobre uma abjeção, um elemento expelido que demarca suas fronteiras, uma exclusão que chamaremos aqui de lá fora constitutivo. Para o sujeito dos direitos humanos no nosso tempo, uma dessas abjeções constitutivas se emblematiza na categoria de combatentes fora-da-lei (unlawful combatants), termo com o qual a administração Bush exclui os detentos de Guantánamo não só das Convenções de Genebra, aplicadas a prisioneiros de guerra, como também da Convenção sobre a Tortura, aplicada a todos os seres humanos. A categoria de combatente fora-da-lei constrói, portanto, não só um sujeito extra-jurídico, mas também um lá fora da humanidade mesma.



  Escrito por Idelber às 03:16 | link para este post | Comentários (17)



segunda-feira, 11 de fevereiro 2008

Por que não engulo Hillary Clinton, por Ana Maria Gonçalves

Hoje quem escreve o post é a patroa.

Em 2005, Idelber e eu passamos um mês no Chile, exatamente quando tudo apontava que Michelle Bachelet seria a primeira mulher a assumir a presidência daquele país. Coincidentemente, eu também estava na Argentina no dia da posse de Cristina Kirchner, e voltei animada para os Estados Unidos, diante da perspectiva de acompanhar a caminhada de mais uma mulher rumo à presidência. Hillary Clinton, aliás, tinha uma trajetória bastante parecida com a de Cristina: ambas eram senadoras e tinham sido primeiras damas (na verdade Cristina ainda o era quando foi eleita, sendo empossada pelo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner).

Embora um dos meus grandes dilemas seja a incapacidade de me entregar completamente a alguma causa ou ideologia, por inércia ou falta de paciência, ou mesmo falta de desprendimento, estava torcendo pelo que seria uma grande vitória feminina. Estava torcendo por Hillary Clinton. A vitória dela representaria para mim um grande prazer, um quase capricho, um afago no ego coletivo feminino, do qual faço parte. Mas não só isso, pois também seria um fato importante ter uma mulher na Casa Branca, dada a atual conjuntura política e econômica do país e sua relação turbulenta e atravessada com o "resto do mundo". Seria interessante ver uma mulher mudando tudo isso e, quem sabe, abrindo caminho para outras mulheres.

Mesmo não votando aqui, eu queria me identificar com Hillary Clinton. Fiquei bastante frustrada quando não consegui, quando não me senti tocada pela presença ou pelas palavras dela, naquele tipo de empatia que é tão importante num primeiro momento. Eu tinha vontade de me identificar com a pessoa que eu achava que ela era: forte, inteligente, corajosa, determinada e prestes a alcançar o posto mais alto dentro da carreira que escolheu. Eu tinha dela a imagem de uma mulher que faz e acontece, e eu gosto de aprender com mulheres que fazem (ou fizeram) e acontecem (ou aconteceram). Tenho vários exemplos na família e escrevi um livro de mais de 900 páginas sobre a vida (inventada, está certo) de uma delas. Mas não consegui gostar do discurso de Hillary Clinton, não me senti representada por ela. E resolvi tentar descobrir o porquê.

Minhas impressões e descobertas:

- Hillary mal consegue deixar de admirar a si e a suas vitórias, passando a impressão de que ninguém precisa ir atrás de mais sonhos e mais conquistas, pois ela está lá, prestes a realizar o sonho mor que, generosamente, vai compartilhar com todos.

- Hillary não consegue se comunicar com pessoas que não tenham um perfil parecido com o dela. Não é por falta de esforço, mas porque tem um discurso muito autocentrado. Fala durante alguns minutos sobre um projeto coletivo de governo e todo o resto do tempo sobre um "eu" que parece ter mais importância que tudo no mundo. É sempre um "eu" fiz, "eu" farei, "eu"quero, "eu" preciso, "eu", "eu", "eu" qualquer coisa, e um "nós" de vez em quando, provavelmente ao seguir o script tantas vezes ensaiado para esse momento.

- Hillary acha que estar na Casa Branca é um direito adquirido, apenas pelo que já fez no passado.

- Hillary não tem o menor pudor em distorcer fatos, acrescentar dados e omitir informações quando percebe que pode se beneficiar da situação criada, como fez naquele caso em que acusou Obama de não ser um verdadeiro democrata.

- Hillary é capaz de continuar representando situações que tiveram certo impacto e montando teatrinhos, seja fingindo choro em mais duas situações depois daquela de New Hampshire, seja contratando (ou deixando contratar, tanto faz) aqueles rapazes que seguraram cartazes com os dizeres "Iron my shirt!", apenas para levantar a bandeira do sexismo.

- Hillary não consegue entender o que os americanos querem dizer quando clamam por "change". Essa mudança se refere ao modo de fazer política, mais que a qualquer outra coisa. É claro que uma mulher no comando da Casa Branca já seria uma grande "change", mas não vejo "change" numa líder política à moda antiga, corrompida pelo sistema.

- Hillary não vê nenhum problema em se comprometer com doações feitas por lobistas ou em chamar para si bons feitos alheios.

- Hillary é mestre em tentar agradar a gregos e a troianos, como no caso da carta de motorista para imigrantes ilegais, assunto no qual ela já mudou de lado tantas vezes que já nem mais sei se continua contra, ou a favor, ou muito pelo contrário. Na verdade ela não defende opiniões próprias, pois está sempre preocupada com o que possíveis eleitores vão pensar, ou deixar de pensar, ou muito pelo contrário também.

- Hillary quebra acordos com a mesma facilidade com que os faz. No caso das primárias na Flórida e em Michigan, por exemplo, foi feito um acordo para que nenhum dos candidatos fizesse campanha por lá. Os delegados desses estados não teriam poder de voto na escolha do candidato na convenção do partido, pois anteciparam as datas de suas primárias para que tivessem mais influência no resultado final. Todos os candidatos concordaram com isso, inclusive a Hillary. Mas ela foi a única a fazer campanha nos dois estados e a esquecer de mandar tirar seu nome das cédulas (é interessante que em Michigan, mesmo como candidata única, ela quase perde para os "uncommited"). Ganhou nos dois e agora diz que vai entrar na justiça para validar suas "vitórias".

- Hillary é covarde, ou então nos chama de burros quando fala de sua posição quanto à guerra. É orgulhosa demais para reconhecer que errou ao assinar a autorização para a invasão do Iraque. Muitos dos que a assinaram junto com ela já reconheceram o erro, como foi o caso de John Edwards. Ela diz que não errou, que continua absolutamente certa de que era a melhor decisão que tinha a tomar naquele momento com os dados de que dispunha, e que depois foi enganada por Bush. Bem, isso quase me dá o direito de pensar que ela não será esperta o suficiente para não cair em armadilhas similares, caso ocupe um dos cargos mais importantes do mundo. Ou então, ela acha que não sou esperta o suficiente para desconfiar de uma desculpa esfarrapada como essa. Todos sabiam que se iniciava ali uma guerra irresponsável, covarde, injustificada.

Vou parar por aqui, embora tenha certeza de que encontraria muitos outros motivos se continuasse pesquisando ou puxasse um pouco mais pela memória. Mas os aqui apresentados foram mais do que suficientes para me deixarem feliz por não me identificar com Hillary Clinton. Se votasse aqui nos EUA e votasse nela, estaria aprovando tudo isso aí acima. Por isso, eu fico um pouco incomodada quando leio textos como esse ou esse, que querem fazer com que eu me sinta uma menina inocente, manipulável e bobinha ou uma grande traidora alienada, por ser mulher e não apoiar uma mulher num momento tão importante. Não, eu realmente não quero me sentir obrigada a apoiar uma mulher apenas porque se trata de uma mulher, porque eu preciso de um pouco mais que isto. Eu preciso, no mínimo, de confiar nela; e na Hillary eu não confio.

Não há como deixar de admirar mulheres como as autoras dos textos que citei, e estar eternamente agradecida, pois, com certeza, sem a dedicação delas ao movimento feminista, minha vida seria muito diferente do que é hoje. Mas não consigo concordar com seus argumentos. Entendo o quanto a eleição da Hillary seria uma coroação, uma validação de tantos anos de trabalho, luta, revolta e entrega. Eis aqui algo que eu também queria ver: uma mulher na Casa Branca. Mas não a Hillary Clinton. Acredito que sua nomeação como candidata democrata será um tiro no pé do movimento feminista, pois ela levaria uma lavada do candidato republicano, fazendo com que qualquer mulher que chegue onde ela está agora tenha que se esforçar muito mais para provar que merece estar lá, para provar que não é nenhuma Hillary Clinton.

*****

Na verdade, a idéia deste texto era explicar por que sou a favor de Obama mas talvez a decepção com Clinton tenha feito com que, hoje, eu veja mais motivos para não apoiá-la do que para apoiar Obama. Foi quase um desabafo. Não tenho a menor idéia se Obama será um bom candidato ou um bom presidente, mas aquilo de que gosto nele e nem cheguei a vislumbrar nela é a capacidade de mobilizar e de fazer as pessoas acreditarem que sonhos são possíveis, que mudanças são viáveis e estão ao alcance de todos. A impressão que dá é que as pessoas querem mudar este cenário contaminado e velho representado por Hillary, com o apoio de Obama. E estão dispostas a ajudá-lo e a cobrá-lo, caso ele não esteja à altura de suas expectativas. Então, para dizer por que torço por Obama, deixo esse link e endosso esse vídeo maravilhoso (que também está transcrito aqui).



  Escrito por Idelber às 06:47 | link para este post | Comentários (58)



segunda-feira, 08 de outubro 2007

Ana Virgínia Moraes Sardinha, uma história de horror

O post de hoje é um pedido de ajuda em nome de Ana Virgínia, presa desde o dia 05 de julho em Portugal e vítima de uma sucessão de horrores. Primeiro a história, depois os links:

Ana Virgínia Moraes Sardinha, brasileira, de classe média / alta, administradora de empresas, começa a namorar com um português de nome Nuno Guilherme de Almeida Sampaio. Depois de firme o namoro, marcam uma visita de Ana a Portugal, junto com seu filho de 6 anos, Leonardo Brittes Sardinha. Nuno acaba não se dando bem com o garoto e Ana se muda para um hotel. Leonardo sofre de epilepsia. Ana, precavida, havia trazido do Brasil a medicação.

Durante uma crise de Leonardo, Ana lhe administra o remédio e ele engasga. Desesperada, em país estrangeiro, não consegue ajuda e o filho morre. Ana passa por essa inimaginável dor -- mãe, vê o filho morrer-lhe nos braços – e, em estado de choque, decide cortar os pulsos, suicidar-se. Encontrada à beira da morte pela polícia portuguesa, passa dez dias em coma e se vê acusada pela morte do filho. O ex-namorado, Nuno, está foragido. Desde então, Ana está encarcerada e há severos indícios de que tenha sofrido, no mínimo, maus tratos. Mais provavelmente, tortura mesmo.

O melhor relato que encontrei da história completa é o da advogada Olivete de Oliveira Marques (OAB/BA -- 11010). A irmã, Ana Rosa, divulgou uma carta com a descrição de qual seria o estado de Ana Virgínia no momento e também deu uma entrevista, cujo áudio está disponível na internet. Parece que o consulado brasileiro já foi acionado, mas até agora, que eu saiba, não há resultado. Outros blogueiros, como a Luma e o Ronald, já fizeram posts a respeito.

Revise os detalhes dessa história de horror envolvendo uma compatriota e assine a petição online que solicita providências urgentes ao governo e ao serviço diplomático brasileiros.

Atualização: Leiam o post da Paula Lee, que resume algumas das minhas inquietudes e também faz algumas das melhores perguntas sobre o caso até agora.



  Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post | Comentários (43)



segunda-feira, 16 de abril 2007

Sobre o aborto

É muito promissor para o debate sobre a descriminalização do aborto o editorial (link para assinantes) publicado pela Folha de São Paulo neste domingo, no qual o jornal se compromete com a causa que une feministas, ativistas dos direitos humanos e boa parte dos profissionais da saúde, além de outros setores da sociedade civil. As pesquisas indicam que a maioria da população brasileira ainda é contrária a mudanças na legislação atual, que só permite o aborto em casos de estupro e de risco à vida da gestante. Mas também é verdade que este é um tema que ainda não foi abertamente debatido na sociedade brasileira com a profundidade que merece.

O sucesso dos que defendemos o direito da mulher escolher interromper sua gestação legalmente, com segurança e assistência médica dependerá, eu acho, de alguns fatores:

1. Rechaçar a etiqueta de “abortistas’: ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona (link via Hermenauta).

2. Dirigir-se com especial atenção à população religiosa, apontando que, como demonstram as Católicas pelo Direito de Decidir, a identificação entre um feto de algumas semanas e uma vida humana é bem recente na história da Igreja. Não há nenhuma base científica para essa identificação. Quem se preocupa mesmo com a vida deve se perguntar: a proibição da cirurgia e a criminalização da gestante que a ela recorre é realmente uma defesa da vida? Mesmo? Pense bem, amigo católico.

3. Cobrar coerência dos que defendem a manutenção da criminalização da cirurgia. Se se trata da “eliminação de uma vida”, ora, os que a praticam e as que recorrem a ela teriam, por coerência, que ser julgados como assassinos. Quantos estão dispostos a encarcerar como homicidas as mulheres que recorrem ao aborto?

4. Entender que a descriminalização do aborto é uma peça num conjunto de medidas de prevenção e de educação sexual que são as únicas que podem alterar o triste quadro atual, de mortes e seqüelas ocasionadas por abortos de fundo de quintal.

5. Combater a desinformação. Num lamentável artigo (link para assinantes) escrito para a Folha, o deputado Luiz Bassuma (PT-BA), cometeu o seguinte disparate: Em 1988, ainda se questionava nos meios acadêmicos e científicos sobre o instante em que a vida tem origem. Hoje, com os avanços extraordinários da genética e da embriologia, não há espaço para qualquer dúvida: a vida começa no exato momento da concepção. Obviamente o deputado não cita nenhum geneticista ou embriólogo para apoiar tão descabelada afirmativa. O blog deixa aqui o desafio público para que ele nos cite qual é a base científica da afirmação de que a vida “começa no exato momento da concepçào”.

O resultado do plebiscito recente em Portugal é animador. A batalha é morro acima, sem dúvida. Mas vale a pena.

Texto anterior do Biscoito sobre o tema: Todo o apoio ao projeto de descriminalização do aborto.



  Escrito por Idelber às 05:29 | link para este post | Comentários (39)



terça-feira, 06 de março 2007

Páginas da Vida

paginas.jpgTodos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.

Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.

Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.

Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. MarcosCaruso.jpg

Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.

No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.

E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.

O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide - ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.

Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga - que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.

Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.

Foi bom seguir uma novela - tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.



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segunda-feira, 28 de agosto 2006

Diadorim

diadorim.jpg O nome de batismo de Diadorim-Reinaldo, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, nascida num dia de “11 de setembro de éra de 1800 e tantos”, evoca muita coisa, mas chave mesmo é decompor “Deodorina”, teo + dorón, presente de Deus. Trata-se ali de um presente que Rio-baldo (baldo, segundo Aurélio: falto, falho, carecido, carente, sem naipe) não pode abrir, presente ao qual ele, portanto, não faz justiça, não dá fluência ou circulação, presente que ele não sabe receber.

O leitor em empatia com o narrador – o leitor que caiu no conto simpático do velhaco latifundiário Riobaldo que se justifica – com certeza objetará, e com razão, que Riobaldo amou Diadorim, amou-o verdadeiramente do jeito que lhe foi possível, no limite do que era concebível e aceitável numa sociedade homofóbica onde, afinal de contas, o nome de Deodorina era Reinaldo Aí, claro, entra a tragicidade do personagem Riobaldo, emblematizada no fato de que em sua essência verdadeira, mais profunda, interior ao vestuário, Diadorim era-lhe, sim, possível como objeto de amor que não perturbava suas tão queridas convenções sociais, já que biologicamente mulher.

Mas ser mulher não é uma opção possível para Deodorina numa sociedade onde ela deve vingar a morte do pai, Joca Ramiro. Diadorim, o que só tem pai; Riobaldo, o que só tem mãe. O transgendering de Diadorim (o termo aqui é exato, acho: Diadorim não é andrógino nem muito menos “hermafrodita”) é necessário devido à interdição da jagunçagem à mulher. É ali que Diadorim tem que se provar como o mais valente. Se no meio dos acontecimentos Riobaldo podia achar que “esse menino, e eu [...] éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!” (310), a ironia amarga é que é somente Diadorim quem dá cabo do demo, Hermógenes, na ponta faca, na luta fatal que Riobaldo assistiu impotente e paralizado, já que só sabia atirar. O preço da covardia de Riobaldo é a morte de Diadorim e a revelação de Maria Deodorina. Diadorim, por outro lado, morre como figura definitiva da coragem, emblema da donzela guerreira.

Diadorim é também Diá-adorar, adoração do demo e figura do demoníaco: joga Riobaldo no redemoinho do amor homoerótico e vira cifra, para ele, da obrigatoriedade do pacto. Deus é sempre um; o demoníaco está cifrado no nome de Diadorim como di + adorar, o amor do duplo. O diabo é sempre legião:

...a gente criatura ainda é tão ruim, tao, que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus -- quando o projeto que ele começa é para muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? ...Deamar, deamo...Relembro Diadorim. Minha mulher que nao me ouça
.

Em livros e artigos sobre Guimarães Rosa, Diadorim tem sido estudado a partir do topos da donzela guerreira (personagem fascinante, claro) ou como figura andrógina do coincidentia oppositorum. Alguns outros estudos recentes fazem observações interessantes sobre Diadorim como figura da poética de Rosa, como emblema da própria paixão do autor pela invenção e pelo desconhecido. Há sempre que se lembrar que o primeiro encontro de Riobaldo com Diadorim – na iniciática travessia do Rio São Francisco liderada por Diadorim com 14 anos, então “o Menino” – ocorre no porto do Rio-de-Janeiro, Janus sendo, claro, a figura do deus de dupla face, dos rituais de passagem.

Mas pouco tratada, na verdade – vejam que interessante - é a questão de Diadorim como desestabilização de uma certa masculinidade sertaneja de longa história ou como, digamos, figura da redefinição dos códigos de masculinidade mesmo. O tema é tão óbvio que pulula, mas há um ponto a partir do qual não se trata dele: Grande Sertão como romance gay. Por que tão poucos estudos sobre a experiência que é especificamente homoerótica ali? Diadorim, afinal, é mulher que vive como homem e é o amor frustrado por esse homem que Riobaldo relata. Diadorim também é di(á) + dor, a experiência do duplo e do demoníaco na dor.

O que Diadorim desestabiliza é tão grande que só depois de umas 4 releituras do romance e da leitura recente de um estudo do Willi Bolle, grandesertão.br, me dei conta de quão orgânicos são os vínculos entre Otacília, o latifúndio, a transmissão da propriedade e a solidez da família nuclear monogâmica heterosexual. Claro, já na primeira leitura fica óbvio que o amor por Otacília é a opção pela segurança e estabilidade de uma relação – forte e amorosa, sem dúvida – socialmente sancionada. Mas Bolle mapeia de uma forma bem interessante toda a trajetória de Riobaldo na segunda parte da seqüência de acontecimentos, posteriores ao pacto, até a sua assunção como chefe e a luta final onde morrem Hermógenes e Diadorim: trajetória de progressiva má fé, soberba e acovardamento, emblematizados no abandono (autoritariamente justificado) de seus comandados, em meio a possibilidades de batalha, para uma visita a Otacília. Isso se fecha na paralisia de Riobaldo, pelo medo, na batalha final. Digamos que esse medo tem raízes bem sólidas numa opção de classe e numa ordem heterossexista compulsória. Diadorim é a força desestabilizadora dessa ordem. Bolle diz bonito, no seu livro:

a figura bissexual de Diadorim é um meio para evidenciar, por contraste, o que há de unilateral e redutor no retrato do povo apresentado por Euclides. O autor d'Os Sertões valoriza o sertanejo apenas como guerreiro - postura sintetizada na frase que se tornou célebre: 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Quase todos os demais valores culturais das pessoas do sertão - suas práticas religiosas, formas de organização econômica e política, sua fala, sua sensibilidade e, em particular, todo o universo feminino - são relegados à margem ou desprezados (pag. 214-5).

bruna.jpgEu me lembro de que em 1985, quando Walter Avancini fez para a Rede Globo uma mini-série sobre Grande Sertão: Veredas, a imagem de Bruna Lombardi como Diadorim tirava da personagem, para mim, toda verossimilhança: além de “feminina” em excesso, Bruna já era conhecida demais como mulher para que toda a ambigüidade de Diadorim se deixasse entrever. Eu me lembro de pensar que uma atriz desconhecida mas fisicamente bem masculina teria sido o ideal – alguém que ninguém conhecesse, que fizesse justiça ao personagem, que é, afinal, uma figura do desconhecido e do inexplorado, das mil identidades existentes por aí ainda sem representação.

PS: Eu teria mais a dizer sobre Diadorim, mas é hora de arrumar mala. Fiquem à vontade para puxar outros fios de conversa sobre a personagem, ou outras facetas do livro. Sugestão de leitura de hoje: o volume da coleção Fortuna Crítica sobre Guimarães Rosa, que reúne um time de ensaístas de primeira, e o estudo de Bolle citado acima, belíssimo.

PS 2: Nossa próxima tarefa é Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, para dentro de algumas semanas, ok?

PS 3: Valeu, Belo Horizonte. O próximo post lhes chegará de Nawlins, onde aterrizo, com a benção dos orixás, na terça de manhã.



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (18)



quarta-feira, 26 de julho 2006

O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas

gsv-3.jpgDas várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é o relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.

O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas. Essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo. Quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.

Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.

Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira. Só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).

Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor. O único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca. No nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).

Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco. Eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.

Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro. Trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.

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Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.

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Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)

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A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.

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Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).



  Escrito por Idelber às 05:48 | link para este post | Comentários (27)



sexta-feira, 25 de novembro 2005

Violência contra a mulher

violencia-mulher.jpg

Hoje é o dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher e o Biscoito é parte da conversa.

Estima-se que no Brasil a cada dia uma mulher é assassinada pelo seu companheiro. De cada três mulheres do mundo, uma já sofreu espancamento ou abuso sexual, segundo dados da ONU (link via Leiloca). 70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo foram mortas por seus próprios maridos.

Os números não devem chegar a surpreender ninguém, mas é útil recordá-los àqueles que estão sempre prontos a criticar e ridicularizar o dia da consciência negra, o dia da mulher ou o dia do índio. Para eles, o macho adulto branco no comando também deveria ter o seu dia, ou não deveria haver dia para ninguém: trata-se, claro, de uma forma de negar o problema e tentar escondê-lo.

Há uma série de formas de violência que vitimam especificamente, ou prioritariamente, as mulheres. Das mais nefastas, o estupro: estima-se que menos de 10% dos estupros aparecem nas estatísticas, por razões que qualquer vítima entenderia muito bem.

Em anos de trabalho próximo ao núcleo de mulheres do PT-MG, pude constatar o calvário que é fazer um boletim de ocorrência de estupro no Brasil. Há uma perversa lógica machista que torna a vítima de estupro, por antecipação, uma ré num tribunal onde os juízes são invariavelmente homens que jamais pararam para refletir um minuto sobre o que deve ser passar por essa experiência: "O que você estava vestindo?", "Você o provocou?" "Você disse ou deu a entender algo que o possa ter levado a fazer isso?" Se a vítima, por qualquer razão, demora para denunciar, esse próprio intervalo já é outro motivo de suspeita: "Por que só denunciou agora?" E por aí vai. Quando nos damos conta, a vítima já está no banco dos réus. As delegacias de mulheres têm sanado, muito parcialmente, esse problema.

Há um belo livro recente coordenado por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse que oferece um estudo detalhado do porquê do silêncio sobre a violência sexual no Brasil. Naturalmente, aqueles que condenam as mulheres que fazem abortos clandestinos (ao invés de lutar para que o aborto deixe de ser ilegal) refletiram pouco sobre qual é o contexto no qual uma mulher estuprada é obrigada a narrar sua história para conseguir abortar legalmente.

Uma vez, quando eu descrevia a alguém um quase-estupro sofrido por uma conhecida, o primeiro que escutei foi: É.... fulana é muito bonita. Naquele contexto, o elogio da beleza da vítima me pareceu a coisa mais ignóbil. Avalizava o estuprador. Encerrei o assunto antes que aparecesse a pergunta sobre se a vítima estava de mini-saia.

Mil outras formas de violência contra a mulher têm lugar não nos atos, mas na linguagem. São formas diferentes de violência e como tais devem ser tratadas. A essa distinção, e à dificuldade de fazê-la em determinados contextos, a feríssima Judith Butler dedicou um belo livro, sobre palavras que ferem.

Este blog critica, com freqüência, a política externa, os costumes, a estrutura política e a ideologia dominante nos Estados Unidos. Mas na questão da prevenção e punição da violência contra a mulher, nos atos e na linguagem, o Brasil ainda está anos-luz atrás do que já se conseguiu nos Estados Unidos. No Brasil ainda se faz, por exemplo, humor dizendo coisas como hoje as meninas querem dar para o crioulinho que elas acham bacana, coisa da qual, nos EUA, ninguém acharia graça. No Brasil, quando as "meninas" ou o "crioulinho" se ofendem, em geral escutam que são culpados de "patrulha". Seria bom se os que querem sempre imitar os EUA no "livre mercado" e na "cultura capitalista" tentassem imitá-los também no terreno da consciência sobre os efeitos dos discursos racistas ou sexistas.

Apesar de que pessoalmente acho que nenhum discurso deve ser objeto de censura (sou a favor, por exemplo, de que grupos nazistas tenham liberdade de expressão, pois proibi-los só alimenta a mística do martírio da qual eles se nutrem), acho que os que reclamam de "patrulhamento" contra suas bobagens sexistas ou racistas são, pura e simplesmente, uns hipócritas.

Estupro e discurso sexista são coisas bem diferentes, mas assim como na delegacia onde a duras penas uma vítima tenta relatar um crime, também na violência "meramente" discursiva com freqüência opera-se uma inversão. Assim como o estuprador em geral foi "provocado", o agressor lingüístico em geral se adianta para apresentar-se como o "patrulhado".

Neste, como em outros casos, não custa ouvir a vítima real.

Sobre assuntos relacionados às mulheres, sua saúde e a violência contra elas, o Biscoito já escreveu aqui e aqui. Sobre o uso de tortura sexual contra mulheres nos porões de regimes autoritários ou democráticos, pode-se ler o primeiro capítulo desse livrinho meu.

Este post é parte de uma blogagem coletiva. A lista de blogs participantes está lá no Síndrome de Estocolmo.



  Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post | Comentários (26)



quarta-feira, 28 de setembro 2005

Todo apoio ao projeto de descriminalização do aborto

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Hoje é o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, e este blog participa da iniciativa do Nós na Rede de fomentar a discussão sobre o tema.

Foi entregue ontem à Câmara dos Deputados o projeto de lei que descriminaliza o aborto nas 12 primeiras semanas e em qualquer idade gestacional quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má formação fetal incompatível com a vida. Ele será incorporado ao projeto de lei 1.135, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Neste momento, é muito importante que a sociedade brasileira, e especialmente as pessoas de formação religiosa, entendam: realizam-se no Brasil aproximadamente 1 milhão de abortos clandestinos por ano. A maioria deles ocorrem em condições precárias e perigosas. A existência dessa indústria clandestina do aborto só favorece ainda mais o apartheid social brasileiro: quem tem dinheiro, paga por um aborto seguro que, como bem diz o advogado Túlio Viana, é um crime pelo qual ninguém vai preso. Quem não pode pagar, a vasta maioria, arrisca a vida em clínicas de fundo de quintal com agulhas de crochê.

Se você é católico e é a favor de que se mantenha essa vergonhosa criminalização de uma cirurgia porque "a Bíblia manda", releia a Bíblia: como sabem os que conhecem a história da Igreja, e como já demonstraram as Católicas pelo Direito de Decidir, só na segunda metade do século XIX a Igreja começa estabelecer essa absurda identificação entre feto e ser humano. Se um feto fosse uma vida, obviamente ele não precisaria de um outro corpo durante nove meses. O corpo da mulher deve ser de única responsabilidade da mulher, o papel do estado sendo unicamente o de dar condições dignas e adequadas para que cada mulher cuide dele.

O aborto é uma questão de saúde pública, não uma questão moral. Ser contra o direito ao aborto com julgamentos morais sobre a mulher que engravidou é de uma hipocrisia e/ou ignorância sem tamanho: engravida-se por mil motivos, e se a ciência já nos forneceu condições de interromper a gravidez indesejada de forma higiênica e segura, por que trazer ao mundo mais seres humanos que não terão como serem cuidados?

Defender o direito à vida é defender que todo ser humano que venha ao mundo tenha condições dignas de sobreviver. Pró-vida somos nós, que defendemos o direito de que as mulheres tenham acesso aos meios necessários para que seus filhos usufruam da vida em toda sua beleza.

Por isso, há que se entender: ninguém, nem a feminista mais radical, é "a favor do aborto". Não existe isso, ser a "favor do aborto". Quem já conversou e conviveu com uma mulher que abortou sabe: trata-se sempre de uma decisão dura e difícil para a mulher. Insistimos no direito ao aborto que - combinado com mais educação sexual e mais acesso a métodos contraceptivos e planejamento familiar - produziria, inclusive, uma redução no número de abortos efetivamente realizados.

O que não podemos aceitar é que a criminalização, por motivos religiosos, de um procedimento cirúrgico continue colocando em risco a vida de tantas mulheres ou, por outro lado, continue forçando-as a trazer ao mundo crianças que engrossarão as fileiras da marginalidade.

Por isso, neste 28 de setembro, o Biscoito convida seus leitores a que se informem: visitemos o Dossiê Aborto Inseguro, não imaginemos que podemos fazer juízos morais sobre a mulher que aborta e sobre as razões que a levam a abortar e, acima de tudo, entendamos que é hipocrisia ignorar que os abortos clandestinos continuarão ocorrendo caso essa estúpida criminalização se perpetue. Mais mulheres morrerão ou se mutilarão com agulhas de crochê.

Feto é feto, ser humano é ser humano. E temos milhões de seres humanos aqui no Brasil, vivendo em condições precárias. É importante cuidar deles. Inclusive para que esses seres humanos não sejam, depois, vítimas fáceis da criminalidade, da marginalidade ou da pedofilia.

Neste 28 de setembro, pense nisso. Converse com um profissional da saúde. Converse com uma mulher que já passou pela cirurgia. Não se lance a julgar moralmente a mulher que engravidou. Pense nas mil e uma circunstâncias que podem produzir uma gravidez indesejada. Pense no custo de se trazer ao mundo uma criança não desejada pelos pais. Visite os blogs que participam da iniciativa do Nós na Rede. E deixe sua opinião aqui no Biscoito.



  Escrito por Idelber às 01:14 | link para este post | Comentários (44)



sábado, 07 de maio 2005

Sobre Gênero e Polêmicas

Aconteceram três coisas interessantes sobre as quais eu adoraria papear com quem quisesse discutir, desde que a gente mantivesse a discussão em termos anônimos, porque realmente o que importa é a substância e não os sujeitos. Uma coincidência curiosa ocorreu neste fim de semana em todos os três listserves dos que eu participo.

O que é um listserve? É uma lista de email envolvendo gente que pensa de uma certa maneira. Quando emplaca, é uma arma potente. Quando não emplaca, não emplaca. Nunca se sabe se um listserve vai emplacar ou não, por isso é bom estar lá, disposto.

Eu participo de três listserves: um em pindorâmico, de blogueiros de esquerda, um em castelhano, sobre estudos culturais, outro em inglês, sobre política. Por uma incrível coincidência, todos estes listserves cairam em simultâneas polêmicas.

Por incrivel coincidência, todas as três polêmicas envolviam um homem e uma mulher.

Por mais insólita coincidência, tratavam-se de homens que admiro muito por sua inteligência.

Por mais singular ainda coincidência, eu observei a polêmica desenrolar-se estatelado quanto ao que na minha opinião era uma sucessão de grosserias cometidas pelos homens contra as mulheres. Eu escolhi não me manifestar, em parte por falta de tempo e saco, mas ao longo das três polêmicas, reforçou-se minha convicção de que a cegueira masculina é infinita. Nos três casos chamou-me a atenção que vira e mexe, quando há uma polêmica, os homens insistam em tratar os argumentos apresentados pelas mulheres ironicamente, mesmo quando estejam "dialogando" com eles. Por uma incrível coincidência, em todas as três polêmicas a coisa ultrapassou os níveis do suportável no momento que os homens começaram a apresentar suas credenciais. Todas as três discussões encerraram-se - pelo que me parece - no mesmo momento de apresentação das credenciais masculinas.

Pode ser que seja impressão minha. Pode ser que eu esteja viajando. Mas a minha aposta é que ainda falta muito para que a homaiada aprenda a escutar. São três polêmicas que funcionaram como material de observação: nos três casos eu era completamente indiferente à substância mesma do argumento, mas nos três casos tive a sensação de que a escuta masculina ainda está bastante atrofiada. Há uma simetria e um respeito básico na discussão que ainda está por se conquistar. Talvez seja impressão minha.



  Escrito por Idelber às 03:33 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 02 de abril 2005

Sobre escolher alguém por ser mulher

Eu prometi à Juliana e a outras leitoras que eu faria uma reflexão sobre porque, para mim, os blogs estão associados à constituição de uma voz feminina. No geral as mulheres têm mais talento, competência e abertura para falar da intimidade publicamente do que os homens. Isso não quer dizer, claro, que blog seja sinônimo de intimidade, mas a forma blog potencialmente abre essa janela para o íntimo.

Este ainda não é o post sobre voz feminina, mas é um prólogo a ele. É a primeira de duas historinhas que têm a ver com a questão da mulher: a história de quando eu precisei de uma advogada e a história de quando eu precisei de uma analista.

Hoje eu conto a primeira.

Eu uso as formas no feminino porque a única coisa que eu sabia sobre a advogada que eu escolheria é que seria uma mulher . A única coisa que eu sabia sobre a analista que eu escolheria (além de que seria uma freudiana) é que seria mulher. Por quê? Não sei, foram instintos que, diga-se de passagem, estavam corretos nas duas oportunidades.

Eu precisei de uma advogada em 1999, pela razão mais absurda. Eu já era professor titular em Tulane (que havia acabado de me contratar da Universidade de Illinois) e a documentação da minha residência permanente nos EUA se embananou de uma forma kafkiana.

Como Illinois havia tramitado os papéis por mim, o green card foi aprovado e enviado a minha residência no estado de Illinois, exatamente uma semana depois de que eu havia me mudado para New Orleans. O documento bateu na caixa de correios e, claro, voltou para o serviço de imigração, para quem eu havia deixado de residir em Illinois – e portanto deixado de ser dono daquele green card recebido por ser funcionário da universidade do estado. Começou aí uma história digna de uma peça do teatro do absurdo.

Lógico que isso aconteceu quando eu já estava em New Orleans, ou seja, não fiquei sabendo de nada. Eu, que já havia me acostumado a carimbar o passaporte para sair dos EUA enquanto esperava o trâmite do green card, caí no jazz e só fui pensar no assunto nas vésperas da viagem dezembrina anual ao Brasil, quando me encaminhei ao serviço de imigração para receber o bendito carimbo e fui informado de que eles haviam aberto um notice to appear in removal proceedings contra mim.

Enfim, eu era residente do país há dez anos, professor titular de uma universidade de elite, mas estava ameaçado de deportação! Claro que “removal” era nome de um processo que tinha sua origem num mal-entendido. Era simplesmente provar que eu continuava fazendo, em Tulane, exatamente o mesmo trabalho que eu fazia em Illinois, e pelo qual eu havia recebido o green card.

Mas vá você tentar explicar um mal-entendido a uma estrutura burocrática kafkiana. É daquelas situações que você olha e diz: sem advogado não dá.

O primeiro com o qual me topei foi um tipo com cara de texano, bigodón, cinturão de fivela prata, calça jeans puída, falando com um tom de quem me explicava como funciona a lei numa verdadeira democracia. O segundo foi um gordo, de terno e gravata puídos, maletinha e obsessão com o Vietnã. Nenhum deles me olhou nos olhos. Enquanto eu ouvia os caras, tive ânsias de vômito. Se você vai pedir a alguém que lhe represente, melhor que não seja uma pessoa que lhe provoque vômitos, não é?

Pensei na hora: quero uma mulher. Por quê? Não sei, mas como eu não tinha outros elementos para avaliar, eu achei: "para confiar a uma pessoa parte tão importante da minha intimidade como o direito de continuar trabalhando no lugar onde trabalho há dez anos, eu vou preferir que seja uma mulher". Foi aí que conheci Cat.

No primeiro encontro, ela me olhou nos olhos. Ponto para ela. Explicou-me o azar que havia acontecido comigo, ponderou que não havia razão para pânico, que eu era residente permanente do país e que se havia alguma coisa errada, quem tinha que provar isso eram eles. Ela garantia que conseguiria as carimbadas temporárias no passaporte para que eu pudesse continuar viajando. Tudo bem dito, sem embromação. Só depois conheci o trabalho maravilhoso de assistência a trabalhadores imigrantes pobres, refugiados (e muito especialmente refugiadas) que desenvolve a Cat aqui em New Orleans. Ela jamais fez propaganda desse trabalho.

O processo ainda se arrastou por três anos antes de resolver-se, mas em nenhum momento tive problemas para viajar ou duvidei que fosse dar certo. Várias vezes, no entanto, eu precisei de que ela me assegurasse de que tudo estava bem (depois, claro, eu morria de culpa de estar tomando tempo de alguma etíope refugiada de imolação tribal). Receber essa garantia dela era coisa bastante diferente que recebê-la de qualquer outro advogado gringo que eu tenha conhecido na vida. Tratava-de alguém que olha nos olhos. Continuamos, hoje, amigos, eu e Cat.

Comente o que quiser, da história ou de outra coisa, mas eu tenho uma curiosidade: vezes em que você escolheu uma profissional por ser mulher? Ou você é dos que acham que isso é sempre bobagem?



  Escrito por Idelber às 02:55 | link para este post | Comentários (28)



terça-feira, 22 de março 2005

Linkar também é cultura - Women's Day

Nos arquivos de Marina W – pioneira da blogosfera, é bom avisar, já que quem acaba de chegar muitas vezes não sabe – descubro que depois do 11 de setembro tanto Madonna como Woody Allen deram respostas lúcidas, tranqüilas. Parece que foi há um século e o pesadelo político só piora. Gosto de passear pelo blog de Marina W: sucinto, pungente. Foi via Marina W que cheguei nesta singeleza.

No post de 19 de março do Kit Básico da Mulher Moderna, a autópsia feminina de três figuras: o marido indiferente, a esposa frustrada, o confidente masculino internético “compreensivo”, cuja “compreensão”, claro, é só um trampolim para que ele se sinta virtuoso consigo mesmo. Eu sempre gostei de literatura erótica e sabia, quando comecei a blogar, que encontraria blogs de contística erótica. Não sabia que eles iriam ser desta qualidade.

Para quem ainda acha que Aécio Neves é um bom mocinho, a Dra. Cynthia
Semíramis tem treze links. Dra. Cynthia é, sabe-se, pesquisadora de questões relativas ao direito e à internet, e é co-autora do Manual de sobrevivência na selva de bits.


Lucia do Frankamente conta a história da sua relação com o desejo de lombada. Não resisti e, na caixa de comentários, contei a história de Adolfo Couve, grande escritor chileno que se suicidou no dia da posse de Pinochet no Senado. Couve teve seu último romance rejeitado por “falta de lombada” – só tinha 13 páginas (treze, acredita, Sheila?).

A respeito do valor da mobilização na política Monicomio colocou tantas questões que eu não teria como responder sem fazer outro longo post. Digamos que, em minha opinião, a pergunta de Mônica sobre qual é *essa tal mobilização para se cobrar do governo *deixa bem a desnudo os limites do que pode realizar agora, no Brasil, uma estratégia de bem-comportado "cobrador" do governo. Com a palavra, os defensores de tal estratégia. Sobre o voto nulo, a contribuição impagável foi a de Lucia Malla, com a história dos mosquitos de Vila Velha.

Definição feminina implacável: festa é o que acontece entre horas no espelho e aliviar os pés do sapato apertado. Roubei de Ticcia e Rô. Boa como essa, só a definição de casamento de Lucia Villa Real: Casamento é igual piscina gelada. Depois que o primeiro tonto entra, ele fica gritando para os outros: ‘pula que a água está boa!”

Na área de reflexão acadêmica brasileira sobre os blogs, são as mulheres que realizam a maioria dos trabalhos pioneiros: Suzana sobre o potencial educacional dos blogs, Elisa sobre a etnografia, digamos, dos blogs, a Isabel sobre as relações afetivas na net.

Ah! Conheça o trabalho de outras pioneiras da blogosfera nacional aqui, aqui e aqui também, viu? Pronto. Fiz o post que queria fazer em homenagem a *algumas dessas blogueiras e seus blogs maravilhosos. E pensar que, quando comecei, considerei a possibilidade de fazer o blog em inglês. Onde eu andava com a cabeça?

Contagem regressiva para o pontocom: SEIS
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  Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post