segunda-feira, 28 de julho 2008
Em Terapia
Quando filmou O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, Héctor Babenco se colocou uma pergunta interessante: como fazer um filme em que os personagens estejam entediados mas o público não? Foi o que me veio à mente neste fim de semana, enquanto eu e Ana encarávamos a maior maratona televisiva das nossas vidas: 43 episódios da série “Em Terapia” (In Treatment), da HBO, baseada num original de muito sucesso em Israel. Eu quase não assisto televisão, mas sou capaz de apostar que é das melhores coisas que a telinha produziu nos últimos tempos.
Filmes e programas sobre psicanálise são, em geral, tediosos e inverossímeis. In Treatment segue-se quase como um filme de suspense, alinhavado por uma bela fórmula: nos episódios de segunda a quarta, você acompanha três pacientes diferentes; na quinta, um casal; na sexta, o próprio terapeuta, Paul Weston (Gabriel Byrne), cada vez mais pirado, vai consultar Gina (Dianne Wiest), uma analista com quem ele tem velhos ressentimentos e discordâncias de método.
A série foi ultra elogiada pelos jornais de qualidade, como o New York Times e o Wall Street Journal. As resenhas negativas ficaram por conta do San Francisco Chronicle e da Slate. Na blogosfera brasileira, já andaram falando do assunto a Carla Rodrigues e a Ivana Arruda Leite, ambas com comentários positivos.
É irresistível a paciente das segundas: Laura, uma jovem e charmosa médica, está vivendo com Paul a clássica transferência erótica, só que desta vez com conseqüências imprevisíveis para o terapeuta. Nas terças, Paul encara Alex, um tenente negro da marinha americana cujo pai matou acidentalmente o avô ao bloquear sua respiração asmática para evitar ruídos durante um ataque da Ku Klux Klan à casa. Alex acaba de voltar do Iraque, onde jogou uma bomba numa escola e matou 16 crianças. Forte, imponente, arrogante e seguríssimo de que não sente culpas, Alex tem uma das trajetórias mais fascinantes da série. Nas quartas, Sophie, uma ginasta de 16 anos, chega de um acidente que pode ou não ter sido uma tentativa de suicídio, talvez provocada por uma bizarra situação familiar, na qual ela idolatra o pai egoísta e ausente enquanto despreza a mãe dedicada. Nas quintas, Jake, pobretão aspirante a compositor, e Amy, bem-sucedida mulher de negócios, farão parecer fichinha qualquer crise que seu casamento tenha passado. É o dia mais punk da série, e também aquele em que ocorre a reviravolta mais radical. As sextas estão reservadas para o choque de ver como o sagaz terapeuta transforma-se num cego papagaio de denegações quando o tema é sua própria crise. Na medida em que se aproxima do fim, a série faz as várias histórias se encontrarem.
O método retratado na série não é exatamente a psicanálise. Trata-se daquela variante bem norte-americana da psicologia, a terapia do ego, que parte da estranhíssima – para nós, freudianos – premissa de que o papel do terapeuta é forjar uma aliança com a parte saudável do ego do analisando. Daí o fato de que Paul fale bastante nas sessões, transformando a busca num romance policial onde a empatia com as personagens é inevitável. In Treatment está disponível para download por aí, inclusive com legendas em português. Vale a pela conferir, Doutor Cláudio.
Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post
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segunda-feira, 08 de outubro 2007
Ana Virgínia Moraes Sardinha, uma história de horror
O post de hoje é um pedido de ajuda em nome de Ana Virgínia, presa desde o dia 05 de julho em Portugal e vítima de uma sucessão de horrores. Primeiro a história, depois os links:
Ana Virgínia Moraes Sardinha, brasileira, de classe média / alta, administradora de empresas, começa a namorar com um português de nome Nuno Guilherme de Almeida Sampaio. Depois de firme o namoro, marcam uma visita de Ana a Portugal, junto com seu filho de 6 anos, Leonardo Brittes Sardinha. Nuno acaba não se dando bem com o garoto e Ana se muda para um hotel. Leonardo sofre de epilepsia. Ana, precavida, havia trazido do Brasil a medicação.
Durante uma crise de Leonardo, Ana lhe administra o remédio e ele engasga. Desesperada, em país estrangeiro, não consegue ajuda e o filho morre. Ana passa por essa inimaginável dor -- mãe, vê o filho morrer-lhe nos braços – e, em estado de choque, decide cortar os pulsos, suicidar-se. Encontrada à beira da morte pela polícia portuguesa, passa dez dias em coma e se vê acusada pela morte do filho. O ex-namorado, Nuno, está foragido. Desde então, Ana está encarcerada e há severos indícios de que tenha sofrido, no mínimo, maus tratos. Mais provavelmente, tortura mesmo.
O melhor relato que encontrei da história completa é o da advogada Olivete de Oliveira Marques (OAB/BA -- 11010). A irmã, Ana Rosa, divulgou uma carta com a descrição de qual seria o estado de Ana Virgínia no momento e também deu uma entrevista, cujo áudio está disponível na internet. Parece que o consulado brasileiro já foi acionado, mas até agora, que eu saiba, não há resultado. Outros blogueiros, como a Luma e o Ronald, já fizeram posts a respeito.
Revise os detalhes dessa história de horror envolvendo uma compatriota e assine a petição online que solicita providências urgentes ao governo e ao serviço diplomático brasileiros.
Atualização: Leiam o post da Paula Lee, que resume algumas das minhas inquietudes e também faz algumas das melhores perguntas sobre o caso até agora.
Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post
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terça-feira, 06 de março 2007
Páginas da Vida
Todos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.
Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.
Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.
Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. 
Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.
No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.
E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.
O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide - ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.
Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga - que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.
Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.
Foi bom seguir uma novela - tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.
Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post
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sexta-feira, 25 de novembro 2005
Violência contra a mulher

Hoje é o dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher e o Biscoito é parte da conversa.
Estima-se que no Brasil a cada dia uma mulher é assassinada pelo seu companheiro. De cada três mulheres do mundo, uma já sofreu espancamento ou abuso sexual, segundo dados da ONU (link via Leiloca). 70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo foram mortas por seus próprios maridos.
Os números não devem chegar a surpreender ninguém, mas é útil recordá-los àqueles que estão sempre prontos a criticar e ridicularizar o dia da consciência negra, o dia da mulher ou o dia do índio. Para eles, o macho adulto branco no comando também deveria ter o seu dia, ou não deveria haver dia para ninguém: trata-se, claro, de uma forma de negar o problema e tentar escondê-lo.
Há uma série de formas de violência que vitimam especificamente, ou prioritariamente, as mulheres. Das mais nefastas, o estupro: estima-se que menos de 10% dos estupros aparecem nas estatísticas, por razões que qualquer vítima entenderia muito bem.
Em anos de trabalho próximo ao núcleo de mulheres do PT-MG, pude constatar o calvário que é fazer um boletim de ocorrência de estupro no Brasil. Há uma perversa lógica machista que torna a vítima de estupro, por antecipação, uma ré num tribunal onde os juízes são invariavelmente homens que jamais pararam para refletir um minuto sobre o que deve ser passar por essa experiência: "O que você estava vestindo?", "Você o provocou?" "Você disse ou deu a entender algo que o possa ter levado a fazer isso?" Se a vítima, por qualquer razão, demora para denunciar, esse próprio intervalo já é outro motivo de suspeita: "Por que só denunciou agora?" E por aí vai. Quando nos damos conta, a vítima já está no banco dos réus. As delegacias de mulheres têm sanado, muito parcialmente, esse problema.
Há um belo livro recente coordenado por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse que oferece um estudo detalhado do porquê do silêncio sobre a violência sexual no Brasil. Naturalmente, aqueles que condenam as mulheres que fazem abortos clandestinos (ao invés de lutar para que o aborto deixe de ser ilegal) refletiram pouco sobre qual é o contexto no qual uma mulher estuprada é obrigada a narrar sua história para conseguir abortar legalmente.
Uma vez, quando eu descrevia a alguém um quase-estupro sofrido por uma conhecida, o primeiro que escutei foi: É.... fulana é muito bonita. Naquele contexto, o elogio da beleza da vítima me pareceu a coisa mais ignóbil. Avalizava o estuprador. Encerrei o assunto antes que aparecesse a pergunta sobre se a vítima estava de mini-saia.
Mil outras formas de violência contra a mulher têm lugar não nos atos, mas na linguagem. São formas diferentes de violência e como tais devem ser tratadas. A essa distinção, e à dificuldade de fazê-la em determinados contextos, a feríssima Judith Butler dedicou um belo livro, sobre palavras que ferem.
Este blog critica, com freqüência, a política externa, os costumes, a estrutura política e a ideologia dominante nos Estados Unidos. Mas na questão da prevenção e punição da violência contra a mulher, nos atos e na linguagem, o Brasil ainda está anos-luz atrás do que já se conseguiu nos Estados Unidos. No Brasil ainda se faz, por exemplo, humor dizendo coisas como hoje as meninas querem dar para o crioulinho que elas acham bacana, coisa da qual, nos EUA, ninguém acharia graça. No Brasil, quando as "meninas" ou o "crioulinho" se ofendem, em geral escutam que são culpados de "patrulha". Seria bom se os que querem sempre imitar os EUA no "livre mercado" e na "cultura capitalista" tentassem imitá-los também no terreno da consciência sobre os efeitos dos discursos racistas ou sexistas.
Apesar de que pessoalmente acho que nenhum discurso deve ser objeto de censura (sou a favor, por exemplo, de que grupos nazistas tenham liberdade de expressão, pois proibi-los só alimenta a mística do martírio da qual eles se nutrem), acho que os que reclamam de "patrulhamento" contra suas bobagens sexistas ou racistas são, pura e simplesmente, uns hipócritas.
Estupro e discurso sexista são coisas bem diferentes, mas assim como na delegacia onde a duras penas uma vítima tenta relatar um crime, também na violência "meramente" discursiva com freqüência opera-se uma inversão. Assim como o estuprador em geral foi "provocado", o agressor lingüístico em geral se adianta para apresentar-se como o "patrulhado".
Neste, como em outros casos, não custa ouvir a vítima real.
Sobre assuntos relacionados às mulheres, sua saúde e a violência contra elas, o Biscoito já escreveu aqui e aqui. Sobre o uso de tortura sexual contra mulheres nos porões de regimes autoritários ou democráticos, pode-se ler o primeiro capítulo desse livrinho meu.
Este post é parte de uma blogagem coletiva. A lista de blogs participantes está lá no Síndrome de Estocolmo.
Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post
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quarta-feira, 28 de setembro 2005
Todo apoio ao projeto de descriminalização do aborto

Hoje é o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, e este blog participa da iniciativa do Nós na Rede de fomentar a discussão sobre o tema.
Foi entregue ontem à Câmara dos Deputados o projeto de lei que descriminaliza o aborto nas 12 primeiras semanas e em qualquer idade gestacional quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má formação fetal incompatível com a vida. Ele será incorporado ao projeto de lei 1.135, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
Neste momento, é muito importante que a sociedade brasileira, e especialmente as pessoas de formação religiosa, entendam: realizam-se no Brasil aproximadamente 1 milhão de abortos clandestinos por ano. A maioria deles ocorrem em condições precárias e perigosas. A existência dessa indústria clandestina do aborto só favorece ainda mais o apartheid social brasileiro: quem tem dinheiro, paga por um aborto seguro que, como bem diz o advogado Túlio Viana, é um crime pelo qual ninguém vai preso. Quem não pode pagar, a vasta maioria, arrisca a vida em clínicas de fundo de quintal com agulhas de crochê.
Se você é católico e é a favor de que se mantenha essa vergonhosa criminalização de uma cirurgia porque "a Bíblia manda", releia a Bíblia: como sabem os que conhecem a história da Igreja, e como já demonstraram as Católicas pelo Direito de Decidir, só na segunda metade do século XIX a Igreja começa estabelecer essa absurda identificação entre feto e ser humano. Se um feto fosse uma vida, obviamente ele não precisaria de um outro corpo durante nove meses. O corpo da mulher deve ser de única responsabilidade da mulher, o papel do estado sendo unicamente o de dar condições dignas e adequadas para que cada mulher cuide dele.
O aborto é uma questão de saúde pública, não uma questão moral. Ser contra o direito ao aborto com julgamentos morais sobre a mulher que engravidou é de uma hipocrisia e/ou ignorância sem tamanho: engravida-se por mil motivos, e se a ciência já nos forneceu condições de interromper a gravidez indesejada de forma higiênica e segura, por que trazer ao mundo mais seres humanos que não terão como serem cuidados?
Defender o direito à vida é defender que todo ser humano que venha ao mundo tenha condições dignas de sobreviver. Pró-vida somos nós, que defendemos o direito de que as mulheres tenham acesso aos meios necessários para que seus filhos usufruam da vida em toda sua beleza.
Por isso, há que se entender: ninguém, nem a feminista mais radical, é "a favor do aborto". Não existe isso, ser a "favor do aborto". Quem já conversou e conviveu com uma mulher que abortou sabe: trata-se sempre de uma decisão dura e difícil para a mulher. Insistimos no direito ao aborto que - combinado com mais educação sexual e mais acesso a métodos contraceptivos e planejamento familiar - produziria, inclusive, uma redução no número de abortos efetivamente realizados.
O que não podemos aceitar é que a criminalização, por motivos religiosos, de um procedimento cirúrgico continue colocando em risco a vida de tantas mulheres ou, por outro lado, continue forçando-as a trazer ao mundo crianças que engrossarão as fileiras da marginalidade.
Por isso, neste 28 de setembro, o Biscoito convida seus leitores a que se informem: visitemos o Dossiê Aborto Inseguro, não imaginemos que podemos fazer juízos morais sobre a mulher que aborta e sobre as razões que a levam a abortar e, acima de tudo, entendamos que é hipocrisia ignorar que os abortos clandestinos continuarão ocorrendo caso essa estúpida criminalização se perpetue. Mais mulheres morrerão ou se mutilarão com agulhas de crochê.
Feto é feto, ser humano é ser humano. E temos milhões de seres humanos aqui no Brasil, vivendo em condições precárias. É importante cuidar deles. Inclusive para que esses seres humanos não sejam, depois, vítimas fáceis da criminalidade, da marginalidade ou da pedofilia.
Neste 28 de setembro, pense nisso. Converse com um profissional da saúde. Converse com uma mulher que já passou pela cirurgia. Não se lance a julgar moralmente a mulher que engravidou. Pense nas mil e uma circunstâncias que podem produzir uma gravidez indesejada. Pense no custo de se trazer ao mundo uma criança não desejada pelos pais. Visite os blogs que participam da iniciativa do Nós na Rede. E deixe sua opinião aqui no Biscoito.
Escrito por Idelber às 01:14 | link para este post
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sábado, 07 de maio 2005
Sobre Gênero e Polêmicas
Aconteceram três coisas interessantes sobre as quais eu adoraria papear com quem quisesse discutir, desde que a gente mantivesse a discussão em termos anônimos, porque realmente o que importa é a substância e não os sujeitos. Uma coincidência curiosa ocorreu neste fim de semana em todos os três listserves dos que eu participo.
O que é um listserve? É uma lista de email envolvendo gente que pensa de uma certa maneira. Quando emplaca, é uma arma potente. Quando não emplaca, não emplaca. Nunca se sabe se um listserve vai emplacar ou não, por isso é bom estar lá, disposto.
Eu participo de três listserves: um em pindorâmico, de blogueiros de esquerda, um em castelhano, sobre estudos culturais, outro em inglês, sobre política. Por uma incrível coincidência, todos estes listserves cairam em simultâneas polêmicas.
Por incrivel coincidência, todas as três polêmicas envolviam um homem e uma mulher.
Por mais insólita coincidência, tratavam-se de homens que admiro muito por sua inteligência.
Por mais singular ainda coincidência, eu observei a polêmica desenrolar-se estatelado quanto ao que na minha opinião era uma sucessão de grosserias cometidas pelos homens contra as mulheres. Eu escolhi não me manifestar, em parte por falta de tempo e saco, mas ao longo das três polêmicas, reforçou-se minha convicção de que a cegueira masculina é infinita. Nos três casos chamou-me a atenção que vira e mexe, quando há uma polêmica, os homens insistam em tratar os argumentos apresentados pelas mulheres ironicamente, mesmo quando estejam "dialogando" com eles. Por uma incrível coincidência, em todas as três polêmicas a coisa ultrapassou os níveis do suportável no momento que os homens começaram a apresentar suas credenciais. Todas as três discussões encerraram-se - pelo que me parece - no mesmo momento de apresentação das credenciais masculinas.
Pode ser que seja impressão minha. Pode ser que eu esteja viajando. Mas a minha aposta é que ainda falta muito para que a homaiada aprenda a escutar. São três polêmicas que funcionaram como material de observação: nos três casos eu era completamente indiferente à substância mesma do argumento, mas nos três casos tive a sensação de que a escuta masculina ainda está bastante atrofiada. Há uma simetria e um respeito básico na discussão que ainda está por se conquistar. Talvez seja impressão minha.
Escrito por Idelber às 03:33 | link para este post
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sábado, 23 de abril 2005
O que é uma mulher moderna?
Renata Maneschy, do Kit Básico da Mulher Moderna pediu a vários blogueiros uma definição de "mulher moderna". Publicou-se hoje lá no Kit a minha contribuição. O texto começa assim:
A mulher moderna sabe que a queima dos sutiãs foi necessária para libertar os biquinis e os baby-dolls, mesmo os mais cafonas. A mulher moderna sabe que sem Jane Fonda não há Madonna, sem Leila Diniz não há Xuxa.
"Mulher moderna" é aquela que vota, se divorcia, aborta legalmente (em certos países), concorre a cargos públicos, troca de profissão aos 35, refaz a vida afetiva aos 40. Por que não?
A mulher moderna aprende a lidar com a agressividade gerada no macho pelas suas conquistas. Ao mesmo tempo, aprende a lidar com as lambisgóias de 22 que já sabem usar pílula e roubar marido.
Continue a ler o meu "Mulher Moderna e o Feminino Eterno", blogado a convite do Kit Básico da Mulher Moderna.
Escrito por Idelber às 01:08 | link para este post
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sábado, 02 de abril 2005
Sobre escolher alguém por ser mulher
Eu prometi à Juliana e a outras leitoras que eu faria uma reflexão sobre porque, para mim, os blogs estão associados à constituição de uma voz feminina. No geral as mulheres têm mais talento, competência e abertura para falar da intimidade publicamente do que os homens. Isso não quer dizer, claro, que blog seja sinônimo de intimidade, mas a forma blog potencialmente abre essa janela para o íntimo.
Este ainda não é o post sobre voz feminina, mas é um prólogo a ele. É a primeira de duas historinhas que têm a ver com a questão da mulher: a história de quando eu precisei de uma advogada e a história de quando eu precisei de uma analista.
Hoje eu conto a primeira.
Eu uso as formas no feminino porque a única coisa que eu sabia sobre a advogada que eu escolheria é que seria uma mulher . A única coisa que eu sabia sobre a analista que eu escolheria (além de que seria uma freudiana) é que seria mulher. Por quê? Não sei, foram instintos que, diga-se de passagem, estavam corretos nas duas oportunidades.
Eu precisei de uma advogada em 1999, pela razão mais absurda. Eu já era professor titular em Tulane (que havia acabado de me contratar da Universidade de Illinois) e a documentação da minha residência permanente nos EUA se embananou de uma forma kafkiana.
Como Illinois havia tramitado os papéis por mim, o green card foi aprovado e enviado a minha residência no estado de Illinois, exatamente uma semana depois de que eu havia me mudado para New Orleans. O documento bateu na caixa de correios e, claro, voltou para o serviço de imigração, para quem eu havia deixado de residir em Illinois – e portanto deixado de ser dono daquele green card recebido por ser funcionário da universidade do estado. Começou aí uma história digna de uma peça do teatro do absurdo.
Lógico que isso aconteceu quando eu já estava em New Orleans, ou seja, não fiquei sabendo de nada. Eu, que já havia me acostumado a carimbar o passaporte para sair dos EUA enquanto esperava o trâmite do green card, caí no jazz e só fui pensar no assunto nas vésperas da viagem dezembrina anual ao Brasil, quando me encaminhei ao serviço de imigração para receber o bendito carimbo e fui informado de que eles haviam aberto um notice to appear in removal proceedings contra mim.
Enfim, eu era residente do país há dez anos, professor titular de uma universidade de elite, mas estava ameaçado de deportação! Claro que “removal” era nome de um processo que tinha sua origem num mal-entendido. Era simplesmente provar que eu continuava fazendo, em Tulane, exatamente o mesmo trabalho que eu fazia em Illinois, e pelo qual eu havia recebido o green card.
Mas vá você tentar explicar um mal-entendido a uma estrutura burocrática kafkiana. É daquelas situações que você olha e diz: sem advogado não dá.
O primeiro com o qual me topei foi um tipo com cara de texano, bigodón, cinturão de fivela prata, calça jeans puída, falando com um tom de quem me explicava como funciona a lei numa verdadeira democracia. O segundo foi um gordo, de terno e gravata puídos, maletinha e obsessão com o Vietnã. Nenhum deles me olhou nos olhos. Enquanto eu ouvia os caras, tive ânsias de vômito. Se você vai pedir a alguém que lhe represente, melhor que não seja uma pessoa que lhe provoque vômitos, não é?
Pensei na hora: quero uma mulher. Por quê? Não sei, mas como eu não tinha outros elementos para avaliar, eu achei: "para confiar a uma pessoa parte tão importante da minha intimidade como o direito de continuar trabalhando no lugar onde trabalho há dez anos, eu vou preferir que seja uma mulher". Foi aí que conheci Cat.
No primeiro encontro, ela me olhou nos olhos. Ponto para ela. Explicou-me o azar que havia acontecido comigo, ponderou que não havia razão para pânico, que eu era residente permanente do país e que se havia alguma coisa errada, quem tinha que provar isso eram eles. Ela garantia que conseguiria as carimbadas temporárias no passaporte para que eu pudesse continuar viajando. Tudo bem dito, sem embromação. Só depois conheci o trabalho maravilhoso de assistência a trabalhadores imigrantes pobres, refugiados (e muito especialmente refugiadas) que desenvolve a Cat aqui em New Orleans. Ela jamais fez propaganda desse trabalho.
O processo ainda se arrastou por três anos antes de resolver-se, mas em nenhum momento tive problemas para viajar ou duvidei que fosse dar certo. Várias vezes, no entanto, eu precisei de que ela me assegurasse de que tudo estava bem (depois, claro, eu morria de culpa de estar tomando tempo de alguma etíope refugiada de imolação tribal). Receber essa garantia dela era coisa bastante diferente que recebê-la de qualquer outro advogado gringo que eu tenha conhecido na vida. Tratava-de alguém que olha nos olhos. Continuamos, hoje, amigos, eu e Cat.
Comente o que quiser, da história ou de outra coisa, mas eu tenho uma curiosidade: vezes em que você escolheu uma profissional por ser mulher? Ou você é dos que acham que isso é sempre bobagem?
Escrito por Idelber às 02:55 | link para este post
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terça-feira, 22 de março 2005
Linkar também é cultura - Women's Day
Nos arquivos de Marina W – pioneira da blogosfera, é bom avisar, já que quem acaba de chegar muitas vezes não sabe – descubro que depois do 11 de setembro tanto Madonna como Woody Allen deram respostas lúcidas, tranqüilas. Parece que foi há um século e o pesadelo político só piora. Gosto de passear pelo blog de Marina W: sucinto, pungente. Foi via Marina W que cheguei nesta singeleza.
No post de 19 de março do Kit Básico da Mulher Moderna, a autópsia feminina de três figuras: o marido indiferente, a esposa frustrada, o confidente masculino internético “compreensivo”, cuja “compreensão”, claro, é só um trampolim para que ele se sinta virtuoso consigo mesmo. Eu sempre gostei de literatura erótica e sabia, quando comecei a blogar, que encontraria blogs de contística erótica. Não sabia que eles iriam ser desta qualidade.
Para quem ainda acha que Aécio Neves é um bom mocinho, a Dra. Cynthia
Semíramis tem treze links. Dra. Cynthia é, sabe-se, pesquisadora de questões relativas ao direito e à internet, e é co-autora do Manual de sobrevivência na selva de bits.
Lucia do Frankamente conta a história da sua relação com o desejo de lombada. Não resisti e, na caixa de comentários, contei a história de Adolfo Couve, grande escritor chileno que se suicidou no dia da posse de Pinochet no Senado. Couve teve seu último romance rejeitado por “falta de lombada” – só tinha 13 páginas (treze, acredita, Sheila?).
A respeito do valor da mobilização na política Monicomio colocou tantas questões que eu não teria como responder sem fazer outro longo post. Digamos que, em minha opinião, a pergunta de Mônica sobre qual é *essa tal mobilização para se cobrar do governo *deixa bem a desnudo os limites do que pode realizar agora, no Brasil, uma estratégia de bem-comportado "cobrador" do governo. Com a palavra, os defensores de tal estratégia. Sobre o voto nulo, a contribuição impagável foi a de Lucia Malla, com a história dos mosquitos de Vila Velha.
Definição feminina implacável: festa é o que acontece entre horas no espelho e aliviar os pés do sapato apertado. Roubei de Ticcia e Rô. Boa como essa, só a definição de casamento de Lucia Villa Real: Casamento é igual piscina gelada. Depois que o primeiro tonto entra, ele fica gritando para os outros: ‘pula que a água está boa!”
Na área de reflexão acadêmica brasileira sobre os blogs, são as mulheres que realizam a maioria dos trabalhos pioneiros: Suzana sobre o potencial educacional dos blogs, Elisa sobre a etnografia, digamos, dos blogs, a Isabel sobre as relações afetivas na net.
Ah! Conheça o trabalho de outras pioneiras da blogosfera nacional aqui, aqui e aqui também, viu? Pronto. Fiz o post que queria fazer em homenagem a *algumas dessas blogueiras e seus blogs maravilhosos. E pensar que, quando comecei, considerei a possibilidade de fazer o blog em inglês. Onde eu andava com a cabeça?
Contagem regressiva para o pontocom: SEIS
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Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post
terça-feira, 08 de março 2005
É 8 de Março no meu iPod
Sou ruim com homenagens, mesmo nas datas que curto, como 20 de novembro, 8 de março e 2 de julho. Ao invés de fazer outro post incendiário em defesa do direito ao aborto – que poderia até provocar a aparição de alguém aqui falando do direito à vida nos fetos, o que nos exigiria, leitores, aquela chata operação de explicar tudo de novo – resolvi celebrar este 8 de março
compondo uma playlist de vocal feminino no meu ipod!
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Um iPod? O meu tem 4.300 canções, das quais 711 entraram nessa playlist. A maquininha me informa que as mulheres que emplacam mais de 10 canções no meu iPod são: Clara Nunes (primeiríssima em número de canções e de execuções), Billie Holiday, Dinah Washington, Maria Bethânia (outra que coleciono meticuloso), Elizeth Cardoso, Cassia Eller, Carmen Miranda, Zizi Possi, Laurie Anderson, Joyce, Aretha Franklin, Elis Regina, Elba Ramalho, Ella Fitzgerald, Nana Caymmi, PJ Harvey, Cesária Evora, Celia Cruz, Beth Carvalho, Clementina de Jesus, Marisa Monte, Gal Costa, Leci Brandão, Dona Ivone Lara, Rita Lee, Sarah Vaughan, Nara Leão, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Maria Rita, Angela Rô Rô, Zélia Duncan, Cida Moreira, Daúde, Rosa Passos, Vanessa da Mata, Leny Andrade, Anita O’Day e Emilinha Borba.
À meninada jovem que lê o Biscoito: se algum destes nomes acima não lhe soa familiar, pare de ler blogs, gugle os nomes, procure os discos e vá ouvir. Ou abra outra janela e tente baixar. Mas não deixe de ouvir.
A estas mulheres maravilhosas, metonímias de todas as outras, meus parabéns e gratidão, esta última extendida ao botãozinho shuffle do iPod: já estou saboreando o gozo de passar, aleatoriamente, de Quelé a Billy sabendo que próxima voz também será feminina.
PS: Enquanto isso, a homenagem do nosso presidente foi um ato falho
bem típico dele: pediu às mulheres que fossem "devagar com essa pressa
de poder" e não fossem "desaforadas". Lula sempre foi extremamente conservador em matérias de política familiar e nunca foi campeão de defesa dos direitos das mulheres. Mas nunca as havia insultado num 8 de março. É triste.
Trilha sonora no momento do posting: 'Papel Reclame', Clementina de
Jesus. Saravá, 8 de março.
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Escrito por Idelber às 17:24 | link para este post
segunda-feira, 15 de novembro 2004
Vozes machas e fêmeas
A pessoa do autor não coincide nunca, claro, com a voz que fala em seu
texto. Por outro lado, a não coincidência entre o gênero da pessoa e o gênero da voz textual não implica, necessariamente, que a voz masculina de uma autora ou a voz feminina de um autor sejam mais ou menos “autênticos” ou “inautênticos” de antemão.
Tudo depende.
A maioria das mulheres concorda que Chico Buarque cria uma voz de mulher extraordinariamente convincente em canções como Ana de Amsterdam ou Olhos nos Olhos.
Lygia Fagundes Telles tinha uma boa história sobre um corno. Resolveu
armar o relato em primeira pessoa, na voz de um homem. O problema é que o narrador protagonista diz coisas só verossímeis ou imagináveis na boca de mulheres, não de homens. O conto não convence o leitor masculino mais exigente (hehehehe). Mas a história é boa e se chama O Moço do Saxofone.
Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post