segunda-feira, 14 de abril 2008
Adeus a uma revista fundamental
Deu adeus na semana passada uma das revistas culturais e políticas mais importantes da América Latina. No Brasil, para variar, nem notícia. Depois de 30 anos, 90 números e um papel central em todos os principais debates intelectuais da Argentina, Punto de Vista pendurou as chuteiras. Para mim, pessoalmente, o adeus tem um gostinho de tristeza e melancolia. Se eu tivesse que fazer uma relação das revistas mais formativas da minha vida, Punto de Vista estaria em primeiro lugar. Se eu fosse listar as 10 pessoas que mais admiro no planeta, a diretora da publicação, Beatriz Sarlo, certamente estaria entre elas.
Punto de Vista foi fundada por Beatriz junto com Ricardo Piglia, Carlos Altamirano e Elías Semán em 1978, no auge do horror da ditadura argentina. Depois se somariam intelectuais do porte de Hilda Sábato, Maria Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti. Em condições de total pesadelo político – no qual uma intelectual com passagem pelo maoísmo, como Beatriz, certamente corria perigo permanente –, Punto de Vista foi se constituindo em um dos poucos espaços onde era possível fazer crítica literária, cultural e política com alguma independência. A revista foi responsável pela introdução de nomes como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina. Nela se publicaram as primeiras leituras sérias da rica literatura contemporânea do país. Ali se chamou a atenção pela primeira vez, por exemplo, para a obra de Juan José Saer, que vinha sendo escrita desde os anos 60 e lida somente por um pequeno grupo de iniciados. Com a chegada da democracia, a revista teve que aprender a fazer tudo de novo, nas palavras de Beatriz. Reciclou-se brilhantemente. Ali se publicaram algumas das melhores reflexões sobre as Mães da Praça de Maio, os julgamentos dos militares, o novo cinema do país, os monumentos aos desaparecidos.
Desde a ditadura, Beatriz tem as portas abertas das melhores universidades americanas e inglesas, à sua disposição. Optou por ficar na Argentina. Jamais alardeou essa escolha. Nunca se encerrou na torre de marfim da academia. Em cada um dos momentos chave da história do seu país, posicionou-se clara, inequivocamente. Fez auto-críticas, revisou posições. Não tem absolutamente nenhum medo de errar. Sofre ataques horrendos, mas debate sempre com lealdade, atirando nas idéias, nunca nas pessoas. É impossível concordar com ela todo o tempo. Sobre a conjuntura argentina atual, por exemplo, minha visão está mais próxima à de Martín Kohan que à sua. Mas não consigo pensar num intelectual contemporâneo pelo qual eu tenha mais respeito.
Na despedida, Beatriz declarou: Cuando se dirige una revista el alerta es constante frente al acostumbramiento (que es mortal) o la incapacidad para conocer su actualidad (una revista vive en tiempo presente). Sólo cuando es un instrumento imprescindible para quienes la hacen, sale bien .... Algo ha comenzado a fallar y es mejor reconocerlo ahora, cuando no se ven consecuencias, que en un capítulo decadente. Una revista que ha estado viva treinta años no merece sobrevivirse como condescendiente homenaje a su propia inercia. Por eso el número 90 es el último.
Em 2003, publicou-se um CD-ROM com os primeiros 75 números da revista. Apesar de que Punto de Vista jamais quis ser uma publicação massiva, o CD-ROM esgotou três edições. Há uma quarta edição ainda à venda. No mesmo ano de 2003, eu tive a honra de publicar um artigo lá. Se você nunca leu a revista, dê uma conferida no índice de alguns números e no resumo de alguns artigos. Acredite, leitor: se você quiser dar um presente à sua inteligência – seja qual for a sua área de interesse –, invista 30 dólares nessa coleção. É coisa para a vida inteira.
No meu panteão pessoal, o adeus de Punto de Vista só se compara ao fim do Velvet Underground e à morte de Telê Santana. Nada mais chega perto.
PS: Homenagens também lá no Linkillo e no Tomás Hotel.
PS 2: É possível que Jimmy Carter e Al Gore dêem o empurraõzinho que falta para terminar a primária democrata.
Escrito por Idelber às 06:03 | link para este post
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segunda-feira, 31 de março 2008
BRASA, nono congresso: Um balanço
Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.
Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.
Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.
Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.
Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.
A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.
A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.
No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e saculejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.
O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.
PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.
PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.
PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).
PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.
Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post
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terça-feira, 18 de março 2008
BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março
Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.
Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.
Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.
Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.
Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.
Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.
Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.
Bem vindos, pois.
Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.
Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post
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quinta-feira, 06 de março 2008
Um aniversário
É inacreditável, mas para toda a imprensa esportiva, canais de televisão ou jornais, passou completamente batido o aniversário de 30 anos da data que, depois do 16 de julho, é a mais trágica da história do futebol brasileiro. Há exatos trinta anos, no dia 05 de março de 1978, o futebol morria mais um pouco. Prefigurada, ali, em todo o drama, a derrota do Sarriá.
Nascia esse ser tão estranho, tão brasileiro: o vice-campeão invicto. Para quem quiser rever os momentos finais da agonia, ei-los aqui. Foram bravos e inesquecíveis, aqueles vice-campeões.
Eu estava lá.
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Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post
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sexta-feira, 29 de fevereiro 2008
Convites e jabás

Convite aos paulistas: Se você é paulistano e se interessa por música popular – especialmente por Chico Science e o Mangue Beat – há um programa imperdível neste sábado. É o lançamento de Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, do meu amigo Herom Vargas. Acontece na Livraria da Vila -- Lorena (Al. Lorena, 1731) a partir das 19 horas. Já terminei de ler e recomendo o livro com toda ênfase. É uma versão da tese de doutorado do Herom, defendida na PUC-SP. Apesar de sua origem, o livro não tem qualquer ranço que atrapalhe o desfrute do leitor não-acadêmico. É um passeio elegante pela noção de hibridismo musical, com histórias saborosas sobre as origens da cena contemporânea de música popular do Recife, que este blog considera a mais rica do Brasil. Daí, Herom passa a oferecer análises originais das canções de Chico Science e Nação Zumbi e de sua inserção na história da música brasileira contemporânea. O início do livro nos traz de volta àquela comovente cena, de Ariano Suassuna – inimigo número 1 do mangue beat – chorando, inconsolável, no enterro de Chico. Livraço. Não perca. Se for ao lançamento, procure o Herom por lá e diga que chegou via Biscoito.
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Convite aos mineiros: Minha amiga Maria Esther Maciel lança seu novo romance, O Livro dos Nomes, pela Companhia das Letras, em Belo Horizonte. O lançamento acontece no dia 04 de março, terça-feira que vem, a partir das 18 horas, na Biblioteca Pública Luiz de Bessa (ali na Praça da Liberdade). Se você acha que eu sou produtivo, é porque não conhece Esther – sem dúvida, uma das principais ensaístas brasileiras contemporâneas, além de reconhecida poeta e romancista. O Biscoito já resenhou um romance anterior de Esther, O Livro de Zenóbia. Este, eu não li ainda mas, sendo de Esther, é coisa fina. Se você está na Alterosas, compareça. Dá tempo de tomar um vinho com ela e voltar para o computador para acompanhar a cobertura das primárias americanas aqui no Biscoito.
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Agora, o auto-jabá: Saíram alguns livros com artigos meus. Deixo o anúncio para quem se interessar. O MLA (Modern Language Association) tem uma série muito útil para professores de literatura, não só universitários, mas de nível secundário também. É o “Approaches to Teaching....”, que reúne artigos destinados a auxiliar o trabalho docente com obras já consagradas. Saiu o Approaches to Teaching the Kiss of the Spider Woman. Se você mora nos EUA (ou não mora, mas lê inglês) e se interessa pela obra prima de Puig, dê uma conferida nesse volume. O meu artigo traz algumas dicas para o trabalho pedagógico com o romance de Puig e o filme de Babenco.
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Saiu o The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, com artigo meu sobre blogs e cidadania, que traz citações a vários blogueiros brasileiros. Não, não posso postar o texto aqui, infelizmente. Tudo o que escrevo para o blog é Creative Commons: copie à vontade, citando a fonte. O que entrego a uma editora ainda está sujeito àquela ultrapassada lei do mundo gutemberguiano, o copyright (não é, meu caro Sergio?).
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Recebi o Boca de lobo, de Sergio Chejfec, lançado no Brasil em tradução de Marcelo Barbão, já conhecido dos leitores deste blog por ter traduzido Duas vezes junho, de Martín Kohan. A versão em português do Boca de lobo, como já de costume para Barbão, é impecável. O prólogo do livro é deste atleticano blogueiro.
PS: A querida Marina W pede para avisar que está de endereço novo. Vai lá.
Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post
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segunda-feira, 18 de fevereiro 2008
Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino
Publicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.
Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.
A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.
Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.
Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!
Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.
PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.
Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post
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quarta-feira, 30 de janeiro 2008
Preparando o papo sobre Suassuna
Aqui em Tulane, os doutorandos em literatura latino-americana andam mergulhados no mundo armorial. Tive uma grande surpresa na primeira aula sobre a Pedra do Reino, na quinta-feira passada. Ninguém achou a obra de Ariano Suassuna enfadonha ou longa demais. Passamos boa parte das duas horas e meia do seminário dando risadas com esse incrível delírio monárquico, revolucionário, sertanejo e medieval. Se você está em dúvida sobre se participa ou não do nosso papo sobre o romance no dia 18 de fevereiro, acredite: a obra vale a pena. Ainda dá tempo de começar a ler.
Há tanto material no romance de Suassuna que pensei em deixar também algumas possíveis pautas de leitura para orientar a conversa.
1.Sei que tenho alguns leitores em João Pessoa e em Campina Grande. Não me consta que tenha nenhum na fronteira sertaneja entre a Paraíba e Pernambuco. Mas quem sabe não operamos o milagre de ter algum depoimento sobre a região em que transcorre a história? Isso não é essencial para a compreensão do livro, óbvio. Mas seria divertido, mesmo porque, até onde pude averiguar, as referências são rigorosas e exatas. Portanto, paraibanos, apresentem-se!
2.Também são impecáveis, até onde confirmei, as referências intertextuais presentes na obra. São dezenas de citações de livros, revistas, folhetos, artigos. Por exemplo, realmente existiu um tal Antônio Attico de Souza e Leite, que deveras escreveu uma Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Vila Bela, Província de Pernambuco, em 1874, tal como referida no Folheto V, no começo do livro. Qualquer leitor que queira nos ajudar a rastrear parte dessa imensidão de referências terá a gratidão eterna do blog (e de futuras gerações de vestibulandos...).
3.Um dos eixos do livro é a persistência de uma cultura monárquica, messiânica e pré-moderna no sertão brasileiro. Quem quiser rastrear algo dessa história para a discussão também contribuirá muito.
4.A mescla de gêneros é um elemento chave da obra, como se nota na presença de uma série de “romances” em redondilhas maiores (versos de sete sílabas), forma tradicional na poesia popular, mas não só nela. Para quem se interessa pelo problema dos gêneros, o livro é um prato cheio. Poesia, teatro, epopéia, farsa, comédia, romance de cavalaria e uma longa lista de etecéteras: há de tudo.
5.O narrador-protagonista conta a história em 1938, da prisão, e seu relato regressa até o século XIX. O pano de fundo imediato dos eventos vividos por ele é a Revolução de 1930. Quem conhece bem a história do governo de João Pessoa terá muito a contribuir.
6. Eu vi a minisérie da Globo e, apesar de achá-la bem feita, não consegui me interessar muito. O humor foi para as cucuias, não é? Mas quem quiser trazê-la à baila, que fique à vontade.
Claro que é possível desfrutar o livro sem se preocupar com nada disso. Estas são só algumas idéias para ir esquentando os tamborins. Enquanto você se prepara, delicie-se com esse incrível vídeo de Ariano Suassuna (valeu, Serbão) e dê uma conferida nessa entrevista com ele, de onde tirei a foto que ilustra o post.
E aí, como vai a leitura? Temos sobreviventes?
Escrito por Idelber às 04:20 | link para este post
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segunda-feira, 14 de janeiro 2008
Clube de Leituras: Ariano Suassuna
O Clube de Leituras tem sido uma ocasião para que eu mesmo revisite certos preconceitos. Foi assim com Jorge Amado, autor pelo qual eu nunca havia nutrido muita simpatia e que passei a reler com outros olhos. Aproveitando o fato de que estou dando um seminário de pós-graduação sobre sagas brasileiras, decidi mergulhar agora na obra do paraibano Ariano Suassuna, dramaturgo e ficcionista de quem sempre tive incrível birra, movida pelo meu rechaço à sua concepção purista da cultura brasileira e especialmente por um dos erros aos que essa concepção o levou – a militância contra Chico Science e o Mangue Beat.
Mas a leitura dos primeiros capítulos do Romance d' a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta já estão reiterando para mim, mais uma vez, aquela velha lição. A literatura tem razões que a ideologia desconhece. Lançada em 1971, esta saga-epopéia ocupa um lugar curioso na literatura brasileira. Acumulou uma certa aura de prestígio e erudição e é vista com reverência em várias comarcas. Continua, no entanto, pouco estudada. Um hipotético historiador ou crítico muito provavelmente não pensaria na obra de Suassuna ao ser perguntado sobre a ficção brasileira do período. Mesmo um estudo panorâmico como Literatura e vida literária, de Flora Süssekind, que passeia por mais de quarenta obras publicadas durante a ditadura, sequer menciona o romanção de Suassuna.
Pois bem, ao longo das próximas quatro semanas eu e meus alunos vamos encarar o calhamaço. Deixo aqui o convite para que você também leia a obra e se junte a nós na discussão. O prazo é razoável: o papo sobre o livro está marcado para segunda-feira, dia 18 de fevereiro, aqui no blog.
Alguém aí se habilita? Ou seremos só eu e meus alunos mesmo? Quem vai encarar?
PS: Meu amigo Leandro Oliveira escreveu um post argumentando que o cenário da discussão literária visto em 2007 na internet difere muito pouco dos outros anos: agressividade e falta de educação nas caixas de comentários, pessoas tentando provar que leram e sabem mais que qualquer outro e nenhuma questão relevante sendo abordada (grifos meus). Deixo nossas discussões sobre Borges (1, 2, 3), Jorge Amado (1,2), Martín Kohan (1,2) e Guimarães Rosa (1,2,3) como subsídios para uma futura revisão, oxalá mais matizada, dessa percepção.
PS 2: Já que de discordar de amigos se trata: meu querido Sergio Leo anda entusiasmado com a Wikipedia enquanto eu preparo, ainda para esta semana, um post intitulado “Por que eu não recomendo a Wikipedia de jeito nenhum”.
PS 3: Se você entende inglês, não deixe de ler a matéria notável feita pelo New York Times sobre os assassinatos cometidos pelos veteranos que voltam do Iraque.
PS 4: O post já está lá embaixo, mas continua o papo sobre o livro de Risério e a questão racial no Brasil (com participações muito especiais de minhas amigas Helê e Monix).
Escrito por Idelber às 04:40 | link para este post
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quinta-feira, 10 de janeiro 2008
Aniversários
2008 marca vários aniversários importantes e alguns deles serão lembrados durante todo o ano aqui no blog. Apertem os cintos:
No dia 25 de março o Glorioso primeiro campeão brasileiro completa 100 anos de existência. Foi ali no Parque Municipal, esquina de Afonso Pena com Bahia -- a dois quarteirões de onde Drummond, Pedro Nava, Abgar Renault e cia. aprontariam das suas uns poucos anos depois – que 19 benditos moleques resolveram matar aulas, sem saber que estavam inventando a maior paixão do povo de Minas. A idéia é, ao longo do ano, pesquisar e conhecer um pouco mais da história do único de clube de futebol do planeta a ter derrotado a Seleção de Pelé.
Começo com uma perguntinha de Trivia Games: alguém aí sabe quem é o autor do primeiro gol da história do Clube Atlético Mineiro? Os que conhecem um pouquinho de literatura brasiliera se assustarão com a resposta. Guglem aí que depois eu completo. A dica para acompanhar o dia-a-dia do Atlético é Galo é amor.
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No dia 29 de setembro comemora-se outro centenário, o da morte de Machado de Assis. Depois do incrível mico que foi a “biografia” de Daniel Piza – onde José Bonifácio vira português, o violento entrudo se transforma em festa de salão e Bentinho é rebatizado assassino, entre outras inacreditáveis gafes – o ano promete uma série de publicações e eventos de qualidade, por gente que estuda o assunto antes de escrever. O epistolário será editado por Sergio Paulo Rouanet; Ubiratan Machado coordena a edição de um dicionário para a Academia Brasileira de Letras; a Casa de Machado também organiza uma série de palestras aí no Rio, a partir de abril; a famosa Obra Completa em 3 volumes, da Aguilar, recebe segunda edição, bem mais fornida (por incrível que pareça, ainda não há uma edição verdadeiramente completa das obras de Machado); em julho a Globo lança a minisérie “Capitu”; a Record prepara uma recriação de 12 contos de Machado com autores contemporâneos (fonte). Ótimo momento, pois, para mergulhar em Machado.
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Em 2008 também se completam 60 anos do Nakba, palavra árabe que significa “catástrofe” e que é usada pelo povo palestino para designar o processo de expulsão e confisco sofrido por eles para a implantação do estado de Israel. A expulsão de 800.000 habitantes e a destruição de 531 vilas palestinas em menos de seis meses do ano de 1948 é história pouquíssimo conhecida, e freqüentemente soterrada sob uma série de mitos. Depois de vir à luz uma copiosa documentação desse evento, com o livro The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador Illan Pappe, já não há desculpas para ignorá-la. Ao longo do ano, o blog publicará parte dessa documentação aqui.
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Finalmente, no dia das bruxas eu completo 40. Espero que até lá o Aldo Rebelo não tenha conseguido transformar o 31 de outubro em dia nacional do Saci Pererê. 43 dias depois, claro, nosso querido AI-5 – o golpe dentro do golpe – também vira quarentão. 1968 marcou muito. Será interessante revisitar o seu legado aqui. É isso. Esqueci algum aniversário?
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PS: continua o papo ali embaixo, sobre a questão racial, com um desses leitores que são a razão pela qual vale a pena ter blog.
Atualização: E há o importantíssimo centenário de Simone de Beauvoir, ótimo pretexto para reler a pensadora de O Segundo Sexo (Obrigado, Cynthia).
Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post
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segunda-feira, 17 de dezembro 2007
Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano devem um pedido de desculpas a Beatriz Sarlo
O episódio foi ilustrativo e sórdido. Envolveu ataques e acusações àquela que talvez seja a mais destacada intelectual argentina de hoje e arrastou-se durante mais de um mês nas páginas de um dos principais jornais latino-americanos. Nem assim recebeu uma nota sequer nos Mais!, Ilustradas ou Cadernos B da vida, mais preocupados em traduzir um texto de um ano atrás sobre a Revolução Francesa ou em noticiar o compacto da última banda de adolescentes finlandeses. O fato é que este é o primeiro registro da polêmica em português. Ela é tão instrutiva que outro post será necessário para discutir tudo o que episódio ensina. Neste, me limito a contar a história. Como sempre, incluo os links para que o leitor julgue por si.
Em 2007, se completaram 10 anos da morte do escritor argentino Osvaldo Soriano, um autor de best-sellers populares. O “Gordo” era um bonachão, fã de futebol, que escreveu romances de leitura bem ágil, com freqüência inspirados na tradição policial. Era muito vinculado a um certo imaginário populista que vem do Peronismo. Digamos, para quem não o conhece, que é uma espécie de João Ubaldo tangueiro. Não importa. O fato é que as comemorações do seu aniversário de morte, publicadas pelo Radar, o caderno cultural do Página 12, incluíram um texto de Guillermo Saccomano (escritor de ficção sobre cuja [des]importância eu prefiro me calar) que, ancorado num relato que lhe fizera Osvaldo Bayer (historiador de alguma importância, que escreveu sobre revoltas na Patagônia e sobre as Mães da Praça de Maio), apresentava uma pesada acusação a Beatriz Sarlo, de que a acadêmica portenha havia uma vez convidado Soriano à Universidade de Buenos Aires para que ele fosse “ridicularizado” pelos alunos por “não ter diploma”. Pintaram uma história de ele havia sido humilhado por ela, a acadêmica-malvada-arrogante-que-desprezou-o-pobre-escritor-popular.
Quando li aquilo, sabia que era mentira. No máximo, imaginei que Soriano havia sido levado à UBA para um debate e que algum aluno ou professor houvesse dito algo que o tivesse ofendido. Não sabia de onde vinha a mentira sobre Beatriz Sarlo, se de Bayer, se de Saccomano, se de otro lugar. Mas conheço a obra e o caráter de Beatriz há décadas. Tirando antologias, ela escreveu uns vinte livros. Eu li todos os vinte. Fundou em 1978, na marra e em condições de verdadeiro pesadelo, uma revista que continua sendo uma das principais da América Latina. Dela, li todos quase todos os exemplares de cabo a rabo. Não sou amigo de Beatriz, mas já coincidimos em congressos; eu leio tudo o que ela escreve, ela já leu algum escrito meu e sabe quem eu sou. A isso se limita minha relação com ela.
Na edição seguinte, Beatriz Sarlo responde afirmando que há anos Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano difundem uma mentira sobre ela; que ela jamais convidou Soriano a visitar UBA nenhuma; que jamais levou ninguém à universidade para ser humilhado; que aqueles que a conhecem sabem que ela trabalhou sobre Juan José Saer, sobre Ricardo Piglia, sobre Manuel Puig, mas que nunca se ocupou de – nem atacou -- Soriano. E ponto.
Uma semana depois, no mesmo Radar, as respostas de Bayer e Saccomano são verdadeiros exercícios de lançamento de lama à distância. Em tom de ironia, usam o trabalho de Bayer com as Mães da Praça de Maio para avalizar a verdade da acusação, como se o fato de alguém ter trabalhado com as Mães passasse atestado de veracidade a qualquer coisa que diga. Usam o fato de que Sarlo escreve uma coluna numa revista pop para tentar ridicularizá-la. Comparam a sua negação a uma negativa de um general sobre as torturas. Fazem um desafio a um debate público que é um convite ao linchamento. Insistem em afirmar que Sarlo levou Soriano à universidade para ser ridicularizado. Para piorar, as acusações eram incongruentes: Saccomano dizia que “Sarlo convidou” e Bayer afirmava que “um grupo de docentes e alunos da cátedra Sarlo” convidou.
Na semana seguinte, Beatriz retruca a esse linchamento da única maneira que me parece digna: reiterando que a acusação é falsa, que o convite ao bate-boca público é uma arapuca onde ela não será ouvida e que a polêmica é a palavra dela contra a deles. Nesse momento, o debate, já disseminado no campo intelectual argentino, inspira intervenções de María Moreno, Amparo Rocha Alonso e Germán Ferrari, que discutem outros aspectos que não o que motiva este post.
Mas eis que na semana seguinte, fica provado mais uma vez, caro leitor, que a mentira tem pernas curtas. Aparece a professora que convidou Osvaldo Soriano à UBA. Hinde Pomeraniec, naquele momento docente e agora editora do caderno Mundo do jornal Clarín, relata que em 1991 Soriano havia sido convidado por ela – não por Sarlo – para um ciclo de palestras ao qual outros escritores (Fogwill, Bioy Casares, Aira) também haviam ido. Testemunha que Soriano, nervoso antes do encontro, temia um desastre; que estava tenso e que expressava o temor de que o hostilizassem; que desfilava uma série de ansiedades a respeito da academia. Pomeraniec também lembra-se de que havia reiterado a ele que estava tudo bem, que o clima seria ótimo. Conta com detalhes que Soriano – simpático e habilidoso orador – cativou o público, foi aplaudidíssimo pelas 300 ou 400 pessoas que foram vê-lo, assinou livros e saiu feliz. No entanto, coisa de maluco, logo depois da visita Pomeraniec fica sabendo de uma entrevista em que Soriano dizia “ter sido maltratado” na UBA por um “auditório hostil”. Pomeraniec confrontou-o com a mentira dias depois, e ele desconversou com brincadeiras que eram do seu estilo.
Moral da história? Osvaldo Soriano esteve na UBA. Foi muito bem recebido e aplaudido. Não quis ouvir. Seja lá por que motivo (vontade de aparecer como o pobre-escritor-popular-desprezado-pela-academia, suponho eu), inventou a mentira de que o haviam chamado para que ele fosse humilhado. É incômodo descobrir que um morto mentiu, especialmente um morto que tem estatuto meio mítico para algumas pessoas. Mas o papel do estudioso é buscar a verdade, não reforçar mitos. Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano, de má fé ou simplesmente repetindo preconceitos, não importa, insistiram na mentira com a acusação a Beatriz Sarlo. Posaram de paladinos do popular contra a “intelectual” arrogante. Procederam a realizar um linchamento. Tudo para que depois ficasse provado que ela estava certa e eles errados. Infelizmente, não voltaram a tocar no assunto.
Junto-me a Daniel Link na expectativa de que Guillermo Saccomano e Osvaldo Bayer tenham a hombridade de, antes de morrer, emitir um pedido de desculpas público a Beatriz Sarlo. Até agora, nove meses depois, não o fizeram.
PS: Deixo para um post futuro a discussão de tudo o que o episódio ensina sobre a fobia de certas pessoas sobre a universidade.
Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post
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