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sexta-feira, 04 de setembro 2015

Jesús Martín Barbero, Dos meios às mediações (1986)

Exagerando um pouquinho, poderíamos dizer que a publicação de Dos meios às mediações: Comunicação, cultura e hegemonia (1986), do espanhol radicado na Colômbia Jesús Martín-Barbero, marca a derrota definitiva da Escola de Frankfurt nos debates sobre mídia e comunicação na América Latina. Amplamente dominante nos anos sessenta e setenta, a teoria frankfurtiana trabalhava a mídia como um instrumento de manipulação no interior da sociedade administrada. Essa teoria foi exposta principalmente no texto de Theodor Adorno e Max Horkheimer, de 1947, “A Indústria Cultural”, capítulo mais célebre da Dialética da Ilustração. Sua característica mais visível é a ausência de matizes. A indústria cultural seria um operador da alienação no qual desapareceriam os limites entre arte e entretenimento, e a produção cultural seria colocada, sempre e invariavelmente, a serviço do fascismo. As análises de Adorno sobre o cinema e o jazz—hoje em dia consideradas pouco mais que diatribes mal informadas—foram a coroação desse paradigma. O representante mais ilustre da teoria na América Latina foi o livro Para ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, mas seus seus ecos ainda se fazem ouvir em boa parte do que se escreve sobre mídia hoje em dia.

martin_barbero.jpg

A obra de Jesús Martín-Barbero é, ao mesmo tempo, um estudo teórico e histórico da invenção do popular e do massivo, assim como das interrelações entre eles. A premissa é relativamente simples e vem de pensadores como Bakhtin, Gramsci e Benjamin: nem toda absorção do hegemônico pelo subalterno é sinal de submissão e nem toda recusa é sinal de resistência. A demonização das formas massivas de cultura, no paradigma frankfurtiano e em seus herdeiros, depende de uma separação taxativa entre o massivo e o popular. Para que se apresentem as formas industriais, mediatizadas de cultura como instâncias de alienação é necessário separá-las categoricamente das formas de cultura entendidas como genuinamente populares. Assim, cinema e televisão são arrolados como manipulação midiática enquanto que a literatura de cordel e a viola caipira permanecem como manifestação cultural legítima. É essa separação que Jesús Martín-Barbero demole pacientemente, com argumentos teóricos e históricos.

Em primeiro lugar, a invenção do massivo, apesar de dar um salto gigantesco com as formas técnicas de reprodução da imagem e do som no século XX, tem seus precursores na própria escrita popular. Desde pelo menos 1790, especialmente na França e na Inglaterra, a emergência do melodrama confere o vértice ao processo que leva do popular ao massivo. Trata-se de um processo que se remonta à Revolução Francesa: a transformação da canalha, do populacho, em povo, e a cenografia dessa representação. A funcionalização da música e a fabricação dos efeitos sonoros, que depois encontrariam na telenovela o seu auge, têm no melodrama a sua origem. O melodrama realiza uma secularização da figura do Diabo (personagem frequente nos dramas medieval e barroco), transformando-o em aristocrata malvado, burguês megalômano ou até mesmo em clérigo corrompido. O gritos e gemidos descompostos, as violentas contorções, os gestos descompassados: toda essa gestualidade melodramática que, ao ser trasladada para o rádio e o cinema, será inicialmente lida como mera estratégia comercial, estava, com efeito, enraizada na proibição da palavra nas representações populares.

Da mesma forma, a chegada dos mecanismos massivos de representação à América Latina não pode ser estudada, argumenta Martín-Barbero, fora do contexto de emergência de um populismo que interpela as massas trabalhadoras, propondo um sistema novo de reconhecimento dos atributos do trabalhador. No cinema mexicano, por exemplo, auge do cinema popular latino-americano, Martín-Barbero vê a reelaboração de uma épica popular, na qual a figura de Pancho Villa é reescrita via mito bandoleirista que combina crueldade e generosidade. Também no rádio-teatro, onde os argentinos, sem dúvida, foram mais longe, Martín-Barbero vê uma série de vínculos com uma longa tradição de expressões da cultura popular.

A passagem dos “meios” às “mediações” teria, então, este sentido: passar de uma análise em que os dispositivos são simples meios para se realizar alienação num público passivo para um modelo de análise em que a hegemonia transforma de dentro o sentido do trabalho e da vida da comunidade. Não se pode, em outras palavras, fazer uma apreciação das mensagens da mídia sem uma análise real do que acontece na recepção dessas mensagens, que nunca é simplesmente passiva e consumidora. É óbvio que isso não significa que essas mensagens devam estar imunes à crítica. Todo o contrário. Mas é simplista tratá-las fora do contexto no qual emergem e dissociadas dos usos a que as submetem seus receptores. As discussões sobre mídia que atualmente têm lugar no Brasil lucrariam muito fazendo referência à obra de Martín-Barbero e questionando o paradigma simplista da alienação e da manipulação cuja decadência essa obra emblematiza mais que qualquer outra.



  Escrito por Idelber às 15:42 | link para este post




Leopoldo Marechal, Adán Buenosayres (1948)

Leopoldo Marechal é o único dos grandes escritores argentinos de sua geração a alinhar-se com o peronismo. Pagou por isso um preço amargo. Adán Buenosayres (1948), uma obra-prima do romance latino-americano, foi recebida com burlas, ataques e desprezo. Com poucas exceções, o silêncio sobre a obra se manteria inalterado durante quase duas décadas, até que a própria dinâmica de revalorização do peronismo entre a intelectualidade literária, assim como a publicação de algumas obras diretamente tributárias de Adán Buenosayres – como Rayuela (1963), de Julio Cortázar – propiciassem a releitura. Verdade seja dita, de todo o grupo de escritores associados à elite intelectual argentina, o então jovem Cortázar, ainda antiperonista, foi o único que lhe dedicou, logo após a publicação, um artigo elogioso.

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A hostilidade com que se recebeu Adán Buenosayres foi tanto maior quanto mais diretos foram os seus vínculos, nos anos 20, com o grupo que posteriormente fundaria a revista Sur, o epicentro do antiperonismo literário. Marechal foi colaborador das duas principais revistas literárias do período heroico da vanguarda argentina, Proa (1922-1926) e Martín Fierro (1924-1927). Aquela foi inicialmente dirigida por Jorge Luis Borges, Ricardo Güiraldes, Alfredo Brandán Caraffa e Pablo Rojas Paz, os dois primeiros peças chave dos embates literários daquela década. Em Martín Fierro, dirigida por Evar Méndez, colaboraram, além de Borges e Güiraldes, Macedonio Fernández, o pintor Xul Solar, o poeta Oliverio Girondo e outros membros do núcleo que viria a definir o cânone da literatura argentina moderna. Marechal, cujo segundo poemário, Días como flechas (1926), foi saudado entusiasticamente pelos companheiros martinfierristas, seria uma das figuras mais destacadas naquele momento nascente da vanguarda. Sua adesão ao peronismo, em 1945, sepultaria qualquer possibilidade de que se reatassem os contatos e o diálogo com os ex-interlocutores. A dedicatória de Adán Buenosayres – “a meus camaradas martinfierristas, vivos e mortos, cada um dos quais bem pode ter sido um herói desta limpa e entusiasmada história” – aparece na primeira edição, de 1948, e é suprimida na edição definitiva, de 1966.

Quando saiu Adán Buenosayres, Marechal era conhecido como o autor de oito poemários, mas ainda não havia publicado um romance. Dedica à obra mais de vinte anos de trabalho. O resultado são 740 páginas de uma descida aos infernos da urbe moderna na melhor tradição do Ulysses joyceano. Composto de sete livros, Adán Buenosayres se divide em duas partes: os cinco primeiros livros relatam, em terceira pessoa, os acontecimentos de dois dias na vida de Adán (28 e 29 de abril, quinta e sexta, de um ano indeterminado na década de 1920), do seu despertar metafísico até o encontro com Cristo na noite de sexta-feira. Os dois últimos, o “Caderno de Capas Azuis” e a “Viagem à escura cidade de Cacodelphia” são narrados em primeira pessoa e apresentados como manuscritos deixados por Adán a Marechal. O “Caderno” é a autobiografia de Adán, de sua infância até os dois dias da experiência iniciática, enquanto que a “Viagem”, peça literária impressionante e de leitura autônoma, narra o sábado posterior à experiência, a partir do esquema das nove unidades descendentes do Inferno de Dante.

Muito já foi dito sobre os intertextos bíblicos, homéricos e dantescos da obra de Marechal. Eles oferecem as balizas para se compreender o motivo central da obra, a viagem, entendida como purificação, regresso à casa e mergulho nos infernos. O Ulysses de Joyce lhe proporcionaria não só a ideia da peregrinação pela cidade ao longo de um dia como microcosmo da existência moderna, mas também uma série de técnicas que Marechal utilizaria como ninguém na literatura argentina: o monólogo interior, a superposição de temporalidades, a paródia do herói épico, a criação de neologismos a partir de raízes linguísticas distintas, a sintaxe serpenteante recheada de anacolutos, a recriação da linguagem chula da sarjeta urbana.

Mas Adán Buenosayres é também, e principalmente, metaficção. Sem muitos disfarces, estão nela representados os seus colegas de aventura martinfierrista: o cego Luis Pereda é Borges, condenado ao Inferno da Ira por inventar vocábulos como “balaustradumbre” ou “baldosedades”, paródias dos barroquismos presentes nos três primeiros livros de ensaios de Borges, depois renegados. O astrólogo Schultze, o demiurgo com quem o protagonista empreende a viagem a Cacodelphia, é o pintor Xul Solar. O filósofo Samuel Tesler, que desvenda o caráter diabólico da ciência moderna, é o poeta Jacobo Fijman. Bernini é o escritor e historiador Raúl Scalabrini Ortiz, autor do clássico El hombre que está solo y espera (1931). A própia Buenos Aires na qual tem lugar a peregrinação é literária por excelência: com a exceção da Viagem a Cacodelphia, todo o romance transcorre em Villa Crespo, território de orillas por excelência, as margens urbanas nas quais acontecem as lutas de faca que povoam a imaginação borgeana.

De todas as tristes lacunas de tradução de literatura argentina no Brasil, nenhuma é maior que Adán Buenosayres. De recepção inicialmente marcada pela hostilidade ao peronismo com o qual se alinhou o autor, ela é hoje reconhecida pelas várias vertentes literárias do país como obra magistral e imprescindível. Nela estão antecipados escritores tão distintos como Cortázar e Lamborghini, Piglia e Perlongher. A ausência de tradução é tão mais lamentável pelo fato de que a obra-prima de Marechal não é de leitura fácil para quem não domina o castelhano falado no Rio da Prata. Editoras brasileiras, já são 64 anos de atraso.


Publicado originalmente na Revista Fórum.



  Escrito por Idelber às 04:11 | link para este post



quarta-feira, 02 de março 2011

O acontecimento literário do ano: Lançado o Museu do Romance da Eterna

macedonio-fernandez.jpgO ano mal começou, mas nenhum acontecimento literário que por ventura tenha lugar nestas plagas poderá se comparar a este. Está disponível em português, com 44 anos de atraso, um dos mais assombrosos livros já escritos. Trata-se do romance mais decisivo e influente de toda a literatura argentina; uma das grandes obras-primas da narrativa do século XX, em qualquer língua; talvez o livro mais anunciado e adiado de todos os tempos; um mito tecido ao longo de meio século de rabiscos esquecidos em quartos de pensão, cafés, bares e bondes. Saiu a tradução do Museu do Romance da Eterna, a invenção genial de Macedonio Fernández (1874-1952), aquele que ninguém menos que Jorge Luis Borges chamava de “meu mestre”.

Macedonio se mudava de pensão a pensão com seu violãozinho e uma mala de anotações, às vezes largando para trás montanhas de papéis em que escrevia, sem se preocupar em publicar, o romance no qual purgava o luto pela morte da mulher Elena. Macedonio leva ao limite o gesto da vanguarda, fazendo da espera pelo romance que nunca se publicará a história mesma que se narra. O resultado são cinquenta e tantos prólogos, onde se arma uma poética invencionista, anti-naturalista do romance. Ali ele brinca com a espera, reflete sobre a escrita, a literatura e a publicação, constrói a figura da mulher ausente e, depois de centenas de páginas e dezenas de anos, chega ao “romance” propriamente dito, que é muito mais curto que os prólogos, e no qual os personagens não parecem seres humanos, e sim seres de papelão, como que num conto de fadas. Acredite: não há nada neste planeta que se assemelhe a este livro.

Ninguém morre no romance, diz Macedonio num dos muitos prólogos, ainda que ele seja imortal, pois ele entendeu que, sendo os personagens gente de fantasia, eles perecem todos ao concluir o relato. Tarefa desnecessária que tomam os autores, com o perigo de esquecimentos e de repetir a morte a algum. Tudo em Macedonio funciona assim, de forma a expor, ao invés de esconder, os mecanismos de produção do texto e a relação com o leitor. Este, aliás, é o grande personagem do Museu. Macedonio elabora uma verdadeira galeria, onde se destacam o Leitor-de-Vitrine, o Leitor-de-Porta, o Leitor-de-Capa, o Leitor-Mínimo (ao qual o autor dedica o Título-Obra), o Leitor Não-Conseguido e, finalmente, o Leitor-Salteado. Para este último, o autor reserva um carinho especial: o livro onde não é necessário saltar nada, pois tudo já vem salteado: Não lhe peço, leitor salteado, desculpas por apresentar-lhe um livro inseguido que, como tal, é uma interrupção para você, que se interrompe sozinho … um livro tão picotado que não houve recurso senão lê-lo seguido, para manter assim desunida a leitura. museo.jpg

As histórias narradas por Jorge Luis Borges sobre Macedonio ao longo dos anos foram compondo um conjunto de mitos que, pouco a pouco, passaram a ser indissociáveis da própria biografia. Eu o imitei até a transcrição, até o apaixonado e devoto plágio, diria Borges no discurso pronunciado no velório de Macedonio, em 1952. Borges repetiria à exaustão que a obra escrita de Macedonio, por mais genial que fosse, era só um pálido reflexo da espontaneidade oral, da invenção conversacional que ele elevou à condição de arte. Macedonio escreveu contos, poemas, romances, ensaios, tratados, cartas, mas talvez o seu gênero literário por excelência tenha sido o brinde. Nele se desenvolveram alguns dos achados macedonianos que chegariam à condição de clichês, como o célebre faltaram tantas pessoas na sua festa que se faltassem mais algumas não caberia ninguém.

Num desses brindes surgiu outra das obras-happening de Macedonio, sua candidatura humorística à Presidência da Argentina, em 1927. Com bilhetes deixados nos bondes e nos livros das bibliotecas públicas, anúncios irônicos nos jornais, envelopes distribuídos pela cidade com propostas incongruentes e contraditórias, vai se construindo a figura do candidato. A segunda parte do plano incluía a intervenção na cidade com uma série de objetos impossíveis: pentes com dentes dos dois lados, escarradeiras oscilantes, colarinhos desmontáveis (de forma que, ao agarrar um sujeito para começar uma briga, você ficava só com o colarinho), escadas assimétricas, onde cada degrau é de um tamanho etc. Era a política transformada em ficção dadaísta.

Macedonio era, acima de tudo, um inimigo da verossimilhança, do realismo, da ilusão de realidade na arte. Ao invés de buscar o real na ficção, procurava na realidade o seu grão de ficcionalidade constitutiva: eu quero que o leitor saiba que está lendo um romance e não vendo um viver, não presenciando 'vida'. No momento em que o leitor caia na Alucinação, ignomínia da arte, eu perdi, não ganhei, leitor. O que quero é mui outra coisa, é ganhá-lo, a ele, de personagem, ou seja, que por um momento ele mesmo acredite não viver.

O primeira edição do Museu é de 1967, quinze anos posterior à morte de Macedonio e mais de meio século posterior às primeiras menções do livro nos brindes macedonianos. Como se trata de romance póstumo compilado a partir de uma papelada esparramada, que inclui dezenas de prólogos, todas as quatro edições—a do Centro Editor de América Latina, já esgotada, a da Corregidor, a da Cátedra e a da Coleção Archivos—são diferentes entre si. Ainda não manuseei a edição brasileira, mas ela parece ser muito bem cuidada. A tradução é de Gênese Andrade e a apresentação é do escritor, editor e tradutor argentino Damián Tabarovsky.




Nada, absolutamente nada que possa acontecer no mercado literário brasileiro este ano terá a importância e a dimensão--eu já ia dizer "transcendência", mas andaram assassinando essa palavra por aí--desta publicação. É o único livro de metafísica do qual você dá gargalhadas do começo ao fim.

Se um, só um de vocês decidir não morrer antes de ler esse livro, a existência deste blog já terá valido a pena.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (43)



sexta-feira, 18 de fevereiro 2011

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).


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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (326)



domingo, 12 de dezembro 2010

Lançamento de "Elvis e Madona", por Luiz Biajoni, em Belo Horizonte

Nesta segunda-feira, a ala trotsko-atleticana de blogolândia estará na Savassi. Convido-os para o lançamento de Elvis e Madona, de Luiz Biajoni, nesta segunda-feira, na Quixote. Aqui vai um trecho da contracapa que escrevi para o livro:


Biajoni nos oferece mais um relato em que a sexualidade e os papéis de gênero são retratados com humor e um olhar crítico que desmonta certezas. A fórmula do melodrama entra aqui de forma original, sem resquícios de pieguice. O amor entre esses dois insólitos personagens nos confronta de cheio com nossos dogmas e preconceitos. Vale a leitura, e o final surpreende.


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  Escrito por Idelber às 19:56 | link para este post | Comentários (2)



sábado, 20 de novembro 2010

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

luis-gama.jpg
"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."
Luiz Gama

Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.


A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.


Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.


Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

PS: Fonte da imagem.

* *P.S. em 24/11: O livro Caçadas de Pedrinho é publicado pela Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, mestre em Comunicação Social/UnB e editor do jornal Ìrohìn, pelo envio de seu excelente artigo "A propósito de Caçadas de Pedrinho".


Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor
20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra




  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (167)



sexta-feira, 12 de novembro 2010

Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica

monteiro-lobato-nascimento-pai-emilia.jpgNossa indústria de escândalos precisa de urgente renovação. Depois do “Ministério da Educação acéfalo” que só acertou em 99,94% das provas do ENEM, há uma polêmica sobre Monteiro Lobato que, aliás, será do agrado dos que reclamam do Fla x Flu entre lulismo e antilulismo. Desta feita, há governistas e oposicionistas em ambos os lados da polêmica. Isto não a torna, evidentemente, mais interessante.

Aldo Rebelo, o Prof. Deonísio da Silva, Augusto Nunes e dezenas de tuiteiros fizeram uma tempestade numa xícara d'água contra uma suposta “censura” sofrida pelo autor de Urupês. Em comum entre todos eles, a ausência de qualquer citação do parecer que foi pedido ao MEC sobre Caçadas de Pedrinho (ou, no caso de Aldo, a presença de citações distorcidas do texto). O blogueiro do Serra, que eu saiba, ainda não surtou com o tema, mas não duvide. Se, depois de ler algo da obra infantil de Lobato, você ler o parecer do MEC sobre o tema, perceberá a pobreza da indústria do escândalo.

O pedido de parecer recebido pelo MEC se relaciona com algo comum no ensino de obras literárias, em especial para jovens ou crianças: a contextualização necessária para que epítetos, comportamentos discriminatórios, racismo explicito, ódio a povos ou a orientações sexuais etc., sancionadas e apresentadas como normais no contexto em que a obra foi escrita ou no interior dela (e qual é a relação entre obra e contexto em cada caso, claro, é um vasto problema), sejam lidos criticamente e não replicados como modelo pelos alunos. Não é tão fácil como parece. No caso de Monteiro Lobato, é imensamente difícil.

O Deputado Aldo Rebelo diz: Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” — a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

O Deputado Aldo Rebelo vive num mundo onde todas as discussões acerca da cultura se dão num terreno ameaçado, pelo estrangeirismo ou pelo politicamente correto. O Deputado tem uma concepção estática, patrimonialista de cultura nacional. Para ele, o passado é uma coleção de sacralidades intocáveis. É o oposto de uma concepção benjaminiana acerca do que é o pretérito.

A comparação feita por Aldo, entre Lobato e Nelson Rodrigues, é estapafúrdia, por ignorar o contexto em que se faz o pedido de parecer ao MEC: o da obra Caçadas de Pedrinho em salas de aulas do ensino fundamental e médio. Ora, salvo engano meu, não há garotos de 4º ou 5º ano lendo Vestido de noiva ou Bonitinha, mas ordinária nas escolas públicas ou particulares brasileiras. Se eles se introduzem à obra de Nelson na adolescência tardia ou depois, na faculdade, essa situação não tem nada em comum, entendamos, com um garoto negro ou mulato de 10 ou 11 anos de idade sendo introduzido social, coletivamente à pesada linguagem racista que se encontra em parte da obra de Monteiro Lobato. Este blog tem tentado ser contido mas, com vossa permissão, sugiro que só uma besta-quadrada ou um malintencionado não enxerga isso.

Pois muito bem, dados os fatos de que 1) Monteiro Lobato é peça chave da nossa tradição literária, especialmente canônico e fundacional para a literatura infantil; 2) uma obra como Caçadas de Pedrinho está eivada de linguagem pesadamente racista; 3) essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação; coloca-se aí um problema nada simples para o educador. Quem acha que é simples que faça, por gentileza, o exercício de imaginar alguns dos trechos animalizadores de negros, citados pelo Sergio Leo, numa sala de aula com, digamos, 20 ou 22 crianças brancas ou brancomestiças e 3 ou 4 crianças negras ou negromestiças. Imagine, monte seu plano de aula e me conte. É uma situação que tem o potencial de ser tremendamente traumática para a criança.

O que fazer, então? Ninguém, em nenhum momento, falou em “proibir” ou “censurar” Lobato. Em nenhum momento se falou sequer de emendar o texto de Lobato, coisa com a qual eu, particularmente, não teria grandes problemas (pelas mesmas razões do Alex), desde que fosse bem feito.

Na verdade, basta ler o raio do parecer do MEC para ver que, concorde-se com o texto ou não, ele está escrito dentro de um espírito razoável: fornecer ao educador instrumentos (introdução, notas ao pé de página etc.) que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social. O parecer não está escrito em jargão de especialista, mas está informado pela leitura de alguns dos melhores estudiosos de recepção de obras literárias no Brasil, como Marisa Lajolo (que, além de ser estudiosa de estética da recepção, é autora de um artigo importante [pdf] sobre o negro em Lobato).

O parecer explica, em linguagem clara, algo que é amplamente consensual entre estudiosos de literatura: que nenhuma obra literária está completamente “solta”, “livre” dos valores de sua época e que nenhuma grande obra é simplesmente um reflexo desses valores tampouco. Cada obra rearticula, reescreve, chacoalha, reinterpreta os valores de seu tempo. Em outras palavras, o mesmo Monteiro Lobato cujos diálogos estão eivados de racismo pode servir para questionar o racismo. O mesmo Conrad que está encharcado de colonialismo pode servir para questionar a empreitada colonial. O mesmo Nelson Rodrigues que está empapado de misoginia pode ser lido de forma feminista, emancipatória. Mas estas duas últimas tarefas, em sala de aula, são menos explosivas e complexas que a primeira, posto que no caso de Lobato você está lidando com garotos de 10, 11 anos de idade.

Um aparato de notas é o mínimo a que um professor tem direito para trabalhar com as perorações racistas de Emília numa sala de aula do século XXI. Inventemos escândalos mais inteligentes. Aqueles baseados na sacralização dos documentos de cultura passados estão ficando meio tediosos.

Suponho estar óbvio que o parecer do MEC sequer desestimula (que dirá proíbe) a adoção de Caçadas de Pedrinho ou de qualquer outra obra de Lobato. O Alex diz nos comentários a este post (cuja conversa continua aqui) que ele não adotaria a obra e eu entendo suas razões. Aliás, eu me atreveria a dizer que só quem nunca segurou um pedaço de giz não entenderia. De minha parte, eu não sei se adotaria o livro ou não. Optei por dar aulas para adultos, em parte, para não ter que tomar decisões como esta (como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum). Eu certamente não a adotaria num contexto em que os garotos negros fossem pequena minoria em sala de aula. É sempre caso a caso. O parecer do MEC não substitui a decisão de cada professor. Só oferece elementos para subsidiá-la.

Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita. Esta gerou pelo menos dois ótimos textos: do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. Fiquemos com eles.



  Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post | Comentários (124)



quinta-feira, 04 de novembro 2010

Lançamento brasileiro de Em Estado de Memória, de Tununa Mercado

Talvez algum dos leitores antigos do blog se lembre deste livro, posto que ele já foi listado aqui entre os quinze maiores do meu panteão pessoal argentino: Em Estado de Memória (1990), da cordobesa Tununa Mercado, publicado originalmente em 1990, já traduzido ao inglês, chega finalmente às mãos do leitor brasileiro, em tradução minha para a Editora Record. Não sei quando é o lançamento, mas a notícia é que a obra já está indo para a prensa.Vale ficar de olho, pois se trata de uma das narrativas mais inquietantes a ter saído da recente experiência das ditaduras latino-americanas. Como aperitivo, ofereço, então, o texto que acabo de escrever para a orelha do livro e, mais abaixo, um capítulo inédito. Primeiro, a arte da capa para a edição brasileira:

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Em Estado de Memória, de Tununa Mercado, é um dos textos mais sofisticados de toda a memorialística da América Latina pós-ditatorial. No momento de sua publicação (1990), a autora já havia vencido o importante Casa de las Américas, com Celebrar a mulher como uma páscoa (1967), e publicado o volume de contos eróticos Cânone de alcova (1988). Entre uma publicação e outra, Tununa passou pela emblemática experiência do exílio argentino no México, ponto de partida de Em Estado de Memória.

Tudo neste texto é singular: a voz narrativa não é exatamente testemunhal nem ficcional; os personagens que o habitam não são, a grande maioria, nem puras vítimas nem meros verdugos; sua visão da derrota da esquerda na Argentina não é nem arrependida nem nostálgica. Em estado de memória é um petardo, ao mesmo tempo engajado e crítico do engajamento. Não surpreende, então, o fato de que quatro de seus grandes intertextos sejam a Fenomenologia de espírito, de Hegel (com sua insistência no arrastar-se das coisas na desolação como fundamento de todo devir), a psicanálise (com seu implacável desnudamento da ficção de soberania do sujeito), a história e a cultura mexicanas (com sua singular, trágica identificação com os povos ameríndios derrotados) e a vida e a obra de León Trótski (de tantos laços com a própria história mexicana e com o legado da derrota política no século XX).

O texto de Tununa realiza um percurso fragmentado, não linear entre sua saída para o México e a volta à Argentina, mais de uma década depois. Ao se concluir a leitura, muito pouca coisa resta em pé da mitologia dos períodos ditatoriais, seja dos mitos propagados pelos ditadores, seja daqueles que floreceram entre as forças que resistiam a eles.


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Capítulo inédito:


Corpo de pobre

Todos os domingos, voltando à cidade do México, em geral de um fim de semana na casa de amigos, eu escrevia sem escrevê-lo o primeiro parágrafo de um longo texto que sempre senti como um desencadeamento, mas logo a cadeia se enredava ou simplesmente ficava truncada. A frase inicial, isso sim, brotava quase de imediato, uma vez que o automóvel havia percorrido os primeiros quilômetros e nos afastávamos da zona dos vulcões. A imagem que me ocorria era: a marcha vai deixando para trás, em dobras regulares e num ritmo implacável, um trajeto que se parece ao da memória, feito de postas, relevos, súbitos escurecimentos sob arvoredos copados, pontos cegos no horizonte, enormes poços de sombra, tênues resplendores que parecem dissipar a noite em semente e dotá-la de luz. Para trás, à medida que avançamos, vai ficando, assim o imaginava, uma gigantesca vela preenchida pelo vento (e crivada pelo tempo), um telão pelo qual as partículas se insinuam até desaparecer muito longe e muito às nossas costas.

Mercado_big.JPG Essas partículas, deu-me por imaginar, eram mortos que entravam pelos meus olhos e saíam pela minha nuca, amontoados nas rajadas da memória, suspensos pelo caminho até que a grande vela os remontasse ao passar. Nenhum, em particular, se projetava, nem fazia esforço para instalar-se em mim de maneira predominante; estavam lá à espera de uma espécie de seleção de minha consciência, como se apenas pretendessem ter uma legitimidade nessa primeira página que eu escrevia, no assento traseiro de um carro. E o que é mais estranho ainda nessas figuras suspensas a meu alcance é que não desfraldavam suas histórias grandiloquentes, mas deixavam sentir, em sua pura singularidade, as posturas, as palavras e os atos menores que haviam tido alguma significação para mim, os gestos mais representativos, por assim dizer, que os uniam a mim.

O cemitério era vastíssimo e lá havia todo tipo de mortes e de mortos; minha seleção se produzia por turnos, e no tempo em que eu retinha algum ou alguma, isolava-se, numa síntese prodigiosa, a peculiar qualidade com que cada uma dessas presenças ocupava um lugar na minha vida: uma mão que retém a minha, uma energia solta por um corpo que me abraça, um sopro que embaça, emocionado, meu espelho. E, para trás, a vida me aparecia, nesse tipo de imagens, perfurada por milhares de grandes e pequenas perdas, e tudo escapava pelas fendas dessa grande vela inchada.

Na lembrança do outro não se resgata sua pessoa completa, mas simples e aparentemente efêmeras modalidades que, em algum instante, também fútil na aparência, se manifestaram; eu diria que estou fixada a esses mortos por esses detalhes, e com anterioridade eu o estava da mesma maneira quando eles viviam: pelo exercício de uma mania, pela expressão de um empenho no marco da vida doméstica.

O ponto no qual Mario Usabiaga se fixou indelével em mim foi um meio-dia do ano de 1981 quando, com impaciência, me deu uma bronca porque deslizei, nem mesmo arrastei, uns centímetros, o bife que eu fazia sobre a chapa, e mais uma bronca me deu nessa mesma ocasião quando pus o sal na carne antes de virá-la; ele me explicou que havia impedido que ela se selasse, com o primeiro movimento irresponsável de arrastá-la sobre a chapa e que, ao colocar-lhe sal quando a virei, havia feito com que se perdesse todo seu suco. A partir desse momento fiquei ligada a ele: cada vez que eu punha um bife para assar, suas duas normas ressoavam e ressoam em mim como se eu o estivesse ouvindo, e o reflexo continuou reiterando-se com mais força ainda depois que ele morreu, e sobretudo porque está morto. Não sei se com este arbítrio de voltar ao ponto de referência admonitório que me ata a ele vou encontrar consolo, mas uma coisa é certa, ele não vai embora de mim, e no dia em que suas palavras deixem de ressoar em todos os meio-dias semelhantes àquele em que junto a mim ele fixou suas leis, eu o terei traído na memória e, consequentemente, terei me deixado ganhar pela insignificância.

Os pontos de inflexão dessa vida e as marcas que deixaram em minha lembrança se sucedem a partir de 1970. A primeira cena é em Bahía Branca; ele estava fazendo um churrasco. Estão sua mulher e seus filhos, estamos nós também. Não percebo então que ele não mexe a carne de jeito nenhum, não lhe finca o espeto, nem tampouco a salga quando a vira, e sim só no final. No meio da reunião chega, sem avisar, Alberto Burnichón, editor itinerante e vital, ser único, que leva de cidade em cidade, por todo o país, as plaquetas de poesia que ele mesmo imprime com cuidado artesanal; ele, espécie de pai de poetas, foi morto, depois de sequestrado, pelos militares em 1976. Mario recebe-o como um embaixador e sabe despertar nele toda sua sagacidade e senso de humor. Em outra cena, meses depois, Mario dança com Diana Galak depois de um jantar em minha casa; alguém coloca música e eles se levantam como se estivessem num salão, tomam-se nos braços e mexem-se com suavidade, sem reparar as testemunhas nem o espaço que os limita, entre cadeiras, a uma superfície de quatro azulejos. Ele se separou de sua mulher e dança com esta garota jovem, distante de nós, convencida de possuí-lo.

Outros gestos seus: tirava a mecha de cabelo liso que lhe caía sobre a testa para inclinar-se sobre sua máquina de escrever durante as intermináveis jornadas nas quais traduzia do inglês um livro de mais de mil páginas. Diana, a garota que dançava, quase morria no quarto ao lado. E não se pode dizer mais do que isso do transcurso dessa grande tragédia na qual esta vida se viu envolvida: abandono, cárcere, abandono, reencontro, morte final. Procurei uma carta sua, a duras penas, na noite passada, procurei-a como se nela fossem embora a minha vida e a dele; me levantei no meio da noite a revirar pastas, mas ela não estava e pensei, devo tê-la separado numa especial que embalei e que levava um rótulo de identificação, RECORDATóRIO, porque contém os vestígios dos amigos mortos. Enquanto procurava, recuperei, como se eu mesma o esculpisse, um gesto de Mario Usabiaga do qual eu me negava a tornar-me consciente porque me machucava, e que consistia em reprimir, como num endurecimento corporal, como se enfrentasse alguma coisa insuportável, a violência que alguns de meus relatos verbais--ou minha maneira de relatar--lhe provocava. Vê-se que ele não aguentava que eu não encadeasse minhas ideias como ele queria, e uma vez mais me queima a sensação de não ter seguido suas leis, e a ferida se reabre quando procuro essa carta na qual, estou convencida, desapareceu qualquer recusa dele a mim, e sua letra é solta, distendida, quando diz que tem saudades de mim, e é lacerante quando descreve seus primeiros meses de regresso à Argentina, que seriam os últimos de sua vida.

Uma vida na qual cada segmento está referido ao que alguém disse, fez ou assinalou, ao mandamento de outro surgido no instante em que se exerce uma ação sobre a realidade, uma vida assim se converte em algo religioso: invoca-se, cita-se, liga-se ou alude-se; você vai se transportando com todo mundo nas costas, e se não é Mario Usabiaga o que aparece em espírito, será outro o que se encarregue de fazê-lo, com uma estipulação semelhante: não se deve jogar os ovos na frigideira com o óleo frio, isso jamais; eu gosto das torradas menos “cruas”; o chá não deve ser guardado com as folhas porque se torna tóxico, e o mesmo acontece com o mate cozido; os ovos mornos devem ser furados para que não se quebrem com a água da fervura; e a pessoa ausente, alma ou não, que alguma vez me fez essas indicações, sem ter se proposto a isso, me absorve num sistema fechado; cola-me à realidade, me amarra com unhas e dentes às suas pequenas saliências, me condena a ela sem remissão.

Teria me custado muito explicar a esse hipotético analista, que me cobriria por trás com suas asas, o modo em que essas indicações de índole prática me costuravam à realidade, apoderando-se de mim e gravitando sobre minha autonomia psíquica, na medida em que sempre eram uma correção, um endireitamento. Eu mesma haveria de exercer sobre os outros ou, pelo menos, sobre as torpezas dos outros, incluídos os meus, uma espécie de controle que tenderia a se tornar maníaco. Essas obsessões perfeccionistas, que me impressionavam em outras pessoas, durante uma época chegaram a ser próprias a mim, como se eu admitisse que, ao ter aceitado as correções que os outros me marcavam, eu mesma me munisse de um estatuto e de uma normativa para aplicar, por minha vez, sobre os demais.

Nesse período era intolerável para mim, e ainda de vez em quando se reitera esse sentimento como se se tratasse de um reflexo condicionado, que não se tivesse um cuidado extremo ao cozinhar o arroz, que houvesse gente que, por improvisação ou inépcia, transformasse um arroz em purê; que não tivesse alcançado o estágio de cultura que permite, digamos, não abstrair o conceito, mas pelo menos a estética de grãos soltos e ligeiros; eu me erigia então num verdadeiro soldado do cozimento do arroz, de massas, ou de umas batatas, e me esforçava para fazer entender que o cozimento não cessa no momento em que se apaga o fogo, mas que persiste sobre os alimentos, e que de nada valia concluir que um arroz já estava no ponto se não se tomava a precaução de deter o processo uns minutos antes dessa certeza, prevendo a margem necessária para não chegar à condição de purê.

O ponto do arroz, o ponto da carne, os pontos a que se pretende chegar e que, se ultrapassados, rompem o equilíbrio do universo, eram os pontos de minha obsessão. E eu devo ter tido sobre quem infringia a harmonia desses tempos uma atitude corretiva e impaciente. Esse corpo de análise, a obsessão ante a minúcia, por sua repetição, poderia ter sido tomada como um sintoma de uma censura a que eu me impunha e que só aparecia exercida frente aos outros e por causa dos outros, reservando-se um efeito muito mais daninho sobre a minha pessoa. Ali havia um material de grande volume e consistência para observar, uma massa que amalgamava diversas manias e não menos diversas fobias, cuja característica era apresentar-se em partes e contra-partes, numa dialética difícil de desbaratar.

Se os “pontos” eram algo assim como o fechamento de uma forma, de certo modo uma “completude” transgredida uma e outra vez pelos outros que se obstinavam em ultrapassá-la, se as pessoas violentavam os estados justos da matéria, podia ver-se claramente que ali minha obsessão era consertar o que sobra, o que transborda e que, ao ignorar um limite, arruína o alimento ou põe a perder o estado ideal de um processo, sem deixar a possibilidade de uma retificação: o que passou já não pode ser devolvido à sua condição primigênia. Não culminar, então, deixar pela metade, dar às coisas a margem de amadurecimento, incidir só nas etapas iniciais da evolução de um elemento e depois deixá-lo abandonado à própria inércia, eram as leis dessa obsessão que preenchia todas minhas intenções e definia todos meus desejos.


Mas havia outra obsessão dentro do mesmo corpo de análise, correlativa à anterior, que era desencadeada pela falta. A impossibilidade de encher até o topo vinha acompanhada de uma sensação de carência, de despojamento e de desnudez, e digo os três termos numa seguidilha porque acredito que se cobrem um ao outro. Ninguém, em nenhuma das terapias enganosas nas quais eu me vi metida, me deu uma explicação acerca de minhas relações ambíguas com a roupa, provavelmente o objeto no qual com mais crueza encarnam-se os termos da carência, do despojamento e da desnudez. A desnudez própria dos pesadelos era para mim uma circunstância natural da vigília. Não é exagerado afirmar que, de maneira permanente, eu me encontro em condição de indigência vestimentária, não tenho o que vestir é o enunciado certeiro que fala desse estado. E estar assim, haver chegado até lá, é alguma coisa limite, mais além está o abismo.

Eu me vejo remexendo tudo nos guarda-roupas; menina, jovem, adulta, sempre procurei o que vestir em guarda-roupas empanturrados ou vazios, dá na mesma, porque as emboscadas que este ato de revirar a roupa me estendeu são independentes de os guarda-roupas estarem cheios ou vazios. Essas grutas que me sugam depois me soltaram sempre despida, desemparelhada, incompleta, desavinda; nem acordada nem dormindo jamais se cumpriu para mim o sonho de uma forma fechada que me inclua, em uma palavra, um vestido que cubra minha desnudez e que me devolva uma imagem “completa” na lua do espelho. Os guarda-roupas têm sido ingratos comigo ao longo de toda minha vida e agora ainda, quando estou a caminho do meio século, afasto-me por precaução dessas bocas e as fecho antes de dormir.

Quanto à roupa, eu não pude me subtrair, como qualquer mortal, à necessidade de vestir-me, mas nunca pude cobri-la por meus próprios meios. Com ardis eu consegui que os meus, em distintas idades, me vestissem. A decisão tem um momento chave quando, sendo muito menina, consigo convencer a uma tia-avó que a partir desse dia vou ficar quieta, como se fosse feita de massa, para que ela me vista.

Não se veja nessa paralisia uma solução cômoda; o jogo não demorou muito para se converter num mal, cuja manifestação mais angustiosa é a dependência física e cujo sintoma aparece mais agudo quando me coloco na situação de cobrir a necessidade, quando vou comprar roupa. O terror começa a se insinuar na entrada das lojas, em geral quando se trata de negócios proliferantes e massivos. Pouco a pouco, à medida que a acumulação se desfralda ante meus olhos e dá volta entre minhas mãos, eu começo a perder o sentido. O sentido voa, desaparece entre as dobras da roupa, me abandona, e eu caio chumbada.

Nessas circunstâncias, os espelhos ajudam a desencadear a crise. A luz dos provadores sobre os espelhos, a própria imagem invertida, o modo pelo qual o corpo é coberto por algo estranho a ele e a convicção de que esse elemento alheio se apodera desse corpo e o torna seu nesse recinto falsamente iluminado, todo esse acontecer é, como nos romances de desgraça, um golpe mortal. O que se revela nessa secreta sessão não é só a carência, a desnudez, o despojamento e o detestável recurso de cobrir a necessidade com algo emprestado, concebido em algum lugar para outros, algo que não haverá de cobri-la nem de cobrir-nos. Eu passei por essas situações de perda de sentido muitas vezes e acabei por instigar piedade nos meus e, de uma maneira regular, sem ter inclusive que exigi-lo, minha necessidade tem sido coberta por eles sem a obrigação de entrar em nenhuma loja nem me fechar num cubículo com triplos espelhos.

A roupa me horroriza, as saias vesgueiam, as golas não chegam a tapar o nascimento de cabelo na nuca; nenhuma aba resolve o desabrimento; não há vestido para o talhe desgraçado; nenhum calçado corrige os joanetes ou as pernas arqueadas; nenhum enfeite dá altura, confere graça ou afugenta os maus pesadelos; comprar roupa é um mísero expediente para remendar a vida. Muito poucas vezes em minha história pessoal eu me senti o que poderia chamar gratificada por uma peça de roupa sobre meu corpo, ninguém nunca pôde me convencer de que algo ficava bem sobre meus ombros. Invadida pelo trauma vestimentário, eu nunca quis ouvir elogios, como por exemplo que tudo me ficava bem, que qualquer cor me assentava e que não havia moda que não me caísse à perfeição; desouvindo qualquer apreciação reparatória de meu terror vestimentário, sempre me vi ridícula com as modas, inclusive não produziu consolo ouvir que minhas amigas me diziam, quando me soltavam as peças de roupa que já não usavam, que eu tinha “corpo de pobre”, ou seja, que tudo me ia, caía ou assentava bem, e comprovar essa ductilidade as fazia se sentirem muito generosas e desprendidas, e eu saía de suas casas com meus tesouros, levava-os ao meu guarda-roupa e lá os condenava a estarem pendurados para sempre. às vezes, quando o gosto de minhas benfeitoras coincidia com o meu, eu vestia essa roupa; entregava-me, em definitivo, a essa alienação em carne ou corpo próprio que consiste em vestir a roupa alheia.

Quando recebo de herança ou recordação a roupa de algum amigo ou amiga que acaba de morrer, eu me visto com eles; tenho a sensação de que ando com eles vestidos e até sinto usar suas mortalhas, mas não me dá medo ou apreensão, e sim consolo, como se, numa espécie de ingênua transmigração, eles tivessem se depositado numa manga, numa cinta ou numa valenciana. Vesti durante toda minha segunda gravidez, há mais de vinte anos, uma jaqueta de lã que herdei de uma morta desconhecida, uma italiana a cuja casa, depois de sua morte, uma amiga me levou para que escolhêssemos algumas peças de roupa. Quando chegamos à casa dessa senhora sem parentes, o guarda-roupa estava pletórico, ainda que penumbroso pela circunstância; eu elegi a famosa jaqueta e uma blusa de veludo vinho que tinha no decote, na borda das mangas e das cadeiras, uma franja de flores pintadas a ouro, peça esta que nunca usei e que acabei dando de presente, sem que pudesse explicar por que a havia levado daquele guarda-roupa, se por cobiça, por frivolidade ou por lástima. O certo é que cheguei a sentir-me culpada com essa morta por ter interrompido seu eterno retorno em mim através dessa blusa e, na volta do tempo, vinte e cinco anos depois, ainda me lembro do intenso cheiro de lavanda que exalava sua roupa e seu guarda-roupa, e esse oleado pertinaz é o chamado que a desconhecida me lança.

O mal dessas roupas de mortos é que você não se atreve a jogá-las fora nem dá-las de presente, e elas se eternizam no guarda-roupa. Quando são adotadas, você não imagina o espaço que a roupa desses donos ausentes pode ocupar: ficam penduradas desvalidas nos cabides, tomam a forma do gancho e são marcadas por quedas definitivas; você se aferra a essa vida fria e obscura com a mesma obstinação com que antes se aferrava a outra, talvez mais cálida e luminosa. Tenho ainda num cabide, no último de meu guarda-roupa mexicano, um casaco cinza que, sem sabê-lo, minha amiga Silvia Rudni me deixou ao morrer e me foi dado pelos seus como lembrança; eu o usei muito, era de muito bom gosto vestir Silvia mas, de repente, com o tempo, as pontas da gola se fizeram notar e, ao ver-me com ele, numa mesma unidade corporal no espelho, tive um golpe de auto-compaixão: éramos dos anos sessenta nos oitenta.

As roupas vão caindo por si mesmas, desmoronam pelos seus próprios flancos e rodam, exaustas; como não ocorre com nada ou ninguém em igual medida, são derrotadas pelo tempo. Não são muitos os que percebem o cansaço dos tecidos porque eles se desprendem dos vestidos antes de que comecem a segregá-lo, e é muito raro que um terno consiga aguentar a pressão social que lhe impõe estar fora de moda, e haveria que se ter uma forte ética para acompanhá-lo sem se deixar arrastar por sua queda. Vivi pendente de minhas roupas, das roupas alheias que chegaram a ser minhas, das roupas de amigas e amigos mortos, das roupas que outros me cederam para não condená-las ao desaparecimento ou por dadivosa veleidade, e esse destino, ir com a roupa à saga de sua decadência, ser uma única e mesma coisa com a roupa e, ao mesmo tempo, sentir a cada instante o horror dessa relação é uma das fatalidades cujo sentido teria que desbastar.

Na infância, os meus tentavam me fantasiar para os carnavais e inclusive me obrigavam a fazê-lo quando eu resistia. Fui caracterizada de “neguinha”, com o clássico vestido vermelho com luares brancos, que é também o da “formiguinha viajante”, a pele coberta de betume e várias trancinhas, as que o cabelo desse, arrematadas num coque de fitas vermelhas--porque assim pensam que são as meninas negras, como as formigas--e também de “cigana”, com o lenço na cabeça festoado com uma fileira de medalhas como brincos, bucle junto às orelhas e saia ampla e longa com babados. Quando eu me dava conta de que desaparecia por trás da máscara ou do unguento negro, e que de minha identidade só ficava o brilho das pupilas e o branco dos olhos, eu começava a chorar, provocando comentários acerca de minha pusilanimidade.

Essas fantasias penduram-se em minha memória, mas há uma em particular que balança como a mortalha da mulher da foice, a bruxa ou a “viúva” do carnaval, no salão de festas do Perpétuo Socorro, meu jardim de infância. Eram as festas de primavera e me fantasiavam de borboleta, com um vestido amarelo vaporoso de cambraia, listras café que desenhavam o corpo da borboleta e umas asas de arame cobertas de tule mosqueado que se amarravam atrás. Quando estávamos para entrar em cena e dançar nosso número-- meninas de flores e meninas de borboleta--com as antenas rígidas sujeitas ao penteado e o infalível luar junto à boca, a irmã Serafina tentou prender minhas asas ao vestido com um alfinete de gancho, mas o alfinete deslizou e pegou também, junto com o tecido e o tule, a minha pele. Entrei em cena como atravessada por um punhal, e essa pungente sensação não me abandonou até hoje. Eu nunca disse nada a ninguém sobre esse incidente, só Sor Serafina soube. Desde aquele dia eu nunca quis estar em nenhum palco.



  Escrito por Idelber às 08:32 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 13 de outubro 2010

O anti-Foucault, por Pedro Meira Monteiro

Meu amigo Pedro Meira Monteiro, de Princeton University, um dos grandes intelectuais brasileiros da nova geração, acaba de escrever este texto como reação a uma palestra de Mario Vargas Llosa em sua universidade. Pedi permissão para publicá-lo aqui no Biscoito.

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O anti-Foucault

Uma das muitas virtudes do pensamento conservador é lembrar, aos que temos a veleidade de afirmar-nos imunes à cantilena da conservação, que o nosso discurso é sempre guiado por fantasmas. De fato, não há voz que se sustente sem espectros. Quando falamos, a potência muitas vezes inconfessável que nos move é aquela que trabalha por materializar, diante de nós mesmos e dos que nos ouvem ou leem, um fantasma.

Anteontem, em Princeton, Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu uma palestra intitulada “Breve discurso sobre la cultura”. Em sua fala, o alvo era, sem nenhum pejo ou temor, a figura “sofística” de Michel Foucault.

Incomoda profundamente, a Vargas Llosa, que a figura da Autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, a qual, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele cuidadosamente utiliza no singular). Até aí, nada de propriamente surpreendente, já que a postura conservadora do escritor peruano é bastante conhecida. O que me surpreendeu foi ver um módulo do pensamento conservador, que eu tive a oportunidade de estudar em detalhe em outro momento, reaparecer, quase intacto, diante dos meus olhos incrédulos.

Quando escrevi sobre o visconde de Cairu – um economista do início do século XIX no Brasil – , flagrei-lhe, em meio ao mais empedernido conservadorismo, algo que então considerei quase genial: a capacidade de apaixonar-se quando expende seus argumentos contra um alvo. A questão é menos simples do que parece: é que um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos. (Por isso, em geral, o conservador é aquele que sabe, com razoável ou inquebrantável segurança, o que é a “barbárie”.) No caso de Cairu, a soltura dos corpos se revelava plenamente na loucura da massa torpe e ignara (a Revolução Francesa), e nos avanços subsequentes do “dragão corso” (Napoleão Bonaparte) pela Europa. Eis o paradoxo: o autor, que cautelosamente reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se ele mesmo tomar pela paixão do discurso, lançando-se aos mais incríveis golpes de efeito poético, comparando, por exemplo, as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço. O velho ranzinza (o frei Caneca chamava-lhe “rabugento sabujo”) deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação, e de seus demônios, que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.

Guardadas as diferenças e as proporções (Vargas Llosa é, naturalmente, um bom escritor), o autor peruano tem também o seu dragão, que não é corso, mas é ainda francês. Sua ira mal contida, derramada anteontem contra Foucault, chegou a momentos de incrível ousadia, como quando o espírito “sofístico” do filósofo de maio de 68 é lembrado em paralelo à degradação de seu corpo. É que Foucault, sendo o emblema mesmo da geração de 68, e herói-intelectual daquela aventura tresloucada, entregou-se também aos desvios do corpo e da alma. Foi com pasmo que ouvi Vargas Llosa evocar as famosas e já folclóricas excursões do filósofo francês pelas saunas e bares gay de San Francisco, até o ponto de que sua morte com AIDS (referida também na palestra) ficasse no ar, como uma espécie de justiça poética e maldita, que recai sobre aquele que tragicamente negou o aspecto dissoluto de sua vida moral.

Houve outros momentos de pasmo para mim, como quando sua ira se estendeu a toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, e quando, dos teóricos pós-estruturalistas (De Man, Derrida), ouvimos as piores coisas, pelo menos até que, num estranho golpe de misericórdia, se dissesse que o que tal pensamento produziu não é muitas vezes mais que uma inútil e aparatosa “masturbação” (sic).

Eu respeito o pensamento conservador, e respeito especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a coragem de defendê-lo e de, ao mesmo tempo, sustentar publicamente sua voz, cultivando, ademais, a forma do diálogo. Há, contudo, pelo menos um equívoco grande naquilo que disse ontem o ganhador do prêmio Nobel deste ano: em dado momento, ele reproduziu a já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Derrida, nada ou pouco se compreende. Foi aí que pulei da cadeira, e vi meu próprio demônio diante de mim: não é verdade que ele nada tenha compreendido dos textos de Derrida! Que não compreendeu os textos em si, o seu “breve discurso” deixa claro. Mas ele compreendeu – e como conservador, compreendeu perfeitamente – que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio. Mas desvio de quê? Rumo a quê? À cultura? Ou estamos todos perigosamente fugindo da cultura? Cultura de quem? Para quem?

Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é um discurso de retenção, de contenção, e de recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo, ou do Corpo.

É de fato uma enorme questão, que o “Breve discurso sobre la cultura” tem o mérito de trazer de novo à baila. Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge.

Princeton, NJ, 13 de outubro de 2010.



  Escrito por Idelber às 17:31 | link para este post | Comentários (42)



sábado, 09 de outubro 2010

Prêmio Nobel de Literatura para Vargas Llosa

A Revista Eñe, caderno cultural do Clarín, me pediu um texto sobre o Prêmio Nobel para Mario Vargas Llosa. Minha intenção era traduzi-lo ao português para os leitores do blog mas, dado o avançar da madrugada, vai em castelhano mesmo. Façam o esforço aí.

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A la Academia Sueca le gustan las simetrías simbólicas en sus premiaciones, lo que no quiere decir, desde luego, que ellas tengan algo que ver con la literatura. En el panteón del Nobel, para cada Gabriel García Márquez, hay un Octavio Paz. Para cada José Saramago, hay un Mario Vargas Llosa. La oscilación es tan previsible que resulta difícil adjudicarle buena fe a las declaraciones del escritor peruano, de que no se consideraba parte del identikit del Nobel, por sus supuestas “posiciones incómodas”. Es bien sabido que también la incomodidad, en sus varias versiones, ya es una cuota que se reparte salomónicamente en Estocolmo. Ahora le toca el premio al gran portavoz de la derecha neoliberal, quizás el último escritor latinoamericano de alguna importancia a mantener la creencia en la redención por las letras, en lo literario como instrumento de ilustración y modernización de la cultura.

Lo mejor de la obra de Vargas Llosa — sin duda, sus cuentos y novelas juveniles — es una lograda autopsia de una masculinidad en ruinas. Tanto en la novela La ciudad y los perros como en los cuentos de Los jefes se instala el drama del Bildungsroman en suspenso, interrumpido, incapaz de trascender la circularidad de los ritos adolescentes de iniciación. El tema de Vargas Llosa no dejará de ser éste, aunque la “maduración” del escritor pondrá en escena el traslado de esa lógica adolescente al campo de la política.

Vargas Llosa aún produce dos magníficas obras en los sesentas, La casa verde y Conversación en la catedral. Ambas, especialmente la primera, son hitos en la incorporación de las técnicas de vanguardia a la novelística latinoamericana: el monólogo interior, la multiplicidad de voces y registros narrativos, la quiebra de la linealidad temporal. Vargas Llosa sería uno de los más eufóricos en el gesto que caracterizaría el boom de los años sesentas, a saber, la asociación entre dichas técnicas y una presunta puesta al día de la literatura latinoamericana, proceso al cual algunos llegarían a atribuir un potencial redentor, sustitutivo de nuestro retraso social y económico.

Algo ya se notaba en La guerra del fin del mundo, uno de los pocos relatos genuinamente reaccionarios sobre Canudos, pero cuando Vargas Llosa escribe Historia de Mayta, su obra ya es pura ideología. El proceso coincide con la consolidación de su convicción de que la “ideología” sería siempre un atributo perteneciente a los demás. Dicha mistificación toma aquí la forma de un binarismo entre la ilustración y el retraso, la democracia y el populismo, el progreso y el chavismo. Aparentemente sin advertir que estos binarismos son la encarnación esencial de la ideología en nuestros tiempos, Vargas Llosa ya los utilizara para, como crítico normalizador, domesticar la obra de José María Arguedas en un estudio. Si se pudiera hablar de una verdadera incomodidad a estas alturas, ella sería la (no) relación de Vargas Llosa con el vasto mundo que la obra de Arguedas representa y significa, éste sí, un mundo de alguna exterioridad incapturable por la industria de los premios.



  Escrito por Idelber às 04:16 | link para este post | Comentários (40)



sexta-feira, 27 de agosto 2010

Reedição do Clube de Leituras

Para dar o mui necessário respiro da campanha eleitoral, o blog vai reeditar o Clube de Leituras na próxima terça-feira. Para quem nunca participou, a coisa funciona assim: nós decidimos de antemão uma data e um texto, todo mundo lê, na madrugada anterior ao dia marcado eu publico um post com algumas anotações sobre o conto e conversamos todos na caixa de comentários. O Clube tem uma única regra. É proibido se desculpar por não ser especialista em literatura.

A reedição do Clube de Leituras me foi sugerida pela Flávia Cera e pelo Victor da Rosa. Eles pensaram no escritor argentino César Aira, mas o que há por aí do Aira na internet está em espanhol. Sabendo que muita gente tem preguiça de ler em castelhano, sugiro que encontremos algum conto de escritor brasileiro. O projeto Releituras tem muita coisa, assim como o site Domínio Público. Decidam-se por um texto e, no momento que tivermos a escolha feita, eu atualizo este post com o título da obra. Pode ser um conto ou dois contos que possam ser comparados. Se o clube voltar com fôlego, pensamos num romance.


Atualização: Depois de algumas horas de conversas, nos decidimos por dois contos: O Olho Silva, de Roberto Bolaño, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Na madrugada de segunda para terça, então, eu coloco aqui um post para iniciar o papo. Obrigado a todos os que ofereceram outras sugestões. Elas estão anotadas para uma próxima edição do Clube.



  Escrito por Idelber às 08:26 | link para este post | Comentários (72)



domingo, 22 de agosto 2010

Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010)

fogwill.jpg É difícil escrever o obituário daqueles em torno dos quais se cristalizaram rótulos ou anedotas redutoras. Fogwill, o desbocado, o enfant terrible, o cocainômano, o iconoclasta desmascarador dos mecanismos da má fé no mundinho literário. Fogwill, o publicitário que usa seus talentos para desprezar a publicidade e vencer na literatura. Fogwill, o poseur cheio de desafetos que soube ser atento e generoso até a última crônica. Fogwill, o excêntrico que quase todos os grandes autores argentinos da última geração cultuaram como a um mestre.

Nada disso pode obscurecer o que mais importa: Fogwill foi dos maiores escritores de um país de escritores, sem dúvida um dos mais refinados estilistas do castelhano de nosso tempo. Debochado que era, chegou a dizer que das duas horas diárias que dedicava à literatura, 85% iam para o invento e a burilada de poemas, e 15% para a sua quase universalmente admirada e elogiada prosa. Entre outras façanhas, deu forma romanesca definitiva à insanidade da Guerra das Malvinas: Los pichiciegos, relato que transcorre num subterrâneo alheio à realidade da derrota ainda desconhecida por seus habitantes (os maltrapilhos soldados argentinos), foi escrito de um tirambaço e publicado logo depois da guerra. Com 200 e poucas páginas, pôs no bolso toda uma ficção do que Fogwill chamou desaparicologia, os primeiros, tateantes intentos da literatura argentina de entender a ditadura que havia roubado as vidas de 30.000 cidadãos. “Imortalizar” é um clichê na crítica literária, mas não há melhor forma de descrever o que Los pichiciegos fez com a miséria de experiência humana que viveram os garotos enviados às Malvinas.

Sobre o mítico romance, salvo engano o único lançado no Brasil, Fogwill contou:

Nessa época eu morava no décimo andar, minha mãe no quinto. Eu descia, ao meio-dia e à tardinha, para filar algo, e a televisão estava ligada o tempo todo. Essa foi a minha única relação com as Malvinas. E no trampo... Eu tinha estado em cana, e me contrataram de diretor de criação de uma agência de publicidade que era da família do presidente (Roberto) Viola, que ostentava todas as contas publicitárias das empresas em que tinha havido intervenção do governo ... [Los Pichiciegos] foi um experimento mental. Eu me disse: 'sei de ...'Eu sabia muito do Mar do Sul e do frio, porque sofri muito frio navegando. Sabia da molecada, porque eu via a molecada. Sabia do Exército Argentino, porque qualquer um que tenha prestado serviço sabe. Cruzando essa informação, construí um experimento ficcional que está muito mais próximo da realidade do que se me tivessem mandado às ilhas com um gravador e uma câmera fotográfica no meio da guerra. Com o imediatismo dos fatos você se perde.

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Logo que chegou a notícia da sua morte, pedi à minha amiga Paola Ehrmantraut, doutora em literatura com tese da qual tive a honra de ser leitor, que me enviasse umas linhas sobre o romancista, contista e poeta que ela estudou tão bem. Disse Pao:

Para mim será sempre o escritor do espaço fechado, o que se animou a comprimir o ambiente e deixar que os personagens solucionem o resto. N'Os Pichiciegos, ele mesmo se colava entre as páginas e entre memórias do único sobrevivente daquela caverna sufocante. Lá estava Fogwill como testemunha tangencial de seus experimentos de compressão (claro, sempre esquivo e diagonal, já que, bom lutador, lançava golpes laterais). Eu gostava dos contos de Muchacha Punk e Música Japonesa, porque eram sólidos, os personagens como linhas em planos, traçados sem dúvidas, com o pulso firme.


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Como introdução à escrita de Fogwill, ofereço a tradução de minhas estrofes favoritas do Chamado aos maus poetas:

Precisa-se de maus poetas.
Boas pessoas, mas poetas
ruins. Dois, cem, mil maus poetas
se necessita mais para que estalem
as dez mil flores do poema.

Que neles viva a poesia,
a desnecessária, a fútil, a sutil
poesia imprescindível. Ou o in-
verso: a poesia necessária
a prescindível para viver.

[...]

Tudo isso abunda: faltam os poetas
os mil, os dez mil ruins, cada um
armado com seu livro de merda. Faltam,
seus ensaiozinhos e seus romances em preparação
Ah ... e os currícula,
e seus dez mil applys nos faltam.

Não é a morte do homem, é uma grande ausência
humana de maus poetas. Que floresçam
cem milhões de tentativas abortadas,
releituras, chatices,
pastas de cartolina, ilustrações
de gente amiga, jantares
com gente amiga, exegeses, escólios,
tempo perdido como tudo.

Precisa-se de poetas gay, poetas
lésbicas, poetas consagrados à questão do gênero,
poetas que cantam a fome, o homem,
o nome de seu bairro, a arte e a indústria,
a estabilidade das instituições,
a mancha de ozônio, o buraco
da revolução, a greta ácida
das mulheres, o pulsar
inaudível do pentium e a guerra
entendida como continuação da política
do comércio,
do ócio de escrever.

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Fogwill será velado hoje, na casa dos grandes. Que ele durma bem e que as editoras brasileiras acordem.



  Escrito por Idelber às 06:01 | link para este post | Comentários (12)



quarta-feira, 22 de julho 2009

Convite aos belo-horizontinos: Lançamento do novo livro de Márcia Bechara

Como já disse aqui, sou fã do Casa das Feras, da minha conterrânea Márcia Bechara. Na próxima quinta-feira, a partir das 20:00, na Livraria Quixote (ali na Fernandes Tourinho), Márcia lança seu novo livro: Métodos extremos de sobrevivência:



bechara.jpg


Eu estarei lá. Adoraria rever os conterrâneos.



PS: Enquanto eu preparo outro texto, não deixe de ler o NaMaria News.

PS 2: Se tiver estômago, visite esse festival de injúrias e xingamentos travestidos de notícia.



  Escrito por Idelber às 05:42 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 15 de julho 2009

Machado de Assis e a música: "O machete"

machado_de_assis.jpgO Machete foi, durante mais de um século, um conto praticamente desconhecido na fortuna crítica de Machado de Assis. Nos últimos anos, a partir de um trabalho de José Miguel Wisnik, da nova antologia editada por John Gledson e de umas tutameias que eu também andei fazendo, o relato ganhou certa circulação. Note-se a ironia de que este conto, que narra a dissolução de uma família, foi publicado ... no Jornal das Famílias! Não é genial? A data é 1878. Machado escolhe não incluí-lo em Papéis avulsos (1882) nem em qualquer outra de suas antologias. Por que, se o conto é danado de bom? É impossível saber, claro, mas gosto de brincar com a hipótese de que a representação debochada de um dos primeiros cornos de nossa prosa de ficção e a associação explicita da sexualidade com a música popular tenham feito dele um relato perturbador demais.

A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.

Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.

Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:

- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.

Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.

A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte. maxixe.JPG

Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.

Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.

Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.

Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.

Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.



PS: No Consenso só no Paredão, vai rolar hoje também a conversa sobre Extinção, de Paulo Arantes.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



terça-feira, 14 de julho 2009

Clube de Leituras: "O Machete", de Machado de Assis

'Bora fazer outra edição do Clube de Leituras? Então vamos. A proposta é que vocês leiam nas próximas 24 horas um conto genial de Machado de Assis. Trata-se de “O Machete”, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1878, e jamais compilado por Machado em livro. O relato só viria a ser republicado muito tempo depois. Ele está, claro, disponível na internet. Se você prefere o formato pdf, clique aqui. Se prefere ler em html mesmo, clique aqui.

Não quero adiantar muita coisa sobre o conto, mas trata-se de uma das primeiras reflexões sobre a música popular do Rio de Janeiro na era de surgimento e consolidação do então demonizado maxixe. A discussão será sobre “O Machete”, mas há outro conto de Machado que pode iluminá-lo consideravelmente. É o clássico “Um homem célebre”, que também está disponível em pdf ou em html.

Para preparar a discussão, você pode consultar um post do Biscoito: Machado de Assis e a invenção do pop. Eu fiz também um trabalhinho acadêmico (pdf) sobre Machado e a música, que não faz muita falta ler agora, já que o post de amanhã será, em grande medida, baseado nele.

Então, temos quorum para uma conversa sobre Machado de Assis e a música amanhã? Quem se alista?



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (23)



sexta-feira, 05 de junho 2009

Leticia Wierzchowski: A Casa das Sete Leticias, por Marcelo Backes

Como se sabe, este é um blog assinado por um mineiro gaúcho. Assim sendo, eu não poderia – mesmo que já não tivesse uma longa história em defesa da liberdade de expressão – ficar alheio ao processo que move Leticia Wierzchowski contra Milton Ribeiro, solicitando R$ 1.003,50 por “danos à imagem”* por causa dessa resenha escrita por Milton. Entendendo que não pode haver dano maior à imagem de Wierzchowski que a aparição da sua "obra", rompo hoje a tradição de não publicar textos alheios na íntegra para reproduzir a resenha dessa mesma "obra" escrita por Marcelo Backes. A resenha foi publicada na edição de fevereiro da revista Aplauso. Ela não está disponível na internet e é reproduzida em primeira mão pelo Biscoito – evidentemente, com a autorização do autor.

O texto que segue, portanto, é de autoria de Marcelo Backes.


A CASA DAS SETE LETICIAS

O mote de A casa das sete mulheres de Leticia Wierzchowski é grandioso. O prólogo — sem título — já dá feição de filme épico ao romance. Sete mulheres à espera de notícias, cartas e visitas de seus homens em guerra, recolhidas no isolamento de uma estância... Isso dá pra manga! O resultado obtido por Leticia é miserável.

Minha primeira desilusão foi de caráter formal. Pensei que a autora contaria a vida dos homens e suas guerras através das angústias, tristezas e alegrias das mulheres. No princípio até parece que vai ser assim, mas logo a estratégia é jogada às favas e o narrador pula de galho em galho, sem pouso certo, adentrando inclusive a guerra e o mundo dos homens.

O narrador é obsoletíssimo e vive no século XIX não apenas histórica, mas também literariamente. É uma das sete Leticias do romance. Quer dizer, o que ele narra não difere nem um pouco — nem sintática, nem conteudística, nem formal, nem lingüisticamente — daquilo que a autora pensa, daquilo que Manuela anota em seu diário, daquilo que Bento Gonçalves proclama em seus diálogos, daquilo que os guerreiros escrevem em suas cartas, daquilo que D. Antônia matuta consigo mesma. Em meados do século XIX, Manuela é capaz de escrever: “Joaquim, vindo do Rio”. Ora, com isso a personagem — elevada à categoria de narradora em seus “Cadernos” — renega sua origem hinterlândica, provinciana e antiga e assume a voz citadina, cosmopolita e atual da autora. “Vindo do Rio” é o que Leticia diria hoje, ao conversar com suas amigas. E esse é apenas um dos muitos exemplos!

Os deslizes gramaticais e semânticos do romance são incontáveis. As pessoas não são afeitas às cidades como ensina a norma, mas sim “afeita(s) das cidades”; e “guanxuma” é substantivo masculino. Não faltam escorregadelas sintáticas. Entre elas um sem-número de inversões inestéticas: “Cumprimentando com muita afeição Caetana” ou “Caetana chorou, segurando pela mão Leão”. E lugares-comuns, o primeiro deles já na terceira linha da primeira página: “cortando a noite fresca e estrelada como uma faca que penetra na carne tenra e macia de um animalzinho indefeso”. Uma listinha bem resumida dos que vêm a seguir: “Tinha umas mãos delicadas de segurar cristais”; “olhos azuis como o céu que brilhava lá fora”; “um negro atarracado e com cara de poucos amigos, mas que tinha um coração de manteiga”; “a terra estalando na madeira produziu um baque surdo e seco”. O último descreve o ruído da terra sobre um caixão — pela enésima vez na literatura universal de baixa estirpe. Às vezes a ruindade das metáforas é apenas piegas: “Um pássaro piou lá fora, um canto morno como um alento ou uma xícara de chá”.

Além disso há tempos verbais carnavalizados (“Como acontece sempre, Caetana leu-a na sala”), incongruências narrativas (na página 219 se diz que as arcas com o enxoval de Perpétua partiram para a Estância do Salso; na página 279 o enxoval está de volta à Estância da Barra para satisfazer a loucura de Rosário, que desfila vestida de noiva pela noite afora) e pleonasmos sem fim (“variada miscelânea de gentes”); um deles revela a ignorância espanhola de Leticia: “sotaque de acento estranho”. Falando em espanhóis e que tais, a língua não cansa de trazer problemas à autora. A certa altura, o uruguaio Steban se queixa: “no tiengo cova, no tiengo nadie”. Tiengo? Mas o que é isso? Portunhol levado às últimas conseqüências?

A ordem do mundo amoroso de Leticia é prá lá de panglossiana. Manuela se apaixona por Garibaldi dois anos antes de vê-lo, e Garibaldi se apaixona — entre as sete mulheres, sete letícias com acento; eu construiria meu harém na Estância da Barra — exatamente por Manuela. E Bilbao se apaixona por Mariana, que se apaixonara por ele. Tudo dá certo no mundo amoroso leticiano. Se Perpétua finca os olhos em Inácio, nenhuma das outras o faz. E Inácio tem olhos apenas para Perpétua, ignorando a gostosura das outras. Ah tá, e se o moço é casado, sua esposa flaquita por certo vai morrer em pouco. E de fato morre... Um miasma universal parece regular o mundo; um fluido mesmeriano infalível orienta o afeto das pessoas.

Em determinada passagem, Leticia revela todo o raquitismo épico de seu mundo: “e aquela guerra toda, tudo aquilo, era apenas para que ambos se encontrassem e vivessem o que lhes estava destinado”. Não, minha cara autora! O amor açucarado de Manuela e Garibaldi é que é o mote para tu falares da guerra em teu romance. Quando o mundo da alta literatura aceita frases do tipo “A vida de cada um vinha escrita como as páginas de um caderno, como as páginas do diário que ela mesma traçava todas as noites” ditas a sério, não surpreende mais o fato de Paulo Coelho alcançar a Academia.

Leticia borboleteia pelas páginas da história mas, assim como a libélula — que chamamos de molha-o-cu no meu interior missioneiro —, apenas toca a superfície das águas passadas, sem jamais mergulhar nelas. O mundo física e metafisicamente fashion da autora opõe cicatrizes e façanhas: “Terá vitórias e façanhas para contar aos filhos, ou cicatrizes?” Se cicatrizes são provas de façanha e vitória no mundo pampeano, no mundo fashion de Leticia — ai, ai, ai — cicatriz é feio... E quando Leticia tenta fugir ao fashion, é uma jericada atrás da outra. Sua fantasia é tanta que ela inventa os primeiros “alazães negros” do pampa. Ora, alazão já tem a cor no nome: é um “cavalo que tem a pelagem cor de canela, amarelo-avermelhada”, segundo o Aurélio. É pouco? Pois Leticia inventa também o “zaino negro” e o “alazão branco”. Só falta mesmo é o “baio lilás”!

O vocabulário do romance é agauderiado artificialmente. Só nas primeiras páginas é uma porção incontável de “decertos”, “muis” e “arreglados” maculando a sintaxe citadina da obra. O manejo do “mui”, aliás, trai mais uma vez o caráter incipiente — e insipiente — do livro. A certa altura está escrito: “tratava-se de um posto de mui importância”. Ora, mui é advérbio usado apenas antes de adjetivo ou de advérbio terminado em mente, por vezes ante um verbo, jamais antes de um substantivo. Foi descuido, é? Logo um personagem volta a escrever: “mui trapaças nos fez”. Pobre Leticia! O vício dos “decertos” faz com que a uruguaia Caetana — pro meu gosto a mais gata entre as beldades do harém — proclame um “de cierto” em resposta confirmativa, quando deveria dizer “sí, por cierto”, como qualquer uruguaio — ou argentino — faria. Essa é imbatível? Não! De repente, sem mais nem menos, D. Ana parece descender de colonos alemães e diz: “Quando os homens voltarem, faremos uma baile”.

E eu que comecei falando em expectativas! Às vezes o romantismo descabelado de Leticia se torna bonzinho, vá lá: “Hay una floresta dentro dos vossos olhos, Manuela. E io sono perdido in questa floresta”. A metáfora de boa qualidade também existe, ainda que rara: “Mas a guerra estendia-se por sobre o tempo como uma colcha antiga”.

Em A casa das sete mulheres todo mundo é vidente. O sobrenatural é vulgarizado, normalizado, cotidianizado. O realismo mágico latino-americano é desvirtuado à metafísica de empregada. O que era mítico em Simões Lopes Neto se torna místico em Leticia. Os sonhos — tanto os de Borges quanto os de Freud — são desqualificados à condição de delírio visionário estúpido. Nem vou falar dos deslizes históricos da obra, mas A casa das sete mulheres é um exemplo raquítico do que há de pior na vertente mais prolífica — em termos quantitativos, pelo menos — da literatura gaúcha: o romance histórico.


*Atualização do editor do blog: Lendo o processo com a assessoria jurídica do Biscoito, vejo que R$1.033,70. é um valor para efeitos de custas da burocracia, determinação de competência do juízo e cálculo de honorários de advogado. O pedido é que o juiz arbitre o valor dos "danos morais". Fica aí a correção.



  Escrito por Idelber às 04:25 | link para este post | Comentários (63)



quinta-feira, 04 de junho 2009

"Amor", de Clarice Lispector e "I love my husband", de Nélida Piñon

clarice.jpgClarice Lispector, invariavelmente, construía histórias em que um personagem prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Esses relatos costumam ter uma estrutura que se repete de livro para livro. Em primeiro lugar, há uma descrição do embrutecimento do mundo; depois, o acontecer inexplicável da cintilação, aquilo que, a partir de James Joyce, convencionamos chamar de epifania; finalmente, uma restauração estranha, distanciada da ordem embrutecida. Até aí, não há nada de muito novo. De certa forma, poderíamos dizer que toda literatura narra isso mesmo: ordem / ruptura da ordem / recomposição da ordem. O que é (o) “Amor” senão isso?

De onde, então, a fascinação por Clarice?

Há um momento na trajetória de Clarice, ali pelos anos 50, no período de composição do livro Laços de família (antologia na qual se publica o relato “Amor”), em que a ordem passa a ser inequivocamente associada à vida de uma mulher de classe média. É assim em A Paixão segundo G. H., em Feliz Aniversário, em “Amor”. Reparem no cuidado com que o narrador se refere ao apartamento que estavam aos poucos pagando. A ruptura dessa ordem, também nesse período, começa a ser representada pela emergência abrupta de um ser estranho a ela. Em A paixão segundo G. H., é a famosa barata. Em “Amor”, um cego mascando chiclete. A relação entre a ordem e a personagem não é simples de se definir. Não se trata de uma ordem imposta a ela, como se ela fosse uma mera marionete passiva. Mas tampouco se trata de uma ordem construída teleologicamente, a partir de um plano sobre o qual a personagem tivesse total controle: viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.

Não sei se isso fica visível numa primeira leitura, mas todo o conto está construído a partir de oximoros: felicidade insuportável, tranquila vibração, náusea doce, bondade dolorosa e por aí vai. Os adjetivos não casam com os substantivos. Esses estranhamentos com a linguagem, situações em que as palavras parecem brigar umas com as outras, são uma das marcas registradas de Clarice. Acometem suas personagens e, particularmente, as mulheres. Submetidas a uma ordem claramente patriarcal, as mulheres de Clarice nunca são militantes revolucionárias em confronto com essa ordem. Elas são sujeitos de um acontecimento no sentido forte do termo: um evento que rearranja toda a ordem, assim como o lugar da mulher em seu interior. A ordem continua lá, mas tudo se transformou: alguma coisa tranquila se rebentara, afinal ela atravessara o amor e o seu inferno.

Já perdi a conta de quantas vezes lecionei, em cursos de graduação, o texto de Clarice em contraponto com o relato de Nélida Piñon, I love my husband. Em geral, situo estas duas histórias no meio do semestre, num momento em que já conheço meus alunos. Gosto de fazer uma brincadeira secreta, comigo mesmo, tentando adivinhar quem vai gostar de qual conto. Praticamente ninguém gosta dos dois ao mesmo tempo. Quase ninguém desgosta dos dois (lembrem-se que meus alunos de graduação são todos norte-americanos; para a pós, vem gente de tudo quanto é canto, mas para a graduação, não). Esse estranho parentesco e aparente incompatibilidade entre os dois relatos sempre me intrigou.

Deixo para vocês as elucubrações sobre “I love my husband”, sobre as mil e uma outras coisas que podem ser ditas sobre o texto de Clarice, e sobre as várias aproximações e contrastes possíveis entre os dois contos.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (53)



quarta-feira, 03 de junho 2009

Clube de Leituras, com Clarice e Nélida

clispector.jpg A edição da semana passada do Clube de Leituras, dedicada a Caio Fernando Abreu, foi dos meus momentos favoritos em toda a história do blog. O Clube, que já discutiu calhamaços como Grande Sertão: Veredas e Romance da Pedra do Reino, passará agora a privilegiar textos breves. Eles permitem que nos reunamos praticamente sem aviso prévio e alcancemos muito mais gente. Minha proposta é que passemos a quinta-feira conversando sobre Clarice Lispector e Nélida Piñon.

Convido-os, pois, a que voltem aqui dentro de 24 horas tendo lido dois textos: Amor, de Clarice Lispector, e I love my husband, de Nélida Piñon. Ao concluir a leitura, você perceberá por que eles vão juntos. Possuem um nítido parentesco temático e são, ao mesmo tempo, bem diferentes do ponto de vista literário. São textos que eu leciono com certa frequência. Na graduação, especialmente, provocam reações bem diversificadas.

Como sempre, links a comentários, estudos e entrevistas são bem-vindos nesta fase preparatória. Recordo-lhes que se o site Releituras cair de novo, os textos ainda estarão disponíveis no cache do Google, aqui e aqui. Na madrugada de quarta para quinta, então, eu colocaria um post sobre os dois contos.

Temos quorum? Quem topa?



PS: Graças à cortesia de Alexandre Inagaki, minha entrevista à TV Assembléia-MG sobre o AI-5 digital já está disponível na rede.



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quinta-feira, 28 de maio 2009

Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgEsta é uma reunião do Clube de Leituras do Biscoito, que já discutiu obras de Ariano Suassuna, Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Martín Kohan e Guimarães Rosa. O Clube tem uma única regra: é proibido pedir desculpas por não ser especialista ou doutor em literatura. A ideia é ter uma conversa tranquila, leve, solta. O meu post nunca é uma análise exaustiva da obra. É só um pontapé inicial. Comente o que quiser sobre o texto, respondendo ou não ao post (não quero ser pretensioso ao ponto de achar que derrubei o site Releituras com meu link, mas o fato é que ele não está abrindo; se ainda não leu o conto, leia-o no cache do Google).



Como é comum na grande literatura, Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, pode ser reduzido a um argumento banal. Dois homens, Raul e Saul, vêm de relações frustradas com mulheres. Eles conseguem empregos numa mesma repartição. São discretos e chamam a atenção por sua beleza e elegância. Têm em comum a paixão pelo cinema, que pouco a pouco os aproxima. Tudo acontece lentamente, apesar da brevidade do conto. O narrador nos diz que “durou tempo” o longo prólogo composto de cumprimentos casuais e trocas de cigarros. Um dia, Saul relata que chegara atrasado por culpa de um filme. Tratava-se de The Children's Hour, que narra a história do inferno vivido por duas mulheres acusadas de serem lésbicas. Como sempre na grande literatura, o intertexto não é casual.

A amizade vai se consolidando. Começam a desejar que os fins de semana passem rapidamente. Ficam juntos nas festas. Compartilham boleros. Por fim, trocam telefones. O conto é breve, mas a lentidão com que se arrasta tudo é enlouquecedora. Quando é que esses dois vão trepar, meu Deus do céu? Morre a mãe de Raul – sempre, sempre a mãe -- e Saul perde as estribeiras. Na única vez em que dormem juntos, limitam-se a olhar a brasa dos cigarros que acende o outro. No dia em que chegam juntos à repartição, as mulheres já não os cumprimentam. Este elemento é chave para o conto: não acontece nada sexual entre eles

Quando voltam das férias, os dois são chamados pelo chefe. Um anônimo lhe havia enviado cartas com termos como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio". São despedidos. Enquanto eles entram num táxi, o narrador nos diz que "ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram".

Ao contrário de boa parte da literatura norteamericana considerada “gay”, a ficção de Caio não narra a saída do armário ou a marcha militante na luta contra o preconceito. Não há nada retumbante e heroico. Fundamental, nesse conto, é o fato de que não sabemos se são gays ou não. Na realidade, é impossível saber, não importa. Eles mesmos não sabem. Une-os um afeto que ainda não tem nome. Sutil, a literatura de Caio trabalha nessas zonas de indeterminação.

O escritor argentino Ricardo Piglia defende a tese de que um conto sempre narra duas histórias. As diferenças entre as várias vertentes da narrativa moderna dependeriam das diversas possibilidades de se relacionar a história 1 com a história 2. Aqui temos a história do afeto homoerótico entre Raul e Saul e a história do pânico homofóbico dos colegas. Qual é a grande originalidade de Caio? Dissociar completamente a história 2 da história 1. Em outras palavras: não é a existência de “dois gays” no ambiente de trabalho o que desata o pânico homofóbico. Talvez, inclusive, a presença de dois gays assumidos não provocasse tal terremoto. O que enlouquece a estrutura heteronormativa é que não se sabe qual é mesmo a relação entre os dois. A ironia adicional do conto, claro, é que os dois tampouco sabem qual é a natureza do afeto que os une. Estão descobrindo. Mas o pânico homofóbico não permite que a descoberta se realize na repartição. Terão realizá-la em outro lugar.

Hipótese de leitura, então: o mais assustador para a estrutura social que administra a sexualidade heteronormativa não é a existência de gays e lésbicas, com práticas não sancionadas pelo modelo dominante. Isso também, claro. Mas o que realmente sacode as estruturas é a crise da linha divisória supostamente clara que separaria hetero- e homoerotismo. O que enlouquece a repartição é que eles não são capazes de catalogá-los.

Gosto muito, muito mesmo das frases finais do conto. Convido-os a que reflitam sobre elas. Tudo nesse relato é significativo: os títulos das canções que compartilham, o nome do gato sabiá*, o filme que os une, os nomes dos personagens. Convido-os a interpretar esses elementos. Convido-os também, claro, a discordar de minha interpretação ou a oferecer outras possíveis -- ou simplesmente dizer qual foi a sensação de ler o conto. Não há melhor homenagem a um grande autor que a proliferação de leituras diferentes e contraditórias.

Viva Caio.


*Crédito a quem corrigiu o meu inexplicável erro de transformar sabiá em gato: Milton Ribeiro.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (192)



terça-feira, 26 de maio 2009

Clube de Leituras: Um papo sobre Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgGostaria de convidar os leitores do blog para, dentro de 36 horas, iniciar mais uma edição do Clube de Leituras. Desta vez vamos fazê-lo sem grandes preparações, porque não será um romance e sim um brevíssimo conto. Eu me arriscaria a dizer que se trata do meu conto favorito em toda a literatura brasileira contemporânea, entendendo-se “contemporânea”, digamos, como o pós-Guimarães Rosa. Há nesse conto uma perfeição, um esmero, um certo equilíbrio entre o dito e o não dito.

Escrito pelo gaúcho Caio Fernando Abreu e publicado no livro Morangos mofados (Brasiliense, 1982), o relato Aqueles Dois está no centro do projeto de pesquisa que começo a desenvolver sobre a masculinidade na prosa de ficção. Eu gostaria de testar aqui algumas hipóteses de leitura e receber críticas e sugestões. Os interlocutores, evidentemente, serão creditados quando eu publicar o livro.

O plano seria, então, o seguinte: vocês leem essa maravilha. Na madrugada de quarta para quinta, eu publico uma breve reflexão sobre o relato de Caio e passamos o dia conversando. Assim, aproveitamos e nos desintoxicamos um pouco da política – o que não quer dizer que o conto de Caio não seja também político. Do que há por aí sobre Caio na internet, eu gosto muito desse depoimento (notem a participação dele no Roda Viva).

Fiquem à vontade para usar esta caixa de comentários e compartilhar outros links acerca do escritor gaúcho ou as primeiras impressões que tiveram lendo o texto. Mais não digo, para não influenciar sua leitura. Na quinta-feira conversamos.

Quem se anima?



  Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post | Comentários (50)



sexta-feira, 24 de abril 2009

Estante de Walter Benjamin

DSC04394.JPG

Bom, parece que havia interesse em prateleiras de não ficção. Esta é a que fica imediatamente ao meu lado esquerdo, com os livros de e sobre Walter Benjamin.

Do lado direito, dois exemplares dos oximoros do Brasil: a primeira longa e competente exegese desse ensaísta errático que revolucionou o pensamento de esquerda foi feita pelo grande intelectual humanista que teve a direita brasileira em décadas passadas. Falo, claro, do Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, de José Guilherme Merquior (ed. 1969).

Segundo oximoro brasileiro-benjaminiano: uma das abordagens mais sistemáticas a Benjamin que se seguiriam foi feita por .... um ministro de Fernando Collor de Mello, Sérgio Paulo Rouanet. O édipo e o anjo e As razões do iluminismo estão aí (este último é só parcialmente sobre Benjamin).

O xerox encadernado é a edição francesa do Livro das Passagens, com a qual trabalhei muito, antes de que saísse a tradução inglesa, também aí na prateleira, e a magnífica versão da UFMG, que ainda não comprei. Fininha, ao lado de Rouanet, a tradução feita por meu amigo Marcio Seligmann-Silva d' O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão, a tese de doutorado de Benjamin. Também fininha, vermelha, aquela que eu reputo ser a mais magnífica tradução de fragmentos de Benjamin, a compilação Dialéctica en suspenso feita pelo amigo Pablo Oyarzún no Chile.

Para atiçar a sua curiosidade e suas habilidades googladoras, aí vão dicas para que se complete o post. Além das traduções de Benjamin que você vê aí, há nessa prateleira mais quatro livros brasileiros sobre Benjamin, escritos por três magnifícas ensaístas brasileiras (bem, uma delas por adoção). Do lado direito, deitado, no meio da pilha de três, a tradução inglesa das memórias mais poéticas já escritas sobre Benjamin. Há também três livros que representam as duas escolas que se degladiam na fortuna crítica angloamericana. Há um belo livro sobre fotografia e um esbelto e indispensável volume escrito por dois holandeses. E há um romance sobre a morte de Walter Benjamin, essa incrível alegoria do nosso tempo.



  Escrito por Idelber às 17:34 | link para este post | Comentários (24)



terça-feira, 14 de abril 2009

Livros de luto em BH: Morre o alfarrabista Amadeu, aos 92

P.L.: Então sua vida profissional sempre esteve cercada por estantes?

Amadeu: Sim, sempre no meu ramo. Até que uma vez um cliente amigo me ofereceu um emprego público. Ele era funcionário do governo. Era garantido. Eu ganhava 120 mil réis, e ele me oferecia 200 mil. Nesta vez eu quase saí.

P.L.: O que houve de errado? Ou “certo”, não sei dizer...

Amadeu: Bem, ele me deu um memorando e me mandou procurar o Presidente do Estado, Olegário Maciel. Naquela época ele atendia a todos pessoalmente. Era setembro de 1933. Estava uma fila enorme, cada qual “chorando as suas mágoas”, e quando chegou a minha vez ele me deu uma senha e me mandou voltar no dia seguinte.

P.L.: Já sei: o senhor não voltou...

Amadeu: Que nada! Voltei todo arrumadinho, até. O Palácio estava cheio de repórteres, todos num grande alvoroço. Quem não voltou foi ele. Havia morrido naquela manhã. (Risos)

P.L.: Quer dizer que se Olegário Maciel não tivesse morrido no dia em que morreu provavelmente hoje não existiria a Livraria Amadeu?

Amadeu: Pois é. Mas o fato é que morreu, e eu sempre trabalhei em livrarias. Aos poucos vi que as pessoas procuravam por livros usados e não havia onde comprá-los. Em 1948 apareceu um crítico literário amigo meu, que estava indo para o Rio, e falou “Amadeu, estou indo para o Rio e vou te vender minha biblioteca”. Eram uns mil volumes.

P.L.: Nasceu a Livraria Amadeu.
Amadeu: É. Montei meu sebo perto da Igreja São José, na rua Tamóios. No primeiro dia eu vendi apenas um livro: Poesias Completas de Manuel Bandeira.

Amadeu.jpg

São trechos da entrevista de Ewerton Martins Ribeiro com Amadeu Rossi Cocco em outubro de 2004. Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas. Na Tamoios.

Era um daqueles alfarrabistas que amavam a singularidade de cada edição, um colecionista benjaminiano. Como a maioria no seu tempo, era profundamente francófilo e associava a narrativa francesa oitocentista – quiçá com muita razão, aliás – ao auge absoluto da literatura, do objeto livro de ficção enquanto tal. Mas ia atrás de tudo. Era um caçador de livros, que os cuidava e encaminhava com um carinho impressionante.

É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.

Todas as homenagens que houver na cidade serão insuficientes para dimensionar o que ele representou numa era pré-Internet, pré-bancos de dados, onde a procura bibliográfica era bem mais acidentada, dura, sujeita a erros.

Obrigado, Seu Amadeu, pelas incontáveis horas de leitura que me proporcionou. Que chatice chegar a BH neste maio sem ter o senhor aí.

Confira a crônica de João Antonio de Paula. Há um obituário no blog do Ewerton (via paulodaluzmoreira).



  Escrito por Idelber às 20:21 | link para este post | Comentários (25)




Um soneto de Luis de Góngora

Quando por competir com teu cabelo
ouro brunido ao sol reluz em vão
quando com menosprezo sobre o chão
olha tua branca fronte o lírio belo

enquanto a cada lábio, por detê-lo,
seguem mais olhos que ao cravo auroral
enquanto triunfa com desdém vital
do luzente cristal teu gentil colo,

goza colo, cabelo, lábios, fronte,
antes que o que foi em tua era dourada,
ouro, lírio, cravo, cristal luzente,

não só tal prata ou violeta truncada
se torne, mas tu e ele juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.


de: Góngora, Luis de. Sonetos completos. Madrid: Castalia, 1989, p. 230. Tradução: I. Avelar.

***********************


Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o víola troncada
Se vuelva, mas tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.



  Escrito por Idelber às 00:57 | link para este post | Comentários (23)



sexta-feira, 10 de abril 2009

Produção acadêmica em pdf

Pendurei aqui no site uma parte da minha produção acadêmica. Esse material passa agora a estar licenciado em Creative Commons, como tudo no blog. Os links que se seguem são, pois, todos pdfs. Os títulos vão na língua original em que está escrito cada texto.

Alegorías de la derrota: La ficción postdictatorial y el trabajo del duelo (Santiago: Cuarto Propio, 2000). Meu primeiro livro, na íntegra. Ele saiu em inglês originalmente e também está publicado no Brasil, mas a edição feita pela UFMG, de 2003, já está em fase de liquidação de estoque. Aí vai, pela primeira vez, a versão em espanhol, que é essencialmente a mesma. O pdf do livro em português eu não tenho.

Xenophobia and Diasporic Latin Americanism: Mapping Antagonisms around the Foreign.” Ideologies of Hispanism. Ed. Mabel Moraña. Hispanic Issues Series. Nashville: Vanderbilt UP. 2004. 269-83. Artigo sobre xenofobia.

Cómo respiran los ausentes: La narrativa de Ricardo Piglia.” Modern Language Notes 110 (1995): 416-32. Um estudo sobre dois romances de Ricardo Piglia.

The Ethics of Criticism and the International Division of Intellectual Labor.” SubStance 91 (2000): 80-103. Gosto desse artigo. Rendeu um bom debate por aqui durante alguns anos.

The Logic of Paradox in Guimarães Rosa's Tutaméia.” Latin American Literary Review 43 (1994): 67-80. Artigo sobre Rosa, publicado numa época em que o Brasil ainda era tricampeão do mundo.

A Morta, de Oswald de Andrade: A Emergência de uma Mímesis Paradoxal no Teatro Brasileiro.” Latin American Theater Review 29 (1995): 21-37. Uma análise dessa mui pouco estudada obra de Oswald.

Restitution and Mourning in Latin American Postdictatorship.” boundary 2 26.3 (1999): 201-24. Um estudo sobre a escritora argentina Tununa Mercado.

Resenhas:

Resenha de Divergent Modernities: Culture and Politics in Nineteenth-Century Latin America, de Julio Ramos (em inglês).

Resenha de Ziembinski e o Teatro Brasileiro, de Yan Michalski (em português).

Resenha de Tropical Multiculturalism: A Comparative History of Race in Brazilian Cinema and Culture, de Robert Stam (em inglês).

Resenha de Um crítico na periferia do capitalismo: Reflexões sobre a obra de Roberto Schwarz, de Maria Elisa Cevasco e Mílton Ohata (em português).

Resenha de Nós, os Mortos: Melancolia e Neo-Barroco, de Denílson Lopes (em espanhol).



  Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post | Comentários (14)



quinta-feira, 26 de março 2009

Darconville's Cat, de Alexander Theroux: obra-prima lançada ao deciframento futuro

1-theroux.jpg Em 1999, a partir de uma indicação casual, cheguei a um livro assombroso: Darconville's Cat (1981), do escritor americano, erudito e católico Alexander Theroux. Relatar a história deste assombro é o objetivo das linhas que seguem.

Aproximei-me com a relutância normal que suscitará um monstrengo de 700 páginas já publicado há anos e sobre o qual não há críticas ou resenhas especializadas (no Google você não encontrará nada de substância). A Modern Language Association Bibliography, uma espécie de museu bibliográfico de tudo, não registra mais que três escritos sobre ele. À medida em que eu o lia, tomado por entusiasmo febril com a extraordinária originalidade do romance, passei a consultar os professores de literatura angloamericana contemporânea que pude encontrar: Michael Bérubé, Cary Nelson, Joe Valente, ninguém jamais havia ouvido falar de Theroux ou de um livro intitulado Darconville's Cat.

Posto que acadêmicos não têm como se dedicar ao estudo de obras gigantes situadas fora de sua área, terminei a vertiginosa viagem e, convicto de que estava diante de um dos maiores experimentos lexicais já feitos com a língua inglesa desde James Joyce, comprei alguns exemplares para presentear amigos, sempre implorando pateticamente por imediata leitura. Não sem antes encher um arquivo word com palavras inventadas por Theroux e ainda não dicionarizadas, me esqueci de Darconville's Cat.

Fast forward para 2009. Sem Theroux nas minhas estantes, vejo que só restam exemplares usados na Amazon e encomendo mais um. Na semana em que decido me livrar de um hábito de duas décadas e meia – ler jornais brasileiros --, perco-me de novo nas 700 páginas de Darconville's Cat, já convicto de que esse périplo tomista-joyceano pela imaginária Quinsyburg habita meu top 15 ou 20 de romances do século XX, ombreando-se com livrinhos como Paradiso, Homem sem atributos ou Grande sertão: veredas. No minúsculo grupo que se reúne em volta de Theroux, há comparações, não totalmente despropositadas, com Cervantes e Goethe. O titular deste blog não chega a tanto, mas não há dúvidas de que esse livro subterrâneo, anacrônico, intempestivo e desconhecido é um dos maiores romances de nosso tempo.

Atônito de que tantos católicos perorem sobre a "decadência" da literatura moderna sem conhecer Theroux, e decidido a assegurar-me de que Darconville's Cat seguia enterrado no mesmo silêncio, consultei um dos maiores escritores e leitores de romance da atualidade, o amigo Ricardo Piglia. “Não”, me respondeu, jamais lera ou ouvira falar de Theroux. A resposta de Ricardo não vinha desprovida de entusiasmo: 24 horas antes, ele recordava com um interlocutor a observação de Gramsci acerca da escassez de bons romancistas católicos na literatura italiana moderna. 1-theroux2.jpg

É tarefa inglória descrever Darconville's Cat, porque o livro está escrito em todos os gêneros possíveis: poemas, dramas, ensaios, oratória, epistolário, litanias, sermões, fábulas, paródias, tratados. Sua língua não se parece com qualquer dos modelos canônicos de prosa em inglês, de Sterne a Pyncheon, embora Theroux compartilhe algo com ambos. Grosso modo, trata-se de um idioleto que evoca o que seria a sátira do século XVIII (Swift e cia.), se esta estivesse escrita com sintaxe e léxico ao mesmo tempo medievalizantes e joyceanos, ortodoxamente tomistas em sua visão de mundo e alucinatoriamente modernas em sua forma. Labirínticas e barrocas, algumas frases de Theroux são um turbilhão de invenções lexicais com raízes gregas, latinas e germânicas. Outras oferecem a reprodução paródica da fala de Quinsyburg, Virgínia, captando o povoado protestante com verve e crueldade implacáveis, jamais sequer sonhadas por um satirista ateu.

Uma espécie de Ulisses católico, então? Não exatamente, porque Darconville's Cat é também umas das mais insólitas histórias de amor dos tempos modernos, um relato arrendondado, fechadinho, um romance, no sentido que tem a palavra em inglês. Darconville, 29 anos, poliglota católico de New England, de raízes francesas e italianas, não realiza o sonho de ser padre e aceita um emprego como professor no Departamento de Inglês de um pequeno college no sul estadunidense mais retrógrado e batista, a tal Quinsyburg (imaginária, mas localizável, segundo dicas do romance, aqui). Acompanhado do gato Spellvexit, ele ali chega para concluir seu Rumpopulorum, o tratado definitivo que sintetizará toda a bibliografia acerca de seu tema – a história das comunicações entre o mundo dos anjos e arcanjos com o mundo dos mortais.

Logo depois que Darconville aterriza nesse buraco semianalfabeto, balbuceante do Sul atrasado, acontece: ele se apaixona por uma garota de primeiro período, Isabel, uma espécie de síntese da Beatriz de Dante e da Lolita de Nabokov. Darconville vive esse amor como o viveria um católico genuíno: momento de iluminação em que está em jogo, revelada pelo amor, toda a essência do universo. Limito-me a dizer que este ateu de carteirinha jamais encontrou outro personagem tão distante de si e tão verossímil no convite à identificação.

A leitora – assim como o leitor atento ao problema da representação da mulher na ficção, ainda mais por autores homens religiosos – se perguntará por Isabel. Descrita por um narrador em terceira pessoa que faz abundante uso do indireto livre (vendo o mundo pelo prisma de Darconville), Isabel é singular, radiância única, inaudita naquele mundo de ruínas. Cristalina, cada frase sua parece emanar a verdade do ser. Ao mesmo tempo, ela é rigorosamente igual aos seus arredores simplórios (mesmo que isto seja um segredo entre narrador e leitor, ao qual o personagem masculino não tem acesso). A tensão, que faz a história da arte ser inseparável da história da misoginia, chega em Darconville's Cat a uma resolução trágica, terrorífica, que seria de mau gosto antecipar numa mera resenha.

Resta o fato de que há poucos casos, na ficção, de um homem que tenha amado uma mulher como Darconville amou Isabel; e vice-versa, ainda que este “vice-versa” seja, no romance, de implementação agonicamente adiada. Raríssimas vezes na história da literatura dois personagens acedem juntos à compreensão de que queremos ser o que amamos, mesmo se o que amamos quer que sejamos, quando amamos, o que somos (pag.225). A partir daí, o que o destino lhes reserva é implacável como costuma ser a grande literatura.

Quem traduzisse Darconville's Cat ao português de forma pelo menos competente daria ao nosso léxico uma contribuição comparável ao Ulisses joyceano de Houaiss. Cynthia Feitosa e Nelson Moraes estariam entre os não muitos brasileiros em condições de produzir uma versão à altura desta obra – o que, por miopia das nossas editoras, provavelmente não acontecerá num futuro próximo.



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terça-feira, 17 de março 2009

Jabá: Memórias Iluminadas

luminarias.jpg

Meu nome é Júlia Moreira de Araújo. Eu nasci em sete de março de 1929. Meu aniversário foi há poucos dia, o povo fez um festão, o povo ofereceu música pra mim.Eu sou bem antiga, tenho muita amizade, graças a Deus!

Eu nasci lá no Mato sem Pau. A gente fazia a mesma coisa, fazia polvilho. Depois eu vim pequenininha pra cá, pra fazenda de Vassouras. Tinha um casal sem filho lá, então eu vim morar com eles. Quem me criou foi o seu Nicanor de Assis Moreira e Luísa Oliveira Reis. Ah, eu fazia de tudo, Nossa Senhora! Eu ‘tava pequenininha e já mexia com curral de vaca, mexia com tocação de cavalo, fazia comida, cozinhava, fazia bolo, fazia de tudo! É, graças a Deus, sou prendada.

Eu conheci o Mané Carneireiro. Ele tinha o apelido de Mané Carneireiro,mas era mascate de pano. Ele vendia era pano. Tinha um outro carneireiro que passava e comprava carneiro. E era aquela carneirada antigamente, né? O mascate chegava, pedia apoio e pousava. E quando esse povo vinha, nós carteava em casa na parte da noite.

Eu também gostava de cantar nos pagode, mas eu não tinha quase tempo, porque eu tinha que ficar cuidando dos filho, fazendo café. Mas a gente gostava muito quando tinha baile.

Na roça nós era tudo vizinho, era tudo amigo. Depois que nós mudou pra cidade, nós já era conhecido.

Eu era cantora aqui na igreja também. Aqui nessa igrejinha. Agora tão arrumando ela de novo. Eu era cantora da irmandade Filhas de Maria, era só mulher. E tive de sair quando eu casei. As Filhas de Maria era só mulher solteira. Era roupa branca com fita azul. O Sagrado Coração de Jesus usava uma fita vermelha. A Nana do Zé da Pinta cantava na igreja também. A Nana não foi do meu tempo. Ela era muito amiga, mas era de antes.

*************

Júlia Moreira de Araújo é uma das 23 personagens da cidade de Luminárias registradas em voz própria no trabalho de história oral feito pela minha cunhada, Andressa Gonçalves, e pelo meu concunhado, Paulo Morais. Situada ao leste de Varginha, um pouco ao sul de Lavras e ao norte de Caxambu, Luminárias é daquelas profundezas de interior de que só Minas é capaz. É o lugar perfeito para um trabalho de história oral dessa natureza.

Acompanhei de longe a produção do livro, pude manuseá-lo na passagem de ano e sempre fui entusiasta do projeto. Não posso deixar de registrar, pois, a grande notícia de que o livro está disponível na internet em pdf. Vale a leitura para quem se interessa por história oral, causologia mineira, história do cotidiano e adjacências. Animal político que sou, gostei muito dos depoimentos de Nagib e Dalva Murad (pp.61-73). Feita com esmero, a transcrição das falas é fiel sem ser pitoresca.

Confiram lá, pois. No blog da Viraminas há outro livro para download, com memórias de professores tricordianos, prefaciado por minha mestra e guru-mor, Ana Lúcia Gazolla. E também a história da peregrinação por uma série de cidades mineiras.

Parabéns à Andressa e ao Paulo pelo trabalho memorioso.



  Escrito por Idelber às 21:29 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 13 de março 2009

Teses sobre o conto, de Ricardo Piglia

RP.jpgI

Num de seus cadernos de anotações, Tchékhov registra esta anedota: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo desse relato futuro e não escrito.

Contra o previsível e o convencional (jogar-perder-suicidar-se), a intriga se coloca como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa cisão é chave para definir o caráter duplo da forma do conto.

Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.

II

O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constroi em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Um relato visível esconde um relato secreto, narrado de modo elíptico e fragmentado.

O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.


V

O conto é um relato que encerra um relato secreto. Não se trata de um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é outra coisa que a história que se conta de um modo enigmático. A estratégia do relato está posta a serviço dessa narração cifrada. Como contar uma história enquanto se está contando outra? Essa pergunta sintetiza os problemas técnicos do conto.

Segunda tese: a história secreta é a chave da forma do conto e de suas variantes.

VI

A versão moderna do conto que vem de Tchékhov, Katherine Mansfield, Sherwood Anderson e do Joyce de Dublinenses, abandona o final surpreendente e a estrutura fechada; trabalha a tensão entre as duas histórias sem resolvê-la nunca. A história secreta se conta de um modo cada vez mais elusivo. O conto clássico à la Poe contava uma história anunciando que havia outra; o conto moderno conta duas histórias como se fossem uma só.

A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história secreta se constroi com o não dito, com o subententido e a alusão.


VII

[...]

O que teria feito Hemingway com a anedota de Tchékhov? Narrar com detalhes precisos a partida e o ambiente onde se realiza o jogo e a técnica que usa o jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto como se o leitor já o soubesse.

VIII

Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta, e narra sigilosamente a história visível até convertê-la em algo enigmático e escuro. Essa inversão funda o “kafkiano”.

A história do suicidio na anedota de Tchékhov seria narrada por Kafka em primeiro plano e com toda naturalidade. O terrível estaria centrado na partida, narrada de modo elíptico e ameaçador.

IX

Para Borges a história 1 é um gênero e a história 2 é sempre a mesma. Para atenuar ou dissimular a essencial monotonia dessa história secreta, Borges recorre às variantes narrativas que oferecem os gêneros. Todos os contos de Borges estão construídos com esse procedimento.

A história visível, o jogo na anedota de Tchékhov, seria contada por Borges segundo os estereótipos (levemente parodiados) de uma tradição ou um gênero. Uma partida no armazém, na planície entrerriana, contada por um velho soldado da cavalaria de Urquiza, amigo de Hilario Ascasubi. O relato do suicídio seria uma história construída com a duplicidade e a condensação da vida de um homem numa cena ou ato único que define seu destino.

X

A variante fundamental que introduziu Borges na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada da história 2 o tema do relato.

Borges narra as manobras de alguém que constroi perversamente uma trama secreta com os materiais de uma história visível. Em A morte e a bússola, a história 2 é uma construção deliberada de Scharlach. O mesmo acontece com Acevedo Bandeira em O morto; com Nolan em Tema do traidor e do heroi; com Emma Zunz.

Borges (como Poe, como Kafka) sabia transformar em anedota os problemas da forma de narrar.


Fonte: Ricardo Piglia, Crítica y ficción (Bs.As., Siglo XX, 1993), pp. 75-79. Tradução I.Avelar. Foto: daqui.



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sexta-feira, 30 de janeiro 2009

Em Los Angeles

A convite dessa magnífica instituição, vou passar uns dias em Los Angeles, cidade-véu por excelência que, por incrível que pareça, eu não conheço até hoje. Confiando que quem dirige em BH dirige em qualquer do lugar do mundo, aluguei um carrinho com GPS para o fim de semana na Califórnia. Volto na quarta e até lá o mais provável é que o blog fique meio largado.

Se você está na Costa Oeste dos States e quiser dar um pulo até a palestra, o papo é sobre estudos de masculinidade nas literaturas brasileira e hispanoamericana e acontece na segunda à tarde no Departamento de Espanhol e Português, sem dúvida um dos líderes da disciplina nos EUA.

Até já, pois.



  Escrito por Idelber às 16:41 | link para este post | Comentários (14)



quinta-feira, 04 de dezembro 2008

O Dia de São Crispim (tradução: Nelson Moraes e Cynthia Feitosa)

Desde a noite de 04 de novembro, está muito presente na minha memória um trecho de Henrique V, de Shakespeare, em que o rei discursa sobre o dia de São Crispim. Sabendo que eu não era a pessoa mais indicada para traduzi-lo, fiz o pedido aos dois melhores tradutores literários da internet brasileira e eles foram generosos. A jóia que você lerá agora, portanto, não tem qualquer mérito meu, a não ser o de ter tido a idéia. A tradução é um presente à língua portuguesa dado por Nelson Moraes e Cynthia Feitosa.

Quem é que deseja isso?
Meu primo Westmoreland? Não, meu caro primo;
Se estamos destinados a morrer, já somos o máximo
Que nosso país pode perder; e, se vivermos,
Quanto menos formos, maior a honra que partilharemos.
Deus! Te imploro, não queiras nenhum homem mais,
Por Júpiter! Não sou avarento com o ouro,
Nem me importo que vivam às minhas custas;
Não me incomoda que outros vistam minhas roupas:
Tais coisas de aparência não estão entre meus valores;
Mas se for pecado cobiçar a honra,
Sou a alma mais pecadora de todas.
Não, tenha fé, primo, não queiras mais nenhum homem da Inglaterra!
Pelo amor de Deus! Eu não perderia uma honra tão grande
Ainda que um só homem fosse dividi-la comigo,
Porque espero o melhor. Não, não peças mais nenhum homem! Melhor proclamar,
Westmoreland, a todos os meus soldados,
Que àquele que não tiver estômago para lutar,
Deixem-no ir: nós lhe daremos um passaporte
E poremos uns escudos para viagem, em sua bolsa;
Jamais morreríamos na companhia de um homem
Que teme morrer como nosso companheiro.
Este dia é o da festa de São Crispim;
Aquele que sobreviver a esse dia, e voltar são e salvo para casa
Ficará na ponta dos pés quando esta data for mencionada,
Ele crescerá ainda mais, diante do nome de São Crispim.
Aquele que sobreviver a esse dia e chegar à velhice,
Em toda véspera deste dia, comemorará com os vizinhos
E lhes dirá: "Amanhã é São Crispim".
Então arregaçará as mangas e mostrará as cicatrizes,
E dirá: "Estas feridas eu ganhei no dia de São Crispim."
Os velhos se esquecem; tudo mesmo acaba esquecido
Mas ele se lembrará, com orgulho
Das proezas que realizou naquele dia. E então nossos nomes,
Tão familiares em sua boca quanto os de seus parentes –
O rei Harry, Bedford e Exeter,
Warwick e Talbot, Salisbury e Gloucester –
Serão, nos copos transbordantes, vivamente lembrados.
Esta história o bom homem ensinará ao seu filho;
E nenhuma festa de São Crispim acontecerá
Desde este dia até o fim do mundo
Sem que nela sejamos lembrados –
Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos;
Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,
Será meu irmão; seja ele o mais vil que for,
Este dia enobrecerá sua condição
E os cavalheiros ingleses que agora dormem
Se acharão amaldiçoados por não estarem aqui,
E sentirão sua honra decair, ao ouvir um outro contar
Que combateu conosco no dia de São Crispim.


PS 1: Nelson e Cynthia, de novo, obrigado.

PS 2: Se você está na região de Washington, DC ou em Maryland hoje, apareça ali (pdf) às 3:30 para essa mesa-redonda comigo e com o mestre José Quiroga.



  Escrito por Idelber às 23:37 | link para este post | Comentários (12)



segunda-feira, 01 de dezembro 2008

Relendo Gilberto Freyre

Frey-54.jpg Como Marx, Gilberto Freyre pertence àquela categoria de pensadores sobre os quais, com freqüência, jornalistas, ideólogos, polemistas, funcionários e leitores de revista e jornal já têm, ou supõem ter, opinião formada antes mesmo do encontro com os textos. Se com as citações de Nietzsche você pode montar (com diferentes graus de edição, claro) tanto o “proto-nazista” como o semitófilo anti-germânico, tanto o positivista como o crítico radical da ciência, tanto o circunspecto prosador filosófico como o enlouquecido aforista, com Freyre ocorre algo análogo. Freyre, o celebrador da mestiçagem, adocica-a ao ponto de ofender a história de opressão real de negros e mulatos, mesmo tendo sido o texto de Freyre o momento mais intenso de descrição e de arqueologia dessa história de violência, mesmo tendo sido Freyre quem mais amou e compreendeu a cultura e a especificidade de negros e de mulatos brasileiros (e das negras e das mulatas, evidentemente). Freyre demolindo analiticamente o patriarcado escravocrata brasileiro com Casa-Grande e Senzala coexiste com o Freyre salazarista, do abraço a Magalhães Pinto, numa marcha binária bastante previsível.

Lidar com com essa “contradição” do texto de Freyre – que não é uma contradição real, claro, mas só a história de vida de um ensaísta e antropólogo multifacetado que viveu mais de 80 anos – não seria tão complicado se Casa-Grande e Senzala não representasse o relato, a historinha, a narrativa, a ficção, se queres, com que os brasileiros nos inventamos como país. Coincido com Darcy Ribeiro em que, da história do que se escreveu no Brasil, muitos livros poderiam ser retirados e sentiríamos uma lacuna irreparável por cada um deles. Mas só um livro, Casa-Grande e Senzala, não poderia sair sem que o Brasil mesmo não passasse, com essa ausência, a ser outra coisa.

Daí não se segue que CGS seja o “melhor” livro brasileiro. Mas ele é o que captura e dá a versão mais acabada ao complexo de mitos que fundam o país. Isso faz com que mesmo a bibliografia especializada sobre Freyre, com notáveis exceções (pdf), com freqüência recaia numa oscilação previsível entre dois pólos, a denúncia do adocicamento versus a celebração da mestiçagem. O Fla x Flu não seria daninho se não começasse a funcionar, neste caso, como desculpas para não se ler os textos.

Nessa história de desleituras de Freyre, alguns mitos se propagaram e passaram a “fazer parte” da própria obra, às vezes, para complicar a situação, com a cumplicidade do próprio Freyre. Sobre a vilificada “democracia racial”, ainda há quem acredite ter sido noção sintetizada, defendida ou apresentada em Casa-Grande e Senzala.* Os fatos históricos (pdf) são, claro, que 1) nem esse termo nem sinônimos dele jamais aparecem no livro; 2) Arthur Ramos usa-o num seminário em 1943; 3) ele passa a circular um bocado pela boca de Roger Bastide nos anos 40/50; 4) é utilizado por líderes do próprio movimento negro para descrever uma situação supostamente existente no Brasil nos anos 50 (veja o Discurso de Abdias ao Congresso Negro de 1950), antes de que Freyre o mencionasse num texto de 1962.

Nem o “mito da democracia racial” nem o “mito do mito da democracia racial” -- ou seja, o mito de que alguém no Brasil algum dia haja acreditado em tal fenômeno –- deveriam monopolizar o debate sobre Freyre, mas o fato é que o fazem. Entre os mitos que se propagam, nem todos são igualmente falsos e nem todos têm o mesmo poder de circular e gerar mini-mitos.Alguns são bem interessados e nefastos, como a citação e a edição seletivas que sustentam a queixa de que uma conspiração da esquerda com a USP tenha impedido que Freyre fosse bem lido no Brasil. Não há hipótese de que você veja o nome de Freyre mencionado, por exemplo, em blog pago pela maior revista semanal brasileira sem que essa cantinela seja repetida com abundantes pontos de exclamação.

Esse terreno minado em volta de Freyre faz com que vários críticos e ensaístas que poderiam escrever sobre sua obra terminem não fazendo-o. Eu mesmo, que em vinte anos publiquei estudos sobre vários prosadores brasileiros, nunca havia escrito uma linha sobre Freyre. Gozando da magnífica paz de um maravilhoso Thanksgiving sem trabalho (rarará, contorça-se, leitor ressentido com a desconstrução das datas sagradas), pus fim a essa lacuna e concluí um mergulho de muitas semanas de trabalho com o texto de Gilberto Freyre, que rendeu um artigão gorducho.

Sim, acabei de escrever um calhamaço de 50 páginas sobre Freyre. É um estudo do arranjo dos gêneros e da sexualidade – em especial da masculinidade – na obra do pernambucano. Bom, na verdade em Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e até no chato e prolixo Ordem e Progresso. Estou contente, acho que ficou bom.

Não é, evidentemente, texto circulável na internet antes de que seja publicado pelos devidos – e lentíssimos -- canais acadêmicos. Mas penso, sim, usar o trabalho feito para gerar um ou dois posts sobre Freyre nas próximas semanas. Quem quiser se munir de um exemplar de Casa-Grande e Senzala, dos textos da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre e do que mais desejar, que seja bem vindo. Pode ficar sendo um mini Clube de Leituras.


PS: Alex Castro fez um magnífico exame de admissão à tese doutoral, escrevendo um de seus ensaios sobre Freyre. Não só foi aprovado como foi merecedor de distinction, honraria rara em Tulane. Para o catatau que acabo de escrever, eu me nutri do trabalho do Alex, que levantou livros que eu não conhecia.

PS 2: A foto que ilustra o post é de 1954 e vem da Biblioteca Virtual.

* Contrariando a ética blogueira de sempre dar o link, omito o nome do(a) infeliz autor(a) de publicação acadêmica de 2002, onde se diz que o "conceito teórico" de democracia racial foi desenvolvido em Casa-Grande e Senzala. Seria anti-freyriano correr o risco de prejudicar a carreira de alguém com um post de blog.



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terça-feira, 11 de novembro 2008

Cristovão Tezza: O filho eterno

tezza.jpgVencedor dos prêmios Jabuti e Portugal-Telecom, entre outros, e aclamado pela crítica, O filho eterno (2007), de Cristovão Tezza, leva a representação da experiência pessoal na ficção a um nível de auto-reflexividade raramente visto na literatura contemporânea. O protagonista do romance recebe a notícia de que será pai em meio a uma profusão de golpes à sua auto-estima. Sustentado pela mulher, seu trabalho é a escrita, mas nela fracassa, acumulando cartas de recusa das editoras e notas de eliminações em concursos literários. Na profissão, por outro lado, ele também experiencia a derrota: relojoeiro, seu ofício é, por excelência, anacrônico. Como escritor, ele ainda não é, além de não dar indicação de que poderá vir a ser; como relojoeiro, já não tem razão de existir. Esse intervalo termina se desdobrando numa temporalidade suspensa entre o fantasma da paralisia que espreita, de perto, e o resquício de atividade e iniciativa que lhe resta. Assim se encontra ele quando recebe a notícia de que será pai.

A abordagem desse inominado personagem à vida é um exame hipercrítico e cínico da natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos (p. 49). Trata-se da história de como o protagonista lidará com a paternidade em meio um colapso de outras zonas de sua masculinidade – história que é narrada numa terceira pessoa singular, original, caracterizada pelo uso do discurso indireto livre em quase a totalidade do volume. O efeito é de proximidade ao pensamento do personagem, já que o narrador fala como se estivesse “dentro” da sua cabeça. Essa vizinhança, no entanto, se inverte na relação do protagonista com o mundo, que é marcada pela distância. Revise-se os grandes mestres do indireto livre, de Jane Austen em adiante, e se encontrará poucos exemplos de exploração tão hábil da tensão entre a hiper-proximidade entre voz narrativa e personagem e, ao mesmo tempo, o hiper-distanciamento entre personagem e mundo. Vemos de perto um homem que só sabe ver de longe. O efeito é o de uma empatia impossível, agônica, entre protagonista e leitor.

No corredor do hospital, esperando a mulher dar à luz, ele fuma, marcha descompassadamente, se angustia. Marcado pelo destempo, ele chega atrasado à cena que o constitui. Só no dia seguinte ao parto, junto aos indefectíveis parentes, ele inteira-se: a criança nascera com Síndrome de Down. O filho eterno é a meticulosa mas sucinta narração desse encontro da paternidade “fracassada” com uma masculinidade já em frangalhos, num mundo em que a Síndrome de Down vai progressivamente adquirindo o caráter de emblema, alegoria de uma outra relação com o tempo, que poderíamos chamar de presente perpétuo.

Estamos no Brasil de 1980, onde “Síndrome de Down” ainda é termo exclusivamente médico. No léxico possível de seu tempo, o seu filho era um mongolóide, vocábulo que carrega essa curiosa herança do colonialismo inglês, que batizou descapacitações com o nome de etnias. A natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos dera o veredito de trissomia daquele vigésimo-primeiro cromossomo, daquele em particular. A partir daí o protagonista, um pequeno burguês que solta a franga, como bem disse Ney Reis em sua resenha, está condenado ao contato com uma classe que despreza – a dos médicos – e ao mesmo tempo a viver a medicina como desdemonização do mundo por excelência, antídoto definitivo contra as explicações mágicas. A medicina entra no relato de Tezza como confirmação da natureza lotérica da existência.

Um dos primeiros devaneios que visita o personagem é o de que, por tudo o que lera, as crianças com Síndrome de Down morrem mais facilmente e, em geral, mais cedo. O pesadelo talvez não dure tanto, afinal. O leitor tem acesso a essas fantasias monstruosas através de uma voz narrativa que esvazia, de antemão, todo julgamento moral. Só uma gigantesca viseira poderia levar a uma leitura d' O filho eterno como parábola moralizante. O texto, claramente, se recusa a submeter o personagem à prova moral, e opta pela observação da sua labuta de ir compreendendo a amoralidade essencial de todas as coisas. Ele não é, claramente, um “além-homem” nietzscheano. Não vive no mundo afirmativo da alegria. Trata-se, ao contrário, do espécime ressentido e hiper-interpretativo que em língua nietzscheana chamaríamos de “último homem.”

As matérias-primas do romance de Tezza são, portanto, uma masculinidade em frangalhos, a paternidade “fracassada” e depois lentamente reaprendida, e um tempo repartido entre o presente-intervalo (do pai) e o presente-perpétuo (do filho). Nas 220 enxutas páginas, com freqüência se alternam parágrafos que descrevem o período anterior ao nascimento de Felipe -- os anos do pai em Portugal e na Alemanha, como trabalhador ilegal -- e o presente em que vai crescendo o garoto, entre 1980 e 2005. Em algumas ocasiões, o deslocamento temporal se produz, habilmente, no interior do mesmo parágrafo. Os saltos ao presente retratam o aprendizado descontínuo, quebrado, capenga de Felipe, que um dia, acidentalmente descobre o futebol como imagem da contigência, da natureza pendente e inacabada do mundo.

Felipe, 20 e poucos anos, não lê, não escreve, mas viaja na seqüência interminável de páginas da internet. Constrói pastas que nomeia como ATLTEICO ou ALTLETICO, sempre com uma letra trocada (p.217). Procura no Google o ônibus do Clube Atlético Paranaense. Começa a viver as partidas de futebol como experiências que, ao contrário do joguinho da FIFA que ele roda no computador, são imprevisíveis, nesse que é o mais fatalista e contingente dos esportes. A imprevisibilidade do futebol vai dando a Felipe uma idéia de “futuro” e através do conceito de campeonato ele entende o de calendário. O encadeamento de jogos funciona como metáfora inteligível do devir, da passagem do tempo, mesmo que continue uma tremenda confusão sobre o que é Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores ou Campeonato Paranaense. Na medida em que Felipe vai vislumbrando algo para além do presente-perpétuo, o próprio protagonista passa a tecer outra relação – ainda precária, mas parcialmente efetiva – com sua existência no tempo e sua condição de homem e de pai.

Esse sutil deslocamento, modesto, limitado, nada triunfante, é o irredutível gesto afirmativo d'O filho eterno, sem dúvida um dos poucos romances realmente extraordinários publicados no Brasil no século que se inicia.



PS 1:

PS 2: Este post é parte de um trabalho bem mais longo, sobre a masculinidade na narrativa brasileira, de Fernando Gabeira – O que é isso, companheiro? (1979) e Crepúsculo do macho (1980) – a Caio Fernando Abreu – Morangos mofados -- (1988) e Cristovão Tezza. Apresento-o (em inglês) nesta quarta-feira no meu ex-lar, a Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, a cujos professores -- especialmente o compatriota Luciano Tosta -- agradeço pelo convite. U of I é uma das melhores universidades públicas dos EUA e dona orgulhosa da terceira maior biblioteca universitária americana.

PS 3: Leonardo Bernardes e Germano dos Santos Leite escreveram bem sobre os últimos (lamentáveis) desenvolvimentos do processo de criminalização do trabalho de Protógenes Queiroz e Fausto de Sanctis. A Associação dos Juízes Federais do Brasil divulgou nota que a Consultor Jurídico insistiu em publicar com o título "Contra o STF", em contradição com o conteúdo do texto, que se limita a defender a independência dos juízes federais antes os recentes ataques ao seu trabalho.



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terça-feira, 14 de outubro 2008

Jabá

lei-exp.jpgAcaba de sair aí no Brasil mais um volume com um artigo meu. Aproveito para fazer a divulgação do livro e convidar os leitores interessados em crítica literária e estudos culturais a que o adquiram. Ele é intitulado Leitura e experiência: teoría, crítica, relato. Os organizadores são Evando Nascimento e Maria Clara Castellões de Oliveira, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que edita o livro em parceria com a Annablume. São 16 ensaios sobre temas que vão de Machado de Assis a Woody Allen, com pesquisadores da UFJF, PUC-RJ, UFC, UERJ, UFBA, UFSC, PUC-GO, UFSM e UFES. Contribuo com um texto sobre a experiência do chamado "multiculturalismo" nos Estados Unidos, do qual reproduzo abaixo os cinco primeiros parágrafos. A íntegra, só no livro mesmo. Por coincidência, a Folha de São Paulo publicou hoje uma monstruosidade (para assinantes) sobre o mesmo assunto.


O Multiculturalismo nos Estados Unidos: História e Crítica

O termo multiculturalismo está associado a uma série de lutas simbólicas cujo principal terreno foram os meios acadêmicos norte-americanos nas últimas décadas. Tributárias dos movimentos de direitos civis dos negros e chicanos e das reivindicações feministas dos anos 1960 e 1970, essas lutas só adquirem essa rubrica específica ao se converterem numa prática acadêmica que passa a guiar não só boa parte da pesquisa produzida nas ciências humanas, como também a própria administração do aparato universitário. As lutas multiculturais conseguem alterações significativas na representação das minorias, mas são, por outro lado, incorporadas e neutralizadas por uma série de práticas de administração da diversidade, que passam a fazer parte do próprio poder econômico, estatal e militar do país. Refletir sobre o multiculturalismo é, então, refletir sobre uma experiência contraditória: democratizadora, mas sujeita a severos limites e demonstravelmente passível de absorção pelas formas mais reacionárias de poder, incluindo-se aí o bushismo, cujo gabinete “multicultural” leva a cabo a política externa mais sanguinária da história do país. O legado do multiculturalismo é, portanto, um debate sobre os limites e as realizações efetivas de uma política de reparação simbólica. A discussão não é simples.

Não há “um” multiculturalismo, e não se trata de uma “teoria” ou “ideologia”. Pensemos, para início da reflexão, no multiculturalismo como uma rubrica sob a qual se reúnem uma série de práticas, projetos e intervenções intelectuais, muitas vezes contraditórios entre si. Várias práticas de administração da diversidade étnica têm sido adotadas com inspiração nos movimentos multiculturais dos 80 e 90, e o termo está incorporado à língua inglesa em definitivo. Como sempre acontece no campo das conquistas simbólicas, boa parte da polêmica sobre o legado do multiculturalismo se resume a avaliar quais terão sido os efeitos “reais”, as conseqüências “sociais” ou “políticas” desses embates simbólicos. No caso específico desse fenômeno, há alguns efeitos bastante reais que se desentranhar, embora seja possível dizer que o auge do multiculturalismo termina com os ataques de 11 de setembro de 2001 e com a manipulação deles depois feita pelo governo Bush, ou seja, a instalação da guerra sem fim. Isso não quer dizer, claro, que políticas e trabalhos acadêmicos inspirados pelo ideal multicultural não continuem a ser produzidos, mas hoje, sem dúvida, eles deixaram de ser a forma dominante de se lidar com a diferença nos EUA.

Há vários momentos da história da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 60 que poderiam ser tomados como fundacionais para a história dessa tecnologia social da inclusão que é o multiculturalismo: as passeatas lideradas por Martin Luther King, a recusa de Rosa Parks em ceder seu lugar no ônibus, a pregação incendiária de Malcolm X pelo país, o encontro entre a luta afro-americana e a militância revolucionária de esquerda dos Black Panthers. As primeiras leis anti-segregação, impostas policialmente no sul dos EUA, poderiam ser consideradas as precursoras das políticas de reparação que depois estariam no centro do multiculturalismo. O movimento negro americano realiza essa ampliação fundamental da noção de direito ao argumentar que há uma esfera que é propriamente do direito civil, do direito à cidadania, mais além ou mais aquém do conceito de direitos humanos que, naquele momento, já completava cerca vinte anos de codificação relativamente universal e sancionada na Carta das Nações Unidas.

Quando se insiste sobre a noção de direito civil, fala-se de direito ao mesmo tempo num sentido mais restrito e mais amplo. Como sempre ocorre no momento em que um grupo oprimido qualifica, adjetiva um universal – neste caso, o direito –, o resultado é uma redefinição daquele conceito que tendencialmente o universaliza mais, ao apontar a limitada universalidade que ele possuía antes. Note-se que o grupo oprimido, subalterno, não entra na luta recusando o universal enquanto tal. Pelo contrário, ele diz: esse universal tem sido até agora falso, ele não se realizou ainda na sua plenitude, ele não nos inclui – a nós, como negros. O conceito de direitos civis, tal como usado modernamente, se cristaliza no momento em que a população à qual se havia negado o direito de cidadania se insurge para reclamar uma verdadeira universalização desse direito. A operação é desconstrutiva no sentido estrito da palavra. Ela toma um universal – o direito à cidadania – e demonstra como a sua constituição repousa sobre a delimitação de um lá-fora constitutivo e necessariamente excluído: o não-cidadão (negros, mulheres, índios, imigrantes, crianças, escravos). Esse lá-fora confere ao universal sua condição de possibilidade e demarca seu limite. Nesse primeiro momento, a operação desconstrutiva desvela o fato de que não há oposição binária que não seja, ao mesmo tempo, uma hierarquia. É o movimento negro norte-americano que realiza essa operação com a mais ilustrada e moderna das noções, o conceito de direito individual.

O primeiro postulado aqui seria, então, de que o multiculturalismo tem suas origens numa luta pela universalização da noção de direito cidadão na democracia mais antiga do planeta, quase 200 séculos depois de sua fundação. Essa universalização se ancora no reconhecimento da exclusão dos negros da cidadania na república americana, no momento de sua constituição. Em 1964 aprova-se a emenda constitucional americana que proíbe a discriminação em termos de cor, raça, gênero e origem nacional. Em 1965 promulga-se o Voting Rights Act, que garante a presença de observadores federais nos locais de votação, para garantir direitos políticos igualitários para os negros. A partir daí se promulgam leis que incentivam a “correção de discriminações passadas”. Nos EUA, foi a população negra que teve condições de realizar a crítica da noção moderna de direito. Daí o fato de que a experiência norte-americana do multiculturalismo seja tão racializada. Ao contrário da história da opressão dos negros nos EUA, no Brasil a segregação racial não se ancorou em formas legal, juridicamente sancionadas, por mais que a exclusão do negro tomasse dimensões tão grandes como aquelas vistas nos EUA. Boa parte das críticas depois sofridas pelo multiculturalismo americano no Brasil tenderiam a girar em torno das diferentes percepções do que é a segregação racial, como ela se perpetua, como combatê-la e, acima de tudo, o que diferencia o racismo encontrado nos Estados Unidos daquele vivenciado pelos afro-brasileiros.

A íntegra deste texto e 15 outros ensaios de pesquisadores brasileiros estão lá no volume da Annablume.



  Escrito por Idelber às 04:33 | link para este post | Comentários (41)



sexta-feira, 10 de outubro 2008

Drops

Há algumas citações recentes ao Biscoito que eu gostaria de agradecer. Fomos citados naquele perigoso órgão do comunismo internacional, o Guardian. Fiquei muito lisonjeado. Continuo sonhando com um Brasil que tenha pelo menos um jornal da qualidade do Guardian.

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A Revista Bula fez uma pesquisa entre universitários brasileiros e o Biscoito foi um dos dez blogs mais citados. Gracias muy mucho.

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Falzuca, a poderosa madrinha, vem arrasando nos lançamentos do seu novo livro e me citou nessa entrevista. Só de ter representado alguma coisa para uma pessoa tão iluminada como a Fal já vale a pena ter tido blog.

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Aliás, no dia 28 deste mês o blog completa quatro anos. Três dias depois, no Halloween – ou no dia do Saci-Pererê, segundo o companheiro Aldo Rebelo – o blogueiro completa quarenta...

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Salve: Mino Carta está de volta à blogosfera.

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Mais uma daquelas ótimas descobertas: um blog só sobre imagens que fracassaram (dica da Daniela Arrais lá no Favoritos).

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zizek.jpgAlô, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O grande Slavoj Žižek vai ao Brasil, para o lançamento de A visão em Paralaxe. Dia 12, na Boa Terra, às 15 horas, no Instituto Cultural Brasil-Alemanha; dia 13, no Teatro de Arena da UFRJ, campus Praia Vermelha, às 20 horas; dia 14, no Sesc Vila Mariana, às 19:30. Mais detalhes aqui. Se puder, compareça. Só ver o cabra transpirando já é um espetáculo em si.

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Aqui nos States, o tema eleitoral da última semana foi a queda completa da campanha de John McCain nas acusações desesperadas a Obama por “associação com terroristas”. Veja este vídeo para ter uma idéia do clima de ódio que anda imperando nos comícios de McCain. A cobertura completa está no TPM. Enquanto isso, eleitores de Nova York recebem cédulas com o nome Osama em vez de Obama. Foi um erro “tipográfico”, afirmaram os responsáveis. Claro que este blog não acredita em teorias da conspiração...

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Perdido lá no cantinho do “Painel”, da Folha, está a notícia de que a investigação da Polícia Federal concluiu que não houve grampo nenhum em Gilmar Mendes. Paulo Henrique Amorim pergunta-se, com razão: e se o veredito fosse o contrário? Qual o seria o tamanho da manchete de primeira página? Aliás, a Folha vai continuar fingindo que não foram publicadas denúncias seríssimas contra o homem que ocupou mais de 30 manchetes do Caderno Brasil nos últimos dois meses?

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A Folha de São Paulo realmente escondeu uma pesquisa do DataFolha sobre o segundo turno em Belo Horizonte?

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Altamiro Borges faz um bom balanço do desempenho da esquerda nas eleições municipais. Concordo com tudo, mas acho que a mesma crítica que se faz ao PT do Rio de Janeiro deve ser feita ao PC do B do Rio Grande do Sul.

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Mas foi Mestre Inagaki quem fez o post definitivo sobre as eleições municipais.

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Abraços aqui de Rutgers University, em New Brunswick, Nova Jersey, onde o blogueiro palestra neste fim de semana, convidado, desta vez, pelos alunos.



  Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post | Comentários (69)



quinta-feira, 09 de outubro 2008

Morreu Nicolás Casullo

nicolas.jpg Que a morte surpreenda um amigo já é dor suficiente. Que ela leve tão cedo, aos 64 anos, um dos maiores intelectuais latino-americanos raia o inaceitável. Que a desgraça aconteça três meses e meio depois de que um desencontro tenha me impedido de beber com ele a última cerveja é dessas coisas que provocam revolta. Morreu Nicolás Casullo, um dos pensadores mais originais que já conheci, e talvez o amigo mais querido que eu tenha feito na Argentina.

Só mesmo a imbecilidade do muro de Tordesilhas justifica o desconhecimento da obra de Nicolás no Brasil. Quantos livros escreveu? Perdi a conta. Alguns dos meus favoritos são Comunicación, la democracia difícil (1985), El debate modernidad-posmodernidad (1989), Viena del 900, la remoción de lo moderno (1990), Itinerarios de la modernidad (1994), París 68, las escrituras y el olvido (1998), Modernidad y cultura crítica (1998), Sobre la marcha: política y cultura en la Argentina (2004), Pensar entre épocas (2004). No seu último livro, Las cuestiones (2007), fez uma releitura genial de dois temas que me são caros, a violência e o populismo. Era um analista feroz e sagaz da mídia controlada pelos oligopólios. Transitava tranqüilo em meia dúzia de disciplinas, da crítica literária à ciência da comunicação.

Viveu Maio de 68 em Paris, e sobre a experiência escreveu um belo livro. Exilou-se em Cuba em 1974, quando a situação na Argentina já beirava o insuportável. Daí passou a Caracas, em 1975, até fixar-se no México, em 1976. Há relatos de exilados argentinos sobre como o bom humor de Nicolás foi fundamental para que eles continuassem vivendo naquela época tão dura. Seu romance Para hacer el amor en los parques (1969) foi censurado em 1970 e relançado em 2006. Além deste, escreveu El frutero de los ojos radiantes (1984) e La cátedra (2000). Em 2004, ganhou o prêmio Konex de Ensaio Filosófico. Nos últimos anos, foi o líder do grupo conhecido como Carta Abierta, que juntava intelectuais de esquerda no apoio crítico a Cristina Kirchner e no combate à avalanche direitista “do campo”. Dirigia uma das poucas revistas de ensaios absolutamente indispensáveis da América Latina, Pensamiento de los confines.

Adorado pelos alunos, Nicolás tinha a risada mais sensacional e contagiante que já vi num intelectual. Não sei quantas vezes estive com ele em Buenos Aires, em Santiago do Chile, em São Paulo. Em todas elas, eu, que falo muito, preferia escutar e admirar a assombrosa erudição com que Nicolás passava de Heidegger e Parmênides ao Campeonato da Segunda Divisão argentina. Falava de tudo com a mesma simplicidade. Conhecia e admirava o Brasil como poucos.

Nicolás era torcedor fanático do Racing, tradicional clube argentino que anda em decadência. Sabia tudo de futebol. Gostava de brincar comigo acerca dos azares dos nossos times: che, Idelber, a pesar del azul, Racing es hermano de Atlético Mineiro en la desgracia.

Estive com Nicolás pela última vez numa mega-reunião da Carta Abierta na Biblioteca Nacional, em junho. Depois que a assembléia se dispersou, eu e Ana Amado, sua esposa, saímos para jantar enquanto Nicolás coordenava uma reunião da diretiva do grupo. Nicolás ia chegar mais tarde, mas a reunião acabou se estendendo. Ele havia insistido: che, Idelber, tengo que darte el último número de Confines. No dia seguinte, me desencontrei de Nicolás e Ana e acabei não vendo o amigo pela última vez.

Eu nem imagino o que Ana estará sentindo agora. Ainda não me animei a escrever o email de condolências. Nicolás e Ana eram desses casais que te fazem acreditar no amor eterno. Nada, nada indicava que Nicolás não teria mais uns 20 anos de vida. Morreu de câncer no pulmão.

Paciência com o blogueiro nos próximos dias, porque a dor agora anda muito forte. Nicolás está sendo velado na Biblioteca Nacional, a casa dos grandes, e será sepultado amanhã no Cemitério Britânico da capital argentina.

PS: fonte da foto.



  Escrito por Idelber às 18:42 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 01 de outubro 2008

Convite a quem estiver na região de Washington, D.C.

A legendária, venerável Georgetown University me recebe na próxima terça-feira para uma palestra sobre literatura brasileira. Se você mora na região de Washington, D.C., apareça por lá. Aqui vão os detalhes. A apresentação será em inglês, mas traduzo o resumo para que todos saibam de que se trata.

Estratégias e representações da masculinidade na ficção brasileira contemporânea
Prof. Idelber Avelar (Tulane University)

Bunn Intercultural Center, Georgetown University
7th Floor Conference Room
October 7th, 2008
2pm to 4:30 pm

A narrativa brasileira contemporânea com freqüência retrata um homem tendo que se perguntar o que é que o constitui como tal. Na copiosa bibliografia produzida sobre a ficção brasileira atual, no entanto, há poucos estudos dedicados à questão da masculinidade. A palestra analisará alguns momentos chave na representação da masculinidade na narrativa brasileira: o militante heróico e sacrificial de O que é isso, companheiro? (1979) e o homem pós-feminista de Crepúsculo do macho (1980), de Fernando Gabeira; a entrada da literatura de temática gay, dedicada a explorar a circulação do desejo homoerótico, em Morangos mofados (1988), de Caio Fernando Abreu; a forte crise da masculinidade e, especialmente, da paternidade em O filho eterno (2007), de Cristóvão Tezza. A palestra está inserida num contexto de análise dos deslocamentos na representação dos homens na literatura brasileira, da ditadura à democracia.

PS: Não, não vou dizer uma palavra sobre a candidatura de Gabeira na palestra.

PS 2: A campanha de McCain jogou a toalha em Iowa. Risquem Iowa da sua lista de estados indefinidos.



  Escrito por Idelber às 18:12 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 22 de setembro 2008

Em Medellín, nos 150 anos de Tomás Carrasquilla

Aqui vai um abraço direto de Medellín, província de Antioquia, República da Colômbia. Estou aqui a convite desta bela instituição, que realiza, hoje e amanhã, o Colóquio comemorativo dos 150 anos de nascimento de um dos principais escritores colombianos, Tomás Carrasquilla (1858-1940). Pouco conhecido fora da Colômbia, Carrasquilla inaugura o romance antioqueño em 1896 com Frutos de mi tierra e ao longo de várias décadas faz a transição entre um costumbrismo anterior, meramente epidérmico, e o realismo de crítica social. É o principal romancista colombiano da primeira metade do século XX. Já que num livrinho anterior eu cheguei a escrever algumas linhas sobre ele, acabaram me dando a honra de ser um de apenas dois convidados estrangeiros nesta festa colombiana, que incluirá também o lançamento de uma nova edição de suas Obras Completas.

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Eu já havia visitado a Colômbia antes, mas nunca havia estado em Medellín. A Antioquia fica aqui, ó:

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O mais espantoso para um belo-horizontino que chega a Medellín é a semelhança assombrosa entre as duas cidades. A chegada pela estrada que vem do Oriente, onde fica o aeroporto, é uma réplica da chegada a BH pela BR-040. Rodeada de montanhas, cortada por um riacho, Medellín é uma cidade de morros, com aquela mistura entre provincianismo e cosmopolitismo que os belo-horizontinos conhecemos bem. A comida não é parecida. É idêntica. Trata-se de uma culinária tropeira. Mesmo nas minhas andanças anteriores por outras regiões da Colômbia, sempre procurei os restaurantes paisas (da Antioquia). A iguaria mais conhecida é a bandeja paisa:

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A única diferença com relação a Minas é o indefectível abacate, que para nós é sobremesa para ser comida com açúcar e, para os paisas, é verdura para se comer com arroz, feijão, lingüiça, torresmo, ovo e banana frita. Eu poderia ficar um mês me alimentando só de bandeja paisa. E já me acostumei com o abacate também. Como sabem os leitores antigos, a questão filosófica do lugar do abacate já nos ocupou antes.

O colóquio começa hoje, às 8 da matina, com palestra deste atleticano que vos fala. É motivo de um pouco de apreensão para mim, evidentemente, abrir o congresso de 150 anos de Carrasquilla, na cidade do cabra, com um público de carrasquillólogos. Imaginem um colombiano abrindo o congresso do centenário de Machado de Assis no Rio de Janeiro. Pois é. Se eu der algum vexame, ponho a culpa em vocês e digo que ando blogando demais e me preparando de menos.

PS: Há alguns contos de Carrasquilla disponíveis na internet. Chamo a atenção para o seu primeiro relato, Simón el mago.

PS 2: Alô, pessoal do Impedimento! Cheguei a Medellín justamente em dia de jogo. No clássico montanheiro, houve vitória do time mais popular, o Medellín, sobre o time da elite, o Nacional, por 2 x 1. A peleja foi horrível no primeiro tempo, mas melhorou muito no segundo, com os vermelhos se aproveitando bem de um imenso buraco entre os setores de contenção e de criação do meio-campo esmeraldino.

PS 3: Isto já foi dito aqui, mas não custa repetir, em vista dos últimos excelentes posts: Mauricio Santoro está fazendo o melhor blog de política internacional do Brasil.

PS 4
: Também está maravilhoso acompanhar as viagens da Lucia Malla e do André pelo Mato Grosso do Sul.

Atualização: Um maluco da companhia que hospeda o Biscoito apagou todos os 24.000 comentários do blog pensando que eram spam. Conseguimos restaurá-los, exceto os comentários feitos no dia de hoje, 22/09. Tenho cópias deles e depois vou restaurá-los manualmente. A casa pede desculpas aos que comentaram hoje :-(



  Escrito por Idelber às 02:06 | link para este post | Comentários (25)



quinta-feira, 18 de setembro 2008

Sobre três relatos de Arguedas, Borges e Guimarães Rosa

O antropólogo índio peruano José María Arguedas, o refinado bilíngüe argentino Jorge Luis Borges e o erudito poliglota matuto João Guimarães Rosa são autores de três relatos que retrataram de forma curiosa a figura do homem , pensaram de forma insólita a masculinidade. Apesar de sempre tê-los lecionado, hoje pela primeira vez conduzo um seminário sobre os três textos em conjunto. O efeito é revelador.

Arguedas era falante nativo de quechua, bilíngüe em espanhol só depois de moleque no colégio. Formado em antropologia, pioneiro em pesquisas antropológicas sobre as culturas andinas do Peru, ele vive a estranha cisão de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto do que estuda. Vivia com a imagem da mulher gigantesca, invariavelmente índia, e mais sensual quanto mais sobredimensionada na memória. A mulher em Arguedas é uma espécie de Tia Anastácia bugre, hiper-sexualizada, ante a qual o garoto, assombrado, sucumbe no teste de macheza. Mas Arguedas vive um drama que é todo particular seu, diferente de outros escritores homens que trabalham essa imagem da iniciação adolescente com a mulher enorme sobre-erotizada. Essa fêmea é, quase sempre, em Arguedas, estuprada. É vítima da violência patriacal branca que vê a mulher índia como objeto. Sobre duas formas distintas de se receber o legado desse pai violador, José María Arguedas escreveu o relato Warma Kuyay (Amor de Niño).

Algum tempo depois, João Guimarães Rosa, de quem Arguedas gostava muito – de meu “irmãozinho” tratou-o uma vez –, escreveu A terceira margem do rio, uma espécie de versão condensada do poder rosiano de assombrar. O efeito do conto depende desse estranho postulado, um ponto localizado entre as duas margens mas não “meio” do rio, e sim numa terceira, impossível margem. Também se trata aqui de uma mulher sobre-dimensionada -- Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente -- e de um homem que foge à função masculina, se recusa a abraçá-la. Ao invés de adotar o ponto de vista da lei e da decência, instala-se num outro lugar – mantendo-se, ao mesmo tempo, visível para o filho que narra e que, atônito, tenta transmitir e justificar a escolha do pai.

Jorge Luis Borges, que não conhecia nem Arguedas nem Rosa muito bem, escreveu La intrusa num dos momentos em que mais teve raiva de sua onipresente e super-protetora mãe. No dia 25 de setembro de 1965, enquanto recebia a Ordem do Sol da Embaixada Peruana, Borges tinha também a notícia de que Maria Esther Vásquez se casava com o poeta peruano Horacio Armani. Maria Esther foi um dos muitos amores de Borges bloqueados pela mãe. Ele, que quase nunca incluía mulheres em seus relatos, imagina essa figura da mulher extra, compartilhada por dois irmãos que depois passam pela humilhação de ser apaixonarem por ela e terem que resolver o dilema tragicamente. Enquanto que a crítica tem se focalizado na óbvia viadagem presente no conto, só hoje, lendo a magnífica biografia de Borges escrita por Edwin Williamson, prestei a devida atenção a um fato curioso: “La intrusa” foi ditada por Borges a (adivinhem?) Dona Leonor, a mãe que, mesmo sem gostar do texto, ante a dificuldade de Borges para encontrar o fechamento da tragédia de Juliana, recita para o filho, sem hesitação, as frases finais do conto: A trabajar, hermano. Después nos ayudarán los caranchos. Hoy la maté. Que se quede aquí con sus pilchas. Ya no hará mas perjuicios.

Um dos relatos mais violentamente misóginos da literatura teve seu fecho inventado por Dona Leonor Acevedo de Borges, essa mulher odiadora de mulheres.

PS: Imperdível: Borges na televisão espanhola (em 9 partes).



  Escrito por Idelber às 05:04 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 03 de julho 2008

Guimarães Rosa, em seu centenário

rosa-menino.jpgO post de hoje saúda, com seis dias de atraso, o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa. Tive outro encontro com o texto de Rosa esta semana, graças a uma magnífica tese de doutorado defendida anteontem na UFMG, em cuja banca de argüição tive a honra de participar. O mais novo doutor do melhor de programa de pós-graduação em literatura do Brasil é meu amigo Roniere Menezes, que defendeu brilhantemente um extenso trabalho de pesquisa sobre as obras de três escritores-diplomatas: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes.

Como se sabe, Guimarães Rosa foi cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, nomeado em 1938. Ali permaneceu até janeiro de 1942, período no qual ele e aquela que seria sua segunda esposa, Aracy Moebius de Carvalho, tiveram papel chave na salvação de centenas de vidas de judeus perseguidos. Aracy, então funcionária do Consulado Brasileiro, preparava os papéis e conseguia que os passaportes não apresentassem a religião dos portadores nem a estrela de Davi. O visto era dado por Rosa.

No seu período de residência na Alemanha, Rosa redige um diário, cujo manuscrito se encontra no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Esse extraordinário documento ainda não está publicado – coisas do Brasil – por responsabilidade de uma prole que infelizmente não prima pela sanidade mental. Nas anotações de 13 de julho de 1940, depois de descrever a beleza das margens do Alster, ele conclui o parágrafo dizendo: E ... mas ... para estragar toda a mansa poesia do lugar: arvoraram, num poste, uma taboletazinha amarela: “Lugar de brinquedo para crianças arianas”.

No dia 12 de março de 1941, a entrada do diário se deixa ler como uma caixa de comentários de blog, com anotações que se iniciam às 11:05 e seguem em intervalos de 10 ou 15 minutos, enquanto os bombardeios e o fogo cruzado fazem, por vezes, sacudir a própria casa. Rosa estremece, sente o cheiro de pólvora. Medita sobre o horror da guerra.

Roniere também consultou os arquivos do Itamaraty, onde é possível ler o ofício enviado por Rosa ao Ministro Oswaldo Aranha em 20 de julho de 1939, no qual o escritor mineiro enfaticamente recomenda os nomes de 226 judeus aos quais ele havia concedido visto de entrada para o Brasil e solicita a reserva de números adicionais, para que mais vidas pudessem ser salvas.

Depois de deportado de volta ao Brasil, em 1942, Rosa voltaria a ver a Alemanha em 1946. Ao fim da Conferência de Paz de Paris, na qual ele participara como secretário da delegação brasileira, ele percorre as ruínas de Berlim e escreve uma carta emocionada a Aracy: Quase tudo destruído: toda a Kurfuerstendamm são duas tétricas filas de ruínas; a Embaixada destruída; o consulado, idem; o Éden Hotel, a KDW, o Adlon, o Venezia, tudo, tudo (...) A Friedrichstrasse, a Wilhelmstrasse, nelas não sobrou casa. Nunca imaginei que pudesse sofrer tanto uma cidade tão grande. Tétrica foi a visita a Reichskarlei, ou ao que dela resta, denegrido, quebrado, incendiado, espedaçado. Enfim, não digo mais, pois seria uma infindável enumeração de ruínas.

Nesse mesmo ano de 1946, Rosa publicaria Sagarana. Dez anos depois, dois petardos simultâneos: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. A experiência alemã não deixaria marcas muito visíveis na sua obra, com a exceção de um relato, “A velha”, publicado na coletânea póstuma Ave, Palavra. Acerca de Guimarães Rosa, aqui no Biscoito, leia também o post sobre Diadorim e o post sobre o demoníaco em Grande Sertão.

Evoé, João Rosa, e parabéns, Dr. Roniere.

PS: Para quem não sabe, as palestras da Flip deste ano estão sendo transmitidas em vídeo pela internet. A magnífica apresentação de ontem, de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis, mereceu uma matéria na Folha (para assinantes), na qual Eduardo Simões e Marcos Strecker equivocadamente se referem a “Retórica da Verossimilhança”, de Silviano Santiago, como “um livro”. É um artigo, reunido no livro Uma literatura nos trópicos.

PS 2: Eu torci muito, caros tricolores, mas convenhamos: o Fluminense falou demais antes da hora.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (38)



quarta-feira, 18 de junho 2008

Roberto Fontanarrosa, uma homenagem

Abriu hoje, no Imago (Rua Suipacha, 658, Buenos Aires), uma exposição de mais de 200 obras do genial humorista e escritor argentino Roberto Fontanarrosa, el Negro, que morreu no ano passado aos 62 anos. Fontanarrosa nasceu em Rosario e começou a fazer um estrondoso sucesso no Clarín, nos anos 70, com suas tirinhas. Foi o criador de personagens que marcaram a cultura argentina, como o verdugo Boogie, o oleoso e o gaucho Inodoro Pereyra. De todos os grandes escritores argentinos, foi o que mais registrou o futebol. Torcedor fanático do Rosario Central (diz a lenda que não há Gre-Nal, não há Cruzeiro x Atlético, não há Boca x River que se compare à feroz rivalidade entre Rosario Central e Newell's Old Boys), El Negro se reunia com a torcida do clube a cada 19 de dezembro, para celebrar o famoso gol de palomita ao qual ele dedicou um conto clássico. Os relatos de Fontanarrosa sobre o futebol estão reunidos no volume Puro fútbol, de 2000, leitura obrigatória para os literatos ludopédicos.

A festa foi concorrida e eu fiz questão de tirar algumas fotos para compartilhar com os leitores do blog:

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A mostra fica em cartaz até o começo de agosto. Passando por Buenos Aires, não deixe de conferir. O filme que acompanha a exibição é emocionante.



  Escrito por Idelber às 02:22 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 14 de abril 2008

Adeus a uma revista fundamental

punto-de-vista2.jpg Deu adeus na semana passada uma das revistas culturais e políticas mais importantes da América Latina. No Brasil, para variar, nem notícia. Depois de 30 anos, 90 números e um papel central em todos os principais debates intelectuais da Argentina, Punto de Vista pendurou as chuteiras. Para mim, pessoalmente, o adeus tem um gostinho de tristeza e melancolia. Se eu tivesse que fazer uma relação das revistas mais formativas da minha vida, Punto de Vista estaria em primeiro lugar. Se eu fosse listar as 10 pessoas que mais admiro no planeta, a diretora da publicação, Beatriz Sarlo, certamente estaria entre elas.

Punto de Vista foi fundada por Beatriz junto com Ricardo Piglia, Carlos Altamirano e Elías Semán em 1978, no auge do horror da ditadura argentina. Depois se somariam intelectuais do porte de Hilda Sábato, Maria Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti. Em condições de total pesadelo político – no qual uma intelectual com passagem pelo maoísmo, como Beatriz, certamente corria perigo permanente –, Punto de Vista foi se constituindo em um dos poucos espaços onde era possível fazer crítica literária, cultural e política com alguma independência. A revista foi responsável pela introdução de nomes como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina. Nela se publicaram as primeiras leituras sérias da rica literatura contemporânea do país. Ali se chamou a atenção pela primeira vez, por exemplo, para a obra de Juan José Saer, que vinha sendo escrita desde os anos 60 e lida somente por um pequeno grupo de iniciados. Com a chegada da democracia, a revista teve que aprender a fazer tudo de novo, nas palavras de Beatriz. Reciclou-se brilhantemente. Ali se publicaram algumas das melhores reflexões sobre as Mães da Praça de Maio, os julgamentos dos militares, o novo cinema do país, os monumentos aos desaparecidos.

Desde a ditadura, Beatriz tem as portas abertas das melhores universidades americanas e inglesas, à sua disposição. Optou por ficar na Argentina. Jamais alardeou essa escolha. Nunca se encerrou na torre de marfim da academia. Em cada um dos momentos chave da história do seu país, posicionou-se clara, inequivocamente. Fez auto-críticas, revisou posições. Não tem absolutamente nenhum medo de errar. Sofre ataques horrendos, mas debate sempre com lealdade, atirando nas idéias, nunca nas pessoas. É impossível concordar com ela todo o tempo. Sobre a conjuntura argentina atual, por exemplo, minha visão está mais próxima à de Martín Kohan que à sua. Mas não consigo pensar num intelectual contemporâneo pelo qual eu tenha mais respeito.

Na despedida, Beatriz declarou: Cuando se dirige una revista el alerta es constante frente al acostumbramiento (que es mortal) o la incapacidad para conocer su actualidad (una revista vive en tiempo presente). Sólo cuando es un instrumento imprescindible para quienes la hacen, sale bien .... Algo ha comenzado a fallar y es mejor reconocerlo ahora, cuando no se ven consecuencias, que en un capítulo decadente. Una revista que ha estado viva treinta años no merece sobrevivirse como condescendiente homenaje a su propia inercia. Por eso el número 90 es el último.

Em 2003, publicou-se um CD-ROM com os primeiros 75 números da revista. Apesar de que Punto de Vista jamais quis ser uma publicação massiva, o CD-ROM esgotou três edições. Há uma quarta edição ainda à venda. No mesmo ano de 2003, eu tive a honra de publicar um artigo lá. Se você nunca leu a revista, dê uma conferida no índice de alguns números e no resumo de alguns artigos. Acredite, leitor: se você quiser dar um presente à sua inteligência – seja qual for a sua área de interesse –, invista 30 dólares nessa coleção. É coisa para a vida inteira.

No meu panteão pessoal, o adeus de Punto de Vista só se compara ao fim do Velvet Underground e à morte de Telê Santana. Nada mais chega perto.

PS: Homenagens também lá no Linkillo e no Tomás Hotel.

PS 2: É possível que Jimmy Carter e Al Gore dêem o empurraõzinho que falta para terminar a primária democrata.



  Escrito por Idelber às 06:03 | link para este post | Comentários (13)



segunda-feira, 31 de março 2008

BRASA, nono congresso: Um balanço

Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.

Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.

Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.

Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.

Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.

A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.

A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.

No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e sacolejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.

O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.

PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.

PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.

PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).

PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.



  Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post | Comentários (24)



terça-feira, 18 de março 2008

BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março

Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.

Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.

Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.

Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.

Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.

Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.

Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.

Bem vindos, pois.


Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 06 de março 2008

Um aniversário

É inacreditável, mas para toda a imprensa esportiva, canais de televisão ou jornais, passou completamente batido o aniversário de 30 anos da data que, depois do 16 de julho, é a mais trágica da história do futebol brasileiro. Há exatos trinta anos, no dia 05 de março de 1978, o futebol morria mais um pouco. Prefigurada, ali, em todo o drama, a derrota do Sarriá.

Nascia esse ser tão estranho, tão brasileiro: o vice-campeão invicto. Para quem quiser rever os momentos finais da agonia, ei-los aqui. Foram bravos e inesquecíveis, aqueles vice-campeões.

Eu estava lá.

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  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (19)



sexta-feira, 29 de fevereiro 2008

Convites e jabás

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Convite aos paulistas: Se você é paulistano e se interessa por música popular – especialmente por Chico Science e o Mangue Beat – há um programa imperdível neste sábado. É o lançamento de Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, do meu amigo Herom Vargas. Acontece na Livraria da Vila -- Lorena (Al. Lorena, 1731) a partir das 19 horas. Já terminei de ler e recomendo o livro com toda ênfase. É uma versão da tese de doutorado do Herom, defendida na PUC-SP. Apesar de sua origem, o livro não tem qualquer ranço que atrapalhe o desfrute do leitor não-acadêmico. É um passeio elegante pela noção de hibridismo musical, com histórias saborosas sobre as origens da cena contemporânea de música popular do Recife, que este blog considera a mais rica do Brasil. Daí, Herom passa a oferecer análises originais das canções de Chico Science e Nação Zumbi e de sua inserção na história da música brasileira contemporânea. O início do livro nos traz de volta àquela comovente cena, de Ariano Suassuna – inimigo número 1 do mangue beat – chorando, inconsolável, no enterro de Chico. Livraço. Não perca. Se for ao lançamento, procure o Herom por lá e diga que chegou via Biscoito.

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Convite aos mineiros
: Minha amiga Maria Esther Maciel lança seu novo romance, O Livro dos Nomes, pela Companhia das Letras, em Belo Horizonte. O lançamento acontece no dia 04 de março, terça-feira que vem, a partir das 18 horas, na Biblioteca Pública Luiz de Bessa (ali na Praça da Liberdade). Se você acha que eu sou produtivo, é porque não conhece Esther – sem dúvida, uma das principais ensaístas brasileiras contemporâneas, além de reconhecida poeta e romancista. O Biscoito já resenhou um romance anterior de Esther, O Livro de Zenóbia. Este, eu não li ainda mas, sendo de Esther, é coisa fina. Se você está na Alterosas, compareça. Dá tempo de tomar um vinho com ela e voltar para o computador para acompanhar a cobertura das primárias americanas aqui no Biscoito.

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Agora, o auto-jabá: Saíram alguns livros com artigos meus. Deixo o anúncio para quem se interessar. O MLA (Modern Language Association) tem uma série muito útil para professores de literatura, não só universitários, mas de nível secundário também. É o “Approaches to Teaching....”, que reúne artigos destinados a auxiliar o trabalho docente com obras já consagradas. Saiu o Approaches to Teaching the Kiss of the Spider Woman. Se você mora nos EUA (ou não mora, mas lê inglês) e se interessa pela obra prima de Puig, dê uma conferida nesse volume. O meu artigo traz algumas dicas para o trabalho pedagógico com o romance de Puig e o filme de Babenco.

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Saiu o The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, com artigo meu sobre blogs e cidadania, que traz citações a vários blogueiros brasileiros. Não, não posso postar o texto aqui, infelizmente. Tudo o que escrevo para o blog é Creative Commons: copie à vontade, citando a fonte. O que entrego a uma editora ainda está sujeito àquela ultrapassada lei do mundo gutemberguiano, o copyright (não é, meu caro Sergio?).

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Recebi o Boca de lobo, de Sergio Chejfec, lançado no Brasil em tradução de Marcelo Barbão, já conhecido dos leitores deste blog por ter traduzido Duas vezes junho, de Martín Kohan. A versão em português do Boca de lobo, como já de costume para Barbão, é impecável. O prólogo do livro é deste atleticano blogueiro.

PS: A querida Marina W pede para avisar que está de endereço novo. Vai .



  Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post | Comentários (12)



segunda-feira, 18 de fevereiro 2008

Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino

p-rein.jpgPublicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.

Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.

A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.

Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.

Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!

Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.

PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (41)



quarta-feira, 30 de janeiro 2008

Preparando o papo sobre Suassuna

suss.jpgAqui em Tulane, os doutorandos em literatura latino-americana andam mergulhados no mundo armorial. Tive uma grande surpresa na primeira aula sobre a Pedra do Reino, na quinta-feira passada. Ninguém achou a obra de Ariano Suassuna enfadonha ou longa demais. Passamos boa parte das duas horas e meia do seminário dando risadas com esse incrível delírio monárquico, revolucionário, sertanejo e medieval. Se você está em dúvida sobre se participa ou não do nosso papo sobre o romance no dia 18 de fevereiro, acredite: a obra vale a pena. Ainda dá tempo de começar a ler.

Há tanto material no romance de Suassuna que pensei em deixar também algumas possíveis pautas de leitura para orientar a conversa.

1.Sei que tenho alguns leitores em João Pessoa e em Campina Grande. Não me consta que tenha nenhum na fronteira sertaneja entre a Paraíba e Pernambuco. Mas quem sabe não operamos o milagre de ter algum depoimento sobre a região em que transcorre a história? Isso não é essencial para a compreensão do livro, óbvio. Mas seria divertido, mesmo porque, até onde pude averiguar, as referências são rigorosas e exatas. Portanto, paraibanos, apresentem-se!

2.Também são impecáveis, até onde confirmei, as referências intertextuais presentes na obra. São dezenas de citações de livros, revistas, folhetos, artigos. Por exemplo, realmente existiu um tal Antônio Attico de Souza e Leite, que deveras escreveu uma Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Vila Bela, Província de Pernambuco, em 1874, tal como referida no Folheto V, no começo do livro. Qualquer leitor que queira nos ajudar a rastrear parte dessa imensidão de referências terá a gratidão eterna do blog (e de futuras gerações de vestibulandos...).

3.Um dos eixos do livro é a persistência de uma cultura monárquica, messiânica e pré-moderna no sertão brasileiro. Quem quiser rastrear algo dessa história para a discussão também contribuirá muito.

4.A mescla de gêneros é um elemento chave da obra, como se nota na presença de uma série de “romances” em redondilhas maiores (versos de sete sílabas), forma tradicional na poesia popular, mas não só nela. Para quem se interessa pelo problema dos gêneros, o livro é um prato cheio. Poesia, teatro, epopéia, farsa, comédia, romance de cavalaria e uma longa lista de etecéteras: há de tudo.

5.O narrador-protagonista conta a história em 1938, da prisão, e seu relato regressa até o século XIX. O pano de fundo imediato dos eventos vividos por ele é a Revolução de 1930. Quem conhece bem a história do governo de João Pessoa terá muito a contribuir.

6. Eu vi a minisérie da Globo e, apesar de achá-la bem feita, não consegui me interessar muito. O humor foi para as cucuias, não é? Mas quem quiser trazê-la à baila, que fique à vontade.

Claro que é possível desfrutar o livro sem se preocupar com nada disso. Estas são só algumas idéias para ir esquentando os tamborins. Enquanto você se prepara, delicie-se com esse incrível vídeo de Ariano Suassuna (valeu, Serbão) e dê uma conferida nessa entrevista com ele, de onde tirei a foto que ilustra o post.

E aí, como vai a leitura? Temos sobreviventes?



  Escrito por Idelber às 04:20 | link para este post | Comentários (43)



segunda-feira, 14 de janeiro 2008

Clube de Leituras: Ariano Suassuna

282595.jpg O Clube de Leituras tem sido uma ocasião para que eu mesmo revisite certos preconceitos. Foi assim com Jorge Amado, autor pelo qual eu nunca havia nutrido muita simpatia e que passei a reler com outros olhos. Aproveitando o fato de que estou dando um seminário de pós-graduação sobre sagas brasileiras, decidi mergulhar agora na obra do paraibano Ariano Suassuna, dramaturgo e ficcionista de quem sempre tive incrível birra, movida pelo meu rechaço à sua concepção purista da cultura brasileira e especialmente por um dos erros aos que essa concepção o levou – a militância contra Chico Science e o Mangue Beat.

Mas a leitura dos primeiros capítulos do Romance d' a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta já estão reiterando para mim, mais uma vez, aquela velha lição. A literatura tem razões que a ideologia desconhece. Lançada em 1971, esta saga-epopéia ocupa um lugar curioso na literatura brasileira. Acumulou uma certa aura de prestígio e erudição e é vista com reverência em várias comarcas. Continua, no entanto, pouco estudada. Um hipotético historiador ou crítico muito provavelmente não pensaria na obra de Suassuna ao ser perguntado sobre a ficção brasileira do período. Mesmo um estudo panorâmico como Literatura e vida literária, de Flora Süssekind, que passeia por mais de quarenta obras publicadas durante a ditadura, sequer menciona o romanção de Suassuna.

Pois bem, ao longo das próximas quatro semanas eu e meus alunos vamos encarar o calhamaço. Deixo aqui o convite para que você também leia a obra e se junte a nós na discussão. O prazo é razoável: o papo sobre o livro está marcado para segunda-feira, dia 18 de fevereiro, aqui no blog.

Alguém aí se habilita? Ou seremos só eu e meus alunos mesmo? Quem vai encarar?


PS: Meu amigo Leandro Oliveira escreveu um post argumentando que o cenário da discussão literária visto em 2007 na internet difere muito pouco dos outros anos: agressividade e falta de educação nas caixas de comentários, pessoas tentando provar que leram e sabem mais que qualquer outro e nenhuma questão relevante sendo abordada (grifos meus). Deixo nossas discussões sobre Borges (1, 2, 3), Jorge Amado (1,2), Martín Kohan (1,2) e Guimarães Rosa (1,2,3) como subsídios para uma futura revisão, oxalá mais matizada, dessa percepção.

PS 2: Já que de discordar de amigos se trata: meu querido Sergio Leo anda entusiasmado com a Wikipedia enquanto eu preparo, ainda para esta semana, um post intitulado “Por que eu não recomendo a Wikipedia de jeito nenhum”.

PS 3: Se você entende inglês, não deixe de ler a matéria notável feita pelo New York Times sobre os assassinatos cometidos pelos veteranos que voltam do Iraque.

PS 4: O post já está lá embaixo, mas continua o papo sobre o livro de Risério e a questão racial no Brasil (com participações muito especiais de minhas amigas Helê e Monix).



  Escrito por Idelber às 04:40 | link para este post | Comentários (37)



quinta-feira, 10 de janeiro 2008

Aniversários

2008 marca vários aniversários importantes e alguns deles serão lembrados durante todo o ano aqui no blog. Apertem os cintos:

No dia 25 de março o Glorioso primeiro campeão brasileiro completa 100 anos de existência. Foi ali no Parque Municipal, esquina de Afonso Pena com Bahia -- a dois quarteirões de onde Drummond, Pedro Nava, Abgar Renault e cia. aprontariam das suas uns poucos anos depois – que 19 benditos moleques resolveram matar aulas, sem saber que estavam inventando a maior paixão do povo de Minas. A idéia é, ao longo do ano, pesquisar e conhecer um pouco mais da história do único de clube de futebol do planeta a ter derrotado a Seleção de Pelé.

Começo com uma perguntinha de Trivia Games: alguém aí sabe quem é o autor do primeiro gol da história do Clube Atlético Mineiro? Os que conhecem um pouquinho de literatura brasiliera se assustarão com a resposta. Guglem aí que depois eu completo. A dica para acompanhar o dia-a-dia do Atlético é Galo é amor.

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No dia 29 de setembro comemora-se outro centenário, o da morte de Machado de Assis. Depois do incrível mico que foi a “biografia” de Daniel Piza – onde José Bonifácio vira português, o violento entrudo se transforma em festa de salão e Bentinho é rebatizado assassino, entre outras inacreditáveis gafes – o ano promete uma série de publicações e eventos de qualidade, por gente que estuda o assunto antes de escrever. O epistolário será editado por Sergio Paulo Rouanet; Ubiratan Machado coordena a edição de um dicionário para a Academia Brasileira de Letras; a Casa de Machado também organiza uma série de palestras aí no Rio, a partir de abril; a famosa Obra Completa em 3 volumes, da Aguilar, recebe segunda edição, bem mais fornida (por incrível que pareça, ainda não há uma edição verdadeiramente completa das obras de Machado); em julho a Globo lança a minisérie “Capitu”; a Record prepara uma recriação de 12 contos de Machado com autores contemporâneos (fonte). Ótimo momento, pois, para mergulhar em Machado.

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Em 2008 também se completam 60 anos do Nakba, palavra árabe que significa “catástrofe” e que é usada pelo povo palestino para designar o processo de expulsão e confisco sofrido por eles para a implantação do estado de Israel. A expulsão de 800.000 habitantes e a destruição de 531 vilas palestinas em menos de seis meses do ano de 1948 é história pouquíssimo conhecida, e freqüentemente soterrada sob uma série de mitos. Depois de vir à luz uma copiosa documentação desse evento, com o livro The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador Illan Pappe, já não há desculpas para ignorá-la. Ao longo do ano, o blog publicará parte dessa documentação aqui.

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Finalmente, no dia das bruxas eu completo 40. Espero que até lá o Aldo Rebelo não tenha conseguido transformar o 31 de outubro em dia nacional do Saci Pererê. 43 dias depois, claro, nosso querido AI-5 – o golpe dentro do golpe – também vira quarentão. 1968 marcou muito. Será interessante revisitar o seu legado aqui. É isso. Esqueci algum aniversário?

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PS: continua o papo ali embaixo, sobre a questão racial, com um desses leitores que são a razão pela qual vale a pena ter blog.

Atualização: E há o importantíssimo centenário de Simone de Beauvoir, ótimo pretexto para reler a pensadora de O Segundo Sexo (Obrigado, Cynthia).



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (42)



segunda-feira, 17 de dezembro 2007

Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano devem um pedido de desculpas a Beatriz Sarlo

besa.bmpO episódio foi ilustrativo e sórdido. Envolveu ataques e acusações àquela que talvez seja a mais destacada intelectual argentina de hoje e arrastou-se durante mais de um mês nas páginas de um dos principais jornais latino-americanos. Nem assim recebeu uma nota sequer nos Mais!, Ilustradas ou Cadernos B da vida, mais preocupados em traduzir um texto de um ano atrás sobre a Revolução Francesa ou em noticiar o compacto da última banda de adolescentes finlandeses. O fato é que este é o primeiro registro da polêmica em português. Ela é tão instrutiva que outro post será necessário para discutir tudo o que episódio ensina. Neste, me limito a contar a história. Como sempre, incluo os links para que o leitor julgue por si.

Em 2007, se completaram 10 anos da morte do escritor argentino Osvaldo Soriano, um autor de best-sellers populares. O “Gordo” era um bonachão, fã de futebol, que escreveu romances de leitura bem ágil, com freqüência inspirados na tradição policial. Era muito vinculado a um certo imaginário populista que vem do Peronismo. Digamos, para quem não o conhece, que é uma espécie de João Ubaldo tangueiro. Não importa. O fato é que as comemorações do seu aniversário de morte, publicadas pelo Radar, o caderno cultural do Página 12, incluíram um texto de Guillermo Saccomano (escritor de ficção sobre cuja [des]importância eu prefiro me calar) que, ancorado num relato que lhe fizera Osvaldo Bayer (historiador de alguma importância, que escreveu sobre revoltas na Patagônia e sobre as Mães da Praça de Maio), apresentava uma pesada acusação a Beatriz Sarlo, de que a acadêmica portenha havia uma vez convidado Soriano à Universidade de Buenos Aires para que ele fosse “ridicularizado” pelos alunos por “não ter diploma”. Pintaram uma história de ele havia sido humilhado por ela, a acadêmica-malvada-arrogante-que-desprezou-o-pobre-escritor-popular.

Quando li aquilo, sabia que era mentira. No máximo, imaginei que Soriano havia sido levado à UBA para um debate e que algum aluno ou professor houvesse dito algo que o tivesse ofendido. Não sabia de onde vinha a mentira sobre Beatriz Sarlo, se de Bayer, se de Saccomano, se de otro lugar. Mas conheço a obra e o caráter de Beatriz há décadas. Tirando antologias, ela escreveu uns vinte livros. Eu li todos os vinte. Fundou em 1978, na marra e em condições de verdadeiro pesadelo, uma revista que continua sendo uma das principais da América Latina. Dela, li todos quase todos os exemplares de cabo a rabo. Não sou amigo de Beatriz, mas já coincidimos em congressos; eu leio tudo o que ela escreve, ela já leu algum escrito meu e sabe quem eu sou. A isso se limita minha relação com ela.

Na edição seguinte, Beatriz Sarlo responde afirmando que há anos Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano difundem uma mentira sobre ela; que ela jamais convidou Soriano a visitar UBA nenhuma; que jamais levou ninguém à universidade para ser humilhado; que aqueles que a conhecem sabem que ela trabalhou sobre Juan José Saer, sobre Ricardo Piglia, sobre Manuel Puig, mas que nunca se ocupou de – nem atacou -- Soriano. E ponto.

Uma semana depois, no mesmo Radar, as respostas de Bayer e Saccomano são verdadeiros exercícios de lançamento de lama à distância. Em tom de ironia, usam o trabalho de Bayer com as Mães da Praça de Maio para avalizar a verdade da acusação, como se o fato de alguém ter trabalhado com as Mães passasse atestado de veracidade a qualquer coisa que diga. Usam o fato de que Sarlo escreve uma coluna numa revista pop para tentar ridicularizá-la. Comparam a sua negação a uma negativa de um general sobre as torturas. Fazem um desafio a um debate público que é um convite ao linchamento. Insistem em afirmar que Sarlo levou Soriano à universidade para ser ridicularizado. Para piorar, as acusações eram incongruentes: Saccomano dizia que “Sarlo convidou” e Bayer afirmava que “um grupo de docentes e alunos da cátedra Sarlo” convidou.

Na semana seguinte, Beatriz retruca a esse linchamento da única maneira que me parece digna: reiterando que a acusação é falsa, que o convite ao bate-boca público é uma arapuca onde ela não será ouvida e que a polêmica é a palavra dela contra a deles. Nesse momento, o debate, já disseminado no campo intelectual argentino, inspira intervenções de María Moreno, Amparo Rocha Alonso e Germán Ferrari, que discutem outros aspectos que não o que motiva este post.

Mas eis que na semana seguinte, fica provado mais uma vez, caro leitor, que a mentira tem pernas curtas. Aparece a professora que convidou Osvaldo Soriano à UBA. Hinde Pomeraniec, naquele momento docente e agora editora do caderno Mundo do jornal Clarín, relata que em 1991 Soriano havia sido convidado por ela – não por Sarlo – para um ciclo de palestras ao qual outros escritores (Fogwill, Bioy Casares, Aira) também haviam ido. Testemunha que Soriano, nervoso antes do encontro, temia um desastre; que estava tenso e que expressava o temor de que o hostilizassem; que desfilava uma série de ansiedades a respeito da academia. Pomeraniec também lembra-se de que havia reiterado a ele que estava tudo bem, que o clima seria ótimo. Conta com detalhes que Soriano – simpático e habilidoso orador – cativou o público, foi aplaudidíssimo pelas 300 ou 400 pessoas que foram vê-lo, assinou livros e saiu feliz. No entanto, coisa de maluco, logo depois da visita Pomeraniec fica sabendo de uma entrevista em que Soriano dizia “ter sido maltratado” na UBA por um “auditório hostil”. Pomeraniec confrontou-o com a mentira dias depois, e ele desconversou com brincadeiras que eram do seu estilo.

Moral da história? Osvaldo Soriano esteve na UBA. Foi muito bem recebido e aplaudido. Não quis ouvir. Seja lá por que motivo (vontade de aparecer como o pobre-escritor-popular-desprezado-pela-academia, suponho eu), inventou a mentira de que o haviam chamado para que ele fosse humilhado. É incômodo descobrir que um morto mentiu, especialmente um morto que tem estatuto meio mítico para algumas pessoas. Mas o papel do estudioso é buscar a verdade, não reforçar mitos. Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano, de má fé ou simplesmente repetindo preconceitos, não importa, insistiram na mentira com a acusação a Beatriz Sarlo. Posaram de paladinos do popular contra a “intelectual” arrogante. Procederam a realizar um linchamento. Tudo para que depois ficasse provado que ela estava certa e eles errados. Infelizmente, não voltaram a tocar no assunto.

Junto-me a Daniel Link na expectativa de que Guillermo Saccomano e Osvaldo Bayer tenham a hombridade de, antes de morrer, emitir um pedido de desculpas público a Beatriz Sarlo. Até agora, nove meses depois, não o fizeram.

PS: Deixo para um post futuro a discussão de tudo o que o episódio ensina sobre a fobia de certas pessoas sobre a universidade.



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domingo, 09 de dezembro 2007

El director, de Gustavo Ferreyra

9789500342216.gif O Daniel Lopes me pediu dois parágrafos sobre o melhor livro que li em 2007, para uma série que ele vai publicar por lá. Na hora de escolher, hesitei entre dois títulos: Atonement, do britânico Ian McEwan e El director, do argentino Gustavo Ferreyra. Atonement já é razoavelmente conhecido entre o público leitor brasileiro, em tradução, ao que parece, primorosa de Paulo Henriques Britto, apesar de eu ter minhas reservas ao título escolhido (Reparação). Prefiro, então, falar de El director.

Gustavo Ferreyra pratica uma espécie de realismo alucinatório. Disseca as patologias masculinas impiedosamente. Com frases cristalinas, flaubertianas – alheias, portanto, às correntes dominantes do romance atual – Ferreyra entrega a narração em primeira pessoa a protagonistas monstruosos. São paranóicos, egoístas, obcecados, neuróticos. Mas relatam a história com um ar de tremenda naturalidade que paulatinamente cria no leitor a sensação de que tudo aquilo é normal, que nós somos assim. El director narra, em forma de diário, 40 anos (1966-2006) da vida de um diretor de escola primária em Buenos Aires. A narração é embaralhada cronologicamente e interrompida pelos fragmentos de um romance que ele está escrevendo, sobre um incesto feliz entre pai e filha. Vários acontecimentos da história argentina vão permeando o romance, mas a relação do protagonista com eles é amoral, de total exterioridade. Apesar de ter se entusiasmado com a possibilidade da chegada do socialismo em 1975, ele saúda os militares em 1977. Ao ver um grupo protestando nas ruas em 1982, sua dúvida é: “se me aproximo demais deles, o que pode acontecer caso chegue a repressão? Se não me aproximo, será que podem pensar que sou hostil a eles?” Assim prossegue, sempre à deriva e sempre amoral.

Mas é a vertigem permanente no imaginário do protagonista que confere ao romance seu toque singular. Depois de romper seu casamento – por nenhum motivo especial –, ele começa a ter fantasias auto-depreciatórias, como fazer fila atrás de outros homens para transar com a ex-mulher. Quando um colega de trabalho montonero é seqüestrado pelos militares, ele imagina que as outras professoras o condenam por não ter sido preso também. Quando desaparece o único original do romance incestuoso que ele escreve ao longo de uma década, suspeita que sua amante, a quem relatara o enredo, havia roubado e queimado o manuscrito por temer o incesto que ele teria com os filhos que um dia eles poderiam ter. A prosa permanece gélida, impassível, mas as alucinações cruéis e egocêntricas vão se sucedendo. O final é aterrador.

Os livros de Ferreyra estão escritos num castelhano único. Seus personagens não dizem, por exemplo, pensar ou suponer. Preferem barruntar, verbo que os poucos leitores de Ferreyra já adotamos como uma espécie de moeda secreta. Diz-se que depois da publicação do primeiro romance de Ferreyra (El amparo, de 1994), sua mulher chegou a dizer: “eu não sabia que estava casada com um monstro”. Pelo que sei, continuam casados.

Esperemos para ver quanto tempo demorará a tradução brasileira. Enquanto isso, compartilhe aí o que de melhor leu em 2007.



  Escrito por Idelber às 02:12 | link para este post | Comentários (26)



sexta-feira, 07 de dezembro 2007

Escritas da Violência, Unicamp, 28/11-30/11

Foram muitos os méritos do encontro “Escritas da violência”, que aconteceu no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, de 28 a 30 de novembro. Neste segundo colóquio internacional organizado pelos Profs. Márcio Seligmann-Silva e Francisco Foot Hardman, da UNICAMP e Jaime Ginzburg, da USP, mostrou-se o que acontece quando se tem um grupo sólido pesquisando um tema por um período considerável. A sensação nítida era a de que os coordenadores sabiam exatamente a quem queriam convidar; qual o plano de discussões que tinham em mente; quais contrastes e contrapontos desejavam criar. O colóquio foi, enfim, uma obra de arte. Talvez tenha sido o único na minha vida em que não vi um único trabalho ruim. A coisa ia do muito bom ao excelente ao brilhante.

Na abertura, o Prof. Marc Nichanian, armênio radicado em Beirute (ex-professor em Columbia), deu uma palestra absolutamente cativante sobre a catástrofe, o extermínio e o problema do testemunho – a catástrofe como lugar de aniquilamento da testemunha, reflexão que Marc desenvolve há anos a partir de sua extensa pesquisa sobre o genocídio armênio. Sobre Marc, diga-se não só que deu uma palestra brilhante. Poliglota contumaz (armênio, alemão, inglês, francês), ele estava pela primeira vez num ambiente cuja língua ignorava completamente. Em vez de sair e fazer turismo, ou ficar e fazer muxuxo, Marc deu aquele espetáculo de simpatia e ética: escutava pacientemente trabalhos numa língua da qual não entendia uma palavra. Nos intervalos, aproveitava para pegar um relato com algum de nós. Ia tecendo sua versão do congresso. Dei-lhe de presente meu livrinho sobre a violência e no dia seguinte o cabra voltou com metade lido e uma enxurrada de idéias para debate. Um genuíno pensador e um gentleman, o armênio Marc Nichanian.

A uruguaia Lisa Block de Behar veio em seguida. Mais que ouvir a palestra – muito boa, sobre a operação da memória num filme ucraniano, se não me equivoco –, foi uma alegria conhecê-la. Sou velho leitor de dois belos livros (entre os muitos) de Lisa: o seu ensaio sobre Borges e o pioneiro Una retórica del silencio, um tratado poético sobre os usos do silêncio na literatura. Essa pequena jóia de livro foi uma das minhas introduções ao que pode fazer a crítica literária. Tietei.

Daí em adiante foi só português; revi amigos, conheci pessoalmente autores que havia lido e tomei conhecimento de gente cujo trabalho ainda ignorava. Ana leu um trecho pesado d'Um defeito de cor, falou da pesquisa para o livro e deixou algumas imagens que permaneceriam presentes no colóquio inteiro. Meu amigo Foot Hardman fez uma entusiasmada apresentação da obra de Roberto Bolaño e de sua demolidora representação da instituição literária. Na última mesa do dia, Jaime Ginzburg ofereceu uma panorama dos discursos sobre a violência na literatura brasileira contemporânea. A fala foi brilhante; destaque-se nela a crítica firme feita a uma lamentável antologia recente, fenômeno de mercado dos mais rasos que tenta aproveitar-se da popularidade do tema. Por fim, Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) apresentou um comovente texto, em que ela falava ora como pesquisadora, ora como mãe, alivanhando reflexões a partir do caso do assassinato do garoto João Hélio no Rio de Janeiro.

No segundo dia eu falei de manhã, numa mesa com minha amiga Sônia Roncador (Universidade do Texas), que apresentou um estudo sobre relatos de domésticas. Depois da nossa mesa, um show solo do meu amigo Roberto Vecchi, com um estudo sobre o tema das escritas de massacre e Os Sertões, de Euclides da Cunha, em particular. A outra metade do duo italiano, meu também amigo Etore Finazzi-Agrò – um dos maiores especialistas do mundo na obra de Guimarães Rosa – falaria no dia seguinte, revisitando Rosa, mas dessa vez o enigmático “Meu Tio o Iauretê.” Depois do almoço, Regina Dalcastagné (UNB) apresentou uma visão bem crítica das estéticas da neo-violência na literatura brasileira, de Cidade de Deus aos herdeiros de Rubem Fonseca.

Havia também um excelente grupo de germanistas: Élcio Loureiro Cornelsen (UFMG) apresentou um trabalho assombroso sobre testemunhos de tortura na Alemanha comunista. De tudo o que ele disse, não me saiu da memória a imagem dos “arquivos de cheiros”, um imenso catálogo de pedaços de pano com os odores dos prisioneiros. O ensaio de Jens Baumgarten (UNIFESP) também foi muito bom, e lidava com a cultura do martírio na Alemanha nazista.

Por fim, tive a oportunidade de escutar pela primeira vez dois colegas que eu já havia lido fartamente. Jeanne Marie Gagnebin, suiça radicada no Brasil há 30 anos, é referência indispensável para quem estude a obra de Benjamin. Márcio Seligmann-Silva, co-organizador do encontro, é autor de um livro de raríssima erudição, O Local da Diferença, ganhador do Prêmio Jabuti de ensaios no ano passado.

Só resta, pois, deixar o registro do agradecimento aos organizadores. O livro que sair desse colóquio valerá a pena.

PS; o Lino Resende nos brinda com o título de “blog cabeça” e convida a que repassemos o meme. Aí vão, pois: Prás Cabeças (sem trocadilho), Mineiras, Uai!, Favoritos, Mothern e Uma Odisséia Literária. Viu, Lino? Sem sair de Belo Horizonte. Que ninguém se sinta obrigado a repassar, claro.

PS 2: Parece que os lançamentos d'Os Vira-Lata venderam dez vezes mais que o da Mônica Veloso.



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (15)



quinta-feira, 22 de novembro 2007

Juan L. Ortiz, um poema

jlo.jpg

Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a uma única tarefa: tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Debutou em 1933 com El agua y la noche. Seus primeiros dez livros – todos publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro – seriam reunidos a outros três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Há uma pequena amostra da obra de Juanele disponível na internet.

O poema que traduzo abaixo, “Sí, las escamas del crepúsculo...”, abre o volume De las raíces y del cielo (1958). Ignoro se é o primeiro poema de Juan L. Ortiz a ser vertido ao português.


Sim, as escamas do crepúsculo...

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado

Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...

Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...

Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...

Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....



  Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post | Comentários (5)



segunda-feira, 05 de novembro 2007

First Spanish Graduate Student Conference, Washington University

Ser convidado por outros professores para um congresso é bacana: trocar experiências, ver o que os colegas andam escrevendo, compartilhar leituras. Mas ser convidado para abrir ou fechar um colóquio de estudantes é sempre outro registro de reconhecimento. Doutorandos não te convidam para falar a não ser que tenham mesmo lido o que escrevestes. Vão para os congressos com aquela fome saudável de diálogo. É uma ocasião especial.

Os alunos de pós-graduação em espanhol da Washington University, em Saint Louis, fizeram seu primeiro colóquio neste fim de semana e me deram a honra do convite para a conferência principal. Levei um trabalho inédito sobre Gustavo Ferreyra e Martín Kohan, dois autores ainda pouco lidos fora da Argentina, o primeiro ainda mais desconhecido que o segundo. Sabia que ia gerar alguma conversa, mas não esperava ter uma das viagens mais inesquecíveis, intelectualmente mais estimulantes da minha vida. O programa de WashU hospeda um grupo de doutorandos chilenos e argentinos que são a nata do que já vi em 18 anos de vida universitária nos EUA, em sofisticação, em interlocução harmoniosa e inteligente, em compromisso com a literatura e com o pensamento. Para completar, trata-se de uma daquelas reuniões de pessoas generosas, divertidas. Como se não fosse suficiente, eles me presenteiam com um churrasco de corte legitimamente argentino, um almoço com ceviche e carne assada, livros, textos, revistas, referências, mil informações, incontáveis risadas.

Não havia como eu saber, claro, que iria encontrar aquele que é provavelmente o único grupo de jovens críticos literários do hemisfério norte a se dedicar em profundidade, com conhecimento de causa, às obras de autores como Juan José Becerra, Alan Pauls, Sergio Chejfec, além de Kohan, Ferreyra e do já mais estudado Roberto Bolaño -- todos eles presenças firmes no meu panteão romanesco pessoal. Seria muito longo relatar tudo o que aprendi com os trabalhos que escutei, superiores ou comparáveis ao que de melhor andam produzindo meus colegas por aí. Senti aquela sensação maravilhosa de conhecer velhos cúmplices, ser apresentado a antigos amigos, interlocutores.

Meu muito obrigado a César Barros, Ángeles Donoso, Julio Ariza, Paola Ehrmantraut, Nicolás Poblete, Vicente Bernaschina, Natalia Monetti, Catalina Andrango-Walker, José Galindo; a seus colegas de programa em WashU; a seus convidados de Berkeley, NYU e Michigan, especialmente Julia Chang, Ofelia Ros e Federico Pous, que apresentaram três trabalhos magníficos: Julia sobre a dinâmica racial na pintura colonial mexicana, Ofelia sobre a singular experiência da editora Eloísa Cartonera, Federico sobre o bate-bola de Bolaño com Borges em El gaucho insufrible; finalmente, obrigado também aos meus colegas de WashU, Profs. Elzbieta Sklodowska, amiga querida de anos (a polonesa mais cubana do planeta), Ignacio Sánchez Prado, Derek Pardue, Andrew Brown, pelos almoços e cafés regados a bom papo.

Gostaria mesmo de retribuir a hospitalidade um dia, em New Orleans ou em Belo Horizonte.

PD: por supuesto, en este blog se puede comentar en cualquier lengua.

Actualización: !Martín Kohan acaba de ganar el premio Herralde con su nueva novela!



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (12)



quinta-feira, 01 de novembro 2007

Um quarteto de Borges

Pelos idos de 1954, Jorge Luis Borges ainda enxergava de um olho. Numa viagem de férias a Mar del Plata com o casal Bioy (Adolfo e Silvina Ocampo), ele leva um tombo e, ao se recompor, descobre que já está praticamente cego. Sendo testemunha do oitavo ano de Perón no poder e tendo vivido uma sucessão de desastres amorosos, Borges passa por um de seus períodos mais duros. A cegueira inspira um texto célebre, o Poema dos Dons:

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
de Dios, que com magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche

Eu, que dificilmente aprendo poemas de cor, ando há anos com este quarteto na cabeça. Gosto de tudo nele: a completa ausência de ressentimento ante a cegueira, a admiração pela “ironia” de Deus, o enjambement do segundo verso ao terceiro, a rima abraçada de “reproche/ noche”. Escrito na década de 1950, ele marca a volta de Borges à poesia, já não a dos alongados e paisagísticos versos brancos da juventude, mas uma poesia contida, de formas quase clássicas e métrica rigorosa.

Pois bem, este quarteto merece outra versão em português, diferente da que se encontra nas Obras Completas de Borges, publicada pela Editora Globo, onde lemos:

Ninguém rebaixe a lágrima ou censure
Esta declaração de maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu os livros e a um só tempo a noite.

Esta saída não resolve nada: perde a rima e perde a métrica. Deixo aqui duas outras possibilidades, na certeza de que os eruditos leitores encontrarão uma melhor:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite
A condenar a mestria de Deus
que com magnífica ironia
Deu-me os livros e ao mesmo tempo a noite

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da mestria de Deus
que com magnífica ironia
me deu os livros e a noite escura

Ambas são superiores à versão publicada em português, mas nenhuma me agrada completamente. A primeira tem a vantagem de conservar a rima abraçada, mas não consegue manter a métrica do verso final, acrescentando-lhe um verborrágico “ao mesmo tempo”. A segunda inventa um redundante “escura” para qualificar a noite, e perde assim o impacto do uso metafórico do substantivo.

Deve haver uma saída melhor.



  Escrito por Idelber às 09:28 | link para este post | Comentários (30)



sábado, 13 de outubro 2007

Um monstro

Este livro merece um post:

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É dos objetos mais estranhos que já manuseei:

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Além das 1.600 páginas, capa bem dura e grossa, dificultando o trabalho da mão :-)

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São as fofocas de Bioy Casares sobre Borges em seu diário, de 1931 a 1986.



  Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post | Comentários (9)



sexta-feira, 12 de outubro 2007

Prêmio Nobel

Nunca li Doris Lessing, embora seja amigo de gente especializada na obra dela. É uma pena, porque já tive The Golden Notebook em mãos e, sem tempo, acabei deixando. Mas não há como negar, a nova laureada com o Prêmio Nobel de Literatura é uma velha simpática. O Nobel tem um impacto político e editorial inegável, mas como medida de valor literário, bem, ele será sempre o prêmio que Joyce, Proust, Kafka e Borges não ganharam. Em 1922, Joyce publicava Ulysses e o prêmio ia para Jacinto Bonavente. Em 1920, Proust publicava Le côté de Guermantes, o terceiro volume da Recherche. O Nobel foi para Knut Hamsun. É uma história divertida de se escrever, a desses contrastes. Depois da época em que o Nobel deixou de obedecer às idas e vindas da guerra fria e passou a obedecer ao vaivém das “boas causas” (equilíbrio entre regiões, forças políticas, etnias, gêneros, religiões), ele já serviu para que eu me interessasse por alguns autores (Naguib Mahfouz), confirmasse que gosto de uns (Harold Pinter) e que desgosto de outros (José Saramago). Ainda não sei onde entrará Lessing nessa lista.

PS. Texto interessante sobre o bar e a literatura.

PS 2. O Tiago Dória foi convidado para ser blogueiro oficial da PopTech, uma das mais importantes conferências sobre web e tecnologia no mundo. Parabéns! Trabalho de primeira sendo reconhecido.

PS 3. Alô Belo Horizonte: Tiago Dória, Tiagón Casagrande e outros estarão aí de 29 a 31 deste mês, num Congresso sobre Cibercultura na Fumec. Ao sair da Fumec, meus caros, dobrem à direita na Afonso Pena, peçam liçenca aos travestis e parem no Emporium para uma cachacinha. A oferta é boa.



  Escrito por Idelber às 04:39 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 09 de outubro 2007

Che Guevara, por Ricardo Piglia

Che_Guevara-07-b-py.jpg O que segue é uma tradução minha de trechos de "Ernesto Guevara, Rastros de Lectura", texto de Ricardo Piglia publicado no seu El último lector (Anagrama, 2005). O livro está disponível no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Heloísa Jahn. O artigo sobre Guevara é longo (pags. 103-38) e exibe o brilhantismo habitual de Piglia. Abaixo, algumas seleções minhas. Ao saltar algo, indiquei a elipse com reticências [...]

ERNESTO GUEVARA, RASTROS DE LEITURA

de Ricardo Piglia (tradução I. Avelar)

Há uma tensão entre o ato de ler e a ação política. Certa oposição implícita entre leitura e decisão, entre leitura e vida prática. Esta tensão entre a leitura e a experiência, entre a leitura e a vida, está muito presente na história que estamos tentando construir. Muitas vezes o que se leu é o filtro que permite dar sentido à experiência; a leitura é um espelho da experiência, define-a, lhe dá forma.

[...]

Há uma cena na vida de Ernesto Guevara à qual também Cortázar chamou a atenção: o pequeno grupo que desembarca do Granma foi surpreendido e Guevara, ferido, pensando que está morrendo, recorda um relato que leu. Escreve Guevara, nas Passagens da guerra revolucionária: “Imediatamente me pus a pensar na melhor maneira de morrer nesse minuto em que parecia tudo perdido. Recordei um velho conto de Jack London, onde o protagonista apoiado num tronco de árvore se dispõe a acabar com a própria vida com dignidade ao saber-se condenado à morte nas zonas geladas do Alasca. É a única imagem de que me lembro.”

Pensa num conto de London, “To build a fire”, do livro Farther North, os contos de Yukon. Nesse conto aparece o mundo da aventura, o mundo da exigência extrema, os detalhes mínimos que produzem a tragédia, a solidão da morte. E parece que Guevara teria recordado uma das frases finais de London: “Quando havia recobrado o fôlego e o controle, sentou-se e recriou em sua mente o conceito de afrontar a morte com dignidade”.

Guevara encontra no personagem de London o modelo de como se deve morrer. Trata-se de um momento de grande condensação. Não estamos longe de um Dom Quixote, que procura nas ficções que leu o modelo da vida que quer viver. Com efeito, Guevara cita Cervantes na carta de despedida a seus pais. . . Não se trataria aqui só do quixotismo no sentido clássico, o idealista que enfrenta o real, e sim do quixotismo como forma de ligar a leitura e a vida. A vida se completa com um sentido que se toma do que se leu numa ficção.

[....]

Há uma foto extraordinária, na qual Guevara está na Bolívia, trepado numa árvore, lendo, em meio à desolação e à experiência terrível da guerrilha perseguida. Sobe numa árvore para isolar-se um pouco e fica lá, lendo.

No princípio, a leitura como refúgio é algo que Guevara vive contraditoriamente. No diário da guerrilha no Congo, ao analisar a derrota, escreve: “O fato de que eu escape para ler, fugindo assim dos problemas cotidianos, tendia a distanciar-me do contato com os homens, sem contar que há certos aspectos de meu caráter que não tornam fácil a intimidade”.

A leitura se assimila à persistência e à fragilidade. Guevara insiste em pensá-la como vício. “Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura”.

[...]

Na história de Guevara há distintos ritmos, metamorfoses, mudanças bruscas, transformações, mas há também persistência, continuidade. Uma série de longa duração percorre sua vida apesar das mutações: a série da leitura. A continuidade está ali, todo o demais é desprendimento e metamorfose. Mas esse nó, o de um homem que lê, persiste do princípio até o final.

[...]

o outro elemento que está presente é justamente o tipo de uso da linguagem. Devemos recordar que o identifica um modismo lingüístico ligado à tradição popular. É conhecido como “Che” porque sua maneira de usar a língua marca, de modo muito direto, uma identidade. Por outro lado, o uso do “che” o diferencia dentro da América Latina e identifica-o como argentino. Jovem, em suas viagens, às vezes exagera-o para chamar a atenção e conseguir que o recebam e hospedem: sabe o valor dessa diferença lingüística. Ao mesmo tempo, o “che” funciona como identidade de longa duração, quiçá o único sinal argentino, porque em tudo o mais Guevara funciona com uma identidade não-nacional, é o estrangeiro perpétuo, sempre fora de lugar.

O uso coloquial e argentino da língua se nota imediatamente em sua escrita, que é sempre muito direta e muito oral, tanto em suas cartas pessoais e diários como em seus materiais políticos [...] A carta final a Fidel Castro está assinada simplesmente “che” e assim ele assinava as cédulas do banco que dirigia. A prova da autenticidade do dinheiro em Cuba era sua assinatura (dificilmente haverá outro exemplo igual na história da economia mundial, alguém que autentica o valor do dinheiro com um pseudônimo).

[...] Claro, Guevara não propõe nada que ele mesmo não faça. Não é um burocrata, não manda os demais fazerem o que ele só opina. Esta é uma diferença essencial, a diferença que o converteu no que ele é. Ele paga com sua vida a fidelidade ao que pensa. É semelhante à experiência dos anarquistas do século XIX, quando tentam reproduzir a sociedade futura em sua experiência pessoal. Vivem modestamente, repartem o que têm, se sacrificam, definem uma nova relação com o corpo, uma nova moral sexual, um tipo de alimentação. Propõem-se como exemplo de uma nova forma de vida.

cheleyendo.jpg

E no final de Guevara as duas figuras [o leitor e o político] se unem outra vez, porque estão juntas desde o começo. Há uma cena que funciona quase como uma alegoria: antes de ser assassinado, Guevara passa a noite prévia na escolinha de La Higuera. A única que tem com ele uma atitude caridosa é a professora do lugar, Julia Cortés, que lhe traz um prato de guisado que a mãe está cozinhando. Então – e isto é o último que diz Guevara, suas últimas palavras --, Guevara mostra à professora uma frase que está escrita na lousa e lhe diz que está mal escrita, que tem um erro. Ele, com sua ênfase na perfeição, lhe diz: “falta um acento”. Faz esta pequena recomendação à professora. A pedagogia sempre, até o último momento.

A frase (escrita na lousa da escolinha de La Higuera) é: yo sé leer. Que seja esta a frase, que ao final de sua vida o último que registre seja uma frase que tem a ver com a leitura, é como um oráculo, uma cristalização quase perfeita.

Morreu com dignidade, como o personagem no conto de Jack London.



PS: Comentários moderados, no post de hoje.

PS 2: Ainda sobre Ricardo Piglia, a quem interessar possa, deixo link de artigo meu recente, publicado em Crítica Cultural, revista acadêmica online sobre cultura feita no Sul do Brasil, com vários contatos também na América Latina (Obrigado pelo convite, Joca).

PS 3: Copiar, sem dar o link ou sequer indicar quem é o autor, um texto escrito por outra pessoa quatro dias antes, caro conterrâneo, é feio. Na internet, ao fazer essas coisas, acaba-se perdendo a credibilidade (Obrigado à Paula pelo toque e envio do link).

Atualização: O plagiário denunciado no PS número 3 decidiu fazer o mais fácil, que é apagar o post. A denúncia cumpriu sua função, pois, mas o link dado acima já está quebrado.



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (14)



quarta-feira, 03 de outubro 2007

Emma Zunz, de Borges

borges2.jpg (Post do Clube de Leituras do Borges, sobre “Emma Zunz”. Quem não se animou a postar na última vez, que se anime: o conto está disponível não só no original, mas também em português. É uma das pérolas de Borges. Tendo escrito, avise, que eu ponho o link aqui. O post vai em espanhol porque é uma combinação com os alunos. A caixa de comentários está aberta, claro, para qualquer língua. Só não vale ficar se desculpando por “não estar preparado”, “não saber falar de literatura”, etc. A idéia é brincar, e que cada um diga do que gostou – ou não – e por quê).


Me encanta en "Emma Zunz" todo lo que no es “típicamente” borgeano. Casi no hay mujeres protagónicas en la obra de Borges -- aún "La intrusa", por ejemplo, es en realidad un relato sobre la relación entre dos hombres. Pero es como si Emma Zunz lo compensara en doble. Esta mujer, poderosa, trama una venganza con la minucia con la que Dupin, el detective de Poe, resolvería un crimen. Con la diferencia de que ella pone su inteligencia diabólica, claro, al servicio de la confección de un crimen perfecto, incastigable. Sólo puede hacerlo en su condición de mujer, por ser mujer. Aquí entra el segundo elemento está casi ausente en Borges, pero que se encuentra en el centro de este relato: el sexo.

El sexo es, en "Emma Zunz", lo que posibilita el asesinato perfecto. La frase “pensó que la etapa final sería menos horrible que la primera” -- ésta sí típica de Borges – ya le da al lector la medida de cuál papel se le asignará al sexo: inmundicia necesaria para la realización perfecta del plan, que incluye presentarse como “soplona” de una huelga para conseguir la cita com Lowenthal (el culpable de que su padre haya muerto como infame, bajo una falsa acusación de robo) y asesinarlo en supuesta legítima defensa, “confirmada” por las marcas del sexo con el marino en el puerto. Para subrayar la perfección del plan, el narrador nos avisa que Emma Zunz destruye el dinero recibido del marino (no sin arrepentirse después) y teje la coartada ficcional no por miedo al castigo, sino por saberse instrumento de la justicia. Miente, es cierto, pero, se nos sugiere, lo hace para decir una verdad más esencial. Son memorables las frases de cierre del relato: “La historia es increíble, en efecto, pero se impuso a todos, porque sustancialmente era cierta. Verdadero era el tono de Emma Zunz, verdadero el pudor, verdadero el odio. Verdadero también era el ultraje que había padecido; sólo eran falsas las circunstancias, la hora y uno o dos nombres propios”.

Borges sabe que la historia de Emma se “impuso a todos” no porque representaba un ultraje verdadero (por más que éste sí lo haya sido), sino porque era completamente verosímil como relato. La verdad del padecimiento de Emma, por supuesto, puede conferirle justicia a sus actos y a sus versiones de ellos, pero no puede conferirles verosimilitud. Ésta adviene de su perfección como trama, de la lógica de sus secuencias. Siempre me ha interesado esta escisión entre la verdad (lo que se conforma a los hechos, supuestamente) y la verosimilitud (lo que puede parecer que se conforma a los hechos, lo creíble, lo plausible). Me parece que “Emma Zunz” es, también, un relato sobre la diferencia entre lo verdadero y lo verosímil. Emma cuenta una mentira pero rescata con ella – nos lo dice el narrador en su conclusión -- una verdad más esencial, el nombre limpio de su padre. Su plan funciona, sin embargo, no porque su ultraje es merecedor de redención, sino porque la construcción narrativa de su venganza es impecablemente perfecta. La verdad "más esencial" es una pobre tributaria de una perfección meramente narrativa, literaria.

Hay mucho de que hablar en "Emma Zunz": el sustrato judío (emblematizado en el cambio de nombre de su padre), la extraña figura del sexo como liberación precisamente porque inmundo para uma mujer, las relaciones del cuento con la tradición del relato policial (sería interesante notar aquí paralelos y diferencias respecto a ella). Hay críticos, por ejemplo, que se han dedicado a ver cómo el cuento replica los movimientos del ajedrez. Hay otros que han propuesto lecturas psicoanalíticas. Entre la larga fortuna del relato, está también un corto metraje, sobre el cual me encantaría escuchar opiniones.

El blog te invita a que dejes, en cualquier lengua, tus impresiones sobre "Emma Zunz".

Outros posts sobre "Emma Zunz":
Biajoni
Bender
Alex Luna
Marcus
Carla
Ulisses Adirt
Capedonte
Hélder da Rocha
e Mary W

Não deixem de ler também o conto borgeano do Almirante.



  Escrito por Idelber às 05:53 | link para este post | Comentários (94)



terça-feira, 25 de setembro 2007

Mais um um papo sobre Borges

Deixemos marcado para a quarta-feira que vem, dia 03 de outubro, mais uma conversa entre vocês e meus alunos no Clube de Leituras do Borges, que tal? Para quem se anima a ler em espanhol, aí vão os links de novo: Ficciones e El aleph. Para os neófitos, não posso deixar de sugerir o excelente livro de Beatriz Sarlo sobre Borges.

Desta vez, com uma semana de antecedência, fica melhor avisado. Quem sabe até ela aparece por aí.

Na terça à noite, então, eu colocaria o post e ao longo da quarta bateríamos papo sobre Borges de novo. Se você tem preferência por algum conto, deixe aí o seu voto.



  Escrito por Idelber às 18:35 | link para este post | Comentários (10)



segunda-feira, 24 de setembro 2007

Lançamento: Boca de lobo, de Sergio Chejfec

chejfec.jpg Vai sair no Brasil mais um notável romance argentino contemporâneo. Boca de lobo (2000), de Sergio Chejfec, será lançado em novembro pela Editora Amauta, em tradução de Marcelo Barbão. O título virou Lugar sinistro em português por decisão do tradutor, que não quis criar ambigüidades.

Paulistas, cariocas e gaúchos poderão ver o próprio Chejfec pessoalmente. Ele deve ir à Feira de Porto Alegre (09/11 a 12/11), fazer um lançamento no Rio (13/11) e outro em São Paulo (16/11). São os detalhes que tenho até agora.

A editora Amauta me convidou para escrever o prólogo de Lugar sinistro. Publico-o aqui no blog também, como aperitivo ao lançamento.

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Relatos da reflexão hesitante

O leitor brasileiro tem agora em mãos um dos momentos chave da obra do notável escritor argentino Sergio Chejfec (1956-), autor de nove romances, duas coleções de poemas e um livro de ensaios. Lugar sinistro, de 2000 (no original: Boca de lobo, que designa ali baldios e vielas escuras, não bueiros), narra a relação intensa mas oblíqua, amorosa mas plagada de tropeços, cúmplice mas não isenta de idealizações, entre um narrador anônimo “que leu muitos romances” e uma operária, Delia, mulher que é a zona-limite, opaca, ante a qual ele exercita sua capacidade de compreensão e de entrega. Escrevendo sobre o romance, Martín Kohan notou que se trata de uma história que “teria correspondido, em outros tempos da literatura, a uma típica fábula do realismo social, com tom de denúncia urgente e mensagem incluída”. Afinal de contas ali estão a fábrica, o subúrbio, a alienação, a relação desumanizadora com a máquina e o olhar fascinado de um não-operário que se aproxima, mas oscila entre o amor e o alheamento. Não se procure aqui, no entanto, uma fábula edificante do engajamento social ou um retrato pitoresco da vida operária. O projeto narrativo de Chejfec, insólito e solitário, se erige sobre as ruínas desses modelos. No Brasil, em particular, as representações contemporâneas da classe trabalhadora na literatura têm se mostrado tributárias de uma previsível estética da “neo-violência”, que não poderia estar mais distante da arte sutil, quase sussurrada de Chejfec. Lugar sinistro seria assim uma resposta – brilhante, me parece – à questão de como dar conta, literariamente, da vida operária, trabalhadora, em épocas de desmoronamento de todo realismo social.

Tal como os patrícios fundadores Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) e José Mármol (1818-1871) ou os romancistas contemporâneos Manuel Puig (1932-1990) e Juan José Saer (1937-2005), Chejfec pertence a uma longa tradição de escritores que produziram literatura inconfundivelmente argentina fora das fronteiras do país. Publicou seu primeiro romance, Lenta biografia, em 1990, ano em que se radicou na Venezuela como diretor da importante revista Nueva Sociedad. A ele se seguiram, além de Lugar sinistro: Moral (1990), O ar (1992) -- sobre um sujeito a quem a mulher abandona e cuja indecisão acerca de segui-la ou não se transforma em eixo do relato --, Cinco (1996), O chamado da espécie (1999), Os planetas (1999) -- a incursão de Chejfec pelo romance pós-ditatorial, narrado por um escritor que abraça a profissão a partir do desaparecimento de um amigo – e Os incompletos (2004), todos escritos durante a estadia do autor em Caracas. Desde sua mudança para os Estados Unidos, em 2005, publicou Baroni: uma viagem (2007), o seu tributo à Venezuela. Além da obra de ficção, Chejfec também é autor dos poemários Três poemas e uma mercê e Galos e ossos, além do livro de ensaios O ponto vacilante. Já é referência indispensável para quem se interessa pelo rico romance argentino contemporâneo.

“Não somos mais que um conjunto de desavenças com a realidade”, diz o narrador de Lenta biografia. Nesse hiato entre a palavra e o real, entre a memória e o fato, Chejfec vai construindo o fascínio de sua tortuosa ficção. É comum em suas narrativas que o narrador volte ao acontecimento, rasure o já dito, reescreva o afirmado. Chejfec pertence a uma linhagem da prosa ficcional argentina caracterizada por uma certa desaceleração reflexiva do relato. Não se trata de que “aconteça pouca coisa” – acontece muito em seus romances –, mas a linguagem estabelece com o acontecimento uma relação que a obriga a experimentar diferentes ângulos para descrevê-lo. A epítome dessa tradição multi-perspectivista é Juan José Saer, que burilara ao máximo o relato (e frase) que procede regressando e picotando o relato (ou frase) anterior. Mas se em Saer ainda permanece um movimento semi-circular ou espiralado de certa grandiosidade, num “eterno retorno” reiterado não só dentro do mesmo relato, mas de um livro para outro, Chejfec mantém a estratégia pensante, mas suas frases, ou pequenos núcleos narrativos, regressam ao material anterior numa coreografia de movimentos mais erráticos e descontínuos. O resultado é uma poderosa reflexão sobre a linguagem e a memória, na qual a ênfase recai sobre a opacidade, o desconcerto, o logro. Não parece haver aqui progressão temporal nas ações. A narrativa tem lugar num tempo espacializado, em que os acontecimentos coexistem como que numa multiplicidade de camadas. Em parte por isso, em parte pela voz sussurrada, meditativa do narrador, os personagens de Chejfec não suscitam catarse ou identificação de qualquer tipo em quem lê. Estamos longe do paradigma dialético da ascensão, clímax e queda.

É próprio dos protagonistas de Chejfec chegarem atrasados à cena que os constitui. Em Lugar sinistro, essa defasagem produz no narrador resultados angustiantes, dado o domínio e a fascinação exercidos por Delia, a operária. Ante a realidade bruta dos fatos, ele pontua seu espanto com recordações do que leu.: “li muitos romances onde o protagonista retorna ao lugar esquecido”; “Empréstimo. Dívida. Li muitos romances que tentam resolver o sentido dessas palavras”; “Li muitos romances em que os personagens estudam os trajes dos outros para conhecer aquilo que as palavras não dizem nem os atos descobrem”; “Li muitos romances onde os cheiros servem para resgatar recordações esquecidas, demonstrando que um laço mais eficaz e verdadeiro se manifesta quando a consciência se abandona à surpresa”. “Li muitos romances onde há pessoas que tiram conclusões arbitrárias sobre os demais”. Uma infinidade de frases com esse mesmo começo se repete ritmicamente ao longo da narrativa, marcando sua respiração. Reiteradas, iluminam alguma zona do contraste entre a história do protagonista e os choques que lhe impõe a experiência com Delia.

Num amor que une uma operária e um protagonista literato como o de Chejfec, seria de se esperar que o autor recaísse em um de dois perigos opostos: a ilusória fusão romântica ou a estereotipada idealização do outro. Na primeira, o intelectual passaria pelo processo de purgação, se despojaria de sua “falsa” cultura livresca e aprenderia com a vida simples dos operários: fábula realista-socialista. A segunda intercalaria fascinação e hostilidade como forma de sublinhar o abismo da distância insuperável, ao fim da qual o outro seria um puro ou um monstro: fábula vanguardista-modernista. Chejfec escreve com notável consciência dessas duas armadilhas. O protagonista não escapa da idealização, mas não deixa de fazer agudas observações sobre a fissura que o separa de Delia. Veja-se o assombro que lhe produzem os empréstimos de roupas entre os operários, parte de uma economia da escassez onde só circula entre eles o que não tem valor de troca -- roupa, ferramentas, utensílios, o próprio trabalho, mas raramente alimentos e jamais o dinheiro. Daí, nota o narrador, que seja mais simples endividar-se com agiotas, em vez de recorrer à ajuda de quem não cobraria juros. As dívidas acumuladas de um operário, F, produzem outra cena que o protagonista contempla com espanto: a entrega a F, pelo grupo inteiro, de uma soma de dinheiro à qual só alguns contribuíram – não se tratava de dividir entre todos o mérito da generosidade, mas diluir num coletivo maior o peso da desonra. Nessas observações ao mesmo tempo sagazes e distantes, o narrador de Chejfec vai construindo uma relação com o outro que é singular – embora não singular o suficiente para que ele se mostre digno desse amor.

Beatriz Sarlo, a crítica argentina que mais atenção vem dedicando à obra de Chejfec, notou com a habitual perspicácia que seus escritos impõem um giro às recentes representações do imaginário urbano. A urbe já não é marcada pela profusão de signos, mas pela ruína, decadência, esvaziamento. Publicado um ano antes do colapso pós-menemista da Argentina, Lugar sinistro assume tons antecipatórios. Apesar de que praticamente não há sinais específicos que remitam a Buenos Aires ou a qualquer outra cidade argentina, o cenário pós-industrial construído pelo romance traz numerosos paralelos com os processos recentes vividos pelo país.

A expressão que dá título ao livro em espanhol, Boca de lobo, designa as zonas baldias, poços de penumbra, blocos de escuridão pelos quais transita o personagem; metaforicamente, também alude à zona de incomunicação e perplexidade que organiza sua relação com Delia. Tragado nessas valas, o amor entre o leitor de romances e a operária termina como costumam terminar, na grande literatura, todos os amores. Desenredar os fios do fracasso é a mais visível, não a mais fascinante das tarefas propostas por este romance.

PS: Também em novembro, o Marcelo Barbão lança seu primeiro romance, Acaricia meu sonho.

Atualização: Barbão acaba de me confirmar que o título em português vai ser Boca de lobo mesmo, o que sempre me pareceu a decisão correta, apesar do ligeiro "desvio de sentido" que ocorre em português.



  Escrito por Idelber às 20:36 | link para este post | Comentários (17)



segunda-feira, 17 de setembro 2007

Loteria em Babilônia

yseadendo2_cover.jpg(O post que se segue é um convite a uma discussão de "Loteria em Babilônia", de Jorge Luis Borges. Ele vai em espanhol porque os alunos vão passar por aqui. Mas os comentários de todos são bem vindos, claro. Leu “Loteria em Babilônia”, comente, relax, em qualquer língua: português, inglês ou espanhol)

El relato es simple: el narrador nos trae la historia de un insólito lugar, Babilonia, donde la lotería es la parte principal de la realidad . De origen plebeyo, la lotería agraciaba a sus ganadores, al principio, monedas de plata. “Naturalmente” esas loterías fracasaron porque “no se dirigían a todas las facultades del hombre”, sólo a la esperanza. El remedio para ese “natural” fracaso termina siendo la interporlación de algunos destinos adversos en el sorteo.

El leve peligro despierta el interés del público que, en vez de abonar las multas, ya pasa a escoger directamente el encarcelamiento que advenía de no pagarlas. Esa primera aparición en la lotería de elementos no pecuniarios es tratada por el narrador como punto clave en el proceso . Mientras tanto, en los “barrios bajos” una rebelión popular lograba que la Compañía responsable de la lotería “aceptara la suma del poder público”. Un rato después, lograban que la lotería fuera “secreta, gratuita y universal”. La insólita “Compañía” pasa a controlar toda la realidad, o por lo menos pasa a parecer poder estar haciéndolo a cualquier momento.

El narrador tiene prisa, dice que “la nave está por zarpar”. Está partiendo de un puerto que no sabemos cuál es. Justo le alcanza el tiempo para narrar el último estadio de la lotería: la transformación de toda la realidad en materia del azar. El sorteo de una muerte implica el sorteo del verdugo, del instrumento letal, de la fecha, en sucesión infinita –cualquier acto del azar produce infinitos otros, cualquier sorteo implica incontables otros, cualquier intervención de la Compañía demanda numerosas otras.

El resultado es que cualquiera puede estar ejecutando, “acaso, una secreta decisión de la Compañía”. Ese funcionamiento silencioso del aparato administrador de la lotería (y por lo tanto controlador de la realidad) es “comparable al de Dios” y le confiere al cuento su imagen final, hasta que el narrador, claro, nos recuerda que todo puede ser también un delirio imaginativo creado por la propria Compañía.

Como suele pasar con Borges, el cuento ha producido algunas lecturas que se repiten con unas pocas variaciones. De estas lecturas, dos me vienen a la memoria: una interpretación “filosófica” que lo toma como parábola acerca del azar, como relato acerca del intento de crear la contingencia absoluta (la indecidibilidad completa, el sorteo de todo) y de cómo tal intento termina en una maligna necesidad absoluta, en un Dios lotérico perfectamente tiránico. El segundo acercamiento toma algunos elementos del primero, pero trata de sacarle un sustrato político al cuento: con atención a la fecha de publicación del texto (1941), esa lectura observa el carácter de “Big Brother” de la Compañía lotérica y nota la rebelión “de los barrios bajos” por hacer la lotería “secreta, gratuita y universal” (palabras que, claro, tienen su historia política). A partir de allí esa interpretación subraya el resultado pesadillesco y distópico del impulso inicialmente utópico, egalitario.

Mucho se podría decir sobre estas dos posibilidades, pero las dejo por aquí. Hay, por supuesto, incontables otras lecturas. El blog los invita a compartir su experiencia con “Lotería en Babilonia”, en su lengua de predilección.

Posts relacionados
:
Borges.
Reflexões sobre o conto.
Sobre um conto de Borges.
Literatura argentina: Biblioteca básica.
Cripta em duas partes.

Atualização. Também escreveram sobre o conto:
Alex Castro
Alex Tarrask.
Andre Bittencourt.
Milton Ribeiro.
Donizetti
Adriano.
Ulisses Adirt.
Bender.
Hermenauta.
Marcus Nunes ,
Hélder da Rocha
e.... Biajoni!



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post | Comentários (37)



sexta-feira, 14 de setembro 2007

Clube de Leituras: Borges

Borges-II.jpg Umas duas gerações atrás fiz um post anunciando outra encarnação do clube de leituras, agora sobre Borges, num bate-bola com o curso de pós-graduação que estou oferecendo aqui em Tulane. Pois bem, se houver alguém por aí com interesse em discutir Borges, fique avisado que a brincadeira começa nesta segunda-feira com “Loteria em Babilônia”, conto que é parte do livro Ficciones, que está disponível na internet em espanhol.

Ao subir uma escada na noite de Natal de 1938, Borges quase arrebenta a cabeça numa janela aberta e passa algumas semanas de cama, com momentos de febre e delírio. Estava longe de ser um desconhecido: já havia escrito três volumes de poemas, cinco de ensaios e pilhas de resenhas de livros e filmes, além de ter reunido uma compilação de “causos” de criminosos. Mas, com a exceção do relato “Homem da esquina rosada”, não havia publicado contos. Em pânico com a possibilidade de ter perdido a capacidade de escrever, decide tentar o que nunca havia feito.

Segundo o raciocínio – típicamente borgeano --, se ele tentasse escrever um poema ou uma resenha e fracassasse, se sentiria completamente derrotado. Se, ao tentar um conto, não saísse nada, o fracasso não significaria tanto assim. Afinal de contas, tentara algo que nunca havia realizado. O fruto dessa tentativa foi “Pierre Menard, autor do Quixote”, conto que dá início à série de relatos pelos quais Borges se tornaria mundialmente conhecido. "Loteria em Babilônia" veio logo em seguida: foi publicado na revista Sur em janeiro de 1941.

Estamos começando a mergulhar nesses contos agora e deixamos o convite para que você se junte a nós na segunda-feira, com um papo sobre “Loteria em Babilônia”, esse relato tão insólito. Se quiser passar o fim de semana com Borges, é só baixar e ler.

PS: Obrigado à conterrânea e extraordinária blogueira Luiza Voll pela entrevista que me coloca em tão ilustre companhia.



  Escrito por Idelber às 18:12 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 11 de julho 2007

Flip: terceiro dia e fofocas

pauls.jpg Aqui vão algumas considerações finais sobre as mesas de sábado da Flip e o evento como um todo:

A primeira mesa reuniu, numa homenagem a Nelson Rodrigues, a crítica Leyla Perrone-Moisés, o artista plástico e escritor Nuno Ramos e o escritor e letrista Nelson Motta, que substituiu Arnaldo Jabor. Leyla apresentou uma pesquisa sobre o uso da linguagem em Nelson. Começou questionando a afirmação de que Nelson teria “retratado” a fala popular em seu teatro. Sem citá-la, Leyla dava uma estocada em Barbara Heliodora que, na abertura da festa, havia ressaltado o pioneirismo do anjo pornográfico na incorporação da linguagem real do carioca ao teatro. A insistência de Leyla em que ele “não podia ser reduzido a um documentarista” me pareceu injusta, já que Barbara não tinha feito redução nenhuma; havia simplesmente enfatizado a artificialidade da linguagem teatral anterior a Nelson. Daí em diante, Leyla fez uma compilação de uma série de elementos interessantes dos diálogos de Nelson, por exemplo a propensão de que as perguntas sejam respondidas com outras perguntas. Da boa intervenção de Nuno Ramos, ficou em minha memória o comentário sobre o caráter “solto”, “sem precursores” de Nelson Rodrigues na literatura brasileira, além de uma bela desmistificada na imagem de um Nelson “explorador das profundezas” da psique humana. Para Nuno, a exterioridade, a conversão de tudo em teatro, seria uma imagem mais adequada para descrever sua obra. Quem finalizou o papo foi Nelson Motta, contando divertidas – mas já conhecidas – anedotas sobre o Nelson Rodrigues que desmascarou a suposta neutralidade dos comentaristas de futebol, com sua desbragada paixão tricolor exposta na TV. Não faltou a indefectível citação de que todas as vezes que o videoteipe desmentia Nelson, o anjo pornográfico não perdia a oportunidade de decretar que o videoteipe é burro. Arnaldo Jabor não apareceu, mas gravou um depoimento. Não nutro grandes simpatias por Jabor, mas tenho que confessar que dei boas gargalhadas com o vídeo: um dos relatos mais curiosos foi sobre o ciúme que tomou conta de Nelson na época em que Guimarães Rosa passou a ser incensado como o grande autor brasileiro. Reproduzindo o vozeirão de Nelson, Jabor imitava: ontem me encontrei com Guimarães Rosa na rua, imponente e elegante, de paletó e gravatinha borboleta, e lhe disse: Guimarães Rosa, não seja tão Guimarães Rosa!

A mesa “Dos dois lados do balcão” reuniu César Aira, um dos mais insólitos escritores argentinos, e Silviano Santiago, crítico, poeta e romancista brasileiro. Silviano leu trechos de Em Liberdade, romance-diário sobre o qual os leitores deste blog sabem algo. César Aira, autor de mais de 30 livros – Aira escreve com um furor tremendo, pondo em ação uma verdadeira estratégia de saturação do mercado –, leu um texto curioso sobre a crescente dificuldade que têm os humanos de desmontar as máquinas que constroem (por oposição aos velhos tempos quando bons mecânicos ou técnicos desmontavam qualquer carro ou fogão). Daí passou a uma descrição curiosa sobre seu método de escrita (e quem já leu as bizarras histórias de Aira sabe do que falo): deixar cair o primeiro disparate que me ocorre e depois tentar consertá-lo. Ao ser confrontado com uma pergunta sobre a inverossimilhança do estranho ser metade papagaio e metade morcego que aparece em seu romance Las noches de Flores, Aira retrucou com tranqüilidade: mas veja que umas páginas depois revela-se que se tratava de um agente da polícia disfarçado (como se isso, claro, tornasse a coisa toda muito verossímil!). César Aira tem algo em comum com Will Self: falam sempre com a cara mais séria do mundo, mas não podem senão provocar gargalhadas. Se você gosta de literatura, nunca leu Aira, viu-o em ação em Parati, mas mesmo assim não saiu correndo para ler um de seus livros, ora ora, eu não sei o que lhe dizer.

A terceira mesa do sábado era, para mim, a grande atração da Flip: Maria Rita Kehl e Alan Pauls falando sobre o amor. Este papo valeu a viagem. Maria Rita foi criticada por algumas pessoas por passar todo o tempo falando d´O Passado, o extraordinário romance de Pauls recém traduzido no Brasil. Onde já se viu, vir à Flip e ficar falando de um livro! Eu, de minha parte, achei a postura de Maria Rita elegantíssima: signatária de respeitável obra ensaística, ela preferiu não falar de si. Leu com cuidado o romance do convidado e armou o diálogo a partir dele. Pauls simplesmente deu um show. Relatando as freqüentes perguntas que lhe dirigem sobre o amor desde a publicação d´O Passado, como se ele fosse um especialista, Pauls retrucou: não falo como especialista. Do amor, eu sou, como todos, uma vítima. O Passado narra, ao longo de quase 600 páginas e 20 anos, o amor entre Sofia e Rímini. Foram exibidos, antes da mesa, uns 5 minutos do filme de Héctor Babenco que estréia em outubro, baseado no romance. Rímini é um personagem na linha dos vários anti-heróis do romance do século XX (Kafka, Joyce). Não consegue agir. É sempre contemporâneo do que lhe acontece: ao contrário de Sofia, ele não consegue ter um discurso sobre o amor. Sofia, por sua vez, transforma em transparente qualquer homem que olhe. Em um determinado momento, ela constitui uma espécie de “célula política” dedicada ao amor: estranho projeto de levar o amor ao limite, convertendo-o quase em doutrina, em ato político. Sobre o romance, Maria Rita fez uma observação muito sagaz: a tentativa de fazer do amor uma obra de arte resulta, quase sempre, numa obra kitsch. fisk.jpg

A última mesa que vi foi a dos jornalistas Lawrence Wright e Robert Fisk, autores de livros sobre o Oriente Médio e, respectivamente, apoiador e crítico da permanência dos EUA no Iraque. Não sou exatamente um observador neutro, mas todos aqueles com os quais conversei concordaram comigo e com Marcelo Tas: foi nocaute no primeiro round. Ante o argumento de que os EUA não deveriam conversar com determinados “terroristas”, Fisk listou uma dezena de exemplos em que governos ocidentais diziam que não conversariam com determinadas forças políticas e terminaram fazendo-o (o governo francês cansou-se de dizer que não conversaria com os “terroristas” argelinos, só para se desmentir depois). Ante o argumento de que a saída dos americanos do Iraque provocaria uma guerra civil, Fisk ofereceu uma dezena de exemplos em que se disse o mesmo em outras situações de ocupação colonial e não ocorreu guerra civil alguma. Quando a mediadora propôs que trocassem perguntas, Lawrence Wright escolheu a mais fraca possível: você acha que os EUA mereciam ser atacados em 11 de setembro? (a velha pergunta retórica que usam aqueles que querem desqualificar as responsabilidades dos americanos na germinação do terrorismo atual). Fisk não perdoou: esta é uma pergunta estúpida. Ninguém merece ser atacado. Os iraquianos mereciam ser atacados em 2003? Daí passou a explicar por A + B a diferença entre merecer e ter responsabilidades políticas. Era um dos maiores jornalistas políticos ocidentais, sem dúvida o maior entre os que se dedicam ao Oriente Médio, debatendo com um peso-pena. Foi um massacre.

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Fofocas de bastidores da Flip:

Ninguém me contou, eu não ouvi falar, aconteceu na minha frente e eu vi: à escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif, ativista da causa palestina, foi dito que deveria “evitar esses temas políticos para concentrar só na literatura”. Enquanto isso, o “pacifista” israelense Amós Oz – que apóia o muro da vergonha e apoiou o massacre israelense do ano passado contra o Líbano – dissertou longamente sobre política.

Conversei rapidamente com Robert Fisk, que me relatou uma de suas interessantes histórias sobre o serviço de imigração americano, que uma vez o barrou em San Francisco com a pergunta: o sr. já esteve com algum terrorista? Resposta de Fisk: sim, eu já entrevistei Osama bin Laden e Ariel Sharon. Ante a menção de Sharon, claro, liberaram-no.

O grande problema da Flip, sem dúvida, é o excesso de reverência, que faz com que o público aplauda qualquer coisa. São irritantes as repetidas interrupções para aplausos. É ali que se vê com mais nitidez quão tênue e longínqua é a relação com a literatura que mantém a grande maioria do público que ali está.

O Globo deu de 10 x 0 na Folha nesta Flip. Foi vergonhoso o texto que assinaram, na segunda-feira, Eduardo Simões, Marcos Stecker e Sylvia Colombo. É um exemplo de mau jornalismo: muito adjetivo e pouca informação. As detalhadas argumentações de Robert Fisk sobre o Oriente Médio receberam o título de “rasos antiamericanismos” do “histriônico” Fisk. Para piorar, escolheram desqualificar Fisk e a leitura de trechos de Nelson com o péssimo neologismo “flopou”.

Paulo Cesar de Araújo, em definitivo, é pop. Paulo me confidenciou – e eu lhe prometi que era em off – qual é o tema de seu próximo livro. Guardem aí: vai fazer mais barulho que Eu não sou cachorro não e Roberto Carlos em detalhes. Não há dúvidas: em breve, Roberto Carlos não será mais que um pequeno capítulo na biografia de Paulo Cesar de Araújo.

Nesta quinta-feira à noite, o Roda Viva exibe entrevista com Nadine Gordimer com participação de Ana Maria Gonçalves.

Para finalizar: gostei muito, valeu o passeio, mas acho que foi minha última.

PS: Há em Parati um restaurante chamado Brik-a-Brak. Evitem-no.



  Escrito por Idelber às 04:45 | link para este post | Comentários (20)



domingo, 08 de julho 2007

Flip, segundo dia

Ahdafbig.jpgA primeira mesa da sexta-feira aqui na Flip foi dedicada ao tema das biografias e da liberdade de expressão. Reuniu os dois maiores biógrafos do país, Fernando Morais (autor de biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário Prestes) e Ruy Castro (que relatou as vidas de Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues) num papo com Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos. Foi, talvez, a declaração pública com mais detalhes que tenha dado Paulo Cesar sobre o processo de proibição do livro. A tal "audiência de reconciliação", meus caros, foi mais vergonhosa que eu imaginava. O juiz chegou a ameaçar a Planeta de fechamento -- o que certamente pesou na decisão dessa editora espanhola, dirigida no Brasil por um argentino, de interromper o apoio que até então havia dado ao autor. Antes mesmo de que se começassem a discutir possíveis acordos que permitissem a circulação do livro, o juiz fez, com Paulo Cesar, uma reunião repleta de ameaças. Depois, como já sabem os leitores deste blog, o juiz Tércio Pires tirou seu CDzinho da sacola para oferecê-lo a Roberto Carlos, com o pedido que ele desse sua opinião sobre a "obra". Paulo Cesar emocionou-se ao lembrar que o livro é dedicado à sua filha Amanda, de 5 anos, que inúmeras vezes pediu que o pai não saísse e recebeu como resposta que "papai está trabalhando num livro sobre Roberto Carlos". Ao ser perguntada sobre o cantor, Amanda recentemente disse, numa mesa de restaurante, que não gosta mais dele, pois "está processando meu pai". Ao longo do relato, só aumentava o meu respeito por esse extraordinário pesquisador e ser humano que é Paulo Cesar de Araújo.

Na seqüência, Ruy Castro relatou o processo que lhe moveram as filhas de Garrincha na época da publicação de Estrela solitária. Aflorou um detalhe que eu, pelo menos, não conhecia: logo depois que o Fantástico fez uma matéria com Ruy Castro, no domingo anterior à chegada da obra às livrarias, o biógrafo recebeu um telefonema dos advogados das filhas de Garrincha dizendo que iria processar mas que "havia acordo". Ou seja, o caráter mercenário do processo já ficou nítido no primeiro momento. Ruy rendeu homenagem à Companhia das Letras, que o apoiou durante 11 anos no kafkiano processo, até que o litígio fosse abandonado por absoluto cansaço das partes. Fernando Morais, por sua vez, incendiou a platéia (que foi uma das maiores da Flip) com a proposta de que Paulo Cesar vá até o "Tribunal de Haia", se necessário, para defender o livro. Completou com a sugestão de uma emenda constitucional que esclareça, de uma vez por todas, que o raio do direito à privacidade não deve jamais se sobrepor ao direito à informação e à livre expressão sobre temas de interesse público. Paulo Cesar recebeu a solidariedade incondicional de Ruy e Fernando, e os três biógrafos foram longamente aplaudidos. Bola cheia para a Flip por essa mesa.

Ana Maria Gonçalves e a escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif fizeram uma mesa cheia de cumplicidade. Ana leu os primeiros (e brutais) parágrafos de Um defeito de cor. Emocionou a platéia. Ahdaf fez uma leitura de dois trechos do seu belo Mapa do amor. Achei as perguntas do mediador bem fracas, mas como Ana e Ahdaf já haviam estabelecido uma amizade, o bate-bola não foi prejudicado. Sobre Ana, os leitores deste blog já sabem muito, então me limito a falar de Ahdaf Soueif: se levo algo desta Flip, são a alegria e a honra de ter conhecido essa mulher extraordinária. Eu já lera alguns de seus artigos sobre a causa palestina. Viúva, vivendo a dureza que é a experiência de uma árabe no Reino Unido (ela divide seu tempo entre Londres e Cairo), Ahdaf emana tranqüilidade e sabedoria. Comecei a ler Mapa do amor e estou absolutamente encantado. O livro relata a história de dois amores separados por um século, tendo como pano de fundo o confisco das terras palestinas pelo estado de Israel. O mediador cuidadosamente evitou os temas políticos, substituídos por repetitivas perguntas sobre o "romance histórico". De longe, os melhores momentos da mesa foram aqueles em que Ana e Ahdaf bateram bola de forma independente sobre seus respectivos processos de criação. Especialmente interessante foi o relato de Ahdaf sobre a tradução ao árabe de Mapa do amor, feita por sua mãe, que é professora universitária de literatura -- e bisbilhoteira, como costumam ser os professores universitários. Impunha mudanças ao romance de Ahdaf. Depois de muitas brigas familiares, foram chegando a um consenso, e Ahdaf relatou o caso como uma experiência que terminou sendo enriquecedora.

Não assisti às mesas com Antônio Torres / Mia Couto e Dennis Lehane / Guillermo Arriaga. Na última mesa do dia, o israelense Amós Oz e a sul-africana Nadine Gordimer também bateram bola com cumplicidade, amigos que são já há alguns anos. Nadine tem uma bela história, não só de oposição ao apartheid mas também de recusa a qualquer tratamento especial: ela teve livros banidos pelo regime racista que terminou em 1994 e, ante a suspensão do banimento, recusou o "privilégio" até que também fossem suspensas as proibições a escritores negros que haviam passado pela mesma experiência. Amós Oz, fundador do grupo Peace Now, relatou as várias acusações de "traidor" que já sofreu em Israel por sua posição em favor da paz e da solução biestatal ao conflito. Claro que não apareceram perguntas do tipo como você concilia sua condição de pacifista com o seu apoio ao muro, ao bombardeio israelense aos civis libaneses e à quase destruição da infra-estrutura sul-libanesa por causa do seqüestro de dois soldados? Afinal de contas, isso seria prejudicial à sua fama de "pacifista". Em todo caso, foi uma bela mesa, na qual Oz teve a elegância de recusar a sistemática comparação (feita não só pelo mediador, mas pela própria organização da Flip) entre a sua condição em Israel e a experiência de Gordimer sob o apartheid.

Logo que possível, coloco um post sobre as quatro primeiras mesas do sábado, nas quais estive presente (com destaque, como já esperado, para o interessantíssimo papo entre Maria Rita Kehl e Alan Pauls).

PS: Também estão por aqui Sergio Fonseca e Ane Aguirre, com belas fotos.



  Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post | Comentários (13)



sexta-feira, 06 de julho 2007

FLIP, primeiro dia

nelson.jpg Começou na quarta-feira à noite a 5a Festa Literária Internacional de Parati. O primeiro evento foi uma aula magistral de Barbara Heliodora sobre o homenageado do ano, Nelson Rodrigues. Foi bom ver Barbara em ação de novo: essa mulher já entrada em anos, fundadora da crítica shakespeareana no Brasil, mostrou como um especialista pode falar clara, compreensiva e ao mesmo tempo instrutivamente para um público amplo (curiosidade: Barbara Heliodora é filha do primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, o lendário goleiro Marcos de Mendonça, do Fluminense). Foi um passeio elegante pela vida e obra de Nelson, pontuada por um achado: Nelson foi o primeiro a registrar no teatro a fala popular carioca -- com suas modulações, sintaxe, léxico -- exatamente por não ser carioca, por trazer a sensibilidade para o diverso que nunca deixou de acompanhar seus ouvidos pernambucanos.

Depois vieram as boas-vindas bilíngües da idealizadora da Festa, a editora inglesa Liz Calder, que recordou com nostalgia a época em que a Flip era uma reunião de meia dúzia de visionários. Falou em belo português, a Dona Liz, só traída no momento em uma quase homofonia entre duas palavras e um desses nossos malditos ditongos produziu uma hilária referência à uma bolsa na báia de Parati. Nada que apagasse o brilho da tremenda simpatia de Dona Liz, claro.

Aí veio a música. A Orquestra Imperial, com seus 18 integrantes, já tem 5 anos de estrada e inclui figuras conhecidas como o baterista Wilson das Neves, ídolos pop como Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, os três membros do grupo +2 (Moreno Veloso, Kassin e Domenico) e uma bela seção de metais, além de duas divas, Thalma de Freitas e Nina Becker. Foram acompanhados por uma lenda viva, João Donato, que, sorridente e de boné cor-de-rosa, parecia um menino de 72 anos ao teclado. Tocaram clássicos da bossa nova e do samba, além de composições próprias. É o tipo de show que agrada a todo mundo, até a quem não gosta de música. Eu diria que agrada principalmente a quem não gosta de música: versões light, arranjos macios, um som que "não incomoda". Nada contra, longe de mim. Acho até que é o tipo ideal de show de abertura para eventos como este (os gringos a-do-ram). Mas eu, particularmente, prefiro um som mais áspero, mais cheio de recovecos, descontinuidades, com algum grau de desconforto.

Na quinta-feira, assisti à mesa dos jovens escritores Cecília Gianetti, Fabrício Corsaletti e Veronica Stigger. Daí pulei para o destaque da manhã, o papo sobre poesia e letra de música com Chacal e Lobão. Foi uma bela mesa. Chacal, nome chave da poesia-mimeógrafo dos anos 70, comemora sua transformação em monumento literário, com a publicação de "Obras Completas" pela CosacNaify, em volume que, na sua divertida descrição, "fica em pé sozinho". O recital apresentado pelo poeta fluminense foi um petardo: cheio de jogo de corpo, privilegiando alguns poemas de forte apelo sonoro, Chacal deu um verdadeiro show. Lobão levou o violão, cantou e defendeu-se da acusação de ter renunciado a combater a indústria fonográfica -- com o argumento de que, afinal de contas, "já a transformamos e agora é o momento de ocupá-la para nossos objetivos". Entremeio, reflexões de ambos sobre seus processos de composição.

Após o almoço, a fera em pessoa: Augusto Boal, em depoimento comovente sobre Nelson Rodrigues. Ao contrário da fala solta que é de praxe na Flip, Boal leu um texto. Passeou por mitologias cariocas, refletiu sobre essa insólita amizade entre um esquerdista e um direitista, recordou a desastrosa palestra de Nelson que tentou organizar na universidade (à qual chegaram meia dúzia de gatos pingados, em vez da multidão prevista), divertiu-se com o fato de que, durante sua prisão sob a ditadura, Nelson chegou a mentir para defender o amigo, afirmando que ele "só fazia teatro" e "não tinha nada a ver com política de comunista". Disse muito mais. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o caderno de Boal: daqueles antigos, de espirais que começam a se desarmar, com páginas amassadas; tudo escrito a mão. Só Boal foi aplaudido de pé até agora por esse público da Flip que, convenhamos, aplaude qualquer coisa (sobre o insólito papel dos aplausos na Flip, farei um post em breve). O companheiro de mesa de Boal, o diretor Eduardo Tolentino, também falou bonito, recordando sua experiência dirigindo Vestido de Noiva na Polônia, sem falar uma palavra de polonês.

Às 5 da tarde, houve a mesa com dois dos visitantes de língua inglesa: o americano Jim Dodge e o britânico Will Self. Aquele é um velhinho simpático, daqueles naturebas que abundam na Califórnia. Vive num rancho e tudo mais. Teve lançado por aqui, pela José Olympio, o seu Fup, relato de vida de uma pata. Pareceu-me um escritor menor. O poema que leu era longo, chato e verborrágico, uma espécie de sub-Allen Ginsberg.

O tal do Will Self, mes amis, eu não conhecia tampouco, mas vou querer conhecer. O homem parece saído de um filme de terror. Tem dois metros de altura e é feio como a morte:

willself.jpg

Com um vozeirão de locutor de rádio e um olhar de psicopata, Will Self dedica-se a inventar mundos bizarros, insólitos, terroríficos. Diz barbaridades, horrores, com a cara mais séria do mundo, até que o absurdo que ele vai tecendo dê alguma pista para que se penetre na ironia. Uma espécie de Kafka punk. O homem inspirava tanto terror que não havia outra reação possível que não as gargalhadas. Entrou para a minha lista, com certeza. Fácil, fácil, foi o mais divertido até agora.

A última mesa, com Kiran Desai e José Eduardo Agualusa, eu acabei perdendo, para fazer algo muito mais importante: tomar uma cervejinha com Carla Rodrigues, que lança, em Belo Horizonte, nesta segunda-feira (às 19:30, no Palácio das Artes), a sua biografia de Betinho. Até agora foi isso.



  Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post | Comentários (12)



terça-feira, 19 de junho 2007

O novo romance de Biajoni e um papo com Ana Maria Gonçalves

capa_virginiaberlim.jpgE fiquei ali bebendo, deitado no chão e estava passando para o sono quando, de súbito, bateram à porta. Levantei de um pulo, bêbado e nu. Chutei, no salto, o copo – esparramando a bebida, um pouco de gelo e cacos. Tentei correr para o quarto em busca de algo para me vestir e pisei em um enorme pedaço de vidro. Gritei. E ouvi, do outro lado da porta, alguém me chamar, perguntando se estava tudo bem. E era ela! Minha cabeça rodou de dor e espanto. Não podia ser. E. Corri assim mesmo, na ponta dos dedos, vesti um calção e abri, e ela... E era ela mesmo, sorriso avoado, de surpresa, com um bom cheiro e uma presença miúda, abissal. Meus cabelos desgrenhados se ouriçaram e suas sobrancelhas arquearam ainda mais diante da cena: meus olhos inchados e úmidos da dor, o pé escorrendo sangue.

É um trecho de Virgínia Berlim, o novo petardo de Luiz Biajoni. O Bia tem essa capacidade extraordinária de tomar pequenas fatias da experiência e arrancar delas o insólito, o bizarro, o amargamente cômico. Quem conhece o Bia já sabe, antes de ler o livro, que o título só pode ser uma alusão a Lou Reed. Além de Lou, passeiam pela história Chet Baker, Nick Cave, Neil Young e outros, compilados no CD que acompanha o livro. Ao contrário de Sexo Anal – o romance pop mais comentado da internet brasileira – Virgínia Berlim é contado em primeira pessoa e cria empatia instantânea com o narrador, um funcionário de escritório apaixonado por uma mulher comprometida. O corte no pé dá origem a uma seqüência vertiginosa de acontecimentos que culmina em .... Vai lá comprar! São R$ 28,50 muito bem empregados, eu garanto. De quebra você leva um CD com as canções presentes no romance, com as letras impressas e traduzidas.

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É hoje, às 19:30, em Belo Horizonte, na Serraria Souza Pinto (embaixo do viaduto Santa Teresa, aquele dos arcos onde Drummond e cia. se equilibravam bêbados depois das noitadas), o papo com Ana Maria Gonçalves sobre Um defeito de cor. O encontro é parte do Salão do Livro de Belo Horizonte. Ana será entrevistada por Eduardo de Assis Duarte, professor de literatura brasileira da UFMG. Os eventos do Salão têm sido interessantes, bem informais e com muita participação do público. Se estiver em BH, apareça. Entrada franca.



  Escrito por Idelber às 08:19 | link para este post | Comentários (15)



sábado, 16 de junho 2007

Bloomsday 2007

jj.laughtears.jpg Salve, joyceanos; salve, Irlanda; salve, bebedores de cerveja de todo o mundo! É hoje! Em primeiro lugar, cabe avisar que no Bloomsday tupiniquim, já é de praxe – lá se vão três anos -- acompanhar a fabulosa cobertura do Leandro Oliveira no seu Odisséia Literária. O blog do Leandro estará fervilhando de posts durante todo o sábado.

É sabido que a ação de Ulisses, de James Joyce, tem lugar em 16 de junho de 1904 porque naquele dia ele saiu pela primeira vez com Nora Barnacle, futura Nora B. Joyce, a quem o bruxo dublinense havia conhecido no dia 10 e de quem recebera um “bolo” no dia 15. O que não se sabe com certeza é se foi mesmo naquela noite em que ela abriu a braguilha dele. Verdade, Joyce assim o afirma na carta a ela enviada em 03 de dezembro de 1909, na qual é acometido de masculina paranóia: você nunca, nunca, nunca havia sentido o pau de um homem ou de um garoto em seus dedos até desabotoar minha braguilha? Mas há quem diga, com boas razões, que a desabotoada de braguilha esteticamente mais produtiva da história da humanidade só ocorreu no dia 27 de agosto, pois afinal Nora Barnacle era senhorita séria. Naqueles idos, 18 anos antes da publicação de Ulisses, Joyce até que era boa pinta:

JJ_1904_curran.jpg

Há poucos, entre os que leram Ulisses, que não o considerem a mais radical, revolucionária, inovadora, brilhante, genial, surpreendente e escandalosa narrativa de ficção jamais escrita (foi o Sergio quem me elogiou dizendo que eu argumento antes de adjetivar? Eu não me canso de decepcionar os amigos...). Em todo caso, copio do meu post do ano passado:

A história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.

Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.

Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. "Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos", disse Joyce sobre a obra. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que ela dará trabalho por muito mais.

Portanto, hoje, pelo menos, não cometa a heresia de beber vinho. Saboreie uma boa Guinness (na falta dela, uma Bohemia ou Original) e, caso ainda não tenha lido Ulisses, pare de ler blogs ou jornais, que isso não leva a nada, e comece imediatamente. Não entre nesse papo de que é "difícil". Depois do INTROIBO AD ALTARE DEI a coisa flui que é uma beleza. Não se esqueça de dedicar ao neto de Joyce todo o amor que os atleticanos dedicamos a José Roberto Wright.

Aí vão alguns links que valem a pena neste Bloomsday 2007: em primeiríssimo lugar, a enxurrada de posts que vem por aí no Odisséia Literária. E, para quem lê inglês:

A incrível edição em hipertexto do romance.
Downloadable Ulysses, no Projeto Gutemberg.
Ulysses for Dummies, para quem não leu e “não quer passar vergonha”, como diz o Leandro.
Completíssimo portal sobre James Joyce.
Mapas, biografias, curiosidades, alusões e links relacionados à obra.
Recopilação histórica do Bloomsday.
Coleção de imagens relacionadas a Joyce.

PS: é um crime sujar o Bloomsday com um post scriptum destes, mas não resisto. A matéria do Estadão diz que Joyce influenciou "decisivamente o desenvolvimento da ´corrente de consciência´" (será que o rapaz quis dizer "fluxo de consciência" ou "monólogo interior"? Cynthia, forgive ´em, for they know not what they do), a coluna de Clóvis Rossi diz que "o mundo moderno transformou-se no que o escritor peruano Mário Vargas Llosa chama de ´sociedade do espetáculo´" e a Revista Bravo! caracteriza Philip K. Dick como "o autor de Blade Runner". Eu vou ali abrir uma Guinness. Happy Bloomsday.



  Escrito por Idelber às 03:35 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 06 de junho 2007

Links argentinos

wasabi.jpg Em meio a malas e encomendas, mando-lhes alguns links sobre a melhor prosa de ficção do mundo:

A mí me gustaría escribir un poco más normal: baixe aqui o vídeo de uma entrevista de 50 minutos com o originalíssimo César Aira, autor de mais de 40 livros e de uma ética singular: escrever uma página por dia, sempre. A entrevista foi feita no Chile (Via Linkillo).

Saiu ano passado na Argentina outro romance de Martín Kohan, cujo genial Duas vezes junho foi discutido aqui no Biscoito (em impecável versão ao português de Marcelo Barbão). O novo livro se intitula Museo de la revolución; dele gostei mais ainda que da obra que debatemos aqui. Alô, tradutores brasileiros, tá demorando!

À próxima edição da Flip vêm dois argentinos: Rodrigo Fresán, autor de uma literatura mais pop, e Alan Pauls, escritor ultra-refinado, de prosa burilada, ao melhor estilo argentino. Dos quatro romances de Pauls, só estava disponível no Brasil, até agora, o Wasabi. Sai em breve Acaba de sair (valeu a correção, Rodrigo), pela CosacNaify, a obra prima El pasado, ganhadora do prêmio Herralde de romance e comparada a Proust e Nabokov. A mesa com Pauls e Maria Rita Kehl em Parati é imperdível.

Deixo três dicas ao eventual editor que esteja lendo. Entre os muitos escritores argentinos que merecem tradução imediata, o blog recomenda três com muita ênfase:

1) Sérgio Chejfec, autor de pelo menos quatro romances indispensáveis; um deles traz um dos meus títulos favoritos em toda a literatura: Lenta biografia. Seu Boca de lobo é a prova de que ainda é possível escrever romances sobre a classe trabalhadora sem cair no populismo ou no panfleto.

2) minha última descoberta e paixão, Juan José Becerra, autor de romances nos quais acontece muito pouca coisa, mas onde o debruçar-se sobre as migalhas da experiência sempre leva a uma espécie de iluminação profana, dessas que só a literatura pode proporcionar.

3) Gustavo Ferreyra, autor de romances em que seres de crueldade inimaginável movem-se (e são descritos pelo narrador) como se fossem paradigmas da mais absoluta normalidade. Coisa insólita, terrorífica. De Ferreyra o blog recomenda os romances Vértice e Desamparo. Da mulher de Ferreyra é a declaração, dada depois da leitura de um dos seus livros: eu sou casada com um monstro e não sabia!

Para terminar, dois links a blogs indispensáveis para acompanhar o debate cultural argentino: Últimas de Babel e o coletivo Nación Apache.

Pronto! Aí há links para dois dias. O próximo post lhes chega de BH.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post | Comentários (12)



sexta-feira, 25 de maio 2007

Subúrbio

Aqui em Tulane está se armando um projeto interessante de estudo das representações do subúrbio (carioca) na literatura e no cinema. A pessoa responsável, carioca da gema e conhecedora das Zonas Norte e Oeste do Rio (amiga de Nei Lopes), está equipadíssima para fazer o trabalho. Vai centrá-lo, por claras razões, em Lima Barreto (crônicas e ficção) e em Nélson Pereira dos Santos.

Portanto não é por ela, mas por minha própria curiosidade que faço a pergunta que segue:

Além dos clássicos de Lima, textos curtos de João Antônio e Clarice Lispector e uns parcos momentos de Rubem Fonseca, não consegui me lembrar de representações do subúrbio (ou do suburbano) carioca que tenham me marcado. Fiquei curioso por ler mais.

Alguém aí tem dicas? Subúrbio, não o morro ou a periferia.

PS: Sim, já sugeri a ela que visite o Suburbia Tales.



  Escrito por Idelber às 20:27 | link para este post | Comentários (14)




Borges

borges.jpgEstou preparando um curso sobre Borges. É mais ou menos como se um moleque de 13 anos, especialista em sorvetes, chegasse na Amor aos Pedaços, aí em Sampa, para escolher um sabor. São 14 semanas, com 2 horas e meia de contato em sala de aula por semana. Seria possível dedicar todo esse tempo a dois livros de Borges: Ficciones (1944 - cuja primeira metade saiu em 1941 como El jardín de los senderos que se bifurcan, volume depois completado em 1944 por Artificios) e El aleph (1949). Desses dois livros saem os grandes clássicos da contística borgeana: "Funes, o memorioso", "O jardim dos caminhos que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote", "Emma Zunz", "Três versões de Judas", "A morte e a bússola", "As ruínas circulares", "A biblioteca de Babel", "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Loteria de Babilônia", "O milagre secreto", "O aleph". Todos esses contos são paradas obrigatórias. Decidir de qual ponto de vista lê-los já é um exercício que pode tomar um tempo considerável, posto que essas duas dezenas de contos --- que a grande maioria dos leitores considera "a obra de Borges" -- geraram, e eu não exagero, algumas centenas de livros e alguns milhares de artigos dedicados a analisá-los.

Borges tem essa singularidade: é um minimalista enciclopédico. Jamais escreveu, eu acredito, nada que tivesse mais de dezesseis páginas. E gerou essas bibliotecas imensas, escrevendo, concisamente, sobre o infinito.

Neste curso eu decidi enveredar por outro caminho e examinar algumas coisas insólitas que escreveu Borges -- se você, leitor deste blog, quiser acompanhar, junte-se ao time. O curso rola da primeira semana de setembro a meados de dezembro. Para quem quer ler Borges a sério em português eu sugiro, claro, as Obras Completas em 4 volumes, da Globo, que são uma tradução integral das Obras Completas publicadas em espanhol pela Emecé. Ali tem 70% do que realmente importa.

O que significa que as Obras Completas de Borges não estão, obviamente, completas. A elas faltam: os três livros de ensaios curtos, juvenis, criollistas, populisto-nacionalistas que escreveu Borges nos anos 20: Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928). São fundamentais para entender o Borges que volta da Suiça depois da Primeira Guerra Mundial e integra-se à vanguarda poética do seu país, com um olho na ultra-modernidade européia e outro olho nas bombachas dos pampas (alô, Tiagón). Saíram reeditados em espanhol nos anos 90, são fáceis de encontrar. Que eu saiba, não existem em português.

Às Obras Completas também faltam, claro, todos os livros escritos em colaboração, compilados depois em Obras completas em colaboración, também inédita, que eu saiba, em português, apesar de que alguns dos volumes saíram, avulsos, em pindorâmico. Aqui, há dois destaques:

1) Borges, ah, Borges, escrevendo tantos livros em colaboração com mulheres sem nunca ter comido nenhuma. Ironia das mais incríveis, essa. Poupo-lhes a história de como Borges perdeu Norah Lange. É demasiado humilhante. Com outras mulheres escreveu O livro dos seres imaginários (1967 - com Margarita Guerrero, livro absurdamente indispensável, este sim, disponível em português), O que é o budismo (1977 - com Alicia Jurado), Breve antologia anglo-saxã (1978 - com María Kodama) e Introducción a la literatura inglesa (1965) e Literaturas germánicas medievales (1966), ambos com María Esther Vásquez.

2) os livros publicados com o pseudônimo de Bustos Domecq e escritos em parceria com seu amigo Adolfo Bioy Casares -- contos policiais pastichados, exacerbados ao limite da paródia. É aqui, com este pseudônimo, que Borges e Adolfito escrevem sua definitiva autópsia do peronismo, "La fiesta del monstruo", conto pouquíssimo conhecido fora da Argentina.

Aliás é o peronismo -- vocês sabiam disto? -- que transforma Borges de diretor da Biblioteca Nacional em inspetor de frangos. Não minto. É episódio pouco estudado, e o que mais me interessa descobrir é: o burocrata peronista que fez essa crueldade havia, com certeza, lido Borges. O gentleman portenho, claro, renunciou. Voltou ao cargo de diretor da Biblioteca Nacional depois, com a queda do peronismo.

As Obras Completas da Emecé -- e por conseguinte da Globo -- também não incluem a miríade de textos jornalísticos, de resenha, que Borges publicou no diário Crítica em 1933-34 (compilados num incrível livro, que inclui resenha de Borges sobre um brasileiro chamado Pedro Faria de Magalhães, alguém sabe quem é?) e os textos publicados por ele na legendária revista Sur, porta-voz da elite intelectual anti-esquerda da Argentina nos anos 1930-70.

Além disso, há os Textos recobrados, também inéditos em português, publicados em espanhol em três volumes -- crônicas, resenhas, colaborações a revistas, entrevistas, porque, como se sabe, no final de sua vida, Borges dava palpite em tudo, até em futebol e casamento, assuntos nos quais ele tinha zero experiência. Fora isto, está tudo nos quatro volumes das Obras completas da Globo aí no Brasil.

Os que mais insistiram pela volta do clube de leituras foram Meg, Alessandra, Milton e Bender. Para quem topar mergulhar em Borges, está aberto o convite. Diga lá o que você já leu e o que quer ler.

PS: quem é rei não perde a majestade.

PS 2: Sobre Borges: Mac Williams defendeu, mês passado, aqui em Tulane, sob minha orientaçao, uma brilhante tese que discute as complexas reinterpretações das várias religiões na obra de Borges. Mac, religioso (mormon) e eleitor de políticos conservadores (pelo menos até recentemente). Eu, ateu e xiita de esquerda. Poucas vezes um orientando e um orientador foram tão diferentes e se deram tão bem. Parabéns, Mac. Consulte-se, em breve, a tese de Mac na Internet.

Atualização: Ainda sobre Borges, veja-se este belo microconto do Almirante.



  Escrito por Idelber às 05:07 | link para este post | Comentários (52)



quarta-feira, 04 de abril 2007

Os 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos

bolaño.jpg
O maldito canonizado: Roberto Bolaño emplacou 3 romances entre os 100 melhores do mundo hispânico no último quarto de século.

A revista colombiana Semana recentemente jogou lenha na fogueira das discussões literárias hispano-americanas ao reunir 81 críticos, jornalistas e escritores para eleger os 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos. Como sempre no caso dessas listas, o único interesse é brincar, comparar gostos e descobrir novos títulos. Jamais se chegará, claro, a nenhum acordo nem mesmo sobre o que constitui um grande romance. A lista dos 25 primeiros colocados, com as respectivas sinopses, encontra-se aqui. As 75 obras seguintes, acompanhadas só do nome do autor, país de origem e data de publicação, estão aqui.

Quatro escritores foram recordistas de citações, com três obras cada: o colombiano García Márquez, o espanhol Javier Marías e, surpreendentemente para quem conhece o tradicional predomínio da poesia sobre a prosa no país, os chilenos Diamela Eltit e Roberto Bolaño. Este último, inclusive, emplacou seus três romances entre os 15 primeiros, dois deles no top 5 – prova definitiva da rápida canonização desse insólito e talentoso escritor que, até poucos anos antes de sua morte em 2003, permanecia quase desconhecido até entre seus compatriotas.

Os 15 primeros colocados foram:

1. El amor en los tiempos del cólera. Gabriel García Márquez.
2. La fiesta del Chivo. Mario Vargas Llosa.
3. Los detectives salvajes. Roberto Bolaño.
4. 2666. Roberto Bolaño (um inesquecível mega-romance, mais longo que Um defeito de cor, da Ana).
5. Noticias del imperio. Fernando del Paso.
6. Corazón tan blanco, Javier Marías
7. Bartleby y Compañía, Enrique Vila-Matas
8. Santa Evita, Tomás Eloy Martínez
9. Mañana en la batalla piensa en mí, Javier Marías
10. El desbarrancadero, Fernando Vallejo
11. La virgen de los sicarios, Fernando Vallejo
12. El entenado, Juan José Saer
13. Soldados de Salamina, Javier Cercas
14. Estrella distante, Roberto Bolaño
15. Paisaje después de la batalla, Juan Goytisolo.


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Minha amiga Diamela Eltit ficou bem na fita e emplacou três romances: Lumpérica (58 lugar), El cuarto mundo (67) e Los vigilantes (100).

Tendo lido uns 80% dos romances listados na enquete e sendo fã incondicional de dezenas de outros que nela não entraram, dou meus pitacos. Quem sabe não há algum editor brasileiro atento por aí.

1. Entre os 25 primeiros, só 16 são latino-americanos, o que significa que a literatura espanhola está grosseiramente sobre-representada (são 34 romances ibéricos no total). O fato se explica, pelo menos parcialmente, pelos melhores canais de distribuição de que desfruta a literatura espanhola. Na Colômbia é bem mais fácil encontrar livros dos espanhóis Muñoz Molina e Enrique Vila Matas que dos argentinos Alan Pauls (que só emplacou uma entre as quatro obras primas que já publicou) e Sergio Chejfec (que nem foi lembrado), romancistas a meu ver muito superiores.

2. Considero o romance que ficou em 12 lugar, O enteado, de Juan José Saer, infinitamente melhor que aquele que acabou abiscoitando o primeiro, O Amor nos Tempos de Cólera, de García Márquez.

3. Dos 100 livros listados, só 23 são argentinos. O país, que há décadas produz a mais variada e rica prosa de ficção da língua espanhola, merecia umas 40 citações pelo menos. Alguns dos argentinos ausentes da lista do Semana que eu incluiria são: El vértice (Gustavo Ferreyra), Dos veces junio (Martín Kohan), Segundos afuera (Martín Kohan), El desamparo (Gustavo Ferreyra), El dock (Matilde Sánchez), El desierto y su semilla (Jorge Barón Biza), En breve cárcel (Sylvia Molloy), Montserrat (Daniel Link), Lenta biografía (Sergio Chejfec), Boca de lobo (Sergio Chejfec), El pudor del pornógrafo (Alan Pauls), Wasabi (Alan Pauls), Como me hice monja (César Aira), Santo (Juan José Becerra) e Cuerpo a cuerpo (David Viñas).

4. Arrisco-me a dizer que só não inclui La ciudad ausente, de Ricardo Piglia, entre os melhores dos últimos tempos quem não leu o livro. Se você não leu, largue este blog e vá comprá-lo. Existe em tradução (embora conste como esgotado no site da Livraria Cultura).

5. A escolha de La fiesta del chivo, de Vargas Llosa, como o segundo melhor romance hispânico do último quarto de século só pode ser piada. Eu não o incluiria nem entre os 100 melhores romances peruanos. Os mexicanos Carlos Fuentes e Angeles Mastretta, que emplacaram dois títulos cada um, tampouco entrariam na minha lista.

6. A ausência do mexicano Jorge Volpi – pelo menos de seu monumental En busca de Klingsor – é inaceitável.

7. A obra-prima El pasado, de Alan Pauls, que injustamente ficou em 31 lugar (merecia colocação melhor) sai em breve em tradução brasileira pela CosacNaify. Os leitores deste blog que decidirem encará-lo terão uma divertida surpresa lá pela página 300.

Para terminar, deixo duas perguntinhas para que vocês se entretenham na caixa de comentários:

a) Seria interessante saber quais desses romances estão disponíveis em português. Com certeza os de García Márquez e Vargas Llosa, por exemplo, são facilmente encontráveis aí no Brasil. Quais outros?

b) Que livros brasileiros você incluiria numa lista similar, ou seja, num cânone do que de melhor se publicou no romance tupiniquim desde a tragédia do Sarriá?



  Escrito por Idelber às 05:43 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 28 de março 2007

Convite aos cariocas

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Acontece na Livraria Unibanco Artiplex (Praia de Botafogo, 319), às 19 horas desta quinta-feira, o lançamento do livro Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, com seleção, ensaio e notas do meu amigo Eduardo de Assis Duarte, professor da UFMG. É um volume imperdível para quem se interessa por Machado de Assis, e muito especialmente para quem acompanha o debate sobre as relações raciais em sua obra. Aí vai a reprodução do release da obra:

Joaquim Maria Machado de Assis, romancista, dramaturgo, contista, poeta, cronista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, viria a tornar-se o maior escritor do país. O estilo dissimulado do escritor turvou por muito tempo a interpretação de sua obra. Por mais que tenha proporcionado deleite literário para várias gerações, obtido reconhecimento geral e sido enterrado com pompas de estadista, Machado sempre foi acusado de não olhar atentamente para as grandes questões que o rodeavam - e aqui se destaca o movimento abolicionista - como era esperado de um autor de tal nível, precedido e sucedido por escritores que faziam questão de levar isso em conta. Passou décadas tachado de alienado e despolitizado, um sujeito que daria um voto nulo numa eleição sem sequer se preocupar com quem eram os candidatos.

O detalhe é que o "homem de seu tempo e de seu país" deixou um conjunto de escritos que é um universo de enigmas. Na antologia Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, o pesquisador e crítico Eduardo de Assis Duarte relê a obra do escritor a partir das manifestações de afro-descendência presentes nos textos. E demonstra que os posicionamentos a respeito de temas como a escravidão e as relações inter-raciais no século XIX estão presentes, sim, na obra, mas integrados à matéria literária e não como panfletos de época. A forma dissimulada e homeopática com que Machado trata a questão étnica e o escravagismo ainda hoje é confundida com alienação e negação de suas origens.

A partir de uma minuciosa seleção e análise de textos, Eduardo de Assis Duarte constrói uma abordagem inédita da obra de nosso maior escritor e nos revela o escritor-caramujo que soube ser o guerrilheiro consciente de suas armas e de seus alvos.

PS: Por falar em livrarias, completou um mês a absurda decisão da 20a Vara Cível do Rio de Janeiro, de ordenar a retirada de circulação a obra Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Cesar de Araújo. O blog registra o recebimento de simpática mensagem do autor, em agradecimento à solidariedade manifestada por nós aqui. Agora fiquei curioso: o livro sumiu mesmo das livrarias?



  Escrito por Idelber às 06:17 | link para este post | Comentários (9)



quinta-feira, 15 de março 2007

Meme dos autores abandonados

Uns 34 anos atrás, o Hermenauta me passou um meme perguntando sobre três autores dos quais eu tenha desistido de ler, uma brincadeira que ele buscou lá na blogosfera anglo. Na temporalidade baiana que anda regendo o blog, respondo agora, com o devido atraso. Pressupondo que a idéia é nomear autores que já li bem e depois desisti de ler – por oposição aos que ainda não li e já não gostei –, aí vai a lista:

dickens.jpg1. Charles Dickens: Foi dos primeiros autores ingleses que li no original; foi peça chave da formação do meu vocabulário e sensibilidade literária. Admirei as frases retorcidas e os enredos cheios de peripécias. Mas não me vejo revisitando um livro de Dickens tão cedo; a decisão se deve à notável pieguice de que ele é capaz na caracterização dos personagens. Especialmente as crianças, em Dickens, são de uma bondade que nenhum capetinha de 10 anos de idade reconheceria como verossímil. As crianças sabem muito bem que são capazes de crueldades incríveis – só em Dickens elas não sabem disso. Great Expectations, especialmente, padece dessa pieguice. O melhor de Dickens, ainda acho, é A Tale of Two Cities. Para mim já deu.

2. Mario Vargas Llosa: Foi, sim, um grande escritor. Nos anos 1960. Os patéticos rituais da masculinidade em La ciudad y los perros (1963), as vertigens próprias à entrada da selva na modernidade da onírica e fragmentada La casa verde (1966), as histórias intercaladas no turbilhão político de Conversación en la catedral (1969) e até mesmo sua conservadoríssima versão de Canudos em La guerra del fin del mundo (1981) são obras de respeito. Ainda pariu um belo romance em 1987, El hablador. Ali já havia se convertido num arremedo neoliberal, profeta das benesses que a modernização conservadora um dia trará – esperen y verán – ao Peru e à América Latina, contanto que se apliquem os preceitos de austeridade fiscal, se obedeça a orientação norte-americana e os indígenas e trabalhadores não atrapalhem. Hoje Vargas Llosa converteu-se numa espécie de Olavo de Carvalho do criollismo hispano-americano, pobre caricatura do escritor que foi. Num de seus últimos romances, o único personagem positivamente retratado é o policial. Por sorte Tulane tem um excelente professor de literatura peruana, porque não há chance de que eu revisite esse cabra.

3. Fernando Henrique Cardoso: Eu li os livros de FHC, ao contrário de 99 de cada 100 entre aqueles que atacam Lula como “o analfabeto” (não confundir com os que têm críticas políticas legítimas ao governo). De FHC, eu li inclusive os que prestam. Vamos aos pingos nos i’s: FHC foi um sociólogo de alguma importância, mas passa longe de ter estatura de fundador nas ciências sociais brasileiras. Passa longe de ombrear-se com Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes, eles sim, definidores de paradigmas de compreensão da sociedade brasileira. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional (1962) tem o mérito de desbancar teses marxistas ortodoxas anteriores, que não conseguiam pensar a coexistência de capitalismo e escravidão – mas mesmo naquele momento essa relação já havia sido bem pensada por outros autores. Dependência e desenvolvimento na América Latina (com Enzo Faletto, 1969) traz quiçá a sua única contribuição conceitual original, a noção de dependência, que ele renegaria como o diabo à cruz pouco tempo depois. Sobre Autoritarismo e democratização (1975) eu já escrevi meia dúzia de páginas no meu livro Alegorias da derrota: trata-se de um FHC que lê a ditadura de modo ideológico, já do ponto de vista de uma aliança liberal-conservadora que a poderia suceder. Incrivelmente, o livro defende a tese de que a ditadura representava os interesses da burocracia estatal: nada mais simples, então, que removê-la sem mexer no modelo econômico. O FHC de 1975 já anuncia o Fernando liberal de 1994. Ao contrário do que pensam alguns, FHC não “trai” o seu passado. Para encerrar o assunto, li, sim, o Arte da Política: a história que vivi (2006), memórias da presidência. Vale a pena pela quantidade de observações internas à máquina estatal, mas é de uma desfaçatez atroz. Não vou me estender sobre tudo o que ele omite, porque o leitor já imaginará. Pensei em resenhar aqui no blog, mas desisti. Para mim, chega.

E você aí, tem autores que já leu e não voltará a visitar?



  Escrito por Idelber às 20:43 | link para este post | Comentários (29)



segunda-feira, 12 de março 2007

Resposta a um texto de Jorge Coli

book-1.jpgNo dia 18 de fevereiro, Jorge Coli publicou, na Folha de São Paulo, um texto sobre a crítica literária que merece resposta. Publico quase na íntegra o texto de Coli, em itálicos. Intercalo meus comentários em negrito.

Leitura e leitores

JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA

A literatura sempre vazou suas intuições complexas sobre o mundo no prazer de ler. Mas houve uma reviravolta há algumas décadas na maneira de estudá-la.

Sim, houve. Como houve outra há dois séculos. Houve outra com Platão. etc. Nisso a literatura não difere de nenhum outro objeto de estudo: as maneiras de estudá-lo mudam.

Os romances e poemas tornaram-se objeto de dissecação científica; a tal ponto que sumiram, ou quase, diante da destreza analítica.

Na verdade nas quatro últimas décadas tem ocorrido o contrário. A última voga de um projeto de análise “científica” para a literatura ocorreu com o estruturalismo, cujo auge já passara no final dos anos 1960.


Quantos velhos e bons departamentos universitários de literatura não se metamorfosearam em "de teoria literária"?

A resposta correta para esta pergunta retórica é: “nenhum”. Nos EUA, alguns departamentos de literatura comparada substituíram, até certo ponto, o velho modelo da comparação entre literaturas nacionais à base de “fontes” e “influências” e passaram a oferecer mais cursos que poderiam ser catalogados como de “teoria literária”. Nenhum dos departamentos de literaturas nacionais que eu conheça, nos EUA ou no Brasil, “se metamorfoseou em ‘de teoria literária'”. Nas Faculdades de Letras brasileiras, os departamentos de língua vernácula continuam ensinando a língua e a literatura escrita na dita cuja. Os departamentos de românicas continuam ensinando francês e espanhol e as literaturas escritas nas ditas cujas. Que mais ou menos professores desses departamentos tenham sido influenciados pela teoria literária não implica que não estejam ensinando literatura. O resto é papo furado de quem não sabe do que está falando.

Note-se, para quem gosta de gramática, que "literária" é apenas adjetivo de "teoria", sujeito e substância.

Como sabem os bons gramáticos, a ênfase, em qualquer sintagma nominal, pode recair no adjetivo ou no substantivo. Depende da enunciação e, claro, do ouvido de quem escuta ou dos olhos de quem lê.

O romance, o poema passaram a ser pretextos muito secundários, trampolins para exercícios mentais altamente sofisticados.

Seria difícil provar que isso é algo que passou a ocorrer recentemente. Platão e Hegel, para não ir mais longe, usaram poemas para exercícios mentais que me parecem bem mais sofisticados, até, que os atuais.

Essa atitude intelectual chega a extremos engraçados. Há um exemplo paradoxal: um livro de Walter Benjamin [1892-1940], grande sábio alemão,

“escritor”, “filósofo”, “crítico” ou “ensaísta” seriam designações que soariam mais apropriadas ou menos irônicas aqui no caso.

intitula-se "Origem do Drama Barroco Alemão". Essa obra, por sinal bem complicada e obscura, foi traduzida e publicada no Brasil [ed. Brasiliense].

Trata-se de uma obra de crítica literária – disciplina especializada – escrita em 1924. Não é mais “obscura” nem “complicada” para um crítico literário atual que um tratado sociológico de 1924 para um sociólogo atual, ou um livro de criminologia de 1920 para um criminólogo de hoje.

Por mais que seu conteúdo seja autônomo no processo reflexivo, ele pede alguma noção, mínima que seja, a respeito do drama barroco alemão.

Não necessariamente. Claro que conhecer o objeto da obra crítica ajuda, mas nada impede que se leia um livro sobre Clarice antes de conhecer a autora. A legibilidade do livro dependerá de quão esclarecedor for o trabalho de análise ao dar resumos dos enredos, contexto do autor, etc.

Ora, quantos deles existem editados no Brasil? É fácil apostar que nenhum. Esse é um caso sintomático, no qual a especulação intelectual prescinde do objeto.

Errado. Benjamin não “prescindiu do objeto” quando escreveu o livro. Ele conhecia o corpus. Se esse corpus não é conhecido no Brasil e seu livro sobre ele passa a despertar interesse, não seria isso algo a se celebrar, na medida em que a crítica está gerando a reedição de obras ou a publicação de traduções, abrindo assim possibilidades de leituras até então desconhecidas? book-2.jpg

Para continuar no mesmo autor: quantos leitores de Benjamin, que conhecem e citam suas referências a Baudelaire e Proust, leram, de fato, Baudelaire e Proust?

A pergunta retórica é, de novo, falsa. Se alguém acha que pode falar de Proust sem lê-lo, baseando-se somente no ensaio de Benjamin, a culpa não é deste último. A pergunta que importa é outra: quantos leitores foram levados a aproximarem-se de Proust ou Baudelaire justamente porque leram os ensaios de Benjamin? Conheço muitos; eu, inclusive, sou um deles.

Júbilo
Declarações recentes de Tzvetan Todorov, grande sábio búlgaro ainda vivo, enchem o coração de alegria. Todorov, lingüista e filósofo muito cabeça, num chat da revista francesa "Télérama": (Pergunta) "No seu último livro ["La Littérature en Péril", A Literatura em Perigo], o sr. diz, a propósito do ensino da literatura, que, "na escola, não se ensina aquilo que os livros dizem, mas aquilo que dizem os críticos. O senhor pode explicar sua opinião?" (Todorov) "Há algum tempo que, na escola, pararam de refletir sobre o sentido dos textos e passaram a estudar de preferência os conceitos e métodos de análise. Nesse sentido, é possível dizer que se estudam as teorias dos críticos, e não as obras dos autores.
Ora, para nós, ignorante é quem não leu "Madame Bovary" [de Flaubert] ou "As Flores do Mal" [de Baudelaire], e não quem não sabe, por exemplo, distinguir focalização interna de focalização externa."

Se Benjamin não foi um “sábio”, Todorov muito menos. Se Jorge Coli quer saber como anda a crítica literária, eu sugeriria fontes outras além do “grande sábio búlgaro”. Para quem não o leu: Todorov é, há 40 anos, uma espécie de “grande turista dos métodos de análise entendidos como moda”. Escreveu seus tratados de estruturalismo quando o dito cujo estava em voga, passou pelas teorias do “carnavalesco” quando estas eram populares, depois conseguiu cometer a incrível gafe de escrever um livro sobre a Conquista da América sem conhecer a bibliografia (e propondo a bizarra tese de que a conquista espanhola se explicava não pela pólvora, mas pela superioridade do seu sistema de signos!), para, pelo que parece, resignar-se a concluir a brilhante carreira como uma espécie de Allan Bloom, lamentando a barbárie imposta pelos novos tempos.

Para dar um exemplo de como a argumentação de Todorov é mistificada: quem leu Madame Bovary e Dom Casmurro e entendeu a diferença entre um romance de adultério narrado em terceira pessoa e o relato de um pretenso adultério feito pelo marido ciumento certamente já entendeu a diferença entre focalizações interna e externa. Que só os especialistas usem os termos não quer dizer que a realidade designada por eles não tenha importância, seja imperceptível para o leitor comum ou seja algo obscuro e não relacionado ao "prazer da leitura". Da mesma forma como eu, leigo em química, sei que o carro funciona com a gasolina que compro no posto.
*******

Mais
(Pergunta) "Quais os conselhos para um jovem estudante que deseja se lançar nos estudos literários?" (Todorov) "Antes de tudo, não confundir os meios e os fins. Os fins da leitura de textos literários são os de melhor compreender o sentido deles e, por meio deles, o que nos dizem da própria condição humana. Os meios são todos os métodos de aproximação crítica, que podem nos permitir ler melhor, com a condição de não formarem uma cortina de fumaça diante dos textos.

Sobre os fins: O fins da literatura não são “compreender a condição humana”. Os fins da literatura são, por definição, abertos e não definíveis de antemão. São construídos e reconstruídos a cada leitura. Todorov e Jorge Coli parecem não se dar conta, mas a idéia de que a literatura tem por fim “compreender a condição humana” é também uma teoria, só uma. Nada mais. Aliás, trata-se de uma teoria, o humanismo, que já teve melhores momentos e proponentes mais sólidos em sua argumentação.

Sobre os meios: O medo de que os métodos de análise possam “formar uma cortina de fumaça” ante os textos ou “retirar o prazer” da leitura é absurdo ao extremo: alguém diria que o conhecimento da química da cevada tira o prazer de degustar a cerveja? ou que o conhecimento de astronomia tira o prazer da contemplação da noite? Só na literatura ainda nos encontramos na posição de ter que defender o direito de elaborar um conhecimento especializado sobre o objeto sem sermos patrulhados pelos guardiões do “prazer da leitura” ou da “simplicidade da literatura”.

Intervenções como as de Todorov e Jorge Coli, sob o pretexto de “defender a experiência do leitor comum”, são na verdade patrulhamentos mal-informados sobre o que é a crítica literária. É óbvio que qualquer leitor pode desfrutar da leitura de romances, poemas e peças sem estudar nada de teoria literária. Aqui no Clube de Leituras, alguns dos comentários mais atinados sobre as obras foram de pessoas que não se dedicam a estudar literatura profissionalmente.

Mas há que se convir: esse papo de que os desalmados técnicos da obscura teoria literária são os culpados pelo “fim do prazer da leitura” ou por uma suposta “decadência da leitura” das grandes obras é mais uma miragem reacionária, nostálgica e mal-informada. Populismo que joga para a platéia e cultiva a ignorância. Se você quer saber o que se passa com a crítica literária para além desse chororô apocalíptico, há gente muito mais séria para se ler.



  Escrito por Idelber às 05:26 | link para este post | Comentários (15)



sábado, 17 de fevereiro 2007

Resenha n' O Globo

A quem interessar possa: saiu hoje n'O Globo uma resenha minha (link para cadastrados; é gratuito) do novo livro de Luiz Costa Lima, História. Ficção. Literatura (Companhia das Letras, 2006).

Se você não está em terras fluminenses, só poderá mesmo ler o texto online, já que a direção do jornal decidiu limitar ao Rio de Janeiro a circulação de alguns cadernos, entre eles o Prosa e Verso.

Saiu também (já há algum tempo, aliás) minha coluna na Germina, sobre um episódio do qual os amantes do futebol se lembrarão bem.

É isso. Feliz Carnaval.



  Escrito por Idelber às 11:42 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 31 de janeiro 2007

A Testemunha, de Rosemary Sullivan

Já fizemos uma brincadeirinha tradutória aqui no blog em certa ocasião. Eu jamais me considerei bom tradutor de poesia, mas hoje resolvi arriscar uma versão para este poema da escritora canadense Rosemary Sullivan, que me intriga há tempos. Está aberta a críticas e a traduções alternativas. O Almirante e a Cynthia, por exemplo, com certeza fariam versão mais elegante. Em todo caso, aí vai. O original está aqui.

rosemary_sullivan_s.jpg


A Testemunha
, Rosemary Sullivan

Tradução: Idelber Avelar

Tenho que admitir que é estranha a sensação
de estourar os miolos da própria esposa,
ele disse como que sorrindo.
Suas palavras me engancharam –- me enlaçaram
Algo numa mulher ama um assassino.
O sexo é a barganha
que sempre arrumamos para perder

Ele programou o assassinato durante anos
no deserto com um revólver
decepando garrafas vazias de Perrier.
Cada uma era humana.
Voltava antes do anoitecer
para uma partida de golfe com seus filhos.

Eu era a testemunha que ouvia
e procurava mensagens em código na distante
ausência onde ele morava.
“Estou saindo”, ele dizia.
Esta pode ser a noite. Fique
antes dele pôr sua peruca laranja
e entrar no Opalão
para um passeio nas ruas.
Uma vez ele atirou na janela
E depois riu.
Não havia medido a grossura do vidro;
a bala, uma coisa morta na neve.
A polícia se esqueceu de checá-lo
esquecida de que um homem sempre queria matar sua esposa.

Eu ri com ele.
O sexo foi bom naquela noite.
Ele foi gentil.
E mortífero.
Eu tinha aprendido a arte daquele jeitinho.
Sexo é morte;
o quente grudento afundamento que te faz e desfaz.
Amada como a morte.
Eu observei as feridas incharem no rosto
que não era meu rosto
mas uma criança acovardando-se num canto
esperando pela tripa de amor.
Naquela violência pelo menos
eu sabia que era possuída.

Tentei matar-me uma vez com Tramadol,
coisa idiota.
Ele me lembrou das regras:
eu era a fraca
Se eu partisse, eu morreria antes
que se ficasse.
As coisas faziam sentido assim.
Ele era o homem de traje de seda
que veio na primeira classe.
Ele se arrastara para dentro do meu corpo
procurando sua vida.
Se ele disparava como uma coisa machucada
era ele o ferido que todos abandonaram.
Talvez eu pudesse salvá-lo
olhando o mundo fixamente
para além da sua necessidade.
Mas meu corpo era inútil.
Lá dentro soltava-se algo triste
que ouvia e temia e pensava
mas nunca era suficiente.
Era algo envergonhado de mostrar-se.
Merecia morrer.

Aí eu vi a foto da mulher no jornal.
Ele a segurara pela coleira como um cachorro
e rasgara-lhe o rosto.
A mão e o punho dela quebrados
Retorcidos ao seu lado.
Indignei-me.
A morte deveria ser limpa não vulgar,
A necessária morte
do amor.

Quando chamei a polícia
Eu só disse que
Eu nunca mentira. Eu não fiz nada.
Em todo caso, ele não era o tipo de homem
pelo qual vale a pena morrer.



  Escrito por Idelber às 19:27 | link para este post | Comentários (9)



domingo, 28 de janeiro 2007

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, recebe o Prêmio Casa de las Américas

O romance Um defeito de cor, da escritora mineira Ana Maria Gonçalves, recebeu na semana passada um dos mais prestigiosos e antigos prêmios literários da América Latina, o Casa de las Américas. Um defeito de cor foi premiado na categoria “Literatura Brasileira” por decisão unânime do corpo de jurados, que o escolheu entre 212 concorrentes. É começo do reconhecimento internacional desse romance que vai marcar época na literatura brasileira. Além do prêmio em dinheiro, o Casa de las Américas inclui, para os agraciados brasileiros, o compromisso de tradução da obra ao espanhol.

Sobre o romance Um defeito de cor, o corpo de jurados disse:

Es una notable novela que se destaca por la elaboración estético-literaria. La autora tiene gran poder de evocación y las descripciones de los muy variados contextos históricos se asocian orgánicamente al argumento. Ha de señalarse también el recurso narrativo empleado: al inicio de la trama, la protagonista, Kehinde, una negra de ocho años, es capturada en África y llevada al Brasil como esclava. La nombran entonces Luísa Gama y se convierte en testigo y narradora de varios lustros de la formación de la sociedad brasileña, desde el proceso de Independencia, ocurrido en 1822, hasta la última década del siglo XIX.

ana-blog.jpg
Ana com o romance Um defeito de cor.

O Prêmio Casa de las Américas foi estabelecido em 1960 com o nome de Concurso Literário Hispano-Americano; já na sua primeira edição contou com 575 originais e a presença de jurados como Miguel Angel Asturias, Nicolás Guillén e Alejo Carpentier. Em 1964, com a entrada de autores brasileiros, ele foi rebatizado Concurso Literário Latino-Americano.

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O primeiro número da revista Casa de las Américas, de 1960.

Inicialmente limitado aos gêneros tradicionais - poesia, conto, romance, teatro e ensaio - o Prêmio Casa de las Américas foi responsável pela canonização de outras formas, como a literatura de testemunho (conhecida em espanhol como testimonio), incorporada ao prêmio em 1970. Se hoje o testimonio é parte fundamental do corpus da literatura latino-americana, isso se deve ao Prêmio Casa de las Américas. Escritores como o salvadorenho Roque Dalton, o chileno Antonio Skármeta e o peruano Alfredo Bryce Echenique, consagrados em seus países, passaram a ser conhecidos internacionalmente a partir do prêmio. A Fundação criou uma categoria especial para a literatura brasileira em 1980 e Ana Maria Gonçalves se junta agora a escritores como Ana Maria Machado, Moacir Sclyar e Edilberto Coutinho, que já receberam o prêmio em anos anteriores.

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Relíquia histórica: Organizadores e jurados do primeiro concurso Casa de las Américas, em 1960.

Até os anos 50 era pouco comum, na verdade, que se falasse em “literatura latino-americana”. Mesmo nas universidades, os currículos se restringiam às literaturas nacionais e ao cânone das literaturas européias. A Fundação Casa de las Américas teve papel chave na aproximação entre as várias literaturas do continente e, inclusive, na entrada da literatura brasileira no “radar” dos vizinhos hispanoparlantes. Ninguém fez mais que Casa de las Américas pela derrubada do virtual "muro de tordesilhas" que nos separa dos demais países da América Latina.

Graças ao Prêmio Casa de las Américas, os hispano-americanos poderão, em breve, conhecer uma das maiores sagas históricas já escritas no romance brasileiro, a primeira a fazer justiça à história do povo negro.

PS: O site parou de aceitar comentários. Não sei o motivo. Estamos averiguando. Problema resolvido, como sempre, graças a Deus.



  Escrito por Idelber às 18:47 | link para este post | Comentários (53)



quarta-feira, 15 de novembro 2006

El entenado, de Juan José Saer

(post escrito em espanhol para discussão entre meus alunos do seminário de doutorado em literatura em Tulane University; dedicado à obra-prima do argentino Juan José Saer, El entenado, da qual existe tradução brasileira)

saer.gifSe podría leer El entenado (1983), de Juan José Saer, como un pastiche de géneros y discursos consagrados en la tradición: adaptado de las peripecias de Juan Díaz de Solís en las cercanías del Río de la Plata (y de varios otros viajes, como el de Hans Staden) y escrito como relato autobiográfico que mantiene fuerte parentesco con la picaresca, el libro insiste en su condición de “memorias de viejo”, de historias de cosas acaecidas hace mucho. Esa dicción Saer la toma prestada de las crónicas de Indias, especialmente las de los castellanos viejos semiletrados, como Bernal Díaz del Castillo, que narran en la vejez melancólica sus aventuras épicas en América. Paródicamente, El entenado no narra victorias, sino un desastre, un naufrágio que conlleva, incluso, un borramiento de la subjetividad española del narrador, de su propia identidad. Ésta será, entonces, la historia de un sujeto que pierde su nombre y olvida su lengua materna.

El título remite a una relación familiar anclada no en una presencia, sino en una ausencia: el entenado, aquél al cual le falta el padre (y/o la madre). En efecto, el relato está salpicado de escenas de muertes de figuras simbólicamente paternas. La llegada a América produce el naufragio y la muerte instantánea del capitán; lanzado a la intemperie de la vida en la tribu, el protagonista sólo readquire una figura paterna al ser adoptado por un cura, quien también muere. En los rituales de canibalismo descritos en la novela, es nítida la marca de Totem y tabú, de Freud, que narra el asesinato del padre en manos de los hijos celosos, seguido del ritual antropofágico que erige la figura del padre en tabú. entenado.jpg

El narrador reflexiona intensamente sobre la diferencia entre la temporalidad de los hechos enunciados, su juventud de náufrago en América, y el tiempo presente, el de su enunciación. Esa linealidad que desemboca en la vejez contrasta con la temporalidad a que se sometió él cuando vivía entre la tribu: un tiempo cíclico puntuado por dos rituales que se repiten periódicamente, el de las orgías sexuales y el de los juegos de niños. La orgía sexual, una suerte de ritual fundante de la tribu, se nutre de cuerpos que “se disimulaban en su propio olvido” (69). La repetición del ritual coincide con la sistemática pérdida de la memoria de su acaecer. El efecto más nítido de la orgía parece ser, incluso, la producción de su propio olvido.

El entenado difiere de manera considerable de las novelas de reconstitución de época, en la medida en que no “finge” estar en el siglo XVI; su narrador escribe como alguien que ha leído la antropología, el psicoanálisis, la teoría del cine, la lingüística y una serie de otros cuerpos de saber del siglo XX. Los hechos suceden en un tiempo extemporáneo, no en el presente del lector, pero seguramente tampoco en el siglo XVI. Los indígenas parecen preservar al protagonista de todas las hecatombes, como si necesitaran que él operase como testigo. El dilema que enfrenta el narrador al final es la testigo absolutamente solitario, una suerte de testigo del apocalipsis, de la muerte de un mundo: ¿cómo legitimar una narración de la cual todos los protagonistas están muertos? ¿cómo documentar, atestiguar, una memoria sin pruebas?

El protagonista vive así algunos de los dilemas que sólo en la contemporaneidad las artes y las ciencias humanas han estudiado con detenimiento: las fallas, lapsos, traiciones, invenciones e insuficiencias de la memoria. Erigido en una suerte de archivo de un pueblo que cíclicamente se olvida, el protagonista provoca en ellos la enunciación repetida de un término, def-ghi, palabra de múltiples y contradictorios sentidos que parece decir mucho sobre la vida en la tribu.

Privilegiando cualquier aspecto de este rico texto, deja tu comentario reflexionando sobre tu experiencia de lectura de la novela.

Lecturas adicionales: Entrevista de Horacio González a Juan José Saer.
El color justo de la patria: Agencias discursivas en El entenado, de Juan José Saer (pdf), de Brian Gollnick
Repetição e existência em El entenado, de Juan José Saer (pdf), de Antônio Davis Pereira Júnior

Novelas de Saer disponibles en la red (archivos compactados):
El limonero real.
Glosa.
La pesquisa.

Ensayo de Juan José Saer: El concepto de ficción.



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quinta-feira, 09 de novembro 2006

Eventos

MIL_E_UMA_NOITES_capa_frent.gif Acontece em Belo Horizonte dia 11 de novembro, a partir das 17 horas no Balaio do Gato (R. Piauí, 1052), o lançamento de Mil e uma noites de futebol: O Brasil moderno de Mário Filho, de Marcelino Rodrigues da Silva, pela Editora UFMG (dica via Laura).

Diz o release: "No país do samba e do futebol, nada mais oportuno que esse livro sobre uma das vertentes da história do futebol brasileiro, escrito a partir da obra jornalística de Mário Filho. Como resultado de um trabalho acadêmico voltado para a interpretação do discurso do jornalismo esportivo do início do século 20, Marcelino Rodrigues da Silva, com Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho, acrescenta um ponto a mais na bibliografia sobre a narrativa de construção e modernização da nação brasileira. A passagem de uma posição elitista e socialmente excludente do futebol para a sua popularização e inclusão das classes menos favorecidas representadas, principalmente, pela raça negra, deve-se ao papel do cronista Mário Filho, autor, entre outras obras, do clássico O negro no futebol brasileiro".

Fica a dica do lançamento para os belo-horizontinos; para os demais leitores do blog, fica a notícia do que parece ser um baita livro.

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Amanhã, sexta-feira, às 9:30 da manhã, no Auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, professores e alunos conversam com a escritora Ana Maria Gonçalves. Vale a visita para quem é de lá.

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E sai em breve o livro Não sou uma só – o diário de uma bipolar, da amiga e inspiradora Marina W. Entrevista imperdível da Carla Rodrigues com Marina aqui (e relevem os comentários...).

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O Pirão sem dono, do amigo cearense Marcos VP, está de endereço novo.

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Uma grande intelectual latino-americana passa hoje por um daqueles rituais inesquecíveis: Mónica Albizúrez, crítica guatemalteca de quem tenho a honra de ser orientador, defende em Tulane sua tese de doutorado Del siglo XIX al siglo XX: Rastros de un ensayo latinoamericanista alterno, onde analisa uma tradição alternativa do ensaísmo latino-americano: o chileno Francisco Bilbao, o peruano González Prada, o argentino Manuel Ugarte e o brasileiro Manoel Bomfim. É uma das teses mais brilhantes que já orientei. Parabéns à Mónica pela chegada ao rol dos doutores :-)

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PS: Agenda do blogueiro itinerante pelos próximos dias: de 11 a 15 em BH, 15 a 17 no Rio, 17-18 em BH, 19 até 26 em Reeecife! Ainda vou ver se consigo manter um ritmo mínimo de posts durante o périplo aí no Brasil. E que Congonhas e Confins amanheçam calmos no sábado. Inté.



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terça-feira, 07 de novembro 2006

Sobre Terras do sem fim

jorge-amado.jpg Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.

O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.

Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.

Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).

Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.

Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua "vocação histórica". Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.

Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.

PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).



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quinta-feira, 02 de novembro 2006

Entrevista no Estado de Minas, sobre literatura

Uma mui resumida versão desta entrevista, feita a mim pelo jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, foi publicada no Estado de Minas, na época do lançamento do Alegorias da derrota (2003). De lá para cá ninguém mais leu a miniversão que saiu publicada. A versão extensa que segue abaixo é inédita.

1) Quais foram os rumos tomados pelas letras e culturas latino-americanas após o fim das ditaduras no continente, segundo o seu livro?

Ali no livro o assunto é apenas um dos muitos rumos possíveis. Trata-se de ler um conjunto de textos que responderam a um fenômeno cono-sulista e brasileiro, onde as ditaduras, nos anos 60-80, cumpriram papéis comparáveis: realizar ou tornar possível a passagem de um momento de relativa hegemonia do Estado a um momento completamente dominado pelo mercado. A gama de rumos tomados pelas letras latino-americanas ante o legado das ditaduras é ampla e inclui o imobilismo passivo, o pragmatismo cínico, a neovanguarda, a melancolia, o hiper-realismo da neoviolência e uma série de outras posições. Mas todas elas estão respondendo a um mesmo conjunto de dilemas históricos: realizar o luto pelos nomes e ideais que pereceram (o que poderíamos denominar o imperativo de luto pós-ditatorial) e fazê-lo em um momento de amnésia mercado-livrista, de euforia globalizante neoliberal e de crise da cultura letrada. Trata-se um momento difícil para a literatura: ante o horror da tortura disseminada e científica, ela vê questionada sua capacidade de traduzir a experiência. Instala-se a percepção de que há vastas áreas da experiência que não se deixariam traduzir literariamente. Isto reforça o fato de que a literatura se encontra cada vez mais desvinculada da experiência dos leitores, posto que cada vez mais profissionalizada e especializada. No caso hispano-americano, a grandiosa utopia do boom narrativo dos anos 60 vê esgotar sua função histórica, a de oferecer uma modernização latino-americana compensatória, uma espécie de redenção modernista do subdesenvolvimento através das letras. As ditaduras vêm tornar esse projeto de redenção letrada impossível. Para caracterizar os rumos das letras na pós-ditadura, eu diría que eles são marcados por dois fenômenos, o fim do projeto de redenção social letrada e a agudização da separação entre literatura e experiência. No caso da América Latina, esses dois fenômenos, que são globais, se articulam através do instrumental mortuário das ditaduras. eltit.jpg

2) Você escolheu alguns autores específicos para, através de suas obras, realizar o seu trabalho. Quais foram eles e por quê?

Dediquei-me a estudar alguns de meus ficcionistas prediletos: os brasileiros Silviano Santiago e João Gilberto Noll, a chilena Diamela Eltit, os argentinos Ricardo Piglia e Tununa Mercado. São alguns dos autores latino-americanos contemporâneos que leio com mais prazer. Depois vai descobrindo-se, claro, a coerência que organiza as escolhas e o próprio livro. São autores que mantém com nossa realidade relações que poderíamos chamar de intempestivas. Este termo, de inspiração nietzscheana, designa aquela parte do presente que se move, no interior de seu tecido, tentando olhar para aquilo que esse presente reprimiu e ocultou, tentando nomear aquilo que o presente silenciou. O intempestivo é então aquilo que se move em discórdia com o tempo presente a partir de uma memória, mas sempre em benefício de um tempo vindouro. Essa relação entre a memória, o presente e a utopia é o elo que une esses cinco autores, embora eles sejam, claro, muito diferentes entre si. Também os une uma percepção aguda da crise entre literatura e experiência, para a qual oferecem “soluções” diversas: o pastiche histórico de Santiago, o minimalismo rarefeito da ficção de Noll ou a paródia politizada de Piglia; o neovanguardismo redentorista da chilena Eltit, que aposta na radicalização de uma linguagem experimental que traduzisse os setores mais marginais, ou a linguagem reflexiva e memorialista, quase pós-psicanalítica, da obra-prima de Tununa Mercado, Em estado de memória, que se dedica a reconstituir os anos de exílio da autora no México e realizar um verdadeiro desmantelamento de mitos pessoais e nacionais. São escritores bem distintos, mas vincula-os uma reflexão comum sobre a memória e a experiência, realizada por todos eles em termos mais matizados, complexos e inteligentes que o pragmatismo e o conformismo dominantes permitiriam.

piglia_ricardo.jpg 3)Você também faz uma análise da intelectualidade e da universidade durante e depois das ditaduras. Qual é sua tese principal sobre esses temas?

A tese principal é a de que as ditaduras também realizam a função de transitar a universidade. Ela passa, grosso modo, de um momento em que ainda era possível a luta entre os ideológos que ela produzia para servir à elite e os intelectuais críticos, ao momento atual, em que a universidade já não produz nem ideólogos nem intelectuais, e sim técnicos, especialistas cada vez mais proletarizados. Se os antigos ideólogos produzidos pela universidade humanista clássica já não são necessários (já não são úteis à elite), os antigos intelectuais de raiz sartreana e vocação de completude, de análise total da sociedade, já não são possíveis – não têm lugar na universidade tecnificada e compartimentalizada de hoje. Esta tecnificação é visível nas próprias leituras das ditaduras que realizaram sociólogos como José Joaquín Brunner, no Chile e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. Ambos definiram as ditaduras a partir do vocábulo “autoritarismo” e teceram a partir dele um modelo do que o deveria suceder. A sociologia do autoritarismo realiza a operação de dar à transição “democrática” uma língua, um léxico, um conjunto de figuras de linguagem. Naquela teoria, o “autoritarismo” teria sido o produto da acumulação de uma camada burocrática no aparato estatal, supostamente alheia aos interesses do capitalismo transnacional: a ditadura militar brasileira teria sido uma espécie de excrescência estatista. Uma vez removida essa camada, as portas estariam abertas para a democratização. Nesse sentido, não há nenhuma contradição entre o FHC que escreve Autoritarismo e Democratização em 1975 e o FHC que implementa o projeto de flexibilização e privatização neoliberais em 1994-2002: o FHC de 1975, sob a forma de “teoria do autoritaritarismo”, já é uma fundamentação a priori da coalização tucano-pefelê de 1994.

4) O que diferencia a literatura latino-americana feita no período das ditaduras, implantadas no Continente a partir dos anos 60, para a que foi feita após a derrocada das mesmas, já nos anos 80 e 90?

Trata-se de um período longo em vários países e duas línguas, claro, o que torna qualquer comparação geral muito difícil. No campo da narrativa entra em crise o projeto modernizador que associava a sofisticação à experimentação com vários narradores, relatos longos e múltiplas temporalidades. Essas características, que foram pilares do discurso do boom hispano-americano dos anos 60, ainda podem ocorrer na ficção, claro, mas já dificilmente com o significado cultural e político que tiveram antes. Esgota-se o paradigma militante, que gerou nas artes sessentistas movimentos como o brigadismo chileno e o CPC brasileiro. Hoje ele não inspira uma produção artística significativa. No campo da poesia chilena observa-se o declínio da hegemonia de uma certa dicção nerudiana, emotiva, épica e grandiosa, e a ascenção de uma série de vozes mais cáusticas, cínicas ou humorísticas inspiradas na anti-poesia de Nicanor Parra. Na Argentina, a passagem dessas décadas coincide com a avaliação do legado do peronismo, e a pós-ditadura vê a consolidação de toda uma linha de narradores que se dedicam a investigar os laços entre a nação e a memória. Ricardo Piglia e Juan José Saer são os mais conhecidos no Brasil, mas a lista de grandes escritores lá é longa: além de Tununa Mercado, meus favoritos são Juan Martini, Daniel Moyano, Andrés Rivera, Alan Pauls, Marcelo Cohen, César Aira, Ana María Shúa, Sergio Chejfec, Martín Kohan, Matilde Sánchez. shua2.jpg

5) No Brasil, como funcionou este processo? A literatura feita durante a ditadura foi mais pungente do que a atual?. O que mais as diferencia?

Em geral tento evitar designar um momento do passado como mais pungente que o atual, porque isso tende a obscurecer certas zonas do presente: somos pouco a pouco seduzidos a não ler o presente para manter o conforto da nostalgia. Eu acredito, na verdade, que a literatura brasileira dos anos 80 e 90 é superior àquela escrita nos anos 60 e 70, mas não creio que isso seja atribuível à censura. No meu livro tento aprofundar a crítica, já feita por autoras como Flora Süssekind, à idéia de que a literatura escrita sob ditadura seria analisável a partir da censura e do que ela supostamente impõe. Não se trata, claro, de subestimar o problema da censura e sim de insistir que ela não é chave explicativa das transformações pelas quais passa a literatura. Estas têm suas raízes na crise de modos de representação anteriores (nacionais, épicos, simbólicos) e na emergência de outros (locais e/ou transnacionais; melancólicos; alegóricos; ligados a grupos sociais, étnicos, sexuais pouco representados até então). A censura não é chave explicativa para essa transição histórica. Acredito que o que mais diferencie a literatura escrita nos anos 60 e 70 da literatura pós-ditatorial é que esta se produz num momento de esgotamento muito mais radical de valores associados ao modernismo e à vanguarda. Isto gera as condições para uma série de novos projetos literários cujos traços principais têm sido estudados por críticos como Flora Süssekind e Italo Moriconi: recurso crescente a gêneros populares (policial, ficção científica), dramatização constante do sujeito, primazia do pastiche sobre a paródia irônico-modernista e tentativas várias de responder ao divórcio entre literatura e experiência - como a inspiração cinematográfica (e muitas vezes o desejo de converter-se em filme), compartilhada por boa parte da ficção contemporânea. Essa produção tende a ser segmentada, ágil, descontínua, organizada em quadros, planos e flashes, em vez de, por exemplo, longas reconstituições de um fio memorialístico, que foram dominantes em outros momentos da literatura brasileira.



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terça-feira, 31 de outubro 2006

Confirmando Jorge Amado

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Segunda-feira vai rolar aqui uma conversa sobre Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Eu comecei a ler e já me envolvi. É curioso como isso acontece rapidamente com Jorge Amado.

No último post, Monix, Milton, Edk, Fefê, Vera, Carmen, Valéria, Isabela, Alessandra e mary w toparam a parada. Estão dentro mesmo, né? Alguém mais?

Sobre o Clube de Leituras do blog, um leitor uma vez disse que ficava sem jeito de escrever sobre literatura no blog de um professor de literatura. Fique não, viu? A idéia é brincar e trocar leituras, e não demonstrar erudição. Inclusive porque sobre Jorge Amado eu não sei porra nenhuma mesmo. De forma que estamos todos no mesmo barco.

Agora com licença que eu vou ali tomar umas biritas para festejar o niver (o meu, não o do blog - eu nasci no dia em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e John Keats, é mole?). Amanhã volto com um post decente sobre qualquer coisa, menos política.

Inté.



  Escrito por Idelber às 20:34 | link para este post | Comentários (14)



quarta-feira, 18 de outubro 2006

Links

Começa amanhã em São Paulo, na Livraria da Vila, uma Balada Literária que tem programação imperdível até o dia 31. Armação do super-ativo Marcelino Freire.

No Rio de Janeiro, a grande dica é a mostra O Negro no Cinema Brasileiro, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Se você nunca viu Barravento (1962), de Gláuber Rocha, na telona, amanhã é a chance. A mostra inclui debates com cineastas e críticos. Infelizmente para nós, o melhor que já se escreveu sobre o negro no cinema brasileiro está em inglês: Tropical Multiculturalism, do meu amigo Robert Stam.

Conheça melhor a trajetória de Raimundo Pereira, ícone do jornalismo brasileiro e responsável pela reportagem da Carta Capital que detalha como os grandes veículos de comunicação do país não só omitiram a fonte, o que é procedimento corrente no jornalismo, mas mentiram com a fonte no caso do vazamento das fotos que inundaram a mídia na véspera da eleição. Ouça a gravação ou leia a transcrição da conversa do delegado Bruno com repórteres aqui. Das organizações Globo, até agora, alguma palavra?

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Saiu o novo Datafolha e Lula abriu vinte pontos sobre Alckmin. Depois de 2 anos sob fogo cerrado na mídia, Lula se aproxima da votação consagradora que teve contra Serra há quatro anos. É o povo se vendendo por um prato de comida, como querem alguns colunistas? Não é bem isso, explica o Alon num de seus melhores posts.

Enquanto isso, a o ódio de classe na Zona Sul mostra suas garras.

No mesmo dia em que reconhece a derrota iminente de seu candidato, Reinaldo Azevedo afirma : Lula termina o segundo mandato? É razoável apostar que não. Tenho as licenças de Vossas Senhorias para chamar isso de golpismo?

Um espectro paira sobre o Observatório da Imprensa: o que aconteceu com o Alberto Dines? Num texto irreconhecível, ele supõe que há "indícios claros" de que a Veja está dizendo a verdade e a Polícia Federal está mentindo. Quais os argumentos apresentados? Nenhum. Leiam o texto de Dines, mas leiam também, com cuidado, a excelente caixa de comentários. Dines é minuciosamente desconstruído por mais de 100 leitores, incrédulos com a mainardização do antigo crítico arguto da mídia. Vale a pena presenciar. Sobre o mesmo episódio, e contrastando com a crença de Dines nas ilações da Veja (sim, ilações, pois não há testemunhas nomeadas, provas, literalmente nada), vejam os textos de Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif e Luis Weis.

A grande notícia: depois de ajudar a eleger o novo governador de Sergipe, o Paraíba voltou com tudo.

PS 1, aos amigos: já tenho data de chegada ao Brasil de novo: 10 de dezembro. Pelo jeito, com as coisas nos devidos lugares, Lula reeleito e Galo na Primeira Divisão. Só falta o time chapa-branca cair, aí fica bonito mesmo.

PS2: Houve um debate na TV Cultura entre Mino Carta e Clóvis Rossi. Eu seria capaz de vestir uma camisa do ex-Ipiranga para ter acesso a esse debate. Alguém aí gravou ou sabe se será reprisado?

PS3: A partir de hoje a tolerância com certos termos na caixa de comentários será um pouco mais baixa do que tem sido. Descer o sarrafo nas idéias que eu defendo pode. Insultar e xingar não pode. Confio no bom senso de todos para discernir o limite entre as duas coisas e manter o blog como espaço aberto de debate sem moderação de comentários.

Atualização: Ao falar de CPI da mídia nesse post, eu não me referia à discussão de conteúdo ou "censura" do que entra no jornal ou na novela. Mas acho que a população tem o direito de saber quanto a Globo recebeu da ditadura militar, por exemplo; quanto ela deve ao BNDES; quais foram as barganhas feitas. Mesma coisa no caso do grupo Civita. Não tem nada a ver com censura, e tudo a ver com saber qual tem sido a relação desses conglomerados com o erário público.



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terça-feira, 17 de outubro 2006

Confirmando (ou não) discussão de Jorge Amado no Clube de Leituras

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Pois bem, a discussão de Terras do Sem Fim aqui no Clube de Leituras está marcada para a próxima segunda-feira, dia 23 de outubro. Quem está lendo?

A minha situação aqui é a seguinte: ainda não comecei a ler. Esta é a semana em que corrijo trabalhos bimestrais nos cursos de graduação e de pós aqui em Tulane. Também é a semana em que meus orientandos no Ph.D estão preparando seus currículos e cartas para os concursos que começam em dezembro. Ou seja, estou atolado de trabalho. Mas se houver gente suficiente lendo, eu dou um jeito de encaixar a leitura do livro até segunda.

Se não houver gente suficiente lendo, melhor deixar para depois da eleição. O que me dizem? Quem está lendo, quem estaria pronto até segunda e quem estaria disposto a participar se a coisa for adiada, digamos, para o dia 06 de novembro?



  Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post | Comentários (20)



quarta-feira, 11 de outubro 2006

Silviano Santiago: Uma homenagem em seu aniversário

silviano.jpgCompletou 70 anos no dia 29 de setembro o romancista, ensaísta, poeta e contista Silviano Santiago, uma das mais prolíficas e brilhantes figuras da literatura brasileira. Tê-lo como amigo é dessas honras para as quais faltam palavras. Imagine dezenas de estudiosos reunindo-se num mesmo lugar, vindos de vários países e não tendo em comum nada exceto a gratidão pelo papel que cumpriu alguém em suas vidas. Foi essa a homenagem que recebeu Silviano na Casa de Rui Barbosa na semana passada. É difícil imaginar um mestre mais merecedor da honra.

Na literatura brasileira moderna, talvez só Mário de Andrade tenha produzido, simultaneamente, obras ficcional e crítica tão vastas e de importância tão capital em ambos gêneros. Conhecidos dentro da universidade, seus livros ainda não têm o público amplo que merecem. A injustiça vai, aos poucos, sendo sanada, já que não se trata, de forma nenhuma, de um escritor “acadêmico”. Alguns de seus romances, como Em Liberdade e Stella Manhattan, estão entre o que de melhor se fez na ficção latino-americana das últimas décadas.

Mineiro de Formiga, Silviano passa em Belo Horizonte os primeiros anos de sua formação intelectual. Em 1959 recebe uma bolsa para se especializar em literatura francesa no Rio de Janeiro. Junta-se ao numeroso time de mineiros que transformariam a vida intelectual do Rio de Janeiro ao longo do século XX. Em 1961 conhece o médico Octavio Couto e Silva, que possui um manuscrito de André Gide. Silviano passa seis meses descifrando o manuscrito e publica o resultado dos trabalhos na Revue Annueile du Centred'Etudes Supéríeures de Français. Recebe o primeiro lugar e ganha bolsa do governo francês para doutorar-se na Sorbonne. Em 1962 suspende a redação da tese e parte para os EUA, onde trabalharia como professor. Defende a tese sobre Gide em 1968 e continua o trabalho docente nos EUA, em universidades como Novo México, Rutgers, Stanford e SUNY-Buffalo. Retorna em definitivo ao Rio em 1974.literatura-tropicos.jpg

Ali ele começava, calmamente, a realizar uma revolução na crítica literária brasileira. De 1970 é o artigo Eça, autor de Madame Bovary, que preconizava outra forma de se pensar as relações entre tradições centrais e periféricas. De 1971 é seu artigo mais influente, O entre-lugar do discurso literário latino-americano, que desmontava a antiga primazia da crítica baseada no rastreamento de fontes e influências. Esses artigos – junto com outros, sobre temas absolutamente heréticos para um acadêmico de então, como por exemplo a música de Caetano Veloso – seriam compilados em Uma Literatura nos Trópicos (1978). Para quem quer entender o que é a crítica brasileira das últimas décadas, trata-se de um ponto de partida obrigatório. Em 1976 Silviano organizava, com seus alunos da PUC-RJ, um Glossário de Derrida, uma das primeiras obras publicadas no mundo sobre o ineludível pensador magrebiano. No mesmo ano, publicava um livro sobre Drummond, que ainda permanece como um dos melhores estudos de sua obra.

viagem ao mexico.jpgParalelamente, Silviano ia compondo sua obra ficcional. Já em 1970 lançara O Banquete, livro de contos insólitos, na contra-mão da literatura “engajada” ou “alegórica” que então dominava o cenário brasileiro. Em 1981 publica a luminosa obra-prima que é Em Liberdade. Na capa do livro, o aviso: “uma ficção de Silviano Santiago.” Na página do título, a mesma ressalva. Mas a partir daí começa uma deliciosa brincadeira, bem séria por sinal: Silviano prefacia o livro com uma “nota do editor” em que avisa ter encontrado um manuscrito de Graciliano Ramos, escrito por ele depois de ser libertado da prisão onde o lançara Getúlio Vargas em 1936 (e cuja experiência seria relatada no clássico Memórias do Cárcere). O “diário de Graciliano” é escrito num estilo que mimetiza o escritor alagoano e traz ásperas reflexões sobre a situação do intelectual no Brasil. Inúmeros leitores – e inclusive alguns críticos – esqueceram-se do aviso da capa e caíram na armadilha de achar que estavam lendo Graciliano. A “brincadeira” jogava o leitor na vertigem dos problemas da assinatura, do estilo, da autoria. Se há alguma obra literária contemporânea que penetre mais fundo na reflexão sobre o lugar do escritor brasileiro, eu a desconheço. Leitor deste blog, não morra sem ler essa obra-prima. Depois de devorá-la, você poderá ver se concorda ou não com a análise que dela fiz no capítulo 5 desse livrinho.

Enquanto publicava uma série de ensaios sobre o problema da dependência cultural, depois compilados no livro Vale quanto pesa, Silviano escrevia outro marco do romance brasileiro contemporâneo: Stella Manhattan, uma teia nova-iorquina onde se encontram La Cucharacha, um(a) hilário(a) exilado(a) cubano(a), o Sr. Vianna, vetusto servidor da ditadura militar e drag queen nas horas vagas, Eduardo, funcionário da embaixada durante o dia travestido de “Stella Manhattan” à noite, além de uma série de outros personagens que dão o tom a uma ácida reflexão sobre sexo, poder e perversão numa Nova Iorque latino-americanizada. Imperdível. Em Liberdade é o meu favorito, mas Stella Manhattan é, certamente, o que mais o divertirá, leitor. cocoras.jpg

As obras-primas vão se sucedendo: Viagem ao México, romance caudaloso que narra a incursão mexicana do enlouquecido gênio teatral francês Antonin Artaud, em 1936; Uma história de família, curto e denso relato que explora um tema que os mineiros bem conhecem: o fato de ser sob a família nuclear, heterossexual, monogâmica e religiosa que se escondem as perversões mais indizíveis; De Cócoras, outro relato breve e poderoso sobre uma imagem recorrente na ficção de Silviano, a perda precoce da mãe; Keith Jarrett no Blue Note, contos homoeróticos que vão se tecendo como improvisos jazzísticos ao redor de um tema; O falso mentiroso, um exercício de "imaginação pura" a partir do conhecido paradoxo grego do mentiroso (o fato de que a frase "eu minto" é, por definição, impossível e contraditória consigo mesma).

Enquanto Silviano construía seu projeto ficcional, a obra ensaística não parava de dar frutos: Nas malhas da letra (1989) trazia uma série de estudos que transformavam completamente a forma como percebíamos o modernismo, que devia ser lido, insistia Silviano, não mais como modelo mas como construção canônica que limitava e tolhia a chegada dos jovens escritores. As obras mais recentes de Silviano são O cosmopolitismo do pobre, Ora (direis) puxar conversa! e As raízes e o labirinto da América Latina. Ainda encontrou tempo, nos últimos anos, para editar uma coleção de obras clássicas de interpretação da realidade brasileira.

Resumindo, então: imaginem alguém que é o primeiro crítico acadêmico a tratar seriamente a cultura pop; o primeiro crítico literário a desmontar a idéia de que brasileiros e latino-americanos estão condenados a estudar literatura rastreando as fontes e influências localizadas alhures; o primeiro a perceber a importância da desconstrução; o primeiro crítico a produzir obra vasta e capital como ficcionista (ou vice-versa, claro); o primeiro a abrir veredas na sufocante celebração do modernismo como modelo literário; o primeiro a carnavalizar o romance político com travestis e drag queens e fazê-lo refletir sobre a sexualidade como tema político; o primeiro a tecer uma consistente poética homoerótica na ficção; o primeiro a escrever, entre nós, um romance influente utilizando-se, com sucesso, da armadilha da falsa autoria. Last but not least, ele foi o primeiro a gerar, no Brasil, uma vasta família de doutores em literatura unidos no afeto pelo seu exemplo.

Esse é Silviano Santiago, meu amigo e mestre, que fez 70. Que viva mais 70. Evoé.



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segunda-feira, 09 de outubro 2006

Ana Maria Gonçalves na Globo News

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A Ana deu uma super entrevista para o programa Espaço Aberto, da Globo News, falando da obra-prima que é Um Defeito de Cor. Edney Silvestre, o entrevistador, fez um belíssimo trabalho de preparação prévia: informou-se, leu o livro, perguntou o essencial, deu o espaço para que a entrevistada brilhasse. Vale a pena ver a entrevista.

PS: E na passagem pelo Rio, ficamos conhecendo a nossa blogueira-cientista mor, Lucia Malla, uma das pessoas que mais admiro e de quem mais gosto na blogosfera. A memorável botecada também contou com as minhas já amigas queridas, as Duas Fridas, o Brunão, minha amiga Renata e Viva. Tem relato e fotos lá na Lucia.



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sexta-feira, 22 de setembro 2006

Clube de Leituras: Jorge Amado, Terras do Sem Fim

jorge-amado.jpgSem desgrudar os olhos do pau que come na política, eu gostaria de voltar ao nosso Clube de Leituras. Após participar como observador da Feira Literária de Parati deste ano, eu fiz um post em que repensava minha relação com Jorge Amado, depois de passar anos replicando o julgamento negativo que a universidade fez de sua obra - por motivos que em outro momento podemos discutir. Nesse processo, senti vontade de relê-lo. Decidimos que o próximo romance a ser lido aqui no clube seria Terras do Sem Fim. terras-do-sem-fim-russo.jpg

Devorei, junto com Ana, a deliciosa Navegação de Cabotagem, suas memórias. Divertimo-nos à beça com o relato de vida de Jorge: o homem foi testemunha de tudo quanto é evento importante do século XX. Ele reconstrói cada acontecimento com invejável humor, em rápidos parágrafos não organizados cronologicamente e legíveis em qualquer ordem. Depois disso, fiquei ainda mais animado para armar um papo sobre Terras do Sem Fim - romance que nunca li e que vem recomendado por um dos maiores estudiosos da obra de Jorge, o meu amigo Eduardo de Assis Duarte. Poderemos, eu acho, ter a honra da participação de Maria João Amado, neta de Jorge, que é blogueira.

Para quem não conhece, a brincadeirinha é a seguinte: marcamos uma data, lemos o livro, eu preparo um post e deixo rolar o debate. Já fizemos um bate-papo sobre Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, e uma entrevista com o autor. Depois, tivemos vários posts com discussões sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Acho que revisitar o humor e a picardia do velho Jorge seria um bom contrapeso nesta época de ânimos tão exaltados na política, não é mesmo? Pois bem, que tal segunda-feira, 23 de outubro, como data da primeira discussão? Teríamos um mês inteiro para ler o livro. Quem está dentro?

* A foto de Jorge foi tirada daqui.
** A outra ilustração é a capa de Terras do Sem Fim em russo. Eu acho.



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segunda-feira, 28 de agosto 2006

Diadorim

diadorim.jpg O nome de batismo de Diadorim-Reinaldo, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, nascida num dia de “11 de setembro de éra de 1800 e tantos”, evoca muita coisa, mas chave mesmo é decompor “Deodorina”, teo + dorón, presente de Deus. Trata-se ali de um presente que Rio-baldo (baldo, segundo Aurélio: falto, falho, carecido, carente, sem naipe) não pode abrir, presente ao qual ele, portanto, não faz justiça, não dá fluência ou circulação, presente que ele não sabe receber.

O leitor em empatia com o narrador – o leitor que caiu no conto simpático do velhaco latifundiário Riobaldo que se justifica – com certeza objetará, e com razão, que Riobaldo amou Diadorim, amou-o verdadeiramente do jeito que lhe foi possível, no limite do que era concebível e aceitável numa sociedade homofóbica onde, afinal de contas, o nome de Deodorina era Reinaldo Aí, claro, entra a tragicidade do personagem Riobaldo, emblematizada no fato de que em sua essência verdadeira, mais profunda, interior ao vestuário, Diadorim era-lhe, sim, possível como objeto de amor que não perturbava suas tão queridas convenções sociais, já que biologicamente mulher.

Mas ser mulher não é uma opção possível para Deodorina numa sociedade onde ela deve vingar a morte do pai, Joca Ramiro. Diadorim, o que só tem pai; Riobaldo, o que só tem mãe. O transgendering de Diadorim (o termo aqui é exato, acho: Diadorim não é andrógino nem muito menos “hermafrodita”) é necessário devido à interdição da jagunçagem à mulher. É ali que Diadorim tem que se provar como o mais valente. Se no meio dos acontecimentos Riobaldo podia achar que “esse menino, e eu [...] éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!” (310), a ironia amarga é que é somente Diadorim quem dá cabo do demo, Hermógenes, na ponta faca, na luta fatal que Riobaldo assistiu impotente e paralizado, já que só sabia atirar. O preço da covardia de Riobaldo é a morte de Diadorim e a revelação de Maria Deodorina. Diadorim, por outro lado, morre como figura definitiva da coragem, emblema da donzela guerreira.

Diadorim é também Diá-adorar, adoração do demo e figura do demoníaco: joga Riobaldo no redemoinho do amor homoerótico e vira cifra, para ele, da obrigatoriedade do pacto. Deus é sempre um; o demoníaco está cifrado no nome de Diadorim como di + adorar, o amor do duplo. O diabo é sempre legião:

...a gente criatura ainda é tão ruim, tao, que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus -- quando o projeto que ele começa é para muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? ...Deamar, deamo...Relembro Diadorim. Minha mulher que nao me ouça
.

Em livros e artigos sobre Guimarães Rosa, Diadorim tem sido estudado a partir do topos da donzela guerreira (personagem fascinante, claro) ou como figura andrógina do coincidentia oppositorum. Alguns outros estudos recentes fazem observações interessantes sobre Diadorim como figura da poética de Rosa, como emblema da própria paixão do autor pela invenção e pelo desconhecido. Há sempre que se lembrar que o primeiro encontro de Riobaldo com Diadorim – na iniciática travessia do Rio São Francisco liderada por Diadorim com 14 anos, então “o Menino” – ocorre no porto do Rio-de-Janeiro, Janus sendo, claro, a figura do deus de dupla face, dos rituais de passagem.

Mas pouco tratada, na verdade – vejam que interessante - é a questão de Diadorim como desestabilização de uma certa masculinidade sertaneja de longa história ou como, digamos, figura da redefinição dos códigos de masculinidade mesmo. O tema é tão óbvio que pulula, mas há um ponto a partir do qual não se trata dele: Grande Sertão como romance gay. Por que tão poucos estudos sobre a experiência que é especificamente homoerótica ali? Diadorim, afinal, é mulher que vive como homem e é o amor frustrado por esse homem que Riobaldo relata. Diadorim também é di(á) + dor, a experiência do duplo e do demoníaco na dor.

O que Diadorim desestabiliza é tão grande que só depois de umas 4 releituras do romance e da leitura recente de um estudo do Willi Bolle, grandesertão.br, me dei conta de quão orgânicos são os vínculos entre Otacília, o latifúndio, a transmissão da propriedade e a solidez da família nuclear monogâmica heterosexual. Claro, já na primeira leitura fica óbvio que o amor por Otacília é a opção pela segurança e estabilidade de uma relação – forte e amorosa, sem dúvida – socialmente sancionada. Mas Bolle mapeia de uma forma bem interessante toda a trajetória de Riobaldo na segunda parte da seqüência de acontecimentos, posteriores ao pacto, até a sua assunção como chefe e a luta final onde morrem Hermógenes e Diadorim: trajetória de progressiva má fé, soberba e acovardamento, emblematizados no abandono (autoritariamente justificado) de seus comandados, em meio a possibilidades de batalha, para uma visita a Otacília. Isso se fecha na paralisia de Riobaldo, pelo medo, na batalha final. Digamos que esse medo tem raízes bem sólidas numa opção de classe e numa ordem heterossexista compulsória. Diadorim é a força desestabilizadora dessa ordem. Bolle diz bonito, no seu livro:

a figura bissexual de Diadorim é um meio para evidenciar, por contraste, o que há de unilateral e redutor no retrato do povo apresentado por Euclides. O autor d'Os Sertões valoriza o sertanejo apenas como guerreiro - postura sintetizada na frase que se tornou célebre: 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Quase todos os demais valores culturais das pessoas do sertão - suas práticas religiosas, formas de organização econômica e política, sua fala, sua sensibilidade e, em particular, todo o universo feminino - são relegados à margem ou desprezados (pag. 214-5).

bruna.jpgEu me lembro de que em 1985, quando Walter Avancini fez para a Rede Globo uma mini-série sobre Grande Sertão: Veredas, a imagem de Bruna Lombardi como Diadorim tirava da personagem, para mim, toda verossimilhança: além de “feminina” em excesso, Bruna já era conhecida demais como mulher para que toda a ambigüidade de Diadorim se deixasse entrever. Eu me lembro de pensar que uma atriz desconhecida mas fisicamente bem masculina teria sido o ideal – alguém que ninguém conhecesse, que fizesse justiça ao personagem, que é, afinal, uma figura do desconhecido e do inexplorado, das mil identidades existentes por aí ainda sem representação.

PS: Eu teria mais a dizer sobre Diadorim, mas é hora de arrumar mala. Fiquem à vontade para puxar outros fios de conversa sobre a personagem, ou outras facetas do livro. Sugestão de leitura de hoje: o volume da coleção Fortuna Crítica sobre Guimarães Rosa, que reúne um time de ensaístas de primeira, e o estudo de Bolle citado acima, belíssimo.

PS 2: Nossa próxima tarefa é Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, para dentro de algumas semanas, ok?

PS 3: Valeu, Belo Horizonte. O próximo post lhes chegará de Nawlins, onde aterrizo, com a benção dos orixás, na terça de manhã.



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quinta-feira, 24 de agosto 2006

No Memorial da América Latina, Sampa

Ao lado do terminal da Barra Funda, ocupando quase 85 mil metros quadrados, mais com cara de Brasília que de Sampa, fica o Memorial da América Latina, inaugurado em 1989 e projetado por Oscar Niemeyer. É um complexo de edifícios com aquela marca registrada da utopia modernista brasiliense:

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De longe, o mais interessante é o museu, que cobre três grandes regiões, o Norte/Nordeste brasileiro, a Mesoamérica (México/Guatemala) e os Andes (especialmente Peru e Equador). É um recorte que privilegia áreas indígenas ou não urbanas. À direita, um tablado com bonecos de maracatu:

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Luxo carnavalesco e trabalho em madeira do Nordeste:

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Depois inicia-se o setor meso-americano, com o (para nós) quase ininteligível mundo das alegorias mexicanas

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e suas cosmogonias caveirocêntricas, onde tudo é Dia dos Mortos:

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Ainda na parte mesoamericana, o museu traz algumas peças da região maya - o sul do México (Chiapas, terra dos Zapatistas e dos indígenas, terra onde a Reforma Agrária mexicana nunca chegou) e o altiplano guatemalteco, que é de onde vêm os suéteres e o trabalho em cerâmica:

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A parte andina do museu traz algumas peças equatorianas, mas privilegia mesmo os departamentos de Ayacucho (em quechua: lugar dos mortos; lá se luta a última batalha pela independência hispano-americana, em 1824) e Cusco, ambos no Peru. Desse dois departamentos vêm, respectivamente, o trabalho de tecelagem e o tablado:

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O Memorial da América Latina foi produto, em grande parte, da vontade visionária do maior crítico literário hispano-americano da segunda metade do século XX, Angel Rama, um uruguaio que amava São Paulo. Além do museu, o Memorial contém um auditório, uma galeria de arte, um pavilhão e uma pequena biblioteca, que fiz questão de visitar para ver se recomendava. Não é uma coleção de impressionar, mas tem boas seleções de literaturas argentina e mexicana, além de algumas estantes de história e ciências sociais latino-americanas. A mítica Biblioteca Ayacucho, fundada por Angel Rama na Venezuela e dedicada a lançar edições críticas e comentadas de clássicos latino-americanos, está todinha lá:

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PS sobre outro museu: Também fui ao Museu da Língua Portuguesa, lá na Estação da Luz, mas sem máquina fotográfica. É uma rica coleção de aparatos, vídeos interativos, linhas evolutivas, quadros explicativos: um museu bem high-tech. O destaque é o mapa do Brasil acoplado a vídeos gravados em toda a Federação, que documentam a variação dialetal do português brasileiro. No primeiro andar há uma exposição (não sei se permanente) sobre o Grande Sertão: Veredas, que inclui mapas, reconstituições do ambiente e reproduções gigantescas do manuscrito com as correções de Rosa. Vale a visita, se seus ouvidos conseguirem abstrair os irritantes relinchos, cantos de pássaros e ruídos de água reproduzidos em playback. As explicações históricas sobre a evolução do latim, a hipótese da língua indo-européia e a origem do português são profissionais e bem-informadas. O "panteão" de 100 obras da literatura lusófona é escolhido e organizado por Alfredo Bosi, com a concepção romântico-grandiloqüente que o caracteriza. Nas placas identificatórias há pelo menos um erro: Corpo de Baile, de Rosa, é atribuído a Clarice Lispector. Não encontrei nenhum outro erro. Vale a visita.



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segunda-feira, 21 de agosto 2006

Histórias de escritor

Histórias de escritor, I :

Roda de escritores na Mercearia São Pedro, em Sampa. Eu, na minha condição de agregado, estou lá com Ana, que recebera convite de Daniela Abade. Terminamos na Sala VIP, olha que chique. Fico conhecendo dois camaradas, a cronista Lucia Carvalho, que experimentou 7 variações na pronúncia do meu nome, e o mítico Pecus, capaz de ser eleito blogueiro sexy sem que ninguém jamais tenha visto foto sua. Passaram pela roda Marcelino Freire, que saiu cedo, com o Jabuti a pesar-lhe sobre os ombros, Ivana Arruda Leite, Indigo, Joca Reiner Terron, Ronaldo Bressane, Daniel Galera, mais um pessoal que não conheço. Também havia um simpaticíssimo, erudito piauiense, cujo nome não aprendi. Como todo piauiense em São Paulo, torce pelo Corinthians.

Eis que pinta a melhor história da noite: encontrar o próprio livro num sebo. Não é nada traumático e pode até lhe dar aquela ilusão de ter galgado mais um estágio na hierarquia literária. A menos, claro, que o raio do exemplar esteja autografado. Foi a história da noite: escritor que permanecerá inomeado, caminhando por certa capital brasileira, encontra um exemplar de seu próprio livro, dedicado a certa leitora de alguma, digamos, importância, que também permanecerá inomeada; ela o havia vendido ao sebo só rasurando seu próprio nome na dedicatória. Pior parte: a leitora nem sequer havia comprado o livro na noite de autográfos, mas recebido o dito cujo de presente! Imaginem o xingamento que sai da boca do escritor.

Aí, claro, os cérebros dos contistas se põem a imaginar um fim para a história. A que arrancou mais gargalhadas foi: o escritor compraria de novo o próprio livro. Escreveria uma segunda dedicatória. Algo como: “já que a primeira não foi suficiente....”. Colocaria o livro no correio de volta a sua primeira dona, para provável surpresa e terror da leitora.

Histórias de escritor, II (Mesa de debates sobre blogs e literatura)

A Rosana Hermann fala como posta: a mil por hora, com análises, estatísticas, bruscas viradas de jogo. A Bruna Surfistinha foi lúcida e narrou o que foi, para ela, o fetiche do livro, o desejo de ter um livro publicado. Tinha o radar anti-ironia ligado e bem preparado. Olhava com certa desconfiança, natural, para as outras. A Indigo narrou a deliciosa história dos seus sub-empregos, que geraram um belo blog. A Ivana, inspiradíssima, era a que mais se divertia: elencou tudo o que tinha em comum com a Surfistinha, e não era pouco.

Indigo e Ivana concordaram que a escrita destinada ao livro tinha uma nobreza, uma perenidade, um valor, que a escrita do blog não tem. Fiquei curioso para saber mais sobre esse limite, para o escritor de ficção. Porque a tentação de publicar o conto recém terminado no blog deve ser grande. Acho que acabamos concordando que a perenidade é muito mais da satisfação proporcionada pela publicação em formato livro, do que do objeto em si – objeto hoje em dia menos perene, afinal de contas, do que os textos que têm existência eletrônica. A figura mais falada nesse debate sobre blogs foi, curiosamente, o bom, velho, nobre e fetichizado livro.

PS: Um super time de cientistas criou um blog dedicado à área, o Roda de Ciência. A idéia é debater um tema por mês. Este mês o tema é a divulgação científica. A Lucia Malla está participando, então a coisa é fina. Vão lá conferir, ok?



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quarta-feira, 16 de agosto 2006

Blogs e Literatura

No sábado, dia 19 de agosto, às 17:00, como parte da programação da Primavera dos Livros aqui em São Paulo, acontece uma mesa-redonda sobre o tema "Blog e Literatura, Blog é Literatura?", com a participação de Ivana Arruda Leite, Bruna Surfistinha, Indigo e Rosana Hermann (dica via Pensar Enlouquece). Aproveitando o ensejo, deixo abaixo o texto que escrevi sobre o assunto para o Salão do Livro de BH deste ano; ele surrupia dois parágrafos de outro texto, lá apresentado ano passado. O resto é novo. Foi escrito para um público que não necessariamente conhece blogs, então relevem as obviedades.

BLOGS E LITERATURA

Se você se interessa por literatura e não tem a menor idéia do que é um blog, ou ainda acredita que blog é coisa de adolescente relatando suas festinhas e namoros, esta é a hora de dirigir o olhar para uma quase silenciosa, mas ineludível experiência literária que vem se gestando na internet. Boa parte da melhor literatura que se escreve hoje no Brasil tem sido produzida ou circulada através da chamada “blogosfera”.

Os blogs são sites pessoais com entradas organizadas em ordem cronologicamente inversa, de forma que, ao abrir a página, o primeiro que se vê é a última entrada publicada pelo autor. Estas entradas são chamadas “posts” e podem ser um texto, uma imagem, um vídeo ou simplesmente uma frase com um link a outro site na internet. Com freqüência os blogs incluem, ao final de cada post, uma caixa de comentários aberta a contribuições dos leitores – tal interatividade é, de fato, uma das marcas registradas da blogosfera. Já há alguns anos protagonistas de uma revolução na internet brasileira (e em países como Estados Unidos, França, China, Irã), os blogs podem ser de vários tipos: jornalístico, esportivo, confessional, político, literário. Limitamo-nos aqui a falar destes últimos.

São numerosos os escritores de poesia e ficção, inéditos ou veteranos, que aderiram a esse formato e abriram blogs. Aqui haveria que se fazer uma diferenciação. Há, por um lado, escritores que se utilizaram do formato blog para disseminar uma produção que já possuíam anteriormente. Chamemos estes de escritores-blogueiros. Por outro lado, há escritores que já se formaram na blogosfera, ou seja, que não tinham uma obra anterior e que foram levados, pelo blog, a publicar livros. Chamemos estes últimos de blogueiros-escritores.

Há diferenças importantes entre os escritores-blogueiros e os blogueiros-escritores, mas em nenhum dos dois casos o blog é um mero veículo que distribui um produto que permanece independente do formato através do qual é disseminado. Pelo contrário, a natureza da forma altera o conteúdo: é próprio dos blogs que a escrita seja dinâmica, rápida, interativa e sujeita a críticas permanentes. Isso acaba gerando uma literatura de caráter distinto, afeita ao aforismo, à blague, à interpelação a quem lê; propensa a antecipar qual será a reação do leitor; acostumada à revisão e à correção públicas; dotada de um constante impulso metalingüístico, de reflexão sobre si própria; e, fundamentalmente, vinculada de maneira orgânica com a experiência. Não é raro que um blog interrompa o fluxo de posts sobre seus temas principais para fazer uma observação sobre a vida particular: um comentário sobre um desengano amoroso, um lamento por uma tragédia pessoal, a convocação de uma festa. Pouco a pouco, vai se tecendo ali um personagem de ficção, que os leitores acompanham mais ou menos como acompanhamos uma telenovela, com as diferenças importantes de que o enredo traz uma relação direta com a experiência daquele que escreve e de que o final da história nunca está determinado de antemão.

Recentemente, a editora independente Gênese (que é de propriedade de uma blogueira, Alê Felix) lançou uma coletânea de contos de vários autores reunidos no coletivo Blog de papel, onde se pode comprovar a variedade e qualidade da ficção produzida nos blogs. A produção literária tanto dos blogueiros-escritores como dos escritores-blogueiros já é vasta: entre estes, destacam-se o poeta e cronista Fabrício Carpinejar, o ficcionista Marcelino Freire, o romancista Santiago Nazarián, as prosadoras Ivana Arruda Leite e Cintia Moscovich. Entre aqueles, podem ser citados Ana Maria Gonçalves que, através de seu blog, publicou um primeiro romance, Ao lado e à margem do que sentes por mim, em edição de autor, para logo receber um contrato da Editora Record para seu segundo livro, Um defeito de cor; Daniela Abade, que publicou seu primeiro romance, Depois que acabou, pela editora Gênese e em seguida lançou o segundo, Crônicos, pela Ediouro; Daniel Pellizzari que, além de escritor, é fundador da editora Livros do Mal; Daniel Galera, autor de obras que antecederam seu atual sucesso na Companhia das Letras, Mãos de cavalo. Há inúmeros outros exemplos que poderiam ser citados, mas com os links fornecidos acima já dá para começar. Acredite, você vai se viciar e nunca mais vai crer que só se produz literatura com papel, capas e lombadas.



  Escrito por Idelber às 14:09 | link para este post | Comentários (34)



segunda-feira, 14 de agosto 2006

Lançamento de Um defeito de cor em São Paulo!

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Convite aos amigos paulistanos: Ana Maria Gonçalves autografa Um defeito de cor nesta quarta-feira, a partir das 18:30, na Livraria da Vila - Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, tel (11) 3814-5811.

Se você é são-paulino e quer ver a final da Libertadores, não se avexe. O evento deve acabar antes das 21:30, e com certeza o chopinho blogueiro que se seguirá pode ser marcado para um bar com televisão.

Eu, que não me importo muito com campeonatos como a Libertadores e a Série A do Brasileirão, estarei lá com Ana. Para quem quiser ajudar na divulgação, aí vai o selinho.

Vai ser muito bom rever São Paulo. Aguardamos os amigos lá na Livraria da Vila.



  Escrito por Idelber às 06:31 | link para este post | Comentários (11)




Evento imperdível em BH

Belo-horizontinos: hoje, às 19:30, há um evento imperdível, parte da programação do Salão do Livro. Reúnem-se para uma mesa redonda sobre o tema "A literatura em tempos de repressão política" o escritor argentino Martín Kohan e a ensaísta brasileira Paloma Vidal (PUC-RJ). Se você acompanha este blog há mais de dois meses, já leu uma discussão sobre a obra de Kohan e uma entrevista com ele. Paloma é ex-blogueira (sim, eles existem) e sabe tudo sobre o assunto. Eu aparecerei por lá.

Kohan já está por aqui, foi entrevistado hoje e já deve ter provado seu primeiro frango com quiabo.

Antes, às 18:30, o entrevistado é João Gilberto Noll. O Salão do Livro acontece na Serraria Souza Pinto. Vale a pena.



  Escrito por Idelber às 06:13 | link para este post



sexta-feira, 11 de agosto 2006

De Paraty, em memória de Jorge Amado

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Charge de Jorge Amado: Estado de São Paulo.

Não na condição de professor, escritor ou autor de nada, mas de namorado de uma autora da Record, participei ontem do jantar oferecido pela editora aqui em Paraty. Pude conhecer outro ídolo meu, o ensaísta, historiador e romancista britânico-paquistanês Tariq Ali, um dos analistas mais argutos do mundo contemporâneo e crítico dos mais incisivos da máquina assassina israelense (se você não conhece a obra de Ali, comece com Confronto de fundamentalismos, livro chave para se entender a política de hoje). Também estava presente no jantar o ficcionista gente-boa Marcelino Freire, que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti pelo seu livro Contos Negreiros. Muito simpático, o Marcelino. Parabéns, eita danado!

Mas a honra mesmo da noite foi poder conhecer membros da família Jorge Amado. Acho que o grande saldo desta Flip, para mim, será o desejo de participar da reabilitação de Jorge Amado dentro da universidade. Fazem-se muitas críticas à universidade brasileira e eu considero a maioria delas injustas. Mas neste caso, os críticos têm razão: a universidade – muito em especial a academia paulista – é a grande responsável pelo fato de que a obra de Jorge Amado tenha sido encarada com desprezo pelos estudiosos de literatura no Brasil. Aqui eu faço meu mea culpa: durante anos eu repeti essa cantilena.

Para a obra de Jorge Amado os críticos literários brasileiros sempre reservaram os piores epítetos: popularesca, folclorista, superficial, estereotipada, panfletária. Os pouquíssimos que se dedicam ao seu estudo são, em geral, vistos com condescendência (parabéns por remar contra a maré durante tantos anos, Eduardo de Assis Duarte). O meu testemunho não é nada especial: para me formar em Letras tive que ler toneladas de Marx e Freud, mas nem uma única linha de Jorge Amado – e olha que eu assistia aulas de manhã e à noite e me matriculava em tudo quanto era eletiva disponível.

Claro que li Jorge Amado – pouca coisa, uns 7 ou 8 romances – mas sempre com a sensação de estar lendo algo de pouca importância. Enquanto isso, seus livros continuavam vendendo milhões e agradando leitores mundo afora. Pois bem: eu saio desta Flip com uma vontade danada de participar de um esforço de reabilitação de Jorge dentro da universidade. Para isso, claro, vou usar o blog no que eu puder.

Portanto, queria deixar com vocês a proposta de que depois do Grande Sertão – sobre o qual ainda haverá dois ou três posts, pelo menos – nós nos dediquemos a ler um romance de Jorge aqui no Clube de Leituras. Meu voto é para Mar Morto, mas estou aberto a sugestões.

Alguém tem depoimentos, casos, relatos, opiniões sobre o genial bruxo baiano? Ontem ele teria feito aniversário: nasceu no dia 10 de agosto de 1912.

Evoé, Jorge.

Atualização 1, na segunda-feira: Maria João Amado, neta de Jorge Amado, que topou participar do clube de leituras conosco, também é blogueira!

Atualização 2: baseado em todo o dito aqui e a mim por amigos, gostaria de começar com Terras do sem fim. Terminando o papo sobre Rosa combinamos datas.



  Escrito por Idelber às 15:31 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 09 de agosto 2006

Blogueiro convidado no Clube de Leituras: Maurício Lara

(meu amigo Maurício Lara é o blogueiro convidado de hoje. Ele nos conta um pouco sobre sua relação com Grande Sertão: Veredas).

O ÚNICO LIVRO QUE EU LI

Tenho a nítida sensação de que li somente um livro em toda a minha vida. E nem foi há tantos anos assim. Foi o único que li e uma única vez. Nunca mais comecei a leitura do princípio e fui até o fim. Como nunca mais parei de folhear, folhear, ler pedaços, rabiscar... Antes achava que tinha lido vários outros; depois, não pude entender mais nada. Depois dele, parecia que pouco ou nada havia para dizer ou para contar. Estava tudo lá no Grande Sertão:Veredas, de João Guimarães Rosa.

Escrevi livros. E nem estou deles livrado, como diria Manoel de Barros. Em todos me vali do Grande Sertão, na epígrafe, no miolo do texto e/ou na inspiração. Um conta a história da eleição presidencial de 1989, a primeira depois da ditadura, que mobilizou este País e em que Fernando Collor de Melo venceu Luiz Inácio Lula da Silva. É um livro-reportagem chamado Campanha de Rua (Geração Editorial, 1994) e tem a seguinte epígrafe: “Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons...”

Outro fala de câncer. Da doença que eu tive e que marca a ferro a vida de quem com ela convive. Chama-se Com todas as letras – o estigma do câncer por quem enfrentou esse inimigo silencioso e cruel (Editora Record, 2005). Tem epígrafe do Grande Sertão: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”. E bem no final do livro: “Tudo que já foi, é o começo do que vai vir.” Toda a história do câncer e do livro foi travessia e travessia é Grande Sertão, o que se atravessa é o grande sertão.

Um outro fala de política e da relação da esquerda com o poder. É o romance Em Nome do Bem – uma alegoria da política brasileira (Editora Planeta, 2005). Está lá: “De despiço, olhei: eles nem careciam de ter nomes – por um querer meu, para viver e para morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.” O poder está no Grande Sertão, como estão Deus, o diabo, o amor, a amizade, o ódio, a vida e a morte. Tudo.

Estão lá, também, Riobaldo, Diadorim e... Otacília, a da “firme presença”. E em torno do livro muitos outros livros, que falam de Riobaldo, de Diadorim e de... Otacília, ainda que muito menos. Como só li um livro, tenho dificuldade em ler os outros, até os que falam daquele único. Fico pensando no mesmo, no de sempre. A ele recorro, folheando ou recordando, quando preciso de uma explicação, de encontrar um Norte, de me inspirar.

Não quero analisar o Grande Sertão, quero senti-lo; não quero refletir sobre o Grande Sertão, quero refletir sobre a vida e ela está lá; não quero pensar o Grande Sertão no banco da academia; quero é mantê-lo na minha cabeceira, como ele está: surrado, quase rasgado, sentido, cheirado, admirado. E para sempre.



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quinta-feira, 03 de agosto 2006

É hoje!

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A Ana está surpresa, acho, e encantada com a admiração e atenção que a universidade está começando a dedicar a Um defeito de cor. A coisa chegou a um ponto que nunca vi: foi convidada a falar na Abralic (que, por sinal, está indo super bem, mostrando mais uma vez que é o melhor congresso de literatura da América Latina: obrigado, UERJ).

O lançamento de Um defeito de cor acontece nesta quinta, a partir das 19:00, na livraria Argumento, do Leblon (Rua Dias Ferreira, 417).

Antes disso, às 14:00, eu falo sobre Machado e a música na Abralic, no 11o andar da UERJ.

Falando em música, a excelente revista colombiana Número acaba de publicar um dossiê sobre música brasileira que vale a pena ser lido, e não é pelo meu artigo.

Todos os leitores cariocas estão convidados à minha fala de tarde e ao lançamento de Ana de noite. A quinta-feira promete.



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quarta-feira, 26 de julho 2006

O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas

gsv-3.jpgDas várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é o relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.

O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas. Essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo. Quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.

Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.

Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira. Só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).

Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor. O único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca. No nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).

Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco. Eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.

Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro. Trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.

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Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.

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Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)

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A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.

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Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).



  Escrito por Idelber às 05:48 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 25 de julho 2006

Amanhã é dia do demo

devil.jpggsv-3.jpg
Imagem: daqui.

O demo é um ponto tão bom como qualquer outro para começar a discutir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Convido quem tiver lido o livro para passar por aqui nesta quarta e participar do papo. Vai ao ar de madrugada um texto meu sobre o tema - nem que seja meio chinfrim. Ao longo do dia de hoje, quem quiser colaborar com a casa e deixar algum link interessante sobre o demônio, fique à vontade.

Imaginam o que a Bibi seria capaz de encontrar sobre o demo na Internet?

As imagens mais impactantes do dito cujo que eu conheço são os desenhos de William Blake.



  Escrito por Idelber às 05:05 | link para este post | Comentários (10)



terça-feira, 18 de julho 2006

Guimarães Rosa em imagens

rosa-menino.jpgGuimarães menino

guimaraes-casa.jpgCasa de J.G.R. em Cordisburgo, hoje museu.

gsv-2.jpg Edição contemporânea de Grande Sertão.

gsv-3.jpg Meu exemplar da 15a edição, de 1982.

gsv-espanhol.jpgGrande Sertão em espanhol. .

gsv-frances.jpgEdição de "Meu Tio, o Iauretê" e outros contos, em francês.

gsv-italiano.jpgGrande Sertão, em italiano.

redemoinho.jpgRedemoinho, xilogravura de Arlindo Daibert.

otacilia.jpgOtacília, pastel, grafite e colagem de Arlindo Daibert.

diadorim.jpgDiadorim, xilogravura de Arlindo Daibert.



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sexta-feira, 14 de julho 2006

Clube de leituras: Antes do Grande Sertão

Guimaraes.jpg

São fracos os recursos existentes na internet sobre Guimarães Rosa. O Projeto Releituras traz um resumo biográfico mínimo com quatro contos ; há um bom artigo de um professor da medicina da UFMG, um interessante blog de citações e não muito mais. O artigo da Wikipedia não traz nem o essencial e fala de Rosa como “realista mágico,” o que é um chute bem longe do gol: o “realismo mágico”, tal como desenvolvido por García Márquez a partir de uma idéia de Alejo Carpentier em El reino de este mundo (de 1949, quando este ainda chamava a coisa de “lo real maravilloso”) tem pouco que ver com o que faz Rosa, tanto nos contos como nas novelas ou no Grande Sertão. Em Rosa não há formigas invadindo cidades ou mulheres gordas que voam. Não há essa tentativa de produzir um espanto artificial com a realidade: o realismo mágico pressupõe um olhar estrangeiro, alheio ao mundo que se narra, olhar que é a chave para que se produza o efeito "fantástico" ou “mágico”. Em Rosa, todo o contrário: Riobaldo é dali, do sertão, rigorosamente interno ao que narra. O estranhamento que aquele mundo produz não é fruto de um olhar que o vê como exótico. O estranhamento vem das entranhas mesmas.

Há excelentes estudos acadêmicos sobre Rosa, mas a universidade também já tropeçou bastante para falar dele: num colóquio recente, a chamada avisava que "Guimarães Rosa soube conciliar as reflexões e os estilos mais autenticamente brasileiros (ensaismo e oralidade) com as formas narrativas das vanguardas (fluxo de consciência, memória involuntária), como se não existissem ensaísmo e “oralidade” em outros lugares, ou como se as “formas de vanguarda” já não fossem, em 1956, tão “brasileiras” como o futebol. Ou seja, confusão pura. Generalidades sobre o “local” e o “universal” – e a combinação entre eles – são o pão-com-manteiga da crítica roseana. Já não acrescentam muito.

Nos sites de língua estrangeira há alguns chutes na arquibancada também. Um verbete americano fala de “naturalismo” em Guimarães Rosa (aliás, a tradução ao inglês de GSV, The Devil to Pay in the Backlands, é o trabalho de tradução mais horrendo já feito com um grande autor). “Naturalismo”, aqui no caso, está bem longe do justo; “naturalista” é a secura de Euclides da Cunha, autor ainda marcado por determinismos vários. Se no mundo naturalista a realidade se deduz com um grau razoável de certeza a partir de certas determinantes (raça, meio, herança genética), em Rosa tudo é turbilhão e incerteza, não só na cabeça do personagem, mas no tempo e fluxo do próprio texto. Mais inventivo e anti-naturalista, impossível.
gsv-2.jpg

“Regionalista” é outra palavra que aparece com freqüência para designar a literatura de Rosa. Aplicado a ele, o termo mais confunde que explica. O rótulo tem longa história na literatura brasileira, pelo menos desde os romances “regionais” de José de Alencar (como O Gaúcho), e designa aquela literatura (em geral rural) que se dedica não só a retratar uma região mas a criar personagem e problemática supostamente únicos àquele lugar. O regionalismo é uma fábrica de tipos (o vaqueiro, o retirante, a mulata do Recôncavo, etc.). Em Rosa não há tipos, só personagens múltiplos e fragmentados. O cenário de Rosa é, sim, rural e o lugar é tematizado repetidas vezes, mas o movimento é inverso ao do regionalismo: tudo no sertão de Rosa acaba virando mundo e englobando a própria cidade ao qual o sertão aparentemente se oporia. Quanto mais tu entras no movimento centrífugo do redemoinho, mais ele te joga, centrípeto, para o universo.

Essas são apenas algumas das palavras problemáticas que se repetem sobre Rosa. Isso não quer dizer que aqui ou ali elas não possam ser úteis, mas para descrever o que fez Rosa, são redutoras. Como ele renovou a língua mais que qualquer outro autor em português, o léxico da crítica também tardou um bom tempo para começar a dar conta do que acontecia. Ainda falta muito, mas há incontáveis trabalhos de qualidade por aí. Na vastíssima coleção de títulos, três me são especiais:

O volume da Coleção Fortuna Crítica, já esgotado mas facilmente encontrável em sebos e bibliotecas, traz uma compilação de muitos dos melhores artigos já escritos sobre Rosa, por feras como Haroldo de Campos e Benedito Nunes. Vale a pena.

O Léxico de Guimarães Rosa, de Nilce S. Martins, é um trabalho recente, assombroso, organizado em forma de dicionário. São 8 mil verbetes, com todas as invencionices de Rosa. Para quem quer ir fundo, é indispensável.

A Vereda Trágica do Grande Sertão: Veredas, da minha conterrânea (e feríssima) Sônia Viegas, é a mais aguçada leitura filosófica do romance.

Eu estou relendo o livro pela sexta vez, acho. E estou ainda mais assombrado do que fiquei em 1985, quando li pela primeira vez, no colégio.

Na semana que vem começamos uma discussão sobre Grande Sertão: Veredas aqui, organizada o demo sabe como. Talvez possamos fazê-la por assuntos, ao longo de três ou quatro posts, que poderiam tratar de temas como o fáustico (todo o drama da alma e do pacto com o diabo), o amor Riobaldo-Diadorim (que é pano pra manga que não acaba mais) a estrutura do texto e a linguagem (que tal uma coleção de citações do livro?), o rico problema da memória no texto, e o que mais nos der vontade. Provavelmente os assuntos vão se misturar. É a lei do sertão.



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terça-feira, 04 de julho 2006

Lançamento de Um defeito de cor no Rio de Janeiro

um_defeito_de_cor.jpg Está marcado o lançamento de Um defeito de cor, da Ana, na Cidade Maravilhosa: o evento acontece dia 3 de agosto, quinta-feira, às 19:00, na livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417 - Leblon). Eu estarei lá com a Ana.

Ao contrário do lançamento de BH, para o qual os convites foram enviados por email, desta vez a editora vai providenciar convites impressos, enviados por correio normal. Todos os leitores do Biscoito estão convidados. Se você quer ir, deixe um comentário aqui acompanhado do seu email, para que eu possa pegar o seu endereço. Ou então me mande um email já com a informação, até sexta-feira.

Não se esqueça de convidar o seu amigo rabugento que acha que já não existe literatura como antigamente.

Aliás, eu estarei no Rio durante a última semana de julho e os dez primeiros dias de agosto, para esse lançamento, uma palestra na UFRJ, a Festa Literária de Parati e o Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, o melhor congresso de estudos literários da América Latina, desta vez com 2.000 participantes (destes, eu e mais 33 colegas passaremos as tardes falando dos contos de Machado de Assis).

Em breve entramos em modo Grande Sertão: Veredas por aqui. Tem gente lendo aí? Sobre futebol eu não falo mais até que alguém acerte o raio da pergunta que eu deixei no post de ontem.

Portanto, amigos do Rio: entrem em contato.



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quarta-feira, 21 de junho 2006

Clube de leituras, II

Eu vou ali pegar um avião para Belo Horizonte e já chego, a tempo de ver Brasil x Japão na transmissão da ESPN Brasil: férias, que este ano demoraram a chegar.

gsv.jpg

Depois do papo sobre o Duas Vezes Junho, de Martín Kohan, ficamos de conversar sobre Grande Sertão: Veredas. Como eu disse antes, eu topo reler o romance do Rosa se pelo menos o mesmo número de pessoas que participaram do primeiro debate se animarem a ler um segundo livro - embora eu não tenha a menor idéia de como organizar uma discussão sobre um treco tão infinito como o Grande Sertão.

Se houver quórum, que tal começar a papear lá pelo dia 17 de julho, 8 dias depois do fim da Copa do Mundo? Quem começasse a ler agora teria quase um mês para digerir o livro.

E aí, quem está dentro?

PS: Vou perder Argentina x Holanda, voando entre New Orleans e Miami. Buá. Quem assistir o jogo e tiver observações pessoais, deixe-as por aqui também. O fanático futebolístico aqui agradece.



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terça-feira, 20 de junho 2006

Enquete sobre a teimosia

Considerando que quase todo mundo tem uma variação ou outra da mesma explicação para o mau futebol do Brasil (a ausência de um armador no meio-campo e o esquema com dois centroavantes, tendo um deles o corpo de um atleta de luta greco-romana), você acha que Parreira mantém Ronaldo no time porque:

a. há pressão de Nike, AmBev ou o patrocinador que seja.

b. o Galvão Bueno mandou.

c. o trio Parreira-Zagallo-CBF tem medo de sacar Ronaldo.

d. querem mantê-lo até que ele quebre o raio do record do Gerd Müller (14 gols em Copas, Ronaldo tem 12).

e. agora Parreira decidiu que se for pra ganhar, terá que ser na teimosia do seu esquema, como em 1994, só para ter o gostinho de dizer isso é para vocês, seus traíras, como o fez Dunga na mais deselegante erguida de taça da história do futebol brasileiro.

f. Zagallo ainda não descobriu que Ronaldo é gordo tem treze letras.

Digam lá. Não precisa ser uma resposta só, claro. Aceitam-se outras teorias também.



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domingo, 18 de junho 2006

Santo Antônio 2 x 0 Austrália

st0-antonio.jpg Crédito da imagem.

Depois do jogo de hoje, a manchete do UOL, que não sei por quanto tempo ficará lá, era "Brasil sofre, mas dupla de ataque se redime". Se redime? Será que eles viram o mesmo jogo que eu? Está certo, o Ronaldo correu um pouco mais, mas teve uma atuação bisonha. O meu único medo é que não tenha sido bisonha o suficiente para que Parreira o tire do time. Deu um passe para o gol. Meu Deus! Ele deu um passe certo! Nossos amigos do Eu odeio o Galvão Bueno disseram que na hora daquela furada monumental do Ronaldo no primeiro tempo, com uma bola açucarada caindo para ele dentro da área, o nosso boçal-mor disse "Ronaldo se apresenta para o jogo". Foi isso mesmo? Se apresenta para o jogo? Foi a furada mais feia que eu já vi numa Copa!

É verdade que o Ronaldo entrou com vontade de correr, pelo menos. Mas isso só tornou ainda mais visível o fato de ele não tem nenhuma condição de jogo.

Meus pitacos:

* Excelente, excelente arbitragem.

* Os melhores em campo na minha opinião:
Zé Roberto: cometeu um erro durante a partida, foi lá e consertou na hora; no resto do jogo, impecável.
Lúcio: sim, pode se argumentar que ele tem saído demais para o ataque; mas com uma ou duas exceções foram jogadas de escanteio, nas quais o papel dele é esse mesmo; no combate, esteve impecável.
Juan: seguro e firme, o tempo todo.
Robinho: em 20 minutos fez mais que Ronaldo e Adriano juntos nos dois jogos.

* Agora, vejam só: O que dizer de uma partida contra a Austrália onde os melhores em campo são os dois zagueiros e um volante de contenção? Dá o que pensar, né?

* Roberto Carlos tem sido péssimo, especialmente na defesa, que é sua principal responsabilidade. Há tempos joga com o nome e com as cobranças de falta - que têm ido todas, por sinal, na arquibancada.

* Dida é um grande goleiro. Embaixo das traves. Todo mundo sabe disso, claro, mas não custa repetir: saiu da pequena área, é um Deus-nos-acuda.

* Dá muita pena ver o Ronaldinho Gaúcho jogando tão longe da posição dele. É um crime contra o futebol.

* Sobre o esquema tático, eu continuo mantendo o que disse ali embaixo.

Antes da Copa, por causa do oba-oba, muita gente disse que a coisa estava com cara de 1982. Eu acho que está mais com cara de 1994. O que não quer dizer que o Brasil vá ser campeão, claro, porque time nenhum pode contar durante muito tempo com a sorte que o Brasil teve hoje - sorte e incompetência do adversário nas finalizações.

É verdade, o time correu mais (ainda que completamente sem alegria). Mas eu não gostei não.



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sexta-feira, 16 de junho 2006

Ulisses, de James Joyce: Celebração do Bloomsday

bloomsday.jpg

Pausa na Copa porque um valor mais alto se alevanta.

Hoje é o dia em que, no mundo todo, os leitores do mais radical, inventivo e revolucionário romance jamais escrito celebram (de preferência com uma boa cerveja) a Irlanda, James Joyce e Ulysses, a obra-prima. Na blogosfera brasileira, pelo segundo ano consecutivo, o Odisséia Literária pilota as comemorações, com vários posts espaçados durante as quase 24 horas em que tem lugar a ação do livro.

joyce.jpgA história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.

Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.

Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. “Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos ” disse Joyce sobre Ulisses. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que dará trabalho por muito mais.

Não leu ainda? Se domina bem o inglês, há uma fantástica versão em hiper-texto. Antônio Houaiss fez uma já legendária tradução ao português; agora há uma nova tradução, de Bernardina Pinheiro, que eu ainda não li, mas que vem sendo elogiadíssima como texto mais coloquial e picante que o de Houaiss – e portanto, talvez, mais fiel a Joyce.

Não se deixe levar pela fama de "difícil" do livro: poucas vezes escreveu-se coisa tão engraçada, escandalosa, divertida e sexual como Ulisses. Em cada diálogo, cada cena, cada capítulo, mil sentidos. O treco não acaba nunca.

primeira-pagina-ulysses.gifManuscrito da primeira página de Ulisses.

Todo 16 de junho eu sinto saudades de Haroldo de Campos, que comandava as comemorações aí no Finnegans Pub, em Pinheiros, Sampa. Se você está em São Paulo e quer comemorar o Bloomsday, o point é esse. Em Belo Horizonte, poetas e músicos se reunirão no Teatro Francisco Nunes às 18:30 para celebrar “Bloomsday com Rosa” porque afinal Grande Sertão: Veredas, o mais joyceano dos nossos romances, completa 50 anos de publicação.

Links para curtir o Bloomsday:

Odisséia Literária, que vai estar fervilhando hoje, com sucessivos posts.
Texto completo do Ulisses em inglês.
Ulysses for Dummies (Ulisses para idiotas) com quadrinhos hilários.
Pequeno resumo e informações sobre o legado da obra.
Leitura coletiva da obra no blog português Leitura Partilhada.
Mapas, enigmas e histórias relacionados com Ulisses.

Tim-tim, feliz bloomsday para todo mundo, visitem o Leandro e viva a Irlanda.



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sexta-feira, 09 de junho 2006

Entrevista com Martín Kohan

kohan-foto.jpg O escritor argentino Martín Kohan nasceu em 1967 e é autor de nada menos que 10 livros. Escreveu os romances La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) e Segundos afuera (2005), as coleções de contos Muero contento (1994) e Una pena extraordinaria (1998) e os livros de ensaios Zona urbana: ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004), Narrar a San Martín (2005) e Imágenes de vida, relatos de muerte: Eva Perón, cuerpo y política (1998), este último em co-autoria com Paula C. Rocca. Além de Duas vezes junho, já foi lançado no Brasil Uma pena extraordinária. Não é todo dia que aparece que um cabra que, antes dos 40 anos de idade, já deixou uma marca dessas na literatura. Enquanto vocês liam o livro, eu bati um papo com Kohan por email.

1. O que eu mais gosto em Duas vezes junho é o tom, a dicção do protagonista: um recruta que é obviamente cúmplice e agente do horror, mas que quase provoca a empatia do leitor por sua simplicidade. Esse caráter despojado, contido, pouco retórico do romance contrasta com certa literatura pós-ditatorial que privilegia vozes testemunhais ou grandes máquinas alegóricas. Você pode nos dizer um pouco sobre como chegou a essa voz?

Chegar a essa voz foi realmente o determinante para poder escrever o romance. De fato, eu já tinha uma idéia razoavelmente clara da trama e da armação geral que eu me propunha fazer, e no entanto não podia começar a escrita do texto porque não havia resolvido ainda esse tom que me parecia que o romance tinha que ter: um registro sinistramente neutro em alguém que está muito perto dos fatos mas se comporta como se não estivesse, alguém que pode ver o que está acontecendo mas que se comporta como se não o visse. Encontrei esse tom e essa voz quando me ocorreu o episódio inicial da falta ortográfica. Eu tinha pensado em começar com a frase sobre a tortura de crianças, que é real e que para mim é uma verdadeira cifra do horror absoluto. Com a idéia do erro de ortografia na escrita dessa frase, e com o desvio conseqüente do narrador, que se põe a pensar no erro ortográfico e não no conteúdo do que a frase diz, encontrei essa voz e pude escrever o romance daí em diante.

Eu fico entusiasmado que você perceba uma diferença discursiva com o registro que é próprio das vozes testemunhais, porque me parece que em Duas vezes junho o que aparece tem mais a ver com uma posição geracional – a minha – que não responde à geração dos setenta e à militância, e sim a outro tipo de experiência da ditadura (não é o balanço da geração da militância, e sim a vivência cotidiana da infância, que foi minha experiência da ditadura: eu tinha nove anos em 1976).

2. Em Duas vezes junho, e também em outros textos seus, nota-se a preocupação de revisitar os mitos fundadores da nação. Parece-me chave o fato de que você tenha escolhido, na Copa de 1978, a única partida que a Argentina perdeu, e em 1982 outro momento de derrota, curiosamente também ante a Itália. Seriam as derrotas das obsessões coletivas os momentos privilegiados para vislumbrar o que constitui a nação?

Efetivamente, interesa-me muito indagar quais são os dispositivos com os quais se conforma uma identidade nacional. De fato, minha tese de doutorado teve como objeto estudar as estratégias narrativas da construção da figura do herói nacional argentino, José de San Martín. Há uma dimensão épica, heróica e vitoriosa que se deslocou evidentemente ao futebol, novo palco da pirotecnia nacionalista (sempre se fizeram objeções severas a que em 1982 se asimilassem, na sociedade, a guerra das Malvinas e a Copa da Espanha; de certo ponto de vista, no entanto, e ressalvando-se a distância evidente do que é o custo, em vidas, de uma guerra, isso me parece perfeitamente lógico).

As derrotas oferecem, neste sentido, um ponto de vista que é sempre mais interessante, porque ali não se verifica nem o destino de grandeza nem o esplendor patriótico (em suma, um lamento paranóico que na Argentina costuma pegar: que há uma conspiração adversa, mundial, se for necessário, para nos fazer perder).

Em Duas vezes junho, eu me propunha reverter a memória social da Copa de 78 como uma experiência de euforia coletiva. Já não indicar o pano de fundo trágico dessa euforia, o horror que subjazia aos festejos das partidas. Não isso, e sim outra coisa: construir uma imagem triste e desolada do que foi a Copa; não a da alegria enganosa, e sim a de uma profunda tristeza coletiva. Por isso tomei a noite da derrota (sem salvá-la com a perspectiva da vitória posterior, como quando se conta na história argentina a derrota de San Martín en Cancha Rayada já da perspectiva da vitória que ele logo teria na batalha de Maipu. Não: somente a derrota, sem revanche, sem redenção). Muita gente – na verdade toda a que não esteja tão informada sobre o futebol – já esqueceu completamente essa partida. A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota.

A idéia de que o romance tivesse uma segunda parte em 1982 ocorreu-me enquanto eu o escrevia (e só então, é claro, ocorreu-me o título). Me parecia necessário avançar com a idéia de que a cumplicidade do recruta se prolonga mais além do momento em que está sob o domínio militar. A idéia da derrota nacional poderia extender-se então a seu ponto dramático: Malvinas. E também ratificar-se no futebol: a Argentina volta a perder para a Itália (quando reparei nesse detalhe, me pareceu que não podia deixar de aproveitá-lo).

3. Considerando a paixão pelo futebol, tanto na Argentina como no Brasil, é curioso que ele não tenha cumprido um papel mais central na literatura. Claro, existem os relatos de Fontanarrosa, alguns de Osvaldo Soriano, mas em geral a literatura argentina – e também a brasileira – ocupou-se pouco do futebol. Você vê alguma explicação para isso?

Há uma certa insistência muito recente no futebol como tema literário. Não sei se durará. Há por exemplo um romance de Esteban López Brusa, La yugoslava, e outro de Sergio Olguín, El equipo de los sueños. Mas é verdade que o tema do futebol não encontra a abundância que seria de se supor. Eu acredito que é difícil escapar de alguns atalhos que o tema impõe: um olhar populista sobre o mundo do futebol ou um olhar ternurista à figura do torcedor. E também talvez outra coisa: que os escritores tendem a escrever sobre as equipes das quais são torcedores. Então é mais difícil que abordem a situação da derrota (mas uma derrota sem épica nem salvação, a pura derrota, a pura desgraça). Eu mesmo não escreveria um romance onde o Boca Juniors perdesse. Não o faria. Poderia fazê-lo com uma derrota da Seleção Argentina, em Duas vezes junho, ou a derrota célebre de um boxeador argentino em Segundos afuera (Firpo em 1923: derrubou Jack Dempsey para fora do ringue, conseguiu essa façanha, mas depois perdeu a luta e não foi campeão. Esse destino de derrota, mas com a ilusão de vitória, contém para mim toda uma cifra da argentinidade). Pude escrever sobre derrotas argentinas porque meus sentimentos nacionalistas foram sendo mitigados ou até mesmo desativados de uma maneira quase cirúrgica ao longo destes anos. Quando vejo a Seleção Argentina jogar só me interesso pelos jogadores do Boca (agora: Abbondanzieri, Riquelme, Tévez) e se algum jogador do River faz um gol para a Seleção (Crespo, Saviola, Aimar) simplesmente não o comemoro. Posso escrever então sobre uma derrota argentina, mas não o faria sobre uma derrota do Boca. E escrever sobre as vitórias da própria equipe não me resulta literariamente interessante.

4. Há uma tradição na literatura argentina que culmina, digamos, em escritores como Juan José Saer, que vê na cultura de massas a esfera da banalização e da automatização. Outra tradição, com a qual se alinham escritores como Osvaldo Soriano, abraça a cultura de massas e faz dela seu material privilegiado. Estou correto se suponho que você embaralha um pouco essa oposição? Tanto em Duas vezes junho como em Segundos afuera, você trabalha com os materiais da cultura de massas, mas nota-se uma certa distância cética com respeito a ela. Você poderia nos falar um pouco disso?

Sim, você está certo. A antinomia entre “alta cultura” e “cultura de massas” é um tanto redutora, e também esquemática, e também simples em demasia, e também rígida demais; e no entanto, no meu ponto de vista, apesar do já dito, ela é substancialmente verdadeira. Acontece com os enfoques de Theodor Adorno: inclusive ali onde exagera, ali onde evidentemente não tem razão, diz entretanto uma verdade: tem razão. É claro que é um problema para a teoria cultural ver como se continua pensando depois de que alguém formulou uma crítica tão fechada e tão taxativa, e no entanto tão verdadeira. A anedota de que Adorno nem sequer atendia o telefone nas terças-feiras à noite porque estava assistindo Daktari na televisão, e não perdia um capítulo, nos dá um certo alívio. Mas acho que é basicamente certo que há na cultura de massas um fator poderoso de alienação e banalização. E também acredito que nos seus diálogos com a assim chamada alta cultura há mais mal-entendidos e distorção do que outra coisa, porque ali há duas lógicas alternativas que estão se chocando (e não dois modos culturais afins que estariam confluindo). É o que tentei expressar com os diálogos de Segundos afuera: os personagens dialogam, mas não se escutam. E se se escutam, não se entendem. E se se entendem, não se suportam.

Além do mais, uma evidência: Saer escreveu uma grande literatura e Osvaldo Soriano não.

5. Você tem também uma carreira como crítico e acadêmico, e no entanto não se nota nos seus romances a sobre-teorização que se vê na ficção de tantos críticos-escritores (penso aqui em Sartre como paradigma disso, mas há muitos outros; na Argentina poderíamos pensar em Ricardo Piglia). Eu gostaria de saber se você trabalha conscientemente com esse dilema, o de separar as duas vozes.

Não, eu não procuro nem fujo dos contatos entre o registro da crítica e o registro da ficção. Escrevo o que me ocorre da maneira que posso, não tenho o propósito definido de enlaçar esses dois discursos, mas tampouco o de cindi-los. Escreve-se basicamente a partir do que se leu, e minhas leituras provêm com freqüência do que faço como crítico literário. Uma vez escrevi um romance sobre San Martín, porque as leituras da tese de doutorado me haviam submerso nesse mundo (mas curiosamente ele não foi visto como um romance acadêmico, e sim como um romance de mercado, porque justamente então os romances históricos entraram na moda. Ou seja, nunca se sabe, a melhor coisa é desentender-se e escrever o que se quer escrever).

Além do mais, não é verdade que os universitários escrevamos para os universitários, como tendem a supor alguns escritores que, por estar fora do mundo universitário, imaginam – e se equivocam – que o que está ali dentro é um mundo de confrarias e cumplicidades. Em todos os lugares eles acreditam ver piscadelas e sub-entendidos que os excluem, mas são seus próprios complexos e sua própria paranóia que geram neles esse efeito.


6. Há um mini-boom de tradução de literatura argetina no Brasil, depois de muito tempo de ignorância completa. Escritores como você e Alan Pauls, que eu jamais imaginaria que fossem estar disponíveis para meus compatriotas, foram publicados em tradução. No caso de que haja algum editor lendo-nos, quais ficcionistas da sua geração você destacaria como fundamentais hoje?

Eu destacaria fundamentalmente Juan José Becerra e Gustavo Ferreyra.



  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post | Comentários (20)



quinta-feira, 08 de junho 2006

Sobre Duas Vezes Junho, de Martín Kohan

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¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.

Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico. O pano de fundo é a questão quase inimaginável: a tortura de crianças como forma de chantagem sobre os pais e o roubo e venda de bebês, extensamente praticados pela ditadura argentina.

A tarefa do recruta é achar o chefe, o “doutor” Mesiano, um dos responsáveis pelo horror, a quem ele é ligado também por laços de respeito e amizade. Precisa conseguir uma resposta para essa pergunta. E o chefe não está lá.

Aí entra o futebol. O chefe foi ao jogo. É a noite da partida entre Argentina e Itália, vencida pela Itália por 1 x 0. Engenhosamente, Kohan toma a euforia pela Copa do Mundo mas escolhe o único dia de derrota da seleção. Faz dessa derrota “o momento de verdade” mascarado pelo patriotismo triunfante que o esporte ofereceu, a calhar, à ditadura dos militares.

Para esquecer a derrota, vão uma noitada com mulheres, durante a qual conhecemos Sergio Mesiano, filho do chefe, quase um pateta. Não sabe dizer ao recruta o que aconteceu no jogo, porque não entende o futebol. Depois da noitada, viaja mordendo os lábios no carro, como se algo estivesse errado. Vão a Quilmes, cidade da província de Buenos Aires, onde se decidirá quem terá direito ao próximo bebê roubado.

O encontro entre o “doutor” Mesiano e o “doutor” Padilla (o que havia telefonado para fazer a pergunta) nos dá a chave do acontecido. Uma mulher, ao fundo, grita, pede ajuda. Acaba de dar à luz. Está à beira da morte, como resultado da tortura. Mas tudo isso chega a nós sem sentimentalismo, sem arroubos retóricos, sem tom de denúncia. Chega quase como um fato banal porque, afinal, percebemos o horror pelos olhos do cúmplice.

Corte, flash forward. Quatro anos mais tarde, também em junho, o recruta lê uma lista em que aparecem os mortos na guerra das Malvinas. Encontra o nome de Sergio Mesiano. A ironia é atroz: provavelmente morreu numa ilha que ele não saberia localizar num mapa. O ex-recruta, agora estudante de medicina visita seu antigo patrão, recebe o recado de que ele está na casa da irmã, num churrasco. Parte para lá e vê o garoto, “Antonio”, o bebê roubado. A mulher dá cantadas baratas no recruta, avisa que o marido viaja muito. O “doutor” Mesiano avisa que se aproximam tempos difíceis: ele já percebe que a ditadura tem seus dias contados. Também é dia de jogo contra a Itália, pela Copa de 1982, na Espanha. Outra derrota argentina.

Depois do abraço de despedida no ex-patrão o recruta sai, liga o rádio do carro e observa que não consegue se lembrar bem dos seus sonhos. Fim da história.

A literatura argentina dos anos 80 e 90 foi rica em romances sobre o descalabro vivido pelo país entre 1976 e 1983. O regime militar argentino matou ou “desapareceu” mais de 20.000 pessoas em sete anos, cifra que faz a ditadura de Médici parecer brincadeira de criança. Mas a maioria dos textos argentinos sobre o período foram grandes máquinas alegóricas ou relatos testimoniais verborrágicos, retóricos, indignados.

Kohan faz algo que nunca se havia feito: coloca a voz narrativa na boca de um recruta, um cúmplice que não é um ideólogo, mas um subalterno. Eu me apaixonei por esse livro porque ele trabalha tão bem essa voz, a do subalterno. Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade.

A forma do romance é coerente com a escolha da voz: são pequenos parágrafos com frases curtas, secas. Há toda uma poética, uma estética anti-sentimental e poderosamente política nesse livro. O recurso ao futebol, apesar de revelar o seu papel como mascaramento patrioteiro dos horrores da ditadura, não repete o surrado clichê do “esporte como ópio do povo”. Pelo contrário: é ali, no momento de derrota futebolística, que a verdade suja da sociedade se faz visível ao leitor.

Enfim, fiquei fã do autor. E aproveito este post para parabenizar a Amauta pela iniciativa e o tradutor e editor Marcelo Barbão, por disponibilizar ao público brasileiro esse texto tão poderoso, vindo do país que produz uma das mais ricas literaturas do mundo.

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

E quero saber, claro, o que vocês acharam do livro. Digam lá.

Atualização: Amanhã estará no ar a entrevista com Martín Kohan.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (40)



segunda-feira, 05 de junho 2006

Aberta a temporada de caça ao escritor austríaco Peter Handke

(o post é bem longo, mas peço uma leitura atenta. O assunto é muito importante)

handke.jpgNo dia 18 de março deste ano, o escritor austríaco Peter Handke, um dos maiores ficcionistas e dramaturgos da história da literatura em língua alemã, compareceu ao enterro de Slobodan Milosevic, em Pozarevac, Sérvia. No dia 06 de abril, uma certa Ruth Vicentini publicou, na revista francesa Nouvel Observateur, uma nota em que ela diz que o escritor austríaco, ao lado de 20.000 “fanáticos”, havia “tremulado a bandeira sérvia”, se referido aos sérvios como “as verdadeiras vítimas da guerra”, “defendido o massacre de Srebrenica”, “depositado flores no carro fúnebre de Milosevic” e, finalmente, designado Milosevic como “um homem que defendeu o seu povo”.

O que acontece é que todas as afirmações acima, feitas na nota de Vicentini, eram falsas. E daí? dirão vocês, foi só o Nouvel Observateur tendo o seu dia de Veja. Mas é que a história só está começando.

A partir da nota publicada na revista, Marcel Bozonnet, diretor da Comédie Française, decide cancelar a temporada da obra teatral de Handke já programada pela instituição. Uma enxurrada de linchamentos ao “defensor do genocida Milosevic” começa a circular em toda a imprensa européia: em inglês, em francês, em alemão, em espanhol. Handke havia recebido o prêmio Henrich Heine, talvez o mais importante das letras alemãs. Logo depois do artigo calunioso e do linchamento que se seguiu, teve início o processo – ainda em curso – de confisco do prêmio.

Imediatamente depois da publicação das mentiras de Vicentini, o escritor austríaco escreveu uma carta ao Nouvel Observateur, em que ele detalhava o que era falso no artigo e citava textualmente o conteúdo do seu discurso no enterro de Milosevic. Mais de três semanas depois a revista ainda não a havia publicado, nem se retratado pelo erro. Só o fez quando um grupo de intelectuais europeus escreveu uma carta aberta à revista, em solidariedade a Handke. A revista finalmente publicou a missiva de Handke, justificando-se com o argumento de que “a pessoa responsável pela correspondência dos leitores estava de férias”.

O que foi, finalmente, que disse Handke no enterro de Milosevic? Handke domina perfeitamente o servo-croata e nessa língua discursou. Ele mesmo traduziu o discurso ao francês para a revista. Traduzido por mim do francês ao português, o texto é este:

O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre a Iugoslávia, a Sérvia. O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre Slobodan Milosevic. O assim chamado mundo sabe a verdade. Por isso, o assim chamado o mundo está hoje ausente, e não somente hoje e não somente aqui. Eu sei que não sei. Não sei a verdade. Mas olho. Ouço. Sinto. Recordo-me. Por isso estou hoje presente, perto da Iugoslávia, perto da Sérvia, perto de Slobodan Milosevic.

Qualquer que seja a sua opinião sobre a guerra nos Balcãs e sobre a extensa produção escrita de Handke sobre ela, o texto está a quilômetros de distância do “defensor de massacres” que neste momento sofre o linchamento nas mãos da Europa bem-pensante. A própria revista assim o reconheceu, ao publicar a correção de Handke sem reparos, infelizmente só depois que o dano já havia sido feito e a calúnia tivesse dado três voltas ao redor do planeta.

Até chegar em Pindorama. No blog Todo Prosa, Sérgio Rodrigues publicou no último dia 03 um post em que dizia:

A vida do escritor austríaco Peter Handke piorou muito desde que ele compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, em março, e fez um emocionado discurso de adeus ao ex-ditador sérvio, o último grande genocida de um século rico nesse gênero.

O post atribuía a Handke a afirmação de que Milosevic foi “um defensor do seu povo”, quase um mês depois dessa afirmação ter sido desvelada como uma calúnia na própria revista que originalmente o publicou. Tudo bem, todo mundo erra. Conto a história para que se veja como se fazem e se destroem reputações, e como nossas “democracias” vilificam e lincham com a mesma facilidade com que pressupõem que a censura é exclusividade de comunistas, fundamentalistas islâmicos e outros bichos estranhos.

Desde então, e seguindo-se a um comentário que eu publiquei lá (e que é uma versão resumida da história relatada acima), a falsa atribuição de citação foi felizmente removida do post, infelizmente sem que se seguisse a ética blogueira de que, quando se altera um post ao qual os leitores já responderam, indica-se no corpo do post qual foi a alteração feita. Ou seja, como está, para que você saiba qual foi o post publicado no dia 03 você tem que ler a caixa de comentários.

Seguindo-se ao meu comentário, o Sérgio me ofereceu uma resposta da qual eu cito os três primeiros tópicos em itálicos. Intercalo minhas tréplicas:

1.Agradeço a informação sobre a notícia sensacionalista do Nouvel Observateur e lamento ter dado curso à frase sobre o “defensor de seu povo” - de todos (sic) as “calúnias” citadas no comentário, a única que veio parar neste blog. Como não tenho compromisso com o erro, já retirei a frase da nota. Não faz a menor falta.

De nada. Com certeza, uma falsa atribuição de citação não faz a menor falta num blog da qualidade do Todo Prosa. Lamento que, mesmo sabendo o que afirmação provocou na Europa, o colunista ainda prefira manter a palavra calúnia entre aspas. Também lamento que a retirada da frase não tenha seguido a ética blogueira de que se altera um post indicando no corpo do post qual a alteração feita. Parecem bobagem, mas não é. 20 leitores responderam a um post que não é o que está lá. Nesses casos, transparência é tudo.

2. As fontes que deram curso à tal frase são muitas, da agência alemã Deutsch Welle (sic) ao jornal The Guardian, para citar apenas duas acima de qualquer suspeita. O Yahoo foi linkado aqui porque trazia um resumo mais amplo da história.

Sérgio tem toda a razão que tanto Deutsche Welle como o Guardian reproduziram a calúnia da nota de Vicentini. O que só prova que há que se suspeitar de todas as fontes secundárias, incluídas as que estão “acima de qualquer suspeita”. Neste caso, claro, a fonte primária era o Nouvel Observateur, onde a calúnia já tinha sido exposta há quase um mês.

3. A frase é, obviamente, secundária. O comparecimento ao velório de um genocida de carteirinha fala por si - e lamento informar a Idelber e Curiango que esse atributo de Milosevic está longe de ser uma questão histórica aberta, infelizmente.

Em qualquer falsa atribuição de citação, a frase nunca é secundária. A frase “secundária” é parte de um amontoado de mentiras que provocaram considerável dano à reputação e à carreira de um dos maiores escritores contemporâneos. Secundária?

Quanto à “informação”, agradeço. Talvez o Sérgio devesse dá-la também aos especialistas em história dos Balcãs, nenhum dos quais usa a expressão “genocida de carteirinha” assim com tanta confiança. Talvez devesse dá-la à Comissão Internacional de Direitos Humanos que investigou a guerra nos Balcãs e explicitamente excluiu a palavra “genocídio” de seu relatório. É o especialista William A. Schabas que afirma, no livro Genocide and International Law (Cambridge University Press, 2000): “quando ficou claro que o líder iugoslavo Slobodan Milosevic pretendia expulsar os Kosovars do território, e não destruí-los fisicamente, as referências a genocídio declinaram. Uma resolução adotada pela Comissão de Direitos Humanos no fim de abril de 1999 descrevia a realização de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas não mencionava genocídio. Quando foi ouvido o pedido da Iugoslávia de medidas provisórias contra os estados da OTAN no começo de maio de 1999, os estados qualificaram as ações em Kosovo como limpeza étnica, não genocídio. Pelo Tribunal de Crimes Internacionais . . . Milosevic não foi acusado de genocídio" (página 500).

Como se vê, a afirmação de que está longe de ser uma questão historicamente aberta que Milosevic foi um “genocida de carteirinha” está tão equivocada como a citação atribuída a Handke e originalmente presente no post. Isso não quer dizer que não tenham ocorrido massacres e crimes: o massacre de Srebrenica feito pelos sérvios, o massacre croata em Krajina, massacres contra a minoria sérvia pelo Exército de Libertação de Kosovo. Simplesmente quer dizer que a palavra “genocídio” deve ser usada com cuidado, ou ela perderá a credibilidade. E que a guerra dos Balcãs está longe de ser um conflito em que há um lado “genocida” e um lado “inocente”. Esta caracterização, presente ainda na mídia, tem atendido interesses que não são os de estabelecimento da verdade.

É só isso que Handke tem dito, desde os anos 90.

Quanto à conclusão do post do Sérgio,

Continuo achando difícil conciliar o autor de “Asas do desejo” e o exaltador de Milosevic na mesma pessoa,

eu deixo o desafio de que ele me aponte uma única linha escrita por Peter Handke que possa ser interpretada como de “exaltação” a Milosevic. Já adianto que nem em Ein Wortland. Eine Reise durch Kärnten, Slowenien, Friaul, Istrien und Dalmatien nem tampouco em Unter Tränen fragend. Nachträgliche Aufzeichnungen von zwei Jugoslawien-Durchquerungen im Krieg, März und April 1999, os dois livros de Handke sobre os Balcãs, ele não a encontrará.

Por isso eu sempre achei que a defesa do direito de expressão, o direito de opinião, é sempre, por definição, o direito de ter qualquer opinião, até a aparentemente mais repugnante. Esse direito é como a virgindade: ou você tem ou não tem. Não há meio termo. E esse direito está sendo, no momento, tirado de um grande escritor contemporâneo, com censura, cancelamentos, confisco de prêmios e um linchamento nas mãos dos bem-pensantes.

Por isso acabo de assinar a carta dos acadêmicos norte-americanos em apoio a Peter Handke. Não há meio termo: toda a solidariedade a Handke.



  Escrito por Idelber às 05:11 | link para este post | Comentários (41)



terça-feira, 30 de maio 2006

Lembrete: Duas Vezes Junho

Eu comecei a reler Duas vezes junho. Já tinha me esquecido de quanto eu gosto desse romance.

Novidades para o Clube de Leitura:

1. Troquei emails com o autor do livro, Martín Kohan. Amabilíssimo, se dispôs a me conceder uma entrevista e acompanhar as discussões aqui no blog. Preferem que eu publique a entrevista antes da discussão ou depois, para não interferir ou influenciar na leitura? Em tempo: há boas entrevistas com Martín Kohan aqui e aqui.

2. Quem me escreveu também foi o Marcelo Barbão, tradutor do livro ao português e editor na pioneira Amauta. Dei-lhe os parabéns pelo desbravador trabalho de tradução de literatura hispano-americana que a editora tem feito, mas de todas formas aqui vai o reconhecimento público. A Amauta está fazendo o que já clamava por ser feito: possibilitar ao público leitor brasileiro um mínimo de contato com a riquíssima literatura dos países vizinhos. Portanto, quem for criticar a tradução do romance de Kohan, faça-o com elegância. O tradutor está olhando :-)

3. O grande Mauro Amaral fez, não um, mas dois selinhos para o Clube. Tem uma versão dark e uma versão colorida. O permalink aos posts relacionados ao Clube já está embutido. Usem a que preferirem:

selinho2_idelba.jpg


selinho_idelba.jpg
.

Muitíssimo obrigado, Mauro!

Então, só para confirmar: a data da discussão é 8 de junho, véspera da abertura da Copa. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Quem preferir ler o original em castelhano pode adquiri-lo na Prometeo ou na Cúspide (dicas do Alex Castro), ou na Bigger Books, que entrega aqui nos EUA (dica do Fábio Sampaio).

Antes do dia da discussão, vou fazer um contato com alguns blogs argentinos, para que eles venham aqui participar da brincadeira ou repercutam lá nos seus blogs.

E aí, quem já adquiriu, encomendou ou começou a ler o livro?

PS. Excelente blog uruguaio: Criticar es fácil.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (30)



sexta-feira, 26 de maio 2006

Decidido: Calendário do Clube de Leituras

Ok, depois de ouvir todo mundo e ponderar os prazos para o nosso Clube de Leituras, proponho o seguinte:

Discutiremos, sim, Grande Sertão: Veredas, mas em meados de julho, depois da Copa. Comecem a ler desde já, porque a jornada é longa.

Para esquentar os tamborins deixamos marcada para 8 de junho, quinta-feira (daqui a 14 dias) uma discussão sobre Duas vezes junho, de Martín Kohan. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Este romance é uma publicação da Editora Amauta e custa só 25 reais.

Eu acho que vocês vão gostar. E é apropriadíssimo que o discutamos na véspera da abertura da Copa, já que a história tem lugar durante as Copas de 1978 e 1982. Quem não gosta de futebol, não se preocupe: não é um romance sobre futebol, necessariamente.

Até o dia 08 de junho eu acho que posso conseguir uma entrevista com o autor e quem sabe até convencê-lo a aparecer por aqui.

Agora só precisamos de um selinho para o Clube. Eu já contactei o Mauro, mas ainda não tive resposta. Se alguém se animar e fizer o selinho primeiro, a gente usa.

Então, dia 8 de junho, aqui no Biscoito, Duas vezes junho, disponível na Cultura e na Saraiva.

Conto com todo mundo para encomendar o livro, começar a ler e ajudar a divulgar? Tudo bem assim?



  Escrito por Idelber às 16:43 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 25 de maio 2006

Sobre o clube

Vários amigos passaram por aqui e toparam a idéia do clube de leituras.

O livro mais votado foi Grande Sertão: Veredas. Para mim não seria problema, é um romance que eu já li umas quatro vezes.

Mas estou em dúvidas sobre se conseguiríamos mesmo encarar esse livro em véspera de Copa do Mundo. A minha idéia inicial era decidir e aí dar duas semanas para que todos lessem o livro.

Mas com GSV, claro, seria necessário mais tempo, o que nos coloca já dentro da Copa.

Outras sugestões que rolaram: A cidade ausente, de Ricardo Piglia; Zama, de Antonio di Benedetto; Wasabi, de Alan Pauls; Duas vezes junho, de Martín Kohan; Um artista aprendiz, de Autran Dourado; Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.

Tirando este último, todos os outros são livros relativamente curtos.

Ponderem o que eu disse aí sobre os prazos, a dificuldade do texto, e tudo mais, e aí me digam: com qual ficamos?



  Escrito por Idelber às 23:57 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 24 de maio 2006

Enquete sobre um possível clube de leituras

Um dos planos meus é falar mais de literatura aqui no blog, então eu queria deixar uma perguntinha. Suponhamos que decidíssemos montar um grupo de leitura no Biscoito, nos moldes do clube que o Alex Castro montou uma vez, e que foi muito bem-sucedido na primeira discussão (Crime e Castigo).

Qual obra literária, brasileira ou estrangeira, antiga ou contemporânea, você gostaria de ler e discutir comigo e com os outros leitores?

Não vale nada de mais de 400 páginas, porque já se viu que se o livro for longo demais não funciona. Pode ser algo que você já leu e gostaria de discutir, ou algo que não leu e tem vontade de ler.

É isso. Quem sabe a gente não começa a ler umas coisas juntos. Digam lá.

PS: Parabéns, parabéns, parabéns às Duas Fridas pelo segundo aniversário do blog! A festa é neste 27 de maio, sábado, aí na Cidade Maravilhosa. Se quiser ir, escreva para a Monix ou a Helê.



  Escrito por Idelber às 22:56 | link para este post | Comentários (31)




Literatura : Contra os Chatos e Passadistas de Plantão

Alguns comentários a esse post do Pedro Dória sobre o Sexo Anal, o romance do Biajoni, me fizeram voltar a sentir pena de um tipo de leitor: o que diz que não pode / não tem tempo de / disposição para ler . . . (preencha aqui com o nome de qualquer autor contemporâneo, iniciante ou veterano) porque afinal de contas deve usar seu tempo para ler . . . (preencha aqui com o nome do seu monstro sagrado favorito).

Sendo a leitura por definição o encontro com o outro, com o não conhecido, em geral quem diz isso ainda não aprendeu a ler, no sentido mais básico da palavra. Ou seja, esse tipo de leitor lê somente para validar um cânone sacralizado que ele, de antemão, sabe que tem que reverenciar. Na atividade que é por definição encontro com o outro, ele vai lá e insiste em procurar o mesmo. É o leitor que vai morrer resmungando e infeliz.

Esse tipo de leitor é primo primeiro de um certo "jornalismo" que proclama que já não há romances bons, que não há escritores como antigamente, ou que na língua portuguesa não há boa literatura como em outras. Esses profetas do apocalipse em geral leram pouco, manejam poucas línguas ou são monolíngües e, ao invés de compensar as limitações de formação com mais leituras, fazem-no com julgamentos peremptórios que lhes dão a falsa sensação de conforto: controlar um pouco a angústia ante o não lido.

São os que na época de Shakespeare diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Homero, e na época de Balzac diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Shakespeare e na época de Faulkner diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Balzac. São os mesmos que hoje dizem que já não há escritores como Faulkner, em geral tendo lido uma parcela ínfima da produção contemporânea.

homer.jpg Homero: contemporâneo da idéia de que a boa literatura se escrevia mesmo era antigamente.

Há 30 anos eles diziam que Luiz Vilela e Ivan Ângelo, escritores de certo sucesso nos anos 70, não poderiam jamais serem comparados com Graciliano Ramos. E talvez não se comparem mesmo. O problema é que enquanto esses apressados comentaristas perdiam tempo proclamando isso, esqueciam-se de ler Catatau, de Paulo Leminski, ou Armadilha para Lamartine, de Carlos Süssekind, os dois mais inovadores e complexos romances brasileiros da segunda metade dos 70. E continuam pecando por miopia até hoje, preocupados que estão em demonstrar que tudo é decadência.

No terreno da literatura, juízos de valor sobre períodos inteiros da história são bem difíceis de se fazer. Desconfie dos que o fazem com muita facilidade. Talvez hoje seja relativamente seguro dizer que a década de 1930 foi mais fértil para o romance brasileiro que a década de 1910, por exemplo. Mas nem isso é tão certo assim, porque quem saberá do vasto terreno dos livros jamais reeditados, dos textos esquecidos que podem de repente aflorar?

No caso do presente, nem se fala. Dizer que “hoje não há escritores da qualidade de um Graciliano”, como se lê às vezes em certo comentarismo literário de nível superficial, é uma bobagem sem tamanho. “Graciliano”, como assinatura e nome de uma obra, é o que é depois de décadas de presença no cânone, circulação, recepção, sacralização. Por definição não pode haver um autor contemporâneo “como” Graciliano.

Isso não significa que hoje não se escreva literatura da mesma qualidade que nos anos 30: simplesmente quer dizer que o que se considerará “boa literatura” neste momento ainda é terreno a ser delimitado. Se a partir de Mário e Oswald de Andrade o romance modernista privilegiou um tipo de texto paródico e lúdico, e depois com Graciliano e José Lins do Rego se voltou para uma veia regional e realista, e depois com Clarice e Lúcio Cardoso transformou-se em investigação psicológica e introspecção, e depois com José J. Veiga e Antonio Callado converteu-se em alegoria nacional, o fato é que hoje ainda está em pugna qual será a vertente dominante do romance.

E o pior tipo de leitor é o que se recusa a influir nos rumos dessa pugna em nome de uma segurança bobinha, de que antes as coisas eram melhores e que agora já não há mais nada.

Por isso, leia Homero e leia Sexo Anal. Leia Um defeito de cor nos intervalos do seu Shakespeare. Intercale Stevenson com Mãos de cavalo. Ou vice-versa. Não faz mal nenhum.

A literatura agradece.

PS bem a propósito: a primeira ocorrência registrada da frase "já não se faz samba como antigamente" é do livro Na roda de samba, do jornalista e cronista Vagalume. Data de publicação do livro? 1933.



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (32)



sexta-feira, 12 de maio 2006

É hoje!

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PS: Gracias muy mucho a quem ajudou a divulgar: o Carlos Herculano Lopes do Estado de Minas, o Alécio Cunha do Hoje em dia, o Inagaki, a Meguita, Biajoni, Tiago Dória, Alê Félix, Sérgio Rodrigues (que fez nota e entrevista com Ana), o Prás Cabeças, o Odisséia Literária, o Alfarrábio, as Motherns, o Amigos blogueiros, o Contando Causos, o Nanbiquara.



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domingo, 07 de maio 2006

Lançamento Nacional: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

A Editora Record e a Livraria Quixote convidam para o lançamento de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves:

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Ele acontece nesta sexta-feira, em Belo Horizonte, na livraria Quixote - Fernandes Tourinho, 274 - a partir das 19:30.

Para dizer quão extraordinário, inventivo, indispensável é Um defeito de cor, eu sou suspeito, mas digamos: é a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro, e é muito mais que isso. São umas 1.000 páginas, uns 400 e tantos personagens, 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e uma voz alinhavando tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama.

Kehinde nasceu no reino do Daomé, em 1810 e a cena antiga, primordial da qual se lembra é traumática. Abre o livro. Revelar, numa resenha, o que acontece nas primeiras 10 páginas deste livro seria um pecado comparável a revelar o final do melhor thriller. Ela foi violada, foi escrava, foi mãe; foi também preta liberta, pequena capitalista, refugiada, mulher de inglês, dona de padaria, revoltosa com os muçurumins da Bahia de 1835, libertadora de outros pretos, brasileira de volta na África. Ela é o Riobaldo-Diadorim dos subterrâneos da história brasileira do século XIX. Ana contou essa história.

Já menina, Kehinde falava eve, fon e iorubá. Como La Malinche, ela é poliglota e tradutora já na chegada do colonizador. É vendida como escrava ao Brasil, passa por várias cidades – Ilha de Itaparica, Salvador, Maranhão, Recôncavo (Cachoeira), Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Campinas, Salvador, e depois de volta à África, em Uidá e Lagos. Não é uma personagem que caiba em qualquer dicotomia. Assim como Kahinde pode ser Luiza Mahin, o você que escuta a história, filho de Kehinde, pode ou não estar lá, ela pode ou não voltar a revê-lo, ele pode ou não estar vivo: ele é o Omotunde, que nasce na página 400 e tantos – filho que tem Kahinde com Alberto, homem português.

Ele? Não um homem especial; apenas um dos muitos que ela teve, portugueses, pretos ou ingleses, assim como o você fantasmático que escuta a história não é o único filho, é um entre muitos. Outro filho importante é o Banjokô, filho que morre, fio condutor de todo um outro conto. Um defeito de cor é a história dessas muitas, várias maternidades, no seu entrelaçamento com a vasta história dos pretos no Brasil.

romance.jpg Era bem possível que você não se lembrasse de mim, por ter me visto havia mais de dez anos, e eu tinha medo de também não te reconhecer, um rapaz já tão diferente da criança de que eu me lembrava. Durante todos aqueles anos, e principalmente a cada vez que eu achava estar perto de te encontrar, isso era uma grande tortura para mim, tentar imaginar o seu rosto e saber que eu não conheci a maioria das fisionomias que ele teve, não vi nenhuma das modificações causadas pelo tempo. Certa vez comentei isso em uma carta para a Sinhazinha e ela disse que era uma boa coisa, que eu sempre me lembraria de você criança, o que ela não conseguia fazer em relação a nenhuma das filhas, sem se valer dos quadros. Talvez essa seja mesmo a única coisa boa, pois, para mim, você sempre teve sete anos, sempre teve olhos que me seguiam com carinho e atenção, sempre teve o sorriso que eu não vi falhar mesmo quando teve motivo. Como disse a Sinhazinha, a memória é mesmo o melhor retratista.

Capitão Gravatá leu o romance em manuscrito. Mas a primeira que escutou a história, antes que ela virasse palavra escrita, foi Meg Guimarães. Millôr, que já leu alguns livros, diz na orelha que ele está “entre os melhores que li em nossa bela língua eslava”. Imaginem um romance que chega recomendado assim.

Ele, o livro, decidiu que eu seria a quinta ou sexta pessoa a lê-lo, depois de Gravatá, Millôr, Hélia, Andressa: e o mínimo que posso dizer é que quando devorei as 800 páginas do manuscrito original (que viraram 947 no volume da Record), não tive dúvidas que Um defeito de cor está no mesmo nível de Quarup, de Antonio Callado, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, Catatau, de Paulo Leminski, e Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, todos eles um par de degraus abaixo do romanção-mor das nossas letras (o Sertão de Rosa): ou seja, Ana escreveu um dos cinco grandes romanções-cosmogonias da última metade de século na literatura brasileira, no mínimo.

Que algum futuro leitor desminta a mim e ao Millôr.

Ao contrário desses outros 4 romanções-saga pós-Grande Sertão, masculinos até os ossos, Um defeito de cor se organiza a partir da experiência de uma mulher. Atravessa 8 décadas de história do Brasil e da África, narra a grande rebelião negra do século XIX brasileiro, a Revolta dos Malês, na Salvador de 1835, além de mil outros momentos da história do Brasil e do Atlântico Negro do século XIX, que farão a delícia de historiadores e cientistas políticos que lerão o romance. Mas a essência desse livro está mais além de qualquer sociologia ou historiografia.

Aos nossos vários, muitos amigos blogueiros de Belo Horizonte, deixamos o convite para o lançamento. Nesta sexta, às 7:30, na Quixote Savassi. Rio e São Paulo vêm depois.



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quinta-feira, 24 de novembro 2005

Reflexões sobre o Conto

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(este é um post antigo, dos primordios do blog, e foi utilizado para uma aula "virtual" aos alunos de Cipy Lopes em Salvador. Vai aí republicado, com poucas alterações, pois acho que pouca gente o conhece).

Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa. Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas qual é a essência do conto como forma?

Tomemos o microconto mais ilustre, o do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.
* *

O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar das parcas oito palavras, é a presença de duas temporalidades: a do cochilo do cara e a do dinossauro ainda estando lá.
* *

O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: um conto sempre conta duas histórias. As diferentes épocas escolhem diversas formas de relacionar as duas histórias.

Para exemplificar, tome-se uma anotação do contista e dramaturgo russo Tchekhov: um sujeito chega numa cidade, instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta ao hotel e se suicida. Aí você tem um conto porque normal seria o cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar-se, mas ganhar e depois suicidar-se é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois bem, o que é um conto do século XIX?

O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos, tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a narrativa policial, a narrativa de horror e a ficção científica.

Um conto do século XIX relata a história da viagem, mudança, instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais de forma a dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio. Há uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).

O bom contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a história 2 que vai explodir no final. O bom leitor é aquele que aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história 1. Esse é o jogo gato-e-rato da literatura do século XIX. Autores e leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.

O que é um conto do século XX? É um relato em que a história 2 (a secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que faria o escritor moderno com a anedota de Tchekhov?

James Joyce narraria a história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chegasse a história do suicídio você já nem ligaria que o cara está se suicidando. Destruição total do efeito catártico.

Hemingway simplesmente não te contaria que o cara suicidou. Daria alguma pista, mas no mais, contaria o conto da viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar. Você terminaria o relato com cara de “Que porra é essa?” porque você poderia até não ter entendido que o sujeito se suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.

Kafka é o mais incrível, ele inverteria a história 1 com a 2. Contaria a história da morte como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O horror seria totalmente transferido para a história 1 – a partida para o hotel – narrada de forma terrorífica e ameaçadora.

Jorge Luis Borges contaria a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo seria tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontraria no suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.

Há outras mil variantes, claro.

No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2 é Machado de Assis. Muitos conhecem Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas, seus romances famosos. Mas a arte inigualável de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só conferir Papéis Avulsos ou Histórias sem Data.

A melhor contística do mundo, para mim, é a da Argentina, infelizmente ainda pouco traduzida entre nós.



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sexta-feira, 04 de novembro 2005

Sobre um conto de Jorge Luis Borges

Fred Murdock era daqueles jovens típicos. Estudantes típicos. Gringo. As más línguas poderiam dizer: tipicamente gringo. Em dúvida sobre o que estudar, recebe a dica: por que não estudar índio? Joga-se à empreitada e passa a viver entre os índios; com o tempo, passa a sonhar em sua língua. Revelam-lhe o segredo da tribo. Converte-se no índio perfeito, antes de voltar à sua universidade para escrever a tese, baseada no invejável conhecimento adquirido. Decide não escrever a tese. Casa, se divorcia e vira bibliotecário.

Este é o argumento de um dos mais curtinhos e fascinantes contos de Jorge Luis Borges, "O Etnógrafo", do livro Elogio da Sombra (1969). Para quem tiver paciência, saiu publicada no último número da Germina minha leitura desse conto: "Borges, a Antropologia e a Escrita do Outro."

Parece que resolveram fazer a incrível burrice de me oferecer uma coluna fixa na Germina e eu, honrado, acabei aceitando. É uma coluna bimestral e a próxima sai em dezembro. Obrigado a Lucia Farias e a toda a turma de lá pelo convite.

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Eu já li e recomendo o delicioso Nome da Cousa, de Fal Azevedo. Já encomendável no email aí de cima.

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Está saindo e o lançamento é em Porto Alegre:

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O lançamento do livro de contos do Blog de Papel (São Paulo: Ed. Gênese, 2005) acontece neste dia 12 de Novembro na Feira do Livro de Porto Alegre:

Tarde de Autógrafos, às 15h30, no Memorial do RS com o André Dahmer (Malvados) e com Alê Felix, Milton Ribeiro, Ticcia Antoniete, Ane Aguirre, alguns dos autores representados no livro.

Às 16h30, na sala O Retrato do Centro Cultural Érico Veríssimo, haverá uma mesa de bate-papo sobre Literatura e Internet com a participação do Dahmer, os autores do Blog de Papel e mediação do escritor Armindo Trevisan.

Dia 19 de Novembro rola o lançamento paulistano, na Primavera dos Livros - OCA/Parque do Ibirapuera, se não me engano com a presença de todos os 14 autores.

Foi uma alegria escrever o prefácio desse livro de contos de tantas feras-blogueiras. Obrigado à Alê Felix pelo convite e espero que os autores tenham gostado dos meus dois centavos de tagarelice na primeira página. O livro é muito supimpa, vale a pena.

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Hoje revisitei um poema assombroso: um petardo feminista em pleno século XVII, nas redondilhas barrocas da mexicana Sor Juana Inés de la Cruz.



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sexta-feira, 22 de julho 2005

O Mensalão e a Literatura

(eu preparava um post "sério" sobre o mensalão. Desisti quando chegou, via listserve Fórum Musical, esta verdadeira aula de literatura. O texto já chegou ao listserve apócrifo; se alguém souber quem é o autor, favor entrar em contato)

Atualização: O texto é de Reinaldo Azevedo, embora já esteja circulando com acréscimos. Muito obrigado, Edson!


À moda Haicai:
"Cueca e dinheiro,
o outono da ideologia
do vil companheiro."

À moda Machado de Assis:
"Foi petista por 25 anos e 100 mil dólares na cueca"

À moda Dalton Trevisan:
"PT. Cem mil. Cueca. Acabou."

À moda concretista:
"PT
cueca
cu
PT
eca
peteca
te
peca
cloaca".

À moda Graciliano Ramos:
"Parecia padecer de um desconforto moral. Eram os dólares a lhe pressionar os testículos".

À moda Rimbaud:
"Prendi os dólares na cueca, e vinte e cinco anos de rutilantes empulhações cegaram-me os olhos, mas não o raio-x."

À moda Álvaro de Campos:
"Os dólares estão em mim
já não me sou
mesmo sendo o que estava destinado a ser
nunca fui senão isto: um estelionato moral
na cueca das idéias vãs."

À moda Drummond:
"Tinha um raio-x no meio do caminho,
e agora José?"

À moda Proust:
"Acabrunhado com todas aquelas denúncias e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como os últimos, juntei os dólares e elevei-os à cueca. Mas no mesmo instante em que aquelas cédulas tocaram a minha pele, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o fazem a ideologia e o poder, enchendo-me de uma preciosa essência."

À moda Kafka
:
"Naquela manhã, K. acordara com os testículos embrulhados num gigantesco maço de notas novas."

À moda James Joyce:
"Aquele que se aproxima é o raio x... Lendo duas páginas por noite termino semana que vem... Por que me olha a funcionária dessa forma? Ninfomaníaca... O carpete granulado desaparecera sob seus pés, a esteira rolava a conduzí-lo, sabe-se lá para onde. Termino a leitura no avião. Me coçam as bolas, me embrulham essas folhas retangulares de cor-sem-cor em tom pastel... Caso morra, é preciso enviar cópias a todas as bibliotecas do mundo, inclusive Alexandria. Ela é maníaca, não bastava me olhar assim, com esses olhos, e agora me quer tocar assim, com essas mãos, vai me conduzir à sala vip... o que fazer com ela? Se eu mijasse destruía as cédulas?"

À moda TS Eliot:
"Que dólares são estes que se agarram a esta imundície pelancosa?
Filhos da mãe! Não podem dizer! Nem mesmo estimam
O mal porque conhecem não mais do que um tanto de idéias fraturadas,
batidas pelo tempo.
E as verdades mortas já não mais os abrigam nem consolam."

À moda Lispector:
"Guardei os dólares na cueca e senti o prazer terrível da traição. Não a traição aos meus pares, que estávamos juntos, mas a séculos de uma crença que eu sempre soube estúpida, embora apaixonante. Sentia-me ao mesmo tempo santo e vagabundo, mártir de uma causa e seu mais sujo servidor, nota a nota".

À moda Lênin:
"Não escondemos dólares na cueca, antes afrontamos os fariseus da social-democracia. Recorrer aos métodos que a hipocrisia burguesa criminaliza não é, pois, crime, mas ato de resistência e fratura revolucionária. Não há bandidos quando é a ordem burguesa que está sendo derribada. Robespierre não cortava cabeças, mas irrigava futuros com o sangue da reação. Assim faremos nós: o dólar na cueca é uma arma que temos contra os inimigos do povo. Não usá-la é fazer o jogo dos que querem deter a revolução. Usá-la é dever indeclinável de todo revolucionário."

À moda Stalin:
"Guarda a grana e passa fogo na cambada!"

À moda Gilberto Gil:
"Se a cueca fosse verde como as notas, teríamos resgatado o sentido de brasilidade impregnado nas cores diáfanas de nosso pendão, numa sinergia caótica com o mundo das tecnologias e dos raios que, diferentemente dos da baianidade, não são de sol nem das luzes dos orixás, mas de um aparelho apenas, aleatoriamente colocado ali, naquele momento, conformando uma quase coincidência entre a cultura do levar e trazer numerário, tão nacional, tão brasileira quanto um poema de Torquato."

À moda Ferreira Gullar:
"Sujo, sujo, não como o poema
mas como os homens em seus desvios."

À moda Paulinho da Viola:
"Dinheiro na cueca é vendaval, é vendaval..."

À moda Camões
"Eis pois, a nau ancorada no porto
à espreita dos que virão d'além
na cobiça da distante terra,
trazendo seus pertences, embarcam
minh'alma se aflige
tão cedo desta vida descontente."

À moda Guimarães Rosa:
"Notudo. Ficado ficou. Era apenas a vereda errada dentre as várias."

À moda Shakespeare:
"Meu reino por uma ceroula!"

À moda Dráuzio Varela:
"Ao perceber na fila de embarque o cidadão à frente, notei certa obesidade mediana na região central. Se tivesse me sentado ao seu lado durante o vôo, recomendaria um regime, vexame que me foi poupado pelos agentes da PF de plantão no aeroporto. Cuidado, portanto: nem toda morbidez é obesidade."

À moda Neruda:
"Cem mil dólares
e uma cueca desesperada."

À moda Saint Éxupéry
"Tu te tornas eternamente responsável pelo que carregas na cueca."



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quinta-feira, 30 de junho 2005

Machado de Assis e a Invenção do Pop

Há um conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, que é um tratado sobre a situação do artista brasileiro. É meu conto favorito da fera. Sobre esse relato estou escrevendo um monstrengo de cinqüenta páginas, das quais compartilho aqui alguns parágrafos.

Quem tiver 20 minutos, siga o link e leia o conto, que é um absurdo de brilhante. Para quem não tiver, o resumo é esse: Pestana é um compositor de polcas no Rio de Janeiro lá pelos idos de 1875. Como se sabe, a polca foi introduzida no Rio em 1845 e dominou os salões durante toda a segunda metade do século XIX. Enquanto o 3/4 cadenciado da valsa era considerado o baile “chique”, “elegante” e “nobre”, foi o 2/4 sincopadão da polca que mexeu com corações, cinturas e libidos.

O encontro da polca de salão com o batuque que rolava no quintal – através da mediação dos grupos de chorões que, na cozinha, já davam um toque brasileiro aos gêneros europeus – está na base de toda a música popular brasileira urbana, que nasce precisamente naquele período. O conto de Machado é um testemunho disso.

Pestana não é só um compositor de polcas. É um grande compositor de polcas. Suas polcas são um sucesso atrás do outro. Consagração. Popularidade. Encomendas. Etcetera.

Quanto mais Pestana tem sucesso com as polcas, mas insatisfeito ele fica. Ele não quer ser compositor de polcas. Quer ser um Beethoven, quer compor sonatas. Mora no Rio, mas vive como se estivesse em Roma (alguma semelhança com gente por aí?).

O problema é que cada vez que Pestana tenta compor uma sonata, sai uma porcaria, um eco derivativo de algo já feito por alguém. Aí chega outro pedido de polca, outra encomenda e outro sucesso estrondoso. É o retrato do artista brasileiro, entre a possibilidade e o desejo, entre a ambição e a vocação.

Um belo dia, morre sua esposa. O viúvo quer pelo menos deixar a ela um Réquiem comparável ao de Mozart. Estuda, rala, trabalha, dá duro durante dois anos. Nesse período, não compõe nada e as contas se acumulam. O Réquiem fracassa. O conto termina com a seguinte cena:

Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.
— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.
— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

Machado aproveita a morte do personagem para mandar a última ironia: façamos logo duas polcas para quando trocarmos o PSDB pelo PT, quer dizer, os conservadores pelos liberais. Dá tudo na mesma de qualquer forma. Pestana sabe que suas polcas correm o perene perigo de virar jingle de qualquer evento, de qualquer ocasião. A única música imune a esse perigo, pensa ele, é a música erudita, a verdadeira música "difícil". Mas essas ele só ama, deseja e repete. Não consegue compor.

Talvez tenha sido o primeiro momento em que a literatura brasileira refletiu sobre o que depois chamaríamos indústria cultural: a arte transformada já em mercadoria da indústria do entretenimento.

Mas o sentido total da coisa só se deixa vislumbrar quanto atentamos para os títulos das polcas de sucesso que compõe Pestana. A mais popular delas se chama Não Bula Comigo, Nhonhô.

Ora, uma composição com esse título, no Rio de Janeiro de 1875, só pode aludir a uma outra coisa, a algo que a literatura ainda não pode chamar pelo nome, porque seu nome está proibido: o maxixe, dança lasciva, urbana, negra/mulata que naquele momento já estava em pleno processo de consolidação no Rio – como primeiro gênero popular urbano brasileiro, perseguidíssimo pela igreja e pela polícia. O maxixe foi durante décadas nome maldito, associado, como estava, à sexualidade e ao corpo negro. Quem atentar para os títulos das composições de Pestana e para o uso que faz Machado de verbos como "saracotear", verá que se está falando aqui de algo muito mais maldito e clandestino.

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Foi a forma malandra e requebrada de dançar a polca, sob o impacto do batuque do quintal, que fez nascer esse que foi o primeiro gênero urbano brasileiro. Até a revolução rítmica realizada pelos sambistas do Estácio entre 1928 e 1933, o maxixe permaneceria como a base fundamental da música brasileira popular urbana.

Pestana, sofrendo a atração irresistível da dança maldita, ainda sonha com sonatas. Mas sabe, no fundo, que está condenado ao maxixe. A história de Pestana se repetiria milhares de outras vezes no Brasil, com outros artistas, de Pixinguinha a Odair José.

PS 1: Meu muito obrigado aos anfitriões do congresso sobre Jacques Derrida em Araraquara, Profs. Fábio, Alcides e Maria das Graças. Obrigado à UNESP pelo evento, aos fantásticos alunos que lá estiveram conosco e ao Hotel Fazenda Salto Grande (que rango maravilhoso!). Boas-vindas aos novos amigos de Araraquara que andam visitando este blog. Que pessoal mais hospitaleiro.

PS 2: Que partida fantástica da seleção, hein? Desde o 2 x 1 da Copa de 1974 eu não perco um Brasil x Argentina sequer, mesmo quando estou nos EUA. Não me lembro de ter visto um jogo mais fácil. 6 x 1 não teria sido nenhum absurdo. Quatro observações: 1) Baixou o espírito de Luís Pereira no Lúcio. Que partidaço! 2) Vocês já viram como o Adriano pega de bico na bola com uma precisão incrível? Sempre de bico. Sinceramente, neste momento eu não tiraria Adriano para dar lugar a Ronaldo não; 3) Assisti o jogo no telão do Albano’s, legendária choperia de BH. Como sempre, a massa alvi-negra estava em ampla maioria, e vibrou com a péssima partida de Sorín e com o cartão amarelo, que foi comemorado como se fosse gol do Brasil; 4) A seleção mereceu o placar, mas êta goleirinho ruim esse Lux, hein?

Atualização: Embora sem citá-lo diretamente, este post sobre Machado se nutriu do livro de José Miguel Wisnik, Sem Receita (Publifolha, 2004), especialmente do ensaio "Machado Maxixe: O Caso Pestana".



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terça-feira, 14 de junho 2005

Poemas de Ana Maria Gonçalves - Homenagem ao Udigrudi

Poetisa
Não sou poetisa
Apenas respeito as palavras.
Não escrevo adeus, se quero implorar que fique.
Não escrevo carinho, se quero dizer amor.
E por ser verdadeiro o que escrevo, tenho medo.
Uma poetisa não teria medo das palavras.
É que para mim, elas vêm aos borbotões.
E quem me lê.... lê o que não ouso dizer.
E quando leu, já foi!
Elas me vêm sem pedir licença
Sem preparar o terreno. Vêm sem querer.
Como naquele ínfimo instante em que quero adiar o gozo.
E quando vejo, já fui!


Fantasia
De gueixa
Comida à japonesa
Com dois pauzinhos!!


Bobos Enganos...

1 . Gosto daquela hora em que o dia espreguiça.
Penso que é cuidados com a minha noturna existência.

2 . Gosto quando a noite acende os vaga-lumes.
Penso que quer me admirar também.

3. Gosto do pio do bem-te-vi.
Penso que esteve a me espiar.

4. Gosto de não atender o telefone.
Penso que podia ser você.

5. Gosto de histórias com final feliz.
Penso que podem acontecer comigo.

6. Gosto de ondas e das marés.
Penso que querem brincar com a minha inconstância.

7. Gosto de criança regateira.
Penso que é pirraça para a que eu tenho presa em mim.

8 . Gosto da quentura de colo de mãe.
Penso que me reprime por ter saído dali tão cedo.

9. Gosto do silêncio entre as palavras.
Penso que elas pararam para me ouvir.

10. Gosto quando alguém me lê.
Penso que aprendi a pensar com a ponta dos dedos.


Dualidade
Mesmo se fôssemos duas
Ambas,
Seríamos suas.

(poemas publicados em 2001 no Udigrudi)

Homenagem do Biscoito ao Udigrudi, pioneiro blog mineiro- baiano- paulistano de Ana Maria Gonçalves.



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domingo, 22 de maio 2005

Jornais, suplementos literários e culturais

Perguntar não ofende: quantas entrevistas o Caderno Mais! da Folha de São Paulo ainda fará com o antropólogo Lévi-Strauss antes de deixar que a figura morra em paz? Só nos últimos anos foram umas três, que repetem a mesma cantilena sobre o Brasil, a antropologia, a USP e os índios nambiquara. Nada contra o homem, mas ninguém agüenta mais.

Eu não sei se alguém compartilha minha impressão, mas eu sinto um grande cansaço nos suplementos culturais/ literários dos jornais brasileiros. A Folha aposta na recliclagem de pensadores "prestigiosos" da Europa e dos EUA (Peter Burke, Slavoj Zizek, Jacques Rancière) e traduz longos textos dessas figuras, que só costumam interessar às pessoas que não precisam da Folha para encontrá-los, ou seja, gente capaz de lê-los no original. Em outras palavras: o Mais! é redudante para uns poucos ao mesmo tempo que chatíssimo e desinteressante para a maioria. Consegue não agradar quase ninguém: nem é fino e nem atinge a massa.

Eu acho que o suplemento literário de um jornal deve ser uma coisa ágil.

Já a proposta do Idéias, do Jornal do Brasil, é outra: fazer do suplemento cultural um caderno de resenhas e notícias sobre o mundo literário. É informativo e não deixa de ser ágil, mas excetuando-se um texto de Beatriz Resende aqui ou acolá, o caderno tem pouquíssima substância.

Talvez eu deva começar a ler o Prosa e Verso, d'O Globo, que eu reconheço que há tempos não leio.

Mas que a Folha deveria renovar esse bolorento Mais!, ah, isso deveria.

PS: não deixem de conferir esta entrevista com o Presidente Kirchner.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (16)



quarta-feira, 27 de abril 2005

Contos da Blogosfera

Hoje eu concluo um seminário sobre o conto brasileiro. Ao invés de fechar com o livro-guia, que tem sido Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX (org. Italo Moriconi), eu escolhi compartilhar com os alunos alguns blogocontos favoritos meus. Como qualquer lista, é incompleta e pessoal.

Não vamos formular teoria sobre literatura em blogs. O fenômeno é recente e é muito cedo para saber se a prática de publicar literatura em blogs alterou a forma de se escrever ficção. Pode ser que já o esteja fazendo. A diferença entre literatura e jornalismo continua sendo a mesma, independente de estar expressa em papel impresso ou na internet, claro. Mas a questão é como e por quais mecanismos a publicação online, periódica, comentada dos blogs vai mudando a cara da literatura que se escreve, ou do que se entende por literatura.

O conteúdo que é trazido para um novo meio, claro, nunca permanece o mesmo no processo. Transforma-se a si mesmo e ao meio. A tal da dialética. Não é assunto para agora. A aula, na verdade, é só um compartilhamento de links e um convite para um papo sobre esses contos:

Do Nelson Moraes eu escolhi Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN, esse clássico da blogosfera.

Sugeri que passassem no Reginaldo Siqueira e lessem pelo menos o implacável conto sobre o natal.

Indiquei o blog de Alê Felix e essa autópsia da vida blogueira, O blog começa a lhe fazer mal quando... (link que me chegou via Inagaki).

No site de Christiana Novoa, sugeri que lessem pelo menos A Luminosa Senda do Vazio Perfeito.

Sugeri com ênfase o Focando e indiquei que as duas escritoras que eu havia mais lido lá eram Fal Vitiello Azevedo e Ticcia Patricia Antoniete, mas que passeassem também.

Recomendei as crônicas da Claudia Letti e falei que visitassem os contos de Sarah Fazib.

Também passei o link do belo blog do Fabrício Carpinejar, que eu regularmente leio, mas no qual nunca comento.

Do Tiagón Casagrande, sugeri o hilário fait divers sobre o vestibular.

Da Lúcia Carvalho, sugeri as crônicas compiladas no Releituras.

Do Milton Ribeiro, essa bela reflexão sobre as marcas.

Recomendei também o coletivo Blog de Papel .

Os alunos também receberam links a contos sensacionais de Luiz Biajoni aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.

Este é um bate-papo onde eu só iria linkar textos de ficção ou crônicas, mas não posso deixar de mencionar um belíssimo post crítico de Rafael Galvão que desmonta as barbaridades racistas ditas por certos professores.

Quem tiver tido a oportunidade de ler algum desses escritores, passe por aí para papear e dar o testemunho de leitura.



  Escrito por Idelber às 00:42 | link para este post | Comentários (48)



terça-feira, 26 de abril 2005

O Livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel

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Falsas paisagens da alma, do nada inumerável

O Livro de Zenóbia é daqueles deliciosos, que brincam conscientemente com os gêneros. É um livro, acima de tudo, delicado, preciso no seu traço. São vinhetas de meia página, que vão tecendo movimentos sobre uma personagem, Zenóbia, uma espécie de filha de Zeus e da Memória encravada nas Minas Gerais. Nas palavras de sua autora, Zenóbia é uma personagem do interior, que vive as miudezas de seu cotidiano mais prosaico e busca extrair disso pequenas epifanias e assombros.

Maria Esther Maciel é parte de uma poderosa corrente de escritoras de Minas que trabalha em interseções entre a teoria literária, a psicanálise, a ficção, a poesia e o ensaísmo. O nome de Maria Esther Maciel habita uma constelação na qual têm seus lugares Lúcia Castello Branco, Ruth Silviano Brandão, Leda Maria Martins e outras – mineiras que demoliram a distinção entre o “artístico” (a “criação”) e o“acadêmico” (“a crítica”). Zenóbia, em segredo, pensou duas vezes antes de dizer para si mesma que toda perda oculta uma controversa beleza. Enquanto que em comarcas mais tradicionais, como a Universidade de São Paulo, o estudo da literatura continua respeitando a velha e segura distinção entre criação e crítica, há um bom tempo já não se separam essas coisas em Minas nem no Rio de Janeiro, especialmente entre as duas últimas gerações de escritores. Isso ocorre graças principalmente a essas mulheres e seus híbridos, experimentais, maravilhosos exercícios de escrita. Entre eles, os relatos e a poesia desta especialista em Octavio Paz e Peter Greenaway.

Não à toa Zenóbia via naquela vó adotada, que morava na casa dos fundos com três cães vira-latas, uma espécie de fada. Dela ouvia quase todos os dias, à beira da fornalha, fábulas e estórias de fantasmas. Com a alma à flor das faces, fascinada.
Herdeira de Guimarães Rosa nas operações com a linguagem, Esther tem uma frase conceitual, que tensiona a personagem e remete à melhor Clarice Lispector. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso. Esther se apropria dos que fizeram do aforismo uma arte, Sêneca, Pascal, Nietzsche, Cioran: a brincadeira é resvalar a ficção na filosofia, o poema na prosa, a aliteração no conceito. Em meu pai não posso imaginar a carne podre. Um deus pode? Sobre isso Zenóbia se cala, apesar de saber dos vermes, da terra úmida do cemitério, dos caldos verdes da pele. O livro é apaixonante. Na medida em que se vão se tecendo as histórias dos amores, bichos de estimação, receitas, sonhos, amigas, sempre em vinhetas minimalistas, Zenóbia vai trombando contra o vazio da sua própria fala, o beco-sem-saída da própria linguagem.

Estar ou não estar com ela era a medida de seus dias, como se fora desses limites a vida fosse sombra. Mas aos poucos ele foi aprendendo que o amor também se faz de faltas e distâncias, e que há bens que nenhum mal nos pode tirar, mesmo que por um instante. O livro termina relatando "horas felizes" de Zenóbia, mas a modo de anexo, quando já concluída a história, encontram-se cadernos de Zenóbia com contos aterrorizantes.

O belo livro de Maria Esther Maciel é uma publicação da Lamparina, antenadíssima e elegante nova editora carioca, que atende neste email.

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PS: Eu contribuí um artigo para a revista ArtCultura, que dedica seu último número a um dossiê sobre a música brasileira. Aí chega a maravilha da revista no correio e o que vejo? O dossiê são puras feras no assunto: Nei Lopes (talvez o maior especialista atual sobre samba, grande sambista ele mesmo), Cláudia Neiva de Matos (autora do legendário Acertei no Milhar, um dos clássicos sobre o samba), Martha Tupinambá de Ulhôa (uma das mais importantes etnomusicólogas da América Latina), Santuza Cambraia Neves (autora de Violão Azul: Modernismo e Música Popular). O que eu fiz para estar no meio dessas cobras criadas? Não sei, há que se perguntar à generosidade dos diretores da revista, mas está lá um artigo do blogueiro, sobre música popular jovem em Belo Horizonte. Foi a notícia maravilhosa desta segunda, a chegada dessa revista no correio. Para comprar, é lá no site da ArtCultura.



  Escrito por Idelber às 02:18 | link para este post | Comentários (11)



segunda-feira, 25 de abril 2005

Corrente, sobre Livros

Recebo do grande poeta mario cezar coivara - que, como e.e.cummings, assina seu nome em minúsculas e quando poeta assina, a gente respeita - uma corrente de perguntas, que devo passar a mais três pessoas. Na verdade, eu já havia recebido essa mesma corrente da grande blogueira Bibi, mas havia sido em inglês e eu prometi a mim mesmo que, no blog, só vou postar em pindorâmico. Aí eis que me chega a coisa de novo, via o poeta.

1. Não podendo sair do fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A Ética de Espinosa. Enquanto existir esse livro a corja ainda não tomou conta de tudo. O cabra conseguiu ser excomungado pela igreja, condenado pelos rabinos, odiado por tudo quanto foi religião e poder do seu tempo. O livro é pura teorização da liberdade, da potência, do amor à vida. Sempre que se falou em queimar livros na história moderna, Espinosa esteve entre os primeiros lembrados.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Riobaldo Tatarana. Tudo quanto é encruzilhada, o sujeito visitou. Distantes segundo e terceiro lugares: Mefistófeles e Ivan Karamazov.

3. Qual foi o último livro que compraste?

Por incrível que pareça, quase não compro livros. Ganho mais livros do que consigo ler. Com freqüência recebo pagamento em livros quando presto consultoria às editoras. Amontoam-se livros não lidos. Os poucos que compro têm que esperar tanto para serem lidos que passo a comprar cada vez menos. O último comprado foi Chain of Command: The Road from 9/11 to Abu Ghraib, de Seymour Hersh, o relato de toda a podridão do império por dentro: como inventaram as mentiras sobre o Iraque, como cuspiram na constituição, como fizeram toda a lambança.

4. Que livros estás a ler?
Tenho o não-método de ter pelo menos 20 iniciados na mesa. Concluo alguns (em geral romances) e não concluo outros (em geral os de não-ficção). No momento estão abertos sobre a mesa: El llamado de la especie, romance curtinho e enigmático do argentino Sergio Chejfec, The Clash of Fundamentalisms: Crusades, Jihads, and Modernity, estudo penetrante de Tariq Ali sobre as relações entre Ocidente e Islã e sobre onde nos deixaram quase 60 anos de sionismo e três mandatos da família Bush, O Livro de Zenóbia, ficção minimalista da escritora mineira Maria Esther Maciel (em breve resenha no Biscoito), Os Melhores Contos Brasileiros do Século XX, org. Italo Moriconi (material de ensino para mim), e A Máquina de Filmar Sonhos, maravilhoso romance inédito da escritora Christiana Nóvoa.

5. Que livros(05) levarias para uma ilha deserta?
Vou trapacear:
1. The Riverside Shakespeare (é um livro, não é? Algumas dezenas de peças, mas um livro)
2. Ulysses, de Joyce. Museo de la Novela de la Eterna, do Macedonio Fernández, também serviria, mas deste último eu já descifrei mais enigmas. Com Joyce eu poderia me entreter mais tempo.
3. Contos Completos (Jorge Luis Borges)
4. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
5. Poesia Completa (Carlos Drummond de Andrade)
Pronto, com esses cinco livros dá para começar a brincadeira. Dá até para fundar uma civilização.

6. A quem vai passar este testemunho(3 pessoas) e por que?
Aos amigos Leila, Ana Lucia e Fernando porque, como eu, são expatriados, e pode ser que essa listinha aguce boas memórias.

PS 1: A Democracia Socialista, corrente do PT na qual eu militei ao longo do anos 80, e à qual pertencem, entre outras celebridades petistas, o ministro do Desenvolvimento Agrário Miguel Rosetto e o ex prefeito de Porto Alegre Raul Pont, reuniu-se neste fim de semana e produziu um documento com fortes críticas ao governo, e aproveitou para lançar a candidatura de Pont à presidência do PT. Aí o sr. Genoíno veio dizer que as regras para o debate ainda serão definidas e o secretário-geral do PT, Silvio Ribeiro, com a sem-cerimônia que só possuem os verdadeiros burocratas, manda, na Folha , um ministro de estado calar a boca: "ministro de estado ou está de acordo com o governo ou sai." Alguém já ouviu falar em Sílvio Pereira? Alguém sabe como chegou à secretário-geral? Fiquem de olho na sujeira do jogo, especialmente se a esquerda do PT conseguir se unificar em torno de um candidato único. Eu acho melhor eu não falar nesse assunto.

PS 2: Seguindo a Convenção Inter-Americana de Caracas (1954), o Brasil concedeu asilo ao ex-presidente do Equador Lucio Gutiérrez. Sobre o Equador, diga-se: eu conheço aquilo lá. Não se parece com terra nenhuma deste mundo. Os presidentes passam de 60 a 4% de popularidade em questão de meses. Acho melhor eu me calar sobre esse assunto também. Sobre o tema, a mais lúcida foi (link para quem tem UOL) Eliane Castanhêde.

PS 3: Aliás, vamos combinar que ficaremos uma semana sem falar de política? Ando precisando fazer uma desintoxicação básica. Se eu falar de política antes da segunda que vem, vocês me enxovalhem.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (16)



segunda-feira, 11 de abril 2005

Literatura Argentina - Biblioteca Básica

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O amigo e escritor Milton Ribeiro pediu uma lista das 10 obras “fundamentais” da literatura argentina. Com a ressalva de que daqui a 24 horas a lista poderia ser outra, eu ofereço 15, que é o mínimo ao qual eu consegui enxugá-la. É uma combinação entre textos indispensáveis e os melhores. Adoto o critério de só incluir livros publicados até 1970. Os últimos 35 anos seria outra lista, já bem mais polêmica.

1.Facundo, o civilización y barbarie (Domingo Faustino Sarmiento, 1845) – Aqui começa a brincadeira, é o livro que inventa o país. Não é literatura propriamente dita. Sarmiento, o cabeça da oposição exilada europeísta-liberal (los unitarios), escreve a biografia do caudilho Facundo, precursor do chefe populista Rosas contra cujo governo (los federales, 1829 –1853) Sarmiento arma o projeto modernizante que o levaria depois à presidência. O livro, na realidade, enlouquece e vira tudo: além de biografia de Facundo e autobiografia de Sarmiento, é geografia da pampa, coleção de mitos, naturalismo científico, libelo político, história nacional, galeria de tipos da pampa. Lê-lo é começar a entender a Argentina. Aqui se fundam as oposições chave do país: civilização x barbárie, vanguarda x populismo, ficção x realidade, liberalismo modernizante x caudilhismo populista.

2. La cautiva / El matadero (Echeverría, 1837) - também parte da turma liberal exilada, de oposição a Rosas, que funda a literatura nacional, Echeverría deixa duas obras literárias chave: La cautiva, poema narrativo que inventa a figura do “bárbaro” e El matadero, narrativa de um linchamento de um bom liberal por uma turba de federales bárbaros, sujos, popularescos. Com este último texto o liberalismo argentino antecipa o naturalismo sanguinolento do final do século e inventa a figura da massa assassina, da turba sádica.

3. Amalia (José Mármol, 1851) – última das grandes obras de oposição a Rosas, Amalia é, na minha opinião, o mais interessante romance escrito no Rio de Janeiro pré-Machado de Assis (fãs de José de Alencar, poupem este blogueiro). Ao contrário da narrativa romântica brasileira, Amalia, do exilado Marmol, não é um romance redondeado, certinho. É um enlouquecimento de 600 páginas que conta a história de dois casais de jovens liberais lutando contra o regime e tentando viver amores impossíveis. A estrutura é interessantíssima e mistura panfletos políticos, nomes reais, descrições científicas, panegíricos. A coisa não flui dialeticamente, é uma sucessão abrupta de descontinuidades. O final é doloroso, intenso, melodramático.

4. Martín Fierro (José Hernández, 1872 e 1879) – este para quem não maneja o castelhano há algum tempo é ilegível no original. Ignoro se há tradução pindorâmica. Culminação e morte do gênero da poesia gauchesca, que narra as aventuras e desventuras dos gauchos, espécie de cowboys habitantes nômades da pampa. Essa literatura emerge, claro, quando já não existem, realmente, mais gauchos na Argentina. A obra de Hernández fecha o gênero em duas partes. Em 1872 o gaucho ainda é um herói outsider, viajandão, destemido. Em 1879 já virou bonzinho funcionário estatal, incorporado como carne de canhão ao exército que lutava as guerras de fronteira para exterminar os índios.

5. Don Segundo Sombra (Ricardo Guiraldes, 1926) - Particularmente não acho interessante, mas é livro chave. Trata-se do gaucho revisitado 40 anos depois, como figura nostálgica, já sedentária e idealizada. Escrito no castelhano mais castiço de sua época.

6. Ficciones / El aleph (Jorge Luis Borges, 1944 e 1949) – Bom, sobre ele suponho que os leitores do Biscoito sabem algo. É o homem que leva a literatura ao seu grau mais alucinante de auto-consciência, de brincadeira deliberada com sua condição de artefato inventado. Mundos impossíveis e geométricos, atribuições falsas, o acaso e necessidade confundidos, o universo transformado em biblioteca. Estes são seus dois melhores livros, sem dúvida, e neles estão todos os seus grandes clássicos. É o autor que eu mais releio.

7. Los siete locos / Los lanzallamas (Roberto Arlt, 1929 e 1931) – Também de Arlt incluo dois livros porque estes dois romances são na verdade um só, o segundo continua o primeiro. Pioneiro entre os filhos de imigrantes que acederam à literatura, Arlt rompe o círculo da literatura de “patrícios” e retrata prostitutas, gigolôs, ladrões, inventores, seitas bolcheviques ou fascistas, o caralho a quatro. Sistematicamente desmonta os próprios mecanismos de prestígio da literatura. Não consigo achar um equivalente no Brasil (não, nem Lima Barreto nem João Antônio servem, porque em Arlt há uma vibração da anedota que é muito forte). Vale a pena mesmo.

8. Museo de la novela de la Eterna (Macedonio Fernández, 1967) – Publicada postumamente nesta data, mas escrita ao longo de quase cinquenta anos, o Museo é, eu insisto, um dos 20 melhores romances jamais escritos no planeta. Quem já leu sabe do que estou falando. Macedonio era um velho molambento que se mudava de pensão a pensão com seu violãozinho, largando para trás montanhas de papéis em que escrevia (sem querer publicar) o romance no qual purgava o luto pela morte da mulher Elena (a “Eterna” do título). Ele leva ao limite o gesto da vanguarda, fazendo da espera pelo romance que nunca se publicará a história mesma que se narra. O resultado são cinquenta e tantos prólogos, onde se arma uma poética invencionista, anti-naturalista do romance. Além disso, brinca-se com a espera, reflete-se sobre a escrita, a literatura e a publicação, constrói-se a figura da mulher ausente e, pouco a pouco, ao longo de centenas de páginas e dezenas de anos, chega-se ao “romance” propriamente dito, que é muito mais curto que os prólogos, e no qual os personagens não parecem seres humanos, e sim seres de papelão, como que num conto de fadas. Acredite: não há nada neste planeta que se pareça a este livro. Se eu não tivesse um trabalho, dois filhos e um blog para cuidar, eu o traduziria ao português, por puro amor à causa. É o maior piadista da literatura argentina.

9. Adán Buenosayres (Leopoldo Marechal, 1948). Este é outro que quem não maneja o espanhol teria dificuldade para ler no original. Calhamaço de 700 e tantas páginas na linha simbólica de romance-modernista saga estilo Ulysses de Joyce, escrito por um autor identificado com o peronismo e portanto atacado e ignorado pela elite intelectual de sua época, Adán Buenosayres é um mergulho nos infernos urbanos, uma peregrinação dantesca pela angústia do poeta na cidade moderna. Romance de primeira.

10. Poemas (Alfonsina Storni) – Ao contrário de outras poetas mulheres como Norah Lange, ou narradoras como as Ocampo, Storni acede à escrita marginalizada não só como mulher mas também como membro de uma classe social “não-patrícia”, “não aristocrática”. Seus poemas de amor resvalam e incorporam o feminismo e a força da sua dicção desestabiliza as convenções poéticas do momento. Ainda hoje é de minhas poetas favoritas.

11. Zama (Antonio di Benedetto, 1956) – Narra, em linguagem finíssima, a aventura de um funcionário do império espanhol que espera sua transferência de Assunção a Buenos Aires. Claro que isso é só o pretexto. Benedetto consolida uma tradição na literatura argentina que dá voltas meticulosas a pequenos fatos da experiência. É a frase mais densa e sugestiva de sua época. Vejam do que falo: Y yo así, sin unos labios para mis labios, en un país que infinidad de francesas y de rusas, que infinidad de personas en el mundo jamás oyeron mencionar; yo ahí consumido por la necesidad de amar, sin que millones y millones de mujeres y de hombres como yo pudiesen imaginar que yo vivía, que había un tal Diego de Zama, o un hombre sin nombre con unas manos poderosas para capturar la cabeza de una muchacha y modelarla hasta hacerle sangre. É o romance do exílio perpétuo, pérola de lirismo.

12. Operación Masacre ou Cuentos (Rodolfo Walsh). Com o primeiro livro Walsh funda o gênero conhecido como literatura testemunho, relatando com rara potência o massacre de militantes trabalhadores depois da derrocada do peronismo em 1956. Trata-se de um livro fundamental para a história da literatura, do jornalismo e da imprensa no país. Mas os meus favoritos são os contos, com os quais Walsh consolida a rica literatura policial da Argentina.

13. Contos (Silvina Ocampo) - fundadora da mais importante revista literária da elite argentina da primeira metade do século, Sur, amiga de Borges e peça chave na articulação do bloco literário hegemônico do seu momento, Silvina Ocampo é uma hábil manipuladora dos códigos do relato fantástico.

14. Contos, especialmente Bestiario e Final del juego (Julio Cortázar) – de Cortázar nós falamos a semana inteira, não há mais o que dizer. Alguns de seus contos tardios são chatíssimos. O livro que produziu mais impacto foi Rayuela (O Jogo de Amarelinha, 1963). Mas o que realmente ficou são esses livros de contos.

15. En estado de memoria (Tununa Mercado, 1990) Minha única exceção à regra de não incluir textos pós-1970. Em parte por que amo este livro, em parte porque tenho uma tradução inédita dele ao português que posso oferecer (com autorização da autora) para quem quiser ler. É o relato autobiográfico de uma mulher casada que se exila no México durante a ditadura e que começa, de forma ao mesmo tempo íntima e distanciada, revisitar sua trajetória, sua história política, sua relação com a análise. Texto de uma finura incomum. Quem quiser lê-lo em português, na tradução ainda inédita deste blogueiro, é só passar um email.

Pronto, taí, com a exceção de Tununa, os 15 livros fundamentais de 1837-1970 na Argentina, na minha opinião. Agora, quem serão os leitores maravilhosos e colaboradores que confirmarão, onde for, quais desses livros estão disponíveis em português? Borges, Cortázar e Arlt eu tenho certeza que estão. Tununa, di Benedetto e Macedonio eu tenho certeza que não estão. O resto é com vocês.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post | Comentários (35)



quarta-feira, 06 de abril 2005

"Continuidade dos Parques", de Julio Cortázar

Relato publicado no segundo volume de contos do autor, Las armas secretas (1956). O original castelhano pode ser lido aqui ou ouvido, na voz do autor, aqui.


Tradução ao português de Idelber Avelar


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam aboninavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.



  Escrito por Idelber às 01:39 | link para este post | Comentários (12)



domingo, 27 de março 2005

Alejandra Pizarnik

(traduções minhas, originais aqui)


1

Dei o salto de mim à aurora
Deixei meu corpo junto à luz
e cantei a tristeza do que nasce


6
ela se desnuda no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe

13
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

37
mais além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência

Os Trabalhos e as Noites

para reconhecer na sede meu emblema
para significar o único sonho
para não sustentar-me nunca de novo no amor

fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
para dizer a palavra inocente.



  Escrito por Idelber às 02:07 | link para este post | Comentários (1)



quarta-feira, 16 de março 2005

Convite à leitura de Clarice Lispector

A cada 15 dias, sempre numa quarta-feira, meus alunos de pós-graduação
são convidados aqui no blog para uma discussão literária; os leitores
regulares são mais que bem-vindos no papo. Acabamos ensinando e
aprendendo todos. Hoje vamos falar de Clarice Lispector
[link](1920-77), especificamente de seu primeiro volume de contos, *Laços de Família* (1960). Proponho que leiamos Amor [link] e Uma
Galinha [link]. Também está na roda Os Laços de Família
[link].

A maior escritora brasileira do século XX, sabe-se, não é brasileira:
seu primeiro nome foi Haia (/vida/, em hebraico). Essa ucraniana-carioca lapidaria uma frase absolutamente singular na língua portuguesa, cheia de cortes abruptos e imagens estranhas: /um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. /Fica claro, mesmo para o
leitor que acaba de chegar ao relato, que se trata de um texto que
tateia, tentacular, tentando descrever uma *experiência*. Qual sua
natureza? Trata-se de experiência que se tornou automatizada, reificada:
*numbed*, diríamos ou *entumecida*, em espanhol. É aquela experiência já
invivível, de onde não se aprende nada, não saem relatos: /sua juventude
anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida . . . de manhã
acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis
empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos . . E alimentava
anonimamente a vida/. O pano de fundo é, invariavelmente, esse: o eterno
retorno do sempre-igual, a vida convertida em ditadura bruta da repetição.

* *

O que é um relato de Clarice, então? É a narração daquele fugaz momento
onde *irrompe algo *que subverte essa mesmice. É o pipocar de uma
*imagem, *um *relampejo* que atravessa o sujeito *oferecendo um
vislumbre do que seria um mundo redimido*. Isso nunca se realiza por
completo, claro, porque senão não haveria graça. É sempre um piscar, um
acontecer fugaz: relampejo puramente epifânico, mas ali, naquele
momento, como sabem as mulheres, joga-se tudo. Podemos até despencar de
volta ao reino do eternamente-idêntico no final, mas as estruturas da
experiência já terão sido abaladas.

É só isso o que ocorre no conto Amor
[link]: Ana, mãe comum e
corrente (/filhos bons . . . cresciam tomavam banho/) / /toma um bonde
rumo a Humaitá. O choque da imagem que se lhe interpõe (/o cego mascava
chicletes/) desorienta a personagem e desarma a estrutura frasal do
conto, que começa a ser narrado em discurso indireto livre e passa a
“entrar” na cabeça da personagem. Ela erra a parada de coletivo, vai
saltar no Jardim Botânico. A imagem singular do cego com chicletes
provoca uma revoltosa, um rearranjo completo na experiência: /ela
apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse .
. . a vastidão parecia acalmá-la, o silênco regulava sua respiração. Ela
adormecia dentro de si. /

O que “acontece” no conto, ao fim e ao cabo? Nada, se excetuarmos o fato
de que o cego a leva a um mundo /faiscante, sombrio, onde
vitórias-régias boiavam monstruosas/ . . . ela /amava o cego, pensou com
os olhos molhados/ já de volta à casa com a empregada, marido, filhos,
experiência que já ameaça reificar-se de novo. Na medida em que se
ajusta, fica a dúvida: /o que o cego desencadeara caberia nos seus dias?
/Para finalizar o ciclo, uma trombada no marido e o retorno a uma
normalidade que jamais será a mesma. Impactou-llhes, esse conto? Alguma
leitura alternativa ou em diálogo com a proposta aqui?

Convido-lhes também a dizerem sobre Uma Galinha
[link]: qual é a chave, o
encanto deste conto? Sem dúvida, tem que ver com a questão do ponto de
vista em que se relata a história. Exploremos isso. Por curiosidade,
será que algum dos meus amigos cinéfilos [link] pode
confirmar a informação de que a abertura de *Cidade de Deus,* o filme de
Fernando Meirelles, é inspirada nesse conto de Clarice? Não vejo como
não possa ser. Parece-me tão óbvio que custa-me crer que alguém já não
tenha o dito por escrito. De qualquer forma, fica o convite a uma
conversa sobre os dois contos.* *
--------



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 01 de março 2005

*Convite à leitura de Guimarães Rosa

Publicado em 1962, Primeiras Estórias
[link]>,
de Guimarães Rosa [link], é
ilustre: o livro é responsável por um ressurgimento, no português
brasileiro, da palavra “estória”, vocábulo de sentido intercambiável com “história” mas que, ao contrário deste, designa sempre “relato fictício, inventado”.

O relato número 6, A Terceira Margem do Rio
[link], está entre os contos mais canônicos da literatura brasileira. Em 1994 virou filme [link] de Nélson Pereira dos Santos. Já havia virado canção, numa parceria de Caetano Veloso e Mílton Nascimento, gravada por Bituca em 1990
[link]
e por Caetano em 1992 [link].


O conteúdo do relato é banal, como todos os conteúdos: um homem faz uma canoa e se exila no rio, vagando como as naves de loucos da Idade Média.
Não volta mais. O filho passa a acompanhá-lo à margem e, depois de mais de 10 anos, tenta tomar seu lugar. Recua com medo. O pai continua lá.
Fim da estória.

Narrado em primeira pessoa pelo filho, o efeito de “distância” criado
pelo texto é chave: o narrador fala do que parece não entender:/ aquilo que não havia, acontecia./ Esse efeito é reforçado pelo título
paradoxal, onde o substantivo, por definição, implode o numeral que lhe acompanha. Tudo é um pouco estranho. Naquela família,/ nossa mãe era quem regia/. Quando a canoa fica pronta, a mãe determina: /‘cê vai, ocê fique, você nunca volte’/. O filho pede, /‘Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?’/ e só a recebe a bênção. O filho entende que /‘ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio’./ O filho começa a levar comida ao pai. A mãe finge que não vê. A irmã se casa, a mãe não quer festa. Nasce o neto, levam-no ao rio e o pai / avô não aparece (se você conhece o interior do Brasil, sabe o que significa, na cultura sertaneja, um avô não aparecer para o batismo do neto!). O tempo passa e o narrador, já de cabelos brancos, propõe/ ‘Pai . . . eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!’/
O pai faz um gesto, o primeiro. O filho se arrepia e retrocede. O filho fica na dúvida: /‘sou homem, depois desse falimento?’/

O texto já foi interpretado como retrato da decadência dos laços
familiares no interior, parábola do paradoxo, instalação da castração
freudiana no sertão, inversão de papéis sexuais, crise da paternidade, alegoria da loucura, metafora de todos os lugares que não existem, imagem do desejo de escape, representação da paternidade como fardo e muito mais.

Se você é leitor do *Biscoito*, (re)leia a estória
[link] e papeie aqui com meus
alunos. Caso os alunos queiram reler e discutir Famigerado
[link] ou Famigerado [link]. Dia de Rosa no *Biscoito*.

*PS de atualização, 01h de Brasília:* Dada a brincadeira do fim de
semana com nomes próprios, identidades e vozes, eu ainda não tinha tido a oportunidade de registrar um agradecimento ao Departamento de Espanhol e Português [link] de Northwestern University [link], pelo o convite à
palestra da última sexta-feira, sobre a codificação do sentido de
nacionalidade no Mangue Beat [link].
Meu agradecimento especial a Lucille Kerr, Julio Prieto, Jorge Coronado e Yarí Pérez Marín, professores desse baita departamento. Há uns anos, o dept. de Northwestern era um deserto. Investiram e trouxeram Lucille Kerr [link]
- uma das maiores especialistas do planeta na obra de Manuel Puig
[link] - e ela trouxe, entre outros, meu amigo Julio Prieto, autor de Desencuadernados: vanguardias ex-céntricas en el Río de la Plata
[link],
Jorge Coronado, também já conhecido meu e agora Yarí Pérez Marín. O
departamento, claro, reviveu e vai de vento em popa. Havia umas 40
pessoas animadamente presentes até o fim da sessão de perguntas e
respostas, que durou um bocado. Até amigos que eu não esperava (Dr. Jan French!) apareceram para o evento. Valeu mesmo, espero que tenham
gostado. Axé babá.

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  Escrito por Idelber às 19:36 | link para este post