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sábado, 03 de maio 2008

Novidades promissoras no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos

roberto.jpgHá novidades no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos. Como sabem os leitores do blog, a biografia escrita por Paulo Cesar foi proibida em abril de 2007 depois de um acordo-arapuca em que o autor, representado pela editora e sem a presença de sua própria advogada, se viu sem condições de enfrentar o massacre jurídico. O acordo assinado previa o recolhimento dos livros e reservava a Roberto Carlos, inclusive, o direito de comprar quaisquer exemplares que ainda fossem encontrados nas livrarias e ser ressarcido pela editora.

Aí vai, em primeira mão, a última notícia: na vigésima vara cível do Rio de Janeiro, a juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros acaba de proferir uma sentença promissora. De mensagem pessoal enviada a mim por Paulo Cesar de Araújo (e publicada aqui, claro, com sua permissão), chegam notícias alvissareiras:

<< Sobre a reclamação do artista de que o livro faz uso indevido de sua imagem e expõe sua intimidade, a magistrada argumenta que "as pessoas célebres, em face do interesse que despertam na sociedade, sofrem restrição no seu direto à imagem. Admite-se que elas tacitamente consentem na propagação de sua imagem como uma conseqüência natural da própria notoriedade que desfrutam".

A magistrada reconhece que Roberto Carlos é portador de uma doença chamada TOC (transtorno, obsessivo, compulsivo) e, por isso, ela afirma na sentença que "o interesse processual não pode firmar-se na obsessão compulsiva de tudo controlar sobre si mesmo, com o alheamento do direito democrático constitucional de informação, sobrepujador do direito à proteção da imagem e da honra, se a pessoa é pública e a informação verdadeira". Na bibliografia citada no texto da juíza consta o livro "Mentes e manias: entendendo melhor o mundo das pessoas sistemáticas, obsessivas e compulsivas", de Ana Beatriz Barboza Silva (Editora Gente. 2004).

Sobre a reclamação do artista de que o autor do livro estaria obtendo indevidamente ganhos financeiros com a sua história, a magistrada diz que o uso não autorizado de imagem alheia também pode ocorrer "sempre que indispensável à afirmação de outro direito fundamental, especialmente o direito à informação - compreendendo a liberdade de expressão e o direito a ser informado". Por essa presunção de interesse público nas informações, diz ela, fica justificada a utilização da imagem alheia "mesmo na presença de finalidade comercial, que acompanha os meios de comunicação no regime capitalista".

Entretanto, apesar deste parecer contrário a Roberto Carlos e de condená-lo no pagamento das custas processuais e em honorários advocatícios, a juíza manteve a proibição do livro sob a justificativa de que houve aquele tal acordo entre as partes no foro criminal de São Paulo, ano passado. Diante disso, a minha advogada Dra. Deborah Sztajnberg entrou com o recurso "embargos declaratórios" dirigido à própria juíza Márcia Cristina. >>


O blog não pode senão celebrar as decisões da juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros detalhadas nos três primeiros parágrafos da mensagem e parabenizá-la por reconhecer o que sabemos todos que acompanhamos o caso: que se trata aqui de direito elementar de estudo, pesquisa e informação de fatos públicos da cultura brasileira. Este direito foi cerceado de uma forma embaraçosa para a democracia do país, com recolhimento de um livro -- coisa própria de ditaduras. Obrigado à juíza Márcia Cristina por ajudar a estabelecer mais um precedente favorável à liberdade de pesquisa e informação.

Dadas as condições precárias e desequilibradas que cercaram a audiência de "reconciliação" (o substantivo aqui é inadequado, daí as aspas) onde foi assinado o acordo, esperamos que a juíza Márcia Cristina possa rever com simpatia a ação de embargos declaratórios e proferir mais uma sentença que a consolide como magistrada que entende a gravidade do caso: a proibição e o recolhimento de um livro de pesquisa universalmente elogiado por quem o leu e censurado por imposição de um dos artistas mais poderosos do país em meio a um massacre jurídico. Marcada para um momento em que o autor tinha razões para crer que seria representado pela editora (e em que sua advogada pessoal se encontrava em compromisso inadiável em Brasília), a audiência onde foi assinado o acordo foi caracterizada por sérios indícios de parcialidade de quem a presidiu.

Como leigo -- mas interessado -- em direito, suponho que existam suficientes elementos para rever o caso a partir desta sentença, não?



  Escrito por Idelber às 17:06 | link para este post | Comentários (36)



quarta-feira, 19 de março 2008

Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania


(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)

Música brasileira popular e cidadania

No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.

1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.

2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.

3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.

4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio

Parte II O conceito de música “regional” -- Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.

5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”

Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB

6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (35)



sábado, 23 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: Homenagem à maior de todas

Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:

cassiaeller5.jpg

Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?

Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.

A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:

disco9.jpg

Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:

disco8.jpg

Quando mais "invocada", mais sexy ela parecia:

29cassiaeller3.jpg


E o charme com que ela cantava "Malandragem"?

Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.

Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.



  Escrito por Idelber às 05:36 | link para este post | Comentários (44)



terça-feira, 26 de junho 2007

Sepultura

Por hoje, só um aviso rápido aos navegantes, especialmente à turma que é fã de música pesada (alô, Tiagón): finalmente está disponível em pdf o meu último artigo sobre o Sepultura, publicado há uns anos no Journal of Latin American Cultural Studies. Como foi o próprio pessoal da revista quem pôs o texto na internet, saudavelmente mandando às favas os direitos autorais, eu dou o link ao artigo sem problemas.

Abraços aos leitores aqui da incomparável Buenos Aires.



  Escrito por Idelber às 09:41 | link para este post | Comentários (13)



terça-feira, 12 de junho 2007

Roberto Carlos processado por plágio

ipartituraerli1.jpg

Salvo engano deste blogueiro, a questão passou desapercebida da grande imprensa: depois de fazer fogueiras de Torquemada com a obra de um pesquisador sério, Roberto Carlos volta aos tribunais, desta vez como réu: "Traumas", gravada por Roberto e Erasmo em 1971, seria exatamente idêntica a uma canção composta pela professora de ensino municipal Erli Cabral Ribeiro Antunes e registrada por ela na Escola Nacional de Música sob o título de "Aquele amor tão grande". Depois de ser impedida pelos seguranças de se aproximar do Rei -- a quem queria entregar a canção -- Erli teria passado a fita ao saxofonista da banda, sob a promessa de que o material chegaria a Roberto. Estarrecida, ela ouviu a canção alguns meses depois, lançada sem qualquer crédito à sua autoria. Vale lembrar que Roberto Carlos já foi condenado por plágio a outro compositor (Sebastião Braga) em 1987.

Leiam a matéria completa.



  Escrito por Idelber às 08:19 | link para este post | Comentários (26)



segunda-feira, 21 de maio 2007

Entrevista exclusiva com Paulo Cesar de Araújo

paulo-cesar.jpg O trabalho de Paulo Cesar de Araújo é meu conhecido desde o revolucionário Eu não sou cachorro não: Música popular cafona e ditadura militar, obra monumental em que o autor analisa a música brega dos anos 70 e mostra, surpreendemente, que ela foi até mais censurada que a velha MPB -- trajetória que a academia e o jornalismo foram demasiado míopes para ver e que só a partir da obra de Paulo Cesar começou a ser devidamente estudada. Paulo Cesar é o autor de Roberto Carlos em Detalhes, obra cuja proibição inicial o Biscoito noticiou em primeira mão e a cuja posterior circulação na internet nós também demos vazão. Paulo Cesar estará em Tulane University, New Orleans, em março de 2008, para uma conversa sobre o caso. Por enquanto, aqui segue uma entrevista exclusiva com o historiador e pesquisador baiano, um dos maiores conhecedores da música brasileira popular. É honra recebê-lo aqui no blog.

1- Roberto Carlos se recusou a lhe conceder entrevistas na fase de preparação do livro. Como conhecedor profundo da vida dele, você sabia que ele já havia conseguido bloquear um outro livro, muito menos sério que o seu. Mas em algum momento você imaginou que a sua obra fosse parar na justiça?

Eu não esperava esta reação dele porque meu livro é completamente diferente do livro do ex-mordomo. Naquele o autor apenas relata inconfidências de sua relação de dez anos com o artista. Já "Roberto Carlos em detalhes" é um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a moderna música popular brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. Além de passagens da vida pessoal do artista, falo de bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, festivais da canção, ditadura militar... É, portanto, uma obra informativa e de interesse público, até porque a história de Roberto Carlos pertence à cultura e à memória nacional. Ressalta-se também que Roberto Carlos já foi tema de outros livros como "Roberto Carlos: esta é a nossa canção" de Ayrton Mugnaini Jr e "Como dois e dois são cinco", de Pedro Alexandre Sanches - que não tiveram nenhum problema na justiça.

2- Pelo menos para nós que acompanhamos o caso com interesse, mas de longe, a postura da Planeta num primeiro momento foi bem louvável. Recusaram-se a dobrar ante as ameaças. Qual foi o momento em que você sentiu que os seus interesses não estavam sendo bem representados pela editora?

A postura da Planeta foi louvável não apenas no primeiro momento desta briga judicial como também em todo o processo de produção do livro. Eu tive total liberdade para publicar o livro da forma que quis. Por tudo isso, foi surpreendente a capitulação, que aconteceu exatamente durante a audiência, sem nenhuma reunião ou consulta anterior. Tudo foi decidido no calor da hora.

3- Olhando retrospectivamente, você diria que foi um erro ter se deixado representar na "audiência de reconciliação" pela editora Planeta?

De um lado, penso que se estivesse ali com um advogado próprio aquele acordo não teria acontecido nos termos em que se deu. Por outro lado, dada a disposição de o juiz e os promotores em encontrar uma solução favorável a Roberto Carlos (que era proibir o livro) tenho dúvida se com outro advogado as coisas seriam diferentes. rcdetalhes.jpg


4. Como você já sabe com certeza, o seu livro está circulando pela Internet. Você tem alguma restrição a isso? O que você achou da repercussão que o assunto teve na Internet?

A rapidez e amplitude com que isto aconteceu podem ser vistas como um ato de desobediência civil. Entretanto, não apenas o meu, mas vários outros livros (e também músicas) correm livres na internet. Isto é um dado da realidade atual. O que lamento é que "Roberto Carlos em detalhes" não possa continuar também livremente nas livrarias, na forma como foi originalmente publicado. Seja como for, o importante é que meu livro está vivo. Eu escrevi para ser lido.

4- Você pretende seguir lutando contra a censura? De que maneira?

Estou participando de palestras, debates, discutindo até que ponto a privacidade de figuras públicas deve prevalecer no Brasil sobre a liberdade de expressão e o direito à informação. Acho que esta é a questão central nesta minha polêmica com Roberto Carlos. Meu livro está proibido e vai para a fogueira sem que os advogados do cantor questionem qualquer fato narrado nele. Por isso eles não me processaram por calúnia. Reclamam apenas que o cantor não queria ver este ou aquele episódio narrado no livro. Espero que todo esse debate sirva para sensibilizar a sociedade e o poder legislativo no sentido de definir melhor os limites entre liberdade de expressão e direito à privacidade - direito este que na maioria dos casos é definido em termos muito subjetivos.

5. Com a exceção de um artigo de Paulo Coelho e de uma rápida menção do assunto numa entrevista de Caetano à Folha, a "classe artística" silenciou sobre o episódio. Você se sentiu traído ou abandonado por alguém nesse caso?

Roberto Carlos é uma instituição nacional e muitos artistas ficam temerosos de contrariá-lo. Além disso, muitos cantores-compositores alimentam a expectativa de que Roberto Carlos grave uma música sua; ou aguardam a liberação de alguma música dele para gravar; ou simplesmente esperam um convite para cantar no especial que o cantor faz anualmente na TV Globo. Enfim, esta postura dos artistas é apenas mais um triste capítulo de "a vida como ela é".

O que mais lamento é a declaração do ministro da cultura Gilberto Gil à Folha de S. Paulo (10-05-2007): "Eu acho em princípio complicada essa questão de biografias não-autorizadas. A não-autorização cria espaço para os conflitos. Não vejo por que não produzem biografias autorizadas. Deveriam ter consultado o Roberto. Se o autor tivesse consultado o Roberto, essas coisas teriam sido evitadas". Além de desinformado (durante quinze anos tentei entrevistar Roberto), vê-se que Gil falou apenas como artista e não como ministro. Num momento em que uma obra literária é proibida e condenada à fogueira ele prefere enfatizar apenas o direito do artista à privacidade. Neste caso Gil não se portou como ministro da cultura e sim como um advogado da privacidade.

6-Você tem planos de alguma resposta jurídica ao acordo firmado no mês passado?

Estou me informando sobre medidas legais, ouvindo advogado, juristas. Enfim, estou estudando o caso antes de tomar qualquer decisão.

7. Quais são seus próximos projetos?

Eu tenho material de pesquisa para pelo menos mais dois livros sobre música popular. Depois de "Eu não sou cachorro não" e "Roberto Carlos em detalhes", talvez no próximo eu faça uma síntese geral da MPB. Mas ainda não tive tempo de pensar sobre o tema, pois continuo absorvido por "Roberto Carlos em Detalhes".


8. Nosso amigo comum Christopher Dunn me pede que eu lhe pergunte se o episódio alterou o seu prazer de ouvir a música de Roberto Carlos.

Eu continuo ouvindo suas canções com o mesmo prazer. A diferença é que antes eu ouvia apenas como fã; agora ouço como alguém que entrou na história de Roberto Carlos e compreende as limitações dele.

Obrigado pela gentileza da entrevista, Paulo Cesar. O nosso apoio aqui é incondicional.



  Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post | Comentários (34)



terça-feira, 15 de maio 2007

A Jazz Funeral for Alvin Batiste (1932-2007)

alvinbatiste2007.jpg

Bendita a cidade que lembra a morte dos seus grandes com um desfile musical festivo pelas ruas. New Orleans mais uma vez se despediu a rigor de um dos seus gigantes. Alvin Batiste, um dos maiores clarinetistas da história, nos deixou no dia 06 de maio, aos 74 anos, de enfarte, horas antes do que teria sido um show consagrador com Branford Marsalis e Harry Connick Jr. no JazzFest.

Alvin Batiste redefiniu o som de New Orleans no século XX. Clarinetista de incríveis recursos, ia do dixieland mais tradicional às formas vanguardistas mais cabeludas, sem perder a pose. Incorporou toda a influência do bebop e combinou-a com o molejo inconfundível do som de New Orleans. Além de instrumentista e compositor, era um mestre, um professor nato. Dedicou-se durante décadas, na Southern University, a lecionar sua arte. Recebeu quase todos os prêmios a que pode aspirar um músico de jazz, mas percorria as escolas públicas de bairros pobres para compartilhar o que sabia. Estudaram sob Alvin Batiste o trumpetista Wynton Marsalis, os saxofonistas Branford Marsalis e Donald Harrison, o baixista Chris Severin, o pianista Henry Butler, além de centenas de outros músicos. Era amado, idolatrado na cidade. Deixou um legado de inesquecíveis gravações, mas vê-lo ao vivo era a experiência insubstituível.

Por isso, sabia-se que o Jazz Funeral que nos reuniria no úlitmo sábado, dia 12, seria um dos grandes e inesquecíveis. Já de manhã a multidão ia se aglomerando na Praça Lafayette:

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O Jazz Funeral é uma experiência incomparável, fruto da extraordinária cultura musical de New Orleans. O do último sábado, que reuniu uma multidão nas ruas para dançar e cantar em homenagem à memória de Alvin Batiste, foi um marco do renascimento da nossa cidade. Depois da cerimônia religiosa, impecavelmente vestidos, os músicos vão se aglomerando na preparação da homenagem. Desce o féretro:

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A festa é pública e todos os amantes da música são bem vindos. No Jazz Funeral de Alvin Batiste, não faltaram os ex-alunos com souvenirs inauditos da carreira do mestre:

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A música começa em tom solene, com notas graves e extensas, no ritmo conhecido como dirge. Uma porta-estandarte abre caminho, seguida por músicos engravatados e, logo depois, a multidão:

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Ao longo de vários quarteirões, a banda segue com o dirge, enquanto vamos homenageando a memória do morto com uma dança contida:

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Na chegada à histórica esquina de Rampart com Canal, a banda acelera e começa a tocar na batida das brass bands da cidade. A dança vai abandonando a contenção e cai num ritmo frenético. A partida de mais um mestre é lembrada com uma renovação do seu legado de amor à música e à cidade de New Orleans:

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Ao longo do trajeto, especialmente quando nos aproximamos do French Quarter, não faltam os indefectíveis turistas, olhando estatelados, com a cara de quem se pergunta que estranha cidade é esta, onde se celebra a morte com uma tomada ritual das ruas por uma multidão dançante.

PS. Para conhecer a obra de Alvin Batiste, gravada com muito menos freqüência do que teria sido justo, recomenda-se os CDs Bayou Magic (1993) e Late songs, words, and messages (1993).

PS 2. Fotos do post: Ana Maria Gonçalves, que teve seu primeiro Jazz Funeral. Ana também fez filmes do desfile, que eu, por incompetência, não consegui subir ao YouTube. O filminho fica para a próxima :-)



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sexta-feira, 11 de maio 2007

A fogueira de livros do "rei" Roberto

bookburn_penn.jpgDepois de perpetrar um dos maiores massacres da história recente do judiciário brasileiro contra um estudioso, pesquisador e fã da sua música, Roberto Carlos fará o quê, agora que o livro de Paulo Cesar de Araújo está disponível na internet, em formato doc ou em pdf ?

Como se sabe, depois da decisão em primeira instância favorável a Roberto Carlos (denunciada aqui), o acordo firmado há 15 dias dá ao cantor o direito de recolher e incinerar os mais de 10 mil exemplares que restavam da obra de Paulo Cesar de Araújo. O acordo proíbe inclusive que Paulo Cesar dê entrevistas sobre o conteúdo do livro. Com a exceção dos protestos nos blogs e de um louvável artigo de Paulo Coelho (link para assinantes), nenhum grande escândalo se produziu nos meios de comunicação de massas depois desse assalto à liberdade de expressão e de pesquisa perpetrado por Roberto Carlos e sua matilha de advogados contra, ironicamente, um dos maiores estudiosos de sua obra - obra que tantos de nós nem achamos tão interessante assim.

Na era da internet, qualquer cerceamento à livre circulação de informações produz o efeito contrário e acaba sendo letal para a reputação do censor. Talvez Roberto Carlos não tenha percebido ainda, mas ele será o grande derrotado desta história. Enquanto isso, vejam a obra que esses crápulas arrancaram das livrarias, com a conivência, estímulo e bênção de um juiz que foi à audiência de reconciliação com cópia de seu CDzinho para Roberto Carlos.

PS: Ainda sobre música, dêem um pulo no Música popular do Brasil. Vale a pena.



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quarta-feira, 02 de maio 2007

Festival Internacional de Lafayette

O último final de semana do mês de abril e o primeiro do mês de maio têm sido, para mim, sagrados: é época de JazzFest em New Orleans. Por isso eu nunca havia feito a viagem para o Festival Internacional de Música de Lafayette, que coincide com os primeiros dias do JazzFest. Desta vez, eu e Ana resolvemos abrir mão da festa em New Orleans para viajar até o portal das terras acadianas da Louisiana. Valeu a pena. Em termos de atrações internacionais, o Festival de Lafayette é bem superior ao de New Orleans. Em vez dos abusivos 45 dólares diários cobrados aqui em NOLA, a festa em Lafayette é gratuita e celebrada nas ruas do centro da cidade, onde se armam meia dúzia de palcos bem separados, sem interferência sonora. A comida é um show à parte. Em vez da horrenda Budweiser que povoa o festival neworleaniano, em Lafayette as barraquinhas trazem opções de qualidade como a Heineken ou a Guinness.

Foram três dias de muita música, que começou na noite de sexta com o estranhíssimo som world music do octeto francês Les Yeux Noirs. Eles passam as sonoridades centro-européias e ciganas por um liquidificador pop, com destaque para alucinógenos solos de rabeca:

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A noite de sexta terminou com um belo show de Vieux Farka Touré, filho do legendário guitarrista malinês Ali Farka Touré. A música de Vieux continua a tradição Sonrai desse verdadeiro ícone pop. Dele, infelizmente, não tiramos fotos aproveitáveis.

No sábado, sob um calor nordestino, começamos com o folk feminista das The Malvinas, um trio do Quebec-Texas-Louisiana à base de cordas: violão, bandolim, rabeca, banjo. A moça do Quebec quase se derretia na temperatura de 35 graus, mas elas mandaram bem o recado:

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Daí passamos aos insólitos argentinos do Los Pinguos, que não se parecem com nenhuma música argentina que você já tenha ouvido. Utilizando violões, um tres cubano e um cajón peruano, eles vão da balada politizada à salsa. Confesso que ao ver um bando de argentinos com instrumentos acústicos num palco de dimensões consideráveis, temi por um desastre. Queimei a língua. Os caras botaram a multidão para dançar:

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Depois foi a vez da banda americano-brasileira Rob Curto’s Forró for All. Nada que eu nunca tenha ouvido em Pernambuco, mas o baião e o xaxado eram muito bem executados:

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Depois de um cochilo, só chegamos a pegar alguns acordes daquela que talvez seja a mais ilustre banda de música cajun, o Beau Soleil, que completava seu trigésimo aniversário. Dali a próxima opção era clara. Fomos ver o legendário pianista e vocalista de New Orleans, Eddie Bo, famoso por seu estilo percussivo ao piano e por suas composições que mesclam o melhor do rhythm’n’blues, funk e jazz new-orleaniano. Foi o primeiro show em que dancei com vontade:

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Fechamos a noite com o reggae do jamaicano Clinton Fearon, conhecido como o grande baixista, vocalista e letrista da famosa banda dos anos 60, os Gladiators. Com o show super lotado e nossos corpos exaustos, vimos um pouco e saímos. Mas tinha boa pinta.

O domingo começou com a ponte afro-neworleaniana feita pela Gangbé Brass Band, do Benin. A fórmula é simples: polirritmia percussiva do oeste da África com muitos metais – trumpete, sax, tuba, trombone – na melhor tradição de New Orleans. A energia é contagiante:

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Dali partimos para o show do Afrissippi, produto do encontro entre o guitarrista senegalês Guelel Kumba com Eric Deaton, e o tradicional blues de doze compassos aprendido por ele no Mississippi. Foi um bonito show mas, de novo, nada que não tivéssemos ouvido antes:

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Muito original foi o show das mulheres batuqueiras da Guiné, as Amazones, que subvertem a tradição do homem-percussionista-mulher-dançarina comum nessa região:

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Os dois melhores shows, no entanto, estavam reservados para o final. A Dirty Dozen Brass Band, criticada por puristas desse gênero pela sua incorporação do rock, rap, funk e outros ritmos, comandou um show emocionante, de levantar defunto, que marcava a volta definitiva de todos os músicos da banda ao seu estado depois do furacão Katrina. O show foi pontuado por brincadeirinhas eróticas e alusões à sensacional campanha dos New Orleans Saints ano passado no futebol americano:

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Fechando com chave de ouro, o melhor show do fim de semana. O gigante da world music, o malinês albino Salif Keita, trouxe a banda completa, com kora e tudo, e sacudiu o público durante uma hora. O que mais me impressionou foi a sintaxe cuidadosamente armada da apresentação. Ele alternava canções uptempo com momentos de respiração líricos e emotivos, para logo depois voltar à música mais freneticamente dançante. É uma figura que impõe respeito:

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Fica aí a dica. Na primeira semana de JazzFest, vale mais a viagem a Cajun Country.



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terça-feira, 24 de abril 2007

Performing Brazil, Madison, Wisconsin

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arte do cartaz: Talía Guzmán-González.

Registrar congressos acadêmicos no blog é chato, mas o encontro Performing Brazil, na Universidade de Wisconsin, Madison, não pode passar em branco. Talvez eu me lembre de colóquios de estudos culturais tão bons como esse. Melhores, duvido. Os Profs. Severino Albuquerque e Kathryn Sánchez, além de impecáveis na organização, tiveram a ótima idéia de convidar oito "keynote speakers", abrir um call for papers e, depois de seleção bem feita, montar um programa coerente. Nada que lembrasse os arrazoados em que se transformam os congressos que privilegiam a quantidade. Foram 2 dias de maratonas de 10 horas de banquete intelectual – pontuadas por almoço com cardápio à brasileira, da melhor qualidade, e concluídas à noite com visitas aos excelentes restaurantes de Madison que, além de tudo, servem cerveja local que ombreia com as melhores do mundo.

Contar tudo é impossível, mas aqui vão meus destaques:

Uma incrível apresentação de Bryan McCann, autor do premiado Hello, Hello Brazil: Popular Music in the Making of Modern Brazil, sobre a era do rádio. Sem um único pedaço de papel, demonstrando só com o iPod e a gaita, Bryan examinou desta vez as pouco estudadas raízes da bossa nova no blues. Foi montando uma história alternativa da bossa nova para além da tríade Jobim-Gilberto-Vinícius, com fantásticos exemplos musicais como Horace Silver (née Horácio da Silva, para quem não sabe). Bryan ainda deu, de gorjeta, a melhor explicação da famosa flatted fifth (quinta bemolizada) que já vi. Foi um show de historiografia e análise musical.

Apresentar depois de um cara desses é um pesadelo, mas meu brother e colega daqui de Tulane, Christopher Dunn, entrou e deu outro show: um passeio pelas paródias e brincadeiras visionárias de Tom Zé com o tema do cidadão e da cidadania. Entre os exemplos musicais, “São, São Paulo” no festival da canção e uma performance recente, dos anos 90, de “Identificação”, no Teatro Vila Velha em Salvador, tão inesquecível que é realmente um crime que Chris não tenha subido a joça ao Youtube ainda.

A turma de estudos de música que veio era da pesada e não terminava aí: Jason Stanyek, de Nova Iorque, com gravações de entrevistas e demonstrações musicais, mapeou o já vasto terreno do samba nos EUA. Passou por figuras como Jorge Alabe e Curtis Pierre – ambos com trajetória aqui em New Orleans – e demonstrou, com a competência de musicólogo que também é compositor, as mutações do suíngue (esse curioso monossílabo inglês que os brasileiros transformamos em trissílabo) na diáspora tupinambá daqui. De quebra, Jason emplacou uma bela elaboração do conceito de groove e exibiu um daqueles vídeos de Jorge Alabe em que se tem sensação de que há uma orquestra percussiva tocando. Outra apresentação de babar.

Daniel Sharp, mestre em música com dissertação sobre o mangue beat e doutor com tese sobre a música de Arcoverde, foi de Assis Calixto ao revolucionário Cordel do Fogo Encantado. Com super conhecimento de causa (Dan já virou até nome de crepe por aquelas bandas), deu aula magistral sobre a música do portal do sertão pernambucano.

Outro ponto alto foi a mega revisão da obra de Nelson Pereira dos Santos por Darlene Sadlier, permeada por clips bem escolhidos, que foram tecendo um belo painel da obra de Nelson e me encheram de vontade de rever os filmes que já vi ou assistir àqueles que ainda não conheço. Rebecca Atencio fez uma leitura fina de uma peça que levanta todo tipo de problemas ético-estéticos: Lembrar é resistir, encenada nas dependências do DOPS em SP e ambiciosa (alguns diriam invasiva) em sua manipulação da tour que recebe a platéia pelos corredores do horror.

O encerramento foi uma palestra memorável de uma das maiores críticas teatrais brasileiras (senão a maior), Silvana Garcia, que nos brindou com uma visita direto de São Paulo. O tema foi o Oficina, sobre o qual aprendi tudo o que sempre quis saber. Silvana fechou com chave de ouro, exibindo um clip de vinte minutos dessa maratona orgiástica que é a montagem do Zé Celso Martinez Corrêa d’ Os Sertões, de Euclides.

Quando alguém lhe disser que os brasilianistas dos EUA só fazem estereotipar e repetir clichês, sugira uma rápida visita às obras dessa turma e àquelas dos vários outros listados no programa que eu não citei.

Houve muito mais. Não seria exagero dizer que jamais aprendi tanto sobre música e teatro em dois dias. Severino e Kathryn, obrigado. Aos alunos de Wisconsin, especialmente às alunas do seminário de literatura contemporânea da Prof. Ksenija Bilbija, com as quais bati longo papo, aquele abraço pela hospitalidade.

Eu disse que as cervejas de Madison são incomparáveis? Quando for, não perca a Capital Amber e não deixe de ir ao Great Dane. Não perca tampouco um restaurante leste-africano, o Buraka. É isso. Valeu mesmo, Madison :-) Numa semana trágica para a universidade americana, foi inspirador ter o outro lado da moeda em grande estilo.

PS: O camarada Flávio Prada convida para um exercício de reflexão ecológica, inspirado pelo Faça sua parte. Todo apoio cá deste humilde.



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quarta-feira, 11 de abril 2007

Meme das pedras de toque

cartola.jpg O Paulo Roberto Pires, do bom blog Toca Tudo, fez um post recordando um livro do José Lino Grünewald, que colecionava algumas das “pedras de toque” da poesia brasileira: imagens que condensam um universo poético, resumem a obra de um autor, dizem mais que o aparente à primeira vista. Daí o Paulo propôs as “pedras de toque” da letrística da música brasileira popular para ele; os leitores acharam várias outras, muito boas.

Vamos roubar a brincadeira deles? Aí vão algumas das minhas:

Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor
(Nélson Cavaquinho / Guilherme de Brito / Alcides Caminha, “A Flor e o Espinho”)

Cuidado Saci, cuidado com a toca
Treine bem e não se compromete
Pois esta aposta consiste
Em que você ande
Pelo sítio de patinete

(Jorge Ben, “Sasaci Pererê” - é puro Ben essa estrofe!)

Matou o ciúme que mata
Negou a mentira da nêga
Cantou o remorso num canto
Guardou o seu anjo-de-guarda
Chamou a doideira da chama

(João Bosco / Aldir Blanc, “Escadas da Penha” – parte B, depois da reviravolta)

E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo
E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o molambo ficou lá
Molambo eu, molambo tu

(Chico Science / Fred 04, “Rios pontes e overdrives”)

Aconteceu um novo amor
Que não podia acontecer
Não era hora de amar
Agora o que vou fazer?

(Dorival Caymmi, “Não tem solução”)

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão

Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho

(Orestes Barbosa, “A mulher que ficou na taça” - adoro esse pseudo-parnasianismo do samba dos anos 30. Cartola foi o mestre disso).

O meu cartão de crédito é uma navalha

(Cazuza / Nilo Romero / George Israel, “Brasil”)

Vou me desacorvardar dizendo não
A um coração que fez só desagasalhar
Quem o abrigou

(Cartola / Hermínio Bello de Carvalho, “Labaredas)

Diga lá, leitor, quais são as suas pedras de toque na música brasileira popular?



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sábado, 07 de abril 2007

Resposta de Paulo Cesar de Araújo a Roberto Carlos

Seis semanas atrás, uma absurda decisão judicial ordenou a retirada de circulação do livro Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo. Considerando-se a minúcia, o afeto e o rigor da obra do historiador baiano, a infeliz decisão da 20 Vara Cível do Rio de Janeiro representa um golpe sem precedentes na liberdade de pesquisa e de expressão no Brasil.

Neste sábado, Paulo Cesar se pronunciou publicamente sobre o assunto pela primeira vez, e o fez num belo texto: Roberto Carlos precisa de um Tony Blair, publicado na Gazeta Mercantil. É leitura indispensável.

O blog reitera o apoio ao Paulo Cesar e pede encarecidamente ao leitores que não percam de vista os desdobramentos deste episódio.

Atualização: Carla Rodrigues me avisa que o link fornecido no post está levando a outro texto. Pelo jeito, a Gazeta Mercantil ainda não chegou à era do permalink, pois quando da confecção do post o link levava ao lugar certo. Para facilitar, copiei e colei o texto aqui na caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 05:15 | link para este post | Comentários (19)



domingo, 25 de fevereiro 2007

A última asneira da justiça brasileira

roberto.jpg O festival de absurdos dos tribunais não tem fim. Depois da condenação ao Imprensa Marrom (por um comentário anônimo num post velho de seis meses!), da condenação a Emir Sader (por chamar de racista um senador que declarou, jubilante, que agora ficaríamos livres dos petistas, “esta raça”), da condenação a Alcinéa Cavalcanti (por uma charge de um senador publicada num blog) e do universalmente ridicularizado bloqueio ao YouTube (por um único vídeo que exibia uma modelo fazendo sexo na praia), eis que chega a última pérola do judiciário brasileiro: O juiz Maurício Chaves de Souza Lima, da 20ª Vara Cível do Rio de Janeiro, determinou que sejam interrompidas publicação, distribuição e comercia