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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 23 de dezembro 2010

Na Revista Fórum: Pernambuco como paradigma do potencial cidadão da música

O Partido dos Trabalhadores governa Recife há uma década: João Paulo Lima e Silva cumpriu dois mandatos (2001-2008) antes de dar lugar a João da Costa Bezerra Filho (2009-13). Precavendo-se sempre contra o estabelecimento de relações mecânicas entre os fatos da política e os fatos da cultura, não é exagerado dizer que essas três eleições de petistas à prefeitura se inserem num programa mais amplo de reconquista e reinvenção da cidadania em Pernambuco, no qual a música — a espantosa riqueza da coleção pernambucana de sons, uma enormidade até para padrões brasileiros — tem cumprido um papel decisivo, colocando em contato a produção das camadas mais jovens com os gêneros da tradição, dando circulação e visibilidade à cultura afro-pernambucana (com todo o peso político que tem esse ato) e estabelecendo pautas para a reconquista da autoestima da cidade. Esta coluna é uma breve introdução ao que vejo como a dimensão cidadã de algumas sonoridades pernambucanas.



Continue lendo a minha coluna do mês na Revista Fórum e volte aqui se quiser comentar ou compartilhar um link de música de Pernambuco.



  Escrito por Idelber às 03:46 | link para este post | Comentários (9)



sábado, 06 de novembro 2010

Orquestra Contemporânea de Olinda e a música pernambucana como realização antropofágica

50236_133745751391_1667_n.jpgJá há duas décadas, Pernambuco tem sido o mais fértil caldeirão de hibridismos musicais do Brasil. Não se trata de que você não pudesse perfilar argumentos fundamentando a riqueza sonora de várias outras comarcas, do Rio ao Pará, passando por Bahia, Minas e Maranhão. Mas tem sido em Pernambuco, acredito, que a combinação feliz entre ritmos, melodias e instrumentações de gêneros distintos, de origens sociais, regionais e étnicas diferentes, tem se dado com mais frequência e acerto. Há uma impressionante artéria de comunicação entre o local e o global no polo Recife/Olinda, estendendo-se para dentro do estado sem perder a densidade. Desde o Mangue Beat (que eu prefiro entender como uma constelação de cenas, e não como um “movimento”), passando pelo notável renascimento do maracatu entre músicos mais jovens ou pelo diálogo frevo-jazz ou pelas várias releituras recentes do forró, Pernambuco tem dado uma aula de antropofagia oswaldiana, mostrando que a base musical da cultura brasileira é tão forte que nada tem a temer ante a deglutição de quaisquer sons de outras latitudes. Todos os outros sons lhes servem, nada do que é humano lhes é estranho.

Neste baú de profundidade aparentemente infinita, um lugar de destaque cabe à Orquestra Contemporânea de Olinda.

Idealizada pelo percussionista Gilú, a Orquestra reúne duas grandes turmas: a banda que vinha de experimentos como o Bonsucesso Samba Clube e Orchestra Santa Massa, e o conjunto do Grêmio Musical Henrique Dias, que é a primeira escola profissionalizante de frevo de Olinda, fundada em 1954. Da primeiro grupo, saíram Tiné (vocais e efeitos), Maciel Salú (filho do grande Mestre Salustiano, vocais e rabeca), Hugo Gila (Baixo), Rapha B (Bateria) e Juliano Holanda (guitarra). Comandada pelo Maestro Ivan do Espírito Santo (flauta, sax alto, barítono e tenor), a turma do Grêmio incluía também os metais de José Roque (trompete), Ibraim Genuíno (trombone) e Alex Santana (Tuba). A base é um encontrão entre o frevo e o jazz (e o funk), mas a Orquestra Contemporânea de Olinda também tem um pé na eletrificação suingada do samba realizada por Jorge Ben no começo da década de 60, como é audível em “Ladeira”:



(clique aqui para ver o clipe de “Ladeira”).


Pois bem, onde, no Brasil, um grupo oriundo da primeira escola profissionalizante de um ritmo regional poderia se encontrar, se unir, ombro a ombro, com a garotada das guitarras e baixos que fazia/ escutava rock e funk? A resposta correta é em qualquer lugar, evidentemente, porque a música brasileira é o nome da nossa inscrição na eternidade: com ela, o impensável pode acontecer, sempre, no lugar em que menos se espera. Mas em Pernambuco sucede algo desta ordem, da esfera do encontro musical inusitado e feliz, a toda hora, como que a cada esquina, há mais de vinte anos. É inacreditável.

Todo um estudo poderia ser feito das mil e uma reapropriações da rabeca na música jovem pernambucana. A exemplo de outras bandas das últimas décadas, a Orquestra Contemporânea de Olinda integra a rabeca na textura do som, indo bem além da introdução e do ocasional solo. O melhor exemplo é “Balcão da Venda”, que deixo em bela execução ao vivo, no Festival de Inverno de Garanhuns:




Como se sabe, vir a New Orleans e deixar boquiaberto um público acostumado à excelência musical não é para qualquer Zé Ruela. Imagine um forasteiro pandeirista no Rio, contista em Minas Gerais ou chef na cidade de São Paulo. Não é matéria simples. Sem as condições ideais de apresentação (por exemplo, forçados a tocar num auditório pequeno, com um público universitário em poltronas), pode até ser temerário, razão pela qual eu cheguei a ficar apreensivo antes da apresentação da Orquestra em maio último. A minha suspeita durou cerca de dois minutos.

Na primeira canção, o público já estava atônito com a variação rítmica e as sucessivas surpresas melódicas. Ao cabo de dez minutos, já não restava muita gente sentada. Depois de meia dúzia de frevos recheados de sonoridades latinas e afro-atlânticas, o auditório explodia naquele frenesi que, para qualquer expatriado, em fugaz momento que seja, produz o engasgo de orgulho e agradecimento pelo destino de ser cidadão de um lugar onde se faz música assim. A Orquestra Contemporânea de Olinda saiu ovacionada, claro, e papeou com os novos fãs longamente antes de sair para a noite de New Orleans, onde ainda curtiram uma legítima banda de metais nova-orleaniana, essa prima em primeiro grau das orquestras de frevo. Deixaram saudades por aqui Gilú, Maciel Salú e cia.

Você encontra a Orquestra Contemporânea de Olinda no MySpace, no Facebook e no Twitter. Se está em Natal, se ligue: eles tocam aí hoje à noite. No próximo dia 12, eles voltam a se exibir em casa, na Fliporto de Olinda. Não há como recomendar um show com mais ênfase que aquela que este blog reserva para o estrondo sonoro que é a apresentação ao vivo da Orquestra. Não morra sem ver.

PS: Ao longo destes anos de (mini)pesquisa sobre a música de Pernambuco, muitas pessoas de lá me ajudaram. Mas a Ana Garcia, do lendário projeto multimídia Coquetel Molotov, merece um agradecimento especial, pela orientação e generosidade em Recife.



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (24)



sexta-feira, 13 de agosto 2010

Pato Fu, Música de Brinquedo

Como é que ninguém tivera essa ideia antes? Escolher um grupo de canções “adultas” (mas com algum apelo infantil, em geral na melodia), juntar instrumentos de brinquedo—pequeno set de bateria, baixo, piano, guitarra, xilofone, mas também autoramas, bichinhos de pelúcia, joguetes eletrônicos de primeira geração--, explorar as possibilidades deles, amplificar a bagaça, convidar um par de crianças e daí produzir versões dessas músicas: é a proposta do Música de Brinquedo (2010), décimo disco de estúdio do Pato Fu, banda mineira na ativa desde 1992. O Pato Fu é Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Lulu Camargo. John, guitarrista, é veterano da vanguarda roqueira belo-horizontina dos anos 80 e ex-integrante do Sexo Explícito. Fernanda é vocalista que já deixou marca na música brasileira popular de hoje.

Em Música de Brinquedo, essa espécie de viagem gulliveresca produz situações insólitas, como a de um microfone ser duas vezes maior que o amplificador do contrabaixo. A brincadeira é o aprendizado do som possível com aqueles instrumentos, acrescidos de sons de outros brinquedos. Um texto de John Ulhoa explica a concepção do disco:

A ideia pareceria absurda há poucos anos. No entanto, desde o CD Daqui Pro Futuro (2007) começamos a flertar com sons de caixinhas de música, realejos, pianos de brinquedo… Em algumas de minhas produções recentes usei muitos desses instrumentos, muitos comprados como presente à nossa (minha e de Fernanda) filha de 6 anos, mas que acabavam invariavelmente na frente de um microfone na sala de gravação do estúdio que temos em casa.

Um projeto como esse é mais complicado que um disco comum. A começar pelos próprios instrumentos. Não só são mais difíceis de se tocar, mas também de se encontrar. Nem todos os instrumentos de brinquedo são “tocáveis” e separar as tranqueiras das verdadeiras jóias é uma empreitada e tanto. Bastante pesquisa foi feita em lojas, oficinas artesanais e sites. Eu, por exemplo, em qualquer viagem que fiz nesse período, voltava com a mala cheia de cornetas de plástico, tecladinhos eletrônicos baratos e qualquer tipo de traquitana que pudesse fazer um som e tivesse um apelo infantil.

Mas esses arranjos de brinquedo teriam um efeito muito mais potente se aplicados a canções conhecidas. Aí é que estava a graça, que ficou muito clara quando fizemos “Primavera”: colar essa sonoridade em clássicos do pop, recriar todas as frases melódicas de músicas que não fossem só conhecidas, mas que tivessem arranjos emblemáticos. O que procuramos é o prazer de ouvir velhas canções adultas em seus arranjos originais, tirados praticamente nota por nota, só que com instrumentos de brinquedo. E assim fizemos. Descobrimos quais seriam estas canções. Foi mais difícil do que a gente pensava. Eram muitos os pré-requisitos que as candidatas tinham que trazer. Mas estão aí, e estamos muito orgulhosos de como ficaram ao final.

Entre as várias faixas possíveis, ficam aí como aperitivos as escolhas do blog das versões do Pato Fu (e crianças) para “Live and Let Die”, de Paul e Linda McCartney:

e Primavera (Cassiano e Sílvio Rochael), nesta com o adendo de que se você foi criança nos anos 80 é possível que reconheça algum brinquedinho aí:

Está no YouTube também o Making of (Parte 1 e Parte 2), que é uma graça.

O que Pato Fu realiza aqui não é bem "música para crianças", mas música adulta que convida adultos a uma audição infantil, encantada: o tipo de coisa de que muitas crianças costumam gostar também. É um marco entre os lançamentos de 2010.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 15 de julho 2009

Machado de Assis e a música: "O machete"

machado_de_assis.jpgO Machete foi, durante mais de um século, um conto praticamente desconhecido na fortuna crítica de Machado de Assis. Nos últimos anos, a partir de um trabalho de José Miguel Wisnik, da nova antologia editada por John Gledson e de umas tutameias que eu também andei fazendo, o relato ganhou certa circulação. Note-se a ironia de que este conto, que narra a dissolução de uma família, foi publicado ... no Jornal das Famílias! Não é genial? A data é 1878. Machado escolhe não incluí-lo em Papéis avulsos (1882) nem em qualquer outra de suas antologias. Por que, se o conto é danado de bom? É impossível saber, claro, mas gosto de brincar com a hipótese de que a representação debochada de um dos primeiros cornos de nossa prosa de ficção e a associação explicita da sexualidade com a música popular tenham feito dele um relato perturbador demais.

A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.

Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.

Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:

- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.

Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.

A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte. maxixe.JPG

Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.

Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.

Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.

Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.

Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.



PS: No Consenso só no Paredão, vai rolar hoje também a conversa sobre Extinção, de Paulo Arantes.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



segunda-feira, 15 de junho 2009

Wilson Simonal e o revisionismo histórico da "ditabranda"

simonal-4.jpgEstá em curso um bizarro revisionismo da música e da política dos anos 60/70, segundo o qual o Pasquim e a esquerda teriam tido poder suficiente para canonizar e destruir ícones da cultura brasileira. É o mundo ao revés. O passado é reescrito como se Jaguar e Chico Buarque, e não Médici e Geisel, tivessem comandado a nação. O mote, evidentemente, é o documentário Ninguém sabe o duro que dei, uma recuperação da figura de Wilson Simonal. A história é danada de complexa, muitos mitos a cercam e há vários interesses em jogo – a maioria deles tendo pouquíssimo a ver com Simonal. Quando Reinaldo Azevedo recomenda um filme como uma aula de história brasileira, é bom ficar de olho.

O documentário não é exatamente desonesto no que diz. Mas ele se presta a uma leitura capciosa, especialmente naquilo que não diz. Sem dedicar ao tema semanas de preparação e pesquisa, eu seria incapaz de fazer algo tão espetacular como o post do Samurai no Outono. Por isso eu havia prometido não falar do filme aqui. Mas como promessas em blog foram feitas para serem quebradas, lá vou eu. O Samura já demoliu, com o martelo da razão crítica e do conhecimento histórico, a baboseira que está se armando em torno desse filme. Tomem este post, portanto, como um humilde apêndice ao Samura. Concordo com tudo que está lá e vou acrescentar dois centavos. A necessidade de fazê-lo me foi confirmada outro dia no Twitter, onde dois interlocutores – que me davam a nítida impressão de não terem visto o filme – me martelavam sem qualquer argumento a cantilena que já virou lugar comum: “o patrulhamento da esquerda destruiu a carreira de Simonal”.

Até quem não acompanha a história da música brasileira já conhece o resumo da ópera: Simonal, negro talentoso e carismático, cantor de extraordinários recursos, mestre na divisão rítmica e no suingue, debochado e desafiador, sobe vertiginosamente na preferência popular ao longo da segunda metade dos anos 60, até que em 1971 protagoniza o episódio que mudaria sua vida. Tendo perdido o contrato que realmente lhe dava grana – o da Shell, engavetado depois que Simona fizera o presidente da multinacional esperar no aeroporto durante uma hora e meia enquanto ele dormia --, se dá conta de que os Mercedes, as farras e as noitadas não eram financiados com dinheiro infinito. Descobre-se quebrado. Acusa o contador e contacta meganhas, um deles ligado ao DOPS, para dar-lhe um cacete. Enhanced interrogation techniques, diz o Samura com ironia. Simonal promove uma sessão de tortura em seu contador no DOPS. Quando o contador lhe processa e ele é levado à delegacia para depor, tenta se safar com o conto de que “era um deles”, de que era “um homem do regime”. Daí em diante, está armado o circo para que entre a esquerda má, feia, bobona (e poderosa) que teria transformado Simonal em “dedo-duro”. Que Simonal nunca foi delator do regime é o óbvio do óbvio. Mas isso não quer dizer que você possa entender essa história sem entender a relação entre a música popular e a ditadura daquele momento. Antes disso, claro, dois fatos se impõem: 1) a origem do mito do "dedo-duro" é uma história inventada pelo próprio Simonal no momento do arrego; 2) o assunto foi amplamente tratado pela imprensa antes que o Pasquim iniciasse seu sarro. Isso fica claro no próprio filme.

Analisar um documentário é, antes de tudo, dissecar a relação a câmera e o representado. Quem viu o filme se lembra: os depoimentos de Chico Anysio são gravados em close-up horizontal, quase num tête-à-tête com o espectador. As piadas vão se encarregando de criar a cumplicidade, mas não escondem a pergunta que não quer calar: não seria outro Chico o que deveria estar ali? É bizarro o recurso a Chico Anysio para fundamentar a hipótese do filme, sendo ele, afinal de contas, o autor das frases Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi o Barbosa, de triste memória, enunciados tão mais odiosos quanto mais nos lembramos – coisa sabida por qualquer bom vascaíno – que Barbosa foi um dos maiores goleiros da história do ludopédio. A primeira frase é odiosa e a segunda, evidentemente, é falsa. No entanto, seria demais esperar que Chico Anysio respeitasse as glórias de, por exemplo, Mão de Onça ou Dida. Simonal-2.jpg

Mas tergiverso, como diria meu mestre Inagaki. Voltemos ao filme.

Os depoimentos de Toni Tornado já são gravados em close-up diagonal, com a câmera em plano superior ao representado. Curiosa escolha. Diminui-se a imensa figura de Toni. Esse, claro, foi um negão que incomodou bastante o regime. Tornado tinha uma relação muito mais orgânica que Simonal com a tradição de luta negra expressa no soul norte-americano. Ficou famosa sua apresentação de "BR-3" no quinto Festival Internacional da Canção, inspiradíssima em James Brown. A ditadura chegou a temer que Tornado reeditasse os Black Panthers por aqui. Fala-se muito da composição de Simonal e Ronaldo Bôscoli em homenagem a Martin Luther King. Ora, o próprio fato de que um reacionário como Bôscoli pudesse compô-la indica que o processo de domesticação da figura do Doutor King já se iniciara. Mas no revisionismo em curso, um tributo a King passa como se fosse um tributo a Malcolm X, um escândalo do indizível. Não o era. Leiam a tese de Eduardo de Scoville, já recomendada pelo Samura. O fato é que o trabalho da câmera sobre Tornado sublinha a impotência do personagem com sua negação: puxa, não dá para imaginar Simonal como dedo-duro...

Mas é no depoimento do neoanaeróbico Nelson Motta que o filme realiza sua operação ideológica. Ao contrário do que ocorre na filmagem de Toni Tornado, as tomadas de câmera que nos oferecem as peroratas de Motta são feitas de baixo para cima, magnificando o personagem, que tem atrás de si, além do mais, uma imponente coleção de CDs e uma réplica da emblemática obra de Hélio Oiticica, que traz o bandido Cara de Cavalo morto, com a legenda Seja marginal, seja herói. Dá-lhe ideologia subrreptícia. Oiticica, evidentemente, se revira no túmulo.

O fato importante aqui é que Nelson Motta, com a autoridade de quem foi testemunha ocular e ainda é o maior repositório de fofocas da MPB das últimas décadas – autoridade, reitero, também construída pelo trabalho da câmera --, empresta legitimidade à ficção do mártir perseguido. Juntamente com muitos fatos inegáveis, vem uma boa dose de distorção e manipulação. Motta chega a afirmar que a explosão de Simonal no final dos anos 60 representou a chegada do primeiro pop star negro na música brasileira fora do samba. Curioso, né? Eu achava que Jair Rodrigues era negro. Lembremos que o estouro de “Disparada”, na voz de Jair, acontece em 1966 – vai ver que para os tímpanos Zona Sul de Motta, “Disparada” é um samba. Omito, claro, o primeiro grande astro pop da música televisionada no Brasil, o negro Jackson do Pandeiro, que embalou corações e quadris com seu programa nos anos 50. Afinal de contas, seria demais esperar que Motta, em seu leblonismo, conseguisse imaginar arte musical brasileira anterior à Bossa Nova. É a vejificação da história da MPB, em ritmo acelerado.

Wilson%20Simonal%20-%20Tem%20Algo%20Mais%20fr.jpgSe formos analisar em detalhes a música brasileira na virada dos anos 60 para os 70, aí é que a hipótese revisionista desaba de vez. Simonal era um grande artista, não há dúvidas. Talvez só o já citado Jackson fosse tão bom como ele na divisão rítmica vocal. O carisma era inegável. Mas a discussão aqui não gira em torno do talento, mas do lugar do artista num momento histórico. Simonal passa ao largo do grande embate que ocorre na música popular brasileira no final dos anos 60: o choque entre a música acústica de protesto emblematizada por Geraldo Vandré (o que se chamava, entre 1966 e 1968, de MPB, sigla que tinha na época um sentido bem diferente, mais nacionalista, daquele que adquiriria nos anos 70) e, por outro lado, o tropicalismo, que resgatara uma vocação cultural no iê-iê-iê da Jovem Guarda, canibalizando o vasto repertório do pop internacional. Aquele embate se resolve rapidinho. Poucas vezes na história da cultura brasileira um choque entre duas tendências é saldado de forma tão categórica com a vitória de um lado. Os tropicalistas comem Vandré e cia. já no café da manhã. A vitória é total e completa, e definidora dos rumos que tomaria a música brasileira. Já em 1970 não era heresia enfiar guitarra elétrica onde fosse. Sugerir que a esquerda populista musical tivesse, em 1971, força suficiente para derrubar alguém é de um cinismo inominável, vindo de quem sabe algo sobre a história – e de ignorância útil lamentável por parte de quem a desconhece. No caso de Reinaldinho, é ignorância e cinismo.

Resgatemos Simonal? A pergunta não faz o menor sentido para aqueles que, como eu, lhe dedicam ouvidos atentos há anos. O problema com o bafafá em torno do documentário é que em vez de sugerir audição à obra do artista, ele acaba traficando revisionismo mentiroso. Repito: não há mentiras no filme. Mas ele se presta a ser embrulhado com ideologia bolorenta. Aquele que muitos de nós consideramos o melhor disco de Simonal, o S'imbora, de 1965, contém canções de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Garoto, Geraldo Vandré, Marcos Valle. Esta não é exatamente uma lista de artistas “patrulhados pela esquerda”. Comparem-no com o disco de 1972, já em fase de produção na época da coça no contador e, portanto, não atingido de forma nenhuma pela suposta “demolição” feita pela esquerda má, feia, bobona e poderosa. A faixa título é uma composição do intragável Ivan Lins. Antes de chegar ao final do lado 1 do LP, você tem que suportar “Mexerico da Candinha”. I rest my case. Ouçam os discos feitos ao longo de década de 70 e comparem-nos com as pérolas anteriores, não ao cacete no contador, mas à vitória tropicalista, que já acontecera, categórica, em 1968.

Mais além do fato de que fez discos ruins nos anos 70 e passou ao largo dos rumos da música nacional daquele momento, é evidente que Simonal foi boicotado. Contribuiu a isso o fato de Simonal ser um negro de cabeça erguida, debochado, que esfregava seu sucesso na cara do establishment branco? Parece-me evidente que sim. Só afirmaria o contrário alguém como Reinaldinho, que nega a existência do racismo brasileiro, o mesmo ao qual agora ele se agarra como hipótese interpretativa para demonizar a esquerda. Mas peralá: quem eram as figuras com inserção nos meios de produção musical e, portanto, com algum poder de reverter o ostracismo de Simona? Os mesmos Mottas e Mieles que agora emprestam legitimidade para que os Reinaldinhos reescrevam – sem saber nada de música – a história da canção brasileira como se esta tivesse sido sufocada pela esquerda amordaçada dos anos 70.



PS: Aí vai mais um toque aos amigos cariocas: amanhã, terça-feira, dou palestra intitulada "Direitos humanos e vida nua", no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ), que fica no Largo de São Francisco, 01. A falação acontecerá na Sala 411, a partir das 10:30 da manhã. O agradecimento pela organização do evento vai para o Professor Cesar Kiraly.



  Escrito por Idelber às 07:19 | link para este post | Comentários (131)



terça-feira, 09 de junho 2009

Links, rumo ao Rio

O post de hoje traz links sobre vários temas e, no final, duas notinhas de interesse para os cariocas.

Em primeiro lugar, música:

blake-1.jpg Esta dica você leu aqui primeiro: conheça o dirty samba soul de meu amigo e extraordinário músico Blake Amos, que acaba de lançar seu primeiro CD, The Manifesto. Blake é artista formado por uma combinação que não pode dar errado: New Orleans + Bahia + São Paulo + Nova York + Bangkok. É o gringo mais brasileiro que conheço. Se você está em Nova York, não perca os shows de Blake. Se está no Brasil, fique atento para as constantes vindas do artista pra cá. No site de Blake dá pra ouvir um bom naco do CD. Para comprá-lo, clique aqui. Confira a faixa “Check the Sound”, canção que vi nascer. Puro suingue.


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Passei a noite ouvindo Balangandãs, o belíssimo CD que acaba de lançar uma de minhas cantoras favoritas de todos os tempos, Ná Ozzetti. Ela resolveu revisitar clássicos do samba com arranjos clean, mas sem as diluições “de bom gosto” que às vezes se vê em releituras do gênero. No repertório, pérolas que todo mundo conhece: “Tico-tico no fubá”, “Touradas em Madri”, “Camisa listada”, “A preta do acarajé”. O ponto alto do disco, pra mim, é “Na batucada da vida” (Ary Barroso/ Luiz Peixoto), em que a voz de Ná e o violoncelo de Mário Manga dão um show todo especial. Disco recomendadíssimo pelo Biscoito.

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O Samurai simplesmente matou qualquer chance de eu escrever acerca do documentário sobre Wilson Simonal. Está tudo dito ali. O post é coisa fina, de quem conhece a matéria. Não há nada que acrescentar ao texto do Samura.

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Futebol:

Este blog continua rigorosamente silencioso sobre o ludopédio. Pra não dar azar.

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Cultura:

Saiu o último número da revista argentina Todavía. Há uma coisinha minha sobre heavy metal, que o leitorado do blog já conhece, mas que ainda não havia circulado no mundo hispânico, onde o Sepultura tem enorme público.

Recomendo com muita ênfase, nesse número, o artigo do escritor argentino Aníbal Jarkowski sobre a leitura. Gosto de quem discute as condições atuais do ensino de literatura sem moralismos, sem pânico com as novas tecnologias, sem a bobagem apocalíptica de que hoje as pessoas leem menos. Vale lembrar que Jarkowski é autor de um grande romance, El trabajo.

Ainda no número 21 da Todavía, os profissionais do Direito apreciarão, acredito, o artigo de Roberto Gargarella, Professor de Direito Constitucional da UBA, sobre as novas constituições da América Latina.

Sei que muitos não gostam quando exagero na argentinofilia, mas se existe alguma revista brasileira comparável à Todavía, me avisem, porque eu não conheço. Perto dela, as Cults e Bravos! da vida ficam parecendo redação de vestibulando. O paralelo que encontrei outro dia com meus amigos blogueiros belo-horizontinos foi: comparar a cultura letrada argentina com a cultura letrada brasileira é mais ou menos como comparar a percussão brasileira com a percussão argentina. E tenho dito.

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Política:

A ideia era não falar da dita cuja hoje, mas não posso deixar de linkar o petardo que enviaram Cláudia Cardoso e Eugênio Neves à ANJ. Pronto. Falei.

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Academia:

O blogueiro zarpa amanhã para a Maravilhosa Inigualável. Começa na quinta-feira, na PUC-RJ, o congresso internacional da Latin American Studies Association. Se você mora no Rio, tem horários livres durante o dia e interesses intelectuais de qualquer tipo, em qualquer disciplina – da agronomia à crítica de arte --, não deixe de passar lá na PUC. Seguindo o link, dá pra ver a imensidão que é o programa. O trotskista atleticano que assina este blog apresenta dois trabalhos. O primeiro é numa mesa-redonda que organizei a pedido da própria LASA (e que inclui o blogueiro Mauricio Santoro), sobre o diálogo entre o Brasil e o Cone Sul. Ela acontece na quinta-feira, às 17:00, na L-454, Leme. O segundo é na mesa “The Art of Human Rights in Latin America”, onde apresento na sexta, às 17:00, na K-103, Kennedy (você não encontrará meu nome nessa mesa, mas estou lá; é que atrasei a anuidade). Falo em português em ambas mesas, evidentemente. A primeira é bilíngue português / espanhol. A segunda é bilíngue português / inglês. Acontece tudo lá na PUC.

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Pensei em convidar os leitores do blog e os amigos blogueiros cariocas para um chope na quinta-feira à noite. Que tal? Digamos, lá pelas 21:30. Teria que ser, claro, num lugar grande (a Cobal do Humaitá?). Pode ser que apareçam os 10 ou 15 amigos do peito que tenho no Rio, e pode ser que apareça muito mais gente, já que estou anunciando no blog. Decidam aí onde é melhor. No momento em que decidirem, eu atualizo o post confirmando.

Atualização: Está confirmado o chope para às 21:00 na Cobal do Humaitá, nesta quinta.



  Escrito por Idelber às 06:16 | link para este post | Comentários (42)



sábado, 02 de maio 2009

Cem anos de Ataulfo Alves!

Ataulfo Alves completaria hoje cem anos. Filho de sanfoneiro e repentista, nasceu na Zona da Mata em 02 de maio de 1909. Emblematicamente, foi o primeiro negro a entrar no clube chique da sua Miraí natal, numa homenagem feita já nos anos 60, duas décadas depois de sua consolidação como grande compositor do samba. Espero que a elite pensante do interior de Minas aproveite a data para refletir um pouco sobre sua história. Não é nem necessário dizer que, quando a homenagem foi feita, Ataulfo já era o filho mais famoso da história de Miraí.

Não há muito o que dizer sobre seu centenário depois do post magnífico de Laura Macedo. Não deixem de ler. Há também uma breve biografia no mpbnet. O que acrescento aqui são meus dois centavos.


Uma das únicas aparições de Ataulfo na televisão:


A genialidade musical de Ataulfo é uma das pontes que une o samba amaxixado dos anos 20 ao que se convencionou chamar de samba “sincopado” ou “samba do Estácio” nos anos 30. Ele foi um dos primeiros a estabelecer um verdadeiro paradigma na cultura brasileira: a migração de mineiros ao Rio, onde eles invariavelmente se convertem em figuras nacionais. Aconteceu com Drummond, Ary Barroso, João Bosco, Milton Nascimento, Fernando Sabino, Clara Nunes, Hélio Pellegrino e muitos outros (eu já disse isso aqui: Minas-Rio e Nordeste-São Paulo são os dois fluxos migratórios sem os quais você não entende a cultura popular brasileira do século XX).


Com seu inconfundível arranjo de cordas, os Novos Baianos revisitam "Na cadência do samba":


Apesar de sintetizar a essência do samba carioca de seu tempo, Ataulfo manteria algo “mineiro” em sua música. Um jeitim, uma certa nostalgia e, inclusive, arrisco eu, uma certa forma de harmonizar.


A atleticana eterna, a maior de todas, fez uma releitura bluesy de "Na cadência do samba":


Pouca gente sabe disso, mas Ataulfo é componente fundamental da pré-história das escolas de samba. Foi diretor de harmonia do “Fale Quem Quiser”, em 1928, logo depois de chegar ao Rio. O “Fale Quem Quiser” foi um importante bloco ali no Rio Comprido.


A bonita voz de Ataulpho Alves Jr., cantando o pai:


A lista de clássicos é longa: Almirante gravou “Sexta-feira”. Logo depois, Carmen Miranda emplacou “Tempo perdido”. Em seguida, Floriano Belham gravou o primeiro sucesso de Ataulfo, “Saudade do meu barracão”. As mui famosas viriam depois. Ele foi co-campeão dos carnavais de 1940 e 1941, com “Oh, seu Oscar” e “O Bonde de São Januário”. Daí em diante, foi uma sucessão caýmmica de clássicos: “Ai, que saudades da Amélia” (com Mário Lago), “Mulata assanhada”, “Na cadência do samba”. Seu último grande sucesso foi “Laranja madura”.


Conexão alvi-negra New Orleans-Minas: Louis, JK e Ataulfo:

AtaulfocomJuscelinoeAmstrong.jpg


Há uma diferença importante a se estabelecer entre Ataulfo e outros negros de seu tempo que venceram o preconceito e as enormes barreiras. Ataulfo não era como Pixinguinha, que se impunha pela alucinante formação erudita. Era diferente de Zé Ketti, o negro militante e rebelde. Ataulfo era um mineiro conciliador. Embarcou na cooptação do regime Vargas, fazendo os bem-comportados versos O bonde São Januário / leva mais um operário / sou eu que vou trabalhar.

Discordo daqueles que querem relativizar o machismo de uma canção como “Ai que saudades da Amélia”. Honrar a memória de um artista não é cegar-se para aquilo que, na sua produção, merece críticas. Ataulfo não é diminuído por ter sido o cantor do operário obediente em “O Bonde São Januário” e do machista nostálgico das Amélias. Era um homem negro negociando uma posição incrivelmente complexa na cultura de seu tempo.

Ataulfo foi chave para a virada decisiva na carreira de Clara Imortal:

A minha canção favorita de Ataulfo sempre foi “Leva meu samba”. Com o perdão da cacofonia, há ali uma levada absolutamente única e genial, que traz as conquistas rítmicas do samba do Estácio a um crescendo que, pelo menos para mim, é absolutamente contagiante. Das regravações de Ataulfo, não há como não destacar o imperdível disco de Itamar Assumpção, que é uma genuína releitura da obra do mineiro.

A cidade de Miraí está em festa até o dia 03. Já foram inaugurados o memorial e o site do centenário. Você que, como este blogueiro, já passou dos trinta, não deixe de aplicar Ataulfo aos seus filhos ou parentes mais jovens. O fim de semana é de Ataulfo no Biscoito. Fique à vontade para compartilhar links e vídeos.



  Escrito por Idelber às 18:46 | link para este post | Comentários (37)



quinta-feira, 30 de abril 2009

Esperanza Spalding

A cantora e baixista americana Esperanza Spalding revisita um dos cumes da canção popular do planeta:

Esperanza Spalding se apresenta amanhã no Jazz and Heritage Festival de New Orleans.

(hat tip: Chris Dunn)



  Escrito por Idelber às 20:17 | link para este post | Comentários (20)




Festival Internacional de Lafayette, 2009

Aconteceu no último fim de semana o Festival Internacional de Música de Lafayette, Louisiana, que coincide sempre com o primeiro fim de semana do JazzFest, em New Orleans. É uma escolha dura. Tenho preferido, nos últimos anos, pegar o carro e encarar as 120 milhas para ver o festival em Cajun Country. Não me arrependo. É só música de outros países e da Louisiana (para ver a programação completa, você terá que abrir este pdf). Aí vai um resumão do pouco que vi este ano. Não aguento mais ficar 8 horas ao ar livre escutando música. É a idade.

Na noite da sexta, Ana e eu chegamos a tempo de passar pelo rito de orgulho nacional, esgasgamento expatriado, cantoria em português e identificação de brazucas ao longe: o Ilê Aiyê tomou o palco. Vieram só 15 pessoas, claro. 12 percussionistas: a linha pesada atrás e outra linha com repeniques e caixas. Competiam com Alpha Yaya Diallo, o grande guitarrista e cantor da Guiné. Minha sensação é que manadas de gente se deslocaram de um palco para outro ao longo do show, atravessando a extensão do centrinho de Lafayette. O Ilê engoliu o grande artista africano.

Se você não gosta do Ilê – da música, ou do que eles representam, ou do que já fizeram --- ou, pior, se você não ouviu e não gostou, realmente eu sou bem cético quanto à possibilidade de diálogo entre nós dois. Eu nem coloco música do Ilê para escutar em casa. Mas vê-los me produz uma alegria profunda.

No sábado, a coisa começou para mim já à tarde, com o Chicha Libre, que vinha etiquetado como “cumbia peruana psicodélica”. Chegou-se a um momento na nomenclatura da música pop em que qualquer adjetivo pode significar qualquer coisa, então você tem que ir ver. O Chicha toma cumbia de tudo quanto é canto (trata-se de gênero com formas muito diferentes na Colômbia, na Argentina, no Peru etc.) e faz um pastiche pop mesmo. Há dois videozinhos vagabundos, feitos com minha Sony P200, mas dá para dar uma ideia do som:

Não gostei do afro pop de Dobet Gnahoré. A guitarra é aquela coisa: já ouvi antes e melhor em King Sunny Adé. Presença de palco não é o forte dela tampouco. Depois vi um pouco dos roqueiros lá de Lafayette mesmo, os Amazing Nuns. Gostei. Aprecio roqueiros que têm suíngue. Se são daqui, e sabem tocar bluegrass, conquistam meu coração mesmo. A música disponível lá no MySpace deles nem é grande coisa. O show é melhor.

Entre um sanduíche de jacaré e um pastel de lagostim (a comida nesse festival é todo um tema), eu guardava energia para o fechamento do sábado, que prometia: uma banda franco-árabe-africana com nome aludindo a literatura russa, Tarace Boulba.

Pu-ta-que-pa-riu.

O TB é um combo de hard funk, com uma verdadeira orquestra de sopros, super percussão e bailarinas(os). Transitam por sons do Mediterrâneo, por polirritmia subsaariana, pelo jazz, mas tudo sobre essa base sensacional que é o funk americano. Eu juro que cheguei a anotar mentalmente quantos trompetes, trombones etc. para descrever aqui. Exausto de sacudir o esqueleto e acompanhar o show, joguei fora as anotações mentais.

De novo, o vídeo é vagabundo, mas dá uma ideia da energia do show deles:



(aqui dá para ver uma jam sua e aqui um show, em vídeos de melhor qualidade)

Com o corpo triturado pelo Tarace Boulba, não houve jeito senão perder o show de Rachid Taha, da Argélia.

No domingo, pegamos leve. Só fomos mesmo conferir Rupa and the April Fishes, uma interessante banda de San Francisco liderada por uma indiana-americana que divide o tempo entre a guitarra e o estetoscópio. Linda, ela:

DSC04422.JPG


É bonito e de bom gosto o show deles. Baixo acústico, acordeão, bateria de leve e às vezes o violoncelo. Rupa alterna entre o violão e a guitarra. O repertório inclui de polcas a corridos e música de cabaré, mas com um tratamento bem deles. A vocalista, especialmente, é um emblema da globalização: indiana-americana, ela canta em francês e em espanhol.

Não sem antes ver um pouco de Dengue Fever, que é um rock do Camboja bem ruim, demos nosso último suspiro. Perdemos os shows do Roots Underground, da Jamaica, do Malajube de Québec e dos Crocodile Gumboot Dancers, da África do Sul.



  Escrito por Idelber às 06:26 | link para este post | Comentários (17)



domingo, 19 de abril 2009

Dica musical para o domingão

Está rolando aqui em New Orleans o clássico French Quarter Festival, um dos pontos altos da inacreditável primavera musical da cidade. Dá para ouvir online. Uma das melhores estações de rádio comunitárias do mundo, a WWOZ, transmite o evento. É só escolher o seu formato e a velocidade da sua conexão no quadrinho que diz "listen online". Se você vir este post até as 23 h de Brasília, pode ir lá conferir.

Com licença, pois, que eu vou ali ao Rio Mississippi sacudir o esqueleto um pouquinho.



  Escrito por Idelber às 14:44 | link para este post | Comentários (12)



quinta-feira, 02 de abril 2009

A música antropofágica de Beatriz Azevedo

BAz.jpg

Oswaldiana como este blog, Beatriz Azevedo lançou uma bela obra. Alegria é o seu terceiro disco, e é muito mais que uma coleção de 12 canções. Ele traz uma leitura coerente, original do Brasil. Já nos primeiros acordes de “Alegria”, a faixa-título, o trombone de Bocato remete o ouvinte às bandas de maxixe do começo do século XX. A alusão não é casual. A antropofagia -- “única filosofia original do Brasil”, segundo Beatriz – é a metafora central que organiza o disco, repleto de referências ao Modernismo, à Tropicália e ao que poderíamos chamar nossa vocação devoradora.

O delicioso poema “Relicário”, de Oswald (No baile da corte / foi Conde d'Eu quem disse/ pra Dona Benvinda/ que farinha de Suruí / pinga de Parati / fumo de Baependi / é comê bebê pitá e caí) é musicado em ritmo de frevo. Outro modernista, Raul Bopp, comparece com “Coco de Pagu”, que recebeu belo arranjo. As composições de Beatriz não ficam a dever nada às versões. Faixas como o manifesto cosmopolita “Sem fronteiras”, a lírica “Abraçar o sol” e a safada “Pelo buraco” revelam uma compositora madura, segura da sua arte, tranquila na conversa com a tradição. Os arrranjos e a direção musical são do ótimo Cristóvão Bastos.

Meu brother Christopher Dunn resumiu assim o espírito do disco: elevada cultura literária, exuberância carnavalesca, humor absurdo e experimentalismo audacioso. Beatriz tem cacife para tanto. Formada em Artes Cênicas pela UNICAMP, ela estudou dramaturgia na Sala Beckett em Barcelona e música no Mannes College of Music e no Jazz and Contemporary Music Program de Nova York. É autora de dois livros de poesia publicados pela Iluminuras (Idade da pedra e Peripatético).

Alegria vem recheado de participações especiais, com destaque para o hilário dueto com Tom Zé em “Pelo Buraco”. O disco de Beatriz Azevedo pode ser ouvido na íntegra em seu site. O YouTube já tem uma boa coleção de vídeos da multi-artista, recomendadíssima por este oswaldiano blog.


PS: Para não dizer que hoje não espetamos a grande mídia, registre-se que a resenha do disco de Beatriz publicada pelo Estado de São Paulo no último sábado comete um erro que meu filho de 12 anos não cometeria: atribui a Beatriz a autoria de “Speak Low”, faixa 5 do disco. “Speak Low”, evidentemente, é um clássico de 1943, de Kurt Weill, com letra de Ogden Nash, inclusive já gravado no Brasil por Marisa Monte.



  Escrito por Idelber às 11:30 | link para este post | Comentários (11)



quinta-feira, 11 de dezembro 2008

Drops de metal

walser.jpgTraduzo de Running with the devil, de Robert Walser:

Se há um traço que subjaz à coerência do heavy metal como gênero, é a o power chord. Produzido ao se tocar o intervalo musical de uma quarta ou quinta perfeita numa guitarra elétrica fortemente distorcida e amplificada, o power chord é usado por todas as bandas que são chamadas de heavy metal e, até a enorme influência do metal em outros gêneros no fim dos anos 80, era usado por comparativamente poucos músicos fora do gênero. O power chord pode ser percussivo e rítmico ou mantido indefinidamente; é usado tanto para articular como para suspender o tempo. É um som complexo, feito de tons e sobretons resultantes, constantemente renovado e energizado pelo retorno. Ele é, ao mesmo tempo, a base musical do heavy metal e um metáfora bem apropriada dele, já que a articulação musical do poder é o fator mais importante na experiência do heavy metal. O power chord parece simples e cru, mas ele depende de sofisticada tecnologia, ajuste de tom preciso e hábil controle. Seu som em overdrive evoca excesso e transgressão, mas também estabilidade, permanência e harmonia. (p.2)

Está fazendo 15 anos que a etnomusicologia desmontou o clichê de que o heavy metal seria um gênero menos “variado”, musicalmente rico ou internamente diferenciado que qualquer outro na música popular. É uma pena que nenhuma editora brasileira (e nem precisava ser universitária) não tenha ainda percebido o enorme potencial que teria uma tradução de Running with the devil no Brasil. Combinando a análise musicológica com a cultural, Walser passa por tudo.

Dedica uma leitura atenta às apropriações eruditas no heavy metal (que são sempre consistentes e específicas: Bach, não Mozart; Paganini não Liszt; Vivaldi e Albinoni, em vez de Telemann ou Monterverdi, p. 63) Explica o trabalho do gênero com os modos: a maioria do heavy metal está em modo eólio ou dório, por exemplo, apesar de que o speed metal normalmente se toca em modo frígio ou lócrio; a maioria das canções pop estão ou em modo maior (iônio) ou misolídio mixolídio. . . as diferenças são fáceis de se ouvir: imagine (ou toque) o riff inicial de “Smoke on the Water”, de Deep Purple, na sua forma original blues-eólia (G-B♭-C, G-B♭-D♭-C); agora toque-o em maior/iônio (G-B-C, G-B-D-C) e parece uma cover de Pat Boone; dê-lhe um gíro frígio (G-A♭-D, G-A♭-E♭-D) e parecerá Megadeth (p.46-7).

Walser escreve um excelente capítulo sobre todo o teatro da masculinidade no metal que, como sabem os fãs do gênero, é um tema e tanto. Escolhe bem as canções que analisa (uma de Van Halen, uma de Ozzy Osbourne, uma de Yngwie Malmsteen) e desmonta não só os preconceitos musicais contra o metal, mas também os morais. Há todo um estudo a se fazer sobre a história do trabalho do metal com o timbre, e Walser oferece aí também as primeiras pistas para pesquisas futuras.

É um livro acadêmico, mas qualquer fâ de música popular lê com proveito e prazer. Walser é casado com Susan McClary, também etnomusicóloga e ainda melhor que ele.

Alô, editoras.

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Por falar em metal, recentemente um articulista de música do Yahoo resolveu fazer a lista das 25 bandas mais – segundo entendi – importantes para o que metal viria a ser (o que, suponho, é uma lista diferente das 25 melhores bandas de metal). A lista evidentemente foi massacrada por mais de 9.000 internautas.

Se captei o critério dele, certamente faz sentido incluir Hendrix e Led Zeppelin (mas não Rush). Não entendo uma lista com Thin Lizzy e Meshuggah e sem Anthrax ou Sepultura.

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Saiu o documentário da Bangers Production, Global Metal, que está em dez partes no Youtube:

Não há grandes novidades para os fãs do gênero, mas está bem feito. Há belas imagens e um bom naco é sobre o Brasil. Se não estou confundindo dois projetos diferentes, fui um dos entrevistados por telefone para esse documentário, numa tarde em que eu estava no Catete comendo feijoada e a menos de 20 metros de um sambão (inteiriço o sambão, com tantãs e tudo). É uma baita sensação, falar de Sarcófago com a batucada ao fundo.

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Sai em breve pela Duke University Press, organizado por Jeremy Wallach, Harris Berger e Paul Greene, o Metal Rules the World, a primeira coletânea de artigos acadêmicos sobre heavy metal. O metal brasileiro está representado por um trabalho meu que já botei no copyleft (pdf).

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A Galo Metal é um modelo de torcida organizada: nem um único lugar a mais vendido no ônibus, galera munida de ingressos, jamais envolvida em violência, sempre tranquila no Mineirão e nas viagens. Abração do blog para a primeira organizada metálica do Brasil.

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Nas rodas de power metal, não há muita dúvida: o melhor disco de 2008 é Fragile Equality, do Almah.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (47)



domingo, 07 de setembro 2008

Mangue Beat na Argentina

A revista argentina Todavía me pediu um artigo sobre a música brasileira popular. Mandei-lhes um texto sobre Chico Science e o Mangue Beat. Deixo aqui o primeiro parágrafo e, logo depois, o link para que você continue lendo lá no bacaníssimo site dos argentinos.

Nueva York, junio de 1995: un amigo me cuenta que el recital de la leyenda musical brasileña Gilberto Gil, en Central Park, será abierto por un vocalista de nombre insólito, Chico Science, acompañado por su banda Nação Zumbi (en lo sucesivo, CSNZ). El grupo ya era conocido en Brasil por su disco Da lama ao caos (1994), pero en aquellos primeros días de Internet, los expatriados tardábamos bastante en enterarnos de las novedades musicales del país. El hecho es que en 1995 yo no había oído nada aún acerca de ese tal Chico Science o de la escena musical conocida como mangue beat (“mangue”, en portugués, designa a las zonas pantanosas y húmedas de algunas regiones litoraleñas tropicales). Haber considerado la posibilidad de no llegar para el show de apertura e ir sólo a ver a Gil es un testimonio de la segmentación del público consumidor de aquel momento, o sea, el divorcio entre la música del Nordeste y los gustos de los oyentes de la clase media del Sudeste. Finalmente llegué para el recital de CSNZ, sin saber que me impresionaría más que cualquier banda brasileña que yo hubiera visto hasta entonces. El rasgo más evidente era que mezclaban cosas que nunca antes se habían mezclado. Esto no es, por cierto, un valor en sí mismo, pero en aquel caso seguramente funcionaba.

Continue lendo Chico Science y el Mangue Beat, minha primeira colaboração com essa bela revista argentina.




PS: Será que perco meu tempo respondendo a incrível asneira publicada ontem pelo Prof. Roberto Romano?

PS 2: O dia de hoje não deixa de ser especial: é a data nacional mais insignificante e pobre de simbolismo do planeta. Nada, nada que importasse aconteceu no dia 07 de setembro de 1822.



  Escrito por Idelber às 04:21 | link para este post | Comentários (68)



sexta-feira, 22 de agosto 2008

Best YouTube video ever

Volto mais tarde com um post decente. Enquanto isso, fiquem com esta pérola, que eu considero o melhor vídeo que já encontrei no YouTube. É daquelas coisas que te fazem acreditar na humanidade:


PS: Vi este vídeo pela primeira vez num blog. Já não me lembro qual. Se você postou o vídeo no seu blog antes de mim, avise, e eu dou o crédito.



  Escrito por Idelber às 06:38 | link para este post | Comentários (22)



segunda-feira, 18 de agosto 2008

Caymmi

Passei o fim de semana ouvindo a música de Caymmi. Na voz de lui-même, que é a melhor forma. Sua morte não é daquelas que nos provocam raiva, desespero ou sensação de orfandade. Claro que para a família e os que conviviam de perto com pessoa tão única, deve estar sendo difícil se acostumar com sua ausência. Mas para nós, meros súditos e admiradores da sua arte, Caymmi está onde sempre esteve: naquela espécie de transcendência luminosa que ele forjou, e para qual importa pouco se ele está fisicamente no mundo ou não. Jamais aquele clichê de velório fulano está conosco, vivinho foi tão verdadeiro.

Luiz Gonzaga, Noel Rosa e Tom Jobim são gênios, mas o primeiro é muito associado a um gênero, o segundo a um momento na história de um gênero, e o terceiro a um movimento musical. Só Caymmi é uma espécie de transcendência atemporal: fez e transcendeu o samba dos anos 30, fez e transcendeu o samba orquestrado dos anos 40, fez e transcendeu o samba-canção, inventou um gênero do qual ele é o único verdadeiro praticante (a canção praieira), antecipou a bossa nova, inspirou a MPB sem nunca antagonizá-la nem ser antagonizado por ela.

Em 1957, Caymmi lança dois discos: Eu vou pra Maracangalha e Caymmi e o Mar. Quer a metonímia perfeita, o mapinha completo  da música brasileira popular do século XX? Está tudo ali. Mas tudo mesmo, de João da Baiana e Pixinguinha a Titãs e Chico Science. É só ouvir. Com um corpus de menos de 100 canções, Caymmi é uma espécie de mapa de tudo.


Há um livrinho de Antonio Risério chamado Caymmi, uma utopia de lugar. É o melhor que se escreveu sobre o gigante. Risério mostra como é interessante a presença da mulher em Caymmi. Ele jamais cometeria a grosseria de um Noel enraivecido, que dizia à “mulher indigesta” que ela merecia um “tijolo na testa”. Mas também não há sofrimento à moda de, digamos, um Lupicínio Rodrigues. Ele também jamais faria experimentos à la Chico Buarque, colocando-se na voz feminina. A mulher em Caymmi, em geral, passa, está sempre em movimento, requebrando. A baiana de saia rodada vai convidá-lo para dançar e ele diz que “não vai” sabendo que ela sabe que ele vai, sim. Caymmi provavelmente foi o único que conseguiu criar esse estranho oxímoro: poeta erótico, sensual, sedutor e safado, ele era o homem de família por excelência.

Sua galeria de personagens passa ao largo daquela que foi canonizada no samba: o pescador certamente não é um "malandro", mas jamais ocorreria a Caymmi chamá-lo de otário. O mundo do trabalho tem outras cores em Caymmi, porque o trabalho ali está em relação com o mar e, portanto, com o infinito.

Pergunte a um grupo de garotos quem é o autor de “O que é que a baiana tem?” ou dos versos “quem não gosta de samba, bom sujeito não é / é ruim da cabeça ou doente do pé”. Há boas chances de que vários digam que são canções “folclóricas” ou de autoria indeterminada, coletiva ou desconhecida. Caymmi tinha esse dom: criava canções que pareciam sempre haver estado ali. Morou no Rio de Janeiro sete décadas, mas é tão identificado com a Bahia que já não sabemos se Caymmi expressa perfeitamente o que é a Bahia ou se a Bahia que conhecemos é uma invenção de Caymmi. Provavelmente não importa.

PS: Veja também o texto de Caetano Veloso.



  Escrito por Idelber às 05:53 | link para este post | Comentários (30)



terça-feira, 12 de agosto 2008

Clara Nunes, 65 anos

Clara Francisca Nunes Gonçalves Pinheiro nasceu no dia 12 de agosto de 1943, em Cedro, no distrito de Paraopeba, agora Caetanópolis, Minas Gerais. Completaria hoje 65 anos. Seu pai, o Mané Serrador, era violeiro nas Folias de Reis da região. Órfã de pai e mãe antes dos três anos de idade, Clara foi criada pela irmã Mariquita que, orgulhosa, ainda cuida do seu acervo em Caetanópolis, enquanto não chegam as verbas para o Memorial Clara Nunes. Se Elis Regina foi nossa cantora de mais recursos técnicos, se Nara Leão foi a musa do movimento musical mais importante do Brasil, Clara Nunes foi a cantora moderna que mais barreiras rompeu, a que maior impacto teve sobre a cultura, a que mais encantou seus pares, a que mais fundo mergulhou no Brasil. De longe, é a que tem o séquito mais apaixonado.

Criança, cantava em latim na igreja. Adolescente, era operária em fábrica de tecidos. Antes dos 20 anos de idade, já em Belo Horizonte, teve um histórico programa de rádio na Inconfidência. Na época em que trabalhou como crooner em boates, seu baixista era um moço preto que atendia pelo nome de Bituca. Em 1963, passou a ser responsável por um programa chamado “Clara Nunes apresenta”, na TV Itacolomi. Nessa época, antes de gravar o primeiro disco, já era adorada em Minas.

Em 1966, lançou A voz adorável de Clara Nunes, um disco de baladas e boleros. Um dia, o grande Ataulfo Alves lhe disse: moça, você tem uma voz muito bonita. Cante samba. O resto é história. Veja o depoimento dela sobre essa época, com atenção para a belíssima foto de Clara e Ataulfo:


Seu primeiro sucesso seria justamente uma parceria de Ataulfo com Carlos Imperial: "Você passa eu acho graça". Cantou de tudo: forró, partido-alto, samba-enredo, jongo, ciranda, puxada de rede, pontos de congada e umbanda, boleros. Mas era, acima de tudo, do samba. Na década de 1970, o mundo do samba acumulou muito ressentimento, com a entrada em cena das FMs -- onde predomina(va) o pop internacional da pior qualidade --, a cisão entre a intelectualizada MPB e o samba tradicional, e o progressivo afastamento dos jovens em relação à tradição sambista. Muita tinta e saliva foi gasta praguejando contra a “estrangeirização” na música brasileira.

Com a serenidade própria dos gigantes, Clara continuou fazendo o seu trabalho, tranqüila. Nunca enunciou uma palavra de ressentimento ou mágoa contra o rock. Nunca apresentou a sua música como mais “autêntica” ou “verdadeiramente brasileira” que a de ninguém. Jamais atacou as preferências musicais da juventude. Até que em 1974, na surdina, e puxada pela composição de Toninho e Romildo Bastos, “Conto de Areia” (é água no mar/ é maré cheia, oi / mareia, oi), ela vendeu 400.000 cópias de Alvorecer. Eis aqui a capa do LP que enterrou em definitivo o mito de que mulher não vendia disco:

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Clara tinha várias encarnações. Aqui, a Clara bolero:

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Clara pré-candomblé, boca-de-sino:

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Clara 1974, já no início da fase gostosona:

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Clara já na fase candomblé:

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Clara numa imagem famosa, de um clip do Fantástico, da Rede Globo, em 1978:

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Na contra-capa do disco Claridade, em pose sedutora:
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Clara com pinta de Clarice Lispector:

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Clara com pose de visionária:

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Clara na minha foto favorita:
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(fonte das fotos)

Quando morreu John Lennon, eu ainda era meio novo para sentir o impacto, embora me lembre muito bem de receber a notícia no Parque Municipal, em Belo Horizonte. Da morte de Clara Nunes, três anos depois, eu já me lembro muito bem. Era um sábado de aleluia. A agonia, provocada por uma operação de varizes, durou um bom tempo. Eu só voltaria a sentir revolta semelhante no Carnaval de 1997, quando morreu Chico Science. 50 mil pessoas velaram o corpo de Clara na Quadra da Portela. Uma multidão incalculável seguiu o enterro. Por 24 mangos, dá para comprar no Mercado Livre a histórica edição da Revista Manchete com o adeus de Clara.

O Festival de Inverno de São João del Rey está homenageando Clara Nunes com exposições, palestras, shows e peça teatral. Aí em São Paulo, no décimo-nono Festival de Curtas-Metragens, que ocorre de 21 a 29 de agosto, Marcelo Caetano apresenta seu A Tal Guerreira. Em Caetanópolis, está acontecendo do dia 07 ao 17 o Terceiro Festival Cultural Clara Nunes (neste link você também pode ver fotos dessa pessoa abençoada, Dona Mariquita, a quem devemos tanto: ela criou Clara Nunes). No YouTube, os fãs estamos despejando dezenas de vídeos. Em São João del Rey, a Professora Silvia Brügger está lançando O canto mestiço de Clara Nunes, o primeiro estudo acadêmico dedicado à guerreira.

E você fique à vontade para celebrá-la aí na caixa, lembrando as suas canções favoritas. Não se esqueça de tocá-las para seus filhos e irmãos mais novos.


PS: Ontem, a Flávia Stefani deixou aqui o comentário de número 20.000 do Biscoito, desde a inauguração da casa nova, em março de 2005. Tim-tim.



  Escrito por Idelber às 06:23 | link para este post | Comentários (57)



segunda-feira, 11 de agosto 2008

Enquete musical

Vejam só que belíssimo link eu encontrei no Nemo Nox. O Boston Phoenix escolheu o melhor cantor / compositor e a melhor banda de cada um dos 50 estados norte-americanos: 50 states, 50 bands. Algumas eleições são bastante óbvias. Em Minnesota ganhou, claro, Bob Dylan, com Prince num honroso segundo lugar. A maior banda novaiorquina de todos os tempos, evidentemente, é o Velvet Underground – isso é o equivalente roqueiro de escolher qual é o maior jogador de futebol a ter usado a camisa 10 do Santos. Aqui na Louisiana, com méritos, venceram os seminais Meters – banda que sistematizou a linguagem do funk moderno e que, aliás, mereceria mais atenção no Brasil. Na categoria artista solo, escolheram Jerry Lee Lewis, imperdoavelmente se esquecendo que de New Orleans saiu um certo Louis Armstrong. A Flórida teve a escolha que merece: os intragáveis reacionários do Lynyrd Skynyrd.

Fiquei feliz com a escolha de alguns artistas que me são muito caros: na Geórgia, R.E.M.; na Carolina do Norte, o Superchunk (embora eu talvez tivesse votado no Southern Culture on the Skids); em Massachusetts, as feras dos Pixies. Miles Davis e Stevie Wonder, merecidamente, levaram as coroas solo em Illinois e Michigan. Na Pensilvânia, escolheram Trent Reznor como o maior artista solo da história. Da última vez que chequei, um tal John Coltrane – apesar de nativo da Carolina do Norte – havia feito na Filadélfia a sua carreira. Péssima escolha, nesse caso.

Com o meu gosto pela polêmica, fiquei imaginando como seria divertido fazer uma lista semelhante para os estados brasileiros. Em Minas Gerais, meus votos seriam:

Artista solo: Ataulfo Alves, com Milton Nascimento, Clara Nunes e João Bosco disputando o segundo lugar (sim, eu sei que Milton nasceu no Rio; mas é mineiro). Banda: Uakti, com Sepultura em segundo.

Deixe aí o seu voto sobre os estados que você conhece bem.



  Escrito por Idelber às 06:12 | link para este post | Comentários (92)



sexta-feira, 04 de julho 2008

Caetano Veloso e Carlos Sandroni polemizam sobre Noel Rosa

Está acontecendo uma polêmica, amigável e afetuosa, entre Caetano Veloso e aquele que é provavelmente o mais talentoso e erudito entre os musicólogos brasileiros da nova geração, o meu amigo Carlos Sandroni. A discussão gira em torno a “Feitiço da Vila”, o clássico de Noel Rosa sobre Vila Isabel, peça de uma polêmica com Wilson Batista, compositor negro do morro. Caetano vê a composição de Noel, basicamente, como uma canção racista. O trecho mais discutido são os famosos versos:

“A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa,
Transformou o samba
Num feitiço decente, que prende a gente”


Para se entender a polêmica, há que se ver o vídeo de Caetano dando uma “aula-apresentação” da canção de Noel:



O argumento de Caetano foi, depois, resumido de forma bem piorada por Ali Kamel, que publicou n'O Globo, em 10/06/08, um artigo infeliz, em que afirma que Caetano (…) demonstrou que a canção quis livrar o samba da sua negritude, transformando-o num feitiço do bem, feito por bacharéis brancos, longe, portanto, da macumba dos negros do morro, que faz, por oposição, o mal, coisa de bamba. Confesso que ao ver o vídeo, pensei em escrever uma resposta à leitura de Caetano. Por sorte, Carlos Sandroni, autor do melhor livro já escrito sobre o samba -- Feitiço decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933 -- e infinitamente mais equipado que eu, escreveu uma bela réplica na qual aponta alguns erros de Caetano, como o de atribuir a Noel, mutiladas, duas estrofes que teriam sido parte de uma improvisação num programa de rádio e que não são parte integrante da canção. Mais importante, Sandroni esmiuça o contexto em que ocorre a defesa do “feitiço sem farofa”.

Para resumir um argumento que você pode encontrar em toda sua nuance seguindo o link acima, o samba de Noel está justamente inserindo a Vila Isabel num contexto de disputas de bairros que já era típica do samba naquele momento. O “feitiço que nos faz bem” não deve ser lido – como o faz Caetano -- por oposição ao “feitiço de preto”, que supostamente “nos faria mal”. Da mesma forma como Noel, parceiro fraternal do mundo da malandragem, argumentou contra a palavra “malandro”, que estigmatizaria compositores que estavam em perfeitas condições de levar sua arte ao mundo da profissionalização (veja essa idéia nos sambas Rapaz folgado e Se a sorte me ajudar), o uso do termo “feitiço” denota familiaridade com o mundo descrito – é o próprio povo do morro que sabe, muito bem, que dessa farofa não se come, esse vintém não se guarda no bolso. “Feitiço da Vila”, na leitura de Sandroni, é um marco no processo de aceitação, pela sociedade como um todo, da música dos negros e mestiços. Em outras palavras, uma canção anti-racista!

Caetano escreveu uma resposta fraternal a Sandroni, que já treplicou. Na resposta de Caetano, confirmei a impressão que o vídeo original havia me produzido: que seu problema não é com Noel Rosa, e sim com a leitura de José Ramos Tinhorão da bossa nova. Para resumir, a revolta de Caetano é contra o fato de que Tom Jobim e Carlos Lyra, entre outros, foram acusados pelo nacionalismo populista de serem “usurpadores de classe média” da música dos negros, sendo Noel Rosa sempre poupado dessa acusação. "Ora, justamente o Noel que havia louvado a Vila por oposição ao morro?", pergunta-se Caetano.

O problema é que Caetano, ainda profundamente marcado pelos embates com Tinhorão nos anos 60, talvez ainda não tenha se dado conta de quão definitiva foi a vitória do Tropicalismo sobre ele. Em outras palavras, a leitura de Tinhorão da bossa nova não é, hoje, corroborada por nenhum pesquisador sério da música brasileira. Não é, nem de longe, uma leitura hegemônica. Interpretar Noel Rosa com as lentes proporcionadas por aqueles embates termina reafirmando fronteiras que já haviam ruído nos anos 30, em parte pela própria arte de Noel.

PS: Terá ficado óbvio, suponho, que me alinho com a leitura de Sandroni. Mas o que realmente me incomoda no vídeo de Caetano não é a sua interpretação de Noel. São as risadas meio nervosas do público. Freud explica.



  Escrito por Idelber às 06:01 | link para este post | Comentários (38)



segunda-feira, 09 de junho 2008

Expresso Monofônico

expresso.jpg

Foi o legendário selo Baratos Afins que lançou, em 2006, o primeiro disco da banda Expresso Monofônico, que é conhecida de quem acompanha a cena underground da Paulicéia, mas que ainda não tem o público que merece. O psicodelismo e a Tropicália são estradas já trilhadas à exaustão, mas o Expresso as revisita com classe e ironia. Trazem aquela consciência de quem está fazendo um pastiche. Em alguns momentos, no uso da dissonância e dos ruídos ambientes sobre uma base rock, lembram muito os Mutantes. O trabalho com o insólito nas letras, os jogos com várias camadas de vozes e as súbitas interrupções na linha melódica se inspiram na melhor vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Há um ludismo que deve algo a Tom Zé. A banda traz também alguns momentos intimistas, com violão acústico – como na bela faixa “Seja o que parece ser”.

Parece que os shows são menos freqüentes do que gostariam os fãs, mas o disco está disponível na íntegra no site da banda. Pedro Alexandre Sanches os destacou na Carta Capital e a Guitar Player também já fez matéria. Outras publicações, como O Martelo, ou a pernambucana Coquetel Molotov (pdf), também já dedicaram atenção aos paulistanos. O Expresso Monofônico é formado por Luiz França na bateria, Leo Jabba Jabba no baixo, Allan Rodrigues na percussão, Rafael Pimenta na guitarra e no piano, além de uma cantora carismática e cheia de recursos, Ana Regina Galganni, de cujo perfil no orkut tirei a foto que ilustra o post. Vale a pena a visita ao site da banda para conferir pelo menos duas faixas: “Vazio” e “Vista de cima”, talvez os dois momentos mais líricos do álbum. Para quem curte alusões pop mescladas às referências eruditas, a faixa “Dorothy” é obrigatória. Também é possível encontrá-los no YouTube, mas a qualidade do som é bem ruim. É a dica musical da semana.

PS: E por falar em música, não posso deixar de agradecer ao grande artista Chico Amaral pela hospitalidade de sábado em seu sítio, naquela que foi simplesmente a melhor festa junina que já vi na vida. A essas duas famílias maravilhosas -- os Bueno e os Amaral --, minha gratidão. Valeu, Serginho, Belinha, Janaína, Regina, Manu, Daniel. Tavinho, sua leitura me honra.

PS 2:
Para quem está acompanhando a campanha eleitoral americana, vale a pena a leitura de duas experiências contrastantes. O Philadelphia City Paper enviou repórteres para atuar como voluntários nos comitês dos dois candidatos democratas. É só ver a diferença entre os comitês de Clinton e de Obama, e entender por que o resultado foi o que foi.



  Escrito por Idelber às 05:32 | link para este post | Comentários (16)



terça-feira, 03 de junho 2008

Tom Zé em Belo Horizonte

Graças a Christopher Dunn, passei alguns momentos dos últimos dias com o gênio, o primeiro e único, a invenção em estado puro: Tom Zé está em Belo Horizonte. Aliás, já deve estar partindo. O show de sábado, na Casa do Conde, foi qualquer coisa de inacreditável. Várias coisas me chamaram a atenção: Tom Zé nasceu em outubro de 1936. Vai completar, portanto, 72 anos de idade. A energia que ele emana no palco seria surpreendente numa pessoa de 52. Se eu chegar aos 50 com aquele pique, já estarei feliz com minha passagem pelo planeta. Foi motivo de felicidade para mim ver o público de Tom Zé. Havia muitos senhores e senhoras, mas um predomínio marcado de garotos de menos de 25. Havia incontáveis adolescentes, inclusive. Ele é absolutamente adorado por esses garotos.

Entre todos os músicos de sua geração, ou mesmo entre os ligeiramente mais jovens, Tom Zé é aquele sobre o qual poderíamos dizer sem medo de errar: está no auge da criatividade. Pude conversar com os músicos da excelente banda e todos confimaram que, apesar da set list estar preparada de antemão, é correta a sensação de que Tom Zé improvisa permanentemente no palco. A banda, que o acompanha há tempos, já se acostumou a rebolar para não perder o pique.

Ligadíssimo, antenado com o mundo, apoiador de Barack Obama, Tom Zé abriu um blog, como aliás já foi noticiado aqui. Almoçando com ele, perguntei sobre a experiência de blogar. Depois de algumas palavras sobre a novidade da coisa, ele fulminou: nunca fui à internet. É verdade. Ele dita os posts para Neusa, sua esposa. Extraordinária, ela é o cérebro de toda a operação. Cuida de absolutamente tudo.

A dieta de Tom Zé? Saladas, arroz integral, comidas leves. Álcool, nem pensar. Ao chegar ao restaurante, o pedido dele foi imediato: seção de não-fumantes, por favor. A bebida? Chá. Depois do show, no camarim, enquanto a nossa turma preparava a indefectível botecada belo-horizontina, Tom Zé e Neusa se recolhiam para o descanso. Na segunda-feira à noite, Tom Zé conduziu uma aula na Academia das Idéias, à qual infelizmente não pude comparecer. Se algum leitor do blog viu, dê notícias.

Mineiros, quem perdeu essa, se ligue: o Bruxo volta à cidade neste fim de semana, para as calouradas da UFMG PUC-MG. Se você quiser ver o que é a invenção em estado puro, apareça por lá. Obrigado, Tom Zé.



  Escrito por Idelber às 15:20 | link para este post | Comentários (14)



segunda-feira, 19 de maio 2008

Boris McCutcheon and the Saltlicks

boris.gifNão aparecem muitos trovadores na linha de Bob Dylan ou Leonard Cohen, instrumentistas que compõem, cantam e realmente têm algo a dizer. Foi nas andanças pelo Novo México que descobri um desses, depois de perguntar quem andava misturando da forma mais promissora a música do sudoeste americano com o rock (é uma pergunta que costumo fazer em todos os lugares em que passo que têm forte tradição musical autóctona). Boris McCutcheon já tem estrada suficiente para não ser mais uma “revelação” mas, discreto, vem produzindo sua obra fora do circuito do rock e pop internacionais. Venceu festivais no Novo México e têm um público fiel, que o idolatra como oráculo cult. O álbum que me ganhou de vez foi esse aí, Cactusman versus the Blue Demon, o terceiro de Boris, uma espécie de passeio conceitual por fábulas desérticas.

A voz de McCutcheon, com timbre rouco que lembra a de Cohen, faz o cantor parecer bem mais velho, sensação acentuada pelas letras imagísticas, com frequência dylanescas. Acompanha-o um time de talentosos músicos, os Saltlicks. A banda tem um pé no folk, mas a guitarra elétrica de McCutcheon e os teclados / piano de Kevin Zoernig se encarregam de produzir efeitos que escapam à fórmula relativamente homogênea do gênero. As apresentações disponíveis no YouTube são todas acústicas, como esta versão de "Beautiful Prison":

Mas a alma da banda está nas faixas elétricas, de rock com leve toque alucinatório, como a excelente abertura do disco do Cactus, “Volcanic Wind,” disponível online. Além das letras que relatam fábulas ambientadas no deserto do sudoeste americano, McCutcheon também compõe contos de abandono e traição à la Nick Cave, como em Caves of Burgundy, desse mesmo notável disco. É um rock que passa ao largo da tediosa sucessão de "independentes" que aparecem e logo depois são absorvidos pelos clichês da indústria fonográfica. Fica aí a recomendação do blog para os roqueiros.

PS. Este post começa a pagar uma dívida com os antigos leitores que acompanhavam os outrora mais frequentes posts sobre música.

PS 2. E por falar em música, belo-horizontinos, atenção: Tom Zé vem aí, no fim do mês.

PS 3. Um lembrete: Hoje às 14:30, no Auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, apresento palesta intitulada Para a crítica da violência: Benjamin, Derrida e o palestino ausente. Os conterrâneos interessados em filosofia serão muito bem-vindos por lá.



  Escrito por Idelber às 01:25 | link para este post | Comentários (16)



sábado, 03 de maio 2008

Novidades promissoras no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos

roberto.jpgHá novidades no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos. Como sabem os leitores do blog, a biografia escrita por Paulo Cesar foi proibida em abril de 2007 depois de um acordo-arapuca em que o autor, representado pela editora e sem a presença de sua própria advogada, se viu sem condições de enfrentar o massacre jurídico. O acordo assinado previa o recolhimento dos livros e reservava a Roberto Carlos, inclusive, o direito de comprar quaisquer exemplares que ainda fossem encontrados nas livrarias e ser ressarcido pela editora.

Aí vai, em primeira mão, a última notícia: na vigésima vara cível do Rio de Janeiro, a juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros acaba de proferir uma sentença promissora. De mensagem pessoal enviada a mim por Paulo Cesar de Araújo (e publicada aqui, claro, com sua permissão), chegam notícias alvissareiras:

<< Sobre a reclamação do artista de que o livro faz uso indevido de sua imagem e expõe sua intimidade, a magistrada argumenta que "as pessoas célebres, em face do interesse que despertam na sociedade, sofrem restrição no seu direto à imagem. Admite-se que elas tacitamente consentem na propagação de sua imagem como uma conseqüência natural da própria notoriedade que desfrutam".

A magistrada reconhece que Roberto Carlos é portador de uma doença chamada TOC (transtorno, obsessivo, compulsivo) e, por isso, ela afirma na sentença que "o interesse processual não pode firmar-se na obsessão compulsiva de tudo controlar sobre si mesmo, com o alheamento do direito democrático constitucional de informação, sobrepujador do direito à proteção da imagem e da honra, se a pessoa é pública e a informação verdadeira". Na bibliografia citada no texto da juíza consta o livro "Mentes e manias: entendendo melhor o mundo das pessoas sistemáticas, obsessivas e compulsivas", de Ana Beatriz Barboza Silva (Editora Gente. 2004).

Sobre a reclamação do artista de que o autor do livro estaria obtendo indevidamente ganhos financeiros com a sua história, a magistrada diz que o uso não autorizado de imagem alheia também pode ocorrer "sempre que indispensável à afirmação de outro direito fundamental, especialmente o direito à informação - compreendendo a liberdade de expressão e o direito a ser informado". Por essa presunção de interesse público nas informações, diz ela, fica justificada a utilização da imagem alheia "mesmo na presença de finalidade comercial, que acompanha os meios de comunicação no regime capitalista".

Entretanto, apesar deste parecer contrário a Roberto Carlos e de condená-lo no pagamento das custas processuais e em honorários advocatícios, a juíza manteve a proibição do livro sob a justificativa de que houve aquele tal acordo entre as partes no foro criminal de São Paulo, ano passado. Diante disso, a minha advogada Dra. Deborah Sztajnberg entrou com o recurso "embargos declaratórios" dirigido à própria juíza Márcia Cristina. >>


O blog não pode senão celebrar as decisões da juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros detalhadas nos três primeiros parágrafos da mensagem e parabenizá-la por reconhecer o que sabemos todos que acompanhamos o caso: que se trata aqui de direito elementar de estudo, pesquisa e informação de fatos públicos da cultura brasileira. Este direito foi cerceado de uma forma embaraçosa para a democracia do país, com recolhimento de um livro -- coisa própria de ditaduras. Obrigado à juíza Márcia Cristina por ajudar a estabelecer mais um precedente favorável à liberdade de pesquisa e informação.

Dadas as condições precárias e desequilibradas que cercaram a audiência de "reconciliação" (o substantivo aqui é inadequado, daí as aspas) onde foi assinado o acordo, esperamos que a juíza Márcia Cristina possa rever com simpatia a ação de embargos declaratórios e proferir mais uma sentença que a consolide como magistrada que entende a gravidade do caso: a proibição e o recolhimento de um livro de pesquisa universalmente elogiado por quem o leu e censurado por imposição de um dos artistas mais poderosos do país em meio a um massacre jurídico. Marcada para um momento em que o autor tinha razões para crer que seria representado pela editora (e em que sua advogada pessoal se encontrava em compromisso inadiável em Brasília), a audiência onde foi assinado o acordo foi caracterizada por sérios indícios de parcialidade de quem a presidiu.

Como leigo -- mas interessado -- em direito, suponho que existam suficientes elementos para rever o caso a partir desta sentença, não?



  Escrito por Idelber às 17:06 | link para este post | Comentários (36)



quarta-feira, 19 de março 2008

Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania


(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)

Música brasileira popular e cidadania

No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.

1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.

2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.

3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.

4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio

Parte II O conceito de música “regional” -- Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.

5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”

Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB

6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (35)



sábado, 23 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: Homenagem à maior de todas

Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:

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Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?

Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.

A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:

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Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:

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Quando mais "invocada", mais sexy ela parecia:

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E o charme com que ela cantava "Malandragem"?

Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.

Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.



  Escrito por Idelber às 05:36 | link para este post | Comentários (48)



terça-feira, 26 de junho 2007

Sepultura

Por hoje, só um aviso rápido aos navegantes, especialmente à turma que é fã de música pesada (alô, Tiagón): finalmente está disponível em pdf o meu último artigo sobre o Sepultura, publicado há uns anos no Journal of Latin American Cultural Studies. Como foi o próprio pessoal da revista quem pôs o texto na internet, saudavelmente mandando às favas os direitos autorais, eu dou o link ao artigo sem problemas.

Abraços aos leitores aqui da incomparável Buenos Aires.



  Escrito por Idelber às 09:41 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 12 de junho 2007

Roberto Carlos processado por plágio

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Salvo engano deste blogueiro, a questão passou desapercebida da grande imprensa: depois de fazer fogueiras de Torquemada com a obra de um pesquisador sério, Roberto Carlos volta aos tribunais, desta vez como réu: "Traumas", gravada por Roberto e Erasmo em 1971, seria exatamente idêntica a uma canção composta pela professora de ensino municipal Erli Cabral Ribeiro Antunes e registrada por ela na Escola Nacional de Música sob o título de "Aquele amor tão grande". Depois de ser impedida pelos seguranças de se aproximar do Rei -- a quem queria entregar a canção -- Erli teria passado a fita ao saxofonista da banda, sob a promessa de que o material chegaria a Roberto. Estarrecida, ela ouviu a canção alguns meses depois, lançada sem qualquer crédito à sua autoria. Vale lembrar que Roberto Carlos já foi condenado por plágio a outro compositor (Sebastião Braga) em 1987.

Leiam a matéria completa.



  Escrito por Idelber às 08:19 | link para este post | Comentários (40)



segunda-feira, 21 de maio 2007

Entrevista exclusiva com Paulo Cesar de Araújo

paulo-cesar.jpg O trabalho de Paulo Cesar de Araújo é meu conhecido desde o revolucionário Eu não sou cachorro não: Música popular cafona e ditadura militar, obra monumental em que o autor analisa a música brega dos anos 70 e mostra, surpreendemente, que ela foi até mais censurada que a velha MPB -- trajetória que a academia e o jornalismo foram demasiado míopes para ver e que só a partir da obra de Paulo Cesar começou a ser devidamente estudada. Paulo Cesar é o autor de Roberto Carlos em Detalhes, obra cuja proibição inicial o Biscoito noticiou em primeira mão e a cuja posterior circulação na internet nós também demos vazão. Paulo Cesar estará em Tulane University, New Orleans, em março de 2008, para uma conversa sobre o caso. Por enquanto, aqui segue uma entrevista exclusiva com o historiador e pesquisador baiano, um dos maiores conhecedores da música brasileira popular. É honra recebê-lo aqui no blog.

1- Roberto Carlos se recusou a lhe conceder entrevistas na fase de preparação do livro. Como conhecedor profundo da vida dele, você sabia que ele já havia conseguido bloquear um outro livro, muito menos sério que o seu. Mas em algum momento você imaginou que a sua obra fosse parar na justiça?

Eu não esperava esta reação dele porque meu livro é completamente diferente do livro do ex-mordomo. Naquele o autor apenas relata inconfidências de sua relação de dez anos com o artista. Já "Roberto Carlos em detalhes" é um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a moderna música popular brasileira, tendo Roberto Carlos como fio condutor. Além de passagens da vida pessoal do artista, falo de bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, festivais da canção, ditadura militar... É, portanto, uma obra informativa e de interesse público, até porque a história de Roberto Carlos pertence à cultura e à memória nacional. Ressalta-se também que Roberto Carlos já foi tema de outros livros como "Roberto Carlos: esta é a nossa canção" de Ayrton Mugnaini Jr e "Como dois e dois são cinco", de Pedro Alexandre Sanches - que não tiveram nenhum problema na justiça.

2- Pelo menos para nós que acompanhamos o caso com interesse, mas de longe, a postura da Planeta num primeiro momento foi bem louvável. Recusaram-se a dobrar ante as ameaças. Qual foi o momento em que você sentiu que os seus interesses não estavam sendo bem representados pela editora?

A postura da Planeta foi louvável não apenas no primeiro momento desta briga judicial como também em todo o processo de produção do livro. Eu tive total liberdade para publicar o livro da forma que quis. Por tudo isso, foi surpreendente a capitulação, que aconteceu exatamente durante a audiência, sem nenhuma reunião ou consulta anterior. Tudo foi decidido no calor da hora.

3- Olhando retrospectivamente, você diria que foi um erro ter se deixado representar na "audiência de reconciliação" pela editora Planeta?

De um lado, penso que se estivesse ali com um advogado próprio aquele acordo não teria acontecido nos termos em que se deu. Por outro lado, dada a disposição de o juiz e os promotores em encontrar uma solução favorável a Roberto Carlos (que era proibir o livro) tenho dúvida se com outro advogado as coisas seriam diferentes. rcdetalhes.jpg


4. Como você já sabe com certeza, o seu livro está circulando pela Internet. Você tem alguma restrição a isso? O que você achou da repercussão que o assunto teve na Internet?

A rapidez e amplitude com que isto aconteceu podem ser vistas como um ato de desobediência civil. Entretanto, não apenas o meu, mas vários outros livros (e também músicas) correm livres na internet. Isto é um dado da realidade atual. O que lamento é que "Roberto Carlos em detalhes" não possa continuar também livremente nas livrarias, na forma como foi originalmente publicado. Seja como for, o importante é que meu livro está vivo. Eu escrevi para ser lido.

4- Você pretende seguir lutando contra a censura? De que maneira?

Estou participando de palestras, debates, discutindo até que ponto a privacidade de figuras públicas deve prevalecer no Brasil sobre a liberdade de expressão e o direito à informação. Acho que esta é a questão central nesta minha polêmica com Roberto Carlos. Meu livro está proibido e vai para a fogueira sem que os advogados do cantor questionem qualquer fato narrado nele. Por isso eles não me processaram por calúnia. Reclamam apenas que o cantor não queria ver este ou aquele episódio narrado no livro. Espero que todo esse debate sirva para sensibilizar a sociedade e o poder legislativo no sentido de definir melhor os limites entre liberdade de expressão e direito à privacidade - direito este que na maioria dos casos é definido em termos muito subjetivos.

5. Com a exceção de um artigo de Paulo Coelho e de uma rápida menção do assunto numa entrevista de Caetano à Folha, a "classe artística" silenciou sobre o episódio. Você se sentiu traído ou abandonado por alguém nesse caso?

Roberto Carlos é uma instituição nacional e muitos artistas ficam temerosos de contrariá-lo. Além disso, muitos cantores-compositores alimentam a expectativa de que Roberto Carlos grave uma música sua; ou aguardam a liberação de alguma música dele para gravar; ou simplesmente esperam um convite para cantar no especial que o cantor faz anualmente na TV Globo. Enfim, esta postura dos artistas é apenas mais um triste capítulo de "a vida como ela é".

O que mais lamento é a declaração do ministro da cultura Gilberto Gil à Folha de S. Paulo (10-05-2007): "Eu acho em princípio complicada essa questão de biografias não-autorizadas. A não-autorização cria espaço para os conflitos. Não vejo por que não produzem biografias autorizadas. Deveriam ter consultado o Roberto. Se o autor tivesse consultado o Roberto, essas coisas teriam sido evitadas". Além de desinformado (durante quinze anos tentei entrevistar Roberto), vê-se que Gil falou apenas como artista e não como ministro. Num momento em que uma obra literária é proibida e condenada à fogueira ele prefere enfatizar apenas o direito do artista à privacidade. Neste caso Gil não se portou como ministro da cultura e sim como um advogado da privacidade.

6-Você tem planos de alguma resposta jurídica ao acordo firmado no mês passado?

Estou me informando sobre medidas legais, ouvindo advogado, juristas. Enfim, estou estudando o caso antes de tomar qualquer decisão.

7. Quais são seus próximos projetos?

Eu tenho material de pesquisa para pelo menos mais dois livros sobre música popular. Depois de "Eu não sou cachorro não" e "Roberto Carlos em detalhes", talvez no próximo eu faça uma síntese geral da MPB. Mas ainda não tive tempo de pensar sobre o tema, pois continuo absorvido por "Roberto Carlos em Detalhes".


8. Nosso amigo comum Christopher Dunn me pede que eu lhe pergunte se o episódio alterou o seu prazer de ouvir a música de Roberto Carlos.

Eu continuo ouvindo suas canções com o mesmo prazer. A diferença é que antes eu ouvia apenas como fã; agora ouço como alguém que entrou na história de Roberto Carlos e compreende as limitações dele.

Obrigado pela gentileza da entrevista, Paulo Cesar. O nosso apoio aqui é incondicional.



  Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post | Comentários (38)



terça-feira, 15 de maio 2007

A Jazz Funeral for Alvin Batiste (1932-2007)

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Bendita a cidade que lembra a morte dos seus grandes com um desfile musical festivo pelas ruas. New Orleans mais uma vez se despediu a rigor de um dos seus gigantes. Alvin Batiste, um dos maiores clarinetistas da história, nos deixou no dia 06 de maio, aos 74 anos, de enfarte, horas antes do que teria sido um show consagrador com Branford Marsalis e Harry Connick Jr. no JazzFest.

Alvin Batiste redefiniu o som de New Orleans no século XX. Clarinetista de incríveis recursos, ia do dixieland mais tradicional às formas vanguardistas mais cabeludas, sem perder a pose. Incorporou toda a influência do bebop e combinou-a com o molejo inconfundível do som de New Orleans. Além de instrumentista e compositor, era um mestre, um professor nato. Dedicou-se durante décadas, na Southern University, a lecionar sua arte. Recebeu quase todos os prêmios a que pode aspirar um músico de jazz, mas percorria as escolas públicas de bairros pobres para compartilhar o que sabia. Estudaram sob Alvin Batiste o trumpetista Wynton Marsalis, os saxofonistas Branford Marsalis e Donald Harrison, o baixista Chris Severin, o pianista Henry Butler, além de centenas de outros músicos. Era amado, idolatrado na cidade. Deixou um legado de inesquecíveis gravações, mas vê-lo ao vivo era a experiência insubstituível.

Por isso, sabia-se que o Jazz Funeral que nos reuniria no úlitmo sábado, dia 12, seria um dos grandes e inesquecíveis. Já de manhã a multidão ia se aglomerando na Praça Lafayette:

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O Jazz Funeral é uma experiência incomparável, fruto da extraordinária cultura musical de New Orleans. O do último sábado, que reuniu uma multidão nas ruas para dançar e cantar em homenagem à memória de Alvin Batiste, foi um marco do renascimento da nossa cidade. Depois da cerimônia religiosa, impecavelmente vestidos, os músicos vão se aglomerando na preparação da homenagem. Desce o féretro:

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A festa é pública e todos os amantes da música são bem vindos. No Jazz Funeral de Alvin Batiste, não faltaram os ex-alunos com souvenirs inauditos da carreira do mestre:

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A música começa em tom solene, com notas graves e extensas, no ritmo conhecido como dirge. Uma porta-estandarte abre caminho, seguida por músicos engravatados e, logo depois, a multidão:

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Ao longo de vários quarteirões, a banda segue com o dirge, enquanto vamos homenageando a memória do morto com uma dança contida:

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Na chegada à histórica esquina de Rampart com Canal, a banda acelera e começa a tocar na batida das brass bands da cidade. A dança vai abandonando a contenção e cai num ritmo frenético. A partida de mais um mestre é lembrada com uma renovação do seu legado de amor à música e à cidade de New Orleans:

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Ao longo do trajeto, especialmente quando nos aproximamos do French Quarter, não faltam os indefectíveis turistas, olhando estatelados, com a cara de quem se pergunta que estranha cidade é esta, onde se celebra a morte com uma tomada ritual das ruas por uma multidão dançante.

PS. Para conhecer a obra de Alvin Batiste, gravada com muito menos freqüência do que teria sido justo, recomenda-se os CDs Bayou Magic (1993) e Late songs, words, and messages (1993).

PS 2. Fotos do post: Ana Maria Gonçalves, que teve seu primeiro Jazz Funeral. Ana também fez filmes do desfile, que eu, por incompetência, não consegui subir ao YouTube. O filminho fica para a próxima :-)



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (14)



sexta-feira, 11 de maio 2007

A fogueira de livros do "rei" Roberto

bookburn_penn.jpgDepois de perpetrar um dos maiores massacres da história recente do judiciário brasileiro contra um estudioso, pesquisador e fã da sua música, Roberto Carlos fará o quê, agora que o livro de Paulo Cesar de Araújo está disponível na internet, em formato doc ou em pdf ?

Como se sabe, depois da decisão em primeira instância favorável a Roberto Carlos (denunciada aqui), o acordo firmado há 15 dias dá ao cantor o direito de recolher e incinerar os mais de 10 mil exemplares que restavam da obra de Paulo Cesar de Araújo. O acordo proíbe inclusive que Paulo Cesar dê entrevistas sobre o conteúdo do livro. Com a exceção dos protestos nos blogs e de um louvável artigo de Paulo Coelho (link para assinantes), nenhum grande escândalo se produziu nos meios de comunicação de massas depois desse assalto à liberdade de expressão e de pesquisa perpetrado por Roberto Carlos e sua matilha de advogados contra, ironicamente, um dos maiores estudiosos de sua obra - obra que tantos de nós nem achamos tão interessante assim.

Na era da internet, qualquer cerceamento à livre circulação de informações produz o efeito contrário e acaba sendo letal para a reputação do censor. Talvez Roberto Carlos não tenha percebido ainda, mas ele será o grande derrotado desta história. Enquanto isso, vejam a obra que esses crápulas arrancaram das livrarias, com a conivência, estímulo e bênção de um juiz que foi à audiência de reconciliação com cópia de seu CDzinho para Roberto Carlos.

PS: Ainda sobre música, dêem um pulo no Música popular do Brasil. Vale a pena.



  Escrito por Idelber às 01:18 | link para este post | Comentários (39)



quarta-feira, 02 de maio 2007

Festival Internacional de Lafayette

O último final de semana do mês de abril e o primeiro do mês de maio têm sido, para mim, sagrados: é época de JazzFest em New Orleans. Por isso eu nunca havia feito a viagem para o Festival Internacional de Música de Lafayette, que coincide com os primeiros dias do JazzFest. Desta vez, eu e Ana resolvemos abrir mão da festa em New Orleans para viajar até o portal das terras acadianas da Louisiana. Valeu a pena. Em termos de atrações internacionais, o Festival de Lafayette é bem superior ao de New Orleans. Em vez dos abusivos 45 dólares diários cobrados aqui em NOLA, a festa em Lafayette é gratuita e celebrada nas ruas do centro da cidade, onde se armam meia dúzia de palcos bem separados, sem interferência sonora. A comida é um show à parte. Em vez da horrenda Budweiser que povoa o festival neworleaniano, em Lafayette as barraquinhas trazem opções de qualidade como a Heineken ou a Guinness.

Foram três dias de muita música, que começou na noite de sexta com o estranhíssimo som world music do octeto francês Les Yeux Noirs. Eles passam as sonoridades centro-européias e ciganas por um liquidificador pop, com destaque para alucinógenos solos de rabeca:

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A noite de sexta terminou com um belo show de Vieux Farka Touré, filho do legendário guitarrista malinês Ali Farka Touré. A música de Vieux continua a tradição Sonrai desse verdadeiro ícone pop. Dele, infelizmente, não tiramos fotos aproveitáveis.

No sábado, sob um calor nordestino, começamos com o folk feminista das The Malvinas, um trio do Quebec-Texas-Louisiana à base de cordas: violão, bandolim, rabeca, banjo. A moça do Quebec quase se derretia na temperatura de 35 graus, mas elas mandaram bem o recado:

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Daí passamos aos insólitos argentinos do Los Pinguos, que não se parecem com nenhuma música argentina que você já tenha ouvido. Utilizando violões, um tres cubano e um cajón peruano, eles vão da balada politizada à salsa. Confesso que ao ver um bando de argentinos com instrumentos acústicos num palco de dimensões consideráveis, temi por um desastre. Queimei a língua. Os caras botaram a multidão para dançar:

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Depois foi a vez da banda americano-brasileira Rob Curto’s Forró for All. Nada que eu nunca tenha ouvido em Pernambuco, mas o baião e o xaxado eram muito bem executados:

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Depois de um cochilo, só chegamos a pegar alguns acordes daquela que talvez seja a mais ilustre banda de música cajun, o Beau Soleil, que completava seu trigésimo aniversário. Dali a próxima opção era clara. Fomos ver o legendário pianista e vocalista de New Orleans, Eddie Bo, famoso por seu estilo percussivo ao piano e por suas composições que mesclam o melhor do rhythm’n’blues, funk e jazz new-orleaniano. Foi o primeiro show em que dancei com vontade:

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Fechamos a noite com o reggae do jamaicano Clinton Fearon, conhecido como o grande baixista, vocalista e letrista da famosa banda dos anos 60, os Gladiators. Com o show super lotado e nossos corpos exaustos, vimos um pouco e saímos. Mas tinha boa pinta.

O domingo começou com a ponte afro-neworleaniana feita pela Gangbé Brass Band, do Benin. A fórmula é simples: polirritmia percussiva do oeste da África com muitos metais – trumpete, sax, tuba, trombone – na melhor tradição de New Orleans. A energia é contagiante:

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Dali partimos para o show do Afrissippi, produto do encontro entre o guitarrista senegalês Guelel Kumba com Eric Deaton, e o tradicional blues de doze compassos aprendido por ele no Mississippi. Foi um bonito show mas, de novo, nada que não tivéssemos ouvido antes:

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Muito original foi o show das mulheres batuqueiras da Guiné, as Amazones, que subvertem a tradição do homem-percussionista-mulher-dançarina comum nessa região:

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Os dois melhores shows, no entanto, estavam reservados para o final. A Dirty Dozen Brass Band, criticada por puristas desse gênero pela sua incorporação do rock, rap, funk e outros ritmos, comandou um show emocionante, de levantar defunto, que marcava a volta definitiva de todos os músicos da banda ao seu estado depois do furacão Katrina. O show foi pontuado por brincadeirinhas eróticas e alusões à sensacional campanha dos New Orleans Saints ano passado no futebol americano:

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Fechando com chave de ouro, o melhor show do fim de semana. O gigante da world music, o malinês albino Salif Keita, trouxe a banda completa, com kora e tudo, e sacudiu o público durante uma hora. O que mais me impressionou foi a sintaxe cuidadosamente armada da apresentação. Ele alternava canções uptempo com momentos de respiração líricos e emotivos, para logo depois voltar à música mais freneticamente dançante. É uma figura que impõe respeito:

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Fica aí a dica. Na primeira semana de JazzFest, vale mais a viagem a Cajun Country.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 24 de abril 2007

Performing Brazil, Madison, Wisconsin

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arte do cartaz: Talía Guzmán-González.

Registrar congressos acadêmicos no blog é chato, mas o encontro Performing Brazil, na Universidade de Wisconsin, Madison, não pode passar em branco. Talvez eu me lembre de colóquios de estudos culturais tão bons como esse. Melhores, duvido. Os Profs. Severino Albuquerque e Kathryn Sánchez, além de impecáveis na organização, tiveram a ótima idéia de convidar oito "keynote speakers", abrir um call for papers e, depois de seleção bem feita, montar um programa coerente. Nada que lembrasse os arrazoados em que se transformam os congressos que privilegiam a quantidade. Foram 2 dias de maratonas de 10 horas de banquete intelectual – pontuadas por almoço com cardápio à brasileira, da melhor qualidade, e concluídas à noite com visitas aos excelentes restaurantes de Madison que, além de tudo, servem cerveja local que ombreia com as melhores do mundo.

Contar tudo é impossível, mas aqui vão meus destaques:

Uma incrível apresentação de Bryan McCann, autor do premiado Hello, Hello Brazil: Popular Music in the Making of Modern Brazil, sobre a era do rádio. Sem um único pedaço de papel, demonstrando só com o iPod e a gaita, Bryan examinou desta vez as pouco estudadas raízes da bossa nova no blues. Foi montando uma história alternativa da bossa nova para além da tríade Jobim-Gilberto-Vinícius, com fantásticos exemplos musicais como Horace Silver (née Horácio da Silva, para quem não sabe). Bryan ainda deu, de gorjeta, a melhor explicação da famosa flatted fifth (quinta bemolizada) que já vi. Foi um show de historiografia e análise musical.

Apresentar depois de um cara desses é um pesadelo, mas meu brother e colega daqui de Tulane, Christopher Dunn, entrou e deu outro show: um passeio pelas paródias e brincadeiras visionárias de Tom Zé com o tema do cidadão e da cidadania. Entre os exemplos musicais, “São, São Paulo” no festival da canção e uma performance recente, dos anos 90, de “Identificação”, no Teatro Vila Velha em Salvador, tão inesquecível que é realmente um crime que Chris não tenha subido a joça ao Youtube ainda.

A turma de estudos de música que veio era da pesada e não terminava aí: Jason Stanyek, de Nova Iorque, com gravações de entrevistas e demonstrações musicais, mapeou o já vasto terreno do samba nos EUA. Passou por figuras como Jorge Alabe e Curtis Pierre – ambos com trajetória aqui em New Orleans – e demonstrou, com a competência de musicólogo que também é compositor, as mutações do suíngue (esse curioso monossílabo inglês que os brasileiros transformamos em trissílabo) na diáspora tupinambá daqui. De quebra, Jason emplacou uma bela elaboração do conceito de groove e exibiu um daqueles vídeos de Jorge Alabe em que se tem sensação de que há uma orquestra percussiva tocando. Outra apresentação de babar.

Daniel Sharp, mestre em música com dissertação sobre o mangue beat e doutor com tese sobre a música de Arcoverde, foi de Assis Calixto ao revolucionário Cordel do Fogo Encantado. Com super conhecimento de causa (Dan já virou até nome de crepe por aquelas bandas), deu aula magistral sobre a música do portal do sertão pernambucano.

Outro ponto alto foi a mega revisão da obra de Nelson Pereira dos Santos por Darlene Sadlier, permeada por clips bem escolhidos, que foram tecendo um belo painel da obra de Nelson e me encheram de vontade de rever os filmes que já vi ou assistir àqueles que ainda não conheço. Rebecca Atencio fez uma leitura fina de uma peça que levanta todo tipo de problemas ético-estéticos: Lembrar é resistir, encenada nas dependências do DOPS em SP e ambiciosa (alguns diriam invasiva) em sua manipulação da tour que recebe a platéia pelos corredores do horror.

O encerramento foi uma palestra memorável de uma das maiores críticas teatrais brasileiras (senão a maior), Silvana Garcia, que nos brindou com uma visita direto de São Paulo. O tema foi o Oficina, sobre o qual aprendi tudo o que sempre quis saber. Silvana fechou com chave de ouro, exibindo um clip de vinte minutos dessa maratona orgiástica que é a montagem do Zé Celso Martinez Corrêa d’ Os Sertões, de Euclides.

Quando alguém lhe disser que os brasilianistas dos EUA só fazem estereotipar e repetir clichês, sugira uma rápida visita às obras dessa turma e àquelas dos vários outros listados no programa que eu não citei.

Houve muito mais. Não seria exagero dizer que jamais aprendi tanto sobre música e teatro em dois dias. Severino e Kathryn, obrigado. Aos alunos de Wisconsin, especialmente às alunas do seminário de literatura contemporânea da Prof. Ksenija Bilbija, com as quais bati longo papo, aquele abraço pela hospitalidade.

Eu disse que as cervejas de Madison são incomparáveis? Quando for, não perca a Capital Amber e não deixe de ir ao Great Dane. Não perca tampouco um restaurante leste-africano, o Buraka. É isso. Valeu mesmo, Madison :-) Numa semana trágica para a universidade americana, foi inspirador ter o outro lado da moeda em grande estilo.

PS: O camarada Flávio Prada convida para um exercício de reflexão ecológica, inspirado pelo Faça sua parte. Todo apoio cá deste humilde.



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quarta-feira, 11 de abril 2007

Meme das pedras de toque

cartola.jpg O Paulo Roberto Pires, do bom blog Toca Tudo, fez um post recordando um livro do José Lino Grünewald, que colecionava algumas das “pedras de toque” da poesia brasileira: imagens que condensam um universo poético, resumem a obra de um autor, dizem mais que o aparente à primeira vista. Daí o Paulo propôs as “pedras de toque” da letrística da música brasileira popular para ele; os leitores acharam várias outras, muito boas.

Vamos roubar a brincadeira deles? Aí vão algumas das minhas:

Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor
(Nélson Cavaquinho / Guilherme de Brito / Alcides Caminha, “A Flor e o Espinho”)

Cuidado Saci, cuidado com a toca
Treine bem e não se compromete
Pois esta aposta consiste
Em que você ande
Pelo sítio de patinete

(Jorge Ben, “Sasaci Pererê” - é puro Ben essa estrofe!)

Matou o ciúme que mata
Negou a mentira da nêga
Cantou o remorso num canto
Guardou o seu anjo-de-guarda
Chamou a doideira da chama

(João Bosco / Aldir Blanc, “Escadas da Penha” – parte B, depois da reviravolta)

E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo
E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o molambo ficou lá
Molambo eu, molambo tu

(Chico Science / Fred 04, “Rios pontes e overdrives”)

Aconteceu um novo amor
Que não podia acontecer
Não era hora de amar
Agora o que vou fazer?

(Dorival Caymmi, “Não tem solução”)

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão

Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho

(Orestes Barbosa, “A mulher que ficou na taça” - adoro esse pseudo-parnasianismo do samba dos anos 30. Cartola foi o mestre disso).

O meu cartão de crédito é uma navalha

(Cazuza / Nilo Romero / George Israel, “Brasil”)

Vou me desacorvardar dizendo não
A um coração que fez só desagasalhar
Quem o abrigou

(Cartola / Hermínio Bello de Carvalho, “Labaredas)

Diga lá, leitor, quais são as suas pedras de toque na música brasileira popular?



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sábado, 07 de abril 2007

Resposta de Paulo Cesar de Araújo a Roberto Carlos

Seis semanas atrás, uma absurda decisão judicial ordenou a retirada de circulação do livro Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo. Considerando-se a minúcia, o afeto e o rigor da obra do historiador baiano, a infeliz decisão da 20 Vara Cível do Rio de Janeiro representa um golpe sem precedentes na liberdade de pesquisa e de expressão no Brasil.

Neste sábado, Paulo Cesar se pronunciou publicamente sobre o assunto pela primeira vez, e o fez num belo texto: Roberto Carlos precisa de um Tony Blair, publicado na Gazeta Mercantil. É leitura indispensável.

O blog reitera o apoio ao Paulo Cesar e pede encarecidamente ao leitores que não percam de vista os desdobramentos deste episódio.

Atualização: Carla Rodrigues me avisa que o link fornecido no post está levando a outro texto. Pelo jeito, a Gazeta Mercantil ainda não chegou à era do permalink, pois quando da confecção do post o link levava ao lugar certo. Para facilitar, copiei e colei o texto aqui na caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 05:15 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 24 de outubro 2006

Cidadania cultural

candeal.jpg Depois de umas semanas só trabalhando “para os outros” (dando aulas, corrigindo trabalhos, revisando teses, escrevendo cartas de recomendação, etc.), arrumei finalmente um tempinho para trabalhar numa coisa minha, que é um projeto de artigo sobre a relação entre algumas formas de música popular no Brasil e novas práticas cidadãs. O que me interessa não é analisar canções que “falem do tema da cidadania", mas mostrar como certas práticas musicais a transformaram, em diferentes pontos do país (meus guias são Chico Science e o Mangue Beat).

Há trabalhos recentes que fazem isso. Há um estudo interessante, por exemplo, de Goli Guerreiro, que mostra a trajetória do projeto musical de Carlinhos Brown no Candeal, em Salvador, e detalha o impacto gigantesco que ele teve na auto-estima da comunidade.

A formulação mais influente do conceito de cidadania nas ciências sociais, durante algumas décadas, veio da obra de T.H. Marshall, Citizenship and Social Class (1950). Ela associa a cidadania à condição de “ser membro pleno” de uma comunidade, independendemente das desigualdades econômicas existentes. A noção de universalização do direito como característica do cidadão é mais antiga, claro. É grega, e vem acompanhada sempre da salutar ressalva que o princípio da universalidade ali não incluía mulheres nem escravos.

Marshall separa a cidadania em três tipos – civil, econômica e política – e entende que há considerável independência entre eles, chegando ao ponto mesmo de designar um período formativo para cada tipo: fim do século XVIII para o civil, século XIX para o econômico, século XX para o político (períodos que devem ser entendidos de forma flexível e elástica, claro).

O que vários estudos contemporâneos têm feito é sublinhar que há uma esfera não necessariamente dos direitos civis, econômicos ou políticos através da qual a cidadania também é articulada. Chamemos-na de cidadania cultural. São todas as iniciativas que passam pela cultura (música, internet, teatro, o que seja), mas que têm impacto real na condição de cidadãos dos sujeitos envolvidos nela; são, numa palavra, práticas que redefinem a cidadania a partir da cultura. Há uma corrente que é bem entusiasmada com essa noção de cidadania cultural. Há outra mais cética, que diz que esse papo de cidadania cultural tira a atenção do mais importante, que é o direito ao feijão no prato, ao décimo-terceiro salário e ao voto na urna.

Já reuni uma baita bibliografia para esse artigo e sei que no Overmundo há um zilhão de casos, mas adoraria escutar quaisquer pitacos sobre histórias que você conheça, sobre iniciativas culturais que têm potencial cidadão, sobre como a música realiza mediações entre você e a polis. Diga lá uma coisa bem inteligente para que seu blogueiro possa cumprir suas obrigações acadêmicas e voltar para escrever novos posts.



  Escrito por Idelber às 23:33 | link para este post | Comentários (28)



sábado, 09 de setembro 2006

Links musicais

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Gang of Four toca hoje em BH

Dica de graça aos conterrâneos: se você está em Belo Horizonte neste sábado, o programa é um só: depois de assistir as Mothern no GNT às 20:30, despenque para o Chevrolet Hall para ver uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, Gang of Four. Eles são tão seminais, poderosos e indispensáveis hoje quanto há 27 anos, quando ajudaram a inventar o que se conheceu como "pós-punk". Até o Gang of Four, "canção política" no rock significava uma coisa: violão folksy acompanhando letra chorosa. Depois deles, outro babado. Esses caras redefiniram o sentido da palavra "integridade" no rock. Se você está em BH, não perca. A BH eles não voltarão nunca mais, garanto.

Henrique Cazes, uma das mais prolíficas figuras do choro brasileiro, comemora 30 anos de carreira com três lançamentos imperdíveis.

Quem completa 50 anos de carreira é o gigante Naná Vasconcelos, que lança no próximo dia 25 o CD Trilhas, que parece fascinante. Neste fim de semana, Naná está em Varsóvia, na Polônia.

Maria Bethânia fez 60 anos em junho. Foi relançada, em grande estilo, sua obra completa, em 34 CDs. O melhor da história é que os discos são vendidos separadamente, a preços razoáveis (R$20). Não deixem de conferir as raridades Drama (1972) e Pássaro Proibido (1976). Cinco faixas do novo disco de Bethânia trazem arranjos de Naná Vasconcelos.

O blog de Franklin "desmascarador de moleques da Veja" Martins tem uma bela seção musical, com dicas sobre o que tocava enquanto rolavam os acontecimentos que marcaram a história do Brasil.

É incrível. Em 1938 Mário de Andrade escarafunchou o nordeste brasileiro com o objetivo de registrar manifestações musicais populares e "salvá-las da extinção". Ao passar por Tacaratu, no sertão de Pernambuco, gravou a voz de uma certa Senhorinha Freire Barbosa, de 18 anos de idade. Quase 70 anos depois, em 2006, são lançados seis CDs com as gravações da Missão Folclórica Mário de Andrade e dona Senhorinha, agora com 87 anos, assiste, lembra e se emociona.

Foi relançado um dos maiores discos de violão da história da música brasileira, o petardo de 1959 de Luiz Bonfá. Relançamento mais urgente que esse, impossível.

Pintou por aí uma nova revista sobre música brasileira. Parece bem bacana. Com vocês, o Jornal Musical. Lá encontrei duas interessantes resenhas do disco novo de Caetano ("Cê"), que eu ainda não ouvi.

Recomendadíssimo também é o Projeto Memória Brasileira, uma viagem pela música instrumental do Brasil, criatura da pesquisadora e produtora Myriam Taubkin.

É muito lúcida a Rebeca Matta. Olho no novo trabalho dela, ok?

PS. Cheguei a vários desses links através do adorável, do indispensável Brazilian Music Treasure Hunt.

PS 2. Ainda sobre o UOL: um portal que convida esse sujeito para fazer parte do time realmente não merece a confiança de ninguém.



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sexta-feira, 28 de julho 2006

A Síndrome da Biblioteca de Babel e a Síndrome de Robinson Crusoé

labyrinth.jpg.jpg
imagem: daqui.

O Biajoni fez um excelente post sobre o que ele chama de Síndrome da Biblioteca de Babel: a desvalorização dos conteúdos que – em velocidade e profusão inauditas – são veiculados na internet. O exemplo do Bia é a música. Ele se lembra de suas experiências (que foram as minhas também) de economizar uma grana suada para comprar um bolachão de vinte e poucos minutos de cada lado e escutá-lo um mês inteiro: a grana para o próximo disco só pingaria no mês seguinte. Desolado, ele compara essa atenção ao artefato cultural com a euforia meio vazia de um amigo seu que hoje celebra ter baixado “48.000 músicas”! Com toda a razão, o Bia se pergunta quantas dessas músicas o amigo ouvirá com um mínimo de atenção.

Os efeitos da síndrome de Biblioteca da Babel são implacáveis e atingem especialmente a circulação de música popular. Baixa-se e apaga-se música de tal maneira que as novas gerações não mantêm nem mesmo a relação com o “disco”: no reino do MP3 as canções existem soltas, fragmentadas – mesmo os arquivos com terminação .rar, que compilam discos inteiros, com freqüência sofrem recortes de cada usuário depois de baixados. O garoto hoje ouve a canção sem saber de que disco ela saiu, o que para os velhos puristas fãs de música popular teria sido uma heresia inaceitável.

O problema é que, no frigir dos ovos, eu prefiro viver num mundo onde se pode baixar 40.000 canções em alguns dias do que num mundo onde eu compre um bolachão de 45 minutos por mês. A relação deste último comprador com o produto que ele adquiria era mais atenta? Sem dúvida. Mas era uma atenção movida pela escassez compulsória. Havia também aquele momento horrível – o Bia se lembrará de exemplos – em que o bolachão comprado com a grana suada era uma porcaria. Na profusão, cabe a cada um nadar ou afogar-se: eu, particularmente, confio no meu tino para organizar o redemoinho de informações. Prefiro, digamos, achar que é possível nadar do que me queixar que há água demais na piscina.

Vejam bem, não digo que o Bia está errado: ele está certíssimo. Mas há um risco – e o post do Bia está atento a esse perigo – de que ao combater a Síndrome da Biblioteca de Babel, caia-se em outra síndrome, que eu chamo Síndrome de Robinson Crusoé: a tendência de achar que em algum momento do passado a relação com a cultura, com a música, com o sexo ou com qualquer outra coisa foi mais pura, autêntica ou verdadeira. Em geral essa percepção é só uma ilusão retrospectiva. No fim dos anos 90, ainda havia gente, dentro do campo de estudos de música popular, que insistia que só se poderia escrever sobre música munido de vinil e um toca-discos de 2.000 dólares. Hoje esses saudosistas já desapareceram, ou estão fazendo luto pela morte do CD. Estão sempre a reboque da história. Levada ao limite, a Síndrome de Robinson Crusoé pode alimentar toda sorte de pessimismos reacionários– desses que insistem que tudo o que é produzido pela contemporaneidade não presta.

Foi uma coincidência ter lido o post do Bia ontem: meus dois iPods (15 GB e 20 GB) lotaram. Tive que apagar arquivos para fazer lugar para a nova música que chegava, bem consciente de que aquilo que fosse apagado ali jamais seria ouvido de novo, mesmo eu tendo os CDs em casa: é que já não me lembro qual foi a última vez que toquei um CD. O que foi apagado? Cortei três sinfonias de Beethoven (na antológica gravação de Karajan) para que coubessem dois discos do Sonic Youth – quem precisa ter as nove sinfonias de Beethoven, não é mesmo, Milton Ribeiro?

Outro mergulho recente meu na Síndrome da Biblioteca de Babel foi finalmente ter organizado meus feeds no bloglines, que andam em 150, entre blogs brasileiros, americanos, argentinos, revistas e jornais do mundo inteiro (para ler o Biscoito em RSS, cole no seu agregador este link para ler só posts ou este link para ler tanto os posts como os comentários). Depois de passar algumas horas lendo artigos que há algum tempo eu teria gastado anos para reunir, terminei me convencendo de vez: é importante, sim, estar atento aos efeitos diluidores da Síndrome da Biblioteca de Babel, mas é mais importante ainda não ceder aos clichês da Síndrome de Robinson Crusoé.

Senão, corre-se o risco de não se encontrar, entre as 48.000 músicas, aquelas pérolas que sempre estarão lá, e pelas quais em outras eras teríamos pago, com gosto, o preço de um vinil importado.



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segunda-feira, 17 de julho 2006

Dia Internacional do Rock e os 20 anos de carreira do Witchhammer

Não faltaram shows de comemoração do dia do rock aqui em BH, a capital brasileira do metal. Eu conferi dois deles: na sexta-feira a atração no Lapa Multishow foi a Banda Concreto, ganhadora do Prêmio Mineiro de Música Independente com seu metal pesado mas melódico e cheio de variações. Nos seus treze anos de estrada a Concreto participou de inúmeras coletâneas e lançou três CDs (A Calma da Alma, de 1998; Aquele que tem, de 2001; Volume III, de 2004). Já reconhecida como uma das principais bandas de hard rock do cenário underground brasileiro, a Concreto é veterana de apresentações para públicos de 50 mil pessoas ao lado de gente grande como Sepultura, Dio e Nação Zumbi.

Nessa sexta a Concreto apareceu de baterista novo, Alysson (que eu, como irmão, sou supeito para elogiar, mas toca pra cacete). Um gostinho do som da Concreto, aqui. Galeria de fotos, aqui.

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No domingo, no Matriz, tanto a velha como a nova guarda do metal se reuniram para render homenagem ao vigésimo aniversário do Witchhammer, legendária banda da cena underground mineira. A bruxa veio com tudo e fez um repasso dos vinte anos de carreira, desde a demo tape de 1986, que incluía uma das canções mais conhecidas da banda, "Weekend in Auschwitz", passando pelo primeiro disco solo (The First and the Last, 1988), pelo segundo, o operático, heterodoxo e genial Mirror, my Mirror (1990), pelo terceiro, disco de maturidade política e musical da banda, o Blood on the Rocks (1992) e pelo recente petardo Ode to Death (2006). Não faltaram os tributos aos pioneiros do Sagrado Inferno e do Chakal, duas das bandas que fizeram de Belo Horizonte uma cidade conhecida mundialmente pela força do seu heavy metal.

witch.jpg

Assim como as grandes sacadas de Chico Science foram 1) que o padrão rítmico do maracatu podia (e devia!) ser combinado com o de gêneros afro-atlânticos como o funk e o reggae e 2) que a arte verbal da embolada tinha tudo que ver e era uma prima genuína do rap, as grandes sacadas do metal mineiro foram: 1) que a fórmula aparentemente fechada do metal permitia uma variação infinita em timbre, volume, harmonia; 2) que as bandas que sobreviveriam seriam as que tivessem boa e imprevisível "cozinha", ou seja, especialmente uma bateria ancorada no jogo com os contratempos (e nisso tanto Teddy, baterista do Witchhammer, como Alysson, da Concreto, são feras); 3) que da onda "anti-cristã" (satânica) do primeiro momento do death metal, eles podiam se desfazer do adjetivo e ficar só com o prefixo anti, e ser, conforme o caso, antipolítica, antipsiquiatria, antiestado, antireligião; 4) que o estilo gutural do vocal do death metal (que apareceu para que as pessoas pudessem entender as letras, já que o volume instrumental do gênero é alto) era também uma poderosa arma para sincopar, "quebrar" a música.

Witchhammer foi pioneiro em todas essas sacadas. Qualquer que seja seu gosto musical, 20 anos de estrada no underground (com uma interrupção, é certo, nos anos 90) é de se respeitar e tirar o chapéu. Se você não ouve rock pesado mas está aberto a outros sons - mais, digamos, distorcidos que o usual seu - ouça Mirror, my Mirror e depois me diga. Está no meu top 10 de rock pesado brasileiro, em todos os tempos (só não acredite no que diz o link sobre "banda norueguesa", claro; eles são do Sagrada Família, Belo Horizonte).

Tanto no show de 20 anos do Witch como no show da Concreto verifiquei mais uma vez uma coisa bacana. No mundo anglo-saxão se fala muito do heavy metal como gênero "masculino" e "branco". Como já é de costume no metal mineiro, a coisa aqui vai por outro lado: as mulheres perfaziam, fácil, 50 ou 60% do público em ambos shows (maravilha de se ver) e negros e mulatos são sempre pelo menos 30 ou 40% da galera presente.

Mas todo mundo torce pro Galo. Headbanger cruzeirense eu não conheço. Aos atleticanos da Concreto, parabéns pela celebração em grande estilo do dia do rock, e aos atleticanos do Witchhammer, sobretudo, parabéns, por vinte anos de integridade e rock'n'roll.

PS: Dependendo de um conhecido, rolam fotos do show do Witch para atualizar o post. Seria impagável: Paulo Caetano (guitarra/vocais) de preto, com o número da besta, cara pintada de vermelho, cabelo arrepiado, pregando. Oxalá alguém tenha registrado. Eu esqueci a máquina, imperdoável.

PS 2: Mais sobre heavy metal:
a. Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music, de Robert Walser, já um clássico da etnomusicologia, que inclui um capítulo fantástico sobre o metal como releitura da música barroca.

b. De Mílton ao Metal (pdf), artigo curto meu.

PS 3: Deixamos Guimarães Rosa para a semana que vem, eu acho. Há várias pessoas ainda lendo, inclusive eu.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 07 de junho 2006

Canção imperdível

Se você entende pelo menos um pouco de inglês e foi tocado pela tragédia que aconteceu conosco aqui em New Orleans, não deixe de ouvir essa canção comovente. Depois me contem.



  Escrito por Idelber às 18:04 | link para este post | Comentários (14)



quarta-feira, 17 de maio 2006

Gilberto Gil, doutor honoris causa por Tulane University

IMG_5454.jpgDepois de Wisnik, foi a vez de New Orleans receber a visita de Gilberto Gil, na sexta e sábado passados. Eu perdi a festa, mas fotos e relatos não faltaram por aqui. Tulane passou a ser a primeira universidade não brasileira e a segunda do mundo a conceder um doutorado honoris causa ao ministro da Cultura, Gilberto Gil (a primeira, muito apropriadamente, foi a UFBA). A visita de Gil à cidade neste contexto pós-furacão foi bem significativa. Foi para lá de importante, simbolicamente, que Tulane tenha escolhido um dos principais artistas, intelectuais e políticos negros do mundo para receber o doutorado honoris causa em New Orleans, num momento em que boa parte da população negra histórica da cidade está sendo literalmente expulsa da cidade.

Segundo todas as testemunhas, Gil foi o Gil de sempre: sábio, tranqüilo e capaz de encantar uma série de públicos diferentes. Na sexta Gil visitou as partes mais destruídas de New Orleans, palestrou e até deu canja no violão: IMG_5396.jpg






Os doutorados honoris causa são aprovados pelo Senado da Universidade e neste caso não foi diferente. Mas todo o mérito da homenagem a Gil foi de Christopher Dunn, amigo meu e especialista em música brasileira (e autor de um belo livro sobre a Tropicália), que há meses vem trabalhando com o complicadíssimo calendário de Gil para que a festa pudesse acontecer. Chris aparece aí todo orgulhoso, comandando a cerimônia e entregando a Gil um livro sobre as tradições de New Orleans: IMG_5378.jpg



A fofoca da festa é que estavam presentes Bill Clinton e George Bush pai como oradores da formatura. Ao final da cerimônia de graduação, o protocolo era que os dois ex-presidentes saíssem do auditório em primeiro lugar. Ao sair, Clinton quebrou a etiqueta, atravessou o salão e, na frente de todos, deu "aquele abraço" em Gil, com quem ele havia tomado o café da manhã do sábado. Acho que para quem nunca saiu do Brasil deve ser difícil dimensionar a importância dessas viagens de Gil como "embaixador da cultura brasileira". Em dois dias por aqui, ele deve ter conversado com centenas de pessoas: os frutos que se colhem depois desse trabalho de relações públicas são consideráveis, podem acreditar.

Chris me conta que Gil saiu daqui com pilhas de CDs e livros, presenteados por professores de Tulane e membros da comunidade. Adivinhem se o imbecílico blogueiro aqui lembrou de deixar exemplares de seus livros para o ministro? Claro que não. Mas fica aqui a homenagem a ele e os parabéns pelo doutorado honoris causa, com a saudação a Christopher Dunn, que organizou uma festa de quem tanta gente usufruiu. Todas as notícias que chegam aí do Brasil são de que Gil amou a visita, se divertiu à beça e incluirá New Orleans de qualquer jeito na próxima turnê. Foi um gol de placa da nossa universidade, modéstia às favas.

IMG_5355.jpgGil visita a casa da lenda new-orleaniana, Fats Domino.

IMG_5457.jpgGil comendo um po-boy, o tradicional sanduba de New Orleans.



  Escrito por Idelber às 01:55 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 24 de abril 2006

Seleção musical do Overmundo

Ótimo dia para fazer para vocês uma seleção musical do Overmundo. Li por aí, já não me lembro onde, outra daquelas terríveis cantilenas apocalípticas do tipo "a música brasileira já não é o que era", "já não temos compositores como antes", etc. Acho que de todas as bobagens que leio na internet, essa é uma que ainda tem o poder de me irritar um pouco.

Já ficou conhecendo o trabalho de um novo músico brasileiro hoje? Quer sugestões? Todos os links que se seguem levam a arquivos MP3 do Overmundo, disponibilizados em regime Creative Commons:

O que eu mais gostei até agora foi a batida tecno com guitarra suingada da banda paraense Cravo Carbono, na faixa Café BR (o Hermano Vianna, que sabe tudo de música paraense, recomenda).

Da fornada do grande compositor gaúcho Marcelo Birck, que já tem história na música popular do Rio Grande, vem a banda Os Atonais, que ele lidera junto com Leandro Blessmann. A faixa é a pós-jovem guarda Chamas do Inferno.

Moda de viola em bonita homenagem a São Paulo, de Esso A., é a Guigue.

O Lado 2 apresenta o sambinha requebrado sincopado malandro cheio de breques de Samba Bloody Samba.

Tem o rock'n'roll sem frescura, porrada, dos paulistas do Fuzzly, que gravaram na Argentina a faixa Black Flame.

Você que, como eu, for fanático do mangue beat, ouvirá os ecos das justaposições rítmicas próprias do movimento em Pernambuco Tramways, de Alex Mono e Modal Transgress.

Bárbara e os Perversos deixam um muito estranho Lamento.

Bem reminiscente do som de Max de Castro e da geração da Trama é o som do 2 Cafés em Se não vai dar prá te amar.

E, last but not least, está imperdível o resumo feito pelo Pedro Alexandre Sanches dos lançamentos de música brasileira de 2005. Não ouvi todos os discos resenhados pelo Pedro ainda, mas recomendo o "Cabeça Elétrica Coração Acústico", de Silvério Pessoa. O cabra é muito bom.

PS: Iuhuu! Sexta-feira embarco de novo para BH. Mais farinha no tropeiro aí, please.



  Escrito por Idelber às 23:27 | link para este post | Comentários (20)



quinta-feira, 06 de abril 2006

Paêbirú (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho

cortes_lula_paebiru~~_101b.jpg É das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez em música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de 5 leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos.

Em 1973, o paraibano Zé Ramalho estava cansado de animar bailes em bandas de iê-iê-iê de João Pessoa e Campina Grande. O pintor Raul Córdula lhe avisou que no Recife havia um pessoal diferente, conhecido pela alcunha de udigrudi pernambucano. Foi pra lá. O guru era Lula Côrtes, um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.

Este disco não foi a estréia de Zé. Ele havia entrado no estúdio em 1973 para participar de uma maluquice coletiva chamada Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários. Lula Côrtes se firmara como líder da turma durante a I Feira Experimental de Música do Nordeste (11/11/1972), também conhecida como Woodstock cabra da peste.

“O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo, futuro membro da Tamarineira Village, numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).

No início de 1974 Zé foi apresentado a Lula, que vivia com a namorada Kátia Mesel no então distante subúrbio de Casa Forte (que virou bairro nobre do Recife). Lula lhe falou da Pedra do Ingá e da idéia de fazer um disco inspirado no sítio arqueológico de Ingá do Bacamarte. O disco foi feito em 1975 no estúdio da Rozenblit (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula e Kátia.

Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.

Hoje é possível encontrá-lo em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Aí no Brasil o disco sai por um preço bem salgado: alguém oferece um exemplar do CD no Mercado Livre por 120 mangos. No site da CliqueMusic é possível ouvir os primeiros 30 segundos de cada faixa. E também está disponível por aí na rede, claro, para quem tem as manhas.

Eu acho 90% do que se passa por “psicodelia” uma grande embromação. O Pink Floyd fez um disco, chamado The Piper at the Gates of Dawn (1967), ainda com Syd Barrett. O resto é trilha sonora de imberbe experimentando um baseado pela primeira vez. Estou em boa companhia ao achar o Grateful Dead uma chatice: o desfrute da música depende seriamente de uma ajudazinha de psicotrópicos e da mitologia da "viajandice" propagada pela banda.

Não é o caso deste LP duplo, em quatro partes: Terra, Ar, Fogo, Água. 11 canções no total, sendo o “Ar” representado só por duas faixas. “Trilha de Sumé”, com 13 minutos, passa por tambores, cantorias em marcação de coco, flauta, saxofone, o tricórdio de Lula e a guitarra distorcida de Zé Ramalho. É impossível saber o que vai acontecer no momento seguinte. As seqüências melódicas são interrompidas por cantorias de pássaros, sons de cachoeiras e outros barulhos da natureza que vão pontuando a viagem. “Harpa dos Ares” é uma bela peça instrumental com diálogo de cordas, flauta e canto de pássaros. O fechamento da parte “Terra” é com “Não existe molhado igual ao pranto”, melodia arrastada à base de cordas, com gritos esganiçados ao fundo (sugerindo tortura, talvez) e solos de sax. O barítono rouco e arranhado de Zé ecoa melancólico: Não se escuta da terra quem for santo / Não se cobre um só rosto com dois mantos / Nem se cura do mal quem só tem pranto / Nenhum canto é mais triste que o final.

Eu gosto menos da seqüência do “Ar” (faixas 4 e 5) que é mais plácida, menos trabalhada musicalmente e mais dependente de ruídos externos.

A seqüência “Fogo” começa com uma canção intitulada com versos que depois ficariam famosos na voz de Zé: “Nas paredes da pedra encantada / os segredos talhados por Sumé”. Essa é um petardo, um rock alucinógeno, com bateria, baixo, órgão. Um resenhista definiu a canção como “o som que os Doors teriam se eles fossem capazes de se divertir”. Essa seqüência termina com “Maracas de Fogo” e "Louvação a Iemanjá”, um canto responsorial sobre um batuque polirrítmico bem próprio dos sons dos orixás. Mais três faixas completam o disco, louvando a água: ali de novo predominam as cordas, pontuadas por ruídos aquáticos vários. Destaque para “Pedra Templo Animal”, um xaxado psicodélico.

Em 2003 eu vi um show de Zé Ramalho no Canecão, como convidado de Jorge Mautner. Depois, tive acesso ao camarim, porque estava com o mestre. Ia perguntar sobre Paêbirú. Não perguntei. Saí e fui escutar Mautner dissertar sobre Heidegger na areia de Ipanema.

Leitor: não morra sem ouvir este disco.

PS: se alguém conhecer outra resenha deste disco em português, além da minha e das duas páginas dedicadas a ele por José Telles em Do Frevo ao Manguebeat, por favor me avise.



  Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post | Comentários (47)



sábado, 25 de março 2006

Perdoai, Caymmi

Um ilustre membro da Academia Brasileira de Letras decreta que Peguei um Ita no Norte é uma "toada de Luiz Gonzaga".

Perdoai, Caymmi, porque não sabem o que fazem.

PS: Ok, ok, a reabertura era dia 31, mas essa foi tão cabeluda que eu não podia deixar passar.



  Escrito por Idelber às 14:19 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 21 de dezembro 2005

Valsa, Polca e Maxixe no Rio de Janeiro do Século XIX

(Fragmento de trabalho acadêmico bem mais longo, sobre música popular no Brasil do século XIX. Críticas e sugestões são bem vindas)

waltz.jpg

A valsa operou no século XIX como um dos únicos espaços públicos de aproximação para namorados e amantes. Adquiriu na corte carioca a aura de ícone musical aristocrático, mas em suas origens também foi uma dança plebéia, rural, de camponeses. Tal percurso – das origens plebéias à aceitação à posterior canonização – foi realizado por linguagens populares tão diversas como o maxixe, o tango argentino, o jazz ou o rock’n’roll.

Introduzida pela família real portuguesa em 1808, solidificada com a presença de compositores como Sigismund Neukomm, o músico austríaco que morou no Rio entre 1816 e 1821, a valsa foi hegemônica na preferência da elite do Rio de Janeiro especialmente no período em que se interroperam os espetáculos de ópera, de 1830 a 1845. Em ritmo ternário (compasso em 3/4), e possibilitando um enlaçamento dos corpos até então desconhecido, a valsa é tanto um instrumento de socialização como uma via de acesso a uma experiência erótica.

As origens populares da valsa são visíveis na importante diferença que ela introduz em relação às danças européias anteriores como os minuetos, as polonaises ou as quadrilhas. Em contraste com estas, na valsa os bailarinos se encontram nos braços um do outro, com os rostos a poucos centímentros de distância e os corpos girando abraçados. É o gênero pioneiro na dança enlaçada. Para o século XVIII vienense, houve algo perturbador nessa introdução de posições mais eroticamente sugestivas na dança, e na medida em que a valsa se espalha e ganha popularidade na Europa ela enfrenta reações não muito diferentes das que provocariam o maxixe e o rock’n’roll um e dois séculos depois. No momento de sua introdução na Inglaterra, em julho de 1816, num baile oferecido pelo príncipe regente, um editorial do The Times ainda afirmaria:

Notamos com dor que a dança estrangeira indecente chamada valsa foi introduzida (acreditamos que pela primeira vez) na corte inglesa na última sexta-feira . . . Basta lançar os olhos no voluptuoso entrelaçamento de membros e compressão fechada dos corpos em sua dança para ver que ela certamente está bem distante da reserva modesta que até hoje tem sido considerada distintiva das mulheres inglesas. Enquanto essa exibição obscena estava confinada a prostitutas e adúlteras, não a julgamos digna de nota; mas agora que se tenta forçá-la nas classes respeitáveis da sociedade pelos exemplos civis de seus superiores, sentimos que é um dever alertar todos os pais contra a exposição de suas filhas a contágio tão fatal. (tradução minha; original aqui).

Tal como voltaria a acontecer incontáveis vezes com outros gêneros musicais, é à pureza da mulher que os moralismos de plantão recorrem como tesouro a ser preservado ante a chegada da dança bárbara. Isso implica, naturalmente, que é na verdade um prazer feminino anunciado na dança que está sendo censurado, mesmo na chegada de um gênero depois percebido como inocente e bem-comportado, como é o caso da valsa.

Depois da interrupção de 1830, o reinício da ópera no Rio acontece em 1845 e concide com a introdução da polca, que teria um impacto significativo na história da música brasileira.

polka.jpg Interpretada pela primeira vez no Rio em 3 de julho de 1845, no Teatro São Pedro, pelas duplas de atores Felipe e Carolina Cotton e Da Vecchi e Farina , a polca se espalharia pelos salões do país numa febre incrível. Já em 1846 se constituía uma Sociedade Constante Polca na corte carioca. Ao longo das décadas seguintes ela substituiria a valsa nas preferências da elite do Rio.
Segundo José Ramos Tinhorão, o 2/4 em allegreto da polca, com seus movimentos saltitantes, deu vazão a uma sensibilidade social da época – de euforia pela estabilidade política e prosperidade econômica – que era inalcançável pelo movimento mais cadenciado da valsa. Claro que a valsa não deixa de ser cultivada no Brasil: ela viria a ter, depois, papel destacado na obra no maior compositor popular da história do país.

Esse processo em que a polca desafia a hegemonia da valsa ocorre entre as décadas de 1840 e 1860. Enquanto a ópera entrava numa fase em que se transformara em pura cultura de ostentação, a polca consolidava sua hegemonia não só entre as elites, mas também entre amplos setores das classes populares. Ao contrário da valsa, a polca abriria uma linha de comunicação direta com a música popular: é na execução “chorada” e “sincopada” das polcas introduzidas vinte anos antes que os “grupos de chorões” começariam a elaborar a linguagem musical brasileira por excelência, o choro, a partir da década de 1860.

A passagem ao ritmo binário da polca representou, assim, a chegada de um padrão rítmico mais apto a conversar com a poliritmia afro-brasileira que naquele momento já se fazia ouvir em senzalas, quintais e ruas. Essa “conversa” tem um nome no Brasil: maxixe. Na definição lapidar de José Miguel Wisnik, aquela transição é um momento em que “o termo ‘maxixe’ vem comendo pelas bordas, e as síncopas, os efeitos rítmicos contramétricos e balançantes, vão se imiscuindo, decantando e se fixando por dentro da própria música.”

O gênero não é uma rígida forma que surja no país e se estabeleça numa data determinada (como os gêneros importados, a valsa em 1808 e a polca em 1845) nem tampouco um padrão rítmico determinado cujo nome seja contemporâneo ao fenômeno (como seria depois o caso do samba, constituído enquanto tal entre, aproximadamente, 1910 e 1933 e nomeado em 1916 numa famosa gravação). No caso do maxixe há um grande descompasso histórico entre o fenômeno e sua nomeação, em virtude da censura e repressão que sofre a própria palavra, o nome mesmo do gênero. No final dos anos 1870 o termo maxixe ainda é tabu no Rio de Janeiro. Evocando um corpo popular, negro e mulato, o maxixe opera, durante um par de décadas, também como repertório de movimentos corporais proibidos e subversivos. Para nomear suas composições maxixadas, Ernesto Nazareth escolheu o termo "tango", depois 'tango brasileiro' e que, é bom lembrar, nada tem a ver com o argentino.

O maxixe é um daqueles casos singulares em que a dança gera o gênero. José Ramos Tinhorão notou:

Foi, pois, o estilo de tal forma malandra e exagerada de dançar o ritmo quebrado da polca-tango que acabaria por fazer surgir o maxixe como gênero musical autônomo, ao estruturar-se pelos fins do século XIX sua forma básica: a exageração dos baixos – inclusive pelos instrumentos de tessitura grave das bandas – conforme o acompanhamento normalmente já cheio de descaídas dos músicos de choro.

O que se nomeia aqui como ‘polca-tango’ também foi chamado ‘polca-lundu’, ‘polca-chula’, ‘polca-cateretê’, além de ‘polca brasileira’. Esses rótulos designam no fundo o mesmo fenômeno, a forma de tocar a polca européia que se desenvolvia no Brasil, na qual se deixava ouvir nitidamente o registro de sensibilidades musicais afro-atlânticas ou americano-mestiças já de longa história aqui.


choro2.gif Esse é o momento em que se consolida o estilo de tocar dos chorões, na base de um solo acompanhado de contracanto e modulações. Tinhorão assinala que a música dos chorões traz um nítido legado do que se chamara nos fins do século XVIII e início do século XIX de música de senzala. Toma-se a polca européia e alonga-se a frase musical, introduzindo-lhe modulações que ela até então não conhecia. O uso do contracanto dá aos vocais uma estrutura responsorial, marca das práticas musicais afro-atlânticas (a famosa "chamada e resposta"). Começa a se constituir ali uma música mestiça urbana que traz um traço marcante das músicas africanas subsaarianas: a interpolação de agrupamentos binários e ternários, ou seja, a utilização de compassos que misturam agrupamentos de duas e de três pulsações. Como explica Mieczyslaw Kolinski, resenhando o clássico Studies in African Music, de A. M. Jones:

Nossa teoria musical clássica prevê dois tipos de compasso, os simples e os compostos. Nos compassos simples, as unidades de tempo são binárias. Por exemplo, nos compassos 2/4, 3/4 e 4/4, as unidades de tempo são as semimínimas, que, dividindo-se sempre por dois, serão equivalentes a duas colcheias ou quatro semicolcheias etc. (Os casos em que semimínimas são divididas de modo ternário constituem exceções à regra, são chamados de “quiálteras” e exigem sinalização especial.) Por outro lado, nos compassos compostos, como o 6/8 ou o 9/8, a unidades de tempo são ternárias e são representadas por semimínimas pontuadas (divididas portanto em três colcheias). Mas o fato é que não há compassos que misturem de modo sistemático agrupamentos de duas e três pulsações, como semimínimas e semimínimas porntuadas. É precisamente essa mistura que vai desempenhar um papel muito importante nas músicas da Africa subsaariana.

Essa caracteristica, que começa a penetrar, “invadir” os espaços considerados eruditos no Brasil no século XIX, receberia um nome: síncope, que já Mário de Andrade identificava como traço que “percorre com constância formidável toda a música americana” e que, notava o folclorista e escritor modernista, “é tida em geral como provinda da Africa”. A síncope, conceito naturalizado no discurso acadêmico e também na fala do leigo como algo “africano”, nada mais é que a forma encontrada para se fazer o registro dessa contrametricidade própria das músicas africanas subsaarianas nos cânones escriturais herdados da música erudita européia e já em voga na prática das elites do Brasil. Explica aí, Sandroni:

tal sistema [a notação em partitura] não prevê . . . a interpolação de agrupamentos binários e ternários. O resultado é que ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados, anormais, irregulares (exigindo, para sua correta execução, o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra, como síncopes.

Por isso, seria menos correto dizer “a síncope é uma ‘característica’ africana herdada pela música brasileira” que dizer que a síncope é a notação gráfica do susto da partitura européia ao ter que representar a mistura sistemática de agrupamentos de duas e de três pulsações, uma alternância que ela não conhecia e não estava preparada para registrar.

Produto de uma sincopagem mulata a que se submeteu a polca, o maxixe se dissemina fortalecido pela novidade da dança que permitia o entrelaçamento dos corpos, favorecido pelo contato com os lundus dançados com umbigadas por mestiços e brancos, e nutrindo-se do entusiasmo pelo baile gerado a partir da própria polca. Tinhorão indica que "o próprio nome de maxixe que a dança tomara pela década de 1870 era usado ao tempo para tudo quanto fosse coisa julgada de última categoria”. Seria necessário realizar todo um trabalho de pesquisa para dimensionar o que foi a censura ao nome no caso desse gênero. Requebrado, indecente, lascivo: a constelação de adjetivos que acompanha o termo maxixe na segunda metade do século XIX dá idéia do seu papel como repositório de práticas populares eróticas que cumpriam naquele momento uma inegável função democratizadora.

O fantasma inaceitável para a elite da época era, sem dúvida, a referência implícita ao corpo negro e mulato ocupando o lugar de sujeito de uma performance pública. Partindo dos bailes do Paraíso, onde se reuniam o baixo meretrício e a capadoçagem do tempo até chegar aos bailes de carnaval, o maxixe vai pouco a pouco conquistando as camadas mais altas da sociedade.

maxixe.JPG Na década de 1870 o maxixe inicia essa trajetória rumo à aceitação pelas elites. A incorporação do gênero ao teatro de revista se dá com Arthur Azevedo, na revista Cocota, no Teatro Santana em 6 de março de 1885. Em 1883 o maxixe era representado no teatro pela primeira vez para um público de classe alta, pelo ator Francisco Correia Vasques, enquanto se disseminava também como prática cotidiana das classes populares. A partir do tango As Laranjas da Sabina, de Arthur Azevedo, na peça República de 1890, o maxixe iniciaria uma longa carreira de pelo menos 40 anos nos palcos. Na década de 1890 há registros da disseminação do gênero por outras cidades brasileiras. Em 1899 o Jornal de Notícias de Salvador faz referência a um baile em que “um casal dançava tão bem o maxixe que foram brindados com cerveja gelada”. O gênero chegaria à Europa em 1905, através do famoso bailarino Duque; seu auge no Brasil terminaria com a chegada da febre dos fox-trot e charleston por volta de 1918.

PS 1: Há outras danças no Rio do século XIX, obviamente. A mazurca, a habanera e o schottish são três exemplos. Outro dia falo deles.

PS 2: Eu andei contribuindo com a Wikipedia nos verbetes valsa e Clube Atlético Mineiro (ah, que ironia). Alguém aí contribui também?



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domingo, 30 de outubro 2005

Discoteca Básica do Mangue Beat

Para conhecer a melhor música popular feita no Brasil nesta última década, a de Pernambuco:

mangue-3-lama.jpg 1. Da Lama ao Caos, Chico Science e Nação Zumbi (1994): Aqui começou tudo. Alfaias do maracatu misturando-se a guitarras, baixo e bateria. Vocais que exploravam o inusitado parentesco entre a embolada e o hip hop. Distorções à la heavy metal coexistindo com a ciranda e a música eletrônica. Tudo marcado pela poesia visionária de Chico Science. Os brasileiros que viram a performance de Chico e Nação no lançamento desse disco no exterior, no Central Park de Nova York em 1995, jamais perderão o orgulho de serem brasileiros. Fúria combinatória como não se via desde o tropicalismo. O encarte traz o maravilhoso manifesto.

mangue-1-samba.jpg2. Samba Esquema Noise, Mundo Livre S.A. (1994): Tão importante como Chico Science para o movimento, Fred 04 reúne a troupe pela primeira vez aqui e já no título rende um tributo a Jorge Ben Jor. Primeiros registros do que seria seu legendário cavaquinho. Mais roqueiros e mais diretamente políticos, o Mundo Livre S.A. também tem, ao contrário da Nação Zumbi, um pé inteiro no samba. Em "O Mistério do Samba", do disco Por Pouco, eles resumiriam a história: O samba não é carioca / O samba não é baiano / O samba não é do terreiro / O samba não é africano / O samba não é da colina / O samba não é do salão / O samba não é da avenida / O samba não é carnaval / O samba não é da tv / O samba não é do quintal / Como reza toda tradição / É tudo uma grande invenção.

mangue-4-terceiro.jpg3. Terceiro Samba, Mestre Ambrósio (2001): Difícil escolher o melhor disco do Mestre Ambrósio. Fico com este, o terceiro, onde mais se realçam a rabeca de Siba e as letras delirantes, com toques medievais, de Sérgio Cassiano. A base é o forró e a música de cordas árabico-ibérica, mas há de tudo: maracatu, samba, repente e ciranda incluídos. "Saudade" é um samba para carioca nenhum botar defeito. O irresistível baião "Povo" é, na minha opinião, das melhores canções políticas da história da música brasileira.

mangue-5-afro.jpg4. Afrociberdélia, Chico Science e Nação Zumbi (1996): Maturidade atingida, fórmula encontrada: a tríade maracatu-embolada-coco encontra a tríade metal-reggae-hip hop. Com produção superior à do primeiro disco, esse petardo preparava Science para conquistar o mundo. É de morder os lábios de raiva pensar que o cara morreria logo depois, com mil projetos na cabeça. A releitura de "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner, marcaria época. Gilberto Gil dá canja numa faixa memorável, "Macô". Não seria exagero dizer que este é o disco mais importante da música popular brasileira na década de 90. Indispensável.

mangue-6-fome.jpg 5. Fome dá dor de cabeça, Cascabulho (1998): Primeira banda forró-punk do planeta. O Cascabulho destila a energia roqueira, metálica e rapeira do mangue beat mas toca, basicamente, baião dos bons, e uptempo. O vocalista Silvério Pessoa (agora em carreira solo e arrasando na Europa) é um show à parte. O Cascabulho explora especialmente a vertente sacana e safada sempre presente no forró. O exigentíssimo público musical de New Orleans se embasbacou com essa banda e lhe deu nota 10 no Jazz Fest de 2001. No título do disco, já toda uma estética.

mangue-7-fome.jpg6. Contraditório?, DJ Dolores (2002): Chico Science sempre teve um pé na música eletrônica, mas quem leva a arte do sampling às últimas consequências é DJ Dolores. Matérias primas da sampleada? Tudo, especialmente o arquivo infinito da música nordestina. Mas também entram ruídos ambientais, narrações de rádio, house. Já no título, um apelo à mistura. Nunca uma rabeca lhe soará tão moderna.

mangue-2-peixe.jpg7. Fique Peixe, Querosene Jacaré (2001): Um dos melhores discos de rock feitos nos últimos tempos no Brasil. O rock sempre foi pilar chave do mangue beat, mas aqui é onde ele se realiza com todo vigor. Sem prejuízo da mistura: você encontrará guitarras distorcidas embalando uma ciranda e sambalanços cujo swing cita claramente Jorge Ben Jor. Uma das pérolas do mangue ainda pouco conhecida no sul maravilha. Há mais rock numa faixa do Querosene do que em toda a obra dos Skanks, Jota Quests e outros abomináveis espécimens do chamado "rock mineiro".

mangue-8-naçao.jpg 8. Nação Zumbi (2002): Quem apostou que a Nação não sobreviveria à morte de Chico se enganou. Jorge du Peixe assumiu o leme e, depois do disco Radio S.A.M.B.A., de 1998, levou a troupe a esse absurdo petardo, talvez o disco mais pesado de toda a discografia mangue. Apesar de pesadíssimo - em ambos os sentidos, roqueiro e maracatúlico - Nação 2002 é melódico, lírico, de audição apaixonante. A sampleagem e a música eletrônica vêm no toque certo, sem se sobrepor às poderosas alfaias, guitarras e baixo. "Blunt of Judah" é daqueles fenômenos da música brasileira: letra meio nonsense, com inglês misturado, que todo mundo aprendeu e canta até hoje.

mangue-9-otto.jpg 9. Samba pra Burro, Otto (1998): Esse descendente de holandeses e índios foi baterista nas primeiras formações da Nação Zumbi e do Mundo Livre S.A. Só isso já lhe garantiria lugar de honra no movimento. Mas esse disco é outra pérola que não pode faltar numa discografia básica: a base é a eletrônica, mas sem agressividade. Muito swing, muita ginga. O título maravilhosamente descreve a ambiguidade do disco.

lenine-1.jpg10. Na Pressão, Lenine (1999): Lenine não é exatamente parte do movimento mangue, mas qualquer antologia de música pernambucana ficaria incompleta sem ele. Letrista, violonista, arranjador, produtor, pensador, músico de incríveis recursos, ele já marcou época na música brasileira. Sobre ele eu escrevi esse outro post. Qualquer um de seus discos serviria aqui, mas escolho Na Pressão pelo conjunto coroado por "Jack Soul Brasileiro", esse manifesto de brasilidade anti-xenofóbica.

Eu poderia citar outros 50 discos pernambucanos indispensáveis da última década (faltou o Cordel do Fogo Encantado, por exemplo). Mas com esses 10 dá para começar.

Salve, Pernambuco.

PS: Este blog foi inaugurado no dia 29 de outubro de 2004. Um aninho completado neste fim de semana. Tim-tim.



  Escrito por Idelber às 23:12 | link para este post | Comentários (40)



quarta-feira, 17 de agosto 2005

Convite a um Evento sobre Música na UFRJ

Rascunhando palestra, arrumando para entrar no avião, não deu para escrever post hoje. Mas deixo aqui o convite a quem estiver no Rio de Janeiro e quiser prestigiar o seguinte evento:


O LABORATÓRIO DE ETNOMUSICOLOGIA da UFRJ
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convida para a série de encontros temáticos a partir desta próxima quarta, 17/08:

Música em Debate IV (2005)

1º Módulo: Música, Cidadania e Políticas Públicas; Perspectivas Recentes no Brasil.

Foco: O seminário procura debater o lugar da música e da construção da cidadania em políticas culturais, à luz da experiência recente no Brasil.

17 de agosto - 18:30 às 19:30
Sala da Congregação, Escola de Música da UFRJ.
Mediador: Prof. Dr. Samuel Araujo, LE-UFRJ
Palestrante:
Ana de Hollanda (Diretora do CEMUS/Funarte/MinC) - A Criação da Câmara Setorial de Música no Ministério da Cultura (2005); Novos Desafios para a Cidadania no Brasil
Debatedor: Eduardo Camenietzki (Compositor e professor, Fórum Musical do Rio de Janeiro)

18 de agosto - 10:00 às 12:00
Salão Henrique Osvald, Escola de Música da UFRJ.
Mediadora: Prof.ª Draª Marianne Zeh, LE-UFRJ.
Palestrantes:

Prof. Dr. Idelber Avelar (Tulane University, EUA) - De Chico Science a Berimbrown: Mangue Beat e Blackitude mineira pensando a nação e a cidadania.

Dr. Edmundo Pereira (Associação Cultural Caburé; LACED-Museu Nacional/UFRJ) - Tradições orais, pesquisa e criação de parâmetros para implementação de políticas públicas: reflexões a partir do fandango paranaense.

Promoção: Laboratório de Etnomusicologia (LE-UFRJ)

Apoio: Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ.

Local: Escola de Música, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sala da Congregação
Rua do Passeio, 98, Centro
Rio de Janeiro – RJ

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Coordenação:

Prof. Dr. Samuel Araujo

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O Laboratório de Etnomusicologia foi criado em 2001, como resultado da implantação (década de 1980) da Etnomusicologia como disciplina no âmbito da Pós-Graduação em Música, e, posteriormente (2000), da linha de pesquisa Etnografia das Práticas Musicais, subordinada à área de concentração Musicologia. Abrange ainda o histórico acervo multimeios do Centro de Pesquisas Folclóricas, criado por Luiz Heitor Correa de Azevedo em 1943. No ano de sua fundação, o Laboratório teve a responsabilidade de coordenar a comissão local de organização do 36º Congresso Mundial do International Council for Traditional Music (ICTM), órgão consultivo formal da UNESCO, com a presença de cerca de 300 pesquisadores e músicos de todo o mundo.

Tem o Laboratório por finalidade mais geral abrigar as atividades de ensino, pesquisa e extensão dos professores da área específica e de áreas afins, pesquisadores associados, técnicos em especialidades pertinentes e alunos dos níveis de graduação e pós-graduação da Escola de Música da UFRJ. Entre suas atividades incluem-se cursos de graduação e pós-graduação, alguns dos quais oferecidos em outras unidades da UFRJ, desenvolvimento de projetos de pesquisa individuais e em equipe, desenvolvimento de projetos e ações em parceria com entidades de cunho comunitário, ciclos de palestras, simpósios e apresentações musicais.

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PS: A menção especial de hoje vai para a primeira pessoa que leu o Biscoito, e sem cujo apoio e incentivo no começo este blog talvez nem existisse. Obrigado mais uma vez, Cipy Lopes :)



  Escrito por Idelber às 10:58 | link para este post | Comentários (16)



terça-feira, 26 de julho 2005

Cordel do Fogo Encantado em BH

cordel 020.jpg

Sábado passado o Cordel do Fogo Encantado visitou Belo Horizonte e finalmente pude vê-los. Queria saber se todas as lendas sobre o espetáculo eram verdadeiras mesmo.

Saí apaixonado pela banda, muito mais do que já era via disco. O show é um espetáculo de tambores e luzes, uma festa percussiva-psicodélica liderada pelo pandeirista, vocalista e poeta Lirinha, uma espécie de Jim Morrison do sertão.

Segundo a explicação da banda: Cordel é o trabalho com a literatura oral e escrita, o fogo é o sertão das fogueiras de São João, do sol e da terra queimada e encantado é o profeta, o cantador.

Vindos de Arcoverde, sertão de Pernambuco, eles pegam carona nessa grande inovação de Chico Science e do Mangue Beat pernambucano: a incorporação das alfaias e tambores como base rítmica para a música pop.

Nego Henrique, Rafa Almeida e Emerson Calado se revezam nos instrumentos de percussão, ora tambores, ora congas, ora dois sets de bateria de rock armados ao fundo do palco. Só um instrumento harmônico, o violão de Clayton Barros.

A base rítmica é o samba de coco, a embolada e muito reisado. Mas reciclado, como tudo no Pernambuco pós-Mangue Beat, na escola do hip hop, do rock, do funk. Nego Henrique e Rafa Almeida vêm do Morro da Conceição e trazem toda a vivência dos cultos afro-brasileiros.

cordel 019.jpg

Com esses ingredientes, um jogo de luzes e fogos impressionante, e a performance dramática de Lirinha, o Cordel te leva, durante duas horas, a um show que parece um sonho: dragões, bestas-fera, castelos, uma espécie de surrealismo medieval no meio da seca. É indescritível.

Há uma velha história de amor entre o Cordel e Belo Horizonte, porque eles passaram por aqui em absolutamente todos os shows que fizeram ao longo dos 8 anos de carreira. Deixaram um público fiel. O Lapa Multishow superlotou, e a banda parecia rever velhos amigos.

Para quem não conhece os dois imperdíveis discos do Cordel, o site oficial traz uma mostra.

A cada experiência, eu me convenço mais: a melhor música popular deste país continua se fazendo em Pernambuco. É o laboratório do futuro.



  Escrito por Idelber às 02:11 | link para este post | Comentários (20)



quarta-feira, 20 de julho 2005

Corrente da Música, dia do amigo

O amigo Rafael Reinehr passou a corrente da música e aqui vão as respostas:

1. Quantos gigabytes usados com música?

No computador muito pouco, menos de 2 GB (390 canções). Nos iPods, a situação é a seguinte: 16.14 GB (4292 canções) no iPod de música não-brasileira e 14.12 GB (4112 canções) no iPod de música brasileira.

Último CD que comprei:
Sol Negro, de Virgínia Rodrigues e o Epônimo de Junio Barreto, artista pernambucano radicado em São Paulo (luminosa dica dela).

Música tocando no momento:
All Tomorrow's Parties, ironiquíssima versão ao vivo gravada no Texas, Velvet Underground

Pergunta que acrescento à corrente:

Músicas mais executadas nos iPods (com o número de execuções no último ano):

Hey Pocky A-Way, The Meters 51
Unity: The Third Coming, Afrika Bambaataa 49
Electric Cafe, Kraftwerk 49
Get Up (I Feel Like Being A) Sex Machine, James Brown 48
Mesa de bar, Alcione e Ed Motta 39
Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida, Paulinho Da Viola 30
Samba Makossa, Chico Science & Nacão Zumbi 26
Povo, Mestre Ambrósio 26
The Killing Moon, Echo and the Bunnymen, 23
Ain't No Sunshine, Neville Brothers 25
Hino do Atlético-MG, Tianastácia 23
Hino do Grêmio, Chimarruts e Borguetinho 23
Volta Por Cima, Beth Carvalho 22
Concertos de Brandenburgo, 1 a 6, Bach 22
Take the A Train, Duke Ellington, 22
O Cidadão Do Mundo Chico Science & Nação Zumbi 22
A Deusa Dos Orixás, Clara Nunes 22
Canto Das Três Raças, Clara Nunes 21
Torresmo à Milanesa, Clementina De Jesus e Adoniran Barbosa 21
Bailão, Kleiton & Kledir, 21
Hino do Vasco, Paulinho Da Viola e Los Hermanos 21
Ratamahatta, Sepultura 21
Eleanor Ribgy, The Beatles 20
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles 20
Silencio No Bixiga, Beth Carvalho 20
Feira Moderna, Beto Guedes 20
Ect, Cássia Eller 20
I Like Ki Yoka, Dr. John 20
Ain't No Sunshine, .Eva Cassidy 20
It Don't Mean A Thing, Dr. John 20
A História Da Morena Que Abalou As Estruturas Do Esplendor Do Carnaval, Max de Castro, 20
Só O Tempo (Com Zizi Possi), Paulinho Da Viola 20

5 pessoas para quem passo a batuta
Fica prá próxima

PS: Feliz dia do amigo a todos os amigos. E à amiga Lucia Malla meu muito obrigado por já ficar amiga do Alexandre e enviar-lhe fotos lindas do mar. Ver o Alexandre curtindo o post da Lu sobre os tubarões foi daquelas alegrias incríveis. Para isso a gente bloga. O resto é bobagem.

Tudo de bom sempre.



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segunda-feira, 04 de julho 2005

O Ano de Lenine

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Matérias no Globo, no Estadão, homenagens na França, show no legendário Le Zenith: a carreira de Lenine está no auge.

Muito merecido, aliás: há tempos digo que Lenine, para mim, é o artista mais completo da última década na música brasileira popular. É um exímio compositor, violonista, cantor, letrista e melodista. Trabalha uma sonoridade muito própria, fruto de uma combinação inteligente entre o melhor da MPB, do rock internacional e de ritmos nordestinos como o maracatu e o baião.

Lenine é o primeiro violonista popular, desde Gilberto Gil e João Bosco, a estabelecer um estilo reconhecível até mesmo pelos ouvintes de música mais casuais. Trata-se do que chamaríamos em inglês picking style, um estilo 'percussivo', em que as pontas dos dedos trabalham muito e criam uma sonoridade mais sincopada, mais 'quebrada', às vezes fazendo das cordas quase que um instrumento de percussão.

Lenine pertence a uma geração que tem, com relação ao rock brasileiro dos anos 80, duas diferenças importantes:

1. enquanto que as bandas dos 80 estouravam quando seus integrantes contavam 20 e poucos anos, Lenine, Chico César, Paulinho Moska e outros perambularam bom tempo, amadureceram sua arte durante mais de uma década até gravarem seus primeiros discos solo. Lenine estréia em 1983 com Baque Solto (em parceria com Lula Queiroga). Espera dez anos para gravar Olho de Peixe (em parceria com Marcos Suzano) e só em 1997 lança O Dia em que Faremos Contato, que é o seu primeiro disco solo e momento em que chega ao estrelato. Durante todo esse trajeto, Lenine amadurece sua visão de Brasil, a sua sonoridade, a compreensão de como funciona o mercado da música. É covardia comparar uma entrevista de Lenine com as entrevistas dos roqueiros dos 80. Em Lenine você encontra uma concepção global sobre o que é o Brasil, o que é o pop, qual a inserção de um artista de música no mundo, etc.

2. enquanto que a maioria dos roqueiros dos anos 80 formou-se ouvindo basicamente o rock internacional, nutrindo pela MPB uma verdadeira ojeriza (sim, isso muda depois, com a incorporação do próprio rock à MPB, mas o momento inicial é de antagonismo), um artista como Lenine entendeu bem cedo que há combinações ricas para serem armadas entre maracatu e hip hop, entre baião e música eletrônica. Essa liberdade de combinar ritmos do fundo do sertão com sonoridades do pop internacional é das grandes conquistas da música brasileira dos anos 90, e Lenine é um dos responsáveis por essa abertura (o grande pioneiro nisso foi, claro, o também pernambucano Chico Science).

Com Na Pressão (1999), vem a consagração definitiva: uma mistura que vai de canções mais uptempo sobre o Brasil, visto pelo viés de Jackson do Pandeiro ("Jack Soul Brasileiro"), releituras de Oswald de Andrade e da antropofagia ("Tupi Tupy") até uma parceria com Arnaldo Antunes sobre o trânsito, um verdadeiro manifesto de cidadania ("Rua da Passagem").

Durante o último congresso do ramo latino-americano da International Association for the Study of Popular Music, no Rio de Janeiro, fomos agraciados com um papo com Lenine. O cara simplesmente encantou todo mundo. Sabe o que faz, sabe onde quer chegar, sabe quais são os obstáculos.

Na letrística de Lenine você encontrará ecos de muita coisa, desde Noel Rosa até Chico Buarque, passando por João Cabral de Melo Neto. Trata-se de uma poesia que trabalha muito as aliterações, as paranomásias, as rimas internas, os jogos de duplo sentido. Ficam aí como exemplo as três últimas estrofes desse lindo poema de amor que é "Meu Amanhã":

Minha meta, minha metade
Minha seta, minha saudade
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã

Meu fá, minha fã
A massa e a maçã
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã
Meu lá, minha lã
Minha paga, minha pagã
Meu velar, meu avelã
Amor em Roma, aroma de romã

O sal e o são
O que é certo, o que é sertão
Meu Tao, e meu tão...
Nau de Nassau, minha nação.

Se há algum leitor do Biscoito que ainda não ouviu esses discos imperdíveis, uma boa amostra está disponível para audição no site da Rádio Terra. Também recomendo o disco de 2002, Falange Canibal, um Lenine mais roqueiro e mais pesado que os anteriores. Disponível para audição parcial está o mais novo lançamento, seu primeiro álbum ao vivo, In Cité.

PS: Meu Movable Type anda meio estranho ultimamente, um pouco temperamental, e a hospedagem também. Se em algum momento vocês tentaram acessar o Biscoito e encontraram o site fora do ar, me avisem por favor, ok?



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sábado, 04 de junho 2005

As Cem Maiores Capas da História

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A notícia me chegou via este post do Fudido e Meio: a Bizz, revista que embalou as tribos musicais "alternativas" nos anos 80, está de volta. A proposta não é a mesma, os redatores também não, tudo soa muito mais mainstream que antes, mas vale a pena conferir. O número 1 é uma eleição das 100 melhores capas de discos da história, feita por músicos, jornalistas e produtores.

Eleita, com muita justiça, foi essa pérola do pop art feita por Andy Warhol para o disco de estréia do Velvet Underground, com Nico - a famosa banana que, depois de descascada, se revela rosada e roliça.

A capa brasileira mais bem colocada não foi nem a manjada capa dos Secos e Molhados, de legendária preparação na maquiagem, nem a famosa de Todos os Olhos, de Tom Zé, que imita um olho com uma bola de gude colocada num não-identificado ânus. O primeiro lugar nacional (terceiro geral) ficou com esta bela capa de Cartola, para Verde que te quero rosa.

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A eleição da Bizz é mais uma oportunidade para que a gurizada visite a obra-prima chamada Velvet Underground and Nico (1967). Tudo naquele disco é perfeito, não só a capa: não seria exagerado dizer que ele compõe, com Sgt. Peppers, a dupla de LPs mais importantes da história do rock.

Os Velvets são os inventores do conceito de underground na música popular; são os criadores e avôs do projeto de "rock alternativo"; inventores da noção mesma de art rock, depois desenvolvida nos 70 pelo glam; primeira banda a levar os mundos sado-masoquistas para o rock; primeira a fazer usos criativos tanto da dissonância como da distorção, logo depois transformada em arte por Hendrix. E primeiros em muita coisa mais. A brincadeira que corre é que esse disco da banana só foi ouvido por umas cem pessoas, mas todas elas formaram uma banda depois. De David Bowie a R.E.M., tudo o que se seguiu seria impensável sem os Velvets.

Sempre que encontro mais um garoto que acaba de descobrir os Doors e passa a achar que Jim Morrison é a última palavra em transgressão no rock, eu insisto: já ouviu Venus in Furs? Heroin? All tomorrow's parties? Já descascou uma banana?

A verdadeira radicalidade estava em Nova York, não na Califórnia dos flower children. Perto de Lou Reed e dos Velvets, a viagem rimbaudiana de Morrison parece escapismo de adolescente. Que a grande baterista do grupo, Maureen Tucker, tenha depois, nos anos 80, trabalhado como semi-escrava no Wal-Mart é uma dessas ácidas ironias do pop.

Quando me pedem uma indicação de um disco fundamental de rock, eu volto a esse aí. É a fonte - desconhecida de muitos - de boa parte do que veio depois.



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sexta-feira, 27 de maio 2005

Baião e Bossa Nova, gêneros mineiros

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Há um estranho e bairrista professor que defende a insólita tese de que a bossa nova na verdade não nasceu no Rio e que o baião não nasceu nem no Nordeste nem no Mangue carioca. Ambos são, na verdade, gêneros cujos momentos fundamentais de constituição acontecem em Minas Gerais. Tirando seu exagero, por que não seria incorreto dizer que o nascimento da bossa nova e do baião passam por Minas Gerais, apesar de que isso quase nunca se menciona? Quando e como passam esses gêneros por Minas nos momentos imediatamente anteriores ao seus nascimentos?



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sexta-feira, 13 de maio 2005

Versões

O Cardoso fez um post relatando um recente assassinato eletrônico sofrido por Lupicínio Rodrigues, o que me fez pensar de novo no tema das versões.

Como sabem todos os fanáticos por música popular, uma versão tem que manter algo de fidelidade ao original e algo de singular, dela própria. Como se medem essas coisas é um babado bastante variável segundo o gosto, mas as duas coisas são imprescindíveis.

Para levantar uma bola sobre versões na música popular, aqui vão alguns prêmios:

1.Versão-esse-é-o-suingue-espírito-do-original: O super sincopado violão de Gilberto Gil revisitando Com que Roupa, de Noel Rosa.

2.Versão-como-matar-o-suingue-espírito-original: No mesmo disco da anterior, a whiskada voz de Tom Jobim arranha e torna bem mellow "Três Apitos", de Noel Rosa. Justamente o que Noel não teria feito.

3. Versão-como-unir-dois-gêneros-numa-canção: Cássia Eller bluesificando Na cadência do samba, de Ataulfo Alves.

4.Versão-pindorâmica-mais-fera-de-canção-gringa: Milton Nascimento cantando Norwegian Wood, dos Beatles.

5.Versão-de-canção-dos-Beatles-superior-à-original: Aretha Franklin cantando "Eleanor Rigby".

6.Versão-de-fazer-autor-revirar-no-túmulo: Ivan Lins jazzificando Noel com sonzinho clean e bem-comportado. Êta disquinho completamente desprovido de espírito noélico.

7.Versão-que-mais-bafafá-causou-na-MPB: Caetano cantando Carolina, de Chico Buarque. Como julgar se um tom é irônico?

8.Versão-que-mais-balangandãs-acrescenta-ao-original-sem-traí-lo: Zizi Possi cantando A Paz, de Gilberto Gil sobre percussão de Marcus Suzano e cordas de Lui Coimbra.

9.Versão-que-mais-tensão-dramática-acrescenta-ao-original: Cida Moreira cantando A Terceira Margem do Rio, de Caetano e Milton. É uma opereta pop. Ela própria ao piano, sax de Gil Reyes, baixo e violão Omar Campos e Percussão de Caíto Marcondes. Infinitamente superior à versão de Caetano.

10.Letra-em-português-mais-ordinária: “Erva Venenosa”, versão dos Golden Boys para Poison Ivy, de M.Stoller e J.Leiber. Sem comentários.

PS: Já há gente reclamando como é que o Brasil ousa reunir-se com países árabes, como é que o Brasil assina uma declaração criticando Israel por repetidamente violar resoluções das Nações Unidas, como é possível que o Brasil não seja bem obediente aos EUA? Sobre a reunião de Brasília fizeram posts o Pedro Alexandre Sanches e o André Kenji. Alguém, fonte mal informada ou de má fé, claro, disse ao Pedro Dória que "não se vê o atual governo israelense incentivando a política de colonos" e parece que ele acreditou. Ai ai.

Fiquemos na música hoje. Alguma outra versão para esses prêmios dados aqui? Ou novos prêmios?



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quarta-feira, 11 de maio 2005

Brincadeirinha de Adivinhação

Um doce para quem acertar primeiro: Qual foi o disco mais vendido da década de 1960? E na de 1980? E na de 1990? E quantos milhões de cópias vendeu cada um desses três discos?



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sexta-feira, 06 de maio 2005

A Música de Max de Castro

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Max de Castro chega com a tranqüilidade dos que sabem o que falam. Feliz será o dia, ele diz, em que eu entre numa loja americana e encontre Samba Raro não na seção de ‘World Music’ mas ao lado de gente que eu admiro como Prince and Stevie Wonder." Só fala assim quem sabe o que faz.

A Time Magazine já o chamou de “maior talento musical brasileiro das últimas três décadas”. Ele é adorado por todo mundo, dos colecionadores de vinil aos garotos de 17 anos da cena drum’n’bass. Depois de meros três discos solo, Max de Castro é ponto de convergência de toda a conversa entre o funk, o soul, o rhythm’n’blues (a black music em geral) e o que há de mais suingado na música popular do Brasil, de Jorge Ben Jor a Wilson Simonal. Músico, cantor e arranjador de vastos recursos, Max é também um elo entre a black MPB e o multifacetado movimento da música eletrônica.

A carreira da fera começa ao ser apresentado à música pelo pai Wilson Simonal. Em 1992 se junta à Confraria, banda de Pedro Camargo Mariano e João Marcello Boscoli. Depois do sucesso da banda em festivais, Max de Castro passa a ser arranjador de vários músicos, antes de participar do projeto Artistas Reunidos em 1998 com Jairzinho Oliveira, Daniel Carlomagno, Luciana Mello, Pedro Camargo Mariano, e Wilson Simoninha. Em 2000 lança Samba Raro, disco de síntese entre bossa nova, eletrônica e black music, mas fundamentalmente, uma estréia de muita personalidade: o disco é todo escrito, cantado e tocado pelo próprio Max. Em 2002 saiu este que é o meu favorito, Orchestra Klaxon, nomeado a partir da revista modernista paulistana de 1922. Desde então, Max já fez o terceiro.

Orchestra Klaxon abre com um arranjo de metais que persegue um tema ao longo da escala e anuncia a segunda faixa, "A História da Morena que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval", um soul quebradão que conta a história de uma passista que “funkeou” demais no carnaval, perdeu a cadência e custou à sua escola a vitória, uma alegoria de todo o disco, do encontro iluminado que narra o disco. Na letra de Erasmo Carlos:

/ não sabia o samba enredo / mas sorrir sabia até de cor / . . ./ sob o olhar dos refletores / sem pudor se imaginava / num imenso baile funk / só que era carnaval /

refrão: quando mais amor ela funkeava / a galera ensandecida queria mais / a morena ensandeceu a bateria / e a cadência foi ficando prá trás [bis]

tamborins em desencontro / enquanto o surdo atravessava / foram-se os pontos da escola / no quesito de harmonia / pois até o mestre-sala e a comissão de frente / se renderam ao pobres passos que a morena introduzia / momentaneamente cega pelos flashs da ilusão / mais um corpo de passistas para a fama debutou / nem pensou quando falava numa rede de TV / que foi por causa dela que a escola não ganhou.

Narrando a humilhação última para uma sambista, custar a vitória à sua escola, a canção de Max/Erasmo cria uma poderosa personagem que revira o carnaval: a galera ensandecida pedia mais e ali onde se esperava o samba miudinho entra uma quebradeira funk. Fazendo sucesso, o pior é isso. O limite entre o brasileiro e o gringo, o batuquê e o black music, esses limites todos se despedaçam. O mais lindo dessa faixa é que ela narra essa história desse “funkeamento” de uma personagem sambista numa canção de dicção funk que vai se amolejando, como se quisesse virar samba.

Orchestra Klaxon conta esse despedaçamento em várias outras formas: num sambinha clássico com iluminado trabalho de tamborim em “Calaram a Voz do Morro”, um soul mais suingado (com belíssimo bongô-zinho) em “Acapulco daqui a pouco”, outras conversas entre a bossa e o soul, que é realmente a praia de Max.

Há uma explosão de novas estéticas black na música brasileira, de Max de Castro aos mineiros do Berimbrown à paulista Paula Lima (que canta uma bela faixa anti-racista com Max em Orchestra Klaxon: "O Nêgo do Cabelo Bom").

Max traz algo que os meus favoritos da nova geração compartilham: uma verdadeira paixão por estudar a história da música brasileira, citá-la, incorporá-la. Veja-se, neste disco, a faixa “O Petit Comitê na Casa da Tia Ciata”, alusão à legendária casa onde nasceu o samba na sua forma moderna, urbana.

No dia 09 de março Max de Castro visitou o Biscoito Fino e a Massa e participou da nossa eleição dos melhores discos brasileiros de todos os tempos. Deixou-nos o seguinte presente em forma de lista, os seus favoritos:

1-Villa-Lobos Bachianas Brasileiras(2,5,1&9) Orchestre National DeLa Radiodiffusion Française Conducted By The Composer 2-The composer of desafinado plays… Tom Jobim 3-The Maestro Moacir Santos 4-Hermeto(1973) Hermeto Pascoal 5-S'imbora Wilson Simonal 6-Maria Fumaça Banda Black Rio 7-Força Bruta Jorge Ben 8-É Samba Novo Edison Machado 9-Os Afrosambas Baden Powel e Vinícius De Morais 10-Quem é quem João Donato 11-Lobo Edu Lobo 12-Beto Guedes,Danilo Caymmi,Novelli,Toninho Horta 13-Robson Jorge & Lincon Olivetti 14-Racional 1 & 2 Tim Maia 15-Nara(1963) Nara Leão

Esta resenha é dedicada a esse grande artista, enviando-lhe axé para a turnê européia que começa este mês na Ucrânia. E também é dedicada a todos os que defendem o direito de que se elogie outro ser humano de forma gratuita e incondicional, porque sim, porque faz bem reconhecer o talento, faz bem valorizar quem trabalha legal. Parabéns, Max de Castro.

PS: A indústria fonográfica continua processando garotos por troca de MP3. A diferença é que agora os garotos estão se organizando.

PS 2: Biajoni pede para avisar que hoje à noite tem pizza a partir das oito no Canto da Madalena aí em Sampa.



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segunda-feira, 02 de maio 2005

Balanço do Jazz Fest 2005

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Um balanço do JazzFest 2005 daria um livro, mas aqui vai um resumo telegráfico do dia de encerramento.

Dia de sol, 27 graus centígrados, céu azul, sol brilhando. A bela programação dos 12 palcos deste domingo era esta. Demorei um pouco para tomar café e sair. Acabei perdendo o show das 11, dos Revealers, que são uma excelente banda de reggae de New Orleans.

11:45. Já com os Revealers fechando o show deles, chego e trombo com uma turistada barriguda do Texas e tento ser gentil e dar informação (não, eu não tenho preconceito contra texanos, apesar do que eles fizeram com este planeta):

Hipódromo: nos dois extremos há os palcos maiores, Acura e Sprint, onde mega-artistas de todos os gêneros se apresentam. Entre eles, de um lado há Congo Square, palco médio, mas com espaço imenso para a platéia (ali toca-se música afro-atlântica de vários lugares) e atrás dele, Fais-do-do, palco menor, ainda ao ar livre, onde se toca música de acordeão. Entre esses e a outra extremidade, a das barraquinhas de comida, há duas fileiras de tendas fechadas: blues, gospel e WWOZ (jazz experimental) de um lado, e do outro lado uma tenda de jazz dixieland (de velhos dançando de guarda-chuvinha) e um palco menor de músicas folclóricas. Ao fundo, um pavilhão com ar condicionado, dois andares e outro palco médio. Keep your schedules with you, move around, and have fun, turistada.

É a geografia do JazzFest.

Foi a primeira e única informação que dei no dia, a esses barrigudos do Texas.

12:00. Acompanhei um pouco do batuquê e das belas fantasias dos Mardi Gras Indians.

12:20. Primeiro petardo do dia. Jazz Tent: show do Naked on the Floor. Parei lá por acaso. Não conhecia esse novo projeto envolvendo James Singleton, um dois maiores, senão o maior baixista acústico de New Orleans e Tim Green, um dos maiores saxofonistas da cidade (acredite, ser isso é muitíssimo, é como ser o melhor pandeirista do Rio de Janeiro ou o melhor contista de Buenos Aires). Jonathan Freilich na guitarra, poderoso trombone de Rick Trolsen e bateria cacetada de Mark Diflorio. Havia tecladista convidado. Alucinei.

Em que consistia, Pedrão? Brincadeiras dissonânticas de jazz de vanguarda de longa tradição aqui, mas acrescidas de toque especial: cozinha que vai ficando cada vez mais quebradona, afro-atlântica, ao longo do show. Seção rítmica quase de um funk. Singleton sincopa no baixão e faz caretas incríveis. Trombone comendo. Palmas em ritmo de clave (2/3) da platéia. O público da recatada, circunspecta e vanguardista WWOZ tent não chega a levantar para dançar (como um dia fez com Hermeto Paschoal) mas quase isso. Excelente começo de último dia de JazzFest.


Rango rápido a caminho de Congo Square: fantástico sanduba de siri mole. Cervejinha.

1:20. Pego em Congo Square o final do show de Euricka, cantora também neworleaniana que vai do soul ao hip hop. Momento bonito: sua filhinha de 4 /5 anos vem dançar no palco e mostra o remelexo de blackitude que alguns brancos brasileiros até possuem, mas que em branco gringo eu nunca vi. A música não é nada do outro mundo, mas a banda é competente e o show é bem produzido.

Já no final do show do Euricka, jovens branquelos de blusas negras de mangas compridas (pessoal de fora de New Orleans, com certeza, espécie de rockeiro gótico depois da chuva) me oferece o tapinha! Dou-lhes um sorriso, digo que passou minha época, fico de frente para eles e de costas para o palco até que terminem, fazendo a parede-zinha básica e zarpo para Fais-do-do, com vontade de conferir a banda cajun.

1:50. Segundo petardo. A Jambalaya Cajun Band é excelente. Na platéia, os pares de bailarinos dão show de bola.

(Pausa de utilidade pública: se você lê o Biscoito e até hoje confunde Cajun com Creole, música cajun com zydeco, está na hora de acabar a confusão. Cajun vem de Acadians, canadenses francófonos que se fixam na Louisiana no século XVIII; é música de branco, de cigano, com rabeca ou violino (fiddle) e parentesco rítmico com músicas de salão européias como a polca. Pode entrar acordeão, mas a brincadeira é puxada pelas cordas. Zydeco é primo do forró, música necessariamente de acordeão, moderna, de base rítmica afro-atlântica, difusão massiva, já até com um toque de rhythm’n’blues na sua constituição. São tradições que não têm nada a ver, a não ser, claro, o fato de que se encontraram neste bendito estado da Louisiana)


2:15. A idéia era ficar em Fais-do-do e esperar a banda de zydeco, mas volto a Congo Square por pura curiosidade pelo nome do artista: Michael Franti e Spearhead. Terceiro petardo. A música é somente um soul ou baladas rock competentes, boas letras, um Lenny Kravitz melhorado (inclusive fisicamente), mas assombra-me a comunicação do cara com o público. Homem realmente carismático, põe uma enorme multidão (Congo Square estava lotada) para bater palmas e marcar ritmo.

Conta de sua visita a Bagdá, protesta contra a guerra, emociona o público. Dedica uma canção a todas as vítimas da guerra, o que nos EUA – onde só se fala dos gringos mortos – é sempre um gesto bonito. Não chega a me emocionar, mas fico fã do cara. Mulherada, guardem o nome: Michael Franti, vocês vão gostar. Tem presença.

2:45. Distraio-me tanto no show do cara que saio atrasado para a tenda de gospel, onde vai cantar Aaron Neville, superstar e membro da mais ilustre família musical de New Orleans.

Antes de Aaron, pausa para o segundo rango. Sabendo que é minha antepenúltima refeição do JazzFest 2005, hesito bastante entre o sanduba cubano, o bolinho de lagostim e o prato africano com frango no espeto, espinafre e banana assada. Termino não optando por nenhum deles: vence o franguinho ensopado jamaicano. Bem apimentado. Maravilha.

Cervejinha.

Chego à tenda quando Aaron já está cantando. Profundo respeito na platéia. Tenda lotadaça. Se naquela tenda cabem umas 700 pessoas sentadas, devia haver umas 1200 em total, entre as sentadas, as de pé e todas as que ficaram em volta da tenda: um fuzuê. Favorecido pela magreza, vou entrando, me ajeitando, macaco velho de JazzFest, em 5 minutos estou sentado num camarote: gospel da melhor qualidade, emoção incrível nas palmas e sacolejos do público.

4:00. Antes de zarpar para ver o jazz experimental de Terence Blanchard, decido comer outro ranguinho: bolinhos fritos de lagostim.

4:15. Terence Blanchard, trumpetista de New Orleans que primeiro ganhou fama numa banda do grande Art Blakey, tocou nesta sexta na Itália, no sábado em Nova York, acordou domingo de madruga e pegou o avião para chegar ao JazzFest na sua terrinha. Belo show, mais para o lado introspectivão, que eu só acompanho até a metade.

5:00. Ainda emocionado com os picos do contralto de Aaron há uma hora atrás, volto para a tenda de gospel. Quarto petardo: Dr. Charles Hayes and Cosmopolitan Church of Prayer Choir é um super grupo de Gospel, pelo menos 20 vocalistas, pelo menos 6 pandeiros, Yamahão e sintetizador, baixo, guitarra e bateria.

De novo explorando a magreza, eu chego até a zona frontal, onde o público é predominantemente neworleaniano, ou seja negro, ou seja entendido de gospel. Sinto-me mais à vontade em meio a meus co-cidadãos que à turistada branca barriguda. O show vai num super crescendo.

Reconheço, nas palmas e no saculejo, meus ex-vizinhos do Tremé – o mais antigo bairro negro da América do Norte e o som do gospel já é contagiante ao ponto de deixar o blogueiro ateu cantando "Jesus, Jesus"! Pedro, não é que o espírito baixa mesmo?

Pauleira incontrolável da pandeirada, um baixo e uma bateria impecáveis, e as 12 vozes femininas, com as 8 vozes masculinas, fazendo um coral de arrepiar. Saio da tenda de gospel literalmente falando em voz alta, eu, ateu, meu deus, muito obrigado porque existe New Orleans.

Zarpo dali para o fechamento do Jazzfest, que é o de todos os anos. O último show do mega-palco Acura no último domingo é sempre dos legendários Neville Brothers. Eu sou veterano de mais de vinte shows dos Neville, mas o deste domingo foi o mais emocionante que eu já vi.

Ser dos Neville Brothers e fechar um JazzFest é como ser Milton Nascimento recebido por uma Praça do Papa lotada, ser uma Rita Lee reencontrando-se com uma multidão na Praça da Sé, ser um Kleiton e Kledir voltando à Cidade Baixa.

O público lhes dá as boas-vindas.

O apresentador diz que de toda a riqueza musical de New Orleans, aquela banda ali reunida era somente a quarta a mudar a música do planeta, depois de Louis Armstrong, Mahalia Jackson e Fats Domino.

Já discordo, achando que pelo menos mais dez artistas de New Orleans mudaram a música do planeta, para começar Jelly Roll Morton e Professor Longhair. Mas não é hora para discussão.

Entram Charles, no sopro, Art, o mais velho, nos teclados, Aaron de novo, Cyril. Depois de passar pela prisão, drogas, violência policial, conflitos políticos, transformações musicais, essa família parece tocar e cantar com a serenidade dos grandes. Charles dá um show nos metais. Nós, os "locais", somos maioria e cantamos os sucessos. Além dos irmãos, chega a participação especial de Ivan, filho de Aaron, nos teclados e Ian, filho de Aaron, na guitarra elétrica. Show vai do uptempo ao mid-tempo ao slow tempo de volta ao super funkão de New Orleans. De 6 às 7, os Neville revisitam 30 anos de funk/soul num show inesquecível: metade do show com ênfase nas canções mais líricas, a outra metade mais quebradona e sincopada.

Na saída ainda comi um pratinho de carne de porco com macarrãozinho vermicelli vietnamita.

Exausto, com sete horas de música na veia. Não preciso mais ver shows de música durante um mês. O próximo será em Belo Horizonte. Depois me avisem se a imprensa aí disse algo sobre o JazzFest 2005.

PS: A foto de Charles e Aaron Neville que ilustra o post foi tirada neste domingo e é cortesia de Christopher Dunn, outro viciado em JazzFest.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (16)



sábado, 30 de abril 2005

Jazz Fest, Escolhas

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O dia hoje está dificílimo no JazzFest. Vejam estes palcos simultâneos aqui. Do total de 12 palcos do festival, há alguns grandes e médios, ao ar livre, e algumas tendas cobertas dedicadas a gêneros específicos: blues, gospel, jazz contemporâneo, jazz tradicional (do tipo dixieland). Escolher é sempre difícil neste festival. A estratégia é alternar sol e sombra, beber bastante água, não encher a cara da cerveja quente que lhe vendem os gringos e mover-se agilmente de um palco a outro. Os shows são cronometrados com perfeição, para que ninguém perca a viagem ao palco vizinho.

Planos:

Às 11:00, estou entre o NOCCA Jazz Ensemble e o grande (em todos os sentidos) vocalista de blues Big Al Carson. Provavelmente eu veja um pouco de cada um.

Aí às 12:30 eu devo render meus respeitos à Young Tuxedo Brass Band, no Economy Hall Jazz Tent, que é uma das várias tendas dedicadas a um gênero, no caso o dixieland jazz, paixão dos velhinhos com guarda-chuvas.

Na hora do almoço, escolher alguma iguaria e partir para o primo-do-forró, o zydeco de Willis Prudhomme and the Zydeco Express. Isso rola num palco menor, chamado Fais-do-do, que é dedicado, o dia todo, às músicas de acordeão.

As 2:55 em ponto quero estar em outro palco para saculejar ao som das tubas e trumpetes dos Soul Rebels.

Pausa para outro rango – eu só como essa coisa divina que é o sanduba de siri mole em época de JazzFest.

Antes das 4 quero estar a postos para escutar uma das lendas vivas da música de New Orleans, o gigante do rhythm ‘n’ blues Allen Toussaint.

Para fechar a brincadeira, não sei se vou ver Ike Turner (que promete um show-zaço) ou o eterno punk Elvis Costello.

É a programação para este sábado. Claro que se pode mudar tudo ao sabor da hora. Pode-se resolver passar o dia numa tenda escutando gospel, por exemplo.

Registre-se que neste JazzFest já passaram por aqui – e fizeram estrondoso sucesso – o recifense e ex-integrante do Maracatu Nação Pernambuco Charles Teony e a dupla sergipana Chico Queiroga e Antônio Rogério.

Se algum dia tiver que escolher um lugar dos EUA ao qual viajar, a minha sugestão é esta: New Orleans na época de JazzFest.



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (10)



domingo, 24 de abril 2005

Evoé Pixinguinha, 108 anos

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Se vivo estivesse, Alfredo da Rocha Viana Filho teria comemorado 108 anos neste sábado. Pixinguinha foi o maior gênio da história da música popular brasileira, ponto de encontro de séculos de batuque com o salão do século XIX e sintetizador do que seria toda a linguagem da música popular que o sucederia.

Sim, já existia música popular brasileira urbana antes de Pixinguinha: atendia pelo nome maldito de maxixe. Mas, escolado em todas as nuances do batuque dos terreiros e quintais, ao mesmo tempo em que também profundo conhecedor das técnicas de harmonização ocidentais, é Pixinga quem consolida o repertório do que será a base da linguagem musical popular urbana brasileira: o choro.

Realizações do gigante? Encheriam um blog. Em 1919, o Brasil conquistou o primeiro campeonato sul-americano de futebol derrotando o Uruguai nas Laranjeiras. Pixinguinha compôs um maravilhoso choro, 1 x 0, homenageando o estilo de toques laterais da seleção com rápidas subidas e descidas na escala. Até hoje busca-se um musicólogo que entenda de futebol para destrinchar a rica alegoria tecida aqui por Pixinga.

É, sem dúvida, o maior flautista da história do Brasil e o maior arranjador de sua música popular. Com o tempo, passou ao saxofone e nele também foi gigante. Pixinguinha é também um dos nossos maiores compositores populares. De 1911 a 1973, compôs choros, valsas, sambas, polcas, tangos, maxixes, marchas e até mesmo emboladas e lundus. É o autor daquela que talvez seja a canção mais amada e cantada do século no Brasil: Carinhoso. Quem já enveredou pelos mistérios do contraponto, testemunha: com a complexidade e riqueza que ele ocorre em Bach, só em Pixinga.

Na década de 1920, Pixinguinha lideraria Os Oito Batutas (com os outros três negros China, Donga e Nélson Alves e os quatro brancos Raul e Jacó Palmieri, Luis de Oliveira e José Alves) na viagem musical mais importante da época: o estrondoso sucesso em Paris e em Buenos Aires, turnê chave na luta contra o racismo. Daí para frente, sua importância passa a ser difícil de medir, posto que fundamental para simplesmente tudo o que se fez depois dele.

Em 1953, Pixinga iniciaria um longo caso de amor com o Bar do Gouveia, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio. Em 1963 sua mesa seria oficialmente “tombada” e reservada só para o Mestre.

Para quem quiser conhecer o melhor de Pixinga ele mesmo, há que se escutar o inacreditável disco de 1971. O disco feito com Clementina também é indispensável. Para se conhecer as gravações mais antigas, há uma boa coletânea da Kuarup. A caixa Memórias Musicais da Biscoito Fino, que traz 15 CDs com materiais do começo do século (dentre os quais 3 CDs só de Pixinguinha, incluido-se a legendária viagem dos Batutas a Buenos Aires), parece que esgotou.

Um dos últimos e mais incríveis casos de Pixinguinha é relatado por Sérgio Cabral, em Pixinguinha, Vida e Obra (Lumiar, 1997). Voltando para casa tarde da noite, ele é assaltado por três ladrões, a quem passa todo o dinheiro. Um dos ladrões o reconhece: “Vixe, é o seu Pixinguinha”! Os ladrões imediatamente devolvem todo o dinheiro e se desculpam, o que move Pixinga a convidá-los:
- Vocês não querem tomar uma cervejinha não?

Acaba levando os três ladrões para sua casa, onde passam toda a madrugada na birita, concluída ao raiar do sol.

PS 1: O Biscoito envia seu axé a Nemo Nox, que já se encontra aqui nos EUA, resolvendo pendências para a sua permanência. Nemo relatou num post o seu kafkiano ingresso ao país. Enviamos os votos de que toda a papelada se resolva.

PS 2: Uma leitora pergunta sobre o "eterno feminino". O termo é antigo. Com esse nome há um lindo conto de Eva Brodhead, um belo quadro de Cézanne e muita picaretagem junguiana. Quem mais faz minha cabeça, ao dissertar sobre o feminino, é a filósofa-poeta Luce Irigaray.



  Escrito por Idelber às 05:22 | link para este post | Comentários (14)



quinta-feira, 21 de abril 2005

Hora de JazzFest

crawfish.jpg

Crawfish season: Entre as muitas especialidades de Nova Orleans, está esse crustáceo, o crawfish. Estamos no auge da estação do bicho. A brasileirada de Nova Orleans fez nesta quarta seu crawfish boil – uma cozinhada num panelão, onde a gente se reúne em volta da mesa e vai descascando e comendo. A carne tem gosto de siri mole e a cara da coisa é de lagosta, só que um pouco menor (sobre o que é mesmo um crawfish e onde mais neste planeta ele existe, haveria que se consultar a Lucia Malla). Os desta quarta estavam imensos, tamanho de lagosta mesmo. O boil é comida popular, coletiva, compartilhada. É uma marca da primavera de New Orleans, essa reunião em volta da mesa ao ar livre para descascar o bicho. A anfitriã da noite foi a paraibana Suy-Anne, legendária festeira aqui no Golfo no México. Valeu.
*************

Na discussão sobre as ofensas racistas a Grafite (que depois se ampliou em debate sobre o racismo e sobre medidas paliativas como as cotas), este blog foi linkado em dezenas de outros blogs brasileiros. Muito obrigado. Agradeço muito em especial o link e o elogio de Cora Rónai, que literalmente dobrou o leitorado no Biscoito nesta segunda, leitorado que já havia crescido à beça nas últimas semanas. Cora move montanhas, não há dúvidas. Hiperbolizaram na generosidade Rafael Galvão e Tiagón.

**************
JazzFest é a outra marca da primavera em Nova Orleans: música, em tempo integral, num hipódromo, com 15 palcos simultâneos, de 11 as 20 h, quinta a domingo, duas semanas seguidas: um mega festival, de peso mesmo. Difícil pensar um gênero de música popular norte-americana que não esteja representado nele. Além disso, muita música de fora. É a única época do ano - além do aniversário dos meus filhos - que é sagrada, não se marca nada. Dentro de Tulane e do nosso departamento, é rigorosamente proibido programar defesa de tese ou qualquer coisa para a época de JazzFest. Aguardem resenhas e, quem sabe, umas fotos. Dentre as dezenas de atrações, destaca-se a reunião dos legendários Meters.


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Blogai e multiplicai, môs fios!
Diz a escritora Fal: Blogues são um excelente negócio pros solteiros (aiai, e pruns casados suicidas tb - ou não, quem sou eu pra julgar), o fato é que o que tem de nego namorando-entre-si não tá mole, cada dia um casal mais fofo se junta no virtual, no real, é um tal de templete pra cá, recado cifrado pra lá, post secreto e hermético para os não-iniciados aqui e ali, os blogues tão virando umas salas de bate-papo de namoro. O post completo é esta maravilha aqui.

Aqui no Biscoito é permitido que os comentaristas namorem entre si. Intentos de paquerar o blogueiro serão analisados caso a caso. Um texto quilométrico com pseudônimo e email falso é um péssimo começo, com certeza. Como sempre, mantém-se a regrinha de desnecessária lembrança para 99,5% dos leitores: o que eu achar abusivo aqui, por qualquer motivo, eu apago. Mensagens quilométricas são aceitas - eu optei por não estabelecer limite de caracteres - mas só sobre o tema em pauta.

******************
Estreou com pé direito o novo projeto coordenado pelo Nemo Nox: Casa das Mil Portas, umas maravilhas de minicontos com vários blogueiros. Vale conferir.

Tenho lido direto e já linkei: Idiossincrasia e o grande escritor Cardoso. Realmente é um vício que vai se disseminando de forma incontrolável.

O selinho gentilmente feito pelo Mauro Amaral para o Decálogo dos Direitos do Blogueiro continua circulando por aí. De novo meu muito obrigado ao Mauro e ao Nemo Nox, autor do layout deste Biscoito. DECALOGO.jpg

************
Meu muito obrigado a Williams College pela hospitalidade neste domingo-segunda, especialmente à prof. Jennifer French, organizadora dos eventos. Acho que as palestras agradaram. Williamstown é bem pequeninho (fica no oeste de Massachussetts, ponta que se encontra com pontinha norte do estado de Nova Iorque), mas tem, como várias dessas cidadezinhas pequenas no nordeste dos EUA, um super college. Dado seu bom clima no verão/outono/primavera, muita gente se aposenta e vai prá lá. Os aposentados vivem da programação cultural da universidade, claro, a única que há. Pois bem, chego para dar a palestra de encerramento de um evento sobre música e, da platéia de 35 pessoas, pelo menos 25 tinham uns 70 anos ou mais! Audiência geriátrica total. Dez anos de palestragem e nunca havia visto coisa igual! Obviamente fiquei muito feliz com esse completamente inaudito e inédito público, mas acabei deixando para lá o ensaio que eu planejava ler sobre Chico Science e improvisei uma coisa mais geral. Valeu, e no final, os velhinhos já levemente saculejavam os esqueletos ao som de Rios, Pontes e Overdrives. Na segunda palestrei sobre violência para um público bem maior (uns 50), todos professores e alunos, aqueles brilhantes, estes últimos bem espertinhos. Muito bom. Só que o povoado fica a uma hora do começo do caminho para qualquer outro lugar.

*****************

Inspirado nas Mineiras, Uai!
Custo do satélite que permite a recepção da Rede Globo de Televisão nos Estados Unidos: 250 dólares.

Custo do pacotão mensal de TV a cabo que inclui a Globo nos EUA: aproximadamente 50 dólares.

Ver o time do ex-Ipiranga adentrando o Mineirão de salto alto, achando que já era campeão e tomando uma traulitada dos meninos do vale do aço: não tem preço.

Salve o Ipatinga, campeão mineiro de 2005. Essa obviamente nós não previmos.



  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 17 de março 2005

Atualizadas

acadêmicas: 1) eu e mais uma turminha acabamos de fazer um livro: Ideologies of Hispanism, coleção de ensaios à qual eu contribuí um texto sobre o recrudescimento da xenofobia no esteio do 11 de setembro aqui nos EUA, e sua relação com o estado atual dos estudos latino-americanos. É realmente uma honra estar no livro com essa turma (quase todos são figuras centrais, seminais). Eu sou de longe o mais jovem. É especial estar pela primeira vez num volume
com minha ídola Sylvia Molloy. [link];


2) eu e Chris Dunn estamos organizando uma coleção de ensaios (em
inglês) sobre o tema *Música Popular Brasileira e Cidadania*, com o qual já se comprometeu boa parte da nata dos estudos acadêmicos de música brasileira popular. Os artigos já começaram a chegar (a maioria em português) e começa agora oprocesso de tradução ao inglês. Aos
colaboradores do livro que lêem o *Biscoito*, muita paciência. Uma
coleção de ensaios acadêmicos demora bem mais tempo para sair nos EUA
que no Brasil. Este blogueiro escreverá não sobre Minas, mas sobre o
primeiro e único Chico Science. Entre os textos que já nos chegaram,
está o da maravilhosa Goli Guerreiro
[link], sobre o
trabalho de Carlinhos Brown no Candeal. Chris Dunn escreverá sobre as
político-musicagens de Tom Zé. Hermano Vianna já nos enviou um trabalho
sobre o tecno-brega. Temos ensaios sobre rock, hip hop, eletrônica, MPB
e muito mais. Vocês ouvirão falar desse livro.

*políticas*, para a galera mais jovem que revisita março de 1985: a ala
“dissidente” do regime militar da qual saiu José Sarney, que comporia a
cédula com Tancredo na transição, *não teve nada que ver com a campanha
das diretas. *Foi explicitamente hostil a ela, na verdade. A ala
tancredista do PMDB tampouco moveu uma palha pela emenda Dante de
Oliveira, que Tancredo Neves sabotou, ao anticipar a negociação com a
ditadura nos bastidores, antes mesmo da votação. Parte da oposição
liberal foi arrastada de roldão à luta pelas diretas, mas a campanha foi
lançada pelo *Partido dos Trabalhadores* no final de 1983 com um comício
no Rio de Janeiro, com cuja organização *este* blogueiro contribuiu,
mesmo que durante a função ele tenha cedido aos encantos de uma baiana e
ficado na ignorância dos discursos. Em todo caso, se alguém tivesse dito
a qualquer petista em 1985, que 20 anos depois, Lula seria presidente do
Brasil, vários, muitos mesmo, entenderiam que isso era possível e se
regozijariam. Se alguém sugerisse que o principal aliado dessa
presidência no Senado Federal seria o coronel José Sarney, qualquer
petista teria reagido indignado, xingando. Aos que perderam a capacidade
de indignar-se, meus pêsames. Plínio de Arruda Sampaio e mais 108
eminentes petistas foram os últimos a anunciarem suas desfiliações,
inconformados com a sarneyzação do PT. Quanto à memória histórica, que
fique claro: Tancredo Neves *não teve nada que ver* com a campanha das
diretas. Foi arrastado a ela e negociou os bastidores da sua derrota.

*esportivas: *eu ia blogar sobre o tratamento *criminoso* que o governo
federal está dando ao futebol brasileiro – chafurdando-se na lama da
aliança com a cartolagem – mas vou esperar que gente mais preparada fale
sobre isso. Continuo acompanhando os melhores
[link] especialistas
[link]. Esta é, sem dúvida, uma área em que
houve retrocesso entre o governo FHC e o de Lula. De um homem respeitado
pelos esportistas, como Portella, passamos a um ministro que faz uma
gestão muito ruim do futebol: parece incrível, mas o homem não sabe a
diferença entre um escanteio e um arremesso lateral. Seu discurso é
pedestre, indigente. É triste, mas a cartolagem recuperou, sob Lula, um
considerável espaço em relação ao que havia perdido sob Portella.

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  Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post | Comentários (1)



sábado, 12 de março 2005

Resultados da Votação Discográfica

Resultados da Votação Discográfica

A Tábua de Esmeralda
[link],
de Jorge Ben Jor (1974): Primeiro lugar. *76 pontos*

* *Ele já havia blackificado
[link]
a bossa nova e eletrificado
[link] o
samba; já havia abraçado o tropicalismo
[link],
já havia celebrado a diáspora negra
[link],
mas só em 1974 Jorge Ben Jor – então Ben só – lançava o disco
[link]
que foi escolhido aqui por 50 eleitores como o melhor da música
brasileira popular. Não dá prá dizer que não está bem escolhido. Em
segundo lugar ficou Construção
[link],
de Chico Buarque (1971), com *62 pontos.*

Aqui vai a lista dos 30 primeiros colocados, com os respectivos números de pontos:

3) Elis e Tom –55; 3) Clube da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges
55; 5) Dois – Legião Urbana 54; 5) Tropicália ou Panis et Circenses
–54; 7) Krig-ha-Bandolo! – Raul Seixas 45; 8) Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão – Marisa Monte: 40; 9) Afrociberdélia - Chico Science e Nação Zumbi –39 (*este disco de Chico Science teve 11 menções e foi o único disco lembrado por mais de 9 pessoas*) 10) Secos & Molhados 34;
11) Transa - Caetano Veloso 33; 12) A Divina Comédia ou Ando Meio
Desligado – Mutantes 32; 13) Chico Buarque – 1978 –30; 14) Chico Buarque 1984 –26; 14) Chega de Saudade - João Gilberto –26; 16) Meus Caros Amigos – Chico Buarque –: 26; 16) África Brasil – Jorge Ben –26; 18) Fatal - Gal a Todo Vapor – Gal Costa –24; 19) Caetano Veloso 1968 –23;
20) Acabou Chorare – Novos Baianos –23; 21) Da lama ao caos – Chico
Science e Nação Zumbi –23; 22) Cartola 1976 –22; 22) Olho de Peixe –
Lenine e Marcos Suzano –: 22; 24) Novo Aeon – Raul Seixas –20; 25)
Cinema Transcendental – Caetano Veloso –18; 26) Som Pixinguinha –17; 27)
Cabeça dinossauro – Titãs – 15; 28) Álibi – Maria Bethânia – 14; 29)
Clementina e convidados –13; 30) Refavela – Gilberto Gil –12

/Dados/: Votaram 50 pessoas, exatamente. 289 títulos diferentes foram
nomeados, de Villa Lobos a Vzyadoq Moe. Se alguém quiser a lista
completa, é só me escrever. Dezenas de blogs linkaram, participaram,
fizeram posts e ajudaram a divulgar. Centenas de pessoas deixaram
pitacos aqui e milhares nos viram papear. A leitora e amiga Cipy Lopes
foi generosa com seu tempo. Recebeu, organizou e contou todos os votos;
eu só fiz a soma final. Muito obrigado a todos e especialmente a ela. Eu
quase pirei fazendo esta brincadeira, mas valeu a pena: conheci um
bocado de gente bacana, fiquei sabendo mais sobre os amigos que já
conhecia e recolhi dados valiosíssimos para trabalhos futuros sobre
música brasileira popular.

*Deixo a interpretação dos números a cargo de vocês:* Celebro a vitória
de Ben Jor, a presença de Raulzito no top 10, o record de menções de
Chico Science e, para dizer a verdade, não me conformo muito em ver
Legião Urbana no top 10 no meu próprio blog, com um disco que não está
entre os 100 melhores feitos no Brasil na década de 80. Mas enfim, vocês
escolheram, não era meu papel fraudar a eleição – eu moro em New
Orleans, não na Flórida. Além do mais, não dava para negar que o resto
está bem escolhido. Parabéns, eleitores. Já já a gente sorteia a
caixinha de CDs. O que acharam dos números e da experiência?

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  Escrito por Idelber às 00:21 | link para este post



quarta-feira, 09 de março 2005

Eleição Discográfica - Primeiras Impressões sobre a Apuração Parcial

Claramente este blogueiro não tinha ni puta idea do pântano em que se metia com essa eleição. Computar esses votos implica não só catá-los por aí na blogosfera; implica também tabulá-los segundo dois métodos: 5 pontos por disco para os eleitores que fizeram listas sem ranking e pontuação proporcional de 1 a 10 pontos por disco para os eleitores que declararam ranking. Obviamente não estou nem perto de ter resultado de nada, mas tenho alguns números e algumas observações. Temos uns 50 eleitores até agora, metade aqui nas caixas do Biscoito e metade de blogueiros esparramados por este mundo. Mas já sei quais são os discos mais mencionados, o que não quer dizer que saibamos quais são os líderes. Os discos mais mencionados até agora são: Krig-ha-Bandolo e Elis e Tom com sete menções cada um, Afrociberdélia e Clube da Esquina com seis, Construção e Tábua de Esmeralda com cinco; Tropicália, Olho de Peixe , Acabou Chorare, Dois, Transa e Meus Caros Amigos com quatro. Uma que outra incorreção é possível nesta contagem. O ranking final ainda é nebuloso.

Eu tenho algumas observações sobre a eleição. A primeira é a óbvia: a
imensa riqueza da música brasileira, a variedade de gêneros e seleções
de que se pode armar, blá-blá-blá. Menos óbvia é a seguinte: há uma
erosão no antes intocado poder do cânone MPB-ístico como padrão de bom gosto. Há uma pugna de cânones diferentes, e isso é bom. Fizesse-se esta eleição há quinze anos e Raul Seixas jamais estaria na ponta ao lado de Tom e Elis. Os discos mais mencionados estariam, em sua grande maioria, dentro da tradição que vai de Chega de Saudade a Cinema Transcedental. Esta tradição recebeu um número considerável de votos na nossa eleição, mas não de forma tão dominante como teria recebido em outras épocas. Há votos pop, votos regionais, votos roqueiros, disseminados com uma tranquilidade que, antes, o panteão da MPB não teria permitido. Foi muito instrutivo para mim: um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre a música brasileira (sim, em inglês, por mil razões) versa sobre a constituição e a progressiva dissolução desse cânone, a partir da grande reviravolta que é a chegada de Chico Science.

Eu amo a obra de Lenine (especialmente seus discos solo). Mas jamais
imaginei que Olho de Peixe, disco seu com o mega-panderista Marcos Suzano, emplacaria um top 10 de menções, enquanto que Na Pressão e O Dia em Que Faremos Contato não foram lembrados nenhuma vez. Estou absolutamente em êxtase com a liderança de Raulzito. Estou totalmente enraivecido que ninguém votou no meu número 1, o Som Pixinguinha, tirando-o assim de vez da disputa. Realmente, desde que me envolvi com palhaçadas e clonagens, eu perdi a autoridade neste blog. Até quinta à noite eu vou catar votos. Deixando constância da ajuda da leitora Cipy, prometo-lhe mais notícias para breve.

PS: na quarta-feira que vem meus alunos de pós-graduação em contística brasileira (lindos maravilhosos que estão brindando-me um super semestre) vão discutir Laços de Família, de Clarice Lispector, aqui no blog. Taí, avisado com 7 dias de antecedência. Quem quiser participar é bem-vindo. A meninada tem adorado quando pintam os leitores do Biscoito para ajudar a destrinchar os contos.



  Escrito por Idelber às 02:43 | link para este post



domingo, 06 de março 2005

Votação – Música Brasileira

*Vote aqui ou ali embaixo
[link] ou em algum destes blogs: *

Já temos, que eu saiba, *permalinks* para os votos dos blogueiros Guto
[link], Leila
[link],
Elisa [link],
Zema
[link],
Fernando
[link],
Ana Lucia [link],
Lucia Malla
[link],
Denise [link], Alline
[link],
Iraldo [link],
Alexandre do LLL
[link],
Mônica
[link], Rafael
Galvão
[link]
Junto com o meu são *15 votos* de blogueiros, já contados e
permalinkados. Mil perdões se esqueci alguém. *Nesta* caixa de
comentários já estão o voto de Charles Perrone e o voto da primeira
leitora do *Biscoito*, a Cipy Lopes, perfazendo 17 computados até agora.

*Claro que não é necessário ser blogueiro*. Só vir a esta caixa e votar, ou à caixa do meu post anterior ou à de qualquer desses blogs aí em cima que já votaram. Proponho que a gente receba votos até *sexta-feira* desta semana. O que vocês acham? Alguns leitores me convenceram: vamos *sortear* um CD entre todos os *eleitores*, blogueiros ou não, que participam, em vez de oferecê-lo a quem fizer a lista mais popular.
Tendo tido todo este trabalho de organizar tudo, e ainda oferecendo um CD, eu imploro que me deixem indicar 11 discos, porque eu *esqueci* de um que eu considero simplesmente um dos três melhores de todos os tempos. Eu só esqueci porque sempre penso nele como *hors concours*: , *Africa Brasil*, de Jorge Ben. Se alguém tiver algo contra eu ter direito a 11 votos, com pesar no coração, *sai o disco de Caê* e entra Ben Jor em terceiro, com tudo rearranjando-se. Vocês deixam eu ter direito a 11?

O outro especialista em música brasileira na academia gringa (além de
Charles Perrone e deste humilde blogueiro), meu amigo Chris Dunn, também
virá aqui votar (é, vem cá você, *dar a cara a tapa*). Também esperamos
o voto do blogueiro-especialista em música aí no Brasil Ricardo Schott [link]. Vários outros blogueiros ficaram de votar, incluindo blogs muito lidos como o Pensar Enlouquece [link]. Já ficam dadas às boas-vindas ao pessoal que vai chegar quando Ina postar sua lista. Adorei ver essas 17 listas prá começar. Viva Babel. Votem à vontade.

*Atualização às 17:40 h de Brasília*: chamo a atenção a novos posts com votos de *blogueiros ilustres,* que acabam de fazer suas respectivas listas. Aqui vão os permalinks aos top 10 de Tiagón [link],
Pedro Alexandre Sanches [link]
e, prefaciado por palavras generosa, hiperbolicamente gentis dirigidas a mim, o top 10 do escritor Milton Ribeiro [link].


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  Escrito por Idelber às 18:56 | link para este post




Os 10 mais da música brasileira. Vote aqui

10. Caetano Veloso, *Cinema Transcendental* (1979): A dúvida foi entre este e *Transa* (1972) que, como concepção total, eu acho superior.
*Cinema * tem aquela que talvez seja a pior música de Caetano, 'Aracaju'.
Em compensação, o resto é pérola: 'Lua de São Jorge', 'Beleza Pura',
'Oração ao Tempo' , 'Elegia', 'Cajuína', 'Badauê' e o *opus magnum* de meu mestre Mautner, 'Vampiro'. Este disco foi fundamental. Numa época em que arranjos escalafobéticos eram considerados marca de sofisticação, em que Rick Wakeman era considerado boa música, Caetano fez um disco sequinho, sem produção excessiva, sem tecladagens progressivóides. Muito violão acústico e bongô. Deu o recado legal.

9. Chico Science e Nação Zumbi, *Da Lama ao Caos* (1994): Pode-se
combinar hip hop e maracatu? Música preta e música branca? Música
regional do seu bisavô com os samplers pirateados de Nova Iorque? Hoje parece óbvio que sim. Graças a este homem, o gênio, o primeiro e único.

8. *Elis e Tom* (1974). Os bossanovistas terão que se contentar com
este disco no meu top 10, que não tem *Chega de Saudade*, disco
importante mas, para mim, intragável. *Elis e Tom *é capaz de fazer
qualquer um se apaixonar pela Bossa Nova. A faixa de abertura, 'Aguas de Março' merece estar em qualquer antologia de música brasileira.

7. Raul Seixas, *Krig-ha-Bandolo!* (1973): quando vou aplicar Raul em alguém, começo com *Novo Aeon* (1975), seu disco mais místico e
bem-produzido. Mas neste estão as pérolas: 'Mosca na Sopa', 'Metamorfose Ambulante', 'Al Capone' , 'Ouro de Tolo' e uma belíssima (e pouco
conhecida) balada dylanesca de Raul em inglês, 'How could I know'

6. Dorival Caymmi, *Eu vou para maracangalha* (1957). *Canções
praieiras *(1954) e *Caymmi e o Mar* (1957) seriam bons candidatos. Mas é aqui que o Rio encontra a Bahia, e o samba come solto. É meu favorito de Caymmi. Aproveitem enquanto as edições originais ainda estão disponíveis em CD. Qualquer dia eles tiram de catálogo e colocam uma coletânea feita sem critério, com alguma bunda na capa.

5. *Chico Buarque* (1984). Chico é outro que tem vários discos
candidatos. Seu disco também epônimo de 1978 tem várias pérolas mais
conhecidas, mas meu favorito é este aqui, o Chico da volta à democracia. Destaque para 'Pelas Tabelas', 'Brejo da Cruz' e 'Vai Passar'

4. Gilberto Gil, *Refavela* (1976). Na escolha do disco de Gil não tive dúvida: esse é seu disco capital prá mim. É toda sua trajetória anterior profundamente repensada à luz da visita à Nigéria e da reflexão sobre a negritude.

3. Milton Nascimento e Lô Borges, *Clube da Esquina* (1972). Um dia
ainda escreverei um livro inteiro sobre esse disco. Dizer o quê em duas linhas? Se não o conhece, pare de ler este blog e vá consegui-lo. Sua vida jamais será a mesma.

2. *Clementina e Convidados* (1979): Clara Nunes, João Bosco, Adoniran, Martinho da Vila e outros cobras reunidos pela Quelé numa *tour de force* inesquecível.

1. *Som Pixinguinha* (1973). Prá mim é o maior disco já feito no país. Versão orquestral de 8 minutos de 'Carinhoso'. Incrível performance na flauta em 1 x 0. O 'Samba Fúnebre' com letra engajada de Vinícius. Uma revisitada inesquecível a 'Samba do Urubu'. É o Pixinga, à beira da morte, dizendo: OK, são 100 anos de música urbana popular no Brasil.
Deixa eu pegar a porra toda e sintetizá-la em 40 minutos.

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  Escrito por Idelber às 11:01 | link para este post



sexta-feira, 04 de março 2005

Votação musical na segunda-feira 07 de maio

Até agora eu recebi confirmação dos seguintes blogs, que vão participar fazendo posts, linkando ou simplesmente votando na eleição dos melhores discos de música popular do Brasil de todos os tempos (em ordem alfabética, que tem a vantagem de ser uma ordem sem ser uma hierarquia): Arte-Bis, Bereteando, Bibi’s Box (Bibi ainda não sabe se vai votar, mas já linkou), Discoteca Básica, Field Book (certo, Elisa?), Liberal Libertário Libertino, Uma Malla pelo Mundo, Monicomio, NCC, Número 12, Odisséia 2005, Pensar Enlouquece, Prás Cabeças, Rafael Galvão, Stuck in Sac, Tiro e Queda. Alguns blogs amigos ainda não confirmaram.

1) Por que não vale coletânea? Porque uma coletânea não é um “disco” concebido como tal pelo seu autor. Se você ama “aquele disco com os grandes sucessos do Chico”, bom, você terá que ver onde eles foram lançados e qual lançamento original continha mais pérolas de seu gosto. O lugar para se fazer isso é o CliqueMusic.

2) É só MPB ou vale rock, pop, forró? É uma eleição que inclui toda a música popular feita no Brasil, não somente o conjunto de músicas acústicas centradas na figura do cantor-compositor e designadas, a partir de 1966, pela sigla MPB. Então, toda a música popular está no páreo.

3) Por que limitar-se a 1950-2005? Porque antes de 1950 os lançamentos eram feitos em discos de 78 rpm onde circulavam só um par de canções. Não é possível comparar um 78 rpm com os discos long play que começam a circular nos anos 50.

4) Estamos escolhendo os melhores ou os mais importantes? Estamos escolhendo os melhores. Na minha opinião, por exemplo, o disco coletivo Tropicália ou Panis et Circenses (1968) é dos dez discos mais importantes da segunda metade do século. Mas eu raramente coloco-o para tocar. Não está na minha lista dos dez melhores. Gostaria de pedir aos leitores que votassem nos que acham os melhores, não nos que mais capital cultural e aura de prestígio acumularam pela história.

São claros e justos os critérios? Esqueci de alguém? Quem mais quer
brincar? Faltou alguém aí para se inscrever? Alguém quer reclamar de
algum critério? Todo mundo pronto nesta segunda então? O Biscoito Fino e a Massa oferecerá um CD de presente ao leitor que emplacar o maior número de discos no top 10.

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  Escrito por Idelber às 14:52 | link para este post



sábado, 12 de fevereiro 2005

Disco da Semana – Vanessa da Mata Essa Boneca tem Manual (2004)

A mato-grossense Vanessa da Mata [link] se
mudou para Uberlândia-MG aos 15 anos, antes de aterrizar em São Paulo e
conquistar o Brasil. Estreou com CD epônimo
[link] em 2002 e em 2004 lançou a
pérola que recomendo aqui, *Essa Boneca tem Manual*.

Quem já escutou sabe que a resenha está passada de hora. Quem não
escutou, antes de sair correndo para comprar, imagine: um timbre de Gal
Costa (não o arremedo de hoje mas esta
[link]
ou esta
[link] ),
só que mais lírico, com mais extensão e superior repertório; a
personalidade de Adriana Calcanhoto ou Ana Carolina na composição; o
suíngue e o talento revisionista de Marisa Monte; o físico, o gestual e
o axé de Clara Nunes; o domínio de palco de Cássia Eller. Não, não é
exagero e quem já ouviu que testemunhe.

A banda de Vanessa se ombreia com as melhores que tiveram essas
cantoras: Liminha no baixo, Guilherme Kastrup na bateria e percussão (no
primeiro disco aparece também o pandeirista-mor Marcos Suzano), Jaques
Morelembaum e por aí vai. A produção deixa o som limpinho, mas sem
perder o peso e a radicalidade dos seus momentos de experimentação. Por
cima brinca a poderosa voz de Vanessa, desfiando uma leitura feminina do
mundo nas letras. A grande referência musical de Vanessa em *Boneca* são
os violões / guitarras suingados do samba-rock do mestre Jorge Ben Jor.
Essa é a base da brincadeira toda: a eletrificação do samba levada a
cabo por Ben Jor lá pros idos de antes do golpe. Só que entra um
trabalho de percussão mais pesado e mais roqueiro que o do primeiro Ben.
E a voz de Vanessa leva o samba-rock já quarentão a ápices de lirismo,
paródia, romantismo e extensão dantes não alcançados. É o meu candidato
a disco de 2004.

*Boneca* contém uma versão experimental-clean de ‘Eu sou neguinha’ de
Caetano, um arranjo “up-tempo” de metais de Morelembaum para o clássico
infantil de Chico Buarque, “História de uma Gata”, além de 10
composições de Vanessa (5 delas em parceria com o maior produtor musical
brasileiro, Liminha). Nestas, sobre a base sambalanço entram toques de
Jovem Guarda (‘Ai ai ai”, com seus versos bem Roberto, “se você quiser
eu vou te dar um amor/ desses de cinema”) e baladas de amor nada banais,
de harmonias a la Djavan (“Ainda bem”, “Eu quero enfeitar você”, “Zé”).
Minha favorita é a super faixa que dá título ao disco: um funk com
pandeiros de sambinha, cozinha cheia de variações de tempo (baixo de
Rian Batista / bateria de Maurício Sanches) e a voz de Vanessa subindo e
descendo tranqüila, entre a brincadeira e o sério: /nos segredos dela se
aposta, viu? / nos cabelos dela não se toca, ouviu? / eles são de nuvem
ou bombril? / elas são ousados ou só seus/? Puro racha-assoalho, mas no
maior romantismo.

Vanessa da Mata já estreou no topo do topo. Maria Bethânia chamou-a de
‘novo Guimarães Rosa do Brasil’ e nomeou seu CD de 1999 com a música de
Vanessa e Chico César, “A Força que Nunca Seca”. Vanessa tem em seu
caderno mais de 250 canções. Já dividiu palco com Bethânia, Baden Powell
e Max de Castro. Na opinião de Nélson Mota, ela é a principal artista
revelada nos últimos dez anos. Não é instrumentista, mas compõe com a
tranqüilidade de quem chega para ocupar a camisa 10: é a maior cantora
brasileira que descobri desde que ouvi a atleticana que mudou o Brasil
[link] .


/PS: a resenha desta semana contou com fontes cedidas pela leitora e
amiga Cipy Lopes. /

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/PS 2: Wampum [link] promove uma eleição de melhor
escritor na blogosfera de esquerda gringa. Meu bróde véio e humorista
Michael Bérubé [link] chegou às finais. Se você
já se deliciou, via meus links, com pérolas como a sátira ao vivo
[link] da
convenção bushista ou o projeto de devolver os estados
[link]
comprados à França, passe lá e deixe seu voto
[link] . /

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  Escrito por Idelber às 22:39 | link para este post