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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 01 de setembro 2008

As últimas de Gustav

Para quem quiser acompanhar as últimas notícas acerca da chegada de Gustav à costa da Louisiana, a melhor fonte tem sido o blog do Times-Picayunne. Está tudo bem em New Orleans: um pouco de alagamento, com a água passando por cima dos diques (o tal "overtopping"), mas nenhuma ruptura até agora. Há árvores e semáforos caídos aqui e acolá -- coisa normal de furacão. No Harvey Canal, que era o meu grande medo, os diques agüentaram a pancada e parece que a água por lá já está retrocedendo. No Industrial Canal, o mais importante para New Orleans, há "overtopping", com quantidades pequenas de água passando para o lado de cá da cidade, mas ainda faltam três horas para que a água chegue a seu nível mais alto.

Claro que, à medida que o furacão vai seguindo seu curso para o noroeste, fica a preocupação com o encontro entre os ventos da parte de trás do bicho e o gigantesco Lago Pontchartrain. Sim, a capital do jazz está rodeada de água por todos os lados.

Mas a expectativa aqui é que já na quarta-feira possamos estar em casa.



  Escrito por Idelber às 14:40 | link para este post | Comentários (8)



sábado, 30 de agosto 2008

Gustav Update

O que o jornal Times-Picayunne está chamando de Monstro Gustav já é furacão categoria 4, com ventos de 230 km/h. Suponho sinceramente que a frase que se segue seja supérflua a estas alturas, mas não custa deixá-la aqui: se você está lendo este blog em New Orleans ou em qualquer ponto do Golfo do México, saia daí agora, e viaje norte, sempre norte. Havia gente, por exemplo, indo para a simpática Lafayette, em Louisiana. Depois das últimas 24 horas, já está claro que não serve. Você precisa subir mais.

A evacuação de New Orleans ainda não é obrigatória, mas já é fortemente recomendada pela prefeitura. 311 é o telefone de emergência. Gustav está fazendo estragos em Cuba e deve aterrizar no Golfo do México na madrugada de segunda para terça. Não se sabe exatamente onde, mas a previsão no momento é Central Louisiana, o que significa que New Orleans pode receber uma pancada considerável -- como os ventos de um furacão giram em sentido anti-horário, a desgraceira ao leste do bicho é sempre pior. A previsão é que ele chegue à terra firme como categoria 3. Mas também pode subir para categoria 5. Segundo estudos de gente entendida, não há um único prédio em New Orleans que segure a onda de ventos categoria 5.

Dica aos neworleanianos: a Interestadual 10 já está absurdamente congestionada. Tente viajar de madrugada ou, no caso de fazê-lo durante o dia, vá pela Airline Highway (US 61) até a Interestadual 55. É facinho, consulte seu Google Maps.

Como sempre, o blog está a disposição de quem precisa deixar recados, em qualquer língua.

Atualização, 00:18 de domingo: A saída agora é obrigatória.



  Escrito por Idelber às 20:02 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 28 de agosto 2008

Pausa para o furacão nosso de cada ano

Bom, já tem gente no Brasil se preocupando, então é melhor eu deixar uma notinha: o blog entra em recesso a partir de hoje, para que eu possa, como se diz por aqui, "evacuar" da cidade. Gustav ainda não é furacão e está categorizado, por enquanto, só como tempestade tropical. Pode aterrizar, entre a segunda e a terça-feira, em qualquer lugar entre Corpus Christi, Texas, e Pensacola, Flórida, com qualquer intensidade entre tempestade tropical ou Furacão 4. Ou seja, não se sabe quase nada ainda. Por enquanto a projeção é esta:

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Aos amigos e famílias aí no Brasil: não se preocupem. Amanhã mesmo, eu e Ana começamos uma viagem de carro. Até onde, não sei, mas a direção é uma só: Norte. Para você que mora na região do Golfo e lê este blog: Tulane já tem uma página de emergência atualizada a cada seis horas com detalhes e é sempre bom, claro, visitar o Weather.com. Se ainda não encheu o tanque, encha. Se sair, não se esqueça, claro, de tirar os perecíveis da geladeira. E fique à vontade para usar o blog para deixar recados em qualquer língua.

Até breve.

Update to the Tulane Community: Classes are cancelled beginning tomorrow, Friday. They resume on Thursday, Sept. 4. Ana and I will be in Memphis, Tennessee. Our cell phones are on. If the Tulane system goes down, leave a message here, and we'll get you set up with gmail accounts.



  Escrito por Idelber às 14:13 | link para este post | Comentários (39)



sexta-feira, 28 de março 2008

José Miguel Wisnik ovacionado em New Orleans; Invasão brasileira no legendário Vaughn's

Foi uma das aberturas de congresso mais memoráveis da história. Para iniciar os trabalhos do nono congresso da BRASA, reunido aqui em New Orleans, convidamos meu amigo José Miguel Wisnik, que apresentou uma belíssima meditação sobre a música em Machado de Assis. É um velho tema de Zé Miguel, que desentranha como ninguém as tensões e ambiguidades da cultura brasileira tal como codificadas em contos como "Um Homem Célebre" e "O Machete". Ele vai mostrando como chega a polca ao Brasil; como ela vai absorvendo sonoridades afro-atlânticas; como Machado esteve atento a esse processo e registrou-o nesses dois contos. No final, para matar qualquer um de inveja, faz aquela demonstração ao piano, passando por Ernesto Nazareth e Scott Joplin porque, afinal de contas, nada como a música ilustra o profundo parentesco entre New Orleans e o Brasil.

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Centenas de pessoas aplaudiram de pé aquele que é, sem dúvida, um dos maiores pensadores da cultura brasileira na atualidade. O grande Paulo Cesar de Araújo dizia, deslumbrado: Idelber, se não acontecer mais nada neste congresso, já valeu a pena. Alex zanzava atônito, dizendo que foi uma das palestras mais impressionantes que já viu na vida. Camila, nossa nova aluna de pós-graduação, ficou encantada. A abertura ainda contou com o embaixador brasileiro nos EUA, Antonio de Aguiar Patriota, que fez um belo discurso em inglês impecável.

Parece que a dica dada aqui no blog há uns dias valeu, pois no show de Kermit Ruffins, no Vaughn's, só se ouvia português no salão. Presenciei uma sensacional cena, em que um dos convidados do congresso – desconhecido para mim – me disse: pois é, está cheio de brasileiros aqui porque dizem que um cara aí colocou a dica no blog dele. Um adorniano que permanecerá inomeado foi visto saculejando o esqueleto ao som do trumpete de Kermit, esquecendo todas as caretices frankfurtianas anti-jazz. Neste fim de semana, aqui em Tulane, só dá Brasil. São centenas e centenas de visitantes brasileiros e brasilianistas.

As mesas começam hoje e o blog convida a todos que assistam comunicações a que me enviem uma apreciação do que assistiram. Assim podemos compartilhar com os leitores do blog algo deste belo congresso. Há mesas sobre absolutamente tudo, desde história mineira do século XVIII até agricultura; estudos da mídia brasileira até trabalhos sobre economia; literatura, música, filosofia, sociologia – há muita coisa acontecendo por aqui neste fim de semana, e tudo enfocado no Brasil. Nós, os anfitriões, estamos absolutamente comovidos de ver a alegria nos rostos brasileiros contagiados pelo astral incomparável de New Orleans. Bem vindos, bem vindos, bem vindos.

PS: Hoje, às 16 horas, não percam a mesa-redonda sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com o historiador Paulo Cesar de Araújo, a editora Luciana Villas Boas, a advogada Deborah Sztajnberg e o atleticano blogueiro.

PS 2: No domingo, a partir da 1 da tarde, tem secondlining saindo do Louis Armstrong Park. Se você nunca presenciou essa singularíssima manifestação cultural -- a toma musical, dançante do espaço da cidade -- não perca.

PS 3: A foto do Zé é cortesia da querida Emanuelle Oliveira, professora em Vanderbilt University.

PS 4: Alô, neófitos, muita, muita atenção: o livro de Zé Miguel sobre o futebol sai pela Companhia das Letras, no final de maio. Imperdível é pouco para descrever o que vem por aí.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (15)



terça-feira, 18 de março 2008

BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março

Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.

Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.

Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.

Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.

Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.

Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.

Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.

Bem vindos, pois.


Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 30 de agosto 2007

Aniversário de dois anos do Katrina

(este é um artigo meu que foi publicado este mês na revista Teoria e Debate, sob o título de "Katrina e o Fracasso Ético em New Orleans"; é um pouco mais longo que um post "típico", mas pode ter interesse para quem quer acompanhar a situação em New Orleans dois anos depois do furacão Katrina)

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No histórico bairro negro do Lower Ninth Ward, situado a leste do canal de drenagem que conecta o Rio Mississippi e o imenso Lago Pontchartrain -- os dois corpos de água que limitam a cidade de New Orleans pelo sul e pelo norte --, a história do sr. J.R. não é tão original, exceto pelo extremo de tragicidade. Em 26/08/2005, sexta-feira, ouvira no rádio que o furacão Katrina poderia atingir a categoria 5, a mais alta. A desocupação da cidade era fortemente recomendada. Mas aos 65 anos de idade, sem automóvel, cartão de crédito ou dinheiro poupado, e com a esposa numa cadeira de rodas, a saída era quase impossível. O sr. J.R. decide permanecer e enfrentar a tempestade, a exemplo do que sempre fizera. Apesar de violento, o Katrina não causou maiores destruições além das esperadas quedas de árvores e fiação elétrica. Com estoques de comida e água, a família se sentia preparada. Na segunda-feira, a ruptura dos diques inundou em poucas horas essa que é umas das regiões mais baixas de New Orleans. A subida rápida da água no Lower Ninth Ward forçou J.R. a tirar a mulher da cadeira de rodas, mas mesmo seus consideráveis 1,90m não foram suficientes para evitar a tragédia. J.R. vê sua amada morrer submersa depois de escapar de seus braços. Pior de tudo, sobrevive a ela.

Só as histórias do Katrina como a de J.R. que eu, morador de New Orleans desde 1999, ouvi ou reconstruí comporiam um panorama aterrador, que um conhecedor da democracia americana contemplaria estupefato. Constatar que a caracterização do Katrina como “tragédia natural” é falsa e simplificadora não requer reviver teorias conspiratórias inspiradas na enchente de 1927 (quando, sim, dinamitou-se um dique com intenções genocidas, como demonstrado na narrativa clássica sobre essa enchente, o livro de John Barry, The Rising Tide: The Great Mississippi Flood of 1927 and How it Changed America). A inundação, destruição, diápora e confisco vividos a partir de 2005 pela população pobre de New Orleans, muito especialmente sua maioria negra, se remontam a causas que incluem o desfinanciamento federal da manutenção de diques, o descaso administrativo, o aparelhamento de cargos por trambiqueiros da turma de Bush e, depois da ruptura dos diques, uma deliberada, criminosa negligência. Não o “fenômeno natural Katrina”, mas ações e omissões humanas, políticas que o antecedem e o sucedem produzem uma diápora interna de centenas de milhares de americanos, massivo confisco de terras, quase limpeza étnica e destruição de uma das cidades mais originais do país, a New Orleans excêntrica e anti-puritana onde Bush havia amargado uma derrota por 82 x 18, a cidade multicultural, negra, francesa, caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa que o fundamentalismo religioso do Partido Republicano e o conservadorismo contemporâneo nos EUA sempre viram com uma curiosa mescla de horror e inveja. A cronologia de alguns fatos políticos coloca-o em contexto.

Em 12/01/2001, o Houston Chronicle citava uma avaliação da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) de que um furacão em New Orleans era uma das catástrofes mais prováveis nos EUA, junto com um terremoto em San Francisco e, profeticamente, um ataque terrorista a Nova York. Em 2002, o Times-Picayunne, de New Orleans, realizou uma série de reportagens mostrando o cenário de uma ruptura dos diques e concluindo que “uma grande população de residentes de baixa renda que não possuem automóvel dependeriam de um sistema de emergência pública não-testado para a desocupação”. Em março de 2003 a FEMA foi rebaixada de ministério (cabinet level) a uma mera seção no Departamento de Segurança Interna, já redesenhado em função da “guerra ao terrorismo” . As funções de preparação e planejamento da unidade federal a cargo das emergências passam para um novo escritório. A FEMA passa a ser responsável só por “resposta e recuperação”. No mesmo ano de 2003, Bush nomeia, para a chefia da FEMA, Mike Brown, cuja única experiência administrativa concluíra com renúncia forçada devido ao desastre deixado por ele na Associação Internacional de Cavalos Árabes. Brown vinha suceder Joe Allbaugh, outro sem-experiência nomeado por Bush, que deixara o cargo para criar uma firma de consultoria para empresas que fazem negócios no Iraque. No verão de 2004, coincidindo com estudos e previsões do cenário macabro em New Orleans no caso de furacão seguido de ruptura dos diques, a FEMA recusa os pedidos da cidade de financiamento para mitigar desastres.

A recusa é politicamente carregada e adquire todo o seu sentido quando lembramos que os diques de New Orleans são de responsabilidade exclusivamente federal, administrados e construídos que são pelo Corpo de Engenharia do Exército. Em 2004, o gerente da zona de inundação do condado de Jefferson, vizinha a New Orleans, Tom Rodrigue, declara: “imaginar-se-ia que receberíamos consideração máxima. Estamos mais que qualificados”. Ainda no Jefferson Parish em 2004, o chefe de gerenciamento de emergências, Walter Maestri, comentava: "move-se dinheiro para segurança interna e para a guerra no Iraque, e suponho que nós pagamos o preço”. Quando, em 25/08/ 2005, o Katrina recebeu denominação de furacão categoria 4, o plano de prevenção de catástrofes do governo Bush já havia sido reduzido ao conceito de terrorismo e à manipulação em função da guerra do Iraque. Enquanto isso, nas agências de preparação de emergências, figuras do tráfico de influência e da negociata como Mike Brown ocupavam os postos mais altos.

Depois de uma passagem relativamente tranqüila do furacão, em 29 de agosto romperam-se diques em New Orleans, especificamente no Canal Industrial e no Canal da Rua Londres. Já em 30 de agosto, entulhados num estádio sem água ou comida, 20.000 new orleanianos começam a passar pelo horror do Superdome, onde ocorre um não-determinado número de estupros, tiroteios e mortes por homicídio ou suicídio. O mundo começa a se perguntar: onde estão os helicópteros dessa tão poderosa nação, que podem ir ao Iraque e não chegam a New Orleans? Enquanto circulavam as cenas de cadáveres boiando e de massas humanas de refugiados presos na própria cidade, ninguém menos que o Secretário de Segurança Doméstica – responsável pelo ministério para dentro do qual se movera a preparação para emergências – declarava que não sabia que milhares de pessoas estavam aglomeradas sem água ou comida do lado de fora do Centro de Convenções, 72 horas depois que o fato era de conhecimento do planeta. Em 02/09, o diretor da FEMA, o trambiqueiro Mike Brown, alude à responsabilidade das vítimas, dizendo “não entender” por que as pessoas haviam ficado na cidade. Seguindo-se ao inédito fracasso assistencial do estado, Bush, de férias, solta seu famoso Brownie is doing a great job.

Ante a proliferação de saques – boa parte dos quais absolutamente justificáveis pela situação de vida ou morte em que se encontrava a população depois de alguns dias -- o Exército americano, em texto oficial, faz referência ao início das operações de combate em New Orleans, qualificando os cidadãos americanos lá presentes como a insurgência. Em 03/09, centenas de pessoas ainda eram evacuadas do Superdome, uma semana inteira depois da chegada do furacão. O mundo descobre que incontáveis vítimas, todas negras, tentaram atravessar a ponte que liga New Orleans a Gretna, os subúrbios majoritariamente brancos a oeste do Rio Mississippi, e foram mandados de volta ao inferno da inundação pela própria polícia, a ponta de revólveres e espingardas.

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Dos 500.000 habitantes da área metropolitana de New Orleans, pelo menos 200.000 ainda não haviam voltado dois anos depois, constituindo uma diáspora inédita na história dos EUA. Enquanto que antes do furacão, 67% da cidade era composta por negros, estima-se que hoje os afro-americanos não perfazem mais que 30% da população. Inicia-se um processo de confisco que inclui a fixação de limites temporais para a reconstrução (sob risco de perda de direitos), a impunidade e a autonomia para as companhias de seguros, a concentração de verbas nas mãos de empreiteiras e a composição de um comitê de reconstrução dominado pelos interesses da especulação imobiliária, da indústria dos seguros e do capital financeiro. A faixa de terra que se estende ao longo do Rio Mississippi – a parcela não-inundada do território, uptown a oeste e downtown a leste – experimenta um renascimento, com preços inflacionados e mão-de-obra latina. Na região residencial que bordeia o lago Pontchartrain, inundada mas habitada pela classe média branca, a liberação de verbas e a reconstrução seguem em velocidade muito maior à do resto da cidade. Em mid-city, região majoritariamente de classe trabalhadora, os sistemas escolar e hospitalar continuam em colapso e há regiões onde alguma vizinhança vai se recompondo, há outras em que não.

Em toda a cidade, proliferam as histórias de horror burocrático e descaso na liberação de trailers pelo governo federal ou no pagamento esperado das seguradoras. O retorno da população negra se dá em números baixos e parte dela se dá conta de que terá não só que se reergueer por conta própria, mas também enfrentar obstáculos políticos para recuperar direitos básicos. Uma das instâncias dessa luta se deu em abril e maio de 2006, nos dois turnos da eleição para prefeito, talvez a primeira da história dos EUA em que a maioria dos eleitores habilitados se encontrava fora da cidade. Tanto Mitch Landrieu, branco e de oposição, como Ray Nagin, negro e de situação (e ali reeleito), eram candidatos conservadores e pouco comprometidos com a população mais pobre. A luta que interessou se deu não tanto por uma candidatura, mas ao redor do direito mesmo de votar. Os negros terminaram sendo 55% dos 113.500 votantes e optando por Nagin em 80%. O surpreendente é que entre os brancos (44% do eleitorado) o voto em Landrieu parou nos 80%. Os cruciais 20% que teve Nagin entre os brancos se devem, em parte, a um curioso apoio de um setor dos republicanos de Louisiana que não detestam Nagin tanto quanto detestam a família Landrieu, da oligarquia democrata local. Mesmo com o fracasso durante o Katrina, Nagin se reelege. Sua figura é um contraditório compósito em que se refletem aspirações legítimas da população local, submetidas, no entanto, a um modelo capitalista selvagem, herdado da sua experiência como empresário de TV a cabo. Num contexto de descapitalização da cidade e de controle da política estadual por máfias e oligarquias, um prefeito como Nagin reduz-se a ser pouco mais que um refém. Mas não foi pequeno o poder simbólico de reeleger o negro que havia dito “poucas e boas” para Bush, e que bem ou mal esteve o tempo todo em New Orleans durante a tragédia.

A população negra, base histórica da cultura e do modo de vida new-orleanianos, se divide hoje, grosso modo, em 1) uma minoria de classes trabalhadora e média intactas, em áreas não inundadas como o Tremé, vizinho do French Quarter e mais antigo bairro negro da América do Norte; 2) uma pequena classe média em uptown, mid-city, e mesmo em áreas mais atingidas como New Orleans leste, que foram capazes de voltar à cidade e se restabelecer; 3) uma imensa massa de excluídos que, desprovidos das únicas posses que tinham (mesmo quando estas incluíam imóveis), lutam pelo direito básico de voltar para o lugar onde sempre viveram todos os seus. Ali, na tragédia dessa massa de quase duas centenas de milhares de americanos, se deixa ver o fracasso moral, ético, humano do modelo de gerenciamento da era Bush.

Hoje é possível visitar New Orleans, ater-se a algumas regiões, e passar pela cidade sem perceber os rastros do que a cidade foi vítima. Ao longo do Rio Mississippi, tanto na uptown mais moderna como na downtown histórica fervilha uma vida cultural que inclui oferta musical comparável aos níveis pré-Katrina, sempre com 20 a 40 shows dignos de nota mesmo em começo de semana. Já está restabelecida a tradição popular das secondlines, desfiles musicais ao longo da cidade no rastro de uma banda de metais (brass band), em verdadeiras tomadas rituais, festeiras, das ruas. Também há, na contrapartida da efervecência cultural, a diáspora de refugiados, o colapso dos sistemas hospitalar e escolar, a dura realidade das drogas e da violência, o confisco imobiliário contra o povo pobre da cidade, a super-exploração da nova mão-de-obra imigrante.

O pós-catástrofe de New Orleans é produto de uma interação complexa entre esses vários fatores. Se, em algum momento, temeu-se até mesmo uma “morte cultural” da cidade, a ainda pequena porcentagem de seu povo que voltou já pôde demonstrar que o medo era infundado. Se, ao longo das lutas políticas ao redor da reconstrução, chegou a cogitar-se uma cidade “parque temático”, com a museificação da cultura local numa smaller New Orleans (“menor” aqui sendo um eufemismo, no dialeto new-orleaniano de hoje, para “mais branco e menos negro”), já é visível que há forças populares dispostas a resistir, ainda que sem muita representação no corrupto sistema político de Louisiana. Quantos levarão essa batalha, e por quanto tempo, em condições de diáspora e exílio é uma variável fundamental na pugna pelo futuro da mais musical, afro-atlântica, caribenha e “brasileira” de todas as cidades norte-americanas. Que ela se dê em condições tão duras é um testemunho eloqüente de um duro golpe à democracia americana e um retumbante fracasso do modelo de estado imposto na era Bush, ancorado em traficantes de armas e de petróleo, máfias de seguros e organizações fundamentalistas, todos eles hostis, por boas razões, ao que poderíamos chamar a alma de New Orleans.



  Escrito por Idelber às 20:17 | link para este post | Comentários (13)



terça-feira, 15 de maio 2007

A Jazz Funeral for Alvin Batiste (1932-2007)

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Bendita a cidade que lembra a morte dos seus grandes com um desfile musical festivo pelas ruas. New Orleans mais uma vez se despediu a rigor de um dos seus gigantes. Alvin Batiste, um dos maiores clarinetistas da história, nos deixou no dia 06 de maio, aos 74 anos, de enfarte, horas antes do que teria sido um show consagrador com Branford Marsalis e Harry Connick Jr. no JazzFest.

Alvin Batiste redefiniu o som de New Orleans no século XX. Clarinetista de incríveis recursos, ia do dixieland mais tradicional às formas vanguardistas mais cabeludas, sem perder a pose. Incorporou toda a influência do bebop e combinou-a com o molejo inconfundível do som de New Orleans. Além de instrumentista e compositor, era um mestre, um professor nato. Dedicou-se durante décadas, na Southern University, a lecionar sua arte. Recebeu quase todos os prêmios a que pode aspirar um músico de jazz, mas percorria as escolas públicas de bairros pobres para compartilhar o que sabia. Estudaram sob Alvin Batiste o trumpetista Wynton Marsalis, os saxofonistas Branford Marsalis e Donald Harrison, o baixista Chris Severin, o pianista Henry Butler, além de centenas de outros músicos. Era amado, idolatrado na cidade. Deixou um legado de inesquecíveis gravações, mas vê-lo ao vivo era a experiência insubstituível.

Por isso, sabia-se que o Jazz Funeral que nos reuniria no úlitmo sábado, dia 12, seria um dos grandes e inesquecíveis. Já de manhã a multidão ia se aglomerando na Praça Lafayette:

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O Jazz Funeral é uma experiência incomparável, fruto da extraordinária cultura musical de New Orleans. O do último sábado, que reuniu uma multidão nas ruas para dançar e cantar em homenagem à memória de Alvin Batiste, foi um marco do renascimento da nossa cidade. Depois da cerimônia religiosa, impecavelmente vestidos, os músicos vão se aglomerando na preparação da homenagem. Desce o féretro:

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A festa é pública e todos os amantes da música são bem vindos. No Jazz Funeral de Alvin Batiste, não faltaram os ex-alunos com souvenirs inauditos da carreira do mestre:

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A música começa em tom solene, com notas graves e extensas, no ritmo conhecido como dirge. Uma porta-estandarte abre caminho, seguida por músicos engravatados e, logo depois, a multidão:

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Ao longo de vários quarteirões, a banda segue com o dirge, enquanto vamos homenageando a memória do morto com uma dança contida:

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Na chegada à histórica esquina de Rampart com Canal, a banda acelera e começa a tocar na batida das brass bands da cidade. A dança vai abandonando a contenção e cai num ritmo frenético. A partida de mais um mestre é lembrada com uma renovação do seu legado de amor à música e à cidade de New Orleans:

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Ao longo do trajeto, especialmente quando nos aproximamos do French Quarter, não faltam os indefectíveis turistas, olhando estatelados, com a cara de quem se pergunta que estranha cidade é esta, onde se celebra a morte com uma tomada ritual das ruas por uma multidão dançante.

PS. Para conhecer a obra de Alvin Batiste, gravada com muito menos freqüência do que teria sido justo, recomenda-se os CDs Bayou Magic (1993) e Late songs, words, and messages (1993).

PS 2. Fotos do post: Ana Maria Gonçalves, que teve seu primeiro Jazz Funeral. Ana também fez filmes do desfile, que eu, por incompetência, não consegui subir ao YouTube. O filminho fica para a próxima :-)



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 20 de março 2007

Mardi Gras Indians

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Sobre os Mardi Gras Indians, eu já disse algo aqui: é uma tradição afro-neworleaniana que rende tributo aos índios que albergaram escravos fugidios no século XIX. Rendeu incontáveis canções em formato chamada e resposta, cantadas pelas ruas de New Orleans não só no carnaval, mas em outras datas como o Super Sunday, que acabamos de festejar.

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Houve uma época em que a violência era a marca registrada dos encontros entre as “tribos” de New Orleans. Desde pelo menos os anos 1960 os chefes convencionaram levar a rivalidade para o terreno do figurino, do batuque e da cantoria.

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Já estão de volta a New Orleans, com todo fôlego, as secondlines: os inconfundíveis desfiles das brass bands, bandas de metais acompanhadas de percussão e seguidas por centenas de pessoas, numa dança que chega a atravessar a cidade. Não é raro dançar durante umas duas ou três horas e descobrir, no final, que se está a 6 ou 7 milhas do carro...

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E as secondlines deste ano em New Orleans têm presenças muito especiais :-) Mais fotinhas aqui.

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PS: Em breve, uma resenha de The God Delusion, de Richard Dawkins, que sai no Brasil pela Companhia das Letras só no segundo semestre. Terminei de ler, muito impressionado. Mas tenho críticas.



  Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 13 de fevereiro 2007

Tornado

Como até o pessoal da família já anda telefonando, preocupado, acho bom colocar uma notinha aqui no blog: sim, um tornado devastador atingiu New Orleans esta madrugada, provocando destruição considerável. Aí vai a foto de uma casa do meu bairro. Outras tantas imagens do estrago estão disponíveis no site Nola.com:

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Apesar de que tanto a casa do Alex como a minha estão localizadas bem no meio de onde passou o danado, estamos bem e não perdemos nada. Bem, acho que o Alex perdeu as janelas, mas nada grave.

Era só isso, para tranqüilizar quem escreveu ou telefonou. Obrigado. Nóis aqui é duro na queda.

PS: Em breve venço a preguiça e volto a postar no blog com mais regularidade.



  Escrito por Idelber às 19:25 | link para este post | Comentários (14)



sexta-feira, 15 de setembro 2006

Uma crônica brasileira em New Orleans

Eu não sei quantos brasileiros vieram a New Orleans ajudar no trabalho de reconstrução, mas certamente são milhares. Hoje em dia, ouvir português nas ruas da cidade não é nenhuma surpresa. Em geral, eles dormem nas casas que estão desinfetando ou reconstruindo. Amontoam-se às dezenas numa mesma residência.

A maioria desembolsou de 10 a 15 mil dólares para entrar nos EUA ilegalmente. Em média, trabalham dois anos só para pagar os empréstimos feitos no Brasil. Não raro, ficam presos aos intermediários que fazem o contato com as empresas e exploram-nos de todas as formas imagináveis.

Na semana passada eu conheci o Sr. C. J., de uns 60 anos de idade. Deve ter no máximo 1,63m, mas impõe respeito pela pele calejada, por marcas de vida que traz o corpo, pelo português impecável – às vezes até excessivamente rebuscado – que fala. Pernambucano, ele chegou aos EUA há alguns anos. Morou na Flórida. Teve um tremendo desengano amoroso. Ouviu falar que havia trabalho em New Orleans. Veio.

Há quatro anos, ouvindo na internet um programa da rádio BH-FM, conheceu Maria, de Contagem, MG. Um pouco mais jovem que ele, Maria procurava um homem sério, trabalhador, honesto. Ele se apresentou. Começaram a relação. Apaixonaram-se. O Sr. C.J. conhece cada momento do cotidiano de Maria, cada gosto, cada mania.

Falam-se todos os dias pelo MSN ou pelo Skype. Maria também conhece cada recoveco da rotina do Sr. C.J: quais os melhores lugares para trabalhar, os patrões pilantras, os brasileiros que o trapacearam, as melhores receitas da cozinha créole, a cara do quartinho que ele aluga em New Orleans.

O Sr. C.J. me entrega uma cerveja gelada com aquela comovente hospitalidade nordestina. Tira um sarro com minha cara pela goleada que, na semana passada, sua equipe – o Náutico – impôs à minha – o Galo. Enquanto isso, ele me mostra as mudanças que está fazendo no quartinho para quando chegar a sua amada, Maria.

O Sr. C.J. e Maria se amam há quatro anos e nunca se viram ao vivo. Nesta semana, Maria faz uma viagem ao consulado norte-americano no Rio de Janeiro para tentar, pela terceira vez, um visto de entrada aos EUA que lhe permita vir ver seu amado.



  Escrito por Idelber às 00:40 | link para este post | Comentários (23)



terça-feira, 29 de agosto 2006

Aniversário, furacão Katrina e a hecatombe em New Orleans

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Túmulo improvisado para Vera, que morreu à míngua, na rua: talvez a imagem mais famosa do Katrina. Foto: AP.

Foram oficialmente 1.464 os new-orleanianos mortos na hecatombe que se seguiu à ruptura dos diques depois do furacão Katrina, no dia 29 de agosto de 2005. Os desalojados e refugiados são mais ou menos 250.000, e os diretamente afetados pela catástrofe são ainda mais numerosos. A "reconstrução" da cidade que se seguiu ao desastre vem combinando a forte presença do interesse de empreiteiras, uma deliberada letargia e negligência do governo e de seguradoras na assistência aos refugiados e uma visão "modernosa", "de parque de diversões" do que deverá ser a "nova New Orleans", hoje já expurgada de mais 60% da sua população negra.

Esta visão não se impõe sem resistência, claro, e já são muitas as comunidades (políticas, de bairro, etc.) que se organizam para defender seus direitos mais elementares, como o de ter postos de votação disponíveis no "exílio" ou de enviar seus filhos a uma escola pública em New Orleans. Hoje, enquanto Bush fazia sua 13a visita à cidade desde a tragédia, houve passeatas, protestos e inclusive um jazz funeral, que deixaram claro como New Orleans o vê.

Este post, que relembra o aniversário do furacão que devastou a cidade que chamo de "minha" há 7 anos, traz no final uma ampla documentação, com links a textos em inglês, sobre a metódica agressão política que ela sofreu depois do desastre natural - desastre que só foi "natural" na medida em que uma cidade à qual se negou verbas para as necessárias obras nos diques ficou "naturalmente" à mercê de um furacão da força do Katrina.

Hoje é, de alguma maneira, o aniversário da falência pública, planetariamente visível, do governo Bush - sob cujo leme os Estados Unidos da América assistiram uma de suas mais tradicionais, famosas e singulares cidades morrer à míngua, pedindo pão e água durante uma semana inteira, sem que míseros helicópteros com água fossem capazes de chegar para ajudar, talvez por estarem todos eles ocupados com a verdadeira prioridade do governo Bush, as guerras petrolíferas de rapinha no mundo árabe.

O detalhe agravante é que a cidade de New Orleans havia pedido durante anos a renovação das verbas para restauração dos diques, que só estavam preparados para defender a cidade de furacões categoria 3, numa escala que vai até 5. Não só a negligência e a falta de priorização da obra por parte do governo federal (os diques de New Orleans são responsabilidade do Corps of Engineers, órgão do exército, braço do governo federal) foram gritantes ao longo da reiteração desses pedidos, nos primeiros anos desta década; à falta de qualquer planejamento para o desastre somou-se o total descaso, negligência criminosa que ninguém aqui deixou de ler como racista, que se seguiu à enchente na cidade.

Abaixo vão duas "baterias" de links. Os primeiros são para os posts aqui do Biscoito no ano passado, quando o blog virou crônica e ponto de encontro para pessoas afetadas pela tragédia. Depois segue-se um conjunto de links a textos jornalísticos ou testemunhais sobre o processo vivido por New Orleans desde então. Quem lê inglês terá aí uma boa coleção sobre o assunto.

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30/08: New Orleans submersa.
01/09: Emergência em New Orleans.
02/09: Mais notícias da destruição.
03/09: Recados aos refugiados.
04/09: A Negligência Criminosa com New Orleans, em 10 datas.

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Documentação e análises do pós-Katrina (textos em inglês, responsabilidade pela paráfrase em português sob a qual se embute o link é minha):

A história do descaso da administração Bush (Washington Monthly).

Músicos lutam e se reorganizam para manter a cultura viva (Guardian).

Negligência e privatização do sistema educacional depois do Katrina (Salon.com)

Balanço e análise demográfica da tragédia "natural", seis meses depois. (Counterpunch)

Todo o fracasso do Corpo de Engenheiros do Exército nas palavras de seu próprio chefe
(Nola.com).

A metódica agressão a New Orleans (Commondreams.org).

O selo musical mais nobre de New Orleans luta para se manter vivo
(Bestofneworleans.com)

Terraplanando a esperança: aos pobres de New Orleans, sem casa (Counterpunch).

Professores públicos despedidos, milhões em ajuda federal canalizados para escolas particulares em New Orleans (democracynow.org).

Relatório (em pdf) baseado em entrevistas com 706 trabalhadores empregados na reconstrução. (National Immigration Law Center).

"Não foi um dos melhores momentos da América", Spike Lee fala sobre o Katrina (nola.com).

Instrumentistas e cantores, na mais rica cultura musical dos EUA, reconstróem suas vidas. (Nola.com).

A incrível história de Bernice Mosely, que tentou voltar
. (Counterpunch)

Economia de New Orleans permanece em coma. (Nola.com)

Art Neville, dos legendários Neville Brothers, tinha jurado não voltar, mas voltou (San Francisco Chronicle).

Bush volta à cena do crime (NYT)

Ex Black Panther Malik Rahim relata: "Isto é criminoso" (New America Media).

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Seria fútil tentar consolar os que perderam mais que eu, mas deixo o agradecimento a todos os que ajudaram este blog a ajudar, há exatamente um ano atrás.

Atualização: O blog Shakespeare's Sister fez o fantástico trabalho de compilar tudo quanto é post publicado sobre New Orleans neste aniversário (obrigado a Lucia Malla pela dica; obrigado também a meu amigo Ned Sublette por vários dos links incluídos neste post).



  Escrito por Idelber às 22:54 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 07 de junho 2006

Canção imperdível

Se você entende pelo menos um pouco de inglês e foi tocado pela tragédia que aconteceu conosco aqui em New Orleans, não deixe de ouvir essa canção comovente. Depois me contem.



  Escrito por Idelber às 18:04 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 14 de janeiro 2006

Fotos de New Orleans

Primeira e última leva de fotos de New Orleans que o blog publicará:

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mid-city

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lakeview

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Os códigos nas casas significam: 1) esquerda, a unidade da Guarda Nacional que a vasculhou em busca de corpos (no caso, Nebraska); 2) acima, data da busca; 3) abaixo, número de corpos encontrados (aí no caso, nenhum). Note-se que os habitantes dessa casa provavelmente escaparam (ou tentaram escapar) pelo telhado.

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Ironia: na casa destruída, uma placa de protesto contra o número excessivo de conselhos de administração dos diques; atrás, um guarda-roupa que sobreviveu.

Algumas coisas em New Orleans não mudam nunca, e o bom humor é uma delas: entre os muitos adesivos de carros comuns por aqui, havia um que dizia: New Orleans, proud to call it home. Ele acaba de ser substituído por este:

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  Escrito por Idelber às 22:17 | link para este post | Comentários (34)



quinta-feira, 12 de janeiro 2006

Notícias de New Orleans, pós-Katrina

Eu ainda não andei o suficiente pela cidade, portanto o que vai aqui são as primeiras impressões. Primeiro, um mapinha para que vocês entendam a coisa:

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Só a área ao longo do Rio Mississippi (de ambos os lados) escapou da destruição. Essa é a área a que está reduzida a vida "normal" da cidade, com energia elétrica, comércio, bancos e todo o demais funcionando com normalidade. Tulane University é essa área branquinha do lado esquerdo do mapa, na região chamada de uptown. Foi atingida, mas não da forma devastadora como as regiões inundadas pela água que vazou do lago. Muita gente duvidou, mas a universidade se reestruturou, eliminou alguns programas de pós-graduação (o nosso, em literaturas e culturas latino-americanas e ibéricas, continua firme e forte), mandou funcionários embora e está pronta para reiniciar atividades na próxima terça - tudo ainda um pouco caótico, mas o simples fato de que já vamos começar as aulas é, em si mesmo, espantoso.

No resto da cidade, a coisa é bem diferente. Toda a área próxima ao imenso lago Pontchartrain foi quase que totalmente destruída. Pouca gente de lá voltou. As pessoas que perderam suas propriedades têm direito a um trailer do governo - o drama é que elas devem estacionar os trailers no seu próprio terreno, o que significa, na maioria dos casos, viver num lugar sem luz, sem comércio, sem vizinhos e com montanhas de detritos em volta. Não surpreende que o que mais se veja hoje na cidade seja gente com trailers sem ter onde estacioná-los. Muita gente ainda não recebeu seus trailers.

Se você traçar uma linha horizontal exatamente na metade do mapa, tudo o que estiver acima dessa linha é hoje cidade-fantasma. Mas o horror mesmo é o que está ao leste da linha vermelha.

Ao leste do Industrial Canal, está o Lower Ninth Ward, berço de uma das culturas musicais mais vibrantes do planeta. O Lower Ninth tem uma peculiaridade: é um bairro de classe pobre, mas basicamente de gente que não paga aluguel - famílias negras que são donas de suas casas há gerações. Dali saíram alguns dos músicos mais brilhantes dessa genial cidade da música. Lá no Lower Ninth ainda há toque de recolher, e tudo é pura devastação. Nada indica que seus moradores poderão voltar algum dia, dada a ferocidade da especulação imobiliária que já se instalou na cidade. O bairro anda mais ou menos assim:

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Leste do Lower Ninth estão os bairros de St. Bernard Parish e Chalmette, também berços da grande cultura musical de New Orleans. Também essas áreas estão, basicamente, desaparecidas. Ao nordeste do Industrial Canal está a região chamada de New Orleans East - e também ali pouca coisa sobreviveu.

A população da área urbana de New Orleans antes do furacão era de 500.000 habitantes (1 milhão se considerarmos a "grande" New Orleans, incluindo os subúrbios). Ela está hoje reduzida a pouco mais de um quarto disso, e mesmo assim tudo (bancos, restaurantes, serviços públicos) está mais cheio, dada a tripinha de terra a que foi reduzida a cidade.

Sobre as responsabilidades da criminosa administração Bush nessa tragédia, este blog já disse o que tinha que dizer. A documentação sobre quantas vezes a cidade pediu verbas para a restauração dos diques é extensa. Obviamente, a esmagadora maioria dos que não podem voltar são os negros, o que é desastroso para a singular cultura de New Orleans. Na reconstrução, são latinos, contratados a salário de fome (e muitas vezes não pagos), os que fazem o serviço.

Claro que há sinais encorajadores. Uma padaria reabre ali, outra casa de show é reinaugurada acolá. Kermit Ruffins, o legítimo sucessor de Louis Armstrong, já está de volta com seu show de quinta à noite no Vaughn's, que vários brasileiros já conhecem - trata-se do primeiro lugar onde eu levo meus hóspedes. Não tenho idéia de como o cabra está dando esse show, porque o Vaughn's fica bem perto do Canal. Mas é para lá que eu vou quando terminar este post, para abraçá-lo. Eu temi muito pela vida de Kermit.

No French Quarter, o bairro turístico, a vida vai pouco a pouco voltando ao normal. No momento, o importante é ganhar a batalha política para que os verdadeiros donos desta cidade, os que a construíram, possam voltar e reocupá-la. A batalha é, naturalmente, morro acima.

PS. A todos os que perguntaram, escreveram e se preocuparam por mim: obrigado. Eu estou bem, e instalado com conforto. Ainda não sei se a metade da minha biblioteca que ficou guardada num galpão (a outra metade está no gabinete) escapou, mas tudo indica que sim, já que o galpão fica no lado oeste do rio. Quanto mais histórias eu ouço, mais eu me sinto abençoado, sortudo e protegido pelos orixás. Graças a três amigos maravilhosos, meu carro está ainda em melhores condições do que estava antes da tragédia.

PS 2. Há uma impressionante coleção de fotos de New Orleans pós-Katrina aqui.



  Escrito por Idelber às 20:24 | link para este post | Comentários (14)



segunda-feira, 12 de setembro 2005

Sobre New Orleans (post do dia 18 de janeiro, republicado)

[Neste domingo o caderno Mais! da Folha de São Paulo publicou texto de Gerald Thomas no qual, entre outras barbaridades, afirma-se que "Nova Orleans fala um inglês que muitos norte-americanos (mesmo os sulistas) têm dificuldade de entender" e, heresia das heresias, que "a cultura 'cajun' (crioula-francesa) é algo obscura para a maioria dos norte-americanos". O fato de que o maior jornal brasileiro publique um texto que comete o erro mais grosseiro que se pode cometer sobre New Orleans, ou seja, confundir cajun com créole, me animou a republicar este post, originalmente publicado no dia 18 de janeiro. Republico-o sem tirar nem pôr]

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Rafael Galvão levantou a bola para um primeiro post de volta aqui em New Orleans. Rafael mencionava interesse na questão da religiosidade afro-americana, na qual só vou tocar de raspão. Depois pode se aprofundar mais. New Orleans é completamente incompreensível para o paradigma branco-e-pretista com o qual trabalha o resto dos EUA. Muito multicultural, negra, francesa, caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa para caber dentro dele.

Trata-se de uma cidade negra. Eu diria, a única grande cidade negra dos EUA. Sei que a população de Washington, DC é quase 80% negra, mas lá trata-se de uma cidade dominada pela cultura branca. Aqui não. Os brancos que estamos em New Orleans estamos aqui para seguir a cultura negra e vivê-la. Os que não curtiam já foram embora para os subúrbios nos anos 60, no processo conhecido como white flight. Há dois grupos étnico-raciais que só existem aqui:

1. os cajun, descendentes dos colonos de Acádia, hoje Nova Escócia, Canadá, que chegaram no século XVII. São católicos, brancos e se estabeleceram no interior da Louisiana antes de chegar a New Orleans. Sofreram violenta repressão por serem católicos.

2. os creole, que são os francófonos (brancos e negros) que começaram a chegar no século XVIII. Já no século XIX, a população creole é quase toda de ‘free people of color’, ou seja negros não escravos. Parte dessa população é inclusive dona de escravos durante o XIX.

Estas duas culturas não se confundem: o zydeco, por exemplo, que é primo do forró, é uma dança creole, não cajun (o correspondente cajun é uma música à base de cordas, com rabecas e banjos, e mais parecida ao bluegrass).

A primeira vez que o pau comeu foi franceses e índios Natchez, de 1680 e poucos até 1731. Ali a população era umas sete mil almas mandando açúcar e rum para a França e madeira, tijolos e carne para as Índias. Na cessão de New Orleans para os espanhóis em 1760, pesou na decisão dos franceses o fato de que a cidade parecia destinada a morrer: atacada por índios, três metros abaixo do nível do mar, cercada por um lago imenso e um rio caudaloso, sem saída. Até 1803 New Orleans foi espanhola, pero no mucho. Nos anos 1780 os New Orleanianos (um pouco como uns Tiradentes) botaram o regente espanhol para correr. Para onde? Para Havana, cidade que foi o grande diálogo comercial de New Orleans durante todo o século XIX até os anos 1950. Os gringos adquirem New Orleans à preço de banana, mas em compensação levam um montão de outros territórios que depois ganhariam a eleição para George Bush.

A partir daí começa a história segregacionista.

A história segregacionista começa com dificuldades: New Orleans estava cheia de negros livres e cheia também de negros donos de escravos (parte dos ‘creole’). Por volta de 1880, quando se promulgam as leis de segregação, proíbe-se aos negros viver do lado uptown de Canal Street e acontece algo interessante: os ‘creole’ tornam-se negros. Jamais haviam pensado em si enquanto tais, mas viram-se vitimados e pouco a pouco toda a população negra vai se consolidando como anglófona. Hoje o francês não sobrevive como língua nativa de quase ninguém aqui e poucos são os falantes de ‘cajun’ no interior.

A herança católica é forte, mas trata-se sobretudo de uma cidade que é herética e politeísta, crente e supersticiosa, litúrgica e pagã. Até hoje, não há nenhuma garantia de que ela não será inundada da noite para o dia (e todo ano a gente passa um susto), o que talvez explique a postura de festejo enlouquecido permanente, como se o mundo fosse sempre acabar amanhã.

New Orleans se parece tremendamente com Salvador. O New-orleaniano compartilha com o baiano aquilo que eu chamaria de excepcionalismo sem arrogância. Sistematicamente faz propaganda do caráter único da sua terra sem nunca falar mal de ninguém.

O Rafael tem razão em supor que a experiência religiosa aqui é singular. O vudú, que chega cedo (com os haitianos pós-revolução, lá pros idos de 1810), se combina com mil outras narrativas, inclusive católicas e angolanas. Há aqui uma inclusividade radical que é de difícil compreensão para o estadunidense ‘típico’. As pessoas não são uma coisa ou outra, são uma coisa e outra.

Também na questão racial a experiência aqui tem algo de único: ao contrário de qualquer outra cidade estadunidense, o imigrante branco não experimenta em New Orleans a tensão racial normal, que é de se esperar, vinda do afro-americano, que percebe aquele imigrante como possível competição.

O negro new-orleaniano fala com a tranqüilidade de quem está hospedando. O que não quer dizer que a população negra não seja explorada pela indústria do turismo e da música, ainda majoritamente controlada por brancos.

Mas sim quer dizer que cultural e simbolicamente o povo negro está em inequívoco controle da cidade, expresso em mil festas: além do carnaval, tomadas rituais das ruas e secondlines (desfiles em que a gente sai dançando atrás de uma banda de metais pela cidade).

É a única cidade do mundo onde um policial vai te chamar de babe enquanto conversa com você. Também a única, que eu saiba, onde a morte é motivo para festa urbana: uma outra tradição de desfiles musicais pelas ruas, o jazz funeral.

Por falar nisto, neste dia 20, na posse de Bush, New Orleans se mobilizará para um Jazz Funeral for Democracy.

(publicado originalmente no dia 18 de janeiro de 2005)



  Escrito por Idelber às 08:35 | link para este post | Comentários (23)



sábado, 10 de setembro 2005

Fotos do Supersunday 2005 em New Orleans / Notícias dos Músicos Refugiados

Os Mardi Gras Indians são membros da comunidade afro-americana de New Orleans que fazem anualmente um tributo às tribos indígenas que albergaram escravos fugidios no século XIX. A tradição logo tomou a forma de uma competição entre fantasias cuidadosamente tecidas pelos próprios chiefs:

Picture 009.jpgPicture 005.jpg

Essas são algumas imagens de Mardi Gras Indias desfilando ao som de seus tambores no começo deste ano:

Picture 014.jpgPicture 016.jpg

Abaixo, mais fotos do Supersunday de 2005 em New Orleans. Uma legítima secondline neworleaniana (uma banda de metais toca e desfila pela cidade, com a população atrás, dançando):

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Notícias sobre músicos queridos de New Orleans: A família musical neworleaniana por excelência, os Neville Brothers, está dispersa. Aaron Neville se refugiou em Nashville, Tennessee. O irmão Cyril Neville está em Austin e o filho Ivan em Los Angeles.

A sobrinha de Aaron, Charmaine Neville, atração das segundas-feiras no famoso clube Snug Harbor (e cantora a quem Chris Dunn ensinou "Na Baixa do Sapateiro") sobreviveu a uma agressão e se recupera.

O legendário clarinetista do jazz Pete Fountain perdeu as duas casas que tinha e se refugiou em Winnsboro. A lenda do Rhythm'n'Blues e vovô do rock Fats Domino foi resgatado de uma casa alagada no Ninth Ward, uma das áreas mais atingidas pela tragédia.

Um dos maiores guitarristas da história da música de New Orleans, Clarence "Gatemouth" Brown, 81 anos de idade, com enfisema, câncer de pulmão e tudo, sobreviveu à perda de sua casa em Slidell e se refugiou no Texas. Long live Gatemouth.

Os trumpetistas Irvin Mayfield e Kermit Ruffins (quiçá os dois principais trumpetistas de New Orleans) se refugiaram em Baton Rouge, assim como a cantora Theresa Anderson. O pianista Eddie Bo está agora em Lafayette. O clarinetista Michael White encontrou refúgio em Houston.

Não há notícia de mortes entre os nossos queridos músicos. Há um fundo de contribuições aos músicos de New Orleans atingidos pelo furacão no site do Preservation Hall.

Atualização, domingo 11 de setembro: A música está de luto: Morreu o mestre, o grande bluesman Clarence "Gatemouth" Brown. Já com enfisema e câncer, provavelmente não sobreviveu à tristeza (obrigado pelos links, Gin e Helô).



  Escrito por Idelber às 04:18 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 08 de setembro 2005

Drops, New Orleans, Brasil

Pois bem: parece que em breve eu, pelo menos (assim como muitos na nossa comunidade), estarei pronto para começar o trabalho do luto. "Começar", pois como insistia aquele cara, o luto é interminável. Começar o luto quer dizer começar o contar o que se perdeu.

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Das ironias que envolvem essa tragédia: eu escrevi um livro sobre o luto, ou sobre como a literatura lida com o luto (inglês aqui, espanhol aqui, português aqui), morando na Carolina do Norte e depois em Illinois, antes de me mudar para New Orleans. Morando em New Orleans, eu dizia: "jamais escreveria um livro sobre o luto, isso não combina com a cidade". Amarga ironia, a de ter que fazer, um dia, luto por por New Orleans.

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Parece que na comunidade imediata de amigos meus de Tulane, estão todos vivos. Parece.

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O Centro de Estudos Latino-Americanos se reorganiza via um blog. Meu bróde Christopher Dunn, chefe do Departamento de Espanhol e Português, monta um blog. Alunos, funcionários, professores e amigos de Tulane que passarem por aqui, visitem esses dois blogs irmãos para trocar notícias. É lógico que este blog continua a disposição para essa função também.

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Para os alunos de pós-graduação de Tulane: Seria impossível listar aqui todas as universidades que me escreveram oferecendo ajuda na instalação de vocês como alunos e pesquisadores durante o semestre do outono (obrigado a todos que escreveram). Assumamos o seguinte: em qualquer que seja o lugar em que você estiver e quiser se matricular, escreva-me, ou a Chris Dunn, ou a Tom Reese, e um de nós aciona os contatos necessários.

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Se você está em busca de moradia, não deixe de visitar este site (dica do Alex Castro).

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Para pensar no que é perder New Orleans, ou no que se perdeu em New Orleans nessa tragédia, é impossível não evocar a perda musical: se na nossa comunidade imediata de amigos de Tulane estão todos vivos, com certeza esse não é caso em comunidades em que muitos de nós também temos amigos, como as dos vários bairros negros de New Orleans. Neles, sem dúvida pereceram incontáveis bluesmen, secondliners, jovens músicos. Eu não quero nem pensar em todos os conhecidos inalcançáveis por este brasileiro blog que podem estar mortos. Só mesmo quando eu voltar à cidade.

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No campus de Tulane, alagamento, mas nada que fosse devastador para nenhum edifício, pelo que parece. No detalhe, duas fotos (dos fundos e frente) do prédio onde eu trabalho, o Newcomb Hall, onde funcionam os departamentos de sociologia, filosofia, comunicação, espanhol e português, francês e italiano, clássicas, germânicas e eslavas:

flickr tulane area1.jpgflickr newcomb2.jpg
(fotos cortesia de Ned Sublette)

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If you're a lover of New Orleans music, consider help rebuilding WWOZ, one of the best community radio stations in the USA.

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Um minuto de silêncio por St. Bernard Parish.

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Meu camarada Jon Beasley-Murray está blogando.

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O LLL bate recordes de comentários com o aparecimento de Oliver!

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nos_h_cinza_vermelho.gif: Nós na Rede é uma comunidade de blogueiros filiados ao listserve blogleft. Veja os vários excelentes posts sobre o Brasil lá compilados e, para não dizer que não falei do 07 de setembro, reproduzo (retocada) uma mensagem minha à lista:

Se eu fosse escrever sobre o 07 de setembro, seria para falar da insignificância simbólica do 07/09 para nós, comparado com qualquer outra data, o 25 de maio argentino, ou o 18 de setembro chileno, ou 04 de julho americano, etc.

Somos um país sem San Martín, sem Bolívar, sem Jefferson. Nosso grande herói da independência é um derrotado, Tiradentes. A "independência mesmo" não foi produto de guerra popular, como nos outros lugares, mas de uma negociata severínica com jabaculê e maracutaia dentro da própria família real portuguesa, negociata essa mascarada pelo mentiroso "grito do Ipiranga" replicado nos livrinhos escolares da(s) ditadura(s). Imensa vergonha de uma "independência" sem luta.

Ao contrário do forte conteúdo popular das datas nacionais hispano-americanas, o nosso 07 de setembro é pura mentira. Refletir sobre os limites da nossa independência é também entender o imenso vazio dessa data.

Várias outras perspectivas lá no Nós na Rede.

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Não se assustem se a escumalha de extrema-direita dos EUA conseguir derrubar Ray Nagin, o prefeito de New Orleans.

Atualização 09 de setembro: e porque New Orleans será sempre New Orleans, até na desgraça aparece a sátira (obrigado pelo link, Michelle).



  Escrito por Idelber às 17:44 | link para este post | Comentários (31)



domingo, 04 de setembro 2005

A Negligência Criminosa com New Orleans, em 10 datas

neworleans-05.jpg.
(foto: AP, via WWLTV)


12/01/01: Houston Chronicle cita avaliação do Federal Management Emergency Agency do começo do ano de 2001 de que um furacão em New Orleans era um dos desastres ou catástrofes mais prováveis nos EUA, junto com um possível terremoto em San Francisco e, profeticamente, um ataque terrorista a Nova York.

2002: Times-Picayunne, o jornal de New Orleans, realiza uma série de reportagens mostrando o cenário de uma ruptura dos diques (especialmente os do Lago Pontchartrain) e concluindo obviamente (video via CNN) que A large population of low-income residents do now own cars and would have to depend on an untested emergency public system to evacuate them.

2003: Bush nomeia Mike Brown chefe da FEMA (a agência responsável pela resposta às emergências). Suas qualificações? Ter administrado (pessimamente) a Associação Internacional de Cavalos Árabes e ter sido despedido pelo desastre que deixou. Nenhuma experiência com o que deveria ser seu trabalho, a administração de respostas aos desastres. Quem era seu antecessor, também nomeado por Bush? Alguém - também sem experiência - que deixou o cargo para criar uma firma de consultoria para empresas que fazem negócios no Iraque.

Julho de 2004: Amplos estudos e previsões de um cenário macabro em New Orleans no caso de um furacão seguido de ruptura do dique.

Verão de 2004: FEMA recusa os pedidos de fundos de New Orleans para mitigar desastres.

25 de agosto: Katrina recebe denominação de furacão categoria 4.

26 agosto-: ao longo da semana, a (não) preparação e a (não) resposta do governo Bush à tragédia não chegam nem perto dos padrões já baixos do do plano de sua própria agência.

30 de agosto-2 setembro: Entulhados num estádio sem água ou comida, 20.000 negros pobres de New Orleans passam pelo horror do Superdome e são ignorados pelo governo. O mundo se pergunta: onde andam os helicópteros dessa tão poderosa nação, que podem ir ao Iraque e não chegam a New Orleans? Será que é porque não importa, porque New Orleans é pobre, é negra, votou contra George Bush 82 x 18, é festiva, sensual, satírica e crítica da macabra direita fanático-religiosa aliada a Bush? Do you know what it means to lose New Orleans?

1 de setembro: O Secretário de Segurança Doméstica declara que não sabia que milhares de pessoas do lado de fora do Centro de Convenções sem comida ou água 72 horas depois que o planeta e a torcida do Corinthians sabiam que havia milhares de refugiados no Centro de Convenções sem água ou comida. Entrevista irada do prefeito de New Orleans.

2 de setembro de 2005: Em desrespeito ao fato de que só os pobres ficaram, o diretor da FEMA culpa as vítimas. O exército faz referência ao início das operações de combate em New Orleans e se refere aos cidadãos norte-americanos que estão lá (negros e pobres) como a insurgência.

3 de setembro de 2005: 300 pessoas ainda eram evacuadas do Superdome, uma semana inteira depois da chegada do furacão à cidade e seis dias depois da tragédia da ruptura do dique.

PS: Ofertas de ajudas aos alunos de pós-graduação de Tulane: NYU (via Ana María Ochoa), Spanish and Portuguese at Berkeley (obrigado, Francine Masiello e José Luis Passos), Spanish and Portuguese at Austin (obrigado Leopoldo Bernucci), Cornell University, o MLA (obrigado, Rosemary Feal).

PS 2: Ofertas de pessoas que colocaram emails a disposição dos que precisem: Julee Tate, no norte da Geórgia (1 e 1/2 hora de Atlanta), Joyce Baugher em Baltimore, Christina Sisk em Houston, Maria Asturias em Oakland.

PS 3: Aos alunos de Tulane: se precisarem de qualquer contato em qualquer universidade para reinstalar-se por um semestre, escrevam-me ou a Chris Dunn, que com certeza qualquer um de nós teria prazer em encaminhá-los.

PS 4: Ainda não tenho notícias certas sobre Maureen Shea, Ibtissam Boucharine, Padré Ferré, Ricardo Crespo. Atualização 06 de setembro: Maureen Shea está a salvo em Maryland!!. Atualização: Ibitssam Bouacharine está a salvo em Smith College! . Atualização: Ricardo Crespo está a salvo na Noruega!!!



  Escrito por Idelber às 23:46 | link para este post | Comentários (91)



sábado, 03 de setembro 2005

Notícias e Recados aos Refugiados de New Orleans

Renata3.jpg

Estamos desesperadamente querendo saber notícias desta pessoa: Renata Nascimento, carioca, negra, mais ou menos 1,80m, magrinha e muito, muito mais linda do que essa foto sugere. Ela se encontrava em New Orleans com sua mãe, dona Ione, e com o namorado Aaron Lorenz, que também são meus amigos (Aaron e Renata são doutorandos em Tulane). O pai de Renata, seu Manuel, mora no Rio de Janeiro e tem uma casa em Arraial do Cabo. Infelizmente não tenho o telefone dele. Já fui ao blog do Mestre Nei Lopes, que é amigo da família, e deixei recado, porque imagino que se Renata estiver bem, o seu Manuel já terá tido notícias. Renata há tempos é leitora do blog, e por isso a sua ausência aqui me deixa em pânico. Gente que eu jamais imaginaria encontrou o blog. Ela ainda não apareceu. Atualização às 10:30 de Brasília: Renata, Aaron e Ione apareceram e estão vivos na Califórnia!!!

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Ainda não temos notícias de Maureen Shea, Kathleen Davis, Yaoska Tijerino, Ibtissam Boucharine, Padre Ferré. Cinco amigos muito queridos. Atualização às 10:30 de Brasília: Yaoska apareceu e está viva em Saint Louis!!! Atualização domingo, 18:30: Kathleen Davis a salvo em Nebraska!!

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Minha querida Tatjana Pavlovic, simplesmente a maior especialista do planeta no cinema de Pedro Almodóvar, apareceu! Ela me pede que publique o seu email: Dear Idelber, got your call. thanks! I am off to New York. my new email address is Pavlovic_Tatjana@yahoo.com. please post my email. will write you in peace from New York. as you know we all feel devastated by the tragedy of people left behind. love,Tanja

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Christopher Dunn, sonhando com o Brasil, nos avisa que Brown University está oferecendo acomodações e bolsas para alunos de Tulane e de outras áreas afetadas pela tragédia. Quem se interessar, entre em contato com a Graduate School de Brown.

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Também Columbia University está oferecendo boas-vindas aos alunos de Tulane e outras escolas da região. A oferta inclui uso da biblioteca, ginásio, matrícula por um período determinado, etc. Quem se interessar, entre em contato com Jane Acton Chung lá no International Students and Scholars Office, por telefone (212-854-3587) ou por email (Obrigado, Odradek).

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Hoje eu falei com a produção da Rede Globo de Televisão em Nova Iorque. Procuravam um brasileiro com celular em New Orleans. Dei a minha modesta opinião de que ia ser meio difícil... Mas aproveitei para pedir ajuda na localização dos nossos amigos.

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O presidente de Tulane, Scott Cowen, confirmou: está cancelado o semestre letivo em Tulane.

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Em Houston, Christina Sisk insiste que seu telefone e email estão à disposição dos amigos refugiados por lá. Ela está levantando grana, conseguindo roupas, e fazendo um trabalho de solidariedade fantástico. De novo, o contato de Christina é no telefone 713-962-6686 ou por email.

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Fiquei sabendo que dois amigos maravilhosos salvaram o meu carro, que eu já dava por perdido e com o qual nem me preocupava mais. Obrigado :)

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E obrigado a vocês por tornarem este blog um espaço útil para a nossa comunidade. Nossos amigos estão esparramados pelo país, vivendo a dura realidade do refugiado. Trocar mensagens aqui pode ser não só uma forma de encontrar pessoas e ter notícias, mas também de sentir-se um pouco menos só. Fiquem à vontade, in any language, siempre.

Atualização às 10:30: Também queremos saber notícias do cantor brasileiro Ricardo Crespo, conhecido da comunidade latina de New Orleans. Ricardo é gaúcho, branco, toca violão, tem mais ou menos 1,75m. Estava na cidade até a chegada do furacão.



  Escrito por Idelber às 01:53 | link para este post | Comentários (54)



sexta-feira, 02 de setembro 2005

Mais Notícias da Destruição em New Orleans

A cronologia da irresponsabilidade.

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O Secretário de Segurança Doméstica Michael Chertoff se recusava a acreditar que havia milhares de pessoas do lado de fora do Centro de Convenções sem comida ou água. Secretário, até em Belo Horizonte sabia-se que havia milhares de pessoas sem comida ou água do lado de fora do Centro de Convenções.

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Bush no Good Morning America: "Ninguém poderia ter previsto a ruptura dos diques". Presidente, todos, até as baratas de New Orleans, previram a ruptura dos diques. Foi previsto em 2001 e muitas vezes desde então. Mas o dinheiro especificamente destinado à prevenção de desastres em New Orleans foi diretamente realocado para a guerra no Iraque.

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Deixo para outros, em melhores condições emocionais que eu, a discussão sobre as responsabilidades políticas sobre essa catástrofe natural: ver os posts no Crooked Timber, Michael Bérubé, a palavra de um especialista no Guardian, The Left Coaster, Mark Kleinman e, na blogosfera brasileira, Smart Shade of Blue e Lucia Malla.

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Parece que a lenda do Rhythm'n'Blues de New Orleans, Fats Domino, que estava desaparecido, foi encontrado e está a salvo.

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Blogs que acompanham a situação de New Orleans: Nola View, Humid City, Katrinacane's Friends. Algumas imagens comparativas, do antes e do depois da catástrofe, encontram-se aqui.

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Conversei com dois sobreviventes hoje à noite: se o que você está vendo na televisão é horrendo o suficiente, você não imagina o que são os relatos dos que escaparam. Pelo que pude avaliar até agora: Ninth Ward, Chalmette, St. Bernard Parish não existem mais, simplesmente. Airline Highway e West End continuam submersos. O Oakwood Mall foi incendiado. Há partes do French Quarter que não estão submersas, mas lá é onde os saqueios (e inclusive incêndios) campeiam. Nossa cidade, a mais brasileira de todas as cidades americanas, está literalmente sendo destruída. A sensação de impotência aqui é muito grande.

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Notícias da comunidade de Tulane: estou muito comovido de que este blog esteja servindo como canal de comunicação para alunos e professores de Tulane. Já ficamos sabendo que estão salvos, em vários pontos do país, Mac Williams, Michelle Nasser, Miguel Rivera, Alejandra Osorio, Alejandra Sánchez, Felipe Victoriano, Inmaculada Alvarez e o companheiro Dani, Marylin Miller, Christopher Dunn, Henry Sullivan, Nilda Rivera, Claudia St. Marie (com John e Bernardete), Julia Reinneman, Tatjana Pavlovic, María Jesús Castillejo, Ari Zinghelboim, Uriel Quesada, Mónica Albizurez, Cindy Seley. Estas são as pessoas que temos certeza que estão bem. Quero dizer, "bem" não é a palavra, mas estão a salvo.

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Não temos notícias de: Maureen Shea, Renata Nascimento, Aaron Lorenz, Yaoska Tijerino, Ibtissam Boucharine, Hamilton Pinto, Padre Ferré. Quem souber do paradeiro destas pessoas, por favor avise-nos aqui no blog. À medida que passam os dias sem notícias destas pessoas - algumas delas são os amigos mais queridos que tenho - a angústia aumenta muito. Atualização às 12 de Brasília: Hamilton Pinto está a salvo em Orlando.

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Christina Sisk, muito obrigado pelo trabalho maravilhoso de assistência aos nossos amigos refugiados em Houston.

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Amigos: fiquem à vontade para usar o blog também para compartilhar angústias e alegrias no meio da tragédia. This is a trilingual blog. You write in whatever language tú prefieras. O importante é termos informação sobre todo mundo.

Atualização às 16 horas de Brasília: Entrevista furiosa do prefeito de New Orleans: Transcrição aqui e áudio aqui.



  Escrito por Idelber às 01:19 | link para este post | Comentários (70)



quinta-feira, 01 de setembro 2005

Emergência em New Orleans / Notícias dos Amigos

Minha cidade, a que me acolheu como se eu fosse seu filho, aquela que - junto com Belo Horizonte - é a que eu mais amo no planeta, está mesmo destruída: New Orleans continua submersa, a availação do prefeito é que milhares de mortos bóiam nas águas da enchente, não há saneamento básico nem eletricidade e a cidade foi convertida num pesadelo dantesco de saqueadores. As 50.000 a 100.000 pessoas (os números são todos vagos) que ainda haviam ficado na cidade estão sendo evacuadas. No detalhe vê-se exatamente a localização da cidade em relação ao Lago Pontchartrain e o Rio Mississippi, e a dimensão da tragédia da inundação:

new.orleans6.gif

Este blog, neste momento, tem a única função de servir como ponto de encontro, contato, apoio e disseminação de informações sobre os amigos e a comunidade de Tulane. Aqui vão as notícias:

Claudia St. Marie, John e Bernardete estão salvos no Alabama.

Michelle Nasser está a salvo em Houston.

Uriel Quesada está a salvo com Christina Sisk em Houston.

Mac Williams e família estão salvos no Alabama. Mac oferece ajuda a quem precisar nos telefones 770-974-5909 ou 504-812-0468, ou pelo email.

Eu passei o dia desesperado por eles, porque na terça eles ainda se encontravam em New Orleans, mas Tatjana Pavlovic, Inmaculada Alvarez e seu companheiro Dani, Felipe Victoriano (que já foi convidado aqui no blog), Alejandra Osorio e Alejandra Sánchez parece que se salvaram e estão vivos em Lake Charles. Não sei em que situação andam vivendo, porque provavelmente saíram da cidade em condições precárias.

Sonia Valle e marido estão salvos na Flórida. Cindy Seley e marido estão salvos em Indiana.

Meu brother Christopher Dunn está a salvo na Flórida. Chris, uma conta de email foi criada para você: christopher@idelberavelar.com. A senha é o seu sobrenome, mais o primeiro nome da sua esposa, mais a primeira letra do nome do compositor brasileiro sobre o qual você sabe tanto e cuja esposa lhe manda frequentes notícias. Para acessá-lo, visite este site e coloque sua senha. Depois mude a senha por segurança.

O site idelberavelar.com está a disposição da comunidade de Tulane, ou de qualquer neworleaniano que precise de uma conta de email segura. É só pedir aqui na caixa de comentários ou no meu email.

Não temos notícias de Miguel Rivera, Aaron Lorenz e da cidadã brasileira, carioca Renata Nascimento. Não quero criar pânico, mas não posso deixar de usar o blog para pedir notícias deles. Quem tiver notícias de Miguel, Aaron e Renata, por favor escreva-me.

um blog acompanhando a catástrofe (obrigado pelo link, Chris).

Há um site recolhendo doações (obrigado pelo link, Alfredo).

O site de Tulane se transformou num blog de emergência do nosso presidente, Scott Cowen.

Parece que passarão semanas ou meses antes de que a cidade esteja minimamente habitável de novo. Não há notícias oficiais de Tulane.

Muito obrigado a todos que têm enviado mensagens de solidariedade. Foi um dia de muita angústia e desespero. À nossa comunidade espalhada por vários pontos dos EUA: sintam-se à vontade para usar o blog para deixar recados, confortar os amigos e pedir notícias, em qualquer língua.

Estou muito feliz de estar em Belo Horizonte com meus filhos, e muito angustiado pelos amigos.

Atualização às 13:30 de Brasília
: mais notícias de New Orleans aqui, aqui e aqui.

Atualização às 14:15: Segundo o New York Times a situação em nossa cidade, por bairros, é a seguinte:

área do Tulane University Hospital: 6 pés (2 metros) de água.
Ninth Ward: situação desesperadora ainda, com água até os telhados.
St. Bernard Parish: água até os telhados.
West End: casas totalmente submersas.
Área de Marengo Street: água de 3 a 10 pés.
Lake Pontchartrain Causeway: submersa.
French Quarter: algumas áreas submersas, outras não. Saqueios continuam.
Airline Highway: água até o segundo andar dos prédios.

Atualização às 15:30: Chris, link atualizado, lá no post, que agora te leva ao webmail correto. Agora funciona. Just log on as christopher@idelberavelar.com and enter password.



  Escrito por Idelber às 06:14 | link para este post | Comentários (52)



quarta-feira, 31 de agosto 2005

New Orleans submersa, 31/08/2005

Um mapa relativamente representativo da proporção normal de água para terra no pântano no qual se situa New Orleans seria este aqui:

orleans_map.gif

Imagine que a densa área urbana que congrega 500.000 habitantes (chegando a 1 milhão à medida que você for considerando os subúrbios e a "grande" New Orleans) está quase toda situada entre o imenso Lago Pontchartrain e o Rio Mississipi e em sua grande maioria está submersa. Uma das partes baixas da cidade é a que bordeia o rio no setor centro-leste da cidade, o downtown que inclui o turístico French Quarter e, ao norte, o mais antigo bairro negro da América do Norte, o Tremé:

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Não só a downtown turística, como a uptown (ainda ao longo do rio, mais ao oeste) como a região próxima ao lago, se encontram neste momento submersas, com inúmeros mortos (gente que ficou presa nos seus sótãos ou telhados e morreu afogada) e ainda gente pedindo socorro. Os relatos são de que os barcos de resgate passam "ignorando os mortos", tal é o número de pessoas ainda pedindo socorro. Aproximadamente 37.000 pessoas estão em abrigos, em situação mais ou menos desesperadora e terão que ser evacuadas. Nestes vídeos da WWLTV tem-se uma dimensão da tragédia (Obrigado pelo link, Alexandre).

new-orleans2.jpg

Depois de horas assistindo CNN e especialmente a TV local, o que eu consigo avaliar é: a grande maioria das casas da cidade está submersa, dezenas, talvez centenas, talvez milhares de pessoas ainda pedem ajuda em sótãos e telhados, aproximadamente 37.000 pessoas estão em abrigos na cidade (em situação mais ou menos precária) e mais de uma centena de saqueadores já atacaram prédios vários da cidade. Em várias partes da cidade a água continuava a subir na noite desta terça. Obviamente não se pode, por exemplo, dar descarga em lugar algum de New Orleans. Agua potável é problema seríssimo e eu não consigo nem imaginar o que é a vida de alguém trabalhando nas operações de resgate neste momento. O altíssimo estádio/ginásio fechado Superdome não esteve longe de, até ele, ceder à água. Foto tirada de um helicóptero:

new-orleans3.jpg

A situação de milhares de casas em toda New Orleans não é muito diferente destas aqui:

new-orleans5.jpg

onde os moradores podem ter saído a tempo, podem estar num abrigo, mas podem também estar mortos ou ainda pedindo socorro.

É em muita gente que eu penso agora: nos meus amigos e conhecidos que podem ter estado entre os quase 100.000 que não saíram da cidade, por razões econômicas.

Apesar de ter morado numa dezena de lugares nesta vida, New Orleans é - junto com Belo Horizonte - a única que jamais chamei de "minha cidade".

Espero que Paul Becnel e toda a família Becnel estejam bem. My heart goes out to you, bro.

Seria pretensão achar que este blog, com seu autor em Belo Horizonte, poderia ajudar em alguma coisa. Mas se puder, pelamordedeus usem. Quem é de Tulane não têm acesso a email, então use meu email do blog prá dar recado, in any language por supuesto, se tiver acesso à internet. Quem trabalha no serviço público da cidade também não tem email neste momento, mesmo que esteja fora de NOLA. Acesso a qualquer coisa neste momento em New Orleans é ultra complicado.

Quem for de reza, que reze, então, para Jeová, Jesus, Alá; quem for de orixá, que fale com os orixás; quem for só de fazer figuinha, que faça, pela cidade. É um encanto e uma beleza de cidade, essa New Orleans.



  Escrito por Idelber às 02:23 | link para este post | Comentários (55)



terça-feira, 30 de agosto 2005

Katrina

A minha amada New Orleans não sofreu o apocalipse que poderia ter sofrido, mas recebeu uma pancada horrorosa. Numa das paróquias mais baixas da cidade, o St. Bernard Parish, pelo menos 40.000 casas foram totalmente submersas e pelo menos 200 pessoas foram salvas no teto de suas casas. No segundo vídeo listado nesta página assiste-se um desses dramáticos salvamentos.

Ainda não há confirmação de mortes em New Orleans, mas algumas pessoas prevêem números bem pessimistas. As autoridades estão pedindo que as pessoas não voltem, pelo menos pela próxima semana.

No primeiro vídeo listado nessa página da CNN, que mostra imagens da downtown (a área mais próxima ao Rio Mississippi), vê-se como ficou desesperadora a situação nas áreas mais baixas da cidade (70% dela fica, como se sabe, abaixo do nível do mar, razão pela qual os cemitérios em New Orleans sepultam os mortos acima da terra). Em todas as principais paróquias da grande New Orleans (St. Bernard, Orleans, St. Tamanny, St. Charles), a destruição é muito grande.

Só 20% dos habitantes permaneceram na cidade, a grande maioria porque não tinha condições econômicas de sair. É comum que parte da população de New Orleans ignore as sugestões de saída da cidade na época dos furacões (eu sou um dos que o faz), mas desta vez as autoridades ordenaram evacuação.

Parece que os prédios da área de passeio, orgia, música e turismo que os New Orleanianos amamos (o French Quarter) não sofreram grande destruição, mas só o tempo dirá o que o alagamento estragou. Muitos daqueles prédios estão cheios de, por exemplo, instrumentos musicais. A área que bordeia o imenso lago Pontchartrain, ao norte da cidade, foi muito atingida, pelo que parece.

O meu carro, coincidentemente, estava na época de passar dos cuidados de uma amiga para os de outra amiga. Se o furacão pegou-as no intervalo dessa passagem, é possível que meu querido Mazda esteja boiando em algum canto de New Orleans. Minhas coisas mais importantes (os eletrônicos, CDs e metade dos meus livros) estão a salvo, no terceiro andar de um prédio de Tulane. A outra metade dos livros estava guardada num galpão e pode ter sido destruída, junto com uns móveis que não valem nada.

Fico pensando mesmo nos meus bares, nas casas de show, nos inigualáveis restaurantes de New Orleans, e espero que estejam todos lá, intactos, com seus profissionais a salvo em algum canto dos EUA.

Em geral os furacões chegam a New Orleans um pouco depois de iniciadas as aulas. Katrina chegou bem na semana em que os alunos e professores retornavam, o que deve ter tornado o caos em Tulane ainda pior.

Dos amigos ainda não tive notícias, mas confio que todos conseguiram sair da cidade e estão bem. Obviamente é impossível comunicar-se com qualquer pessoa de Tulane por email (até o site está fora do ar) e boa parte dos telefones que tenho dos amigos são fixos, não celulares, então não adianta. Se alguém atender o telefone, é mau sinal. Os poucos celulares que tentei não atenderam. Continuo a torcida para que o Alex Castro supere o susto, se restabeleça bem em New Orleans, e que o Oliver sobreviva.



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (17)



segunda-feira, 14 de março 2005

*Secondlining* e *Blackitude* Eu

Eu ando escrachando nas afrontas ao vernáculo né? Deixa os colegas de
letras saberem. Duas palavras estrangeiras no título! Chamem o Aldo
Rebelo
[link]! O
post de hoje é para eu me lembrar de por que, quando tive a oportunidade
de trabalhar num lugar mais rico e prestigioso, eu acabei optando por
ficar aqui em Nova Orleans: *eu amo demais a cidade*. Hoje foi dia de
*secondlining*: palavra inglesa só existente como substantivo aqui em
Nova Orleans
[link],
ela designa o ato de seguir uma banda de metais, dançando pela cidade,
de tal forma que você estaciona, sai saculejando e, na hora que se
assusta, já está a 5 milhas de distância do carro, tendo que atravessar
a cidade caminhando de volta. Eu dancei milhas e milhas por esta cidade
hoje.

Durante a festa, uma reflexão: éramos, calculo, umas 600-800 pessoas (um
quarteirão e meio, sólido, de gente dançando: eu aprendi a quantificar a
densidade de pessoas nas minhas épocas de passeatas estudantis). Até
onde pude enxergar *eu era o único branco*. Não foi surpresa e não é
incomum. A cultura hegêmonica aqui é afro-atlântica e somente os brancos
que fazemos questão de acompanhar a cultura negra participamos de
*secondlinings* e dos desfiles que ocorrem em datas simbólicas como o
domingo do *Black Man of Labor*. Já são seis anos vivendo intensamente
esta cidade. Alguma única vez alguém olhou-me com cara de hostilidade ou
cara de *what’s this white boy doing here?* Jamais, nem uma única vez.
Alguma vez deixei de me sentir bem-vindo numa dessas festas? Não, nem
uma única vez.

Um de meus passatempos favoritos é levar a um *secondlining *as madames
e madamos brasileiros, de classe alta, que vira-e-mexe chegam a Nova
Orleans. Vocês sabem, madames do Morumbi ou do Leblon. Acompanham-me.
Entre assustadas, reácias e traumatizadas, protegem suas bolsas e – as
mais inteligentes, as que têm perspicácia para tanto – não se conformam
de que toda a população negra do bairro está ali na rua *sem dar a menor
bola* para elas.

Para quem ainda repete asneiras como “no Brasil não existe racismo” ou
“os próprios negros se discriminam” ou “usar camisa que diz 100% negro é
racismo invertido” (acho que li essa asneira por aí na blogosfera, nem
lembro onde), seria muito bom fazer uma observação da classe média alta
pindorâmica que vem passear aqui na Bahia gringa. O racismo tupiniquim
fica cristalinamente visível quando sai de seu campo preferencial de
jogo, que é a porta do elevador de serviço dos prédios de classe alta no
Brasil.

Fica visível porque aqui (e eu me refiro a esta *cidade*)* é outra
onda,* você é bem-vindo se entender que a cultura da cidade é afro mesmo
e, acima de tudo, se entender que a sua presença não faz a menor
diferença, nem para um lado nem para outro. A gente saculeja aqui nesta
cidade há 200 anos e não deixaremos de saculejar porque apareceu algum
sueco filmando-nos. Se for filmar e bater fotos, entenda: o objetivo
principal ali é dançar. Hoje foi dia de tomada ritual da cidade pelo
povo negro e a tarde inteira foi embalada ao som das marchas das *brass
bands. *Valeu*. *

Para ouvir a música de Nova Orleans, confira a wwoz.org
[link]. Nesta época do ano a emissora, que é comunitária,
está em campanha financeira e pode ser que esteja um pouco chata de
ouvir. Se for o caso, há boa música de Nova Orleans aqui
[link].

PS 1: Como eu faço para sair da primeira página
[link] do UOL? Não sei, já tentei. Sei que o exército
dos blogs pisca-pisca está chegando. *Leitores históricos*: mantenham o
leme desta joça!

PS 2: Notícias da transição ao pontocom: há profissionais extraordinários me auxiliando. Mas parece que este é o primeiro blog a tentar converter conteúdo do UOL para o *Moveable Type*. É possível que tenhamos que fazer toda a transferência de conteúdo manualmente, porque não parece haver tradutibilidade. O UOL parece rodar numa gerigonça de formato alheia aos outros conhecidos. Enfim, mantê-los-ei informados, mas se a esperança era uma transição de alguns dias, parece que foi para o brejo: serão algumas semanas.

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  Escrito por Idelber às 02:20 | link para este post