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sexta-feira, 28 de março 2008

José Miguel Wisnik ovacionado em New Orleans; Invasão brasileira no legendário Vaughn's

Foi uma das aberturas de congresso mais memoráveis da história. Para iniciar os trabalhos do nono congresso da BRASA, reunido aqui em New Orleans, convidamos meu amigo José Miguel Wisnik, que apresentou uma belíssima meditação sobre a música em Machado de Assis. É um velho tema de Zé Miguel, que desentranha como ninguém as tensões e ambiguidades da cultura brasileira tal como codificadas em contos como "Um Homem Célebre" e "O Machete". Ele vai mostrando como chega a polca ao Brasil; como ela vai absorvendo sonoridades afro-atlânticas; como Machado esteve atento a esse processo e registrou-o nesses dois contos. No final, para matar qualquer um de inveja, faz aquela demonstração ao piano, passando por Ernesto Nazareth e Scott Joplin porque, afinal de contas, nada como a música ilustra o profundo parentesco entre New Orleans e o Brasil.

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Centenas de pessoas aplaudiram de pé aquele que é, sem dúvida, um dos maiores pensadores da cultura brasileira na atualidade. O grande Paulo Cesar de Araújo dizia, deslumbrado: Idelber, se não acontecer mais nada neste congresso, já valeu a pena. Alex zanzava atônito, dizendo que foi uma das palestras mais impressionantes que já viu na vida. Camila, nossa nova aluna de pós-graduação, ficou encantada. A abertura ainda contou com o embaixador brasileiro nos EUA, Antonio de Aguiar Patriota, que fez um belo discurso em inglês impecável.

Parece que a dica dada aqui no blog há uns dias valeu, pois no show de Kermit Ruffins, no Vaughn's, só se ouvia português no salão. Presenciei uma sensacional cena, em que um dos convidados do congresso – desconhecido para mim – me disse: pois é, está cheio de brasileiros aqui porque dizem que um cara aí colocou a dica no blog dele. Um adorniano que permanecerá inomeado foi visto saculejando o esqueleto ao som do trumpete de Kermit, esquecendo todas as caretices frankfurtianas anti-jazz. Neste fim de semana, aqui em Tulane, só dá Brasil. São centenas e centenas de visitantes brasileiros e brasilianistas.

As mesas começam hoje e o blog convida a todos que assistam comunicações a que me enviem uma apreciação do que assistiram. Assim podemos compartilhar com os leitores do blog algo deste belo congresso. Há mesas sobre absolutamente tudo, desde história mineira do século XVIII até agricultura; estudos da mídia brasileira até trabalhos sobre economia; literatura, música, filosofia, sociologia – há muita coisa acontecendo por aqui neste fim de semana, e tudo enfocado no Brasil. Nós, os anfitriões, estamos absolutamente comovidos de ver a alegria nos rostos brasileiros contagiados pelo astral incomparável de New Orleans. Bem vindos, bem vindos, bem vindos.

PS: Hoje, às 16 horas, não percam a mesa-redonda sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com o historiador Paulo Cesar de Araújo, a editora Luciana Villas Boas, a advogada Deborah Sztajnberg e o atleticano blogueiro.

PS 2: No domingo, a partir da 1 da tarde, tem secondlining saindo do Louis Armstrong Park. Se você nunca presenciou essa singularíssima manifestação cultural -- a toma musical, dançante do espaço da cidade -- não perca.

PS 3: A foto do Zé é cortesia da querida Emanuelle Oliveira, professora em Vanderbilt University.

PS 4: Alô, neófitos, muita, muita atenção: o livro de Zé Miguel sobre o futebol sai pela Companhia das Letras, no final de maio. Imperdível é pouco para descrever o que vem por aí.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (15)



terça-feira, 18 de março 2008

BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março

Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.

Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.

Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.

Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.

Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.

Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.

Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.

Bem vindos, pois.


Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post | Comentários (21)



quinta-feira, 30 de agosto 2007

Aniversário de dois anos do Katrina

(este é um artigo meu que foi publicado este mês na revista Teoria e Debate, sob o título de "Katrina e o Fracasso Ético em New Orleans"; é um pouco mais longo que um post "típico", mas pode ter interesse para quem quer acompanhar a situação em New Orleans dois anos depois do furacão Katrina)

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No histórico bairro negro do Lower Ninth Ward, situado a leste do canal de drenagem que conecta o Rio Mississippi e o imenso Lago Pontchartrain -- os dois corpos de água que limitam a cidade de New Orleans pelo sul e pelo norte --, a história do sr. J.R. não é tão original, exceto pelo extremo de tragicidade. Em 26/08/2005, sexta-feira, ouvira no rádio que o furacão Katrina poderia atingir a categoria 5, a mais alta. A desocupação da cidade era fortemente recomendada. Mas aos 65 anos de idade, sem automóvel, cartão de crédito ou dinheiro poupado, e com a esposa numa cadeira de rodas, a saída era quase impossível. O sr. J.R. decide permanecer e enfrentar a tempestade, a exemplo do que sempre fizera. Apesar de violento, o Katrina não causou maiores destruições além das esperadas quedas de árvores e fiação elétrica. Com estoques de comida e água, a família se sentia preparada. Na segunda-feira, a ruptura dos diques inundou em poucas horas essa que é umas das regiões mais baixas de New Orleans. A subida rápida da água no Lower Ninth Ward forçou J.R. a tirar a mulher da cadeira de rodas, mas mesmo seus consideráveis 1,90m não foram suficientes para evitar a tragédia. J.R. vê sua amada morrer submersa depois de escapar de seus braços. Pior de tudo, sobrevive a ela.

Só as histórias do Katrina como a de J.R. que eu, morador de New Orleans desde 1999, ouvi ou reconstruí comporiam um panorama aterrador, que um conhecedor da democracia americana contemplaria estupefato. Constatar que a caracterização do Katrina como “tragédia natural” é falsa e simplificadora não requer reviver teorias conspiratórias inspiradas na enchente de 1927 (quando, sim, dinamitou-se um dique com intenções genocidas, como demonstrado na narrativa clássica sobre essa enchente, o livro de John Barry, The Rising Tide: The Great Mississippi Flood of 1927 and How it Changed America). A inundação, destruição, diápora e confisco vividos a partir de 2005 pela população pobre de New Orleans, muito especialmente sua maioria negra, se remontam a causas que incluem o desfinanciamento federal da manutenção de diques, o descaso administrativo, o aparelhamento de cargos por trambiqueiros da turma de Bush e, depois da ruptura dos diques, uma deliberada, criminosa negligência. Não o “fenômeno natural Katrina”, mas ações e omissões humanas, políticas que o antecedem e o sucedem produzem uma diápora interna de centenas de milhares de americanos, massivo confisco de terras, quase limpeza étnica e destruição de uma das cidades mais originais do país, a New Orleans excêntrica e anti-puritana onde Bush havia amargado uma derrota por 82 x 18, a cidade multicultural, negra, francesa, caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa que o fundamentalismo religioso do Partido Republicano e o conservadorismo contemporâneo nos EUA sempre viram com uma curiosa mescla de horror e inveja. A cronologia de alguns fatos políticos coloca-o em contexto.

Em 12/01/2001, o Houston Chronicle citava uma avaliação da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) de que um furacão em New Orleans era uma das catástrofes mais prováveis nos EUA, junto com um terremoto em San Francisco e, profeticamente, um ataque terrorista a Nova York. Em 2002, o Times-Picayunne, de New Orleans, realizou uma série de reportagens mostrando o cenário de uma ruptura dos diques e concluindo que “uma grande população de residentes de baixa renda que não possuem automóvel dependeriam de um sistema de emergência pública não-testado para a desocupação”. Em março de 2003 a FEMA foi rebaixada de ministério (cabinet level) a uma mera seção no Departamento de Segurança Interna, já redesenhado em função da “guerra ao terrorismo” . As funções de preparação e planejamento da unidade federal a cargo das emergências passam para um novo escritório. A FEMA passa a ser responsável só por “resposta e recuperação”. No mesmo ano de 2003, Bush nomeia, para a chefia da FEMA, Mike Brown, cuja única experiência administrativa concluíra com renúncia forçada devido ao desastre deixado por ele na Associação Internacional de Cavalos Árabes. Brown vinha suceder Joe Allbaugh, outro sem-experiência nomeado por Bush, que deixara o cargo para criar uma firma de consultoria para empresas que fazem negócios no Iraque. No verão de 2004, coincidindo com estudos e previsões do cenário macabro em New Orleans no caso de furacão seguido de ruptura dos diques, a FEMA recusa os pedidos da cidade de financiamento para mitigar desastres.

A recusa é politicamente carregada e adquire todo o seu sentido quando lembramos que os diques de New Orleans são de responsabilidade exclusivamente federal, administrados e construídos que são pelo Corpo de Engenharia do Exército. Em 2004, o gerente da zona de inundação do condado de Jefferson, vizinha a New Orleans, Tom Rodrigue, declara: “imaginar-se-ia que receberíamos consideração máxima. Estamos mais que qualificados”. Ainda no Jefferson Parish em 2004, o chefe de gerenciamento de emergências, Walter Maestri, comentava: "move-se dinheiro para segurança interna e para a guerra no Iraque, e suponho que nós pagamos o preço”. Quando, em 25/08/ 2005, o Katrina recebeu denominação de furacão categoria 4, o plano de prevenção de catástrofes do governo Bush já havia sido reduzido ao conceito de terrorismo e à manipulação em função da guerra do Iraque. Enquanto isso, nas agências de preparação de emergências, figuras do tráfico de influência e da negociata como Mike Brown ocupavam os postos mais altos.

Depois de uma passagem relativamente tranqüila do furacão, em 29 de agosto romperam-se diques em New Orleans, especificamente no Canal Industrial e no Canal da Rua Londres. Já em 30 de agosto, entulhados num estádio sem água ou comida, 20.000 new orleanianos começam a passar pelo horror do Superdome, onde ocorre um não-determinado número de estupros, tiroteios e mortes por homicídio ou suicídio. O mundo começa a se perguntar: onde estão os helicópteros dessa tão poderosa nação, que podem ir ao Iraque e não chegam a New Orleans? Enquanto circulavam as cenas de cadáveres boiando e de massas humanas de refugiados presos na própria cidade, ninguém menos que o Secretário de Segurança Doméstica – responsável pelo ministério para dentro do qual se movera a preparação para emergências – declarava que não sabia que milhares de pessoas estavam aglomeradas sem água ou comida do lado de fora do Centro de Convenções, 72 horas depois que o fato era de conhecimento do planeta. Em 02/09, o diretor da FEMA, o trambiqueiro Mike Brown, alude à responsabilidade das vítimas, dizendo “não entender” por que as pessoas haviam ficado na cidade. Seguindo-se ao inédito fracasso assistencial do estado, Bush, de férias, solta seu famoso Brownie is doing a great job.

Ante a proliferação de saques – boa parte dos quais absolutamente justificáveis pela situação de vida ou morte em que se encontrava a população depois de alguns dias -- o Exército americano, em texto oficial, faz referência ao início das operações de combate em New Orleans, qualificando os cidadãos americanos lá presentes como a insurgência. Em 03/09, centenas de pessoas ainda eram evacuadas do Superdome, uma semana inteira depois da chegada do furacão. O mundo descobre que incontáveis vítimas, todas negras, tentaram atravessar a ponte que liga New Orleans a Gretna, os subúrbios majoritariamente brancos a oeste do Rio Mississippi, e foram mandados de volta ao inferno da inundação pela própria polícia, a ponta de revólveres e espingardas.

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Dos 500.000 habitantes da área metropolitana de New Orleans, pelo menos 200.000 ainda não haviam voltado dois anos depois, constituindo uma diáspora inédita na história dos EUA. Enquanto que antes do furacão, 67% da cidade era composta por negros, estima-se que hoje os afro-americanos não perfazem mais que 30% da população. Inicia-se um processo de confisco que inclui a fixação de limites temporais para a reconstrução (sob risco de perda de direitos), a impunidade e a autonomia para as companhias de seguros, a concentração de verbas nas mãos de empreiteiras e a composição de um comitê de reconstrução dominado pelos interesses da especulação imobiliária, da indústria dos seguros e do capital financeiro. A faixa de terra que se estende ao longo do Rio Mississippi – a parcela não-inundada do território, uptown a oeste e downtown a leste – experimenta um renascimento, com preços inflacionados e mão-de-obra latina. Na região residencial que bordeia o lago Pontchartrain, inundada mas habitada pela classe média branca, a liberação de verbas e a reconstrução seguem em velocidade muito maior à do resto da cidade. Em mid-city, região majoritariamente de classe trabalhadora, os sistemas escolar e hospitalar continuam em colapso e há regiões onde alguma vizinhança vai se recompondo, há outras em que não.

Em toda a cidade, proliferam as histórias de horror burocrático e descaso na liberação de trailers pelo governo federal ou no pagamento esperado das seguradoras. O retorno da população negra se dá em números baixos e parte dela se dá conta de que terá não só que se reergueer por conta própria, mas também enfrentar obstáculos políticos para recuperar direitos básicos. Uma das instâncias dessa luta se deu em abril e maio de 2006, nos dois turnos da eleição para prefeito, talvez a primeira da história dos EUA em que a maioria dos eleitores habilitados se encontrava fora da cidade. Tanto Mitch Landrieu, branco e de oposição, como Ray Nagin, negro e de situação (e ali reeleito), eram candidatos conservadores e pouco comprometidos com a população mais pobre. A luta que interessou se deu não tanto por uma candidatura, mas ao redor do direito mesmo de votar. Os negros terminaram sendo 55% dos 113.500 votantes e optando por Nagin em 80%. O surpreendente é que entre os brancos (44% do eleitorado) o voto em Landrieu parou nos 80%. Os cruciais 20% que teve Nagin entre os brancos se devem, em parte, a um curioso apoio de um setor dos republicanos de Louisiana que não detestam Nagin tanto quanto detestam a família Landrieu, da oligarquia democrata local. Mesmo com o fracasso durante o Katrina, Nagin se reelege. Sua figura é um contraditório compósito em que se refletem aspirações legítimas da população local, submetidas, no entanto, a um modelo capitalista selvagem, herdado da sua experiência como empresário de TV a cabo. Num contexto de descapitalização da cidade e de controle da política estadual por máfias e oligarquias, um prefeito como Nagin reduz-se a ser pouco mais que um refém. Mas não foi pequeno o poder simbólico de reeleger o negro que havia dito “poucas e boas” para Bush, e que bem ou mal esteve o tempo todo em New Orleans durante a tragédia.

A população negra, base histórica da cultura e do modo de vida new-orleanianos, se divide hoje, grosso modo, em 1) uma minoria de classes trabalhadora e média intactas, em áreas não inundadas como o Tremé, vizinho do French Quarter e mais antigo bairro negro da América do Norte; 2) uma pequena classe média em uptown, mid-city, e mesmo em áreas mais atingidas como New Orleans leste, que foram capazes de voltar à cidade e se restabelecer; 3) uma imensa massa de excluídos que, desprovidos das únicas posses que tinham (mesmo quando estas incluíam imóveis), lutam pelo direito básico de voltar para o lugar onde sempre viveram todos os seus. Ali, na tragédia dessa massa de quase duas centenas de milhares de americanos, se deixa ver o fracasso moral, ético, humano do modelo de gerenciamento da era Bush.

Hoje é possível visitar New Orleans, ater-se a algumas regiões, e passar pela cidade sem perceber os rastros do que a cidade foi vítima. Ao longo do Rio Mississippi, tanto na uptown mais moderna como na downtown histórica fervilha uma vida cultural que inclui oferta musical comparável aos níveis pré-Katrina, sempre com 20 a 40 shows dignos de nota mesmo em começo de semana. Já está restabelecida a tradição popular das secondlines, desfiles musicais ao longo da cidade no rastro de uma banda de metais (brass band), em verdadeiras tomadas rituais, festeiras, das ruas. Também há, na contrapartida da efervecência cultural, a diáspora de refugiados, o colapso dos sistemas hospitalar e escolar, a dura realidade das drogas e da violência, o confisco imobiliário contra o povo pobre da cidade, a super-exploração da nova mão-de-obra imigrante.

O pós-catástrofe de New Orleans é produto de uma interação complexa entre esses vários fatores. Se, em algum momento, temeu-se até mesmo uma “morte cultural” da cidade, a ainda pequena porcentagem de seu povo que voltou já pôde demonstrar que o medo era infundado. Se, ao longo das lutas políticas ao redor da reconstrução, chegou a cogitar-se uma cidade “parque temático”, com a museificação da cultura local numa smaller New Orleans (“menor” aqui sendo um eufemismo, no dialeto new-orleaniano de hoje, para “mais branco e menos negro”), já é visível que há forças populares dispostas a resistir, ainda que sem muita representação no corrupto sistema político de Louisiana. Quantos levarão essa batalha, e por quanto tempo, em condições de diáspora e exílio é uma variável fundamental na pugna pelo futuro da mais musical, afro-atlântica, caribenha e “brasileira” de todas as cidades norte-americanas. Que ela se dê em condições tão duras é um testemunho eloqüente de um duro golpe à democracia americana e um retumbante fracasso do modelo de estado imposto na era Bush, ancorado em traficantes de armas e de petróleo, máfias de seguros e organizações fundamentalistas, todos eles hostis, por boas razões, ao que poderíamos chamar a alma de New Orleans.



  Escrito por Idelber às 20:17 | link para este post | Comentários (20)



terça-feira, 15 de maio 2007

A Jazz Funeral for Alvin Batiste (1932-2007)

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Bendita a cidade que lembra a morte dos seus grandes com um desfile musical festivo pelas ruas. New Orleans mais uma vez se despediu a rigor de um dos seus gigantes. Alvin Batiste, um dos maiores clarinetistas da história, nos deixou no dia 06 de maio, aos 74 anos, de enfarte, horas antes do que teria sido um show consagrador com Branford Marsalis e Harry Connick Jr. no JazzFest.

Alvin Batiste redefiniu o som de New Orleans no século XX. Clarinetista de incríveis recursos, ia do dixieland mais tradicional às formas vanguardistas mais cabeludas, sem perder a pose. Incorporou toda a influência do bebop e combinou-a com o molejo inconfundível do som de New Orleans. Além de instrumentista e compositor, era um mestre, um professor nato. Dedicou-se durante décadas, na Southern University, a lecionar sua arte. Recebeu quase todos os prêmios a que pode aspirar um músico de jazz, mas percorria as escolas públicas de bairros pobres para compartilhar o que sabia. Estudaram sob Alvin Batiste o trumpetista Wynton Marsalis, os saxofonistas Branford Marsalis e Donald Harrison, o baixista Chris Severin, o pianista Henry Butler, além de centenas de outros músicos. Era amado, idolatrado na cidade. Deixou um legado de inesquecíveis gravações, mas vê-lo ao vivo era a experiência insubstituível.

Por isso, sabia-se que o Jazz Funeral que nos reuniria no úlitmo sábado, dia 12, seria um dos grandes e inesquecíveis. Já de manhã a multidão ia se aglomerando na Praça Lafayette:

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O Jazz Funeral é uma experiência incomparável, fruto da extraordinária cultura musical de New Orleans. O do último sábado, que reuniu uma multidão nas ruas para dançar e cantar em homenagem à memória de Alvin Batiste, foi um marco do renascimento da nossa cidade. Depois da cerimônia religiosa, impecavelmente vestidos, os músicos vão se aglomerando na preparação da homenagem. Desce o féretro:

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A festa é pública e todos os amantes da música são bem vindos. No Jazz Funeral de Alvin Batiste, não faltaram os ex-alunos com souvenirs inauditos da carreira do mestre:

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A música começa em tom solene, com notas graves e extensas, no ritmo conhecido como dirge. Uma porta-estandarte abre caminho, seguida por músicos engravatados e, logo depois, a multidão:

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Ao longo de vários quarteirões, a banda segue com o dirge, enquanto vamos homenageando a memória do morto com uma dança contida:

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Na chegada à histórica esquina de Rampart com Canal, a banda acelera e começa a tocar na batida das brass bands da cidade. A dança vai abandonando a contenção e cai num ritmo frenético. A partida de mais um mestre é lembrada com uma renovação do seu legado de amor à música e à cidade de New Orleans:

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Ao longo do trajeto, especialmente quando nos aproximamos do French Quarter, não faltam os indefectíveis turistas, olhando estatelados, com a cara de quem se pergunta que estranha cidade é esta, onde se celebra a morte com uma tomada ritual das ruas por uma multidão dançante.

PS. Para conhecer a obra de Alvin Batiste, gravada com muito menos freqüência do que teria sido justo, recomenda-se os CDs Bayou Magic (1993) e Late songs, words, and messages (1993).

PS 2. Fotos do post: Ana Maria Gonçalves, que teve seu primeiro Jazz Funeral. Ana também fez filmes do desfile, que eu, por incompetência, não consegui subir ao YouTube. O filminho fica para a próxima :-)



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terça-feira, 20 de março 2007

Mardi Gras Indians

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Sobre os Mardi Gras Indians, eu já disse algo aqui: é uma tradição afro-neworleaniana que rende tributo aos índios que albergaram escravos fugidios no século XIX. Rendeu incontáveis canções em formato chamada e resposta, cantadas pelas ruas de New Orleans não só no carnaval, mas em outras datas como o Super Sunday, que acabamos de festejar.

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Houve uma época em que a violência era a marca registrada dos encontros entre as “tribos” de New Orleans. Desde pelo menos os anos 1960 os chefes convencionaram levar a rivalidade para o terreno do figurino, do batuque e da cantoria.

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Já estão de volta a New Orleans, com todo fôlego, as secondlines: os inconfundíveis desfiles das brass bands, bandas de metais acompanhadas de percussão e seguidas por centenas de pessoas, numa dança que chega a atravessar a cidade. Não é raro dançar durante umas duas ou três horas e descobrir, no final, que se está a 6 ou 7 milhas do carro...

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E as secondlines deste ano em New Orleans têm presenças muito especiais :-) Mais fotinhas aqui.

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PS: Em breve, uma resenha de The God Delusion, de Richard Dawkins, que sai no Brasil pela Companhia das Letras só no segundo semestre. Terminei de ler, muito impressionado. Mas tenho críticas.



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terça-feira, 13 de fevereiro 2007

Tornado

Como até o pessoal da família já anda telefonando, preocupado, acho bom colocar uma notinha aqui no blog: sim, um tornado devastador atingiu New Orleans esta madrugada, provocando destruição considerável. Aí vai a foto de uma casa do meu bairro. Outras tantas imagens do estrago estão disponíveis no site Nola.com:

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Apesar de que tanto a casa do Alex como a minha estão localizadas bem no meio de onde passou o danado, estamos bem e não perdemos nada. Bem, acho que o Alex perdeu as janelas, mas nada grave.

Era só isso, para tranqüilizar quem escreveu ou telefonou. Obrigado. Nóis aqui é duro na queda.

PS: Em breve venço a preguiça e volto a postar no blog com mais regularidade.



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sexta-feira, 15 de setembro 2006

Uma crônica brasileira em New Orleans

Eu não sei quantos brasileiros vieram a New Orleans ajudar no trabalho de reconstrução, mas certamente são milhares. Hoje em dia, ouvir português nas ruas da cidade não é nenhuma surpresa. Em geral, eles dormem nas casas que estão desinfetando ou reconstruindo. Amontoam-se às dezenas numa mesma residência.

A maioria desembolsou de 10 a 15 mil dólares para entrar nos EUA ilegalmente. Em média, trabalham dois anos só para pagar os empréstimos feitos no Brasil. Não raro, ficam presos aos intermediários que fazem o contato com as empresas e exploram-nos de todas as formas imagináveis.

Na semana passada eu conheci o Sr. C. J., de uns 60 anos de idade. Deve ter no máximo 1,63m, mas impõe respeito pela pele calejada, por marcas de vida que traz o corpo, pelo português impecável – às vezes até excessivamente rebuscado – que fala. Pernambucano, ele chegou aos EUA há alguns anos. Morou na Flórida. Teve um tremendo desengano amoroso. Ouviu falar que havia trabalho em New Orleans. Veio.

Há quatro anos, ouvindo na internet um programa da rádio BH-FM, conheceu Maria, de Contagem, MG. Um pouco mais jovem que ele, Maria procurava um homem sério, trabalhador, honesto. Ele se apresentou. Começaram a relação. Apaixonaram-se. O Sr. C.J. conhece cada momento do cotidiano de Maria, cada gosto, cada mania.

Falam-se todos os dias pelo MSN ou pelo Skype. Maria também conhece cada recoveco da rotina do Sr. C.J: quais os melhores lugares para trabalhar, os patrões pilantras, os brasileiros que o trapacearam, as melhores receitas da cozinha créole, a cara do quartinho que ele aluga em New Orleans.

O Sr. C.J. me entrega uma cerveja gelada com aquela comovente hospitalidade nordestina. Tira um sarro com minha cara pela goleada que, na semana passada, sua equipe – o Náutico – impôs à minha – o Galo. Enquanto isso, ele me mostra as mudanças que está fazendo no quartinho para quando chegar a sua amada, Maria.

O Sr. C.J. e Maria se amam há quatro anos e nunca se viram ao vivo. Nesta semana, Maria faz uma viagem ao consulado norte-americano no Rio de Janeiro para tentar, pela terceira vez, um visto de entrada aos EUA que lhe permita vir ver seu amado.



  Escrito por Idelber às 00:40 | link para este post | Comentários (23)



terça-feira, 29 de agosto 2006

Aniversário, furacão Katrina e a hecatombe em New Orleans

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Túmulo improvisado para Vera, que morreu à míngua, na rua: talvez a imagem mais famosa do Katrina. Foto: AP.

Foram oficialmente 1.464 os new-orleanianos mortos na hecatombe que se seguiu à ruptura dos diques depois do furacão Katrina, no dia 29 de agosto de 2005. Os desalojados e refugiados são mais ou menos 250.000, e os diretamente afetados pela catástrofe são ainda mais numerosos. A "reconstrução" da cidade que se seguiu ao desastre vem combinando a forte presença do interesse de empreiteiras, uma deliberada letargia e negligência do governo e de seguradoras na assistência aos refugiados e uma visão "modernosa", "de parque de diversões" do que deverá ser a "nova New Orleans", hoje já expurgada de mais 60% da sua população negra.

Esta visão não se impõe sem resistência, claro, e já são muitas as comunidades (políticas, de bairro, etc.) que se organizam para defender seus direitos mais elementares, como o de ter postos de votação disponíveis no "exílio" ou de enviar seus filhos a uma escola pública em New Orleans. Hoje, enquanto Bush fazia sua 13a visita à cidade desde a tragédia, houve passeatas, protestos e inclusive um jazz funeral, que deixaram claro como New Orleans o vê.

Este post, que relembra o aniversário do furacão que devastou a cidade que chamo de "minha" há 7 anos, traz no final uma ampla documentação, com links a textos em inglês, sobre a metódica agressão política que ela sofreu depois do desastre natural - desastre que só foi "natural" na medida em que uma cidade à qual se negou verbas para as necessárias obras nos diques ficou "naturalmente" à mercê de um furacão da força do Katrina.

Hoje é, de alguma maneira, o aniversário da falência pública, planetariamente visível, do governo Bush - sob cujo leme os Estados Unidos da América assistiram uma de suas mais tradicionais, famosas e singulares cidades morrer à míngua, pedindo pão e água durante uma semana inteira, sem que míseros helicópteros com água fossem capazes de chegar para ajudar, talvez por estarem todos eles ocupados com a verdadeira prioridade do governo Bush, as guerras petrolíferas de rapinha no mundo árabe.

O detalhe agravante é que a cidade de New Orleans havia pedido durante anos a renovação das verbas para restauração dos diques, que só estavam preparados para defender a cidade de furacões categoria 3, numa escala que vai até 5. Não só a negligência e a falta de priorização da obra por parte do governo federal (os diques de New Orleans são responsabilidade do Corps of Engineers, órgão do exército, braço do governo federal) foram gritantes ao longo da reiteração desses pedidos, nos primeiros anos desta década; à falta de qualquer planejamento para o desastre somou-se o total descaso, negligência criminosa que ninguém aqui deixou de ler como racista, que se seguiu à enchente na cidade.

Abaixo vão duas "baterias" de links. Os primeiros são para os posts aqui do Biscoito no ano passado, quando o blog virou crônica e ponto de encontro para pessoas afetadas pela tragédia. Depois segue-se um conjunto de links a textos jornalísticos ou testemunhais sobre o processo vivido por New Orleans desde então. Quem lê inglês terá aí uma boa coleção sobre o assunto.

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30/08: New Orleans submersa.
01/09: Emergência em New Orleans.
02/09: Mais notícias da destruição.
03/09: Recados aos refugiados.
04/09: A Negligência Criminosa com New Orleans, em 10 datas.

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Documentação e análises do pós-Katrina (textos em inglês, responsabilidade pela paráfrase em português sob a qual se embute o link é minha):

A história do descaso da administração Bush (Washington Monthly).

Músicos lutam e se reorganizam para manter a cultura viva (Guardian).

Negligência e privatização do sistema educacional depois do Katrina (Salon.com)

Balanço e análise demográfica da tragédia "natural", seis meses depois. (Counterpunch)

Todo o fracasso do Corpo de Engenheiros do Exército nas palavras de seu próprio chefe
(Nola.com).

A metódica agressão a New Orleans (Commondreams.org).

O selo musical mais nobre de New Orleans luta para se manter vivo
(Bestofneworleans.com)

Terraplanando a esperança: aos pobres de New Orleans, sem casa (Counterpunch).

Professores públicos despedidos, milhões em ajuda federal canalizados para escolas particulares em New Orleans (democracynow.org).

Relatório (em pdf) baseado em entrevistas com 706 trabalhadores empregados na reconstrução. (National Immigration Law Center).

"Não foi um dos melhores momentos da América", Spike Lee fala sobre o Katrina (nola.com).

Instrumentistas e cantores, na mais rica cultura musical dos EUA, reconstróem suas vidas. (Nola.com).

A incrível história de Bernice Mosely, que tentou voltar
. (Counterpunch)

Economia de New Orleans permanece em coma. (Nola.com)

Art Neville, dos legendários Neville Brothers, tinha jurado não voltar, mas voltou (San Francisco Chronicle).

Bush volta à cena do crime (NYT)

Ex Black Panther Malik Rahim relata: "Isto é criminoso" (New America Media).

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Seria fútil tentar consolar os que perderam mais que eu, mas deixo o agradecimento a todos os que ajudaram este blog a ajudar, há exatamente um ano atrás.

Atualização: O blog Shakespeare's Sister fez o fantástico trabalho de compilar tudo quanto é post publicado sobre New Orleans neste aniversário (obrigado a Lucia Malla pela dica; obrigado também a meu amigo Ned Sublette por vários dos links incluídos neste post).



  Escrito por Idelber às 22:54 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 07 de junho 2006

Canção imperdível

Se você entende pelo menos um pouco de inglês e foi tocado pela tragédia que aconteceu conosco aqui em New Orleans, não deixe de ouvir essa canção comovente. Depois me contem.



  Escrito por Idelber às 18:04 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 14 de janeiro 2006

Fotos de New Orleans

Primeira e última leva de fotos de New Orleans que o blog publicará:

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Os códigos nas casas significam: 1) esquerda, a unidade da Guarda Nacional que a vasculhou em busca de corpos (no caso, Nebraska); 2) acima, data da busca; 3) abaixo, número de corpos encontrados (aí no caso, nenhum). Note-se que os habitantes dessa casa provavelmente escaparam (ou tentaram escapar) pelo telhado.

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Ironia: na casa destruída, uma placa de protesto contra o número excessivo de conselhos de administração dos diques; atrás, um guarda-roupa que sobreviveu.

Algumas coisas em New Orleans não mudam nunca, e o bom humor é uma delas: entre os muitos adesivos de carros comuns por aqui, havia um que dizia: New Orleans, proud to call it home. Ele acaba de ser substituído por este:

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  Escrito por Idelber às 22:17 | link para este post | Comentários (34)



quinta-feira, 12 de janeiro 2006

Notícias de New Orleans, pós-Katrina

Eu ainda não andei o suficiente pela cidade, portanto o que vai aqui são as primeiras impressões. Primeiro, um mapinha para que vocês entendam a coisa:

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Só a área ao longo do Rio Mississippi (de ambos os lados) escapou da destruição. Essa é a área a que está reduzida a vida "normal" da cidade, com energia elétrica, comércio, bancos e todo o demais funcionando com normalidade. Tulane University é essa área branquinha do lado esquerdo do mapa, na região chamada de uptown. Foi atingida, mas não da forma devastadora como as regiões inundadas pela água que vazou do lago. Muita gente duvidou, mas a universidade se reestruturou, eliminou alguns programas de pós-graduação (o nosso, em literaturas e culturas latino-americanas e ibéricas, continua firme e forte), mandou funcionários embora e está pronta para reiniciar atividades na próxima terça - tudo ainda um pouco caótico, mas o simples fato de que já vamos começar as aulas é, em si mesmo, espantoso.

No resto da cidade, a coisa é bem diferente. Toda a área próxima ao imenso lago Pontchartrain foi quase que totalmente destruída. Pouca gente de lá voltou. As pessoas que perderam suas propriedades têm direito a um trailer do governo - o drama é que elas devem estacionar os trailers no seu próprio terreno, o que significa, na maioria dos casos, viver num lugar sem luz, sem comércio, sem vizinhos e com montanhas de detritos em volta. Não surpreende que o que mais se veja hoje na cidade seja gente com trailers sem ter onde estacioná-los. Muita gente ainda não recebeu seus trailers.

Se você traçar uma linha horizontal exatamente na metade do mapa, tudo o que estiver acima dessa linha é hoje cidade-fantasma. Mas o horror mesmo é o que está ao leste da linha vermelha.

Ao leste do Industrial Canal, está o Lower Ninth Ward, berço de uma das culturas musicais mais vibrantes do planeta. O Lower Ninth tem uma peculiaridade: é um bairro de classe pobre, mas basicamente de gente que não paga aluguel - famílias negras que são donas de suas casas há gerações. Dali saíram alguns dos músicos mais brilhantes dessa genial cidade da música. Lá no Lower Ninth ainda há toque de recolher, e tudo é pura devastação. Nada indica que seus moradores poderão voltar algum dia, dada a ferocidade da especulação imobiliária que já se instalou na cidade. O bairro anda mais ou menos assim:

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Leste do Lower Ninth estão os bairros de St. Bernard Parish e Chalmette, também berços da grande cultura musical de New Orleans. Também essas áreas estão, basicamente, desaparecidas. Ao nordeste do Industrial Canal está a região chamada de New Orleans East - e também ali pouca coisa sobreviveu.

A população da área urbana de New Orleans antes do furacão era de 500.000 habitantes (1 milhão se considerarmos a "grande" New Orleans, incluindo os subúrbios). Ela está hoje reduzida a pouco mais de um quarto disso, e mesmo assim tudo (bancos, restaurantes, serviços públicos) está mais cheio, dada a tripinha de terra a que foi reduzida a cidade.

Sobre as responsabilidades da criminosa administração Bush nessa tragédia, este blog já disse o que tinha que dizer. A documentação sobre quantas vezes a cidade pediu verbas para a restauração dos diques é extensa. Obviamente, a esmagadora maioria dos que não podem voltar são os negros, o que é desastroso para a singular cultura de New Orleans. Na reconstrução, são latinos, contratados a salário de fome (e muitas vezes não pagos), os que fazem o serviço.

Claro que há sinais encorajadores. Uma padaria reabre ali, outra casa de show é reinaugurada acolá. Kermit Ruffins, o legítimo sucessor de Louis Armstrong, já está de volta com seu show de quinta à noite no Vaughn's, que vários brasileiros já conhecem - trata-se do primeiro lugar onde eu levo meus hóspedes. Não tenho idéia de como o cabra está dando esse show, porque o Vaughn's fica bem perto do Canal. Mas é para lá que eu vou quando terminar este post, para abraçá-lo. Eu temi muito pela vida de Kermit.

No French Quarter, o bairro turístico, a vida vai pouco a pouco voltando ao normal. No momento, o importante é ganhar a batalha política para q