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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 31 de janeiro 2011

Israel nunca conseguirá um acordo melhor que o que rejeitou, por Gideon Levy

Original aqui. Tradução de Paula Marcondes, revisão de Idelber Avelar.

Era uma vez um fazendeiro que queria economizar em ração. Todos os dias ele reduzia a quantidade de alimento para seu cavalo, via se funcionava e continuava cortando cada vez mais, até que o cavalo não teve nada para comer. O cavalo morreu.

Esse conto banal foi agora revivido a partir dos documentos palestinos vazados para o canal por satélite Al-Jazeera.

O fazendeiro de Israel fechou a mão e o cavalo palestino estava pronto para morrer. Um deles se salvou, o outro expirou. Os palestinos já tinham concedido a maior parte de seu mundo e a gananciosa Tzipi Livni insistia: que tal Har Homa e Maaleh Adumim?


har-homa.jpg
Bairro de Har Homa, em Jerusalém Oriental
Foto de: Emil Salman / Jini



O terror cessou, eles estão agora coordenando assassinatos seletivos para servir Israel. Vendendo suas almas ao diabo, são favoráveis ao enclausuramento de Gaza. Mahmoud Abbas explica, como um propagandista israelense, que o retorno dos refugiados destruirá o Estado de Israel. Talvez 10.000 por ano, eles ainda estão tentando--em vão. Livni não concorda.

Concederam a maioria dos assentamentos em Jerusalém, a Cidade Velha também não está mais exclusivamente em suas mãos, e nada. Betar Ilit e Modi'in Ilit são nossos e isso não é suficiente para Israel, como se o país tivesse esquecido de que as fronteiras de 1967 já são a concessão palestina.

O que mais queremos? O que mais Israel vai pedir ao cavalo moribundo, um momento antes que ele renuncie ao espírito? Um estado palestino na grande Abu Dis? Hatikva como seu hino? E o que acontecerá depois, quando o cavalo morrer? Surgirá um pônei selvagem, que nunca aceitará viver sob as condições do velho cavalo.

Nunca, mas nunca, Israel receberá um negócio melhor do que o agora revelado--e o que resultou disso? Rejeição de Israel. Rejeicionismo. Não, não, não, absolutamente não.

E sim a quê? A continuar a ocupação, perpetuando o conflito. A partir de agora, podemos dizer aos nossos filhos: Por Har Homa, vamos continuar vivendo à beira do vulcão. Essa é a verdade terrível. Os colonos subjugaram Israel. Não é difícil imaginar como teria sido possível devolver a Cisjordânia a seus proprietários se não houvesse centenas de milhares de colonos vivendo nela.

Se não fosse por essa empresa, teria havido paz. Agora que ela já está estabelecida, Israel já não é capaz de erguer-se e se desvincular de seu estrangulamento.

Gerações de diplomatas Israelenses realizaram discussões com seus homólogos palestinos, compreendendo a gravidade do momento, e até mesmo se tornando mais flexíveis, até que o medo dos colonos os captura. Nem a segurança de Israel nem o futuro do país os preocupa, só o medo da retirada, e nenhum deles consegue superá-lo.

Estão sempre perto de uma solução, à mão, e ainda assim a anos-luz de distância. Todos os proponentes da paz ao longo de gerações, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, Ehud Barak, Ehud Olmert e Livni, tiveram medo de dar o único passo que poderia trazer a paz: a evacuação dos assentamentos colonizadores.

Depois da noite em que os documentos foram divulgados pela Al-Jazeera, com Livni representada por um locutor falando Inglês com um sotaque israelense particularmente repulsivo, uma grande comoção poderia ser ter sido esperada no dia seguinte, não só nas ruas palestinas e no mundo árabe, mas também nas ruas de Israel.

E que (previsível) surpresa: os palestinos e os árabes levantaram um clamor contra as concessões de longo alcance da Autoridade Palestina, ameaçando esmagá-la de uma vez por todas, e em Israel: o silêncio.

Quem se importa com outra fatídica oportunidade perdida? Quem se importa que, por esta história dos imóveis na Cisjordânia, Maaleh Adumim e Ariel, estejamos condenados a mais vidas de guerra, perigo e ostracismo.

Quem se importa que, durante uma década, os nossos líderes descaradamente nos mentiram, nos enganaram, dizendo que não há um parceiro, que os palestinos são evasivos nas respostas, que não há nenhuma proposta palestina, e acima de tudo, que Israel quer a paz, mas não os palestinos.

Nós ansiosamente bancamos as mentiras e, agora que elas foram expostas, permanecemos apáticos. Tumultos? Protestos? Fúria dirigida àqueles que perderam a chance e enganaram a nação? Não em nosso quintal.

Agora, o cavalo irá morrer aos poucos. Uma vez dissemos que Yasser Arafat era o último obstáculo a um acordo e que, se ele fosse retirado, a paz viria. Agora seu sucessor, Mahmoud Abbas, também vai desvanecer, o líder palestino mais moderado de todos os tempos, enganado, amargo e desesperado.

Em Har Homa outro bairro será construído, no campo de refugiados de Balata outra geração surgirá, determinada a travar batalha, e nas ruas de Tel Aviv - os bons tempos vão rolar.


*************

PS: Ao longo dos posts agrupados sob a tag Palestina Ocupada, elencam-se as razões do blog para não publicar comentários sobre o tema.



  Escrito por Idelber às 17:18 | link para este post



quarta-feira, 25 de fevereiro 2009

A questão humanitária definitiva do nosso tempo

A convite de Renato Rovai e Glauco do Futepoca, eu inaugurei, neste mês de janeiro, uma coluna mensal na Revista Fórum. No momento em que revista postar cada texto no site dela, eu o colocarei aqui no blog também. A estreia é sobre a Palestina.

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Quando esta minha estreia como colunista na Fórum chegar às mãos do leitor, já estaremos em outra etapa deste ciclo da macabra escravização colonial imposta ao povo palestino. Essas “etapas” se repetem com absurda previsibilidade para quem acompanha o tema há décadas. No momento em que escrevo, faz 1 dia que opera um “cessar” das “atividades” de três semanas do exército israelense em Gaza, que deixaram mais de 1.200 palestinos mortos, 87% dos quais eram civis. Do imenso rastro de cadáveres, quase um terço são crianças. Elas constituem cerca de 50% da população de Gaza, a única do planeta a viver sob total cerco naval, terrestre e aéreo por exército estrangeiro. Evidentemente, a brutalidade do massacre deixa também centenas de milhares de seres humanos em estado de trauma irreversível.

As “etapas” são previsíveis porque as democracias ocidentais jogam o mesmo jogo hipócrita a cada ciclo dos crimes de guerra perpetrados por Israel contra o povo palestino. Neste caso, algumas datas são chave: junho de 2008 inaugura uma “trégua” com o Hamas, entendendo-se por “trégua” o que termo significa na Palestina Ocupada, ou seja, os palestinos concordam em não realizar nenhuma atividade hostil a Israel e este segue livre para manter a ocupação colonial, os assassinatos seletivos, os checkpoints, a construção do muro do Apartheid. Essa “trégua” se manteve, no entanto, durante meses, até que no dia 04 de novembro Israel invadiu a Faixa de Gaza e matou seis ou sete palestinos (há dúvida sobre o número, não sobre os assassinatos). A imprensa mundial simplesmente não noticiou. 04 de novembro? O dia em que o mundo observava os EUA elegerem seu primeiro presidente negro.

De olho em suas próprias eleições, no dia 10 de fevereiro de 2009, e na posse de Barack Obama, em 20 de janeiro, os líderes israelenses precisavam de qualquer desculpa para atacar o Hamas – ao mesmo tempo em que colocavam a culpa nos agredidos. A invasão militar seguida de assassinatos, conjugada com a manutenção do cerco militar, financeiro e comercial a Gaza, foi suficiente para provocar as respostas dos foguetes Qassam do Hamas, que não tinham sequer ferido qualquer israelense durante toda a “trégua”. Três semanas antes da posse de Obama, o exército de Israel invade Gaza e começa a perpetrar uma matança de proporções criminosas. Para quem acompanha a história dos massacres israelenses desde Shatila e Sabra (1982), não era difícil prever quanto tempo as forças de ocupação ficariam por lá.

Neste domingo, 18 de janeiro, as forças israelenses começam a sair de Gaza -- não sem antes romper o cessar-fogo decretado por elas mesmas doze horas antes -- para a posse de Obama, que assume a presidência dos EUA já com o recadinho recebido. A cada ciclo, a grande imprensa ocidental (com raras exceções: Guardian, as colunas de Robert Fisk no Independent) viaja também sobre a mesma estrada da hipocrisia. Repete boletins de imprensa de Israel como se fossem peças de jornalismo. Enfoca a guerra, mesmo quando a critica, do ponto de vista dos “objetivos” do exército ocupante, como se do outro lado não houvesse seres humanos. Pior de tudo, esquece a história do que ali vem acontecendo, tanto a história recente (digamos, os assassinatos de 04 de novembro, data real do fim da “trégua”) como a já longa história da expulsão (1948) e ocupação militar (1967) do povo palestino.

No caso das democracias ocidentais, a farsa se repete com previsibilidade ainda mais macabra. Os EUA lançam uma declaração de que “Israel tem o direito de se defender”, mesmo que o ataque seja contra um povo que não tem exército, marinha ou aeronáutica, e a proporção de mortos seja, como em Gaza, de 100 por 1. Os estados europeus “pedem” um “cessar-fogo” de “ambos os lados” e a farsa se arrasta por vários dias, enquanto os líderes árabes jogam seu tradicional empurra-empurra da impotência. O Conselho de Segurança da ONU se reúne, tenta ao máximo uma declaração neutra o suficiente que agrade aos EUA e, no final, mesmo a farsesca petição de cessar-fogo de “ambos os lados” é boicotada pelos próprios EUA. Israel continua perpetrando o crime de guerra por algumas semanas, até que unilateralmente decide que é hora de parar e voltar à guerra de baixa intensidade contra o povo palestino que é a ocupação “pura e simples.”

Na mais recente matança em Gaza, a lista de crimes de guerra cometidos por Israel incluiu: o uso de bombas de fósforo branco contra civis, a chacina dos membros de um clã numa casa à qual os havia levado o próprio exército israelense, os sistemáticos disparos contra ambulâncias, bombardeios contra universidades, a proibição da entrada de ajuda humanitária, o uso da nova, terrorífica Bomba de Metal Denso Inerte contra civis, entre outros. Mas com o completo sequestro do establishment político americano pelo lobby pró-Israel mais belicista, a inépcia da ONU e a covardia medrosa dos líderes árabes, o mundo mais uma vez – com raras exceções: Hugo Chávez, Evo Morales, o presidente turco Abdullah Gul – se calou ante essa que é mais justa das questões do nosso tempo, o direito dos palestinos viverem num estado viável e soberano em 22% das terras que historicamente foram suas.

Ao mesmo tempo em que se repetem, previsíveis, os movimentos farsescos do jogo político, os palestinos entram na quinta década de ocupação colonial. Sua história atravessa inúmeras distorções, falsificações, encobrimentos de indícios de limpeza étnica e uma massiva e poderosa campanha de propaganda do estado sionista. Da expulsão de 750.000 palestinos de suas casas, acompanhada da destruição de centenas de vilas palestinas, em 1948, o mundo durante muito tempo não soube praticamente nada. Continua sabendo pouco, apesar do trabalho incansável de historiadores como Ilan Pappé, um israelense que, pela primeira vez com fontes árabes, documentou o que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe (a hostilidade a Pappé em Israel chegou a um ponto tal que o acadêmico decidiu se mudar para Londres).

Esse já documentado, mas virtualmente desconhecido plano de limpeza étnica, levado a cabo na Palestina dos anos 40, foi durante décadas escondido com sofismas, falsificações ou distorções do tipo “não houve expulsão; os palestinos saíram voluntariamente”; “as propriedades foram compradas”; ou, a mais odiosa de todas, tratava-se de uma “terra sem povo”. Este último dogma, de papel central na mitologia que cerca a fundação de Israel, foi repetido sob diferentes formas, incluindo-se aí uma série de contorcionismos lógicos em torno do tema “o povo palestino não existe”, fórmula hoje já abandonada na desmoralização e só ressuscitada nas comarcas mais racistas.

Da realidade brutal da ocupação militar que se arrasta desde 1967 sobre as terras nas quais, segundo a lei internacional, deveria se constituir o estado palestino, o mundo também sabe muito pouco. Tanto as palavras inglesas “settler” e “settlement” como as portuguesas “colono” e “assentamento” são precários eufemismos para descrever os 450.000 grileiros fortemente armados que, à margem de toda lei e com proteção extra do exército de ocupação, vão abocanhando cada vez mais terras palestinas na Cisjordânia e aterrorizando a região com um cotidiano de agressões e violência. Segundo cálculos de Robert Fisk, sem dúvida o jornalista ocidental que mais conhece essa realidade, entre 1967 e 1982, 21.000 colonos tinham se mudado para a Cisjordânia e para Gaza. Em 1990, o total era 76.000. Em 2000, sete anos após os acordos de Oslo, o número estava em 383.000, incluindo-se os colonos da Jerusalém Oriental anexada. A incessante colonização da terra palestina é a realidade da qual todo o demais é expressão, sintoma e reação. Mas a cada agressão israelense, a mídia ocidental se esquece desse pequeno “detalhe”: as forças de ocupação já estão em território palestino há 41 anos e esse é o contexto no qual tudo acontece.

Como já assinalaram muitas vezes as organizações palestinas e israelenses de direitos humanos, historiadores como Ilan Pappé, especialistas como Norman Filkenstein e Jennifer Loewenstein, além de verdadeiras consciências da sociedade israelense como Uri Avnery, nem esse último massacre nem qualquer um dos anteriores tinha nada que ver com terrorismo, foguetes, homens-bomba ou tráfico de armas. Não tinham nada a ver com o Hamas ou com o Fatah. Tudo na política externa israelense sugere que o país já é presa, ele próprio, da lógica bélica que determina que os palestinos serão agredidos e massacrados periodicamente por razões que têm a ver com o calendário eleitoral israelense, norte-americano, ou com qualquer outra conveniência das forças de ocupação -- como a restauração do “poder de contenção do exército”, um eufemismo, como assinala Norman Filkenstein, para designar “a capacidade de Israel de semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo.”

Por isso, discutir o recente massacre do estado sionista sobre Gaza a partir de um veredito sobre o Hamas é aceitar falar da febre como ela fosse uma invenção do termômetro. Está amplamente demonstrada pela história que a atitude de Israel, ao longo da ocupação colonial, é a de destruir e desqualificar qualquer liderança política que os palestinos construam. Foi assim com a secular Organização para a Libertação da Palestina (que, durante muito tempo, foi a “terrorista” da vez, com a qual era “inaceitável” negociar) e está sendo assim com o Hamas. Essa história incluiu a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da OLP por parte de Israel, além do apoio ao próprio Hamas, nos albores do grupo islamista.

A causa palestina não é somente, por todas as suas ramificações, a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Considerando-se a carta branca que Israel tem historicamente recebido dos EUA, a monstruosa influência do lobby sionista mais bélico dentro do meio político americano e a completa incapacidade das Nações Unidas, ela é também a de mais difícil solução. Um exame detalhado do mapa da Cisjordânia, picotado por gigantescos assentamentos colonizadores e por postos policiais de controle, retalhado pelo muro do Apartheid, mostra quão longe estamos do ideal de um estado palestino viável. Sem qualquer força política que obrigue Israel a respeitar as leis internacionais – especialmente a resolução 242, de 1968, que determina o fim da ocupação do território palestino --, a tendência inercial é que a situação se arraste como está. Massacrar palestinos, desde que com a justificativa de combater o “terrorismo”, é uma fácil e eficaz plataforma eleitoral no estado sionista, onde uma minoria lúcida ainda protesta, em condições cada vez piores.

A esquerda ocidental não pode se dar ao luxo da omissão. O trabalho deve ser incessante, começando-se pelo questionamento dos termos. Não é possível continuar chamando de “conflito israelo-palestino” uma sucessão de massacres contra uma população que não tem Forças Armadas. Não é possível continuar aceitando o rótulo “terrorista” para qualificar qualquer organização da resistência palestina, enquanto o estado de Israel diariamente perpetra, contra a população civil, crimes qualificáveis como terrorismo de estado no sentido clássico. Não é aceitável consumir boletins de imprensa do exército israelense travestidos de “jornalismo” cada vez que as agências de notícias relatam um massacre como uma “operação” ou “incursão”, situando-se sempre, claro, não no lugar onde o massacre acontece, mas onde ele é planejado. Não é decente nem digno continuar repetindo mentiras como a tal “oferta generosa”, que Yasser Arafat supostamente teria recusado em Camp David, em 2000, uma miragem de criação da imprensa e dos porta-vozes israelenses, naquilo que Robert Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.

Em meio à atrocidade absoluta, o dicionário também é um campo de batalha.



  Escrito por Idelber às 23:38 | link para este post



quarta-feira, 11 de fevereiro 2009

Entrevista

Jorge Conterrâneo, André Deak e Rodrigo Savazoni me desafiaram para uma entrevista. Topei. Aí vai a transcrição.


André Deak - O seu blog é uma das melhores fontes em português sobre o que ocorre em Gaza hoje. Como se envolveu com a questão palestina?

Foi em 1982, quando Israel invadiu o Líbano. A brutalidade dos massacres sofridos por palestinos dasarmados em campos de refugiados como os de Sabra e Chatila foram o despertar inicial, simultâneo à percepção de que a imprensa e os governos ocidentais sempre tratavam a questão com luvas de pelica. Depois, li a obra de Edward Said. O contato com a cultura árabe – através de escritores como Ahdaf Soueif – veio depois. Depois ainda, veio a leitura da grande historiografia ocidental sobre a região, de Illan Pappé a Robert Fisk. O meu interesse é aguçado pela trajetória profissional: a formação do hispanista pressupõe algum estudo de Al-Andalus, período de controle árabe sobre a atual Andaluzia, onde árabes, judeus e cristãos viveram em relativa paz: um contra-exemplo cabal para os que falam de raízes "milenares"da situação de hoje.

Rodrigo Savazoni - Pelo que vi, a Faixa de Gaza é hoje uma região majoritariamente habitada por crianças e jovens (perfil demográfico da maioria das regiões pobres do planeta). É possível pedir a condenação de Israel no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e por infanticídio em massa?

A maioria dos especialistas em direito internacional concordam que há extenso fundamento para as acusações de crimes de guerra e de lesa-humanidade de Israel nos Territórios Ocupados da Palestina. É juridicamente possível, claro, mas não é factível politicamente, por causa da lei do mais forte.


AD - A versão dos fatos que parece prevalecer atualmente é a seguinte: O Hamas lançava foguetes diariamente em Israel, e para evitar que a população israelense continuasse vivendo sob o medo Israel precisou tomar uma atitude drástica, porque "o Hamas só entende a força bruta". Essa versão foi contada, de uma maneira ou de outra, por diversos oficiais e políticos israelenses e repetida diariamente nos jornais. O que realmente aconteceu?

O que o próprio Haaretz noticiou. A invasão foi preparada durante seis meses, a "trégua" se manteve de junho a 04 de novembro – entenda-se "trégua" como manutenção da prisão ao ar livre de Gaza sem reação nenhuma dos palestinos – e, nesse dia 04, dia da eleição americana, Israel invadiu Gaza e matou pelo menos seis palestinos, conseguindo o que queria, ou seja, que o Hamas lhe desse um pretexto para a matança. De olho num recadinho para Obama e nas suas próprias eleições, Israel bateu até que o Hamas reagisse com as precárias armas que tem. Dado o pretexto, entra o exército e realiza a chacina.

AD - Li também nos jornais que, quando houve a "retirada unilateral dos assentados israelenses", o Hamas levantou faixas dizendo que "três anos de Intifada são melhores do que dez anos de política". Ou seja: os ataques a Israel teriam se intensificado porque o Hamas entendeu que os foguetes deram resultado. Isso é verdade?

Houve retirada de Gaza num período em que os assentamentos colonizadores só aumentaram na Cisjordânia, que é onde eles sempre estiveram massivamente, diga-se em primeiro lugar. Mas quanto ao tipo de enunciado que você menciona, o Hamas está jogando o jogo político dele, de apresentar o Fatah, no melhor dos casos, como uma moderação fracassada ou, no pior, como traidores vendidos. A ocupação militar durante 40 anos deixou a situação tão desesperadora que a mensagem ecoa, mesmo entre os palestinos, que sempre foram – ao lado dos iraquianos, ironicamente – um dos povos mais seculares do mundo árabe. A questão que há que se responder não é por que o Hamas reagiu quando a trégua foi rompida por Israel, com invasão e assassinatos secretos. A questão que há que se explicar é por que o tão demonizado Hamas aceitou ficar meses sem lançar foguetes. É a prova cabal, de novo, de que Israel tem todas as cartas da negociação nas mãos.

Jorge Rocha - Eu considero o trabalho de pessoas como o cartunista Latuff – que você também faz questão de elogiar – como um exemplo de jornalismo. Até que ponto iniciativas como essa, e incluo nesse montante fontes de contraposição de opiniões da mídia massiva, podem influenciar certa – vá lá – opinião pública ?

Cumpre um papel importante, que talvez só seja mesmo possível avaliar retrospectivamente. A opinião pública pode mover-se mais. Há simpatia e um embrião de conhecimento disseminado da situação. Mas há ainda pouca compreensão do fato de que a única solução possível virá de pressão internacional e que, portanto, as campanhas de boicote e desinvestimento são muito importantes. Esse passo ainda é embrionário na América Latina e já é um pouco mais compreendido na Europa. Nos EUA, claro, ele é inimaginável. Aqui, o lobby pró-Israel – que, insisto, a longo prazo é um lobby anti-Israel – tem o controle completo de todo o horizonte do dizível na política.

RS - Do ponto de vista do ordenamento institucional internacional - essa coisa vaga a que chamamos política externa (e que nunca funciona quando necessário) - quais são as medidas cabíveis que a sociedade civil pode exigir?

Depende de qual sociedade civil você tenha em mente. A palestina já não pode exigir nada, porque todos os movimentos de resistência pacífica foram ignorados e / ou massacrados. A israelense – sua esmagadora maioria -- já não quer exigir nada nesse sentido, dominada que está pelo medo e pela chantagem do seu establishment político. As sociedades civis ocidentais, estas sim, devem se mexer. Intensificar as iniciativas de boicote, aprofundar os contatos com as precárias organizações da socidade civil palestina, colocar pressão em seus governos.

JR – Você foi um dos primeiros a repercutir a informação sobre o blog que a repórter da Globo, Renata Malkes, manteve entre 2000 e 2007, escrevendo sobre a "questão do Oriente Médio" - termo eufemista para barbaridades. O blog Cloaca News, que levantou o caso, apontava que era uma cobertura que visava "divulgação da propaganda sionista" e você concordou enfaticamente. Mantém essa posição ?

Quem nos dera que tivesse sido só um blog de propaganda sionista. Era muito mais: era um blog de celebração de Eretz Israel, de auê belicista e intenso racismo anti-árabe. Houve jornalista que tentou livrar a barra dizendo que os blogs tinham "linchado" o que a Renata Malkes havia escrito "quando tinha 20 anos", desonestamente omitindo o fato de que ela não completou vinte anos junto com Garrincha, mas outro dia. O próximo funcionário da grande mídia brasileira que reclamar comigo de "linchamento" nos blogs que apresente, por favor, transcrição de 10 a 15 entrevistas com membros do PT sobre o que foi ler jornais ou revistas e assistir à televisão em 2005 e 2006. Depois que os blogs prestam esse serviço público – mostrar que a pessoa que está entrando nas casas brasileiras pela televisão via concessão pública para cobrir uma ocupação colonial era, até três ou quatro anos atrás, autora de textos racistas entusiastas dessa mesma ocupação --, vem jornalista dizer que os blogs devem "pedir desculpas"? Pelo fato de que ela não "serviu" ao exército, como mui razoavelmente deduziu o Cloaca da festa feita por ela no blog por ter sido aceita na instituição? Fumou e não tragou, e daí? Informação errada? Informação errada é escrever "quando ela tinha 20 anos" querendo enganar o leitor. Pior de tudo foi a tentativa de convencer os outros de que os blogs erraram ao não "ir ouvi-la", como se se tratasse de querer saber da moça, apurar algo sobre ela, ao invés do que realmente importava, criticar um texto que está(va) na internet -- um direito de qualquer um. Neste caso, tratava-se de um lixo que só tinha relevância, evidentemente, porque havia sido escrito pela única pessoa com acesso a quase todos os televisores do país com "notícias" sobre a chacina. A Rede Globo de Televisão deve desculpas a seus telespectadores por mais essa monstruosa falta de transparência. Os funcionários da grande mídia precisam realizar um estágio com Olívio Dutra, por exemplo, sobre o que é ser massacrado incessantemente com palavras durante anos, ao invés de fazerem esses escândalos de dondocas "linchadas" toda vez que são criticados.

JR – Doze horas após ser escolhido como o candidato do Partido Democrata estadunidense, Barack Obama prometeu um apoio de 30 bilhões de dólares à Israel como assistência militar. Qual é o seu prognóstico a respeito da posição desta gestão e a cobertura midiática dessas, chamemos assim, aproximações táticas ?

Obama opera num ambiente político em que o lobby pró-Israel tem, nas mãos, praticamente todo o Congresso. Converse com qualquer deputado ou senador em off. Os relatos são assustadores. Para vencer a eleição, Obama teve que dar suas demonstrações de lealdade ao lobby. A suspensão da ajuda militar a Israel é uma bandeira que, neste momento, está além do limite do possível. A indicação de George Mitchell é muito boa. Dentro do espaço estreito em que uma solução é possível, Mitchell é um cara que tem condições de conseguir algum progresso. Mas com o estrago feito pelas sucessivas chacinas, a diuturna expansão dos assentamentos colonizadores, o desespero e a desilusão do lado palestino, as péssimas notícias das eleições israelenses e o barulho chantagista do lobby "pró-Israel" nos EUA, só um louco para ser otimista.

AD - Interesses comerciais dos EUA e de Israel, poder militar, sanções... Isso é o bastante para evitar que algum país se levante contra esse massacre?

Que algum país se levantasse militarmente contra Israel seria uma medida desesperada e provavelmente fracassada. A saída é a pressão internacional para que se produzam condições menos asfixiantes de negociação. Fora disso, não vejo nada. Quero dizer, vejo, mas é uma horrenda tragédia.

RS - Quantas crianças mais terão que morrer para que a imprensa planetária comece a relatar os fatos com a dimensão que eles têm?

Quando se alterarem as relações de força entre os vários grupos sociais que exercem pressão sobre essa imprensa. Quantas crianças palestinas morrerão até lá, não sei. Muitas, provavelmente.



  Escrito por Idelber às 03:31 | link para este post | Comentários (45)



quarta-feira, 04 de fevereiro 2009

O verdadeiro alvo, por Vladimir Safatle

O argumento do direito de auto-defesa é consistente?

O governo de Israel tem patrocinado uma larga operação militar para, segundo Shimon Perez, "dar uma lição no Hamas". Até agora, o resultado são mais de 1.000 mortos, sendo ao menos 300 crianças. Contra críticas internacionais, o governo de Israel afirma ter o direito de agir em defesa de sua integridade territorial e da segurança de seus cidadãos.

Tal segurança teria sido colocada em xeque devido a ataques com foguetes arcaicos operados pelo Hamas após uma longa trégua. Que tais ataques não tenham produzido vítimas, isto não significa que o governo de Israel não deveria lutar para evitar vítimas futuras. E, neste caso, lutar consistiria em "quebrar definitivamente a capacidade de ataque do Hamas", como disse o próprio governo.

O raciocínio todo é correto, desde que aceitemos que o direito de defesa se aplica à relação entre Israel e Palestina. No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente. Ou seja, não posso alegar direito de defesa quando reajo a ataques vindos de um território que invadi ilegalmente. Infelizmente, esta é claramente a situação em que Israel se encontra em relação à Palestina (composta, de maneira indissociável, da faixa de Gaza e da Cisjordânia).

O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel, o que lhe dá toda a legitimidade para enunciar uma lei sobre a situação), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de 40 anos.

A decisão é tão claramente aceita por instâncias internacionais que, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deverá indeferir o pedido israelense de deportação de um fanático que cometeu crimes na Cisjordânia e que veio a se esconder em nosso território, já que a jurisdição de Israel sobre os territórios ocupados não é reconhecida. Ou seja, uma situação ilegal anula a possibilidade de fazer apelo a um direito internacionalmente reconhecido.

Mas é claro que virá a pergunta: não teriam os israelenses a obrigação de assegurar seus cidadãos contra ações de um grupo vergonhosamente antissemita, que assassina civis e prega claramente a destruição do Estado de Israel ao invés de pregar apenas a defesa dos palestinos contra a ocupação? Afinal, a luta dos povos árabes contra o Estado de Israel não é uma invenção paranóica. As guerras de 1967 e de 1973 são prova maior de que toda vigilância é necessária. Ainda mais com o crescimento do caráter beligerante do dito fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas. Não estaríamos aí diante de uma situação de exceção, em que os critérios tradicionais de direito e justiça devem ser suspensos?

Aqui, vale a pena fazer duas colocações. Primeiro, o estado contínuo de guerra contra Israel desde sua fundação, em 1948, nunca foi o resultado de algum pretenso ódio milenar irracional entre árabes e judeus provocado por fanatismos religiosos, como muitas vezes se procura vender, mas de um clássico conflito territorial derivado do mais catastrófico processo de descolonização do século XX. Povos que ainda nos anos 20 viam-se como irmãos semitas foram jogados em um conflito fratricida devido a uma descolonização, operada sobretudo pela Grã-Bretanha, que prometia reiteradamente a ambos o direito sobre as mesmas terras.

De qualquer forma, essa situação há muito perdeu força, principalmente depois da antiga OLP, de Yasser Arafat, reconhecer as fronteiras de 1967. O único país que ainda está em estado de beligerância com Israel é a Síria, devido à invasão israelense das colinas de Golã. Um histórico processo de negociação iria começar agora, graças à mediação da Turquia, no qual Israel devolveria o território ocupado em troca da normalização das relações. Algo nos moldes do que ocorreu com o Egito e a península do Sinai. Mas a invasão da faixa de Gaza jogou uma verdadeira pá de cal em tudo isso.

Por outro lado, se a questão gira em torno da implementação de políticas sólidas de segurança nacional, só podemos repetir uma pergunta de Daniel Baremboim, alguém cuja grandeza de espírito só é comparável à sua inteligência musical impar: "Esta é, afinal, a maneira mais eficaz de defender-se?". A resposta é simplesmente: não.

Na verdade, não haveria maneira mais eficaz de defesa do que fazer aquilo que disse o Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente norte-americano Jimmy Carter: "negociar diretamente com o Hamas" e suspender o bloqueio a Gaza, que além de ser mais uma afronta ao direito internacional, alimenta o desespero e humilhação dos palestinos, solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico. Da mesma forma, não haveria atualmente as deploráveis bravatas antissemitas de Ahmadinejad e o perigo real do Irã transformar-se em potência nuclear descontrolada se a política mundial não tivesse enveredado pelo caminho brutal da administração Bush.

Lembremos que o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais, primeiro com Rafsanjani e depois com o reformista Kathami.

Este movimento foi quebrado em 2005 como uma das consequências do recrudescimento das tensões produzidas pela invasão no vizinho Afeganistão. O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares, e o segundo tinha. Logo, esta é a condição para a sobrevivência.


Gênese do fundamentalismo islâmico popular

Mas voltemos à idéia de que a melhor política de segurança teria sido negociar diretamente com o Hamas. De fato, ele deu claros sinais, desde que venceu as eleições legislativas de 2006, de que sentaria à mesa de negociações. O Hamas aceitou longas tréguas, como esta que terminou em 19 de dezembro.

Alguns de seus líderes, como o chefe do conselho político Kahled Mechaal, chegaram mesmo a afirmar: "Queremos um Estado nas fronteiras de 1967". Outro chegou a propor uma "trégua de cem anos". Ou seja, havia indícios de que poderia acontecer com o Hamas o que aconteceu com o IRA, na Irlanda do Norte: a transformação de um grupo armado em ator político.

De qualquer forma, é oportuno contextualizar um dos dispositivos maiores que fundamentam a recusa do governo de Israel em negociar com o Hamas: "Não é possível negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência". Sim, é verdade. Por isto, é muito difícil avançar, enquanto existir, em Israel, partidos importantes como o Likud (atualmente na frente nas pesquisas eleitorais), cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um Estado palestino. Ou seja, os palestinos também não têm seu direito a um Estado reconhecido por todos os principais atores políticos israelenses.

No entanto, durante o governo do likudista Netanyahu, Arafat negociou com um partido que, em sua carta, não reconhecia o direito a um Estado palestino à oeste do Rio Jordão. Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de "Estado", pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e autodeterminação.

Mas podemos ainda dizer, juntamente com o atual governo de Israel: "Não negociamos com terroristas". Em uma ironia maior da história, ele repete as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern.

Isto, sem falar que foi com o adjetivo de "terrorista" que Albert Einstein e Hannah Arendt trataram o futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin (carta ao "New York Times", 4 de dezembro de 1948), líder do futuro Likud, do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é o seguinte: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Por sinal, foi este o destino das relações entre o governo de Israel e os "terroristas" da OLP de Arafat.

Pode-se contra-argumentar, no entanto, que entre o Hamas e a antiga OLP há uma diferença maior. Arafat não queria criar um Estado islâmico às portas de Israel. Seu grupo era laico. Sim, é verdade, mas isto, por si só, não justifica que o conflito palestino seja visto como uma situação de exceção. Pois a pergunta que deve ser respondida é: como um grupo como o Hamas, com um programa minoritário no início dos anos 90, transformou-se hoje no partido mais popular da Palestina? Uma popularidade que irá aumentar significativamente após este conflito, tal como aconteceu com o Hizbollah.

Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular.

A quem duvida do aumento do apoio ao Hamas, convido que veja a versão inglesa do canal de TV mais assistido no mundo árabe (Al-Jazeera) e analise a maneira como seus militantes são retratados. Tudo isto demonstra que o ataque a Gaza não era justificado nem do ponto de vista do direito de defesa, nem sequer do ponto de vista da eficácia de medidas de segurança.

Neste ponto, gostaria de esclarecer minha posição. Robert Kurz, em um artigo profundamente confuso ("Folha de S. Paulo", 11/01/2008), critica o que ele chama de "esquerda pós-moderna(?)" que estaria disposta a "identificar-se com a administração autoritária da crise mundial (do capitalismo), aceitando como inevitável a guerra islâmica contra os judeus, como se ela fosse um mero flanqueamento ideológico". Como se esta tal esquerda pós-moderna defendesse o Hamas por confundi-lo com uma força dos antigos "movimentos anti-imperialistas" e misturasse isto com tendências culturalistas e relativistas. Juntar-se-ia a isto um velho neoestatismo (o fantasma clássico a assombrar a vida de Robert Kurz), que crê valer a pena pacificar as massas por meios autoritários de um Estado forte, nem que seja um Estado islâmico. Contra isto, diz Kurz, deveríamos insistir na necessidade de "aniquilamento" do Hamas e do Hizbollah.

Há tempos não se via uma análise tão fora de esquadro, pois esta esquerda pós-moderna que apoia o Hamas e flerta com neoestatismo simplesmente não existe. Talvez Kurz pense em Foucault, com seu fascínio inicial equivocado pela revolução iraniana, e acredite que os críticos atuais da invasão a Gaza partilhem um erro simétrico. No entanto, se este for de fato o esquema na mente de Kurz, só podemos dizer que ele é delirante, já que as razões de Foucault em hipótese alguma passavam por alguma espécie de neoestatismo.

De qualquer forma, podemos aproveitar a colocação de Kurz. Pois, se houver esquerdistas dispostos a admitir certa complacência ideológica perigosa com grupos como o Hamas, devemos dizer claramente: não há compromisso possível entre a esquerda e um grupo claramente antissemita e reacionário. Ao contrário, ele representa tudo aquilo contra o qual lutamos, já que foi a esquerda que elevou o antissemitismo a um dos crimes mais inaceitáveis (pensemos no papel maior de Adorno, neste sentido). No entanto, deve-se constatar que todas as tentativas de "aniquilar" militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação.

Basta lembrar que, em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%. Hoje, ela é assustadoramente alta. Quer dizer, só há uma maneira de "aniquilar" o Hamas, e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isto possa significar1.

Ninguém está aqui fazendo "vistas grossas" para os perigos do fundamentalismo islâmico, mas procurando a melhor maneira de desativar a bomba que ele representa2.

Não esqueçamos que essa recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo Ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 50, o Ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de autodeterminação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é paradigmático.

Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito -cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e "flexível" dos valores ocidentais.

Neste ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isto o que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante típico de civilizações refratárias ao nosso "choque civilizatório". Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político.


Isto é só um terço do belíssimo ensaio de Vladimir Safatle, disponível na íntegra aqui. Se quiser uma versão já pronta para imprimir, com tudo em uma página só, clique aqui. Agradeço ao leitor Rodrigo, de Goiânia, pela dica. Parte da notável produção ensaística do Prof. Vladimir Safatle, da Filosofia da USP, está disponível aqui. Amanhã a gente volta com um post de caixa aberta.



  Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post



sexta-feira, 30 de janeiro 2009

Fotos do bombardeio de fósforo branco a Gaza

As fotos abaixo nos chegam de um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro. O blog agradece a ambos.


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  Escrito por Idelber às 16:32 | link para este post




Dania e Mohamed: Um testemunho de Gaza

O texto que se segue foi enviado por Dania e assinado por ela e o marido Mohamed, artista de Gaza e professor do Departamento de Belas Artes da Universidade Al Aqsa. A tradução ao português é uma gentileza de Sofia Vialatte, a quem agradeço.


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(Dania com suas crianças em Gaza)

Bom dia,
 
 Estamos ainda vivos...até agora ao menos...depois de uma semana de estresse e horror que temos vivido durante o bombardeio contínuo sobre Gaza. Perto de nossa casa já cairam 15 mísseis, os vidros das janelas se quebraram, o chão treme, as crianças estão aterrorizadas, não ousamos sequer ir ao banheiro de medo do teto cair sobre nosssas cabeças. Depois que as operações terrestres começaram, no decimo dia houve incursões no bairro de Atatra e Solatina, à 500 m de nossa casa. Foi o inferno á noite toda. Ouvíamos as explosões tão fortes que parecia que aconteciam diante de nossa porta. Vemos fumaça  no céu cinza, durante todo o dia; nos atacam de todos os lados.

  O pior é que desde o primeiro dia estamos sem eletricidade e sem água. Até as cisternas encima do teto foram furadas pelas explosões dos Obuses. O único meio de informação que temos é o telefone e o rádio. Ouvimos historias de massacres e recebemos novidades dos amigos. Creia-me, famílias inteiras foram massacradas. O irmão do meu vizinho estava na mesquita na hora do bombardeio; seus dois irmãos, então, saíram para tentar achá-lo debaixo dos escombros, quando caiu o segundo míssel encima das cabeças dos três irmãos que se tornaram pedaços de carne; não falamos de cadáveres, mas sim de pedaços de corpos irreconhecíveis.

  Após duas noites de inferno, decidimos sair - meus sogros saíram à força - vimos tanques bombardeando á esmo e mesmo assim assumimos o risco de sair com uma bandeira branca: eu, meu marido, meus dois filhos e meus dois sogros. Graças á Deus nenhum de nós foi atingido. Na mídia se falava de uma trégua diária das 13 ás 16 horas por razões humanitárias, mas era mentira. Duas mulheres do meu bairro saíram para buscar provisões para seus filhos e foram mortas. Fomos hospedadas pela irmã do meu marido no centro da cidade de Gaza. Outras pessoas não tinham aonde ir. Nas ruas havia muitas famílias que fugiram das suas casas.... uma nova geração de refugiados.

   Duas horas depois de nossa saída do bairro, os vizinhos que ficaram nos informaram que uma bomba foi jogada no nosso teto. Três dias depois, a Cruz vermelha nos informou que havia uma trégua entre as 7 e 11 horas para que as mulheres voltassem para casa, para pegar seus pertences. As ambulâncias eram impedidas de avançar para pegar os feridos. No bairro Al Atatra, a Cruz Vermelha descobriu 4 crianças do lado da mãe morta depois de 7 dias e morrendo de fome; foram salvas no último minuto.

   Todas as portas de minha casa foram quebradas. O exército israelense vasculhou todas as casas, incluindo a nossa. Todos nossos móveis foram danificados e nossos pertences espalhados pelo chão.

   Não posso resumir estas 2 semanas em algumas linhas. Eu saí da minha casa para morar num apartamento onde há 30 pessoas refugiadas. Muitas  pessoas  que habitam a periferia se dirigiram ao centro onde havia mais segurança.

   Na verdade, não há segurança para nenhum palestino em Gaza.

   Nos disseram que o objetivo desta guerra era exterminar os membros do Hamas, mas  é um pretexto como os anteriores, para exterminar e aterrorizar o povo palestino. São mais de 900 mortos civis dos quais 275 eram crianças e 97 mulheres - algumas grávidas; 15 paramédicos e 5 jornalistas em 2 semanas.

   A mensagem é clara. Fazem pagar ao povo palestino a liberdade de expressão e o voto no Hamas.

   Para que as pessoas detestem o Hamas, não param de transmitir mensagens nos canais locais dizendo-nos que a causa de tudo é o Hamas, que nos traiu e foi irresponsável porque não tomou o cuidado de proteger-nos. É isso.

   Eu, que sempre fui contra os islamicos extremistas, não sou imbecil ao ponto de acreditar nessas mentiras! Antes do Hamas, já nos bombardeavam ou nos insultavam nas fronteiras ou nos aprisionavam dentro de Gaza e perante o mundo disseram que se retiraram de Gaza e que nos deixaram livres e que não temos do que reclamar!

   Faz dois anos que sofremos o bloqueio que nos asfixia. Eu sonho em ter o direito de viajar como todas as pessoas do mundo, de ter um país, uma nação livre; o lançamento dos foguetes é outro pretexto para convencer o mundo que os israelenses são vítimas e que têm o direito de se proteger, fabricando armas proibidas internacionalmente (bombas de fósforo). Mesmo sabendo que a maior parte dos israelenses que foram internados tinham poucos ferimentos (mais pânico do que ferimentos verdadeiros), estes foram apresentados como vítimas. Ao mesmo tempo que 1 milhão e meio de palestinos vivem aterrorizados e nos hospitais de Gaza não há meios para fazer  intervenções cirurgicas para tantos feridos verdadeiros .

Acho que não conseguiremos nos recuperar deste choque. Tenho dúvidas se depois desta guerra, caso ela acabe, teremos uma casa onde morar. Se é para morrer, prefiro a morte de todos juntos. Não quero viver para ver meus filhos massacrados na  frente dos meus olhos.
Agradeço a  todos os amigos que nos enviaram mensagens de apoio... Aprecio as manifestações que houve no mundo, a ajuda recebida, os atos de solidariedade. Mas desculpem, estou tão desesperada e  ao mesmo tempo convencida de que Israel, bem protegido, não cessará o ataque. Só quando consegue seu objetivo que é atingir os civis. A decisão de terminar as operações virá dos generais e não da pressão da comunidade internacional.

  Fora isso, temos para comer, sem preocupação com isso. Israel deixa entrar  as provisões necessarias, para provar que é humanitario. Temos problemas de falta de assistência médica, por ausência de especialistas. Só temos Unrwa e Cruz Vermelha, exercendo seu trabalho em condições precárias.

 As pessoas não perderam o espírito solidário, mas a catástrofe está em cima de todos. Cada um tem sua propria história triste; eu mesma, que estou em estado de choque e mal tenho forças para escrever para você.
 
   Assinam: Dania e Mohamed.



  Escrito por Idelber às 16:16 | link para este post



quarta-feira, 21 de janeiro 2009

Palestina, Latuff: Um Tributo

Dez anos antes de que existisse o Biscoito Fino e Massa, Latuff já sabia

Latuff_portrait_by_Latuff2.jpg

e oferecia o seu trabalho como exemplo de que

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copyleft is the way e a informação deve ser livre

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e que sobretudo nenhuma restrição se aplica às imagens que documentam

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a expulsão e posterior ocupação militar de que foi e é objeto o povo palestino,

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pois elas configuram testemunho de crime lesa-humanidade.


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Sem ter tido tempo de fazê-la antes, deixo aí a homenagem a Latuff, cartunista brasileiro genial, conhecido no mundo árabe e adorado na Palestina. Ele é uma verdadeira história da consciência sobre esta questão no Brasil.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post




In mourning

Faltou, no Biscoito, a documentação deste cúmulo. O assassinato das filhas de um médico palestino que cuida de vidas israelenses e o registro de sua reação à chacina ao vivo, na TV de Israel. Um médico palestino que fala hebraico, que perdeu tudo.


Se alguém se julga em condições morais de julgar este pai caso ele decida se converter em homem-bomba, por favor, envie cartas para a redação.



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post



segunda-feira, 19 de janeiro 2009

Um link

Palestina Ocupada no blog do João Villaverde.



  Escrito por Idelber às 14:40 | link para este post




Balanço da devastação em Gaza

Milhares de pessoas apareceram nas ruas de Gaza. Todos tentam descobrir o que aconteceu com seus parentes, casas, regiões. Documentei devastação massiva ao longo do leste, norte e oeste da Faixa de Gaza. A devastação afeta tudo o que é necessário para a vida normal. Casas, escolas, hospitais, clínicas, delegacias de polícia, instituições de caridade, universidades e ruas total ou parcialmente destruídas.

Relata Sameh Habeeb, fazendo jornalismo de verdade.

Não consigo fazer que os seus rostos me deixem, os rostos que eu vejo sempre e em todos os lugares nesta cidade tão pequena. Não posso fechar os olhos para você, Sulaiman, movendo-se levemente; estou tentando evitar olhar para o lugar onde você se colocava na entrada da cidade -- sim, posso distingui-la apesar de que o cachecol a cobre. Todos os dias às 8 em ponto eu a vejo. Não sei qual é o segredo dessa hora, mas a janela se torna meu refúgio sem que eu o queira.

Mutasharrid, estudante, perdeu vários amigos (original aqui).



  Escrito por Idelber às 14:12 | link para este post



domingo, 18 de janeiro 2009

A nova arma: Explosivo de Metal Denso Inerte

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EM GAZA, ESTÃO USANDO UM NOVO TIPO DE ARMA.

Sophie Shihab.
Le Monde 12/01/2009 e Rebelión 13/01/2009.


Nos últimos dias, as redes de televisão árabes que transmitem da Faixa de Gaza vêm mostrando feridos de um novo tipo, adultos e crianças com munhões ensangüentados no lugar das pernas. No domingo, dia 11 de janeiro, dois médicos noruegueses, os únicos ocidentais que trabalham no hospital da cidade confirmaram isso.

Os médicos Mads Gilbert e Erik Fosse, que trabalham na região há vinte anos com a ONG norueguesa Norwac, conseguiram sair do território na véspera, com 15 feridos graves pela fronteira com o Egito. Não sem ter que driblar obstáculos: "Três dias atrás, o nosso comboio, apesar de identificado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, teve que dar meia volta antes de chegar em Khan Yunis, onde os tanques atiraram em nós para nos deter", declararam aos jornalistas presentes em Al-Arish.

Dois dias depois, o comboio pôde passar, mas os médicos e o embaixador da Noruega que haviam ido recebê-los foram retidos durante toda a noite "por razões burocráticas" no posto de fronteira egípcio de Rafah, semi-aberto somente para as missões de saúde. Na mesma noite, os vidros do posto foram quebrados pelo estampido de uma das bombas lançadas nas proximidades.

"No hospital Al-Shifa de Gaza não vimos queimaduras de fósforo nem feridos por bombas de fragmentação. Mas vimos vítimas de algo que tem todas as características de um novo tipo de arma testado pelos militares estadunidenses, conhecido como Explosivo de Metal Denso Inerte (DIME, pela sigla em inglês)", declararam os médicos.

Trata-se de pequenas bombas envolvidas por carbono e uma camada de tungstênio, cobalto, níquel ou ferro cujo enorme poder de explosão se dissipa num raio de dez metros. "A dois metros corta o corpo no meio, a oito metros serra as pernas, abrasando-as como se tivessem sido atravessadas por milhares de agulhas. Não vimos corpos partidos, mas sim muitos amputados. Em 2006, houve algo parecido no sul do Líbano e vimos isso em Gaza naquele mesmo ano, durante a operação israelense 'chuva de verão'. Os experimentos com ratos têm demonstrado que as partículas que permanecem no corpo são cancerígenas", explicaram os médicos.

Um médico palestino, entrevistado no domingo por Al Jazeera, relatou sua impotência em casos como estes: "Não há nenhum rastro visível de metal no corpo, mas há estranhas hemorragias internas. Uma matéria queima os vasos sanguíneos e causa a morte. Não podemos fazer nada". Segundo a primeira equipe de médicos árabes autorizada a entrar no território ocupado, que chegou no hospital de Khan Yunes vinda do sul, entraram aí "dezenas" de casos desse tipo.

Os médicos noruegueses têm se sentido na obrigação de informar o que viram devido à ausência em Gaza de qualquer outro representante do "mundo ocidental", seja ele médico ou jornalista. "Será que esta guerra é um laboratório para os fabricantes da morte? Em pleno século vinte, é possível fechar um milhão e meio de pessoas e fazer com elas o que se quer, chamando-as de terroristas?"

A íntegra da tradução está lá no Chiapas-Palestina.

(obrigado ao Thiago pela dica).

Foto: Independent.



  Escrito por Idelber às 15:33 | link para este post




Sobre as crianças de Gaza

Como morrer de medo aos 14 anos, um impressionante texto acerca das consequências do terrorismo de estado israelense sobre as crianças de Gaza.



  Escrito por Idelber às 01:25 | link para este post




Um link

Palestine Online Store (com Kuffiyehs).

Entregam não só nos EUA e no Canadá, mas em outros países também. E aceitam PayPal.



  Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post



sábado, 17 de janeiro 2009

"Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos? ", por Eduardo Galeano

galeano.png

Este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latinoamericanas que Israel assessorou.

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou.

Leia a íntegra do artigo de Eduardo Galeano, em tradução de Katarina Peixoto, no RS Urgente (original no Brecha).



  Escrito por Idelber às 22:03 | link para este post




"Israel está criando homens-bomba". Amálgama traduz do Guardian

A convocação chegou por telefone, às 11h de um sábado. O celular de Yitzchak Ben Mocha mostrou "número não identificado", mas ele sabia. Uma voz gravada ordenava que se apresentasse à sua unidade do exército às 8h da manhã seguinte. Pôs o uniforme na mala, pensando que, dali, iria diretamente para a cadeia. Reservista israelense, 25 anos, Yitzchak saiu de casa apenas para informar a quem o recebesse que não aceitaria lutar naquela guerra, nem, em nenhum caso, participaria de qualquer ação relacionada à guerra de Gaza.

Apresentou-se e o mandaram montar barracas para os soldados em combate.

"Disse ao oficial 'Não. Não vou fazer isso.' Na manhã seguinte, mandaram-me de volta para casa. Disseram que me reconvocariam, se fosse necessário. Até agora, não convocaram. Antes, todos os 'refuseniks' passavam meses na cadeia. Depois soltavam, depois voltavam a prender, e era isso, meses a fio. Agora, mandam pra casa. Acho que o exército está dispensando quem se recusa a combater para não ter de admitir que há muitos 'refuseniks'. Seria prejudicial à imagem de que os israelenses e o exército estão unidos nessa guerra."

O exército tem informado que há tanto apoio à guerra de Gaza, que apresentaram-se mais soldados para lutar o que a imprensa local caracteriza como uma "guerra justa" do que o necessário, que muitos reservistas apresentaram-se e muitos foram dispensados, para serem reconvocados se necessário. Ben Mocha diz que isso só serve para encobrir o número cada vez maior de homens e mulheres em idade de servir o exército que se recusam a combater contra Gaza.

Uma organização de apoio aos que se recusem a combater, "Courage to Refuse", publicou manifesto em vários jornais, condenando a matança de centenas de civis palestinos e conclamando os convocados a recusar-se a combater em Gaza. "A violência brutal, sem precedentes, contra Gaza é chocante. É falsa a esperança de que tanta brutalidade trará alguma segurança aos israelenses, e é esperança perigosa. Não podemos nos manter passivos, quando centenas de civis são assassinados, na carnificina promovida pelo exército de Israel" - dizia o manifesto.

É difícil saber com segurança quantos recusaram-se a combater em Gaza, porque o exército os dispensa silenciosamente. Até hoje, só um reservista foi preso por recursar-se a combater em Gaza. No'em Levna, primeiro-tenente do exército israelense, foi posto em prisão militar por 14 dias. "Não há o que justifique matar civis inocentes", disse ele. "Nada justifica essa carnificina. É a arrogância dos israelenses, como se fosse lógica. É como se dissessem 'se os chacinarmos, ficará tudo bem'. Mas o ódio, a ira que estamos plantando em Gaza recairá sobre nós mesmos."

Ben Mocha não é militante pacifista nem é anti-Israel. Cresceu em família de judeus ortodoxos, frequentou escola religiosa e prestou serviço militar pleno numa unidade de paraquedistas de combate, considerada da elite do exército israelense.

Disse que se alistou pensando em combater "organizações terroristas". De repente, "estava matando palestinos que lutavam por independência e autodeterminação, ou espancando agricultores em protesto contra o roubo de suas terras." Também viu abusos, como soldados israelenses que mandavam mulheres e crianças entrar em casas abandonadas, para "verificar" se não estariam minadas. "Isso é usar escudos humanos" - disse.

"Não sou pacifista. Reconheço que é importante para Israel ter um exército eficiente de defesa, mas não quero mais participar de uma operação de ocupação que já tem 40 anos. Comuniquei ao exército que me apresentarei para treinamento, de modo que sempre estarei preparado para defender Israel. Mas atacar Gaza e perpetuar a ocupação não é defender Israel."

Leia a íntegra do artigo de Chris McGreal, em tradução de Caia Fittipaldi e Daniel Lopes, no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 15:29 | link para este post



sexta-feira, 16 de janeiro 2009

Axioma

Ante a barbárie absoluta, os que reclamam da "visão em branco-e-negro das coisas" são invariavelmente os dedicados a justificar, racionalizar e minimizar as chacinas.



  Escrito por Idelber às 00:04 | link para este post



quinta-feira, 15 de janeiro 2009

Um link

Os que defendem o genocídio palestino.



  Escrito por Idelber às 22:30 | link para este post




Decadência

É a decadência completa o Observatório de Imprensa publicar uma coleção esfarrapada de mentiras e sofismas como essa.



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post




Norman Filkenstein dá nome aos bois. Amálgama traduz

filkenstein.jpgOs registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na internet, na página do governo de Israel e, também, na página do seu ministério das Relações Exteriores. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsia quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinos, dia 4/11. Depois, o Hamas respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel, “o Hamas retaliou contra Israel e lançou mísseis.”

Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes, até, de haver acordo de cessar-fogo. De fato, conforme o Haaretz do dia 12, a chacina de Gaza começou a ser planejada em março de 2008.

Quanto às principais razões do massacre, acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de “capacidade de contenção do exército”, o que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo. Depois de ter sido derrotado no Líbano em julho de 2006, o exército de Israel entendeu que seria importante comunicar ao mundo que Israel ainda é capaz de assassinar, matar, mutilar e aterrorizar quem se atreva a desafiar seu poder pressuposto absoluto, acima de qualquer lei.

A segunda razão pela qual Israel atacou Gaza é culpa do Hamas: o Hamas começou a dar sinais muito claros de que deseja construir um novo acordo diplomático a respeito das fronteiras demarcadas desde junho de 1967 e jamais respeitadas por Israel.

Em outras palavras, o Hamas sinalizou que está interessado em fazer respeitar exatamente os mesmos termos e conceitos que toda a comunidade internacional respeita e que, em vez de resolver os problemas a canhão e com campanhas de mentiras por jornais e televisão, estaria interessado em construir um acordo diplomático.

Aconteceu aí o que Israel poderia designar como “uma ameaçadora ofensiva de paz chefiada pelos palestinos”. Imediatamente, para destroçar a ofensiva de paz, o governo e o exército de Israel desencadearam campanha furiosa para destroçar o Hamas.

A revista Vanity Fair publicou, em abril de 2008, em artigo assinado por David Rose, baseado, por sua vez em documentos internos dos EUA, que os EUA estavam em contato estreito com a Autoridade Palestina e o governo de Israel, organizando um golpe para derrubar o governo eleito do Hamas, e que o Hamas conseguira abortar o golpe. Isso não é objeto de discussão: esse fato é estabelecido, documentado e há provas.

A questão passou a ser, então, impedir o Hamas de governar, e ninguém governa sob bloqueio absoluto, bloqueio que desmantelou toda a atividade econômica em Gaza. Ah!, vale lembrar: o bloqueio começou antes de o Hamas chegar ao poder (eleito!). O bloqueio nada tem ou jamais teve a ver com o Hamas.

É Norman Filkenstein, bem no seu estilo, dando nome aos bois no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post




Mais um blog

Somos todos palestinos: novidades, coordenação, notícias etc.



  Escrito por Idelber às 02:18 | link para este post



quarta-feira, 14 de janeiro 2009

Glossário Macabro da Ocupação, 4: “A oferta generosa de Camp David” ou "a oportunidade perdida por Arafat"

O pensador esloveno Slavoj Žižek lembra, em um de seus livros, uma anedota contada por Freud para ilustrar a estranha lógica dos sonhos. Um sujeito empresta um bule a um amigo. Recebe de volta o bule danificado. Ante a reclamação do dono, retruca:

1. Eu jamais tomei nenhum bule seu emprestado.
2. Aliás, eu lhe devolvi o bule inteirinho!
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado!

Desmentida ponto por ponto não só pelo livro monumental de Robert Fisk, mas também por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez fontes online, cada uma delas original a seu modo, a cantilena de que Arafat rejeitou uma oferta “generosa” em Camp David, em 2000, tem a estrutura da história do bule. Ela é repetida ad nauseam não só pelos chamados “amigos de Israel” (que, a longo prazo, são seus piores inimigos, evidentemente), mas também por um jornalismo superficial, preguiçoso, mal equipado linguisticamente e disposto a fazer vista grossa ante os fatos para privilegiar os poderosos. Resumindo com minhas palavras o que o leitor encontrará nos links cedidos acima:

1.O bule nunca existiu. Para começo de conversa, há que se falar da forma. Pergunte ao jornalista que menciona a “oferta recusada” por Arafat. Pergunte-lhe onde ele a viu. Onde ela existe. Qual documento oficial está impresso com a oferta. Ninguém sabe. Feitas como ultimatos, as “ofertas” israelenses em Camp David muitas vezes nem sequer vinham por Barak, e sim na condição de “idéias” americanas sempre apresentadas como o absoluto máximo a que Israel aceitaria chegar. A oferta não existe. Ela jamais foi escrita, apresentada como documento de negociação, nada. O jornalista que fala da “oportunidade perdida por Arafat” lhe sonega essa informação, leitor, e está repetindo um press release israelense. Ignorância ou má fé?

2.Aliás, eu lhe devolvi o bule inteiro. Israel, sim, apresentou algo em Camp David e em certo sentido não é inexato dizer que ofereceu mais que jamais havia oferecido. Considerando o fato de que poucos anos antes Israel ainda desqualificava Arafat como o terrorista com quem não havia que se sentar, e os religiosos do Hamas como a força que havia que apoiar, digamos também que esse ineditismo não significava muito. Israel jamais havia oferecido o fim da ocupação, concretamente.

Qual era, pois, a tal “oferta” (que, sabemos, jamais foi tal) de Camp David? Leia o jornalismo “ponderado” e ele lhe dirá que Arafat rejeitou uma oferta de “96% da Cisjordânia, toda Gaza e Jerusalém Oriental” para um estado palestino, de forma que parece que meros 4% da Cisjordânia separavam a oferta israelense da lei internacional que exige retorno de Israel às fronteiras de 1967.

A verdade, evidentemente, está a quilômetros de distância disso. Não só jamais houve oferta, como a oferta não era essa.

Robert Fisk: Na realidade, oficiais palestinos e fontes americanas – as últimas sabiamente evitam a condenação israelense permanencendo anônimas – apontaram que o número 96% representava a porcentagem de terra sobre a qual Israel estava disposto a negociar – não 96% de toda a Cisjordânia e de Gaza.

Fora da equação ficava a Jerusalém Oriental árabe – ilegalmente anexada por Israel depois da guerra israelo-árabe de seis dias em 1967 --, o enorme cinturão de colonias judaicas, incluindo-se Male Adumim, em volta da cidade e uma zona militar de separação em volta dos territórios palestinos.

Junto a isso vinha a obrigação de alugar de volta as colônias – construídas ilegalmente de acordo com a lei internacional em terra árabe – para Israel por 25 anos, e a totalidade da terra palestina da qual Israel estava disposto a recuar chegava a somente 46% -- bem distantes dos 96% alardeados depois de Camp David.

Uau! Veja como 96% vira 46% quando você trabalha com a informação sonegada pela grande imprensa. O jornalismo servil aos poderosos esquece de lhe fornecer esse importante dado, leitor: no "cálculo" dos 96%, já estavam excluídas terras ilegalmente anexadas.

3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado! Mas a mentirada das manchetes compiladas aqui não termina nos números. A sua total perversidade só é apreciada quando você vê o mapa. De acordo com a lei internacional, o estado palestino teria que ter essa pinta aqui (com cessão de soberania à Palestina sobre Jerusalém Oriental, algum arranjo que ligue Gaza à Cisjordânia e, mais espinhosa das questões, algum direito de retorno para refugiados palestinos que respeite as preocupações demográficas de Israel):

1967.jpg




A “oferta” de Barak em Camp David, se ela tivesse existido, seria esse bule aqui:

barak-offer.jpg

Ao invés de um estado, a “oferta” – que não existiu – apresentava uma coleção de bantustões que não controlavam suas fronteiras, haviam sido separadas militarmente de seus recursos hídricos e continuavam rodeadas das hostis colonias de grilagem de terra. Ela nem tocava no tema dos refugiados e não transmitia soberania real sobre a Jerusalém árabe à Palestina.

Que país era esse, o da "oferta generosa" que Arafat "recusou", aos 44 do segundo tempo, tanto do governo de Clinton como do de Barak?

Junto com a oferta-ultimato, o governo de Barak ia aceleradamente aumentando o número de colonos em terras árabes e não dando qualquer indicação de recuo das terras ocupadas, incluindo-se aí a recusa a uma simbólica cessão de três vilas árabes de Jerusalém Oriental que o próprio Barak havia autorizado Clinton a fazer a Arafat (só para depois se recusar a cumpri-la, suscitando de Clinton o comentário de que pela primeira vez alguém havia feito dele um “falso profeta” ante um líder estrangeiro).

Nada disso quer dizer que Arafat e a equipe palestina não tenham cometido seus erros. Desconfiados de uma negociação pontuada pelas “exigências” de Barak a que Clinton “desmascarasse” Arafat, a equipe palestina – a verdade é essa – não tinha nem mapas apropriados. Negociadores preocupados com o custo político de um fracasso agiam descoordenados. Num fogo cruzado político complexo – e o povo que tiver sido expulso de suas terras, só para 20 anos depois começar a viver quatro décadas sob ocupação militar estrangeira que atire a primeira pedra --, os palestinos em Camp David foram presa fácil do que Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.

E, apesar do comentário privado de Clinton sobre ser transformado em "falso profeta" por Barak, ele não hesitou em aparecer na TV israelense culpando os palestinos pelo fracasso das "negociações". Logo depois, Ariel Sharon, o carniceiro de Shatila e Sabra, levava 1.000 soldados israelenses armados à região da Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém Oriental, um tapa na cara da população árabe e palestina. Sem nem um único movimento israelense na direção do supostamente oferecido em Camp David, com a construção de mais colonias de grilagem se acelerando, com a realidade da ocupação mantida, os palestinos começavam a segunda Intifada.

Esse foi o contexto da "generosa oferta", que nem oferta foi.

Mas o nosso servil jornalismo repete a mentira como se fosse verdade.



  Escrito por Idelber às 23:45 | link para este post




Al Jazeera traz imagens de Gaza em licença Creative Commons

A Al Jazeera criou um site que compila uma seleção de vídeos da matança israelense contra o povo de Gaza:

Os vídeos estão sob licença Creative Commons, o que permite seu uso e disseminação. Dica da Bibi.



  Escrito por Idelber às 17:35 | link para este post




Às ruas, mineiros! Quinta, dia 15/01, às 15 horas, na histórica Praça Afonso Arinos

pca-afonso-arinos.jpg (foto)

O Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino, formado por várias entidades, sindicatos, partidos políticos e personalidades, convoca:

Concentração Popular na histórica Praça Afonso Arinos, amanhã, quinta-feira, dia 15/01, às 15 horas. Para os leitores belo-horizontinos, nenhuma outra referência é necessária: Praça Afonso Arinos.

Para os leitores de outras comarcas, o Biscoito relembra: essa é a histórica praça onde incontáveis mineiros deram o sangue na peleja contra a ditadura militar.



  Escrito por Idelber às 16:16 | link para este post




Bolívia rompe relações diplomáticas com Israel

A Bolívia tinha relações diplomáticas com Israel. [Mas] considerando esses graves ataques contra ... a humanidade, a Bolívia cessará suas relações diplomáticas...

[...]

Morales disse ao corpo diplomático de seu país que o ataque de Israel ameaça seriamente a paz mundial e que o Primeiro Ministro Ehud Olmert e seu gabinete devem responder por crime.

Morales criticou o “Conselho de Insegurança” das Nações Unidas por sua resposta morna à crise e disse que a Assembléia Geral da ONU deve condenar a invasão.

A notícia é do Haaretz. Na imprensa de La Paz, até agora, só o La Razón deu uma nota. La Prensa, El Diario e La Jornada ainda não noticiaram.



  Escrito por Idelber às 16:03 | link para este post




Um trecho de Robert Fisk

fisk.jpgDe estatísticas que ele chama de damning ("condenatórias", "incriminatórias"), Robert Fisk, na mais monumental introdução jornalístico-historiográfica ao Oriente Médio recente, escreve, na página 429 (tradução minha):

Entre 1967 e 1982, meros 21.000 colonos tinham se mudado para a Cisjordânia e para Gaza. Em 1990, o total era 76.000. Em 2000, sete anos após os acordos de Oslo, o número estava em 383.000, incluindo-se os colonos da Jerusalém Oriental anexada. Em 17 de maio de 2001, René Kosimik, chefe da delegação da Cruz Vermelha Internacional a Israel e aos territórios palestinos, sentiu que era necessário lembrar o mundo que, sob a Convenção de Geneva, "a instalação de população do poder ocupante dentro dos territórios ocupados é considerada uma medida ilegal e qualifica como uma 'grave violação'... A política de assentamentos colonizadores como tal, na lei humanitária, é um crime de guerra". E mesmo assim, enquanto Arafat estava morrendo em 2004, e quando o muro de "segurança" de Israel roubava ainda mais terra árabe, a ocupação e o confisco sobre os palestinos continuava.

E, um pouco antes, na página 428:

Se não estavam se ocupando de contruir casas para israelenses em terra palestina, os israelenses se ocupavam de demolir casas palestinas. Entre a assinatura dos acordos de Oslo em 1993 e março de 1998, 629 casas palestinas foram destruídas por bulldozers israelenses, 535 na Cisjordânia e 94 em Jerusalém, mais de um terço sob o governo trabalhista e o resto sob o Likud. Outras 1.800 ordens de demolição esperavam execução. A indignação palestina ante essa tentativa de expulsá-los de Jerusalém por atacado -- em muitos casos porque Israel não emitia autorizações para os árabes que morassem lá -- só foi exacerbada pela decisão de um comitê ministerial israelense de recomendar a construção de mais 116.000 casas para colonizadores nos próximos vinte anos.

A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, de Robert Fisk, 1.111 páginas na edição original, já foi lançado em português. Os quatro primeiros capítulos da obra, em tradução, estão disponíveis em pdf na internet.



  Escrito por Idelber às 13:48 | link para este post




Ato pelo fim do massacre em Gaza, São Paulo, Sexta-feira, 16/01

blogforpalestine.pngA notícia me chega via Blog da Maria Frô:

A Frente de Defesa do Povo Palestino, que reúne mais de 50 instituições, entre centrais Sindicais, movimentos sociais e entidades árabe-brasileiras e islâmicas, além de indivíduos solidários à causa, convoca para o ato em defesa do povo palestino nesta sexta-feira, dia 16 de janeiro, em São Paulo.

A concentração será na Praça da República, a partir das 17 horas, com caminhada rumo à Praça da Sé, onde haverá um ato ecumênico, vigília e projeção de imagens do massacre.

A Frente de Defesa do Povo Palestino convida o público a trazer velas para iluminar a vígilia.


PS: Candlelight Vigil in New Orleans. Theme: "We Mourn the Victims of Gaza". Saturday, Jan. 17th, 2009, 5:30pm - 7:00pm. Begin at Rogers Memorial Chapel, by the entrance to Newcomb College (Tulane), and march to end in front of Audubon Park.



  Escrito por Idelber às 13:25 | link para este post




Para ajudar Israel, vamos dizer: não concordamos com sua política!, por Ilana Polistchuck

E por que não podemos escutar as vozes dos soldados israelenses que se recusam a lutar ou servir em territórios ocupados? Por que não podemos considerar que bombardear hospitais, casas, universidade para “caçar terroristas” é um delírio militar? Por que não podemos ficar estarrecidos como fato de o governo israelense não ter reconhecido o Hamas como representante eleito pelos palestinos e ter imposto um embargo econômico, na verdade um cerco de guerra, deixando a região sem água, sem comida, sem direitos civis, políticos, sem nada? Por que aceitamos que Israel não cumpra os acordos diante de manifestações bélicas de quinta categoria (não por isso menos letais e assassinas) do ponto de vista militar, como homens bomba e mísseis mambembes? Se fosse assim, guerras jamais terminariam.

Isto não tem nada a ver com ser ou não sionista e muito menos com preconizar o fim do Estado de Israel. Outro delírio. Invasões e ocupações estão na história, não costumam ser revistas, mas não se abafa esta história com o extermínio dos que foram desocupados ou expulsos. Lamento se palestinos reivindicam o fim do Estado de Israel, é um direito, e uma posição ideológica ou fundamentalista, uma estratégia de propaganda ou um desejo coletivo, sei lá, mas não muda os fatos estabelecidos. O Estado de Israel é um fato estabelecido. Entretanto, na verdade, quem está pondo em prática o fim do suposto Estado Palestino é Israel. De fato, com todas as cores e, o que é mais importante, com todas as armas, inclusive os bumerangues: mísseis e homens-bomba.


Vamos tentar ajudar Israel a parar com isso. Conclamo os judeus - sionistas, progressistas, religiosos, leigos, laicos, chassidim, ashkenazim, sefardim, seja lá o que forem - a não aceitarem a política de Israel. Reivindico que todos tenham o direito de dizer não. Não aceitamos a matança do povo palestino. Não aceitamos o embargo. Queremos que os acordos sejam cumpridos. Queremos que a Onu condene as ações bélicas de Israel e, agora, envie forças militares para conter o exército de Israel enlouquecido. Vamos ouvir as vozes isralenses que dizem não ao seu governo. Que elas possam chegar urgente ao poder, com nosso apoio judaico. Com certeza, um dia, quando houver respeito às deliberações da cultura palestina, os atentados de homens-bomba serão história.


Não subscrevo todos os termos que ela usa (o povo palestino jamais teve "mísseis", nem mesmo mambembes; Qassams são rojões ou, no máximo, foguetes), mas vale a pena ler o texto de Ilana Polistchuck, jornalista e médica carioca. Ela tem outro pedindo força de paz. Consta que ela enviou os textos a vários veículos de imprensa, mas nenhum quis publicá-los. Está no (ótimo) A Lenda, que também tem uma sessão de artigos traduzidos sobre a Palestina.



  Escrito por Idelber às 13:15 | link para este post



terça-feira, 13 de janeiro 2009

O que eles disseram, 1: Amos Oz

Existe um setor do ainda autointitulado "campo da paz" no espectro político de Israel -- com seu equivalente também no lobby pró-Israel de outros lugares -- que, a cada agressão militar cometida pelo país, repete com macabra previsibilidade alguns tiques. Primeiro, Israel prepara a agressão enquanto eles repetem a cantilena do que o problema na Palestina Ocupada são os "extremistas dos dois lados". As forças de ocupação agem com brutalidade inominável nos primeiros dias e eles continuam dizendo que a culpa é dos invadidos.

E a matança se prolonga por semanas, ante o silencioso observar do mundo, provando categoricamente quem é que queria guerra, e aí, só aí, o filistinismo supostamente pacificista estilo Amos Oz, que acredita que o problema são os "extremistas dos dois lados", lança uma carta dizendo que "chegou a hora de um cessar-fogo".

Fazem continhas obscenas com o número de mortos palestinos: x pode, x vezes cinco talvez seja "a hora do cessar-fogo". Já perdeu completamente o norte moral, esse escritor.

Corajosa e digna foi a escritora anglo-egípcia (e grande autoridade na história da Palestina) Ahdaf Soueif que, na FLIP de 2006, logo depois que Israel havia esmigalhado o sul do Líbano com bombas, recusou-se a participar da palhaçada que se esperava que ela cumprisse, desfilando ao lado do "pacifista" Oz que havia apoiado a guerra. Ahdaf insistiu em sua privacidade e preferiu ficar conversando com gente menos famosa mas que, talvez, estivesse mais em sintonia com o que ela sentia no momento.



  Escrito por Idelber às 22:35 | link para este post




Olmert ordenou, Rice obedeceu: Abstenção numa moção preparada por ela mesma

rice.jpg Só a tradução é do Biscoito. Quem relata é o Yahoo News:

"Ela ficou lá com a cara envergonhada. Uma resolução que ela preparou e organizou, e pela qual no fim das contas ela não votou", disse Olmert num discurso na cidade sulista de Ashkelon. O Conselho de Segurança da ONU passou uma resolução na última quinta-feira, chamando um cessar-fogo imediato no conflito de três semanas na Faixa de Gaza e uma retirada israelense de Gaza, onde centenas já foram mortos.

"Ponham o Presidente Bush no telefone", disse Olmert. "Eles disseram que ele estava no meio de um discurso na Filadélfia. Eu disse: 'não estou nem aí'. 'Quero falar com ele agora'. Ele saiu do pódio e falou comigo. Eu disse a ele que os Estados Unidos não podiam votar a favor de tal resolução. Ele imediatamente ligou para a secretária de estado e disse a ela para não votar a favor".

'Ela ficou com a cara da vergonha. Uma resolução que ela tinha preparado e rascunhado, e no final ela não votou a favor', disse Olmert num discurso na cidade sulista de Ashkelon."



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (42)




Um terço são crianças

São pelo menos 919 palestinos assassinados por Israel.

Pelo menos 284 são crianças.

Mais de 100 mulheres.

Pelo menos 4.260 feridos.

Sem contar, evidentemente, as centenas de milhares de crianças irreversivelmente traumatizadas. Aqui, neste cantinho da internet, contaremos até o último morto.



  Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post




Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama (de novo em português)

De forma independente d'O Biscoito Fino e a Massa, um blog português havia publicado também uma bela tradução da carta aberta de Avnery a Obama.

(via de-grau).



  Escrito por Idelber às 03:13 | link para este post



segunda-feira, 12 de janeiro 2009

Entrevista com uma jovem palestina

O que se segue é a tradução de uma conversa minha com B., 19 anos, palestina, residente em Jerusalém Oriental e estudante em Nablus (Palestina Ocupada). Tanto a publicação da conversa como a proteção à identidade de B. são feitas com sua autorização. A conversa aconteceu em inglês.

B.
Oi

Idelber
Oi, Salam.

B.
Como vai?

I.
Com raiva, e você? Você está na Cisjordânia?

B.
Estou em Jerusalém.

I.
Você sabe me dizer se a Mesquita de Al Aqsa foi cercada pelo exército de ocupação? Ouvi esse relato dos meus amigos palestinos.

B.
Sim, é o que vejo quando visito. É péssimo. Péssimo.

I.
Vai aí meu coração para você e para todos os palestinos. Tenho tentado fazer o que posso no meu blog. Aqui vai o link. Está em português, mas há imagens. E vídeos e links em inglês.

I.
Algumas pessoas no Brasil estão acompanhando por lá. Vocês não estão sozinhos, pelo menos em espírito.

B.
Sim, sim, que Deus o abençoe.

B.
Você é de que país?

I.
Sou brasileiro, mas divido a moradia entre os EUA e o Brasil.

B.
Uau, bacana. Muito bacana.

I.
Puxa, você só tem 19 anos.

B.
Muito prazer de te conhecer, de verdade. Sim. Rs

I.
Eu espero que você herde um mundo melhor. Estamos meio desesperados, fazendo o que podemos.

B.
Obrigado mesmo. Qual sua profissão?

I.
Sou professor de literatura.

I.
As coisas estão piores nestas duas semanas para os palestinos de Jerusalém? Em termos de ocupação mais brutal? Devem estar meio nervosos em Jerusalém Oriental.

B.
Sim, e estamos só rezando para as pessoas de Gaza.

I.
Que você e sua família sejam abençoadas, B. Vocês não estão sozinhos.

B.
Sim, só desejo que as pessoas pelo mundo estejam com Gaza para parar a guerra.

I.
Você estuda em Jerusalém?

B.
Sim, estou na universidade.

B
Não, eu moro em Jerusalém mas estudo em Nablus. .
Estudando farmácia.

I.
Legal, meus parabéns.

B.
Obrigado.

I.
Você tem que passar por postos policiais da ocupação para chegar à escola?

B.
Sim, três barreiras.

I.
TRÊS????????????

B.
Tenho um lugar para ficar em Nablus. Volto a Jerusalém toda semana.

I.
Três checkpoints entre Nablus e sua casa em Jerusalém?

B.
Sim, é isso.


I.
Uau. Às vezes deve demorar, suponho.

B.
Só no caminho de volta para casa.


I.
O que mais nós podemos fazer no Ocidente além de escrever, protestar, disseminar informação e organizar boicotes?

B.
aumentar conscientização do mundo sobre o que Israel está fazendo.

I.

Sim, é o que tentamos fazer. Mas confesso que a sensação de impotência é foda: 41 anos e nada muda.

B.
Sim, para que o mundo decida quem tem a culpa.

I.
Escute, posso traduzir esta conversa ao português e colocar no meu blog, PROTEGENDO E OMITINDO O SEU NOME, chamando você só de B.?

B.
Mesmo?


I.
Se você não quiser, não tem problema. Não o farei sem sua permissão.

B.
Não! Eu quero, sim. É bacana da sua parte.

I.
OK, eu vou traduzir deixo o link para você como mensagem pessoal.
I.
Você teve aula na universidade nos últimos dias?

B.
Agora estamos de férias.

I.
Você tem ido à Mesquita Al Aqsa?

B.
Sim, dá para ir.

I.
Está cercada?

B.
Sim, há guardas em volta e na porta.

I.
Quando começam suas aulas de novo?

B.
24-1-09

I.
Espero que as coisas estejam pelo menos mais calmas então. Vocês merecem paz na sua terra.

B.
Sim, é terra sagrada e deveria ser respeitada.

I.
Que você tenha vida longa e em paz, B. Você merece.

B.
Obrigado mesmo, de verdade.

I.
Vou colocar a conversa no blog e lhe aviso.

I.
Que a paz esteja com você, B.

B.
Muito, muito legal te conhecer. Que Deus te abençoe.

I.
O prazer é meu. Vamos manter o contato.

B.
Você tem filhos?

I.
Tenho dois, que moram no Brasil.

I.
O que mata qualquer pai é ver as cenas das crianças em Gaza.

B.
Sim, morte desumana.

I.
Com cumplicidade dos líderes americanos e europeus. Esta foto me partiu o coração. Nenhuma família deveria ter que agitar lenços brancos em frente de um tanque de guerra.


B.
Só o presidente da Turquia disse algo forte.

I.
Sim, um país não-árabe. A verdade é que os líderes árabes deixaram vocês sozinhos.

I.
É uma tragédia, porque os EUA concordam com qualquer coisa que faça Israel. Esperemos que algo mude com Obama. É uma possibilidade pequena, mas existe.

B.
Sim, meus conhecidos na América votaram nele.

I.
Ele teve simpatias pela causa palestina no começo. Mas o establishment de Washington é muito pró-Israel. Ele terá que ter cuidado.

B.
Eu espero que Deus o ilumine.

B.
Estou tentando aprender espanhol.

I.
Uau, ¡qué bueno! É uma língua fácil. São só 5 sons de vogais.

B.
Sim, tenho um monte de livros para aprender.

I.
O seu inglês é muito, muito bom. Como você aprendeu?


B.
Na escola, por mim mesma.

I.
Você escreve muito bem. Quero lhe mandar um livro meu. Você pode me mandar seu endereço por email ?

B.
Sim, mesmo? Muito obrigado. Adoro ler!

I.
Sim, me mande seu endereço de casa, ou da universidade, se preferir, por email, e eu lhe mando um exemplar.

B.
Pra cá?

I.
Sim, claro. Eu já mandei exemplares para amigos palestinos antes. É um livro sobre a violência.


I
Entendi. Você prefere que eu mande os arquivos eletrônicos do livro, por email?

B.
Sim, por email é melhor.

I.
Entendo.

B.
Eu não tenho correio normal.

I.
Você mora perto de colonos?

B.
Sim, colonos por toda parte. Entre nós.

I.
Violentos.

B.
Sim.

I.
Eu mando por email, sem problemas.

B.
Obrigado!

I.
Salam.

B.
Salam.



  Escrito por Idelber às 22:45 | link para este post




O escolasticídio em Gaza

Uma nova palavra emergiu da carnificina em Gaza: “escolasticídio” -- a sistemática destruição, realizada pelas forças israelenses, dos centros de educação queridos à sociedade palestina. O Ministério da Educação foi bombardeado, a infraestrutura do magistério destruída e as escolas em toda a Faixa de Gaza foram alvo de ataques aéreos, terrestres e marítimos.

“Aprenda, baby, aprenda” foi um lema do movimento de direitos civis dos negros nos guetos da América, uma geração atrás, mas ele também emblematiza a idéia de educação como pilar central da identidade palestina –- uma recompensa tradicional para o estudo, que é endurecida pela ocupação, algo que os israelenses “não toleram e tentam destruir”, de acordo com a Dra. Karma Nabulsi, que leciona política em St. Edmund Hall, Oxford. “Já sabíamos antes, e vemos mais claramente que nunca agora, que Israel está tentando aniquilar o palestino instruído”, diz ela.

Os palestinos estão entre os povos de mais instrução no mundo. Ao longo de décadas, a sociedade palestina – na Cisjordânia e em Gaza e esparramada pela diáspora – tem enfatizado singularmente o aprendizado. Depois das expulsões de 1948 e da ocupação de 1967, ondas de refugiados criaram uma intelligentsia palestina influente e uma presença marcante nas disciplinas de medicina e de engenharia no mundo árabe, na Europa e nas Américas.


Com a paciência obsessiva dos enlutados, vamos documentando os crimes de guerra, um por um. Dos mais perversos, sem dúvida, é o escolasticídio, a deliberada destruição das estruturas educacionais que a sociedade de Gaza, precária, mas competentemente, havia construído.



  Escrito por Idelber às 18:14 | link para este post




Visionário, Gilles Deleuze previu muito em 1978

Deleuze.jpg No dia 07 de abril de 1978, no Le Monde, o filósofo Gilles Deleuze profeticamente escrevia:

Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.
[...]
Desde 1969, Israel bombardeia sem descanso o sul do Líbano. Israel já disse, claramente, que a recente invasão do Líbano não foi ato de retaliação pelo ataque terrorista em Telavive (11 terroristas contra 30 mil soldados); de fato, a invasão do Líbano é o ponto culminante de um plano, mais uma, numa sequência de operações a serem iniciadas como e quanto Israel decida iniciá-las. Para uma “solução final” para a questão palestina, Israel conta com a cumplicidade quase irrestrita de outros Estados (com diferentes nuances e diferentes restrições).

Um povo sem terra e sem Estado, como o palestino, é como uma espécie de leme, que dá a direção em que andará a paz de todos que se envolvam em suas questões. Se tivessem recebido auxílio econômico e militar, ainda assim teria sido em vão. Os palestinos sabem o que dizem, quando dizem que estão sós.
[...]
Essa população do sul do Líbano, em exílio perpétuo, indo e vindo sob ataque militar dos israelenses, não vê diferença alguma entre os ataques de Israel e atos de terrorismo. Os últimos ataques tiraram 200 mil pessoas de suas casas. Agora, esses refugiados vagam pelas estradas.

O Estado de Israel está usando, no sul do Líbano, o método que já se provou tão eficaz na Galileia e em outros lugares, em 1948: Israel está “palestinizando” o sul do Líbano.
A maioria dos militantes palestinos nasceram dessa população de refugiados. E Israel pensa que derrotará esses militantes criando mais refugiados e, portanto, com certeza, criando mais terroristas.
[...]
O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa.

A cooperação internacional entre vários Estados e a organização planetária dos procedimentos da polícia e dos bandidos necessariamente levará a um tipo de classificação que cada vez mais incluirá pessoas que serão consideradas “terroristas”. Aconteceu já na Guerra Civil espanhola, quando a Espanha serviu como laboratório experimental para um futuro ainda mais terrível que o passado do qual nascera.

Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países.

Há marcada continuidade nas políticas de Israel. Israel crê que as resoluções da ONU, que condenam Israel verbalmente, são autorizações para invadir. Israel converteu a resolução que o mandava sair dos territórios ocupados em direito de construir colônias!
[...]
Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram.


Sublinhamos: São palavras publicadas numa época em que Atlético-MG e São Paulo tinham o mesmo número de títulos do Campeonato Brasileiro: abril de 1978. Ou, dito em outras palavras, 23 anos, 5 meses e 4 dias antes dos atentados terroristas da Al Qaeda nos EUA, que nos levam a outra etapa deste inferno -- também prevista, aliás, por Deleuze. Em 1978, a ocupação ilegal dos territórios palestinos completava sua primeira década. Hoje, já são mais de quatro: a mais longa ocupação colonial da era moderna. Deleuze foi um dos primeiros, no Ocidente, a alertar. A íntegra do texto está publicada no Amálgama, em tradução de Caia Fittipaldi. Há uma versão em inglês aqui.



  Escrito por Idelber às 17:18 | link para este post




Mais uma imagem do nosso tempo

Que jamais, jamais se esqueça esta imagem:

DSC04283.JPG


Esta fotografia, conhecida dos historiadores, mostra o porto de Haifa em 31 de janeiro de 1949, em que uma multidão se reuniu para dar as boas vindas a 1.500 refugiados judeus que chegavam.

O Biscoito Fino e a Massa entende que nenhuma lei de copyright se aplica à história das imagens da catástrofe imposta ao povo palestino, pois elas configuram documento de crime lesa-humanidade. Em todo caso, esta foto foi retirada do monumental livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine.



  Escrito por Idelber às 04:42 | link para este post




Jerusalem Post lies

O jornal Jerusalem Post é um porta-voz da ocupação e do genocídio. O Biscoito já documentou amplamente o uso israelense de armas de fósforo contra civis palestinos.



  Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post




Um número

São aproximadamente 800.000 crianças em Gaza. Dessas, algumas centenas já foram assassinadas, no que a imprensa ainda continua chamando o "conflito entre Israel e o Hamas".

gaza14.jpg


Sobre o trauma indescritível que a aviação israelense está perpetrando contra as centenas de milhares de crianças de Gaza, talvez o grande psicanalista e ficcionista Sérgio Telles, autor de deliciosos livros que já li, possa um dia escrever algo.

Aqui, neste cantinho da internet, o número não passou batido: do milhão e meio de seres humanos sob bombardeio e cerco total, 800 mil são crianças.



  Escrito por Idelber às 03:19 | link para este post




Mohammed Fares Al Majdalawi escreve de lá: Gaza está afundando num rio de sangue

gaza13.jpg Quero escrever sobre o sofrimento do meu povo e da minha família nestes dias de cerco contra a população de Gaza. Pelo menos 888 pessoas já foram assassinadas e mais de 3.700 feridas. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acusou o exército israelense de repetidamente recusar entrada a ambulâncias na região de Al Zeitoun na Cidade de Gaza. Como consequência, os feridos logo passam a ser os mortos, uma violação premeditada e deliberada dos direitos humanos.

Em minha casa já não temos as necessidades básicas. Não há comida. Pão. Ou combustível. Ou futuro. Ontem, meu pai foi à padaria às 5 da manhã. Esperou 5 horas para conseguir um pedaço de pão, que não é suficiente para minha família, porque somos 11. Hoje foi minha vez. Fui a todas as padarias -- fechadas.

Não temos para onde ir. Não podemos nos comunicar com nossos amigos ou parentes -- todas as comunicações já caíram, enquanto despejam mísseis nas nossas casas, mesquitas e até hospitais.

Na única faixa de terra do planeta onde uma população sofre cerco aéreo, naval e terrestre de um exército estrangeiro, além de bombardeio cerrado incessante durante vários dias, Mohammed Fares Al Majdalawi descreve o horror.

A foto é de Wissam Nassar, está no Mean Images, e mostra o luto no Hospital Al Shifa, na Cidade de Gaza.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post




Valeu, São Paulo

redSolidariedade_Palestina_11-01-09_245.jpg


do Blog do Bourdoukan.



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post



domingo, 11 de janeiro 2009

Glossário Macabro da Ocupação, 3: “Terrorista”

1. A palavra “terror” entra na língua como designação de um ato político justo ali no momento de fundação da democracia moderna. Houaiss, “terror”, acepção 6: nome por que se designa o período da Revolução Francesa compreendido entre 31 de maio de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (queda de Robespierre). Este é o primeiro tapa que os fatos dão na cara do argumento que implícita ou explicitamente associa o “terrorismo” aos árabes: o “terror” não é o oposto da democracia, não é antônimo de “liberalismo”, não é o contrário nem o antagonista do Ocidente. O terror nasce ali, juntinho com a democracia. É seu irmão ou primo – ou “brimo”, como diria alguma jornalista.

2. Já “terrorista” é termo mais recente – entrada na língua em 1836, para o substantivo, e 1881, para o adjetivo, segundo Houaiss. Ganha circulação mesmo com grupos como o Narodnaya Volya, na Rússia, jovens que tinham plataforma de democracia radical mas que começaram a recorrer a táticas como o assassinato seletivo (o mais famoso o do Czar Alexandre II, em 1881). Sobre eles, Dostoiévski escreveu um grande romance, em que o genial prosador conservador-russófilo alertava para os perigos do “niilismo”. Mas quem os derrotou politicamente foi o bolchevismo, que sempre criticou os métodos do populismo Narodnaya. Foi quem os botou para correr da Rússia: segundo tapa na cara que os fatos dão nos argumentos dos que associam as lutas de esquerda, populares e/ ou nacionais de libertação, ao “terrorismo”.

3. Até a primeira metade do século XX, o terrorismo entendido como atentado em massa a vidas de civis inocentes não era parte do jogo político na Palestina histórica. Ele chega ali com Haganah, Irgún e o grupo Stern, todas elas organizações sionistas cuja atividade principal eram atos de terrorismo no sentido estrito definido acima. No entanto, na Wikipédia você encontrará os Narodnaya russos definidos como “terroristas”, enquanto as organizações sionistas terroristas que cumpriram papel central na fundação de Israel são listadas com os eufemismos "grupo militante" ou, no "melhor" dos casos, “grupo paramilitar”. Experimente questionar essa distinção por lá e você terá uma aula sobre como funciona a Wikipédia -- e também sobre como funciona o lobby pró-Israel na internet.

4. Haganah comete os primeiros atentados terroristas contra árabes na Palestina já nos anos 20, quando ainda não havia nascido o pai do primeiro homem-bomba palestino. As organizações sionistas cometem amplos crimes definíveis como terroristas ao longo dos anos 40, caminho histórico pelo qual se fundou o estado de Israel – muito, muito antes de que nascesse o primeiro homem-bomba palestino.

5. No entanto, o estado de Israel – que ao longo de sua existência e, especialmente, desde 1967, comete crimes definíveis como terrorismo de estado contra os palestinos – usa e abusa do termo “terrorista” para caracterizar quaisquer interlocutores que construa a nação palestina como seus representantes. Tudo isso ao mesmo tempo em que, oficialmente, se recusa a reconhecer o papel do terrorismo em sua fundação, já demonstrado amplamente pela historiografia.

6. O Hamas, organização militante, assistencialista, militar, que combina islamismo com nacionalismo palestino, destina boa parte de seu orçamento à assistência social e à educação – e também é responsável, desde os anos 90, por atentados contra civis israelenses definíveis como atos de terrorismo no sentido estrito. O Hamas somente passou a ser organização majoritária em Gaza depois de décadas e décadas de ocupação militar estrangeira em territórios palestinos, incluindo-se aí uma história curiosa que inclui a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da secular Organização para Libertação da Palestina por parte de Israel. Essa atividade incluiu, diga-se, apoio ao próprio Hamas, por parte de Israel, nos albores do grupo islamista.

7. Os poderosos há tempos utilizam o rótulo de “terrorismo” para desqualificar as lutas populares. Ao longo da colaboração dos EUA com o regime segregacionista da África do Sul, o Congresso Nacional Africano e seu líder principal, Nelson Mandela, eram caracterizados como “terroristas”. Aliás – mais um tapa na cara que os fatos dão no filistinismo – ainda em 2008, catorze anos inteiros depois do fim do Apartheid, nove anos inteiros depois que Mandela havia concluído sua presidência na África do Sul, os EUA ainda o catalogavam como terrorista, coisa que ninguém menos que Condoleeza Rice definiu como “embaraçosa”.

8. Se é certo que há tempos o rótulo de “terrorista” é manipulado pelos poderosos, essa manipulação chegou ao auge depois de 2001, quando Bush e cia., incluindo-se aqui o estado sionista, sem dúvida, transformaram o termo em sinônimo de quem-quer-que-seja-que-eu-defina-agora-como-inimigo-no-mundo-árabe-ou-muçulmano. A definição de "terrorismo" do estado americano, bem razoável e próxima dos dicionários -- violência premeditada e politicamente motivada perpetrada contra alvos não combatentes -- convenientemente acrescenta a expressão realizada por grupos subnacionais ou agentes clandestinos, de forma que nenhum ato de Israel é listado.

9. Ao longo dessa história, o estado de Israel continuou a cometer sistematicamente, contra os palestinos que vivem sob ocupação, uma série de atos definíveis como terrorismo de estado no sentido estrito, incluindo-se: o assassinato seletivo, a tortura, a demolição de casas, o bombardeio indiscriminado, a punição coletiva, a colonização, roubo, cerco e monopólio de terras por colonos fortemente armados, a picotagem do território palestino com postos policiais de controle de alta truculência, etc. Todos esses atos começaram e se mantiveram muito antes de que nascesse ou operasse o primeiro homem-bomba palestino e continuaram independentemente de qualquer frequência em atentados suicidas contra civis israelenses.

São algumas entre as muitas provas incontestes de que a raiz do problema na Palestina Ocupada é o terrorismo de estado que promove a ocupação militar, à qual o terrorismo do homem-bomba desesperado é uma entre várias reações.

Apesar de tudo isso, são os palestinos e árabes, em geral, que são associados ao “terrorismo”, explícita ou implicitamente. O cinismo chega ao ponto da capa da Veja dizer que entre os mortos de Gaza “há culpados e inocentes”. Como se não coubesse perguntar se alguém ali pode ser culpado sem ter tido direito a um julgamento. Como se não coubesse perguntar pela culpa que realmente importa, a dos autores do massacre.

"Terrorista" é dos itens mais obscenos do glossário macabro da ocupação.



  Escrito por Idelber às 20:44 | link para este post




Vozes da maioria silenciada

Im-per-dí-vel documentário. Reserve 90 minutos. Está legendado em português.


Dica do leitor Thiago P., a quem agradeço.



  Escrito por Idelber às 14:34 | link para este post




Boicote Israel: Centenas de israelenses se juntam à campanha de incontáveis entidades pelo mundo

naomiklein.jpgJá é hora. Já passou da hora há tempos. A melhor estratégia para acabar com a ocupação crescentemente sangrenta é fazer de Israel o alvo de um movimento global do tipo do que pôs fim ao apartheid na África do Sul. Em Julho de 2005, uma ampla coalizão de grupos palestinos estabeleceu planos para fazer isso. Convidaram “as pessoas de consciência em todo o mundo para impor amplos boicotes e implementar iniciativas de desinvestimento contra Israel, semelhantes àquelas aplicadas à África do Sul na era do apartheid.” Nascia a campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções.

Cada dia que Israel massacra Gaza converte mais gente para a causa BDS – até mesmo entre judeus israelenses. Em meios aos ataques, por volta de 500 israelenses, dúzias dos quais são acadêmicos e artistas conhecidos, enviaram uma carta aos embaixadores estrangeiros em Israel. Ela conclama a “adoção de sanções e medidas restritivas imediatas” e estabelece um claro paralelo com a luta anti-apartheid. “O boicote à África do Sul funcionou, mas com a Israel a regra é luvas de pelica . . . Esse apoio internacional tem que acabar.”

É a reconhecida intelectual Naomi Klein pronunciando-se a favor do boicote
. A campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções é apoiada por incontáveis associações – incluindo-se blogs brasileiros como o RS Urgente, o Reinventando Santa Maria e o Biscoito, que o convida, blogueiro, a informar-se sobre o boicote a Israel e repercuti-lo no seu blog.

Mini-FAQ sobre a campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções a Israel:

1. Trata-se de uma campanha contra o povo judeu? Absolutamente não. Incontáveis judeus, dentro e fora de Israel (quantos mais precisamos citar? Que tal essas bravíssimas oito judias canadenses?), participam da campanha em favor de sanções a Israel como forma de forçar o país a respeitar tanto a lei internacional como os padrões humanitários.

2. A campanha afirma que Israel é igual à África do Sul do apartheid? Absolutamente não. Não existem dois momentos históricos política ou moralmente idênticos. A campanha simplesmente mostra como pode ser bem sucedido um movimento pacífico de desinvestimento contra uma nação que se recusa a respeitar a lei internacional e os padrões humanitários.

3. Há paralelos e diferenças entre as situações dos negros sul-africanos na época do apartheid e dos palestinos sob ocupação? É evidente. Diferenças? Os ônibus na África do Sul eram segregados, mas eles viajavam nas mesmas estradas. A Ocupação israelense inventa essa infinitamente perversa maquininha-apartheid: as estradas segregadas. Ao fim e ao cabo, são incontáveis as personalidades sul-africanas que já testemunharam que a situação dos palestinos sob ocupação é pior. Esses incontáveis incluem um certo homem chamado Desmond Tutu, que vem conclamando ao boicote há tempos. Trata-se de um testemunho corroborado por relatório das Nações Unidas.

4.O boicote vai funcionar? Só responde essa pergunta categoricamente quem está disposto a fazer futurologia, mas o fato é que ante o completo sequestro do establishment político americano pelo lobby pró-Israel mais belicista, a inépcia das Nações Unidas e a covardia medrosa dos líderes árabes, é impossível abrir mão dos instrumentos de luta que restam.

Todo o apoio à campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções.



  Escrito por Idelber às 14:03 | link para este post



sábado, 10 de janeiro 2009

Dr. Ehab não está mais lá

office.jpg



Já são mais de 800 os palestinos mortos pela chacina israelense. Desumanizados, sempre suspeitos de “terrorismo” -- outra palavrinha que esmiuçarei em breve no Glossário Macabro --, os mortos palestinos com muito pouca frequência tem um rosto. O Biscoito inicia agora uma breve série que dá rosto e nome a essas vítimas.

Dr. Ehab era dermatólogo e seu filho ainda está no ventre da mulher amada. Ele se formou numa Universidade na Ucrânia. Amado, querido em Gaza. A dermatologia é uma área importante em Gaza, dada a crueldade das armas que Israel tem usado contra essa população, que é a única do planeta a viver sob um bloqueio terrestre, naval e aéreo completo de um exército ocupante (não só de suas fronteiras, mas de seus outros irmãos palestinos).

ehab.jpg

"A pena mais amarga", diz Nancy, grávida, "é que meu bebê nunca verá seu pai". Viúva, aos 28, ela é mãe de um garoto e uma garota, que acabam de perder o pai. O Dr. Ehab al-Shaer abriu, primeiro, uma clínica no centro de Rafah em 2006 -- estabelecendo-se como respeitado dermatólogo. Um ano depois, a partir da reputação, abriu uma filial em Nuseirat, campo de refugiados na região central da Faixa de Gaza. (fonte)

Pelo menos aqui neste cantinho da internet, está registrada, em luto, a morte do Dr. Ehab.



  Escrito por Idelber às 19:45 | link para este post




Robert Fisk desmascara mentiras da Ocupação. Amálgama traduz

Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga "argumentou" que "o exército israelense não é Hitler". Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja.

É o Amálgama, fazendo o inestimável serviço de traduzir Robert Fisk.



  Escrito por Idelber às 17:09 | link para este post




Duas fotos do nosso tempo

A primeira, conhecida: Gueto de Varsóvia, 1941.

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A segunda: Gaza, Palestina Ocupada, 2009:

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A primeira imagem foi amplamente memorializada nos últimos sessenta e poucos anos.

Que a segunda jamais seja esquecida.

Ela é da impressionante coleção Scenes from the Gaza Strip (via Nassif).


PS: Digníssima US House of Representatives (com exceção de Dennis Kucinich e quatro outros), como é possível que desse tanque, ante o qual essa família palestina caminha agitando lenços brancos em frente de suas próprias casas, já na prisão ao ar livre à qual Israel os confinou, vocês tenham a cara-de-pau de dizer que age em auto-defesa? Qual o limite do cinismo para satisfazer a milionária truculência do lobby pró-Israel nos EUA?



  Escrito por Idelber às 16:42 | link para este post




Nove eurodeputados embarcam para Gaza

portas.jpgSomos 9 eurodeputados em missão por conta e risco, com o objectivo de recolher informação in loco que nos permita intervir na sessão plenária de quarta-feira - onde se irá discutir a invasão - com conhecimento de causa, nomeadamente no plano humanitário.

Os 9 eurodeputados pertencem a diferentes grupos políticos no PE - Esquerda, Verdes, PSE, Liberais e UEN - e representam diferentes países. Eis os seus nomes: Luísa Morgantini (Itália), Helene Flautre (França), David Hammerstein (Espanha), Kyriacos Triantaphylides (Chipre), Feleknas Uca (Alemanha), Graham Davies (Reino Unido), Verónique de Keyser (Bélgica) e eu próprio.

A visita foi preparada com a colaboração das autoridades egípcias e, no interior da faixa, contará com a diligência da organização das Nações Unidas para os refugiados palestinianos, a UNRWA. A entrada far-se-á pela fronteira de Raffa.

Enquanto o Congresso americano dá mais uma vez um espetáculo de cinismo, o deputado português Miguel Portas e oito colegas honram o seu mandato arriscando a vida. Portas é eurodeputado pelo Bloco de Esquerda e autor de No Labirinto: O Líbano entre guerras, política e religião, livro escrito depois da mais recente agressão israelense ao Líbano.

A dica veio do Thiago.



  Escrito por Idelber às 08:41 | link para este post



sexta-feira, 09 de janeiro 2009

Um link importante

Uma das boas fontes para acompanhar a chacina contra o povo palestino tem sido o Twitter da Al Jazeera (em inglês). Há boa informação também no site da emissora. A Al Jazeera relata que a Câmara dos Deputados americana aprovou uma moção, por 390 votos a 5, que afirma que "Israel tem o direito de se defender contra os ataques de Gaza". A esse ponto chega o cinismo.

Um ilha de dignidade em meio às mentiras patrocinadas pelo lobby pró-Israel, o deputado Dennis Kucinich, de Ohio, perguntou-se: como reinvindicar autodefesa num ataque contra Gaza, que não tem exército, marinha ou força aérea?



  Escrito por Idelber às 18:26 | link para este post




Israel continua disparando contra ambulâncias

Mohammed Shaheen, um voluntário com o Crescente Vermelho Palestino, estava na primeira das ambulâncias que chegaram ao local da explosão em Zeitoun, desde que ela foi ocupada e depois bombardeada pelo exército israelense. O seu testemunho confirma os relatos dos sobreviventes do clã Al Samouni, publicados primeiro pelo Telegraph, que diziam que eles temiam que entre 60 e 70 membros haviam sido mortos.

“Dentro da casa dos Samouni eu vi cerca de 10 corpos e do lado de fora outros 60”, disse o Sr. Shaheen. “Não fui capaz de contá-los exatamente, porque não havia muito tempo e estávamos procurando feridos. Encontramos quinze pessoas ainda vivas mas feridas, então as levamos para as ambulâncias. Vimos um bulldozer militar israelense destruindo casas na região, mas já não tínhamos tempo e os soldados israelenses começaram a disparar contra nós.”


Como confirma o artigo do Telegraph, cerca de 100 membros do clã Samouni receberam ordens de soldados israelenses para que se reunissem naquela casa, logo que Zeitoun foi tomada, no sábado à noite. Ali mesmo, dezenas foram triturados.

O relato de Mohammed Shaheen confirma também, pela milésima vez, o que já sabemos: a política israelense de disparar contra ambulâncias.



  Escrito por Idelber às 16:53 | link para este post




Tempo dos virtuosos, por Gideon Levy

levy.jpgEssa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, a sede de vingança e de sangue. A "tendência do comando" no exército de Israel hoje é matar, "matar o mais possível", nas palavras dos porta-vozes militares na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.

A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de "exercitar a cautela": o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos para cada israelense morto é um fato que não está levantando qualquer discussão, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinenses valesse 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.

Direitistas, nacionalistas, chauvinistas e militaristas são o bom-tom da hora. Ninguém fale de humanidade e compaixão. Só na periferia ouvem-se vozes de protesto - desautorizadas, descartadas, em ostracismo e ignoradas pela imprensa -, vozes de um pequeno e bravo grupo de judeus e árabes.


Além disso tudo, soa também outra voz, a pior de todas. A voz dos cínicos e dos hipócritas. Meu colega Ari Shavit parece ser o seu mais eloquente porta-voz. Essa semana, Shavit escreveu neste jornal ("Israel deve dobrar, triplicar, quadruplicar a assistência médica em Gaza" - Haaretz, 7/1): "A ofensiva israelense em Gaza é justa (…). Só uma iniciativa imediata e generosa de socorro humanitário provará que, apesar da guerra brutal que nos foi imposta, nos lembramos de que há seres humanos do outro lado."

Para Shavit, que defendeu a justeza dessa guerra e insistiu que Israel não poderia deixar-se derrotar, o custo moral não conta, como não conta o fato de que não há vitória possível em guerras injustas como essa. E, na mesma frase, atreve-se a falar dos "seres humanos do outro lado".

Shavit pretende que Israel mate e mate e, depois, construa hospitais de campanha e mande remédios para os feridos? Ele sabe que uma guerra contra civis desarmados, talvez os seres mais desamparados do mundo, que não têm para onde fugir, é e sempre será vergonhosa.

Continue lendo Tempo dos virtuosos, de Gideon Levy, um legítimo herdeiro do humanismo judaico, lá no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 15:46 | link para este post




Glossário macabro da ocupação, 2: “equilíbrio”, “ponderação", “ver os dois lados”

Qualquer bom profissional da área de Letras, com um mínimo de formação em retórica, poderá lhe explicar, caro leitor, como seria relativamente simples escrever um panfleto racista que parecesse “ponderado”, uma monstruosidade pró-Apartheid que soasse “equilibrada”, uma justificativa do colonialismo mais bárbaro que parecesse estar “vendo os dois lados”. Basta ir fazendo um pingue-pongue pretensamente neutro entre verdugo e vítima, e você engana os incautos.

No caso das discussões acerca da catástrofe que assola o povo palestino desde 1948 e, muito especialmente, desde 1967, esses termos, “ponderação”, “equilíbrio”, constituem a faceta mais perversa do glossário macabro. O nosso jornalista “ponderado” dirá: sim, é verdade que Israel usa força desproporcional, mas o Hamas provocou com os foguetes, omitindo que a “trégua” -- e eu já expliquei aqui e aqui porque uso aspas nesse termo – foi rompida no dia 04 de novembro por Israel, com uma invasão seguida de sete assassinatos. O jornalista “equilibrado” dirá: sim, é verdade que os israelenses estão bombardeando Gaza por motivos eleitorais, mas o Hamas não é muito melhor, omitindo o fato de que quando a liderança inconteste dos palestinos era a secular OLP de Arafat, a política de extermínio e desumanização de Israel era absolutamente a mesma. Ou seja, como já explicou a especialista Jenniffer Loewenstein, o Hamas não tem nada a ver com o bombardeio a Gaza. Qualquer liderança que os palestinos construíssem, e que não compactuasse com sua escravização, estaria sofrendo o mesmíssimo massacre.

Nada tenho contra quem escreve sobre o tema com temperatura menos fervente que a minha. Mas não é essa temperatura que determina a forma como avalio o texto. Julgo-o, principalmente, por sua determinação em buscar a verdade. E o filistinismo da “ponderação” muitas vezes não está nem um pouco interessado na verdade, e sim em parecer “equânime” e bonitinho.

Há muita gente bem intencionada que acredita nessa história de “ver os dois lados”. Em qualquer conversa minimamente civilizada, alguém que se propusesse a estudar o nazismo ou o Apartheid “vendo os dois lados” seria ridicularizado. Mas ante a catástrofe palestina, esse filistinismo pretensamente neutro tem ampla circulação. Há jornalistas que, presenciando o nosso horror ante a chacina em Gaza, falam de “indignação seletiva”. Ora, o que teríamos que fazer para que nossa indignação não fosse “seletiva”? Chorar pelos soldados israelenses que estão com as unhas encravadas?

gaza11.jpg "um lado"

Uma vez, convidei um defensor das chacinas israelenses a uma conversa sobre o monumental trabalho historiográfico de Ilan Pappé, que demonstra a expulsão, o confisco e a política explícita de limpeza étnica contra os palestinos, tudo exaustivamente documentado. A resposta dele foi que leria o livro de Pappé tendo ao lado um texto de Alan Dershowitz. Em qualquer Faculdade de História minimamente séria, tal justaposição seria motivo de gargalhada ou ridicularização. Você não justapõe o trabalho de um historiador que passou anos desenterrando os fatos aos escritos raivosos de um ideólogo pró-Ocupação. Se você nunca leu Pappé ou Dershowitz, imagine que um historiador brasileiro propusesse um curso sobre a ditadura militar, utilizando as pesquisas de Elio Gaspari e Jacob Gorender, e alguém dissesse que para que o curso fosse “equilibrado”, seria necessário incluir o Manual de OSPB da ditadura militar.

É esse filistinismo pretensamente neutro que grassa sobre o sangue do povo palestino.

gaza12.JPG "o outro lado". (crédito)

Por isso, o Biscoito Fino e a Massa trabalha com um axioma bastante simples: ante a barbárie inominável, ante o crime contra a humanidade, qualquer “ponderação” entendida nos termos acima é um gesto de cumplicidade com o verdugo. Por isso, aqui no Biscoito não há “ponderação”. Por isso, aqui não há “dois lados” porra nenhuma. Nós temos um lado: a busca da verdade. E em épocas de bárbarie, a verdade costuma estar do lado das vítimas.



  Escrito por Idelber às 15:03 | link para este post




Um PDF para quem quer estudar

Alguns dos constantes comentários sobre a Palestina Ocupada são de que “tudo é muito confuso”, “é uma briga milenar” ou “não entendo por que judeus e árabes não se entendem”. Confesso que não tenho muita paciência para esse tipo de comentário, por mais bem intencionado que ele seja.

De “milenar”, caro leitor, esse massacre não tem nada. Ele tem data, bonitinho, para começar: 1948, com a expulsão de 750.000 palestinos de suas terras. Depois, outra data: 1967, o início da ocupação ilegal das terras que não pertencem a Israel. E não são “judeus e árabes” que não se entendem. Eles se entendem muito bem nas ruas de Nova York ou de São Paulo. É de uma ocupação militar estrangeira sobre um povo que estamos falando.

Se você tem interesse em estudar um capítulo importante dessa história – a construção do muro do Apartheid, que rouba mais terras palestinas e separa vilas e cidades palestinas umas das outras --, o Biscoito recomenda o trabalho feito pela Coordenação de Questões Humanitárias das Nações Unidas. Se você tem paciência para baixar um PDF pesadinho (com muitos mapas), clique aqui.

Mesmo sem ser cartógrafo, é possível observar a imensa crueldade do Muro do Apartheid. É só procurar, nos mapas, a “linha verde”. Essa é a linha do armistício de 1967, que define as fronteiras dentro das quais Israel é um país legalmente reconhecido pela comunidade das nações. Agora, procure a linha grossa vermelha que é o muro. Observe como o muro, por exemplo, elimina qualquer contato entre Ramallah – capital provisória da Autoridade Palestina – e Jerusalém Oriental. A distância entre as duas cidades? 10 quilômetros.

Clique aqui para baixar o PDF e estudar a cartografia do horror.



  Escrito por Idelber às 04:25 | link para este post




Uma mulher de dignidade infinita

Todos se lembram da imagem do rapaz chinês enfrentando os tanques na Praça Tiananmen, em 1989. A imagem correu o globo, em parte porque interessava ao mundo ocidental mostrar as (mui reais, diga-se) violações dos direitos humanos na China. Os incontáveis heróis populares palestinos -- e, muito especialmente, suas heroínas -- não têm a mesma sorte, dado o interesse das potências ocidentais em esconder sua cumplicidade com a política de limpeza étnica de Israel.

Vejam a determinação com que essa mulher enfrenta, de peito aberto, à frente de uma população desarmada, as baionetas do exército sionista de ocupação. Vejam a determinação nos seus olhos. Vejam como os soldados da ocupação evitam o contato visual, envergonhados, desumanizados pela tarefa de verdugos:

(valeu, Mello)



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post




Jimmy Carter conta como Israel rompeu o cessar-fogo

jimmy_carter.jpgO escalão superior do Hamas em Damasco, no entanto, concordou em considerar um cessar-fogo em Gaza desde que Israel prometesse não atacar e permitisse a entrega de ajuda humanitária aos cidadãos palestinos.

Depois de extensas discussões, os líderes do Hamas também aceitaram qualquer acordo de paz que pudesse ser negociado entre os israelenses e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que também lidera a OLP, desde que fosse aprovado pela maioria dos palestinos em um referendo ou por governo de unidade eleito.

Uma vez que éramos apenas observadores, não negociadores, passamos a informação aos egípcios e eles buscaram uma proposta de cessar-fogo. Depois de cerca de um mês, os egípcios e o Hamas nos informaram que a ação militar dos dois lados e os foguetes iam parar em 19 de junho, por um período de seis meses, e que a ajuda humanitária seria restaurada ao nível normal que existia antes da retirada de Israel em 2005 (cerca de 700 caminhões por dia).

Fomos incapazes de confirmar isso em Jerusalém por causa da decisão de Israel de não admitir qualquer negociação com o Hamas, mas os lançamentos de foguetes logo pararam e houve aumento na entrega de comida, água, remédios e combustível. Ainda assim o aumento foi para cerca de 20% do nível original [de 700 caminhões]. E esse cessar-fogo frágil foi parcialmente rompido em 4 de novembro, quando Israel lançou um ataque em Gaza (fonte em português; original em inglês aqui).

Nesse ataque, Israel assassinou sete palestinos. A posição do Biscoito Fino e a Massa é de que jamais houve “trégua” nenhuma, pois não se pode falar de trégua quando uma população vive enjaulada, sem ter sequer o direito de recolher seus impostos ou controlar suas fronteiras. Mas mesmo que usemos o termo “trégua” no sentido em que a mídia, em geral, utiliza-o para se referir à Palestina Ocupada -- ou seja, “trégua” consiste em que os palestinos continuem vivendo calados, como escravos, nas suas próprias terras --, mesmo assim, o fato, a verdade, é que a trégua foi rompida por Israel, quando invadiu Gaza no dia 04 de novembro e assassinou sete palestinos, depois de meses inteiros em que o Hamas não havia lançado rojões Qassam sobre território israelense.

Stephen Zunes, especialista da Universidade de San Francisco, disse com todas as letras: foi uma enorme, enorme provocação, e agora me parece que o objetivo era mesmo fazer com que o Hamas rompesse o cessar-fogo. Amigo leitor: nada, nada, nada disso foi relatado pela mídia ocidental. É como se a invasão do 04 de novembro não tivesse acontecido.

Por que Israel escolheu o dia 04 de novembro para romper a trégua? Ora, caro leitor, lembre-se do que acontecia nos EUA no dia 04 de novembro. Não é difícil adivinhar. O obviedade é gritante.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post




Glossário macabro da ocupação, 1: “conflito”

O Biscoito Fino e a Massa começa hoje a publicar um glossário macabro da ocupação: uma análise de como as palavras são usadas para mascarar, distorcer, esconder. A primeira escolhida é o termo “conflito”.

Ao definir “conflito”, Houaiss usa os sinônimos “choque” e “enfrentamento”. Certamente, podem existir conflitos entre fortes e fracos. A simetria perfeita de forças não é um requisito para a aplicabilidade do termo. Mas se você vir um garoto de 15 anos sendo espancado por cinco brutamontes, você dificilmente usará a palavra “conflito” para descrever o que acontece.

Pode ser, caro leitor, que em algum momento da história catastrófica que se inicia em 1948, a palavra “conflito” possa ter tido algum grau de aplicabilidade. Mas observar as cenas de Gaza, o massacre de civis, as bombas de fósforo branco contra crianças, o bombardeio de escolas e o enjaulamento de 1,5 milhão de pessoas realizado pelo exército israelense, e ainda assim falar de “conflito israelo-palestino” é de um cinismo inominável ou de uma distração imperdoável.

O nome correto é matança. Chacina. Carnificina. Promovida por uma ocupação militar. Jornalistas, por favor, dêem o nome correto às coisas.



  Escrito por Idelber às 02:25 | link para este post



quinta-feira, 08 de janeiro 2009

Kanouté: Um cartão amarelo que dignifica o futebol

kanoute.jpg

Ao marcar um gol ontem, na partida contra o Deportivo La Coruña, pela Copa do Rei, da Espanha, o atacante malinês Frederic Kanouté, do Sevilha, mostrou uma camisa com a inscrição Palestina, num gesto de solidariedade ao povo banhado em sangue. Aí na foto, com ele, o seu companheiro de equipe brasileiro, Luis Fabiano. O árbitro Mateu Lahoz, cumprindo as regras, exibiu o cartão amarelo a Kanouté no reinício do jogo. O gesto de Kanouté correu o mundo.

Pode até levar uma multa da Federação Espanhola, mas já inscreveu seu nome na história, ao lado de Muhammad Ali, Tommie Smith e John Carlos.



  Escrito por Idelber às 21:48 | link para este post




Relembrando um notável judeu

benjamin.jpg

Não é a imagem dos netos libertos, mas a dos ancestrais escravizados a que nos inspira, ensinou Walter Benjamin, esse genial pensador judeu que nunca caiu no conto do sionismo.



  Escrito por Idelber às 10:04 | link para este post




Atualização, com singularidade

Já são mais de 700 mortos palestinos.

palestinian-flag.jpg

Preciso dar algum link para confirmar? Palestinas, as mortes essas que se medem às centenas ou aos milhares, com o filistinismo calculando qual era a porcentagem de "civis" entre os cadáveres, como se existissem militares numa nação que não tem estado.

Neste momento, de verdade, em que só vejo a mídia calcular qual porcentagem desses mortos "eram civis", só consigo pensar em um possível cadáver, só um.

Ibi, minha amiga de Gaza, sumiu da internet. Evidentemente. Já não há água nem luz em Gaza, quanto mais internet. Ainda não pude averiguar se Ibi está morta ou viva. Eu gostava, gosto muito dela. Nenhuma das nossas divergências internéticas tinha a ver com o Hamas. Eu e ela coincidíamos, sempre, na avaliação do que é positivo e do que é negativo no Hamas, e também na avaliação do pouco que essa organização islamista-nacionalista-palestina tem a ver com o genocídio atual perpetrado por Israel. Tudo isso, Jennifer já explicou.

Eu e Ibi saíamos na porrada mesmo sobre Tears for Fears. Ela gostava de Tears for Fears. Eu insistia em que ela ouvisse Joy Division com mais atenção. O retrato que você, leitor, recebe de Gaza pela mídia é absolutamente incapaz de imaginar isso: eu, 40, brasileiro-americano; Ibi, 21, moderna, árabe, inteligente, poliglota, secular e fã do Tears for Fears.

Se houver confirmação da morte -- ou da vida -- da minha amiga Ibi, eu aviso aqui.

PS: O que é absurdamente comovente nesses momentos é ver os amigos palestinos de Hebron, Ramalá, Nablus, Jerusalém Oriental Ocupada, etc. preocupando-se -- eles, que estão vivendo em situação tão difícil -- com o fato de que eu (que estou, obviamente, em situação bem confortável) possa ter perdido uma amiga.



  Escrito por Idelber às 09:20 | link para este post




Correspondente da Globo no Oriente Médio foi do exército de Israel, escreveu – e apagou – um blog racista, belicista, anti-árabe e pró-ocupação

Quem faz essa acusação de racismo, caro leitor, é o blogueiro que assina o Biscoito – talvez o blog que mais abertamente, junto com o LLL, discutiu questões raciais no Brasil nos últimos anos. Este blogueiro jamais, ao longo de 4 anos, milhões de visitas, centenas de discussões e dezenas de milhares de comentários, jamais, jamais acusou alguém de racista, de ter ponto de vista racista, de escrever algo racista. Com a autoridade de quem jamais fez isso, eu acuso agora.

Nada do mérito das descobertas que se seguem é meu, que fique claro. O mérito é todo do Cloaca News, que deu o furo. Eu simplesmente resumo a história com as minhas palavras.

A Globo tem uma “correspondente” no “Oriente Médio”, Renata Malkes, que, obviamente, fica em Israel. Até aí, tudo normal. Já estamos acostumados a um relato que diz “aqui” para se referir a uma matança que, na verdade, ocorre num “ali” ao qual o repórter não tem acesso. O “aqui” se refere ao lugar em que a matança é planejada, não ao lugar em que a matança ocorre. Até aí, reitero, tudo normal. “Israel” e “Palestina”, os dois lados, como dizem os jornalistas “ponderados”.

Mas acontece que a atual correspondente da Globo, Renata Malkes, assinou durante anos um blog em que se compilam algumas das coisas mais horrendas, racistas, bélicas e desumanizadoras que já se escreveu em lusitana língua blogueira. Ela apagou o blog. Mas acontece que na internet ficam arquivos. Cito, com um pouco de nojo:

Aqui, ela celebra o fato de ter sido escolhida como "blog de guerra". Aqui, ela descamba para o racismo anti-árabe puro e simples. Aqui a generalização é "árabe mentiroso" e aqui ela celebra a entrada no exército de ocupação. Os arquivos do que essa moça assinou são uma monstruosidade racista.* O selinho que ela tinha no blog dizia, com uma imagem de um árabe ao fundo, associado à figura de um terrorista, claro: não lhes dê um estado.

Hoje, na Globo, ela assina um blog que se quer "ponderado", que "mostra os dois lados". No compartimento hipocritamente nomeado "nossos vizinhos palestinos", o primeiro que há é um link quebrado. É a farsa da nossa mídia.

Valeu, Cloaca.

* Atualização do dia 12/01: links agora quebrados, já que a jornalista mandou retirar os arquivos do seu antigo blog da Wayback Machine.



  Escrito por Idelber às 07:58 | link para este post




Relator da ONU expulso por Israel confirma uso de bombas de fósforo contra civis

falk.jpgEntre a sua infindável repetição de boletins de imprensa do exército israelense e a igualmente infindável reiteração dos clichês “ponderados”, que olham “os dois lados” do “conflito”, a Folha de São Paulo conseguiu, reconheçamos, imprimir uma matéria decente nesta quinta-feira. Não é do “enviado” a Israel, mas da reportagem local: uma entrevista com o Professor Emérito de Princeton University, Richard Falk, que foi nomeado pela ONU relator para a situação humanitária nos territórios palestinos.

Falk é gringo de ascendência judaica. Foi nomeado pela ONU. Ao tentar chegar à Cisjordânia, Palestina Ocupada, via Israel, Falk foi enjaulado por 15 horas e chutado para fora de lá. O argumento? Aquele, velho: seu relatório seria “enviesado” [biased]. O detalhe é que não lhe foi dada a possibilidade de escrever o relatório. Trechos da entrevista (link para assinantes):


FOLHA - O Hamas infiltrou organizações humanitárias?

FALK - É uma acusação absurda. A ONU é muito rigorosa no esforço constante de se manter à distância de movimentos políticos. Mas como o Hamas é a principal força em Gaza, é possível que indivíduos isolados tenham algum tipo de simpatia com o Hamas, nada mais.

FOLHA - Há quem ache exagero falar em crise humanitária.

FALK - É uma das mais graves crises humanitárias da história recente. O pior é Israel impedir os civis de abandonarem Gaza. Os israelenses estão usando armas muito sofisticadas, algumas delas ilegais, como bombas de fósforo e projéteis que entram decepando o corpo. Israel também não provê suprimentos básicos e remédios, numa violação clara do direito humanitário internacional que representa um crime de guerra e contra a humanidade. Os responsáveis devem ser julgados.


No que se refere a essas armas químicas conhecidas como bombas de fósforo, caro leitor – lembra-se que a invasão do Iraque foi justificada com a cantilena de que Saddam Hussein supostamente tinha armas químicas e de destruição em massa? --, a história se repete com a tediosa previsibilidade de sempre. Para benefício de quem não acompanha o assunto há vinte e cinco anos, resumamos: primeiro, as vítimas denunciam que Israel está usando bombas de fósforo, que causam queimaduras químicas e são proibidas pela Convenção de Genebra. Depois, aparecem fotos que provam que Israel usou bombas de fósforo contra civis. Que as vítimas diziam a verdade.

fosf.jpg

O próximo passo também é conhecido por quem acompanha o assunto há tempos: Israel nega o uso da gerigonça, mesmo tendo o relator das Nações Unidas, um professor judeu emérito de Princeton, confirmado o crime de guerra. Na última vez em que Israel aterrorizou o sul do Líbano, foi a mesma coisa. O resultado: as vítimas diziam a verdade e o próprio exército de Israel reconheceu. Quer brincar de Google, caro leitor? Faça uma busca com "Israel denies" e "phosphorous" e depois outra busca com "Israel admits" e "phosphorous".

Você verá Tio Google documentando um filminho que se repete com a tediosa e macabra previsibilidade de um pesadelo recorrente para quem acompanha o assunto há décadas.

Mas, mesmo assim, se você fuçar a grande mídia, você encontrará: “alega-se” que Israel “possa ter usado” bombas de fósforo. Na melhor das hipóteses, você encontrará que "acredita-se que" (veja só, neste artigo, a luta entre a imagem e o texto).

Os crimes de guerra israelenses com bombas de fósforo são fato documentado, fotografado e comprovado. Crime de guerra. Crime contra a humanidade. Não há outro nome, jornalistas.

Quem deliberadamente tenha lançado fósforo contra civis pode terminar sendo julgado pelo Tribunal de Haia. O fósforo branco também é uma arma utilizada para difundir terror. Essas palavras não são de um blogueiro atleticano de extrema-esquerda ou de um simpatizante do Hamas. São de Charles Heyman. Quem é Charlie? Ex-major do exército britânico.



  Escrito por Idelber às 05:39 | link para este post




Três espaços indispensáveis em português

Se você não lê nadica de inglês ou de outras línguas e se informa só em português, não deixe de acompanhar, enquanto durar o horror sofrido pelo povo de Gaza e de toda a Palestina, três espaços que estão oferecendo textos, links, análises e informações de qualidade certamente superior aos da grande imprensa brasileira: Agência Carta Maior, Amálgama e RS Urgente.

Salaam, Marco, Daniel e equipe. César Animot também está lá, atento, com ótimos links.

PS: Brétemas é um blog em galego – essa língua tão bela e tão absurdamente parecida com a nossa – que também tem acompanhado a matança genocida em Gaza.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post




O êxodo de Rafah: Mais um testemunho blogueiro

gaza9.jpg

Um pouco antes da meia-noite, começaram a despejar mísseis sobre Rafah, num dos ataques aéreos israelenses mais pesados desde que se iniciaram as atuais atrocidades. Os bombardeios caíram sobre o sul da Cidade de Gaza por mais de 12 horas. Muitas casas foram destruídas ou severamente danificadas, especialmente nos bairros ao longo da fronteira com o Egito.

Os moradores desses bairros relataram um massivo lançamento de panfletos pelos aviões israelenses esta tarde. Os papéis ordenavam que eles deixassem suas casas nas áreas que vão da linha de fronteira de volta até a Rua do Mar, a rua principal que atravessa o coração de Rafah, paralelamente à fronteira. Essa é uma área de centenas de metros de comprimento e milhares de casas. A maioria dessas áreas são de campos de refugiados; os moradores passaram a ser refugiados a partir das demolições em massa de suas casas em 2003 e 2004 pelos tratores militares israelenses D-9.


Rafah Kid é um jovem palestino de Gaza, testemunha do horror em seu blog. Rafah Kid também mantém um Flickr, com fotos da devastação causada pelo exército invasor.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post



quarta-feira, 07 de janeiro 2009

A dignidade infinita dos Shministim

Eu já rascunhava um post sobre esses bravos garotos, mas o RS Urgente chegou primeiro e já disse tudo:

Os Shministim são jovens estudantes israelenses, todos com idade entre 16 e 19 anos, no final do segundo grau. Eles recusam o alistamento no exército de Israel por objeção de consciência. Estão presos por isso. Esses estudantes defendem um futuro de paz para israelenses e palestinos e negam-se a pegar em armas. Além da prisão, enfrentam uma enorme pressão da família, de amigos e do governo de Israel. No dia 18 de dezembro foi iniciada uma campanha mundial pela libertação desses jovens.

Traduzo da declaração de Tamar Katz, no site dos Shministim:

Eu me recuso a alistar-me nas forças militares de Israel por objeção de consciência. Não estou disposta a me tornar parte de um exército de ocupação que é invasor de terras estrangeiras há décadas, que perpetua um regime racista de roubo nessas terras, tiraniza civis e torna a vida difícil para milhões sob um falso pretexto de segurança.

shimin.jpg

Numa época em que o filistinismo, bem ou mal pago, invariavelmente tira do bolso a acusação de anti-semitismo ou, na melhor das hipóteses, a de desconsideração pela "existência de Israel" contra os que criticamos a ocupação ilegal por sua catástrofe humanitária e seus crimes de guerra, esses valentes garotos judeus são uma inspiração ética, um norte moral. Comprometidos com a existência de seu país dentro das fronteiras internacional, legalmente reconhecidas, eles se recusam a servir uma brutal ocupação militar que já dura mais de quatro décadas. Encaram o cárcere e, pior, muitas vezes o opróbrio dentro de seu próprio país. Mas sabem do que falam. Sabem que a ocupação militar e a escravização dos palestinos não tem nada a ver com a “segurança” de Israel.

Você pode mandar uma mensagem de apoio e pedido de libertação para esses bravos garotos lá no site dos Shministim.



  Escrito por Idelber às 18:33 | link para este post




O verdadeiro jornalismo

Mas não é na mídia oficial ocidental, israelense ou árabe que encontrarão alento os que anseiam pelos fatos.

São os relatos de civis, de gente comum que ainda consegue se comunicar com o mundo, que mais chamam a atenção pela crueza e perplexidade com que o horror da guerra é narrado. De acordo com o Technorati, site que indexa posts do mundo inteiro, somente no domingo (4) foram escritos mais de quatro mil textos sobre Gaza mundo afora.

Mïdia, blog, cidadãos jornalistas e as notícias de Gaza: um excelente resumo da verdadeira insurreição informacional que estamos presenciando. Está no blog Escrevinhamentos.



  Escrito por Idelber às 12:10 | link para este post




Mais bombardeios a escolas

Pelo menos 42 palestinos que se abrigavam numa escola das Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabaliya, foram mortos na terça-feira à tarde, depois de bombardeios de tanques israelenses. Centenas de palestinos aterrorizados, desesperadamente tentando escapar das bombas, haviam buscado abrigo lá, pressupondo que uma escola claramente marcada não seria um alvo.

Outro prédio da ONU, a escola Ash-Shouka, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, foi bombardeado na segunda-feira à noite. A Agência de Socorro da ONU, antes do início do massacre, havia cedido às autoridades israelenses todas as coordenadas GPS de suas instalações em Gaza.

A notícia completa, em inglês, aqui.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post




Israel não tem nenhuma intenção de admitir um estado palestino: Se o Hamas não existisse, por Jennifer Loewenstein

PJ-1.jpgDeixemos uma coisa perfeitamente clara. Se a degradação e a mutilação por atacado da Faixa de Gaza for continuar; se a vontade de Israel é uma com a dos Estados Unidos; se a União Européia, a Rússia, as Nações Unidas e todas as organizações e agências legais internacionais espalhadas pelo globo vão continuar sentadas como manequins ocos sem fazer nada a não ser os repetidos “chamados” por um “cessar-fogo” de “ambos os lados”; se os covardes, obsequiosos e supinos Estados Árabes vão continuar de braços cruzados vendo seus irmãos serem trucidados de hora em hora enquanto a Super-Potência valentona do mundo olha-os ameaçadoramente de Washington, no caso de que digam qualquer coisinha que a desgoste; então vamos pelo menos dizer a verdade sobre por que está tendo lugar este inferno na terra.

O terror de estado disparado neste momento dos céus e do chão contra a Faixa de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Não tem nada a ver com o “Terror”. Não tem nada a ver com a “segurança” a longo prazo do Estado Judeu ou com o Hezbolá, a Síria ou o Irã, exceto na medida em que agrava as condições que levaram até a crise de hoje. Não tem nada a ver com alguma conjurada “guerra” -- um eufemismo cínico e gasto que não representa mais que a escravização por atacado de qualquer nação que ouse reclamar seus direitos soberanos; que ouse afirmar que seus recursos são seus; que não queira uma das obscenas bases militares do Império assentada em suas queridas terras.

Esta crise não tem nada a ver com liberdade, democracia, justiça ou paz. Não é sobre Mahmoud Zahhar ou Khalid Mash'al ou Ismail Haniyeh. Não é sobre Hassan Nasrallah ou Mahmoud Ahmadinejad. Eles são todos peças circunstanciais que ganharam um papel na tempestade atual só agora, depois de que se permitiu por 61 anos que a situação se desenvolvesse até a catástrofe que é hoje. O fator islamista coloriu e continuará a colorir a atmosfera da crise; ele alistou líderes atuais e mobilizou amplos setores da população do mundo. Os símbolos fundamentais hoje são islâmicos – as mesquitas, o Alcorão, as referências ao profeta Maomé ou à Jihad. Mas esses símbolos poderiam desaparecer e o impasse continuaria. PJ-2.jpg

Houve uma época em que o Fatah e a FPLP eram a bola da vez, quando poucos palestinos queriam ter qualquer coisa a ver com políticas ou medidas islamistas. Esta política não tem nada a ver com foguetes primitivos sendo lançados do outro lado da fronteira ou com túneis de contrabando ou com o mercado negro de armas, assim como o Fatah de Arafat tinha pouco a ver com as pedras e os atentados suicidas a bomba. As associações são contingentes; criações de um dado ambiente político. Elas são o resultado de algo completamente diferente do que os políticos mentirosos e seus analistas estão lhe dizendo. Elas se tornaram parte da paisagem dos acontecimentos humanos no Oriente Médio de hoje; mas incidências tão letais, ou tão recalcitrantes, mortais, enraivecidas ou incorrigíveis poderiam muito bem ter estado em seus lugares.

PJ-3.jpgDescasque os clichês e o blá-blá-blá estridente e vazio da mídia servil e de seu patético corpo de servidores estatais voluntários no mundo ocidental e o que você encontrará é o desejo nu de hegemonia, de poder sobre os fracos e de domínio sobre a riqueza do mundo. Pior ainda, você encontrará o egocentrismo, o ódio e a indiferença, o racismo e a intimidação, o egoísmo e o hedonismo que tentamos tanto mascarar com nosso jargão sofisticado, nossas teorias e modelos acadêmicos refinados, que na verdade ajudam a guiar nossos desejos mais feios e baixos. A insensibilidade com que nos rendemos a eles já é endêmica à nossa cultura; nela floresce como moscas sobre um cadáver.

Descasque os atuais símbolos e linguagem das vítimas dos nossos caprichos egoístas e devastadores e você encontrará os gritos desafetados, simples e cheios de paixão dos pisoteados; dos “condenados da terra” implorando para que você cesse sua agressão fria contra suas crianças e seus lares; suas famílias e seus vilarejos; implorando que os deixe em paz para que tenham seu peixe e seu pão, suas laranjas, suas olivas e seu tomilho; pedindo primeiro educadamente e depois com crescente descrença no porquê de você não poder deixá-los viver sem serem incomodados nas terras de seus ancestrais, sem serem explorados, livres do medo de serem expulsos, violados ou devastados; livres dos carimbos e dos bloqueios de estrada e dos postos policiais de controle e cruzamentos; dos monstruosos muros de concreto, torres de guarda, bunkers de concreto e arame farpado; dos tanques, das prisões, da tortura e da morte. Por que é impossível a vida sem essas políticas e instrumentos do inferno?

A resposta é: porque Israel não tem qualquer intenção de permitir um estado palestino viável e soberano ao lado de suas fronteiras. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo em 1948, quando arrancou 24% mais terra do que havia sido legal, ainda que injustamente, alocado pela Resolução 181 das Nações Unidas. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo ao longo dos massacres e complôs dos anos 1950. Não tinha qualquer intenção de permitir dois estados quando conquistou os 22% que restavam da Palestina histórica em 1967 e reinterpretou a Resolução 248 do Conselho de Segurança da ONU a seu bel prazer, apesar do esmagador consenso internacional que estabelecia que Israel receberia completo reconhecimento internacional dentro de fronteiras reconhecidas e seguras se recuasse das terras que havia recentemente ocupado.

Não tinha qualquer intenção de reconhecer direitos nacionais palestinos nas Nações Unidas em 1974, quando – sozinho com os Estados Unidos – votou contra uma solução biestatal. Não tinha qualquer intenção de permitir um acordo de paz completo quando o Egito estava pronto para realizar, mas só recebeu, e obedientemente aceitou, uma paz separada que excluía os direitos dos palestinos e dos outros povos da região. Não tinha nenhuma intenção de trabalhar na direção de uma solução biestatal justa em 1978 ou em 1982, quando invadiu, bombardeou, esmigalhou e demoliu Beirute para que pudesse anexar a Cisjordânia sem ser incomodado. Não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em 1987, quando a primeira Intifada se espalhou pela Palestina Ocupada, na Diáspora e nos espíritos dos despossuídos do mundo, ou quando Israel deliberadamente auxiliou o nascente movimento Hamas, como forma de implodir a força das facções mais seculares-nacionalistas.

Israel não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em Madrid ou em Oslo, quando a OLP foi superada pela trêmula e titubeante Autoridade Palestina, muitos de cujos chapas perceberam a riqueza e o prestígio que ela lhes dava, às custas dos seus. Enquanto Israel alardeava nos microfones e satélites do mundo o seu desejo de paz e de uma solução biestatal, ele mais que duplicava os assentamentos colonizadores judeus, ilegais, nas terras da Cisjordânia e em volta de Jerusalém Oriental, anexando-as na medida em que construía e continua a construir uma superestrutura de estradas e autopistas sobre as cidades e vilarejos sobreviventes, picotados da Palestina. Anexou o Vale do Jordão, a fronteira internacional da Jordânia, expulsando quaisquer dos “nativos” que habitassem a terra. Fala com uma língua de víbora sobre os múltiplos amputados da Palestina, cujas cabeças serão logo arrancadas do corpo em nome da justiça, da paz e da segurança. PJ-4.jpg

Através das demolições de casas, dos ataques à sociedade civil que tentavam lançar a cultura e a história palestinas num abismo de esquecimento; através da indizível destruição dos cercos aos campos de refugiados e dos bombardeios à infraestrutura na Segunda Intifada, através dos assassinatos e das execuções sumárias, pela grandiosa farsa do desengajamento até a nulificação das eleições livres, democráticas e justas da Palestina, Israel já nos fez saber qual é a sua visão, uma e outra vez, na linguagem mais forte possível, a línguagem do poder militar, das ameaças, das intimidações, do acosso, da difamação e da degradação.

Israel, com o apoio aprovador e incondicional dos Estados Unidos, já deixou dramaticamente claro ao mundo todo, várias vezes, repetindo em ação atrás de ação que não aceitará um estado palestino viável ao lado de suas fronteiras. O que mais é preciso para que escutemos? O que será necessário para terminar com o silêncio criminoso da “comunidade internacional”? O que será preciso para ver mais além das mentiras e da doutrinação acerca do que tem lugar diante de nós, dia após dia, claramente, no raio de visão dos olhos do mundo? Quanto mais horrorosas as ações no terreno, mais insistentes são as palavras de paz. Ouvir e assistir sem escutar nem ver permite que a indiferença, a ignorância e a cumplicidade continuem e aprofundem, a cada túmulo, a nossa vergonha coletiva.

A destruição de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Israel não aceitará qualquer autoridade nos territórios palestinos que ele, em última instância, não controle. Qualquer indivíduo, líder, facção ou movimento que não aceda às exigências de Israel ou que busque genuína soberania e igualdade de todas as nações da região; qualquer governo ou movimento popular que exija a aplicabilidade da lei humanitária internacional e a declaração universal dos direitos humanos para seu próprio povo será inaceitável para o Estado Judeu. Aqueles que sonham com um estado devem ser forçados a perguntarem-se: o que Israel fará com uma população de 4 milhões de palestinos dentro de suas fronteiras, quando comete crimes diários, se não a cada hora, contra a humanidade coletiva deles enquanto eles vivem ao lado de suas fronteiras? O que fará mudar de repente a razão de ser, o autoproclamado objetivo e razão de existência de Israel se os territórios palestinos forem anexados a ele totalmente?

O sangue de vida do Movimento Nacional Palestino jorra hoje pelas ruas de Gaza. Cada gota que cai rega a terra da vingança, do ressentimento e do ódio não só na Palestina, mas em todo o Oriente Médio e em boa parte do mundo. Nós temos uma escolha sobre se isso deverá continuar ou não. Agora é a hora de escolher.


Jennifer Loewenstein é Diretora Associada do Centro de Estudos do Oriente Médio de uma das principais universidades públicas norte-americanas, a de Wisconsin em Madison. Ela trabalhou durante meses, em 2002, no Centro Al Mezan de Direitos Humanos, em Gaza. Retornou a Gaza várias vezes desde então. Original, em inglês, aqui. Tradução ao português de Idelber Avelar. Ilustrações, daqui.



  Escrito por Idelber às 03:23 | link para este post



terça-feira, 06 de janeiro 2009

As crianças de Gaza

Do milhão e meio de pessoas que estão enjauladas sob bombardeio em Gaza, quase 50% é composta de crianças de menos de 15 anos de idade. Os palestinos, e muito especialmente os palestinos de Gaza, são regularmente submetidos a um dos maiores horrores imagináveis: pais e mães enterrando crianças trucidadas por massacres militares.

O vídeo que se segue vale a pena ser visto:






Uma das experiências que as vítimas costumam relatar como das mais dolorosas é a de presenciar o filho assistindo o enterro do irmão, como na foto abaixo:

gaza8.jpg
(crédito)

Já são, confirmadas, pelo menos oitenta e nove crianças mortas pela chacina israelense, além, claro, das milhares de fisicamente feridas e das centenas de milhares traumatizadas psicologicamente de forma severa, talvez irrecuperável.

Atualização: Fotos do massacre das crianças de Gaza.



  Escrito por Idelber às 21:48 | link para este post




Palestinos no Facebook

Já há alguns meses, recolho quase diariamente, via Facebook, relatos de palestinos vivendo sob o horror da ocupação colonial ou no desterro dos campos de refugiados. Se você é membro da comunidade do Biscoito no Facebook, e não está listado como meu amigo, fique à vontade para enviar uma solicitação (uma linha de auto-apresentação ajuda).

A partir daí, se quiser, você poderá enviar solicitações também aos palestinos listados como amigos meus. Uma das características mais recorrentes que tenho visto em meus contatos com palestinos, ao longo dos anos, é o forte desejo de dar testemunho daquilo que vivem. Um alô em inglês quebrado mesmo -- tipo I'm Brazilian, interested in the Palestinian cause. I'd like to be in touch and learn more about Palestine -- será invariavelmente recebido com alegria, gratidão e disposição ao diálogo. O Brasil tem enorme prestígio na Palestina.

Algumas das comunidades do Facebook dedicadas à causa palestina são:

I condemn the Israeli attacks on Gaza.
Let's collect 500,000 signatures.
Palestinians on Facebook.

Para o fórum de cada comunidade, a recomendação do blog, claro, é que se evite bater boca com trolls defensores das chacinas da ocupação israelense. Em qualquer rede de relações sociais, por incrível que pareça, há gente dedicada a fazer isso. A dica é estabelecer o contato individualizado com o potencial amigo que lhe interessar, com uma palavra de interesse e carinho. A partir daí, converse, ouça.

Estará fazendo jornalismo mais verdadeiro que aquele de que tem sido capaz a grande mídia.



  Escrito por Idelber às 21:15 | link para este post




Amálgama inicia traduções do Electronic Intifada

No décimo dia de sua agressão na Faixa de Gaza, as Forças de Ocupação Israelenses (FOI) aumentaram significantemente suas operações militares, atingindo principalmente alvos civis, particularmente casas. Ataques aéreos e bombas de artilharia atingiram dezenas de casas. As FOI também atingiram instalações médicas e ambulâncias. Uma equipe da Defesa Civil foi alvejada enquanto tentava apagar o incêndio que se seguiu ao bombardeio de uma clínica.

A invasão terrestre das FOI na Faixa de Gaza se expandiu, na medida em que tropas e tanques desembarcaram vindos do mar ao sul da Cidade de Gaza. Setenta e sete pessoas foram mortas nos ataques das FOI entre 1:00pm do dia 4 e 2:30pm do dia 5. Esse número inclui 21 crianças e nove mulheres. Além disso, uma equipe de resgate médico foi morta durante o mesmo período. Dezenas mais foram feridos, a maioria civis. Atacar bens e pessoas protegidas representa flagrante indiferença às regras do direito internacional que dizem respeito a conflitos armados; particularmente enquanto porta-vozes do exército e do governo israelenses continuam a afirmar que as FOI atingem apenas a infraestrutura militar e combatente.

Aviões israelenses dispararam 15 mísseis ao redor da escola do Colégio Omar Ibn al-Khattab, em Beit Lahia, não muito longe de onde estão as tropas terrestres israelenses. Não recebemos ainda nenhum informe quanto à existência de vítimas.

Às 5:50pm aproximadamente do dia 4 de janeiro, aviões israelenses dispararam mísseis na mesquita Mosab Ibn Omair, em Beit Lahia, norte da Faixa de Gaza, matando três homens. Eles foram identificados como:

- Mohammed Khader Hamouda, 19 anos;
- Ala Zaqout, 28 anos;
- Mohammed Hassan Baba, 30 anos.


O Amálgama iniciou uma série de traduções do Electronic Intifada, com notícias que você não encontrará no nosso pobre jornalismo, enlameado entre o silêncio cúmplice e a distribuição de boletins de imprensa do exército de ocupação.

Parabéns e obrigado ao Amálgama.



  Escrito por Idelber às 16:07 | link para este post




"Estão destruindo tudo ... O que dizem as notícias?": O horror de um pai enjaulado em Gaza, no blog da filha

gaza7.jpgMeu pai falou calma, eloquentemente, na escuridão de Gaza sitiada, só com o fogo das bombas israelenses iluminando o seu mundo: “eles estão destruindo tudo o que é belo e vivo”, ele disse ao âncora. Suas mãos tremiam, ele confessava, enquanto se apoiavam no chão de sua casa, onde eles moviam os colchões para mais longe das janelas, com as explosões ensurdecedoras rasgando o céu negro ao redor, iluminando-o em enormes nuvens de fogo.
[...]
“O que está acontecendo, o que está acontecendo?”, ele repete em tom exausto, hipnótico. “A sensação é que eles bombardearam nossa rua de dentro para fora. Não vejo nada. Não sei o que está acontecendo. O que dizem as notícias?”, ele pergunta freneticamente, desesperado por qualquer migalha de informação que possa fazer sentido do terror que tomou conta dele.

Laila é uma mãe palestina de Gaza, casada com um palestino refugiado e, no momento, "a salvo" na Carolina do Norte, enquanto seu próprio pai vive o inferno em Gaza. As conversas telefônicas entre Laila e seu pai, relatadas pelo post, ocorreram no sábado à noite. Hoje elas já seriam praticamente impossíveis. Imperdível, urgente, o blog: Diary of a Palestinian Mother.



  Escrito por Idelber às 15:44 | link para este post




Carta aberta de professores brasileiros sobre o bombardeio israelense a universidade em Gaza

Via amigos gaúchos Suzana Gutiérrez e Marco Aurélio Weissheimer chega a Carta Aberta de professores brasileiros e também hispano-americanos, como Eduardo Galeano, e norte-americanos, como Immanuel Wallerstein, sobre o massacre aéreo à Universidade Islâmica de Gaza:


Enquanto a carnificina causada pelo ataque israelense à Faixa de Gaza nos enche de horror, tristeza e indignação, um fato nos obriga a nos manifestar: a destruição da Universidade Islâmica de Gaza. Assim como as universidades católicas e pontifícias em todo o mundo, a Universidade de Gaza é uma instituição dedicada ao ensino e à pesquisa acadêmica. Devido à negação ao acesso e compartimentação da vida nos territórios palestinos, a Universidade Islâmica tornou-se ainda mais importante para a população jovem de Gaza, impedida de cursar faculdades na Cisjordânia, em Israel ou no exterior, inclusive quando são aceitos como bolsistas. A Universidade atende mais de 20.000 estudantes, 60% dos quais são mulheres. Formada por 10 faculdades, oferece cursos de graduação e pós-graduação em educação, religião, arte, comércio, charia, direito, engenharias, ciências, medicina e enfermagem.

Clique aqui para ler a íntegra da carta e aqui para assiná-la.

O bombardeio e a destruição deliberados das instalações de uma universidade situada numa faixa de terra que é uma verdadeira prisão ao ar livre e que -- sabiam-no mui cinicamente os bem informados serviços de inteligência israelenses -- não abrigava arma nem rojão nenhum, configura uma daquelas ações para as quais o termo crime de guerra é um pobre, patético, miserável eufemismo.

Abaixo vai a foto do protesto realizado em Birzeit University há alguns dias. Birzeit é uma notável universidade situada perto de Ramalah, Cisjordânia, Palestina Ocupada:

gaza-bu-protest.jpg

(Post dedicado a M.S., estudante de comércio em Birzeit. Imaginam o que é estudar comércio na Palestina Ocupada, jornalistas e mídia? Não? Então imaginem).



  Escrito por Idelber às 13:44 | link para este post




"Vou lhe contar como ele morreu": Tradução de um blog de Gaza

Trabalhadores médicos de emergência, Arafa Hani Abd al Dayem, 35 anos, e Alaa Ossama Sarhan, 21 anos, tinham atendido o chamado para ir buscar Thaer Abed Hammad, 19, e seu amigo morto Ali, 19, que haviam estado fugindo do bombardeio, quando foram eles mesmos atingidos por disparo de um tanque israelense.

Era pouco depois das 8:30 da manhã de 04 de Janeiro, e eles estavam na região de Attattra, Beit Lahia, noroeste de Gaza, na área da escola americana bombardeada no dia anterior, em que mataram um guarda-noturno civil de 24 anos, destroçando-o, queimando o que restara.

gaza6.jpg

Gemendo de dor, com o pé direito amputado e lacerações de bomba de fragmentação ao longo das costas, de todo o corpo, Thaer Hammad conta como seu amigo Ali foi morto. “Estávamos atravessando a rua, saindo de nossas casas, e aí o tanque disparou. Havia muita gente saindo, não éramos os únicos”. Hammad interrompe seu testemunho, de novo gemendo de dor. Ao longo dos dois últimos dias, desde que a invasão terrestre de Israel e a campanha intensificada de bombardeios começaram, os residentes de toda Gaza têm estado fugindo de suas casas. Muitos não tiveram a chance de escapar, tendo sido pegos dentro de casa, enterrados vivos, esmagados. O médico continua a narrativa: “Depois que foram bombardeados, Thaer não conseguia caminhar. Ele chamou Ali para que o carregasse”. O resto da história é que Ali havia carregado Thaer por alguma distância quando atiraram na cabeça de Ali, bala disparada por um soldado não visto, bem na direção na qual eles fugiam. Ali morto, Thaer ferido, e as pessoas fugindo, a ambulância foi chamada.


Tradução minha de mais um relato em primeira mão que confirma o que já sabemos: no massacre israelense em Gaza, a prática é matar mesmo os civis feridos que estão sendo carregados. O testemunho vem de mais um blog que você deve acompanhar nos próximos dias, enquanto ele dure: In Gaza.



  Escrito por Idelber às 11:31 | link para este post



segunda-feira, 05 de janeiro 2009

Carta aberta de acadêmicos americanos ao Presidente Eleito Barack Obama

Em 1981, quando o Sr. era aluno de graduação no Occidental College, o Sr. esteve entre os primeiros num corajoso grupo de estudantes e professores que, na época em que a causa ainda era impopular ou desconhecida, clamou por desinvestimento do regime de apartheid na África do Sul. O Sr. sabia que era imperativo exercer pressão sobre um regime racista que, sem escrúpulos, oprimia populações negras e de cor que eram discriminadas, submetidas a leis sobre a passagem e ao controle de todos os seus movimentos, picotadas em bantustões e sujeitas a detenção, tortura e execução extra-judicial. Quando a população negra protestava, como as crianças escolares de Soweto, podia ser sumariamente fuzilada pela polícia ou pelo exército. O Congresso Nacional Africano, sob Nelson Mandela, foi proscrito como movimento terrorista, seus líderes foram encarcerados, torturados e assassinados, e suas guerrilhas encararam o poder esmagador do exército da África do Sul, equipado e treinado em parte pelos Estados Unidos e por seus aliados europeus. [...]

Figuras públicas tão distintas como o Bispo Desmond Tutu e o Presidente Jimmy Carter já reconheceram que Israel também é um regime de apartheid, prática se não nominalmente. A Africa do Sul, agora uma democracia multi-étnica em funcionamento, era um estado branco para o povo branco. Israel é um estado judeu para o povo judeu. Seus cidadãos não-judeus, a maioria deles árabes palestinos, são discriminados civil e economicamente de numerosas formas. Às populações palestinas despossuídas, vítimas de limpeza étnica, dispersas na diáspora e nos campos de refugiados de Gaza, da Cisjordânia e do Líbano, nega-se o internacionalmente reconhecido direito de retorno. Eles tiveram suas terras e casas tomadas por força “legal” e armada. São submetidas a punição coletiva, prolongados estados de enjaulamento e controle absoluto e deliberadamente destrutivo de seus movimentos diários. Enquanto a África do Sul instituiu leis de passagem, os postos de controle que proliferaram em toda a Cisjordânia e nas saídas de Gaza impedem que estudantes cheguem a suas escolas, que trabalhadores cheguem a seus lugares de trabalho, que lavradores cheguem a suas plantações, que os doentes cheguem aos poucos hospitais que sobrevivem para servi-los.

Os assentamentos colonizadores ilegais que, em desrespeito a todas as leis internacionais acerca de ocupações, proliferam em toda a Cisjordânia, são feitos para que se tornem “fatos do terreno” permanentes. Eles dividiram o território reconhecidamente palestino em ilhotas segmentadas, em bantustões sitiados, com o intento de impedir um estado palestino contíguo. O assim chamado muro de segurança, ilegalmente construído em território palestino, como reconheceu a própria Corte Suprema de Israel, separou lavradores de suas terras e transformou vilarejos antes prósperos em prisões isoladas. Os bombardeios aéreos e as rotineiras incursões militares israelenses em cidades e campos de refugiados palestinos já mataram incontáveis civis, muitos dos quais crianças. Desde a eleição do Hamas, em eleições abertas e livres, Israel tem sujeitado a população civil de Gaza a um prolongado estado de enjaulamento, com o objetivo de sufocá-la até a submissão, privando-a de água, eletricidade, comida, medicamentos e acesso ao mundo exterior. O ataque mais recente a Gaza, com uso sangrento e desproporcional de força excessiva, não é um ato de auto-defesa, e sim a continuação dramática de uma insidiosa política de extermínio sobre um povo que se recusa a desaparecer.

Cada um desses atos é um crime contra a humanidade.



Esta é uma tradução minha de um trecho da Carta Aberta a Barack Obama intitulada Teachers against the occupation, que assinamos centenas de professores universitários norte-americanos. Entre os signatários estão Gayatri Spivak, Michael Taussig, Paula Rabinowitz e incontáveis outras figuras de ponta em suas respectivas disciplinas.



  Escrito por Idelber às 23:30 | link para este post




Nota sobre a política editorial do blog

Enquanto a situação em Gaza for de massacre do exército invasor israelense sobre a população civil, este blog deverá funcionar como central de tradução e disseminação de textos, vídeos e informações sobre a matança, com um ritmo bem mais acelerado de postagem e caixas de comentários fechadas. Esta última escolha tem sido, com exceções ocasionais, a mais comum neste blog para o tema da Palestina Ocupada. Ela não está em discussão.

O blog recomenda aos que queiram debater o tema aqui num futuro próximo que comecem pela leitura de The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappé, livro que será tratado em edição de fevereiro do Clube de Leituras.



  Escrito por Idelber às 22:38 | link para este post




Um blog de Gaza

Vittorio me disse ontem ... quando lhe perguntei como ele responde à morte ... ele me disse que já não tem lágrimas para chorar ... que suas lágrimas secaram ... olho para ele sentado diante de mim ... um homem bonito de um metro e oitenta ... trinta e três anos ... sua maior preocupação no mundo: salvá-lo e “permanecer humano”, que é como ele termina [Bomba!] cada artigo que escreve ...

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É o relato ao vivo dos horrores perpetrados pelo exército israelense na maior prisão ao ar livre do mundo: Moments of Gaza.

(valeu, Frank).



  Escrito por Idelber às 21:32 | link para este post




"Estão bombardeando 1,5 milhão de pessoas enjauladas"

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(Criança em Gaza. Crédito da foto)


Bombardearam o mercado central de frutas de Gaza ... ao mesmo tempo, bombardearam um prédio de apartamentos ... é tipo o inferno aqui agora ... já são mais de 500 mortos e 2500 feridos, dos quais 50% são crianças ... há feridas que você não gostaria de ver ... crianças chegando com o abdômen aberto ...

Entre as centenas que vimos entrando no hospital, um era militar do Hamas .. qualquer um que queira apresentar isso como uma guerra contra outro exército está mentindo ... é uma guerra total contra a população civil ... eles estão bombardeando 1 milhão e meio de pessoas que estão enjauladas.




Quem fala é Mads Gilbert, médico noruguês que está no meio do inferno em Gaza, dando notícias reais, ao invés de repetir os boletins de imprensa do exército de Israel que vemos na grande mídia.

Aprendam, jornalistazinhos.

(via Juan Cole).



  Escrito por Idelber às 20:23 | link para este post




A paz não passa pelo massacre, por Milton Hatoum

O exército de Israel é suficientemente poderoso para destruir todo o Oriente Médio (e, de fato, também para destruir parte importante do ocidente). O único problema é que, até hoje, jamais conseguiu mandar, sequer, no território em que lhe caberia mandar. O mais poderoso exército do mundo está detido, ainda, pela resistência palestina. Como entender essa contradição?

Bem, para começar, Israel jamais trabalhou para construir qualquer paz com os palestinos; jamais usou outro meio que não fossem os meios do extermínio, da limpeza étnica, do holocausto, para matar as populações nativas e residentes históricas na Palestina, desde a fundação do Estado de Israel, em maio de 1948.

Israel expulsou 750 mil palestinos, converteu-os em refugiados e, em seguida, passou a impedir sistematicamente o retorno deles e de seus filhos (hoje, também, já, dos netos deles), apesar das Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que continuou a destruir cidades e vilas, ou - o que é o mesmo - passou a construir colônias de ocupação sobre as ruínas das cidades e vilas palestinas.

Desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinos. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinos ocupados ilegalmente.

Assim sendo, se a paz implicar - como implica necessariamente - o fim do mini-império construído por Israel, Israel continuará a fazer o que estiver ao seu alcance para que não haja paz, mesmo que a paz lhe seja oferecida numa bandeja, como a Iniciativa de Paz dos sauditas, recentemente, por exemplo. Outra vez, não se entende: se os israelenses só tinham a esperar esse tipo de oferta, se desejassem alguma paz, porque a rejeitaram, praticamente sem nem a considerar?

Faz tanto tempo que Israel rejeita toda e qualquer possibilidade de paz, que a maioria dos israelenses já nem são capazes de ver que rejeitar a paz converteu-se, para Israel, numa espécie de segunda natureza.

Mas o motivo mais aterrorizante pelo qual nenhuma iniciativa de paz jamais teve qualquer chance de prosperar tem a ver, de fato, conosco, com o ocidente.

Israel continua a ser apoiada pelas democracias ocidentais como uma espécie de força delegada, como batalhão ocidental avançado, implantado na entrada do mundo árabe, mais indispensável, tanto quanto mais dependente do ocidente, que regimes-clientes, como os sauditas e como o Iraque de Saddam até 1990.

Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Isso já era verdade há décadas, mas jamais foi mais verdade do que na última década, quando a Ordem do Novo Mundo entrou em crise terminal, e começou-se a ouvir falar da "Doutrina do Choque", de "Choque e Horror", de várias 'operações' tempestade contra os desertos da Ásia e sempre contra os islâmicos.

Israel, não o Iran, possui armas nucleares e é capaz de usá-las - e várias vezes já ameaçou usá-las. Mas fala-se como se o perigo viesse do Iran, não se Israel. Os que propõem a destruição do Iran são os mesmos mercadores de tragédias que impingiram aos EUA e à Inglaterra o custo altíssimo da guerra do Iraque.

Quem escreve é Haim Bresheeth, professor titular de Estudos sobre Mídia na Universidade de East London, citado pelo mais premiado escritor brasileiro contemporâneo, Milton Hatoum.



  Escrito por Idelber às 18:59 | link para este post



terça-feira, 30 de dezembro 2008

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

avnery-arafat.jpg As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.

b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.

c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.

d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo).

e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.

f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.

h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14) A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.


(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).



  Escrito por Idelber às 00:29 | link para este post | Comentários (66)



segunda-feira, 29 de dezembro 2008

300 mortos e 1000 feridos em Gaza: Israel continua assassinando e os líderes mundiais se calam

A chacina começou a ser preparada há seis meses. Isso, por si só, desmantela qualquer uma das desculpas usadas por Israel para justificar o pior massacre da história de Gaza, desde o começo da ocupação ilegal da Palestina, em 1967. Enquanto durou a “trégua” (entendam as aspas: trégua na Terra Santa significa que os palestinos continuem vivendo calados, sem reagir, numa realidade de ocupação militar brutal, demolições de casas, cerco naval, terrestre e aéreo de Gaza, checkpoints humilhantes, colonização constante de suas terras na Cisjordânia, espancamentos em mãos de colonos fortemente armados, monopolização dos recursos hídricos, proibição de observadores internacionais etc.), Israel teve várias oportunidades de suspender o verdadeiro crime de guerra que é o bloqueio à entrega internacional de alimentos e remédios aos habitantes de Gaza. Quatro de cada cinco habitantes de Gaza dependem dessas entregas para sobreviver. Somente durante essa “trégua”, dezenas de palestinos foram assassinados por Israel.

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A estratégia é conhecida: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero e à destituição para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Afinal de contas, há eleições em Israel em fevereiro e, no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis. Antes, os “terroristas” com os quais não se podia negociar era a OLP (atual Fatah), excluídos por Israel e pelos EUA da última rodada de conversações de paz que tiveram alguma chance real, as de Madri em 1991. Agora, o “terrorista” da vez já não é o humilhado Fatah, mas o Hamas. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.

O crime israelense foi perpetrado na hora do rush, em que as crianças ainda não haviam voltado da escola. Bombardearam até a universidade. Tudo cuidadosamente planejado para matar o maior número de gente possível. O máximo que os jornalistazinhos conseguem dizer sobre a chacina -- com honrosas exceções -- é que se tratou de uma “reação” “desproporcional”. Eis aqui a "reação desproporcional" (vejam depressa, porque há uma verdadeira operação de censura sionista sobre o YouTube; vários vídeos já foram retirados):

Na Síria, na Turquia, no Líbano, na Indonésia, até em Londres, aumenta a cada dia a revolta contra os repetidos massacres que sofre o povo palestino. A cada dia, fica mais longe a solução biestatal com que a comunidade internacional e os palestinos já concordaram há tempos: uma partilha ao longo das fronteiras de 1967, que desse aos palestinos o direito de viver em 22% da sua terra original. O crime não é somente contra os palestinos. É também – não se iludam, jornalistazinhos que racionalizam cada chacina sionista – um crime contra as crianças israelenses, pois não há ocupação colonial que dure para sempre. Israel tem hoje todas as cartas na mão, dada a esmagadora diferença de forças.

Mas são 7 milhões de israelenses, dos quais 20%, árabes, jamais defenderiam o estado sionista. Em volta dele, 1 bilhão de muçulmanos. Essa irresponsabilidade do país que se recusa a ser adulto ainda custará muito caro a toda a humanidade.

Porque a vingança virá.

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(crédito das fotos)

Este blog considera que o jugo criminoso sob o qual vive o povo palestino é a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Ela tem ramificações em todas as facetas da política internacional. É importante se informar sobre ela. Aqui vão alguns links, infelizmente quase todos em inglês.

Para uma documentação diária dos crimes perpetrados pela ocupação militar, acompanhe o International Middle East Media Center. Também é possível ter notícias diárias do horror no Palestine Information Center. Para uma coleção atroz de vídeos dos massacres em Gaza, consulte o Israel's Crimes e o Palestine Video. Se você quer dedicar 50 minutos a se informar sobre a catástrofe palestina, assista ao imperdível filme Palestine is still the issue. Para ler depoimentos terroríficos sobre o cotidiano em Gaza e na Cisjordânia ocupada, assine o feed do Electronic Intifada. No Facebook, você pode demonstrar solidariedade e ouvir um pouco das histórias dos palestinos que resistem à ocupação, trocando a foto do seu perfil, por alguns dias, por essa aqui, cuja inscrição em árabe diz "somos todos Gaza". Se você é membro de alguma associação profissional, confira se ela já faz parte do boicote a Israel. O boicote foi uma arma poderosa contra o Apartheid sul-africano e é um dos poucos instrumentos que temos para ajudar aos que lutam contra a infinitamente mais perversa ocupação sionista.

O blog se despede por 2008, promete para fevereiro, em data a se confirmar, um debate sobre o livro de Ilan Pappe, The Ethnic Cleansing of Palestine, confirma a reabertura da caixa de comentários no próximo post e deseja aos seus leitores um feliz, ou pelo menos tolerável, 2009.


Atualização: em português, leia, no Amálgama, a entrevista com Amira Hass e A "força" do inimigo de Israel, de Márcio Pimenta, e A "transferência compulsória" palestina, de Daniel Lopes.

Atualização II: Na chamada "blogosfera progressista" norte-americana, nem uma palavra. Silêncio sepulcral, com uma ou outra exceção.

Atualização III: Além, claro, do perene ponto luminoso que é o blog, não de um jornalista, não de um militante, não de um "blogueiro profissional", mas de um acadêmico: Professor Juan Cole, que há tempos esmiuça, estuda, traz informação nova, escreve com lucidez e sabe do que fala. Não é somente um leitor competente do "árabe" em geral, mas falante proficiente de três de suas variantes dialetais. Ler os arquivos do Informed Comment, nos dias de hoje, é instrutivo, revelador.



  Escrito por Idelber às 03:49 | link para este post



sexta-feira, 14 de novembro 2008

Balanço das atrocidades israelenses da semana

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Acordei com os gritos da minha mãe: “Levanta! Levanta! O exército está aqui!” Meu pai não estava em casa naquela noite [...] Dois soldados me pegaram e me levaram para fora. Aí eu vi que queriam me prender. Fiquei com medo, comecei a chorar e chamei meu tio para ir comigo.

Os soldados algemaram minhas mãos com algemas de plástico, o que doeu muito. Um soldado me agarrou pela camisa e começou a andar e me empurrar. A camisa apertava meu pescoço e eu não respirava direito. Tentei me liberar e ele me deu um soco nas costas e apertou mais a camisa, me sufocando ainda mais. Outro soldado me socou também e puxou meu cabelo quando andávamos. Chorei e gritei por meu tio e meu pai. Os soldados me batiam e diziam “quieto, quieto!” Me levaram para um beco entre as casas, onde há cactos. Estávamos andando perto de uns cactos quando um soldado me empurrou sobre eles. Os espinhos me cortaram nas mãos e nas pernas. O soldados continuaram me empurando e batendo ao longo do caminho.

Segue por um bom tempo o inferno vivido por Muhammad Salah Muhammad Khawajah, garoto de 12 anos espancado e detido pelas forças de ocupação israelense recentemente em Nilin, Distrito de Ramalá, Palestina Ocupada. 12 anos de idade: arrancado de dentro de sua própria casa.

Que não se perca de vista, em nenhum momento, um fato que está amplamente documentado. Se você não está ouvindo falar de Israel na imprensa, o mais certo é que continua a rotina de assassinatos, demolição de casas, violência contra crianças, anexação de terra palestina com o muro, bloqueio naval e terrestre, humilhações nos postos de controle que picotam e enjaulam a terra palestina, agressões e encarceramentos de deputados e observadores internacionais e agora, incrivelmente, a proibição da entrega de comida. Como uma espécie de gang adolescente birrenta e agressiva que se vê de posse de granadas e metralhadoras semi-automáticas, Israel vai desrespeitando, uma por uma, todas as leis internacionais que regulam a convivência com os vizinhos. Violam, inclusive, em níveis inimagináveis, as convenções humanitárias que regem o próprio conceito de ocupação colonial.

É um exemplo inaudito de um estado criminoso o suficiente para não caber nem mesmo no padrão humanitário internacionalmente recomendado às potências coloniais ocupantes. Em meio a tantos crimes, encontra tempo para censurar contatos diplomáticos feitos pela soberana República Federativa do Brasil.

Em Gaza, Israel vai pouco a pouco esmagando a população de 1,5 milhão de palestinos com o fechamento das fronteiras terrestre e marítima, disparos contra barcos de pescadores, proibição da entrada de víveres e séries intermitentes de atos de sabotagem econômica e assassinato político. Um cotidiano de terror vai criando desnutrição, desemprego e desespero. O especialista Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, qualifica a situação atual de 3 milhões de palestinos como de escravidão e o bloqueio de comida como crime de guerra.

Se de ética se trata, que fique dito: a ocupação e a escravidão vividas pelo povo palestino representam a questão moral incontornável do nosso tempo. Sem uma solução que termine de vez com a ocupação israelense e garanta ao povo palestino um estado contínuo e viável nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, as de 1967, não há vislumbre de paz duradoura para o planeta.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (54)



quarta-feira, 09 de julho 2008

Forças israelenses espancam e torturam jornalista premiado

Um dos mais admirados jovens jornalistas do Oriente Médio, Mohammed Omer, correspondente da Inter Press Service na Faixa de Gaza, viajou na semana passada para a Europa, onde recebeu o prestigioso prêmio Martha Gellhorn de jornalismo pelo seu trabalho. Além de receber o prêmio em Londres, Omer falou nos parlamentos grego, sueco e holandês. Sua viagem foi auspiciada pelo Washington Report e os trâmites para sua saída de Gaza foram feitos pela embaixada holandesa em Tel-Aviv.

Ao voltar para casa, escoltado por diplomatas holandeses, Omer teria que cruzar a fronteira jordaniana com os Territórios Ocupados da Cisjordânia, para depois enfrentar o infernal percurso de volta a Gaza. Mesmo tendo passado pelo Raio-X das forças de ocupação, Omer recebeu ordens de se despir. Depois de revisar todos os papéis que ele trazia e de fazer piadas com as cartas que ele recebeu de seus leitores na Inglaterra, as forças de ocupação arrancaram sua cueca à força e jogaram-no ao chão. Perguntaram-lhe por que trazia perfumes e, ante a resposta de que eram presentes para pessoas que ele amava, um oficial israelense retrucou: vocês têm amor na sua cultura? Já com Omer totalmente pelado, as forças de ocupação o obrigaram a dançar. Tanto o insulto à sua cultura como essas formas de humilhação são diariamente usadas pelas forças israelenses contra os palestinos. A única diferença é que Omer é conhecido, e desta vez a história vazou.

Nesse ponto, com Omer chorando e pedindo clemência, oito oficiais israelenses armados procederam a uma sessão de torturas que incluiu não só insultos e piadas como agressões ao seu rosto, pancadas que fraturaram algumas de suas costelas e pisoteios enquanto ele permanecia no solo. Omer desmaiou e só acordou horas depois num hospital palestino. Enquanto isso, o embaixador sionista à Grã-Bretanha reclamava que os britânicos não apreciam a "democracia" israelense e as forças de ocupação soltavam um comunicado dizendo que Omer havia "perdido o equilíbrio" durante um interrogatório.

As forças de ocupação israelenses já assassinaram muitos jornalistas que ousaram produzir informação independente sobre a realidade da Palestina. As torturas a Omer continuam, sem dúvida, esse paradigma. Se você entende inglês e tem estômago, pode ouvir a entrevista concedida por Omer no leito do hospital. Enquanto isso, os massacres israelenses contra os civis de Ni'lin, vila próxima a Ramallah, entraram em seu quarto dia. Alguma notícia na imprensa? Não vi.

É o país mais detestado do planeta, continuando sua obra.



  Escrito por Idelber às 05:02 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 24 de maio 2008

Norman Finkenstein preso e deportado por Israel

O intelectual e acadêmico norte-americano Norman Finkenstein, um dos mais enfáticos críticos da ocupação israelense da Palestina, foi preso e deportado ao chegar ao aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, na sexta-feira, a caminho dos territórios ocupados. As notícias que chegam de várias fontes afirmam que foi dito a Finkenstein que ele está banido de Israel por 10 anos.

Finkenstein é filho de sobreviventes do Holocausto e defensor de uma solução bi-estatal para o conflito no Oriente Médio. Apesar de ser autor de vários livros e reconhecidíssimo como cientista político, Finkenstein foi demitido da Universidade DePaul, em Chicago, no ano passado, depois de intensa campanha do lobby pró-ocupação.

(obrigado, Márcia)



  Escrito por Idelber às 16:58 | link para este post | Comentários (41)



quinta-feira, 22 de maio 2008

Desafiando a ocupação militar israelense, Festival Literário foi um sucesso

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Foi um sucesso o Festival Literário da Palestina, organizado por um grupo de escritores liderados pela anglo-egípcia Ahdaf Soueif. Reconhecendo as dificuldades de locomoção dos palestinos, vítimas há 40 anos da mais brutal ocupação militar da era moderna, o festival viajou pela Cisjordânia e por Jerusalém. Num admirável gesto, os escritores se recusaram a utilizar as estradas exclusivas de turistas e israelenses. Optaram por fazer o percurso a que são obrigados os palestinos (sim, o Apartheid israelense introduziu esta novidade desconhecida até mesmo na velha África do Sul e no Jim Crow americano: as estradas segregadas). Em todas as cidades, os eventos foram assistidos por grande público.

No primeiro dia, os escritores foram detidos durante três horas pelas forças de ocupação israelenses na fronteira da Jordânia com a Palestina. Depois de liberados, encontraram casa lotada à sua espera em Dar-el-Tifl, Jerusalém. O tema do primeiro dia foi “viagens”. Will Dalrymple fez um relato de suas jornadas pela Palestina, enquanto Hanan al-Shaykh arrancou boas risadas do público, demonstrando mais uma vez por que é uma das escritoras favoritas entre os palestinos. No segundo dia, a Universidade Birzeit, em Ramallah, também teve casa lotada para a comunicação de Victoria Brittain, que fez leitura de Enemy Combatant, seu livro em co-autoria com Moazzam Begg sobre o encarceramento deste último em Guantánamo. A leitura de Pankaj Mishra lidou com tensões raciais na Índia e no Paquistão, enquanto Ahdaf Soueif falou sobre o colonialismo inglês no Egito. Depois de um workshop com alunos e uma reunião com escritores palestinos, o Teatro Kasaba também lotou para a sessão da noite em Ramallah.

Na estrada para Hebron, os escritores tiveram que passar duas vezes pelas jaulas metálicas dos postos de controle da ocupação que, às centenas, picotam toda a Palestina, separando cidades, vilas, famílias. Num dos postos, viram uma mulher palestina chorando, bebê ao colo, levando o marido doente, com tubos pelo corpo. Eles haviam sido barrados pelas forças de ocupação. Não havia nada, evidentemente, que os escritores pudessem fazer por ela. Em Hebron, os autores puderam ver a cena terrorífica que são os habitantes dos assentamentos israelenses ilegais fazendo jogging com suas AK-47 penduradas, em constante provocação. Nesse momento, alguns escritores já tinham que se afastar, em meio a crises de choro. O relato de Ahdaf é que, nessa noite, os poemas de Suheir Hammad, escritos para o povo palestino, ecoaram com muita força entre as centenas de assistentes.

Ao longo da peregrinação, os escritores foram aprendendo a “ler” o espaço e a entender a lógica que preside a construção dos fortemente armados assentamentos ilegais de israelenses, que já roubam 40% do território da Cisjordânia. No topo de um monte, uma enorme construção bloqueia o acesso dos habitantes do vilarejo palestino de Silwan a Jerusalém Oriental. Quando as escritoras Esther Freud e Hanan al-Shaykh decidem fazer uma caminhada até o hotel, são cercadas por cães treinados pelas forças de ocupação israelenses e logo avisadas pelos soldados que elas haviam sido observadas e poderiam ter sido fuziladas.

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Roddy Doyle, Ahdaf Soueif, Hanan al-Shaykh, Jamal Mahjoub e Nathalie Handal foram as estrelas do quarto dia do evento, que se realizou na Universidade de Belém. Nathalie falava em sua cidade natal. Depois do evento, o Reverendo Mitri Raheb levou os escritores para uma visita ao Muro do Apartheid, que enjaula Belém por três lados diferentes. Estrangulada pelo muro, Belém vive situação crítica e todos os relatos são de que o evento foi muito importante, simbolicamente, para a cidade. Antes do retorno a Jerusalém, os escritores puderam ver as casas em que as famílias palestinas que se recusaram a sair passaram a ter que acessar pelas janelas, proibidos que foram de entrar pela porta da frente. Também viram as casas que seus donos são proibidos de trancar, posto que são invadidas diariamente entre a meia-noite e as 3 da manhã para que os soldados israelenses “chequem” seus moradores.

O quinto e último dia do evento lotou o Teatro Nacional Palestino. Desta vez, os visitantes foram acompanhados por Raja Shehadeh, escritora e advogada palestina que acaba de receber o Prêmio Orwell pelo seu livro Palestinian Walks: Notes on a Vanishing Landscape. Depois das leituras e palestras literárias, apresentou-se o Yasmeen, um grupo do Conservatório Nacional de Música Edward Said. O vocalista e alaudista do grupo não pôde ir, aprisionado num posto de controle da ocupação militar israelense. Num final emocionado, Ahdaf Soueif se juntou aos outros escritores no palco, enquanto Hanan al-Shaykh lia a última carta de seu sogro, enviada 10 dias antes de que os israelenses o assassinassem.

PS: Mais informações (em inglês) no site do Festival e no artigo de Ahdaf Soueif para o Guardian. As fotos que ilustram o post são de Jamie Archer. A primeira mostra a Universidade Birzeit durante o evento. A segunda mostra o grupo de escritores ao lado do Muro do Apartheid.

PS 2: Não perca a entrevista do Monde Diplomatique com Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina (o envio do link foi cortesia do amigo – e, na minha opinião, maior prosador brasileiro vivo – Milton Hatoum).



  Escrito por Idelber às 23:26 | link para este post | Comentários (8)



terça-feira, 11 de março 2008

Clube de Leituras: The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappe

pap%3Dcle.jpg Aqui vai o convite para a próxima edição do Clube de Leituras. A partir do duro debate que ocorreu aqui na semana passada, eu e Pedro Dória nos unimos para patrocinar juntos uma conversa sobre uma obra capital: The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador israelense Ilan Pappe. Trata-se de uma reconstrução meticulosa dos eventos de 1948 na Palestina. Na verdade, Pappe volta até a década de 1920, na Europa e no Oriente Médio, para explicar as raízes da situação que se vive hoje.

Não se trata, nem de longe, de um texto “militante”. É o trabalho paciente de um historiador que dedicou décadas à tarefa. Pappe tem, em relação a outros historiadores que trataram do tema, algumas vantagens. Em primeiro lugar, ele lê árabe. Ou seja, teve condições de manejar fontes não só de seus compatriotas israelenses, mas também documentos produzidos por outras partes envolvidas no evento. Em segundo lugar, trata-se um profissional com formação em “história oral”, ramo da historiografia que é complexo e exige treinamento específico. Pappe se dedicou a rastrear fontes orais que contaram uma parte da história que jamais havia acedido, em tanto detalhe, ao registro escrito.

Pois bem, o Biscoito e o Pedro Dória os convidam para uma discussão sobre este livro no dia 05 de maio, 09 de junho segunda-feira. Evidentemente, o livro está em inglês. O que posso dizer é que o inglês de Pappe é cristalino, fácil de entender. A obra custa US$ 16.50 na Amazon, o que, com a queda do dólar, termina não sendo tão caro assim.

É claro que não é uma discussão fácil de se moderar. Sei dos riscos que estou correndo ao propô-la – a destruição, o fim puro e simples do Clube de Leituras é um deles. Mas acho que vale a pena corrê-los. A única regrinha é que tem que ler o livro. Pois bem, quem está disposto a investir trinta reais e algumas horas de leitura em inglês para participar dessa conversa? Vocês teriam quase dois três meses para fazer o pedido e a leitura. Quem se aponta? Há algum outro blogueiro que gostaria de nos ajudar a divulgar?

PS: O Odisséia Literária, do meu amigo Leandro Oliveira, está de belíssima casa nova.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (48)



segunda-feira, 03 de março 2008

Adendo ao post anterior

O Pedro Dória escreveu uma resposta ao meu post anterior. Resposta leal, do jogo. Eu poderia rebater, mas acho que não é o caso neste momento. Aos amigos que andam escrevendo, preocupados, um aviso: eu e o Pedro estamos em contato por email e a amizade é inabalável. Fiz o que fiz porque: 1) Acho que determinadas coisas devem ser ditas e há muito pouca gente dizendo-as. 2) Não acredito nessa hipocrisia que se vê em alguns blogs, do tipo “tem gente aí que diz que”. Não. Aqui só há crítica com nome e link. 3) Eu sabia que o Pedro, velho veterano da Internet e de muitos debates, tinha como se defender. Ele tem um blog com mais visitas que o meu, acesso à mídia etc. Eu não pegaria um blog que está começando para soltar um rojão desses. Mas é verdade o que ele diz: eu não o avisei. Planejei fazê-lo, mas não o fiz. Deveria tê-lo feito, porque realmente não deve ser bom acordar e ver de surpresa um chumbo grosso desses vindo de um amigo.

Dito tudo isso, vamos à frase mais polêmica: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar . O Pedro, e outros leitores, me apontaram um contexto em que isso seria ele atribuindo esse raciocínio ao Hamas. Eu, lendo de boa fé, interpretei de outra forma. Muita gente interpretou como eu. Outros não. Mas aceito a palavra do Pedro e substituo a acusação de que a frase é racista pela acusação de que ela contém, além da ambigüidade, uma generalização que é de um simplismo atroz. Se há algo que ninguém anda em condições de ensinar na Palestina hoje é a “não se preocupar” -- vivendo ou morrendo. Enfim, debater essa frase já não importa.

De resto, mantenho tudo o que disse lá, sobre todos os outros trechos. A “sensatez”, às vezes, pode confundir-se perigosamente com a cumplicidade. Neste assunto – eu sou o primeiro a reconhecer –, não estou disposto a exercitar a ponderação, mesmo tendo feito tantos chamados a ela em posts recentes. A diferença, para mim, é que aqui há algo da ordem da lesa-humanidade.

O Pedro diz que jogou a toalha com o tema. Confio e espero que seja uma decisão temporária, já que Pedro é um dos brasileiros mais bem informados sobre a região. Eu lho disse pessoalmente. Mas também lhe disse que, freqüentemente, ele transmite a mim e a muitos outros a sensação de que já perdeu totalmente a sensibilidade ante o sofrimento palestino.

PS: Aqui você pode atacar (ou defender, lógico) qualquer coisa que o Pedro escreveu. Não pode atacá-lo na sua integridade profissional. Confio que todo mundo seja capaz de estabelecer a diferença.

Atualização
: Releia-se o que eu escrevi no post anterior sobre punhetagem metalingüística. Agora observem a caixa de comentários. Acompanhem a discussão movendo-se totalmente na direção do debate sobre a interpretação de uma frase, de tal forma que desaparece qualquer referência aos 100 cadáveres palestinos. Cem, não. Já são 110 confirmados. Eram 100 quando escrevi o post. Saberá Ogum quantos são agora.



  Escrito por Idelber às 21:43 | link para este post | Comentários (23)




100 palestinos mortos; comentário sobre algumas racionalizações do massacre

Num post cheio de justificativas e racionalizações para os massacres israelenses, Pedro Dória escreve (todas as citações são tiradas do post e vão em itálicos):

1) os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. É inacreditável que um jornalista continue reproduzindo essas grotescas caricaturas racistas. A cada chacina perpetrada por Israel, aparecem na mídia essas generalizações sobre os árabes. Os árabes não gostam de sangue e sacríficio mais que qualquer outro grupo humano. Submetidos a décadas de humilhações, invasões e ocupações, reagem como qualquer outro grupo humano, ou seja, num leque de alternativas que vai desde a violência suicida mais desesperada até a perda completa da capacidade de ter esperanças. Os africanos não gostam de matar suas crianças mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis africanos e afrodescendentes recorreram ao infanticídio como forma desesperada de tentar salvar seus filhos do opróbrio da escravidão. Os indígenas da Mesoamérica não gostam de se suicidar mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis mexicas, toltecas e chichimecas recorreram ao suicídio como forma de fugir dos horrores da colonização espanhola. A idéia de que “os árabes cultuam o martírio” é nada mais que isso: um estereótipo racista. Em incontáveis conversas com amigos árabes, escutei sempre, invariavelmente, a mesma história: “por que não nos percebem como humanos? Por que achariam que vamos viver contentes sob botas estrangeiras dentro da nossa própria casa? Vocês viveriam?”

2) a estúpida comparação de Israel com o nazismo [.....] Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Sinceramente, os defensores das chacinas de Israel têm que parar com essas brincadeirinhas de semântica. Acho obsceno que alguém escreva isso sobre 100 cadáveres palestinos num fim de semana, incluídos aí os de dezenas de crianças e bebês. Veterano de vinte e cinco anos de discussões com os que racionalizam cada crime de Israel, já está, para mim, cristalina a conclusão: não querem dialogar coisa nenhuma. Querem criar uma perene punhetagem metalingüística que vai se arrastando até que se perde completamente o horizonte da inadmissibilidade moral da coisa. Holocausto não pode, menção ao nazismo não pode (a não ser que seja para justificar os crimes de Israel, claro), chacina não pode, matança não pode. Só pode aquele delicioso termo: ato de auto-defesa. Até que a última criança palestina seja esmagada por um tanque israelense subsidiado pelos meus impostos, haverá alguém para dizer Israel tem o direito de se defender -- como, aliás, escreveu o Pedro quando Israel esmigalhou o sul do Líbano com bombas em julho de 2006, destruindo o renascimento cultural e turístico pelo qual passava o país.

3) O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O cinismo do argumento é de embrulhar o estômago. A imprensa israelense cansou-se de noticiar que o Hamas propunha, implorava mesmo, por um cessar-fogo incondicional dos dois lados, sem que nenhuma das reivindicações palestinas sobre o seu território fossem cumpridas como pré-condição. O Hamas não tem chance nem de sonhar com a destruição de Israel. Só por má fé pode se negar este fato. Israel continua com suas chacinas em Gaza não porque o Hamas ainda não tenha feito uma cerimônia em que solemente escrevesse em seus estatutos que reconhece o estado judeu. As chacinas continuam por um cálculo das forças políticas que governam Israel. Sabem que podem fazê-lo, sabem que a comunidade internacional vai se calar, sabem que os EUA vão repetir a cantilena de que “Israel tem o direito de se defender” e sabem que os palestinos não têm como evitá-lo. Trata-se de um cálculo, a longo prazo, suicida – na minha opinião e na opinião de 64% dos israelenses. Mas isso não impede que os massacres sigam acontecendo. Àqueles que os racionalizam, não custa lembrar uma lei inexorável da história: nenhuma ocupação colonial dura para sempre.

Aliás, a justificativa para a recusa a se negociar com o Hamas é de um cinismo atroz. O Hamas foi incentivado politicamente por Israel na época em que a OLP (Organização para a Libertação da Palestina, precursora do atual Fatah) era a inconteste representante do povo palestino, com legitimidade não questionada. Naquela época, Arafat e a OLP é que eram os "terroristas". Depois que a representatividade do Fatah já está reduzida a frangalhos -- porque afinal de contas, a crença de qualquer ser humano na moderação vai se esvaindo quando décadas passam e você continua vivendo sob ocupação estrangeira tão brutal --, é a vez do Hamas ter que ser desqualificado como possível parceiro na mesa de negociação. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.

4) não adianta permanecer voltando a 1948. Outra afirmação recorrente entre os defensores das chacinas de Israel. Não voltar a 1948, claro, é uma forma de perpetrar o mito de que "os árabes começaram a guerra"; é uma forma de esconder que o estado de Israel deve sua fundação a organizações terroristas; é uma maneira de mascarar a gigantesca dívida com a população palestina, expulsa de suas casas, desumanizada e humilhada para que o Ocidente pudesse aplacar a culpa pelo Holocausto. Via de regra, não acredite em ninguém que queira discutir um fenômeno histórico propagando a ignorância de suas origens.

5) Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. A frase é a insensatez em pessoa. Ante chacina após chacina, ante massacre após massacre, o menos sensato que se pode dizer é que “ambos têm toda a razão”. São 4 décadas de ocupação ilegal dos territórios palestinos na Cisjordânia (e 37 anos de ocupação de Gaza, seguidos por três anos de bombardeios, incursões, retenção de fundos, cortes de energia e um verdadeiro inferno na faixa “desocupada”). Isto é somente 22% do território palestino original. O único que pede o povo palestino é o direito de viver em paz nestes 22% reconhecidos como seus pela comunidade internacional, depois que os outros 78% já foram roubados. Imagine você, amigo paulistano, tendo que fazer fila, apresentar documentos, ser humilhado e detido a qualquer momento por um exército estrangeiro cada vez que quisesse atravessar a Avenida Paulista. Imagine, conterrâneo, ver compatriotas grávidas morrendo na fila de barreiras militares estrangeiras na Avenida Afonso Pena, porque não foram liberadas pelo exército estrangeiro ocupante a tempo de ir ao hospital. Agora imagine que cenas como esta:

060b.jpg

ou esta:

P31.jpg

ou esta:

P30.jpg

se repetem diariamente nos checkpoints da Palestina. Agora imagine isso durante quarenta anos consecutivos. E aí você começará a ter uma idéia do que é a vida palestina sob a ocupação, desde que não se esqueça, claro, de que junto com os checkpoints vêm os bombardeios, demolições de casas, assassinatos e o silêncio cúmplice da comunidade internacional, pontuada pelo papagaio da vez na Casa Branca repetindo que "Israel tem o direito de se defender". Sim, este blog considera que querer ver "os dois lados" nesta questão é rigorosamente análogo a escrever a história do massacre de Pizarro no Peru "tentando ver os dois lados", a relatar os horrores das senzalas "tentando ver os dois lados" e, sim senhor, contar a história do massacre alemão sobre os judeus tentando "ver os dois lados". Todos estes fenômenos históricos são bastante diferentes entre si. Idêntica é a imoralidade de quem os quer justificar com uma pseudo-ponderação balanceada.



PS: O Biscoito Fino e a Massa entende que os direitos sobre quaisquer imagens que documentem a chacina que sofre o povo palestino são de domínio público, pois elas configuram testemunho de crime lesa-humanidade.

PS 2: Ao contrário do que tem sido a política editorial do blog quanto à Palestina ocupada, a caixa de comentários está aberta e o leitor está convidado a escrever. Os comentários serão moderados. Quem quiser, pode redigir com calma: no final da manhã aqui, começo da tarde aí no Brasil, eu poderei liberá-los.



  Escrito por Idelber às 05:17 | link para este post | Comentários (83)



sábado, 01 de março 2008

A quatro garotos

O Galo aos sábados faz um intervalo hoje em memória dos quatro garotos palestinos assassinados por Israel quando jogavam futebol. Enquanto continuam os massacres em Gaza e Israel consolida sua posição de país mais detestado do planeta, deixo-os com uma foto assombrosa tirada recentemente em Hebrom, na Cisjordânia, Palestina Ocupada.

child.jpg

O Biscoito reabre a caixa de comentários no próximo post.



  Escrito por Idelber às 04:03 | link para este post



quinta-feira, 07 de fevereiro 2008

Só um link

Hoje, só um convite: dediquem o tempo que passariam aqui a ler os posts atuais e os arquivos de um extraordinário blog: Palestina do espetáculo triunfante.

Não dá para descrever. Tem que ler. Aos poucos. Sem pressa. Com calma. Vai lá.



  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (8)



quinta-feira, 20 de julho 2006

A Basel Irmad Termos, pela vida que não foi

lebanon-2.jpg

Basel Irmad Termos, o garoto paranaense de 7 anos assassinado no Líbano por um míssil israelense, caiu na vala daquelas vítimas desafortunadas: as vítimas da máquina de guerra israelense, sobre as quais pesa sempre um poderoso intedito. É preciso não falar muito. É preciso não assinalar, para a consciência culpada do Ocidente, que o Estado criado para aplacar a culpa transformou-se num gigantesco monstro bélico, que dá passos acelerados para igualar o monstro bélico original, aquele à raiz do qual esse próprio Estado foi criado. Ah, as amargas ironias da história.

Sobre as vítimas palestinas, já estamos acostumados a silenciar: eles são sempre suspeitos de “terrorismo,” como se alguma vez algum poder de ocupação colonial moderno houvesse inventado rótulo diferente para suas vítimas. Como se outro nome tivessem recebido os argelinos que lutaram contra a ocupação colonial francesa, como se outro nome tivessem recebido os que lutavam contra o Apartheid. Dessas vítimas, recusam-se até obituários com nome completo, idade, residência, causa e data mortis. Elas são as vítimas silenciadas para que o Ocidente continue mantendo o aplacador de sua consciência culpada que atende pelo nome de Israel.

beirut family.jpgFilhos se separam da mãe em Beirute. Foto: NYT.


Quando Israel saiu da faixa de Gaza, a canalha saudou o gesto de “nobreza” do verdugo, mais ou menos como o colaboracionista pronto para beijar as botas do oficial nazista que lhe permita lustrá-las depois; como se “nobreza” houvesse em terminar de criar o maior campo de concentração a céu aberto do mundo, com direito a checkpoints humilhantes, ausência de toda autonomia - da hidrográfica à fiscal – e ocasionais bombardeios, tudo isso numa faixa de terra sobrepovoada e submetida a décadas de ocupação.

Sobre as vítimas libanesas – em todas partes, mas muito especialmente em São Paulo – haverá o que dizer, oxalá: são 6 milhões de descendentes no Brasil. Quantos deles estarão em pânico de que um ser amado seja o próximo Basel Irmad Termos? Lembro-me vividamente de muitos deles, quando visitei São Paulo durante a última hecatombe promovida por Israel no Líbano, no começo dos anos 1980. Lembro-me do horror e do medo.

Quantas centenas de vítimas tomadas de surpresa por este bombardeio criminoso, este verdadeiro ato de terrorismo de estado? Quantas escolas, pontes, comércios, vidas, esperanças, futuros destruídos para que Israel prove que mata e faz prisioneiros, mas não os troca? É um curioso mundo, este em que dois soldados seqüestrados não podem ser trocados por prisioneiros políticos, mas a vida de centenas de civis inocentes e o futuro de milhões podem ser descartados e aniquilados no apertar de um botão – desde que sejam as vidas dos outros, deles, os árabes, os palestinos, os libaneses, os iraquianos, os que são sempre suspeitos de “terrorismo.”

Sim, porque dia haverá, parece, em que Israel bombardeará um vizinho porque este não bloqueou suficientemente o fornecimento de estilingues para as crianças palestinas refugiadas e famintas.

E a canalha continuará dizendo que “Israel tem o direito de se defender.”

PS: Amanhã reiniciam-se os posts com caixa de comentários aberta. O de hoje exerce o seu direito de não convidar discussão, apenas luto.



  Escrito por Idelber às 03:45 | link para este post



domingo, 03 de abril 2005

Drops

cortazar.jpg

Este blogueiro volta à estrada: na quinta-feira pego o avião rumo a Rutgers University, estado de New Jersey, para dar uma palestra sobre Julio Cortázar. Celebram-se 20 anos da morte do grande contista argentino e Rutgers desafiou o blogueiro a dizer algo novo sobre a figura. Vocês sabem quanto já foi escrito sobre Cortázar? Uns 87 livros e 342 artigos. Com vocação irreversível para palhaço, o blogueiro aceitou o desafio de dizer algo novo sobre Cortázar, nesta sexta-feira em Rutgers. Tenho idéia de por onde começar? Ainda não. Ao longo da semana vocês compartilharão a angústia.

Basquete universitário: minha querida Universidade da Carolina do Norte massacrou nas semifinais e joga a finalíssima na segunda-feira, por coincidência contra a Universidade de Illinois, primeiro lugar onde trabalhei. Meu bróde véio e blogueiro favorito Michael Bérubé, que torce por Illinois e com quem eu trabalhei lá, encarou uma aposta na quinta e confirmou-a esta noite: se Illinois ganha a final contra Carolina, eu lhe envio a mesma compilação de 120 canções brasileiras em 6 CDs que eu sorteei aqui no Biscoito. Se Carolina ganha, eu recebo de presente exemplares autografados de Aesthetics of Cultural Studies (a nova coleção de ensaios que anfitriona Michael sobre o estudo da cultura) e Life as we Know It – a linda história da relação de Michael com Jamie, seu segundo filho, que nasceu com Síndrome de Down, e que levou o pai a ler tudo que havia sobre o assunto e a transformar-se numa das grandes autoridades do campo conhecido como "disability studies". Então está rolando a aposta. O jogo é segunda à noite e é a grande final do basquete universitário. Vai passar em algum canal da TV a cabo aí no Brasil? Se for passar é imperdível, escutem o que digo: o basquete universitário é muito mais interessante que a NBA.

Da série quando-eu-digo-no-Brasil-que-os-EUA-enlouqueceram-ninguém- acredita: como talvez nem todo mundo saiba, nos EUA as pílulas anti-concepcionais só são vendidas pelas fármacias com receitas médicas. Como talvez nem todo mundo saiba, o sistema de saúde nos EUA é controlado por meia dúzia de 2 ou 3 conglomerados de companhias de seguro. E como talvez nem todo mundo saiba, esses conglomerados funcionam em sólida aliança com a direita religiosa fanática que está no poder desde o ano 2000. Pois bem, decidiram em definitivo invadir o corpo das mulheres: um dos meus blogs feministas favoritos, o Bitch Ph.D., denuncia que até para receber a pílula você tem que agüentar, se der azar, um "farmacêutico cristão" pentelhando seu ouvido e negando-se a cumprir a lei e a entregar-lhe a porra do remédio. Para piorar o escândalo, há 11 assembléias estaduais estadunidenses debatendo a aprovação de leis que regulamentam “direitos de consciência” para que um “farmacêutico se negue a seguir a lei por motivos religiosos". Ou seja, pelo mero motivo de que sujeito tenha uma religião, ele é dispensado de lhe ceder o raio do remédio que o médico receitou, ao qual você, como mulher, tem direito constitucional. Você imagina isso? “Eu sou cristão, então não sou obrigado a lhe ceder este anti-concepcional”. Cospem no juramento hipocrático. É a paulatina queda dos EUA no fundamentalismo religioso.

Da série maravilhas que eu aprendi com Bibi’s Box: uma coleção de fotografias russas, arquivos sonoros radiofônicos e a Bíblia Gutemberg. A todos esses três sites eu cheguei via Bibi, essa maravilhosa colecionista benjaminiana da internet. Aliás, vocês sabiam que 27% dos leitores de Bibi vêm dos Estados Unidos?

Da série morro-de-raiva-vendo-futebol: Pude assistir o video-tape do nosso empate com a Província Cisplatina na quarta-feira. O blogueiro continua com sua opinião trotskista: enquanto não acabar essa punhetagem volântica do Parreira, não dá. Êta time irritante, amarrado, enjoado, desapaixonado.

O blogueiro, orgulhoso, hospedou hoje em casa uma festa do Movimento de Solidariedade à Palestina, que realizou um colóquio nacional em New Orleans neste fim de semana. Pela primeira vez desde 1988, recebo irmãos e irmãs palestinas na minha casa em celebração de solidariedade. Dei de presente a alguns deles cópias do meu último livro. Tomamos cerveja, comemos pão, humus e azeitonas palestinas. Falamos do amor à camisa da seleção brasileira nos territórios ocupados. Vocês, aí, continuem informando-se sobre a história da Palestina. O Biscoito começará a falar do tema em breve.

Não que o prêmio do iBest seja necessariamente um mapa fiel da blogosfera, claro, mas já que há uma eleição, há que se apoiar quem mais merece. O Biscoito Fino e a Massa já votou em Pensar Enlouquece para o prêmio iBest deste ano e convoca todos a que depositem seu votos.



  Escrito por Idelber às 02:57 | link para este post | Comentários (19)



quinta-feira, 17 de fevereiro 2005

*Por quê gastaram 40

*Por quê gastaram 40 anos para descobrir? *

Desde 1967, Israel já destruiu *pelo menos* 2.400 casas palestinas. E
não adianta gritaria das Nações Unidas ou grupos de Direitos Humanos. A
prática corre solta e nos últimos quatro anos pelo menos 675 casas
sofreram demolição da força ocupante.

O exército de Israel agora mandou suspender a prática
[link] .
Uma pesquisa interna do próprio exército concluiu que ela não tem nenhum
efeito inibidor sobre os atentados suicidas.

Os poderosos decretam mentiras enquanto lhes é conveniente e as
suspendem quando já não é mais possível sustentá-las.

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  Escrito por Idelber às 21:10 | link para este post