Na próxima vez que alguém o acusar de acreditar em teorias da conspiração, caro leitor – sem prejuízo ao fato inconteste de que há, sim, gente disposta a crer em conspirações inverossímeis --, experimente retrucar o seguinte: ante os fatos ocorridos em Honduras na última semana do mês de junho de 2009, pertence ao cético o ônus de provar que a política não sucumbe, frequentemente, à lógica da pura conspiração. Pois se o que acontece ante nossos olhos em Honduras não é uma conspiração, alguém me sugira por favor um melhor vocábulo.
Já são bem mais de 100 horas de golpe em Honduras. Nenhum país do planeta reconhece o governo golpista. Ele foi condenado por OEA, Alba, ONU, SICA, Grupo do Rio e até pela Associação dos Ombudsmen das Américas. O presidente deposto falou em Assembleia da ONU e recebeu apoio e reconhecimento unânimes. Cuba e EUA condenam juntos o golpe. O golpista, presidente de facto, Micheletti, chega ao cúmulo de arrolar em seu favor o “apoio de Israel e Taiwan”, e não há internauta no planeta que encontre confirmação disso em fontes independentes nos dois países.
No entanto, a conspiração golpista conta com bases em: 1) parlamento; golpistas argumentam que é ampla maioria, mas não há confirmação independente mais além do fato, sim, de que havia desgaste parlamentar de Zelaya -- como é, aliás, comum para qualquer presidente latino-americano em fim de mandato que não tenha aprovação lulística; 2) cúpula militar; 3) setores de um Poder Judiciário absolutamente oligárquico; 4) imprensa, que opera livremente para disseminar o golpe – TVs abertas de Honduras e jornais El Heraldo e La Prensa – e é brutalmente censurada, perseguida, sabotada e encarcerada quando se coloca com independência ou com simpatias à resistência.
Se a imprensa estivesse funcionando em estado de mínima igualdade de condições em Honduras, o contexto atual seria bem distinto, não há dúvidas.
No momento em que escrevo, há, sim, hondurenhos assistindo a conferência de imprensa de Manuel Zelaya, mas só os que têm acesso à CNN em espanhol. Todas as TVs abertas de Honduras insuflam o golpe abertamente e inflam o número de participantes das aglomerações golpistas. Os sinais da TeleSur foram bloqueados. Os sinais dos canais de TV que transmitiam a conferência de Zelaya também o foram, logo depois. Há um completo blecaute de mídia em Honduras.
Para acompanhar as atualizações mais frequentes, veja o Twitter. Por aqui, a caixa fica aberta para reflexão sobre este insólito e inaudito golpe que, se tem algum precedente comparável, realmente, eu o desconheço.
Atualização:O Secretário da OEA, o chileno Inzulza, chega amanhã a Honduras com o ultimato da organização.
Atualização II: Confirmei a notícia de que o dono dos jornais El Heraldo e La Prensa (a mesma pessoa!) perdeu a boquinha em 2007, no governo Zelaya. Ele vendia drogas e armas ao estado. Talvez a fúria contra Chávez tenha algo que ver com a indústria farmacêutica, já que agora muitos medicamentos entram gratuitamente a Honduras pela Alba. Além de dono dos dois jornais, o Sr. Canahuati é também um barão da indústria de drogas.
Não menos assombroso foi assistir, esta tarde, via 100Noticias, a uma justaposição, em tela repartida, das duas manifestações, a pró-golpista, chamada pelas TVs de Honduras, e a pró-Zelaya, organizada boca a boca e escondida pela mídia.
Os meios de comunicação de massas de Honduras -- tanto o jornal mais pró-golpe, o El Heraldo, o jornal não tão delirante La Prensa, assim como as estações de TV -- estão levando um banho da 100Noticias, da TeleSur e do Twitter na guerra da informação durante este golpe. Não porque a esquerda seja sempre melhor que a direita, mas porque o golpismo em Honduras está muito isolado, com pouca fundamentação jurídica, e tendo que apelar para a manipulação de fatos.
No Twitter, há uma enxurrada de perfis recém criados, de procedência nebulosa, disseminando informação falsa -- coisa louca mesmo, por exemplo, que a Interpol tem ordem para prender Zelaya. Mas a coisa tem ficado meio óbvia. Quero dizer, óbvia para quase todo mundo. Não me culpem por generalização excessiva se o Noblat publicar post baseado em retuitada de lá dizendo que o Deputado pró-legalidade Cesar Ham está morto. Não está. Está vivinho da silva. No exílio temporário, mas vivo e tranquilo.
Entre o começo do golpe e a noite de hoje, reduziu-se bastante o impacto da contrainformação golpista no Twitter.
Isso é “primeira vez como tragédia, segunda como farsa” e enésima como patético-grotesco para Marx nenhum botar defeito: não me lembro, em toda a história da América Latina, de um governo golpista que, na sua 36° hora, já havia sido condenado por OEA e ONU, ainda não fora reconhecido por nenhum país e mesmo assim continuasse no poder. Desta vez não se cumpriu o script mais frequente, de reconhecimento pelo menos por parte dos EUA. Faz mais de um dia e meio que os golpistas de Honduras, a ponta de baionetas, arrancaram de casa o presidente constitucional Manuel Zelaya para enfiá-lo num avião rumo à Costa Rica. Neste período, a Organização das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos, a União Européia, os EUA, o Itamaraty e o Sistema de Integração Centro-Americana já condenaram o golpe e afirmaram inequivocamente que Zelaya é o presidente legítimo.
Mas ao longo do dia o gorilismo golpista hondurenho continuava prendendo jornalistas, invadindo rádios, confiscando passaportes, promovendo um verdadeiro blecaute midiático e distribuindo porrada em Tegucigalpa e no interior. Apesar do isolamento, dos protestos populares e dos batalhões do exército que o desobedecem, o governo golpista continua lá. Amanhã, o presidente constitucional, Manuel Zelaya, faz discurso na ONU. Sua volta ao país está anunciada para quinta-feira. Ancorado em enorme apoio internacional. Zelaya mandou recado de que é pra galera voltar aos quartéis.
Os países da Alba, da América Central, o México e o Chile já retiraram suas representações diplomáticas de Honduras. O Itamaraty também reteve no Brasil o seu embaixador. Entre as inauditas singularidades do golpe hondurenho, algumas merecem nota. Ele levou um presidente americano em exercício a dizer, em referência a golpes latino-americanos: The US has not always stood as it should with some of these fledgling democracies, coisa rara se não inédita. Levou Calderón, do México, a sentar-se com Chávez e falar a mesma língua do venezuelano. Expôs a venalidade da grande mídia a tal ponto que o jornalão colaborava com o golpismo enquanto seu perfil fake traduzia com mais fidelidade o espírito das ruas e da resistência ao golpe.
Honduras tem o PIB per capita mais baixo da América Central. É menos de um terço do costa-riquenho. 70% dos hondurenhos vivem na pobreza:
Há material fotográfico no El País e em coleções pessoais. Veja as imagens dos assustados soldados vigiando o Congresso
e, segundo o fotógrafo, de populares recordando-lhes que eles vêm do povo:
Diga-se o que quiser de Hugo Chávez, mas não houve veículo de mídia mais importante neste processo que a TeleSur. Sua valente jornalista Adriana Sívori transmitiu ao mundo, por celular, a voz de prisão dada a ela e o protesto digno que ela enfiou na cara do general. Já não tinham como sequestrá-la: foi um daqueles momentos históricos em que a tecnologia e a coragem podem ter se juntado para salvar uma vida, quiçá mais de uma. Tem valido a pena também seguir a 100Noticias. A Rádio Es lo de menos tem sido heroica. No Twitter, as tags são #Honduras e #crisishn. Na grande mídia brasileira, a cobertura é um desastre – não vale a pena comentá-la.
Foi um golpe latino-americano clássico, daqueles dos quais já tínhamos nos esquecido. Na madrugada de ontem, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, foi sequestrado a ponta de fuzis, arrancado de casa por dezenas de militares, colocado num avião e levado à Costa Rica. Era o dia de um referendo não vinculante que consultava a população hondurenha sobre se era desejo seu que nas próximas eleições, de novembro, se votasse também a criação de uma Assembleia Constituinte.
Zelaya é um bicho raro na onda esquerdista latino-americana: filho de latifundiário, eleito pelo Partido Liberal, venceu as eleições em 2005 na esteira de sua oposição à pena de morte, defendida por seu adversário. Sem apoio suficiente para um programa reformista no seu partido, foi se distanciando dele e aproximando-se dos líderes da Alba. Acabou ficando com uma base frágil no parlamento, além de enfrentar a hostilidade clara do Supremo Tribunal Eleitoral (cujos membros são nomeados pelo próprio Congresso) e também da cúpula militar. Na época de sua vitória, o STF STE demorou um mês para anunciar os resultados. Esses três artigos dão uma boa ideia do contexto que levou ao golpe.
Trasladado à Costa Rica sem que o governo do país fosse sequer notificado, Zelaya embarcou em seguida para uma reunião extraordinária da Alba em Manágua, com Hugo Chávez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador), além do Chanceler cubano, Bruno Rodríguez. A reunião foi transmitida ao vivo pela TeleSur venezuelana e pela Noticia100, de Manágua, duas fontes chave para acompanhar o que ocorre em Honduras. Em entrevista à CNN Chile, a esposa de Zelaya, Xiomara Castro, descreve o cárcere privado no qual se encontra, em algum lugar do interior do país. Os filhos do casal encontram-se em embaixadas. A Chanceler hondurenha, Patricia Rodas, esteve desaparecida durante todo o domingo. À noite, chegou a confirmação de que ela embarcava rumo ao México.
A reação da comunidade internacional deixou as forças golpistas em situação de isolamento. O Itamaraty se manifestou. A Organização dos Estados Americanos divulgou uma carta condenando o golpe e exigindo -- em linguagem surpreendentemente forte -- a reinstalação de Zelaya em suas funções. Mesmo o embaixador dos Estados Unidos, Hugo Llorens declarou inequivocamente que os EUA só reconhecem Zelaya como o presidente legítimo de Honduras. Um documento do Departamento de Estado mostra a posição dos EUA em prol da legalidade.
O golpista instalado no poder é Roberto Micheletti, nomeado pelo Congresso a partir de uma carta de renúncia com uma assinatura falsa de Zelaya, segundo declaração do presidente legítimo à TeleSur. No momento em que escrevo, milhares de hondurenhos cercaram o palácio presidencial em Tegucigalpa. Ouviram-se disparos. Está convocada para esta segunda-feira uma greve geral em apoio a Zelaya. Além da TeleSur e da Noticia100, a Rádio Es lo de menos, transmitindo com um único profissional, tem sido uma das melhores fontes para acompanhar o imbróglio. O ponto de vista dos golpistas está articulado em praticamente todos os grandes meios de comunicação de massas de Honduras. O mais explícito talvez seja El Heraldo, que chegou a inventar a incrível mentira de que Zelaya planejava dissolver o Congresso. O La Prensa se refere ao povo que protesta nas ruas como turba. Na televisão, ontem à noite, exibiam-se desenhos animados.
Gravataí Merengue era mesmo autor no blog anônimo de difamação contra Luis Nassif
Dada a fúria com que eu defendo aqui a liberdade de expressão, alguns leitores podem talvez pensar que isso implique a defesa de um suposto direito de dizer qualquer coisa, de qualquer forma, sobre qualquer pessoa. Evidentemente, não é este o caso. Conheço os artigos 138 a 145 do Código Penal e, apesar de não ser advogado, já refleti um mucadinho sobre a complicada tarefa que é equilibrar esses artigos com a liberdade de pensamento garantida pela Constituição Federal.
Numa crítica a um livro, por exemplo, mesmo que muito satírica, acho descabido mover um processo por injúria. Sou fortemente influenciado, nesses casos, pela jurisprudência americana, que reza que, em caso de potencial conflito entre a liberdade de expressão e qualquer outro princípio, a coisa tem que ser bem cabeluda para que não prevaleça aquela.
É claro que um blog anônimo dedicado a atacar alguém com material difamatório é outra coisa, bem distinta. É este o caso que nos ocupa hoje. Ele é particularmente chato para mim, porque envolve uma pessoa que conheço e que me recebeu com muito carinho em São Paulo. Peço que acompanhem o cuidado que o Biscoito teve com esta matéria.
No dia 8 de junho, Luis Nassif publicou um post intitulado A turma do anonimato, em que ele relatava que havia sido desmascarado o blog anônimo dedicado a atacá-lo com as requentadas acusações acerca de sua negociação com o BNDES. O post de Nassif informava que o Google havia sido acionado para fornecer os dados do responsável pelo blog anônimo. A empresa respondeu, identificando um email pertencente à mãe do Gravataí Merengue (pseudônimo de Fernando Gouvêa) e uma linha registrada em nome de seu pai.
Imediatamente, eu me comuniquei com o Nassif, dizendo que ele havia provado que existia mesmo um blog registrado em nome da família do Gravataí, mas que, na ausência de uma URL ou de um arquivo com o conteúdo do blog, eu ainda precisava de mais evidências. Tratei o assunto passo a passo, sempre com a presunção de inocência. Naquele momento, o Gravataí escreveu um post que, na minha opinião, era uma confusão só, onde não se respondia a simples pergunta: ele foi ou não foi responsável por um blog anônimo de ataques caluniosos ao Nassif?
Abro um parênteses para esclarecer direitinho o que eu entendo por “anonimato”. “Gravataí Merengue” não é “um anônimo”. É o pseudônimo de Fernando Gouvêa, conhecido na internet. O Hermenauta não é “um anônimo”. É o pseudônimo de alguém que trabalha em Brasília. No caso de que cometesse alguma ilicitude, ele seria facilmente identíficável. Eu jamais chamaria o blog de ataques ao Nassif de “anônimo”, por exemplo, se Gravataí o houvesse assinado com seu pseudônimo. O blog era anônimo mesmo, ou seja, estava nítido o propósito de ocultamento da identidade. Acredito que a minha compreensão do termo coincide com a do advogado de Nassif, o Dr. Marcel Leonardi (esse é doutor mesmo, com doutorado na USP).
Pois bem, recebi do Nassif um pdf com o conteúdo do blog. A URL era bndesnassif.blogspot.com. Não adianta ir lá, evidentemente, pois o blog foi removido. O conteúdo é claramente difamatório: um arrazoado de acusações e ilações feitas a partir de uma renegociação de dívida. As ofensas reiteradas tinham o claro propósito de difamar. Eu assumi com Nassif – sem que ele jamais me pedisse isso, que fique claro – o compromisso de que eu não disponibilizaria esse pdf para ninguém, a não ser duas ou três pessoas de minha confiança. Afinal de contas, a vítima não tem obrigação de sair por aí disseminando conteúdo difamatório contra si mesma. Se o conteúdo tiver que vir à tona, que venha em tribunal. Eu li o suficiente para sustentar o que afirmo aqui.
Mas o cuidado d' O Biscoito Fino e a Massa com a presunção de inocência e o direito de resposta não parou nesse ponto. Entrei em contato com o Gravataí de novo, perguntando se ele confirmava ou não ter sido o responsável pela URL bndesnassif.blogspot.com. Não posso publicar a minha correspondência passiva sem autorização do envolvido, mas a ativa eu posso, sim sinhô. Meu email era:
Gravata, meu velho,
Direito de resposta pra mim é sagrado. Pergunta clara, límpida, cristalina, fora de qualquer política: foi você ou não foi você o responsável pelo conteúdo do blog cuja URL era bndesnassif.blogspot.com?
Aguardo sua resposta. Abração,
Idelber
A resposta do Gravataí foi de que não se respondia a essa pergunta com um simples “sim” ou “não” e de que ele até responderia se o conteúdo do blog estivesse disponível. Depois havia um monte de outras coisas sem relação com a pergunta.
Dada por encerrada a minha investigação sobre este lamentável episódio, registro o post, pois, com esse título, sem nenhum medo de errar. Note-se que meu título não pressupõe que o Gravataí fosse o único autor do blog. As pessoas de minha intimidade sabem que eu torci para que o Nassif estivesse equivocado, mas o fato é que ele estava certo. Mais uma vez. Infelizmente.
PS: Como eu me encontro de viagem ao Mato Grosso do Sul, a moderação de comentários está instalada. Considerando-se a natureza do caso, não posso pedir a ninguém que aprove comentários em meu nome. Por favor, tenham paciência. Vai demorar um pouco. A caixa evidentemente também está aberta para que o Gravataí se defenda.
Atualização às 2:59 do 18/06: Como já é sabido por toda a torcida do Corinthians, o Supremo Tribunal Federal derrubou, por 8 votos a 1, a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. No momento em que escrevo, estamos no comentário #95 e a discussão anda muito boa. Como o assunto é importante para muita gente e é raríssimo que aconteça um debate no qual eu não tenha posição clara e definida, deixo este post em destaque mais um dia, inclusive porque quero ouvir mais. Apareceram vários outros links na caixa de comentários, além dos já oferecidos no corpo do post. Esse texto de Ivana Bentes celebra a decisão do STF. Esse outro, de Leandro Fortes, a lamenta. Leonardo Sakamoto acha positiva a decisão do STF mas critica a argumentação de Gilmar Mendes que a fundamentou.
Eu teria um texto bem incendiário para oferecer sobre este tema, mas acabo de chegar a Belo Horizonte, cansado pacas, e decidi fazer o que fazemos aqui de vez em quando. Eu ofereço os links e vocês conversam. O que achei de interessante por aí sobre a discussão que acontece hoje no Supremo Tribunal Federal, acerca da obrigatoriedade do diploma para jornalistas, vai abaixo:
Eis a minha coluna deste mês na Revista Fórum, que chega em breve às bancas.
Nos Estados Unidos, a luta pelo casamento gay passa por um momento contraditório. Ela acumula vitórias nos lugares mais inesperados, como Iowa, e uma derrota catastrófica no habitat natural do movimento, a Califórnia. Não é ideal a posição conciliadora de Barack Obama, que defende as uniões civis -- que possibilitariam conquistas fundamentais, como os direitos de plano de saúde conjunto e de herança --, enquanto reserva o termo “casamento” para as uniões heterossexuais. Mas, pelo menos, Obama dá um passo adiante em relação à tradicional hipocrisia do Partido Democrata, que sempre contou com os votos de gays e lésbicas para, logo depois, rifá-los no jogo político.
Qualquer conhecedor da história da esquerda sabe como tem sido longo e acidentado o caminho de reconhecimento da luta gay/lésbica. Na esquerda tradicional, dos Partidos Comunistas, o completo descaso vinha, muitas vezes, recheado de homofobia explícita. Isso mudou, claro, e hoje uma Deputada como Jô Moraes, do PC do B de Minas, é uma das vozes mais incisivas na luta contra a homofobia. O PT, que sempre foi mais atento que a esquerda tradicional para as questões relacionadas à mulher e ao negro, demorou certo tempo em realmente acolher a luta antihomofóbica. Resta ainda um longo caminho que percorrer.
O crescente sucesso da parada gay de São Paulo e as iniciativas pioneiras de Marta Suplicy são capítulos dessa história, mas ela foi construída com uma luta que custou o sangue de muitos anônimos. O jornal O Lampião surge em 1978, em condições dificílimas. Em 1979, constitui-se em São Paulo o primeiro grupo de homossexuais organizados politicamente, o Somos. Seguem-se o Somos/RJ, Atobá e Triângulo Rosa no Rio, Grupo Gay da Bahia, Dialogay de Sergipe, Um Outro Olhar de São Paulo, Grupo Dignidade de Curitiba, Grupo Gay do Amazonas, Grupo Lésbico da Bahia, Nuances de Porto Alegre e Grupo Arco-Íris do Rio, entre outros (as informações são do GLS Planet). Somente em 1985 o Conselho Federal de Medicina decide desconsiderar o artigo 302 da Classificação Internacional de Doenças, onde constava a homossexualidade. Pelo menos nisso, o Brasil se antecipou. Só em 1990 a Organização Mundial da Saúde decide eliminar a homossexualidade da lista de doenças. A data da decisão histórica, 17 de maio, passaria a ser o Dia Internacional de Combate à Homofobia.
Em sua esmagadora maioria, os heterossexuais – mesmo aqueles engajados na luta pela justiça social -- ainda não refletiram o suficiente sobre os efeitos devastadores da homofobia. Não se trata somente dos sutis gestos de discriminação cotidiana e das piadinhas homofóbicas, reproduzidas diariamente nas interações sociais e na programação da mídia. Trata-se de direitos básicos, como o de adoção, herança, plano de saúde e constituição de união matrimonial reconhecida pela lei. Trata-se do direito à imagem e à honra. Muitas vezes, trata-se simplesmente do direito de andar de mãos dadas com seu amor pelas ruas sem correr o risco de ser espancado.
Os homicídios homofóbicos no Brasil aumentaram 55% em 2008. Foram 190 no ano passado, contra 122 em 2007. Estes são os números oficiais, compilados pelo Grupo Gay da Bahia com base nos boletins de ocorrência. Imaginem quais serão os números reais. Nesse horror quase medieval, há mortes com requintes de crueldade, a pedradas, por exemplo. Recentemente, o odioso projeto de lei 4508/2008, do Deputado Olavo Calheiros (PMDB/AL), que visa proibir a adoção de crianças por homossexuais, começou a tramitar como se não fosse a excrescência inconstitucional que é. O projeto cospe no artigo 226, § 4º, da Constituição Federal, mas o Congresso o examina como se fosse a mais razoável das leis.
Ideias absolutamente inconstitucionais, como a que proíbe homossexuais de lecionar em escolas primárias, são discutidas com argumentos “ponderados” até por gente de esquerda. Está categórica, sociologicamente provado que, em potencial, um padre é uma ameaça sexual muito mais grave a uma criança que um(a) professor(a) gay ou lésbica. Mas reproduz-se mesmo em comarcas progressistas o estranho estereótipo que associa, contra todas as evidências, a homossexualidade à pedofilia. A bizarra noção de que gays e lésbicas são máquinas sexuais incontroláveis, prontas para disparar a qualquer momento, tem ainda profunda inserção no chamado inconsciente coletivo.
É urgente o apoio maciço e incondicional da esquerda ao Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que criminaliza a homofobia e pune a discriminação e a agressão contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais. O projeto se encontra, no momento, em trâmite no Senado. A leitura do projeto e o contato com os Senadores podem ser feitos através do site NãoHomofobia. Atualmente, não há nenhuma proteção específica ante a agressão e a discriminação homofóbicas, comparável à que temos contra o racismo.
A Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT é formada por 211 deputados federais e 18 senadores. Dos grandes partidos, o PT ainda é, de longe, o que se sai melhor na foto. De seus 11 senadores, 9 são membros. Mas ainda é pouco. Não há razão aceitável para que Tião Viana (PT-AC) e Marina Silva (PT-AC) não se juntem à Frente. Se, em vista de suas crenças religiosas, a Senadora Marina Silva tem “problemas de consciência” para se juntar a essa causa, que ela os resolva no âmbito privado. Na esfera pública, ela tem a obrigação de defender o programa do PT. Chega de conferir aos progressistas religiosos esse estranho privilégio, o de omitir-se (ou, pior, adotar uma postura reacionária) nas questões fundamentais do nosso tempo, sempre que estas entrem em choque com a leitura que lhes inculcaram de um livro apócrifo de fábulas judaicas.
Sempre defendi que a melhor forma de se imbuir do espírito de luta pela justiça social é ouvir as vítimas com atenção. Quer entender o racismo? Abandone as fáceis, imaginárias simetrias entre negros e brancos e escute as histórias de vida narradas por aqueles. O apelo do post é muito simples: procure seu amigo gay ou sua amiga lésbica e pergunte, indague muito. Não pressuponha que sabe o que eles vivem. Escute com atenção. Você se surpreenderá.
PS: Reúno-me esta noite, na Cobal do Humaitá, com amigos blogueiros cariocas. Devo chegar lá por volta das 21:00. Está confirmado, pois, o chope.
Serra não pode ser presidente: Notas sobre a barbárie na USP
Tentei dormir. Era necessário, já que embarco às seis da matina rumo ao Rio. O fato é que não consegui. Afetam-me bastante as imagens, vídeos, sons de estudantes sendo espancados dentro de um campus universitário. Cresci com essas imagens, me formei dentro delas, acredito saber algo sobre a dinâmica que elas desatam. A violência policial é horrível em qualquer circunstância, evidente. Mas quando ela ocorre dentro de um campus universitário, é toda uma história de décadas de luta – bastante dura – por autonomia e liberdade de pensamento que está sendo negada, revirada, desrespeitada. Perguntem a Alon Feuerwerker acerca de suas memórias da reconstrução da UNE em 1979.
O Sr. José Serra não tem autoridade moral para ser Presidente da República Federativa do Brasil. Haja mãos e pés para contar os exemplos de truculência, autoritarismo e vocação ditatorial. Esse senhor simplesmente não sabe conversar com a sociedade civil. Recusou-se, mais uma vez, a entrar em diálogo.
Critique-se o quanto se queira o movimento estudantil. Eu sou um dos seus críticos, diga-se. Fui presidente de DA, de DCE, fui de comissão organizadora de ENEL, participei de vários congressos da UNE. Há, no movimento estudantil, uma clara tendência à radicalização, fruto da idade de seus membros, da situação peculiar de ainda não estarem inseridos – na maioria dos casos – no mercado de trabalho, da condição de relativa liberdade em que transitam. Não concordo com várias das reivindicações históricas do movimento. Não acho, por exemplo, que estudante tenha que dar pitaco ter voto em política curricular. Se o sujeito está adquirindo um bem cujo conteúdo, por definição, ele não conhece, nada mais natural que não seja ele quem o defina. Tampouco acho que as eleições para reitor devam representar paritariamente os três setores. Um estudante fica quatro ou cinco anos no campus. Seu voto não pode ter o mesmo peso que o de quem lá trabalha permanentemente e tem responsabilidade direta sobre os rumos da instituição. Eu poderia continuar listando outros exemplos de bandeiras já levantadas pelos estudantes com as quais não estou de acordo.
Portanto, quem quiser criticar o movimento estudantil, que fique à vontade. Isso não me ofende nem um pouco. É inegável que há um desgaste das formas de luta do movimento universitário. Paralisar um Banco do Brasil ou uma Fiat é uma coisa. Paralisar uma universidade não afeta ninguém de imediato, a não ser a própria comunidade universitária. É uma simples questão de quem produz valor de troca imediato. O movimento estudantil foi chave na luta contra a ditadura, passou por longo adormecimento, renasceu brevemente com os caras-pintadas anti-Collor e voltou à irrelevância. Quanto menos massivo ele é, maior a possibilidade de que lideranças pouco representativas o sequestrem. Aumentam as chances de táticas reprováveis. Mas essas coisas se resolvem com diálogo. No momento em que entra a Polícia, tudo volta à estaca zero. Na verdade, volta a um número negativo, pois o trauma e a revolta não são bons pontos de partida para se negociar nada.
O que me causa indignação é, de novo, que se criem falsas simetrias onde elas não existem (eu falo muito de falsas simetrias, por exemplo, na questão palestina). Os erros, excessos ou táticas reprováveis do movimento universitário são uma coisa. O envio do batalhão de choque da Polícia Militar, o espancamento de estudantes e o uso dos cassetetes e das bombas de gás lacrimogêneo são crimes, são acontecimentos de dimensão completamente distinta. São responsabilidade direta da Polícia subordinada ao governador. Ele tem obrigação de responder por ela. São atrocidades perpetradas pelo poder público. Você não pode comparar isso com a possível imaturidade ou o excesso cometido pelo movimento estudantil.
Sim, o pedido de reintegração de posse é de responsabilidade da Reitoria e a anuência a esse pedido é prerrogativa do Judiciário. Segundo todos os relatos que ouço, a Reitora Sueli Vilela é um desastre completo. Se alguém tem um contra-testemunho, por favor, se manifeste – quero ouvir. Mas tudo o que escutei até hoje é desabonador. Combine-se isso com um governador de tendências ditatoriais e você tem os ingredientes para a triste situação que vive hoje a (ainda) mais prestigiosa universidade da América do Sul. Como explicou muito bem Túlio Vianna, mandar tropa de choque ao campus só pode gerar desastres.
Que a comunidade universitária da USP – instituição na qual já tive a honra de palestrar, em total liberdade, sem ninguém armado por perto – possa se recuperar do trauma. Que o movimento estudantil reflita sobre seus rumos. E, acima de tudo, que esse truculento e ditatorial Sr. que governa São Paulo não tenha a chance de governar o Brasil. Nada vai melhorar com ele no leme.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Relato do Profº Pablo Ortellado (EACH-USP) sobre a barbárie ocorrida na
Cidade Universitária da USP.
O seguinte relato nos foi enviado pelo professor Pablo Ortellado, da
EACH-USP, em mensagem encaminhada pelo professor Marcelo Modesto (FFLCH),
também presente na manifestação pacífica que resultou em confronto violento
na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo - USP.
Abaixo, o texto na íntegra:
"Urgente e importante: tropa de choque na USP
Prezados colegas,
Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o
que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois
enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do
Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a
greve, não podia ser reparado.
Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e
criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão
abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos
de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e
que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de
uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho
certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.
Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam
deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que
eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de
funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar
a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa
manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos
que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram
ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da
avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra
a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos
manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.
Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos
docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No
decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia
agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de
grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o
estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano
Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do
gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes
correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão
(falsamente chamadas de "efeito moral" porque soltam estilhaços e machucam
bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da
História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a
chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em
frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás
lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos
efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do
professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge
Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e
tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou
acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de
pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de
bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia
infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar
com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os
estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena
assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e
deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais
organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad
havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi
recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da
Adusp se recuperando.
Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se
multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira
completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados
ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor
Jorge Machado).
Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o
conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de
uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois
estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá
agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os
seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar
qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para
ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo
até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei
relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.
A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de
professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A
situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser
dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em
reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num
campus universitário.
Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na
minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses
fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade
de pensamento e ação, não sei mais.
Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que
é conveniente.
Cordialmente,
Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo"
Nota do editor do blog: A caixa de comentários está fechada simplesmente para que se concentre a conversa no post que irá ao ar dentro de alguns minutos.
O Sr. José Serra, que quer governar o Brasil – embora ainda não tenha oferecido nenhum motivo que dê credibilidade à sua candidatura –, demonstra mais uma vez sua truculência, seu autoritarismo, sua vocação ditatorial, sua completa incapacidade para dialogar com os movimentos sociais. O governo pelo qual ele responde enviou o batalhão de choque para reprimir a greve na USP. Eles estão atirando bombas nos estudantes (e vejam a cretinice do Globo, ao falar de "confronto").
Os alunos, no momento em que escrevo, se reuniram no prédio da História. Mesmo assim, a polícia continua bombardeando. São cenas de invasão e massacre contra estudantes que, no interior de um campus universitário, foram raríssimas mesmo durante a ditadura militar.
Esse é o aprendiz de ditador que quer governar o Brasil. O Biscoito convoca todos os tuiteiros a que enviem mensagens no Twitter com o endereço @joseserra_ para que o ditador veja que estamos solidários com os estudantes. Por favor, usem a caixa de comentários para compartilhar informações e links sobre mais essa vergonha perpetrada pelo governo de São Paulo.
Atualização com depoimento do leitor Thiago:
Professor, sou o Thiago, leitor do sr. e estudante da USP. Como o sr está vendo, a situação lá é caótica. Alunos e professores feridos, o HU está cheio de gente passando mal, e a FFLCH está cercada. Estou no trabalho e aqui metade da net (orkut, twitter, blogspot) é bloqueada. Mas consegui contato com amigos meus que estão na FFLCH.
Relato abaixo o que ouvi de um amigo:
"A manifestação estava pacifica (dentro do possivel) com todos se dirigindo para a reitoria onde ocorreria a assembléia geral. De repente a galera se encontrou com uma viatura policial e começou a gritar (ainda pacificamente) 'fora pm do campus'. De repente uma menina tentou se aproximar dos pms pra entregar flores pra eles e eles, os pms, se revoltaram e espancaram a garota. Daí todo mundo foi pra cima deles (claro) e eles chamaram reforço. Dai a confusão começou, porque o reforço chegou atirando balas de borracha e bomba de gás. Sem dó. O pessoal tentou se refugiar na FFLCH com barricadas. A PM sitiou a faculdade, ninguém entra ninguém sai.
Continuam a jogar bombas sem parar"
A rede de wifi da usp está falhando, há um boato de que a reitora mandou derrubar. O pessoal no CRUSP tenta chegar na FFLCH mas não consegue.
Desculpe o texto mal escrito, foi a pressa e o nervosismo. Agora os meus colegas estão tentando entrar em contato com a imprensa pra colocar no ar (eu duvido que coloquem) o que tá ocorrendo na FFLCH.
A situação é dramática. Nunca pensei que veria isso acontecer.
Não há dúvidas: o blog da Petrobras é a grande novidade da semana. A ideia em si é bastante banal. Uma empresa faz uso de uma plataforma gratuita de publicação online – o Wordpress – para abrir um blog e se comunicar diretamente com o público. Não há nessa ideia, tomada isoladamente, nada que justifique maior festa ou grandes reações de repúdio. Mas chegou a tal ponto a revolta com a manipulação da mídia brasileira e sua visível campanha de ataques à Petrobras que a inauguração do blog tem sido tratada, pela grande maioria, como uma verdadeira revolução e, por uma minoria ligada à mídia, como uma espécie de trapaça, de alteração das regras do jogo. Se a Petrobras agora publica a íntegra das perguntas que recebe, junto com suas respostas, os jornalões vão fazer o quê? Como vão esconder a fábrica de linguiças? Neste contexto, o Animot está corretíssimo: o blog da Petrobras é um marco.
O desespero da organização criminosa do jornal Folha de São Paulo levou à invenção de uma sensacional jabuticaba, a fonte que deve sigilo ao entrevistador, a pergunta jornalística em off. É a cara-de-pau e a cretinice dos oligopólios de mídia elevadas à última potência. As instituições enxovalhadas pela sua manipulação lhes devem, além do mais, sigilo sobre quais foram as perguntas feitas. Já não basta acusá-las de “censoras” quando elas se insurgem contra a mentirada. Elas devem, agora, aceitar falar só pelas paráfrases criminosamente mentirosas dos jornalões. Ou pelo menos silenciar até que estas tenham aparecido. Os jornalões querem ter o monopólio das perguntas e das respostas.
Com uma “matéria” intitulada Petrobras vaza em blog informações obtidas por jornalistas, a Folha afirma que a Petrobras criou um blog para vazar informações obtidas por jornalistas que investigam indícios de irregularidades nos negócios da estatal. Evidentemente, o uso do verbo “vazar” é incorreto e manipulador. “Vazamento” pressupõe informação protegida e sigilosa, além de sugerir ilegalidade. É óbvio que não há nada ilegal no que fez a Petrobras. Ela simplesmente revelou quais eram as perguntas feitas e apresentou as suas respostas. Isso, no Brasil de hoje, é motivo de compreensível júbilo para a maioria e desespero agônico para os últimos defensores que montam guarda às portas da moribunda fábrica de linguiças.
Em menos de 48 horas no Twitter, o @blogpetrobras já se aproximava da terceira centena de seguidores e acumulava milhares de citações. O blog já recebeu mais de 65.000 visitas desde que o contador foi instalado. O desmascaramento dos jornalões vai acontecendo com notável rapidez: a barrigada da Folha, as mentiras d'O Globo sobre a mamona, a sequência de mentiras da Folha sobre a “contratação” do MBC.
Apesar de que há vários comentários críticos e questionadores publicados no blog da Petrobras (exemplos aqui, ali e acolá), é verdade que a maioria saúda o blog e lhe oferece apoio. Esse fato foi suficiente para que Reinaldinho Azevedo acusasse a estatal de estar “censurando comentários”. É a cara-de-pau elevada à enésima potência. A acusação vem de um blog em que comentários críticos a seu autor, ainda que polidos e respeitosos, só são aprovados por descuido (sendo depois imediatamente limados). Não lhe ocorre a hipótese óbvia: nós estamos em esmagadora maioria.
Indícios?
O valente Sergio Leo defendeu a jabuticaba da fonte que deve sigilo ao entrevistador. Segundo ele, isso se deve a um "pacto" que garantiria ao jornalista o seu furo. O engraçado é que o post do Sergio foi publicado justo no dia em que o próprio ombudsman da Folha reconheceu que não há nada mais velho que o jornal de hoje. Depois de 50 comentários, Sergio só havia recebido o apoio de um único leitor. O blog A Nova Corja nos proporcionou a piada da semana, ao caracterizar o blog da Petrobras como um “acosso a jornalistas”. Os jornalismo brasileiro anda tão combalido que a mera criação de um blog é suficiente para acossá-lo. Depois de 30 comentários, a tese defendida pelo autor não havia recebido o apoio de ninguém. É o samba do vazamento doido.
PS: A iniciativa da Petrobras tem um precedente. Não sei se ele foi fonte de inspiração para a estatal, mas vale lembrar que, durante o recente achicalhe promovido pela organização criminosa pelo jornal O Estado de Minas contra a Universidade Federal de Minas Gerais, a instituição pediu direito de resposta várias vezes, inclusive enviando o seu Procurador pessoalmente ao jornal. Esse direito foi sempre negado. A UFMG passou a responder pela própria internet até que, num acesso de extraordinária cara-de-pau, o Estado de Minas foi pedir direito de resposta no site da universidade! Veja a desmontagem da mentirada: 1, 2, 3, 4, 5.
O ato foi um sucesso. Superlotamos o Teatro da Cidade, de Pedro Paulo Cava, legendário diretor teatral mineiro. A última leva de gente teve que ficar em pé.
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Apresentação absolutamente memorável de Sérgio Amadeu. Se alguma vez o convidarem, leitor, a compor uma mesa com Sérgio Amadeu, não aceite ser o segundo. Falar depois de Sérgio é mais ou menos como tentar fazer embaixadas depois de Pelé. Acredito que vexame eu não dei, mas não há dúvidas: Sérgio Amadeu é o cara.
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Presenças importantes na platéia: Túlio Vianna e Cynthia Semíramis. Tulio acabou vindo compor a mesa conosco, trazendo sua vasta experiência no combate a esse nefasto projeto.
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Registro a presença dos dois parlamentares que foram nos apoiar: a Deputada Federal Jô Moraes (PC do B) e o Deputado Estadual Carlin Moura (PC do B). Aliás, rompo a tradição de não publicar fotos pessoais aqui para apresentar-lhes Jô Moraes. Ela tinha que embarcar para Brasília, mas fez questão de marcar presença no início do ato. Conversou longamente comigo sobre as possíveis estratégias para derrubar o projeto na Câmara. Conversou com Túlio sobre o aspecto jurídico. Está em contato permanente conosco. Dizer o quê? Eu amo minha Deputada Federal e a cada dia me orgulho mais do meu voto:
Jô me havia enviado um email absolutamente comovente, agradecendo-me pelo post contra a campanha "Não reeleja ninguém". Jô, que é do PC do B -- obviamente um velho adversário ideológico do trotskismo --, não deixou de notar a ironia: meu grande defensor na internet é um trotskista americano. Eu lhe disse que se ela cavucasse bem a memória, talvez se lembraria de um estudante barbudo, chato e incendiário que tornava a vida dela absolutamente impossível nas assembléias dos anos 80 em BH. O mundo dá voltas.
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Presença massiva da galera do software livre. Também estiveram lá ativistas envolvidos com a preparação da Conferência Nacional de Comunicação. Depois das três palestras, o público se manifestou longamente. Muita gente falou. O ato começou às 19:50, com 20 minutos de atraso. Saímos de lá depois das 22:30.
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Registro também a presença de três defensores do projeto na porta do teatro: uma assessora do Senador Azeredo, o Deputado ex-Deputado Amílcar Vianna Martins Filho (PSDB) e um outro quadro tucano distribuíram um panfleto em que defendiam o projeto e acusavam os seus críticos de mentir. Eles foram convidados a compor a mesa e debater conosco. Recusaram o convite.
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Hoje, às 8h e às 13h, o programa Mundo Político, da TV Assembléia-MG, exibe uma entrevista comigo sobre o AI-5 Digital. Em Belo Horizonte, a TV Assembléia é parte da programação a cabo, mas no interior do estado ela é sintonizável na TV aberta. Segundo entendo, dá pra ver pela internet. Creio que não é possível baixar o vídeo, mas o streaming funciona. (o link foi corrigido, cortesia de Daniel)
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O Sindicato dos Jornalistas gravou o evento em vídeo. Minha expectativa é que a qualquer momento pinte por aqui um link para o YouTube.
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O ato reforçou mais uma vez uma velha percepção minha: é urgente a articulação da comunidade de profissionais do Direito que leem o Biscoito. Vou cuidar disso nas próximas semanas. Precisamos de dezenas, de centenas de Túlios e Cynthias.
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Se alguém lhe disser, leitor, que o AI-5 Digital visa combater a pedofilia, comece com uma gargalhada. Até os pombos da Praça da Liberdade sabem que isso é falso.
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Apesar do sucesso do ato, eu estaria mentindo se dissesse que estou otimista. O quadro que Jô me apresentou não é nada róseo. Enfrentamos duas forças poderosíssimas: o lobby do copyright e o lobby bancário.
Atualização: Não deixem de ler também o belíssimo relato da Clarice Maia Scotti sobre o ato público de ontem. Bem mais exaustivo que o meu, diga-se. Obrigado, Clarice.
“Não reeleja ninguém” é uma campanha burra e alienada
Acho que não uso a palavra “alienação” desde minha época de militância trotskista. Mas não há outro termo para definir essa irresponsável campanha disseminada na internet por Daniela Thomas e Marcelo Tas. É a alienação e o conformismo em sua típica versão Morumbi-Leblon: quero mudar tudo o que está aí, desde que eu não tenha que me dar ao trabalho de procurar informação ou tirar as pantufas. "Não reeleja ninguém" significa: Tire todos os 513 deputados de lá e coloque outros 513 que exercerão seus mandatos sem serem incomodados. Assim você poderá passar mais quatro anos vociferando indignação vazia e repetindo a cantilena de que todos os políticos são corruptos, enquanto fura mais uma filinha, sonega mais um imposto e joga mais uma embalagem de Doritos pela janela do seu Toyota Camry.
Fiz uma busca no Google. Há 6.650 ocorrências da sandice. A única coisa coerente que encontrei foi o texto de Marcelo Soares, Saiba por que a campanha “Não reeleja ninguém” é de uma burrice atroz. O resto é bateção de lata sem qualquer raciocínio que vá além do quero acabar com todos esses políticos que estão aí.
Um jornalista esportivo adere à campanha. Logo depois, demonstra ter mais de dois neurônios lançando a pergunta: se não reelegermos ninguém, vamos eleger quem? Não consegue encontrar uma resposta para a pergunta que ele próprio formulou, mas mesmo assim mantém o selinho da campanha. É o retrato da pobreza política da nossa classe média.
Um profissional da área de Direito adere à campanha. Tampouco demonstra convicção, mas afirma que isso compensaria a decisão do STF que permitiu a candidatura de políticos com “ficha-suja”. O que se está chamando “ficha-suja” aqui não é a existência de sentenças condenatórias transitadas em julgado. É a existência de um processo em trâmite. Era só o que nos faltava: proibir a candidatura de quem está sendo processado. Se você quisesse eliminar a candidatura de alguém, bastaria inventar um motivo e processar o sujeito. Até que você perdesse o processo, a candidatura estaria impugnada. Como é possível que um profissional do Direito seja incapaz de fazer esse raciocínio?
Como afirmei no Twitter, a campanha “Não reeleja ninguém” é típica de quem não se lembra em quem votou. Minha Deputada Federal, Jô Moraes (PC do B), não está revolucionando a Câmara, mas está honrando seu mandato. Recebo semanalmente um informativo detalhado. Ela trabalha agora na emenda à Constituição 438/01, que expropria terras onde houver trabalho escravo. O escritório político de Jô em Belo Horizonte fica ali no Santo Agostinho, na Rua Araguari, 1685/05. Está em funcionamento permanente. Nunca deixo de ser atendido pela sua assessora de imprensa, Graça Gomes. Qual desses indignados sabe o que anda fazendo o seu Deputado? Qual desses indignados lembra-se sequer em quem votou?
Que tal, indignados, lançar a campanha "Não reeleja nenhum membro da bancada ruralista"? Que tal "Não reeleja donos de concessões de rádio e televisão"? Que tal, Daniela Thomas, uma campanha "Não reeleja membros da bancada evangélica", esse grupo em guerra permanente contra a saúde das mulheres? Ah, isso dá muito trabalho, né? Tem que pesquisar, ir atrás, essas coisas. É mais fácil vociferar contra tudo o que está aí.
A campanha “Não reeleja ninguém” ganhou bastante ímpeto com o colapso do gabeirismo. Despolitizado até a medula, o gabeirismo só tinha o discurso da “ética” -- entre aspas e em minúscula, claro, porque não há nada ali que tenha muito que ver com esse ramo da Filosofia. Com a história das passagens aéreas, o que mais se encontra nas caixas de comentários do “Não reeleja ninguém” é gabeirista desiludido. Não lhes ocorre pensar que o problema não é Gabeira, nem Zé Dirceu, nem Delúbio, e sim um modelo de compreensão da política que a reduz completamente à cantilena moralizante.
Sim, é evidente que há muita coisa que se moralizar no Congresso. Discutir qual é a reforma política que nos possibilitaria ter partidos fortes e representativos, reduzindo assim o fisiologismo e as negociatas, são outros quinhentos. Para essa discussão, não contemos com as Danielas Thomas e Marcelos Tas. Eles não estão interessados nisso. Essa discussão dá muito trabalho e nela ninguém pode posar de vestal da pureza.
PS 3: No sábado, eu vou iniciar outra série aqui no Biscoito: “Um blog aos sábados”. É uma série de homenagens a blogs que considero fundamentais. Será uma forma de introduzir os novos leitores aos clássicos da blogosfera. Quem será o(a) primeiro(a) homenageado(a)? Descubra no sábado.
24 horas não passam sem que chegue notícia de alguma iniciativa dos oligopólios da mídia, do lobby pró-copyright e de associações como a RIAA no sentido de engessar a revolução desencadeada pela internet. É, meus leitores, a coisa anda feia. Um dos sofismas com os quais se travestem essas iniciativas é o de “salvar o jornalismo”, como se este, em seu sentido amplo, não pudesse sobreviver sem os ditos oligopólios.
Na semana passada, o Washington Post mobilizou dois advogados para iniciar um lobby por leis cuja aprovação representaria um pesadelo na internet. Se conheço a dinâmica desses movimentos, essas “ideias” não tardarão em chegar ao Brasil. Por isso, não avisem o Tio Civita nem o Tio Marinho sobre este post. Mas preparemo-nos. Depois não adianta chorar.
O texto escrito pelos advogados do Post chega a um ponto jurídico a que eu jamais vi nenhum lobby de mídia chegar. Ele já foi desmontado pelo Buzz Machine, mas eu quero acrescentar aqui meus dois centavos para o contexto brasileiro. Vejamos o que propõem esses dois senhores. Para benefício dos que não leem inglês, eu traduzo:
Os produtos (e lucros) do Google teriam uma cara diferente se, por exemplo, a lei dissesse que ele deve obter permissões de copyright para copiar e indexar as páginas da internet. Ao invés disso, os motores de busca exigem que os donos do copyright “optem por sair” da sua rede, e até agora o seu poder de mercado tem permitido que eles escapem ilesos.
Imaginem um mundo em que o Google tivesse que pedir permissão, sob a lei de copyright, para indexar as páginas da internet. Acredito serem desnecessárias maiores considerações. Seria melhor fechar a net e voltar à época em que datilografávamos cartas e lambíamos envelopes para levá-los aos correios.
Uma das coisas que ensina o mais perfeito jogo de baralho inventado pela espécie humana – o truco – é que você não blefa quando não tem condições de blefar. Se já blefou cinco vezes, perdeu todas elas e agora saiu com dois valetes e uma dama, não truque, porque ouvirá um “seis!” gigantesco na orelha. Evidentemente, essa proposta é um blefe. Caso ela prospere, eu faria o seguinte, se fosse executivo do Google. Convocaria uma conferência de imprensa e diria: aqueles grupos de mídia que acreditem que a indexação do Google é uma violação da lei de copyright, por favor se manifestem e nós retiraremos todas as referências a eles no motor de busca. Nem o mais demente funcionário do Washington Post sustentaria o blefe.
As sandices propostas pelos advogados do Post não param aí. A camisa-de-força jurídica vai além. Eles propõem:
1. Federalização da doutrina do “hot news”. Isso significaria que, durante um certo período em que a notícia está "quente", você não poderia sequer repetir seu conteúdo (atenção: o conteúdo, não o texto em si), já que os capangas do Washington Post acham que isso é pilhagem. Felizmente, disso já estamos protegidos no Brasil. O que é mais irônico é que a verdadeira pilhagem é feita pela fábrica de linguiça dos oligopólios de mídia, que sistematicamente tomam textos de jornais locais e os reproduzem sem dar crédito nem link aos jornalistas responsáveis por eles.
2. Usar a política fiscal para “promover a imprensa”. Sem comentários. Se essa sandice chega por aqui, veríamos o seu, o meu, o nosso dinheirinho sendo usado para salvar da insolvência e da irrelevância os oligopólios dos Marinho e dos Civita – não que isso já não esteja sendo feito, é claro.
3. Criar isenções nas leis anti-truste para os grupos de mídia, já que, segundo os advogados do Post, a “insolvência da mídia é hoje uma ameaça maior que a sua concentração”. Sobre isso, teríamos que retrucar: ameaça para quem, cara-pálida? Quem está se sentindo ameaçado? Será que a população realmente está preocupada com o desespero dos grandes oligopólios de mídia?
Por isso, a proposta do Biscoito é radical: acelerar a putrefação da mídia. Multiplicar as fontes de jornalismo independente. Disseminar a linkania. Apostar na circulação de informações na internet. E, sobretudo, ficar atento, porque eles estão desesperados e vão recorrer a qualquer coisa.
PS: Bem a propósito, o Biscoito reuniu numa só página seus 4 anos de posts de conteúdo jurídico. STF, TSE, plágio, copyright, censura a blogs, aborto, maconha, está tudo aqui: Direito e Justiça.
PS 2: Na PUC-SP, hoje, às 19 horas, acontece um interessante debate sobre jornalismo e mídia.
PS 3: As charges que ilustram o post foram colhidas lá no Dialógico.
PS 4: Guiado por um super especialista, comecei a estudar Direito Penal. Uma série de batalhas chave acontecerão nesse terreno nos próximos anos.
Sobre um recente recrudescimento da misoginia e da homofobia
A misoginia e a homofobia campearam soltas na mídia brasileira nas duas últimas semanas. 17 de maio, dia internacional de luta contra a homofobia, foi escolhido pela Zero Hora para a publicação de um lixo inominável escrito por Paulo Sant'Ana, que confunde com travestis com homossexuais, mistura identidade de gênero com orientação sexual (estranhamente rebatizada de “tendência” sexual), usa termos chulos como os “sapatões” e destila preconceito, homofobia, misoginia, ignorância e desinformação em doses cavalares. Não há o que comentar nesse texto. É só seguir o link e horrorizar-se. Como não leio a Zero Hora, ignoro se o jornal já se desculpou pelo festival de insultos. Aposto que não (cheguei lá via @carolinamaia, a quem agradeço).
Antes disso, houve a famigerada entrevista de Maria Mariana à Época, na qual a ex-celebridade promove seu novo livro, Confissões de mãe, dizendo coisas como: 1) amamentar é para a mãe que merece; 2) Deus quer o homem no leme; 3) se a mulher parir naturalmente, será uma mãe melhor; 4) apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. Tudo é coroado com uma pérola de tremenda irresponsabilidade: Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto.
Não sobrou nada que desconstruir no festival de sandices de Maria Mariana, já que uma série de blogueiras escreveram respostas incisivas: Marjorie Rodrigues, Lu Monte, Lola Aronovich, Groselha News, Cam Seslaf, Cynthia Semíramis e várias outras. Na Cynthia, você encontrará uma lista (quase) completa dos posts. Quais são, então, meus dois centavos com este texto? Uma singela pergunta: Por quê? Por que a Folha dedica espaço a um livro recheado de sandice misógina escrito por uma atriz decadente? Por que a Revista Época apresenta como “polêmicas” declarações que evidentemente não são da ordem da polêmica, mas da ordem da falsidade?
Para ser honesto, eu não sabia quem era Maria Mariana. Pelo que vi depois, era minha mesmo a lacuna. Em minha cultura televisiva, falta tanta coisa que não cabe mais nada. Lembro-me vagamente, sim, de algo chamado “Confissões de adolescente”. Ao ver a foto da atriz, algum flash de memória surgiu. Mas foi só isso.
Seria natural se, digamos, Ana Maria Braga lançasse um livro e os veículos de mídia corressem para fazer a cobertura. Trata-se de alguém que, bem ou mal, está em evidência. É notícia. Mas uma figura que há mais de uma década não aparece em lugar nenhum? Por que ela é notícia? Quão irresponsável deve ser um veículo de mídia para etiquetar de “polêmicas” declarações como as de Maria Mariana sobre depressão pós-parto? Polêmico seria dizer que Veja é um veículo jornalístico ou que José Roberto Wright é um homem honesto. O que ela diz sobre depressão pós-parto é, pura e simplesmente, fal-so. É como dizer que a Terra tem a forma de uma pizza ou que Belo Horizonte é a capital de Rondônia. Apresentar isso como “polêmico” é desinformar, mentir. Entendamos que há coisas da ordem da opinião e coisas da ordem do fato. Brincar com essa diferença num tema como a depressão pós-parto é criminoso. Não há outra palavra.
Estamos entrando num período em que a misonigia será peça chave do jogo político. Claro que, no sentido mais amplo da palavra “política”, ela sempre o foi. Mas hoje, num momento em que as possibilidades de proteger e ampliar as (limitadas) conquistas sociais dos últimos seis anos serão, até segunda ordem, representadas pela candidatura de Dilma Rousseff à presidência, a coisa adquire uma dimensão suplementar.
Pesquisa recentemente realizada pela Fundação Perseu Abramo mostra que a situação do preconceito ainda é grave. Como sabe qualquer sociólogo que tenha refletido um pouco sobre a linguagem (sim, eu sei, eles são poucos), as pesquisas que medem preconceito, por definição, apresentam um quadro menos ruim que o real. É axiomático que preconceito é algo que nem todo mundo assume, muito menos numa entrevista.
Desde que cheguei ao Brasil, vi quatro “reportagens” sobre Dilma na televisão. Todas começavam com menções a elementos politicamente irrelevantes como o cabelo, a plástica e o vestido. Homens também se vestem, fazem plástica e mudam o cabelo. Mas é Dilma, não Serra, quem tem que aturar a cantilena infinita sobre sua aparência. E olha que, no quesito aparência, Serra é um prato cheio.
Marjorie convocava, outro dia, um sexism watch para acompanhar as menções a Dilma na mídia. Pelo jeito, terá que ser trabalho coletivo. Nenhum(a) blogueiro(a) sozinho(a) conseguirá dar conta, mesmo blogando tem tempo integral.
Claro que o destaque completamente desproporcional dado pelos Marinho e pelos Frias a um livro irrelevante, escrito por uma atriz decadente, convocando uma volta obrigatória das mulheres à domesticidade, não tem nada a ver com o fato de que o projeto popular de esquerda, odiado por esses grupos de mídia, está sendo representado hoje pela candidatura de uma mulher. Não tem nada a ver. Imaginem.
PS 2: Também de casa nova, e também no OPS, está o Até aqui tudo bem, um dos meus blogs favoritos no momento.
Atualização: Antes que o mal-entendido se dissemine, cabe esclarecer: o post não afirma que Maria Mariana foi usada contra Dilma. O post afirma que o episódio Maria Mariana ganha relevância extra num contexto em que Dilma é candidata. O post não afirma que Marinhos e Frias se reuniram para dar destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente como forma de prejudicar Dilma. O post afirma que o destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente reforça uma misoginia já presente na sociedade brasileira e contra a qual a candidata de esquerda se enfrenta diariamente.
Cena 1. Belo Horizonte, 17 de maio de 2009, churrasco de classe média. Surge o tema Petrobras. As diatribes se repetem com tremenda virulência: E essa roubalheira na Petrobras?, e esse cabide de empregos da Petrobras?, e por que a gasolina não é mais barata? Um dos presentes aproveita uma brecha e lança a pergunta: pessoal, qual era o valor de mercado da Petrobras em 2002 e qual é o valor dela hoje? Silêncio sepulcral. Não tinham sequer um número para chutar. Sentindo que havia encaixado um jab, o visitante incômodo lança mais uma pergunta: pessoal, como se chama mesmo o presidente da Petrobras? Outro silêncio desconfortável de uns 20 segundos. Com duas simples perguntas, desnudava-se a ignorância da República Morumbi-Leblon-Belvedere, eterna repetidora dos factoides Globo-Veja. O visitante incômodo decide não tripudiar e deixa que o silêncio faça seu trabalho.
Cena 2. Belo Horizonte, 15 de maio de 2009. Algumas horas antes da aprovação da CPI da Petrobras, o humilde zelador de um prédio ajuda um professor universitário expatriado a recarregar a bateria de seu Escort, parado há meses. Conversa vai, conversa vem, o zelador dispara: Professor, esses caras aí que estão implicando com a Petrobras não são os mesmos que queriam vender ela uns tempos atrás? Confirmando, ao ouvir essa pergunta, que o poder de manipulação da mídia brasileira é cada vez menor, o dono do Escort retruca: Sim, seu Damasceno, são os mesmos filhos da puta que queriam vendê-la.
Em janeiro de 2003, na transição de FHC para Lula, o valor de mercado da Petrobras era 15 bilhões de dólares. José Eduardo Dutra assumiu então a presidência, deixando a empresa em junho de 2005 com um valor de mercado de 54 bilhões. Em 2006, já sob a presidência de Sergio Gabrielli, o valor da Petrobras era 70 bilhões. Em novembro de 2007, a Petrobras valia 222 bilhões de dólares.
Em 2006, o Brasil alcançou a autossuficiência em petróleo e a Petrobras bateu o recorde latinoamericano de lucros. Em 2007, realiza-se no Brasil a maior descoberta petrolífera do planeta nos últimos 30 anos. Em 2008, a Petrobras já era a terceira mais lucrativa da América. Em 07 de maio de 2009, 8 dias antes dos tucanos aprovarem sua CPI, a Petrobras havia saltado do octogésimo-terceiro para o quarto lugar entre as empresas mais respeitadas do mundo.
Os tucanos não conseguiram privatizar a Petrobras, mas conseguiram quebrar o monopólio estatal, com a famigerada lei 9.478/97. Os que têm idade suficiente para se lembrar de 1995 recordarão a intensa campanha de difamação de que a estatal foi vítima, incluindo-se, claro, a indefectível “reportagem” da Veja, com 10 páginas de calúnias que não respeitaram sequer o direito de resposta, mesmo como matéria paga. Em 1999, FHC substituiu seis diretores da Petrobras no Conselho de Administração por seis conselheiros do setor privado, em mais uma tentativa de preparar o terreno para a privatização. Além de quebrar o monopólio estatal, a gestão tucana vendeu 36% das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York por menos de 10% do seu valor real. Fixou a participação da União na produção de petróleo entre 10% e 40%, enquanto os países exportadores têm a média de 84% de participação. As informações contidas neste parágrafo estão disponíveis na leitura que o Biscoito mais enfaticamente recomenda sobre o assunto, a entrevista do presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, Fernando Siqueira, concedida em janeiro, na qual ele já previa o rumo dessa campanha entreguista.
Não gosto de fazer previsões em política, mas acho que o PSDB acaba de dar o maior tiro no pé da sua curta história. A Petrobras ocupa, no imaginário do povo brasileiro, um lugar incomparável ao de qualquer outra estatal, mesmo o Banco do Brasil. Temos orgulho dela. Fizemos, faz muito pouco tempo -- 50 anos, em história, não é nada --, uma campanha gigantesca para defender nosso petróleo. O PSDB, de olho nas eleições – e o papel de um partido político é ficar de olho nas eleições, não há nada de errado nisso –, acaba de criar as condições para ser definitivamente associado ao entreguismo. Nessa marcha, a expressão social democracia na sigla tucana soará tão irônica como o novo nome escolhido pelas oligarquias pefelês para sua agremiação. A pergunta do Seu Damasceno, feita enquanto ele me ajudava com a bateria do carro, me encheu de esperanças e energias. A política vale a pena. É o nosso patrimônio que está em jogo.
PS 1: Um blogueiro que muito admiro, Alon Feuerwerker, sugere, em seu mais recente post, que CPIs são instrumentos de luta política, que pouco têm a ver com motivos reais. Corretíssimo. Alon também sugere que, estivessem invertidos os papeis, o PT assinaria o requerimento de CPI. Talvez. Mas o fato inconteste é que há um conjunto de forças políticas que trabalharam e trabalham pela privatização do patrimônio público. E há um outro conjunto que, com todos os problemas, têm mantido e ampliado esse patrimônio. Confio que essa importantíssima diferença não passará despercebida à sagaz inteligência de Alon, que assina um blog cujo lema é um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda.
PS 2: O blogueiro Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Mídia, está articulando um protesto em frente à sede do PSDB em São Paulo. Esse protesto terá a colaboração e o apoio d' O Biscoito Fino e a Massa.
PS 3: As charges vêm, respectivamente, daqui e daqui.
Três anos de uma matança e a falência de uma política de segurança
Considero a discussão sobre as políticas de segurança pública das mais difíceis de serem feitas de forma racional e minimamente ponderada. Nela tende a predominar, na base da gritaria, a exigência de mais repressão e encarceramento, como se essas fossem as soluções para um problema que tem raízes muito mais antigas e profundas. Por isso, foi com relutância que aceitei o convite de Mestre Inagaki para escrever algo sobre o terceiro aniversário dos assassinatos perpetrados pelo PCC contra policiais e agentes penitenciários em São Paulo, a virtual paralisia da cidade na segunda-feira que se seguiu ao Dia das Mães e as posteriores execuções de “suspeitos,” realizadas pelas forças policiais de São Paulo.
Em seu livro A Prisão, o advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho escreve:
As prisões brasileiras são insalubres, corrompidas, superlotadas, esquecidas. A maioria de seus habitantes não exerce o direito de defesa. Milhares de condenados cumprem penas em locais impróprios.
O Relatório da caravana da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados por diversos presídios do país, divulgado em setembro de 2000, aponta um quadro "fora da lei", trágico e vergonhoso, que invariavelmente atinge gente pobre, jovem e semi-alfabetizada.
No Ceará, presos se alimentavam com as mãos, e a comida, "estragada", era distribuída em sacos plásticos --sacos plásticos que, em Pernambuco, serviam para que detentos isolados pudessem defecar.
No Rio de Janeiro, em Bangu I, penitenciária de segurança máxima, verificou-se que não havia oportunidade de trabalho e de estudo porque trabalho e estudo ameaçavam a segurança.
No Paraná, os deputados se defrontaram com um preso recolhido em cela de isolamento (utilizada para punição disciplinar) havia sete anos, período que passou sem ter recebido visitas nem tomado banho de sol.
No Rio Grande do Sul, na Penitenciária do Jacuí, com 1.241 detentos, apesar de progressos, havia a assistência jurídica de um único procurador do estado e, em dias de visita, o "desnudamento" dos familiares dos presos, com "flexões e arregaçamento da vagina e do ânus".
Há uma mistura estrategicamente inconcebível de pessoas perigosas e não-perigosas. Há tuberculosos, aidéticos e esquizofrênicos sem atendimento. O cheiro e o ar que dominam as carceragens do Brasil são indescritíveis, e não se imagina que nelas é possível viver.
Quem ler os trabalhos resultantes das incursões de Percival de Souza (nos anos 70) e Drauzio Varella (nos anos 90), cada um a seu modo, à Casa de Detenção de São Paulo, no Carandiru, o maior presídio do país, verá que, durante décadas, milhares e milhares de homens foram remetidos para um mundo assustador, onde nada é capaz de lembrar propósitos de reabilitação.
Os ataques se iniciaram no dia 12 de maio de 2006, sexta-feira. No dia 14, domingo, o Portal Terra noticiava 52 mortes durante o fim de semana e publicava uma declaração do governador Cláudio Lembo de que a “situação está controlada”. Depois da declaração do governador, outros 441 homicídios ainda ocorreriam, totalizando 493. Entre os civis mortos por forças policiais, 63% dos casos trazidos à atenção da Ouvidoria de Policia foram arquivados, incluindo-se dezenas com suspeita de execução sumária. No caso das mortes de policiais, nenhuma investigação foi arquivada.
Uma reportagem feita no ano passado por Marcelo Godoy mostra que os crimes do PCC tinham raízes mais antigas. Em belo trabalho investigativo, Marcelo Soares compilou os abastecimentos de automóveis e saques em dinheiro feitos pelas forças policiais naqueles dias. Pelo menos uma testemunha presenciou uma vítima civil implorar por sua vida e ser executado por policiais. Em seu blog, o policial Roger Franchini afirma: Em pleno dia de visita no das mães, mais de 500 presos se rebelaram e tomaram as próprias genitoras e crianças como reféns. Era óbvio que não iriam fazer nada contra elas. E por saberem que sabíamos disso, tomaram como refém também um carcereiro. Se não fosse por ele, teríamos entrado na cadeia e distribuído chumbo e cassetetada em todos.
No entanto, o balanço publicado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo lista os mortos em duas categorias: policiais militares, civis e guardas, por um lado, e "criminosos", por outro, em implícita afirmação de que nenhum civil inocente foi assassinado pela polícia -- apesar de que a grande maioria das investigações acerca de mortes de civis foram arquivadas e que um levantamento inicial constatou pelo menos 89 assassinatos com característica de execução (sem chance de defesa para a vítima). Na época, o escritor Ferréz denunciou que a lei marcial para pobres inocentes foi decretada. Tendo sofrido uma série de ameaças em seu blog, Ferréz fez outro post insistindo que não ia se calar.
O blog de outro policial, o Flit Paralisante, traz uma série de denúncias contra a política de segurança em São Paulo. Em 2009, ainda não ocorreram ataques do PCC, o que, para uma especialista, só indica que o controle deles sobre as prisões é absoluto. No Twitter, há uma verdadeira enxurrada de recordações dos eventos de 2006. Os ataques do PCC chegarão às telas do cinema.
A população carcerária no Brasil vem crescendo ano a ano. Em 1995, eram 148.760 presos: 95,4 para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 1997, eram 170.602 presos, com taxa de encarceramento de 108,6 por 100 mil. Em abril de 2001, já havia 223.220 presos no país: 142,1 detentos para cada 100 mil habitantes. De longe, a maior concentração estava em São Paulo, com 94.737 presos e proporção de 277,7 presos para cada 100 mil habitantes. Há extensa documentação no site do Ministério da Justiça.
Atualização: A lista completa de blogs que estão participando desta conversa virtual já está publicada lá no Pensar Enlouquece.
A crítica ao Fla x Flu como uma cortina de fumaça do nosso tempo
Um espectro ronda a blogosfera política brasileira: o espectro do Fla x Flu. Ubíqua, a reclamação acerca do “Fla x Flu entre petistas e tucanos” consome boa parte dos bytes que se gastam sobre política. A julgar por alguns comentários ou posts, tudo na internet brasileira replicaria esse binarismo supostamente simétrico entre petistas e tucanos. Essa premissa é quase sempre complementada por uma “sensata” voz que aparece apresentando-se a si própria como instância que paira sobre as “torcidas organizadas”. Jornalistas adoram fazer isso: a clássica demagogia da isenção.
Mas há algo de novo no reino da Dinamarca. A reclamação ou crítica do chamado Fla x Flu se repetiu tanto que se transformou na doxa do nosso tempo, talvez em sua principal cortina de fumaça. Ela binariza e empobrece a realidade justo ao martelar a reclamação de que a realidade está atravessada por um binarismo simples. A queixa cria o que chamamos win-win situation. Quem vai discordar de alguém que está criticando o radicalismo, a binarização e a simplificação do Fla x Flu? Ao mesmo tempo, esse clichê permite ao seu enunciador omitir-se dos antagonismos políticos do seu tempo. Afinal de contas, ele não entra em “torcidas organizadas”.
Quando ouço a teoria do Fla x Flu entre petistas e tucanos nos blogs, eu, que escrevo sobre política brasileira na internet há cinco anos, não sei bem a quais blogs as pessoas se referem. Porque, para começo de conversa, eu não conheço uma blogosfera tucana. Sim, sei que está aí o pessoal do TucanUSP, por exemplo, que muito me honra com seu link (e vejam que não estou entre os “Eles”! Alon e Carta Maior, sim; eu estou no blogroll "neutro": obrigado, pessoal). Haverá outros blogs como o TucanUSP. Mas eles não são, convenhamos – e concordariam com isso –, blogs que estejam pautando o debate político na Internet. São boas, jovens iniciativas.
Há o blog da Veja, serrista até a medula. Mas muito antes de fazer um blog tucano, o Reinaldo Azevedo faz um blog antipetista. Se todo o PSDB contraísse gripe e desaparecesse amanhã, o blog de Azevedo continuaria idêntico. É só jogar as tags “PT” e “PSDB” numa nuvem e confirmar o óbvio. Excluindo-se Azevedo, então, que é realmente mais antipetista que tucano, qual é o blog importante de política que se declare simpático a ou alinhado com os tucanos? Não me lembro de nenhum. Conheço muitos blogs de direita: fiscal, ou religiosa, ou sionista, ou de segurança etc. Nenhum deles, que eu me lembre, se declara mesmo tucano.
Tese I: mesmo que fosse verdade que a blogosfera política é um Fla x Flu, este não seria entre petistas e tucanos. Não há qualquer simetria aqui. Se Fla x Flu houvesse, “petistas” e “antipetistas” ou “lulistas” e antilulistas” seriam descrições muito mais próximas à realidade.
Isso não quer dizer que a visão tucana de Brasil esteja ausente da blogosfera. Eu acho que ela é, inclusive, a visão dominante na internet. Onde, então? Ora, em todos os grandes portais, que mantêm com essas duas forças políticas relações nem um pouco comparáveis. Não concebo que alguém estude com um mínimo de atenção as referências da RBS a Olívio Dutra e a Yeda Crusius, ou as da Folha de São Paulo a Marta Suplicy e José Serra, e conclua que há simetria nesses tratamentos. Não digo que eles conspirem com o PSDB (embora às vezes seja isso mesmo). Digo que, ainda que fosse verdadeira essa hipótese de que a blogosfera política é um Fla x Flu entre a visão petista e a visão tucana de Brasil, não encontraríamos esta última a não ser nos Noblats e nos Josias da vida. Justamente os blogs supostamente neutros e objetivos.
Tese II: a visão tucana de política expressa-se justamente nos blogs onde se reclama do Fla x Flu entre tucanos e petistas. Não há nada mais tucano que reclamar do Fla x Flu de “torcidas organizadas” e do “radicalismo” dos “dois lados”. A crítica ao binarismo é feita do ponto de vista de um dos termos do próprio binarismo. A crítica ao binarismo nunca é neutra em relação aos termos que compõem o dito cujo.
Não há surpresa aqui, aliás. A filosofia, nas últimas décadas, vem demonstrando que oposições binárias funcionam assim mesmo. A Gramatologia, de Derrida, que não seria despropositada escolha para o lugar de livro de filosofia mais importante da segunda metade do século XX, ensina muitas coisas, mas duas de especial relevância para este post. Coloco-as em forma de teses minhas porque minha é a escolha de palavras (as teses não se encontram dessa forma, nem com esses vocábulos, em Derrida, mas estão baseadas nele):
Tese III: um antagonismo político nunca é simétrico. O acontecer dos dois termos do binarismo jamais é simultâneo. Um “Fla x Flu” político nunca é o encontro entre duas caras-metade num terreno supostamente neutro, como imaginam 99% dos nossos jornalistas.
Isso é assim porque:
Tese IV: desde que o mundo é mundo (ou pelo menos desde que a linguagem é linguagem, ou que o Ocidente é Ocidente), não existe binarismo em que não esteja embutida também uma hierarquia, uma violência, uma exclusão. Isso se aplica a qualquer dicotomia que você queira tomar: essência / aparência, masculino / feminino, alma/ corpo, voz / escrita etc.
Em todas elas, a lógica não é simétrica, e sim suplementar: como naquela clássica fábula judaica sobre o nascimento do masculino e do feminino, um termo aparece depois do outro. Esse “depois”, no entanto, é escorregadio, porque o que é mais próprio do termo dominante, o primeiro, é estar faltoso em relação ao suplemento que está para chegar, estar esperando-o, por assim dizer. Ao ser suplementado, ele torna-se o que é: Eva confere a Adão, retrospectivamente, sua identidade.
Mas e o lado de Eva, do feminino, do termo subordinado no binarismo? Assim como o dominante, o termo subordinado tampouco é tranquilo, unívoco, idêntico a si mesmo. Ele também é atravessado pela temporalidade suplementar: "feminino", na dicotomia masculino / feminino, não é só o nome de um dos termos do binarismo. É também o nome de algo que teve que ser excluído para que o binarismo se constituísse enquanto tal. No caso do feminismo, essa hipótese foi desenvolvida em dois livros monumentais de Luce Irigaray.
Em outras palavras? A dicotomia masculino / feminino, ela mesma, é narrada com linguagem masculina, é uma construção masculina. Não se constitui esse binarismo sem que o feminino se transforme em nome de algo que não cabe no binarismo enquanto tal.
Qual a consequência de toda essa digressão filosófica para a nossa discussão política aqui? Ela não terá escapado ao leitor mais atento: se você realmente acha que o problema da blogosfera política é o Fla x Flu entre petistas e tucanos, se você vê a si mesmo pairando sobre duas "torcidas organizadas", se você de verdade acredita que Carta Capital e Veja são bolachas simétricas, se você realmente acha tudo isso, talvez seja boa ideia encontrar uma linguagem mais neutra para descrever a realidade -- porque essa é uma narrativa na qual os "petistas" ou "lulistas" reconhecem o DNA da visão tucana de Brasil. Ao descrever a realidade assim, você está tomando partido por um dos lados, não percebe?
Em todo caso, isso é de pouca monta. A sugestão política e moral que eu faria de verdade é: se você vê o Fla x Flu como o grande problema, por que não levantar a bunda da cadeira do choramingo e fundar um Vasco da Gama?
Mais uma reportagem de Leandro Fortes desvenda entranhas do Brasil
A reportagem de CartaCapital demonstrou que o delegado Corrêa comandou uma operação ilegal para interrogar a empregada Ivone da Cruz, em 2001, e depois forjou uma versão para justificar o fato de ter atropelado a competência da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ouvido pela sindicância interna da PF, em 2005, o delegado civil Fernando Rosa Pontes, responsável pela investigação do assalto à casa da avó da mulher de Corrêa, negou ter solicitado ajuda do colega da PF – justamente a viga mestra da defesa do diretor-geral. Em 29 de janeiro passado, o corregedor-geral da PF, Valdinho Caetano, nomeado por Corrêa pouco mais de um mês antes, arquivou o processo.
[...]
A Câmara dos Deputados perdeu, ainda, a chance de esclarecer a razão de, na tarde de 18 de setembro de 2008, o deputado José Edmar (PR-DF), com as narinas tapadas por chumaços de algodão, ter invadido uma sessão da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do Congresso Nacional. Na ocasião, o parlamentar virou-se para o presidente da comissão, senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e anunciou: “Luiz Fernando é um torturador”. Ao lado do deputado, sentado à mesa de autoridades, o diretor-geral da Polícia Federal não sabia onde meter as mãos. “E reafirmo, e tenho como provar”, reforçou Edmar.
Marcha da maconha sábado, liberada em BH. É na Pça da Estação
Depois de que em outras capitais brasileiras triunfasse a insanidade, a insensatez de se proibir uma marcha pacífica em favor da mudança de uma minúscula letrinha da lei, em Belo Horizonte a história foi diferente e o TJMG já autorizou a marcha da maconha
que acontece a partir das 15 horas, na Praça da Estação, neste sábado .
Parabéns aos organizadores por chamá-la para esse espaço, o melhor para se iniciar uma manifestação popular em Belo Horizonte. Sempre foi essa a crença deste blog. Como sempre foi minha convicção que a maconha deve ser total e completamente descriminalizada.
Atualização: Leio no Twitter do Túlio que o MP impetrou um Mandado kamikaze de madrugada, mas foi derrotado de novo. A marcha acontece. Ainda sobre o tema, que tem história por aqui, veja a discussão dessa decisão judicial de 2008.
Muitos blogs estão hoje "congelados" Brasil afora, em protesto contra o projeto de policiamento da internet. Procurado pelo Arlesophia no Twitter, eu disse que não podia congelar nada aqui hoje, mas que com prazer divulgaria o cartaz do protesto do dia 14 em Sampa:
Há uma vasta documentação contra o AI-5 digital no blog do Sergio Amadeu, que tem se destacado na luta contra esse nefasto projeto.
Não deixa de ser curioso constatar o clima de Baile da Ilha Fiscal que cercou, literalmente, a impressionante manifestação popular levada à cabo na noite de hoje, 6 de maio de 2009, na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal, aqui em Brasília. Logo cedo, o ministro Gilmar Mendes, alvo dos manifestantes, mandou colocar cercas em todo o perímetro do STF com a inacreditável desculpa de que seria preciso preservar o ambiente para um evento noturno, a apresentação de um anuário jurídico publicado pelo jornalista Márcio Chaer, do site Consultor Jurídico. Chaer e Mendes são amigos, mais que amigos, fraternos aliados empenhados em uma simbiose ideológica travestida de relação jornalística. Difícil é definir quem é a fonte de quem.
O ato de Brasília foi um marco importante. Parece que, na Av. Paulista, o grito se fez ouvir, mas numa manifestação pouco numerosa. Na Praça Afonso Arinos, ainda não sei o que aconteceu, já que o Estado de Minas se limitou a reproduzir uma matéria da Agência Brasil sobre o ato no DF, nada dizendo sobre o de BH, realizado a 15 quadras de sua sede.
Que tal avaliar onde andamos com este tema?
PS: A foto é daqui, de Marcello Casal Jr. A partir de hoje, o Biscoito, além de dar o link à fonte de onde tirou a foto, fará sempre o possível para dar o crédito citando o nome do fotógrafo também. O Pictura Pixel tem sido uma aula para mim nesse sentido. Creditar o fotógrafo sempre que possível.
Acelerar a putrefação da mídia e a desmoralização de Gilmar Mendes: tarefas para uma verdadeira extrema-esquerda
O PSOL, o PSTU e o PCO deveriam parar de brigar, abandonar o sofisma -- desmentido pela história brasileira recente -- de que PT e PSDB são duas faces do mesmo projeto político e agir como verdadeiros partidos leninistas. Eu sou dos que acham que o leninismo está longe de ter esgotado sua significação histórica. Mas não a vejo na teoria do partido de vanguarda nem na teoria da ditadura do proletariado. O que constitui um leninista é a análise da circunstância concreta, sempre em busca do ponto universalizante, da âncora que pode sintetizar toda a luta política. Não há leninismo sem a pergunta: o que fazer?
O que fazer, na extrema-esquerda, hoje no Brasil? O PSOL, que dos três é o único que não se reivindica leninista (embora haja leninistas por lá), deve pensar se quer mesmo fazer da moral, do udenismo de esquerda, o eixo de seu discurso. A escolha pode ter tido sua lógica em 2005, como aglutinação para a extrema-esquerda no momento de maior desgaste do governo Lula. Hoje, é um tiro no pé, além de despolitizadora e inadequada. A redução da política à moral já se anunciara na campanha de Heloísa Helena, em 2006, das mais despolitizadas que a esquerda já fez. No Brasil pós-Satiagraha, o PSOL extrapola, do louvável apoio ao Delegado Protógenes Queiroz, uma leitura da realidade que faria Trótski revirar-se no túmulo, inimigo que era ele de toda confusão entre lei e justiça ou entre moral e política. Confio que o leitor não pense que eu sugira desatenção ao problema da corrupção. Simplesmente estou afirmando que o discurso moral anti-corrupção não pode ser eixo de uma política de extrema-esquerda genuína.
No site do PSTU, a principal manchete é “Os trabalhadores não pagarão pela crise”. É difícil reconciliar a manchete com a própria interpretação que faz o PSTU do Brasil. Pois se o governo Lula é o agente neoliberal que a extrema-esquerda denuncia, a chamada correta deveria ser “Trabalhadores pagarão pela crise”. A manchete incorre numa contradição performativa, uma comum confusão entre o ser e o dever ser que frequentemente acomete a extrema-esquerda quando ela perde contato com a realidade. Se fosse verdadeiro para o PSTU dizer “os trabalhadores não pagarão”, ou seja, se fosse factível a hipótese de que um movimento operário liderado pela Conlutas conseguisse, dentro da “ordem neoliberal” de Lula, que os trabalhadores deixassem de pagar pela crise, ora ora, seria a própria existência dessa ordem que estaria em dúvida. Ela não está, como o próprio PSTU reconhece. Achar que dentro da ordem capitalista os trabalhadores “não vão pagar” por algo é de um reformismo inaceitável num partido que se quer revolucionário. De novo, Lênin revira no túmulo. A confusão entre o que é e o que deveria ser não é causa, claro, mas sintoma de uma extrema-esquerda que não sabe formular seu papel no presente.
Mas passemos ao momento propositivo. O que fazer? Para a esquerda, o eixo definidor, o ponto-âncora do corpo político é a putrefação da grande mídia no bojo da Satiagraha, a partir da qual se desatou a jagunçagem de Gilmar Mendes e a desmoralização do Poder Judiciário. Nesse feixe de contradições um leninista identificaria a questão universalizante, ou seja, aquela tensão do corpo social que tem o potencial de desatar o antagonismo constitutivo, central. Quem é de esquerda no Brasil hoje e não está refletindo sobre esse imbróglio não está pensando nada.
Como trabalham com o sofisma de que PT e PSDB são irmãos gêmeos, os partidos de extrema-esquerda não compreendem por que raios se forma de maneira tão furiosa a articulação Gilmar Mendes-Revista Veja e seus capangas. Perdem a oportunidade de contribuir ao esforço definidor da intervenção de esquerda hoje (e dentro do qual eles poderiam até ganhar espaço em relação ao PT): acelerar a destruição da moribunda credibilidade nos grupos de mídia; promover a guerra de guerrilha incessante contra sua imagem, moral e capacidade de esconder a fábrica de linguiça; exibir e ridicularizar cada erro, mentira, notícia distorcida; revelar e expor minuciosa e diariamente sua história de colaboração com a ditadura; acossar seus patrocinadores com o boicote; bombardear seus ombudsmen com críticas; ajudar a disseminar os blogs que os desconstroem; trabalhar diuturnamente nas campanhas de cancelamento de assinaturas; não respirar enquanto as corjas Civita, Marinho, Frias e cia. tenham sofrido uma derrota categórica.
No bojo dessa práxis, quem sabe não se acumulam forças suficientes para um movimento nacional pelo impeachment de Gilmar Mendes? Quem aposta que um movimento popular não pode encurralar um Senado?
Isso é mais leninista e revolucionário que fazer um sitezinho dizendo que as comemorações do 1° de maio serão “independentes e classistas” e que o Bolsa Família é “migalha dada pela burguesia”. Os partidos de extrema-esquerda brasileiros precisam ler com atenção seus Lênin e Trótski: a interpretação revolucionária da realidade começa com a identificação da sua contradição constitutiva.
A julgar pelos gritinhos da República Morumbi-Leblon, pareceria que o Brasil nunca recebeu a visita do chefe de um estado autoritário. A julgar pelos videozinhos, você imaginaria que somente líderes de democracias tolerantes e liberais têm permissão de visitar o Brasil. É curioso que pessoas que não deram um pio acerca do inominável massacre israelense em Gaza venham agora posar de defensores dos direitos das mulheres iranianas. Não me consta, aliás, que alguém nessa turma tenha dito nada quando o Brasil recebeu a visita de Bush, responsável por uma guerra baseada em mentiras, pela adoção da tortura como política de estado, pelo campo de concentração de Guantánamo, pela morte de centenas de milhares de iraquianos.
Quando você vir alguém dessa turminha dizendo que Ahmadinejad propõe a exterminação dos judeus, faça algo muito simples: peça o link. Pergunte qual é a fonte. Pergunte quem traduziu o texto do persa. Porque o líder iraniano jamais disse isso. O que ele disse foi: "o regime que ocupa Jerusalém (een rezhim-e ishghalgar-e qods) deve ser apagado da página do tempo (bayad az safheh-ye ruzgar mahv shavad)." A tradução é de um dos maiores especialistas em Oriente Médio da contemporaneidade, Juan Cole, confirmada por dois outros tradutores do persa. Leia a entrevista de Ahmadinejad e confira você mesmo. Sobrando um tempinho, assista ao vídeo da palestra de Ahmadinejad em Columbia University, cujo presidente o recebeu com uma grosseria que até hoje envergonha a nós, acadêmicos americanos.
Suponho não ser necessário esclarecer que eu acho muita coisa no discurso de Ahmadinejad absolutamente repugnante, especialmente as declarações sobre o homossexualismo. Não defendo o que ele diz. Mas há que se corrigir as mentiras. A calúnia de que Ahmadinejad ameaçou “varrer Israel do mapa” -- e, a partir daí, a afirmativa mais delirante ainda de que ele propõe a exterminação de judeus – tem uma longa história, que se remonta a uma tradução manipulada do New York Times. É, meu chapa, quando se trata de Oriente Médio e do lobby pró-ocupação israelense, até as traduções devem ser minuciosamente revisadas.
Não custa lembrar, claro, que o Irã não invadiu país nenhum. O Irã não tem uma história de agressão contra seus vizinhos. Na guerra Irã-Iraque, o agredido foi ele, na época em que o depois demonizado Saddam Hussein era amiguinho de Donald Rumsfeld. Sim, é evidente que a situação dos direitos humanos no Irã é grave. Ela é quase tão grave como a situação na Arábia Saudita, país onde sequer existem eleições nacionais, mas cuja monarquia visita e faz polpudos negócios no Ocidente sem que se ouça um pio dos nossos preocupadíssimos democratas da República Morumbi-Leblon.
Qual é o país do Oriente Médio que ocupa ilegalmente terras de outrem há mais de quarenta anos, com uma história de sistemática agressão contra seus vizinhos e de desrespeito às resoluções das Nações Unidas? Qual é o país do Oriente Médio que infiltra espiões até mesmo no território de seu maior aliado? Não é o Irã.
Aceito debater o Irã com qualquer membro da República Morumbi-Leblon que me ofereça um ou dois parágrafos articulados acerca de como era mesmo maravilhosa a situação no país persa entre 1954 e 1979. Afinal de contas, a julgar pelos horrorizados chiliques, você imaginaria que antes da Revolução Islâmica as coisas andavam muito bem por lá. Na verdade, a única vez em que o Irã esteve perto de chegar a um regime aberto e tolerante foi um pouco antes de 1954, quando a Frente Nacional de Mohammed Mossadeq nacionalizou a indústria do petróleo. Mossadeq foi logo depois removido por um golpe de estado preparado pela CIA, naquilo que Robert Fisk, em sua obra monumental, chamou de primeira operação americana desse tipo durante a Guerra Fria (pag. 99). Com sua implacável verve britânica, Fisk acrescenta: pelo menos nós nunca afirmamos que Mossadeq tinha armas de destruição em massa.
O golpe de 1954 inaugura um período caracterizado por Fisk como de “monarquia absoluta” do Xá, controlada pela sua temida polícia política que, ao custo de assassinatos, tortura e supressão da oposição, garantiu a estabilidade necessária para que se exportassem 24 bilhões de barris de petróleo nos 25 anos que se seguiriam. A Revolução Islâmica canalizou a revolta da população iraniana, num momento em que muita gente ainda sonhava com a possibilidade de uma esquerda nacionalista e secular no mundo árabe. Essa foi uma opção que existiu durante algum tempo, com Nasser e cia., mas que sucumbiu ante os golpes de estado e as invasões americanas, assim como as sistemáticas agressões israelenses – com o apoio dos mesmos direitecas que agora acusam os críticos do sionismo e do imperialismo de serem cúmplices do bicho-papão islâmico.
Eu me pergunto se esses direitecas que histericamente gritam que Ahmadinejad quer “aniquilar” Israel sabem que o presidente do Irã sequer é o comandante-em-chefe das Forças Armadas do país. Quem tiver curiosidade arqueológica, que consulte a grande imprensa americana entre, digamos, 1998 e 2002. Naquele período, em que o reformista moderado Mohammad Khatami dava declarações de aproximação aos EUA e ao Ocidente, esses gestos eram descartados com o argumento de que o presidente do Irã não tem poder real – o mesmo fato do qual agora eles convenientemente se esquecem, para que possam apresentar Ahmadinejad como comedor de criancinhas.
Etiquetar Ahmadinejad como “ditador do Irã” é ridículo. Ele foi eleito. É verdade que sua vitória foi conquistada com os mesmos métodos de George Bush. Mas se quiserem entender o clima que possibilitou sua eleição, há que se estudar um pouco a enorme frustração dos setores jovens iranianos com Khatami, que tentou e tentou se aproximar do Ocidente, sendo sistematicamente rechaçado.
A tarefa da esquerda é dupla. Desmascarar a mentirada e a hipocrisia da República Morumbi-Leblon e do lobby pró-Israel ao mesmo tempo em que oferece solidariedade aos setores da sociedade civil que estão lutando no Irã – e também na Arábia Saudita! – contra regimes que são, sim, bastante opressivos. Há que se fazer um coisa sem perder de vista a outra. Mas a iniciativa de querer expulsar Ahmadinejad do Brasil, vinda de gente que recebeu Bush sem dar um pio, tem um só nome: hipocrisia.
Portanto, sem prejuízo nenhum ao meu apoio aos que, no Irã, lutam por uma democracia real, não posso deixar de retrucar: Bem vindo, Ahmadinejad. Tome sua cachacinha com Lula (sim, sim, sei que é proibido...), visite algumas das maravilhas desse que é um dos mais belos países do globo e não ligue para a meia dúzia que protesta. Estão em vergonhosa minoria. Já não sabem em que se agarrar. Na última eleição, o candidato deles não conseguiu sequer repetir no segundo turno a votação que havia tido no primeiro. É compreensível que estejam tão histéricos.
Leandro Fortes, da Carta Capital, um dos jornalistas que mais vêm honrando a profissão no Brasil, fazendo reportagens genuinamente investigativas, sem medo de desagradar aos poderosos, nos deu um presente este fim de semana. Leandro retomou seu blog Brasília, eu vi. Diz Leandro: "Acho que temos que reforçar essa rede de jornalistas independentes e honestos. Pode, no fim das contas, ser tudo que nos resta."
Saíram os números do primeiro trimestre e há muito que comemorar. As organizações criminosas conhecidas pelo eufemismo “grande mídia” tiveram, em termos relativos, o seu pior trimestre da história. A Folha, jornal brasileiro de maior circulação, cai paulatinamente a cada primeiro trimestre desde 2000. No começo daquele ano, vendia uma média de 429.476 exemplares diários. Veio despencando ano após ano até o recorde negativo do primeiro trimestre de 2009, no qual somente 298.352 incautos contribuíram, em média diária, com a organização criminosa.
A bandidagem liderada pela famiglia Marinho não teve melhor sorte. O Globo tinha média diária de 334.098 exemplares diários vendidos no começo de 2000. Fechou o primeiro trimestre de 2009 vendendo 260.869 exemplares por dia. No mesmo período, o Estadão caiu de 391.023 para 217.414 exemplares diários vendidos. Em menos de uma década, a Folha perdeu mais de trinta por cento dos seus leitores. Também despencaram o Diário de São Paulo, o Correio Braziliense e O Dia. Incrivelmente, a Zero Hora teve ligeira subida. A organização criminosa pertencente ao grupo RBS vendeu 184.893 exemplares em média no primeiro semestre de 2009. É um número menor que os 186.471 vendidos diariamente no começo de 2000, mas é ligeiramente superior ao mesmo período em todos os outros anos desta década.
Sem dúvida, a crise da mídia impressa é mundial. Mas os donos dos grandes jornais brasileiros, assim como seus funcionários, deveriam refletir sobre se isso explica, por si só, esses números. Baseadas nos números do Instituto Verificador de Circulação (IVC), a notícia saiu no site meio&mensagem, que é fechado para não-assinantes. Foi repercutida pelo Portal Vermelho, onde há mais números. Para a Folha Online, a queda dos lucros do Yahoo é notícia, a do New York Times também, mas a queda do seu próprio jornal não foi noticiada. A Folha usa os números do IVC quando lhe convém.
Num contexto como este, em que a grande mídia continua sofrendo derrotas nos tribunais, se o leitorado brasileiro de esquerda souber organizar uma massiva campanha de boicote e pressão aos anunciantes das organizações criminosas, elas cairão igual fruta podre. Não haverá Gilmar Mendes nem negociatas sem licitação com José Serra que salve.
Seria interessante fazer um levantamento minucioso das finanças das organizações criminosas, observar quais anunciantes mais contribuem e começar o bombardeio. O boicote a anunciantes é uma arma que, pelo menos nos EUA, a direita tem usado com muito mais habilidade que a esquerda. É uma iniciativa que tem pouca tradição no Brasil. É hora de começar a usá-la.
Gigantesca barriga global: Noblat e Diego Abreu “noticiam” que “empresário pediu punição a Joaquim Barbosa” omitindo que o sujeito é um bandido com 900 processos
Ela vinha empacotada como notícia. Foi devidamente repercutida pelo blogueiro global. Já era, em si, uma constrangedora não notícia – constrangedora pelo vergonhoso intento de conferir-lhe relevância que não tinha. No G1, a “matéria” de Diego Abreu vinha acompanhada do pomposo subtítulo Luiz Eduardo Bottura pede afastamento de 30 dias para o ministro. Isso não envolve apenas dois ministros, mas a imagem do país', disse. Quem é Luiz Eduardo Bottura? Um “empresário”, segundo o Diego Abreu. Ou seja, ele não é nada para pedir punição a ministro nenhum. A “notícia” tinha tanta relevância como, digamos, Idelber Avelar exige a demissão de Dunga. É uma não notícia. Quem é Bottura? Quem se importa com o que ele pensa?
Mas eis que a vergonha e a desmoralização dos jornalistas globais não paravam aí. Foram além. A turma do Cloaca News pesquisou quem era Luiz Eduardo Bottura, o “empresário” a quem com tanta pompa Noblat e Diego Abreu atribuíam a importante notícia de que ele “pediria punição” a Joaquim Barbosa. Descobrem que o sujeito é um bandido com 900 processos por crimes como estelionato, extorsão, uso de documento falso, coação, denúncia caluniosa e falsidade ideológica. Ainda por cima encontram a informação num link da afiliada matogrossensse da ... Globo! Alegoria pouca é bobagem.
Em primeiro lugar, quanta má fé é necessária para ir atrás de um cidadão qualquer que esteja disposto a “pedir punição” a Joaquim Barbosa e travestir isso de notícia? Em segundo lugar, quanta burrice tem que ser acoplada a essa má fé para que, em tempos de internet, escolham justamente um bandido fichado? Está ficando tedioso e repetitivo desconstruir esses caras.
Começo a achar que se a gente sacudir esse balacobaco, rola barulho nas ruas pelo impeachment de Gilmar Mendes. É só articular direitinho.
PS: Não deixem de ler os últimos posts do RS Urgente.
Bacharelismo, Capanga e Gritos, de Francisco Foot Hardman
O texto que se segue é de autoria de meu amigo Francisco Foot Hardman, professor da UNICAMP. A foto é daqui.
O professor propôs aos alunos um exercício de crônica não presencial diante dos últimos acontecimentos. E sua pior aluna rabiscou mais ou menos o que segue.
Foi assim. Ele mirou-se no espelho e disse: “A Justiça sou Eu!...” Fez com convicção, ou melhor: sua autoconfiança no poder ilimitado que imaginava possuir já ultrapassara o nível da consciência racional. O presidente da suprema corte vivia em estado de transe, no trânsito livre entre os três poderes, no pontificado das meias-verdades sopradas como vento aos holofotes da mídia, no intervencionismo jurídico de todo dia, nas frases feitas do senso comum convertido em opinião abalizada, que se bastavam a si mesmas pelo tom e impostura própria de um magistrado que se sabe na terra dos coronéis-bacharéis. Palavras encenam o teatro de sentenças transadas em julgado. Tipo: “O país caminha celeremente para um Estado policial”. Ou então: “O gabinete de Justiça-sou-eu foi grampeado”.
E era assim um festejo para os fabricantes de fatos. Prejulgamento, antecipação de voto, opiniões assertivas sobre o legislativo e o executivo, pitos de bedel endereçados ao presidente da República e a ministros de Estado. Vinha esse novo chefe máximo da magistratura superando-se a cada dia, no sentido de fazer do terceiro poder o primeiro em protagonismo e também em cinismo. Batera alguns recordes de antecessores no atendimento a recursos de habeas corpus de mandões. Se a lei se arrepiasse como gato na tuba, se juízes do “baixo clero” chiassem, se a opinião pública se chocasse, que importa? “Lex, ora lex!... La Justice, c’est moi!...”, repetia o Chefe diante do espelho, misturando verbo e idiomas, mas ainda sumamente convicto, mesmo que a imagem já surgisse manchada por fungos invasores que teimavam em assolar a mansão do Grande Lago e turvar a reflexão em estado puro do enorme espelho funcional... Isso já um pouco ébrio, é verdade, ébrio do poder quase soberano que abocanhara, mas também da dose dupla que lhe pusera na mão um dos capangas.
- Capanga?!!! Mas que anacronismo, senhor Presidente!... O senhor não tem moral para falar em capanga. Aliás, se capangas há em algumas províncias do interior profundo, isso são reminiscências de priscas eras e malvados costumes. Atrasos inevitáveis de país tão vasto e desigual. Eu lhe garanto, e aqui fala um estudioso da história do Brasil, não há capangas em Brasília. Houve candangos, Vossa Excelência confunde!... Capangas no more, aliás nunca, never. Em Brasília, Paraíso do Paralelo 15, somente homens de bem. De bem com a vida. Capazes, muito capazes. Jamais capangas.
- E mais: se a impunidade dos donos do poder é regra, isso não é culpa do Judiciário, nem do Supremo Teatro Federal. Aqui seguimos apenas à risca os mínimos ritos. Desarrepiem-se súmulas e acórdãos. Verifiquem-se. Cumpra-se. Ritos sumários quando se trata do benefício a homens de bem, porque acima de tudo os indíviduos e seus direitos. E sumidos quando se trata da sociedade, porque abaixo de tudo os elementos, os comboios de desvalidos amontoados no anonimato da vida nua. Ritos sumidos. Há já farta jurisprudência a colecionar.
E para conter a fúria punitiva de rábulas, de procuradores insensatos, de Ministério Público “populista”, nada melhor que um Pacto Republicano consignado com os presidentes desmoralizados do Senado e da Câmara, com o presidente da República para quem os conflitos mais profundos da política e da sociedade cabem todos na sempre idêntica e arquigasta metáfora futebolística. Se futebol é nossa segunda natureza, tudo que se pode parecer a ele é bom para o “funcionamento da democracia”. Com o pacto, blinda-se o fosso que já separa secularmente poder e sociedade. Reforçam-se as ameias dessa Brasília autista. Inalcançável para as massas, que permanecerão sem biscoito fino, excluídas da cidadela, no limbo da pré-cidadania. Cerra-se o pacto e do lado de fora os patos ficam, os bestializados de ontem e de agora.
Mas na manhã de um aniversário melancólico, quando Justiça-sou-eu acordou sem sessão plenária para celebrar seu primeiro ano de pontificiado, o espelho funcional amanheceu trincado numa das bordas. E ao mirar-se para a pergunta de praxe: “Espelho, espelho meu, há alguém mais justo que eu?!...”, viu num átimo que sua cara desaparecera, e lá despontava do país-além-dos-espelhos um rosto negro, sóbrio, severo, que apesar dos olhos diminuídos pela miopia guardava olhar gigante, e uma voz altiva, passionária, desrespeitosa, anti-bacharelesca, voz que ressoava sim a das ruas, mas não dispersa como esta, antes compacta, voz que talvez destampasse a fúria de séculos de opressão, e portanto assustadora porque deslocada, estranha na sua presença naquele puro reflexo, naquele relâmpago fugaz, e incômoda e precisa e repetida e tão desrespeitosa como a imagem do homem negro que a pronunciava: “- Respeito!...”
E lá na longínqua Roraima, nas terras da Raposa do Sol, indígenas brasileiros dançavam em círculo ao anoitecer daquele dia, renovando o rito suado de sua milagrosa sobrevivência.
E pela internet multidões de correspondentes trocavam excelências. Sabiam ainda, muitos, recitar essas antigas cantigas fúnebres. Com todo o respeito. Não se enterravam pessoas. O cadáver desta feita era o da suprema comédia federal. Comédia macabra dos podres poderes. Bacharelismo, capanga e gritos. Excelências revezaram-se por toda a noite.
Justiça-sou-eu resolveu deitar mais cedo. Estava macambúzio. Bebera um trago a mais. Iniciativa própria. Sonhou com capangas.
Por Francisco Foot Hardman
Escrito inicialmente para o jornal O Estado de S. Paulo, este artigo permanece inédito.
Como os leitores são tratados pelos semanários brasileiros
Duas comunicações recentes de leitores brasileiros com grandes semanários do país mostram como é grave a crise de credibilidade da imprensa. A primeira aconteceu com Paulo Morais, meu concunhado, que compartilhou com o blog uma inacreditável correspondência que manteve com o responsável pela coluna "Filtro", na Revista Época. A segunda aconteceu entre membros da comunidade científica brasileira e a Revista Veja.
No dia 21 de julho passado, a coluna Filtro, da Época, trouxe observações sobre a Seleção Brasileira de futebol sob o título “as análises e opiniões que interessam para entender o Brasil e o mundo”. Como as tais opiniões e análises eram todas estrangeiras, o Paulo escreveu o seguinte email:
Prezado editor,
Até tento, mas não consigo entender os critérios de filtragem de opinião da coluna "O Filtro", da seção Primeiro Plano. Esta semana (edição de 21 de julho) traz opiniões da New Yorker, The Economist, Newsweek e Time. É essa mesmo a opinião que interessa para nós brasileiros entendermos o Brasil? Faz sentido uma página de revista brasileira dizer que traz "as opiniões e análises que importam para entender o Brasil" e nos mostrar a opinião e as análises que os norte-americanos fazem de nós? O que leva uma revista das mais importantes da imprensa brasileira reproduzir fielmente o discurso estrangeiro, eleveando-a gratuitamente à condição de "opinião que interessa"?
O pior não é isso. A coluna desta semana traz a questão da seleção brasileira ocupada por jogadores que atuam no exterior. Precisa dessa notícia sair na Time para ela ser considerada uma "análise que interessa para entender o Brasil e o Mundo"? Desde pelo menos uns 10 anos a debandada de jogadores tem sido generalizada, mas só quando o assunto ganha destaque na mídia dos Estados Unidos, ela interessa para o Brasil. Será que é isso mesmo?
A Time diz que "O Brasil quer sua seleção de volta". E eu, mero brasileiro, digo: "Quero nossa imprensa de volta".
Sobre a seção "Mente Aberta", nem vou comentar. Já deixei de ler, pois já não há nada de brasileiro por ali.
Atenciosamente,
Paulo Morais
Luminárias (MG) – Brasil
No dia seguinte, o Paulo recebe por engano um email do editor da coluna, Juliano Machado, dirigido a outrem. A missiva dizia o seguinte:
André, tudo bem?
Recebi o e-mail abaixo sobre o Filtro. Quero responder ao leitor, mas não sei se devo abrir o jog sobre como escolhemos as notas da seção. O cara tem certa razão quando questiona a linha-fina de apresentação ("As opiniões e análises que importam para entender o Brasil e o mundo").
Abraço,
Juliano
Logo em seguida, o Paulo recebe outro email, de novo do editor da coluna, agora dando-se conta do que tinha feito e tentando consertar:
Caro Paulo,
Desculpe pelo estranho e-mail enviado anteriormente. Imagino que o senhor tenha estranhado a história do "abrir o jogo" sobre a forma como são escolhidas as notas do Filtro, mas quero desfazer qualquer eventual impressão de que exista algo "encomendado" para citar este ou aquele veículo. A grande questão do Filtro (e que talvez, de fato, não fique clara naquela frase de apresentação "as opiniões e análises que importam...") é mostrar o que os grandes veículos da mídia internacional estão falando sobre o Brasil. Ou seja, o que está sendo falado sobre o Brasil nos grandes centros mundiais, além de algumas análises da geopolítica internacional. Portanto, sempre vai haver referências aos veículos americanos e britânicos, certamente os que mais repercutem na política e economia globais.
De fato, nossa frase de apresentação da seção não está de acordo com o propósito do Filtro, e até o editor-executivo da revista está sugerindo que o texto seja reescrito. Dessa forma, o objetivo do Filtro ficaria mais claro. Portanto, é bem provável que, na próxima edição, isso já seja feito.
Obrigado pela sua pertinente observação.
Um abraço,
Juliano Machado
Paulo, evidentemente, nem havia pensado em nenhuma mutreta escondida que descobrir. Ele simplesmente fizera a observação de que não é muito apropriado ter um filtro de imprensa estrangeira com o subtítulo “as opiniões e análises que interessam para entender o Brasil”. O email enviado pelo jornalista para um colega seu sugere que há algo na escolha do material da coluna sobre o qual ele não poderia “abrir o jogo”. O que será? Terá o jornalista alguma explicação? Não seria legal que, agora que a trapalhada foi revelada publicamente, ele abra o jogo? Porque essa emenda aí ficou bem pior que o soneto.
O outro caso explícito de combinação entre arrogância e ignorância, tremendo despreparo e total descaso com o leitor aconteceu na matéria sobre genética publicada pela Revista Veja na semana retrasada. O Ricardo Vêncio, do Laboratório de Processamento de Informação Biológica da USP Ribeirão, escreveu o seguinte email para a revista:
Caros da Veja,
Apesar do texto da reportagem sobre Genética da última edição estar muito bom, incluindo até conceitos da emergente Biologia Sistêmica, a figura que mostra a sequência: "célula - DNA - gene" induz o leitor a erros conceituais graves:
1) A interação entre as duas fitas da hélice de DNA está ilustrada como algumas bolinhas em seqüencia, dando a impressão que são átomos, partículas ou coisa que o valha. Essas ligações são chamadas "pontes de hidrogênio" e, na verdade, são atrações entre átomos que estão nas duas fitas. Uma linha tracejada ou algo do tipo seria uma ilustração adequada enquanto que bolinhas induzindo o leitor a imaginar uma cordinha ou corrente ou algo assim, definitivamente não. Uma boa ilustração pode ser encontrada, por exemplo, aqui.
Acho importante que uma errata seja publicada na próxima edição, uma vez que não são errinhos sem importância, mas sim falhas conceituais graves, principalmente se lembrarmos que esta edição foi publicada logo depois daquele sobre Vestibulares.
Obrigado.
O DNA da Veja
O email apontava dois erros na reportagem, sendo um deles bastante grave. Caramba, até eu sei que genes são feitos de pedaços de DNA e não de pontes de hidrogênio! Resposta da Revista Veja? Caiam de costas:
Prezado Ricardo Z. N. Vêncio,
Agradecemos as observações sobre a reportagem "Um gene, várias doenças" (22 de abril de 2009 - página 98). Consultamos os jornalistas responsáveis pela reportagem. Eles nos forneceram os seguintes esclarecimentos: "Por não ser uma revista científica, VEJA pode sim representar os genes como bolinhas. Cometeríamos erro se tivéssemos trocado os genes pelo DNA ou coisas do gênero. As imagens publicadas foram obtidas em bancos de imagens e estão identificadas da mesma forma como aparecem em VEJA."
Atenciosamente,
Redação/Revista VEJA (www.veja.com.br) .
Vejam a petulância da resposta. Tudo ali tem a cara da revista: a exibição de ignorância, a justificativa furada para o erro mais crasso, o tom desqualificador a uma correção polida que havia chegado de um especialista, a inacreditável afirmativa de que como “não é uma revista científica”, Veja pode traficar informação equivocada, a incapacidade até mesmo de reconhecer qual era a crítica, que evidentemente não era às bolinhas em si.
Para completar o vexame, um leitor descobriu um parágrafo inteiro plagiado do Wall Street Journal na mesma reportagem. Avisada por ele da fonte do texto, a reportagem respondeu de novo com arrogância e mentiu, referindo a informação a um pesquisador da Pensilvânia. O leitor contactou o pesquisador americano e desmascarou a farsa. Como se vê, não são só grampos que a Veja inventa.
Esse descaso e prepotência semianalfabeta sempre foram marcas registradas da grande imprensa brasileira. A diferença é que agora isso vem às claras com cada vez mais frequência, para um público cada vez mais amplo. Acelerar a decadência, a putrefação, a inevitável morte desse lixo é tarefa ineludível. Se você ainda tem algum amigo ou parente que assina, mãos à obra.
É importante apoiar, reproduzir e circular o trabalho daqueles que estão fazendo genuíno jornalismo investigativo no Brasil. Eles são tão poucos! O post de hoje é um pequeno reconhecimento do trabalho de um deles, Leandro Fortes. Quebra-se hoje, pois, a regra tácita deste blog, de não reproduzir textos alheios na íntegra. Mas é que esta reportagem de Leandro Fortes, publicada originalmente em Carta Capital, 05/10/2008, merece ser lida de novo. Aí vai, completa. (daqui)
CARTA CAPITAL - 05/10/2008
"Quem quiser ficar rico, não vá ser juiz"
João Batista de Arruda Sampaio, desembargador e jurista (1902-1987)
Por Leandro Fortes
Colaboraram Filipe Coutinho e Phydia de Atahyde
Desde que veio à tona a história do suposto grampo de uma conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, galvanizou os anseios de uma parte da sociedade que enxerga nos ministros de tribunais superiores a chance de controlar o poder negado nas urnas em eleições recentes. Como "vítima" de uma interceptação ilegal até agora não comprovada, Mendes acabou alçado à condição de paladino do Estado de Direito, dos valores republicanos e, por que não, da moralidade pública.
O episódio exacerbou uma tendência crescente do STF, a de interferir além dos limites de sua atribuição na vida dos demais poderes. Coube a Mendes chegar ao extremo, quando chamou "às falas" o presidente da República por conta da mal-ajambrada denúncia do tal grampo. O Congresso, a Polícia Federal, os juízes de primeira instância, o Ministério Público, ninguém escapa da fúria fiscalizadora do magistrado que ocupa o principal cargo do Poder Judiciário no Brasil.
Quem tem a pretensão e o pendor para "varão de Plutarco", presume-se, segue à risca na vida particular os padrões morais que prega aos concidadãos. Não parece ser este o caso de Mendes. A começar pela sua participação no controle acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Há de cara um conflito ético, ainda que as regras da magistratura não sejam claras o suficiente sobre a permissão de juízes possuírem negócios. Criado em 1998, o IDP organiza palestras, seminários e treinamento de pessoal, além de oferecer cursos superiores de graduação e pós-graduação. Entre 2000 e 2008, faturou cerca de 2,4 milhões de reais em contratos com órgãos ligados ao governo federal, todos firmados sem licitação. No quadro de professores contratados pelo instituto figuram ministros de Estado e dos tribunais superiores, e advogados renomados, vários deles defendendo clientes com ações que tramitam no STF presidido por Mendes.
A Lei Orgânica da Magistratura deixa dúvidas sobre os limites da atuação de juízes além dos tribunais. O parágrafo 2º do artigo 36 diz ser vedado exercer cargo de direção ou técnico de sociedade civil, caso do IDP, mas nada diz sobre possuir ações ou cotas do empreendimento. Magistrados mais antigos sempre interpretaram que a lei só permite ao juiz dar aulas remuneradas, nada mais. A visão tem mudado. Estudiosos do Direito como David Teixeira de Azevedo, professor da Universidade de São Paulo, e Dalmo Dallari, professor aposentado da USP, afirmam que não há nada na legislação que proíba expressamente a participação societária em empresas privadas. "É preciso ver, porém, se o juiz se valeu de sua condição para obter qualquer tipo de benefício."
O que se pode dizer do IDP é que gravitam ao seu redor nomes de peso da República. O corpo docente é formado por 87 professores, entre eles dois ministros do governo Lula, Nelson Jobim (Defesa) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Eventualmente dão palestra no instituto, José Antônio Toffoli, advogado-geral da União, e Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Unger, por exemplo, esteve lá na quinta-feira 2, na abertura do 11º Congresso Brasiliense de Direito Constitucional.
Vários dos colegas de tribunal também são docentes do instituto: Carlos Alberto Direito, Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia Rocha, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Há ainda diversos titulares do Superior Tribunal de Justiça.
O presidente do STF tem dois sócios na escola. Um deles é o procurador regional da República Paulo Gustavo Gonet Branco, o outro, o advogado lnocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de 1981. De acordo com a junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil reais, num total de 1, 2 milhão de reais, para fundar o IDP.
O investimento parece ter dado frutos. O IDP mantém, por exemplo, contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualmente presidido por Carlos Ayres Britto, que substituiu na função Marco Aurélio Mello. Já o faturamento em contratos com a União cresceu após Mendes ter sido nomeado ministro do Supremo. De 2003 para cá, o valor somou 1, 6 milhão de reais, segundo dados disponíveis no site Contas Abertas (www. contasabertas. com. br). O mês de setembro foi particularmente pródigo: 350 mil reais em convênios. Todos, repita-se, firmados sem licitação.
No Portal da Transparência da CGU. mantido pelo governo federal, há dados interessantes sobre os contratos do instituto. Dentro das guias de pagamento do portal, aparece um acordo com a Receita Federal até para trabalho aduaneiro.
Têm sido comuns também contratos com a Força Aérea Brasileira. Tanto interesse da FAB nas consultorias do instituto do ministro Gilmar Mendes tem uma razão de ser. O diretor geral do IDP é um experiente coronel da reserva da Aeronáutica, Luiz Fernandes de Oliveira, segundo ele mesmo, com carta-branca dos sócios para fazer tudo, "menos fechar o IDP". Aviador por formação, com cursos de administração pública na Fundação Getúlio Vargas e de Ciências Políticas Militares, no Exército, o coronel Fernandes é um velho conhecido do brigadeiro Juniti Salto, com quem trabalhou na FAB. Bem articulado, o diretor-geral fechou bons contratos para o IDP, e não somente na Aeronáutica.
Os valores recebidos da União pelo IDP, em 2008, devem-se, sobretudo, a três contratos firmados com o Senado Federal, o STJ e a Receita Federal. Do Senado, o instituto do ministro Mendes recebeu 125 mil reais, para ministrar um curso de Direito Constitucional para "consultores e demais servidores" da Casa. No STJ, o curso é de Direito Tributário, voltado para servidores lotados em gabinetes de ministros, ao custo de 88, 2 mil reais. E, finalmente, da Receita Federal o IDP recebeu 117, 9 mil reais para também aplicar um curso de Direito Tributário a funcionários do órgão.
Pelo Portal da Transparência é possível saber que a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional contratou o IDP para gerir o programa de "Recuperação de Créditos e Defesa da Fazenda Nacional", por 11 mil reais. O interessante é que, entre os professores do IDP, há três procuradores da Fazenda Nacional: Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, José Levi Mello do Amaral Júnior e Rodrigo Pereira de Mello.
Há mais. Em 2006, a Receita Federal pagou 16 mil reais ao IDP na rubrica "Administração do Programa" e "Arrecadação Tributária e Aduaneira" do Aeroporto de Brasília. Segundo a assessoria do órgão, a Receita pagou curso de pós-graduação em Direito Tributário a servidores. Na mesma linha, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do MEC pagou 58 mil reais ao IDP para "Controle e Inspeção da Arrecadação do Salário-educação e sua Regular Aplicação" dentro do programa de Gestão da Política de Educação.
Os cursos oferecidos pelo IDP também foram contratados pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), que pagou 690 mil reais para oferecer a 92 procuradores do DF pós-graduação em Direito Público, entre março de 2006 e junho de 2007. Assim como nos outros contratos, a licitação foi considerada "inexigível". No período em que Jobim presidiu o STF, entre 2005 e 2006, o tribunal gastou quase 50 mil reais em cursos e eventos oferecidos pelo instituto de Mendes, tudo sem licitação, na modalidade "inexigível", ou seja, a partir do pressuposto de não haver outra entidade capaz de prestar serviços semelhantes. De fato, ao congregar quase uma centena de advogados, ministros, promotores, juízes, auditores, procuradores e auditores no corpo docente do IDP, Gilmar Mendes praticamente anulou a possibilidade de surgirem outras instituições capazes de prestar os mesmos serviços em Brasília.
Em 2006, reportagem do jornal O Globo denunciou uma das relações estranhas do IDP com o STF. Então presidente interino do Supremo (a titular, Ellen Gracie Northfleet, estava de licença médica), a única saída de Mendes foi transformar em "bolsa de estudos" um empenho de 3, 6 mil reais referente a um curso de mestrado em Ações Constitucionais ministrado pelo IDP a três funcionários do Supremo. Ao se justificar, o ministro alegou não ter havido irregularidade porque cabia aos servidores escolher o curso e a escola onde pretendiam fazer as especializações. Só se esqueceu de dizer que, como o IDP tem o monopólio desses cursos em Brasília, o instituto não só foi o escolhido como, claro, caiu na modalidade "inexigível" de licitação.
Ainda assim, as poucas tentativas de impedir o presidente do STF de usar de influência para conseguir contratos no governo, até hoje, foram em vão. A primeira delas ocorreu em abril de 2002, pouco antes de ele ser nomeado ao STF, quando o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade administrativa justamente por Mendes ter contratado o IDP para dar cursos no órgão do qual era o principal dirigente, a Advocacia-Geral da União. No STF, onde o caso foi parar, a ministra Ellen Gracie (indicada por Jobim, referendada por FHC) decidiu pelo arquivamento da ação. O Supremo nem sequer analisou um recurso do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, contra a decisão.
A sede do IDP é um amplo prédio de quatro andares, onde, segundo o site do instituto, há 22 salas de aula "amplas e confortáveis", uma biblioteca informatizada (não é verdade), um foyer para realização de eventos acadêmicos, um auditório com capacidade para 240 espectadores (ainda em construção) e estacionamentos interno e externo (neste caso, trata-se das ruas ao redor da escola). Na fachada do edifício há uma placa na qual se lê: "Empreendimento financiado com recursos do Fundo Constitucional do Centro Oeste FCO". Trata-se de dinheiro gerenciado pelo Banco do Brasil, a partir de um contrato fechado durante um churrasco na laje do IDP, em 2006, quando o prédio ainda não estava pronto.
Antes, um pouco de história. O IDP começou a funcionar, em 1998, na casa do ex-procurador-geral Inocêncio Coelho, no Lago Sul, uma área de casarões em Brasília. As aulas ocorriam em uma só sala, mas, com o aumento da procura pelos alunos, os três sócios acharam por bem procurar outro lugar. Em 2004, encontraram um terreno de 2, 5 mil metros quadrados na Quadra 607 da avenida L2 Sul, ao preço de 2, 2 milhões de reais.
Para viabilizar a compra, o grupo recorreu, então, ao Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo ex-governador Joaquim Roriz (PMDB). O Pró-DF II tem corno objetivo gerar emprego e renda a partir de benefícios fiscais dados aos empresários, principalmente os de pequeno porte. Para isso, o governo do Distrito Federal diminui impostos e dá descontos de até 80% no valor do terreno a ser utilizado pelo empresário. O subsecretário do programa, Engels Rego, não sabe explicar como o IDP foi enquadrado na rubrica de "setor produtivo".
De acordo com o subsecretário, pelos parâmetros atuais, definidos no governo Arruda, o IDP não teria recebido um terreno na L2 Sul, área central do Plano Piloto de Brasília, onde praticamente não há mais espaços disponíveis. "A política da secretaria nessa gestão é incentivar o setor produtivo nas regiões administrativas, para desafogar o Plano Piloto e desenvolver as outras áreas da cidade", afirma.
Autor de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o Pró-DF II, por não concordar com a política de composição do conselho deliberativo do programa, o presidente da Federação das Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Fempe-DF), Sebastião Gabriel de Oliveira, conta jamais ter visto um micro e pequeno empresário local conseguir terreno no Plano Piloto, como o do prédio do IDP. "As micro e pequenas empresas nunca tiveram esse privilégio, a gente não tem cacife para isso", garante.
Os trés sócios do IDP assinaram o contrato com o Pró-DF II em 1° de setembro de 2004, quando Mendes já estava no STF. Os donos do instituto conseguiram enquadrar o negócio nos parâmetros do programa do governo distrital e obtiveram, ao fim do processo, o maior desconto possível, de 80%. Assim, o terreno, cujo preço original era de 2, 2 milhões de reais, foi financiado, em cinco anos, por 440 mil reais - o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.
A boa estrela, digamos, do IDP não parou de brilhar por aí. Em fevereiro de 2005, quando se iniciaram as obras no terreno da L2 Sul, o caixa do instituto, segundo o diretor-geral Luiz Fernandes, dispunha de 3 milhões de reais. O dinheiro, diz ele, não era suficiente para levantar o prédio totalmente, razão pela qual Fernandes teve de correr atrás de um empréstimo, inicialmente, sem sucesso. Quando o primeiro piso do edifício ficou pronto, organizou-se a chamada "festa da cumeeira", com o tal churrasco assado sobre a laje pioneira. Um dos convidados, conta Luiz Fernandes, era um gerente do Banco do Brasil que, entre uma picanha e outra, quis saber de Inocêncio Coelho a razão de não haver nenhuma placa do banco na frente da obra. "Não tem placa porque não tem financiamento algum", disse o sócio do IDP. Foi quando o gerente os aconselhou a procurar o Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), gerido pelo Banco do Brasil e, normalmente, destinado a projetos muito diferentes dos propostos pelo instituto.
No primeiro balanço trimestral de 2008, o FCO liberou mais de 450 milhões de reais. Pouco mais de 190 milhões (40%) foram destinados a micro e pequenas empresas. As companhias de médio porte receberam 32%, ou 150 milhões de reais. A prioridade de investimento do fundo é, porém, o meio rural, que recebeu 278 milhões de reais (60%). O setor de comércio e serviços aparece apenas em terceiro lugar, com desembolso de 62 milhões de reais, ou 13% do fundo. Mesmo assim, e sem se encaixar exatamente no perfil, o IDP apresentou-se como "pequena empresa" do setor de serviços para solicitar o financiamento.
A política do FCO visa, preferencialmente, atividades comprometidas com a utilização intensiva de matérias-primas e mão-de-obra locais, sobretudo na produção de alimentos básicos. A análise dos pedidos de empréstimos leva em conta a preservação do meio ambiente e busca incentivar a criação de novos pólos de desenvolvimento capazes de reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões.
Ainda assim, graças ao churrasco da laje, o IDP conseguiu arrancar do fundo, com prazo de pagamento de dez anos, um financiamento de 3 milhões de reais, com base na rubrica "instalação, ampliação e modernização de estabelecimentos de ensino e de prática de esportes". Como garantia para o empréstimo, diz Fernandes, os sócios ofereceram patrimônios pessoais. Mendes colocou à disposição do Banco do Brasil uma fazenda em Mato Grosso. Inocêncio Flores e Paulo Gonet, as casas onde moram, no Lago Sul de Brasília. Nenhum dos três atendeu aos pedidos de entrevi sta de Carta Capital. A assessoria de imprensa do presidente do STF deu, em particular, uma desculpa que até agora causa perplexidade. Segundo a assessoria, Mendes não costuma conceder entrevistas.
A escola tem 22 funcionários, segundo informação do diretor-geral. Os 87 professores anunciados no site não são contratados formalmente, mas profissionais requisitados para cursos específicos, para cursos específicos, pagos pelo sistema de Recebimento de Pagamento Autônomo (RPA). O corpo docente recebe, em média, 6 mil reais por mês, a depender do status acadêmico ou de poder de cada um.
Antes de ser inaugurado, em setembro de 2007, o prédio do IDP sofreu um embargo de seis meses da Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SDET) do Distrito Federal, comandada pelo maior empreiteiro da cidade, o vice-governador Paulo Octávio.
Os fiscais da secretaria descobriram que a obra tinha avançado três metros além da altura máxima permitida pelo gabarito de ocupação da capital. Fernandes garante ter resolvido o assunto burocraticamente, sem interferência política.
Mendes, pelas limitações da Lei Orgânica da Magistratura, não ocupa cargo executivo no IDP, mas costuma fazer retiradas em dinheiro. Na última, pagou 20 mil reais. No STF, seu salário é de 24, 5 mil reais por mês. Além disso, de acordo com Fernandes, o IDP tem restituído aos sócios, em parcelas mensais, 125 mil reais que cada um foi obrigado a desembolsar, no ano passado, para completar o dinheiro da obra do prédio.
O diretor-geral admite ter suspendido as pretensões de contratos com o STF, em 2006, quando veio a público a ligação de Mendes com o instituto. Isso não o impediu, porém, de fechar contratos com o STJ, de onde são oriundos sete professores do IDP. Nem no Senado Federal, onde a influência do presidente do STF ajudou a consultoria jurídica da Casa a escolher, sem licitação, o instituto em detrimento das propostas de três universidades, entre elas a Brasília (UnB), onde muitos dos magistrados contratados pelo IDP também dão aula.
Há outros conflitos de interesses evidentes. O sistema de busca de processos no site do STF mostra que 35 professores do IDP, entre advogados, promotores e procuradores, têm ações em tramitação no Supremo. Ou seja, atuam como parte interessada em processos no tribunal atualmente dirigido por seu empregador.
O nome de um dos sócios de Mendes no instituto, Inocêncio Coelho, aparece 14 vezes na consulta ao site do tribunal.
O Estado, diria Gramsci, é “mais ou menos aquilo que o Foucault vai dizer daqui a algumas décadas sem me dar o devido crédito por ter dito isso primeiro, careca miserável”. Não é só o que o Hegel chamava de sociedade política, o Estadinho lá, com seu congressinho, seu presidentinho, sua policinha, capitão Nascimento, Sarney, essas coisas. É isso também, bem entendido. Mas também é a articulação disso tudo com a sociedade civil, a escola e as academias que elaboram e desenvolvem a visão de mundo dominante, o saber assim produzido, os sindicatos reformistas e partidos social-democratas que mantém o conflito sob controle, a mídia que fixa os limites do debate, a família que transmite os valores dominantes e consagra hierarquias, etc. Se você conquista o Estado czarista, você caia ele de vermelho e os burocratas que obedeciam o czar obedecem você. Mas de nada adianta conseguir uma adesão puramente externa (quem é que era contra o Stalin na frente dele?) em termos de ideologia, sentimentos, valores, saberes. Ou você consegue convencer, sensibilizar, justificar-se, descrever a realidade, ou você, cedo ou tarde, ao invés de impor sua visão de mundo, vai ser lentamente colonizado pelos dominantes conquistados.
Maranhão: Os Tribunais Eleitorais como instrumentos do golpe de estado
Depois de quarenta anos de controle absoluto sobre o Palácio dos Leões, a oligarquia Sarney foi derrotada em eleições livres para o governo do Maranhão em outubro de 2006. Jackson Lago (PDT) recebeu 1.393.754 votos no segundo turno e venceu Roseana Sarney (PFL) com quase 100.000 votos de diferença. Ontem, aconteceu o desfecho esperado, que acelera a desmoralização dos tribunais superiores no Brasil. O TSE aceitou a representação da coligação da família dona do estado. Jackson Lago foi cassado por “abuso de poder econômico” durante a eleição. É quase uma piada pronta: um adversário de Sarney ser cassado no Maranhão por abuso de poder econômico.
O desfecho era esperado porque, como sabemos, os Sarney são, literalmente, os donos do Maranhão. Como já notou o blog Loco por ti, no Maranhão você nasce na Maternidade Marly Sarney. Para sua educação, você tem várias opções, as escolas Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney. A oligarquia é dona do jornal O Estado do Maranhão, da TV Mirante (filial da Globo), das Mirante AM e FM e de 35 emissoras de rádio e 13 retransmissoras da TV Mirante no interior. Mas a coisa não pára aí. No Maranhão, o Tribunal de Contas chama-se Roseana Murad Sarney. Caso você queira reclamar, terá que ir à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney, localizada no Fórum José Sarney.
O processo contra Jackson Lago foi tão inacreditável que a presidenta do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (adivinhem como ela se chama? Nelma ..... Sarney!) pediu a presença da polícia para a cerimônia em que a Assembleia Legislativa empossaria Roseana Sarney como nova governadora. Até aí, tudo bem. O singelo adendo é que faz a diferença: o pedido foi feito antes da decisão do TSE. Parece até que já sabiam.
Como meu masoquismo não tem limites, acabei fazendo o que, na minha opinião, os jornalistas deveriam fazer antes de dizer suas bobagens pouco fundamentadas: ler a sentença. Ela está disponível neste pdf. Jackson Lago foi cassado por 11 acusações que, na verdade, se reduzem a duas, compra de votos e abuso de poder na assinatura de convênios. Quanto àquela, as “provas” apresentadas pela oligarquia foram testemunhas, uma das quais, inclusive, se retratou depois. Avaliando esse episódio, o Ministro Marcelo Ribeiro afirmou (p.18): Realmente, Senhor Presidente, causa certa especle que a pessoa venda seu voto e em seguida declare isso em cartório, registre escritura, para, logo após, retratar-se e dizer que não o vendeu.
Talvez o Ministro Marcelo Ribeiro devesse fazer uma viagem ao Maranhão para conhecer o poder de coação da oligarquia Sarney. Alguém em sã consciência acredita que os Sarney teriam alguma dificuldade para encontrar no Maranhão testemunhas dispostas a jurar que foram abduzidas por seres extraterrestres?
Vamos aos convênios. Nada nas 114 páginas da sentença demonstra que os convênios tenham sido em nada diferentes dos milhões de convênios firmados entre governos estaduais e prefeituras pelo Brasil afora. Que esses convênios, em geral acompanhados de comícios, têm objetivo eleitoral, me parece o óbvio do óbvio. Cassemos todos então? O parecer do Ministério Público Eleitoral citado na sentença inacreditavelmente afirma: Basta a probabilidade de comprometimento da normalidade e equilíbrio da disputa para que o diploma seja cassado. A probabilidade. Vejam só.
Roseana já foi empossada pela Assembleia e Jackson Lago continua no Palácio dos Leões, acompanhado de centenas de correligionários. Chegou a declarar que só sairia de lá morto ou arrastado. Ontem, Noblat noticiou que Lago havia voltado atrás e sairia às 9 da manhã de hoje, segundo "sua assessoria". Como o blog de Noblat tem pouca credibilidade, eu não encontrei confirmação em nenhum outro lugar, e já são 9 da manhã aí em Brasília, aguardo mais notícias por outras vias. Maranhenses que estão acompanhando o processo apostam que Roseana vai se licenciar por razões de saúde, voltar ao Senado logo depois e deixar que assuma seu vice, que já comandou um esquadrão da morte.
O prefeito de Campo Novo-MA também foi cassado pelo TRE e a população, revoltada, tocou fogo na Câmara e na Prefeitura. Ainda no Maranhão, o Tribunal de Justiça condenou à aposentadoria compulsória um juiz de pouco mais de quarenta anos. Parece que ele estava incomodando. As notícias maranhenses não controladas pela oligarquia Sarney aparecem no Jornal Pequeno. Aqui é possível ouvir uma entrevista com Jackson Lago. Aqui, você pode ler a constituição do Maranhão, cujo artigo 61 afirma claramente: Vagando os cargos de Governador e de Vice-Governador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga. § 1o - Ocorrendo a vacância nos dois últimos anos do período governamental, a eleição para ambos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembleia Legislativa, na forma da lei..
Não houve, evidentemente, nenhuma eleição na Assembleia. Simplesmente empossaram Roseana.
PS: A foto é daqui. Para a produção deste post, contei com a ajuda e saber jurídico do amigo Alexandre Nodari. A responsabilidade pelo dito aqui, claro, é só minha.
O Luiz Antonio Simas, em cujo texto este post se inspira, me lembrou de como começo os fatídicos cursos de "Introdução à cultura brasileira" que às vezes me cabe ditar. Peço que abram o dicionário no verbete "óximoro" e começamos a conversa a partir daí.
Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.
Está ouriçada a grande mídia argentina, e particularmente seu maior grupo, o Clarín. Tramita no Congresso desde o dia 18 de março um projeto enviado pelo governo de Cristina Kirchner, que revisa a legislação imposta em 1980, no auge da pior matança ditatorial da história do país. O projeto de Lei de Serviços de Comunicação Audiovisuais limita o poder midiático que um único grupo pode exercer, reduz de 24 para 10 o número de concessões que um indivíduo poderá receber e elimina as restrições à liberdade de informação em nome da segurança nacional contidas na lei da ditadura. Em qualquer sentido que se olhe, ele promove uma democratização ou, pelo menos, as condições para alguma alteração no quadro monopolista de hoje.
Foi o suficiente para que O Globo fizesse uma matéria que, sob a manchete “Casal K faz nova investida contra a imprensa”, conseguia ser ao mesmo tempo sexista – a presidenta é Cristina – e factualmente falsa. Não há, ao longo de todo o projeto, uma linha que atente contra a liberdade de expressão ou informação, muito pelo contrário – ele elimina as que havia na lei de 1980. O projeto de Cristina Kirchner limita, sim, a “liberdade” de que um único grupo controle 70% do mercado. Os números propostos no projeto (limite de 35% para um prestador de serviço em nível nacional, reserva de 33% para entidades sem fins lucrativos) estão bem longe, inclusive, de limitar severamente o grande lucro privado.
Segundo a lei de 1980, o organismo regulador da mídia deve ser composto por militares, empresários e serviços de inteligência. O projeto de Kirchner muda sua composição para representantes da legislatura (incluindo-se a segunda e a terceira minorias) e do Poder Executivo, além de um conselho de trabalhadores do setor, entidades sem fins lucrativos e universidades. Segundo a lei de 1980, os veículos da mídia são obrigados a denunciar os jornalistas que “atentem contra a segurança nacional”. O projeto de Cristina transfere os marcos dessa regulação aos tratados internacionais de direitos humanos.
Mesmo assim, o inacreditável Clarín, que em 1980 saudava a “paz” da carnificina de Videla, sai a bradar contra os supostos ataques à “liberdade de imprensa” que o conglomerado hoje, na Argentina, exerce com plenitude. Em 1980, quando a ditadura argentina assassinava jornalistas, escritores, estudantes, sindicalistas e professores sem que as mães tivessem acesso aos cadáveres, Clarín e La Nación lhe davam apoio – não só com o silêncio cúmplice, mas com a entusiasmada apologia. Agora, diante de uma lei que simplesmente limita o monopólio e garante total liberdade de expressão, os grandes conglomerados fazem o escândalo de dondocas ameaçadas. O Globo chegou a mentir, falando do “trâmite em segredo” de um projeto amplamente debatido na sociedade argentina e sobre o qual o Google já registra centenas de milhares de menções. Não dá para começar a medir o cinismo.
Sejamos justos, no entanto, com o Clarín. Se é verdade que a ditadura argentina matou e traumatizou em níveis ainda superiores aos da ditadura brasileira – e portanto pode se argumentar que o apoio do Clarín a ela é até mais repugnante moralmente que o do conglomerado Globo aos militares brasileiros –, também é verdade que o histórico de criminalidade do grupo argentino ainda não alcançou o da Globo. Pelo menos ele jamais tentou fraudar fisicamente as urnas (como a Globo e o Proconsult, em 1982, contra Brizola), jamais fabricou falsas filiações partidárias de sequestradores (como a Globo em 1989, contra o PT) nem jamais escondeu o maior acidente aéreo da história do país para exibir fotos ilegalmente obtidas de um delegado (como a Globo, em 2006, contra Lula).
As situações dos monopólios no Brasil e na Argentina são relativamente comparáveis. Mas o histórico de bandidagem do oligopólio brasileiro é pior, o grau de concentração da mídia no Brasil – tanto na impressa como na TV aberta – é mais alto, o nível de corrupção dos grupos midiáticos mais agudo e a formação ética e intelectual de seus funcionários infinitamente inferior à dos argentinos. Ou seja, vivemos, neste aspecto, em situação pior. A tramitação deste excelente projeto no Congresso, mesmo sob todo o bombardeio, e a existência de um jornal de alcance nacional à esquerda do centro como o Página 12, sem equivalente no Brasil, são expressão disso.
Há uma certa ousadia que, neste tema, falta ao governo brasileiro e sobra nos Kirchner (tanto no mandato de Néstor como no de Cristina). Mas há também o outro lado. Popularíssimo, o governo Lula tem sido bem mais hábil politicamente que a coalizão de centro-esquerda peronista. Não há dúvidas de que: 1) o governo de Cristina Kirchner sofre um processo intenso e real de desgaste desde o confronto com o ruralismo em 2008; 2) o bombardeio midiático contribuiu com o desgaste, mas este nem de longe pode ser atribuído unicamente àquele.
Pelo contrário: é a falta de alternativas políticas na esquerda argentina que faz com que o cerco do conservadorismo ruralista-midiático tenha condições de sangrar o governo como tem feito. Se os leitores de jornal do Brasil não têm uma opção como Página 12, os sujeitos políticos argentinos não têm uma alternativa aos tentáculos burocráticos do PJ (Peronista) comparável à renovação que o Partido dos Trabalhadores, com todas suas limitações, construiu como alternativa ao populismo brasileiro clássico.
Conjugada com a forma divisionista e polarizante de governar que têm os Kirchner, essa falta de alternativas tem sido fatal para as causas progressistas na Argentina. Mesmo considerando-se o oportunismo do vice-presidente Cobos, a situação de ruptura com ele é daninha e segue contribuindo ao sangramento do governo. A própria estrutura do Partido Justicialista, muito regionalizada, expôs a base do governo à ofensiva ruralista, com severos prejuízos eleitorais e políticos. Pessoalmente, não sou dos mais otimistas quanto às chances do excelente projeto de mídia do governo no Congresso. Mas a experiência argentina continua sendo, nas suas semelhanças e diferenças com a nossa, um processo imprescindível de se acompanhar
Como se sabe, as obras de Heidegger e Derrida compiladas pelo Prof. Horacio Potel foram retiradas da internet por ordem judicial, a partir de demanda da Editora Minuit e da Câmara Argentina do Livro. Mas quem quiser descarregá-las, pode fazê-lo no Easy Share.
Seria divertido se o Prof. Potel colocasse um link ao Easy Share nos antigos sites. Afinal de contas, a ordem judicial manda que ele retire os textos; ela não diz nada acerca de links a esses mesmos textos hospedados alhures.
As belíssimas compilações derridiana e heideggeriana do Prof. Horacio Potel já estão salvas em dois outros servidores. A internet resiste.
Um garoto com razoáveis aulas de interpretação de texto em nível de segundo grau não teria muitas dificuldades para desmontar a farsa armada pelo site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Mendes, a partir dos rascunhos (pdf) arrancados do computador do Delegado Protógenes Queiroz durante a recente ofensiva contra ele. Não surpreende, evidentemente, o timing da “matéria”, bem na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI, aquela presidida por Marcelo Itagiba, que declarou que vai pedir o indiciamento do delegado por falso testemunho caso ele não diga a “verdade” hoje. Resta saber qual é a “verdade” que o Sr. Itagiba, de conhecidas ligações com Dantas, quer realmente ouvir.
A farsa do Consultor Jurídico começa com uma manchete escandalosa, ao estilo Veja: “Quem são os jornalistas perseguidos por Protógenes”. Mas ao ler os rascunhos de Protógenes, não se nota perseguição nenhuma, e sim uma série de anotações acerca de escutas telefônicas realizadas legalmente, ou seja, uma investigação. Não há obsessão em perseguir nenhum jornalista em particular, só tentativas de compilar e analisar informações que sustentem uma hipótese que vai se mostrando, aliás, bem verossímil na medida em que se avança na leitura: a de que Dantas usou setores da imprensa como cúmplices.
A primeira frase da farsa do Consultor Jurídico também é uma mentira deslavada: Pelo menos 25 jornalistas de renome, que atuam em grandes veículos de comunicação, foram acusados pelo delegado federal Protógenes Queiroz de fazer parte de um esquema conspiratório a favor do banqueiro Daniel Dantas... Mas se você ler os rascunhos, verá que não há acusações contra “25 jornalistas”. Há suspeitas contra alguns, mera menção de outros, utilização de reportagens feitas por outros na sustentação dos fatos etc. O Consultor Jurídico, em manobra retórica de extrema pobreza, tenta confundir tudo sugerindo que há “acusações” contra 25 jornalistas. Não há. É só ler o texto.
Daí em diante, o Consultor Jurídico arrola muitos adjetivos, poucos fatos, bastante distorção do texto de Protógenes e o coroamento triunfal: um quadro em que se listam “os jornalistas citados no relatório”, como se todos eles tivessem sido acusados por Protógenes. Não foram. A matéria publicada pela Carta Capital no dia 09 de abril de 2008, por exemplo, é citada pelo delegado como evidência de que os tentáculos de Dantas na mídia estavam, também, sendo analisados por alguns veículos. Mino Carta e Jonathan Wheatley, do Financial Times, são citados nos rascunhos de Protógenes como fontes de informações, não como braços de Dantas.
O Consultor Jurídico faz um quadro misturando os nomes de todos sob o anódino particípio “citados”, talvez com a esperança de confundir o seu leitor. Assim:
Luiz Antonio Cintra, da Carta Capital, um dos jornalistas “citados” na montagem do ConJur e supostamente defendidos por eles contra o orwelliano delegado, já se manifestou:
A lista de jornalistas, da qual o meu nome faz parte, trata de misturar suspeitos e não suspeitos, de modo a desqualificar o trabalho do delegado Protógenes. A mesma estratégia da defesa de Dantas.
No texto, o autor afirma que a lista refere-se aos jornalistas “acusados” de receber dinheiro do DD. Ao ler o relatório, percebe-se que em nenhum momento o delegado fez tal acusação. Trata-se, obviamente, de difamação, pela qual o site terá de responder na Justiça.
Note-se que a divulgação da tal lista ocorreu no mesmo dia em que a CPI confirmou o depoimento do delegado para amanhã. Mera coincidência ou estratégia jurídica?
Saudações,
Luiz Antonio Cintra
CartaCapital
O site Consultor Jurídico continua mentindo no segundo parágrafo: No relatório, o delegado parte da premissa de que o banqueiro Daniel Dantas armou um esquema para corromper jornais, revistas e jornalistas em geral para que todos trabalhassem a favor de seus objetivos escusos. Ora, o-pdf-ao-que-o-ConJur-teve-acesso-não-se-sabe-como não é, evidentemente, um “relatório”, já que ele não estava pronto para ser entregue a ninguém. Eram anotações pessoais, rascunhos, trabalho em processo.
E assim caminha a farsa armada pelos representantes de Gilmar Mendes na internet jurídica, ao ritmo de uma mentira por frase. Tomados de pânico corporativo, os jornalistas da grande mídia repercutem a manobra acriticamente, linkando a mentirada do ConJur e não oferecendo sequer o link direto às páginas confiscadas do computador de Protógenes, onde, diga-se, não existe "lista" nenhuma.
Eu mencionei que tudo isso aconteceu na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI de Itajiba e um dia depois que a turma de Gilmar Mendes derrubou um prefeito legitimamente eleito em Diamantino, no momento em que ele iniciava a auditoria nas contas do antecessor, Chico Mendes, irmão de Gilmar?
A carta abaixo, escrita pelo jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional e doutorando em Ciência Política na USP, fala eloquentemente por si só. Ela já foi reproduzida por RS Urgente, Marjorie Rodrigues, Luis Nassif e Cloaca News.
Prezados senhores, chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;
2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto.
Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:
1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;
2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;
3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas.
A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;
4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;
5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc.
Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;
6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.
Processo judicial retira da internet as melhores páginas sobre Heidegger e Derrida
A notícia e quase todos os links me chegam via Catatau. A bolorenta, naftalínica e anacrônica lei de copyright continua fazendo seus estragos pelo mundo afora. Horacio Potel, professor de filosofia da Universidade Nacional de Lanús, na Argentina, é o responsável por dois sites dedicados às obras de Heidegger e Derrida, nos quais ele havia compilado, desde 1999, com financiamento próprio e sem fins lucrativos, uma impressionante coleção de traduções castelhanas dos dois filósofos. Elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.
Eis que a editora francesa Minuit aciona a embaixada francesa em Buenos Aires e esta aciona a Câmara Argentina do Livro, de triste memória. O professor Potel recebe a singela visita da polícia, que lhe comunica que ele é vítima de um processo judicial por violação da lei de copyright. Avisam-lhe que ele pode receber de um mês a seis anos de cadeia por tornar disponíveis esses textos, ainda protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos. Avisam-lhe também que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.
É difícil sobredimensionar o que representaram essas páginas para os estudantes de filosofia sem grana em toda a América Latina. As edições espanholas têm preços proibitivos nos países hispanoamericanos. Não é raro que uma brochura de 80 páginas chegue a Buenos Aires custando o equivalente a 60 dólares. O site feito pelo Professor Potel com as obras de Nietzsche – livre da querela judicial, já que o bigodudo morreu em 1900 – recebeu mais de quatro milhões de visitas. Eu mesmo conheço vários alunos latinoamericanos que se iniciaram nestes autores através do trabalho voluntário do Professor Potel, e depois, inclusive, passaram a comprar os livros.
Sei que do ponto de vista jurídico não há o que discutir. Os sites configuravam, sim, violação à lei de direitos autorais. O irônico na história é que toda a obra tardia de Derrida está justamente dedicada a desenredar a teia que enlaça os conceitos de sujeito e de autoria com suas ramificações legais nas leis de copyright e de propriedade intelectual. Não tenho a menor dúvida de que Derrida teria visto com carinho o trabalho de Potel. Entre 1999 e 2004, Derrida com certeza teve amplas oportunidades de ouvir falar desse site, e não moveu uma palha para desativá-lo. Este mp3 traz uma entrevista com Horacio Potel, em que o educador relata toda a história.
O Catatau nos prestou o inestimável serviço de colocar links para cada um dos textos na Wayback Machine. Aqui estão as obras de Heidegger e aqui está a impressionante compilação de Derrida. Como sói acontecer com as demandas jurídicas envolvendo a internet, os querelantes remam contra a maré do nosso tempo. Seguindo os links do Catatau é possível copiar, guardar e reproduzir esses textos, deixando que a infinitamente livre circulação de informações pela rede mundial de computadores faça o trabalho de corroer uma lei injusta e anacrônica (enquanto a Wayback Machine não é censurada também). O Biscoito deixa sua solidariedade – e o profundo agradecimento de educador – a Horacio Potel, que está passando por um verdadeiro inferno neste momento.
PS: Alguns dos links acima afirmam que a Editora Minuit só publicou uma obra de Derrida. A informação está incorreta. A Minuit publicou sete obras de Derrida. O que não muda nada na história, claro.
PS 2: A semifinal do basquete universitário começa daqui a pouco. A final é na segunda à noite. Se você gosta do blog, torça pelo meu time, porque se perdermos o Biscoito sofrerá um tremendo baque. Eu trocaria, feliz da vida, as cinco Copas do Brasil por mais esse título para os Tar Heels. A CBS Sports transmite pela internet. Imperdível.
Fontes próximas ao Biscoito Fino e a Massa confirmam que a próxima edição do programa de Jazz da Rádio Senado será dedicada à música triste e elegíaca de Ornette Coleman.
Eurípides Alcântara e Revista Veja derrotados nos tribunais
Em sentença histórica -- na medida em que não é muito comum que um grupo de mídia processe um jornalista por reportagens dedicadas a estudar esse mesmo veículo --, o Juiz Carlos Henrique Abrão, da 42a Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida por Revista Veja e seu diretor de redação Eurípides Alcântara contra Luis Nassif. A fundamentação da sentença é magnífica. Escreve o magistrado:
A liberdade plena de imprensa, maior conquista das democracias ocidentais, observa o ângulo da transparência, seriedade e compromisso com a verdade. Difícil manter a harmonia quando interesses econômicos, políticos, sobretudo empresariais, sem sobra de dúvida, flexionam os limites da ética e da moralidade da imprensa.
Falando daquilo que o autor deste blog considera como um caso típico de litigância de má fé do conglomerado Civita e de seu subordinado útil Eurípides Alcântara contra Luis Nassif, o Juiz Carlos Henrique Abrão escreve:
Desenhada a arquitetura da lide, o seu ambiente divergente, feito o bosquejo do essencial, e tendo em mira a mudança de mentalidade surgida com a guerra midiática dos informes eletrônicos, blogs, equipamentos disponíveis, sopesando, um a um, todos os aspectos, a prova amealhada não permite, salvo melhor juízo, o acolhimento desta ação. Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações, abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado.
No entanto, o jornalista não está obrigado a agradar, o fundamental, assinale-se uma vez mais, dependerá da investigação em andamento, a cargo da autoridade competente, no modo de ver do réu, se alguns jornalistas da Veja tinham contato com o banqueiro, seus escritos somente poderiam contar com a anuência do diretor de redação. E neste sentido, segundo se extrai de fonte segura, teria constado no relatório da Policia Federal capitulo especial dedicado às relações do banqueiro com a mídia, ou seja, em outras palavras, a exposição não desbordou os lindes exigidos pela Lei maior e de imprensa. Não houve qualquer dolo especifico de querer ferir suscetibilidade, tanto que na sua fala derradeira, o próprio réu reconhece, nenhuma intenção de ofender, expressa preocupação com a verdade. Deveras pode ter se precipitado ao estampar a matéria sem prévia consulta, mas seria ingenuidade pressupor que haveria confirmação, douto ângulo, sem findar a investigação e esmiuçar toda a teia multifacetária das alianças, não se pode concluir que houve despautério ou mesmo ofensa à honra do jornalista.
Atendo-se à letra da lei, o Juiz avaliou precisamente o que deve ser avaliado numa de ação de danos morais: o dolo, por um lado, e a relação e o dito e a verdade, por outro. O Juiz concluiu que não houve dolo (Eurípides continua lá, como chefe de redação) e demonstrou a plausibilidade de que tudo o que Nassif diz sobre a Veja seja verdade mesmo – que é o necessário aqui. Técnico, impecável, o magistrado reitera que julga a ação, não a veracidade da reportagem de Nassif. Mas estabelece claramente que Nassif seguiu pautas jornalísticas em seu trabalho. Categórico, o Juiz desmonta a pretensão da Revista Veja de extorquir cem mil reais de indenização do jornalista.
Muito pouco apreço pela verdade e pela própria dignidade terá qualquer advogado que recorra desta decisão em nome da Revista Veja. Trata-se de uma sentença histórica em defesa da genuína liberdade de imprensa, não desse falso slogan que evocam os grupos de mídia quando são contrariados. A sentença está disponível na íntegra neste pdf.
PS 2: Morreu Raúl Alfonsín, um homem que apesar de fazer algumas concessões em momentos difíceis, foi um político epocal, digno, que nos brindou uma memória indelével: os fascínoras da Junta Militar sendo julgados nos tribunais. Alfonsín era um homem de idéias, um político que gostava de ter gente pensante ao seu lado. Sua vitória em 1983 foi a primeira vez em 40 anos que o peronismo perdeu uma eleição livre.
Ainda no terreno jornalistas-processando-e-silenciando blogueiros, atente-se para o caso do Prof. Wladimir Ungaretti, da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cujo Ponto de vista satirizava e desmascarava a picaretagem da grande mídia, incluindo-se aí as manipulações de imagem de um jornalista apelidado de Fotonaldo. Eis que Fotonaldo, sem responder nenhuma crítica, consegue a ordem de retirada dos materiais que lhe dizem respeito do site do Prof. Wladimir, que acabou deixando o silêncio em forma de protesto enquanto recorre. Escreve sobre o caso a Ariela Boaventura. Li em primeiro lugar sobre essa lamentável decisão judicial no RS Urgente.
O Estado de Minas dá o seu chilique (atentado??) no episódio em que a UFMG ganhou nos tribunais um direito de resposta depois suspenso pelo TRF da primeira região. Para um contraponto, leia Direito de resposta e liberdade de imprensa, de Luis Nassif.
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Ainda os tribunais: jogador de futebol ganha indenização de jornalista que o havia chamado de QI de alface. Onde? Em Minas Gerais, evidentemente. Time? Ex-Ipiranga, óbvio.
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Sobre a prisão e subsequente liberação de Eliana Tranchesi, ofereço dois links para pontos de vista bem diferentes: Leonardo Sakamoto e Ely Ery Roberto Correa (este via Jayme, que outro dia disse tudo o que penso e nunca escrevi sobre Ferreira Gullar).
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Todo mundo já recebeu emails-corrente propondo boicote a isso e aquilo. Só Rafael Galvão, no entanto, é capaz de tomar um deles como mote para fazer arte. Leia também, da lavra do Paraíba, Sobre livros e Pequena eulogia a um gênio da raça que desgraçou a si e ao seu mister. O Paraíba é um blogueiro preguiçoso. Tece posts com a urgência de um Caymmi diante do mar. Às vezes, larga o blog às moscas. Quando volta, reassume seu lugar de direito: um dos melhores prosadores da internet brasileira.
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Links em outras línguas:
Entendamos a diferença entre a grande mídia brasileira e a argentina. O Brasil não possui um veículo como o Página 12 que, faz um mês, é o único jornal latinoamericano que leio. Confira o Nuevo diccionario de la derecha criolla.
Confesso que tenho desenvolvido um certo prazer sádico em ler textos sobre a lenta e inapelável agonia do jornalismo em sua forma, digamos, canônica das últimas décadas. Em inglês, aí vai uma seleção. A algum deles com certeza eu cheguei via Tiago Dória.
Pesquisa do Pew Research mostra que a grande maioria dos americanos não está nem aí para a morte dos jornais regionais.
Na Slate, Jack Shafer põe os pingos nos i's: É hora de jogar fora a idéia de que jornais são essenciais para a democracia. A liberdade de imprensa é essencial para a democracia. Jornalistas que estão agonizando na grande mídia adoram confundi-la, essa liberdade, com a existência de conglomerados mídiaticos na forma que os conhecemos hoje.
Até John Nichols and Robert W. McChesney no The Nation, quem diria, no meio de uma bela análise da situação, dão essa idéia maluca de criar um imposto para sustentar jornal. Socialista convicto, peço que me incluam fora dessa.
Jornalista Felipe Vieira foge do pau e se agarra à vara dos tribunais
Vejam vocês, para usar um termo caro à parte querelada, a dêmencia em grau inaudito:
Se jornalista não processa jornalista era o lema dos funcionários dos grandes grupos de mídia no passado, com a internet e o mínimo trabalho de ombudsman que fazem certos blogs, passamos à fase seguinte da brincadeira. Agora as dondocas da grande mídia correm aos tribunais para processar jornalistas-blogueiros independentes quando estes lhe cobram explicações as mais razoáveis sobre seu trabalho e seus vínculos.
O Sr. Felipe Vieira é âncora de um programa da Bandeirantes RS e signatário de um site “jornalístico” irrelevante com patrocínio de dinheiro público gaúcho. Processa os blogueiros do Nova Corja por um post de quase um ano atrás, dedicado na verdade a outrem (que já processou o NC e perdeu, aliás). Naquele post, o Nova Corja questionava a lógica do patrocínio, apontava a realidade de chapabranquismo no jornalismo gaúcho e dava o link ao site do Sr. Vieira, para que os leitores pudessem julgar por si próprios. No seu site de “jornalismo”, entre dezenas de manchetes, não há uma única que aluda ao atual colapso político, moral, institucional e financeiro do governo Yeda Crusius. Parece um gaúcho escrevendo na Suécia.
O Sr. Vieira, que tem site próprio patrocinado com dinheiro público, tem acesso à Bandeirantes do Rio Grande do Sul, e foi citado uma vez num blog que jamais apaga comentários e que publicaria com destaque e na íntegra a sua resposta, caso enviada, escolhe não encarar o debate e corre para os tribunais. Sobre essa desfaçatez, Marco já disse tudo.
Ele é primo de outro, movido por Políbio Braga contra a Nova Corja. Você conhece Políbio Braga? Eu também não, mas ele ficou mais conhecido quando processou o NC e perdeu, sendo condenado pelo Juiz a pagar os custos do litígio e os honorários.
A atual, fútil querela do Sr. Felipe Vieira pode ser lida na íntegra neste pdf. Ela contém pelo menos duas gafes. Em primeiro lugar, confundem-se e processam o Jones Rossi errado. Em segundo lugar, demonstram não saber – ou fingem não saber, dá na mesma – o que significa a palavra “relevância”. Tomam-na como injuriosa, quando ela de fato se refere a realidade mensurável e universalmente conhecida por quem usa a internet.
Como já demonstrou o Leandro Demori, ex-integrante do NC e também interpelado neste processo, “relevância” é categoria objetiva medida por ferramentas como Alexa, Technorati, Google Page Rank. Você pode discutir qual é a melhor. Inegável é o fato de que segundo qualquer uma delas, o site do Sr. Felipe Vieira é irrelevante mesmo. Para dar um exemplo, o site do Sr. Vieira, que aparece na mídia e recebe dinheiro público, tem Google Page Rank 3. Tanto o NC como o Biscoito, artesanais e independentes, têm Page Rank 5.
Através de seus representantes, o Sr. Vieira, com site próprio patrocinado com dinheiro público e acesso à Bandeirantes do Rio Grande do Sul, afirma que o post de um ano atrás do Nova Corja afetou sua “autoestima”. O Biscoito Fino e a Massa sugere que ele pare de gastar dinheiro com advogados – pressupondo que com salário de jornalista ele pague advogados tão caros – e invista na psicanálise. O Biscoito recomenda a freudiana, que não está presa à superstição ego-psicológica de que baixa autoestima se resolve através de uma aliança do analista com a parte saudável do ego.
Confio que qualquer juiz sensato verá que temos aqui uma querela fútil, pouco fundamentada, de potencial daninho à liberdade de expressão e ancorada numa leitura abusiva dos artigos referentes a injúria e difamação.
Atualização: Träsel também falou do assunto, cometendo generosidade de que fomos incapazes, que é dar o link para o Sr. Vieira. O Biscoito teria dado o link caso o Sr. Vieira tivesse discutido o assunto em seu site. Não o fez, não ganha pirulito. Penso em adotar a seguinte regra aqui: trabalha na grande mídia e processou blogueiro por crime de opinião, não ganha pirulito no Biscoito, pelo menos não no corpo do post. O leitor que ache pelo Google.
Links: Lei de democratização da mídia na Argentina
Em meio a inegável desgaste desde o conflito com o ruralismo iniciado ano passado, o governo de Cristina Kirchner produziu um belo projeto de lei limitando os oligopólios na mídia e retirando as restrições à liberdade de expressão presentes na lei anterior, de 1980. Já o enviou ao Congresso. O projeto transforma o organismo de regulação da mídia, que segundo a lei da ditadura deve ser integrado por militares, empresários e membros dos serviços de inteligência, em conselho composto por representantes do parlamento (inclusive da segunda e terceira minorias), Executivo, trabalhadores do setor, entidades sem fins lucrativos e universidades. Limita em 35% o naco de mercado de qualquer oligopólio e em 10 o número de concessões permitidas a um único indivíduo. Enquanto a lei de 1980 obriga os veículos de mídia a denunciarem o jornalista que atente contra a "Segurança Nacional", o projeto de Cristina estabelece os tratados internacionais de direitos humanos como marco.
Mesmo assim, Clarín e Globo já deram os previsíveis chiliques sobre o governo argentino supostamente estar tentando "controlar" a mídia. A manchete do Globo falou em "investida contra a imprensa" e sua matéria chegou a mentir, cometendo a incrível gafe de se referir ao "trâmite em segredo" de um projeto debatido em blogs, botecos e sindicatos em cada canto da sociedade civil argentina, e sobre o qual o Google registra dezenas de milhares de menções.
Para ler a íntegra do excelente projeto do governo de Cristina Kirchner, baixe o pdf aqui. Em breve publico um texto mais encorpado sobre essa iniciativa, mas por enquanto aí vão alguns links:
Aqui e aqui você pode ler críticas ao governo de Cristina Kirchner, algumas das quais acho pertinentes. Mas o projeto de lei sobre a mídia é de potencial democratizador sequer imaginável no Brasil de hoje, o que não quer dizer que o Congresso argentino o aprovará, claro. A batalha contra os oligopólios de mídia é sempre duríssima.
Servindo-me de vários links e informações contidas no blog do Mello, encaro a tarefa – sim, a estas alturas não é nem prazer nem exercício, mas pura tarefa cívica -- de circular mais uma vez algumas sugestões e perguntas que estão entaladas na garganta de muitos brasileiros que têm acompanhado as lamentáveis incursões do presidente do STF pelos holofotes midiáticos.
Como não há sentido em republicar post na íntegra, dirijo de novo a atenção dos leitores para as 25 perguntas que formulei no fim do ano passado, uma das quais (a número 8) chegou a ser feita no Programa Roda Viva. A pergunta – “O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?” -- continha, por falta de traquejo jurídico meu, uma imprecisão, ou um erro, como queiram. Faltava-lhe, no final, a expressão sequer a julgamento em primeira instância. Sabendo muito bem, suponho, o que a pergunta queria dizer, Gilmar Mendes aproveitou a imprecisão para desqualificá-la sem responder. Neste pdf é possível ler a amplamente documentada reportagem que Leandro Fortes publicou na revista Carta Capital, fonte de algumas das informações usadas nas perguntas.
Desde então, tivemos o episódio da ameaça ao jornalista acreano que fez uma pergunta legítima acerca da preferência do magistrado do STF por denunciar violências cometidas por membros do MST e silenciar sobre a infinitamente mais disseminada e poderosa violência do latifúndio armado.
Desde então tivemos o epidósio do programa da TV Câmara sobre o qual Gilmar Mendes exerceu efetiva censura, telefonando a Michel Temer e exigindo sua retirada do site da Câmara, segundo informa o jornalista – este sim, jornalista de verdade – Leandro Fortes:
25 perguntas, pois, que para mim continuam pendentes. E o Mello fez mais algumas. A sabatina acontece nesta terça, das 10h às 12h, no Teatro Folha (av. Higienópolis, 618, no shopping Pátio Higienópolis).
(aí vai o texto da minha coluna deste mês na Revista Fórum)
Os últimos oito anos em que a coalizão de ultradireita que governou os EUA assumiu a prática da tortura como política estatal só aumentaram a importância de se dirimir alguns mitos acerca do tema. Um desses mitos é a crença – disseminada amplamente entre setores da esquerda – de que a prática da tortura seria uma espécie de negação da essência da democracia, ou que a democracia seria algo como um antídoto contra a tortura, ou que esta, no fundo, negaria os valores democráticos, de racionalidade e liberdades individuais. O fato histórico concreto, no entanto, é o oposto: no momento em que “democracia”, “verdade”, “racionalidade” estavam sendo inventadas, a prática da tortura foi componente fundamental no processo em que esses ideais se faziam. Ali, na origem mesma da democracia, a tortura já era um de seus elementos chave.
Tortura e verdade (Editora Routledge, 1991, não traduzido no Brasil) é um livro revolucionário da classicista estadunidense Page DuBois sobre a prática judicial da tortura, na Grécia Antiga, em suas relações com a produção da noção filosófica clássica de verdade, assim como na construção da oposição binária entre escravo e cidadão livre. O livro parte de uma premissa: “a assim chamada alta cultura – práticas e discursos filosóficos, forenses e civis – vai de braços dados, desde o começo, a partir da antiguidade clássica, com a inflição deliberada de sofrimento humano”. DuBois passa a mapear o processo pelo qual, na pólis ateniense, o corpo do escravo é juridicamente convertido em objeto de tortura e em canal privilegiado da verdade. Por um bom tempo nos tribunais atenienses, o homem livre não podia ser torturado, mas o escravo sim. Não só era comum torturar escravos, mas se pressupunha que o escravo produziria a verdade quando torturado.
A palavra que designa “tortura” em grego, basanos, evolui de um sentido anterior de “pedra de toque que testa o ouro” para uma acepção mais ampla de “teste que define se algo é genuíno ou real”. Com o tempo, o vocábulo teria passado a significar “interrogatório através de tortura” e o próprio ato de torturar. Numa reconstrução cuidadosa, DuBois examina os contextos em que basanos aparece na épica homérica, em poetas aristocráticos como Teógnis e Píndaro, em trágicos como Sófocles e Ésquilo, na sátira de Aristófanes, na historiografia de Heródoto, nos discursos de Demóstenes e Licurgo e nas obras filosóficas de Platão e Aristóteles. É em Sófocles (aprox. 497-406 a.C.) que DuBois observa a transição do sentido de basanos de “teste” para “tortura”. A tortura não só era amplamente praticada na democracia ateniense, mas foi um componente fundamental de como a verdade viria a ser concebida e de como a diferença entre cidadão e escravo seria estabelecida.
Na democracia grega, o testemunho jurídico do escravo era tido como verdade se, e somente se, esse testemunho fosse extraído sob tortura. Na medida em que o escravo era uma valiosa propriedade, passível de ser danificada pela tortura, era a prerrogativa de seu dono oferecê-lo para o basanos. Essa prática não podia ser aplicada a cidadãos, aos homens livres. A tortura operou, então, para fixar e controlar a própria instabilidade da dicotomia entre cidadão e escravo. O pensamento grego nunca conseguiu naturalizar a separação entre homens livres e escravos, já que os livres de hoje podem converter-se nos escravos de amanhã, por exemplo através da derrota numa guerra. Esse pensamento tentou, mas foi incapaz de fundamentar biológica ou ontologicamente o fato social da escravidão, apesar dos melhores esforços de Aristóteles, que naufragam na tentativa de explicar por que os escravos são desprovidos de razão. Se há uma diferença natural entre o cidadão e o escravo, como é possível que os livres possam se tornar escravos ao serem derrotados no campo de batalha? Como justificar ontologicamente a estrutura política que permite a sistemática imposição de dor sobre certos seres humanos e não sobre outros?
O Livro III da Política, de Aristóteles, encara essa mais inglória das tarefas, definir o que, afinal de contas, é um cidadão e o que o diferenciaria do não-cidadão: “Os residentes estrangeiros [metoikoi] (...) não participam senão imperfeitamente da cidadania, e os chamamos de cidadãos só num sentido qualificado, como poderíamos aplicar o termo a crianças que são jovens demais para estar registradas ou a idosos que foram desobrigados das funções estatais”. Metoikoi é o nominativo masculino plural derivado do verbo metoikos, que significa “mudar de residência, emigrar e estabelecer-se em outro lugar”. Quanto mais Aristóteles acredita que a expressão exata é “imaterial” e que “o que queremos dizer está claro”, mais embaçada e confusa torna-se a fronteira. Quando Aristóteles termina de excluir as mulheres, as crianças, os escravos, os idosos, os residentes estrangeiros e outros não-cidadãos, resta-nos uma categoria à beira do desmoronamento. Não se trata de que pouco a pouco, depois de eliminar todos, não permaneça ninguém. Alguém sempre se qualificará como “cidadão”: o domínio dos homens adultos nascidos em Atenas, falantes de grego e donos de propriedades mostra que a ontologia pode estar capenga, mas isso não a impede de operar politicamente para favorecer os mais poderosos.
O que Aristóteles chama de “cidadão” é aquele lugar virtualmente vazio que sobra uma vez que eliminemos todos os não-cidadãos. O horror da não-cidadania é também um vazio voluptuoso que ameaça tragar todos os cidadãos, porque eles poderão ficar velhos, perder suas propriedades, ser exilados ou conhecer a derrota na guerra. Como diferenciar o cidadão do não-cidadão se o destino daqueles é juntar-se a estes quando fiquem velhos, se exilem ou percam uma guerra?
A prática da tortura na democracia grega cumpriu um papel na estabilização dessas fronteiras meio impossíveis de estabilizar, entre cidadão e não-cidadão e entre homem livre e escravo. O escravo é aquele que pode ser torturado. E por que ele é torturado? Porque da tortura [basanos], emerge a verdade [aletheia]. Ali, ao lado dos tribunais onde se torturavam os escravos, a filosofia ocidental inventava o conceito de verdade, a prática política inventava a democracia e a jurisprudência inventava o que se entenderia por justiça. Que fique estabelecido, pois, que nenhuma dessas disciplinas tem as mãos completamente limpas se formos relatar em detalhe a história da tortura no Ocidente: a própria invenção dos seus conceitos chave é parte da institucionalização da tortura na pólis grega.
A hipótese de DuBois é que o estabelecimento do corpo do escravo como corpo que pode ser torturado (e que será necessariamente verdadeiro quando submetido à tortura) foi chave na constituição mesma do conceito de aletheia, de “verdade”, para os gregos. Se recordamos A verdade e as formas jurídicas (pdf), texto de Michel Foucault apresentado pela primeira vez no Rio de Janeiro em 1973, duas concepções de verdade entraram em choque no pensamento grego. Por um lado, há a compreensão mais antiga da verdade como produto de uma luta, uma batalha, uma prova através da qual algo emerge: concepção épica. Por outro lado, há a concepção da verdade como essência enterrada e escondida, esperando para ser desvelada e trazida à luz, extraída de uma interioridade desconhecida que o conhecimento tentaria penetrar: concepção mais propriamente filosófica. Esta é a ideia sexualizada, bem masculina de verdade, que prevaleceria em última instância. Esse processo de extração da verdade mantém uma dívida com a tortura exercida sobre o corpo do escravo, já que é a sanção jurídica da tortura que confere à filosofia a metáfora que organiza o seu conceito central, a verdade.
O basanos dissolve a resistência, traz à luz, arrasta rumo à visibilidade. A metáfora que descreve a tortura replica o movimento do filósofo que arranca a verdade de sua condição velada. É n' O Sofista, de Platão, que melhor se deixa ver o laço entre, por um lado, a extorsão através da qual o filósofo traz à luz a verdade, arrancando-a do sofista, que permanece cego, inconsciente e, por outro lado, o processo característico da produção jurídica da verdade através do corpo do escravo: “A melhor maneira de obter a confissão da verdade seria submeter o próprio enunciado a um leve grau de tortura [basanistheis]”, diz Platão. Há uma analogia entre o suplício sofrido pelo escravo no tribunal e aquele imposto ao sofista. Como o escravo, o sofista somente revela a verdade sob violento interrogatório e pressão. As odiosas narrativas hipotéticas com que a administração Bush e seus lacaios na mídia racionalizavam a tortura – “imagine um terrorista com informação sobre a explosão de uma bomba nuclear, etc.”: o cúmulo da ficção – não deixam de ter, é importante sublinhar, seus antecessores mais “nobres”, nas origens mesmas da democracia e filosofia ocidentais.
É possível mapear, no pensamento grego, uma concepção antidemocrática de verdade entendida como algo que se arranca do corpo do outro. O processo descrito por Platão evoca diretamente o basanos em seu contexto legal. A metáfora platônica transforma o sofista num corpo que deve submeter-se a um sofrimento, um suplício imposto pelo logos. A lógica e a dialética são artes da tortura, nela estão implicadas e assim foram teorizadas, no momento mesmo de sua constituição e sistematização, no texto platônico. A caça ao sofista inaugura uma longa tradição de metaforização da verdade como encarceramento na filosofia ocidental, tropo que retornaria, por exemplo, na luta épica de Descartes para impor uma derrota humilhante à dúvida.
A violência através da qual emerge o conceito de verdade na Grécia traz marcas das hierarquias de gênero. O pensamento grego estabeleceu extensos vínculos entre a verdade e o escondido, o segredo, a potencialidade feminina, a interioridade tentadora encerrada no corpo humano. A mulher e o escravo são receptáculos da verdade que não têm, eles mesmos, acesso a ela como sujeitos. Sua função é fornecer o acesso ao homem livre, ao cidadão. A confecção do conceito de verdade foi contemporânea da sexualização das metáforas baseadas no ato de arrancar à luz algo dormente numa interioridade. A extração da verdade seria, então, um tropo sexualizado por excelência, que funda a compreensão que tem o Ocidente da diferença sexual. Os pólos masculino e feminino vêm a ser dialeticamente constituídos num processo violento e assimétrico, no qual o feminino é o espaço circunscrito como interioridade e penetrado pelo masculino. A tarefa viril do filósofo seria extrair a verdade de um receptáculo e trazê-la à luz num processo de extração – e assim, claramente, teoriza-a Platão, n’O Sofista.
A tortura não é, portanto, antagônica à verdade ou antídoto da democracia. Não é de uma esfera alheia ao direito. A tortura nunca foi escandalosa em democracia nenhuma (algumas delas simplesmente exportaram, “terceirizaram” sua prática para outras comarcas). A sanção jurídica da tortura no mundo ocidental nasce não só contemporaneamente a, mas também em relação de sustentação mútua com o albor de todas essas noções: verdade, democracia, justiça, direito.
A diferença entre uma visão materialista histórica e uma visão liberal da atrocidade e da tortura se remete, em grande parte, a um abismo: o liberalismo é incapaz de compreender essa história – as origens comuns da tortura e da democracia, da tortura e do direito, da tortura e da verdade –, pois afinal de contas ele próprio, liberalismo, não passa de um capítulo dessa mesma história. O materialista histórico, comprometido com o legado dos vencidos, não pode se dar ao luxo de ignorar que o estado de emergência que vivemos com os torturadores de Bush e Olmert não tem sido a exceção, mas a regra.
Ilustração: "Tortura com água". Xilogravura. Praxis Rerum Criminalium (1556), de Joost de Damhoudere.
Carta aberta aos jornalistas do Brasil, de Leandro Fortes
A carta aberta que reproduzo a seguir foi escrita por Leandro Fortes, da Carta Capital.
No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
Nesta carta, contudo, falo somente por mim.
Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.
Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.
Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.
Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?
Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.
Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.
Oferece-se esta foto à pobre direita brasileira, que tanto falou acerca da política externa “anti-americana” de Lula, Celso Amorim e barbudos do Itamaraty:
Foto: White House / Pete Souza / Creative Commons.
Nesse intercâmbio de olhares e sorrisos entre um Obama que não fala português e um Lula que não fala inglês, comunicam-se muito mais Brasil e EUA, trocam muito mais profundamente esses dois países tão comparáveis e tão diferentes do que jamais foi capaz FHC e seu inglês de Yázige, seja com Clinton, seja, pior ainda, com Bush.
Foi sobretudo colonizada a política externa que impuseram FHC, Lafer e cia durante o tucanato. Se não chegou aos excessos das “relações carnais” de Menem, ela sem dúvida colocava o Brasil como um CSA, no máximo um Vitória-BA ou Goiás, quando nós sabemos que o Brasil é um Grêmio ou Corinthians. Satélite dos EUA, sem tomar iniciativas Sul-Sul, o Brasil do tucanato ainda nos brindava aquele patético espetáculo: nosso presidente falando, com muitas limitações, a língua forânea de um chefe de estado estrangeiro em território nacional, sempre que o visitante era anglo-, franco- ou hispanofalante. Eu morria de vergonha daquilo triplamente: como cidadão brasileiro, como sujeito político e como professor de línguas.
A limitação colonizada da nossa direita falou em “problemas” para a política externa brasileira por Lula não saber idiomas. Como se o papel de um presidente fosse ser poliglota, e não ser presidente e representar a experiência de um povo. Como se o Brasil não tivesse uma das Chancelarias mais equipadas linguisticamente do planeta. Como se um chefe de estado russo, chinês ou sul-africano aceitasse falar outra língua que não a sua para conduzir negócio de estado.
E eis que um milênio que começou com o diálogo impossível – FHC que desprezava Bush e este que desprezava FHC – reserva, oito anos depois, para o chefe de estado brasileiro, o maior líder operário de sua história, a condição de primeiro líder de país emergente recebido na Casa Branca do primeiro presidente americano negro; na verdade, o primeiro líder a ser recebidomesmo, com visível empatia. Até mesmo segundo blogs conservadores, Lula deu o tom.
A direita brasileira tem todos os motivos para estar morta de raiva: depois de torcer contra Lula, depois de torcer contra Obama, depois de seis anos e meio de uma política externa brasileira independente, acusada por ela de ser “anti-americana”, esse encontro epocal se produz. Depois de tentar associar Lula ao chavismo (ou, mais delirante ainda, sugerir que ele é "manipulado" pelo caudilho venezuelano), ela vê os Estados Unidos da América e a República Bolivariana da Venezuela autorizarem-no a mediar possíveis gestos de reaproximação.
Como sempre, os portais da grande imprensa brasileira preferiram destacar o que o “não se conseguiu” na conversa, como se uma primeira visita fosse para “conseguir” algo. Rodada de Doha, redução das tarifas ao biocombustível brasileiro, tudo isso avançará ou não conforme a lógica que tiverem as negociações. Mas o encontro entre Lula e Obama é prova de que o Fórum Social Mundial tem razão: outro mundo é possível.
Atualização: Contrastando com a superficialidade dos portais, Sergio Leo escreveu um excelente balanço da visita.
No caso de que tenha passado batido pela imprensa brasileira: a indicação feita por Obama, de Shere Abbot, para Diretora Associada do meio ambiente no Gabinete de Ciência e Tecnologia da Casa Branca é dessas notícias alvissareiras, promissoras, que não podem passar sem registro. Obama's fucking walking the walk, pelo menos na maioria dos temas. Estas primeiras semanas deixam claríssima a mensagem: ciência é ciência, e fica nas mãos dos cientistas.
O que se faz com a ciência depois em termos de política pública é questão que uma sociedade democrática decidirá através dos instrumentos que já construiu. Mas deixem os cientistas pesquisarem em paz, em primeiríssimo lugar.
A diferença entre as políticas de Bush e de Obama para a ciência não se dá entre posições conservadora e liberal, de direita e de esquerda, mercadolivrista e keynesiana. Nesse sentido não há "dois lados", não sinhô. Trata-se de uma diferença entre os minimamente sanos e os completamente malucos.
Volta a ser possível fazer ciência com os temas sobre os quais os completamente malucos pontificam, baseados num livro de fábulas escrito há milênios. Já sei de cientista que se exilou no Canadá ou Europa e está planejando voltar. A extensão e profundidade da devastação deixada nestes oitos anos são aterradoras, e só estão tornando-se completamente visíveis agora -- mas o país começa a ficar respirável de novo para os cientistas.
Revista Veja denuncia: Protógenes Queiroz grampeou Bush, Rumsfeld, Cheney, Idi Amin, o Papa e Deus
Em mais um furo de reportagem, a Revista Veja revelou que o Delegado Protógenes Queiroz grampeou o ex-presidente dos EUA, George W. Bush, o ex-vicepresidente Dick Cheney e o ex-Secretário de Estado Donald Rumsfeld durante os preparativos para a Guerra do Iraque. A revista não divulgou qualquer áudio da gravação, mas publicou a transcrição da conversa entre Cheney e Rumsfeld na qual se decidiu pela guerra. O diálogo não revela qualquer ilicitude na conduta dos antigos homens de estado americanos, mas prova a extensão da teia de espionagem construída pelo delegado brasileiro:
Rumsfeld: Talvez Saddam ainda decida renunciar às suas armas de destruição em massa e nos permita evitar a guerra e o derramamento de sangue.
Cheney: Sim, afinal de contas o mais importante é criar as condições para um planeta mais justo e pacífico.
Rumsfeld: Em todo caso, se a guerra for inevitável, já estabeleci todos os parâmetros para que as convenções humanitárias sejam respeitadas e a população civil seja resguardada.
Cheney: E eu já avisei aos executivos da Haliburton que não esperem nenhuma vantagem especial nos contratos do pós-guerra somente pelo fato de terem um acionista na vicepresidência. Estão todos avisados de que terão de disputar dentro da lei.
Procurados pela Revista Veja, Dick Cheney e Donald Rumsfeld confirmaram o conteúdo das conversas e asseguraram que a transcrição era correta.
No cemitério Ruwais, na cidade saudita de Jeddah, onde se encontra enterrado, o ex-ditador de Uganda Idi Ami Dada confirmou que suas conversas com o líder congolês Patrice Lumumba também foram grampeadas por Protógenes Queiroz e que as transcrições apresentadas pela Revista Veja são corretas. “A teia de espionagem de Protógenes arregimentou preferencialmente os membros das etnias Kakwa, Lugbara e Nubian”, afirmou Idi Amin à Veja direto de sua sepultura em Jeddah.
No Vaticano, o Papa Bento XVI confirmou à Revista Veja que Protógenes Queiroz grampeou suas conversas com Deus, nas quais o Supremo Pontífice pedia pela salvação da alma das duas células impiedosamente assassinadas pelos Drs. Olimpio Moraes e Sérgio Cabral no corpo de uma garota pernambucana de 9 anos de idade. A revista não apresentou os áudios das gravações, mas tanto o Santo Papa como Deus confirmaram que foram vítimas do grampo do Delegado Protógenes.
Apoio às feministas e ao CISAM no caso da menina de 9 anos, estuprada em Alagoinha
Reconhecemos e aplaudimos a solidariedade, compromisso e eficiência que determinou o aborto legal realizado pela equipe de atenção à saúde do CISAM - Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, e em especial aos médicos Prof. Olimpio Moraes e Dr. Sérgio Cabral. Esta instituição mostrou seu compromisso com a saúde, com a vida, com a cidadania e direitos humanos da população que por ela é atendida.
A crítica contundente de setores conservadores religiosos a um trabalho tecnicamente competente e em consonância com as leis nacionais e normativas internacionais reflete uma vez mais seu arcaísmo e desumanidade.
O mundo acompanha atentamente a história desta menina pernambucana de 9 anos de idade, e seguramente apoiará a perspectiva daquelas/daqueles que defendem os direitos reprodutivos como direitos humanos.
No dia 27 de fevereiro passado, Paulo Henrique Amorim reproduziu em seu blog as 25 perguntas a Gilmar Mendes escritas por mim e publicadas aqui no Biscoito no dia 15 de dezembro de 2008. A reprodução muito me honra, mas ela foi feita sem créditos ao autor. Pior ainda, o Paulo diz que são 25 perguntas “segundo Ricardo Noblat”, o que só pode ser uma piada, posto que Noblat teve amplas oportunidades de fazer perguntas genuinamente jornalísticas durante o Roda Viva de dezembro passado e não fez nenhuma.
No mesmo dia, o PHA foi avisado pelo leitor Marcos de que aquelas perguntas tinham autor. O post continuou sem atribuição de autoria. Jean Scharlau, por duas vezes, colocou lá o link correto para a fonte onde elas foram originalmente publicadas. Mesmo assim, quase uma semana depois, o post continua dizendo que as perguntas são “segundo Ricardo Noblat”.
Como já afirmei aqui, não perco sono com copia / cola sem atribuição de autoria. Mas não deixo de registrar quando acontece comigo.
Atribuição correta de autoria é componente essencial da credibilidade de qualquer blogueiro.
PS: Já que de corrigir se trata, que fique registrado que o PHA também errou ao dizer, sobre a vitória de Obama, que “as pesquisas estavam erradas” e que “ninguém previu a vitória de goleada de Obama”. Como registram os arquivos do Biscoito e do Five Thirty-Eight, as pesquisas sérias – Rassmussen, Gallup etc. – acertaram o resultado da eleição americana na mosca. Tabulando-as, o Nate do 538 previu com exatidão o resultado final, acertando até a casa dos decimais. Quem acompanhou por aqui não teve surpresa nenhuma.
Com as últimas notícias da hecatombe econômica, está chegando a 50 milhões o número de estadunidenses sem seguro de saúde, algo que nos EUA deixa-o a uma fratura de tíbia de distância do endividamento eterno. Sofreram duros golpes nos últimos anos tanto o Medicare – o atendimento do governo para maiores de 65 anos – como o Social Security, o programa mais amplo de benefícios para idosos, desempregados e descapacitados, do qual o inesquecível George W. Bush uma vez reclamou que querem que o governo controle, como se fosse lá um tipo de programa federal. O presidente anterior chegou a declarar que não podem dizer que há gente sem cuidado médico na América, afinal é só ir na sala de emergência, num país em que uma ou duas visitas à sala de emergência sem seguro podem derrubar um orçamento familiar. Em 2007, 6,8 milhões de americanos já haviam perdido assistência médica desde a posse de Bush. Neste contexto, ter uma cabeça como a de Barack Obama preocupada com o problema já é um alívio.
Estrangulado pelo oligopólio das seguradoras – o lobby mais poderoso de Washington, segundo estudo do Center for Responsive Politics –, o sistema de saúde americano é daqueles angus de caroço sem cuja resolução o próprio futuro do país fica ameaçado. Ele não prioriza a prevenção, privilegia o capitalismo-sem-risco, especulativo das seguradoras, deixa médicos e enfermeiras na posição de pouco mais que servos-executores de suas políticas, sem muito contato individualizado com pacientes. Para completar, implica sempre um custo proibitivo para pobres e classe média. A definição clássica de um sistema quebrado.
A última tentativa dos democratas de reformá-lo aconteceu em 1993, e foi um dos fracassos mais estrepitosos do Partido. A cargo de Hillary Clinton, a estratégia era uma espécie de pacote-surpresa para o Congresso, ao qual nem mesmo os senadores democratas foram convidados a contribuir. Claro que não deu certo. Isolada, Hillary foi presa fácil para o lobby das seguradoras, que trituram-na sem dó nem piedade ao longo de 1993. Dali o projeto foi para a gaveta e nós viemos morro abaixo.
Kathleen Sebelius, governadora do Kansas, é a escolhida de Barack Obama para Health and Human Services, o equivalente do Ministério da Saúde. Tem o apoio entusiasmado deste blog. Acompanho Sebelius há anos. Ela era minha candidata a vice-presidente, até que acabei sendo convencido pela escolha mais pragmática de Joe Biden.
Católica, mas com longa história de defesa dos direitos das mulheres ao aborto, ela provoca o ódio dos grupos anti-abortistas mais delirantes, mas governa com sucesso o estado conservador do Kansas há dois mandatos. Moderada, centrista, ela tem um perfil parecido com o de Obama: conciliadora e diálogica, mas firme na defesa do que é da ordem dos princípios. Eliminou 1,1 bilhão da lambança de dívidas deixada pelos antecessores no Kansas, não aceitou contribuições de seguradoras e tem uma história de compromisso com a educação pública. Fala bonito mas firme, sem afetação. Aderiu à campanha de Obama no primeiro momento.
Não há como desarmar essa bomba-relógio sem algum grau de confronto com o lobby do capitalismo-sem-risco das seguradoras. Mas a briga tem que ser preparada em terreno favorável, e Kathleen sabe disso. A tarefa de Sebelius não é menos complicada que a de George Mitchell no Oriente Médio. Mas não sei de outra pessoa mais qualificada.
Ato Público contra a Folha de São Paulo: dia 07/03, às 10 h
Está crescendo bastante a mobilização para o ato público convocado para o próximo sábado, dia 07, às 10 da manhã, em frente ao comitê central da candidatura Serra prédio da Folha de São Paulo, na Alameda Barão de Limeira, 425. Trata-se de uma concentração popular em protesto contra o insulto à memória das vítimas da ditadura militar no editorial da Folha do dia 17 passado e em solidariedade com os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, insultados pelo jornal.
A manifestação foi convocada pelo Eduardo Guimarães, conta com o apoio do Biscoito e já tem um selinho, feito pelo Mello:
A lista de blogs que estão divulgando o ato público inclui o Luis Nassif, o Viomundo, a Maria Frô, o Óleo do Diabo, o Estado Anarquista e muitos outros. O blog Nas Retinas pede a colaboração dos paulistanos que por ventura tenham acesso a uma rede wifi nas imediações da Barão de Limeira. O genial Latuff já fez sua charge contra a “ditabranda”:
Além de oferecer a modesta ajuda na divulgação do ato, eu apresento o recibo de cancelamento da minha assinatura:
Todas as fontes confirmam que o impacto do episódio fez com que se batessem muitas cabeças na redação da Folha de São Paulo. Sem saber muito bem como lidar com a grande repercussão, sem ter a dignidade de se desculpar, desprovido da transparência de repensar a sua colaboração com a ditadura, o jornal embarcou numa sequência de emendas que pioraram muito um já péssimo soneto. Publicaram umas poucas linhas de Benevides e de Comparato, sem resposta injuriosa mas sem retratação. Escalaram um colunista, Fernando Barros e Silva, para “discordar” do editorial num texto cuja ênfase maior era uma bizarra comparação entre a metáfora usada por Comparato – de que o jornal deveria se desculpar ajoelhado em praça pública – e os métodos da Revolução Cultural chinesa (haja liberdades com as metáforas alheias!). O coroamento foi um post de Marcelo Coelho que afirmava que “há pelo menos 30 anos, a Folha reprova o autoritarismo”, omitindo a simples matemática de que em 1979 a Folha já tinha 15 anos de leais serviços prestados à ditadura militar.
O episódio reitera mais uma vez algo que o Biscoito vem afirmando há tempos: os funcionários da grande mídia continuam sem ter a menor idéia da grande revolta que toma conta de parte significativa do público leitor. Como a internet tem sido o principal meio de expressão dessa revolta, eles seguem colocando a culpa da febre no termômetro.
O Biscoito apóia o ato do próximo sábado e convoca os amigos paulistanos: dia 07/03, às 10 da manhã, na Alameda Barão de Limeira.
Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides
Convenhamos que de ser “cínica e mentirosa” a Folha de São Paulo entende. Mas ela nunca, sejamos justos, havia nomeado dois profissionais, professores de currículo infinitamente superior ao de qualquer um dos membros de seu Conselho Editorial, para uma injúria gratuita. Com a agressão a Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, o jornal já conhecido como Façamos Serra Presidente chegou a um novo limite, um mais recente e enlameado piso. Pouca coisa o diferencia do lamaçal de publicações como a Veja. Neste episódio, o mais urgente, acredito, é assinar a petição em defesa dos Professores e de protesto contra a injúria. A petição é encabeçada pelo maior crítico literário brasileiro, o Mestre Antonio Candido.
O já infame editorial da Folha, além de insultante à memória das vítimas da ditadura militar brasileira e comprometido com a ocultação da história colaboracionista do próprio jornal, fazia exatamente o contrário do que deve fazer o jornalismo: ele desinformava, contava uma mentira. Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado.
Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).
O termo não tem qualquer história bibliográfica no Brasil para designar o período 1964-85, e é curioso que um jornal suspeito de ceder seus automóveis para a repressão, colaboracionista até a medula na divulgação das versões mentirosas dos assassinatos cometidos pelo regime, venha fingir que a ditadura brasileira tenha sido chamada de “ditabranda” -- e, para completar, chame de “cínicos e mentirosos” dois professores com os currículos de Fabio Konder e Maria Benevides, pelo simples fato de eles não aceitarem a chantagem da falsa comparabilidade entre o regime cubano e os regimes militares da América do Sul com os quais a Folha colaborou.
Por uma postura de opinião – abalizada por vastas obras, diga-se –, intelectuais são chamados de “cínicos e mentirosos”, sem direito de resposta, por um jornal de tiragem de 300 mil exemplares, cuja história colaboracionista é vastamente conhecida. Não é o máximo? São esses os lacaios que vêm nos falar de “liberdade de imprensa” todas as vezes em que são questionados. São esses os lambe-botas que vêm posar de “linchados” quando sua cumplicidade com os poderosos é desvelada. São esses os que falam de “apurar notícias” e até hoje não nos disseram quais são os jornalistas que recebem dinheiro de Daniel Dantas e se a lista que circula por aí – com Noblat, Fernando Rodrigues, Miriam Leitão – é verdadeira ou falsa.
Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de "linchadores" os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?
O mais cretino, o mais absurdamente revoltante dessa história, o mais fundamental que passou até agora sem menção, é que se você tomar os currículos de todos os jornalistas funcionários do Globo, da Folha, da Veja e do Estadão – eu disse se você tomar todos eles em conjunto --, você não chega a algo remotamente comparável ao currículo de Fabio Konder Comparato. Não adianta o Pedro Dória honestamente matutar de lá pra cá se ele não entender essa premissa básica que deve estar sobre a mesa para o início da conversa: o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira. Além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos.
Não percebem, por exemplo, que é vergonhoso o maior jornal brasileiro não saber de onde vem o termo “ditabranda”.
Com o insulto a Fábio Konder e Maria Benevides, o portal UOL perdeu de vez minha assinatura. O Biscoito entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.
A Revista UFG, da Universidade Federal de Goiás, publicou um excelente número especial, faz uns três meses, celebrando os 200 anos da imprensa no Brasil. É um dossiê imperdível para quem se interessa pelo tema. Foi-me pedido um texto, que republico agora no blog.
Poucos eventos foram tão emblemáticos da situação da grande imprensa brasileira como as prisões e liberações do banqueiro Daniel Dantas, acusado, depois de extensa investigação da Polícia Federal, de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e espionagem. Levada a cabo na gestão de Fernando Henrique Cardoso, a privatização das telefônicas é um capítulo da história do capitalismo brasileiro no qual Daniel Dantas cumpre papel central. Conhecido por recorrer à espionagem e à fabricação de dossiês sobre adversários para divulgação como “notícia” (plantada através de contatos com jornalistas com os quais a intimidade vai bem além da relação tradicional entre repórter e fonte), Dantas é o elo entre aqueles que talvez sejam os dois maiores escândalos da política brasileira na última década e meia: a “privataria”, na qual enormes frações do patrimônio público foram sub-avaliadas para posterior venda a grupos privados financiados pelo próprio BNDES, e o “mensalão”, no qual vastas quantias de dinheiro trocavam de mãos ilegalmente no interior da base aliada do governo do Presidente Lula. O fortalecimento do poder econômico, político e jurídico de Daniel Dantas depois das privatizações instalou-o como uma espécie de avalista e financiador mor da grande política brasileira.
Não foi a grande imprensa e sim a internet quem deu a primeira notícia da prisão provisória de Dantas, concedida no dia 08/07/2008 pelo juiz Fausto de Sanctis, da 6a Vara Criminal de São Paulo, a pedido do Delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal. Bob Fernandes, com fontes na PF, deu o furo no site Terra Magazine, às 07:48 da manhã. Antes que os grandes veículos de comunicação corressem atrás, os blogs já debatiam o assunto. Na repercussão que teve na internet esse raro acontecimento – a prisão de um banqueiro que mantém relações umbilicais com o poder político e com a imprensa --, já se antecipava que o Supremo Tribunal Federal (em recesso e com Gilmar Mendes de plantão) soltaria Dantas. Poucas horas depois, antes mesmo que os advogados de Dantas entrassem com o pedido de habeas corpus no Supremo, Gilmar Mendes deu violentas declarações contra a Polícia Federal, criticando uma suposta “espetacularização das prisões” (Jornal da Globo, 08/07/2008). Na cobertura do evento nos telejornais da noite, praticamente nada se disse sobre as atividades ilegais de Dantas, o que é o Grupo Opportunity ou como ele se transformou no que é. Toda a ênfase foi colocada na “espetacularização” das prisões. A grande imprensa começava a preparar a fritura do Doutor Protógenes Queiroz, responsável pela prisão do banqueiro.
Conhecedora dos tentáculos de Dantas no judiciário, a equipe do Dr. Protógenes sabia que ele seria solto pelo STF. Tinha na manga um outro pedido de prisão, desta vez preventiva, baseada na filmagem feita pela Polícia Federal de uma tentativa de suborno. Concedida novamente pelo juiz Fausto de Sanctis, esta prisão ocorreu no dia 10/07 e não poderia, legalmente, ter sido objeto de habeas corpus ao Supremo. Antes, teria que ter sido julgada pelas instâncias inferiores. A prisão preventiva, prevista no artigo 312 do Código de Processo Penal para os casos de obstrução de investigação, claramente se aplicava, já que estava documentado o suborno a um delegado federal. Mesmo assim, o Presidente do STF, Gilmar Mendes, fez hora-extra para novamente soltar Dantas no dia 11 de julho. Rasgava-se a súmula 691 do próprio STF, que determina o respeito às instâncias. Rasgava-se o artigo 312 do Código Penal, que regula a prisão preventiva. Confirmava-se que tinha razão o próprio Dantas, quando declarara que só temia as instâncias inferiores da justiça, já que no Supremo ele “teria facilidades”.
A imprensa cumpriu papel central na justificativa das ilegalidades cometidas pelo Presidente do Supremo. No dia 10 de julho, a Folha de São Paulo veiculou a versão de Dantas: “Defesa de banqueiro volta a ameaçar governo”, “Senadores vão à tribuna criticar operação” e “Conduta de delegado divide cúpula da PF” foram algumas das manchetes. No dia 13 de julho, sob o título “Delegado narra a luta do 'bem' contra o 'mal'”, a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre a “linguagem truncada” e o “português precário” do relatório de Protógenes Queiroz que havia incriminado Dantas. Ficava nítida a tentativa de desqualificar o trabalho da Polícia Federal. Para azar do jornal, a própria matéria continha erros de português. A Revista Veja (23/07/08, pag. 47), caracterizando o relatório de 245 páginas do Dr. Protógenes como um “desastre de dimensões dantescas”, chegou ao ponto de citar um jurista que questionava o flagrante da PF, por ter sido “preparado”, como se a legislação só aceitasse flagrantes acidentais. Não havia uma palavra sobre as acusações nem, muito menos, claro, sobre as relações de Dantas com a própria revista. Na televisão, foi mais explícito ainda o intento de queimar a operação.
Enquanto isso, na internet, Bob Fernandes continuava sendo a fonte com informações reais acerca da operação da PF. Nos blogs e portais, os comentários circulavam com rapidez, dando vazão a uma revolta da sociedade brasileira que era invisível na grande imprensa. Uma petição solicitando o impeachment de Gilmar Mendes recolhia milhares de assinaturas em poucas horas. Comunidades de apoio ao delegado Protógenes Queiroz e ao juiz Fausto de Sanctis se multiplicavam no Orkut. Também pela internet se prepararam manifestações de protesto contra Mendes em todo o Brasil para o sábado, dia 19. Blogs políticos como o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, o de Luis Nassif e o Biscoito Fino e a Massa reuniram um histórico de tentáculos de Dantas nos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e na própria mídia. Esta última continuava tentando desqualificar a operação da Polícia Federal. Com Dantas já solto, alguns erros de português do relatório do delegado e um absolutamente corriqueiro empréstimo de agentes da ABIN à PF, a grande mídia reuniu elementos suficientes para transformar Dantas em vítima, o delegado Protógenes em investigado e Gilmar Mendes em baluarte da justiça.
Somente nas mídias alternativas foi possível conhecer o método de Dantas de plantar na grande imprensa “notícias” com caráter de denúncia contra seus adversários. Só pelas mídias alternativas foi possível saber que Gilmar Mendes, quando era Advogado Geral da União, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -- do qual o mesmo Gilmar Mendes era um dos proprietários -- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Só nos blogs independentes foi possível saber que Gilmar Mendes liderou o lobby no Supremo para estender o foro privilegiado a ações de improbidade administrativa. Só nas mídias alternativas noticiou-se o “trem da alegria” patrocinado por Gilmar Mendes na Advocacia Geral da União, que permitiu que assistentes jurídicos não concursados e sem qualificação técnica, a maioria já aposentados, fossem enquadrados como Advogados da União e obtivessem expressivo aumento – retribuindo o favor sob a forma de lobby para que o próprio Gilmar Mendes fosse indicado ao Supremo. Mesmo sem essas informações, a esmagadora maioria da população brasileira percebia que o Presidente do Supremo era uma autoridade aberta a fazer concessões à criminalidade de colarinho branco, mesmo tendo a grande mídia sistematicamente se prestado ao papel de ser seu porta-voz. Um marciano que aterrizasse no Brasil em julho de 2008 e só se informasse pela grande imprensa sairia com a impressão de que Daniel Dantas era vítima de um complô totalitário da Polícia Federal e que o STF havia interferido para garantir a lei. Além disso, não teria nem idéia de que na disputa entre Protógenes / De Sanctis e Dantas / Mendes, a população havia se alinhado esmagadoramente com aqueles.
A imprensa brasileira chega a seu 200° aniversário, portanto, com um legado contraditório. A multiplicação do acesso à Internet e o fenômeno dos blogs fizeram com que praticamente sobre qualquer assunto – inclusive a política –, a informação disponível na rede seja de qualidade e variedade superior à dos jornais. No caso das revistas semanais, a crise é ainda mais profunda. Obsoletas como fontes de notícias numa época em que a circulação da informação se mede por minutos, as revistas tentam encontrar um nicho entre a análise semi-ensaística, de alcance restrito, e o caminho adotado pela Veja, de produção de acusações incendiárias com muita adjetivação e escasso fundamento na realidade. De acordo com dados do Datafolha, para os jovens das classes A e B, a internet é o meio de comunicação mais importante, com larga vantagem em relação à TV (43% a 26%). Mesmo na classe C, a internet já se aproxima da TV (21% contra 33%). Entre os veículos impressos, os jornais foram citados como meio preferido de informação por 19% dos jovens, enquanto as revistas tiveram apenas 3% das respostas. Ou seja, de cada 100 jovens brasileiros, só 3 têm nas revistas seu meio de informação privilegiado. Enquanto isso, as mídias interativas, com base na rede mundial de computadores, vão produzindo um fenômeno promissor. No Brasil, ele ainda não chegou ao ponto em que se encontra nos Estados Unidos, onde blogs como o Talking Points Memo já fazem investigações independentes capazes até de derrubar políticos. Mas não há dúvidas de que a democratização trazida pelas mídias interativas, por um lado, e a concentração econômica nos oligopólios da mídia tradicional, por outro, são os vetores fundamentais para se acompanhar nesta efeméride.
PS: Leia, do meu amigo Sergio Leo, Blogs e jornalismo, um rico texto sobre o qual vou tecer algumas considerações em breve. Leia também o contraponto indispensável: Criando um álibi, de Leonardo Bernardes.
Eis aqui um link para se guardar nos próximos anos: o Obâmetro, que compilou mais de 500 promessas de campanha de Obama e está catalogando-as sob “cumpridas”, “em andamento”, “solução de compromisso”, “nenhuma ação”, “paralizadas” e “quebradas”.
Imaginem se seria sequer possível um site desses sobre o governo Bush. É aquela mágica palavrinha inglesa, accountability, que define o contexto onde o cidadão tem como saber o que está sendo feito e cobrar.
"Cinco EMBRAERs por ano": Chico de Oliveira e o pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma
Numa entrevista que contém alguns momentos de análise econômica clara e brilhante e em outros surpreende pela revisão que faz o autor de suas posições políticas, o grande sociólogo brasileiro Francisco de Oliveira, talvez o principal crítico à esquerda que teve o PT nos últimos anos, propõe um pacto político – um “1930 varguista” para o século XXI, define ele – para impedir o retrocesso que seria uma vitória da coalizão serrista em 2010:
CM – Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.
CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...
CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.
[...]
CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.
CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.
CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?
Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.
Leia a íntegra no site da Carta Maior. Chico, vale lembrar, é o autor da ilustre tese que toma o ornitorrinco como metáfora do capitalismo brasileiro, dualismo expresso na polaridade PSDB / PT, na qual este último, para Chico, já estaria reduzido a partido representante dos administradores de fundos de pensão. A simpatia de Chico pelo PSOL durou pouco, e se esvaiu completamente no dia em que Heloísa Helena apareceu na TV dizendo que a solução para o crime era "construir mais prisões".
Sempre atento à conjuntura, ele aparece aí sugerindo um pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma, se refere a Serra como 'um caso psiquiátrico' e fala do retrocesso que seria a vitória de uma coalizão privatista em 2010: 'eles ficariam por aí mais dez anos', prevê o sociólogo brasileiro.
Pode-se discordar de Chico, mas é sempre um sujeito que está pensando a realidade, sem importar frases feitas de ninguém.
Há uma avalanche de notícias das primeiras 72 horas de Obama: ordem executiva decretando o fechamento de Guantánamo em um ano, reinstalação do Manual do Exército (que não admite tortura) como parâmetro para qualquer interrogatório, ordem de fechamento das prisões secretas da CIA fora do país, amplas medidas de aumento da transparência e possibilidade de escrutínio da Casa Branca (de site novo), uma boa nomeação para o Oriente Médio (George Mitchell), entre outras.
Mas não pode passar batida a entrevista de Russell Tice a Keith Obermann, na qual Tice, ex-analista da National Security Agency, bota a boca no trombone acerca do programa de espionagem da administração Bush, que foi pior do que qualquer um imaginava.
O resumo da ópera é que todo mundo estava sendo espionado: uma giganteca e orwelliana teia de escuta e leitura ilegal de telefonemas, emails e faxes cobria todas as comunicações do país, mesmo as que se davam entre “americanos normais”. Até as comunicações daqueles que jamais se relacionaram com o exterior eram monitoradas.
Tice sofreu pressões durante o governo Bush e já nos primeiros dias de Obama resolveu dar com a língua nos dentes. Entre os grupos especialmente visados, ele mencionou os jornalistas. Já dá para imaginar quais seriam alguns dos outros (árabe-americanos, por exemplo). Não está claro neste momento se haverá condições político-jurídicas de processar os responsáveis. Obama está lá, caladinho, o que é do seu feitio.
Em janeiro, os sábios do jornalismo descartavam a pré-candidatura de Obama como um breve prelúdio à coroação de Hillary. Em fevereiro, de um lado do mundo um adeus, de outro massacres que continuavam. Em março, enquanto Barack Obama se preparava para revolucionar a campanha eleitoral eletrônica e interativa, o judiciário brasileiro inventava a campanha eleitoral sem internet. Em abril, a oposição brasileira e seus aliados na imprensa batiam cabeça, enquanto só em maio, depois de meses de cobertura blogueira, o escândalo do DETRAN gaúcho estourava na grande imprensa. Em junho, claro, completamos 50 anos de existência adulta como país de verdade. Em julho, boa parte da grande imprensa brasileira se revelou bem amiga de Daniel Dantas e bem interessada em fulminar o Doutor Protógenes. Em agosto, John McCain deu um presente chamado Palin para Obama, mas os sábios do jornalismo falaram em “golpe de mestre”. Em setembro, começou a desabar o castelinho da desregulamentação do capitalismo Bush e desapareceram os profetas do livre-mercado, agora ocupados em pedir socorro financeiro do estado para seus patrões corporativos. Em outubro, a população brasileira fez de PPS, DEM e PSDB os três partidos que mais perderam votos em todo o território nacional, mesmo com a caipirice do PT mineiro e o lampejo de semi-cidadania da República Leblon. Em novembro, a noite inesquecível. Em dezembro, o jornalismo brasileiro nos proporciona dois espetáculos televisivos grotescos, com Gilmar Mendes e com o Doutor Protógenes.
Só para que não fique sem registro, aí vai um filminho de parte das celebrações da posse de Obama, em Washington. O Biscoito documentou toda a caminhada da vitória, desde o início.
No próximo post, voltamos ao esquema normal, com comentários e tudo o mais. Grato aos comentaristas pela paciência, neste período em que o blog funcionou em regime meio emergencial -- e mesmo assim sem conseguir documentar nem uma ínfima parte da atrocidade.
Aqui vai uma cópia do comentário que acabo de postar no blog de Fernando Rodrigues. Logo que ele for liberado -- e acredito que deve ser -- eu coloco uma atualização, avisando que o jornalista o publicou*:
Como acadêmico que acompanhou o jornalismo dos EUA dos últimos 20 anos, posso lhe garantir que um repórter que perguntasse a delegado de força policial (FBI), que conduziu uma investigação com colaboração de agentes de inteligência (CIA), JÁ COM CONDENAÇÃO, por que esses agentes não disseram “alô, bandido, sou o agente tal”, receberia uma gargalhada na cara com um convite a que voltasse ao primeiro semestre da faculdade ou ao ensino médio, onde se ensinam coisas como a possibilidade de anonimato de agentes da lei em investigação judicialmente autorizada. Você não sabe ou finge não saber? Ao ler o trecho que fala do áudio “mencionado”, você sabia ou fingiu não saber que se tratava da pag. 81? Sobre o grampo inventado na Veja, você já ouviu falar da expressão “ônus da prova”? Já leu o relatório inteiro do Protógenes? Tem alguma noção de Direito? Já leu o artigo 312 do Código de Processo Penal? Conhece algum blogueiro que, no próprio blog, receba 122 comentários, sendo 110 desfavoráveis? Como se explicar agora?
O leitorado do Biscoito tem uma das equipes de comentaristas de mais saber jurídico da blogosfera brazuca. Convido qualquer profissional do Direito que discorde do que temos colocado aqui a que se manifeste, com toda a liberdade e todo o espaço, na caixa de comentários.
* Atualização: como previsto, comentário publicado.O que é notável -- além do espírito de tolerância à crítica do administrador do blog -- é a contenção dos comentários. Praticamente nenhum comentarista, da imensa maioria que o criticou, proferiu insulto ou algo limítrofe. Não deixa de ser importante também.
É meio vergonhosa para o jornalismo dos grandes veículos a justaposição entre as duas últimas edições do Roda Viva, o espetáculo de servilismo a Gilmar Mendes proporcionado por todos (menos Eliane Cantanhêde) na semana passada e o espetáculo de indignação irrelevante e corporativista que proporcionaram outros quatro jornalistas nesta segunda à noite com o Delegado Protógenes Queiroz. O sujeito investiga a fundo a organização criminosa de mais longos tentáculos do capitalismo brasileiro, publica um relatório de 210 páginas e os jornalistas não têm uma única pergunta sobre o conteúdo que foi revelado ali? Têm que dedicar um bloco inteiro a insistir que um delegado da Polícia Federal especule sobre como uma revista de pouca credibilidade inventou um grampo acompanhado de uma acusação? Será que perderam completamente a noção do significado da expressão ônus da prova? Fernando Rodrigues quis interrogar o delegado sobre o pedido de prisão a Andrea Michael, da Folha. Não pré-julgo a jornalista, mas se Rodrigues queria se referir ao “áudio citado” por Protógenes, não teria que ter lido o trecho anódino que leu, mas por exemplo a página 81 (pdf). Fica difícil diferenciar, às vezes, o que é ruindade pura e simples do que é má fé no jornalismo brasileiro. Leram o raio do relatório inteiro ou não? O último segmento do programa foi um baile de Protógenes, a quem o blog deixa seus parabéns. De minha parte, reduzi radicalmente, nas últimas semanas, o tempo dedicado a consumir o jornalismo dos grandes veículos: 20 minutos diários no máximo. O Roda Viva desta segunda, com certeza, foi meu último por um bom tempo.
Aconteceu em Santa Teresa e no Santa Efigênia, domingo, uma cervejada d'O Biscoito Fino e a Massa com alguns dos seus leitores belo-horizontinos e as ilustres presenças de Cibbele (se gosta de crianças, veja esse blog), Túlio, Cynthia, Cláudio, Ana Letícia, Thiago, Bruno, Ana e uma turma de não-blogueiros, incluindo-se alguns dos melhores comentaristas jurídicos que conheço na blogosfera. No cardápio, um papo sobre os rumos do nosso Judiciário em que, evidentemente, houve bastante concordância -- e lamentos pelo nosso querido 312, enterrado como princípio universal.
Está imperdível a série de posts do Liberal Libertário Libertino sobre o racismo brasileiro. O Alex encontrou lá um método de revirar as típicas denegações que aparecem na caixa de comentários para, logo depois, transformá-las em post. A coisa vai ficando irresistível.
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O Governador Aécio Neves tem o direito de namorar quem quiser, mas ser pego nisso aqui, ainda por cima em Santa Catarina, enquanto as enchentes devastam o interior de Minas, convenhamos, fica um pouco feio.
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Tem lugar no Estúdio B, na Av. do Contorno, às quintas-feiras, uma daquelas experiências musicais belo-horizontinas típicas: seis músicos absurdamente talentosos – todos com projetos paralelos, três deles já com história na música da cidade – se reúnem e produzem as versões mais insólitas de um repertório que vai de Kraftwerk a Nelson Cavaquinho, além de composições próprias (ou que eu, pelo menos, não identifiquei como covers). A banda se chama Angu Estéreo Clube e não tem nada na internet: nem mp3, nem disco, necas. Tem que ir lá pra ver. A música de algumas regiões é associada à força de um gênero; de outras, a certos padrões rítmicos; de outras, a um certo tipo de instrumentação. O que marca toda a boa música feita em Belo Horizonte, independente de seu gênero (e como há gêneros diferentes aqui!) é a originalidade do seu trabalho harmônico. Com o Angu Estéreo Clube não é diferente.
Gilmar Mendes perde a compostura: Balanço do Roda Viva
Eu faço um balanço positivo do ruim programa de entrevistas da TV Cultura na última segunda. Fraco de qualquer ponto de vista que tenha um mínimo de rigor jornalístico, consistindo principalmente, como prevíamos, em “levantadas de bola” para o entrevistado, o programa não foi, no entanto, o que ele teria sido se não tivesse havido a mobilização de blogs como o do Nassif, do PHA, do Mello, deste próprio espaço e de uma legião de outros blogueiros e leitores que entraram em contato com a TV Cultura. Sim, sei que fazer história contra-factual, imaginar o que “teria sido”, é sempre hipotético. É evidente. Mas esta é minha hipótese: não que o programa “tenha repercutido” na internet mas, pelo contrário, a internet repercutiu dentro dele, exercendo influência especialmente na postura da colunista Eliane Cantanhêde -- a quem devemos parabéns -- e também na coordenadora Lilian Witte Fibe. Os outros foram o que esperávamos.
Da colunista da Folha de São Paulo sempre achei que é inteligente e autora de boa frase, mas também sempre me pareceu que ela ganharia muito em credibilidade se explicitasse seus vínculos pessoais e de simpatia com o tucanato. Não há nada de errado em tê-los e os tucanos são uma força política importante e legítima no Brasil. O problema é deixá-los nebulosos e pretender / fingir / supor que fala a partir de uma posição politicamente equânime.
Em todo caso, não há dúvida que a enxurrada de bits que circularam na internet influíram nela. Não me cabe julgar se Cantanhêde – cuja coluna na página 2 da Folha não foi exatamente combativa na época da Satiagraha – estava sendo “sincera” ou “fazendo média” com a maioria do público brasileiro ou se foi mesmo sendo convencida de que há que se interrogar Mendes. O fato é que, dentro de seus limites, tentou fazer jornalismo de verdade. Lilian também não foi mal, apesar do absurdo gesto pedindo contenção a Eliane no momento do bate-boca com Mendes, quando havia sido este que a interrompera.
Confrontado por Eliane com perguntas acerca do grampo fajuto e da quase unanimidade jurídica contra ele na época do segundo habeas corpus a Dantas, Gilmar Mendes foi grosseiro com uma dama que lhe fizera uma pergunta legítima. Falsamente acusou-a de estar querendo ensinar-lhe. Perdeu a compostura de magistrado. Lamentável. Parabéns, Eliane.
Aliás, salvo engano, nenhum comentário sobre o Roda Viva até agora notou o óbvio: as únicas a se comportarem com um mínimo dignidade jornalística na bancada foram as duas mulheres, enquanto um dos marmanjos, Carlos Marchi, se omitia, e os outros dois, Reinaldinho e Márcio Chaer, se esforçavam para levantar bolas, não como Ricardinho, mas como um tosco, desajeitado e afobado levantador que tivesse nas mãos, não nove, mas somente seis ou sete dedos.
Se o portal Consultor Jurídico ainda tinha qualquer credibilidade no meio jurídico, maculou-a severamente na segunda à noite, com a postura indigna do Sr. Chaer, que confundiu jornalismo com puxa-saquismo. Incrivelmente, na mesma noite em que tentava ajudar a coroar Gilmar Mendes como o paladino da liberdade de expressão, o Sr. Chaer sugeriu enquadrar “jornalistas de aluguel” por .... formação de quadrilha! Isso sem citar nomes ou fazer acusação concreta (qual é o problema? É Paulo Henrique Amorim? É Luiz Nassif? Diga o que tem a dizer então e coloque as cartas na mesa).
Reinaldinho, coitado, é aquilo ali. Pelo menos acredita no que diz. Usa o programa para traficar a imputação de terrorismo a quem lutou contra a ditadura. Transforma a bancada em palanque para tentar nos fazer crer que é inverossímil a hipotese de que um senador pefelê, Mendes e a revista de menos credibilidade do Brasil tenham sido pegos na mentira. Corrige, coitado, no post das 18:47 de 16/12, o “Schmidt” do ombudsman só para ir lá e, ele mesmo, escrever que “o sobrenome do Carl não é "Schmidt", mas Schimitt” errado também. A mesma fúria com que seus leitores anônimos defendiam a TV Cultura antes do programa foi dirigida contra ela depois que o ombudsman notou o óbvio (aliás, não sei se Ernesto Rodrigues reparou que implicitamente, depois do programa, ele deu razão à “reação em cadeia” da internet que antes ele criticara. Tínhamos ou não tínhamos razão, meu chapa, em atacar a composição da bancada? Estávamos “pré-julgando” ou simplesmente notando o óbvio?).
A pergunta 8 da lista formulada por mim na segunda-feira foi feita durante o programa: O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância? . Faltou-lhe, evidentemente, uma palavrinha: julgamento. Por que não foram a julgamento? Disso se tratava, como saberia qualquer um com um mínimo de contexto e boa fé. A responsabilidade pela formulação imprecisa da pergunta é única e exclusivamente minha, já que a magnífica reportagem de Leandro Fortes, na qual ela se baseava, havia formulado a dúvida certinho.
Favorecido pela falta da palavra que teria tornado a pergunta juridicamente exata, Mendes escapou pela tangente e, desqualificando a indagação, só deixou claro seu desconforto com ela.
A isso, mes amis, o gênio de Oswald de Andrade chamou a contribuição milionária de todos os erros. Havia 24 perguntas formuladas em termos factuais. Aquela que continha uma imprecisão vocabular, uma errata, um piolho nas palavras – como diria Flaubert – foi a que acabou sendo a mais reveladora.
PS 2: Aguarde-se, claro, um Roda Viva bem mais duro com o Delegado Protógenes, na próxima segunda.
PS 3: Cobrem-me um post sobre a imensa desonestidade intelectual das menções a Carl Schmitt no programa: uma levantada capenga de Reinaldinho para uma cortada – indigna de um acadêmico – em que Gilmar Mendes tentava enlamear o Juiz Fausto de Sanctis.
Como já sabem a torcida do Corinthians e os leitores do Mello, do Luiz Nassif e do Paulo Henrique Amorim, o Roda Viva, da TV Cultura, vai ao ar nesta segunda com uma entrevista a Gilmar Dantas Mendes, o presidente do Supremo Tribunal Federal. Até mesmo para os padrões do horrendo jornalismo que se pratica no Brasil, é vergonhosa a operação realizada pela TV Cultura com o Roda Viva desta segunda. Os escalados para entrevistar Gilmar Mendes são Eliane “vacinem-se contra a febre amarela!” Cantanhêde, Reinaldo Azevedo, cuja ignorância, truculência e hidrofobia dispensam comentários, Carlos Marchi, do Estadão e Márcio Chaer, editor do site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Dantas Mendes.
O Roda Viva escalou quatro levantadores de fazer inveja a Ricardinho. A TV Cultura realizaria algo mais próximo do jornalismo se escalasse como entrevistadores quatro capangas ou funcionários de Mendes. A obviedade da manobra terminou, pelo que parece, saindo pela culatra. Uma enxurrada de protestos chegou ao site da TV Cultura.
Mas a coisa ainda piora. O ombudsman – cargo que Houaiss define como jornalista que, de maneira independente, critica o material publicado e responde às queixas dos leitores – resolveu tecer suas próprias teorias sobre a avalanche de protestos que lhe chegaram. Num texto em que abdica completamente da função para a qual foi contratado, Ernesto Rodrigues afirma, sobre os emails, que em todos eles, exatas 10380 palavras, independentemente se eram de remetentes simpáticos ou não à bancada escolhida de entrevistadores, não houve uma única linha com sugestões de perguntas, cobranças ou acusações específicas a serem feitas ao ministro Gilmar Mendes na entrevista. O que só reforça a sensação de que esses telespectadores remetentes, em especial, não pareciam muito interessados no conteúdo da entrevista. Parece brincadeira, mas essas são as palavras de um ombudsman -- um sujeito que é pago para te representar, leitor.
Tendo acompanhado a reação na internet, fica difícil acreditar que nem um único email contivesse sugestões de perguntas a serem feitas a Gilmar Dantas Mendes. No espírito, então, de colaborar com o ombudsman da TV Cultura, enviei-lhe o seguinte email:
Prezado Jornalista Ernesto Rodrigues:
No texto em que Sr. comenta a indignação que tomou conta dos telespectadores da TV Cultura ante a escalação da bancada que entrevistará Gilmar Mendes nesta segunda-feira no Roda Viva, o Sr. afirma que nem um único email continha sugestões de perguntas a serem feitas ao entrevistado. Confesso que não entendi a frase acerca dos emails conterem 10380 palavras, talvez por deficiência minha na decifração de anacolutos. Confio que este email não repetirá o cabalístico número.
No espírito de corrigir o que certamente terá sido uma indesculpável desatenção dos missivistas, incluo aqui 25 perguntas que eu – e, tenho certeza, muita gente mais – gostaria que fossem feitas ao Presidente Gilmar Mendes.
1.O sr. sabe algo sobre o assassinato de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes, por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso?
2.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando o sr. era advogado-geral da União?
3.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2004, quando o sr. já era presidente ministro do Supremo Tribunal Federal?
4.Quantas vezes o sr. acompanhou ministros de Fernando Henrique Cardoso a Diamantino, para inauguração de obras?
5.O sr. tem relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel? Qual a natureza dessa relação?
6.Quantos contratos sem licitação recebeu o Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o sr. é acionista, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso?
7.O sr. considera ética a sanção, em primeiro de abril de 2002, de lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro pago em tributos pela Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, da qual o sr. é um dos donos, em descontos para os alunos?
8.O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?
9.O sr. tem algo a dizer acerca da afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria “facilidades”?
10.O segundo habeas corpus que o sr. concedeu a Daniel Dantas foi posterior à apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal. O sr. não considera uma ação continuada de flagrante de suborno uma obstrução de justiça que requer prisão preventiva?
11.Sendo negativa a resposta, para que serve o artigo 312 do Código de Processo Penal segundo a opinião do sr.?
12.Por que o sr. se empenhou no afastamento do Dr. Paulo Lacerda da ABIN?
13.Por que o sr. acusou a ABIN de grampeá-lo e até hoje não apresentou uma única prova? A presunção de inocência só vale em certos casos?
14.Qual a resposta do sr. à objeção de que o seu tratamento do caso Dantas contraria claramente a súmula 691 do próprio STF?
15.O sr. conhece alguma democracia no mundo em que a Suprema Corte legisle sobre o uso de algemas?
16.O sr. conhece alguma Suprema Corte do planeta que haja concedido à mesma pessoa dois habeas corpus em menos de 48 horas?
17.Por que o sr. disse que o deputado Raul Jungmann foi acusado “escandalosamente” antes de que qualquer documentação fosse apresentada?
18.O sr. afirmou que iria chamar Lula “às falas”. O sr. acredita que essa é uma forma adequada de se dirigir ao Presidente da República? O sr. conhece alguma democracia onde o Presidente da Suprema Corte chame o Presidente da República “às falas”?
19.O sr. tem alguma idéia de por que a Desembargadora Suzana Camargo, depois de fazer uma acusação gravíssima – e sem provas – ao Juiz Fausto de Sanctis, pediu que a "esquecessem"?
20.É verdade que o sr., quando era Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais?
21.Quais são as suas relações com o site Consultor Jurídico? O sr. tem ciência das relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT?
22.É correta a informação publicada pela Revista Época no dia 22/04/2002, na página 40, de que a chefia da então Advocacia Geral da União, ou seja, o sr., pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o sr. mesmo é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos? O sr. considera isso ético?
23.O sr. mantém a afirmação de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio”?
24.Por que o sr. se opôs à investigação das contas de Paulo Maluf no exterior?
25.Já apareceu alguma prova do grampo que o sr. e o Senador Demóstenes denunciaram? Não há nenhum áudio, nada?
Se pelo menos duas ou três dessas perguntas forem feitas ao entrevistado nesta segunda-feira, caro jornalista, eu me juntarei a V. Sra. na avaliação de que a revolta que se viu na internet não é representativa do pensamento da maioria dos telespectadores do Roda Viva.
Atenciosamente, me despeço, desejando boa sorte à sua credibilidade,
PS 2: O Palestino foi escandalosamente roubado, e mesmo assim arrancou um heróico 1 x 1 na primeira partida da decisão do Clausura chileno contra o Colo-Colo, o time chapa-branca de Pinochet. Recuerdo / cuando Pinocho / te compró un estadio entero / con la plata que a mi pueblo le robó é um conhecido cântico chileno.
Ladainhas da mídia: A suposta decepção da esquerda com Obama
Os memes da mídia se repetem com tediosa previsibilidade. Enquanto no Brasil as Folhas e Globos tentam desesperadamente – e cada vez com menos sucesso -- fabricar algo que atinja Lula, nos EUA o meme da vez na grande mídia é a “decepção” da esquerda com os nomes escolhidos por Obama para compor seu ministério. É impossível ligar a televisão ou abrir um jornal sem topar com a ladainha de que a esquerda estaria decepcionada com um gabinete recheado de centristas. O curioso é que essa versão da realidade nunca chega pela boca de alguém realmente de esquerda. Na maioria das vezes, são os mesmos que, há dois meses, nos apresentavam Obama como um perigoso esquerdista. Não é sensacional?
Esmiucemos a história. Quem vem repercutindo o meme da “decepção” da esquerda com Obama? Wall Street Journal, National Review, Politico, Pat Buchanan: a fina flor da direita americana. Nas incontáveis histórias acerca da tal “decepção”, invariavelmente, nenhuma figura de esquerda é citada, a não ser algumas poucas vozes que já eram antagonistas do projeto de Obama desde o começo, como, por exemplo, a turma do Counterpunch.
Esses memes vão criando vida própria e, de tanto serem repetidos, começam a influir na realidade que a princípio apenas falsificavam. Um alto assessor de Obama, Steve Hildebrand, chegou a escrever um artigo para acalmar a esquerda. Ele não cita um único desses supostos críticos progressistas que estariam nervosos com o presidente eleito. A vagueza e a condescendência da acusação acabaram, aí sim, gerando um monte de críticas entre a esquerda.
No mundo real, quais são os fatos? 89% dos democratas apoiamos a transição e as escolhas feitas pelo presidente eleito. Não há a menor semelhança entre a organizada e metódica transição de Obama e o caos dos primeiros meses de Clinton. Quem se lembra de 1992 sabe disso. O Media Matters, um grupo de observação dos meios de comunicação de massa, compilou um extenso material e concluiu que a tal “decepção” da esquerda com Obama é uma pura invenção. Trata-se da mesma mídia que, durante meses, insistiu no “problema” de Obama com os trabalhadores brancos, com as mulheres e com os latinos, enquanto nós aqui no Biscoito, desde março, avisávamos que os níveis de apoio de Obama entre esses setores eram iguais ou maiores aos historicamente conseguidos pelos candidatos democratas. O resultado foi o que se viu: votação recorde, inclusive entre as mulheres.
Entre os que participamos da campanha desde o primeiro momento, ninguém tinha a ilusão de que Obama fosse um Miguel Rossetto gringo. Ao longo das primárias, ele repetiu insistentemente que aproveitaria talento de vários lados. Já em 2005, na época da confirmação do juiz conservador John Roberts no Senado, Obama adotou uma estratégia pragmática e deu-se ao trabalho de ir ao Daily Kos – o maior coletivo de esquerda da internet americana – para explicar sua posição. É esse tipo de atitude que alimenta minha admiração por Obama: a convicção de que pragmatismo, ponderação e bipartidarismo não são sinônimos de traição aos próprios valores. Obama é, acima de tudo, um centrista que entende que o centro não é estático. O centro do espectro político americano se moveu para a direita durante três décadas e, no último ano, ele vem no movimento oposto. “Regular Wall Street”, por exemplo, há alguns anos seria uma bandeira que identificaria seu defensor como alguém de esquerda. Hoje trata-se quase de um consenso no país.
Hillary Clinton é uma magnífica escolha para a Chancelaria. Depois de oito anos de desprezo pela ONU, o representante americano na Organização terá estatuto de ministro e a escolhida para o cargo é a notável Susan Rice. A opção por manter Robert Gates no Ministério de Defesa revela um presidente que tem confiança no seu taco. Ele aposta que o trânsito de Gates no Pentágono será importante para que se implemente a política que ele, Obama, estabeleceu como promessa de campanha. Não há nada que indique que ele não cumprirá essas promessas – por exemplo, a de uma saída do Iraque ao longo de 16 meses, mais ou menos, com os detalhes dependendo das condições reais no país.
Se essas promessas não forem cumpridas, eu serei o primeiro a criticar. Mas não vou sair desse time aos cinco minutos do primeiro tempo, muito menos antes do jogo começar. Os Babás e os João Fontes, que romperam com o governo Lula logo depois do apito inicial, estão hoje na lata de lixo da história, enquanto o sapo barbudo surfa nos seus 70% de aprovação.
PS 1: Fiquem à vontade se quiserem usar esta caixa para comentar também os últimos memes da mídia brasileira, especialmente o meme da “crise”.
PS 2: Enquanto isso, o Almirante descobre uma importante certidão de nascimento.
A Palgrave, prestigiosa editora acadêmica de Nova York, que nos últimos anos publicou verdadeiras obras-primas, além de volumes escritos por lideranças de destaque em suas disciplinas, já havia tido uma decaída publicando livros de blogueiros atleticanos. Mas neste ano de 2008, a editora cometeu um atentado ecológico que é de tema relacionado aos discutidos neste blog, razão pela qual eu rompo hoje o hábito de jamais publicar resenhas de livros acadêmicos aqui. O atentado se intitula White Negritude: Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity e a autora se chama Alexandra Isfahani-Hammond. Nunca a vi na vida e não lhe desejo mal.
Romper o costume de não resenhar livros acadêmicos (correndo o risco de prejudicar no blog a carreira de alguém) foi decisão difícil, mas ela se baseou num fato: pela primeira vez, eu li um livro de gringo sobre o Brasil – e olha que eu já li besteira escrita por gringo sobre o Brasil – em que eu genuinamente não sabia: 1) se a autora é completamente analfabeta em cultura brasileira e língua portuguesa ou 2) se a autora escreve de má fé. Juro sobre o manto alvi-negro que a dúvida é genuína.
O livro é sobre Gilberto Freyre, Jorge de Lima e Joaquim Nabuco. Ela ignora não só esses três, mas todos os outros que cita. Como diria Macedonio Fernández, faltou tanta coisa no livro que não cabia mais nada. Comecemos pela página 6, onde ela comenta um artigo de Hermano Vianna. O que está em inglês é dela, o que está em português é Vianna:
Vianna observes that it was not easy 'inventar esse orgulho de ser mestiço no Brasil' in face of eugenic theories to which 'o pensamento brasileiro corajosamente tentou dizer o oposto: que misturar diferenças é bom'. He adverts that this tradition should not be abandoned in favor of identity politics, attributing to Racial Democracy a quasi-messianic potential: 'uma experiência única de valorização da mestiçagem, que não foi levada ainda às suas últimas libertárias conseqüências'.
A autora atribui a Hermano a crença “quase-messiânica na democracia racial” por causa da frase acima sobre a mestiçagem, em que Hermano, justamente, afirma que a mestiçagem, que não é a democracia racial, evidentemente, não foi levada às suas conseqüências mais libertárias.
Por que ensaístas brasileiros como Hermano Vianna, Antonio Risério (e, desta vez, vou ser imodesto e me incluir, principiante, nesta lista) continuamos a escrever a palavra mestiçagem e os gringos que se dedicam a estudar raça no Brasil continuam traduzindo-a como racial democracy? É imbecilidade ou é má fé? Professora, a Sra. fingiu que Hermano escreveu “democracia racial” ao invés de “mestiçagem” ou a Sra. acha que as duas coisas são sinônimas? Não deu para entender.
Continuemos com o mais catastrófico livro gringo sobre o Brasil que este blogueiro leu na última década. A parte sobre Gilberto Freyre é pior. Para que vocês tenham uma idéia: a figura traduz “mestiço” como “white”. Sim, sem mais nem menos, a palavra “mestiço” passa a significar “branco”. E com base nessa tradução monstruosa, logo depois, a autora acusa Gilberto Freyre de “apagar” [erase] o mestiço da cultura brasileira! Freyre pode ser acusado até de ser flamenguista. Mas de excluir o mestiço?
Sigo citando para que ninguém ache que invento. Página 74, onde ela alude a Freyre falando do troca-troca entre o sinhozinho e o muleque: troca troca as a symbol for the transmission of identity reflects an instability Freyre compensates for by insisting upon the inability of socioeconomically identified 'African descendants' to imitate or absorb whiteness.
Eu desafio a professora a me mostrar uma linha de Gilberto Freyre, escrita nos anos 30, 40, 50, 60, 70 ou 80 em que Freyre afirme ou sugira que afro-descendentes são 'incapazes' (inability) de imitar ou absorver qualquer coisa da cultura branca, européia, euro-brasileira, senhorial, patriarcal, luso-colonizadora ou o que seja (assim como esta, claro, também deles absorveu). Sobre essa bobagem, fiquemos por aqui, porque é longo o festival de atrocidades que a autora nos proporciona.
Num ato de suprema má fé, o livro se propõe a falar de “raça” e “cultura e identidade brasileira” numa língua em que desapareceram os vocábulos mestiço, mulato, cafuzo, mameluco, índio, mulato claro, escuro, bombom e caboclo. Como uma espécie de carimbadora racial SS, a autora divide os brasileiros entre “brancos” e “negros” e começa a falar do poeta alagoano Jorge de Lima como um branco sufocando e apropriando-se da voz da Nega Fulô. É sujeito branco pra lá, voz branca pra cá. Mas Jorge de Lima não é branco assim sem mais nem menos.
“Pode ser” branco, vestindo terno, circulando com poder num determinado ambiente. Muito especialmente num estado mais negro, como a Bahia. Vestindo camisa rasgada, de chinelo, com essa cabeça de cearense e esse nariz afro-mestiço, ele pode, muito bem, deixar de ser branco rapidinho, especialmente em São Paulo ou Rio Grande do Sul, digamos.
A julgar pelo livro que escreveu, a professora é incapaz de entender o dito no parágrafo anterior.
Num gesto de imensa ignorância e arrogância, a autora vai distribuindo rótulos de “branco” e “negro” e interpretando textos brasileiros sem entender o mais básico dessas sutilezas: que definir Jorge de Lima como “um poeta branco” não é tão simples assim. Acusar sua poesia de ser feita para “apropriar-se” da voz da mulata para um projeto “eurocêntrico” parece-me, sinceramente, um delírio. É possível fazer uma leitura feminista e / ou racial do poema de Jorge de Lima. Mas o que fez autora é um panfleto que está mais próximo à infâmia.
A difamação continua num capítulo sobre Gilberto Freyre, em que autora toma a valiosíssima pesquisa da brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, sobre os albores da vida intelectual do pernambucano e, retalhando citações numa espécie de samba da loira doida, tenta desenterrar uma ou outra linha escrita na juventude de Freyre para justificar a idéia de que ele teria sido uma espécie de branco-supremacista, que alguma vez elogiou a Ku Klux Klan (pag. 125). Daí ela salta para as últimas décadas do Freyre vivo, salazarista e pró-militares, para dizer que era tudo uma coerência só, e que esse “intervalinho minúsculo pouco importante” de nomes Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso – obras que a autora nunca estuda em seu livro -- não muda muito o quadro, pois afinal nele Freyre apaga negros e mestiços e promove uma visão eurocêntrica. Imagine alguém recortando citações para “provar” isso sem jamais ler nada desses três livros. Agora imagine que a pessoa erra na tradução dos termos mais básicos. Agora imagine que a figura tem uma agenda altamente panfletária, de total desrespeito pelo texto que “estuda”. É isso.
A grande qualidade do livro de Alexandra Isfahani-Hammond é que ele nunca é monótono. Em cada página há uma hecatombe. Na 132 ela se refere a Freyre's camouflaged biologism para sugerir, sim, é isso mesmo, que Freyre era um biologista. Todas aquelas centenas de parágrafos de Freyre que você já leu, dizendo que não é a “raça” nem a “biologia”, mas a história, a bagagem cultural, as trocas, as relações sociais etc. que serão o objeto do estudo? Lembra-se deles, leitor? Pois é, depois de traduzir “mestiço” por “branco” e “mestiçagem” por “democracia racial”, a autora nos diz que todos aqueles parágrafos eram uma “camuflagem” em que Freyre escondia seu secreto biologismo.
Voltando a falar do troca-troca, a autora alude a Freyre's paradigm for the unilateral, seignorial incorporation of black identity – and, by extension, for the unilateral capacity for the white to perceive and represent the black. De novo: eu desafio a autora a me mostrar uma linha de Freyre onde ele diga que é o branco que tem, unilateralmente, a capacidade de perceber e representar o outro. A autora não lê português, nunca leu Freyre ou age de má fé?
O monstruoso ato de condescendência racial que é sua leitura de um artigo de Marilene Felinto merece uma observação à parte. A situação da autora vai piorando consideravelmente, claro, porque Marilene é uma morena mulata brasileira que rejeita o rótulo “escritora negra” com que um certo ensaísmo gringo quer apropriá-la. Na Folha de 19 de março de 1995, Felinto escreve um artigo basicamente de apoio à visão freyreana da mestiçagem. É um texto lúcido (que não posso linkar mas que copiarei na caixa de comentários), em que Felinto se refere à visão freyreana dos colonizadores portugueses que se multiplicaram em filhos mestiços numerosos.
E não é que a Profa. Isfahani-Hammond traduz “mestiço” como “branco” de novo e diz que Felinto substitui a criança mulata pelo penetrador branco como produto híbrido do contato europeu / africano (pag. 73)? Para piorar a situação, ela não se limita a desler o artigo de Marilene como desleu a obra de Freyre. Ignorando que o artigo da Folha é, ora bolas, só uma coluna de resumo, e que a obra de Freyre é uma obra – que a autora não parece ter lido --, ela sugere que no fundo Felinto compreendeu mais que Freyre, porque afinal Felinto, mesmo sendo “apologista” de Freyre, tem outro “background” étnico, ou seja, é negra.
Sobre as atrocidades cometidas contra Joaquim Nabuco nesse livro, deixo que se pronuncie Alex Castro, que conhece Nabuco melhor que eu. As infâmias sobre Freyre que eu deixei de mencionar aqui encheriam outro longo post.
Que fique claro que o problema não é “detonar” e criticar o Brasil. O papel de um acadêmico é fazer isso mesmo. Não importa de onde seja o seu passaporte, você tem direito de se dedicar ao estudo de qualquer coisa, e ter sobre ela uma visão tão crítica quanto lhe pareça apropriado. Mas não pode ser desqualificador, beirando o difamatório, sobre seu objeto de estudo, especialmente se demonstra ignorância de seus aspectos mais básicos.
Um convite aos paulistanos: O grande blogueiro, músico e nadador soteropolitano Ricardo Cury está lançando o seu livro, Para colorir, neste sábado. Sou velho fã do blog dele e recomendo o evento. Dia 29 de novembro, às 16h, na Livraria Pop, Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo.
Um convite aos cariocas: minha amiga, a jornalista e pesquisadora Carla Rodrigues, tem um artigo no livro organizado por Paulo Cesar Duque-Estrada, Espectros de Derrida, que será lançado no dia 3 de dezembro, quarta-feira, na livraria Argumento, no Leblon, a partir das 19h.
Parabéns ao Cury e à Carla e, quem puder, apareça.
Cardoso convidou e eu também gravei um trecho para o Mil Casmurros, um projeto em parceria com a Rede Globo.
O cartógrafo Thomas Lessman reúne numa só página sua vasta produção de mapas históricos. Aqui, o mapa-mundi de 800 DC, com o Emirado Ummayad ocupando uma enorme maioria do que hoje é a Espanha. Aqui, um outro mapa, do ano 1200, já com os reinos de Castilha e León, que se uniriam depois. Aqui, um belo livro sobre Al-Andalus, a região de controle islâmico na qual judeus, cristãos e muçulmanos viveram em (relativa) paz durante séculos.
Pedro Dória tem boas anotações sobre os ataques em Mumbai, na Índia. Em inglês, há uma cronologia do horror e uma série de links no Juan Cole, que lembra o recente ataque extremista hindu a cristãos no leste da Índia.
Nos EUA, Barbara Walters fez uma baita entrevista com Barack e Michelle:
Na medida em que Obama vai anunciando seu time, eu só consigo me lembrar do final de novembro/ dezembro de 1992, em que Bill Clinton iniciava aquela que seria uma das transições mais caóticas de todos os tempos: uma guerra de facções e interesses “plantava” notícias na mídia como estratégia de conquista de espaço; mulheres, negros, gays, latinos e todas as minorias imagináveis disputavam espaço “proporcional”; havia confusão de porta-vozes; a própria liderança, Bill, não anunciava o time compactamente porque ia usando as vagas para tentar administrar o caos. Um verdadeiro pesadelo para os progressistas, foi o fim de 92/começo de 93. O contraste com o que está sendo a transição de Obama é tão abismal que me excuso de fazê-lo.
Digby não se importa e Josh Marshall tem suas dúvidas. Eu, pelo contrário, achei Chanceler Hillary Clinton uma super escolha, epocal e inteligente (ao contrário do que teria sido escolhê-la para Vice). Hillary tem tudo para desfazer pelo menos parte da lambança dos oito anos de política externa de Bush.
Atualização: E sobre as eleições venezuelanas, quem matou a pau, de novo, foi Mauricio Santoro.
Sands, Philippe. Torture Team: Rumsfeld's memo and the betrayal of American values (Palgrave, 2008). Este é o livro que detalha como a institucionalização da tortura nos EUA sob Bush foi uma operação meticulosamente dirigida a partir do Ministério de Defesa de Donald Rumsfeld. Como uma espécie de cronista do mal absoluto, Philippe Sands reconstrói a trama dos memorandos, ordens executivas, substituições de pessoal. Vasculha cada reunião de gabinete em que Cheney / Rumsfeld se impuseram sobre Colin Powell. Documenta toda a programação da atrocidade nas mais altas esferas da administração americana, de novembro de 2001 (captura do detento 063 no Afeganistão) à saída de Rumsfeld, já nas ruínas da lambança, em dezembro de 2006. O recheio da história é o memorando escrito por Jim Haynes, advogado e conselheiro do Ministério de Defesa de Rumsfeld, propondo as novas “técnicas de interrogação.” Junto à assinatura de aprovação, o suplemento macabro, o mal na sua banalidade absoluta, a imagem que fornece a capa do livro de Sands: a anotação de Rumsfeld à mão, com a ordem, “defendo 8-10 horas por dia. Por que limitar o período em pé a 4 horas?”
É o argumento definitivo contra qualquer patacoada que se tente sugerir acerca do caráter supostamente fortuito ou ocasional da tortura em Guantánamo e no Iraque. Depois deste livro, não há como não reconhecer: a democracia mais antiga do mundo abriu o século desenhando um programa meticuloso e global de tortura, uma paulatina desmontagem de suas próprias regras militares e constituição, realizada por uma trituradora metódica que tinha seu eixo na Vice-Presidência e no Ministério da Defesa, Cheney e Rumsfeld. A prosa de Sands é factual, pouco adjetivada. O livro é abundamente documentado com notas. Li, confesso, só uns 80% das 250 páginas. Foi mais que suficiente para confirmar que, em muitas interpretações razoáveis dos direitos humanos e do direito internacional, Cheney e Rumsfeld seriam passíveis de aprisionamento por crimes de guerra em qualquer viagem que façam a território não-americano. Se esta é uma hipótese possível ou provável, é outra história. Mas a documentação reunida por Sands é inequívoca. Sands é advogado e esteve envolvido com o trâmite de casos de tortura como os de Pinochet e os dos detentos britânicos de Guantánamo.
Bugliosi, Vincent. The prosecution of George W. Bush for murder (Vanguard, 2008). Aqui está o caso jurídico, apresentado bonitinho, mentira por mentira, falsificação por falsificação. Bugliosi, segundo as pautas do direito internacional, explica o porquê da imputabilidade a George W. Bush tanto de crimes de assassinato como de crimes de guerra. A fabricação de mentiras com o objetivo deliberado de provocar a invasão do Iraque – primeiro o inexistente vínculo Sadam / Al Qaeda, depois as inexistentes armas de destruição em massa – está documentada o suficiente, argumenta Bugliosi, para que o caso de assassinato pelas mortes no Iraque seja cristalino. Em 17/09/2003, Bush reconhece ante advogados que não havia “nenhuma evidência” de que Saddam Hussein estivesse envolvido nos ataques de 11/09/01. Em incontáveis ocasiões depois de setembro de 2003, Bush continuaria a mentir à população americana e sugerir o oposto do que ele mesmo havia admitido em resposta aos advogados. Ao longo do livro, demonstra-se que não foram as “falhas de inteligência” ou “inteligência incompleta ou contraditória” que levaram à desastrada invasão do Iraque. Tratou-se de um plano que já estava na gaveta desde os primeiros anos da administração Bush e que seria implementado não importa qual mentira ele exigisse. Apesar de também bastante documentado, o livro de Bugliosi é escrito numa lingugem mais pop, que traz aquela indignação do senso comum ante a revelação de cada absurdo. Se você tem um amigo com interesse em política e que ainda não está convencido de que este foi o pior pesadelo da história presidencial americana, o livro de Bugliosi é um ótimo presente.
Suskind, Ron. The way of the world. A story of truth and hope in the age of extremism (HarperCollins, 2008). De longe, o mais bem escrito dos três. Combina um exame minucioso da degeneração dos serviços de inteligência americanos – manipulados pela patota que se apoderou da Casa Branca – com o acompanhamento de alguns personagens: um estudante afegão, de intercâmbio, que vai levando sua família anfitriã, no Kansas, a enfrentar-se com os limites do seu próprio progressismo; um jovem de ascendência paquistanesa, formado nas melhores universidades americanas, que passa a viver um pesadelo depois do 11 de setembro; uma advogada abnegada que enfrenta uma montanha de burocracia para tentar rever o caso de um homem injustamente encarcerado em Guantánamo. Suskind vai intercalando essas histórias num relato que se lê como um romance. Mas o livro que não deixa nada a dever aos outros dois na documentação da atrocidade.
Serão três livros fundamentais para o amargo veredito que história reserva para o governo Bush.
Para quem se lembra da época em que Aldir Blanc e João Bosco tiveram que substituir, por causa da censura, “o almirante negro” por “navegante negro” na letra de Mestre-Sala dos Mares, há algo de especial em se ver um presidente operário inaugurando uma estátua de João Cândido, o líder da Revolta das Chibatas, no Rio de Janeiro. João Cândido é daquelas idiossincrasias brasileiras: um negro rebelde, líder e revoltoso em 1910, que vinte anos depois se rende ao charme da Aliança Integralista Nacional, de Plínio Salgado. Em todo caso, um herói popular, especialmente do povo negro, pela memória gloriosa do que fez em 1910.
Foi lendo um belo texto da Cidinha que cheguei, este ano, à minha reflexão anual de todo 20 de novembro: a de que o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana. Isso coloca os movimentos negros numa posição particularmente chata, pois sua demanda é vista como ameaçadora de um mito nacional muito querido. Num contexto assim, os movimentos negros estão certos de martelar o fundamental, que é o sistêmico e onipresente abismo racial no Brasil, dos hotéis às agências de propaganda, do elevador à reunião de chefia à blitz policial à sala de aula.
Antonio Risério tem razão que a importação de um paradigma binário americano para se pensar a raça no Brasil pode ser daninha. Mas até aí tem razão. Deixa de tê-la cada vez que permite que sua voz ecoe em conjunto com a cruzada Kamel-Magnoli contra as cotas raciais. Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste. Por isso, um pensador como Risério, que escreveu um livro absurdamente bom, agora deve manter a nuance e encarar o desafio de seguir pensando fora dessa aliança mais fácil e confortável, com a versão Globo-Veja da mitologia da mulatez nacional.
Não há realidade da mulatez nem singularidade brasileira que contorne o fato de que minha amiga e aluna Renata foi barrada ao tentar visitar meu quarto de hotel, às 20:15, sob a desculpa de que a partir de tal hora não subia ninguém, menos de 24 horas depois de que seu (ex)marido, branco, também aluno e amigo meu, subisse sem problemas às 20:45.
Hotel Rondônia, região ali do Catete, no Rio, se alguém quer saber onde foi.
Isso no Brasil acontece todo dia. Acontece uma vez para cada ocasião em que um profeta anuncia a nossa incomparável singularidade de povo totalmente mestiço.
Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara. Que o Senado faça algum remendo numérico nas porcentagens ou não, o mais provável é que se reconheça que a maioria da sociedade brasileira resolveu encarar essa dívida dessa forma, pelo menos por algum tempo. O que é bom.
A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.
Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.
Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.
As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.
Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.
O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.
Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.
É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.
Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.
Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.
O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.
Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.
Cobertura ao vivo da noite histórica do Presidente Obama
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11:48: Até agora, Obama já levou Vermont, New Hampshire (que McCain tinha esperança de vencer), Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware, o Distrito de Colúmbia (da capital Washington), Maine e Illinois.
McCain já levou Kentucky, Carolina do Sul, Tennessee, Oklahoma.
Até agora, as grandes notícias são as vitórias de Obama na Pensilvânia e em New Hampshire. O resto era tudo esperado. Trata-se agora, basicamente, de confirmar Ohio ou Flórida e sair para o abraço.
12:00. Fecharam-se as urnas em toda a região central do país e em Nova York. Dentro de uma hora, acho que dá para anunciar o resultado com certeza.
12:03: Para quem está com a televisão ligada: a MSNBC está dando um banho na CNN. Pulem pra lá.
12:04: Faltam oito estados decisivos. McCain precisa vencer todos os oito.
12:08. Começaram a chegar os votos de Fairfax County e de Charlotesville, em Virgínia. A diferença, que andava em 10% a favor de McCain, já caiu para 3%. Tentei fazer uma regra de três aqui, para determinar se dava para anunciar vitória. Ainda não dá, mas está com cara boa.
12:17. Os números da Flórida são bons para Obama. A disputa está muito apertada, mas a julgar pela votação de Jacksonville -- que é área militar, de McCain --, dentro de uns 30 minutos dá para ter notícias de lá.
12:31. Alguns leitores me avisam que a MSNBC já declarou Ohio para Obama. Sem ter visto o anúncio deles, o Biscoito está pronto para prever: Obama vencerá Ohio. Por que? Obama lidera sem único voto de Cuyahoga County. Ou eu fiquei doido, ou fiz a regra de três errado, ou o mapinha do NYT está errado. Tirando isso, Ohio é Obama!
12:34. Chegou a hora. Você leu aqui primeiro: BARACK OBAMA É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Daqui pra frente, é só matemática. Comemorem, porque não tem volta.
12: 47: A coisa na Flórida também está bonita, meus caros. Miami-Dade é território democrata, eu sei. Mas em geral é 55 x 45. Obama está vencendo por lá com 60 x 40. Nas áreas militares, em que McCain esperava ter grande vantagem, a diferença é pequena.
12:55. Uma multidão gigantesca se reúne em Chicago, no meu querido Grant Park, onde até joguei futebol. Meus queridos leitores, eu estou muito, muito emocionado. Este blog já errou muito, mas nesta, modéstia às favas, nós acertamos do começo ao fim. No dia 28 de janeiro, o blog declarou seu apoio a Obama e iniciou a jornada.
01: 06. Pedro Doria me enche o saco porque McCain venceu na Louisiana. Olhe os votos de New Orleans, Pedro!
01:44. Obama lidera na Flórida com 80% dos votos apurados. Mas, como em Palm Beach, reduto obamista, somente 27% votos já foram contabilizados, o Biscoito está pronto para anunciar: Obama vencerá a Flórida!
01: 52. Uma revolução no voto popular acaba de ser confirmada: Barack Obama, um senador negro formado em Harvard, vencerá as eleições em Virgínia, estado do sul segregacionista. O Biscoito explicou o porquê há algumas semanas.
02: 00. Oito minutos depois do Biscoito, a CNN canta Virgínia para Obama. A última vez que Virgínia votou democrata, Castelo Branco era o presidente do Brasil.
03:00. A festa começou por aqui. Chega de blogar. Amanhã, mais detalhes desta noite inesquecível.
Um breve aviso aos navegantes: trabalharemos aqui hoje somente com os números oficiais da apuração. Não vou nem olhar números de pesquisa de boca de urna. Eles não são confiáveis nos Estados Unidos. Se você lê inglês, dê uma olhada nas dez razões pelas quais você deve ignorar pesquisas de boca de urna aqui nos EUA, do Nate Silver. Claro que você pode deixar comentários com links a pesquisas de boca de urna, mas esses números só me farão ficar mais nervoso do que já estou.
Aí vão alguns links que nos acompanharão madrugada adentro:
Cnn.com: Das grandes cadeias de mídia, é a melhor. A mais confiável, o site mais elegante, com mais recursos. Este ano, eles acrescentaram um quadrinho em que você escolhe as eleições para o Senado e Câmara que quer acompanhar. Eles personalizam a entrega dos números para você.
Talking Points Memo: Eles são, mes amis, tudo o que qualquer blog político gostaria de ser. Revolucionaram a brincadeira. Não têm nenhuma pretensão de "neutralidade" ou "isenção". Trata-se de um site democrata de notícias. Mas a credibilidade é tudo. Eles nem precisam dar fontes, porque o trabalho independente deles, muitas vezes, é a própria fonte. É claro que torcem por Obama, mas se você me apontar um erro factual numa matéria do TPM, eu visto a camisa do ex-Ipiranga aqui no blog.
Daily Kos: Aqui já é um pouco mais complicado. Não os uso como fonte de notícias, mas como termômetro da militância mais entusiasmada. É uma operação gigantesca, no entanto, e sempre vale a pena conferir.
Five Thirty-Eight: A grande novidade blogueira desta eleição. Nate Silver, também eleitor de Obama, revolucionou a tortura dos números. Dá para ficar horas por ali, mastigando estatísticas. O homem é um monstro.
Hullabaloo: A linda, maravilhosa Digby foi um oásis de sanidade nas duríssimas primárias democratas entre Obama e Hillary. Ela apoiava Hillary, mas só ganhou o meu respeito pela forma como conduziu o debate. Ao contrário do Talk Left e do Left Coaster, que nesta eleição viveram sua decadência definitiva.
Red State: Para ver o que anda pensando o lado de lá, evidentemente.
Em lusitana língua, claro, o Pedro Doria estará conosco ao longo da noite.
A Onda Verde e a substituição da política pela moral
Foi bonita, entusiasmada e criativa a campanha que se armou em torno de Fernando Gabeira para prefeito do Rio. Pelo papel que cumpriu a blogosfera e pelas novidades na sua composição, teria sido de se esperar um balanço mais detido da candidatura. Não aconteceu, talvez pelo excesso de proximidade emocional, talvez pela falta de instrumentos de quem poderia fazê-lo. Em todo caso, este blogueiro – que por falta de afinidade política nem passou perto de sentir que podia apoiar, mas que quiçá no fundo torcesse secretamente pela vitória de Gabeira – oferece aqui seus dois centavos de análise. A onda verde foi a mais recente articulação de um fenômeno (que pode ter encarnações “legais” e “bacanas”, como Gabeira) próprio da política brasileira dos últimos anos: a constituição de uma frente de classe média que quer reescrever a política com o vocabulário da moral.
Poucas vezes no Brasil se viu tanta insistência em reduzir a diferença política entre dois candidatos a uma diferença ética. A campanha de Gabeira praticamente não falou de outra coisa senão da superioridade moral de seu candidato. Assinalo isso não para negar que esta realmente exista – é evidente que é possível fazer contraposições éticas entre Gabeira e Paes --, mas para sublinhar que a campanha de Gabeira trabalhou o tempo todo com a convicção de que esta contraposição era suficiente, não só no terreno eleitoral mas também no político. Não percebeu quão extremamente classe média é esse valor, e na maioria das vezes se irritava ante a simples análise da longitude geográfica do seu candidato.
Esta desqualificação do outro lado não se limitava à figura de Paes, mas incluía também o seu eleitorado, frequentemente caracterizado como comprável e sujeito ao fisiologismo, por oposição à “metade” que supostamente seria “consciente” no Rio. Este estereótipo sofreu um duro golpe dos números no domingo, ao se revelarem em Copacabana taxas de abstenção que rondavam os 30%, em muito superiores às observadas na Zona Oeste. A “metade” “consciente” do eleitorado carioca brindou seu candidato com taxas recorde de abstenção, num fenômeno que este blog ainda gostaria de ver melhor analisado. Porque o número chave não é o “menos de um Maracanã lotado” que foi a diferença entre Paes e Gabeira. O número chave para a análise são os quase vinte Maracanãs que se abstiveram. Calculando-se proporcionalmente a abstenção no território verde (no eleitorado de Gabeira), seriam, na verdade, uns trinta Maracanãs.
Discordo de gente inteligente que minimizou ou racionalizou fenômenos como o encontrão de Gabeira com a vereadora Lucinha ou a desastrada declaração sobre a feijoada e o samba. Desculpe, mas se você não vê nesses episódios algo que revela uma visão de mundo, é melhor ajustar a lente. Gabeira não disse só “analfabeta política” para caracterizar uma pessoa, o que seria perfeitamente aceitável. Ele associou esse analfabetismo a uma visão “suburbana” da política. É verdade que o fez numa sucessão de orações subordinadas, mas o vínculo causal estava explícito: analfabeta porque suburbana, não adianta negar. Negá-lo é como negar má intenção no comercial de Marta contra Kassab – só é possível com viseira. Que o estopim tenha sido a proposta de um aterro sanitário em Paciência só acrescentava involuntária ironia ao fato.
Da mesma forma, a campanha de Gabeira não compreendeu bem o imenso faux-pas que foi a declaração de que certos sambistas iriam a um evento com Paes por causa da feijoada. Não se trata de discutir se Paes seria capaz de suborno ou se haverá gente que se submeta a isso. A resposta é afirmativa nos dois casos. No entanto, o X da questão não era esse, e sim o singelo fato de que não se insulta o samba e a feijoada assim. O objeto da injúria não era Paes, portanto não adianta retrucar com a cantilena da diferença moral entre os dois candidatos. Os objetos do insulto eram duas instituições supra-partidárias, simbólicas e, sim, sagradas para muita gente. Não se tratava ali de deslizes ou tropeços, mas de episódios reveladores -- que a coalizão verde, por ter refletido pouco sobre sua origem de classe, talvez tenha subestimado.
Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação. A mensagem ética, calculou-se, era suficiente. No domingo, enorme fração do eleitorado respondeu ficando em casa. Ou indo à praia. Ou viajando para a região dos Lagos. Ou indo à feijoada e ao samba porque, como se sabe, na Zona Sul também se faz feijoada e samba, e dos bons.
O problema com a redução da política à moral é a impossibilidade de realizá-la. Você pode se perguntar pelas relações entre esses dois termos, mas não conseguirá reduzir um ao outro. Pela milésima vez: isso não significa que não haja diferença ética entre Gabeira e Paes. É claro que há. Significa que no momento em que você decide responder todas as perguntas políticas com uma afirmação ética, você dinamita a própria ética. “Ser mais ético” é uma locução defectiva como o verbo “inovar”. Se você inova, há que dizê-lo o outro. Quando você é o candidato “da ética”, não pode fazer desse plus a sua única fonte de diferença política, sob o risco de abandonar a própria ética. Afinal de contas, se há algo que caracteriza o sujeito ético é a permanente suspeita de que não está sendo ético o suficiente.
Como dizemos por aqui, you can't have it both ways: se toda a sua diferença política se ancora na diferença moral, você não pode se recusar a aplicar a si mesmo o teste ético pelo qual o outro candidato não passaria – mesmo que o outro seja o candidato das milícias, do establishment da corrupção e do oportunismo. Ao contrário da política, a ética não é uma prática de trocas negociadas.
PS: Para uma avaliação da importância e também do limite da Onda Verde, considere-se os números claramente: dos 4,5 milhões de eleitores, quase 1 milhão se absteve. Dos 3,5 milhões, mais 4,8% votou nulo e 2% em branco. Dos restantes 3,3 milhões, Gabeira obteve 49%. Trata-se, portanto, de 36,5% do eleitorado, um número estupendo, mas bem mais próximo de “um terço do Rio” que de “metade do Rio”. É um número que merece ser comparado ao “piso / teto” de Marta Suplicy em SP, não por equivalência entre as duas pessoas, mas para se entender a política de alianças possível no Brasil hoje.
PS 2: Merece um super parabéns a iniciativa do amigo Pedro Doria em favor de seu candidato. Foi mais uma bela contribuição do seu blog à política. Que o amigo tenha cometido -- sem maldade, claro -- a injustiça de me atribuir "ojeriza irracional" ao Gabeira (numa tarde em que eu aterrizava em Georgetown, a convite de Bryan McCann, para palestrar analítica e elogiosamente sobre Gabeira!) não mudou em nada minha admiração pela dedicação do Pedro à candidatura em que acreditou e que ajudou a construir.
PS 3: Este blog completou 4 anos no dia 28 e o blogueiro completa 40 hoje. Sobre os poderes cabalísticos do 4, claro, Jorge Luis Borges escreveu um belo relato.
Este post será atualizado -- em intensidade bem menor que na eleição do primeiro turno -- com alguns comentários sobre a votação deste domingo. Confirmou-se em São Paulo a vitória de Kassab por larga margem, o que deixa um ponto de interrogação sobre o futuro de Marta Suplicy como candidata a cargos majoritários na cidade e no estado. No Rio, parece que a onda verde não foi suficiente para levar Gabeira à vitória. Com 93% das urnas apuradas, Paes tem uma pequena vantagem e deve levar.
O PT conquista pela primeira vez a prefeitura de Canoas, vence em Anápolis e amarga uma derrota que eu, pelo menos, não esperava -- em Juiz de Fora.
18: 55. O RS Urgente relata mais um abuso da Polícia Militar do Coronel Paulo Roberto Mendes, no Rio Grande do Sul: eleitores presos em Canoas e Porto Alegre por portar bandeiras.
18:58. Nenhuma surpresa em Contagem (MG), onde Marília Campos (PT) é reeleita. O poder econômico de Ademir Lucas (PSDB), que já teve seus bens temporariamente embargados pela justiça, não foi suficiente.
19:07. O número que mais me surpreende até agora é a abstenção na cidade do Rio de Janeiro. Numa eleição acirradíssima, 20% dos eleitores cariocas, ou quase 1 milhão de pessoas, não votaram.
19:11. Eduardo Paes é eleito prefeito do Rio de Janeiro. Se pelo menos 7% do enorme eleitorado que se absteve tivesse ido às urnas sufragar Gabeira, teria sido suficiente para a onda verde.
19:29. O poste está eleito em Belo Horizonte com 59% dos válidos. Dos males, o menor. Parte da midia tentará apresentar este resultado como uma vitória de Aécio. Esse efeito tem o reforço da eleição (relativamente surpreendente) do tucano Custódio Mattos em Juiz de Fora. Considerando-se as expectativas que tinham de levar no primeiro turno em Belo Horizonte, esse veredito de "vitória" de Aécio precisará ser ligeiramente massageado. Fernando Pimentel sai derrotado, sem dúvida: terá que encarar correligionários furiosos com ele.
19:47. Em Macapá Roberto Góes (PDT) derrota Camilo Capiberibe (PSB). Para coisas do Amapá, me valho sempre do que escreve a jornalista e blogueira Alcinéa Cavalcante.
20:04: Contagem, S.B.do Campo, Guarulhos, Mauá, Joinville, Canoas, Petrópolis e Anápolis elegeram prefeitos do PT no segundo turno. O PT sofreu viradas em Juiz de Fora e Santo André e perdeu em Salvador pela margem prevista pelas pesquisas, o que não deixa de ser digno de nota.
20:18. Pense o que você quiser pensar sobre as forças políticas paulistanas, petistas e tucanos concordarão que a campanha de Kassab foi superior à de Marta. Parabéns ao Jayme Serva.
20:33. No Rio de Janeiro e em São Paulo, independente de por quem você estivesse torcendo no segundo turno, é inegável que se produziu um fenômeno interessante no voto: a polarização de classe, fortemente marcada na tensão centro x periferia em SP e na cisão Zona Sul x Zonas Norte e Oeste no Rio. Há que se escrever com mais calma sobre estas duas eleições, mas continua me impressionando que, numa abstenção municipal de 19%, a de Copacabana tenha sido 28%.
20:45. Vitórias do PMDB: Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA); Porto Alegre (RS); Florianópolis (SC); Campos (RJ); Montes Claros (MG); Bauru (SP), Campina Grande (PB) (compilação do leitor Marcos D.). O PMDB é uma espécie de Partido Peronista (Justicialista) Brasileiro, com as ligeiras diferenças de que nunca foi líder de porra nenhuma, nunca conquistou direitos sociais ou trabalhistas reais para o povo, nunca foi majoritário nacionalmente no voto livre e, bem, nunca teve Perón e Eva. Apesar de tudo isso, nunca esteve realmente fora do poder. É a garganta elástica e a carcaça sem a qual fica difícil governar, em geral, no Brasil. Neste sentido, e só neste, o PMDB é um equivalente brasileiro do Partido Justicialista. Num Brasil que tivesse uma reforma política real e justa,