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quinta-feira, 10 de março 2011

Começo do governo Dilma, 2ª parte: Guia da Reforma Política

Já é um senso comum anódino dizer que o cidadão deveria fiscalizar seus representantes. Mas no caso da reforma política, há que se reiterar o chavão com renovado senso de urgência. Uma rápida observação da história recente da política brasileira e uma visão um pouquinho mais complexa da realidade--que não se limite a acreditar que a corrupção, por exemplo, é algo que trazemos no sangue ou nos genes-- são suficientes para concluir que a reforma é urgente. Basta alguma familiaridade com Brasília para saber que, ou ela se realiza agora, no primeiro ano do mandato dos deputados, ou a próxima chance será em 2015. Se a cidadania fracassar na tarefa de acompanhamento e fiscalização dos parlamentares, não adiantará filiar-se ao “Cansei” e ao “Não reeleja ninguém”, ou bradar aos quatro ventos “contra tudo o que está aí”. Prestam um tremendo desserviço à democracia, portanto, os supostamente radicais que afirmam que reforma política é “perfumaria” de “quem não tem o que fazer”. O espírito deste post é o oposto: informe-se sobre o processo e fiscalize o seu parlamentar. A hora é agora.

Estão instaladas as comissões do Senado (15 membros) e da Câmara (40 membros) encarregadas de discutir os vários itens que compõem a reforma. Segundo matéria da Carta Capital, serão onze os principais temas: sistemas eleitorais; financiamento eleitoral e partidário; suplência de senador; filiação partidária e domicílio eleitoral; coligação na eleição proporcional; voto facultativo; data da posse dos chefes do poder executivo; cláusula de desempenho; fidelidade partidária; reeleição e mandato; candidatura avulsa.

No espírito de contribuir com o debate, aí vão minhas opiniões sobre estes temas, em ordem crescente de complexidade. As observações serão acompanhadas de links a alguns dos melhores materiais que encontrei por aí sobre a reforma.

1. Data da posse dos chefes do poder executivo: o Brasil perde prestígio e protagonismo ao empossar seus prefeitos, governadores e presidente no dia 1º de janeiro. Com a exceção dos representantes dos países vizinhos, só pode vir quem se dispõe a passar o réveillon dentro de um avião ou em solo estrangeiro. É uma estultícia. Como a alteração da data não contraria os interesses corporativistas de parlamentar nenhum, não deve ser polêmica a aprovação de uma mudança.

2. Suplência de Senador: não creio que nossos ínclitos Senadores tenham condições políticas de manter o sistema atual, por mais que ele favoreça alguns caciques. Para quem não sabe, hoje, no Brasil, no caso de vacância de uma cadeira no Senado, assume um suplente eleito na mesma chapa e invariavelmente desconhecido dos eleitores. Na maioria dos casos, a suplência tem funcionado como o lugar dos financiadores. Você ajuda a bancar uma campanha e recebe, em troca, o lugar de suplente. Washington Wellington Salgado (PMDB-MG, aquele “do cabelo”), Senador suplente empossado no lugar de Hélio Costa, reconheceu isso com a sua tradicional sinceridade. Essa excrescência tem que acabar.

3. Fidelidade partidária: este blog defende que o fortalecimento da democracia passa pela construção de partidos mais representativos. Quer trocar de partido? Maravilha. Entregue o mandato e se candidate de novo, na eleição seguinte, pelo seu novo partido. Pela mesma razão, este blog é contra as candidaturas avulsas.

4. Voto facultativo: aqui começa a polêmica. Há significativo apoio no eleitorado à proposta de instalação do voto facultativo. Também não há muita dúvida de que, instituída a facultatividade do voto, aconteceria nas camadas mais pobres o afastamento mais acentuado das urnas. Eu, pessoalmente, entendo o voto como um direito-dever. Neste site em defesa do voto facultativo, você encontrará declarações de vários intelectuais brasileiros a favor do voto obrigatório. Eu estou com eles.

5. Cláusula de desempenho: É a obrigatoriedade de que um partido atinja uma determinada porcentagem dos votos para que tenha direito a assentos no parlamento, tempo de televisão e dinheiro do fundo partidário. Os seus defensores a apresentam como um antídoto contra os partidos de aluguel. A minha opinião é que há outras formas de desidratar as legendas de aluguel sem criar barreiras para que partidos de verdade, ainda que pequenos (como o PSOL), tenham o direito de participar do jogo. Lembremos que o maior partido brasileiro de hoje, o PT, quase foi vítima da draconiana cláusula de barreira da ditadura militar nas eleições de 1982.

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Líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (PT-SP)

6. Reeleição e mandato: meu problema com a reeleição não era o instituto em si, mas o fato de ele haver sido aprovado mudando as regras com o jogo em andamento, com o claríssimo propósito de favorecer o governante da época. Agora, curiosamente, muitos dos que apoiaram a manobra de então querem manobrar de novo, abolindo a reeleição e instaurando um mandato de cinco anos. Opinião pessoal: o Brasil é um país ainda bastante burocratizado. Boa parte das ações do Executivo passa por um calvário de estágios no Judiciário e no Legislativo. Quatro anos não é tanto tempo assim, e há uma ótima forma de se impedir a reeleição de alguém: que a oposição ganhe na bola, nas urnas. Três mandatos é demais, mas eu defendo a possibilidade de uma reeleição. Sou a favor da manutenção do sistema atual.

7. Coligações nas eleições proporcionais: é outra excrescência que tem que acabar. Nas eleições proporcionais brasileiras, combina-se o voto nominal, no candidato (permitindo-se também o voto em legenda), com um quociente eleitoral calculado não pelo partido, mas pela coligação. A porcentagem dos votos recebidos pela coligação determina o número de cadeiras daquela coligação no parlamento. É o pior de todos os mundos possíveis. Um Enéas, por exemplo, com seus milhões de votos, levou ao Congresso Nacional meia dúzia de parlamentares que haviam tido não mais que algumas centenas. Numa coligação como a que ocorreu em Minas Gerais no ano passado, você corre o risco de votar num Patrus Ananias e ajudar a eleger um Washington Salgado (pode-se argumentar que a culpa é do próprio PT, que escolheu coligar-se com o PMDB; é verdade, mas enquanto o sistema funcionar assim, os partidos agirão segundo os seus interesses). Cabe um alerta aos eleitores do PT: existe resolução do partido contra as coligações nas proporcionais. Fiscalize.

8. Financiamento: aqui, impõe-se outro alerta aos eleitores do PT: depois de exaustiva discussão, o partido tirou resolução pela defesa do financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais, com distribuição de recursos proporcional à representatividade nas urnas. É obrigação dos parlamentares do PT sustentar essa posição (sim, cada um é livre para ter sua opinião, mas uma vez que a maioria decidiu qual é a posição do partido, é tarefa de todos os representantes defendê-la; do contrário, que se decrete a abolição dos partidos). O financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais é bandeira difícil de se defender. Com o descrédito da política, ganha terreno o argumento de que “não há que se dar dinheiro público a esses políticos safados”. O que acontece, claro, é que a “safadeza dos políticos” não vem da jabuticaba nem do clima tropical, mas de um sistema que favorece a promiscuidade entre o financiador e o representante popular. Há que se argumentar que, a longo prazo, o financiamento privado custa muito mais caro aos cofres do país, ao estimular a corrupção e o caixa dois (é verdade que o financiamento público não resolve tudo, e crimes eleitorais continuarão acontecendo; mas ele inibe bem a coisa). Tome-se, como exemplo, um único caso: a lista dos parlamentares financiados por planos de saúde. A quem pertencerá o mandato desses representantes? Qual é a outra forma de coibir, por exemplo, o poder das empreiteiras ante o estado brasileiro? Pra não falar dos bicheiros, traficantes, milicianos e igrejas.


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9. Sistema eleitoral. Aqui, sem dúvida, é onde ocorrerá a maior briga de foice. Repasso abaixo algumas das propostas que estão na mesa:

Voto distrital: transforma a eleição legislativa de proporcional em majoritária. Pressupondo-se que o número de deputados permanecesse o mesmo, o país seria dividido em 513 distritos e em cada um deles seria eleito apenas o mais votado. O sistema é defendido, em geral, com o argumento de que os representantes ficariam mais “próximos” do eleitor. Este blog acredita que o argumento é uma balela. A “proximidade” do político com o cidadão dependerá da representatividade dos partidos e do funcionamento dos mecanismos próprios à democracia, não da extensão geográfica do universo eleitoral. Partidos como o PSOL ou o PcdoB, que não são majoritários em lugar nenhum, mas existentes em todos e importantes em vários, seriam bastante prejudicados. O voto distrital cria brutais distorções num princípio básico da democracia, que é a proporcionalidade. No Reino Unido, que utiliza o sistema distrital puro, o Partido Liberal Democrático obteve, em 2010, 23,1% dos votos e conquistou apenas 8,76% das cadeiras. Na eleição de 1974, incrivelmente, os liberais obtiveram 16,3% dos votos, mas só 2,2% das cadeiras. Um dos mecanismos de engessamento da democracia estadunidense num bipartidismo cada vez menos representativo é justamente o voto distrital, que dificulta o surgimento de uma terceira alternativa. Para piorar, o voto distrital favorece a prática conhecida como gerrymandering, o desenho de distritos geograficamente estapafúrdios, feitos para inflar, de forma artificial, a representação de um determinado grupo político. Numa democracia como a brasileira, seria um prato cheio para as oligarquias. Neste texto você encontra uma explicação mais detalhada dos problemas do sistema distrital.

Distritão: É a proposta que está transitando dentro do PMDB. As raposas, evidentemente, não vão se entregar sem luta. O distritão transforma a representação parlamentar em matéria puramente pessoal, individual. Se o estado de Minas Gerais tem direito a 53 cadeiras na Câmara, seriam eleitos os 53 candidatos mais votados, independente do partido. É claro que os partidos mais coesos e programáticos (ou seja, aqueles que são partidos de verdade) ficam prejudicados: seus votos se dividem entre candidatos que defendem o mesmo programa, que fica assim subrrepresentado no parlamento. É o projeto que mais favorece a personalização da política. Faço meus todos os argumentos de Fernando Abrucio: o distritão piora todos os vícios da política brasileira.

Voto proporcional em lista preordenada: é a proposta defendida por este blog. Cada partido teria direito a um número de assentos proporcional aos seus votos. No caso de um partido ter direito a 20 cadeiras, seriam eleitos os 20 primeiros de uma lista pré-determinada pelo próprio partido. O eleitor vota numa proposta partidária, num projeto político. Desfulaniza-se a eleição. Lembremos que o voto em lista é a única possibilidade de se estabelecer o financiamento público de campanhas eleitorais, já que não há hipótese de o Estado sair distribuindo dinheiro a indivíduos que se candidatem. Lembremos também que várias pesquisas já demonstraram que, no Brasil, uma parcela enorme do eleitorado não se lembra de qual foi o deputado ou vereador que recebeu o seu voto. O argumento comumente usado contra o voto em lista é de que ele favoreceria os manda-chuva de cada partido, que organizariam a lista a seu bel prazer. O contra-argumento é simples: junto com o voto em lista, pode se aprovar também a obrigatoriedade de prévias para a definição da ordem dos candidatos. Concedo que isso não cancelaria, por si só, o poder das burocracias partidárias (é ingenuidade achar que ele será completamente eliminado, em qualquer sistema), mas o voto em lista é o que mais politiza e estimula a participação na vida interna dos partidos. Usam o sistema de voto em lista Argentina, Espanha, Portugal, Israel, Bélgica, Holanda, Noruega e África do Sul, entre outros. Os países de sistema distrital misto, que combina o voto distrital-majoritário com o proporcional, também usam, para este último, a lista preordenada.

Este post ficará em destaque durante alguns dias. O blog deixa o convite a que você leia os textos linkados, com calma, e dê o seu pitaco.



  Escrito por Idelber às 09:33 | link para este post | Comentários (71)



segunda-feira, 28 de fevereiro 2011

Consenso no topo, divergência na base: Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff (1ª parte)

A perplexidade da direita e a indignação da esquerda é uma tradição dos começos de governo lulistas. É provável que muita gente não se lembre, mas quando Fernando Collor de Mello foi eleito presidente, ele prometeu um governo que deixaria “a direita indignada e a esquerda perplexa”. Como se sabe, a profecia fracassou, mas treze anos depois Lula a atualizaria com signo trocado: em 2003, a reforma da Previdência, a elevação do superávit primário de 3,75% para 4,25%, a manutenção das metas de inflação e do câmbio flutuante, assim como o privilégio à estabilidade macroeconômica deixariam a direita perplexa e a esquerda indignada. Em dezembro de 2003, atendendo o convite da saudosa revista argentina Punto de Vista, escrevi um balanço otimista do primeiro ano do governo Lula, a partir da noção de superação do populismo. Quem se lembra de quantas bordoadas o governo Lula levou pela esquerda naquele ano saberá como era difícil que um cabra de esquerda mantivesse aquela posição. No número seguinte da Punto de Vista, Norberto Ferrera, argentino radicado no Brasil e professor da Universidade Federal Fluminense, publicava uma resposta, em que falava de “vergonha alheia” pelo meu otimismo e aludia ao “péssimo político Gilberto Gil” e à “falta de efeitos práticos” do governo Lula. Deixo ao leitor a decisão sobre quem riu por último.

Relembro aquele episódio não para bater no peito e dizer que eu estava certo. Talvez eu estivesse certo mas era, com certeza, pelas razões erradas. Seis anos depois, já com a perspectiva de dois mandatos de Lula, André Singer escreveria aquela que ainda é a melhor análise do lulismo, mostrando como ele se apropria da bandeira da redução da desigualdade sem perturbação da ordem, o que seria a chave para a conquista da população de baixíssima renda, o subproletariado, que havia sido anti-Lula até um passado recente. Observando a votação das várias classes sociais nas eleições brasileiras desde 1989, Singer vê o ponto de inflexão em 2006, justamente quando setores da classe média abandonavam Lula, e os muito pobres, que em 1989 haviam seguido Collor por medo da desordem, abraçavam seu novo líder, favorecidos pelas políticas de valorização do salário mínimo, pelo Bolsa Família, e por programas como o Luz para Todos, mas movidos também pela empatia com o retirante nordestino que chegou à Presidência.

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O petismo pode ter representado uma superação do populismo, como eu dissera em 2003 (há um belo livro de Raul Pont, aliás, que recomendo a todos: Da crítica do populismo à construção do PT). Mas o lulismo, que foi quem efetivamente governou, é uma atualização do populismo, que combina o ganho econômico para os mais pobres, o sólido cuidado com os interesses do andar de cima, especialmente do capital financeiro, o papel do Estado na correção (moderada) das desigualdades, e o apreço pela ordem. É o que Cristóvão Feil resume num ótimo achado: lulismo de resultados. Dilma mantém tudo isso, mas o lulismo agora sobrevive sem um de seus pilares: a identificação dos mais pobres com seu nordestino retirante, nove-dedos e corintiano. Todos os assessores e colaboradores coincidem na avaliação de que Dilma é extremamente difícil de ser lida, mas alguns de seus movimentos iniciais têm a ver, acredito eu, com a sua percepção desse problema: como reinventar o lulismo sem Lula. Nós sequer temos uma tradição de presidentes concluindo mandatos e transmitindo o cargo a um(a) correligionário(a). Dilma tem a tarefa de suceder o maior mito político de nossa história moderna.

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O lulismo é uma coalizão heterogênea de classes e interesses. A afirmativa é até banal, de tão óbvia, mas é chave para entender estes primeiros 60 dias. Têm alguma representação na coalizão lulista o subproletariado e o capital financeiro; ruralistas e ambientalistas; o capital industrial e as centrais sindicais; oligarquias peemedebistas e setores trotskistas do PT. A administração dessa coalizão heterogênea, com Dilma, certamente terá um caráter diferente da que teve com Lula. A tecnocracia de esquerda, para usar a certeira expressão de Moysés Pinto Neto, não é simplesmente um traço da personalidade da Presidenta, mas uma estratégia real, que recoloca os problemas políticos—onde a expressão dos antagonismos de classe é inevitável—como questões técnicas e gerenciais. Ao contrário dos antagonismos políticos, as escolhas gerenciais colocam aos sujeitos a tarefa de escolher “a opção correta”. Quanto menos explícitos ficarem os antagonismos, mais traduzível fica a política na linguagem do gerenciamento.

As frentes amplas—como aquela formada em apoio a Dilma durante as eleições—são reconfortantes. Nos sentimos parte de um todo unitário. Há um inimigo comum. É uma ótima sensação: "somos todos companheiros!" Mas seria uma ingenuidade, na melhor das hipóteses, imaginar que essa unidade se manteria durante o governo. Daí o fato de que, seja qual for sua opinião sobre os primeiros 60 dias, qualquer tentativa de sufocar o debate com afirmativas sobre a necessidade de manter a “unidade” são daninhas e devem ser rechaçadas. Se, no topo, há um consenso—até a Revista Veja e Kátia Abreu reservam elogios para Dilma, sem que a esquerda do PT, por exemplo, sequer cogite romper com o governo—, na base há uma proliferação de avaliações diferentes, da perplexidade à indignação, da justificativa automática de qualquer ação da Presidenta a julgamentos peremptórios sobre a hegemonia neoliberal no governo. É normal que assim seja. Estamos todos tateando.

No caso da internet e da blogosfera, foi o feminismo o primeiro a ser acusado de “desagregador”, já logo na época da posse. Houve gente que se dispôs a “investigar” quem estaria “por trás” da crítica ao masculinismo da esquerda. Houve gente que comparou a crítica feminista ao masculinismo progressista no Brasil de hoje ao colapso dos republicanos espanhóis na Guerra Civil em 1937. Houve gente que viu, por trás da crítica feminista, os dedos de um misterioso e onipotente ex-assessor da Soninha. Mal sabiam os acusadores de então que seriam depois, também eles, acusados de romper a “unidade”, seja ao questionar ações do MinC, ou criticar a política do salário mínimo, ou questionar a ida da Presidenta à Folha de São Paulo, ou defender essa mesma visita (neste caso, aliás, eu entendo os que se indignaram e entendo os que a justificaram; só não entendo aqueles que, dos dois lados, se surpreenderam). A estas alturas, portanto, já não tem sentido pensar em agregadores ou desagregadores, posto que está mais ou menos óbvio que existe uma pluralidade de avaliações acerca dos primeiros 60 dias de Dilma—o que é muito positivo.

Esta é, portanto, a primeira tese: a pluralidade de avaliações dos primeiros passos do governo Dilma deve ser incentivada. A retórica da “necessidade de manter a unidade da blogosfera” é enganosa e serve interesses escusos. A conversa deve ser ampliada para incluir camaradas que optaram pelo apoio a Marina Silva, e que agora com certeza terão algo a dizer, por exemplo, sobre a construção da Usina Belo Monte. Ela deve incluir também forças da oposição de esquerda, como, digamos, Ivan Valente e Milton Temer, cuja exclusão do debate sobre os rumos do governo não interessa em absoluto ao petismo. Eles serão aliados, por exemplo, no debate sobre a reforma política. Está mais ou menos claro que haverá uma reconfiguração das forças políticas brasileiras nos próximos anos: quem, em sã consciência, um ano atrás, imaginaria Kassab no PSB ou Kátia Abreu na base dilmista?

A hegemonia sobre os rumos do governo não está dada de antemão. Vale a pena brigar por ela. Volto ao assunto num próximo post, tratando da reforma política e das comunicações.



  Escrito por Idelber às 01:26 | link para este post | Comentários (65)



quarta-feira, 23 de fevereiro 2011

Na Revista Fórum: A escalada da ultradireita nos EUA

Se lições podem ser tiradas dos dois primeiros anos da presidência de Barack Obama, uma das principais terá que ser esta: é impossível dialogar com um surto psicótico coletivo. Obama tem pago um altíssimo preço político por se eleger e governar baseado num projeto de diálogo com esse surto, estratégia que se ancora na tentativa de um debate racional e razoável (ao modo sonhado pela “ética comunicativa”, do pensador liberal Jürgen Habermas) com um interlocutor imaginário, sujeito político que não quer ser interlocutor, mas inimigo encarregado de aniquilar, eliminar, destruir o adversário. Os 8 anos de governo de extrema-direita, a manipulação midiática dos ataques de 11 de setembro de 2001, a violenta crise econômica que explodiu em 2008 e a irrupção, mais forte que nunca, do racismo e da xenofobia contribuíram para a configuração de um quadro político verdadeiramente assustador nos Estados Unidos de hoje, do qual não há saída imediata à vista. O ataque terrorista no Arizona, em que seis pessoas foram assassinadas e a deputada democrata Gabrielle Giffords saiu ferida na cabeça, foi o mais recente capítulo dessa macabra narrativa.

Até mesmo o leitor da Fórum deve ter se surpreendido com meu uso do termo “terrorista” na frase anterior. Apesar de consistente com o sentido que a palavra classicamente teve —matança indiscriminada, por motivos políticos, de uma população civil desarmada, com o objetivo de disseminar o medo —, o uso do termo “terrorista”, para designar eventos como os de Tucson, tenderá a provocar estupefação hoje em dia, por um motivo dos mais simples e prosaicos. A manipulação a que foi submetido esse termo nos EUA ao longo da última década nos levou a uma situação em que a violência de extrema-direita, tão estadunidense como a torta de maçã, já não cabe sob a alcunha do terrorismo. Esta se encontra definitivamente reservada para o “outro” — em especial para o outro árabe.

Enquanto isso, uma retórica delirante se fortalece em setores dos meios de comunicação de massas e no Partido Republicano. A partir das assembleias populares (town hall meetings), propostas por Obama para a discussão da reforma do sistema de Saúde, em 2009, a retórica de extrema-direita encontrou terreno fértil. A caracterização de Obama como nazista, bolchevique e islamista — para ficarmos em três definições obviamente contraditórias entre si — já é parte da paisagem, do discurso político aceito como normal e razoável nos EUA. Os questionamentos ao patriotismo de Obama, nos quais um visível racismo não deixa de cumprir seu papel, também são matéria cotidiana na TV e no rádio dos EUA. O discurso do ódio ao diferente, tão típico dos impérios em declínio, pavimenta o caminho para tragédias como a de Tucson.


Continue lendo "A escalada da ultradireita nos EUA" no site da Revista Fórum e volte aqui caso queira papear sobre o texto.



  Escrito por Idelber às 14:26 | link para este post | Comentários (24)



sexta-feira, 18 de fevereiro 2011

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).


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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (323)



segunda-feira, 14 de fevereiro 2011

Mensagem aos cristãos que leem o blog

Outro dia, conversando com a Juliana Dacoregio no Twitter, me lembrei de que devo um pedido de desculpas.

Em 13 de julho de 2009, este blog publicou um post intitulado Ateus, saiam do armário!, que gerou bastante debate aqui e alhures. Reproduzido pelo Ateus do Brasil e por vários outros portais e blogs, o post também foi aquele que, até hoje, me gerou mais correspondência pessoal de leitores. Em geral, não incentivo o envio de emails sobre posts—prefiro que os leitores debatam na caixa de comentários, onde a conversa é pública e eu não tenho que me preocupar em responder a todo momento. Mas, neste caso, por motivos óbvios, muita gente, de vários rincões do Brasil, “saiu do armário” por email, me contando histórias sobre os efeitos da repressão religiosa. Algumas delas são terroríficas.

Enfim, é um post do qual eu me orgulho porque sei que cumpriu o papel ao qual ele se destinava. Infelizmente, errei a mão num trecho e, por esse trecho, quero me desculpar com os leitores cristãos do blog.

Há um momento do texto em que me escapou o sintagma burrice digna de um cristão. A expressão aparece aqui rasurada porque a considero ofensiva e desnecessária. Ela é, inclusive, contraditória com a lógica do post, resumida na frase tem que respeitar religião porra nenhuma, que eu mantenho integralmente. A lógica é simples e está explicada no próprio texto: ideias não foram feitas para serem “respeitadas”, mas discutidas. Ideias religiosas estão incluídas aí e não devem gozar de nenhum privilégio. Pessoas devem ser respeitadas.

Exatamente porque pessoas merecem respeito, a expressão burrice digna de um cristão não cabia. Minhas desculpas a todos os cristãos que leem o blog. O termo não voltará a aparecer aqui. A primeira pessoa a me chamar a atenção para isso, na própria caixa de comentários, foi o David Butter. Quero agradecer a ele pela discordância honesta e sempre ponderada. Obrigado, seu flamenguista.

Há várias outras coisas que eu gostaria de dizer sobre a relação entre religião e política, mas aprendi que, quando se pede desculpas, é melhor não ficar falando demais (conhecem aqueles casais em que um diz eu te peço desculpas, mas você também fez isso, aquilo, aquilo outro etc., de tal maneira que, quando o sujeito termina, as desculpas já se perderam?). Em breve, devo entrar numa conversa rica sobre Richard Dawkins que rolou na blogosfera, com contribuições de Doni, Biajoni, André Egg, Daniel Lopes, Guto, Leonardo de Souza e Gato Précambriano. Este não é o momento. As relações entre religião e política serão tema de muitas conversas por aqui ainda. Mas antes, era necessário este esclarecimento.

Portanto: cristãos, desculpem o uso do termo. Ele não voltará a ocorrer aqui.



  Escrito por Idelber às 11:12 | link para este post | Comentários (61)



sábado, 12 de fevereiro 2011

Resposta do Projeto Regularização Fundiária Sustentável na Vila Acaba Mundo, do Programa Pólos de Cidadania da UFMG, a uma matéria de O Tempo

O DESPEJO DE POBRES NÃO É SOLUÇÃO PARA A CRISE IMOBILIÁRIA

Por Ananda Martins, Cíntia Melo, Elyza Cyrillo, João Carneiro, Lorena Figueiredo, Luiz Eduardo Chauvet, Marcos Mesquita (*)

O Jornal “O Tempo” publicou no dia 26 de janeiro do presente ano matéria intitulada “Belo Horizonte tem apenas 20 mil lotes vazios para obras”, tendo como objetivo apontar a escassez de áreas vagas para empreendimentos imobiliários na cidade de Belo Horizonte. Uma das causas apontadas pela matéria é a invasão de determinadas áreas por populações de baixa renda, problema exemplificado com a situação da Vila Acaba Mundo, pequena favela localizada no bairro Sion, uma das áreas mais nobres da cidade, e, por isso, muito visada pelo mercado imobiliário.

Contudo, a matéria desconsiderou que a ocupação citada possui respaldo na ordem jurídico-urbanística brasileira, que tem como figura central a função social da propriedade, constitucionalmente prevista.

A Vila Acaba Mundo encontra-se consolidada há mais de seis décadas, destinada para a moradia de mais de 400 famílias em vulnerabilidade social, sendo este direito, inclusive, um dos direitos sociais elencados no rol do artigo 6º da nossa Constituição Federal e protegido internacionalmente por tratados dos quais o Brasil é signatário.

Muito pesar causa a constatação de que o ponto de vista do autor privilegia os interesses econômicos e financeiros do mercado imobiliário em franca expansão na capital mineira, a despeito de direitos fundamentais exercidos por pessoas economicamente desprivilegiadas, cujas histórias misturam-se com o crescimento dos bairros do entorno.

Cumpre ressaltar que uma ocupação somente se consolida em áreas nas quais a propriedade não cumpra sua função social, como é o caso citado, em que a suposta invasão, somente agora, décadas depois de se estabelecer, recebe pressões para que sucumba a outros interesses que não o de moradia popular.

A ocupação foi iniciada em meados de 1950, com a instalação da Mineradora Lagoa Seca, que implementou, desde então, um projeto de moradia para os trabalhadores provenientes do interior. A partir da década de setenta, o número de moradores no local tornou-se mais significativo. Ao longo deste tempo foi-se desenvolvendo uma história de vida, não somente de cada morador, mas, principalmente, da comunidade, criando uma identidade coletiva catalisada pelo local de vivência.

Apesar de o senso comum indicar que o único tipo de capital existente ser aquele relacionado aos valores monetários, muito importante ressaltar que este não pode se sobrepor a outro tipo de capital, o capital social, conceituado pela professora Miracy Gustin. Em linhas gerais, o capital social se constitui a partir das relações entre os indivíduos, possibilitadas pelo pertencimento a uma mesma comunidade e, neste sentido, a manutenção e construção coletiva do espaço onde se vive é fundamental para sua perpetuação.

Em 1988, nossa sociedade participou de um movimento muito importante, findo o qual tivemos promulgada uma das mais avançadas cartas de direitos do planeta, na qual valores como a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e princípios como o da dignidade da pessoa humana se tornaram centrais para a sociedade que queremos construir. Todos nós fazemos parte deste pacto, inclusive o mercado imobiliário, que não pode se furtar a honrar o compromisso democrático estabelecido.

(*) Integrantes do Projeto Regularização Fundiária Sustentável na Vila Acaba Mundo, do Programa Pólos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).



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quinta-feira, 10 de fevereiro 2011

31º aniversário do PT: algumas memórias

Ocorreu num domingo, no dia 10 de fevereiro de 1980, a partir das 11:30 da manhã, no Colégio Sion, em São Paulo, a reunião de fundação do Partido dos Trabalhadores. Havia cerca de 700 pessoas no auditório. Presidia a mesa Jacó Bittar, do Sindicato dos Petroleiros de Paulínia. O secretário era Henrique Santillo, médico formado pela UFMG e Senador por Goiás (sim, havia um Senador da República na fundação do PT). Também presente na mesa estava um certo Luiz Inácio, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, já na época um líder sindical internacionalmente famoso pela greve que ajudou a solapar as bases da ditadura. De acordo com vários presentes, o momento mais emocionante foi a chamada dos seis primeiros signatários do manifesto. Eles foram: Mário Pedrosa, crítico de arte; Lélia Abramo, então presidenta licenciada do Sindicato dos Artistas de São Paulo; Manoel da Conceição, líder camponês; Sérgio Buarque de Hollanda, um dos maiores pensadores da nossa história como nação; Moacir Gadoti, que assinou em nome de Paulo Freire; e o mítico líder popular Apolônio de Carvalho, combatente na Guerra Civil Espanhola.

Mas o objetivo deste post não é contar uma história que já está documentadíssima nos ricos arquivos da Fundação Perseu Abramo. Ao contrário, eu gostaria de fazer algo mais parecido ao que Bia, filha de Perseu, fez no ano passado: narrar um pouco da minha relação com esse projeto.

Tenho alguma lembrança do histórico discurso de Lula na 1ª Convenção Nacional, em agosto de 1981, no qual ele disse: nosso partido é um menino que nasceu contra a descrença, a desesperança e o medo. Mas minha primeira memória de participação real no PT foi a campanha de Sandra Starling para o governo de Minas em 1982. Ali eu já havia me convertido no que se poderia chamar um militante. Nunca mais deixei de me associar a essa palavra, e em definitivo não me importo que me associem a ela, apesar de que meus períodos de militância são intermitentes e de que militei no PT mesmo, em tempo integral, no Brasil, “somente” oito anos. As decepções foram muitas, as derrotas numerosas. Quem é torcedor de futebol e já disse, alguma vez, enraivecido, nunca mais saio de casa para torcer para esse time saberá do que falo. Olhando para trás e, acima de tudo, olhando para o Brasil de hoje, não consigo escapar da conclusão de que valeu a pena.

Nossa relação com o restante da esquerda era dificílima. O PCB, o PcdoB e o MR-8 nos odiavam mortalmente. Tudo no PT parecia diferente da esquerda tradicional: havia sindicalistas e havia desbundados fumando maconha; havia parlamentares do MDB e havia feministas; havia militantes oriundos da POLOP, da AP e de outros grupos de resistência à ditadura e havia militantes do movimento negro; havia gays e lésbicas saindo do armário, ansiosos para colocar suas pautas na mesa, coexistindo com ativistas católicos das pastorais da terra; havia uma coleção de grupos trotskistas. Aquilo era um saco de gatos. Não tinha a menor chance de dar certo, nos diziam.

A grande acusação recebida pelo PT ao longo da década de 80 foi a de dividir o campo das forças democráticas. Tanto o PCB como o PCdoB haviam optado por alianças preferenciais com o PMDB, coerentes com a teoria etapista que sustentavam (o PcdoB só abandonaria essa estratégia no final da década de 80). O PT era a força política que atrapalhava o consenso, a voz dissonante que desafinava o coro dos contentes da transição. Essa acusação foi repetida até o momento em que ela deixou de fazer sentido, dado o fato de que o PT havia se tornado uma agremiação muito maior que todas as outras forças de esquerda reunidas.


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Elsa Monerat, militante do PCB a partir de 1945 e do PCdoB a partir de 1956. No comício de Lula-Bisol no Rio, em 1989. Daqui.



Um dos auges desses ataques pode ser visto num vídeo que desenterrei para a ocasião: o último programa eleitoral do candidato do PMDB à prefeitura de São Paulo em 1985, Fernando Henrique Cardoso. Para quem não se lembra, as eleições para prefeito na época eram em turno único. Concorriam em SP Jânio Quadros, pelo PTB, FHC pelo PMDB, e Eduardo Suplicy, pelo PT. As pesquisas apontavam a vitória de FHC, que dedicou boa parte de sua campanha a atacar o PT como divisionista. Como se sabe, Suplicy chegou à imponente marca de 20% dos votos, e FHC ficou atrás de Jânio (39 x 35). Aqui, se vê a comemoração antecipada de FHC no último dia de campanha na televisão. O programa, repleto de ataques ao PT, já contava com a indefectível Regina Duarte, comparando a emergência do partido com a divisão dos democratas alemães que permitiu a ascensão de Hitler (a comparação com a ascensão dos franquistas na Espanha viria alguns anos depois):




Aquela época deixou um legado que sobrevive até hoje para muitos petistas: a desconfiança ante aqueles que querem sufocar o debate em nome da necessidade de consenso e de unidade. A lição continua atual, num momento em que jornalistas que até anteontem serviam aos Marinho ou aos Frias acusam, por exemplo, as feministas de serem “a esquerda de que a direita gosta”. Foi exatamente essa a acusação contra a qual o PT surgiu. Derrubá-la foi sua razão de ser.

Talvez a memória que mais me provoca risadas seja do comício de encerramento da campanha de Lula no segundo turno das eleições de 1989, na Praça da Estação, em Belo Horizonte. Brizola era o favorito para ficar com a segunda vaga que definiria o adversário do líder Collor, mas uma arrancada na reta final, impulsionada pela militância, levou Lula a ultrapassá-lo. Três lembranças daquele comício ficaram comigo: a chuva torrencial que caía sobre BH (mas que não fez ninguém arredar pé da praça), o discurso interminável de Fernando Gabeira e o hilário momento em que alguém colocou para tocar a “Internacional Comunista”. Lula vinha fazendo um esforço para se aproximar da classe média, ampliar sua base, espantar, enfim, os medos que aquela terrorífica barba não aparada provocava em alguns segmentos da sociedade. A última coisa que queríamos, evidentemente, era a “Internacional Comunista” tocando num comício.


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Comício da campanha de Lula-Bisol, no Rio, em 1989. Daqui.

Situado atrás do palanque, eu me lembro de ficar literalmente gelado ao som dos primeiros acordes da Internacional. Quando ecoa o de pé, ó vítimas da fome, desencadeia-se uma correria repleta de trombadas entre os membros da direção da campanha. Um dos líderes da campanha em Minas (talvez tenha sido Luiz Dulci, mas disso eu não me lembro) desembesta na direção do aparelho de som gritando tira essa porra, tira essa porra, põe o Lula-lá, põe o Lula-lá. Por sorte, alguém trocou a Internacional pelo jingle da campanha e o comício prosseguiu sem grandes percalços.

De lá para cá, como se sabe, Lula perdeu mais duas, ganhou mais duas, e elegeu sua sucessora. Foram muitas as conquistas, numerosos os erros, graves algumas traições ao longo da história. Mas, no todo, ela não envergonha a memória de Apolônio de Carvalho e Elza Monerat.



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quarta-feira, 09 de fevereiro 2011

Notas de um veranista: considerações tempestivas sobre a catástrofe ecológica da Serra Fluminense, por Carlos Eduardo Rebello de Mendonça

O Prof. Carlos Eduardo Rebello de Mendonça é o autor de Trotski: Diante do Socialismo Real.


“Feuerbach não vê que o mundo sensível ao seu redor não é algo que exista desde a eternidade, que permaneça sempre o mesmo, mas o produto da indústria e do estado da sociedade; de fato, um produto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma sucessão de gerações”
– Marx & Engels, A Ideologia Alemã.

No episódio da catástrofe de janeiro de 2011 na Serra Fluminense, os que esperavam que a mídia burguesa brasileira e as autoridades resolvessem apresentar como culpado o lumpesinato que insistiu em morar em barracos desmatando encostas, a ser disciplinado pelas autoridades públicas, enganaram-se: o que vimos foi principalmente a admissão quase que imediata dos erros do passado em matéria de políticas de habitação e de ocupação do espaço urbano, e promessas de reformas radicais, acompanhadas de apelos para que não fossem procurados culpados: a questão era agora a de concentrar-se na ação para impedir catástrofes futuras.

Não apenas este discurso que propõe olhar apenas para o futuro não parece ter conseguido evitar a repetição de práticas públicas viciadas, como as decorrentes da dispensa de licitação em caso de calamidade pública, como também padece de defeitos de argumentação. O principal é que identificar a calamidade com o “passado” em nome do “futuro” é praticar aquilo que Pierre Bourdieu chamava de indignação retrospectiva: condenar um passado tido como acabado em nome do futuro é basicamente legitimar as práticas e a autoridade presentes – marcar pontos para nós contra os gestores passados. E o problema é que, para que possamos traçar uma linha tão inultrapassável entre passado e futuro, é preciso partirmos da idéia de que o problema a nossa frente é puramente uma questão técnica: a escolha de lugares , de materiais de construção, o assentamento de populações. Ora, a questão que temos a nossa frente não é técnica, mas principalmente social: uma questão não deste ou daquele episódio de escolhas tecnológicas infelizes, mas de todo um processo histórico iniciado no passado e continuado no presente. Como dirá Žižek: o raciocínio verdadeiramente ideológico não está na internalização dos valores, mas na redução de todas as questões ao meramente contingente , ao acaso – o que nos dispensa de enfrentar a lógica real do sistema.

Não sendo eu especialista na área, o que pretendo aqui é apenas fazer um esboço quanto a certas questões que me parecem dignas de análise posterior. Isso – e mais cinqüenta anos de contato quotidiano com os problemas da Serra Fluminense, através da casa de vilegiatura que o meu avô materno resolveu, no início dos anos 1960 construir em Itaipava – predispõem-me a escrever estas notas.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a Serra do Rio de Janeiro, na década de 1960, estava longe de ser o paraíso ecológico que os articulistas da mídia consideram haver sido violado na sua pureza prístina pelos favelados das décadas subseqüentes: muito pelo contrário, lembro-me – uma lembrança apoiada nas fotografias disponíveis – que o entorno da casa em Itaipava, num terreno desmembrado de uma antiga sede de fazenda , fora uma ou outra árvore, era todo coberto por um pasto sujo onde pastavam algumas cabeças de gado mal cuidadas – a paisagem mais usual até hoje na maior parte do Sudeste rural do Brasil, com os seus restos de latifúndios cafeeiros decadentes reconvertidos para a pecuária. A Serra como “paraíso ecológico” é principalmente uma conseqüência da decadência da atividade agrícola e da reconstituição espontânea de florestas secundárias em terras mantidas como reserva de especulação; como uma vez ouvi do meu professor de jardinagem , “em Itaipava não existem árvores centenárias”.

Fora pastos de capim gordura, o que mais se via naquele entorno eram as pequenas granjas dedicadas ao negócio de venda de flores silvestres – com os caminhões que passavam diariamente para levar as cestas de flores cortadas ao mercado da Praça XV no Rio de Janeiro – e o casebre nas vizinhanças da fazenda onde morava uma família de colonos aos farrapos, com a fumaça do fogão a lenha saindo de uma chaminé cujo tubo furava a parede, crianças nuas com barrigões de verminoses várias, e os adolescentes desdentados que nos vendiam leite em garrafas recicladas com tampa de sabugo. Desenvolvimento desigual e combinado: era aquilo que se chama até hoje “agricultura de subsistência” que longe de ser produção para auto-consumo, era uma tentativa de meeeiros, parceiros e pequenos proprietários de sobreviverem – talvez acumularem – na periferia do centro capitalista. Nas noites sem luz elétrica, deixávamos o lampião na varanda, e atraíamos dezenas de besouros – muito provavelmente pragas de pasto – que eram quase que imediatamente seguidos pelos sapos cururus e eventualmente uma aranha caranguejeira. Pássaros, quase que só os anus e bicos-de-lacre, espécies de áreas de campo degradadas. Se era a “volta à Natureza”, era a Natureza da Ideologia Alemã – a Natureza como expressão da atividade produtiva humana, e como tal, da luta de classes.

À medida que passava a década de 1970, os colonos foram mandados embora, a velha sede da fazenda trocou de mãos e foi demolida para ser reconstruída como casa de campo e de aluguel para grupos por temporada (enquanto a própria fazenda virava sítio de lazer), tudo enquanto a produção de flores desaparecia quase que totalmente (permaneceram alguns negócios reconstruídos sob bases tecnológicas sofisticadas, inacessíveis ao agricultor comum) diante do uso crescente das terras como casas de veraneio e loteamentos para formação de condomínios. Eram as conseqüências regionais da contra-reforma agrária da ditadura militar: a terra convertida numa mercadoria, numa espécie de kit que permitia à pequeno-burguesia emergente da época sentir-se parte da elite, gozar numa versão reduzida do imóvel de vilegiatura que até então havia sido um privilégio da alta burguesia; a residência secundária, que até então era parte da esfera pública – do nomadismo institucional das elites políticas e sociais do Império, da República Velha e da Era Vargas, que moviam sua “corte” para suas fazendas no Verão - tornou-se um luxo privado.

Tudo acompanhado, na década de 1980, do surgimento de uma infra-estrutura de lazer “sofisticado” e de “bom gosto”: “pólos gastronômicos” vendendo uma culinária sofisticada que não correspondia a nada de local, os indefectíveis shoppings, a agricultura “orgânica” etc., etc. Paradoxalmente, o abandono da atividade agrícola tradicional fazia com que a região, em determinados lugares, tomasse uma aparência cada vez mais florestal, ainda que artificial (grande parte das espécies de plantas e animais existentes nestas áreas são produto da introdução humana, para desgosto dos puristas) – na medida mesmo em que “Natureza” e “biodiversidade” , “paisagem” eram produzidas para serem vendidas como mercadorias – a custa do evisceramento da população agrícola tradicional; uma versão em miniatura da África dos safáris, com suas reservas animais recheadas de uma fauna que jamais havia existido historicamente desta forma, e que foi criada através da expulsão deliberada das populações nativas. Era também a expressão fenomenológica do processo geral ocorrido no campo brasileiro nos últimos quarenta anos: a desumanização geral do meio rural em favor da acumulação burguesa - e, quanto a isso, era indiferente que esta desumanização fosse realizada em proveito da Natureza “intocada” e não da soja ou da cana de açúcar. Foi na década de 80 que o nosso velho caseiro foi posto para fora do pedaço de terra que vinha cultivando informalmente na propriedade de um vizinho, para que fosse construído um chalé no local.

Bem ou mal, no entanto – poderiam dizer os apologistas do desenvolvimentismo como modo de resolução de todas as contradições – o mercado de trabalho regional ajustou-se, na medida em que a mão-de-obra da região trocou, de uma geração a outra, a agricultura pelos serviços, a casa de colono pelo trabalho como garçom, balconista, camareiro, pedreiro – e que mal haveria nisto, senão da parte de quem aprecia a idiotia rural e a verminose? Como o marxismo, neste país, foi apropriado pela ideologia desenvolvimentista, continua ainda sendo necessário lembrar aos nossos marxistas (vulgares) que o velho “Desenvolvimento da Forças Produtivas” não é uma panacéia mágica, na medida em que ele realiza-se nos limites e nas condições fixadas pelas Relações de Produção – com as quais inevitavelmente entra em contradição , dizia o velho Marx do Prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política.

Os limites das Relações de Produção são os da propriedade privada burguesa – a da terra como de qualquer outra coisa. Quem passa a trabalhar na cidade depois de ser excluído do campo tem de ter onde morar – o que significa, nas condições do meio urbano brasileiro, comprar o direito de habitar; o que, por sua vez, para a população de baixa renda, significa, ou depender “da bondade de estranhos”, ou morar em um barraco construído em terras de propriedade pouco definida: encostas, barrancos, beiras de abismo, margens de rio. É claro que, neste processo de favelização, não foi negligenciável o papel de uma lumpen-burguesia especulando sobre casas de aluguel em favelas, da “demagogia” populista e assistencialista e das decisões judiciais de juridicidade e valor duvidosos; mas todos estes fatores não surgiram do vácuo e sim responderam a uma demanda social concreta – a de pessoas que não tinham onde morar regularmente. E não será enlatando refugiados ambientais em coelheiras de concreto nas periferias urbanas que o problema será solucionado. Há quem acredite nas supremas virtudes do “cacete ambiental” como instrumento de preservação ecológico; não é, pessoalmente, o meu caso.

Talvez a questão seja, em parte, a de romper com um modelo de estímulo à atividade econômica fundado num consumismo vulgar, que “consome” casas com piscina do mesmo modo que consome pólos gastronômicos; tentar estimular o acesso das massas a atividades econômicas qualificadas, que incorporem alta tecnologia e/ou manejo ambiental, também. Mas sem alguma forma de interferência nas “relações de produção”, isto é, na propriedade privada, nada de realmente sustentável será feito. Sem reforma urbana e agrária, não haverá verdadeira preservação do meio ambiente no Brasil.

O grande problema é que, se chegamos, de um lado objetivamente a uma situação em que a preservação ecológica transcende qualquer interesse de classe, em função do jogo das “externalidades” ecológicas (a corrente de uma enchente que se forma numa área favelizada devasta tanto a favela quanto mansões de veraneio e pousadas, matando sem distinção de classe, como se viu no Vale do Cuiabá), subjetivamente o desejo de preservar privilégios de classe “tradicionais” e “razoáveis” pode superpor-se até ao sentido de auto-preservação: a luta de classes não é um processo racional, diz Isaac Deutscher. Ou, como dizia Trotsky em 1905: o Capital, no exercício dos seus supostos direitos, está tão penetrado da sua Metafísica da Violência, que freqüentemente prefere arriscar a vida a perder tais direitos, e pode ir às últimas conseqüências contra quem preferir escolher a vida...

Por enquanto, é isso que há a dizer.



  Escrito por Idelber às 05:04 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 07 de fevereiro 2011

O triste destino do anti-lulismo, por Paulo Candido

Um dos efeitos mais impressionantes dos oito anos de governo Lula foi a incorporação orgânica da conservação ao projeto de país ora conduzido e liderado principalmente pelo PT. Este fenômeno parece ter escapado à imprensa anti-Lula, à oposição partidária parlamentar e mesmo, em parte, aos que se querem ideólogos da direita.

A imprensa parece perdida. Calada. Entre a eleição e a posse, alguns veículos e colunistas imaginaram que poderiam ditar à presidenta o ritmo de escolha de ministros e a formação “ideal” de seu governo, como se este fosse um governo novo, inédito. Como se Dilma não tivesse vencido a eleição como a herdeira de Lula.

[Eu uso logo a inflexão de gênero simbólica, para marcar lado. Nossa ridícula grande imprensa, a Folha e o Globo à frente, insiste em “a presidente” por uma contrariedade infantil que logo se tornará apenas falta de educação. Nesta segunda mesmo O Globo publica uma nota informando que “A presidente estreia … o programa “Café com a Presidenta”. Não podendo modificar o nome do programa, o Globo escolhe deixar o leitor imaginando sobre o que a presidente conversará com a presidenta...]

Um ou outro analista ainda consegue ânimo para elogiar Dilma por seu “silêncio”, contrastado sempre positivamente com o “ruído” constante que Lula produzia. Mas rápido os mesmos analistas quase se lamentam da falta de uma pauta negativa. Um ou outro encontra ânimo para criticar o ministério, mas para logo notar que estamos ainda falando do mesmo – as mesmas pessoas, o mesmo programa de governo, a mesma base parlamentar, agora apenas um pouco maior. Nem mesmo uma tragédia da magnitude da que aconteceu na Serra do Rio conseguiu acordar os abutres de ontem. Alguém dúvida que um ano atrás Lula seria pessoalmente acusado pelas centenas de mortes em dezenas de artigos e editoriais?

A oposição partidária se desfaz de forma quase indecorosa. Ao final do processo eleitoral a oposição e sua imprensa tentaram cantar alguma vitória. Quarenta e quatro milhões de votos pareciam dar a José Serra o direito de nos ameaçar com seu breve retorno. Aécio Neves entendeu bem a frase “Isto não é um adeus, é um até logo” de seu companheiro e colocou seus planos para 2014 e 2018 em movimento imediatamente. O DEM, atrelado ao PSDB no plano nacional há oito anos, parece querer obedecer Lula ao pé da letra – como a eleição não foi suficiente para “extirpar” este partido da política nacional, os democratas contemplam o haraquiri público. As siglas tributárias menores, PPS e PV, se uniram em um “bloquinho” na esperança de ao menos não morrerem de solidão. Se Marina Silva conseguir firmar-se como liderança nacional talvez haja futuro para o PV e sobrevida para o PPS, na sua função de sigla auxiliar de alguma força que possa lhe dar alguma visibilidade e talvez algum cargo (uma subprefeitura ou talvez a coordenação de algum assunto virtual, qualquer coisa assim). Enquanto isto os dez governadores eleitos da oposição (oito do PSDB e dois do DEM) já declararam seu amor incondicional pela presidenta e por seu governo. La nave vá.

Esta catástrofe iminente, este pânico um tanto deslocado, eles não deixam de ser algo surpreendentes. Afinal, não custa repetir, a oposição conquistou de forma legítima 44 milhões de votos e 10 governos estaduais, entre eles São Paulo e Minas. Não haveria muita dificuldade em “recuar para os estados” e gestar um retorno organizado em 2014 ou 2018, até mesmo coordenando os programas estaduais em contraponto ao governo federal. Claro, alguém vai objetar que estamos falando da oposição brasileira, uma gente que em oito anos não conseguiu sequer articular um programa de governo alternativo minimamente coerente ( “Eu vou melhorar o que está dando certo e arrumar o que está dando errado” não é um programa de governo, é só um desejo ardente que ninguém pergunte muito).

Os ideólogos, enquanto isto, se descabelam. Denunciam Aécio por trair Serra. Denunciam o rebaixado deputado Guerra por apoiar Aécio. Quase choram com as trapalhadas do DEM (que se dão também em torno de e incentivadas por Aécio). Pedem oposição sem tréguas ou prisioneiros ao governo Dilma. Mas neste quadro de derretimento de seus partidos, não se sabe a quem pedem tal oposição. Com certeza não a Aécio. Cabe aqui o desvio. Me parece que há um engano sério em considerar tanto o PSDB quanto o DEM representantes naturais do conservadorismo no Brasil. E seguindo o rastro deste engano talvez nós possamos levantar uma ou outra ideia sobre a situação atual e futura da oposição e do governo

A interpretação que segue passa por caminhos pouco trilhados. Não a considero exclusiva nem principal, mas suplementar. Não é o caso de desprezar os fatores pessoais, as rivalidades internas, as avaliações estratégicas de cada grupo como causas do quadro triste que a oposição nos apresenta. Mas acho que vale acrescentar um fator menos aparente e mais simbólico, por assim dizer. E talvez o suplemento se mostre essencial para definir e entender o estado das coisas oposicionistas.

Eu proponho que, com o encerramento dos dois governos de Lula tanto o PSDB quanto o DEM perderam sua razão de existir. E que junto com sua razão de existir ambos perderam também muito de sua vontade de viver.

O PSDB nasce no final do anos 80 do século passado, aparentemente como uma reação a Quércia, mas quase imediatamente se torna a alternativa paulista preferencial ao projeto do PT. Pode-se dizer que o PSDB nasce unicamente para o poder, para se aproximar dele e tomá-lo o mais rápido possível. Abortada a tentativa de aderir ainda ao governo Collor, o partido adere ao governo Itamar e, graças ao plano Real, assume o poder em 1994. Assume no mesmo ano o governo de São Paulo, seu estado natal e para sempre sua jóia mais cara. Todo o trajeto do PSDB até a derrota em 2002 é marcadamente social-democrata (e isto é importante frisar). Para o bem ou para o mal, os tucanos estarão para sempre identificados com uma centro-esquerda universitária e com uma classe média mais ou menos progressista (no sentido globalizado da palavra), ainda que seu suporte no complexo financeiro e suas alianças à direita mostrem suas contradições. Mas, do 18 Brumário de Luis Bonaparte até o 31 de outubro de José Serra, a social democracia sempre foi este pensamento pendular que quer ser ao mesmo tempo capital e trabalho.

O DEM nasce em 2007 da mudança de nome do PFL, partido que abrigou os políticos mais “liberais” dentre os que apoiavam a ditadura e os mais “conservadores” dentre os que a ela faziam oposição. Gente como Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel. E nasce de um desejo de, ao mudar a geração de seus membros, mudar também a natureza de seu discurso. O DEM deseja desde o primeiro momento ser o partido conservador brasileiro e é assim recebido pela imprensa e pelos ideólogos mais à direita da imprensa. A vida real tende a desmanchar rapidamente nossos desejos: tanto a tentativa de renovação quanto qualquer ilusão de independência que o DEM pudesse ter fracassaram sob o impacto da realidade eleitoral e partidária de 2010. O partido não teve a capacidade de apresentar candidatos viáveis nem à Presidência nem à maioria dos estados. Seu futuro, caso continue existindo, parece ser o de eterno assistente à direita do PSDB, algo como uma garantia de bom comportamento ante às parcelas mais conservadoras da opinião pública.

Até aqui, nada de novo ou original. De um lado um partido esquerda com fortes raízes nos movimentos populares e no sindicalismo, ao centro um partido social-democrata cujo verniz de esquerda ajuda a dourar a pílula do nosso capitalismo modernizante e à direita os conservadores fiscais e sociais. Exceto que entre isto e o mundo houve Lula.

Desde sempre, mas especialmente após a vitória em 2002, a relação da imprensa com Lula foi marcada pelo preconceito de classe. Um os primeiros efeitos do preconceito é a cegueira. Cegos por seu desprezo, os analistas da grande imprensa jamais acreditaram em Lula ou em seu governo. Aguardaram o desastre como abutres aguardando a morte de sua presa. Em 2005 tiveram seus dias de glória, a vitória e o retorno ao que entendem (ainda) por “normalidade” ao alcance da mão.

Incentivados e fundamentalmente dependentes de sua relação com esta imprensa, os partidos de oposição se deixaram redefinir, para além de suas diferenças ideológicas ou programáticas, como partidos anti-Lula. Não fundamentalmente anti-PT nem anti-esquerda, nem ao menos anti-governo, mas anti-Lula. Desinformados pelo preconceito de seus próprios intelectuais e jornalistas, estes partidos e seus políticos se deixaram enredar numa armadilha magistral tecida pelo PT por mais de uma década antes da chegada ao poder. Uma armadilha que os levou de representantes naturais de determinados grupos sociais a um vazio ideológico que ao que tudo indica não tem volta ou saída.

O pânico cultivado durante os meses que antecederam à vitória de Lula em 2002 ajudou a criar um primeira cortina de fumaça, especialmente ao ser substituído por um alívio coletivo. O PT no poder não estava destruindo a economia, estatizando meios de produção e expropriando latifúndios. Naquele primeiro momento, forçado a uma aliança com pequenos partidos e pedaços esparsos do PMDB, o governo Lula apenas cuidava de consertar a administração econômica desastrada dos últimos anos de FHC e a lançar pequenos balões de ensaio em direção à sociedade, como o Fome Zero. A cara do governo não era muito diferente do governo anterior, ainda que o espírito fosse completamente outro. Onde havia um marasmo e uma resignação à nossa pequenez e desimportância ante à globalização e aos desejos dos países centrais, aparecia agora uma estranha altivez, um orgulho que a análise preconceituosa interpretou como bravata de um presidente despreparado. Orgulho de pobre, por assim dizer.

Mas a impressionante retórica de Lula e sua inteligência, somados a operadores sutis e extremamente habilidosos e competentes como Dirceu, Palocci e Dilma (esta última ainda considerada apenas uma ministra “técnica”) escondia um movimento que apenas no final do primeiro mandato, já sem os dois primeiros, se revelaria inteiro.

O preconceito e a ignorância da imprensa e da oposição ajudou muito. Na verdade, ambos foram instrumentais na construção do Lula mitológico, tanto por ação quanto por inação. Ao atribuir a Lula uma estatura quase divina, a oposição apenas fez crescer o mito e efetivamente passou a enfrentar um fantasma, um espectro. Não era contra o Lula real e seu governo que gente como Artur Virgílio e Tasso Jereissati bradava nas tribunas do Senado, mas contra um monstro de sua própria invenção, cujas intenções traduziam os temores e desejos profundos da oposição muito mais que as ações do governo: terceiro mandato, ameaças à liberdade de expressão, aparelhamento do Estado, só para citar alguns (a lista é imensa). Combater cada uma destas fantasias exigiu esforços sobre-humanos da oposição. Esforços absolutamente infrutíferos: as fantasias continuam tão fortes quanto antes pois, enquanto fantasias, não podem ser destruídas por combate direto. Na verdade nem existem, exceto no inconsciente de seus receptáculos (no caso em pauta, no inconsciente coletivo de uma certa elite intelectual e política).

Enquanto a oposição se desgastava combatendo um Lula imaginário e ajudando a definir por contraste o que André Singer chamou de “lulismo”, aumentando cada vez mais a estatura mitológica do presidente, o Lula real e seus auxiliares operavam para destruir qualquer possibilidade da oposição vencer a luta real. De uma forma quase cruel, a vitória em 2006 sobre a tentativa de golpe e o segundo mandato, com a maturação dos programas sociais, a aliança ampla com o PMDB e a inserção dos novos programas (PACs, Minha Casa Minha Vida, etc) subtraem da oposição muito mais que bandeiras, retiram dela sua própria identidade política.

Em primeiro lugar, os projetos sociais de largo alcance do governo Lula acoplados à gestão eficiente da economia retiram de forma brutal o PSDB do espaço social-democrata no espectro político. O Partido da Social Democracia Brasileira havia governado o país por oito anos e feito nada ou quase nada pelos miseráveis, exceto repetir o discurso liberal (no sentido bem clássico) de salvação pelo mercado. O Bolsa Família foi recebido por esses sociais democratas com resmungos de Bolsa Esmola. Outros programas não tiveram recepção melhor. Seu auto-engano é tal que ainda esta semana a coordenadora de Internet da campanha da oposição escreve em seu blog, talvez esquecida que a campanha terminou faz mais de três meses, que “estamos saindo de um governo entre medíocre e horrível”. Claro que a ex-subprefeita vive uma confortável vida de classe média em um bairro central de São Paulo. E claro que a candidata do governo medíocre e horrível venceu a eleição contra o ex-governador apoiado pela ex-subprefeita (ex-governador que então só poderia então ser adjetivado ao inverso, de excelente e lindo? Serra?).

Em segundo lugar, não menos importante na avaliação geral do governo, durante os mandatos de Lula o Brasil se tornou uma voz ativa no cenário internacional. Sob vaias e críticas pesadas da imprensa e de seu braço político, incapazes de enxergar a necessidade e a oportunidade única do que estava sendo feito. Aliás, neste aspecto o governo FHC foi mais que medíocre, beirou a alta traição. Sempre pronto a “retirar os sapatos” para as necessidades das grandes potências, é até espantoso que o Brasil não tenha seguido a Argentina na aventura iraquiana de Bush. De 1994 a 2002 tudo se passou como se Fernando Henrique, muito ao contrário de “esquecer o que escreveu”, tentasse dar ao mundo uma demonstração prática da Teoria da Dependência.

Por fim, a criticada aliança à direita, aliança que repetia quase que integralmente a aliança do governo anterior inclusive nos nomes (Nelson Jobim, Renan Calheiros, os Sarney e uma longa lista de etceteras), completou durante o segundo mandato o movimento de pinça, negando ao DEM seu habitat natural e fechando na prática a porta conservadora ao PSDB (como a última campanha, ao invés de refutar, demonstrou).

Este último ponto merece ampliação. O Brasil é um país conservador. Mesmo se não existissem as inúmeras pesquisas confirmando tal percepção, um simples passeio atento pelas ruas é suficiente para verificar tanto a religiosidade que perpassa todos os aspectos da vida social do país quanto o racismo, a homofobia, o machismo e a violência generalizada contra grupos fragilizados (incluídos, além das óbvias minorias implicadas antes, todos os pobres e miseráveis). Mas este conservadorismo não se traduz nem em linhas partidárias claras nem em um programa único. O Brasil é um país conservador sem conservadores, por assim dizer, pois não necessita deles. O estado natural não precisa se explicar ou se fazer representar, ele simplesmente é.

Assim, os conservadores se espalham por todos os partidos e se dividem pelas bandeiras conservadoras de forma não-linear. Além disto, fora das caricaturas ideológicas da imprensa e da internet, não existe “o conservador”. A mesma pessoa pode ser contra o aborto e a favor do casamento homossexual. Contra a abertura dos arquivos da ditadura e a favor da liberação da maconha. O mesmo intelectual pode achar que raça não existe mas que o Bolsa Família é uma boa ideia. Ou seja, o objetivo político mais interessante não é se identificar claramente como conservador mas se tornar fiador do discurso da conservação.

E fiador do discurso da conservação, não por palavras mas por atos, o PT se tornou. Exemplos não faltam. A senadora Katia Abreu pode espernear seu oposicionismo agrícola à vontade, mas foi durante o governo Lula, com o Incra supostamente “aparelhado” pelo MST, que a reforma agrária saiu da pauta da sociedade. Não se abriram os arquivos da ditadura. Andou-se muito pouco na proteção das minorias. A mera discussão dos direitos reprodutivos se tornou anátema. Há inúmeros exemplos. Todo o discurso radical caiu por terra, seus representantes isolados ou mesmo expulsos do convívio “civilizado”. As determinações econômicas se sobrepuseram sem trégua a qualquer outra consideração. As necessidades políticas pequenas falaram em um volume quase ensurdecedor.

É preciso enfatizar que o todo do governo é maior que a soma das partes. Nem o governo Lula foi intrinsecamente conservador nem seus sucessos ou fracassos foram absolutos. A garantia da conservação aparece aqui não como simples imobilismo mas como oportunidade de negociação, de luta. O que Lula fez foi apenas retirar aparentemente o governo da frente de batalha, ainda assim deixando avançar as pautas ideológicas pelas bordas. Basta lembrar a Confecom e o PNDH 3, tão atacados pela imprensa e pela oposição.

Qual o resultado deste movimento, do qual eu destaquei três aspectos mais proeminentes (há outros, claro)? O resultado, pode-se dizer, é o governo Dilma e a perspectiva dos lendários 20 anos no poder para o PT e seus aliados. O resultado foi o asfixiamento do PSDB e do DEM, o desaparecimento de seus espaços políticos vitais, a derrota acachapante da oposição parlamentar ao governo Lula. Senadores históricos perderam seus mandatos e vagam insones por suas mansões coloniais no Nordeste, tentando ainda entender o que houve. O próprio presidente do PSDB foi “rebaixado” de senador para deputado.

A aliança oposicionista vai à eleição de 2010 sem programa de governo. Tateando aqui e ali, consegue uma única pauta, o fanatismo religioso do movimento anti-aborto. Que não funciona porque, após o primeiro impacto, a ação das forças conservadoras que apoiam o governo Lula recoloca a campanha no eixo. Serra tenta ser pró-Lula, depois tenta encampar todos os programas sociais do governo Lula como ideias suas ou do PSDB, um erro estratégico por muitas razões. Primeiro porque era mentira, mas isto nunca deteve a oposição. Segundo porque expõe a posição fragilizada de seu partido: não podem mais assumir em discurso o que o governo Lula fez na prática. A exigência de paternidade vem junto com uma admissão implícita de incompetência, geraram programas mas não souberam torná-los ferramentas de transformação social.

Nos anos precedentes tanto a imprensa quanto seus políticos tinham quase certeza de vitória em 2010. Não haveria Lula. Não haveria transferência de votos para um “poste”. A leitura de textos tão recentes quanto o final de 2009 mostra analistas declarando que o candidato do PSDB, Serra ou Aécio na época, venceria fácil. Nenhum deles percebeu que muito antes da escolha de Dilma como candidata o jogo já estava praticamente jogado.

E o “pós-jogo” é psicologicamente avassalador para a oposição. Eu disse antes, PSDB e DEM perderam suas razões originais para existir. Como é possível ser anti-Lula se não há Lula? Tentam, ainda, manchar sua biografia, falar em herança maldita (de Dilma para ela mesma, por sinal), se preocupar com passaportes e férias e aluguel de jatinhos. Mas a realidade concreta sempre se sobrepõe às fantasias. Lula não buscou o terceiro mandato O aparelhamento do Estado é ilusório. A imprensa sempre falou o quis contra Lula e o governo e continua falando (mas agora, outro indicador do preconceito que pautava as redações, sem os subtons de ódio e desprezo sempre presentes nas críticas a Lula). A oposição como que perdeu seu único objetivo, seu único lastro, sua paixão. A oposição perdeu Lula.

Estes partidos não vão desaparecer necessariamente, mas certamente não serão mais a referência. Aécio, quando fala em pós-Lula e em “refundação” indica que entendeu o quadro melhor que muitos. Refundação é um reinício do zero e zero é quase só o que restou das ideias originais do PSDB. A batalha entre aecistas e serristas pelo controle do DEM também mostra que acabou também a aliança automática com o PSDB paulista. É bem possível que grandes parcelas do DEM mudem-se para o PMDB e, consequentemente, para a situação.

Da velha oposição restam os hipnóticos 44 milhões de votos, que Serra não cansa de citar. Entretanto, fora do campo retórico estes votos não são representativos. Não que estes eleitores não o sejam, apenas eles se tornaram agora um problema da vencedora. É Dilma que precisa convencer os que não votaram nela da sua capacidade para o cargo que ocupa. Mas além disto, estes votos não são de Serra. Um quarto deles talvez tenham vindo de Marina, e não apenas dos eleitores conservadores de Marina. Outra parte significativa veio do DEM. E boa parte veio de alas do PSDB agora hostis a Serra. Ou seja, a proposta (por assim dizer) que teve 44 milhões de eleitores se desfez e seu candidato não tem mais nenhum poder sobre estes votos. Insistir em lembrar a votação de 2010 apenas torna mais dolorosa a tarefa de buscar um novo programa de oposição.

Quanto à imprensa da oposição, ela está numa espécie de lua-de-mel com Dilma, espantados com seu estilo discreto e suas atitudes firmes. Ainda sequer notaram algumas mudanças fundamentais na maneira de governar. Oscilam entre reclamar da continuidade e louvar a novidade. Talvez não tenham notado que o governo que entra é uma nova fase de um mesmo movimento, mas não é, de forma alguma, apenas a repetição da etapa anterior (agora sem Lula).

Desta longuíssima análise ainda ficaram de fora alguns pontos importantes. Marina Silva especialmente. Pois Marina talvez seja a encarnação mesma do espírito do governo, uma mescla de ideias de esquerda, um certo conservadorismo social e a perspectiva ambiental, que traria algo de novo para a gestão econômica. Não tenho dúvida que Marina como candidata do PT venceria a eleição no primeiro turno e enterraria a carreira de Serra de forma ainda mais melancólica. Mas a eleição é apenas um ponto de parada em um caminho muito mais longo. Marina talvez seja o pós-Lula, mas só pode existir o pós-Lula após Lula. E em 2010 foi Lula quem venceu a eleição. Eu também apenas mencionei os movimentos de Aécio, que parecem bastante interessantes. E por fim, eu disse que Dilma é a herdeira de Lula. Há imensa diferença entre o mero continuar e o herdar. E Dilma já dá mostras de ser uma herdeira à altura de seu antecessor, gostemos ou não de suas escolhas. Sobre tudo isto falo em outras oportunidades.

[Meu email é paulo ponto candido arroba gmail ponto com - críticas, sugestões e convites para beber cerveja são bem-vindos. No Twitter, PauloCOF]



  Escrito por Paulo às 17:00 | link para este post | Comentários (62)



sábado, 05 de fevereiro 2011

Pergunta ao Ministro Paulo Bernardo sobre propriedade cruzada

Às 10:30 da manhã deste sábado, rola um Na Varanda, programa de entrevistas via Twitcam com a coordenação do Emerson Luis, do Cesar Cardoso e outros em Brasília. O convidado é o Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O Na Varanda já incluiu, numa edição anterior, o Ministro Alexandre Padilha.

Ainda sem saber se vou poder acompanhar a transmissão ao vivo—estou 4 horas atrás e a temperaturas de -3Cº--, deixo ao Ministro uma pergunta em duas partes sobre o tema da proibição à propriedade cruzada na mídia. Se chegar a tempo, fantástico. Se não, que fique para o próximo papo com o Ministro no Twitter.

1. Ministro Paulo Bernardo, bom dia. Já foi bastante enfatizado entre os movimentos pela democratização das comunicações como é concentrada a propriedade de mídia no Brasil. O Sr. abriu a entrevista da TV Brasil apontando isso. Quando se fala em “proibição à propriedade cruzada na mídia”, pensa-se tradicionalmente em um grupo ou família controlando TVs, estações de rádio e jornais—aquela situação de oligopólio clássico. No entanto, nas referências ao tema da propriedade cruzada na mídia brasileira hoje, é comum que se misture a internet nesse meio. Não creio que seja uma confusão inocente, mas argumentemos como se fosse. A internet opera sob outro princípio, que é o da não-escassez, diferente do princípio de finitude das concessões públicas como TVs e rádios. Está correta a premissa de que, do ponto de vista do Ministério, quando se fala de “propriedade cruzada” na mídia, está se pensando em TVs e rádios (e, com as especificidades da imprensa escrita, jornais), e não na internet, que seria objeto de outro marco regulatório?

2. Pressupondo que a resposta é um sim, aí vai uma pergunta sobre o caso talvez mais escabroso de propriedade cruzada no Brasil, a RBS no Sul. Como demonstrado em texto de Venício Lima na Carta Maior ontem, são 18 canais de TV aberta, 24 emissoras de rádio AM e FM e 8 jornais. Os países mais diversos têm mecanismos de limite à propriedade cruzada. Mesmo sabendo que uma coisa são as atribuições do Ministério das Comunicações e outra as do Ministério Público, o Sr. teceria seus comentários sobre esse tipo de situação que se vive no Sul? O Ministério das Comunicações acompanha ações como a do Ministério Público Federal de Santa Catarina contra a propriedade cruzada do grupo RBS?

Fica aí a pergunta, caso ela chegue a tempo ao Ministro, e a caixa de comentários para os leitores que queiram comentar o programa, ou tema relacionado ao MinCom.

Atualização: Foi um sucesso o papo com o Ministro. O áudio da entrevista já está disponível no Na Varanda. A pergunta do Biscoito foi respondida, com as normais limitações de tempo. Vale a conferida.



  Escrito por Idelber às 06:11 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 01 de fevereiro 2011

Por que temer o espírito revolucionário árabe?, por Slavoj Žižek

Original aqui. Tradução de Idelber Avelar.



zizek-3.jpgO que não pode senão saltar aos olhos nas revoltas na Tunísia e no Egito é a conspícua ausência do fundamentalismo muçulmano. Na melhor tradição secular democrática, o povo simplesmente se revoltou contra um regime opressor, sua corrupção e pobreza, e exigiu liberdade e esperança econômica. Provou-se equivocada a cínica sabedoria dos liberais ocidentais, segundo a qual, nos países árabes, o senso democrático genuíno se limita a estreitas elites liberais, enquanto a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo. A grande questão é: o que acontece depois? Quem vai emergir como o vencedor político?

Quando um novo governo provisório foi nomeado em Túnis, ele excluiu os islamistas e a esquerda mais radical. A reação dos presunçosos liberais foi: “ótimo, eles são basicamente o mesmo; dois extremos totalitários” – mas será que as coisas são tão simples assim? O antagonismo a longo prazo não é precisamente entre os islamistas e a esquerda? Mesmo que estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que eles se aproximam da vitória, a sua unidade racha, eles entram em luta mortal, com frequência mais cruel que aquela que compartilharam contra o inimigo comum.

Não presenciamos exatamente essa luta depois das últimas eleições no Irã? O que representavam os centenas de milhares de apoiadores de Mousavi era o sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Mesmo utópico, o sonho levou a uma explosão arrebatadora de criatividade política e social, experimentos organizativos e debates entre estudantes e pessoas do povo. Essa genuína abertura que desatou forças inauditas de transformação social, num momento em que tudo pareceu possível, foi depois gradualmente sufocada pela tomada de controle de político realizada pela hierarquia islamista.

Até no caso dos movimentos claramente fundamentalistas, não se deve perder de vista o componente social. O Talibã é regularmente apresentado como grupo fundamentalista islâmico que impõe seu regime com o terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale do Swat no Paquistão, o New York Times relatava que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos proprietários e seus inquilinos sem-terra”. Se, ao “aproveitar-se” da desgraça dos camponeses, o Talibã está criando, nas palavras do New York Times, “alarme com os riscos que corre o Paquistão, que permanece majoritariamente feudal”, o que impediu, então, os democratas liberais no Paquistão e nos EUA de “se aproveitarem” dessa desgraça da mesma forma e tentar ajudar os camponeses sem-terra? Será que é porque as forças feudais no Paquistão são as aliadas naturais da democracia liberal?

A inevitável conclusão a se tirar é que a ascensão do islamismo radical foi sempre o outro lado da moeda da desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como o país ápice do fundamentalismo islâmico, quem ainda se lembra que 40 anos atrás, ele era uma nação com forte tradição secular, incluindo-se um partido comunista que tomou o poder de forma independente da União Soviética? Onde foi parar essa tradição secular?

É crucial ler os eventos atuais na Tunísia e no Egito (e no Iêmen e … talvez, oxalá, até a Arábia Saudita) em relação a esse pano de fundo. Se a situação, no fim das contas, se estabilizar, de forma que o velho regime sobreviva com alguma cirurgia cosmética liberal, ela provocará uma insuperável reação [backlash] fundamentalista. Para que o legado liberal chave sobreviva, os liberais necessitam a ajuda fraterna da esquerda radical.

Voltando ao Egito, a reação mais perigosamente oportunista foi a de Tony Blair, via CNN: a mudança é necessária, mas deve ser uma mudança estável. “Mudança estável” no Egito hoje só pode significar a concessão às forças de Mubarak através de uma ligeira ampliação do círculo dominante. É por isso que falar em transição pacífica agora é uma obscenidade: ao esmagar a oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois que Mubarak enviou o exército contra os que protestavam, a escolha ficou clara: ou uma mudança cosmética na qual algo muda para que tudo permaneça igual, ou uma ruptura verdadeira.

Eis aqui, então, o momento da verdade: não é possível argumentar, como na Argélia de uma década atrás, que permitir eleições realmente livres significa entregar o poder aos fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é que não há poder político organizado para assumir o leme se Mubarak vai embora. É claro que ele não existe; Mubarak se encarregou disso ao reduzir toda a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado é como o título do famoso romance de Agatha Christie, And Then There Were None [E Aí Não Sobrou Nenhum]. O argumento em favor de Mubarak—de que ou é ele ou é o caos—é um argumento contra ele.

É de tirar o fôlego a hipocrisia dos liberais ocidentais: eles publicamente apoiaram a democracia, e agora, quando o povo se revolta contra tiranos em nome da justiça e da liberdade seculares, não em nome da religião, eles ficam profundamente preocupados. Por que preocupação, por que não alegria de que a liberdade está ganhando uma chance? Hoje, mais que nunca, o dito de Mao-Tsé-Tung é pertinente: “há grande caos sob os céus-- a situação é excelente".

Para onde, então, deveria ir Mubarak? Aqui, também, a resposta é clara: para Haia. Se há um líder que merece estar lá, é ele.



  Escrito por Idelber às 19:23 | link para este post | Comentários (31)




Luta antimanicomial denuncia: Mortes nos leitos psiquiátricos de Sorocaba

Já na segunda semana do mês de dezembro eu recebera a denúncia do Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba (Flamas), depois de mais duas mortes em hospitais psiquiátricos da cidade. Tornou-se rotina. A média de mortos nos manicômios de Sorocaba é altíssima e a região possui o maior número de leitos do país. Os 1.289 leitos psiquiátricos do SUS na cidade de Sorocaba só não são mais numerosos que os do Rio de Janeiro.

Ancorados em dados do Ministério da Saúde, o Fórum apresentou estudo que chegou a números assustadores: são duzentas e trinta e três mortes em manicômios entre 2006 e 2009 só em Sorocaba. O professor Marcos Garcia, da UFSCar-Sorocaba e membro do Flamas, apontou a média de idade precoce das mortes, 48 a 49 anos. Até um quarto dos óbitos é de pacientes entre 17 a 29 anos de idade. Há um enorme número de mortes por causas evitáveis. É um estado de calamidade, urgente.

A luta antimanicomial na região de Sorocaba enfrenta também um bloqueio de mídia e o próprio secretário de saúde do município é dono de três manicômios. No final de janeiro, finalmente saiu uma matéria na mídia local, que repercutiu a denúncia do Flamas. A matéria também incluía a resposta do Dr. Eduardo Zacharias, diretor de um dos manicômios da cidade, que levantava suspeita sobre se os números seriam “muito ou pouco” e argumentava que faltava “metodologia científica” ao estudo.

À evasiva resposta, os profissionais do Flamas escreveram contundente retruque, mostrando não só que a média de mortes é altíssima, como também que a faixa etária é precoce e que alto número de óbitos acontece por causas evitáveis. Como exemplo irrefutável, o texto do Flamas lembra as 13 mortes por pneumonia no intervalo de dois meses e meio, no Hospital Vera Cruz, entre 07/05 e 18/07 de 2008.

A luta antimanicomial é uma das causas que mais merecedoras de atenção de quem quer um mundo um pouco mais humano e justo. Tudo indica que os profissionais do Flamas estão denunciando um estado de coisas desesperante e muito grave. A denúncia tem o meu endosso.



  Escrito por Idelber às 06:17 | link para este post | Comentários (7)



domingo, 30 de janeiro 2011

Do MinC 1 ao Minc2: a Cultura e a Retórica da Gestão no Brasil

Na discussão sobre o furdunço gerado a partir da remoção da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura—debate que gerou ótimos textos ou entrevistas, como a de Sérgio Amadeu ao Luiz Carlos Azenha, o de Marco Aurélio Weissheimer e, de um outro ponto de vista, o de Lady Rasta--, fica nítida uma coisa e nem tão nítida mais uma, pelo menos. É claro que há, no Ministério de Cultura atual, um certo grau de ruptura, tanto no discurso como na prática, com a gestão anterior (que é uma só, Gil/Juca). Ruptura comparável não se observa nem mesmo nos ministérios maiores e mais ricos que passaram do PMDB para o PT, como Saúde e Comunicações.

ana-de-hollanda-2-300x300.jpg Menos óbvio é o fato de que a coalizão que sustenta a Ministra Ana de Hollanda é heterogênea, e dizer “a Ministra do ECAD” é tão falso como foi o retruque da própria Ministra, quando afirmou que “a relação que tenho com o ECAD é a mesma que têm Gil, Chico, Caetano”. A assertiva da Ministra não procede pelo menos por duas razões. Ela não representa—com todo o respeito—, como autora, o mesmo que os três citados, é óbvio. Isso tem consequências enormes para a questão dos direitos autorais. O segundo motivo é que ela não mantém, com as posições defendidas pelo ECAD sobre os direitos de autor, a mesma relação que mantém, por exemplo, Gilberto Gil. Essa é a questão.

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Para constatá-lo, basta ler o discurso de posse da própria Ministra, em especial o décimo parágrafo, em que ela, em clássico ato falho freudiano, afirma o que não eliminará do Ministério:


É claro que vamos dar continuidade a iniciativas como os Pontos de Cultura, programas e projetos do Mais Cultura, intervenções culturais e urbanísticas já aprovadas ou em andamento – como as ações urbanas previstas no PAC 2, com suas praças, jardins, equipamentos de lazer e bibliotecas. E as obras do PAC das Cidades Históricas, destinadas a iluminar memórias brasileiras. Enfim, minha gestão jamais será sinônimo de abandono do que foi ou está sendo feito. Não quero a casa arrumada pela metade. Coisas se desfazendo pelo caminho. Pinturas deixadas no cavalete por falta de tinta.

Afirmações sobre o que você não vai interromper no governo são comuns quando a oposição ganha as eleições. Você quer assegurar ao cidadão que as coisas boas da gestão anterior serão mantidas. Não fazem muito sentido quando a situação ganha, especialmente num caso como o do Brasil 2010, em que tudo na identidade da candidatura Dilma dizia que ela era a situação, a candidata de Lula. No entanto, no Ministério da Cultura, o discurso de posse oferecia um rol de não-mudanças. A função da lista era falar/calar o que, sim, ia mudar na prática do Ministério.

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Um balanço do que fez a gestão Juca/Gil na Cultura está fora do escopo e até das possibilidades deste post, mas uma coisa deveria ser mencionada na transição entre o MinC Lula e o MinC Dilma. Seja qual for sua opinião sobre o trabalho anterior (e a minha é positiva, por mais que eu veja uma ou outra coisa que criticar), um dos traços inegáveis da gestão Juca/Gil foi retirar a discussão acerca de qual conteúdo cultural privilegiar--debate histórico da esquerda brasileira quando se tratava de cultura—e enfocar-se preferencialmente na criação de condições políticas, econômicas e jurídicas para a circulação de cultura, independente de seu conteúdo. É uma diferença chave.

No primeiro modelo, você tende a ficar preso em debates sobre se o samba de roda (e não o funk carioca, por exemplo) deveria ser merecedor de incentivo estatal; debates sobre o que é cultura legitima ou autenticamente brasileira; sobre qual conteúdo, enfim, deve ter a cultura para que ela seja amparada no Ministério. No segundo modelo, nada disso importa. Trata-se de criar condições para que toda e qualquer iniciativa cultural circule com maior amplitude possível, sem impedimentos de ordem econômica ou jurídica. É neste contexto que entendo iniciativas como o incentivo aos Pontos de Cultura, ao Creative Commons e ao software livre, além de várias outras ações do Ministério Gil/Juca como os mencionados na Carta Aberta da Cultura Digital à Dilma e à Ana de Hollanda: o Fórum de Mídia Livre, o Fórum da Cultura Digital, a iniciativa de revisão da lei de direitos autorais, a recusa a propostas irracionais de criminalização da rede, a construção do Marco Civil da Internet e a rejeição ao ACTA .

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O incrível, então, é que, no Ministério Juca/ Gil, a Cultura deixa de ser focalizada em termos de conteúdo, e passa a ganhar mais relevo a questão legal-econômica. Daí o discurso, audível em algumas comarcas, de que o Ministério da Cultura teria se "hipertrofiado", tucanês para "metido o bedelho em coisa que não é de sua conta". A abordagem passa a genuinamente incomodar interesses privados de apropriação dos bens culturais. Sobre o papel da rede mundial de computadores nesse processo (tema de uma canção do ex-Ministro, aliás), basta ler os textos do Professor Sérgio Amadeu, autoridade no assunto, para entender por que a gestão Gil / Juca contraria interesses transnacionais poderosíssimos.

Estava, como sempre, corretíssimo ao dar a notícia o Renato Rovai, quando anunciou em 1ª mão que a nomeação de Ana de Hollanda representava a vitória de um grupo petista que havia bancado seu nome. No Rio de Janeiro, a expressão maior, não é segredo para ninguém, é Antonio Grassi, grande nome da teledramartugia que também é muito conhecido, respeitado, dentro do PT, com grande capilaridade no partido, por motivos óbvios: é um petista histórico, que faz campanha desde sempre. Conta também com nítida simpatia em setores dos grupos de mídia brasileiros.

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O curioso é que o fundamental da frente que torna possível a candidatura de Ana de Hollanda passa pelo PT, mas não do Rio, embora, reitero, a notícia do Rovai tenha sido exata: a chancelaria imediata do nome Ana de Hollanda tinha importante âncora em Grassi. Há uma chancela que atravessa a máquina partidária e que, no caso do MinC Dilma, remete a nomes paulistas e mineiros (para não ir mais longe, não é segredo que Fernando Pimentel é muito próximo a Dilma, nem que Palocci é uma chancelaria e ancoragem forte). E há também uma liga que é a que realmente entra em interlocução com Dilma no processo MinC, uma liga baiana. Nesse grupo, destaque-se um nome próximo a Dilma, que tem por bons motivos o respeito da Presidenta, e a quem ninguém com bom senso negaria a condição de um grandes pensadores da cultura brasileira. Falo de Antonio Risério, que compartilha, quase todos reconhecem isso, muito mais com os valores, concepções, pautas e inspirações do Ministério Juca/ Gil do que com aqueles do Ministério Ana de Hollanda—embora, por ruptura pessoal, dolorosa e complicada de se analisar no Minc 2004, as relações de Risério com Gil, e deste com um amigo muito próximo de toda a vida, Roberto Pinho, tenham se estremecido.
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(sobre as acusações feitas na época a Pinho, e nas quais um irresponsável jornalismo alinhado com os poderosos teve o seu papel, diga-se o seguinte: a apuração do blog indica que não houve jamais corrupção pessoal. Portanto, qualquer condenação a Pinho antes que ele tenha a chance de responder as acusações da PF tem o meu repúdio e não é permitida neste blog; acerca do evento que as envolveu, limite-se aqui a registrar que os que conhecem o ex-Ministro sabem que ainda é motivo de dor para Gil).

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Mas, se a notícia de Rovai estava certa—i.e., a ascensão de Ana de Hollanda foi vitória de grupo petista, e se a política do atual Ministério indica que vai capar, decepar, castrar a mais ousada característica da gestão Juca/ Gil, como é possível explicar esse paradoxo, o de que o PT tenha passado a ser representante de uma visão privatista de cultura, e de que um pensador bem mais afim a Gil que ao privatismo, histórico partícipe de campanhas do PT, tenha cumprido um papel nessa transição? É mais complexo do que parece, porque vários setores do PT (para não ir mais longe, o PT-BA, partes--minoritárias-- do PT-MG, incontáveis petistas que trabalharam no Minc anterior) favoreciam a permanência de Juca Ferreira ao leme, embora ambos ex-Ministros sejam filiados ao PV. Esse setor não se articula muito bem no processo.

Este é um dos nós da transição do Minc 1 ao Minc 2: a heterogênea frente que torna possível a nomeação de Ana de Hollanda.

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Na nomeação para o Ministério da Cultura, a Presidenta entendia—com muito boas razões, diga-se—que se tratava de uma boa pasta para contribuir ao contingente feminino na Esplanada dos Ministérios. Sabendo que o PMDB não vai nomear mulher nenhuma, já tendo os nomes dos Mantega e Palocci para uma série de pastas, e comprometida com a questão, não é de se surpreender que Dilma tenha reservado atenção ao MinC no que se refere a gênero. Nesse contexto, o principal nome a aparecer para apreciação foi o da historiadora e pesquisadora mineira Heloísa Starling. Por várias razões que têm a ver com a composição da frente artística e de cultura de apoio à Dilma, e também com o estado de esfacelamento do PT mineiro—e o blog realmente não apurou até que ponto a Profa. Heloísa quis ser Ministra, em todo caso--, o fato é que o nome da Professora Titular da UFMG não foi adiante.

Ao longo da campanha, outras figuras da cultura tiveram presença importante, como Emir Sader, professor/ editor com históricas ligações com a militância do PT, recém nomeado por Ana de Hollanda para dirigir a Fundação Casa de Rui Barbosa, e chave na organização de importante evento de virada, o ato dos artistas e intelectuais em apoio a Dilma, no Rio de Janeiro.

Estava ali presente uma enorme lista de apoiadores de Dilma na música, no cinema, na TV, na literatura, na universidade, nas artes plásticas. Surpreendente para os mais incautos, também estava no gigante evento alguém de campo claramente antagônico às políticas da gestão Gil/ Juca: Barretão, ou Luiz Carlos Barreto, produtor importante sempre que se fala em política cultural no Brasil. Por boas razões, Barretão passou a ser visto como uma espécie de metonímia dos interesses dos grandes grupos áudio-visuais em geral, e da Globo em particular, quando se discute a formulação de políticas públicas para a cultura no Brasil.

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Antes da nomeação do novo MinC, um grupo de artistas se mobilizou pela permanência de Juca, o #ficaJuca bombou no Twitter, mas no mundo real as coisas seguiam outro curso. Isso era, em parte, coerente com a própria filosofia implantada na gestão Gil/Juca, o privilégio às ações disseminadas, rizomáticas, sem comando, confiantes no espontaneísmo geek. Em meio à briga cerrada, de foice, entre macacos velhos que é o processo de nomeação a um Ministério com hegemonia em disputa, convenhamos que não costuma ser a tática mais apropriada. Juca foi presa fácil para a coalizão—heterogênea--de interesses que se reuniam contra ele.

Do ponto de vista das pautas que o Ministério Juca passou a representar, que é o mais importante—e não conheço melhor resumo delas que a carta do pessoal da Cultura Digital à Dilma e à Ana de Hollanda--, muita coisa ainda pode ser feita. Ter claro quais são essas pautas e forçar o atual Ministério a colocá-las em discussão de forma aberta seria um bom começo. Entender que nem todos os setores que bancam a nova Ministra compartilham o compromisso de eliminar ou desqualificar essas pautas seria importante também.

Mas não há dúvidas de que muita coisa, a partir de aqui, será morro acima.

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PS 1: Fotos de Ana de Hollanda e Antonio Risério.

PS 2: Natalia Viana organizou histórica entrevista popular com Julian Assange, reproduzida por inúmeros blogs. À la Blog da Petrobras, ela também publicou as outras 350 perguntas recebidas. O mais recente material Wikileaks mostra amplamente a ignomínia que foi o papel de Heráclito Fortes como informante da embaixada dos EUA. Parabéns ao povo do Piauí por jogá-lo à lata de lixo da história. A jornalista Natalia Viana concorre na 7ª edição do Troféu Mulher Imprensa e tem o apoio desta bodega. Vote nela aqui.

PS 3: O grande especialista em Pedro Nava, meu amigo e mestre Antonio Sérgio Bueno, oferece curso sobre a obra do memorialista na Livraria Mineiriana, da Savassi, nas quatro quartas-feiras do mês de março, com início às 19:30 hs. Reservas de vagas com Tião (03197647073) ou Janaína (03184795556). Se estás em BH, te liga.



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terça-feira, 25 de janeiro 2011

Insustentável sustentabilidade, por Marjorie Rodrigues

Ano passado, fui a um evento em que várias bandas nacionais e internacionais se apresentaram numa fazenda no interior de São Paulo. Para assistir aos shows, era necessário comprar um ingresso que custava, se não me falha a memória, trezentos reais. Isso para ficar a vários metros de distância dos palcos. Quem quisesse ver as apresentações de perto, num cercadinho chamado de área VIP, teria de pagar o dobro. É mais do que o atual salário mínimo brasileiro, de R$510. Lá dentro, a água custava 6 reais, a cerveja uns oito. O evento foi patrocinado por quatro empresas: duas multinacionais do ramo de bebidas, uma multinacional do ramo de alimentos e uma nacional do setor de telefonia.

Tem toda a cara de um festival de música como outro qualquer, voltado para consumidores de classe média/alta, certo? Errado. Segundo os organizadores e os patrocinadores, o que estava acontecendo não era um show, bobinho, era um movimento social pela conscientização ambiental, chamado “starts with you” (começa com você). Oi? Movimento social. Tipo o feminista, o negro, o indígena e o sem-terra, sabe? Mesma coisa.

Uma das multinacionais do setor de bebidas que patrocinaram o evento foi multada em 47 milhões de dólares por poluir lençóis freáticos na Índia. Ela produz uma bebida com 18 colheres de açúcar a cada dois litros. Apenas uma de suas usinas de engarrafamento no Brasil é capaz de produzir 27 mil garrafas por hora. Outra das patrocinadoras engarrafa milhões de litros de água mineral, mesmo que muitos governos locais já tratem a água e a ofereçam gratuitamente aos cidadãos (e sem garrafa). Para competir com a água tratada e gratuita nos países onde ela é disponível, a propaganda classifica a água engarrafada como “mais confiável”, o que nem sempre é verdade.

Entretanto, nos telões do festival, ambas as empresas alardeavam sua preocupação em manter operações sustentáveis, na medida em que reciclam e/ou reutilizam parte das garrafas PET desnecessárias que produzem. A mensagem era clara: “já estamos fazendo a nossa parte, agora faça você a sua. Starts with you! Feche a torneira ao escovar os dentes, desligue os aparelhos eletrônicos da tomada quando sair de casa e seja um consumidor consciente”. E, com "consumidor consciente", lá vem a mensagem subliminar: “ao comprar um refrigerante de uma empresa responsável como a nossa, você está ajudando o planeta. Não compre dos outros, compre da gente!”.

Nesta semana, em São Paulo, a maior editora de revistas do Brasil promove, pelo quarto ano consecutivo, um evento de sustentabilidade. A mensagem é a mesma do SWU: feche a torneira, faça xixi durante o banho, use os dois lados da folha sulfite, apague a luz. Decorando o evento, esculturas de papelão feitas com as bobinas que envolvem os rolos de papel utilizados na fabricação das revistas. E aí as pessoas vão passeando por ali e pensando “uau, que legal! Um material que normalmente seria jogado fora serviu para produzir algo belo!”. E eis que a editora de revistas se sai como uma puta empresa bacana. Mas ninguém pára para pensar, afinal, para quê todas aquelas bobinas de papel sequer foram produzidas. Ninguém se faz aquela perguntinha do Caetano: quem lê tanta notícia? A humanidade precisa mesmo de tanta revista? Pra quê tanto papel para falar dez mil vezes a mesma coisa? Não parece um contrassenso pagar de gatinho da sustentabilidade reciclando e reutilizando toneladas de papel que foram usados, principalmente, para estimular o consumo? Afinal, hábitos de consumo são a principal coisa vendida por esse tipo de veículo em particular, a revista.

Citei esses dois exemplos, mas poderia citar outros vários. Cada vez mais empresas, de todos os ramos do mercado, têm se apropriado do discurso da sustentabilidade ou patrocinado eventos de “conscientização”. E isso não é à toa. Nada mais insustentável do que o discurso da sustentabilidade. Trata-se de um discurso deliberado de alienação, que foca a resolução da questão ambiental sobre as nossas pequenas ações cotidianas e não sobre a raiz a ser extirpada: o modelo de produção e consumo vigente. É claro que nossas pequenas ações cotidianas têm sim seu peso (ninguém está dizendo que fechar a torneira enquanto escovamos os dentes é uma coisa ruim), mas vamos combinar: não somos nós que jogamos milhões de litros de óleo no Golfo do México. Não somos nós que poluímos ar e água com substâncias cancerígenas. Não somos nós os responsáveis por socar partículas de sacolinhas e garrafas PET no bucho dos animais marinhos. Então, não é à toa que tantas empresas que nunca deram a mínima para o meio-ambiente de repente tenham virado sustentáveis desde criancinha. Não é à toa que o nome do tal festival, ou melhor, do “movimento social”, é starts with you. Começa aí com você, seu trouxa. Afinal, enquanto a gente fica aqui criando consciência, as grandes empresas, responsáveis pelo grosso do problema, ganham tempo. Adia-se mais um pouco o debate sobre a sociedade de consumo que construímos.

Outro problema desse discurso da sustentabilidade, tão em voga, tão na moda, é que ele nos convida a ser benevolentes com o planeta, quase como se estivéssemos lhe fazendo um favor: “salve a planeta! Salve os ursos polares! Salve as florestas!”. Meu filho, a questão é salvar a nós mesmos. É o nosso que tá na reta. O planeta se vira sem a gente. Se isso aqui virar tudo uma grande sauna inabitável, o planeta continua existindo. Numa boa. Como todos os outros planetas inabitáveis universo afora. Não é a Terra que vai se foder (pode palavrão aqui, Idelber?), é você. Você.

O terceiro (e, muito provavelmente, não o último) problema desse discurso é que ele limita a nossa esfera de ação ao consumo. O único poder das pessoas de salvar o planeta (e não a si mesmas) é enquanto consumidoras, nunca enquanto cidadãs, nunca através do fazer político. Enfiamo-nos nessa enrascada consumindo e consumindo sairemos dela. É apenas uma questão de mudar o jeito como se consome, tornando-se um consumidor “responsável”. Mas o que é ser um consumidor responsável? Ora, é consumir na mesma quantidade e das mesmas empresas de sempre (como as patrocinadoras do SWU...), só que com a consciência tranquila porque as empresas estão reciclando uma coisinha aqui e ali, utilizando circuito fechado de água numa fábrica aqui, noutra ali. Ah, e enquanto você consome uma coisa e outra, apague a luz.

Mas devo chamar atenção para uma coisinha mais. É que muitas empresas inserem o pilar social no seu conceito de sustentabilidade. E aí, a meu ver, mora um grande, gigantesco perigo. Através de fundações e institutos associados ao terceiro setor, empresas privadas querem substituir o Estado, tomando para si atividades que devem ser de responsabilidade dele (como educação, saúde, combate à pobreza, etc). Ou então, sequestram o rótulo de sociedade civil e passam a dizer ao Estado quais são as necessidades das comunidades, o que deve ser feito e como. Essa do SWU assumir o rótulo de “movimento social”, por mais ridículo que pareça, é uma coisa que as fundações e institutos, associados ao terceiro setor, já têm feito há tempos. Aí, o próprio Estado passa a dar dinheiro a empresas privadas, para que o capital se encarregue de dar um tapa nas desigualdades que ele mesmo gera.

Por isso, desconfio de toda e qualquer empresa que vem com discurso sustentável para cima de moi. Não votei em Marina, por mais que simpatize com vários aspectos de sua biografia e atuação política, justamente por causa disso. Pode me chamar de comunista barbuda, mas a solução dos problemas gerados pelo capital não virá pelas mãos do próprio capital. Há uma óbvia incompatibilidade de interesses. A mobilização, querido, realmente starts with you: não são as empresas que têm de criar consciência na gente. É a gente que tem de criar consciência, coletivamente, sem mediação privada alguma. É a gente que tem de questionar o modo como se vive, a maneira como as coisas são produzidas e, a partir daí, peitar as empresas.

PS – Mais um obrigada gigante ao querido Idelber pelo convite para escrever aqui, mesmo que a minha escrita seja assim, tão mequetrefe.

PPS – Agora o merchan. Blog: www.marjorierodrigues.com e twitter: www.twitter.com/marjerodrigues



  Escrito por Idelber às 13:55 | link para este post | Comentários (113)



sábado, 22 de janeiro 2011

No Brasil "não-somos-racistas", mais um negro é espancado gratuitamente. Que não fique impune

Hudson Carlos de Oliveira não é qualquer um, no sentido de que não é um belo-horizontino desconhecido. Hudson é diretor do Centro de Referência Hip Hop Brasil e educador na área de artes, responsável pelo projeto Hip Hop Educação para a Vida. Tudo o que fez Hudson foi adentrar um bar no bairro de Santa Efigênia, zona leste/central de BH em 28 de novembro de 2010. Só isso. Conhecido que era do garçom—como é conhecido de zilhares de outros belo-horizontinos, amigos meus inclusive--, Hudson se aproximou dele para saudar, conversar, tirar um dedo de prosa. Foi o suficiente para que sete covardes pitboys (incluindo gente com carteira da OAB) que faziam ali um churrasco de aniversário partissem para a agressão verbal, a acusação de que Hudson “queria comer da carne” deles, e logo depois o espancamento físico. Segundo matéria do Estado de Minas, Hudson teve o maxilar deslocado, afundamento dos dentes, fratura da clavícula e ferimentos nas pernas e braços. A foto não deixa dúvidas:

hudson.jpg


Mas a manifestação do Brasil ”não-somos-racistas” não parou aí. Depois de se dirigir sangrando ao Primeiro Batalhão de Polícia Militar, Hudson foi indicado como agressor no boletim de ocorrência feito por policiais militares da 3ª Cia do 1º BPM, enquanto os espancadores negavam o fato. Em 01/12/2010, um dia depois da matéria do EM, entrava no YouTube o depoimento de Hudson, também conhecido no mundo hip hop de BH e do Brasil como Ice Band:


Hudson é casado com a jornalista Janaína Cunha e eles têm um filho de cinco anos.

O caso se encontra agora em fase de inquérito policial, que irá ao Ministério Público. É sabido, e há várias testemunhas, que Ice Band foi agredido por ser acusado de “penetra” numa festa particular que se apropriava de uma via pública. É sabido que foi agressão covarde, de sete contra um. É sabido que apenas dois desses agressores estiveram na 3ª Cia do 1º BPM enquanto, incrivelmente, um Hudson espancado e sangrando era citado no B.O. como agressor.

É imperativo que todos os covardes sejam indiciados. Pelo caráter discriminatório do ato que motivou o crime, é visível sua condição de delito racista. Pela sanha covarde que se manifestou no crime, vários profissionais do Direito e da Justiça consultados pelo blog concordam que ele é enquadrável como tentativa de homicídio e não simplesmente lesão corporal—e Hudson ouviu, sim, e há testemunhas disso, a frase mata que é bandido durante o espancamento.

O Biscoito Fino e a Massa espera que a Justiça, Dra. Janice Ascari, Dr. Amilcar Macedo, Dr. Túlio Vianna, não se omita neste caso.

Há uma moção de repúdio que você pode assinar aqui na caixa do Biscoito, enviando-me um email (e eu encaminho seu nome à Janaína), ou escrevendo para minajcm arroba yahoo ponto com ponto br e/ou crh2b arroba yahoo ponto com ponto br.

Hudson está se recuperando e no próximo dia 18 retira o aparelho que ainda traz na boca.

Atualização: quem quiser assinar a moção escreva diretamente a um dos dois emails acima ou assine aqui na caixa, já que o blogueiro ficará longe da net uns dias, sem responder emails.



  Escrito por Idelber às 02:58 | link para este post | Comentários (132)



quinta-feira, 13 de janeiro 2011

Paulo Bernardo, a regulação da mídia e o novo Ministério das Comunicações

Em dezembro, alguns dias antes da confirmação de Paulo Bernardo, enviei um tuíte celebrando o “cheiro de araucária” num renovado Ministério das Comunicações, de “tato e firmeza”. Estas duas características, aparentemente contraditórias, são as que considero fundamentais para o Ministério neste momento histórico. O petista paranaense assumiu aquela que será a pasta politicamente mais difícil do novo governo, e tudo o que vi até agora do Ministro—a quem acompanho há algum tempo—fortalece a minha ótima expectativa inicial. Ele esteve ontem no programa 3 por 1, apresentado pelo jornalista Luiz Carlos Azedo. Os outros entrevistadores eram Elvira Lobato, da Folha de São Paulo, e Samuel Possebon, da Revista Teletime.

paulo_bernardo.jpg



Já de cara, me chamou a atenção uma declaração de Paulo Bernardo acerca do debate que envolve a regulação da mídia: não podemos controlar o grau de beligerância com que vai se dar essa discussão. A tendência, sabemos, é que se acentue a beligerância. Por um lado, grande parte da mídia brasileira tem horror a ouvir falar de “regulação”, e faz o possível para associar a ideia à “censura”, mesmo que já seja amplamente sabido que regulação não tem absolutamente nada a ver com controle prévio do que pode ou não ser publicado ou mesmo televisionado. Por outro lado, na base de sustentação do governo, há uma compreensível tendência a se radicalizar: produto da frustração com décadas de mídia concentrada e alinhada com os mais poderosos. Essa radicalização tem levado, em algumas comarcas, a estratégias que considero equivocadas, como a de se criticar a cautela do Ministro com o tema, como se o governo estivesse se acovardando.

A referência à experiência argentina e sua ley de medios pode ser uma rica comparação, mas pode também nublar, mais que esclarecer, caso essa experiência vire um fetiche. Nos últimos dias, ao ver no Twitter a pergunta o Ministro é ou não é a favor da ley de medios? tive a sensação de que muitas vezes não se sabe muito bem do que se está falando quando se evoca a lei argentina. Afinal de contas, todos os principais elementos da lei—limitação à propriedade cruzada na mídia, limitação à concentração, regulamentação do direito de resposta, criação de uma agência reguladora—têm sido tratados com bastante clareza pelo Ministro. Faltando a paciência para se ler a íntegra da lei argentina linkada acima, que se leia pelo menos um breve resumo. Ver-se-á que o encaminhamento da discussão pelo Ministro está contemplando a essência do que se convencionou chamar "ley de medios".

Esses temas voltaram a aparecer na entrevista da TV Brasil, na qual o Ministro: 1) defendeu o fim das concessões de rádios e TVs para deputados e senadores (apesar da compreensão de que isso seria de dificílima aprovação no Congresso); 2) defendeu a redução do grau de concentração de propriedade da mídia, com a ressalva de que o governo não pode quebrar contratos e não pode enviar ao Congresso leis de efeito retroativo—ou seja, qualquer ajuste teria que ser feito no momento de renovação das concessões; 3) defendeu a constituição de uma agência que opere com autonomia e que se encarregue da regulação da mídia.

Merece todo apoio a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) que move Fábio Konder Comparato contra o Congresso Nacional, pela não regulamentação dos artigos da Constituição de 1988 que lidam com o tema. Mas apoiá-lo, e forçar o governo Dilma à esquerda, não implica pressupor que Paulo Bernardo “tem medo da Globo”, inclusive porque essa leitura se nutre de uma falsidade disseminada pela própria mídia dos oligopólios, a de que o Ministro teria “enterrado” o projeto de regulação preparado por Franklin Martins (quando, na verdade, ele simplesmente disse o óbvio, que o projeto deve ser discutido pela sociedade!).

O Ministro confirmou que a orientação da Presidenta Dilma é que se trate com atenção o tema das rádios comunitárias—uma área na qual o governo Lula poderia ter se saído melhor. Paulo Bernardo também falou longamente sobre o Plano Nacional de Banda Larga, reiterando a possibilidade de parceria entre a Telebras, o BNDES e os pequenos provedores para uma massificação considerável do acesso à internet a bons preços (R$30 a R$35).

A expectativa deste blog para o setor é positiva. A estratégia deve ser o aprofundamento das iniciativas de democratização, mas sem simplismos que sugiram que o governo está se acovardando cada vez que o Ministro coloque o tema em debate com tato e ponderação. Radicalizemos nós, aqui embaixo, quando for o caso. Mas, de preferência, com a cabeça no lugar. Este jogo vai durar bem mais de 90 minutos.



  Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post | Comentários (29)



segunda-feira, 10 de janeiro 2011

Talvez seja hora de rebatizá-lo "O Sonho Sul-Americano", por Arianna Huffington

Tradução de Paula Marcondes, revisão de Idelber Avelar. Original aqui, do dia 22/12/2010.

arianna_huffington.jpgOntem, escrevi sobre o principal “ganho” da minha viagem à América do Sul - como Chile e Brasil, os dois países que estou visitando, em questões chave como derrotar a pobreza, têm transcendido a desgastada divisão entre esquerda e direita, na qual os Estados Unidos parecem estar irremediavelmente se afundando.

Após um tempo no Chile, peguei um avião para o Brasil, que está em meio a uma expansão econômica --o boom brasileiro. É um boom ainda mais notável porque os problemas do Brasil foram vistos como intratáveis durante muito tempo: alta inflação, alta taxa de criminalidade, desigualdade social, alta taxa de natalidade. É como a velha piada, que dizia: "O Brasil é o país do futuro--e sempre será." Bem, o futuro finalmente chegou.

A virada começou com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, um ex-ativista sindical, de esquerda. Quando ele assumiu o cargo, a elite do país temia uma versão brasileira de Hugo Chávez. Mas ele se mostrou menos um ideólogo que um pragmático. "Eu não sou esquerda ou direita", dizia ele. "Sou metalúrgico." Agora, preparando-se para deixar o cargo no próximo mês, ele sairá com uma taxa de popularidade de 80,5%.

Durante seu tempo no cargo, o número de brasileiros que vivem na pobreza caiu de 49 milhões para pouco menos de 29 milhões. Embora o Brasil ainda tenha uma das maiores disparidades de renda do mundo, o país está à beira de atingir o nível mais baixo da desigualdade já registrado em sua história.

De acordo com um estudo coordenado por Marcelo Neri, que dirige o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, entre 2001 e 2009, a renda per capita dos 10% dos brasileiros mais ricos cresceu 1,5% ao ano, enquanto a renda dos 10% mais pobres cresceu 6,8%. "O aspecto mais surpreendente dos dados", Neri disse quando jantamos na noite de domingo, "é que a maioria dos grupos historicamente mais desfavorecidos, incluindo os negros e aqueles que vivem no norte do Brasil, experienciou o maior crescimento de renda."

Entre os outros grandes sucessos presididos por Lula: os salários subiram mais de 5% durante seus dois mandatos; o desemprego foi reduzido pela metade; os jovens estão permanecendo mais tempo na escola; a taxa de inflação passou de 12,5% ao ano para 5,6%; as exportações mais que triplicaram; e o Brasil é agora a oitava economia do mundo, a caminho de crescer 7,5% este ano.

"Os números são fortes", disse Nelson Barbosa, secretário executivo do Ministério da Fazenda, disse no almoço da terça-feira, "mas devemos julgar o sucesso das políticas econômicas não só pelos números, mas pelo impacto que elas têm sobre o cotidiano das pessoas."

Eu tive uma pequena amostra desse impacto hoje, quando visitei uma das escolas que faz parte do Projeto Guri, um programa em grande parte financiado pelo governo, e criado para ensinar música a crianças na sua maioria carentes. Eu fui a uma apresentação de 40 crianças. Falando com elas depois, fiquei tocada ao ouvi-las falarem sobre como o programa--e o vínculo com a música--havia mudado suas vidas. Algumas descobriram a disciplina. Algumas exploravam uma nova paixão pela música. Algumas falaram sobre como o programa lhes ajudou a permanecer longe de situações de risco em bairros perigosos. Uma menina se encheu de lágrimas, me contando como os alunos se tornaram uma família uns para os outros. "Muitas dessas crianças", me disse um dos professores de música, "trocaram as armas por instrumentos musicais. E os professores têm substituído os traficantes de drogas como os seus modelos."

Um dos programas mais bem-sucedidos de combate à pobreza é a iniciativa do "Bolsa Família". Nesse programa, as famílias pobres recebem diretamente uma quantia em dinheiro (através do uso de cartões de débito) se continuarem a cumprir determinados requisitos, como mandar os filhos à escola e garantir que eles consigam vacinação periódica e revisões médicas. Mais de 12 milhões de famílias estão inscritas no momento.

O programa, que Lula ampliou quando tomou posse, foi quase universalmente defendido pelos candidatos de todo o espectro político na última eleição. E foi exportado para vários países-- incluindo os EUA, onde é ele modelo para o "Oportunidade NYC", em Nova York.

Como no Chile, grande parte da melhoria econômica do Brasil se dá porque o governo criou condições que permitem que o setor privado prospere. Como disse Marcelo Neri: "Temos mantido um equilíbrio--combinando compromisso público agressivo para enfrentar as questões sociais com responsabilidade financeira e o respeito pelo que o setor privado pode fazer."

Franklin Martins, o Ministro da Comunicações que está de saída, reiterou isso. "Um dos grandes sucessos de Lula", ele disse, "foi fazer de certas questões, como o combate à pobreza, parte de uma agenda nacional compartilhada - aceita como tal pelos dois maiores partidos políticos. Isso inclui compromisso com uma moeda sólida e com o tipo de crescimento econômico que nos permita cumprir a nossa meta de aumentar a inclusão social. Essa obrigação de ajudar nossos pobres não é mais limitada a um determinado partido.” De fato, durante a última campanha, o candidato conservador à sucessão de Lula pediu um 13º salário para o "Bolsa Família"--na verdade, tentando ser mais lulista que o partido de Lula.

Durante o jantar na casa do Armínio Fraga, no Rio, com sua esposa e dois filhos (que estão fazendo doutorado em Nova York), o compromisso de reduzir a pobreza e o sofrimento surgiu como um objectivo aceito tanto por Armínio, que era o Presidente do Banco Central do Brasil durante o governo conservador que antecedeu Lula, e sua esposa, Lucyna, que tem trabalhado incansavelmente para a Amigos do Renascer, uma ONG que ajuda a fornecer acesso a cuidados de saúde para crianças carentes. "Quando Armínio era presidente do banco", Lucyna me disse, "nós tivemos a primeira arrecadação de fundos para o Renascer aqui em casa." Isso pode não ser notável nos EUA, mas no Brasil, onde a filantropia ainda não é tradicionalmente uma grande parte da cultura, foi notável--colocando os holofotes sobre as vidas dos milhões que estavam fora do radar das elites do país.

É por isso que eu queria especialmente conhecer Milu Villela, a maior acionista do Banco Itaú, o segundo maior banco no Brasil, que tem sido pioneira na promoção da filantropia e do voluntariado--especialmente entre os jovens do Brasil. "Desde 1995", ela disse, "o voluntariado tem sido a minha vida. Criei um centro de voluntários e fiz contato com centenas de empresas e indivíduos no Brasil, pedindo que ele dessem algo de volta às artes, à educação ou ao meio- ambiente. Temos um longo caminho a percorrer."

Entre todas as mudanças no Brasil, a mais transformadora é o número de pessoas que entraram na classe média. Entre 2003 e 2009, 29 milhões de pessoas deram esse passo na escada socioeconômica, e mais da metade da população é hoje considerada de classe média. Como coloca um estudo intitulado "A Nova Classe Média Brasileira": "O Brasil está se tornando uma nação de consumidores, comprando carros, computadores, e casas a vista ou a crédito." De fato, há 1.000 novos carros nas estradas todos os dias só em São Paulo (o lado negativo desse consumismo robusto: o tráfego na cidade é horrível. A infra-estrutura exaurida não acompanhou o boom econômico). Como resultado dos bons tempos econômicos, os brasileiros têm uma visão extremamente otimista sobre seu futuro.

Na verdade, em muitos aspectos o Brasil se tornou um negativo fotográfico dos EUA. Os brasileiros estão cada vez mais vivendo o sonho americano de mobilidade ascendente, enquanto quase dois terços dos estadunidenses não acreditam que seus filhos irão viver uma vida melhor do que eles. "Você conversa com as famílias aqui", disse Armínio Fraga, "e há um senso real de orgulho sobre como seus filhos estão melhores que eles. Você ouve coisas como: 'Eu não tenho computador, mas a minha filha tem.'"

Talvez seja hora de rebatizá-lo o Sonho Sul-Americano.

Mesmo se os EUA permanecerem atolados em sua velha batalha da esquerda contra a direita, países como Chile e Brasil estão reconhecendo que eles não podem alcançar o crescimento econômico e a estabilidade política sem ajudar milhões de pessoas a se moverem da pobreza para a classe média.

Minha jornada na América do Sul deu uma dimensão global à minha antiga crença de que esquerda versus direita é um enquadramento irremediavelmente do século 20. A divisão do século 21 está se desenhando como Norte versus Sul--com o nosso lado cavando o lado errado da história.



  Escrito por Idelber às 19:59 | link para este post | Comentários (20)



sábado, 08 de janeiro 2011

A defesa do indefensável: o caso do “AI-5 gay”, por Paulo Candido

A questão dos direitos dos homossexuais e do combate à homofobia é bastante simples: a direita religiosa não tem argumentos, apenas uma retórica vazia e um discurso que mal esconde seu ódio e sua intenção de impor a moral de uma religião à sociedade como um todo. A campanha contra o PLC 122, chamado por seus detratores de “AI-5 gay”, se baseia unicamente na vontade destes grupos de manter seu suposto “direito à homofobia”, direito assegurado por uma interpretação particular de textos supostamente ditados por uma suposta divindade a um chefe tribal, há alguns milhares de anos em um deserto distante.

Por incrível que pareça, dentre os comentaristas ligados à igreja é Reinaldo Azevedo quem mantém a posição mais liberal. Mesmo assim o comentarista, que gosta de se dizer “partidário da lógica”, é incapaz de tratar a legislação proposta em termos aceitáveis. Como Reinaldo gosta de um vermelho e azul, faço o mesmo aqui com seu artigo mais recente sobre o assunto. Ao contrário dele, por motivos afetivos eu escrevo em vermelho e deixo o texto original em azul (já que pintar texto de arco-íris é complicado demais, os artigos citados do projeto de lei vão em rosa).

A Lei nº 7716 é uma lei contra o racismo. Sexualidade, agora, é raça? Ora, nem a raça é “raça”, não é mesmo? Salvo melhor juízo, somos todos da “raça humana”. O racismo é um crime imprescritível e inafiançável, e entrariam nessa categoria os cometidos contra “gênero, orientação sexual e identidade de gênero.”

Para começar, a Lei nº 7716 não é mais uma lei contra o racismo, é uma lei contra a discriminação. Em sua redação atual, o artigo 1º diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.“ Ou seja, a lei protege vários grupos específicos (negros, indígenas, imigrantes, religiosos etc) contra discriminação e preconceito. A redação proposta acrescenta à lista “gênero, orientação sexual e identidade de gênero.”, estendendo a proteção da lei às mulheres em geral e também aos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

E só para não deixar passar a bola quicando na área, é claro que “raça” não é um conceito biológico como os nossos “positivistas” da democracia racial gostam de propalar. E que o racismo de uma sociedade não deixa de existir quando se demonstra que não há diferença genética entre brancos e negros, por exemplo. Mas isto eu trato em outro post.

Leiam um trecho do PL 122:
Art. 4º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passa a vigorar acrescida do seguinte Art. 4º-A:
“Art. 4º-A Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta: Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco)anos.”
Art. 5º Os arts. 5º, 6º e 7º da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público: Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.”

Para demitir um homossexual, um empregador terá de pensar duas vezes. E cinco para contratar — caso essa homossexualidade seja aparente. Por quê? Ora, fica decretado que todos os gays são competentes. Aliás, na forma como está a lei, só mesmo os brancos, machos, heterossexuais e eventualmente cristãos não terão a que recorrer em caso de dispensa. Jamais poderão dizer: “Pô, fui demitido só porque sou hétero e branco! Quanta injustiça!”. O corolário óbvio dessa lei será, então, a imposição posterior de uma cota de “gênero”, “orientação” e “identidade” nas empresas. Avancemos.

O artigo 4º da lei original diz “Negar ou obstar emprego em empresa privada.“. É óbvio aqui do que se trata: apenas acresce-se a previsão de demissão por discriminação. Ora, nada no texto torna negros, lésbicas ou evangélicos magicamente intocáveis (sempre lembrando que discriminação por religião faz parte do objeto da lei, algo que seus críticos adoram esquecer). Nada impede que os integrantes dos grupos protegidos pela lei sejam demitidos por incompetência ou por necessidades de mercado de uma empresa. O que lei busca impedir é que uma empresa decida demitir um empregado por sua orientação sexual. Ou por sua religião. Ou pela cor de sua pele. Qual o problema? Aliás, a frase “O corolário óbvio dessa lei será, então, a imposição posterior de uma cota de...” é apenas outro artifício do articulista para misturar outro assunto no debate. Por acaso há cotas para negros em empresas privadas? Ou para Testemunhas de Jeová? Pois a lei original está em vigor desde 1997...

“Art. 6º Recusar, negar, impedir, preterir, prejudicar, retardar ou excluir, em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional: Pena - reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos. ”

Cristãos, muçulmanos, judeus etc têm as suas escolas infantis, por exemplo. Sejamos óbvios, claros, práticos: terão de ignorar o que pensam a respeito da homossexualidade, da “orientação sexual” ou da “identidade de gênero” — e a Constituição lhes assegura a liberdade religiosa — e contratar, por exemplo, alguém que, sendo João, se identifique como Joana? Ou isso ou cana?

Exatamente! Isso “dá cana” e é assim que deve ser. A lei impede que a orientação sexual de alguém seja sequer considerada em um processo seletivo. Ou a cor da pele. Ou a etnia. O uso do exemplo extremo, de um travesti se candidatando a uma vaga de professora em uma escola infantil muçulmana, está aí apenas para chocar e esconder a essência do texto, cujo objetivo é claro: impedir que um banco ou um supermercado, por exemplo, desclassifiquem candidatos a vagas por sua orientação sexual. E vale a pena lembrar sempre que a discriminação que cerca os travestis hoje no Brasil praticamente os exclui do mercado de trabalho regular (exceto em ocupações e setores muito específicos).

Art. 7º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes art. 8º-A e 8º-B:
“Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs: Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Pastores, padres, rabinos etc. estariam impedidos de coibir a manifestação de “afetividade”, ainda que os fundamentos de sua religião a condenem. O PL 122 não apenas iguala a orientação sexual a raça como também declara nulos alguns fundamentos religiosos. É o fim da picada! Aliás, dada a redação, estaríamos diante de uma situação interessante: o homossexual reprimido por um pastor, por exemplo, acusaria o religioso de homofobia, e o religioso acusaria o homossexual de discriminação religiosa, já que estaria impedido de dizer o que pensa. Um confronto de idéias e posturas que poderia ser exercido em liberdade acaba na cadeia.

De fato é o fim da picada! Imagine, dois homens se beijando em uma praça pública ou duas mulheres de mãos dadas em um bar não vão poder ser incomodados por um fanático religioso que queira condená-los ao fogo eterno do inferno aos berros! Veja que isto em nada fere os tais “fundamentos religiosos”. Padres, pastores, rabinos podem continuar condenando o homossexualidade entre seus fiéis. Podem continuar considerando pecaminosas as relações homoafetivas. Agora, se o seu “fundamento religioso” exige que você vá a público reprimir in loco o comportamento de pessoas que sequer seguem a sua religião, então nós temos um problema de outra ordem. As democracias ocidentais não permitem o apedrejamento de prostitutas, ainda que o Velho Testamento da Bíblia o exija. Não se permite também a queima de bruxas. Ou a tortura de infiéis. Eu já li que este artigo “impediria o padre de proibir dois homens de se beijarem no pátio de sua igreja”. Ora, basta ler ali, na lei: “sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs” Um casal heterossexual pode se beijar no pátio da igreja? Se a resposta é afirmativa então realmente o mesmo vale para casais homossexuais.

Mas o AI-5 mesmo vem agora:
“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero:
§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.”

Não há meio-termo: uma simples pregação contra a prática homossexual pode mandar um religioso para a cadeia: crime inafiançável e imprescritível. Se for servidor público, perderá o cargo. Não poderá fazer contratos com órgãos oficiais ou fundações, pagará multa… Enfim, sua vida estará desgraçada para sempre. Afinal, alguém sempre poderá alegar que um simples sermão o expôs a uma situação “psicologicamente vexatória”. A lei é explícita: um “processo administrativo e penal terá início”, entre outras situações, se houver um simples“comunicado de organizações não governamentais de defesa da cidadania e direitos humanos.” Não precisa nem ser o “ofendido” a reclamar: basta que uma ONG tome as suas dores.

Em primeiro lugar, vamos combinar que permitir que uma entidade beneficiada por isenção fiscal mantenha programas de televisão pregando o ódio e a discriminação contra um grupo de cidadãos não é tolerável nem “simples”. Qual deveria ser nossa postura se uma igreja qualquer, com base em algum livro considerado sagrado por ela, começasse a pregar que os negros devem ser relegados a serviços braçais por serem inferiores aos brancos? E se outra igreja começasse a pregar o espancamento de mulheres que saiam às ruas sem véu? Por que então devemos tolerar, como contribuintes e como cidadãos, que uma igreja tenha o direito de atacar de forma genérica o homossexualidade e os homossexuais?

Há também outro detalhe: o artigo protege da mesma forma todos os grupos citados. Inclusive os religiosos. Mas infelizmente os religiosos não estão preocupados com a justiça e sim com a manutenção de seu direito sagrado de fazer exatamente o que a lei proíbe, ou seja, praticar, induzir ou incitar a discriminação a homossexuais.

Não há mesmo meio termo aqui. Ou você concorda que há inúmeras formas de expressão da sexualidade humana e que qualquer discriminação por gênero, orientação sexual ou identidade de gênero é inaceitável ou você é obrigado a torcer a lógica até o limite e invocar uma liberdade de expressão ou de religião para proteger seu medo e seu ódio ao outro, ao diferente.

Reinaldo conclui:
O PL 122 é uma aberração jurídica, viola a liberdade religiosa e cria uma categoria de indivíduos especiais. À diferença de suas “boas intenções”, pode é contribuir para a discriminação, à medida que transforma os gays numa espécie de “perigo legal”.

Estranhamente, a lei de 97 não transformou os evangélicos, os negros ou os judeus em um “perigo legal”, transformou? As empresas deixaram de contratar evangélicos por temerem não poder demiti-los? Acho que não.

Como eu disse no início, Reinaldo é uma das vozes conservadoras menos estridentes neste caso. Em outro trecho do mesmo artigo comentado acima ele escreve:

Leitores habituais deste blog já me deram algumas bordoadas porque não vejo nada de mal, por exemplo, na união civil de homossexuais — que não é “casamento”. Alguns diriam que penso coisa ainda “pior”: se tiverem condições materiais e psicológicas para tanto, e não havendo heterossexuais que o façam, acho aceitável que gays adotem crianças. Minhas opiniões nascem da convicção, que considero cientificamente embasada, de que “homossexualidade não pega”, isto é, nem é transmissível nem é “curável”. Não sendo uma “opção” (se fosse, todos escolheriam ser héteros), tampouco é uma doença. Mais: não me parece que a promiscuidade seja apanágio dos gays, em que pese a face visível de certas correntes contribuir para a má fama do conjunto.

Ou seja, ele não tem nada contra a união civil e acha “aceitável” que casais homossexuais adotem crianças (mas não em igualdade de condições, só “não havendo heterossexuais que o façam”). Digamos que em Reinaldo a homofobia é um traço quase imperceptível, escondido sob um discurso marginalmente racional. Sua crítica, ainda que inválida e algumas vezes enganosa, é quase totalmente isenta de argumentos metafísicos e religiosos (observe que o argumento a favor da pregação religiosa não é em si religioso).

Mas a conclusão final de Reinaldo contra o PL 122 é que ele “causa” discriminação. A malícia deste tipo argumento é óbvia: não existe discriminação, é apenas a lei contra a discriminação que “obriga” os outros atores sociais a se afastarem daquele grupo. É um argumento análogo ao argumento contra cotas raciais, elas seriam “racistas”. Como respondeu um líder negro em um debate, por esta lógica você garantir 10% das vagas de uma universidade para afrodescendentes é racista, você não ter nenhum negro naquela universidade não é. Neste caso, permitir que as igrejas continuem a propalar seu discurso de ódio contra os homossexuais, permitir que os LGBT sejam preteridos em contratações e promoções, permitir que homossexuais sejam mortos (ou agredidos em plena Av. Paulista) apenas por sua orientação sexual, isto não é homofóbico. A lei que puniria tais crimes é que causará o surgimento da homofobia em nossa sociedade tão liberal e compreensiva...

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[And Now for Something Completely Different]


Feministas de Fino Trato


Sei que as mais bem preparadas
tendem a ter um perfil mais maduro e discreto,
não gostando de se envolver em quiproquós

Luís Nassif, a vítima disto tudo...

Dezembro no Rio de Janeiro. Madame L., Lady C. e a srta. B., protegidas do calor sufocante pelo ar condicionado da tradicional confeitaria Colombo, tomavam chá. Em seus finos vestidos de tarde e usando apenas jóias discretas (“um colarzinho de pérolas, um brinquinho de brilhantes, nada que chame a atenção”, recomendava sempre Madame L.), as três dedicavam-se à sua principal ocupação vespertina, o feminismo com preocupação social. Naquele dia a pauta dizia respeito a uma tradução recente de "O Segundo Sexo", cuja qualidade questionável ameaçava confundir o movimento, principalmente as mais jovens. Antes, entretanto, as alegres militantes tinham um assunto pendente para resolver. "Aquele menino, N.", comentou L. entre um biscoito de leite e outro, "precisa ser gentilmente esclarecido sobre a etimologia das palavras". "Com certeza," concordou B. num sussurro quase inaudível. B., educada em colégios suíços, raramente levantava a voz além do mínimo necessário para ser ouvida. "Já enviei a ele uma carta", disse C. “Carta?” indagou L. “Sim. Você sabe que acho e-mail uma coisa muito impessoal” continuou C. “Na minha opinião cartas em papel alemão com um pingo de perfume francês são muito mais eficientes para corrigir mal-entendidos”. “Você não escreveu nada muito complexo, não é? Sabe como são estes meninos, eles não entendem...”. “Não se preocupe, querida. Você me conhece”, C. era conhecida por seu didatismo exemplar. "Apenas informo nosso desgosto pelo uso do termo e indico a ele uma ou duas amigas de São Paulo com quem ele poderia almoçar para se informar melhor”. "Ah, que bom", alegrou-se L. "Então não precisamos perder mais tempo com esse assunto chato - ao trabalho, moças. Mas antes, B. me passe mais um desse biscoitinhos? Este não, um daqueles mais fininhos. Adoro esta massa”.

[Quando a discussão degringola em demonstrações públicas e orgulhosas de ignorância, anti-intelectualismo explícito e teorias de conspiração fantasiosas, para não dizer em mentiras, calúnias e assassinato de reputação, as melhores respostas são o silêncio ou a ironia. Até agora o silêncio bastou, mas como se insiste nas táticas típicas daqueles que o próprio Luis Nassif gosta de chamar de “blogueiros de esgoto”, alguma ironia talvez seja necessária...]


PS: Meu email é paulo ponto candido arroba gmail ponto com. No Twitter, PauloCOF.



  Escrito por Paulo às 23:50 | link para este post | Comentários (175)



quarta-feira, 22 de dezembro 2010

Falha de São Paulo: A história da ofensiva judicial da Folha e a mobilização pela liberdade de expressão

Quem defende a liberdade de expressão?

A Folha de São Paulo se lançou a um ataque judicial desproporcionado, autoritário e, acredito eu, tremendamente infrutífero a longo prazo contra dois jornalistas que montaram um site de clara e óbvia paródia do jornal. Trata-se do caso, já conhecido da maioria, da Falha de São Paulo. Mesmo que se considerasse a possibilidade de mérito na reclamação da Folha–que é sobre a apropriação de uma marca--, há que se concordar que todo o processo tem sido marcado por uma enorme e desnecessária truculência. O jornal dá mais um tiro no pé no quesito liberdade de expressão.

Como se sabe, a Falha replicava o formato do produto da Barão de Limeira, avisando, com letras garrafais, ao leitor, que ele chegava à FALHA de São Paulo. As manchetes satirizavam a direitização do jornal, lançando pérolas como Falha definirá em 2010 o que é a liberdade de expressão. O trabalho de Lino e Mario Bocchini era eminentemente paródico, movido por animus jocandi e em nenhum momento “induzia o consumidor a erro”, como afirma o processo [pdf] movido pela Folha da Manhã. A afirmativa de que, além da marca, a Falha utilizava “conteúdo” da Folha—também presente no processo--me parece absurda, posto que em nenhum momento a Falha copiou notícias da Folha. A Folha fez manchetes absurdas. A Falha inventou outras e elevou-as ao quadrado, com efeito cômico. Foi isso.

Lino e Mario esperavam, evidentemente, que o faziam com a mesma liberdade de que gozam Casseta e Planeta ou CQC para parodiar, pastichar e imitar Lula, Dilma, um produto ou o que/quem seja.


Erundina-falha.jpg

Erundina se diverte com Josiane Tucanhêde Otavinho Vader (daqui)

O Caso

A Folha não enviou aos Bocchini, como alternativa ao processo, nenhuma notificação extra-judicial (a solicitação da retirada do conteúdo que supostamente infligiria a lei). Lino e Mario já foram recebendo, de cara, no dia 30 de setembro, o baque da liminar que os obrigava a retirar o site do ar, sob pena de R$ 1.000 diários de multa (na ação, a Folha pedia módicos R$ 10.000). Talvez escaldada pela intimidação judicial ao Arlesophia, caso em que Folha conseguiu, com a notificação extra-judicial, a retirada imediata do conteúdo, mas recebeu terrível publicidade na internet, desta vez eles partiram direto para o processo.

Naquele momento, o Falha oscilava entre 500 e 1000 visitas diárias, não exatamente números altos para padrões de hoje na internet. O processo foi noticiado na Carta Capital, mas o resto da grande imprensa silenciou sobre ele-- a mesma imprensa que bradou horrores sobre a “liberdade de expressão” jamais violada pelo governo Lula com nenhum veículo brasileiro.

Mas a Folha não parou aí. Lino e Mario tiveram o gesto transparente de publicar no seu site a liminar desfavorável, acompanhada de um texto de protesto, informando o leitor do que acontecia. A Folha da Manhã conseguiu, judicialmente, a retirada também dessa publicação. Este material está salvo no Biscoito. Independente dos irmãos Bocchini, há também um Tumblr que reproduz todo o texto do site original, mas sem o trabalho gráfico. Há também, independente deles, um gerador de manchetes da Folha.

No dia 15 de dezembro, foi julgado o Agravo de Instrumento da Falha (pedido de derrubada da liminar que os tirou do ar) e eles perderam por 3 x 0, tendo o magistrado usado a pérola "concorrência parasitária" como justificativa da decisão. O processo continua correndo, e em primeira instância quem julga é Nuncio Teophilo Neto, diretor da Faculdade de Direito do Mackenzie, que concedeu a liminar pra Folha. Em segunda instância, a coisa iria para a mesma trinca de desembargadores que votou com Folha por 3 X 0 no dia 15 de dezembro… O absurdo transcendeu as fronteiras do Brasil e virou matéria na Wired.

Ao longo do processo, Lino e Mario tem mantido uma postura de total transparência. Logo depois da segunda derrota no indefectível judiciário paulista, eles montaram o Desculpe a Nossa Falha. O site tem uma explicação completa do processo, detalhes mais absurdos do texto da ação da Folha (“imparcialidade e objetividade”, alegação de que os irmãos da Falha queriam fazer “explícita e intencional confusão” no leitor etc.), uma lista da repercussão na internet, os pdfs com o processo e a defesa, além de declarações de figuras que vão de Gilberto Gil a Claudio Manoel até mesmo a Marcelo Tas. Gil lembra que "Falha de São Paulo" é uma expressão de Caetano:





Casos comparáveis:

Posto que a alegação da Folha não é a censura à liberdade de expressão mas o uso da marca, vejamos alguns casos comparáveis. Em primeiro lugar, como apontam Lino e Mario, já que os EUA são tão evocados (e, em certa medida, com razão) como paradigma de jurisprudência pró-liberdade de expressão, valeria a pena lembrar o caso Faux News, que parodia a Fox. Esse site não só não foi e não seria censurado. Não sou da área, mas me preocupei em ouvir alguns que são, e um processo como o da Barão de Limeira contra a Falha—digo com quase nenhum medo de errar--, nos EUA, correria o sério risco de levar na cara uma chapuletada de volta chamada frivolous lawsuit, uma derrota jurídica na qual não só você não só tem que pagar as custas, mas é adicionalmente punido por encher o saco da Justiça com coisa frívola, tipo uma paródia ao seu jornal.

Também no Brasil abundam os exemplos em que usos parecidos de marca, com objetivo paródico, foram feitos sem nenhum problema. Que tal as próprias páginas da Folha, onde Angeli fez uso humorístico do logo do McDonald's com inversão de uma mera letra, igualzinho ao caso Falha?

Angeli-Mc.jpg


Entrevista:

Anteontem, Lino Bocchini me atendeu para um longo papo no telefone. Explicou-me os passos do processo: ele ainda vai a julgamento, mas quem julga é a mesma turma da liminar. Não há expectativa muito positiva enquanto se estiver no ... indefectível judiciário paulista. Tendo lido tanto a ação da Folha como a defesa da Falha, eu queria, muito mais, além de ter dados como a visitação do Falha, sentir o estado de espírito de Lino para a luta. A coisa é difícil em aspectos que vão muito além do desgaste em termos de tempo, dinheiro e disposição. Por exemplo: Sergio Dávila, o editor-executivo da Folha que está se prestando a esse papel (e a quem já elogiei, na época do furacão Katrina), tem quase 100 amigos em comum com Lino no Facebook. É complicado também em nível pessoal.

Apesar de não estar nada fácil para ele, senti o Lino incrivelmente lúcido, consciente do que este processo representa para a causa da liberdade de expressão e de paródia. Está pronto para a batalha até Brasília, se for o caso. Ele não me disse isto nestes termos, mas senti alguém com perfeita clareza de que este é um caso histórico, único, que vale a pena lutar até o fim.


Mobilização:

Diante do quadro exposto, o Biscoito Fino e a Massa propõe a abertura de uma conta—cujo número poderia ser divulgado em blogs, Twitter, Facebook etc.--na qual os internautas contribuíssem com a defesa. A iniciativa é minha, sem participação ou sequer ciência do Lino Bocchini. Mas vou falar com ele para que me sugira um nome para a conta, talvez o dele próprio. Aí eu a divulgaria aqui. De novo: não sou advogado, mas a avaliação de muitos é que, em Brasília, na instância superior, a liberdade de expressão e paródia vencerá a truculência da “proteção ao logo”. Ajudemos o Lino na batalha, então. Pintando um número de conta, eu divulgo aqui.


PS: Sabendo que há advogados que concordam comigo na leitura do caso, mas que há outros que não, procurei ouvir o contraditório. Bati ótimo, longo papo com Lady Rasta, que me atendeu, gentil, no Gtalk. Continuo pensando como penso, mas o ponto de vista dela pode ser lido aqui e aqui. Valeu a interlocução, Flavia.



  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (35)



domingo, 19 de dezembro 2010

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar

kollontai.jpgUma das coisas que aprendi sendo amigo e interlocutor de Mary W é que a própria resistência (entendida em sentido freudiano) ao feminismo é um fenômeno sociologicamente interessante, um dado a se estudar, um caso, diria a Mary, com sua sintaxe e seu uso do negrito inconfundíveis. Essa sacada dela coincide com algo que eu lhe disse certa vez durante um chope: quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros "corretivos" de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando 'divido' o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

O acontecido já foi relatado por Cynthia Semíramis e Lola Aronovich, e só me interessa aqui como sintomatologia do blogueiro progressista que faltou à aula em que o feminismo explicava em detalhe como o pessoal está imbricado com o político, como a apropriação e a simultânea desqualificação do trabalho das mulheres têm sido componentes históricos de uma hierarquia de gêneros que se impõe com tremenda brutalidade. O blogueiro progressista provavelmente nem notou que o Jornal Nacional mais uma vez se permitiu comentários sobre a aparência de Dilma que jamais se permitiria sequer sobre Lula. Mas a Marjorie Rodrigues notou.

Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

O progressismo blogueiro refletiu pouco, me parece, sobre como até suas referências a si próprio estão encharcadas de sexismo. O encontro progressista em São Paulo (que contou com interlocutores e amigos meus, que foi uma bela iniciativa à qual fui convidado, e a cuja continuação eu desejo sucesso) foi, em várias ocasiões, apresentado por seus principais protagonistas, quase todos homens, como “o” encontro de blogueiros, “o primeiro encontro” nacional, “a primeira grande” reunião.

Ora, o que isso tem a ver com o sexismo?

O progressismo blogueiro formado por homens jornalistas oriundos da grande mídia ou pautados por ela desconhece tanto a história de blogolândia que, como diria Macedonio Fernández, se a desconhecesse um pouquinho mais, já não caberia nada. Isso não seria problema se ele não tivesse a pretensão de falar em nome de uma totalidade "progressista". A primeira pessoa levada a um portal por seu trabalho em blogs foi uma mulher, Daniela Abade. A primeira vez que em um livro foi vendido via blogs aconteceu também num blog feminino, o Udigrudi. Talvez a mais massiva troca de experiências e formação de comunidade num livro de visitas de blog ocorreu pelo trabalho de duas mulheres feministas. Refiro-me ao Mothern de Laura Guimarães e Juliana Sampaio, que também representou a primeira vez em que um blog virou série de televisão. A mais longeva comunidade blogueira em atividade na rede provalvemente é a do imperdível Drops da Fal. Cynthia Semíramis, a feminista cujo texto-resposta foi recusado no espaço que transformou “feminazi” em post, tem mais história na rede que qualquer das lideranças masculino-jornalístico-progressistas (é coautora, por exemplo, de um texto clássico sobre a questão jurídica na internet). De Marina W a Cláudia Letti a Meg Guimarães, há uma história de pioneirismo de mulheres em blogolândia que se deveria conhecer com mais interesse e humildade, se é que a palavra "progressista" vai preservar ainda um farrapo de relação com alguma experiência que possa ser chamada de emancipatória.

Confesso que sinto um pouco de vergonha alheia quando vejo blogueiros progressistas referindo-se ao seu (notadamente importante, sublinhe-se) encontro como “o” encontro de blogueiros ou como “a primeira” reunião ou a si próprios como “os” progressistas. Tudo isso enquanto ignoram completamente a história que lhes precede, na qual o protagonismo feminino é indiscutível. Na história que lhes é contemporânea, o protagonismo feminino não é nada desprezível tampouco, mas também a ignoram.

O jornalismo masculino progressista não apenas desconhece essa história. Ele não parece interessado em conhecê-la, não suspeita que familiaridade com ela problematizaria alguns elementos de sua prática. Fazendo tantas referências adâmicas a si próprio, contribui para a invisibilização e o silenciamento da história de blogolândia construída pelas mulheres. Daquele jeito convicto bem próprio dos ignorantes em denegação, o blogueiro jornalista-progressista jura que isso que não tem nada a ver com o machismo. Provavelmente ele não também não se perguntou se essa invisibilização terá algo a ver com vícios oriundos de 100 anos de um modelo em que jornalistas, quase sempre homens, falavam, na maioria das vezes sobre assuntos que domina(va)m assombrosamente mal, e leitores e leitoras recebiam calados.

Caso o jornalismo blogueiro masculino progressista tenha inteligência, humildade e decência, escolherá escutar o que sobre o feminismo disseram as próprias feministas. A bibliografia não é exatamente pequena. Sempre se pode começar com O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, passar à Mística Feminina, de Betty Friedan, chegar a Problemas de Gênero [pdf], de Judith Butler, escolhendo, no caminho, mil outras veredas possíveis. Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria enintitulada "sistemas duais", que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes). Essa polêmica está apresentada num livro de Michelle Berrett, intitulado Women's Oppression Today, que seria uma ótima pedida traduzir. De Patrícia Galvão a Rose Marie Muraro, é possível informar-se, um pouquinho que seja, sobre a história no Brasil.

Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.


PS: A primeira oração do título é tirada de um texto de Paulo Candido. A segunda é tirada de um texto de Ana Maria Gonçalves. Na foto, Alexandra Kollontai, líder feminista da Oposição Operária russa da década de 1920 (daqui).

PSTU: Registro com alegria e gratidão que passei a fazer parte da seletíssima lista de recomendações do Blog do Sakamoto. Obrigado, Leonardo, a quem leio há tempos.

PSTU do B: O grupo que chamo neste texto de jornalismo blogueiro masculino progressista inclui desde amigos queridos e/ou pessoas que genuinamente admiro até pessoas com a qual tenho interlocução protocolar, com variados graus de interesse, até pessoas a quem não costumo ler. Ao contrário do que sempre faz este blog quando discorda de alguém, desta vez o grupo vai nomeado assim, no abstrato, sem links nem nomes, não porque ele seja homogêneo, mas porque, afinal de contas, não é de você que devemos falar.


Atualização em 21/12: Como toda polêmica, esta terá valido a pena se bons textos tiverem sido produzidos e posições tiverem sido explicitadas, reveladas. Tentando manter fidelidade ao subtítulo do post, recomendo os posts de Renata Winning, Niara de Oliveira, Lola Aronovich e Cris Rodrigues.



  Escrito por Idelber às 04:59 | link para este post | Comentários (257)



quarta-feira, 15 de dezembro 2010

Notas de rodapé, por Paulo Candido

"A single sentence could run for three pages, and a footnote even longer"
(“Jacques Derrida, Abstruse Theorist, Dies at 74”, obituário do New York Times)

A Internet sempre teve seus textos escuros e seus parágrafos esquisitos, suas narrativas alimentadas por tipos suspeitos, gente incapaz de ler uma frase simples sem pensar nos seus pressupostos últimos. Se a explosão da blogoseira (termo roubado do Hermenauta, um dos nossos muitos Dons Sebastiões) já havia insinuado um boom imobiliário, as tecnologias de compartilhamento e de criação de micro-redes sociais transformaram o cenário em uma bolha especulativa de proporções alarmantes. Foi em um destes cantos que o Idelber foi encontrar este texto, comentários a links compartilhados pelo Google Reader, um de meus inúmeros vícios. Digo “encontrar o texto” porque as pessoas, se existirem, nunca se viram. Sim, eu tenho um e-mail (paulo ponto candido arroba gmail ponto com), um twitter (PauloCOF) e toda a tralha acessória. Mas em 2010 isto quase não garante mais nada.

Claro que me intimidou um pouco o convite para escrever no Biscoito, um dos meus blogs preferidos. Eu que nem tenho um blog propriamente dito, que não sou “escritor” nem “acadêmico”. No fim, qualquer leitor daqui saberia que o convite era irrecusável. Mas fica o aviso: o que segue, até que alguém se canse, são apenas observações algo casuais e extremamente pessoais sobre outros textos que me chamaram a atenção. Textos sobre textos. Pequenas notas de rodapé à Narrativa, se vocês quiserem.

"Eu não consigo ler o que está escrito nas letras incandescentes", disse Frodo numa voz trêmula.
"Não", disse Gandalfo, "mas eu consigo. As letras são de uma forma arcaica de Élfico, mas a língua é aquela de Mordor, que eu não pronunciarei aqui. Mas o que está escrito, na Língua Comum , é isto:"

(J.R.R. Tolkien. “O Senhor do Anéis – A Companhia do Anel”)

Um segundo aviso é que vão aparecer por aqui links para blogs onde o ar é pesado, a conversa circunspecta e os frequentadores respeitáveis. Textos escritos por pessoas sérias que sabem distinguir o certo do errado, uma gente admirável em sua Vontade de Verdade. Uma gente grande, Reinaldos, Mervais, Leitões, Hipólitos, até quem sabe Carvalhos. Entre outros. Estes links, que o Idelber acertadamente evita e eu propositamente cultivo, servem apenas de suporte às citações. Mas algum cuidado é sempre válido. A leitura continuada de alguns destes senhores e senhoras pode causar danos permanentes à sua capacidade de entendimento do mundo.

Mas hoje eu começo mais perto de casa. Bem perto.

A busca incansável por um feminismo dócil

Na última semana eu me envolvi bastante em uma discussão sobre linguagem que assumiu rumos quase surrealistas mas muito sintomáticos e “surpreendentes”.

Terça-feira passada surgiu na home do blog do Nassif um artigo intulado “O poder das mulheres”. Esse artigo era na verdade um comentário de um usuário (chamado Andre) elevado a post na página principal pelo Nassif ou pelo seu “editor assistente” (como soubemos depois).

Não quero comentar muito este texto aqui, não há muito a dizer. Basta observar que ele começa com a frase “meu medo em relação às feminazis (sempre lembrando que este é apenas e tão somente um termo que ganhou popularidade por sua eficiência em resumir feministas radicais) é justamente pelo fato de elas me verem como um inimigo a ser exterminado”. Os itálicos são todos meus e cada um deles, pela marca que trazem de um machismo desenfreado e ignorante, mereceriam um post à parte.

Mas felizmente a Cynthia já explicou tudo melhor do que eu conseguiria aqui e aqui. Tambem a Lola e a Barbara (aliás, interlocutora original do autor no blog do Nassif) mostraram o absurdo que estava em curso.

Foram seis dias até que Luiz Nassif se dignasse a escrever uma espécie de retratação muito leve. Eu expus minha opinião em dois comentários no próprio artigo. A “retratação” inclui uma série de argumentos infantis, indo desde o inacreditável “eu não conhecia este termo” até “eu promovo mulheres na minha empresa, tenho filhas, mulher, tias e avós bem-sucedidas e defensoras dos direitos das mulheres”. Este último coroado com a divertida condição “sem nenhuma necessidade de se valer da agressividade como ferramenta de auto-afirmação” (eventualmente elevado a título de uma brilhante resposta da Lola). Interessante observar também que as duas respostas aos meus comentários defendendo ou minimizando o uso do termo “feminazi” são de homens. É como dizia Freud, onde há sintoma há fogo...

No decorrer da semana dois posts me chamaram a atenção, ambos pela maneira como tentam dar a questão por “superada” em nome de algum bem maior (volto a isto daqui a pouco). A conceituada Conceição Oliveira escreveu no Vi o Mundo um texto que flertava com igualar os desiguais: “A meu ver o nível acalorado que tomou conta do debate foi desgastante com a desqualificação nos dois pólos. Talvez os ânimos não tivessem se acirrado e  pudessem ter sido amenizados com um pouco de conhecimento sobre o feminismo por parte de Nassif e entre as feministas o conhecimento sobre as próprias diferenças presentes no amplo espectro progressista que agrega os blogs ’sujos’ ou o que passou a ser denominado (após o primeiro encontro de blogueiros em agosto de 2010) de ‘blogosfera progressista’. Mas, infelizmente, sobrou generalizações de toda a sorte.

Sinceramente me escapa como “as próprias diferenças presentes no amplo espectro progressista que agrega os blogs ’sujos’ ou o que passou a ser denominado (após o primeiro encontro de blogueiros em agosto de 2010) de ‘blogosfera progressista’” podem servir de justificativa para a defesa do uso do termo “feminazi” em qualquer debate que se queira sério, produtivo ou mesmo possível (lembrando que foi assim que isto começou).

O Renato Rovai escreveu lembrando que o Nassif tem toda uma história de enfrentamento da grande mídia que precisa ser levada em consideração. Mas resta um detalhe sutil: “Menos honesto ainda é tentar transformar o post do Nassif numa ação de quadrilha, num movimento machista “dos blogueiros progressistas”. Esse é um comportamento típico de quem tem dificuldade de conviver com construções coletivas e busca fazer do protagonismo alheio escada para seus desejos de sucesso.

Este pequeno parágrafo inocente, solto ali, com o qual o autor novamente desqualifica uma objeção original de algumas blogueiras (notamente a Cynthia e a Lola, mas também do próprio Idelber) quanto à composição de gênero marcadamente desequilibrada do grupo que realizou a histórica entrevista com o presidente Lula, também pode ser facilmente invertido. Pois ele (o parágrafo) faz exatamente o que nega. Mostra que estas duas palavras, blogueiros e progressistas, escondem sentidos que aqueles que os carregam talvez não suspeitem, com os quais talvez não concordem, que talvez não queiram ver. E a leitura que o Rovai tenta descartar, BlogueirOS “Progressistas”, parece estar perseguindo este nome desde sua inserção no debate, ali pelo meio do ano. Mas questões de nomes, acho que merecem um exame mais vagaroso. Outro dia, outro texto. Só para discutir “Progressista”.

Para não dizer que não falei de flores

Eu não queria me alongar tanto no assunto anterior, mas “feminazi” é uma daquelas palavras que dá vontade de passar o dia escrevendo. Escrever posts, artigos, livros. Deixo duas observações finais já em direção aos meus temas prediletos.

***

Um dos motivos que me levaram, há muitos e muito anos, a parar de ler a revista Veja foi o estilo de redação. Ninguém naqueles textos falava nada. Toda elocução era necessariamente adjetivada. Os entrevistados “indignavam-se”, “espantavam-se”, “ensinavam”. Nunca diziam. O verbo “filosofar” era usado para indicar que a fala seguinte continha algum lugar-comum de natureza geral (“quem espera sempre alcança”, filosofa Fulano) ou alguma platitute metafísica (“O amor sempre vence o ódio”, filosofa Beltrana). Mas é apenas este sentido do verbo “filosofar” que permite compreender a notícia da posse de Merval Pereira na cadeira de 48 de algo chamado Academia Brasileira de Filosofia.

***

Nas últimas semanas Reinaldo Azevedo dedicou vários posts a uma polêmica irrelevante criada e mantida por ele mesmo, o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Ficção dado a “Leite Derramado” de Chico Buarque. Sem entrar no mérito da substância destes textos (ou melhor, da falta de), eles proporcionaram uma pequena janela para determinados pressupostos deste colunista tão popular entre os mitológicos 4% que acham Lula e seu governo ruim ou péssimo . Em um post do final de novembro Reinaldo nos brinda com sua definição de literatura: “Literatura é escolher palavras”. Agora ficou simples, isto de literatura. É como o molho do macarrão, o importante é escolher os tomates. O resto do texto do Rei é engraçadinho, críticas específicas à escolha das palavras em um parágrafo de Budapeste. Será que ele poderia se dedicar a fazer isto com os Lusíadas, verso a verso? Não sei se a língua portuguesa ganharia um crítico fundamental, mas a Internet brasileira ganharia uma saudável ausência de blogueiro. Mas brinco. O espírito serro-tucano-paulisto-católico (exatamente nesta ordem) do Reinaldo é uma das maiores preciosidades da blogoseira anaeróbica.

Post-Scriptum
Este texto gerou pelo menos dois artigos importantes em outros lugares. De formas diferentes estes textos complementam tanto o meu texto quanto a discussão que se seguiu.

Hugo Albuquerque, do Descurvo escreveu Algumas Reflexões sobre a "Blogosfera Progressista", sintetizando toda a questão subjacente aos "blogueiros progressistas", seus objetivos e suas contradições. Eu assinaria embaixo do que ele escreveu sem mudar uma vírgula.

Alex Castro perdeu a paciência com o nível da discussão e escreveu o divertidíssimo "Socorro! Não Sou Machista, Mas as Feminazis Mal-Comidas Estão me Patrulhando!", que explica sem meias palavras porque nós estamos aqui até agora batendo cabeça...

Como contraponto, o Miguel do Rosário escreveu no Gonzum uma longa resposta ao tom que os comentários assumiram em certos momentos, Elas mataram Orfeu. Eu discordo de quase tudo que ele escreve ali, mas acho importante observar que há determinados aspectos da discussão que poderiam ser melhor matizados.



  Escrito por Paulo às 05:51 | link para este post | Comentários (181)



sexta-feira, 10 de dezembro 2010

Cidade sitiada, por Alexandre Nodari

Entre as muitas falhas do governo Lula (e, neste Biscoito, acredito que não preciso ressaltar os inúmeros acertos), estão a política de segurança pública e a política esportiva, falhas em áreas aparentemente tão distintas, mas que coincidiram tragicamente nas últimas semanas. No começo do governo Lula, combatentes históricos do status quo esportivo (entre eles, o Juca Kfouri) apresentaram ao governo um plano de longo prazo para os esportes, com enfoque na inclusão social e na educação. Com a nomeação de um integrante do PCdoB para o cargo, Agnelo Queiroz, o projeto parecia ter tudo pra dar certo: o partido tinha se notabilizado, na figura de Aldo Rebelo, pela investigação implacável aos desmandos de Ricardo Teixeira na CPI da CBF/Nike. Todavia, em um movimento que é típico da esquizofrenia ideológica do PCdoB (que mereceria um post à parte: começa no movimento estudantil, passa pela formação partidária – com cartilhas que colocam lado a lado, como aliados, um carrasco, Getúlio Vargas, e sua vítima, Olga Benário – e termina na linha de frente ruralista representada atualmente por Rebelo, autor também do tosco projeto que visava proibir os estrangeirismos da língua portuguesa), Agnelo se aproximou dos cartolas corruptos e do mainstream do esporte de alto rendimento, deixando de lado a política esportiva de inclusão social, e focando na ajuda financeira aos grandes clubes de futebol (com a Timemania, loteria que ajuda a pagar as dívidas dos clubes junto à União, sem muita contrapartida), e nos grandes eventos esportivos (como as candidaturas bem sucedidas do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro). Na área de segurança pública, o maior especialista brasileiro no assunto, Luiz Eduardo Soares foi nomeado Secretário Nacional em 2003, no que parecia um projeto de reformular por inteiro a política de segurança, com enfoque na inteligência, na integração entre as polícias (visando uma unificação de médio prazo entre as polícias civil e militar, etc.), em valorização profissional, com aumento de salários e melhoria na preparação do efetivo, etc. Todavia, sua estada no governo durou poucos meses, e se a atuação da Polícia Federal durante o governo Lula foi memorável, não se pode dizer o mesmo da articulação federal das políticas de segurança estaduais, que só teria êxito com a reformulação abortada.

De certo modo, os dois casos são sintomáticos de um movimento mais geral da política de Lula: o abandono do modelo governo-sociedade civil, que caracterizou o começo do primeiro mandato, e sua substituição para o modelo governo-desenvolvimentista, do qual Dilma é a maior representante. Seja como for, a falta de um projeto de longo prazo para o esporte e para a segurança pública apareceram como sintomas na recente ação da polícia e das Forças Armadas no Rio de Janeiro. Se, por aqui, a grande mídia (em especial a Globo, ávida há anos pelo saneamento de sua cidade querida e modelo midiático para o país) retratou os acontecimentos como um feito histórico, o Dia D do Rio de Janeiro, os jornais internacionais, sem pudores, destacaram o que estava em jogo: a Copa e as Olimpíadas. O sitiamento de favelas, que agora vivem em um explícito estado de exceção, com a suspensão dos direitos de seus moradores (que tem suas casas invadidas sem mandado, que são revistados diariamente, que tem de passar por tanques e barricadas, etc.), tem um objetivo imediato: os grandes eventos esportivos dos próximos anos. Por não ter levado adiante uma política nacional de segurança pública de longo prazo, o governo federal se viu diante de uma emergência; por ter priorizado a política esportiva dos grandes eventos, se defrontou com uma necessidade – emergência e necessidade, as duas palavras-chave em qualquer discurso que justifique a exceção. Tal sitiamento tem dois precedentes recentes: o uso das Forças Armadas como polícia nas vésperas e durante a Rio-92 (a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente), outro grande evento, e a Copa do Mundo de 2010. Para “viabilizar” a Copa, a África do Sul criou verdadeiros campos de concentração para conter os pobres excluídos, e, além disso, instituiu tribunais de exceção para julgar rapidamente crimes cometidos durante o evento. Quando da eliminação da seleção brasileira na Copa de 2006, na Alemanha, o apresentador de TV Fernando Vanucci, sob o efeito de algum químico, soltou uma frase que se tornou bordão: “África do Sul também não é... assim... tão longe. É logo ali”. Poucos meses depois do término da Copa da África do Sul, poderíamos reformular o bordão e dizer: o estado de exceção não é tão longe, é logo aqui. Ou, para usar uma fórmula mais conhecida e condizente com o fato de que os militares adotarão, na patrulha de favelas, o modelo usado pelas forças de paz no país mais pobre das Américas, o que demonstra claramente o estado de guerra: “O Haiti não é aqui, o Haiti é aqui”.

P.S.: Devo a’O Biscoito Fino e a Massa a minha iniciação na blogosfera: comecei lendo esse que considero um modelo de blog, passei a ser um comentador assíduo, e, com o apoio do Idelber, que me emprestou meus primeiros e até hoje importantes leitores, criei meu próprio blog, o Consenso, só no paredão. O debate e a convivência com Idelber, iniciados na blogosfera, se transformaram numa amizade no sentido profundo do termo, ou seja, numa espécie de com-partilhamento do mundo. Tive a oportunidade de conhecer o único derridiano-trotskista do mundo pessoalmente e as incontáveis Originais que tomamos juntos são testemunhas do vínculo criado. Com as eleições, e os diferentes partidos e posturas que tomamos quanto ao cenário político (em bom português: Idelber, como todos sabem, era um lulista e agora é um dilmista de carteirinha; eu também era um lulista, mas Marinei ferrenhamente, e acentuei bastante as minhas oposições ao governo petista), as discordâncias, que sempre tivemos (há algumas históricas registradas nas caixas de comentários desse blog), passaram a, perigosamente, ter outro tom – acima do permitido numa relação de amizade, mas o qual, talvez, só uma verdadeira amizade possa carregar. Nesse sentido, o gesto de Idelber de me convidar para escrever no blog não chega a me surpreender, mas, com certeza, revela o trabalho de paciência infinita que a leitura (em sentido amplo, de relação com o Outro) exige e de que Idelber é capaz, apesar de meus arroubos irados.

Alexandre Nodari



  Escrito por Nodari às 01:49 | link para este post | Comentários (59)



quarta-feira, 08 de dezembro 2010

Wikileaks: O 1º preso político global da internet e a Intifada eletrônica

Julian Assange é o primeiro geek caçado globalmente: pela superpotência militar, por seus estados satélite e pelas principais polícias do mundo. É um australiano cuja atividade na internet catupultou-o de volta à vida real com outra cidadania, a de uma espécie de palestino sem passaporte ou entrada em nenhum lugar. Ele não é o primeiro a ser caçado pelo poder por suas atividades na rede, mas é o primeiro a sofrê-lo de um jeito tentacular, planetário e inescapável. Enquanto que os blogueiros censurados do Irã seriam recebidos como heróis nos EUA para o inevitável espetáculo de propaganda, Assange teve todos os seus direitos mais elementares suspensos globalmente, de tal forma que tornou-se o sujeito mundialmente inospedável, o primeiro, salvo engano, a experimentar essa condição só por ter feito algo na internet. Acrescenta mais ironia, note-se, o fato de que ele fez o mais simples que se pode fazer na rede: publicar arquivos .txt, palavras, puro texto, telegramas que ele não obteve, lembremos, de forma ilegal.

Assange é o criminoso sem crime. Ao longo dos dias que antecederam sua entrega à polícia britânica, os aparatos estatal-político-militar-jurídico dos EUA e estados satélite batiam cabeças, procurando algo de que Assange pudesse ser acusado. Se os telegramas foram vazados por outrem, se tudo o que faz o Wikileaks é publicar, se está garantido o sigilo da fonte e se os documentos são de evidente interesse público, a única punição passível, por traição, espionagem ou coisa mais leve que fosse, caberia exclusivamente a quem vazou. O Wikileaks só publica. Ele se apropria do que a digitalização torna possível, a reprodutibilidade infinita dos arquivos, e do que a internet torna possível, a circulação global da hospedagem dessas reproduções. Atuando de forma estritamente legal, ele testa o limite da liberdade de expressão da democracia moderna com a publicação de segredos desconfortáveis para o poder. Nesse teste, os EUA (Departamento de Estado, Justiça, Democratas, Republicanos, grande mídia, senso comum) deixaram claro: não se aplica a Primeira Emenda, liberdade de expressão ou coisa que o valha. Uniram-se todos, como em 2003 contra as “armas de destruição em massa” do Iraque. Foi cerco e caça geral a Assange, implacável.

Wikileaks é um relato de inédita hibridez, para o qual ainda não há gênero. Leva algo de todos: épica, ficção científica, policial, novela bizantina, tragédia, farsa e comédia, pelo menos. Quem vem acompanhando a história saberá da pitada de cada uma dessas formas literárias na sua composição. O que me chama a atenção no relato é que lhe falta a característica essencial de um desses gêneros: é um policial sem crime, uma ficção científica sem tecnologia futura, uma novela bizantina sem peregrinação, comédia sem final feliz, tragédia sem herói de estatura trágica, épica sem batalha, farsa sem a mínima graça. Kafka e Orwell, tão diferentes entre si, talvez sejam os dois melhores modelos literários para entender o Wikileaks.

Como em Kafka, o crime de Assange não é uma entidade com existência positiva, para a qual você possa apontar. Assange é um personagem que vem direto d'O Processo, romance no qual K. será sempre culpado por uma razão das mais simples: seu crime é não lembrar-se de qual foi seu crime. Essa é a fórmula genial que encontra Kafka para instalar a culpa de K. como inescapável: o processo se instala contra a memória.

O Advogado-Geral da União do governo Obama, que aceitou não levar à Justiça um núcleo que planejou ilegalmente bombardeios a populações de milhões, levou à morte centenas de milhares, torturou milhares, esse mesmo Advogado-Geral que topou esquecer-se desses singelos crimes e não processá-los, peregrinava pateticamente nos últimos dias em busca de uma lei, um farrapo de artigo em algum lugar que lhe permitisse processar Julian Assange. O melhor que conseguiram foi um apelo ao Ato de Espionagem de 1917, feito em época de guerra global declarada (coisa em que os EUA, evidentemente, não estão) e já detonado várias vezes—mais ilustremente no caso Watergate—pela Suprema Corte.


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À semelhança do 1984 de Orwell, o caso Wikileaks gira em torno da vigilância global mas, como notou Umberto Eco num belo texto, ela foi transformada em rua de mão dupla. O Grande Irmão estatal o vigia, mas um geek com boas conexões nas embaixadas também pode vigiar o Grande Irmão. Essa vigilância em mão dupla é ao mesmo tempo uma demonstração do poder da internet e um lembrete amargo de quais são os seus limites. Assange segue preso, com pedido de fiança negado (embora o relato seja que o Juiz se interessou pela quantidade de gente disposta a interceder por ele e vai ouvir apelo) e, salvo segunda ordem, está retido no Reino Unido até o dia 14/12. A acusação que formalmente permitiu a captura é o componente farsesco do caso, numa história que vai de camisinhas furadas em sexo consensual à possíveis contatos das personagens com a CIA.

No campo dos cinco "escolhidos" para repercutir a rede anônima, não resta a menor dúvida: cabeça e tronco acima dos demais está o Guardian, que tem tomado posição, feito jornalismo de verdade, e mantém banco de dados com o texto dos telegramas. Brigando pelo segundo lugar, El país e Spiegel, com o Le Monde seguindo atrás. Acocorado abaixo de todos os demais, rastejante em dignidade e decência, o New York Times, que se acovardou outra vez quando mais era de se esperar jornalismo minimamente íntegro. A área principal da página web do jornal, na noite de 07/12, não incluía uma linha sequer sobre a captura que mobilizou as atenções de ninguém menos que o Departamento de Estado:


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Enquanto isso, a entrevista coletiva de Obama acontecia com perguntas sobre o toma-lá-dá-cá das emendas entre Republicanos e Democratas, e silêncio sepulcral sobre o maior escândalo diplomático moderno dos EUA. Nada como a imprensa livre.

A publicação dos telegramas não para, evidentemente, no que é outra originalidade do caso: a não ser que você acredite que a acusação sexual na Suécia foi a razão real pela qual o aparato policial do planeta foi mobilizado para prender Assange, cabe notar que o “crime” que motivou a prisão continuará sendo praticado mesmo com o “criminoso” já capturado. O caso Wikileaks inaugura o crime que continua acontecendo já com o acusado atrás das grades: delito disseminado como entidade anônima e multitudinária na Internet. 100.000 pessoas têm os arquivos do Cablegate, proliferam sites espelho com os telegramas já tornados públicos. E a Intifada está declarada na rede, com convocatórias a ataques contra os sites que boicotaram o Wikileaks.

Atualização: e os EUA estão mesmo tentando com os britânicos e suecos a extradição de Assange para processá-lo por ... espionagem!

Atualização II: No Diário Gauche, há um belo vídeo com entrevista de Assange em Oxford, com legendas e tudo.



  Escrito por Idelber às 02:37 | link para este post | Comentários (52)



segunda-feira, 06 de dezembro 2010

Entrevista de Dilma Rousseff ao Washington Post

No Brasil, de prisioneira a Presidente
Por Lally Weymouth

Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.

dilma-3.jpg Ter sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos?
Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões.



Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?
Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.

[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.



O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU .
Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.



Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano iraniano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano iraniano.
O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.



Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA - como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.

Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil.



A Sra. culpa o afrouxamento monetário [quantitative easing] por isso?
O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.



Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.
Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.



Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?
Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.



Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração - é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.



A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?
Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.



Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.
Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.



Qual é seu plano?
Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.



Então o que a Sra. quer dizer com “racionalizar gastos”?
Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.

Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.

Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.



Explique como funciona o Bolsa Família.
Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.

Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.



A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?
Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.

O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.

Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas.



A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.



A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.



Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.



O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?
Até eu acho incrível.



Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?
Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente - nós ouvimos o povo.



A Sra. recentemente lutou contra o câncer.
Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . .

Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.



PS: Original em inglês aqui. Todos os textos d'O Biscoito Fino e a Massa estão licenciados em Creative Commons. Ou seja, você pode reproduzi-los à vontade, desde que com correta atribuição de autoria (ou de tradução, conforme o caso) e link para a fonte.



  Escrito por Idelber às 12:08 | link para este post | Comentários (23)



domingo, 05 de dezembro 2010

Tradução de comunicado do Wikileaks

"A primeira infoguerra séria começou. O campo de batalha é o Wikileaks. Vocês são os soldados", escreveu John Perry Barlow no Twitter.

A batalha entre a censura e a liberdade de expressão está escalando. Esta semana viu Amazon, Tableau, EveryDNS e Paypal abandonarem, em rápida sucessão, os serviços ao Wikileaks, ataques distribuídos de negação de serviço que fizeram com que o site saísse do ar múltiplas vezes e crescente pressão política dos governos dos Estados Unidos (2), da Austrália e da França.

O governo dos EUA chegou ao ponto de avisar a Suíça que ela não deveria conceder asilo político a Julian Assange, relata 20 Minuten. Numa carta aberta no Der Sonntag, o embaixador estadunidense na Suíça, Donald Beyer, escreveu que "a Suiça terá que considerar com cuidado se vai oferecer guarida a um fugitivo da justiça". No entanto, políticos suíços como Cédric Wermuth, presidente do Partido Socialista Jovem, Bastien Girod, presidente do Conselho Nacional dos Verdes e o Partido Pirata Suíço têm reiterado o seu apoio a Assange e a disposição de conceder-lhe asilo.

O massacre vai criando crescente resistência. "A pressão americana para dissuadir empresas nos EUA de apoiar o site do Wikileaks gerou uma reação na internet na qual indivíduos estão redirecionando partes de seus próprios sites para o provedor sueco do Wikileaks", escreve o Guardian. "Ao mesmo tempo, apareceram vários sites espelho do Wikileaks -- no horário do almoço de hoje, a lista já tinha 74 membros e continha sites que têm o mesmo conteúdo do Wikileaks e -- crucial -- linques para baixar os 250.000 telegramas diplomáticos dos EUA". A lista espelho conta agora com centenas de domínios.

Num pronunciamento divulgado pelo Partido Pirata Suíço, o provedor do Wikileaks na Suíça, a Switch, disse que não havia "nenhuma razão" pela qual o site deveria ser forçado a sair do ar, apesar das exigências da França e dos EUA. Em resposta ao governo da França, o provedor francês OVH declarou que cabia aos juízes, e "não aos políticos ou ao OVH solicitar ou decidir o fechamento do site".

John Karlung, executivo do provedor sueco do Wikileaks, a Bahnhof, disse ao Daily Beast que "o serviço é oferecido na Suécia -- onde se aplica a lei sueca. Não estamos submetidos à lei dos EUA, da China ou do Irã". Ele disse que os EUA não haviam entrado em contato com a empresa para pedir o cancelamento da hospedagem para o Wikileaks; quando perguntado sobre se a Bahnhof o acataria, no caso de que esse pedido fosse feito, ele respondeu: "claro que não".

Evgeny Morozov alertou, no Financial Times, que a reação dos EUA contra o Wikileaks e Julian Assange pode ter consequências inesperadas: "o Wikileaks poderia ser transformado, de meia-dúzia de voluntários, em um movimento global de geeks politizados clamando por vingança. O Wikileaks de hoje fala a linguagem da transparência, mas ele poderia rapidamente desenvolver um código de anti-americanismo explícito, anti-imperialismo e anti-globalização [...] Uma tentativa agressiva de perseguir o Wikileaks -- bloqueando o seu acesso à internet, por exemplo, ou atacando seus membros -- poderia instalar o Sr. Assange (ou quem o suceda) ao leme de um novo e poderoso movimento global, capaz de paralisar o trabalho de governos e corporações ao redor do mundo".

Original aqui. Tradução de Idelber Avelar.

Atualização 06/12, às 08:43 de BSB: Como visível acima, o site wlcentral ponto org já foi tirado do ar também.

Atualização às 10:02 de BSB: O wlcentral voltou ao ar.



  Escrito por Idelber às 17:09 | link para este post | Comentários (28)



sábado, 04 de dezembro 2010

Entrevista com Prof. Carlos Eduardo Rebello de Mendonça sobre Trotski

O professor Carlos Eduardo Rebello de Mendonça, da UERJ e da PUC-RJ, acaba de escrever um belo livro. O que segue é minha entrevista com ele sobre Trotski: Diante do Socialismo Real (Faperj / FGV, 2010), que já li e recomendo.

8258_trotsky1.jpg 1. Quem leu León Trotski, mesmo em tradução, não costuma discordar: entre as figuras políticas do marxismo do século XX, foi o maior escritor e o mais poderoso no manejo da retórica. Ao mesmo tempo, foi o mais inapelavelmente derrotado na política na última década e meia da vida. Fale um pouco, por favor, dessas e de outras singularidades de Trotski.

Acredito que o paradoxo maior da carreira de Trotski está nele ter sido, na definição gramsciana da palavra, acima de tudo um intelectual, alguém que a partir de determinadas premissas, foi capaz de desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas. No entanto, havia um lado do intelectual Trotski que nada tinha de gramsciano: sua indiferença freqüente ao seu papel “orgânico”, prático, de adequar esta visão geral de mundo às tarefas concretas do momento. Exatamente por isso, o ponto de inflexão da carreira política de Trotski esteve na sua relação com Lenin que, por mais que fosse um escritor pedestre e até mesmo um filósofo “vulgar”, no dizer de Zizek, foi capaz precisamente daquilo que Trotski sempre teve a maior dificuldade: adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento. Trotski, mais de uma década antes de Lenin, já havia intuído o caráter socialista da Revolução Russa, ao qual Lenin só aderiu em 1917, no discurso da Estação Finlândia; mas o mérito de Lenin foi o de só sustentar esta posição publicamente quando percebeu a possibilidade de formar um consenso em torno dela. Trotski só foi capaz de funcionar como político prático enquanto em associação com Lenin. Quando Lenin esteve hostil – antes de 1917 – assim como depois da sua morte, Trotski exerceu um papel importante como visionário, como alguém capaz de perceber desenvolvimentos futuros, mas ao preço de sua incapacidade de agir de forma efetiva no momento presente.



2. Como este livro se insere no projeto maior que você realiza sobre Trotski? Não é uma biografia nem uma reconstituição histórica pura e simples, eu gostei disso. O que é?

Trotski começou sua carreira política como herdeiro de uma tradição das esquerdas européias, que haviam passado o século XIX acumulando forças em torno de reivindicações do movimento operário e sindical, acabando por exercer uma hegemonia quase total sobre a oposição às insuficiências do liberalismo, o que permitiu ao proletariado do início do século XX começar a pensar em si mesmo como uma classe dominante alternativa à burguesia. Ora, em 1914, o estilhaçamento da II Internacional diante da Ia. Guerra Mundial – a escolha do patriotismo imperialista sobre o internacionalismo proletário – liquidou esta tradição socialista contra-hegemônica. É a partir daí que começam a surgir toda espécie de críticas ideológicas ao liberalismo burguês, que, no entanto, não se tem como tributárias do projeto socialista: a política de gênero, o nacionalismo anti-colonial, os fundamentalismos – sem falar na emergência do fascismo como contestação à ordem liberal pela direita através do ressentimento pequeno-burguês. A americanização do mundo a partir dos anos 1920, que internacionalizou os termos do debate político americano - onde o socialismo prima pela sua ausência - aprofundou este processo ainda mais. Ora, a base de toda a reflexão política do último Trotski, o “profeta banido” dos anos 1920 e 1930, está em partir da incapacidade da Revolução Russa de internacionalizar-se, para pensar em que termos o socialismo poderia reconstruir-se como ideologia contra-hegemônica diante de tantas propostas políticas concorrentes ou “alternativas”. A minha proposta, portanto, está em fazer uma série de comentários temáticos sobre os escritos de Trotski, mudando a ênfase do comentário, do Trotski anti-stalinista de Isaac Deutscher & Mandel – cuja importância é hoje apenas histórica – para Trotski como um intelectual socialista engajado num debate “prematuro”, avant la lettre, com o nosso mundo pós-moderno.


3. Para introduzir o leitor que não conhece a História da Revolução Russa: Lênin passa boa parte do último ano da vida trancafiado, querendo mas não conseguindo desautorizar Stalin. Trotski, chefe do Exército Vermelho e co-líder inconteste da Revolução, com duas décadas de ascendência política na luta, perde a parada, num jogo palaciano, para um toupeira intriguenta (com o perdão da figura), que estava para Trotski, intelectualmente, como Merval estaria para Chauí ou Kehl. Como seu livro ilumina essa tão bizarra, misteriosa e decisiva cena?

Hegel, em algum lugar, escreveu que os grandes homens que não conseguem mais apoiar-se no Espírito do seu tempo (como Napoleão ao voltar de Elba) simplesmente caem no chão. Como o próprio Trotski acabou reconhecendo à época, o refluxo conservador da Revolução Russa, a fadiga do Partido Bolchevique diante do fracasso da revolução européia, encontrou em Stalin o seu porta voz (inclusive porque Stalin era um velho bolchevique, enquanto Trotski tinha passado a maior parte da sua vida revolucionária pregressa como um franco atirador radical que atacava os bolcheviques de uma posição puramente pessoal) e deixou Trotski diante da seguinte escolha: ou dar um golpe militar – e virar um genérico de Stalin - ou sustentar posições impraticáveis naquele momento com vistas a um futuro incerto e não-sabido. Ele escolheu a segunda posição, com péssimas conseqüências para si mesmo, mas salvou a sua relevância intelectual futura.


4. Seu livro apresenta, acredito, um poderoso argumento contra os anticomunistas que tenta(ra)m tomar a processo de consolidação do autoritarismo burocrático na Rússia e depois URSS com o stalinismo como uma espécie de sina ontológica, essencial de qualquer processo revolucionário. Você daria uma canja do que o leitor vai encontrar no desenvolvimento desse argumento?

A História não se repete (a não ser como farsa, dizia Marx) e diante dos problemas objetivos do capitalismo (a riqueza social posta a serviço de finalidades anti-sociais, dizia Deutscher) o socialismo é algo que precisa ser pensado. É infantil pensar que tal não implicará em problemas (bem) sérios, mas certamente serão problemas outros que não os da URSS dos anos 1930, ou da China dos anos 1960...


5. Conversando uma vez, num grupo grande, com Slavoj Żižek, ouvi dele algo como: “gosto muito de Trotski, mas ouvindo alguns trotskistas tem-se a sensação de que se Trotski, e não Stalin, tivesse vencido a disputa em 1923-26, o mundo teria sido outro e tudo teria sido maravilhoso. Isso é muito ingênuo.” Como você se situa ante essa objeção?

Maravilhoso certamente não seria, mas seria um mundo talvez mais interessante. Se Trotski tivesse chegado ao poder nos anos 1920, ele estaria limitado pelo fato de ser um hiper-Hugo Chávez dirigindo uma URSS politicamente militarizada, mas uma coisa é certa: ele certamente teria colocado todo o peso político e econômico da URSS na tentativa de organizar uma Frente Única antifascista na Alemanha e em estimular a Revolução Chinesa. Logo, é de esperar-se que neste mundo alternativo, o nazismo e o militarismo japonês tivessem um papel bem menor do que tiveram no mundo real – mas ao preço de que uma Alemanha e uma China, sob influência soviética, atrairiam contra si uma frente de governos capitalistas – logo, possivelmente seria um mundo em que a IIa. Guerra Mundial e a Guerra Fria estariam “fundidas” num único processo. Se há algo de “bom” nisso, estaria no fato de que seria um mundo onde as lutas ideológicas seriam mais “normais”, mais preto no branco, esquerda vs. direita como o grande eixo de todas as questões.... Também não haveria Pearl Herbour, a “Solução Final”, nem os expurgos de Stalin, mas haveria coisas que nem podemos imaginar...

6. Há uma visão, mesmo entre trotskistas, de que Trotski se excedeu no episódio da militarização do trabalho e que isso foi um erro que favoreceu a burocratização futura. Você discorda. Dê, por favor, ao leitor menos familiarizado, o contexto do que era a Rússia na virada e começo da década de 1920 e seu argumento sobre as escolhas de Trotski naquele momento quanto à militarização do trabalho.

Se pensarmos que as condições de vida na Rússia da Guerra Civil e do Pós-Guerra Civil eram tais que só o próprio Trotski perderia uma filha (e mais uma suposta amante, a comissária Larissa Reissner) de tuberculose produzida pelas condições sanitárias predominantes - assim como ocorreu com vários outros membros do mais alto escalão soviético – dá para perceber que a militarização do trabalho era basicamente uma super-frente de trabalho para produzir qualquer coisa no meio da devastação generalizada. O problema é que propor tal coisa ofendia as muito reais convicções democráticas e libertárias do bolchevismo da época.

capa-trotski.jpg

7. Eu não teria tempo de pesquisar detalhes e refrescar a memória o suficiente para debater com você agora, em mínimo equilíbrio de condições, estes dois temas, então só vou enunciar os desacordos e pedir que você resuma suas interpretações: discordo um pouquinho, pelo menos, de suas avaliações de Kronstadt e da Oposição Operária. Resumindo a ópera toscamente: tenho leitura mais negativa dos bolcheviques na sublevação de marinheiros e leitura mais positiva do papel histórico de Alexandra Kollontai e cia. Você poderia resumir para o leitor menos familiarizado com as nuances a sua interpretação daquele evento e daquele grupo?

Note-se que o X Congresso do Partido Bolchevique foi interrompido pela Revolta de Kronstadt e que todos os delegados – inclusive os da Oposição Operária de Kollontai – se apresentaram como voluntários para participar da ação militar contra os rebeldes, já que sabiam que não havia espaço de negociação possível no momento. As reivindicações feministas e autogestionárias da Oposição eram, do mesmo modo, positivas, mas inaplicáveis naquele momento e lugar. A conclusão que se impõe é a mesma que já foi tirada em outras épocas e lugares por Maquiavel, Engels e outros, e que pode ser resumida no comentário posterior de Trotski: uma revolução não é (lamentavelmente) uma escola de humanismo....


8. Não há como não perguntar, na bucha: por que o trotskismo produziu tantos grupos que ofereceram leituras tão delirantes da realidade, como por exemplo o socialismo interplanetário posadista ou as bizarras oscilações da Libelu no Brasil?

Tenho a impressão de que Trotski, ao criar a IV Internacional, sabia da sua absoluta impossibilidade de fazer política concreta nas condições do final dos anos 1930, e procurou concentrar-se em montar uma “cápsula do tempo”, uma organização que preservasse certa orientação doutrinária para o futuro. De certa forma, ele conseguiu o que queria, preservar uma certa memória para uso da posteridade – mas a conseqüência adicional disto, naturalmente, foi o sectarismo estreito e antiquário.


9. Nas poucas em vezes em que é citado no seu livro, Antonio Gramsci não sai muito bem na fita. Você propõe que ele usou sectariamente argumentos mencheviques contra Trotski. Apesar disso, você vê reconciliação possível entre a concepção mais, digamos, culturalista e gradualista de Gramsci e o legado de Trotski?

Acho que o suposto gradualismo de Gramsci é produto de leituras distorcidas, reformistas (a transformação política é desnecessária) e direitistas (“ ’eles’ estão entre nós”...) – o que o conceito de hegemonia parece-me dizer é que a luta propriamente política e a ideológica formam uma totalidade. Neste sentido, não vejo incompatibilidade nenhuma entre os dois. Só acho que Gramsci, em certos momentos – na sua apreciação do fordismo , por exemplo - exibe um viés autoritário em que parece identificar força política com conduta moral – quando fala na necessidade de “poupar energias nervosas” evitando uma vida sexual “desregrada” – coisa que Trotski, homem muito mais blasé diante deste tipo de problemas, sequer pensaria em propor.


10. Trollando-o um pouquinho, mas se o hipotético não fizer sentido, você pode desconstruí-lo, claro: quem Trotski teria apoiado em 2006, Lula ou Heloísa Helena?

Trotski, em 1938, disse no México a um sindicalista argentino que, em caso de uma guerra entre o Brasil e a Inglaterra, ele apoiaria Getúlio Vargas, pois para ele preservar e desenvolver a consciência nacional do povo brasileiro era mais importante do que uma “democracia” liberal e formal, sob tutela imperialista. Acho que ele iria por aí na sua apreciação de Lula – mas certamente não integraria um governo do PT.


11. O ex-trotskismo teve uma influência no mundo bem mais forte que o trotskismo. Como você explica esse fenômeno que produz algumas das cabeças mais diabólicas, como Paul Wolfowitz, ou instrumentos mais raivosos da reação, tipo Demétrio Magnoli? Citei dois, mas a lista longa e o caso é único entre os “ex-”. Tem hipótese para explicar isso?

Como Trotski quis organizar seu movimento como uma “cápsula do tempo” doutrinária, isso o levou a criar partidos, principalmente, de intelectuais, com as conseqüências do sectarismo e do elitismo – que já estava presente no leninismo, mas que o trotskismo exacerbou: daí o papel específico dos “exes” do seu movimento – um dos quais foi o meu professor de trotskismo: o Paulo Francis dos anos 1970.



  Escrito por Idelber às 17:03 | link para este post | Comentários (31)



segunda-feira, 29 de novembro 2010

Wikileaks: O maior vazamento da história, o embaraço de Hillary com o Cablegate e a cumplicidade da imprensa dos EUA

alg_julian_assange.jpgLiberais e conservadores brasileiros, chegou a hora. Depois do 11 de setembro diplomático desencadeado neste fim de semana pelo mais impactante vazamento da história moderna-- 250.000 comunicações, a maioria secretas, entre o Departamento de Estado e embaixadas estadunidenses ao redor do mundo--, e do completo sufocamento do tema na TV dos EUA, não resta fiapo de credibilidade à ideia da imprensa 'mais livre do mundo', com que tantos brasileiros à direita do espectro político se referem aos conglomerados de mídia norte-americanos. Para quem se lembra da extrema docilidade com que as mídias eletrônica e escrita dos EUA replicaram a patacoada das armas de destruição em massa do Iraque em 2003, esta foi a cereja do bolo. Não importa o partido que esteja no poder (Democratas ou Republicanos), quando se trata dos interesses imperiais estadunidenses, não sobrevive na mídia gringa um farrapo de compromisso com a verdade ou com a pluralidade de pontos de vista. Ponto final. Podemos passar para o próximo assunto? Grato. Continuemos.

Como já tratamos amplamente aqui, os poderosos usam dois pesos e duas medidas nos casos de “vazamento”, “grampo” ou qualquer obtenção de informação que ocorre naquela zona cinza entre o legal e o ilegal. Conforme a conveniência, enfocam-se na forma ou no conteúdo. Assim aconteceu com os dossiês dos aloprados petistas sobre a corrupção realmente existente no Ministério da Saúde de José Serra, do suposto, miraculoso e etéreo grampo sobre Gilmar Mendes e Demóstenes, e da quebra de sigilo da filha de Serra (cuja forma só importava até o momento em que apurou-se que foi tucano mesmo). Inacreditavelmente, aqui nos EUA, tanto o governo como o parlamento só reagiram à montanha de revelações do Wikileaks com ameaças pesadas contra Julian Assange e equipe. Sarah Palin, sem perder a chance de usar o episódio eleitoralmente contra Obama, sugeriu que os EUA "cacem Assange como a Bin Laden". Sobre o conteúdo dos documentos, nem um pio. Para isso, contaram com a sempre dócil imprensa norte-americana que, no pronunciamento de hoje de Hillary Clinton, não fez sequer uma única pergunta que tratasse do conteúdo das revelações.

E revelaram-se coisas para todos os gostos. Os EUA disseram à Eslovênia que lhe conseguiriam uma reunião com Obama caso os eslovenos aceitassem receber prisioneiros de Guantánamo, o que demonstra o tamanho da batata quente em que se transformou o campo de concentração paralegal [pdf] instalado por George W. Bush. Na Alemanha, os EUA ficaram em saia justa. Os vazamentos mostram tentativa de espionagem gringa sobre o Democratas Livres (liberais de centro-direita, uma espécie de DEM desagripinizado) e comentários feitos nos telegramas da embaixada se referem ao Chanceler alemão como “vaidoso e incompetente”. Hillary quis bisbilhotar o histórico de saúde mental da Presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner. Revelou-se que Israel fez lobby incessante, permanente por um (na certa irresponsável e catastrófico) ataque americano ao Irã, embora nem só de lobby sionista viva o interesse bélico anti-persa: também o rei saudita, confirmam os documentos do Wikileaks, fez pressão pelo ataque. Aliás, não são só os EUA que ficam mal na fita com esses cabos. Os governos árabes, com sua tradicional combinação de subserviência ante Israel e obscurantismo e truculência ante suas próprias populações, também receberam algumas boas lambadas com os vazamentos.

Até agora, as duas revelações sobre as quais valeria a pena um exame mais detido, pelo menos do ponto de vista brasileiro, são duas bombas: a primeira, a de que o estado espião e desrespeitoso da lei internacional, que se consolidou com Bush, foi mantido com o Departamento de Estado de Hillary sob Obama. A segunda é de que até os EUA sabiam que o golpe em Honduras, com o qual pelo menos setores de sua diplomacia colaboraram, era uma monstruosa ilegalidade.

Confirmando a primeira bomba, há um espantoso telegrama em que se detalham planos para espionar o Secretário-Geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, que de forma alguma pode ser descrito como alguém hostil aos interesses americanos. Os planos de espionagem incluíam até mesmo o cartão de crédito de Ki-Moon. A ordem veio diretamente do Departamento de Estado de Hillary que, obviamente, em seu pronunciamento de hoje, nada disse sobre o assunto. Nada lhe foi perguntado tampouco.

Sobre a segunda bomba, Cynara Menezes já disse tudo. Durante meses, bizantinos debates sobre a constituição hondurenha serviram para mascarar o fato cabal de que o golpe que depôs Zelaya não tinha um farrapo de apoio na lei internacional ou mesmo na bizarra legalidade estabelecida pela constituição hondurenha. Ancorados principalmente numa retórica da Guerra Fria herdada da mesma diplomacia estadunidense agora desmascarada, os direitecas brasileiros recorreram aos sofismas de sempre para justificar o golpe. Agora, ficou claro: alô, Revista Veja, nem os gringos acreditavam na mentirada.

Sobre o Brasil, até agora, há pouco, a não ser o já conhecido dado de que os EUA tentaram nos impor uma lei antiterrorismo, da qual o governo Lula-Dilma (o cabo faz explícita referência à atuação dela) conseguiu se safar. De novidades nesse front, há a participação de um especialista brasileiro, André Luis Woloszyn, como uma espécie de “consultor” para os estadunidenses interessados em adequar a legislação alheia a seus interesses: “é impossível”, disse ele, “fazer uma lei antiterrorismo que não inclua o MST”. O caso me parece gravíssimo.

As bombas vão se sucedendo com rapidez só comparável à desfaçatez com que a mídia dos EUA as ignora. O Wikileaks repassou seus vazamentos a cinco veículos de mídia: Le Monde, Der Spiegel, El País, Guardian e New York Times. Destes, a cobertura mais tímida e manipuladora, sem dúvida, é a deste último, totalmente focado na punição a Assange e na “legalidade” de seus atos, com pouca coisa sobre o conteúdo embaraçoso para os EUA. Uma manchete no lugar de destaque do site, na noite desta segunda-feira, dizia: “"Vazamentos mostram o mundo se perguntando sobre a Coreia do Norte". Haja óleo de peroba.

PS: Como grande destaque desta segunda-feira, o Presidente equatoriano Rafael Correa ofereceu guarida a Julian Assange, “sem perguntar nada”, para que ele “apresente suas informações não só na internet mas em outros fóruns públicos”. Realmente a Sociedade Interamericana de Imprensa deve ter razão: a “liberdade de imprensa” está ameaçada nos regimes “populistas” latino-americanos. É nos EUA que ela vai bem.



  Escrito por Idelber às 23:49 | link para este post | Comentários (82)




Associação de Amigos da ENFF rebate matéria da Folha

Daqui a algumas horas, entra um texto sobre o caso Wikileaks. Por enquanto, deixo-os com a resposta da Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, a uma impressionantemente desonesta matéria da Folha.


29 de novembro de 2010
Da Página do MST

Leia abaixo nota da Associação dos Amigos da ENFF sobre reportagem publicada neste domingo na Folha de S. Paulo:

NOTA DA ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA ENFF

No dia 28 de novembro, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma reportagem de autoria de José Ernesto Credendio, segundo a qual a Escola Nacional Florestan Fernandes estaria passando por uma “crise financeira”, a qual seria motivada por “restrições impostas aos repasses do governo federal para o movimento”.

Diante do exposto, a Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes vem a público para esclarecer os fatos e desfazer uma série imensa de equívocos, incrivelmente reproduzidos em tão poucas linhas.

1. A ENFF, desde a sua origem, nunca dependeu de recursos federais, embora seja essa uma demanda legítima, dado que ela é resultado do esforço concentrado e da mobilização de milhares de cidadãos brasileiros: trabalhadores, trabalhadoras e jovens que aspiram construir um centro de estudos e pesquisas identificado com as necessidades mais prementes dos povos do Brasil, da América Latina e de todo o mundo.

2. Como a própria reportagem esclarece, aliás em total contradição com o afirmado anteriormente, os recursos para a construção da escola foram fornecidos “pela União Europeia, pelo MST e pelas ONGs cristãs Caritas (Alemanha) e Frères Des Hommes (França)”, além de ter contado com recursos assegurados por campanhas com apoio de Chico Buarque, José Saramago e Sebastião Salgado.”

E mais ainda: a reportagem omite o fato de que a construção da escola, concluída no ano 2005, contou com o trabalho voluntário de cerca de 1.100 brasileiros e brasileiras que entenderam a necessidade premente de uma escola dessa natureza, oriundos e oriundas das mais variadas categorias profissionais e de movimentos sociais. Seus cursos sempre foram ministrados em caráter voluntário, espontâneo e benévolo por mais de seiscentos renomados intelectuais e professores universitários brasileiros e internacionais,

3. Finalmente, a escola não passa por uma “crise financeira”, como afirma a reportagem, simplesmente por não se tratar de um banco, nem de empresa privada. Sofre, é verdade, carência de recursos econômicos para desenvolver os seus projetos, como sofrem dezenas de milhares de escolas públicas brasileiras e toda e qualquer instituição autônoma, independente e identificada com a luta de nosso povo.

4.Precisamente porque a Escola Nacional Florestan Fernandes não depende de recursos federais, mas confia na capacidade do povo brasileiro de manter o seu funcionamento autônomo, soberano e independente, criou-se a Associação dos Amigos da ENFF, no início de 2010.

As campanhas promovidas pela Associação não têm apenas o objetivo de angariar fundos: elas também contribuem para promover o debate sobre a necessidade de que o povo brasileiro construa os seus próprios centros de educação e pesquisa, até para aprimorar sua capacidade de defender-se de ataques insidiosos promovidos com frequência pela mídia patronal, pelos centros universitários que reproduzem as fábulas das classes dominantes e por intelectuais e jornalistas pagos para distorcer os fatos.

Associação dos Amigos da ENFF



  Escrito por Idelber às 18:16 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 27 de novembro 2010

A Semana nas Comunicações, a Denegação de MOSCOU e uma receita de #Mordalingua

Nas derrotas futebolísticas, há um momento em que você sente que o jogo está perdido. É um instante de chegada meio mágica, retrato do imponderável do futebol. Enquanto que nos outros esportes coletivos pode-se supor uma fórmula matemática que combine a diferença de pontos com os minutos ou posses de bola restantes e nos dê uma equação universal que localiza esse momento, no futebol, como atesta qualquer um que tenha jogado ou mesmo assistido com atenção ao esporte, só mesmo o devir particular de cada jogo vai lho dizer.

Um 3 x 0 aos 30 minutos do 2º pode ser um jogaço em aberto, como sabemos os fanáticos do time das impossíveis viradas (contra e a favor). Por outro lado, uma equipe pode perfeitamente estar batida de forma categórica depois de um simples 1 x 0 aos 10 do 1º. Omitamos, por incontáveis, os exemplos.

Esse momento epifânico, que só no futebol é imponderável, é o descrito em “Rosa dos Ventos”:

Pois transbordando de flores/ A calma dos lagos zangou-se/ A rosa-dos-ventos danou-se/ O leito do rio fartou-se/ E inundou de água doce/ A amargura do mar // Numa enchente amazônica/ Numa explosão atlântica/ E a multidão vendo em pânico/ E a multidão vendo atônita/ Ainda que tarde/ O seu despertar

Relembre com Chico:


(Se você trabalha num grupo de mídia brasileiro e nunca se perguntou sobre o que a 2ª estrofe de “Rosa dos Ventos” pode estar lhe dizendo sobre o seu lugar hoje, a piedosa recomendação deste blog é que você o faça antes de continuar as tarefas do dia. A pergunta, com certeza, é mais urgente).

A tese deste post é que, durante esta semana, uma parcela significativa dos conglomerados máfio-midiáticos brasileiros deu-se conta de que o jogo está perdido.

Ele ainda será jogado durante algum tempo mas, como previu “Rosa dos ventos”, está perdido para eles. Que jogo é esse e que parcela é essa, o que significam “perdido” e “dar-se conta”, e até mesmo qual é o sentido da palavra “brasileiros” naquela frase são temas que merecem reflexão, se queremos ter uma visão matizada, não ufanista do processo. Antes, uma palavra sobre o termo mais polêmico, “conglomerados máfio-midiáticos”, que será doravante usado neste blog de forma também intercambiável com o acrônimo MOSCOU.


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Foto de Jochem Wijnands, no Getty, museu montado por meu amigo Tom Reese


Meu não-uso do termo PIG advém de que, apesar de a própria executiva da Folha reconhecer textualmente que a imprensa brasileira substituiu os partidos de oposição no governo Lula, apesar de sabermos que, em várias partes do Brasil, ela é partido mesmo o tempo todo (como no caso da RBS no Sul), e apesar de ser visível o componente golpista do seu DNA em diversos momentos de sua história, não acho que a metáfora “partido golpista” tenha referencialidade suficiente; é unitário demais. Não há, por exemplo, como assistir ao Seminário de ontem sobre mídia, ouvir Merval Pereira e Renata LoPrete, e não perceber a imensa diferença intelectual, moral e ética entre eles. É um bom achado humorístico, a sigla PIG, e eu a leio sob esse tipo de licença poética. Não a uso.

“Conglomerado máfio-midiático” é diferente, porque você pode perfeitamente ser funcionário de um conglomerado mafioso e continuar fazendo, no seu canto, um trabalho sério e honrado, como bem sabem os datilógrafos e faxineiros do PPS (ou do PTB, pra não dizerem que só falo mal da oposição). Com esse tipo de preocupação em mente, o antenadíssimo gringo Colin Brayton cunhou, em português, sim sinhô, o acrônimo MOSCOU: Mídia Orquestrada por Sociedade Civil de Oligarcas Unidos. Como também numa orquestra podem existir reais sonoridades dissonantes, prefiro MOSCOU a PIG.

Pois bem, MOSCOU percebeu que o jogo está perdido, argumentávamos. Mas também “perdido” aqui requer explicação, para que não se leia o que não está escrito.

Eles perderam, mas isso não quer dizer que o vitorioso seja “a internet”, “a blogosfera” ou muito menos a blogosfera “progressista”--termo que merece um digno funeral em breve, pelo menos como suposição de que representa universalmente a esquerda. Note-se que eu proponho que MOSCOU perdeu. Não presumo saber quem ganhou. Aliás, o segundo argumento do post é este: MOSCOU já perdeu o jogo, mas quais serão os vencedores é matéria que ainda não sabemos. Ao contrário do que argumentam os que reclamam do Fla x Flu, esta não é uma partida com dois jogadores.

Ganha a democratização da informação, é óbvio, quando perde MOSCOU. Mas quais são as vozes concretas que encarnarão dita abertura, ou seja, qual será o bloco hegemônico a emergir das ruínas, é matéria ainda mais nebulosa do que parece, na opinião da ala trotsko-atleticana de blogolândia.

Continuemos com a tese do post: MOSCOU deu-se conta de que perdeu o jogo. Mas como “deu-se conta”?

MoscowSouvenirs1.jpg
bonequinhas-souvenir de Moscou


Mais ou menos como a palavra “talvez” em Derrida, que sempre significa seu antônimo, ou seja, “com certeza”, entendo o termo “dar-se conta” aqui como o oposto de “perceber”. MOSCOU dar-se conta de que perdeu o jogo deve ser entendido freudianamente, ou seja, como Verneinung (denegação [pdf]). Ainda não entenderam nada do que está acontecendo, isto me parece óbvio, mas algo neles percebe, um “algo” freudiano, ou seja, inconsciência.

Só assim é possível ler a coleção de micos com que O Globo e uma colunista de MOSCOU nos brindaram esta semana, na esteira da entrevista do Presidente Lula ao grupo de blogueiros. Listemos alguns desses micos, poupando a paciência do leitor com uma abundância de links:

1) O Globo afirma que Cloaca News é o primeiro pseudônimo que “participou de entrevista”, provavelmente se esquecendo da existência de Truman Capote e Stanislaw Ponte Preta, entre incontáveis outros; 2) Na mesma matéria, O Globo usa intercambiavelmente os termos “apócrifo” e “pseudônimo”, o que qualquer consulta a qualquer dicionário da língua desautoriza: são termos mutuamente exclusivos, aliás. As Escrituras não são “de pseudônimo”, e quando Truman Capote assina In Cold Blood, por definição, não se trata de algo “apócrifo”; 3) A mesma matéria d'O Globo, não assinada, mas tão ruim que poderia ter sido escrita por um ator de filme pornô ou personagem de ficção científica, diz que José Serra os “teria classificado” de blogs sujos, sem ter feito, portanto, a pesquisa básica no próprio MOSCOU, que lhe confirmaria que a paternidade do sintagma “blogs sujos” é mesmo do candidato do Jornal Nacional nas últimas eleições; 4) o episódio em que a acho-colunista Dora Kramer tentou dar aulas de Direito a um dos maiores Penalistas do Brasil merece um parágrafo a parte, para que se entenda porque eu vejo “dar-se conta”, na frase-tese do post (MOSCOU deu-se conta de que perdeu), como sinônimo de “denegação”.

Sem guglar o nome “Túlio Vianna”, Dora Kramer interpretou a pergunta do Doutor em Direito pela UFPR, Professor da UFMG e autor de Transparência Pública, Opacidade Privada, a Lula, sobre a possibilidade de nomeações mais, digamos, à esquerda para o STF (enfim, sem citar Konder Comparato, o Túlio fez a pergunta número 1 que eu teria feito) como se Túlio não soubesse o que é separação de poderes, passando, enquanto isso, atestado de não ter, ela, nem vaga notícia sobre o assunto. Ela confundiu prerrogativa presidencial de indicação de Ministros ao STF com suposta violação da separação de poderes.

Tentemos desenhar. Imagine, leitor, o mico.

Um colunista com QI abaixo da média, de um jornal em decadência, com vendas declinantes, pertencente a um conglomerado que viu reduzidas as suas chances de realizar mutações em bolinhas de papel, interpela o Professor Luiz Antonio Simas para lhe explicar o que é um samba de enredo e qual a diferença entre a Beija-Flor e a Deixa Falar, cometendo, no processo, confusão entre quem foi Noel Rosa e quem é Martinho da Vila.

Esse é o nível do monumental mico que a colunista Dora Kramer pagou esta semana no Estadão.

Em qualquer imprensa genuinamente pluralista do mundo, seria abalador ou detonador de carreira, e sobre isso perguntem Arianna Huffington no dia 21 de dezembro, em São Paulo. Acho que ela concordaria. Daí, enfim, que a locução verbal "dar-se conta de", na frase-tese deste post, deva ser lida como signo do seu antônimo: ainda não entenderam nada, é evidente, mas algo neles entendeu.




PS: Ainda sobre o tema deste post, eu gostaria de alistar alguém que entende de programação para uma receita de gerador eletrônico de #Mordalíngua: o mecanismo é muito simples. Visitamos os arquivos de MOSCOU, digitamos "Merval", "Leitão" ou "Cantanhêde" e mandamos a máquina rastrear verbos no futuro ou no condicional. Tudo o que eles preveem dá errado. São a confirmação viva de que "até relógio parado acerta duas vezes ao dia" é só isso, um clichê falso. É perfeitamente possível estar errado sempre. É um talento notável, convenhamos. Mas ele existe.

PSTU (apud NPTO): De forma relacionada ao post, mesmo que tangencialmente, o blog acompanha o zumbido de que o Ministro Paulo Bernardo pode ser o encarregado da Pasta das Comunicações no governo Dilma. O blog tenta ter informação independente e não trafica boatos, mas acompanha com interesse e torcida. Seria excelente combinação de firmeza, tato político e ponderação num ministério chave.

PSTU do B: O Biscoito anuncia, esta semana, três coautores: colunistas convidados que escreverão, cada um, um post quinzenal (os confirmados são dois homens e uma mulher). Ainda estamos em negociações com a quarta convidada.



  Escrito por Idelber às 05:34 | link para este post | Comentários (66)



quarta-feira, 24 de novembro 2010

Histórica entrevista do Presidente Lula a blogueiros

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É um marco histórico na democratização das comunicações o evento que acontece daqui a pouco no Palácio do Planalto: Lula concederá a primeira entrevista de um Presidente da República a um grupo de blogueiros. Trata-se de acontecimento histórico, a ser celebrado e assistido por quem tem interesse na luta pela informação livre e democrática no Brasil. A entrevista será transmitida pelo Blog do Planalto e por qualquer blog que queira fazê-lo. O código é livre. Caso acesse o Biscoito nesta manhã, a partir das 9 h, você poderá vê-la e comentá-la aqui (também vale a pena seguir a tag #LulaBlogs no Twitter):

Tendo sido a internet tão decisiva na articulação da campanha de Dilma (tanto na contraposição à visível parcialidade da grande mídia como na crítica à barragem de baixarias advindas da campanha de Serra), o reconhecimento de Lula aos blogs é mensagem clara, como o foram a entrevista do próprio Lula ao Terra e a entrevista de Dilma à Record. Parabéns ao Renato Rovai que, a partir do Encontro de Blogueiros Progressistas, botou sua bela caderneta de endereços e telefones para funcionar e conseguiu a entrevista. Obrigado a ele pelo convite para que eu fosse parte do time de entrevistadores, que catastroficamente não pude atender, posto que ficaria um pouco caro ir ao Brasil só pra isso, tendo comprado passagem já para o começo de dezembro.

Em todo caso, ficam aqui a transmissão ao vivo, os votos de parabéns e a sugestão de que os camaradas-blogueiros resistam à tentação de deslumbramento tão inevitável quando o interlocutor é Lula. Sem replicar a hostilidade da grande mídia, é possível fazer uma entrevista questionadora, incisiva, que vá além da mui merecida celebração da vitória de Dilma para a qual trabalharam tanto o Presidente como a grande maioria dos blogueiros que estão lá hoje (o Altino Machado, até onde notei, apoiou a Marina).

Como contribuição, deixo quatro possíveis perguntas que, acredito, estariam em consonância com esse espírito de uma entrevista iluminadora e, ao mesmo tempo, não puramente celebratória--já que, afinal de contas, a campanha acabou e nós vencemos. Aqui vão elas. Com sorte, algum dos camaradas as verá a tempo e se animará a formular uma variação de alguma delas:

1. Presidente, há críticas na internet, entre apoiadores leais do governo, ao conjunto das nomeações que o Sr. fez ao Supremo Tribunal Federal. Sem citar o nome de qualquer Ministro atual, o Sr. teria algo a dizer sobre a perda da oportunidade de se ter Fábio Konder Comparato no Supremo? O Sr. lamenta essa ausência ou mantém a convicção sobre suas nomeações?


2. Presidente, também entre apoiadores leais ao governo, há a avaliação de que a aliança com o PMDB foi importante para o sucesso e a estabilidade do governo, além de inevitável para a aprovação de legislação na Câmara e especialmente no Senado. Mas também muitos argumentam que no caso particular do Maranhão, o preço ficou bastante alto. O Sr. tem algo a dizer aos petistas maranhenses? Dá para prescindir dessa aliança em particular num futuro próximo? Acha que o ex-presidente José Sarney teria entendido como uma ingratidão pela lealdade dele ao Sr. uma simples neutralidade sua na corrida ao Senado pelo Amapá em 2006, na qual ele concorreu com Cristina Almeida, mulher, negra, socialista e amapaense, ao invés do apoio discreto, mas real, que o Sr. ofereceu a Sarney?


3. Diga lá, Presidente: o Sr. se surpreendeu com a virulência com que a Globo aderiu à campanha de José Serra, chegando àquele patético ponto dos sete minutos de JN dedicados à bolinha de papel, mesmo tendo a emissora sido bem tratada no seu governo, contando, inclusive, com o Ministro das Comunicações? Entendemos que o investimento do governo na democratização da informação foi notável mas, em retrospecto, o Sr. acha que uma relação não de confronto, mas de um pouco mais de distância e indiferença ante a Globo teria sido mais produtiva e saudável? O que Sr. tem a dizer aos milhares de ativistas que tornaram possível a Confecom e a campanha de Dilma na internet, e que se impacientaram com a proximidade de setores do governo a uma corporação de mídia tão manipuladora e direitista em seu jornalismo?


4. Para continuar com as perguntas acerca de um possível arrependimento com concessões feitas, e em relação com a pergunta anterior: entendemos que não interferir diretamente no futebol e não criar confrontos com a CBF, entidade privada, foi boa política. Mas não teria valido a pena mover os pauzinhos para isolar um pouco Ricardo Teixeira e sua turma? O preço político pago pelo governo teria sido tão alto assim?


São contribuições questionadoras, não-chapa branca, a uma entrevista que tem, também, todo o direito de ser uma celebração dos blogs de esquerda com o exitoso presidente que eles apoiaram.

Muita, muita vontade de estar aí. Parabéns e celebremos.




P.S. - Já que os direitos reprodutivos foram tema chave na campanha e Denise Arcoverde e Maíra Kubík Mano levantaram, no Twitter, questão pertinente sobre a composição do time que entrevista Lula, cabe um comentário de alguém que participou intensamente da campanha, foi convidado para a entrevista e tem um histórico de diálogo com a blogosfera feminista. O machismo e a separação de papéis de gênero informam a composição do time de entrevistadores de hoje não como dado subjetivo do organizador, mas na medida em que informam o mapa particular de blogolândia com o qual trabalham Renato e outros camaradas-blogueiros oriundos do jornalismo. Na medida em que as mulheres estão sub-representadas num certo conjunto de lideranças jornalísticas na internet (mesmo dentro da esquerda), a assimetria de gênero visível em nossa sociedade se reproduziu na composição do grupo que está agora em Brasília. A razão pela qual várias possíveis blogueiras-entrevistadoras ficaram fora do radar do Renato é a mesma que fez com que, provavelmente, Celso de Barros também tenha ficado. Mas o fato de que Conceição Oliveira e Conceição Lemes tenham sido as únicas blogueiras convidadas é relevante, assim como é lamentável a ausência da C. Oliveira (há notícias desencontradas sobre se a C. Lemes vai ou não). Com a liberdade de quem é amigo tanto de Túlio Vianna como de Cynthia Semíramis (amigo de cada um deles e do casal), digo que o convite feito a ele e não a ela foi um lapso importante, já que, enquanto blogueira, ela teve uma participação bem mais intensa na campanha que ele. Vanessa Lampert teve atuação tão positiva e decidida como qualquer dos blogueiros convidados. Fica o toque, não como reprimenda ao querido Renato, mas como lembrete do que ainda falta à esquerda (e à esquerda dos "grandes blogs" em particular que, como apontei antes, é majoritariamente oriunda do jornalismo) no que diz respeito a questões de gênero.



  Escrito por Idelber às 04:36 | link para este post | Comentários (76)



sábado, 20 de novembro 2010

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

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"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."
Luiz Gama

Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.


A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.


Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.


Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

PS: Fonte da imagem.

* *P.S. em 24/11: O livro Caçadas de Pedrinho é publicado pela Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, mestre em Comunicação Social/UnB e editor do jornal Ìrohìn, pelo envio de seu excelente artigo "A propósito de Caçadas de Pedrinho".


Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor
20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra




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sexta-feira, 12 de novembro 2010

Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica

monteiro-lobato-nascimento-pai-emilia.jpgNossa indústria de escândalos precisa de urgente renovação. Depois do “Ministério da Educação acéfalo” que só acertou em 99,94% das provas do ENEM, há uma polêmica sobre Monteiro Lobato que, aliás, será do agrado dos que reclamam do Fla x Flu entre lulismo e antilulismo. Desta feita, há governistas e oposicionistas em ambos os lados da polêmica. Isto não a torna, evidentemente, mais interessante.

Aldo Rebelo, o Prof. Deonísio da Silva, Augusto Nunes e dezenas de tuiteiros fizeram uma tempestade numa xícara d'água contra uma suposta “censura” sofrida pelo autor de Urupês. Em comum entre todos eles, a ausência de qualquer citação do parecer que foi pedido ao MEC sobre Caçadas de Pedrinho (ou, no caso de Aldo, a presença de citações distorcidas do texto). O blogueiro do Serra, que eu saiba, ainda não surtou com o tema, mas não duvide. Se, depois de ler algo da obra infantil de Lobato, você ler o parecer do MEC sobre o tema, perceberá a pobreza da indústria do escândalo.

O pedido de parecer recebido pelo MEC se relaciona com algo comum no ensino de obras literárias, em especial para jovens ou crianças: a contextualização necessária para que epítetos, comportamentos discriminatórios, racismo explicito, ódio a povos ou a orientações sexuais etc., sancionadas e apresentadas como normais no contexto em que a obra foi escrita ou no interior dela (e qual é a relação entre obra e contexto em cada caso, claro, é um vasto problema), sejam lidos criticamente e não replicados como modelo pelos alunos. Não é tão fácil como parece. No caso de Monteiro Lobato, é imensamente difícil.

O Deputado Aldo Rebelo diz: Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” — a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

O Deputado Aldo Rebelo vive num mundo onde todas as discussões acerca da cultura se dão num terreno ameaçado, pelo estrangeirismo ou pelo politicamente correto. O Deputado tem uma concepção estática, patrimonialista de cultura nacional. Para ele, o passado é uma coleção de sacralidades intocáveis. É o oposto de uma concepção benjaminiana acerca do que é o pretérito.

A comparação feita por Aldo, entre Lobato e Nelson Rodrigues, é estapafúrdia, por ignorar o contexto em que se faz o pedido de parecer ao MEC: o da obra Caçadas de Pedrinho em salas de aulas do ensino fundamental e médio. Ora, salvo engano meu, não há garotos de 4º ou 5º ano lendo Vestido de noiva ou Bonitinha, mas ordinária nas escolas públicas ou particulares brasileiras. Se eles se introduzem à obra de Nelson na adolescência tardia ou depois, na faculdade, essa situação não tem nada em comum, entendamos, com um garoto negro ou mulato de 10 ou 11 anos de idade sendo introduzido social, coletivamente à pesada linguagem racista que se encontra em parte da obra de Monteiro Lobato. Este blog tem tentado ser contido mas, com vossa permissão, sugiro que só uma besta-quadrada ou um malintencionado não enxerga isso.

Pois muito bem, dados os fatos de que 1) Monteiro Lobato é peça chave da nossa tradição literária, especialmente canônico e fundacional para a literatura infantil; 2) uma obra como Caçadas de Pedrinho está eivada de linguagem pesadamente racista; 3) essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação; coloca-se aí um problema nada simples para o educador. Quem acha que é simples que faça, por gentileza, o exercício de imaginar alguns dos trechos animalizadores de negros, citados pelo Sergio Leo, numa sala de aula com, digamos, 20 ou 22 crianças brancas ou brancomestiças e 3 ou 4 crianças negras ou negromestiças. Imagine, monte seu plano de aula e me conte. É uma situação que tem o potencial de ser tremendamente traumática para a criança.

O que fazer, então? Ninguém, em nenhum momento, falou em “proibir” ou “censurar” Lobato. Em nenhum momento se falou sequer de emendar o texto de Lobato, coisa com a qual eu, particularmente, não teria grandes problemas (pelas mesmas razões do Alex), desde que fosse bem feito.

Na verdade, basta ler o raio do parecer do MEC para ver que, concorde-se com o texto ou não, ele está escrito dentro de um espírito razoável: fornecer ao educador instrumentos (introdução, notas ao pé de página etc.) que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social. O parecer não está escrito em jargão de especialista, mas está informado pela leitura de alguns dos melhores estudiosos de recepção de obras literárias no Brasil, como Marisa Lajolo (que, além de ser estudiosa de estética da recepção, é autora de um artigo importante [pdf] sobre o negro em Lobato).

O parecer explica, em linguagem clara, algo que é amplamente consensual entre estudiosos de literatura: que nenhuma obra literária está completamente “solta”, “livre” dos valores de sua época e que nenhuma grande obra é simplesmente um reflexo desses valores tampouco. Cada obra rearticula, reescreve, chacoalha, reinterpreta os valores de seu tempo. Em outras palavras, o mesmo Monteiro Lobato cujos diálogos estão eivados de racismo pode servir para questionar o racismo. O mesmo Conrad que está encharcado de colonialismo pode servir para questionar a empreitada colonial. O mesmo Nelson Rodrigues que está empapado de misoginia pode ser lido de forma feminista, emancipatória. Mas estas duas últimas tarefas, em sala de aula, são menos explosivas e complexas que a primeira, posto que no caso de Lobato você está lidando com garotos de 10, 11 anos de idade.

Um aparato de notas é o mínimo a que um professor tem direito para trabalhar com as perorações racistas de Emília numa sala de aula do século XXI. Inventemos escândalos mais inteligentes. Aqueles baseados na sacralização dos documentos de cultura passados estão ficando meio tediosos.

Suponho estar óbvio que o parecer do MEC sequer desestimula (que dirá proíbe) a adoção de Caçadas de Pedrinho ou de qualquer outra obra de Lobato. O Alex diz nos comentários a este post (cuja conversa continua aqui) que ele não adotaria a obra e eu entendo suas razões. Aliás, eu me atreveria a dizer que só quem nunca segurou um pedaço de giz não entenderia. De minha parte, eu não sei se adotaria o livro ou não. Optei por dar aulas para adultos, em parte, para não ter que tomar decisões como esta (como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum). Eu provavelmente não a adotaria num contexto em que os garotos negros fossem pequena minoria em sala de aula. Eu estaria mais à vontade para adotá-la (porque Lobato realmente é muito bom) se eu sentisse que estou equipado para tornar o texto um instrumento de debate do próprio racismo. É sempre caso a caso. O parecer do MEC não substitui a decisão de cada professor. Só oferece elementos para subsidiá-la.

Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita. Esta gerou pelo menos dois ótimos textos: do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. Fiquemos com eles.



  Escrito por Idelber às 05:49 | link para este post | Comentários (124)



quarta-feira, 10 de novembro 2010

ENEM não pode ser um vestibular nacional, por Ana Maria Ribeiro

Minha amiga de muitos anos, Ana Maria Ribeiro, Técnica em Assuntos Educacionais na UFRJ (Instituto do Coração/ Complexo Hospitalar UFRJ), é a autora do texto que segue. O Biscoito o publica em primeira mão, como contribuição à parcela séria dos debates suscitados sobre o ENEM a partir do último fim de semana.

********************

O Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) foi instituído há mais de dez anos. Na sua implantação, o então governo do PSDB desejava que este fosse o instrumento para sua intervenção nos conteúdos do Ensino Médio em nível nacional. Para tal, convocou todas as universidades federais, algumas comunitárias e confessionais, propondo o seu uso para ingresso nas universidades. Intencionava o então governo implementar seu projeto de intervenção no currículo e diretrizes do ensino médio, de responsabilidade da esfera estadual, através de seu sistema federal de ensino – as instituições superiores federais e privadas. O ENEM foi implantado, mas não foi aceito pelas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) como instrumento de ingresso. Naquele período, a principal critica formulada contra seu uso era a minimização de conteúdos, assim como a retirada de vários conteúdos considerados importantes para acesso ao ensino superior. Entretanto, varias instituições privadas não hesitaram em usar o ENEM como processo seletivo e com isso reduzir os custos com provas e bancas.

No governo Lula o ENEM passou por uma grande reformulação e foi transformado num instrumento de aferição de habilidades e competências  cumprindo sua função e avaliação de uma etapa importante da formação: o ensino médio. Este forte instrumento possibilitava uma radiografia importante, mas o fato de não ser obrigatório deixava de fora um contingente importante de estudantes brasileiros, o que reduzia sua eficácia no processo de avaliação do sistema.

Sendo o Ensino Médio de responsabilidade dos Estados e o papel do Ministério da Educação complementar, algumas iniciativas começaram a ser desenhadas buscando uma ampliação do escopo desta avaliação. Os especialistas do MEC não tiveram duvidas de que a melhor forma de ampliar o uso do ENEM seria a obrigatoriedade para ingresso na universidade pública.

Com um novo enfoque nas habilidades e competências, seu formato agradou os educadores e a proposta de inclusão do ENEM no processo de seleção de alunos às instituições federais não encontrou grandes resistências. Soma-se a essa posição a clara, e explicita, política governamental de apoio às IFES com o REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Federais). Ou seja, se estabeleceu ao longo destes anos um grau intenso de confiança entre os gestores universitários e governo federal possibilitando a construção de reais parcerias. Para algumas IFES seria necessário inserir no novo modelo do ENEM conteúdos, de forma a possibilitar testar o instrumental necessário para o ingresso no ensino superior.

A partir daí começamos a identificar os problemas cujas consequências se assiste, mais uma vez, nesta segunda edição do ENEM, neste novo modelo. Ao buscar atender a solicitação dos reitores das IFES, o ENEM passou a tentar responder a avaliação de conteúdos, habilidades e competências e a ser instrumento de vários tipos diferentes de avaliação. Ao tentar avaliar vários parâmetros, passou a correr o sério risco de não conseguir avaliar nada. Ao utilizar o método do Teste de Resposta ao Item (TRI), para que o teste possa ter uso atemporal, estabeleceu-se um mecanismo de difícil compreensão na sua correção, o que aumenta a insegurança dos jovens sobre o real resultado. Outro aspecto é que, para atender aos quesitos do TRI, as questões são longas, com textos que tornam sua resolução cansativa. Em síntese, a metodologia adotada para o novo modelo do ENEM, a partir de 2009, ao querer atender a expectativa de facilitar o ingresso nas IFES e a pretensão de se transformar num Vestibular Nacional Único no país, se transformou em uma prova cansativa, confusa e com alto poder decisório para a conquista de vagas concorridíssimas no ensino superior brasileiro. Há no ENEM hoje um forte componente explosivo por ter todos esses elementos embutidos.

Como defensora do ENEM como um exame nacional que deve ser mantido e fortalecido e de utilização pelas Instituições de Ensino Superior--publicas e privadas--para acesso aos cursos de nível superior, não posso concordar com sua desconstituição e destruição. Para sua manutenção, é necessário que tenha um foco claro e objetivo e, portanto, ele não pode se transformar no único processo de seleção centralizado e organizado por um órgão executivo de governo. O MEC não pode se transformar numa grande Comissão de Vestibular Nacional. O papel do Ministério da Educação deve ser o de impulsionar, financiar e coordenar, mas jamais o de executar.

As universidades federais têm ampla experiência na execução deste tipo de concurso, que difere completamente dos tradicionais concursos públicos. Foram anos e anos de aprendizagem e de atenção especifica, buscando seu aprimoramento e os cuidados com nossa juventude que o mesmo requer.

Os problemas identificados pelos candidatos na aplicação do ENEM 2010 são variados e, na sua maioria, passiveis de superação desde que o MEC o responda com clareza e rapidez. Neste sentido, a anulação das provas realizadas no sábado e uma nova aplicação na primeira quinzena de janeiro é a saída mais justa e real frente ao sério problema do erro do cartão de resposta. Todas as demais questões levantadas são pequenas e de fácil acerto, mas o erro no cartão e a falta de sincronia da fiscalização em nível nacional induziu ao erro milhares de candidatos e possibilita que alguns menos escrupulosos possam se apresentar como vítimas depois da verificação do gabarito. A injustiça estaria disseminada. A nova aplicação das provas de sábado em nada atrasaria o processo, visto que a leitura do cartão poderá se dar em paralelo a correção das redações possibilitando a manutenção do calendário de inicio das aulas em março de 2011 nas IFES.

Para o futuro, desejamos um repensar do papel do MEC e de atuação mais contundente das universidades federais na aplicação e na execução da seleção de seus alunos. Cada um na sua função constitucional, esse é o caminho.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (36)



terça-feira, 09 de novembro 2010

Sobre a privataria na educação e a mídia brasileira (com um convite à Twitcam)

19:38: Já está rolando a Twitcam ao vivo

Seria bastante tedioso seguir o auê que se armou na mídia brasileira acerca do erro detectado em 2.000 provas do Enem este fim de semana, especialmente tendo só as informações de que dispomos: um erro técnico, assumido pela gráfica, e que atinge 0,06% dos envolvidos no exame nacional. De uma discussão que teria sentido e que valeria a pena ter-- qual a falha que o Inep poderia ter sanado e como evitá-la da próxima vez – passa-se logo a julgamentos peremptórios sobre a ideia em si (que é excelente) ou, pior, o ministério como um todo. “Acéfalo” foi o mínimo que ouvi de gente que deveria ter visão mais matizada das coisas.

Isso ocorreu, lembremos, por falha de impressão em provas que afetaram zero vírgula zero seis por cento dos três milhões e meio de estudantes envolvidos num processo nacional, que cria condições para que o país se livre de uma de suas piores máfias, aquela que se encastelou durante décadas ao redor desta nefasta instituição chamada vestibular. Não é à toa que a gritaria é braba. Grana, baby, grana.

É tedioso o debate sobre a significação desse erro em particular quando se perde o quadro geral do ENEM também porque, como educador, seria, para mim, motivo de júbilo ter algum dia uma taxa de 99,04 99,94% de acerto. Aliás, eu a entenderia como um sucesso absoluto. Se, ao final da carreira, eu descobrisse que somente em 0,06% dos casos euj fui, por exemplo, injusto na nota (por desatenção, cansaço, erro de memória ou matemática, interferência involuntária de outra emoção etc.), eu certamente me daria por satisfeito e realizado. Caramba, nem em doutas decisões (pdf) de magistrados encontra-se uma taxa de acerto de 99%, sequer em questões como ortografia ou aplicação das regras de pontuação. Mas, para o Estadão, o erro que atingiu 0,06% dos alunos do ENEM (que podem repetir o processo fazendo exames análogos, óbvio, especialmente sendo, como são, um grupo estatisticamente minúsculo) prova que há uma hecatombe no Ministério da Educação brasileiro. Seria só mais uma grita, se não fosse bem mai$ que i$$o.

Como sempre, claro, há que se precaver contra conclusões apressadas, mas dadas algumas coisas que sabemos, não custa perguntar: estão claramente declarados todos os interesses que incidem sobre os interlocutores acerca desse negócio? Este blog entende que ainda não estão suficientemente explícitos, por exemplo, os laços que ligam certos setores da educação privada do Brasil com certos grupos de mídia e suas respectivas famiglias. Quando digo que não estão “explícitos”, me refiro, claro, a laços encontráveis no Diário Oficial. Nos próprios canais de TV, jornais e revistas desses grupos, evidentemente, não há sequer menção desses laços.

Sabemos que a Editora Abril entrou no negócio (digamos na galinha dos ovos de ouro) do livro didático, tendo ela já acedido—cortesia do tucanato paulista—ao ganso dos ovos de ouro das assinaturas sem licitação, bagatelas de oitenta milhões de reais. Sabe-se também do amplo trânsito que tem no Grupo Folha o conselheiro do oligopólio editorial Santillana, Paulo Renato Costa Souza, ex-ministro da Educação do tucanato e atual secretário de Educação de São Paulo. Sabemos, por exemplo, que em meia dúzia (entre dezenas e dezenas) de canetadas da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de SP—cujas funcionárias às vezes aparecem em programa eleitoral--, a bagatela de nove milhões de reais irrigou os cofres de Globos e Folhas por assinaturas, claro, de licitação inexigível, mais ou menos tão inexigível como a autenticidade da ficha policial falsa de Dilma recebida pela Folha como spam, se é que me faço entender. Também é sabido que a Veja com frequência atua como o “braço armado” do Grupo Abril para aniquilar concorrentes no negócio, em operações já mais que observadas nas matérias da revista sobre o ensino. Para quem quiser se aprofundar nessa documentação, referência ineludível é o livro de Geraldo Sabino Ricardo Filho, A boa escola no discurso da mídia – Um exame das representações sobre educação na revista ‘Veja’ (1995-2001) (Editora Unesp).

Menos documentadas estão outras histórias, como por exemplo o bizarro episódio em que o estado de São Paulo dispensa a famosa inexibilidade (o princípio que rege todas as compras de assinaturas dos grandes grupos de mídia por lá) e realiza uma licitação para a aquisição de DVDs “Novo Telecurso”, tanto para o ensino fundamental como para o médio. Êba! Capitalismo e livre concorrência! Seria para se celebrar mesmo. Especialmente, como veremos, no Jardim Botânico.


Com fulminante rapidez, o edital é publicado em 25/07/99 e o resultado do certame sai em em 11/08/99, com vitória do Grupo Globo-- o que não chega a surpreender, dado o fato de que a Fundação Roberto Marinho, salvo engano deste atleticano blog, é a única entidade que produz qualquer porra chamada “Novo Telecurso”. Evidentemente, os pagamentos com dinheiro público paulista não falharam. R$ 4 milhões depositados em 26 de agosto e mais R$ 9 milhões no dia 29 de agosto.

Mas as diversões proporcionadas por esse curioso caso não param por aí. A Fundação Roberto Marinho licita com exclusividade três editoras, e somente três, para distribuir os materiais do telecurso: duas delas são conhecidas, a Posigraf (da Positivo) e a IBEP Gráfica LTDA (manjadas de quem acompanha as compras da Secretaria da Educação de SP). A terceira é de estatuto deveras nebuloso: Editora Gol LTDA. Será que a existência de tão insólita e desconhecida editora, licitada como uma das três exclusivas distribuidoras do “Novo Telecurso” que faz negócios de dezenas de milhões de dinheiro público não seria de interesse de algum jornalista da mídia brasileira?

Pode ser, mas esperemos sentados. Enquanto isso, continuamos aprendendo com o NaMaria News, de onde saíram os dados para os dois parágrafos anteriores.

Como algumas dessas questões voltaram a me interessar, decidi marcar uma sessão da Twitcam para esta terça-feira, às 19:30, horário de Brasília. Para quem quiser compilar coisinhas sobre esse bilionário negócio, o blog recomenda, além do NaMaria News, os arquivos do Cloacão sobre Paulo Renato e um texto da revista Veja, de 20/11/91 (encontrável lá nos arquivos), intitulado “A Máquina que Cospe Crianças”-- e mais o que a diligência de vocês desenterrar, é claro. Há verdadeiras pérolas sobre este assunto escondidas por aí.

Entrando a Twitcam, eu aviso aqui no blog. De qualquer forma, o link estará no meu Twitter às 19:30.


PS: Antes disso, e bem a propósito, começa, com transmissão ao vivo pela net, o Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, promovido pelo governo federal e dedicado, entre outras coisas, a examinar experiências de regulação no setor de comunicações eletrônicas em países como Argentina, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal e Reino Unido. Acontece ao longo do dia de hoje, terça-feira, e amanhã.



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (82)



segunda-feira, 08 de novembro 2010

Só a justiça pode trazer paz para esta região de trevas, por Robert Fisk

O Biscoito oferece, em português, a última coluna de Robert Fisk para o Independent, texto contundente escrito a partir do recente massacre de cristãos em Bagdá. A casa agradece Paula Marcondes e Marcos Veríssimo pela tradução, à qual eu fiz um ou outro retoque estilístico: trabalho a seis mãos, portanto (com méritos maiores de Paula e Marcos), para circular em nossa língua um texto que merece ser lido. Com a palavra, a clareza moral e bem informada de Robert Fisk.

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A velocidade com a qual os povos do Oriente Médio se assustam com o massacre da Al-Qaeda à igreja de Bagdá é um sinal de como é frágil o terreno em que eles pisam.

Ao contrário dos nossos noticiários da televisão ocidental, a Al-Jazeera e a Arábia mostram todo o horror de tamanha carnificina. Braços, pernas e torsos decapitados não deixam dúvidas sobre o que significam. Todo cristão na região entendeu o que esse ataque significou. Sem dúvidas, dada a natureza sectária das agressões aos xiitas iraquianos, eu estou começando a me perguntar se a Al-Qaeda em si--longe de ser o centro/ a essência/ a fonte do "terror mundial", como imaginamos--pode ser uma das organizações mais sectárias já inventadas. Não há, suspeito eu, apenas uma Al-Qaeda, mas várias, alimentando-se das injustiças da região, uma transfusão de sangue que o Ocidente (e estou incluindo aqui os israelenses) injeta em seu corpo.

fisk-1.jpgNa verdade, eu me pergunto se os nossos governos não precisam desse terror--para nos assustar, assustar muito, para nos fazer obedecer, para trazer mais segurança às nossas vidinhas. E eu me pergunto se esses mesmos governos irão algum dia acordar para o fato de que nossas ações no Oriente Médio estão colocando em risco a nossa segurança. O Lord Blair de Isfahan sempre negou isso--até mesmo quando o homem bomba de 07/07 explicou cuidadosamente em seu vídeo póstumo que o Iraque era uma das razões pela qual ele cometeu o massacre em Londres--e Bush sempre negou, e Sarkozy vai negar se a Al-Qaeda cumprir sua mais recente ameaça de atacar a França.

Agora, para a Al-Qaeda, "todos os cristãos" do Oriente Médio devem ser alvos também, dispersando essas ameaças como minas espalhadas pela região. Cerca de dois milhões de pessoas da comunidade cristã do Egito terão que ser protegidas durante as duas semanas do festival religioso Luxor, rodeadas por centenas de seguranças da polícia estatal, após a reivindicação da Al-Qaeda de que duas mulheres muçulmanas estão sendo mantidas contra a sua vontade pela Igreja Copta. É meramente incidental que isso possa ter se originado na decisão dessas mulheres de se divorciarem de seus maridos--e portanto pela conversão para pôr fim a seus casamentos, já que a Igreja no Egito não permite o divórcio.

Agora a contaminação se espalhou para o Líbano, onde as tensões entre xiitas e sunitas se intensificaram por causa da exigência do Hezbollah de que se rejeitem as acusações do tribunal da ONU sobre o assassinato do antigo primeiro-ministro Rafiq Hariri. O que poderia ter passado por um ato de vandalismo em qualquer outra época - a profanação de um túmulo cristão - agora tem declarações de amor passional e fraternal feitas por todos os clérigos do país para que não se sugira que os muçulmanos foram os responsáveis. Em Jiye, uma agradável cidade costeira ao sul de Beirute, alguém arrombou as cinco portas da abóbada da Igreja de São Jorge e tirou o corpo de George Philip al-Kazzi--morto por velhice no dia 23 de Julho de 2002--de dentro do túmulo, deixando-o com o crânio esmagado. Esse foi o terceiro ataque desta natureza na cidade em 10 anos.

O Padre Salim Namour, do monastério Saint Charbel - cujo nome vem do padre maronita morto há muito tempo e sobre quem se acredita que chora uma vez por ano - afirmou que sua cidade era um modelo de coexistência e fez um pronunciamento que poderia ser parte de orações em quaisquer igrejas e mesquitas do Oriente Médio. "Não podemos pensar desta maneira", disse ele. "Enterramos os mortos de nossos camaradas muçulmanos e eles enterram os nossos." O vice-presidente do Alto Conselho Islâmico Xiita, Xeique Abdel-Amir Qabalan, chamou o massacre  de "bárbaro", um ato que "não tem nenhuma relação com qualquer religião ou humanidade e que não pode ser aceito logicamente." Os bispos maronitas libaneses depois condenaram o bombardeio a Bagdá como um "ato criminoso inútil". 

O Ocidente é impotente para ajudar esses cristãos com medo. As ações de políticos "baseados na fé"--na fé cristã, obviamente--causou uma nova tragédia cristã no Oriente Médio. (O fato de eu ter conhecido recentemente vários americanos na Califórnia que achavam que o cristianismo era uma religião "ocidental", em vez de oriental, provavelmente diz mais sobre os Estados Unidos que sobre o cristianismo.) 

Ninguém em sã consciência acharia que a al-Qaeda dispenderia suas energias em um ato tão mesquinho - apesar de revoltante - no Líbano. Mas a al-Qaeda existe no Líbano. Temos a palavra do presidente Bashar al-Assad sobre o assunto. De fato, é interessante escutar o que Assad disse sobre o tema na semana passada - uma vez que suas relações com o Hezbollah e o Irã xiita não o tornam mais amigável ao grupo de bin Laden. Em uma entrevista ao jornal Al-Hayat, ele disse: "Falamos sobre a al-Qaeda como se ela existisse como uma organização unificada e bem estruturada. Isso não é verdade. Ela age mais como uma corrente de pensamento que chama a si própria de al-Qaeda. Essa organização é o resultado (de uma situação), e não uma causa. É o resultado do caos, de um desenvolvimento fraco. É o resultado de erros e de uma certa direção política." Dizer que essa organização "existe em todos os lugares, tanto na Síria como em todos os países Árabes e islâmicos, não quer dizer que ela seja amplamente disseminada ou mesmo popular". 

Ainda assim, Assad não pode absolver seu próprio regime ou os regimes dos estados árabes cujas leis de segurança proíbem quaisquer reuniões políticas - além daquelas aprovadas por oficiais do governo - e portanto há muito tempo forçam os muçulmanos a discutir política na única instituição que visitam regularmente: a mesquita. Por certo, a maior ironia nesta semana foi ouvir nossos senhores e mestres louvando a presteza do regime Wahhabi, na Arábia Saudita, por alertar ao Ocidente sobre os pacotes-bomba nos aviões, quando foi essa mesma Arábia Saudita que acalentou Osama bin Laden e seus comparsas por muitos anos. 

Porque os ditadores do Oriente Médio também gostam de assustar suas populações. A elite dominante do Egito tem nojo dos seus pobres, mas quer ter certeza de que não haverá revoluções islâmicas no Cairo. E o Ocidente quer assegurar-se de que não haverá revoluções islâmicas nem no Cairo, nem na Líbia, nem na Argélia, nem na Síria, nem na Arábia Saudita. (Completem a lista.) O problema mais premente é que a al-Qaeda está tentando minar esses regimes, assim como tenta minar o Ocidente. Desta maneira, colocam o próprio Iraque no mesmo saco - é de certa forma irrelevante que o Iraque seja uma democracia, já que não há governo e eles estão ocupados demais executando seus velhos inimigos baathistas para proteger seu próprio povo -, juntamente com os cristãos e os xiitas do país. E continuamos a lançar mísseis não-tripulados no Paquistão, a bombardear inocentes no Afeganistão, a tolerar os regimes torturadores do mundo árabe e a permitir que Israel roube mais terras dos palestinos. Receio que será a mesma história de sempre: é a justiça que trará a paz, e não guerras de inteligência contra o "terror mundial". Mas nossos líderes se recusam a admitir isso.



  Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 07 de novembro 2010

Links de domingo

Aí vai uma seleção do que me saltou aos olhos nas leituras de fim de semana na internet:

O Pedro Alexandre Sanches fez uma lista sensacional de troféus desta eleição. Meus destaques são o de melhor eleitora, o Troféu Marisa Letícia, para Maria Rita Kehl, e o de pior eleitora, Troféu Weslian Roriz, para Monica Serra. O troféu de ativista virtual mais bem humorado ficou com José de Abreu e a de mais mal humorada com Soninha. Na distinção entre as duas trilhas sonoras há um bom contraste também.

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Poderíamos acrescentar aí, já sem relação a não ser oblíqua com as eleições, o Troféu Justiça Poética e conferi-lo ao Jabuti 2010, que premiou nossa maior psicanalista, uma pensadora de centralidade e importância indiscutíveis na cultura brasileira: Maria Rita Kehl e seu O Tempo e o Cão. Autora que já poderia ter sido premiada com Deslocamentos do Feminino ou A Fratria Órfã, ela chega à consagração como uma das maiores ensaístas da língua com a crônica da sua entrada no tratamento de depressões, depois de mais de duas décadas de trabalho analítico freudiano. Além da entrevista com o Valor, sugiro também, de Kehl, o relato sobre a experiência com o MST. Leio a obra mais recente e premiada de Kehl em exemplar gentilmente emprestado pelo meu chapa Tiago Mesquita. Além do próprio livro, recomendo a resenha de Danieli Machado Bezerra para a Revista Teoria e Debate.

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Vai voltar uma revista chilena que foi efêmera, mas que marcou um momento importante dos debates culturais do país. O primeiro número da segunda dentição de Extremoccidente sai em breve. Já publicamente pendurado no meu Google Docs, ainda com frases em diversas cores, está o rascunho da carta de reapresentação assinada por mim, Federico Galende (argentino em Santiago) e intelectuais chilenos como Pablo Oyarzún, Nelly Richard e Willy Thayer. O primeiro número trará artigo meu sobre a eleição de Dilma, uma versão castelhana do texto que sai na próxima Fórum.

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Também pendurado no meu Google Docs, para download público, há um texto assombroso. Meu amigo Eduardo Cadava (competentemente traduzido ao espanhol por Mariela Pacchioli) escreveu, para a revista mexicana Acta Poética, uma análise das relações de Marx com a literatura com elegância e pertinência raramente conseguidas. Porque Cadava entendeu que a chave não é, nem nunca foi, como fazer leituras “marxistas” da literatura ou, em outras palavras, comprovar o marxismo como método transformando os textos literários em cobaias. Mais interessante e curioso é ler no próprio texto de Marx um tecido de referências à literatura (e à literatura chamada “moderna” em particular, que se inicia, digamos, com o Dom Quixote) como dispositivo de separação entre a ficção (alucinação, delírio, fantasia, distorção, ideologia) e a chamada realidade. Esta distinção não é nunca, claro, tão simples como pareceria à primeira vista a partir da oposição entre Quixote e Sancho—dado que fica mais manifesto ainda no segundo volume da obra de Cervantes, em que o cavaleiro aparece lendo sua própria história. Em todo caso, baixe este pdf se tiver fôlego para a leitura de um estudo acadêmico da mais alta sofisticação.

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Várias listas de erros de José Serra pipocaram pela internet nas últimas semanas, mas esta me pareceu a mais completa.


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Consciente ou inconscientemente, o Deputado Rodriguinho Maia (DEM), está traficando patacoada. Ao contrário do que ele afirma, a não formalização do pedido de impeachment de Lula em 2005 não foi iniciativa de FHC coisa nenhuma. Isso foi decidido em reunião entre Jorge Bornhausen e Irineu Marinho, depois que o catarinense passou pelo crivo global as hipóteses de José Alencar e Severino Cavalcanti como os próximos na linha sucessória. Consulte o barriga-verde, Rodriguim.

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Não deixe de ler a defesa do pessoal da Falha contra a patética ofensiva judicial da Folha de São Paulo, que quer reclamar de roubo de marca num claro caso utilização paródica. A Folha, que adora apontar para os EUA como modelo de democracia, deveria consultar a robusta jurisprudência estadunidense que define, para esse tipo de caso, duas alternativas: 1) gargalhada do juiz na cara da parte querelante, nem indo a matéria a tribunal; 2) Indo o caso ao tribunal, gargalhada coletiva deste nas fuças do querelante, que pode até tomar processo por demanda frívola. Hipócritas defensores da "liberdade de imprensa", esses da Barão de Limeira.

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Mas está sem dúvida excelente a entrevista da Folha com João Santana, o marqueteiro de Dilma e Lula nas últimas duas eleições. Está tudo dito lá.

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Ótima iniciativa de Raul Pont no Rio Grande: Retomada do controle pleno da Refinaria Alberto Pasqualini.

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Na Carta Maior, há uma alvissareira notícia acerca de recente reunião das centrais sindicais latino-americanas para criar uma rede de informação continental e encaminhar a luta pela democratização da mídia.

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Saiu o número mais recente da ótima Revista UFG, onde já tive o prazer e a honra de publicar. O número é um dossiê art déco, mas o destaque é a entrevista (pdf) com Antonio Nóbrega.

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No blog de Luiz Nassif, o Thomaz Braga fez uma ótima defesa do financiamento público de campanha.

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No Outras Palavras, Antonio Martins tece interessantes observações sobre o ineditismo da dobradinha que se arma entre Lula e Dilma na política brasileira.

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Terceira diáspora: o porto da Bahia e Terceira diáspora: culturas negras no mundo atlântico são os dois novos livros de minha amiga Goli Guerreiro, autora de A Trama dos Tambores. Os dois novos volumes são publicações da Editora Corrupio, se originaram no blog Terceira Diápora e agora recebem resenha de Hermano Vianna.

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E finalmente, da série "Tirem as crianças da sala", um vídeo do YouTube: Corno peruano filma a mulher com o padre. Ela depois se diz vítima de acosso, o padre some, do corno não se sabe. Santa Igreja Católica Véia de Guerra.

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Bom domingo a todos.



  Escrito por Idelber às 06:28 | link para este post | Comentários (7)



segunda-feira, 01 de novembro 2010

Aviso: Twitcam hoje, às 21:30

Aqui vai um aviso aos navegantes: hoje, às 21:30, horário de Brasília, entro de novo via Twitcam. Neste mesmo post colocarei uma atualização com o link, e nesta caixa você pode deixar suas perguntas e comentários também, embora não seja necessário ter Twitter para participar do chat que se arma lá. É só escrever o nome e enviar o comentário. Em todo caso, a gente interage por aqui ou por lá.

Até daqui a pouco, então.

Atualização: Aqui vai o link para a Twitcam, já rolando.



  Escrito por Idelber às 16:30 | link para este post | Comentários (14)




Hora de festa: Análise só depois

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  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (32)



domingo, 31 de outubro 2010

Comentários ao vivo sobre as eleições na Twitcam

Estou ao vivo na Twitcam comentando as eleições

PS: O papo na Twitcam foi fantástico, e rolou das 14h até as 19 h de Brasília. Agora eu tirei uma folga. Vou reeditar a experiência de vez em quando, à noite, pelo menos durante uma horinha. Gostei muito.

PS 2: No momento, a comemoração virtual deste blogueiro está rolando no Twitter. Para amanhã tento escrever algo minimamente decente. Parabéns, Dilma!



  Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post | Comentários (27)



quinta-feira, 28 de outubro 2010

Néstor Kirchner (1950-2010)

Começa daqui a pouco, na mítica Casa Rosada, o velório do ex-presidente argentino Néstor Kirchner. Se os méritos de um político se julgam pela sua capacidade de transformar o senso comum de seu tempo, não há como escapar da conclusão: Néstor foi um dos grandes. Ele mudou os paradigmas. Os mais jovens talvez não se lembrem, mas 2001 representou um colapso não só da economia argentina, mas de toda uma imagem de país letrado e europeizado, construída ao longo de 100 anos. A fuga de capitais foi fatal, dada a vulnerabilidade que em o menemismo deixara a nação. A descapitalização forçou uma corrida aos bancos que, por sua vez, levou o governo a impor o corralito, na prática um congelamento das contas bancárias. Famílias inteiras, de classe média, eram lançadas à mendicância. Multidões iradas tomaram as ruas. Fernando de la Rúa foge de helicóptero e quatro presidentes se sucedem em uns poucos dias.

Néstor havia sido militante da Juventude Peronista, advogado, prefeito de Río Gallegos e duas vezes governador de Santa Cruz, província isolada dos centros decisórios do país. Não era exatamente um político conhecido. Quando se candidatou, em 2003, o que mais se ouvia é que se tratava de uma "marionete" (títere) de Eduardo Duhalde. Obtém, no primeiro turno, 22%, conquistando uma vaga no segundo contra Menem, que conseguira 24%. Quando as pesquisas começam a indicar que Kirchner venceria com mais de 70% dos votos, Menem se retira da disputa. A pancadaria verbal que lhe dirige Néstor, acusando-o de irresponsável, por colocar em risco a democracia, já dava uma ideia do que seria o governo do sujeito: ele não tinha papas na língua.

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Desmoralizada no cenário internacional e afogada em dívidas, presidir a Argentina não era exatamente o sonho de consumo de um político. O que aconteceu dali em diante terá que ser bem narrado um dia pelos livros de história, mas não foi nada menos que fulminante e surpreendente. O novo presidente entrega uma banana ao FMI e começa a priorizar o mercado interno. Acusa dois membros da Suprema Corte de extorsão, promove seus impeachments e inicia a renovação que faria dela um modelo de aplicação de uma política de direitos humanos. Promove a aposentadoria compulsória de dezenas de oficiais das Forças Armadas envolvidos com torturas durante a ditadura. Dá prosseguimento à política iniciada por Alfonsín (e interrompida por Menem) de processar torturadores, só que agora com intensidade e frequência inauditas. O calote no FMI, paradoxalmente, aumenta o poder de barganha da Argentina, e sua dívida é reestruturada em um terço de seu valor nominal. Com uma retórica poderosa, que sempre foi parte integral de sua política, Néstor ia recuperando a autoestima do país. A inequívoca política de direitos humanos lhe conquistou a adoração dos grupos dedicados à causa. Não é de surpreender que ontem o povo tenha tomado a mítica praça.

Em 2007, quando conclui seu mandato, a Argentina havia se recuperado significativamente e Néstor contava com notáveis índices de aprovação. Mas o casal Kirchner surpreende o país anunciando que a candidata seria Cristina. Néstor continua trabalhando nos bastidores e conclui sua trajetória política como presidente da Unasur, posição na qual conquistou o respeito de todos os líderes da América do Sul, inclusive dos direitistas Uribe (Colômbia) e, depois, Piñera (Chile). Tinha uma enorme empatia com Lula, com quem, já em 2003, troca impressões sobre as ditaduras latino-americanas que ficariam marcadas na memória do mandatário brasileiro.

A truculência e o jogo de bastidores são parte da política peronista desde os anos 40. Néstor sabia usar o método como poucos. Elevou o "bate e sopra" à condição de arte da política. Sabia utilizar os inimigos comuns como instrumento para o fortalecimento de sua coalizão. A imensa desolação que tomou conta dos meus amigos argentinos residentes aqui no Chile tinha razão de ser: entre os membros do projeto de centro-esquerda que governa a Argentina desde 2003, Néstor era o mais bem situado nas pesquisas de opinião para as eleições de 2011. A dobradinha com Cristina estava em condições de oferecer dois fortes nomes à Presidência e ao Governo da Província de Buenos Aires. O comentário de Federico Galende, filósofo argentino residente em Santiago, diz tudo: era um realista como Alfonsín, mas sabia jogar.

Sempre é triste ver morrer um grande político mas, no caso de Kirchner, trata-se de nada menos que uma tragédia. O quadro sucessório para 2011 fica bem confuso sem ele, e o blog sinceramente espera que, passada a esperada trégua, esta desgraça não abra as portas para uma volta da direita. A alta popularidade de Néstor era um enorme triunfo da coalizão de centro-esquerda.

O blog deixa este modesto obituário como nota de reconhecimento a homem de coragem. Não são muitos os que teriam o valor de encarar o turbilhão que encarou Néstor em 2003. Diante do caos absoluto, ele levantou, sacudiu, deu a volta por cima. Não é pouco.


PS: A matéria feita pelo Jornal da Globo sobre Kirchner é uma coleção de infâmias sexistas.

PS 2: As buscas por PHA, Nassif, Vianna, Brizola e Biscoito já ultrapassaram as buscas pelos blogs UOL-Globo-Veja (incluídos Noblat e Reinaldinho).

PS 3: Amanhã o Biscoito completa seis anos de atividade (obrigado pela lembrança, Flávia). Ainda não sei se vale a pena comemorar o aniversário de um blog que ficou parado um ano. Parece trapaça com os números.



  Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post | Comentários (39)



terça-feira, 26 de outubro 2010

Um discurso histórico de Lula

Na avalanche de informações e escândalos própria ao período pré-eleitoral, é comum que acontecimentos muito importantes deixem de receber a atenção devida. Basta dizer que na semana passada, o anúncio do IBGE, de que havíamos atingido a menor taxa de desemprego da história da República, recebeu no Jornal Nacional aproximadamente dez segundos, enquanto sete minutos eram dedicados a uma bolinha de papel.

Neste espírito, convido os leitores que ainda não viram a que assistam esse discurso improvisado do "presidente analfabeto". É um pronunciamento histórico.






  Escrito por Idelber às 06:56 | link para este post | Comentários (43)



quinta-feira, 21 de outubro 2010

Fita crepe é o caralho! Meu nome é bolinha de papel, porra!

O dia de hoje mereceria um post caprichado. Ontem, dois conglomerados máfio-midiáticos brasileiros aprofundaram um pouco mais o seu processo de ridicularização. De manhã, a Folha foi desmoralizada pelo texto de sua própria reportagem e, à tarde, pela Polícia Federal. À noite, a Rede Globo de Televisão foi desmoralizada por ... uma bolinha de papel.

Haveria muito que se escrever, mas eu sou obrigado a dar outra pausa no blog. Viajo de novo no domingo, desta vez para o Chile, convidado a um encontro internacional de especialistas na obra de Walter Benjamin, que se reunirão em Santiago, em evento comemorativo dos 70 anos da morte do grande pensador alemão. Nas próximas duas semanas, então, o calendário do blog é o seguinte: até domingo estarei escrevendo a minha apresentação e até quinta-feira que vem estarei no Chile. Haverá atualizações no blog, mas elas acontecerão de forma bem lenta e precária. Na quinta-feira, eu retorno do Chile e, aí sim, entro de sola na cobertura da reta final da campanha e da apuração dos números de domingo, esperando que Dilma me dê aquele presente de aniversário no dia 31. Enquanto eu estiver a maior parte do tempo offline, volta a moderação de comentários. E a aprovação vai demorar, portanto, paciência.

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Deixo com vocês alguns links que valem a pena serem lidos. Primeiro, sobre o episódio da quebra do sigilo da filha de José Serra, leia:


Na Rede Brasil Atual: A Folha desmente a Folha. E não assume.

No Renato Rovai: Folha livra Aécio e implica PT.


Depois de a Folha estampar manchete tentando implicar o PT numa quebra de sigilo oriunda de guerra intra-tucana (PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma), o UOL foi obrigado a encontrar um cantinho para a nota da Polícia Federal que desmascara o jornal.


O que a investigação da Polícia Federal confirmou é aquilo que, de forma alegórica e críptica, mas evidentemente compreensível para quem tivesse um pouquinho de familiaridade com o tema, O Biscoito Fino e a Massa relatou no longínquo dia 03 de setembro, quando toda a imprensa brasileira armava um auê com a acusação que José Serra fez a Dilma, e da qual, agora, ele não quer nem ouvir falar. Se o que relatei aqui no dia 03 não fosse a verdade, não teria ocorrido tanta confusão lá na Av. Getúlio Vargas, 291, não é mesmo, caros amigos do Estado de Minas?


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Sobre o episódio de Campo Grande, sugiro, em primeiro lugar, que você assista ao vídeo do SBT:



Depois de passear pelas mentiras de Noblat, mentiras da Veja, mentiras de Indio, mentiras da Globo, entenda por que Serra levou tantos seguranças ao evento em Campo Grande lendo a explicação de Flávio Loureiro acerca do ódio que mantêm por ele os trabalhadores conhecidos como mata-mosquitos, cujo sindicato se localiza precisamente em Campo Grande. A reintegração desses trabalhadores, escorraçados por Serra na época em que era Ministro da Saúde, foi conseguida em 2005. Para quem não se lembra, os trabalhadores mata-mosquitos levaram uma enorme réplica de um mosquito da dengue à inauguração do comitê de Serra em 2002.

Depois, acompanhe, estarrecido, as declarações deslavadas de um médico que deveria ser imediatamente investigado pelo Conselho Federal de Medicina.

No Twitter, claro, a farsa de Serra, Globo e médico foi imediatamente ridicularizada. Bombaram durante toda a noite e chegaram ao topo dos Trending Topics as tags #boladepapelfacts e #SerraRojas (para quem não acompanha futebol: Rojas é um goleiro da seleção chilena que simulou ter sido atingido por um foguete no Maracanã, em episódio que nos rendeu uma capa de Playboy--'a fogueteira'- e que é lembrado até hoje pelos chilenos como uma das maiores vergonhas da história do futebol no país). Siga os links sobre as tags para deliciar-se com mais um espetáculo de criatividade tuiteira.

Não posso deixar de notar que minha querida Democracia Socialista arrasou ontem no Twitter. Quem iniciou a tag #SerraRojas foi o Deputado Doutor Rosinha e quem iniciou a tag #boladepapelfacts foi o Mateus Araújo, ambos ligados à corrente política petista com a qual este blogueiro também mantém suas relações de simpatia e preferência.

O título que escolhi para este post não foi ideia original minha: é cortesia d'Opetista, a quem copiei. Ele alude, para quem não se lembra, a uma famosa frase de Zé Pequeno no filme Cidade de Deus.

Volto, então, intermitentemente ao longo da próxima semana e com força total na próxima quinta. Agora eu preciso ir ali, me preparar para não fazer feio em Santiago, porque o time que estará lá é de primeira.



  Escrito por Idelber às 07:03 | link para este post | Comentários (95)



domingo, 17 de outubro 2010

Áudio da CBN com o vexame de José Serra e Tasso Jereissati em Canindé (CE)

O ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, provocou tumulto com um padre que se posicionou contra a campanha de boatos utilizando a Igreja Católica e o aborto.

A confusão ocorreu durante compromisso de campanha do candidato tucano à Presidência, José Serra, na Basílica de São Francisco das Chagas em Canindé, no Ceará. O ex-governador tem montado uma agenda religiosa neste segundo turno, tentando se aproveitar da campanha de boatos contra a adversária, a petista Dilma Rousseff.

O problema começou quando o padre disse que eram falsos os panfletos que circulavam pela igreja afirmando que Dilma é favorável ao aborto e às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Foi então que Jereissatti se irritou, afirmando que um “padre petista” como aquele estava “causando problemas à igreja.” De acordo com a reportagem da Agência Brasil, os administradores da paróquia não informaram o nome do padre.

O texto acima é da Rede Brasil Atual, que mostra mais um grosseiro episódio de exploração da religião por parte de José Serra nesta campanha.

O Biscoito acrescenta o áudio da CBN com o relato do vexame:



  Escrito por Idelber às 18:02 | link para este post | Comentários (19)



sábado, 02 de outubro 2010

Blogagem ao vivo das eleições, amanhã

Caros leitores:

Meu plano para amanhã é o seguinte. A blogagem ao vivo da boca de urna e das apurações deve começar logo depois do almoço. Como sempre é o caso nas blogagens ao vivo, eu prefiro usar a caixa de comentários do blog que os serviços de chat que há por aí, como o "Cover it Live". Na medida em que um leitor traz informação nova, eu puxo o link e o comentário aqui pra cima. Amanhã, pretendo abrir quatro posts: um para que acumulemos informações sobre as corridas para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas, outro para as eleições ao Senado, outro para as disputas para Governador e, finalmente, no topo da página, o post dedicado a notícias e apurações da campanha presidencial.

Desde já, convoco os leitores nos estados a que nos ajudem com informações em primeira mão, ou mesmo com impressões da boca de urna. Se você não tem Twitter, não deixe de visitar minha página por lá de vez em quando, pois no microblog os links e fontes surgem com muita velocidade e abundância.

Apareço aqui de novo, então, amanhã, lá pelas 14 h, no máximo, com os quatro posts.



  Escrito por Idelber às 16:20 | link para este post | Comentários (28)



segunda-feira, 20 de setembro 2010

Um link e um aviso

Haverá post ainda nesta segunda-feira aqui no Biscoito, sobre um tema que é de interesse de muita gente. Por enquanto, para quem quiser passar o tempo, deixo o link ao meu FormSpring, onde respondi umas vinte perguntas na noite de domingo. Entre as recentemente respondidas, talvez esta, esta e esta sejam as de maior interesse.

Volto antes do pôr do sol com um texto semidecente, que será publicado também na Fórum. Fiquem à vontade para usar esta caixa para comentar ou descer o sarrafo em qualquer resposta minha no FormSpring, essa diabólica ferramenta onde as perguntas parecem se reproduzir como coelhos.



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (30)



segunda-feira, 13 de setembro 2010

Revista Fórum: O Ad Hominem da Militância

Aí vai minha contribuição desta semana para a Revista Fórum. Como de costume, deixo um trecho aqui e coloco o link para para que você termine de ler lá na Fórum. Querendo debatê-lo, é só voltar aqui.

Já é um clichê repetido à exaustão que a grande mídia tem sofrido um tranco duro durante esta década de disseminação do acesso à internet. Não quero aqui martelar outra vez este ponto, mas analisar, de forma breve, uma variação recente da resposta de alguns jornalistas ao processo que poderíamos chamar de “choque de transparência”. Trata-se do termo “militância”, sistematicamente usado por jornalistas para desqualificar as críticas recebidas pela grande mídia na internet.

Em primeiro lugar, vale lembrar uma diferença entre os blogs, principais instrumentos de crítica da mídia na primeira metade da década, e o Twitter, plataforma de micro-publicações que adquire cada vez mais importância na internet brasileira. Muito pode ser dito aqui e existe gente mais qualificada que eu para falar dos aspectos técnicos da coisa. Limito-me a apontar o óbvio: por mais barulho que os blogs fizessem, era relativamente simples ignorá-los. Um blog opera em seu espaço próprio, que o jornalista da grande mídia, mesmo visitando, pode ignorar ou fingir ignorar. No Twitter, não. Cada jornalista e veículo de mídia possui seu próprio perfil, mas opera no mesmo ambiente que todos os outros tuiteiros. Uma avalanche de menções a alguém dificilmente poderá ser ignorada sem que se caia no ridículo. Por isso a ombudsman da Folha foi obrigada a dedicar a coluna inteira deste domingo ao #DilmafactsbyFolha. Teria ficado feio demais fingir desconhecimento de uma experiência tão impactante como aquela.


Continue lendo O Ad Hominem da Militância no site da Revista Fórum e depois volte para dar seu pitaco.



  Escrito por Idelber às 15:48 | link para este post | Comentários (24)



sábado, 11 de setembro 2010

11 de setembro, 37 anos: Allende vive

São 8:54 h em Brasília. A esta hora, há exatos 37 anos, a aviação chilena começava seu bombardeio ao palácio presidencial La Moneda. Depois de derrotada nas eleições parlamentares de 1972, a direita chilena decide abandonar a via eleitoral e o caminho da mera agitação e da sabotagem. Passa a preparar o golpe militar que interromperia uma das interessantes experiências de um povo na reconquista de sua autoestima.

Apesar da intensa sabotagem, dos assassinatos cometidos por grupos de extrema-direita como o Patria y Libertad, dos blecautes patronais e do clima de desestabilização promovido pelo golpismo chileno e pela CIA, a Unidade Popular (coalizão que dava sustentação ao Presidente Salvador Allende, formada pelos Partidos Socialista e Comunista, além de importantes grupos de esquerda como o MIR e o MAPU) havia conseguido ainda mais votos em 1972 que nas eleições presidenciais que levaram Allende ao poder, em 1970.

Acossado em seu palácio sob intenso bombardeio, o Doutor Allende se comporta de maneira impecável: libera os seus funcionários para que salvem suas vidas (oferta que a esmagadora maioria deles recusa, optando por resistir junto a seu amado presidente), realiza gestões para que vários chilenos se protejam em embaixadas (notadamente a cubana) e faz um inesquecível discurso pelo rádio, em que insiste que sua vida não pertence a ele próprio, mas ao povo. Esse discurso imortaliza uma frase que até hoje emociona milhões de chilenos: Pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Allende resiste por algum tempo, com uma mera pistola e sua guarda presidencial.

Na saída do palácio que fica na Rua Morandé, 80, chilenos desarmados se rendiam e mesmo assim eram espancados pelas forças policiais. Já nos primeiros dias, um imenso campo de concentração se formava no Estádio Nacional. A casa do poeta maior, Pablo Neruda, foi pilhada e saqueada. Obrigaram a viúva de Allende a enterrar seu amado em segredo, tal era o terror que tinham os militares da força simbólica do legado daquele que os chilenos chamavam de Compañero Presidente.

A experiência vivida pelo povo chileno entre o ano de 1970 e o 11 de setembro de 1973 é das histórias mais instrutivas e emocionantes da era moderna. Mesmo que você não entenda espanhol muito bem, reserve 90 minutos para assistir ao documentário de Patricio Guzmán, La Batalla de Chile. Trata-se de um filme que já trabalhei algumas vezes em sala de aula, mas hoje devo crédito ao Cristóvão Feil, por me lembrar que a obra está disponível no Google Videos:


37 anos depois, o general que traiu seu presidente e comandou o golpe é quase universalmente desprezado como um fascínora torturador que, além de tudo, revelou-se depois, roubou dinheiro do seu povo em ato de enriquecimento ilícito. A memória do médico que entregou, com dignidade, sua vida num combate desigual é cada vez mais cultuada. Especialmente nos bairros mais pobres de Santiago e de outras cidades chilenas, não é raro ver uma foto do Compañero Presidente já logo na sala de estar. É uma experiência inesquecível visitar essas áreas mais humildes, conhecidas no Chile como poblaciones, e ouvir os relatos que ilustram a admiração e o amor que a memória de Allende evoca.

A luta dos chilenos entre 1970 e o 11 de setembro de 1973 para defender seu presidente se cristaliza na trajetória dessa simples palavra, compañero, que não deixaria de impactar outras línguas e passaria, sozinha, a significar o nome de toda uma experiência histórica. Parafraseando uma consigna muito usada nas assembleias populares chilenas a partir de 1970, e num gesto de carinho pelo país que me recebeu tantas vezes e onde tenho tantos amigos, deixo aqui minha homenagem à memória desse homem e dessa experiência: Compañero Biscoito, presente.

Não deixem de assistir ao documentário de Guzmán. Trata-se não só de uma aula de história e de política. É uma aula sobre o que é a dignidade.

Allende vive.




  Escrito por Idelber às 09:54 | link para este post | Comentários (81)



sábado, 28 de agosto 2010

Montenegro pediu desculpas. E vocês, Datafolha?

Este texto também está publicado na Revista Fórum.

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Completaram-se exatos doze meses da imortal declaração de Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, à revista Veja, acerca da sucessão presidencial. Citemos, pois recordar é viver: O partido [PT] deu um passo a mais na direção do seu fim. . . A Dilma, em qualquer situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%. Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição. Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste.

O gênio Montenegro, mais de um ano antes das eleições e diante do presidente mais popular da história do Brasil, decidira que o “poste” não seria eleito e que seu teto era 20%. Deixando de lado o desrespeito da referência ('poste') a uma mulher que já havia sido Secretária da Fazenda e das Minas e Energia do Rio Grande do Sul, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil (assumindo este último cargo durante a maior crise institucional do país desde a queda de Collor), Montenegro colocou a credibilidade de seu instituto na berlinda, fazendo futurologia com nítidos de ares de torcida. Nada tenho contra quem torce pelos seus candidatos, mas em certas posições (presidência de institutos de pesquisa, ministério do Tribunal Eleitoral), convenhamos que é melhor esconder as preferências. Montenegro deixou que as suas interferissem na análise.

Além de tropeçar na futurologia, Montenegro também tropeçava nas referências ao passado. Na mesma entrevista, ele disse: Nas eleições municipais de 2008, entre as 100 maiores cidades, o PT perdeu em quase todas. Montenegro deveria ter consultado com mais atenção os números do Tribunal Superior Eleitoral, pois nos municípios brasileiros com mais de 200.000 eleitores, o PT foi o partido que mais venceu em 2008. Naquelas eleições municipais, no chamado G-78 o PSDB teve 13 vitórias, o PMDB teve 18 e o PT teve 20 [Contagem (MG), S.B.do Campo |(SP), Mauá (SP), Guarulhos (SP), Petrópolis (RJ), Anápolis (GO), Canoas (RS), Joinville (SC), Rio Branco (AC), Fortaleza (CE), Cariacica (ES), Vitória (ES), Betim (MG), Recife (PE), Belford Roxo (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Porto Velho (RO), Carapicuíba (SP), Diadema (SP), Osasco (SP)]. Somadas às duas vitórias do PC do B (Olinda e Aracaju), às cinco do PDT (Macapá, Serra, Niterói, São Gonçalo e Campinas) e às quatro do PSB (Belo Horizonte, João Pessoa, São José do Rio Preto e São Vicente), as forças aliadas ao presidente Lula saíram das eleições municipais governando 59 entre as 78 maiores cidades do país. Mas, para Montenegro, o PT havia perdido “quase todas”.

Por tudo isso, o gesto de Montenegro é bastante louvável. Mas já que se desculpou de suas estapafúrdias certezas acerca do futuro, ele poderia ter aproveitado a oportunidade para se desculpar também por traficar informações falsas sobre o passado recente.

Enquanto isso, o DataFolha segue em seu autismo. Depois do estrepitoso fracasso da sua estratégia de inflar artificialmente os números de Serra, produzindo um monstrengo em forma de sanfona que nenhum analista político sério reconheceria como verossímil, o DataFolha repete a mesma prática com os números de São Paulo, recusando-se a registrar a subida de Mercadante que até mesmo o Ibope já reconheceu. No excelente gráfico feito por Alê Porto, é possível ver a discrepância entre os números da eleição presidencial do DataFolha e dos outros institutos:


Observando a evolução da corrida paulista e o impacto da "onda vermelha" nas eleições estaduais, cabe a pergunta: será que o DataFolha vai passar outra vergonha, agora em São Paulo?



  Escrito por Idelber às 17:41 | link para este post | Comentários (42)



quinta-feira, 26 de agosto 2010

O que aconteceu com o PSDB?

Antes do post, dois avisos:

1. Este é um post para quem tem paciência de ler.

2. Este post utiliza trechos de um livro meu, já publicado. O post foi escrito por sugestão de Alexandre Nodari, a quem agradeço.

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Depois do baile de Marcos Coimbra, do Vox Populi, no Datafolha, da revelação de que, mesmo de acordo com este último, Dilma já ultrapassou Serra até em São Paulo, da chegada do guru indiano, do abraço dos afogados, do pedido de Serra ao PSTU e da inesquecível estreia de Soninha como coordenadora do site de campanha de Serra, postando no Twitter uma foto do candidato com ….. Bento XVI! (pela repercussão já se vê quão apropriado era o gesto para o público do Twitter, né?), a verdade é que hoje eu não consegui preparar um post sério sobre as eleições.

Entremos em outra conversa. Afinal de contas, há um grande mistério a se desvendar. Como a campanha do PSDB se esfacelou desse jeito? Se eu acreditasse em teorias conspiratórias, diria que algum aloprado do PT se infiltrou lá dentro e está comandando a campanha.

Sou um total e absoluto viciado em eleições. Acompanho-as, bem de perto, aqui e aí no Brasil, desde 1982. Eu lhes juro que jamais vi um colapso parecido. Talvez o que aconteceu com os democratas, na eleição de 1984, nos EUA, chegue perto. Ou o colapso dos radicais, na Argentina, depois do governo de Alfonsín.

Já que não tem nenhuma graça tripudiar dos caras--deixemos essa tarefa para gente mais competente--, passemos a analisá-los, sério mesmo.

Nos últimos dias, foram publicados três excelentes textos sobre a história recente do PSDB. Tenho dois centavos a acrescentar-- e são realmente só dois centavos. Vladimir Safatle publicou na Folha um artigo intitulado O Colapso do PSDB, cujo tom era basicamente de perplexidade. Como é que o PSDB virou isso?, parece perguntar-se o texto. Safatle—pensador que admiro e de quem vocês ainda vão ouvir falar muito--rememora a época em que ele votava no partido e menciona a contradição: víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o “desmonte do estado getulista”, “a quebra da sanha corporativa dos sindicatos”, ou “a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST”.

A perplexidade do Safatle se explica facilmente. As coisas não foram bem assim. Quando os tucanos começam a falar em “virar a página do getulismo”, Celso Furtado (quem dirá Marx ou Gramsci) já não eram exatamente ídolos por lá. Isso, o texto do João Villarverde mostra muito bem, ao detalhar que a equação que FHC tinha que resolver era unir a ala mais PUC-Rio de Bacha, Franco e Fristch, com outra mais heterodoxa, dos irmãos Mendonça de Barros, outra mais fiscalista, com Serra, e outra com visão sofisticada de gestão pública, como Bresser e Nakano e a turma mineira, que começava a dar as caras . O que faz FHC? Aposta tudo na ortodoxia da PUC-RJ. Por isso está corretíssimo o João quando diz que os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Esses números vêm de escolhas feitas pelo governo Lula.

O Celso de Barros já trabalha mais o lado político da coisa. A tese do Celso é que foi o governo FHC quem possibilitou a unificação dessa turma. Para um partido que nascia de uma dissidência parlamentar, sem nenhuma base no movimento social, foi aquela conjuntura bem particular de 1993-4, do Plano Real, que tornou possível que se criasse ali uma unidade. A conversa que o João propõe ao PSDB-- entre os fiscalistas, os gerentes e os desenvolvimentistas--, se ela acontecesse, provavelmente levaria o PSDB a … ser base do governo Lula! É a conclusão do Celso.

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Pois bem. Onde entram meus dois centavos? Numa tese simples: você não vai entender o PSDB se você voltar a 1988. Tem que voltar mais. Minha proposta é que voltemos a 1975. É a data de publicação de Autoritarismo e redemocratização, do FHC. Trata-se (e isso, só para esclarecer, é tese minha, não é fato histórico com o qual todo mundo concorde) do livro que estabelece a forma como a transição democrática entenderia a ditadura militar. O que faz FHC naquele livro? Por um lado, ele critica—corretamente, a meu ver—setores da esquerda que caracterizavam o estado ditatorial brasileiro como “fascista”. Por outro lado, ele propõe a tese de que a ditadura era fruto do interesse de uma burocracia estatal hipertrofiada. Dito assim, parece coisa de doido, mas a minha tese é que ali naquele livro, em 1975, se articula a concepção de estado que possibilitaria a hegemonia conservadora na transição de 1985.

Como? Vamos ao livro.

Segundo FHC, a razão de ser do estado ditatorial no Brasil deveria ser procurada menos nos interesses políticos das corporações multinacionais (que preferem formas de controle estatal mais permeáveis a seus interesses privados) do que nos interesses sociais e políticos dos estamentos burocráticos que controlam o Estado (civis e militares) e que se organizam cada vez mais no sentido de controlar o setor estatal do aparelho produtivo (pag.40).

Trocando em miúdos? Para FHC, já em 1975, a ditadura não era produto do interesse de classe capitalista, mas do excesso de burocracia do estado.

A eficácia ideológica dessa tese reside na curiosa identificação entre autoritarismo político e estatismo econômico, como se os dois caminhassem necessariamente juntos. O modelo explicativo de FHC pressupunha que um estado ditatorial é menos permeável a "interesses privados." FHC manufaturava a miragem de uma burocracia que atuava em seu próprio nome, uma "burguesia estatal"--e a expressão é do próprio FHC, não minha--com interesses misteriosamente não coincidentes com os do capital multinacional. Esta fantasia ideológica teve, não cabe dúvida, papel central na consolidação da hegemonia liberal-conservadora na "transição à democracia." Ao fim e ao cabo, a ditadura, FHC nos faz crer, nunca operou segundo o interesse da classe capitalista, mas de uma anacrônica burocracia estatal. Enquanto corretamente criticava o rótulo de "fascista," dado aos regimes militares por setores da esquerda (esses regimes, diferentemente do fascismo, não se basearam na mobilização popular, não fizeram uso de uma estrutura partidária e não precisaram de expansão internacional), FHC redefinia as elites dirigentes como "burocracia de estado". Leiam, por favor, com atenção, essa citação extraída da página 133. O grifo é meu:

Vê-se, portanto, que não há símile possível entre as burguesias dependentes-associadas da América Latina e suas congêneres dos Estados Unidos ou da Europa. O espaço econômico da burguesia internacionalizada (inclusive, neste caso, dos setores locais desta burguesia) transcende os limites nacionais sem que precise de ajuda dos Estados locais... O escudo real das burguesias locais internacionalizadas, neste aspecto, é o conglomerado multinacional, protegido, e aliado com os estados das sociedades-matrizes. Ao contrário, os estados locais servem de suporte político mais para os "funcionários", os técnicos, os militares, os fragmentos desgarrados da burguesia local não integrados à internacionalização do mercado do que aos grandes interesses burgueses internacionalizados.

Trata-se aqui de um pedaço sólido de ideologia: os mercado-livristas nacionais e internacionais se convertem em fatores marginais no regime ditatorial, já que este último supostamente havia atuado em nome de uma misteriosa capa burocrática não redutível ao interesse de classe capitalista. Mantenha-se em mente o lembrete de que uma burocracia estatal, diferentemente de uma classe social dominante, pode ser removida do poder sem que se faça dano algum ao modelo econômico hegemônico. A definição da ditadura como "estado autoritário" prepara o caminho para o próximo passo, uma aliança opositora fortemente hegemonizada pelo conservadorismo neoliberal, com vistas a uma redemocratização que se reduz à desconcentração do poder político do executivo e nunca questiona o modelo econômico imposto pelas ditaduras. Ao fim e ao cabo, aqueles em cujo interesse se sustentavam os generais haviam sido cuidadosamente isentos de toda a responsabilidade na barbárie ditatorial.

Tese deste atleticano blogueiro: a teoria do autoritarismo foi a base ideológica dada pelas ciências sociais--e em particular, FHC--à hegemonia conservadora na chamada transição democrática. A teoria do autoritarismo é a língua da transição conservadora, não sua teoria. Não há contradição, portanto, entre FHC-o-firme-opositor-ao-regime-militar em 1975 e FHC-o-implementador-de-políticas- neoliberais em 1998. O primeiro foi, de fato, a condição de possibilidade do segundo. Não tem sentido, portanto, perguntar-se o que aconteceu com o valente soldado da democracia. FHC jamais "traiu" nada. O que ele entendia por "democracia" estava dado já em 1975.

Segundo FHC, o êxito das políticas econômicas oficiais dependia da capacidade que o estado tivesse para tornar-se, mais e mais, empresário e gestor de empresas. Com isso, em vez do fortalecimento da "sociedade civil" - das burguesias - como parecia desejar a política econômico-financeira, foi robustecendo a base para um Estado expansionista, disciplinador e repressor (pag.199). Qual é o gesto de FHC, então, em 1975? Apresentar a ditadura como produto de uns poucos burocratas estatais, opostos em tudo à "sociedade civil," esta segunda estranhamente reduzida à burguesia liberal. Posto de tal modo o assunto, a eleição política se limitava inevitavelmente a um cardápio de duas alternativas: democracia ou autoritarismo. A aliança liberal-conservadora que levaria Tancredo Neves e José Sarney ao poder podia agora aparecer como a encarnação de uma ânsia universal de democracia.

Por isso, acredito que erram os amigos de esquerda que lamentam que FHC "traiu" os seus ideais dos anos 70. O projeto do estado mínimo, e a essa curiosa associação entre empreendedorismo estatal e excessiva concentração burocrática, com tendências ditatoriais, já estava dada em 1975. Depois desse passeio histórico, não há como manter a tese de que a saída para a democracia brasileira é uma aliança entre PT e PSDB. Essa aliança já era impossível desde antes que esses partidos fossem criados.


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PS: O blog do Noblat publicou o baile de Marcos Coimbra no Datafolha com título falso. O título correto do texto é "Pesquisas polêmicas" e não inclui a palavra "vexame".

PS 2: O blog do Josias de Souza mentiu ao dizer que no almoço de Lula na Folha de São Paulo, em 2002, onde ele foi destratado, Frias Filho não lhe havia perguntado como ele poderia governar sem falar inglês (episódio relatado por Lula no comício de anteontem em Campo Grande). Perguntou, sim. A pergunta foi relatada por Ricardo Kotscho, testemunha ocular, no livro Do Golpe ao Planalto (Companhia das Letras), publicado em 2006. Quatro anos se passaram desde a publicação do livro de Kotscho.

PS 3: A charge que ilustra o post vem do Diário do Nordeste.



  Escrito por Idelber às 05:59 | link para este post | Comentários (73)



sexta-feira, 20 de agosto 2010

Autocrítica do dunguismo de esquerda

Durou uma semana a promessa de não falar de futebol. Diante do bicampeonato colorado da América, da linda exibição da Seleção de Mano Menezes aqui nos EUA e umas reflexões minhas posteriores à Copa do Mundo—competição da qual eu assisti a todas as partidas, incluindo aquele imortal Paraguai x Japão--, tenho um ou dois centavos a acrescentar às discussões sobre o período de Dunga na Seleção, especialmente acerca da relação do futebol com a política.

Dizendo na bucha o que o post veio dizer: acho que muita gente, não só de esquerda, mas principalmente da esquerda, incluindo este blogueiro, pecou contra a memória do grande futebol e de Telê Santana ao emprestar apoio a uma Seleção autoritária, evangélica e castradora, pelo simples motivo de que Dunga resolveu, em alguns momentos, confrontar o poder opressivo com que as Organizações Globo mandam no futebol brasileiro. Nessa disposição—a de igualar o acesso de todas as emissoras ao time, por exemplo—não há nada com o que discordar. Isso é louvável e talvez tenha sido a única coisa boa que Dunga fez na Seleção. Mas no momento em que isso se manifestava na agressão verbal a um jornalista numa coletiva (evento em que só um lado, a priori, tem microfone), passava a ser escroto e injustificável, mesmo que o jornalista tivesse provocado com muxoxos ou sorrisos irônicos. Como o poder da Globo é, de verdade, muito daninho, e posto que combatê-lo tem sido tarefa tão inglória no futebol, muitos, eu incluído, aceitaram jogar fora o bebê precioso do bom futebol (e da civilidade!) junto com a água suja do combate à Globo. Até nos dispusemos a esquecer que, evidentemente, o técnico da Seleção não significa nada nesse combate enquanto Ricardo Teixeira continuar mandando na bagaça.

Falando por mim mesmo, como sempre é o caso no blog, e sem a menor ideia de se algum dia terei companhia, me penitencio: perdoai-me, Senhor, porque dunguei. Só restam o júbilo de que o blog estava parado durante a Copa e o texto definitivo de Mary W, que explica o porquê da dungagem entre pessoas como eu.


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Fico à vontade para fazer a autocrítica aqui porque já levei duas surras argumentativas vindas de pessoas qualificadas, de quem posso dizer que tenho orgulho de ser amigo: José Miguel Wisnik, autor do melhor livro sobre futebol jamais escrito na terra do futebol, e o Dr. Sócrates, capitão do melhor time brasileiro dos últimos 40 anos. Em Londres para o Festival Literário (onde acabei trabalhando de intérprete simultâneo no debate dos dois), o Zé Miguel, pessoa de fala mansa e pausada, que nunca esbraveja, chegou ao limite da sua ênfase, em inesquecível perorata pra cima de mim. A palavra "imperdoável" foi usada. Eu, calado, ouvia e absorvia, porque estava 100% errado e ponto. O Zé havia estado certo o tempo todo, mesmo enquanto a Seleção de Dunga conquistava seus títulos e eu vociferava contra os “negativistas”. Na Copa América, como muitos brasileiros, torci contra a Seleção, mas na competição seguinte, ao ver a virada de 3 x 2 sobre os EUA, numa TV do aeroporto de Confins, eu já havia dungado.

Na Copa, o Brasil jogou um futebol sofrível, deixou na Baixada Santista seus mais criativos jogadores, optou por não ter mexidas táticas no banco, cultivou um irritante proselitismo evangélico, se transformou num amontoado de volantes de passes laterais e eliminou da língua portuguesa a possibilidade de que se use, sem ironia, a palavra “comprometimento”. É um dano considerável. Para piorar, perdeu entrando em insólito colapso emocional na partida contra os holandeses, previsível para aqueles que, como Zé e Sócrates, vinham fazendo a crítica do modelo imposto na Seleção, surpreendente para aqueles que, como eu, havíamos dungado. Eu nunca tive ilusões de que Dunga tinha uma grande equipe, mas confesso que jamais esperei que os caras pirassem daquele jeito ao levar o gol de empate numa partida que dominavam. Depois entendi o porquê: Desequilíbrio emocional, mentalidade igrejeira, feroz repressão e falta de bola mesmo.

Desejo que muitos leitores do blog possam um dia ter a experiência de ouvir o Dr. Sócrates numa mesa, com a cervejinha, dizendo o que significa ganhar, porra? O que é ganhar? Ganhar não é porra nenhuma, não significa nada. Como Dunga, além de peitar a Globo, vinha ganhando tudo, a combinação foi sedutora para mim, e eu terminei esquecendo-me dessa lição por um ano. Inexplicavelmente, torci por essa Seleção de 2010 com intensidade inédita desde 1986. Não há nada de condenável nisso em si, claro, mas desta vez aconteceu pelos motivos errados.

Esta semana, vendo o brilho dos meninos do Mano Menezes naquele espétaculo de um 2 x 0 com sobras em cima dos EUA, recheado de tabelas em alta velocidade, jogadas surpreendentes, passes não óbvios, lançamentos de visão, dribles, alegria de jogar, enfim, eu pensei cá comigo: seria legal deixar uma autocrítica da minha dungagem.

Ei-la aqui, dedicada ao Zé e ao Magrão. Prometo não voltar a pecar.


PS: O que acharam da Copa?



  Escrito por Idelber às 08:48 | link para este post | Comentários (53)



terça-feira, 17 de agosto 2010

Blogs e política, links, livros, Dilma

* Acho que os dois grandes blogs desta eleição têm sido o Tijolaço, do Deputado Brizola Neto e o Na Prática a Teoria é Outra, do Celso. Ambos, com conteúdo original e frequente, fazem um contraponto à péssima imprensa, formada basicamente por Monday morning quarterbacks, ou seja, comentaristas redundantes do acontecido. No reino destes últimos, a novidade é que até o Josias desembarcou da candidatura Serra.

* Alô meninos, alô mães e pais, alô apreciadores da boa literatura infantil: Seguindo este link e clicando na imagem você baixa O Reinado de Bené, de Andressa Gonçalves e Paulo Morais, ficção que se nutre da memória oral dos reinadeiros de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Divinópolis. A orelha foi escrita por Ana.

* Por falar em orelha, Elvis e Madona, sensacional melodrama underground de Luiz Biajoni, sai em breve com orelha minha, parcas linhas relatando o quanto me diverti com o livro. Biajoni é uma luminosa inteligência pop da internet brasileira, e eu me orgulho de ter dito isso lá atrás.

* Uma diferença entre a eleição de 2006 e a de 2010 nos blogs é que uma matéria como a da Época antes seria tema de inúmeros posts com denúncias de manipulação e má fé que se arrastariam durante dias. Vivemos agora em outra temporalidade. A reação é instantânea. Um naco imenso da população já sabe que a baixaria é manipulada, e assim as paródias pululam imediatamente. Dois exemplos são a mudança em massa de avatares dos tuiteiros, adotando a imagem da Dilma na revista, ou esses belos trabalhos do Abunda Canalha:

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* Já recomendei aqui, mas não custa ressaltar que o Por que votarei em Dilma Rousseff, do Celso, é um banho de números. Cito o parágrafo demolidor: A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

* Pretendo gravar pelo menos dois outros vídeos, endossando o Deputado Raul Pont (PT, 13400) para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Deputada Jô Moraes (PC do B, 6565), para a Câmera dos Deputados por Minas Gerais, antes de fazer o meu Por que votarei em Dilma. Impossível escrever outro na mesma semana que o do Celso.

* Se você apoia Dilma para Presidente, saiba que já está no ar o blog oficial Dilma na Rede, que é de conteúdo colaborativo: você se cadastra e escreve, cria comunidades etc. Se já está lá, visite meu perfil e adicione. Se ainda não entrou, entre. Está bem feita a coisa.

* Vai rolar agora em São Paulo o Primeiro Encontro de Blogueiros Progressistas, com muita gente boa. Prometo estar aí em espírito.

* Aí vai uma explicação sobre uma mudança na página inicial do blog: muitos leitores já me disseram que ficavam perdidos no imenso blogroll. Fiz uma listinha de “Indispensáveis”, que são simplesmente os blogs em que clico primeiro no Greader. É no intuito de orientar quem chega ao mundo dos blogs. É uma lista que vai variar, evidentemente. Ela também inclui blogs maravilhosos que pararam, como o Ao Mirante, Nelson e a Palestina do Espetáculo Triunfante, ou que quase pararam, como o Pensar Enlouquece. Estão lá os outros lugares na web em que saem textos meus: a Fórum (com periodicidade), o Sul 21 e a Agência Carta Maior, todos eles espaços com os quais tenho orgulho de colaborar.

* Por falar em indispensáveis, mais uma vez o Leandro Fortes dá uma aula de verdadeiro jornalismo, mostrando como o caso Lunus—de exposição do dinheiro (que era mesmo ilegal) no comitê de campanha de Roseana Sarney, em 2002, em ato que dinamitou sua candidatura—tinha todas as digitais do governo Fernando Henrique e, explicitamente, de José Serra. E agora a Revista Veja quer requentar a denúncia para culpar .. quem? O PT, claro. Tudo isso com o profissional que investigou o fato escrevendo na internet e mostrando que FHC esperou até tarde o fax de confirmação do sucesso da operação, que as bestas dos arapongas enviaram da própria empresa investigada! O jogo agora é outro, baby.

* Convido a todos a que circulem o resultado de uma colaboração de blogueiros. O Trabalho Sujo publicou alguns adesivos geniais feitos por Tom Scott para satirizar o pseudo-jornalismo. Eu os traduzi e tanto o Branco Leone como o Tiagón compuseram imagens com a tradução. Aqui vai o pdf do Tiagón, com as versões em português dos selinhos satíricos: (Atualização:o Alexandre Matias dá o link a um arquivo jpeg muito melhor que o meu, feito pelo Thiago. Agora sim, dá pra circulá-lo por aí).

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* Se você é um dos (três ou quatro!) que já trollou este blog vituperando se você é tão marxista por que vai trabalhar nos EUA? Por que não vai pra Coreia ou Cuba?, a espera valeu a pena: regozijai-vos, irmãos, eis aqui vossa resposta.

* Como este blog jamais se furtou a celebrar o fato de que tudo, absolutamente tudo é possível de ser dito na internet, deixo-os com este inacreditável post: o Datafolha é parte da conspiração para eleger a Dilma, diz um blog. E viva o direito de ser doido! (via Alex Castro).

* É claro que a notícia do dia foi que até mesmo segundo o IBOPE, amigo maior da Globo, instituto dirigido por aquele Montenegro que dizia que o teto de Dilma era 15 ou 20, a danada já disparou, está se aproximando dos 50 e abriu vantagem de dois dígitos. Tudo isso antes do sapo barbudo dos 86% de popularidade aparecer na TV pedindo voto pra ela.

* A vida de Serra anda tão difícil que ele foi a Porto Alegre e, em extraordinário ato falho, se referiu à governadora (sua aliada combalida e sem chances de ser reeleita) como Yeda “Cruzes”. Está tudo no blog do Milton Ribeiro, com fotos impagáveis. Não satisfeito, Serra chegou de madrugada e tuitou que em São Paulo fazia ainda mais frio que no Rio Grande! Pouparemos o ex-governador de uma leitura freudiana, mas Nassif anda depenando o coitado com requintes de crueldade.



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 16 de agosto 2010

A estupefação dos vestais: Sobre "Ficha Limpa"

Os vestais da moralidade que formaram a base de sustentação cidadã da Lei “Ficha Limpa” estão estupefatos. Perplexos, constatam que a lei não mudou o Brasil! Que surpresa, os corruptos estão todos por aí! Já sancionada por Lula, a lei gerou 1.080 impugnações de candidaturas, 19 delas definitivas. Salvo desatenção deste blogueiro, nem um único dos mais visíveis apoiadores da lei até sua sanção—seja pessoa física ou jurídica--veio a público comemorar, saudar, aprovar ou celebrar em qualquer tom os resultados do “Ficha Limpa”. Suspeito que é porque os resultados são um desastre, e nem de longe autorizam a suposição de que encaminham o que os seus autores esperavam, ou seja, a tão propalada moralização da política (em nome da qual a coalizão de apoio ao “Ficha Limpa” aceitava dar uma pisadinha no Artigo 5o, inciso LVII, que estabelece a presunção de inocência na Carta da República).

O Supremo, claro, já avisou que vai dar uma protelada na palavra final, no que faz muito bem: a sociedade que permitiu que geringonça tão flagrantemente inconstitucional se impusesse como lei deve arcar durante algum tempo com as consequências. Os resultados práticos, até agora, são o que se sabe: Heráclito Fortes conseguiu liminar com Gilmarzão—de pouca monta, porque Heráclito vai perder no voto—enquanto que o vereador Aldo Santos, do PSOL de São Bernardo do Campo, que utilizou um automóvel da Câmara em apoio a um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, num uso claramente legítimo do mandato, se encontra, no momento, impedido de concorrer. Paulo Maluf, claro, continua com a “Ficha Limpa”. É possível recitar um rosário de semelhantes inconsistências nos resultados do “Ficha Limpa” quase no país inteiro.

Como há muita confusão até hoje (maior entre os apoiadores do “Ficha Limpa”), é importante oferecer à leitura o texto da Lei Complementar n. 135/2010, e ressaltar que ela não retira a elegibilidade como consequência de condenações “em primeira” ou “em segunda instância”, posto que a lei não usa esse vocabulário da instância. Ela declara inelegíveis:

os que tenham contra sua pessoa representação julgada procedente pela Justiça Eleitoral, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado, 

Ou proferida por órgão colegiado, bidu, é o pedacinho chave, claro. Para incontáveis brasileiros, um “órgão colegiado” pode ser a primeira instância. Qualquer prefeito que for a julgamento por improbidade administrativa já o será por órgão colegiado. É inacreditável, mas quase ninguém que apoiou o “Ficha Limpa” sabia que estava concedendo ao Tribunal de Justiça do Maranhão, por exemplo, a prerrogativa de facto de declarar unilateralmente quem é e quem não é elegível no estado. Coisa boa não podia dar. Legislavam para o Brasil como se estivessem legislando para a Holanda.

Depois de derrubado o argumento de que o Projeto—agora Lei--"Ficha Limpa” moralizaria, ou contribuiria para moralizar, a política brasileira, restaram três fundamentações principais audíveis por aí, todas bastante frágeis, me parece. Elas são: 1. o argumento de que mesmo que se considere a presunção de inocência como um princípio a se respeitar e se concorde que o “Ficha Limpa” a contradiz, há que se temperar esse princípio com outros, como a probidade e a moralidade do legislador ou executivo público; 2. o argumento de que a Lei não contraria a presunção de inocência porque ela não estabelece nenhuma pena, mas tão somente um critério de elegibilidade, algo assim como ser alfabetizado; 3. o argumento (no fundo uma variação mais tosca do anterior) de que não se está contrariando a presunção de inocência, posto que se trata aqui de uma matéria eleitoral e não penal.

Os sofismas em que repousam todos eles são visíveis. Começo pelo último, que é o mais primário: ora, se está sendo retirada a elegibilidade de alguém como base num processo penal em andamento, não adianta dizer que a Lei “Ficha Limpa” não estabelece que o cara vá em cana, mas só o declara inelegível, para daí argumentar que a matéria é só eleitoral e não penal. Evidentemente, se a perda de direitos ante a Justiça Eleitoral ocorre por causa de um processo penal, e se o raio do processo penal está em andamento, como é possível que se diga ah, não estamos desrespeitando a Constituição, pois não falamos aqui de matéria penal e sim eleitoral? A Lei “Ficha Limpa” concede poderes penais à Justiça Eleitoral antes da conclusão do devido processo penal. E aí seus apoiadores contra-argumentam dizendo que o babado não é penal, mas eleitoral? Caríssimo profissional do Direito e da Justiça apoiador do “Ficha Limpa”, se quiser me demonstrar que não há uma falácia, um sofisma aqui, sou todo ouvidos.

O segundo argumento (de que a Lei não contraria a presunção de inocência porque ela não estabelece nenhuma pena, mas tão somente um critério de elegibilidade, como ser alfabetizado ou ser brasileiro) também sofisma: ser alfabetizado ou não ser estrangeiro são características da pessoa e não têm qualquer conteúdo discriminatório como requisito de elegibilidade. Nós, como sociedade, através dos representantes eleitos para a Constituinte de 1986 (Carta de 1988) decidimos, por exemplo, que para ser presidente da República é necessário ser brasileiro nato, naturalizado não vale. Para ser Senador, é necessário ter pelo menos 35 anos de idade, para ser Governador, 30, etecétera. Tudo isso pode mudar por emenda constitucional, claro, mas é o que está lá no momento. Esses requisitos são coisas completamente distintas de uma condenação em uma instância da Justiça Eleitoral, algo da ordem da opinião de outrem que, enquanto não transitada em julgado, não pode acarretar culpabilidade ou retirada de direitos. É estapafúrdia a comparação entre ser brasileiro nato ou alfabetizado, por um lado, e a ausência de condenação provisória, em processo em trânsito na Justiça Eleitoral, por outro. Equipará-los como requisitos de elegibilidade é um exercício de comparação entre maçãs e naves espaciais.

Finalmente, o sofisma em que repousa o argumento 1 é de caráter temporal: ok, admite-se, a presunção de inocência constitucional é, sim, violada pela Lei “Ficha Limpa”, mas ela não é o único princípio presente na Carta. Há outros e, baseados na verdade incontestável de que não existe direito absoluto (na medida em que qualquer direito pode, hipoteticamente, entrar em conflito com outro, situação na qual o juiz terá que ponderá-los e decidir), teríamos que reconhecer que os princípios, por exemplo, da probidade e da moralidade do administrador público também deveriam entrar nessa ponderação e temperar o princípio da presunção de inocência, relativizando-o.

Mas mesmo que você aceite que a presunção de inocência deve ser relativizada, o argumento continua absurdo: pois se a falta de probidade e moralidade para administrar a coisa pública só pode ser declarada depois de encontrada a culpabilidade, e se esta por definição não pode ser declarada se o processo está em andamento, como é possível temperar o princípio da presunção de inocência com uma violação que ainda não existe, ainda não pode ser declarada existente de outro princípio? A Lei “Ficha Limpa” tampouco faz o menor sentido como ponderação de dois princípios constitucionais.

O blog saúda os que tiveram a coragem de se manifestar criticamente ante esse projeto desde o princípio, como Marco Aurélio Weissheimer e Túlio Vianna , e absolutamente não se surpreende com a estupefação dos vestais. Sabíamos, desde o começo, que o “Ficha Limpa” era primo do “Cansei” e do “Não reeleja ninguém”.

Como sempre é o caso nos posts sobre Direito e Justiça, são bem-vindos quaisquer profissionais da área que queiram me explicar se estou dizendo alguma bobagem. Tão bem-vindos como quaisquer outros que queiram opinar, já que a lei afeta a todos, na medida em que restringe nossa possibilidade de votar em quem queiramos. O blog esclarece que continua usando o termo "Ficha Limpa" entre aspas, mesmo depois de sancionada a lei, posto que segundo a Constituição do Brasil não há "Ficha Suja" até trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

PS: Estou gostando muito (por enquanto) do Formspring, e já deixei mais de 60 perguntas respondidas por lá. Há umas 40 na fila.

PS 2: Em poucas horas, a blogosfera deu uma resposta fulminante à "matéria" de porcalismo feita pela Revista Época sobre Dilma Rousseff. O blog Na Prática a Teoria é Outra fez um dos melhores posts do ano e para completar Celso emplacou o Por que votarei em Dilma Rousseff lá no Amálgama. Nada a acrescentar a esses dois brilhantes textos.



  Escrito por Idelber às 07:11 | link para este post | Comentários (65)



sábado, 14 de agosto 2010

Sobre o conflito colombiano

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Este post foi inspirado por um comentário da Ana Paula a um texto anterior. Agradeço à Ana Paula pela interlocução.

Saltam aos olhos nas discussões mais histéricas da direita sobre a Colômbia alguns fatos, vários deles óbvios pra quem olhou o assunto com um mínimo de interesse:

No conflito colombiano, o dinheiro da droga financia todos os lados, incluindo paramilitares e Estado. Falar de “narcoguerrilheiros” com relação às Farc é tão correto como falar de “narcoparamilitares” e “narco-estado”. É, digamos, correto num sentido (na medida em o dinheiro da droga é o eixo do financiamento) e incorreto em outro (na medida em que aqueles grupos cumprem vários outros papeis, que vão além do narcotráfico e não se resumem a ele).

À direita não interessa a reintegração pacífica das Farc, porque isso acarretaria a perda do seu bicho-papão, o desaparecimento da suposta ameaça que, sabemos, convoca toneladas de grana americana, através de projetos como o Plan Colômbia--emblema do estrepitoso fracasso que é a "guerra as drogas". Com o péssimo histórico de intervenção norte-americana na Colômbia, as coisas pioram ainda mais. As iniciativas de desarmamento com as que concordaram as Farc durante o governo de Belisario Betancourt (1982-86) resultaram em assassinatos de milhares de ex-guerrilheiros reinsertados: um enorme naco de todos os ex-combatentes que toparam ser candidatos ou líderes comunitários. O estado colombiano chegou ao ponto de chacinar líderes das Farc desarmados que se dirigiram a um encontro de negociação: o tipo de crime de guerra que teria horrorizado a qualquer um, de Napoleão a Clausewitz a Churchill. Ao longo das últimas décadas, a Colômbia viveu no que poderíamos chamar a Democracia dos Esquadrões da Morte. Tudo isso com dinheiro americano enviado para o exército sendo canalizado, direto, às mãos de paramilitares, processo documentado nas ligações de Ever Mendoza (codinome HH) e Mario Montoya, general colombiano condecorado em Washington.

Os colombianos sabem que a raiz do problema é o reconhecimento de que a Colômbia não vive uma “guerra ao terrorismo” (essa é uma “guerra” declarada pelos EUA, num estranho uso do termo, diga-se), mas um estado permanente de guerra civil. Esse condição, ao contrário do que sugeriu recentemente um ignorante editorial do Estadão, não começa com as Farc. Quando estas surgem, o conflito já tem pelo menos 15 anos. De forma que é totalmente enganoso e mentiroso dizer que "os colombianos estão sujeitos ao terror das Farc há 40 anos". Se o Estadão quiser fazer historiografia, tem que voltar a outra data: 9 de abril de 1948, assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, candidato liberal à Presidência, que vinha promovendo um esforço de paz para retirar a Colômbia do estado em que ela vivia desde o século XIX, o de intermitentes guerras civis (no século XIX foram quatro que atingiram dimensão nacional: 1876-77, 1885-86, 1895, 1899-1902).

Quando surgem as Farc, nos anos sessenta, já são mais de dez anos de matanças generalizadas na Colômbia. As Farc não eram o que são hoje: surgem como reação compreensível de autodefesa de camponeses e trabalhadores rurais, temperados de guevarismo, como todas as guerrilhas da época. Com o tempo, o isolamento e o beco-sem-saída do conflito, as Farc enveredaram pelo caminho que se conhece: o sequestro, o banditismo comum, as relações com o dinheiro da droga. Não é, hoje, evidentemente, um projeto que alguém de bom senso possa “apoiar” em qualquer sentido. Mas só por ignorância ou má fé se pode imaginar que esse era o caso em 1965.

Nas últimas décadas, as Farc são responsáveis por atrocidades e crimes. Mas em qualquer levantamento das atrocidades colombianas, bem mais de dois terços dos horrores são perpetrados por paramilitares e Estado (e, pior, às vezes pelas duas forças conjuntamente). Até os relatórios das gringuíssimas agências de direitos humanos mostram isso.

Ninguém em sã consciência vai "apoiar” as Farc, mas elas são um dos atores armados a se sentar à mesa de negociação. Elas têm 60 prisioneiros. 600 dos seus homens estão em cárceres do estado. Uma enorme proporção dos que se desarmaram e se converteram em “reinsertados” foi vítima de assassinato. É óbvio que, dado o histórico da Colômbia, algum tipo de garantia de segurança é o básico para qualquer ator armado que se desarma. Esse foi um dos eixos de processos de paz como o da Irlanda do Norte. Mas enquanto o conflito colombiano for entendido com a língua estadunidense da “guerra ao terrorismo”, isso não acontece. Porque com o “terrorista” você não se senta.

Enquanto a solução definitiva de paz não acontece, no Brasil uma direita irresponsável e um jornalismo pedestre, ignorantes da diferença entre Medellín, Bogotá, Cali e Barranquilla, ficam brandindo termos como “narcoterroristas”, sem incentivar nenhuma saída que não seja mais violência. Fazem isso agora, sabemos, por puro desespero político-eleitoral. Vêm enganando, felizmente, um número cada vez menor de incautos.



  Escrito por Idelber às 20:23 | link para este post | Comentários (25)



terça-feira, 28 de julho 2009

Honduras: mais sobre a lógica do golpe

Não é necessariamente um problema oferecer uma teoria da conspiração para explicar um acontecimento. Acho fraco o recurso à desqualificação de uma “teoria da conspiração” sem mais argumentar, como se o fato de uma explicação recorrer a um enredo conspiratório a invalidasse ou tornasse falsa sempre. Se o acontecimento em pauta é um golpe militar, bem, é tautológico dizer houve uma conspiração. O tema é se você desvenda a conspiração certa ou a errada.

O que o excelente trabalho jornalístico do Página 12 demonstra é que não dá para se entender o golpe em Honduras sem remissão aos norte-americanos, inclusive por razões históricas. A relação de Honduras com os Estados Unidos não é comparável à de nenhuma república centro-americana. Ao contrário de Nicarágua, El Salvador e Guatemala, Honduras não passou por processo revolucionário durante os anos 80. Foi, inclusive, a base americana para o lançamento da contra-revolução que derrotou o regime sandinista, e que levou a Guatemala e El Salvador às piores matanças de todos os tempos no istmo. Honduras já servira de base para o golpe militar que derrubou o Presidente Arbenz, na Guatemala, em 1954 e também para a tentativa de invasão de Cuba em 1961. Trata-se de uma história singular, marcada pela relação com os EUA como poder imperialista. Todos esses cachimbos, claro, deixam uma vasta coleção de bocas tortas.

Mas na leitura de Petras – que é, eu suponho, como uma força política tipo PSTU, no Brasil, leria o golpe hondurenho --, os militares americanos da base de Soto Cano, o embaixador Hugo Llorens, o Pentágono, Hillary Clinton, a Casa Branca de Obama e a oligarquia golpista hondurenha se transformam numa massa indiferenciada, como se não houvesse contradições entre esses elementos. Elas existem, mas Petras não as vê.


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Foto: Gustavo Amador, daqui.


É fato que Llorens se reuniu com os golpistas e que ele tem uma história anterior, na Argentina, de lobismo e articulações com os setores mais reacionários. Para o Página 12, enquanto Tom Shannon, subsecretário para a região, chega transmitindo o recado não intervencionista de Obama -- “não fomentaremos golpes” --, as forças golpistas já haviam convencido Llorens de que havia uma alternativa para impedir que Honduras caísse de vez na órbita chavista, e era o golpe militar. O equivalente americano dessa postura é a interpretação paranoica da realidade, que vê o continente supostamente ameaçado pelo “expansionismo” chavista. Não surpreende que as justificativas do golpe (e mesmo algumas de suas análises "ponderadas") recorram à lógica do ia, inventando, por exemplo, uma tentativa de segundo mandato de Zelaya que jamais havia estado em pauta ou tomado parte na consulta popular.

O que mostra o Página 12 é a contradição que vive Obama: para ser coerente com sua política externa, teria que condenar o golpe e trabalhar pela restauração da legalidade. Mas pela própria dinâmica dos acontecimentos, a restauração pura e simples de Zelaya significaria um triunfo de Hugo Chávez, cuja foto vitoriosa é tudo o que a direita americana sonha para apresentar Obama como fraco em política externa. A hipótese do Página 12 me parece correta: não há que se esperar que Obama polarize a cena política americana para ser o paladino da legalidade hondurenha em vésperas de votação do seu plano de reforma da saúde.

Daí a necessidade que os EUA tiveram de instalar a mediação do presidente Óscar Arias, de tantos serviços prestados a eles durante as matanças dos anos 80. Enquanto a Casa Branca vacilava, a OEA – liderada pela Alba, deixando, quiçá pela primeira vez, os EUA a reboque --, havia condenado o golpe em termos inequívocos. O plano apresentado por Arias forçava Zelaya a uma série de concessões mas, para a surpresa de muitos, foram os golpistas que não o aceitaram.

A sinuca de bico em que se encontra a administração democrata é um componente chave para se explicar o porquê dessa situação tão insólita: um mês de golpe em Honduras, o governo de fato não foi reconhecido por país nenhum, mas ainda assim ele se sustenta, em parte pelo jogo ambíguo feito pelos EUA. A situação no país centro-americano é, evidentemente, cada vez pior. Ontem a Liga Camponesa anunciou que já contabilizara pelo menos 184 desaparecidos.



  Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post | Comentários (87)



sexta-feira, 17 de julho 2009

A esquerda e o unicameralismo

(esta é minha coluna deste mês na Revista Fórum. Acompanhe também o Twitter da revista).


O senso comum da classe média brasileira aceita indignar-se contra políticos individuais acusados ou culpados de corrupção. Também aceita vociferar contra todo o sistema político, com diferentes versões da cantilena todo político é igual. A última delas é a Não reeleja ninguém, vergonhosa campanha pseudopolítica lançada por Daniela Thomas e disseminada por Marcelo Tas. Mas esse senso comum só consegue oscilar entre entender a corrupção como defeito moral individual ou como inevitabilidade de nosso sistema ou raça. Daí que a conversa sobre corrupção no seio da classe média brasileira seja tão enfadonha. Ela passa do moralismo individual ao fatalismo coletivo (humano ou nacional) sem espaço para que uma conversa realmente política se estabeleça. Curiosamente, isso acontece no interior de uma sociedade que, apesar de complexa, enorme e em franca democratização, ainda não construiu canais para a discussão do unicameralismo.

Digo “curiosamente” porque seria de se esperar que a estrutura bicameral do Congresso brasileiro e a desproporcionalidade que caracteriza o Senado já teriam entrado em pauta nas discussões políticas sobre corrupção. Mas não é esse o caso. A julgar pela mídia e pelo senso comum da classe média, pareceria que essas duas coisas não estão relacionadas. Sem emplacar um debate real sobre as relações entre a corrupção e as estruturas do sistema político brasileiro, fica mais fácil apresentá-la como uma questão de origem moral. E qualquer pessoa de esquerda sabe que quando um problema político vem embrulhado como se fosse um problema moral, são os defensores do status quo, os poderosos e as forças conservadoras que se beneficiam.

No Brasil, o unicameralismo ainda se vincula, na cabeça de muitos, a uma adesão supostamente inconclusa, fingida ou formal à democracia representativa. Existe gente inteligente, como Antonio Cícero, que associa o unicameralismo ao perigo de abolição da democracia representativa no chavismo plebiscitário e na democracia “direta”, como se uma coisa fosse prima da outra. É como se, para que as pessoas acreditassem que você realmente defende a existência de um parlamento, fosse necessário achar natural a existência de dois. É uma lógica bizarra, mas que tem suas raízes históricas.

Não se podem tirar conclusões apressadas de uma lista aleatória dos países que adotam o unicameralismo. Um rol não exaustivo inclui: China, Portugal, Suécia, Finlândia, Islândia, Dinamarca, Israel, Estônia, Croácia, Cuba, Venezuela, Peru, Equador, Angola, Líbano, Grécia, Guatemala, Honduras, Turquia, Sérvia, Hungria, Coreia do Sul, Ucrânia, Nova Zelândia, Estônia, Macedônia, Chipre, Bulgária e Bangladesh. Há sistemas políticos de todo tipo nessa lista, evidentemente. É fato que o unicameralismo predomina em países menores, sem as proporções continentais do Brasil. Também é correto que são democracias bicamerais os Estados Unidos, a Rússia, o Canadá e a Índia. Também é certo que o único país unicameral territorialmente comparável ao Brasil é a China, não exatamente um modelo de democracia. Mas a discussão está longe de se esgotar aí.

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(mapa dos países uni- e bicamerais, daqui)


Nos EUA, existem alguns motivos sólidos que justificam o Congresso bicameral. Apesar das semelhanças raciais e territoriais entre os dois países, esses motivos não se aplicam ao Brasil. Os EUA foram criados a partir da expansão de um núcleo migratório concentrado em 13 colônias de território bem menor que aquele que o país viria a ocupar no século XIX. Com a compra da Louisiana e o roubo, via guerra, de um enorme pedaço do México, os EUA fundaram um sistema em que se faziam necessárias algumas concessões à paridade entre estados desiguais – tratou-se, literalmente, de avançar rumo ao Oeste. No Brasil, o federalismo serve aos interesses de oligarquias, chefes locais, capangas de vários tipos e, acima de tudo, ao PMDB, expressão mor do clientelismo nacional. Por tudo isso, é dificílimo emplacar uma discussão real sobre o unicameralismo no interior das estruturas políticas brasileiras.

A Índia é bicameral, mas sua Câmara Alta, chamada de Conselho dos Estados (Rajya Sabha), elege seus representantes de forma quase proporcional. Estados populosos, como Uttar Pradesh e Maharashtra, têm respectivamente 31 e 19 assentos, contra 1 representante para estados menores como Mizoram ou Sikkim. Na Rússia, o bicameralismo é até mais excludente que no Brasil. O Conselho da Federação (Câmara Alta) concede dois representantes a cada um dos 84 “sujeitos federais” do país, entre repúblicas, províncias ou territórios. Eles não são, no entanto, eleitos diretamente. Um deles é escolhido pelo Legislativo da província e o outro é nomeado pelo governador e referendado por esse mesmo Legislativo regional. A queda de braço com os capangas que tendem a controlar o Conselho da Federação é, aliás, um dos elementos chave para se entender o governo de Vladimir Putin. Já no Canadá, o Senado tem alguma proporcionalidade, ao contrário do Brasil. De seus 105 membros, cada uma das grandes quatro regiões do país recebe 24 assentos, com o restante sendo dividido entre as províncias menores. Em compensação, sua forma de escolha é menos democrática. Os senadores canadenses são nomeados pelo Governador Geral.

Sempre acreditei que a democracia brasileira ganharia muito se fossem criados canais onde a discussão sobre o unicameralismo prosperasse. Não é, evidentemente, uma bandeira que um grande partido possa assumir sem um tremendo desgaste. O PT, com sua respeitável bancada de 11 senadores, não a levantaria mesmo que houvesse avançado mais em seu interior o debate sobre o unicameralismo – um modelo de organização do legislativo muito mais próximo da visão de democracia genuinamente representativa que animou boa parte do partido em sua origem. Eis aqui, pois, a trava à reforma política brasileira: ela só pode florescer quando adquirir força suficiente no interior de espaços cuja existência ela ameaçaria. Vivemos nesse paradoxo, que explica por que a reforma política é bem mais difícil do que foi a reforma da Previdência. Mais uma crise de legitimidade do Senado, no entanto, pode acabar abrindo a fresta para que a reflexão sobre as instituições saia do chato terreno moral e ouse imaginar formas de organização política cujo poder democratizador nós talvez nem possamos ainda vislumbrar.

PS: Veja também o post do Tiago Pereira sobre o assunto, com o qual estou inteiramente de acordo.



  Escrito por Idelber às 13:41 | link para este post | Comentários (118)



segunda-feira, 13 de julho 2009

Ateus, saiam do armário! Ateísmo e falsas simetrias

O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão*. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.

* Atualização em 15/02/2011: Para entender a rasura, visite esse post.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (673)



sexta-feira, 10 de julho 2009

Solidariedade a Lúcio Flávio Pinto

Este é um convite a que você faça uma doação à conta bancária de Lúcio Flávio Pinto, um dos mais valentes jornalistas brasileiros, condenado a pagar 30 mil reais de indenização à família Maiorana, dona do grupo Liberal, afiliado paraense da Rede Globo de Televisão. A história da condenação de Lúcio e todos os links relevantes estão disponíveis nesse post publicado aqui no Biscoito anteontem. O Jornal Pessoal, informativo quinzenal e independente editado por Lúcio, não aceita propaganda e se mantém com a venda em bancas. A condenação é um golpe duro contra esse veículo.

Aí vai, por questão de transparência, o comprovante da minha doação de 100 reais:

**** (comprovante retirado por múltiplas sugestões de amigos).

Os dados da conta são:

Lúcio Flávio Pinto
UNIBANCO (banco 409)
Conta: 201.512-0
Agência: 0208
CPF: 610.646.618-15


Acabo de ter a notícia de que Lúcio está no hospital acompanhando seu irmão, Raimundo José, também jornalista, dois anos mais novo que ele. Raimundo está enfrentando o estágio final de um câncer.

Uma das coisas que aprendi a admirar nos EUA é uma certa cultura da doação. Não fosse por ela, provavelmente estaríamos agora amargando John McCain e Sarah Palin na Casa Branca. Eu ficaria muito honrado se conseguíssemos dar uma demonstração de força e levantássemos uma contribuição legal para o Lúcio. É evidente que qualquer quantia ajuda: 5, 10, 20 reais, o que puder. O importante é o gesto. Caso você o faça, deixe aqui o alô.



  Escrito por Idelber às 06:41 | link para este post | Comentários (77)



quinta-feira, 09 de julho 2009

Entrevista sobre o AI-5 Digital

Acho que ainda não coloquei este vídeo aqui no blog. É a entrevista que fizeram comigo os gentilíssimos profissionais da TV Assembleia de Minas Gerais, sobre o AI-5 Digital, do Senador Eduardo Azeredo -- aquele que estreou na política dando uma facada nas costas do irmão.

Chegam de Brasília notícias de que são muito boas as chances de derrotar o orwelliano projeto do senador do PSDB. Mas todo cuidado é pouco. Aí vai o papo. A entrevistadora, Vivian, foi uma gentileza só. Bem informada, clara, incisiva, ela fez as perguntas que tinham que ser feitas, me questionou, interrogou, mas me deu tempo para explicar o ponto de vista dos que lutamos contra o AI-5 Digital. Se você ainda não viu, aqui está o vídeo. A edição é cortesia de Alexandre Inagaki.


Entrevista com Idelber Avelar sobre o AI-5 Digital



PS: Na caixa de comentários do post anterior, começou a se articular uma vaquinha em solidariedade ao bravo jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará. O próximo post trará detalhes sobre como você pode contribuir.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (28)



quarta-feira, 08 de julho 2009

Ronaldo Maiorana, da corja dos Marinho, espanca e sai livre; Lúcio Flávio Pinto faz jornalismo e é condenado

LucioFlavioPinto.gifPrepare-se, caro leitor, para outro mergulho no Brasil profundo. Lúcio Flávio Pinto talvez seja hoje o jornalista mais respeitado e destemido da Região Norte. Ele é o solitário redator do Jornal Pessoal, empreitada independente, que não aceita anúncios, tem tiragem quinzenal de 2 mil exemplares e mesmo assim provoca um fuzuê danado entre os poderosos, dada a coragem com que Lúcio investiga falcatruas e crimes. Lúcio já ganhou quatro prêmios Esso. Recebeu também dois prêmios da Federação Nacional dos Jornalistas em 1988, por suas matérias dedicadas ao assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles e à violenta manifestação de protesto dos garimpeiros de Serra Pelada. Em 1997, ele recebeu o Colombe d’Oro per la Pace, um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália. Em 1987, foi o jornalista que investigou o rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia, por uma quadrilha chefiada pelo presidente interino do banco e procurador jurídico do maior jornal local, O Liberal.

Há 17 anos, os representantes paraenses da corja comandada pela família Marinho perseguem-no de forma implacável. Ronaldo Maiorana, dono (junto com seu irmão, Romulo Maiorana Jr.) do Grupo Liberal, afiliado à Rede Globo de Televisão, emboscou Lúcio por trás, num restaurante, e espancou-o com a ajuda de dois capangas da Polícia Militar, contratados nas suas horas vagas e depois promovidos na corporação. O espancamento, crime de covardia inominável, só rendeu a Maiorana a condenação a doar algumas cestas básicas.

Alguns meses depois da agressão, Lúcio foi convidado pelo jornalista Maurizio Chierici a escrever um artigo para um livro a ser publicado na Itália. O texto, eminentemente jornalístico, relatava as origens do grupo Liberal. Em determinado momento, dentro de um contexto bem mais amplo, ele fez referência às atividades de Maiorana pai no contrabando, prática bem comum, aliás, na Região Norte na época. Como se pode depreender da leitura do artigo, nada ali tinha cunho calunioso, posto que – uma vez processado --, Lúcio anexou aos autos toda a documentação que provava a veracidade do que afirmava. A obra investigativa de Lúcio fala por si própria: veja a qualidade da prosa e da pesquisa que informa o trabalho de Lúcio e julgue você mesmo. O que ele oferece em seus textos, entre muitas outras coisas, é a documentação, história e raízes daquilo que é sabido até mesmo pelos mosquitos do mercado Ver-o-Peso: que n'O Liberal só se publica aquilo que é de interesse da corja dos Marinho.

Mas eis que chega do Pará a estranha notícia de que o juiz Raimundo das Chagas, titular da 4ª vara cível de Belém, condenou Lúcio a pagar a soma de 30 mil reais aos irmãos Maiorana – representantes paraenses, lembrem-se, da organização comandada pelos Marinho. Lúcio também foi condenado a pagar as custas processuais e os honorários advocatícios. A pérola de justificativa do juiz fala do “bom lucro” de um jornal artesanal, de tiragem de 2 mil exemplares por quinzena. Ainda por cima, o juiz proíbe Lúcio de usar “qualquer expressão agressiva, injuriosa, difamatória e caluniosa contra a memória do extinto pai dos requerentes e contra a pessoa destes”, o que constitui, segundo entendo, extrapolação característica de censura prévia contrária à Constituição Federal. O juiz fundamenta sua decisão dizendo que Lúcio havia “se envolvido em grave desentendimento” com eles. É a velha praga do eufemismo: um espancamento pelas costas se transforma em “desentendimento”. A reação de Lúcio à sentença pode ser lida nesse texto.

O Biscoito se solidariza com Lúcio, coloca o site à disposição para o que for necessário -- inclusive para a publicação de qualquer material objeto de censura prévia – e suspira de cansaço ao fazer outro post que mais parece autoplágio, dada a tediosa repetição desses absurdos. Resta a pergunta: até quando os Frias, Marinho, Civita, Mesquita e seus comparsas vão manter esse poder criminoso Brasil afora?


PS: Meu muito obrigado ao Victor Barone pelas Originais no Mato Grosso do Sul e pela entrevista comigo.



  Escrito por Idelber às 04:07 | link para este post | Comentários (56)



terça-feira, 07 de julho 2009

O Caso Ouro Preto: Radiografia de mais um crime da mídia brasileira

E agora, Folha? E agora, Estado de São Paulo? E agora, Globo? E agora, Estado de Minas? Quem vai cobrar de vocês a sua cota pela quase destruição das vidas e das famílias de Camila Dollabela, Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, inocentados por absoluta falta de provas do assassinato de Aline Silveira Soares, ocorrido em outubro de 2001 em Ouro Preto? Durante anos, a mídia brasileira tratou esse caso com absurda falta de responsabilidade, enfiando-nos goela abaixo sandices sobre “seitas satânicas” e “rituais macabros”, simplesmente porque um delegado resolveu associar a morte de Aline a um jogo de RPG, esquecendo-se, no processo, de qual era o seu papel, ou seja, o de coletar provas no local do crime. Agora, quem vai indenizar Camila, Edson, Cassino e Maicon pelos crimes de linchamento prévio e acusação sem provas?

O Biscoito não tem mais nada a dizer sobre este caso a não ser sugerir aos seus leitores que 1) procurem nos arquivos os rastros dos crimes cometidos por UOL, Estadão, Globo e Estado de Minas contra as pessoas citadas e suas famílias; 2) leiam esse sensacional post de Felipe de Amorim que, com ponderação que me falta neste momento, faz uma radiografia indispensável.

Atualização: Outra leitura indispensável sobre o caso é esse artigo de 2005, escrito por minha amiga Cynthia Semíramis.



  Escrito por Idelber às 19:13 | link para este post | Comentários (42)




Resposta de Kabenguele Munanga a Demétrio Magnoli

Como já é de costume na mídia brasileira, achicalha-se primeiro, nega-se direito de resposta depois. Com muito orgulho, o Biscoito publica a réplica de Kabengule Munanga, Professor Titular de Antropologia da USP, ao ataque de Demétrio Magnoli n' O Estado de São Paulo. O artigo também está disponível no AfroPress.


kabenguele.jpgEm matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 14 maio de 2009, intitulada “Monstros tristonhos”, o geógrafo Demétrio Magnoli critica e acusa agressivamente as Universidades Federais de Santa Maria (UFSM) e de São Carlos (UFSCAR) e também a mim, Kabengele Munanga, Professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

As duas universidades são criticadas e acusadas por terem, segundo o geógrafo, criado ”tribunais raciais” que rejeitam as matrículas de jovens mestiços que optam pelas cotas raciais. No caso da Universidade Federal de Santa Maria, trata-se apenas de Tatiana de Oliveira, cuja matrícula foi cancelada menos de um mês após o início do curso de Pedagogia.. No caso da Universidade Federal de São Carlos, trata-se do estudante Juan Felipe Gomes. O acusador acrescenta que um quarto dos candidatos aprovados na UFSCAR pelo sistema de cotas raciais neste ano de 2009 teve sua matrícula cancelada pelo “tribunal racial” dessa universidade.

A questão que se põe é saber se além desses estudantes, cujas matrículas foram canceladas, outros alunos mestiços ingressaram em cerca de 70 universidades públicas que aderiram à política de cotas. Se a resposta for afirmativa, os que tiveram sua matrícula cancelada constituem casos raros ou excepcionais que mereceriam a atenção não apenas de Demétrio Magnoli, mas também de todas as pessoas que defendem a justiça e a igualdade de tratamento.

Mas por que esses casos raros, que constituem uma exceção e não a regra, foram “injustiçados” pelas comissões de controle formadas nessas universidades para evitar fraudes, comissões que o sociólogo Demétrio rotula de “tribunais raciais”? Por que só eles? Por que não ocorreu o mesmo com os outros mestiços aprovados? Houve realmente injustiça racial ou erro humano na avaliação da identidade física dessas pessoas que foram simplesmente consideradas brancas e não mestiças apesar de sua autodeclaração? Os erros humanos, quando são detectados, devem ser corrigidos pelos próprios humanos, como o foi no caso dos estudantes gêmeos da UnB. As injustiças, flagrantes ou não, devem ser apuradas e julgadas pela própria justiça que, num estado democrático de direito como o Brasil, deverá prevalecer. Acho que os estudantes Tatiana de Oliveira e Juan Felipe Gomes, e tantos outros que o sociólogo menciona sem entretanto nomeá-los, devem procurar um advogado para defender seus direitos se estes tiverem sido efetivamente violados pelos chamados “tribunais raciais”. Entendo que o geógrafo Demétrio tenha pena deles, considerando a sua sensibilidade humana.

Se realmente houve erro humano na verificação da identidade desses estudantes, a explicação não está na citação intencionalmente deturpada de algumas linhas extraídas de um texto introdutório de três páginas ao livro de Eneida de Almeida dos Reis, intitulado MULATO: negro-não-negro e/ou branco-não-branco, publicado pela Editora Altara, na Coleção Identidades, São Paulo, em 2002.

Veja como é interessante a estratégia de ataque do geógrafo Demétrio Magnoli. Ele escondeu de seus leitores o título do livro de Eneida de Almeida dos Reis, assim como a casa editora e a data de sua publicação para evitar que possíveis interessados pudessem ter acesso à obra para averiguar direta e pessoalmente o fundamento das acusações. De fato, ele não disse absolutamente nada sobre o conteúdo desse livro, e passa a impressão de ter lido apenas vinte linhas do total de três páginas da introdução, a partir das quais constrói seu ensaio e sua acusação. Com sua inteligência genuína, acho que ele poderia ter feito uma pequena síntese desse livro para seus leitores; se ele o tivesse mesmo lido, entenderia que nada inventei sobre a ambivalência genética do mestiço que não estivesse presente no próprio título da obra “Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco”. Desde quando a palavra ambivalência é sinônimo de “monstro tristonho”? Estamos assistindo à invenção, pelo geógrafo, de novos verbetes dos dicionários da língua portuguesa?

O livro de Eneida de Almeida dos Reis resultou de uma pesquisa para dissertação de mestrado defendida na PUC de São Paulo sob a orientação de Antonio da Costa Ciampa, Professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da PUC São Paulo. Ele foi convidado a fazer a apresentação do livro, na qualidade de professor orientador, e eu para escrever a introdução, na qualidade de ex-professor na disciplina “Teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. O livro se debruça sobre as peripécias e dificuldades vividas pelos indivíduos mestiços de brancos e negros, pejorativamente chamados mulatos, no processo de construção de sua identidade coletiva e individual, a partir de um estudo de caso clínico. É uma pena que nosso crítico acusador não tenha tido a coragem de apresentar a seus leitores o verdadeiro conteúdo desse livro, resultado de uma meticulosa pesquisa acadêmica, e não da minha fabulação.

Para entender porque essas pessoas mestiças foram consideradas brancas, apesar de terem declarado sua afrodescendência, é preciso voltar ao clássico “Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais”, de Oracy Nogueira (São Paulo: T.A. Queiroz, 1985). Se o geógrafo Demétrio tivesse lido esse livro, acredito que teria entendido porque as pessoas brancas que possuem algumas gotas de sangue africano são consideradas pura e simplesmente negras nos Estados Unidos – apesar de exibirem uma fenotipia branca – e brancas no Brasil. Ensina Nogueira que a classificação racial brasileira é de marca ou de aparência, contrariamente à classificação anglo-saxônica que é de origem e se baseia na “pureza” do sangue. Do ponto de vista norteamericano, todos os brasileiros seriam, de acordo com as pesquisas do geneticista Sergio Danilo Pena, considerados negros ou ameríndios, pois todos possuem, em porcentagens variadas, marcadores genéticos africanos e ameríndios, além de europeus, sem dúvida. Quando essas pessoas fenotipicamente brancas e geneticamente mestiças se consideram ou são consideradas brancas no decorrer de suas vidas e assumem, repentinamente, a identidade afrodescendente para se beneficiar da política das cotas raciais, as suspeitas de fraude podem surgir. Creio que foi o que aconteceu com os alunos cujas matrículas foram canceladas na UFSM e na UFSCAR. Se não houver essa vigilância mínima, seria melhor não implementar a política de cotas raciais, porque qualquer brasileiro pode se declarar afrodescendente, partindo do pressuposto de que a África é o berço da humanidade..

Lembremo-nos de que no início dos debates sobre as cotas colocava-se a dificuldade de definir quem é negro no Brasil por causa da mestiçagem. Falsa dificuldade, porque a própria existência da discriminação racial antinegro é prova de que não é impossível identificá-lo. Senão, o policial de Guarulhos não teria assassinado o jovem dentista identificado como negro pelo cidadão branco assaltado, e os zeladores de todos os prédios do Brasil não teriam facilidade para orientar os visitantes negros a usar os elevadores de serviço. Por sua vez, as raras mulheres negras moradoras dos bairros de classe média não seriam constantemente convidadas pelas mulheres brancas, quando se encontram nos elevadores, para trabalhar como domésticas em suas casas. Existem casos duvidosos, como o dos alunos em questão, que mereceriam uma atenção desdobrada para não se cometer erros humanos, mas não houve dúvidas sobre a identidade da maioria dos estudantes negros e mestiços que ingressaram na universidade através das cotas.

Bem, o geógrafo Demétrio Magnoli leva ao extremo a acusação a mim dirigida quando me considera um dos “ícones do projeto da racialização oficial do Brasil”. Grave acusação! Infelizmente, ele não deu nomes a outros ícones. Nomeou apenas um deles, cuja obra não leu, ou melhor, demonstra não ter lido. Mas por que só o meu nome mencionado? Porque sou o mais fraco, pelo fato de ser brasileiro naturalizado, ou o mais importante, por ter chegado ao ponto mais alto da carreira acadêmica? Isso parece incomodá-lo bastante! Um negro que chegou lá, ao topo da carreira acadêmica, numa das melhores universidades do país, mas nem por isso esse negro deixou de ser solidário, pois milita intelectualmente para que outros negros, índios e brancos pobres tenham as mesmas oportunidades.

De acordo com as conclusões assinaladas no livro de Eneida de Almeida dos Reis, muitos mestiços têm dificuldades para construir sua identidade por causa da ambivalência (Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco) , dificuldades que eles teriam superado se tivessem política e ideologicamente assumido uma de suas heranças, ou seja, a sua negritude, que é o ponto nevrálgico de seu sofrimento psicológico. Se o sociólogo acusador tivesse lido este livro e refletido serenamente sobre suas conclusões, ele teria percebido que não alimento nenhum projeto ou plano de ação para suprimir a mestiçagem no Brasil. Isto só pode ser chamado de masturbação ideológica, e não de análise sociológica, nem geográfica! Como seria possível suprimir a mestiçagem, que é um fato fundamental da história da humanidade, desafiando as leis da genética e a vontade dos homens e das mulheres que sempre terão intercursos interraciais? Nem o autor do ensaio sobre as desigualdades das raças humanas, Arthur de Gobineau, chegou a acreditar nessa possibilidade. Se as leis segregacionistas do Sistema Jim Crow no Sul dos Estados Unidos e do Apartheid na África do Sul não conseguiram fazê-lo, os ícones da racialização oficial do Brasil, entre os quais nosso colega me situa, terão esse poder mágico e milagroso que ele lhes atribui?

Entrando na vida privada, gostaria que o sociólogo soubesse que tenho um filho e uma neta mestiços que não são monstros tristonhos como ele pensa, pois são educados para assumir sua negritude e evitar assim os graves problemas psicológicos apontados na obra de Eneida de Almeida Dos Reis, através da indefinida personagem Maria, (ver p.39-100). Como se pode dizer que os mestiços são geneticamente ambivalentes e que política e ideologicamente não podem permanecer nessa ambivalência e ser por isso taxado de charlatão acadêmico? Creio que se trata apenas de uma reflexão que decorre das conclusões do próprio livro e que de per si não constituiria nenhum charlatanismo. Não seria um contra-senso e um grave insulto à USP que esse “charlatão acadêmico” tenha chegado ao topo da carreira acadêmica? E que tenha orientado dezenas de doutores hoje professores nas grandes universidades brasileiras, como a USP, UNICAMP, UNESP, UFMG, UFF, UFRJ, Universidade Federal de Goiás, Universidade Federal de São Luiz do Maranhão, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Candido Mendes, PUC de Campinas, etc. Creio que, salvo o geógrafo Demétrio, os que me conhecem através de textos que escrevi, de minhas aulas e de minhas participações nos debates sociais e intelectuais no país e no exterior, não me atribuiriam esse triste retrato.

Disse ainda o geógrafo Demétrio que “do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do racismo científico, velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética”. Sinceramente, não entendo como Demétrio conseguiu tirar tanta água das pedras. Das 20 linhas extraídas, de maneira deturpada, de um texto de três páginas de introdução, ele conseguiu dizer coisas horríveis, como se tivesse lido tudo que escrevi durante minha trajetória intelectual sobre o racismo antinegro. A colonização da África, contrariamente às demais colonizações conhecidas na história da humanidade, foi justificada e legitimada por um corpus teórico-cientí fico baseado nas idéias evolucionistas e racialistas produzidas na modernidade ocidental. Teria algum sentido para mim, que milito contra o racismo, professar o racismo científico para lutar contra o racismo à brasileira? Acho que nosso geógrafo quer me transformar num demente que não sou. As pessoas que leram seu texto no jornal O Estado de S. Paulo podem pensar que eu sou esse negro ex-colonizado que professa as mesmas idéias do racismo científico que postulou a inferioridade e a desumanidade dos africanos, incluída a dele mesmo. Como entender que meus alunos de Pós-graduação, a quem ensino há vinte anos “As teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, uma disciplina freqüentada por alunos da USP, de outras universidades e outros estados, têm a coragem de ocupar um semestre inteiro para escutar profissões de fé em favor do racismo científico?

Se o geógrafo Demétrio quer saber mais sobre mim, ingressei na Faculdade em 1964, aos vinte e dois anos de idade. Tive aulas de Antropologia Física com um dos melhores biólogos e geneticistas franceses, Jean Hiernaux. Uma das primeiras coisas que ele me ensinou era que a raça não existe biologicamente. Através de suas aulas, li François Jacob, Nobel de Fisiologia (1965) e um dos primeiros franceses a decretar que a raça pura não existe biologicamente; e J.Ruffie, Albert Jacquard e tantos outros geneticistas antirracistas dessa época. Portanto, sei muito bem, e bem antes de Demétrio que o racismo não pode ter mais sustentação científica com base na noção das raças superiores e inferiores, que não existem biologicamente. Sei muito bem que o conteúdo da raça enquanto construção é social e político. Ou seja, a realidade da raça é social e política porque tivemos na história da humanidade povos e milhões de seres humanos que foram mortos e dominados com justificativa nas pretensas diferenças biológicas. Temos em nosso cotidiano, pessoas discriminadas em diversos setores da vida nacional porque apresentam cor da pele diferente. Nosso sistema educativo é eurocêntrico e nossos livros didáticos são repletos de preconceitos por causa das diferenças. Não sou um novato que ingressou ontem na universidade brasileira. No Brasil, fui introduzido ao pensamento racial nacional por grandes mestres, como João Baptista Borges Pereira, que foi meu orientador no doutoramento, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Oracy Nogueira, entre outros. Não sei onde estava Demétrio nessa época e em que ano ele descobriu que a raça não existe. Acho um exagero querer me dar lição de moral sobre coisas que eu conheço muito antes dele. Isto não quer dizer que ele não possa me ensinar temas pertinentes à geografia, como por exemplo, o que se pode ler em seu livro sobre a África do Sul – “Capitalismo e Apartheid”, publicado pela Editora Contexto, São Paulo, 1998, que oferece algumas informações interessantes sobre a história do sistema do apartheid. Esse livro faz parte da bibliografia recomendada na disciplina ministrada na Graduação, não obstante algumas incorreções históricas nele contidas.

Um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça. Não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo. É neste sentido que faço parte do bloco dos intelectuais brancos e negros que defendem as políticas de ação afirmativa e de cotas para o acesso ao ensino superior e universitário. Na cabeça e no pensamento de Demétrio Magnoli, todos os que fazem parte desse bloco querem racializar o Brasil, e isso faz parte de um projeto e de um plano de ação. Que loucura!

Defendemos as cotas em busca da igualdade entre todos os brasileiros, brancos, índios e negros, como medidas corretivas às perdas acumuladas durante gerações e como políticas de inclusão numa sociedade onde as práticas racistas cotidianas presentes no sistema educativo e nas instituições aprofundam cada vez mais a fratura social. Cerca de 70 universidades públicas estaduais e federais que aderiram à política de cotas sem esperar a Lei ainda em tramitação no Senado entenderam a importância e a urgência dessa política. Acontece que essas universidades não são dirigidas por negros, mas por compatriotas brancos que entendem que não se trata do problema do negro, mas sim do problema da sociedade, do seu problema como cidadão brasileiro. Podemos dizer que todos esses brancos no comando das universidades querem também racializar o Brasil, suprimir os mestiços e incentivar os conflitos raciais? Afinal, podemos localizar os linchamentos e massacres raciais nos Estados onde se encontram as sedes das universidades que aderiram às cotas? Tudo não passa de fabulações dos que gostariam de manter o status quo e que inventam argumentos que horrorizam a sociedade. Quem está ganhando com as cotas? Apenas os alunos negros ou a sociedade como um todo? Quem ingressou através das cotas? Apenas os alunos negros e indígenas ou entraram também estudantes brancos da escola pública?

Concluindo, penso que existe um debate na sociedade que envolve pensamentos, filosofias e representações do mundo, ideologias e formações diferentes. Esse pluralismo é socialmente saudável, na medida em que pode contribuir para a conscientização de seus membros sobre seus problemas e auxiliar a quem de direito, o legislador e o executivo, na tomada de decisões esclarecidas. Este debate se resume a duas abordagens dualistas. A primeira compreende todos aqueles que se inscrevem na ótica essencialista, segundo a qual a humanidade é uma natureza ou uma essência e como tal possui uma identidade genérica que faz de todo ser humano um animal racional diferente dos demais animais. Eles afirmam que existe uma natureza comum a todos os seres humanos em virtude da qual todos têm os mesmos direitos, independentemente de suas diferenças de idade, sexo, raça, etnias, cultura, religião, etc. Trata-se de uma defesa clara do universalismo ou do humanismo abstrato, concebido como democrático. Considerando a categoria raça como uma ficção, eles advogam o abandono deste conceito e sua substituição pelos conceitos mais cômodos, como o de etnia. De fato, eles se opõem ao reconhecimento público das diferenças entre brancos e não brancos. Aqui temos um antirracismo de igualdade que defende os argumentos opostos ao antirracismo de diferença. As melhores políticas públicas, capazes de resolver as mazelas e as desigualdades da sociedade, deveriam ser somente macro-sociais ou universalistas. Qualquer proposta de ação afirmativa vinda do Estado que introduza as diferenças para lutar contra as desigualdades, é considerada, nessa abordagem, como um reconhecimento oficial das raças e, conseqüentemente, como uma racialização do Brasil, cuja característica dominante é a mestiçagem. Ou, em outras palavras, as políticas de reconhecimento das diferenças poderão incentivar os conflitos raciais que, segundo dizem, nunca existiram. Assim sendo, a política de cotas é uma ameaça à mistura racial, ao ideal da paz consolidada pelo mito de democracia racial, etc. Eu pergunto se alguém pode se tornar racista pelo simples fato de assumir sua branquitude, amarelitude ou negritude? Como se identifica então o geógrafo Demétrio: branco, negro, mestiço ou Demétrio indefinido? Pelo que me consta, ele se identifica como branco, mas não aceita que os negros e seus descendentes mestiços se identifiquem como tais e lutem por seus direitos num país onde são as grandes vítimas do racismo. A menos que ele negue a existência das práticas racistas no cotidiano brasileiro, e as diferenças de cor, sexo, classe e religiões que exigiriam políticas diferenciadas.

A segunda abordagem reúne todos aqueles que se inscrevem na postura nominalista ou construcionista, ou seja, os que se contrapõem ao humanismo abstrato e ao universalismo, rejeitando uma única visão do mundo em que não se integram as diferenças. Eles entendem o racismo como produção do imaginário destinado a funcionar como uma realidade a partir de uma dupla visão do outro diferente, isto é, do seu corpo mistificado e de sua cultura também mistificada. O outro existe primeiramente por seu corpo antes de se tornar uma realidade social. Neste sentido, se a raça não existe biologicamente, histórica e socialmente ela é dada, pois no passado e no presente ela produz e produziu vítimas. Apesar do racismo não ter mais fundamento científico, tal como no século XIX, e não se amparar hoje em nenhuma legitimidade racional, essa realidade social da raça que continua a passar pelos corpos das pessoas não pode ser ignorada.

Grosso modo, eis as duas abordagens essenciais que dividem intelectuais, estudiosos, midiáticos, ativistas e políticos, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Ambas produzem lógicas e argumentos inteligíveis e coerentes, numa visão que eu considero maniqueísta. Poderão as duas abordagens se cruzar em algum ponto em vez de se manter indefinidamente paralelas? Essa posição maniqueísta reflete a própria estrutura opressora do racismo, na medida em que os cidadãos se sentem forçados a escolher a todo momento entre a negação e a afirmação da diferença. A melhor abordagem seria aquela que combina a aceitação da identidade humana genérica com a aceitação da identidade da diferença. Para ser um cidadão do mundo, é preciso ser, antes de mais nada, um cidadão de algum lugar, observou Milton Santos num de seus textos. A cegueira para com a cor é uma estratégia falha para se lidar com a luta antirracista, pois não permite a autodefinição dos oprimidos e institui os valores do grupo dominante e, conseqüentemente, ignora a realidade da discriminação cotidiana. A estratégia que obriga a tornar as diferenças salientes em todas as circunstâncias obriga a negar as semelhanças e impõe expectativas restringentes.

Se a questão fundamental é como combinar a semelhança com a diferença para podermos viver harmoniosamente, sendo iguais e diferentes, por que não podemos também combinar as políticas universalistas com as políticas diferencialistas? Diante do abismo em matéria de educação superior, entre brancos e negros, brancos e índios, e levando-se em conta outros indicadores socioeconômicos provenientes dos estudos estatísticos do IBGE e do IPEA, os demais índices do Desenvolvimento Humano provenientes dos estudos do PNUD, as políticas de ação afirmativa se impõem com urgência, sem que se abra mão das políticas macrossociais.

Não conheço nenhum defensor das cotas que se oponha à melhoria do ensino público. Pelo contrário, os que criticam as cotas e as políticas diferencialistas se opõem categoricamente a qualquer política de diferença por considerá-las a favor da racialização do Brasil. As leis para a regularização dos territórios e das terras das comunidades quilombolas, de acordo com o artigo 68 da Constituição, as leis 10639/03 e 11645/08 que tornam obrigatório o ensino da história da África, do negro no Brasil e dos povos indígenas; as políticas de saúde para doenças específicas da população negra como a anemia falciforme, etc., tudo isso é considerado como racialização do Brasil, e virou motivo de piada.

Convido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro no Brasil antes de se lançar desesperadamente em críticas insensatas e graves acusações. Se porventura ele identificar algum traço de defesa do racismo científico em meus textos, se encontrar algum projeto ou plano de ação para suprimir os mestiços e racializar o Brasil, já que ele me acusa de ícone desse projeto, ele poderia me processar na justiça brasileira, em vez de inventar fábulas que não condizem com minha tradicionalmente pública e costumeira postura.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (157)



quinta-feira, 02 de julho 2009

100 horas de golpe em Honduras

Na próxima vez que alguém o acusar de acreditar em teorias da conspiração, caro leitor – sem prejuízo ao fato inconteste de que há, sim, gente disposta a crer em conspirações inverossímeis --, experimente retrucar o seguinte: ante os fatos ocorridos em Honduras na última semana do mês de junho de 2009, pertence ao cético o ônus de provar que a política não sucumbe, frequentemente, à lógica da pura conspiração. Pois se o que acontece ante nossos olhos em Honduras não é uma conspiração, alguém me sugira por favor um melhor vocábulo.

Já são bem mais de 100 horas de golpe em Honduras. Nenhum país do planeta reconhece o governo golpista. Ele foi condenado por OEA, Alba, ONU, SICA, Grupo do Rio e até pela Associação dos Ombudsmen das Américas. O presidente deposto falou em Assembleia da ONU e recebeu apoio e reconhecimento unânimes. Cuba e EUA condenam juntos o golpe. O golpista, presidente de facto, Micheletti, chega ao cúmulo de arrolar em seu favor o “apoio de Israel e Taiwan”, e não há internauta no planeta que encontre confirmação disso em fontes independentes nos dois países.

No entanto, a conspiração golpista conta com bases em: 1) parlamento; golpistas argumentam que é ampla maioria, mas não há confirmação independente mais além do fato, sim, de que havia desgaste parlamentar de Zelaya -- como é, aliás, comum para qualquer presidente latino-americano em fim de mandato que não tenha aprovação lulística; 2) cúpula militar; 3) setores de um Poder Judiciário absolutamente oligárquico; 4) imprensa, que opera livremente para disseminar o golpe – TVs abertas de Honduras e jornais El Heraldo e La Prensa – e é brutalmente censurada, perseguida, sabotada e encarcerada quando se coloca com independência ou com simpatias à resistência.

Se a imprensa estivesse funcionando em estado de mínima igualdade de condições em Honduras, o contexto atual seria bem distinto, não há dúvidas.

No momento em que escrevo, há, sim, hondurenhos assistindo a conferência de imprensa de Manuel Zelaya, mas só os que têm acesso à CNN em espanhol. Todas as TVs abertas de Honduras insuflam o golpe abertamente e inflam o número de participantes das aglomerações golpistas. Os sinais da TeleSur foram bloqueados. Os sinais dos canais de TV que transmitiam a conferência de Zelaya também o foram, logo depois. Há um completo blecaute de mídia em Honduras.

Para acompanhar as atualizações mais frequentes, veja o Twitter. Por aqui, a caixa fica aberta para reflexão sobre este insólito e inaudito golpe que, se tem algum precedente comparável, realmente, eu o desconheço.

Atualização:O Secretário da OEA, o chileno Inzulza, chega amanhã a Honduras com o ultimato da organização.

Atualização II: Confirmei a notícia de que o dono dos jornais El Heraldo e La Prensa (a mesma pessoa!) perdeu a boquinha em 2007, no governo Zelaya. Ele vendia drogas e armas ao estado. Talvez a fúria contra Chávez tenha algo que ver com a indústria farmacêutica, já que agora muitos medicamentos entram gratuitamente a Honduras pela Alba. Além de dono dos dois jornais, o Sr. Canahuati é também um barão da indústria de drogas.



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post | Comentários (77)



terça-feira, 30 de junho 2009

Honduras Update

É impressionante seguir, pelo Twitter, gente que está saindo em Tegucigalpa, celular em mãos, rumo às ruas. Veja, por exemplo, @cesarius, @buezo, @iduke e @elboby. O Cesarius é um entusiasta do software livre que tem blog. O Elboby também (alô, Sérgio Amadeu).

Não menos assombroso foi assistir, esta tarde, via 100Noticias, a uma justaposição, em tela repartida, das duas manifestações, a pró-golpista, chamada pelas TVs de Honduras, e a pró-Zelaya, organizada boca a boca e escondida pela mídia.


honduras-hcpp.jpg
(foto: Esteban Felix, via comentário do Drex).


Os meios de comunicação de massas de Honduras -- tanto o jornal mais pró-golpe, o El Heraldo, o jornal não tão delirante La Prensa, assim como as estações de TV -- estão levando um banho da 100Noticias, da TeleSur e do Twitter na guerra da informação durante este golpe. Não porque a esquerda seja sempre melhor que a direita, mas porque o golpismo em Honduras está muito isolado, com pouca fundamentação jurídica, e tendo que apelar para a manipulação de fatos.

No Twitter, há uma enxurrada de perfis recém criados, de procedência nebulosa, disseminando informação falsa -- coisa louca mesmo, por exemplo, que a Interpol tem ordem para prender Zelaya. Mas a coisa tem ficado meio óbvia. Quero dizer, óbvia para quase todo mundo. Não me culpem por generalização excessiva se o Noblat publicar post baseado em retuitada de lá dizendo que o Deputado pró-legalidade Cesar Ham está morto. Não está. Está vivinho da silva. No exílio temporário, mas vivo e tranquilo.

Entre o começo do golpe e a noite de hoje, reduziu-se bastante o impacto da contrainformação golpista no Twitter.

PS: Torre de Marfim ensina a Reinaldo Azevedo como ser um liberal democrata digno.



  Escrito por Idelber às 19:28 | link para este post | Comentários (77)




Honduras: Um golpe singular

Isso é “primeira vez como tragédia, segunda como farsa” e enésima como patético-grotesco para Marx nenhum botar defeito: não me lembro, em toda a história da América Latina, de um governo golpista que, na sua 36° hora, já havia sido condenado por OEA e ONU, ainda não fora reconhecido por nenhum país e mesmo assim continuasse no poder. Desta vez não se cumpriu o script mais frequente, de reconhecimento pelo menos por parte dos EUA. Faz mais de um dia e meio que os golpistas de Honduras, a ponta de baionetas, arrancaram de casa o presidente constitucional Manuel Zelaya para enfiá-lo num avião rumo à Costa Rica. Neste período, a Organização das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos, a União Européia, os EUA, o Itamaraty e o Sistema de Integração Centro-Americana já condenaram o golpe e afirmaram inequivocamente que Zelaya é o presidente legítimo.

Mas ao longo do dia o gorilismo golpista hondurenho continuava prendendo jornalistas, invadindo rádios, confiscando passaportes, promovendo um verdadeiro blecaute midiático e distribuindo porrada em Tegucigalpa e no interior. Apesar do isolamento, dos protestos populares e dos batalhões do exército que o desobedecem, o governo golpista continua lá. Amanhã, o presidente constitucional, Manuel Zelaya, faz discurso na ONU. Sua volta ao país está anunciada para quinta-feira. Ancorado em enorme apoio internacional. Zelaya mandou recado de que é pra galera voltar aos quartéis.

Os países da Alba, da América Central, o México e o Chile já retiraram suas representações diplomáticas de Honduras. O Itamaraty também reteve no Brasil o seu embaixador. Entre as inauditas singularidades do golpe hondurenho, algumas merecem nota. Ele levou um presidente americano em exercício a dizer, em referência a golpes latino-americanos: The US has not always stood as it should with some of these fledgling democracies, coisa rara se não inédita. Levou Calderón, do México, a sentar-se com Chávez e falar a mesma língua do venezuelano. Expôs a venalidade da grande mídia a tal ponto que o jornalão colaborava com o golpismo enquanto seu perfil fake traduzia com mais fidelidade o espírito das ruas e da resistência ao golpe.

Honduras tem o PIB per capita mais baixo da América Central. É menos de um terço do costa-riquenho. 70% dos hondurenhos vivem na pobreza:

cuadroindicadores.jpg(fonte)

Há material fotográfico no El País e em coleções pessoais. Veja as imagens dos assustados soldados vigiando o Congresso

honduras-congreso.jpg


e, segundo o fotógrafo, de populares recordando-lhes que eles vêm do povo:

honduras-pueblo.jpg


Diga-se o que quiser de Hugo Chávez, mas não houve veículo de mídia mais importante neste processo que a TeleSur. Sua valente jornalista Adriana Sívori transmitiu ao mundo, por celular, a voz de prisão dada a ela e o protesto digno que ela enfiou na cara do general. Já não tinham como sequestrá-la: foi um daqueles momentos históricos em que a tecnologia e a coragem podem ter se juntado para salvar uma vida, quiçá mais de uma. Tem valido a pena também seguir a 100Noticias. A Rádio Es lo de menos tem sido heroica. No Twitter, as tags são #Honduras e #crisishn. Na grande mídia brasileira, a cobertura é um desastre – não vale a pena comentá-la.

PS 1: Será que o blogueiro Ricardo Noblat já foi avisado de que, na "carta de renúncia" falsificada de Zelaya, que ele "noticiou" (citando como fonte .... o ex-blog do César Maia!), os golpistas se esqueceram até mesmo de atualizar a data para que ela ficasse correta?




PS 2: Confirmado, finalmente, para o dia 01 de julho, às 18 horas, no Auditório da Associação Brasileira de Imprensa, o Ato Público carioca contra o AI-5 Digital de Azeredo.



  Escrito por Idelber às 04:56 | link para este post | Comentários (73)



segunda-feira, 29 de junho 2009

Golpe de estado em Honduras

Foi um golpe latino-americano clássico, daqueles dos quais já tínhamos nos esquecido. Na madrugada de ontem, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, foi sequestrado a ponta de fuzis, arrancado de casa por dezenas de militares, colocado num avião e levado à Costa Rica. Era o dia de um referendo não vinculante que consultava a população hondurenha sobre se era desejo seu que nas próximas eleições, de novembro, se votasse também a criação de uma Assembleia Constituinte.

honduras.jpg
(fonte)


Zelaya é um bicho raro na onda esquerdista latino-americana: filho de latifundiário, eleito pelo Partido Liberal, venceu as eleições em 2005 na esteira de sua oposição à pena de morte, defendida por seu adversário. Sem apoio suficiente para um programa reformista no seu partido, foi se distanciando dele e aproximando-se dos líderes da Alba. Acabou ficando com uma base frágil no parlamento, além de enfrentar a hostilidade clara do Supremo Tribunal Eleitoral (cujos membros são nomeados pelo próprio Congresso) e também da cúpula militar. Na época de sua vitória, o STF STE demorou um mês para anunciar os resultados. Esses três artigos dão uma boa ideia do contexto que levou ao golpe.

Trasladado à Costa Rica sem que o governo do país fosse sequer notificado, Zelaya embarcou em seguida para uma reunião extraordinária da Alba em Manágua, com Hugo Chávez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador), além do Chanceler cubano, Bruno Rodríguez. A reunião foi transmitida ao vivo pela TeleSur venezuelana e pela Noticia100, de Manágua, duas fontes chave para acompanhar o que ocorre em Honduras. Em entrevista à CNN Chile, a esposa de Zelaya, Xiomara Castro, descreve o cárcere privado no qual se encontra, em algum lugar do interior do país. Os filhos do casal encontram-se em embaixadas. A Chanceler hondurenha, Patricia Rodas, esteve desaparecida durante todo o domingo. À noite, chegou a confirmação de que ela embarcava rumo ao México.

A reação da comunidade internacional deixou as forças golpistas em situação de isolamento. O Itamaraty se manifestou. A Organização dos Estados Americanos divulgou uma carta condenando o golpe e exigindo -- em linguagem surpreendentemente forte -- a reinstalação de Zelaya em suas funções. Mesmo o embaixador dos Estados Unidos, Hugo Llorens declarou inequivocamente que os EUA só reconhecem Zelaya como o presidente legítimo de Honduras. Um documento do Departamento de Estado mostra a posição dos EUA em prol da legalidade.

O golpista instalado no poder é Roberto Micheletti, nomeado pelo Congresso a partir de uma carta de renúncia com uma assinatura falsa de Zelaya, segundo declaração do presidente legítimo à TeleSur. No momento em que escrevo, milhares de hondurenhos cercaram o palácio presidencial em Tegucigalpa. Ouviram-se disparos. Está convocada para esta segunda-feira uma greve geral em apoio a Zelaya. Além da TeleSur e da Noticia100, a Rádio Es lo de menos, transmitindo com um único profissional, tem sido uma das melhores fontes para acompanhar o imbróglio. O ponto de vista dos golpistas está articulado em praticamente todos os grandes meios de comunicação de massas de Honduras. O mais explícito talvez seja El Heraldo, que chegou a inventar a incrível mentira de que Zelaya planejava dissolver o Congresso. O La Prensa se refere ao povo que protesta nas ruas como turba. Na televisão, ontem à noite, exibiam-se desenhos animados.

Para atualizações mais frequentes sobre a situação em Honduras, acompanhe-me no Twitter.



  Escrito por Idelber às 05:00 | link para este post | Comentários (83)



quarta-feira, 17 de junho 2009

Sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista

Atualização às 2:59 do 18/06: Como já é sabido por toda a torcida do Corinthians, o Supremo Tribunal Federal derrubou, por 8 votos a 1, a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. No momento em que escrevo, estamos no comentário #95 e a discussão anda muito boa. Como o assunto é importante para muita gente e é raríssimo que aconteça um debate no qual eu não tenha posição clara e definida, deixo este post em destaque mais um dia, inclusive porque quero ouvir mais. Apareceram vários outros links na caixa de comentários, além dos já oferecidos no corpo do post. Esse texto de Ivana Bentes celebra a decisão do STF. Esse outro, de Leandro Fortes, a lamenta. Leonardo Sakamoto acha positiva a decisão do STF mas critica a argumentação de Gilmar Mendes que a fundamentou.

Eu teria um texto bem incendiário para oferecer sobre este tema, mas acabo de chegar a Belo Horizonte, cansado pacas, e decidi fazer o que fazemos aqui de vez em quando. Eu ofereço os links e vocês conversam. O que achei de interessante por aí sobre a discussão que acontece hoje no Supremo Tribunal Federal, acerca da obrigatoriedade do diploma para jornalistas, vai abaixo:

Virando a folha, de Sergio Leo.
Sobre o diploma para jornalistas, do Rafael Galvão.
Ainda o diploma para jornalistas, também do Paraíba.
Diploma em tempos de crise do jornalismo?, do Jorge Rocha.
Pela exigência do diploma de jornalista para blogueiros brasileiros, do André Forastieri.
Sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, de Túlio Vianna.
Uma decisão histórica sobre o diploma, de Elias Machado.
Jornalista, só com diploma, por Sérgio Murillo de Andrade.
Diploma é resquício da ditadura, de Laerte Braga.

E por falar em jornalista, o maior de todos, Leandro Fortes, está de casa nova.



  Escrito por Idelber às 03:00 | link para este post | Comentários (220)



quinta-feira, 11 de junho 2009

A esquerda e a luta contra a homofobia

divorce.jpgEis a minha coluna deste mês na Revista Fórum, que chega em breve às bancas.

Nos Estados Unidos, a luta pelo casamento gay passa por um momento contraditório. Ela acumula vitórias nos lugares mais inesperados, como Iowa, e uma derrota catastrófica no habitat natural do movimento, a Califórnia. Não é ideal a posição conciliadora de Barack Obama, que defende as uniões civis -- que possibilitariam conquistas fundamentais, como os direitos de plano de saúde conjunto e de herança --, enquanto reserva o termo “casamento” para as uniões heterossexuais. Mas, pelo menos, Obama dá um passo adiante em relação à tradicional hipocrisia do Partido Democrata, que sempre contou com os votos de gays e lésbicas para, logo depois, rifá-los no jogo político.

Qualquer conhecedor da história da esquerda sabe como tem sido longo e acidentado o caminho de reconhecimento da luta gay/lésbica. Na esquerda tradicional, dos Partidos Comunistas, o completo descaso vinha, muitas vezes, recheado de homofobia explícita. Isso mudou, claro, e hoje uma Deputada como Jô Moraes, do PC do B de Minas, é uma das vozes mais incisivas na luta contra a homofobia. O PT, que sempre foi mais atento que a esquerda tradicional para as questões relacionadas à mulher e ao negro, demorou certo tempo em realmente acolher a luta antihomofóbica. Resta ainda um longo caminho que percorrer.

O crescente sucesso da parada gay de São Paulo e as iniciativas pioneiras de Marta Suplicy são capítulos dessa história, mas ela foi construída com uma luta que custou o sangue de muitos anônimos. O jornal O Lampião surge em 1978, em condições dificílimas. Em 1979, constitui-se em São Paulo o primeiro grupo de homossexuais organizados politicamente, o Somos. Seguem-se o Somos/RJ, Atobá e Triângulo Rosa no Rio, Grupo Gay da Bahia, Dialogay de Sergipe, Um Outro Olhar de São Paulo, Grupo Dignidade de Curitiba, Grupo Gay do Amazonas, Grupo Lésbico da Bahia, Nuances de Porto Alegre e Grupo Arco-Íris do Rio, entre outros (as informações são do GLS Planet). Somente em 1985 o Conselho Federal de Medicina decide desconsiderar o artigo 302 da Classificação Internacional de Doenças, onde constava a homossexualidade. Pelo menos nisso, o Brasil se antecipou. Só em 1990 a Organização Mundial da Saúde decide eliminar a homossexualidade da lista de doenças. A data da decisão histórica, 17 de maio, passaria a ser o Dia Internacional de Combate à Homofobia.

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Em sua esmagadora maioria, os heterossexuais – mesmo aqueles engajados na luta pela justiça social -- ainda não refletiram o suficiente sobre os efeitos devastadores da homofobia. Não se trata somente dos sutis gestos de discriminação cotidiana e das piadinhas homofóbicas, reproduzidas diariamente nas interações sociais e na programação da mídia. Trata-se de direitos básicos, como o de adoção, herança, plano de saúde e constituição de união matrimonial reconhecida pela lei. Trata-se do direito à imagem e à honra. Muitas vezes, trata-se simplesmente do direito de andar de mãos dadas com seu amor pelas ruas sem correr o risco de ser espancado.

Os homicídios homofóbicos no Brasil aumentaram 55% em 2008. Foram 190 no ano passado, contra 122 em 2007. Estes são os números oficiais, compilados pelo Grupo Gay da Bahia com base nos boletins de ocorrência. Imaginem quais serão os números reais. Nesse horror quase medieval, há mortes com requintes de crueldade, a pedradas, por exemplo. Recentemente, o odioso projeto de lei 4508/2008, do Deputado Olavo Calheiros (PMDB/AL), que visa proibir a adoção de crianças por homossexuais, começou a tramitar como se não fosse a excrescência inconstitucional que é. O projeto cospe no artigo 226, § 4º, da Constituição Federal, mas o Congresso o examina como se fosse a mais razoável das leis.

Ideias absolutamente inconstitucionais, como a que proíbe homossexuais de lecionar em escolas primárias, são discutidas com argumentos “ponderados” até por gente de esquerda. Está categórica, sociologicamente provado que, em potencial, um padre é uma ameaça sexual muito mais grave a uma criança que um(a) professor(a) gay ou lésbica. Mas reproduz-se mesmo em comarcas progressistas o estranho estereótipo que associa, contra todas as evidências, a homossexualidade à pedofilia. A bizarra noção de que gays e lésbicas são máquinas sexuais incontroláveis, prontas para disparar a qualquer momento, tem ainda profunda inserção no chamado inconsciente coletivo.

É urgente o apoio maciço e incondicional da esquerda ao Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que criminaliza a homofobia e pune a discriminação e a agressão contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais. O projeto se encontra, no momento, em trâmite no Senado. A leitura do projeto e o contato com os Senadores podem ser feitos através do site NãoHomofobia. Atualmente, não há nenhuma proteção específica ante a agressão e a discriminação homofóbicas, comparável à que temos contra o racismo.

A Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT é formada por 211 deputados federais e 18 senadores. Dos grandes partidos, o PT ainda é, de longe, o que se sai melhor na foto. De seus 11 senadores, 9 são membros. Mas ainda é pouco. Não há razão aceitável para que Tião Viana (PT-AC) e Marina Silva (PT-AC) não se juntem à Frente. Se, em vista de suas crenças religiosas, a Senadora Marina Silva tem “problemas de consciência” para se juntar a essa causa, que ela os resolva no âmbito privado. Na esfera pública, ela tem a obrigação de defender o programa do PT. Chega de conferir aos progressistas religiosos esse estranho privilégio, o de omitir-se (ou, pior, adotar uma postura reacionária) nas questões fundamentais do nosso tempo, sempre que estas entrem em choque com a leitura que lhes inculcaram de um livro apócrifo de fábulas judaicas.

Sempre defendi que a melhor forma de se imbuir do espírito de luta pela justiça social é ouvir as vítimas com atenção. Quer entender o racismo? Abandone as fáceis, imaginárias simetrias entre negros e brancos e escute as histórias de vida narradas por aqueles. O apelo do post é muito simples: procure seu amigo gay ou sua amiga lésbica e pergunte, indague muito. Não pressuponha que sabe o que eles vivem. Escute com atenção. Você se surpreenderá.


PS: Reúno-me esta noite, na Cobal do Humaitá, com amigos blogueiros cariocas. Devo chegar lá por volta das 21:00. Está confirmado, pois, o chope.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post | Comentários (117)



quarta-feira, 10 de junho 2009

Serra não pode ser presidente: Notas sobre a barbárie na USP

Tentei dormir. Era necessário, já que embarco às seis da matina rumo ao Rio. O fato é que não consegui. Afetam-me bastante as imagens, vídeos, sons de estudantes sendo espancados dentro de um campus universitário. Cresci com essas imagens, me formei dentro delas, acredito saber algo sobre a dinâmica que elas desatam. A violência policial é horrível em qualquer circunstância, evidente. Mas quando ela ocorre dentro de um campus universitário, é toda uma história de décadas de luta – bastante dura – por autonomia e liberdade de pensamento que está sendo negada, revirada, desrespeitada. Perguntem a Alon Feuerwerker acerca de suas memórias da reconstrução da UNE em 1979.

O Sr. José Serra não tem autoridade moral para ser Presidente da República Federativa do Brasil. Haja mãos e pés para contar os exemplos de truculência, autoritarismo e vocação ditatorial. Esse senhor simplesmente não sabe conversar com a sociedade civil. Recusou-se, mais uma vez, a entrar em diálogo.

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Critique-se o quanto se queira o movimento estudantil. Eu sou um dos seus críticos, diga-se. Fui presidente de DA, de DCE, fui de comissão organizadora de ENEL, participei de vários congressos da UNE. Há, no movimento estudantil, uma clara tendência à radicalização, fruto da idade de seus membros, da situação peculiar de ainda não estarem inseridos – na maioria dos casos – no mercado de trabalho, da condição de relativa liberdade em que transitam. Não concordo com várias das reivindicações históricas do movimento. Não acho, por exemplo, que estudante tenha que dar pitaco ter voto em política curricular. Se o sujeito está adquirindo um bem cujo conteúdo, por definição, ele não conhece, nada mais natural que não seja ele quem o defina. Tampouco acho que as eleições para reitor devam representar paritariamente os três setores. Um estudante fica quatro ou cinco anos no campus. Seu voto não pode ter o mesmo peso que o de quem lá trabalha permanentemente e tem responsabilidade direta sobre os rumos da instituição. Eu poderia continuar listando outros exemplos de bandeiras já levantadas pelos estudantes com as quais não estou de acordo.

Portanto, quem quiser criticar o movimento estudantil, que fique à vontade. Isso não me ofende nem um pouco. É inegável que há um desgaste das formas de luta do movimento universitário. Paralisar um Banco do Brasil ou uma Fiat é uma coisa. Paralisar uma universidade não afeta ninguém de imediato, a não ser a própria comunidade universitária. É uma simples questão de quem produz valor de troca imediato. O movimento estudantil foi chave na luta contra a ditadura, passou por longo adormecimento, renasceu brevemente com os caras-pintadas anti-Collor e voltou à irrelevância. Quanto menos massivo ele é, maior a possibilidade de que lideranças pouco representativas o sequestrem. Aumentam as chances de táticas reprováveis. Mas essas coisas se resolvem com diálogo. No momento em que entra a Polícia, tudo volta à estaca zero. Na verdade, volta a um número negativo, pois o trauma e a revolta não são bons pontos de partida para se negociar nada.

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O que me causa indignação é, de novo, que se criem falsas simetrias onde elas não existem (eu falo muito de falsas simetrias, por exemplo, na questão palestina). Os erros, excessos ou táticas reprováveis do movimento universitário são uma coisa. O envio do batalhão de choque da Polícia Militar, o espancamento de estudantes e o uso dos cassetetes e das bombas de gás lacrimogêneo são crimes, são acontecimentos de dimensão completamente distinta. São responsabilidade direta da Polícia subordinada ao governador. Ele tem obrigação de responder por ela. São atrocidades perpetradas pelo poder público. Você não pode comparar isso com a possível imaturidade ou o excesso cometido pelo movimento estudantil.


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Sim, o pedido de reintegração de posse é de responsabilidade da Reitoria e a anuência a esse pedido é prerrogativa do Judiciário. Segundo todos os relatos que ouço, a Reitora Sueli Vilela é um desastre completo. Se alguém tem um contra-testemunho, por favor, se manifeste – quero ouvir. Mas tudo o que escutei até hoje é desabonador. Combine-se isso com um governador de tendências ditatoriais e você tem os ingredientes para a triste situação que vive hoje a (ainda) mais prestigiosa universidade da América do Sul. Como explicou muito bem Túlio Vianna, mandar tropa de choque ao campus só pode gerar desastres.


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Que a comunidade universitária da USP – instituição na qual já tive a honra de palestrar, em total liberdade, sem ninguém armado por perto – possa se recuperar do trauma. Que o movimento estudantil reflita sobre seus rumos. E, acima de tudo, que esse truculento e ditatorial Sr. que governa São Paulo não tenha a chance de governar o Brasil. Nada vai melhorar com ele no leme.

PS: As fotos vêm da magnífica postagem do Professor Hariovaldo: Debelado foco guerrilheiro na USP.

PS 2: Marjorie Rodrigues informa que haverá manifestação hoje, ao meio-dia, saindo da Reitoria em direção à Avenida Paulista.



  Escrito por Idelber às 04:34 | link para este post | Comentários (189)




Relato do Prof. Pablo Ortellado, da USP

Este relato me chega via Myriam Kazue:

Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Relato do Profº Pablo Ortellado (EACH-USP) sobre a barbárie ocorrida na
Cidade Universitária da USP.
O seguinte relato nos foi enviado pelo professor Pablo Ortellado, da
EACH-USP, em mensagem encaminhada pelo professor Marcelo Modesto (FFLCH),
também presente na manifestação pacífica que resultou em confronto violento
na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo - USP.

Abaixo, o texto na íntegra:

"Urgente e importante: tropa de choque na USP

Prezados colegas,


Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o
que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois
enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do
Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a
greve, não podia ser reparado.

Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e
criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão
abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos
de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e
que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de
uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho
certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam
deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que
eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de
funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar
a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa
manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos
que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram
ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da
avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra
a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos
manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.


Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos
docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No
decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia
agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de
grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o
estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano
Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do
gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes
correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão
(falsamente chamadas de "efeito moral" porque soltam estilhaços e machucam
bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da
História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a
chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em
frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás
lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos
efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do
professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge
Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e
tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou
acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de
pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de
bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia
infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar
com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os
estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena
assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e
deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais
organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad
havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi
recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da
Adusp se recuperando.


Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se
multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira
completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados
ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor
Jorge Machado).

Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o
conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de
uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois
estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá
agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os
seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar
qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para
ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo
até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei
relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de
professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A
situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser
dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em
reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num
campus universitário.

Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na
minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses
fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade
de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que
é conveniente.


Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo"


Nota do editor do blog: A caixa de comentários está fechada simplesmente para que se concentre a conversa no post que irá ao ar dentro de alguns minutos.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post



terça-feira, 09 de junho 2009

Urgente! Polícia de José Serra espancando e bombardeando estudantes na USP

USP.jpg
(Foto: Márcio Fernandes)

O Sr. José Serra, que quer governar o Brasil – embora ainda não tenha oferecido nenhum motivo que dê credibilidade à sua candidatura –, demonstra mais uma vez sua truculência, seu autoritarismo, sua vocação ditatorial, sua completa incapacidade para dialogar com os movimentos sociais. O governo pelo qual ele responde enviou o batalhão de choque para reprimir a greve na USP. Eles estão atirando bombas nos estudantes (e vejam a cretinice do Globo, ao falar de "confronto").

Os alunos, no momento em que escrevo, se reuniram no prédio da História. Mesmo assim, a polícia continua bombardeando. São cenas de invasão e massacre contra estudantes que, no interior de um campus universitário, foram raríssimas mesmo durante a ditadura militar.

Esse é o aprendiz de ditador que quer governar o Brasil. O Biscoito convoca todos os tuiteiros a que enviem mensagens no Twitter com o endereço @joseserra_ para que o ditador veja que estamos solidários com os estudantes. Por favor, usem a caixa de comentários para compartilhar informações e links sobre mais essa vergonha perpetrada pelo governo de São Paulo.


Atualização com depoimento do leitor Thiago
:

Professor, sou o Thiago, leitor do sr. e estudante da USP. Como o sr está vendo, a situação lá é caótica. Alunos e professores feridos, o HU está cheio de gente passando mal, e a FFLCH está cercada. Estou no trabalho e aqui metade da net (orkut, twitter, blogspot) é bloqueada. Mas consegui contato com amigos meus que estão na FFLCH.

Relato abaixo o que ouvi de um amigo:

"A manifestação estava pacifica (dentro do possivel) com todos se dirigindo para a reitoria onde ocorreria a assembléia geral. De repente a galera se encontrou com uma viatura policial e começou a gritar (ainda pacificamente) 'fora pm do campus'. De repente uma menina tentou se aproximar dos pms pra entregar flores pra eles e eles, os pms, se revoltaram e espancaram a garota. Daí todo mundo foi pra cima deles (claro) e eles chamaram reforço. Dai a confusão começou, porque o reforço chegou atirando balas de borracha e bomba de gás. Sem dó. O pessoal tentou se refugiar na FFLCH com barricadas. A PM sitiou a faculdade, ninguém entra ninguém sai.
Continuam a jogar bombas sem parar"

A rede de wifi da usp está falhando, há um boato de que a reitora mandou derrubar. O pessoal no CRUSP tenta chegar na FFLCH mas não consegue.

Desculpe o texto mal escrito, foi a pressa e o nervosismo. Agora os meus colegas estão tentando entrar em contato com a imprensa pra colocar no ar (eu duvido que coloquem) o que tá ocorrendo na FFLCH.

A situação é dramática. Nunca pensei que veria isso acontecer.

Thiago Candido.



  Escrito por Idelber às 19:28 | link para este post | Comentários (160)



segunda-feira, 08 de junho 2009

O blog da Petrobras e o desespero da mídia

petrobras.jpg


Não há dúvidas: o blog da Petrobras é a grande novidade da semana. A ideia em si é bastante banal. Uma empresa faz uso de uma plataforma gratuita de publicação online – o Wordpress – para abrir um blog e se comunicar diretamente com o público. Não há nessa ideia, tomada isoladamente, nada que justifique maior festa ou grandes reações de repúdio. Mas chegou a tal ponto a revolta com a manipulação da mídia brasileira e sua visível campanha de ataques à Petrobras que a inauguração do blog tem sido tratada, pela grande maioria, como uma verdadeira revolução e, por uma minoria ligada à mídia, como uma espécie de trapaça, de alteração das regras do jogo. Se a Petrobras agora publica a íntegra das perguntas que recebe, junto com suas respostas, os jornalões vão fazer o quê? Como vão esconder a fábrica de linguiças? Neste contexto, o Animot está corretíssimo: o blog da Petrobras é um marco.

O desespero da organização criminosa do jornal Folha de São Paulo levou à invenção de uma sensacional jabuticaba, a fonte que deve sigilo ao entrevistador, a pergunta jornalística em off. É a cara-de-pau e a cretinice dos oligopólios de mídia elevadas à última potência. As instituições enxovalhadas pela sua manipulação lhes devem, além do mais, sigilo sobre quais foram as perguntas feitas. Já não basta acusá-las de “censoras” quando elas se insurgem contra a mentirada. Elas devem, agora, aceitar falar só pelas paráfrases criminosamente mentirosas dos jornalões. Ou pelo menos silenciar até que estas tenham aparecido. Os jornalões querem ter o monopólio das perguntas e das respostas.

Com uma “matéria” intitulada Petrobras vaza em blog informações obtidas por jornalistas, a Folha afirma que a Petrobras criou um blog para vazar informações obtidas por jornalistas que investigam indícios de irregularidades nos negócios da estatal. Evidentemente, o uso do verbo “vazar” é incorreto e manipulador. “Vazamento” pressupõe informação protegida e sigilosa, além de sugerir ilegalidade. É óbvio que não há nada ilegal no que fez a Petrobras. Ela simplesmente revelou quais eram as perguntas feitas e apresentou as suas respostas. Isso, no Brasil de hoje, é motivo de compreensível júbilo para a maioria e desespero agônico para os últimos defensores que montam guarda às portas da moribunda fábrica de linguiças.

Em menos de 48 horas no Twitter, o @blogpetrobras já se aproximava da terceira centena de seguidores e acumulava milhares de citações. O blog já recebeu mais de 65.000 visitas desde que o contador foi instalado. O desmascaramento dos jornalões vai acontecendo com notável rapidez: a barrigada da Folha, as mentiras d'O Globo sobre a mamona, a sequência de mentiras da Folha sobre a “contratação” do MBC.

Apesar de que há vários comentários críticos e questionadores publicados no blog da Petrobras (exemplos aqui, ali e acolá), é verdade que a maioria saúda o blog e lhe oferece apoio. Esse fato foi suficiente para que Reinaldinho Azevedo acusasse a estatal de estar “censurando comentários”. É a cara-de-pau elevada à enésima potência. A acusação vem de um blog em que comentários críticos a seu autor, ainda que polidos e respeitosos, só são aprovados por descuido (sendo depois imediatamente limados). Não lhe ocorre a hipótese óbvia: nós estamos em esmagadora maioria.

Indícios?

O valente Sergio Leo defendeu a jabuticaba da fonte que deve sigilo ao entrevistador. Segundo ele, isso se deve a um "pacto" que garantiria ao jornalista o seu furo. O engraçado é que o post do Sergio foi publicado justo no dia em que o próprio ombudsman da Folha reconheceu que não há nada mais velho que o jornal de hoje. Depois de 50 comentários, Sergio só havia recebido o apoio de um único leitor. O blog A Nova Corja nos proporcionou a piada da semana, ao caracterizar o blog da Petrobras como um “acosso a jornalistas”. Os jornalismo brasileiro anda tão combalido que a mera criação de um blog é suficiente para acossá-lo. Depois de 30 comentários, a tese defendida pelo autor não havia recebido o apoio de ninguém. É o samba do vazamento doido.


PS: A iniciativa da Petrobras tem um precedente. Não sei se ele foi fonte de inspiração para a estatal, mas vale lembrar que, durante o recente achicalhe promovido pela organização criminosa pelo jornal O Estado de Minas contra a Universidade Federal de Minas Gerais, a instituição pediu direito de resposta várias vezes, inclusive enviando o seu Procurador pessoalmente ao jornal. Esse direito foi sempre negado. A UFMG passou a responder pela própria internet até que, num acesso de extraordinária cara-de-pau, o Estado de Minas foi pedir direito de resposta no site da universidade! Veja a desmontagem da mentirada: 1, 2, 3, 4, 5.

PS 2: Devo continuar acompanhando de perto o blog da Petrobras. Para atualizações mais instantâneas, siga-me lá no Twitter.

PS 3: Também publiquei este texto no blog coletivo Trezentos.



  Escrito por Idelber às 07:23 | link para este post | Comentários (190)



terça-feira, 02 de junho 2009

Notas soltas sobre o Mega Não em BH

O ato foi um sucesso. Superlotamos o Teatro da Cidade, de Pedro Paulo Cava, legendário diretor teatral mineiro. A última leva de gente teve que ficar em pé.

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Apresentação absolutamente memorável de Sérgio Amadeu. Se alguma vez o convidarem, leitor, a compor uma mesa com Sérgio Amadeu, não aceite ser o segundo. Falar depois de Sérgio é mais ou menos como tentar fazer embaixadas depois de Pelé. Acredito que vexame eu não dei, mas não há dúvidas: Sérgio Amadeu é o cara.

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Presenças importantes na platéia: Túlio Vianna e Cynthia Semíramis. Tulio acabou vindo compor a mesa conosco, trazendo sua vasta experiência no combate a esse nefasto projeto.

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Registro a presença dos dois parlamentares que foram nos apoiar: a Deputada Federal Jô Moraes (PC do B) e o Deputado Estadual Carlin Moura (PC do B). Aliás, rompo a tradição de não publicar fotos pessoais aqui para apresentar-lhes Jô Moraes. Ela tinha que embarcar para Brasília, mas fez questão de marcar presença no início do ato. Conversou longamente comigo sobre as possíveis estratégias para derrubar o projeto na Câmara. Conversou com Túlio sobre o aspecto jurídico. Está em contato permanente conosco. Dizer o quê? Eu amo minha Deputada Federal e a cada dia me orgulho mais do meu voto:


DSC04569-1.JPG

Jô me havia enviado um email absolutamente comovente, agradecendo-me pelo post contra a campanha "Não reeleja ninguém". Jô, que é do PC do B -- obviamente um velho adversário ideológico do trotskismo --, não deixou de notar a ironia: meu grande defensor na internet é um trotskista americano. Eu lhe disse que se ela cavucasse bem a memória, talvez se lembraria de um estudante barbudo, chato e incendiário que tornava a vida dela absolutamente impossível nas assembléias dos anos 80 em BH. O mundo dá voltas.

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Presença massiva da galera do software livre. Também estiveram lá ativistas envolvidos com a preparação da Conferência Nacional de Comunicação. Depois das três palestras, o público se manifestou longamente. Muita gente falou. O ato começou às 19:50, com 20 minutos de atraso. Saímos de lá depois das 22:30.

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Registro também a presença de três defensores do projeto na porta do teatro: uma assessora do Senador Azeredo, o Deputado ex-Deputado Amílcar Vianna Martins Filho (PSDB) e um outro quadro tucano distribuíram um panfleto em que defendiam o projeto e acusavam os seus críticos de mentir. Eles foram convidados a compor a mesa e debater conosco. Recusaram o convite.

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Hoje, às 8h e às 13h, o programa Mundo Político, da TV Assembléia-MG, exibe uma entrevista comigo sobre o AI-5 Digital. Em Belo Horizonte, a TV Assembléia é parte da programação a cabo, mas no interior do estado ela é sintonizável na TV aberta. Segundo entendo, dá pra ver pela internet. Creio que não é possível baixar o vídeo, mas o streaming funciona. (o link foi corrigido, cortesia de Daniel)

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O Sindicato dos Jornalistas gravou o evento em vídeo. Minha expectativa é que a qualquer momento pinte por aqui um link para o YouTube.

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O ato reforçou mais uma vez uma velha percepção minha: é urgente a articulação da comunidade de profissionais do Direito que leem o Biscoito. Vou cuidar disso nas próximas semanas. Precisamos de dezenas, de centenas de Túlios e Cynthias.

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Se alguém lhe disser, leitor, que o AI-5 Digital visa combater a pedofilia, comece com uma gargalhada. Até os pombos da Praça da Liberdade sabem que isso é falso.

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Apesar do sucesso do ato, eu estaria mentindo se dissesse que estou otimista. O quadro que Jô me apresentou não é nada róseo. Enfrentamos duas forças poderosíssimas: o lobby do copyright e o lobby bancário.

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Nos próximos dias, Sérgio Amadeu cumpre extensa agenda em BH. Informe-se no meu Twitter e no Twitter do Sérgio.


Atualização: Não deixem de ler também o belíssimo relato da Clarice Maia Scotti sobre o ato público de ontem. Bem mais exaustivo que o meu, diga-se. Obrigado, Clarice.



  Escrito por Idelber às 04:08 | link para este post | Comentários (46)



quarta-feira, 27 de maio 2009

“Não reeleja ninguém” é uma campanha burra e alienada

Acho que não uso a palavra “alienação” desde minha época de militância trotskista. Mas não há outro termo para definir essa irresponsável campanha disseminada na internet por Daniela Thomas e Marcelo Tas. É a alienação e o conformismo em sua típica versão Morumbi-Leblon: quero mudar tudo o que está aí, desde que eu não tenha que me dar ao trabalho de procurar informação ou tirar as pantufas. "Não reeleja ninguém" significa: Tire todos os 513 deputados de lá e coloque outros 513 que exercerão seus mandatos sem serem incomodados. Assim você poderá passar mais quatro anos vociferando indignação vazia e repetindo a cantilena de que todos os políticos são corruptos, enquanto fura mais uma filinha, sonega mais um imposto e joga mais uma embalagem de Doritos pela janela do seu Toyota Camry.

Fiz uma busca no Google. Há 6.650 ocorrências da sandice. A única coisa coerente que encontrei foi o texto de Marcelo Soares, Saiba por que a campanha “Não reeleja ninguém” é de uma burrice atroz. O resto é bateção de lata sem qualquer raciocínio que vá além do quero acabar com todos esses políticos que estão aí.

Um jornalista esportivo adere à campanha. Logo depois, demonstra ter mais de dois neurônios lançando a pergunta: se não reelegermos ninguém, vamos eleger quem? Não consegue encontrar uma resposta para a pergunta que ele próprio formulou, mas mesmo assim mantém o selinho da campanha. É o retrato da pobreza política da nossa classe média.

Um profissional da área de Direito adere à campanha. Tampouco demonstra convicção, mas afirma que isso compensaria a decisão do STF que permitiu a candidatura de políticos com “ficha-suja”. O que se está chamando “ficha-suja” aqui não é a existência de sentenças condenatórias transitadas em julgado. É a existência de um processo em trâmite. Era só o que nos faltava: proibir a candidatura de quem está sendo processado. Se você quisesse eliminar a candidatura de alguém, bastaria inventar um motivo e processar o sujeito. Até que você perdesse o processo, a candidatura estaria impugnada. Como é possível que um profissional do Direito seja incapaz de fazer esse raciocínio? j%F4.jpg

Como afirmei no Twitter, a campanha “Não reeleja ninguém” é típica de quem não se lembra em quem votou. Minha Deputada Federal, Jô Moraes (PC do B), não está revolucionando a Câmara, mas está honrando seu mandato. Recebo semanalmente um informativo detalhado. Ela trabalha agora na emenda à Constituição 438/01, que expropria terras onde houver trabalho escravo. O escritório político de Jô em Belo Horizonte fica ali no Santo Agostinho, na Rua Araguari, 1685/05. Está em funcionamento permanente. Nunca deixo de ser atendido pela sua assessora de imprensa, Graça Gomes. Qual desses indignados sabe o que anda fazendo o seu Deputado? Qual desses indignados lembra-se sequer em quem votou?

Que tal, indignados, lançar a campanha "Não reeleja nenhum membro da bancada ruralista"? Que tal "Não reeleja donos de concessões de rádio e televisão"? Que tal, Daniela Thomas, uma campanha "Não reeleja membros da bancada evangélica", esse grupo em guerra permanente contra a saúde das mulheres? Ah, isso dá muito trabalho, né? Tem que pesquisar, ir atrás, essas coisas. É mais fácil vociferar contra tudo o que está aí.

A campanha “Não reeleja ninguém” ganhou bastante ímpeto com o colapso do gabeirismo. Despolitizado até a medula, o gabeirismo só tinha o discurso da “ética” -- entre aspas e em minúscula, claro, porque não há nada ali que tenha muito que ver com esse ramo da Filosofia. Com a história das passagens aéreas, o que mais se encontra nas caixas de comentários do “Não reeleja ninguém” é gabeirista desiludido. Não lhes ocorre pensar que o problema não é Gabeira, nem Zé Dirceu, nem Delúbio, e sim um modelo de compreensão da política que a reduz completamente à cantilena moralizante.

Sim, é evidente que há muita coisa que se moralizar no Congresso. Discutir qual é a reforma política que nos possibilitaria ter partidos fortes e representativos, reduzindo assim o fisiologismo e as negociatas, são outros quinhentos. Para essa discussão, não contemos com as Danielas Thomas e Marcelos Tas. Eles não estão interessados nisso. Essa discussão dá muito trabalho e nela ninguém pode posar de vestal da pureza.





PS: Justamente no dia em que eu havia decidido passar uma semana sem pegar no pé da imprensa, a Folha comete essa barriga escandalosa, logo desmascarada pelo Ministério Público. O Hermenauta, claro, aproveitou para tripudiar uma pobre coitada.

PS 2: Amanhã, reúne-se o Clube de Leituras, com um papo sobre Caio Fernando Abreu.

PS 3: No sábado, eu vou iniciar outra série aqui no Biscoito: “Um blog aos sábados”. É uma série de homenagens a blogs que considero fundamentais. Será uma forma de introduzir os novos leitores aos clássicos da blogosfera. Quem será o(a) primeiro(a) homenageado(a)? Descubra no sábado.



  Escrito por Idelber às 06:00 | link para este post | Comentários (121)



segunda-feira, 25 de maio 2009

Nem me falem em salvar o jornalismo

cartoon-1.jpg24 horas não passam sem que chegue notícia de alguma iniciativa dos oligopólios da mídia, do lobby pró-copyright e de associações como a RIAA no sentido de engessar a revolução desencadeada pela internet. É, meus leitores, a coisa anda feia. Um dos sofismas com os quais se travestem essas iniciativas é o de “salvar o jornalismo”, como se este, em seu sentido amplo, não pudesse sobreviver sem os ditos oligopólios.

Na semana passada, o Washington Post mobilizou dois advogados para iniciar um lobby por leis cuja aprovação representaria um pesadelo na internet. Se conheço a dinâmica desses movimentos, essas “ideias” não tardarão em chegar ao Brasil. Por isso, não avisem o Tio Civita nem o Tio Marinho sobre este post. Mas preparemo-nos. Depois não adianta chorar.

O texto escrito pelos advogados do Post chega a um ponto jurídico a que eu jamais vi nenhum lobby de mídia chegar. Ele já foi desmontado pelo Buzz Machine, mas eu quero acrescentar aqui meus dois centavos para o contexto brasileiro. Vejamos o que propõem esses dois senhores. Para benefício dos que não leem inglês, eu traduzo:

Os produtos (e lucros) do Google teriam uma cara diferente se, por exemplo, a lei dissesse que ele deve obter permissões de copyright para copiar e indexar as páginas da internet. Ao invés disso, os motores de busca exigem que os donos do copyright “optem por sair” da sua rede, e até agora o seu poder de mercado tem permitido que eles escapem ilesos. cartoon-1.jpg

Imaginem um mundo em que o Google tivesse que pedir permissão, sob a lei de copyright, para indexar as páginas da internet. Acredito serem desnecessárias maiores considerações. Seria melhor fechar a net e voltar à época em que datilografávamos cartas e lambíamos envelopes para levá-los aos correios.

Uma das coisas que ensina o mais perfeito jogo de baralho inventado pela espécie humana – o truco – é que você não blefa quando não tem condições de blefar. Se já blefou cinco vezes, perdeu todas elas e agora saiu com dois valetes e uma dama, não truque, porque ouvirá um “seis!” gigantesco na orelha. Evidentemente, essa proposta é um blefe. Caso ela prospere, eu faria o seguinte, se fosse executivo do Google. Convocaria uma conferência de imprensa e diria: aqueles grupos de mídia que acreditem que a indexação do Google é uma violação da lei de copyright, por favor se manifestem e nós retiraremos todas as referências a eles no motor de busca. Nem o mais demente funcionário do Washington Post sustentaria o blefe.

As sandices propostas pelos advogados do Post não param aí. A camisa-de-força jurídica vai além. Eles propõem:

1. Federalização da doutrina do “hot news”. Isso significaria que, durante um certo período em que a notícia está "quente", você não poderia sequer repetir seu conteúdo (atenção: o conteúdo, não o texto em si), já que os capangas do Washington Post acham que isso é pilhagem. Felizmente, disso já estamos protegidos no Brasil. O que é mais irônico é que a verdadeira pilhagem é feita pela fábrica de linguiça dos oligopólios de mídia, que sistematicamente tomam textos de jornais locais e os reproduzem sem dar crédito nem link aos jornalistas responsáveis por eles.

2. Usar a política fiscal para “promover a imprensa”. Sem comentários. Se essa sandice chega por aqui, veríamos o seu, o meu, o nosso dinheirinho sendo usado para salvar da insolvência e da irrelevância os oligopólios dos Marinho e dos Civita – não que isso já não esteja sendo feito, é claro.

3. Criar isenções nas leis anti-truste para os grupos de mídia, já que, segundo os advogados do Post, a “insolvência da mídia é hoje uma ameaça maior que a sua concentração”. Sobre isso, teríamos que retrucar: ameaça para quem, cara-pálida? Quem está se sentindo ameaçado? Será que a população realmente está preocupada com o desespero dos grandes oligopólios de mídia?

Por isso, a proposta do Biscoito é radical: acelerar a putrefação da mídia. Multiplicar as fontes de jornalismo independente. Disseminar a linkania. Apostar na circulação de informações na internet. E, sobretudo, ficar atento, porque eles estão desesperados e vão recorrer a qualquer coisa.


PS: Bem a propósito, o Biscoito reuniu numa só página seus 4 anos de posts de conteúdo jurídico. STF, TSE, plágio, copyright, censura a blogs, aborto, maconha, está tudo aqui: Direito e Justiça.

PS 2: Na PUC-SP, hoje, às 19 horas, acontece um interessante debate sobre jornalismo e mídia.

PS 3: As charges que ilustram o post foram colhidas lá no Dialógico.

PS 4: Guiado por um super especialista, comecei a estudar Direito Penal. Uma série de batalhas chave acontecerão nesse terreno nos próximos anos.



  Escrito por Idelber às 15:27 | link para este post | Comentários (88)



quinta-feira, 21 de maio 2009

Sobre um recente recrudescimento da misoginia e da homofobia

A misoginia e a homofobia campearam soltas na mídia brasileira nas duas últimas semanas. 17 de maio, dia internacional de luta contra a homofobia, foi escolhido pela Zero Hora para a publicação de um lixo inominável escrito por Paulo Sant'Ana, que confunde com travestis com homossexuais, mistura identidade de gênero com orientação sexual (estranhamente rebatizada de “tendência” sexual), usa termos chulos como os “sapatões” e destila preconceito, homofobia, misoginia, ignorância e desinformação em doses cavalares. Não há o que comentar nesse texto. É só seguir o link e horrorizar-se. Como não leio a Zero Hora, ignoro se o jornal já se desculpou pelo festival de insultos. Aposto que não (cheguei lá via @carolinamaia, a quem agradeço).

Antes disso, houve a famigerada entrevista de Maria Mariana à Época, na qual a ex-celebridade promove seu novo livro, Confissões de mãe, dizendo coisas como: 1) amamentar é para a mãe que merece; 2) Deus quer o homem no leme; 3) se a mulher parir naturalmente, será uma mãe melhor; 4) apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. Tudo é coroado com uma pérola de tremenda irresponsabilidade: Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto.

Não sobrou nada que desconstruir no festival de sandices de Maria Mariana, já que uma série de blogueiras escreveram respostas incisivas: Marjorie Rodrigues, Lu Monte, Lola Aronovich, Groselha News, Cam Seslaf, Cynthia Semíramis e várias outras. Na Cynthia, você encontrará uma lista (quase) completa dos posts. Quais são, então, meus dois centavos com este texto? Uma singela pergunta: Por quê? Por que a Folha dedica espaço a um livro recheado de sandice misógina escrito por uma atriz decadente? Por que a Revista Época apresenta como “polêmicas” declarações que evidentemente não são da ordem da polêmica, mas da ordem da falsidade?

Para ser honesto, eu não sabia quem era Maria Mariana. Pelo que vi depois, era minha mesmo a lacuna. Em minha cultura televisiva, falta tanta coisa que não cabe mais nada. Lembro-me vagamente, sim, de algo chamado “Confissões de adolescente”. Ao ver a foto da atriz, algum flash de memória surgiu. Mas foi só isso.

Seria natural se, digamos, Ana Maria Braga lançasse um livro e os veículos de mídia corressem para fazer a cobertura. Trata-se de alguém que, bem ou mal, está em evidência. É notícia. Mas uma figura que há mais de uma década não aparece em lugar nenhum? Por que ela é notícia? Quão irresponsável deve ser um veículo de mídia para etiquetar de “polêmicas” declarações como as de Maria Mariana sobre depressão pós-parto? Polêmico seria dizer que Veja é um veículo jornalístico ou que José Roberto Wright é um homem honesto. O que ela diz sobre depressão pós-parto é, pura e simplesmente, fal-so. É como dizer que a Terra tem a forma de uma pizza ou que Belo Horizonte é a capital de Rondônia. Apresentar isso como “polêmico” é desinformar, mentir. Entendamos que há coisas da ordem da opinião e coisas da ordem do fato. Brincar com essa diferença num tema como a depressão pós-parto é criminoso. Não há outra palavra.

Estamos entrando num período em que a misonigia será peça chave do jogo político. Claro que, no sentido mais amplo da palavra “política”, ela sempre o foi. Mas hoje, num momento em que as possibilidades de proteger e ampliar as (limitadas) conquistas sociais dos últimos seis anos serão, até segunda ordem, representadas pela candidatura de Dilma Rousseff à presidência, a coisa adquire uma dimensão suplementar.

Pesquisa recentemente realizada pela Fundação Perseu Abramo mostra que a situação do preconceito ainda é grave. Como sabe qualquer sociólogo que tenha refletido um pouco sobre a linguagem (sim, eu sei, eles são poucos), as pesquisas que medem preconceito, por definição, apresentam um quadro menos ruim que o real. É axiomático que preconceito é algo que nem todo mundo assume, muito menos numa entrevista.

Desde que cheguei ao Brasil, vi quatro “reportagens” sobre Dilma na televisão. Todas começavam com menções a elementos politicamente irrelevantes como o cabelo, a plástica e o vestido. Homens também se vestem, fazem plástica e mudam o cabelo. Mas é Dilma, não Serra, quem tem que aturar a cantilena infinita sobre sua aparência. E olha que, no quesito aparência, Serra é um prato cheio.

Marjorie convocava, outro dia, um sexism watch para acompanhar as menções a Dilma na mídia. Pelo jeito, terá que ser trabalho coletivo. Nenhum(a) blogueiro(a) sozinho(a) conseguirá dar conta, mesmo blogando tem tempo integral.

Claro que o destaque completamente desproporcional dado pelos Marinho e pelos Frias a um livro irrelevante, escrito por uma atriz decadente, convocando uma volta obrigatória das mulheres à domesticidade, não tem nada a ver com o fato de que o projeto popular de esquerda, odiado por esses grupos de mídia, está sendo representado hoje pela candidatura de uma mulher. Não tem nada a ver. Imaginem.


PS: O melhor blog jornalístico do Sul está de casa nova. Vida longa ao RS Urgente.

PS 2: Também de casa nova, e também no OPS, está o Até aqui tudo bem, um dos meus blogs favoritos no momento.


Atualização: Antes que o mal-entendido se dissemine, cabe esclarecer: o post não afirma que Maria Mariana foi usada contra Dilma. O post afirma que o episódio Maria Mariana ganha relevância extra num contexto em que Dilma é candidata. O post não afirma que Marinhos e Frias se reuniram para dar destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente como forma de prejudicar Dilma. O post afirma que o destaque desproporcional a um livro cheio de sandices escrito por um atriz decadente reforça uma misoginia já presente na sociedade brasileira e contra a qual a candidata de esquerda se enfrenta diariamente.



  Escrito por Idelber às 10:33 | link para este post | Comentários (151)



segunda-feira, 18 de maio 2009

A CPI da Petrobras e o tiro no pé dos tucanos

bessinha09876.jpg Cena 1. Belo Horizonte, 17 de maio de 2009, churrasco de classe média. Surge o tema Petrobras. As diatribes se repetem com tremenda virulência: E essa roubalheira na Petrobras?, e esse cabide de empregos da Petrobras?, e por que a gasolina não é mais barata? Um dos presentes aproveita uma brecha e lança a pergunta: pessoal, qual era o valor de mercado da Petrobras em 2002 e qual é o valor dela hoje? Silêncio sepulcral. Não tinham sequer um número para chutar. Sentindo que havia encaixado um jab, o visitante incômodo lança mais uma pergunta: pessoal, como se chama mesmo o presidente da Petrobras? Outro silêncio desconfortável de uns 20 segundos. Com duas simples perguntas, desnudava-se a ignorância da República Morumbi-Leblon-Belvedere, eterna repetidora dos factoides Globo-Veja. O visitante incômodo decide não tripudiar e deixa que o silêncio faça seu trabalho.

Cena 2. Belo Horizonte, 15 de maio de 2009. Algumas horas antes da aprovação da CPI da Petrobras, o humilde zelador de um prédio ajuda um professor universitário expatriado a recarregar a bateria de seu Escort, parado há meses. Conversa vai, conversa vem, o zelador dispara: Professor, esses caras aí que estão implicando com a Petrobras não são os mesmos que queriam vender ela uns tempos atrás? Confirmando, ao ouvir essa pergunta, que o poder de manipulação da mídia brasileira é cada vez menor, o dono do Escort retruca: Sim, seu Damasceno, são os mesmos filhos da puta que queriam vendê-la.

Em janeiro de 2003, na transição de FHC para Lula, o valor de mercado da Petrobras era 15 bilhões de dólares. José Eduardo Dutra assumiu então a presidência, deixando a empresa em junho de 2005 com um valor de mercado de 54 bilhões. Em 2006, já sob a presidência de Sergio Gabrielli, o valor da Petrobras era 70 bilhões. Em novembro de 2007, a Petrobras valia 222 bilhões de dólares.

Em 2006, o Brasil alcançou a autossuficiência em petróleo e a Petrobras bateu o recorde latinoamericano de lucros. Em 2007, realiza-se no Brasil a maior descoberta petrolífera do planeta nos últimos 30 anos. Em 2008, a Petrobras já era a terceira mais lucrativa da América. Em 07 de maio de 2009, 8 dias antes dos tucanos aprovarem sua CPI, a Petrobras havia saltado do octogésimo-terceiro para o quarto lugar entre as empresas mais respeitadas do mundo. tucano_brax.jpg

Os tucanos não conseguiram privatizar a Petrobras, mas conseguiram quebrar o monopólio estatal, com a famigerada lei 9.478/97. Os que têm idade suficiente para se lembrar de 1995 recordarão a intensa campanha de difamação de que a estatal foi vítima, incluindo-se, claro, a indefectível “reportagem” da Veja, com 10 páginas de calúnias que não respeitaram sequer o direito de resposta, mesmo como matéria paga. Em 1999, FHC substituiu seis diretores da Petrobras no Conselho de Administração por seis conselheiros do setor privado, em mais uma tentativa de preparar o terreno para a privatização. Além de quebrar o monopólio estatal, a gestão tucana vendeu 36% das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York por menos de 10% do seu valor real. Fixou a participação da União na produção de petróleo entre 10% e 40%, enquanto os países exportadores têm a média de 84% de participação. As informações contidas neste parágrafo estão disponíveis na leitura que o Biscoito mais enfaticamente recomenda sobre o assunto, a entrevista do presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, Fernando Siqueira, concedida em janeiro, na qual ele já previa o rumo dessa campanha entreguista.

Não gosto de fazer previsões em política, mas acho que o PSDB acaba de dar o maior tiro no pé da sua curta história. A Petrobras ocupa, no imaginário do povo brasileiro, um lugar incomparável ao de qualquer outra estatal, mesmo o Banco do Brasil. Temos orgulho dela. Fizemos, faz muito pouco tempo -- 50 anos, em história, não é nada --, uma campanha gigantesca para defender nosso petróleo. O PSDB, de olho nas eleições – e o papel de um partido político é ficar de olho nas eleições, não há nada de errado nisso –, acaba de criar as condições para ser definitivamente associado ao entreguismo. Nessa marcha, a expressão social democracia na sigla tucana soará tão irônica como o novo nome escolhido pelas oligarquias pefelês para sua agremiação. A pergunta do Seu Damasceno, feita enquanto ele me ajudava com a bateria do carro, me encheu de esperanças e energias. A política vale a pena. É o nosso patrimônio que está em jogo.



PS 1: Um blogueiro que muito admiro, Alon Feuerwerker, sugere, em seu mais recente post, que CPIs são instrumentos de luta política, que pouco têm a ver com motivos reais. Corretíssimo. Alon também sugere que, estivessem invertidos os papeis, o PT assinaria o requerimento de CPI. Talvez. Mas o fato inconteste é que há um conjunto de forças políticas que trabalharam e trabalham pela privatização do patrimônio público. E há um outro conjunto que, com todos os problemas, têm mantido e ampliado esse patrimônio. Confio que essa importantíssima diferença não passará despercebida à sagaz inteligência de Alon, que assina um blog cujo lema é um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda.

PS 2: O blogueiro Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Mídia, está articulando um protesto em frente à sede do PSDB em São Paulo. Esse protesto terá a colaboração e o apoio d' O Biscoito Fino e a Massa.

PS 3: As charges vêm, respectivamente, daqui e daqui.



  Escrito por Idelber às 05:43 | link para este post | Comentários (139)



sexta-feira, 15 de maio 2009

Três anos de uma matança e a falência de uma política de segurança

PCC.gifConsidero a discussão sobre as políticas de segurança pública das mais difíceis de serem feitas de forma racional e minimamente ponderada. Nela tende a predominar, na base da gritaria, a exigência de mais repressão e encarceramento, como se essas fossem as soluções para um problema que tem raízes muito mais antigas e profundas. Por isso, foi com relutância que aceitei o convite de Mestre Inagaki para escrever algo sobre o terceiro aniversário dos assassinatos perpetrados pelo PCC contra policiais e agentes penitenciários em São Paulo, a virtual paralisia da cidade na segunda-feira que se seguiu ao Dia das Mães e as posteriores execuções de “suspeitos,” realizadas pelas forças policiais de São Paulo.

Em seu livro A Prisão, o advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho escreve:

As prisões brasileiras são insalubres, corrompidas, superlotadas, esquecidas. A maioria de seus habitantes não exerce o direito de defesa. Milhares de condenados cumprem penas em locais impróprios.

O Relatório da caravana da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados por diversos presídios do país, divulgado em setembro de 2000, aponta um quadro "fora da lei", trágico e vergonhoso, que invariavelmente atinge gente pobre, jovem e semi-alfabetizada.

No Ceará, presos se alimentavam com as mãos, e a comida, "estragada", era distribuída em sacos plásticos --sacos plásticos que, em Pernambuco, serviam para que detentos isolados pudessem defecar.

No Rio de Janeiro, em Bangu I, penitenciária de segurança máxima, verificou-se que não havia oportunidade de trabalho e de estudo porque trabalho e estudo ameaçavam a segurança.

No Paraná, os deputados se defrontaram com um preso recolhido em cela de isolamento (utilizada para punição disciplinar) havia sete anos, período que passou sem ter recebido visitas nem tomado banho de sol.

No Rio Grande do Sul, na Penitenciária do Jacuí, com 1.241 detentos, apesar de progressos, havia a assistência jurídica de um único procurador do estado e, em dias de visita, o "desnudamento" dos familiares dos presos, com "flexões e arregaçamento da vagina e do ânus".

Há uma mistura estrategicamente inconcebível de pessoas perigosas e não-perigosas. Há tuberculosos, aidéticos e esquizofrênicos sem atendimento. O cheiro e o ar que dominam as carceragens do Brasil são indescritíveis, e não se imagina que nelas é possível viver.

Quem ler os trabalhos resultantes das incursões de Percival de Souza (nos anos 70) e Drauzio Varella (nos anos 90), cada um a seu modo, à Casa de Detenção de São Paulo, no Carandiru, o maior presídio do país, verá que, durante décadas, milhares e milhares de homens foram remetidos para um mundo assustador, onde nada é capaz de lembrar propósitos de reabilitação.


Os ataques se iniciaram no dia 12 de maio de 2006, sexta-feira. No dia 14, domingo, o Portal Terra noticiava 52 mortes durante o fim de semana e publicava uma declaração do governador Cláudio Lembo de que a “situação está controlada”. Depois da declaração do governador, outros 441 homicídios ainda ocorreriam, totalizando 493. Entre os civis mortos por forças policiais, 63% dos casos trazidos à atenção da Ouvidoria de Policia foram arquivados, incluindo-se dezenas com suspeita de execução sumária. No caso das mortes de policiais, nenhuma investigação foi arquivada.

Uma reportagem feita no ano passado por Marcelo Godoy mostra que os crimes do PCC tinham raízes mais antigas. Em belo trabalho investigativo, Marcelo Soares compilou os abastecimentos de automóveis e saques em dinheiro feitos pelas forças policiais naqueles dias. Pelo menos uma testemunha presenciou uma vítima civil implorar por sua vida e ser executado por policiais. Em seu blog, o policial Roger Franchini afirma: Em pleno dia de visita no das mães, mais de 500 presos se rebelaram e tomaram as próprias genitoras e crianças como reféns. Era óbvio que não iriam fazer nada contra elas. E por saberem que sabíamos disso, tomaram como refém também um carcereiro. Se não fosse por ele, teríamos entrado na cadeia e distribuído chumbo e cassetetada em todos.

No entanto, o balanço publicado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo lista os mortos em duas categorias: policiais militares, civis e guardas, por um lado, e "criminosos", por outro, em implícita afirmação de que nenhum civil inocente foi assassinado pela polícia -- apesar de que a grande maioria das investigações acerca de mortes de civis foram arquivadas e que um levantamento inicial constatou pelo menos 89 assassinatos com característica de execução (sem chance de defesa para a vítima). Na época, o escritor Ferréz denunciou que a lei marcial para pobres inocentes foi decretada. Tendo sofrido uma série de ameaças em seu blog, Ferréz fez outro post insistindo que não ia se calar.

O blog de outro policial, o Flit Paralisante, traz uma série de denúncias contra a política de segurança em São Paulo. Em 2009, ainda não ocorreram ataques do PCC, o que, para uma especialista, só indica que o controle deles sobre as prisões é absoluto. No Twitter, há uma verdadeira enxurrada de recordações dos eventos de 2006. Os ataques do PCC chegarão às telas do cinema.

A população carcerária no Brasil vem crescendo ano a ano. Em 1995, eram 148.760 presos: 95,4 para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 1997, eram 170.602 presos, com taxa de encarceramento de 108,6 por 100 mil. Em abril de 2001, já havia 223.220 presos no país: 142,1 detentos para cada 100 mil habitantes. De longe, a maior concentração estava em São Paulo, com 94.737 presos e proporção de 277,7 presos para cada 100 mil habitantes. Há extensa documentação no site do Ministério da Justiça.

Atualização: A lista completa de blogs que estão participando desta conversa virtual já está publicada lá no Pensar Enlouquece.



  Escrito por Idelber às 06:13 | link para este post | Comentários (123)



segunda-feira, 11 de maio 2009

A crítica ao Fla x Flu como uma cortina de fumaça do nosso tempo

flu.jpgUm espectro ronda a blogosfera política brasileira: o espectro do Fla x Flu. Ubíqua, a reclamação acerca do “Fla x Flu entre petistas e tucanos” consome boa parte dos bytes que se gastam sobre política. A julgar por alguns comentários ou posts, tudo na internet brasileira replicaria esse binarismo supostamente simétrico entre petistas e tucanos. Essa premissa é quase sempre complementada por uma “sensata” voz que aparece apresentando-se a si própria como instância que paira sobre as “torcidas organizadas”. Jornalistas adoram fazer isso: a clássica demagogia da isenção.

Mas há algo de novo no reino da Dinamarca. A reclamação ou crítica do chamado Fla x Flu se repetiu tanto que se transformou na doxa do nosso tempo, talvez em sua principal cortina de fumaça. Ela binariza e empobrece a realidade justo ao martelar a reclamação de que a realidade está atravessada por um binarismo simples. A queixa cria o que chamamos win-win situation. Quem vai discordar de alguém que está criticando o radicalismo, a binarização e a simplificação do Fla x Flu? Ao mesmo tempo, esse clichê permite ao seu enunciador omitir-se dos antagonismos políticos do seu tempo. Afinal de contas, ele não entra em “torcidas organizadas”.

Quando ouço a teoria do Fla x Flu entre petistas e tucanos nos blogs, eu, que escrevo sobre política brasileira na internet há cinco anos, não sei bem a quais blogs as pessoas se referem. Porque, para começo de conversa, eu não conheço uma blogosfera tucana. Sim, sei que está aí o pessoal do TucanUSP, por exemplo, que muito me honra com seu link (e vejam que não estou entre os “Eles”! Alon e Carta Maior, sim; eu estou no blogroll "neutro": obrigado, pessoal). Haverá outros blogs como o TucanUSP. Mas eles não são, convenhamos – e concordariam com isso –, blogs que estejam pautando o debate político na Internet. São boas, jovens iniciativas.

Há o blog da Veja, serrista até a medula. Mas muito antes de fazer um blog tucano, o Reinaldo Azevedo faz um blog antipetista. Se todo o PSDB contraísse gripe e desaparecesse amanhã, o blog de Azevedo continuaria idêntico. É só jogar as tags “PT” e “PSDB” numa nuvem e confirmar o óbvio. Excluindo-se Azevedo, então, que é realmente mais antipetista que tucano, qual é o blog importante de política que se declare simpático a ou alinhado com os tucanos? Não me lembro de nenhum. Conheço muitos blogs de direita: fiscal, ou religiosa, ou sionista, ou de segurança etc. Nenhum deles, que eu me lembre, se declara mesmo tucano. foto52.jpg

Tese I: mesmo que fosse verdade que a blogosfera política é um Fla x Flu, este não seria entre petistas e tucanos. Não há qualquer simetria aqui. Se Fla x Flu houvesse, “petistas” e “antipetistas” ou “lulistas” e antilulistas” seriam descrições muito mais próximas à realidade.

Isso não quer dizer que a visão tucana de Brasil esteja ausente da blogosfera. Eu acho que ela é, inclusive, a visão dominante na internet. Onde, então? Ora, em todos os grandes portais, que mantêm com essas duas forças políticas relações nem um pouco comparáveis. Não concebo que alguém estude com um mínimo de atenção as referências da RBS a Olívio Dutra e a Yeda Crusius, ou as da Folha de São Paulo a Marta Suplicy e José Serra, e conclua que há simetria nesses tratamentos. Não digo que eles conspirem com o PSDB (embora às vezes seja isso mesmo). Digo que, ainda que fosse verdadeira essa hipótese de que a blogosfera política é um Fla x Flu entre a visão petista e a visão tucana de Brasil, não encontraríamos esta última a não ser nos Noblats e nos Josias da vida. Justamente os blogs supostamente neutros e objetivos.

Tese II: a visão tucana de política expressa-se justamente nos blogs onde se reclama do Fla x Flu entre tucanos e petistas. Não há nada mais tucano que reclamar do Fla x Flu de “torcidas organizadas” e do “radicalismo” dos “dois lados”. A crítica ao binarismo é feita do ponto de vista de um dos termos do próprio binarismo. A crítica ao binarismo nunca é neutra em relação aos termos que compõem o dito cujo.

Não há surpresa aqui, aliás. A filosofia, nas últimas décadas, vem demonstrando que oposições binárias funcionam assim mesmo. A Gramatologia, de Derrida, que não seria despropositada escolha para o lugar de livro de filosofia mais importante da segunda metade do século XX, ensina muitas coisas, mas duas de especial relevância para este post. Coloco-as em forma de teses minhas porque minha é a escolha de palavras (as teses não se encontram dessa forma, nem com esses vocábulos, em Derrida, mas estão baseadas nele):

Tese III: um antagonismo político nunca é simétrico. O acontecer dos dois termos do binarismo jamais é simultâneo. Um “Fla x Flu” político nunca é o encontro entre duas caras-metade num terreno supostamente neutro, como imaginam 99% dos nossos jornalistas.

Isso é assim porque:

Tese IV: desde que o mundo é mundo (ou pelo menos desde que a linguagem é linguagem, ou que o Ocidente é Ocidente), não existe binarismo em que não esteja embutida também uma hierarquia, uma violência, uma exclusão. Isso se aplica a qualquer dicotomia que você queira tomar: essência / aparência, masculino / feminino, alma/ corpo, voz / escrita etc.

Em todas elas, a lógica não é simétrica, e sim suplementar: como naquela clássica fábula judaica sobre o nascimento do masculino e do feminino, um termo aparece depois do outro. Esse “depois”, no entanto, é escorregadio, porque o que é mais próprio do termo dominante, o primeiro, é estar faltoso em relação ao suplemento que está para chegar, estar esperando-o, por assim dizer. Ao ser suplementado, ele torna-se o que é: Eva confere a Adão, retrospectivamente, sua identidade.

Mas e o lado de Eva, do feminino, do termo subordinado no binarismo? Assim como o dominante, o termo subordinado tampouco é tranquilo, unívoco, idêntico a si mesmo. Ele também é atravessado pela temporalidade suplementar: "feminino", na dicotomia masculino / feminino, não é só o nome de um dos termos do binarismo. É também o nome de algo que teve que ser excluído para que o binarismo se constituísse enquanto tal. No caso do feminismo, essa hipótese foi desenvolvida em dois livros monumentais de Luce Irigaray.

Em outras palavras? A dicotomia masculino / feminino, ela mesma, é narrada com linguagem masculina, é uma construção masculina. Não se constitui esse binarismo sem que o feminino se transforme em nome de algo que não cabe no binarismo enquanto tal.

Qual a consequência de toda essa digressão filosófica para a nossa discussão política aqui? Ela não terá escapado ao leitor mais atento: se você realmente acha que o problema da blogosfera política é o Fla x Flu entre petistas e tucanos, se você vê a si mesmo pairando sobre duas "torcidas organizadas", se você de verdade acredita que Carta Capital e Veja são bolachas simétricas, se você realmente acha tudo isso, talvez seja boa ideia encontrar uma linguagem mais neutra para descrever a realidade -- porque essa é uma narrativa na qual os "petistas" ou "lulistas" reconhecem o DNA da visão tucana de Brasil. Ao descrever a realidade assim, você está tomando partido por um dos lados, não percebe?

Em todo caso, isso é de pouca monta. A sugestão política e moral que eu faria de verdade é: se você vê o Fla x Flu como o grande problema, por que não levantar a bunda da cadeira do choramingo e fundar um Vasco da Gama?



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (114)



sábado, 09 de maio 2009

Mais uma reportagem de Leandro Fortes desvenda entranhas do Brasil

A reportagem de CartaCapital demonstrou que o delegado Corrêa comandou uma operação ilegal para interrogar a empregada Ivone da Cruz, em 2001, e depois forjou uma versão para justificar o fato de ter atropelado a competência da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ouvido pela sindicância interna da PF, em 2005, o delegado civil Fernando Rosa Pontes, responsável pela investigação do assalto à casa da avó da mulher de Corrêa, negou ter solicitado ajuda do colega da PF – justamente a viga mestra da defesa do diretor-geral. Em 29 de janeiro passado, o corregedor-geral da PF, Valdinho Caetano, nomeado por Corrêa pouco mais de um mês antes, arquivou o processo.

[...]


A Câmara dos Deputados perdeu, ainda, a chance de esclarecer a razão de, na tarde de 18 de setembro de 2008, o deputado José Edmar (PR-DF), com as narinas tapadas por chumaços de algodão, ter invadido uma sessão da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do Congresso Nacional. Na ocasião, o parlamentar virou-se para o presidente da comissão, senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e anunciou: “Luiz Fernando é um torturador”. Ao lado do deputado, sentado à mesa de autoridades, o diretor-geral da Polícia Federal não sabia onde meter as mãos. “E reafirmo, e tenho como provar”, reforçou Edmar.

A história completa está em mais esse magnífico trabalho investigativo de Leandro Fortes.



  Escrito por Idelber às 06:11 | link para este post | Comentários (16)



sexta-feira, 08 de maio 2009

Marcha da maconha sábado, liberada em BH. É na Pça da Estação

Depois de que em outras capitais brasileiras triunfasse a insanidade, a insensatez de se proibir uma marcha pacífica em favor da mudança de uma minúscula letrinha da lei, em Belo Horizonte a história foi diferente e o TJMG já autorizou a marcha da maconha

que acontece a partir das 15 horas, na Praça da Estação, neste sábado .

Parabéns aos organizadores por chamá-la para esse espaço, o melhor para se iniciar uma manifestação popular em Belo Horizonte. Sempre foi essa a crença deste blog. Como sempre foi minha convicção que a maconha deve ser total e completamente descriminalizada.

Sim, Sergio Leo, os jornalões já noticiaram, mas eu li antes no Twitter do Túlio Vianna, podendo por isso lhes oferecer o link ao pdf com o habeas corpus impetrado em favor do direito à marcha.

Vitória da sensatez, pois.


Atualização: Leio no Twitter do Túlio que o MP impetrou um Mandado kamikaze de madrugada, mas foi derrotado de novo. A marcha acontece. Ainda sobre o tema, que tem história por aqui, veja a discussão dessa decisão judicial de 2008.

Atualização II: Já depois da marcha realizada, vale a pena ler as reflexões do Túlio Vianna.



  Escrito por Idelber às 21:30 | link para este post | Comentários (34)




Ato Público contra o AI-5 Digital

Muitos blogs estão hoje "congelados" Brasil afora, em protesto contra o projeto de policiamento da internet. Procurado pelo Arlesophia no Twitter, eu disse que não podia congelar nada aqui hoje, mas que com prazer divulgaria o cartaz do protesto do dia 14 em Sampa:

ato-contraai5digital.png


Há uma vasta documentação contra o AI-5 digital no blog do Sergio Amadeu, que tem se destacado na luta contra esse nefasto projeto.



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post | Comentários (16)



quinta-feira, 07 de maio 2009

O fora Gilmar

Não deixa de ser curioso constatar o clima de Baile da Ilha Fiscal que cercou, literalmente, a impressionante manifestação popular levada à cabo na noite de hoje, 6 de maio de 2009, na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal, aqui em Brasília. Logo cedo, o ministro Gilmar Mendes, alvo dos manifestantes, mandou colocar cercas em todo o perímetro do STF com a inacreditável desculpa de que seria preciso preservar o ambiente para um evento noturno, a apresentação de um anuário jurídico publicado pelo jornalista Márcio Chaer, do site Consultor Jurídico. Chaer e Mendes são amigos, mais que amigos, fraternos aliados empenhados em uma simbiose ideológica travestida de relação jornalística. Difícil é definir quem é a fonte de quem.

Continue lendo o testemunho jornalístico de Leandro Fortes.


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Hugo Albuquerque tem fotos do protesto em São Paulo. Há vídeos de Brasília aqui e acolá. Nassif também registrou. No Twitter, a tag é #foragilmar.

O ato de Brasília foi um marco importante. Parece que, na Av. Paulista, o grito se fez ouvir, mas numa manifestação pouco numerosa. Na Praça Afonso Arinos, ainda não sei o que aconteceu, já que o Estado de Minas se limitou a reproduzir uma matéria da Agência Brasil sobre o ato no DF, nada dizendo sobre o de BH, realizado a 15 quadras de sua sede.

Que tal avaliar onde andamos com este tema?


PS: A foto é daqui, de Marcello Casal Jr. A partir de hoje, o Biscoito, além de dar o link à fonte de onde tirou a foto, fará sempre o possível para dar o crédito citando o nome do fotógrafo também. O Pictura Pixel tem sido uma aula para mim nesse sentido. Creditar o fotógrafo sempre que possível.



  Escrito por Idelber às 10:19 | link para este post | Comentários (52)



quarta-feira, 06 de maio 2009

Pelo menos 30 civis mortos em bombardeio americano no Afeganistão

Foram 30 civis mortos com certeza, com algumas fontes falando até em 100.

A administração Obama começa a escorregar no pântano do Afeganistão. Ainda por cima, descobrem isso aqui.



  Escrito por Idelber às 11:49 | link para este post | Comentários (17)




Ato público contra Gilmar Mendes: BH, Sampa, Brasília

GilmarDantas.jpg


(imagem enviada pelo meu irmão Charley. Valeu. Ela está também publicada aqui)



  Escrito por Idelber às 08:39 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 05 de maio 2009

Acelerar a putrefação da mídia e a desmoralização de Gilmar Mendes: tarefas para uma verdadeira extrema-esquerda

psol50.jpgO PSOL, o PSTU e o PCO deveriam parar de brigar, abandonar o sofisma -- desmentido pela história brasileira recente -- de que PT e PSDB são duas faces do mesmo projeto político e agir como verdadeiros partidos leninistas. Eu sou dos que acham que o leninismo está longe de ter esgotado sua significação histórica. Mas não a vejo na teoria do partido de vanguarda nem na teoria da ditadura do proletariado. O que constitui um leninista é a análise da circunstância concreta, sempre em busca do ponto universalizante, da âncora que pode sintetizar toda a luta política. Não há leninismo sem a pergunta: o que fazer?

O que fazer, na extrema-esquerda, hoje no Brasil? O PSOL, que dos três é o único que não se reivindica leninista (embora haja leninistas por lá), deve pensar se quer mesmo fazer da moral, do udenismo de esquerda, o eixo de seu discurso. A escolha pode ter tido sua lógica em 2005, como aglutinação para a extrema-esquerda no momento de maior desgaste do governo Lula. Hoje, é um tiro no pé, além de despolitizadora e inadequada. A redução da política à moral já se anunciara na campanha de Heloísa Helena, em 2006, das mais despolitizadas que a esquerda já fez. No Brasil pós-Satiagraha, o PSOL extrapola, do louvável apoio ao Delegado Protógenes Queiroz, uma leitura da realidade que faria Trótski revirar-se no túmulo, inimigo que era ele de toda confusão entre lei e justiça ou entre moral e política. Confio que o leitor não pense que eu sugira desatenção ao problema da corrupção. Simplesmente estou afirmando que o discurso moral anti-corrupção não pode ser eixo de uma política de extrema-esquerda genuína.pstu.jpg

No site do PSTU, a principal manchete é “Os trabalhadores não pagarão pela crise”. É difícil reconciliar a manchete com a própria interpretação que faz o PSTU do Brasil. Pois se o governo Lula é o agente neoliberal que a extrema-esquerda denuncia, a chamada correta deveria ser “Trabalhadores pagarão pela crise”. A manchete incorre numa contradição performativa, uma comum confusão entre o ser e o dever ser que frequentemente acomete a extrema-esquerda quando ela perde contato com a realidade. Se fosse verdadeiro para o PSTU dizer “os trabalhadores não pagarão”, ou seja, se fosse factível a hipótese de que um movimento operário liderado pela Conlutas conseguisse, dentro da “ordem neoliberal” de Lula, que os trabalhadores deixassem de pagar pela crise, ora ora, seria a própria existência dessa ordem que estaria em dúvida. Ela não está, como o próprio PSTU reconhece. Achar que dentro da ordem capitalista os trabalhadores “não vão pagar” por algo é de um reformismo inaceitável num partido que se quer revolucionário. De novo, Lênin revira no túmulo. A confusão entre o que é e o que deveria ser não é causa, claro, mas sintoma de uma extrema-esquerda que não sabe formular seu papel no presente.

Mas passemos ao momento propositivo. O que fazer? Para a esquerda, o eixo definidor, o ponto-âncora do corpo político é a putrefação da grande mídia no bojo da Satiagraha, a partir da qual se desatou a jagunçagem de Gilmar Mendes e a desmoralização do Poder Judiciário. Nesse feixe de contradições um leninista identificaria a questão universalizante, ou seja, aquela tensão do corpo social que tem o potencial de desatar o antagonismo constitutivo, central. Quem é de esquerda no Brasil hoje e não está refletindo sobre esse imbróglio não está pensando nada.

pco.gifComo trabalham com o sofisma de que PT e PSDB são irmãos gêmeos, os partidos de extrema-esquerda não compreendem por que raios se forma de maneira tão furiosa a articulação Gilmar Mendes-Revista Veja e seus capangas. Perdem a oportunidade de contribuir ao esforço definidor da intervenção de esquerda hoje (e dentro do qual eles poderiam até ganhar espaço em relação ao PT): acelerar a destruição da moribunda credibilidade nos grupos de mídia; promover a guerra de guerrilha incessante contra sua imagem, moral e capacidade de esconder a fábrica de linguiça; exibir e ridicularizar cada erro, mentira, notícia distorcida; revelar e expor minuciosa e diariamente sua história de colaboração com a ditadura; acossar seus patrocinadores com o boicote; bombardear seus ombudsmen com críticas; ajudar a disseminar os blogs que os desconstroem; trabalhar diuturnamente nas campanhas de cancelamento de assinaturas; não respirar enquanto as corjas Civita, Marinho, Frias e cia. tenham sofrido uma derrota categórica.

No bojo dessa práxis, quem sabe não se acumulam forças suficientes para um movimento nacional pelo impeachment de Gilmar Mendes? Quem aposta que um movimento popular não pode encurralar um Senado?

Isso é mais leninista e revolucionário que fazer um sitezinho dizendo que as comemorações do 1° de maio serão “independentes e classistas” e que o Bolsa Família é “migalha dada pela burguesia”. Os partidos de extrema-esquerda brasileiros precisam ler com atenção seus Lênin e Trótski: a interpretação revolucionária da realidade começa com a identificação da sua contradição constitutiva.



  Escrito por Idelber às 05:20 | link para este post | Comentários (130)



segunda-feira, 04 de maio 2009

A histeria da direita com a visita de Ahmadinejad

Mahmoud-Ahmadinejad303.jpg A julgar pelos gritinhos da República Morumbi-Leblon, pareceria que o Brasil nunca recebeu a visita do chefe de um estado autoritário. A julgar pelos videozinhos, você imaginaria que somente líderes de democracias tolerantes e liberais têm permissão de visitar o Brasil. É curioso que pessoas que não deram um pio acerca do inominável massacre israelense em Gaza venham agora posar de defensores dos direitos das mulheres iranianas. Não me consta, aliás, que alguém nessa turma tenha dito nada quando o Brasil recebeu a visita de Bush, responsável por uma guerra baseada em mentiras, pela adoção da tortura como política de estado, pelo campo de concentração de Guantánamo, pela morte de centenas de milhares de iraquianos.

Quando você vir alguém dessa turminha dizendo que Ahmadinejad propõe a exterminação dos judeus, faça algo muito simples: peça o link. Pergunte qual é a fonte. Pergunte quem traduziu o texto do persa. Porque o líder iraniano jamais disse isso. O que ele disse foi: "o regime que ocupa Jerusalém (een rezhim-e ishghalgar-e qods) deve ser apagado da página do tempo (bayad az safheh-ye ruzgar mahv shavad)." A tradução é de um dos maiores especialistas em Oriente Médio da contemporaneidade, Juan Cole, confirmada por dois outros tradutores do persa. Leia a entrevista de Ahmadinejad e confira você mesmo. Sobrando um tempinho, assista ao vídeo da palestra de Ahmadinejad em Columbia University, cujo presidente o recebeu com uma grosseria que até hoje envergonha a nós, acadêmicos americanos.

Suponho não ser necessário esclarecer que eu acho muita coisa no discurso de Ahmadinejad absolutamente repugnante, especialmente as declarações sobre o homossexualismo. Não defendo o que ele diz. Mas há que se corrigir as mentiras. A calúnia de que Ahmadinejad ameaçou “varrer Israel do mapa” -- e, a partir daí, a afirmativa mais delirante ainda de que ele propõe a exterminação de judeus – tem uma longa história, que se remonta a uma tradução manipulada do New York Times. É, meu chapa, quando se trata de Oriente Médio e do lobby pró-ocupação israelense, até as traduções devem ser minuciosamente revisadas.

Não custa lembrar, claro, que o Irã não invadiu país nenhum. O Irã não tem uma história de agressão contra seus vizinhos. Na guerra Irã-Iraque, o agredido foi ele, na época em que o depois demonizado Saddam Hussein era amiguinho de Donald Rumsfeld. Sim, é evidente que a situação dos direitos humanos no Irã é grave. Ela é quase tão grave como a situação na Arábia Saudita, país onde sequer existem eleições nacionais, mas cuja monarquia visita e faz polpudos negócios no Ocidente sem que se ouça um pio dos nossos preocupadíssimos democratas da República Morumbi-Leblon.

Qual é o país do Oriente Médio que ocupa ilegalmente terras de outrem há mais de quarenta anos, com uma história de sistemática agressão contra seus vizinhos e de desrespeito às resoluções das Nações Unidas? Qual é o país do Oriente Médio que infiltra espiões até mesmo no território de seu maior aliado? Não é o Irã.

Aceito debater o Irã com qualquer membro da República Morumbi-Leblon que me ofereça um ou dois parágrafos articulados acerca de como era mesmo maravilhosa a situação no país persa entre 1954 e 1979. Afinal de contas, a julgar pelos horrorizados chiliques, você imaginaria que antes da Revolução Islâmica as coisas andavam muito bem por lá. Na verdade, a única vez em que o Irã esteve perto de chegar a um regime aberto e tolerante foi um pouco antes de 1954, quando a Frente Nacional de Mohammed Mossadeq nacionalizou a indústria do petróleo. Mossadeq foi logo depois removido por um golpe de estado preparado pela CIA, naquilo que Robert Fisk, em sua obra monumental, chamou de primeira operação americana desse tipo durante a Guerra Fria (pag. 99). Com sua implacável verve britânica, Fisk acrescenta: pelo menos nós nunca afirmamos que Mossadeq tinha armas de destruição em massa.

O golpe de 1954 inaugura um período caracterizado por Fisk como de “monarquia absoluta” do Xá, controlada pela sua temida polícia política que, ao custo de assassinatos, tortura e supressão da oposição, garantiu a estabilidade necessária para que se exportassem 24 bilhões de barris de petróleo nos 25 anos que se seguiriam. A Revolução Islâmica canalizou a revolta da população iraniana, num momento em que muita gente ainda sonhava com a possibilidade de uma esquerda nacionalista e secular no mundo árabe. Essa foi uma opção que existiu durante algum tempo, com Nasser e cia., mas que sucumbiu ante os golpes de estado e as invasões americanas, assim como as sistemáticas agressões israelenses – com o apoio dos mesmos direitecas que agora acusam os críticos do sionismo e do imperialismo de serem cúmplices do bicho-papão islâmico.

Eu me pergunto se esses direitecas que histericamente gritam que Ahmadinejad quer “aniquilar” Israel sabem que o presidente do Irã sequer é o comandante-em-chefe das Forças Armadas do país. Quem tiver curiosidade arqueológica, que consulte a grande imprensa americana entre, digamos, 1998 e 2002. Naquele período, em que o reformista moderado Mohammad Khatami dava declarações de aproximação aos EUA e ao Ocidente, esses gestos eram descartados com o argumento de que o presidente do Irã não tem poder real – o mesmo fato do qual agora eles convenientemente se esquecem, para que possam apresentar Ahmadinejad como comedor de criancinhas.

Etiquetar Ahmadinejad como “ditador do Irã” é ridículo. Ele foi eleito. É verdade que sua vitória foi conquistada com os mesmos métodos de George Bush. Mas se quiserem entender o clima que possibilitou sua eleição, há que se estudar um pouco a enorme frustração dos setores jovens iranianos com Khatami, que tentou e tentou se aproximar do Ocidente, sendo sistematicamente rechaçado.

A tarefa da esquerda é dupla. Desmascarar a mentirada e a hipocrisia da República Morumbi-Leblon e do lobby pró-Israel ao mesmo tempo em que oferece solidariedade aos setores da sociedade civil que estão lutando no Irã – e também na Arábia Saudita! – contra regimes que são, sim, bastante opressivos. Há que se fazer um coisa sem perder de vista a outra. Mas a iniciativa de querer expulsar Ahmadinejad do Brasil, vinda de gente que recebeu Bush sem dar um pio, tem um só nome: hipocrisia.

Portanto, sem prejuízo nenhum ao meu apoio aos que, no Irã, lutam por uma democracia real, não posso deixar de retrucar: Bem vindo, Ahmadinejad. Tome sua cachacinha com Lula (sim, sim, sei que é proibido...), visite algumas das maravilhas desse que é um dos mais belos países do globo e não ligue para a meia dúzia que protesta. Estão em vergonhosa minoria. Já não sabem em que se agarrar. Na última eleição, o candidato deles não conseguiu sequer repetir no segundo turno a votação que havia tido no primeiro. É compreensível que estejam tão histéricos.

Atualização: Artigo publicado também na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 11:56 | link para este post | Comentários (210)



domingo, 03 de maio 2009

Leandro Fortes de volta

Leandro Fortes, da Carta Capital, um dos jornalistas que mais vêm honrando a profissão no Brasil, fazendo reportagens genuinamente investigativas, sem medo de desagradar aos poderosos, nos deu um presente este fim de semana. Leandro retomou seu blog Brasília, eu vi. Diz Leandro: "Acho que temos que reforçar essa rede de jornalistas independentes e honestos. Pode, no fim das contas, ser tudo que nos resta."

Vida longa.

Já no terreno da comédia pastelão, tivemos outra sensacional notícia: Soninha Francine descobriu que José Serra é de esquerda. Agora sim, fiquei tranquilo.

(O último link é dica do leitor Mauricio. Valeu).



  Escrito por Idelber às 15:43 | link para este post | Comentários (42)



sexta-feira, 01 de maio 2009

Despencam as vendas de Folha, Globo e Estadão

bessinha.jpg

Saíram os números do primeiro trimestre e há muito que comemorar. As organizações criminosas conhecidas pelo eufemismo “grande mídia” tiveram, em termos relativos, o seu pior trimestre da história. A Folha, jornal brasileiro de maior circulação, cai paulatinamente a cada primeiro trimestre desde 2000. No começo daquele ano, vendia uma média de 429.476 exemplares diários. Veio despencando ano após ano até o recorde negativo do primeiro trimestre de 2009, no qual somente 298.352 incautos contribuíram, em média diária, com a organização criminosa.

A bandidagem liderada pela famiglia Marinho não teve melhor sorte. O Globo tinha média diária de 334.098 exemplares diários vendidos no começo de 2000. Fechou o primeiro trimestre de 2009 vendendo 260.869 exemplares por dia. No mesmo período, o Estadão caiu de 391.023 para 217.414 exemplares diários vendidos. Em menos de uma década, a Folha perdeu mais de trinta por cento dos seus leitores. Também despencaram o Diário de São Paulo, o Correio Braziliense e O Dia. Incrivelmente, a Zero Hora teve ligeira subida. A organização criminosa pertencente ao grupo RBS vendeu 184.893 exemplares em média no primeiro semestre de 2009. É um número menor que os 186.471 vendidos diariamente no começo de 2000, mas é ligeiramente superior ao mesmo período em todos os outros anos desta década.

Sem dúvida, a crise da mídia impressa é mundial. Mas os donos dos grandes jornais brasileiros, assim como seus funcionários, deveriam refletir sobre se isso explica, por si só, esses números. Baseadas nos números do Instituto Verificador de Circulação (IVC), a notícia saiu no site meio&mensagem, que é fechado para não-assinantes. Foi repercutida pelo Portal Vermelho, onde há mais números. Para a Folha Online, a queda dos lucros do Yahoo é notícia, a do New York Times também, mas a queda do seu próprio jornal não foi noticiada. A Folha usa os números do IVC quando lhe convém.

Num contexto como este, em que a grande mídia continua sofrendo derrotas nos tribunais, se o leitorado brasileiro de esquerda souber organizar uma massiva campanha de boicote e pressão aos anunciantes das organizações criminosas, elas cairão igual fruta podre. Não haverá Gilmar Mendes nem negociatas sem licitação com José Serra que salve.

Seria interessante fazer um levantamento minucioso das finanças das organizações criminosas, observar quais anunciantes mais contribuem e começar o bombardeio. O boicote a anunciantes é uma arma que, pelo menos nos EUA, a direita tem usado com muito mais habilidade que a esquerda. É uma iniciativa que tem pouca tradição no Brasil. É hora de começar a usá-la.

PS: Não deixe de ler Corrupção de mão única, de Alexandre Nodari.



  Escrito por Idelber às 16:35 | link para este post | Comentários (64)



terça-feira, 28 de abril 2009

Bacharelismo, Capanga e Gritos, de Francisco Foot Hardman

foot.jpg O texto que se segue é de autoria de meu amigo Francisco Foot Hardman, professor da UNICAMP. A foto é daqui.


O professor propôs aos alunos um exercício de crônica não presencial diante dos últimos acontecimentos. E sua pior aluna rabiscou mais ou menos o que segue.

Foi assim. Ele mirou-se no espelho e disse: “A Justiça sou Eu!...” Fez com convicção, ou melhor: sua autoconfiança no poder ilimitado que imaginava possuir já ultrapassara o nível da consciência racional. O presidente da suprema corte vivia em estado de transe, no trânsito livre entre os três poderes, no pontificado das meias-verdades sopradas como vento aos holofotes da mídia, no intervencionismo jurídico de todo dia, nas frases feitas do senso comum convertido em opinião abalizada, que se bastavam a si mesmas pelo tom e impostura própria de um magistrado que se sabe na terra dos coronéis-bacharéis. Palavras encenam o teatro de sentenças transadas em julgado. Tipo: “O país caminha celeremente para um Estado policial”. Ou então: “O gabinete de Justiça-sou-eu foi grampeado”.

E era assim um festejo para os fabricantes de fatos. Prejulgamento, antecipação de voto, opiniões assertivas sobre o legislativo e o executivo, pitos de bedel endereçados ao presidente da República e a ministros de Estado. Vinha esse novo chefe máximo da magistratura superando-se a cada dia, no sentido de fazer do terceiro poder o primeiro em protagonismo e também em cinismo. Batera alguns recordes de antecessores no atendimento a recursos de habeas corpus de mandões. Se a lei se arrepiasse como gato na tuba, se juízes do “baixo clero” chiassem, se a opinião pública se chocasse, que importa? “Lex, ora lex!... La Justice, c’est moi!...”, repetia o Chefe diante do espelho, misturando verbo e idiomas, mas ainda sumamente convicto, mesmo que a imagem já surgisse manchada por fungos invasores que teimavam em assolar a mansão do Grande Lago e turvar a reflexão em estado puro do enorme espelho funcional... Isso já um pouco ébrio, é verdade, ébrio do poder quase soberano que abocanhara, mas também da dose dupla que lhe pusera na mão um dos capangas.

- Capanga?!!! Mas que anacronismo, senhor Presidente!... O senhor não tem moral para falar em capanga. Aliás, se capangas há em algumas províncias do interior profundo, isso são reminiscências de priscas eras e malvados costumes. Atrasos inevitáveis de país tão vasto e desigual. Eu lhe garanto, e aqui fala um estudioso da história do Brasil, não há capangas em Brasília. Houve candangos, Vossa Excelência confunde!... Capangas no more, aliás nunca, never. Em Brasília, Paraíso do Paralelo 15, somente homens de bem. De bem com a vida. Capazes, muito capazes. Jamais capangas.

- E mais: se a impunidade dos donos do poder é regra, isso não é culpa do Judiciário, nem do Supremo Teatro Federal. Aqui seguimos apenas à risca os mínimos ritos. Desarrepiem-se súmulas e acórdãos. Verifiquem-se. Cumpra-se. Ritos sumários quando se trata do benefício a homens de bem, porque acima de tudo os indíviduos e seus direitos. E sumidos quando se trata da sociedade, porque abaixo de tudo os elementos, os comboios de desvalidos amontoados no anonimato da vida nua. Ritos sumidos. Há já farta jurisprudência a colecionar.

E para conter a fúria punitiva de rábulas, de procuradores insensatos, de Ministério Público “populista”, nada melhor que um Pacto Republicano consignado com os presidentes desmoralizados do Senado e da Câmara, com o presidente da República para quem os conflitos mais profundos da política e da sociedade cabem todos na sempre idêntica e arquigasta metáfora futebolística. Se futebol é nossa segunda natureza, tudo que se pode parecer a ele é bom para o “funcionamento da democracia”. Com o pacto, blinda-se o fosso que já separa secularmente poder e sociedade. Reforçam-se as ameias dessa Brasília autista. Inalcançável para as massas, que permanecerão sem biscoito fino, excluídas da cidadela, no limbo da pré-cidadania. Cerra-se o pacto e do lado de fora os patos ficam, os bestializados de ontem e de agora.

Mas na manhã de um aniversário melancólico, quando Justiça-sou-eu acordou sem sessão plenária para celebrar seu primeiro ano de pontificiado, o espelho funcional amanheceu trincado numa das bordas. E ao mirar-se para a pergunta de praxe: “Espelho, espelho meu, há alguém mais justo que eu?!...”, viu num átimo que sua cara desaparecera, e lá despontava do país-além-dos-espelhos um rosto negro, sóbrio, severo, que apesar dos olhos diminuídos pela miopia guardava olhar gigante, e uma voz altiva, passionária, desrespeitosa, anti-bacharelesca, voz que ressoava sim a das ruas, mas não dispersa como esta, antes compacta, voz que talvez destampasse a fúria de séculos de opressão, e portanto assustadora porque deslocada, estranha na sua presença naquele puro reflexo, naquele relâmpago fugaz, e incômoda e precisa e repetida e tão desrespeitosa como a imagem do homem negro que a pronunciava: “- Respeito!...”

E lá na longínqua Roraima, nas terras da Raposa do Sol, indígenas brasileiros dançavam em círculo ao anoitecer daquele dia, renovando o rito suado de sua milagrosa sobrevivência.

E pela internet multidões de correspondentes trocavam excelências. Sabiam ainda, muitos, recitar essas antigas cantigas fúnebres. Com todo o respeito. Não se enterravam pessoas. O cadáver desta feita era o da suprema comédia federal. Comédia macabra dos podres poderes. Bacharelismo, capanga e gritos. Excelências revezaram-se por toda a noite.

Justiça-sou-eu resolveu deitar mais cedo. Estava macambúzio. Bebera um trago a mais. Iniciativa própria. Sonhou com capangas.


Por Francisco Foot Hardman
Escrito inicialmente para o jornal O Estado de S. Paulo, este artigo permanece inédito.



  Escrito por Idelber às 22:16 | link para este post | Comentários (16)



segunda-feira, 27 de abril 2009

Como os leitores são tratados pelos semanários brasileiros

Duas comunicações recentes de leitores brasileiros com grandes semanários do país mostram como é grave a crise de credibilidade da imprensa. A primeira aconteceu com Paulo Morais, meu concunhado, que compartilhou com o blog uma inacreditável correspondência que manteve com o responsável pela coluna "Filtro", na Revista Época. A segunda aconteceu entre membros da comunidade científica brasileira e a Revista Veja.

No dia 21 de julho passado, a coluna Filtro, da Época, trouxe observações sobre a Seleção Brasileira de futebol sob o título “as análises e opiniões que interessam para entender o Brasil e o mundo”. Como as tais opiniões e análises eram todas estrangeiras, o Paulo escreveu o seguinte email:


Prezado editor,

Até tento, mas não consigo entender os critérios de filtragem de opinião da coluna "O Filtro", da seção Primeiro Plano. Esta semana (edição de 21 de julho) traz opiniões da New Yorker, The Economist, Newsweek e Time. É essa mesmo a opinião que interessa para nós brasileiros entendermos o Brasil? Faz sentido uma página de revista brasileira dizer que traz "as opiniões e análises que importam para entender o Brasil" e nos mostrar a opinião e as análises que os norte-americanos fazem de nós? O que leva uma revista das mais importantes da imprensa brasileira reproduzir fielmente o discurso estrangeiro, eleveando-a gratuitamente à condição de "opinião que interessa"?

O pior não é isso. A coluna desta semana traz a questão da seleção brasileira ocupada por jogadores que atuam no exterior. Precisa dessa notícia sair na Time para ela ser considerada uma "análise que interessa para entender o Brasil e o Mundo"? Desde pelo menos uns 10 anos a debandada de jogadores tem sido generalizada, mas só quando o assunto ganha destaque na mídia dos Estados Unidos, ela interessa para o Brasil. Será que é isso mesmo?

A Time diz que "O Brasil quer sua seleção de volta". E eu, mero brasileiro, digo: "Quero nossa imprensa de volta".

Sobre a seção "Mente Aberta", nem vou comentar. Já deixei de ler, pois já não há nada de brasileiro por ali.

Atenciosamente,
Paulo Morais
Luminárias (MG) – Brasil


No dia seguinte, o Paulo recebe por engano um email do editor da coluna, Juliano Machado, dirigido a outrem. A missiva dizia o seguinte:


André, tudo bem?
 
Recebi o e-mail abaixo sobre o Filtro. Quero responder ao leitor, mas não sei se devo abrir o jog sobre como escolhemos as notas da seção. O cara tem certa razão quando questiona a linha-fina de apresentação ("As opiniões e análises que importam para entender o Brasil e o mundo").
 
Abraço,
Juliano


Logo em seguida, o Paulo recebe outro email, de novo do editor da coluna, agora dando-se conta do que tinha feito e tentando consertar:


Caro Paulo,
 
Desculpe pelo estranho e-mail enviado anteriormente. Imagino que o senhor tenha estranhado a história do "abrir o jogo" sobre a forma como são escolhidas as notas do Filtro, mas quero desfazer qualquer eventual impressão de que exista algo "encomendado" para citar este ou aquele veículo. A grande questão do Filtro (e que talvez, de fato, não fique clara naquela frase de apresentação "as opiniões e análises que importam...") é mostrar o que os grandes veículos da mídia internacional estão falando sobre o Brasil. Ou seja, o que está sendo falado sobre o Brasil nos grandes centros mundiais, além de algumas análises da geopolítica internacional. Portanto, sempre vai haver referências aos veículos americanos e britânicos, certamente os que mais repercutem na política e economia globais. 
 
De fato, nossa frase de apresentação da seção não está de acordo com o propósito do Filtro, e até o editor-executivo da revista está sugerindo que o texto seja reescrito. Dessa forma, o objetivo do Filtro ficaria mais claro. Portanto, é bem provável que, na próxima edição, isso já seja feito.
 
Obrigado pela sua pertinente observação.
 
Um abraço,
Juliano Machado


Paulo, evidentemente, nem havia pensado em nenhuma mutreta escondida que descobrir. Ele simplesmente fizera a observação de que não é muito apropriado ter um filtro de imprensa estrangeira com o subtítulo “as opiniões e análises que interessam para entender o Brasil”. O email enviado pelo jornalista para um colega seu sugere que há algo na escolha do material da coluna sobre o qual ele não poderia “abrir o jogo”. O que será? Terá o jornalista alguma explicação? Não seria legal que, agora que a trapalhada foi revelada publicamente, ele abra o jogo? Porque essa emenda aí ficou bem pior que o soneto.


***************************************************


O outro caso explícito de combinação entre arrogância e ignorância, tremendo despreparo e total descaso com o leitor aconteceu na matéria sobre genética publicada pela Revista Veja na semana retrasada. O Ricardo Vêncio, do Laboratório de Processamento de Informação Biológica da USP Ribeirão, escreveu o seguinte email para a revista:

Caros da Veja,

Apesar do texto da reportagem sobre Genética da última edição estar muito bom, incluindo até conceitos da emergente Biologia Sistêmica, a figura que mostra a sequência: "célula - DNA - gene" induz o leitor a erros conceituais graves:

1) A interação entre as duas fitas da hélice de DNA está ilustrada como algumas bolinhas em seqüencia, dando a impressão que são átomos, partículas ou coisa que o valha. Essas ligações são chamadas "pontes de hidrogênio" e, na verdade, são atrações entre átomos que estão nas duas fitas. Uma linha tracejada ou algo do tipo seria uma ilustração adequada enquanto que bolinhas induzindo o leitor a imaginar uma cordinha ou corrente ou algo assim, definitivamente não. Uma boa ilustração pode ser encontrada, por exemplo, aqui.

2) A figura induz o leitor a imaginar que os genes estão nas "pontes de hidrogênio", o que está completamente errado. Uma ilustração melhor pode ser encontrada, por exemplo, aqui.

Acho importante que uma errata seja publicada na próxima edição, uma vez que não são errinhos sem importância, mas sim falhas conceituais graves, principalmente se lembrarmos que esta edição foi publicada logo depois daquele sobre Vestibulares.

Obrigado.

Veja_fail.jpg
O DNA da Veja

O email apontava dois erros na reportagem, sendo um deles bastante grave. Caramba, até eu sei que genes são feitos de pedaços de DNA e não de pontes de hidrogênio! Resposta da Revista Veja? Caiam de costas:


Prezado Ricardo Z. N. Vêncio,

Agradecemos as observações sobre a reportagem "Um gene, várias doenças" (22 de abril de 2009 - página 98). Consultamos os jornalistas responsáveis pela reportagem. Eles nos forneceram os seguintes esclarecimentos: "Por não ser uma revista científica, VEJA pode sim representar os genes como bolinhas. Cometeríamos erro se tivéssemos trocado os genes pelo DNA ou coisas do gênero. As imagens publicadas foram obtidas em bancos de imagens e estão identificadas da mesma forma como aparecem em VEJA."

Atenciosamente,

Redação/Revista VEJA (www.veja.com.br) .


Vejam a petulância da resposta. Tudo ali tem a cara da revista: a exibição de ignorância, a justificativa furada para o erro mais crasso, o tom desqualificador a uma correção polida que havia chegado de um especialista, a inacreditável afirmativa de que como “não é uma revista científica”, Veja pode traficar informação equivocada, a incapacidade até mesmo de reconhecer qual era a crítica, que evidentemente não era às bolinhas em si.

Para completar o vexame, um leitor descobriu um parágrafo inteiro plagiado do Wall Street Journal na mesma reportagem. Avisada por ele da fonte do texto, a reportagem respondeu de novo com arrogância e mentiu, referindo a informação a um pesquisador da Pensilvânia. O leitor contactou o pesquisador americano e desmascarou a farsa. Como se vê, não são só grampos que a Veja inventa.

Esse descaso e prepotência semianalfabeta sempre foram marcas registradas da grande imprensa brasileira. A diferença é que agora isso vem às claras com cada vez mais frequência, para um público cada vez mais amplo. Acelerar a decadência, a putrefação, a inevitável morte desse lixo é tarefa ineludível. Se você ainda tem algum amigo ou parente que assina, mãos à obra.



  Escrito por Idelber às 06:23 | link para este post | Comentários (72)



sexta-feira, 24 de abril 2009

O empresário Gilmar Mendes, por Leandro Fortes

É importante apoiar, reproduzir e circular o trabalho daqueles que estão fazendo genuíno jornalismo investigativo no Brasil. Eles são tão poucos! O post de hoje é um pequeno reconhecimento do trabalho de um deles, Leandro Fortes. Quebra-se hoje, pois, a regra tácita deste blog, de não reproduzir textos alheios na íntegra. Mas é que esta reportagem de Leandro Fortes, publicada originalmente em Carta Capital, 05/10/2008, merece ser lida de novo. Aí vai, completa. (daqui)


CARTA CAPITAL - 05/10/2008

"Quem quiser ficar rico, não vá ser juiz"

João Batista de Arruda Sampaio, desembargador e jurista (1902-1987)


Por Leandro Fortes

Colaboraram Filipe Coutinho e Phydia de Atahyde

Desde que veio à tona a história do suposto grampo de uma conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, galvanizou os anseios de uma parte da sociedade que enxerga nos ministros de tribunais superiores a chance de controlar o poder negado nas urnas em eleições recentes. Como "vítima" de uma interceptação ilegal até agora não comprovada, Mendes acabou alçado à condição de paladino do Estado de Direito, dos valores republicanos e, por que não, da moralidade pública.

O episódio exacerbou uma tendência crescente do STF, a de interferir além dos limites de sua atribuição na vida dos demais poderes. Coube a Mendes chegar ao extremo, quando chamou "às falas" o presidente da República por conta da mal-ajambrada denúncia do tal grampo. O Congresso, a Polícia Federal, os juízes de primeira instância, o Ministério Público, ninguém escapa da fúria fiscalizadora do magistrado que ocupa o principal cargo do Poder Judiciário no Brasil.

Quem tem a pretensão e o pendor para "varão de Plutarco", presume-se, segue à risca na vida particular os padrões morais que prega aos concidadãos. Não parece ser este o caso de Mendes. A começar pela sua participação no controle acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Há de cara um conflito ético, ainda que as regras da magistratura não sejam claras o suficiente sobre a permissão de juízes possuírem negócios. Criado em 1998, o IDP organiza palestras, seminários e treinamento de pessoal, além de oferecer cursos superiores de graduação e pós-graduação. Entre 2000 e 2008, faturou cerca de 2,4 milhões de reais em contratos com órgãos ligados ao governo federal, todos firmados sem licitação. No quadro de professores contratados pelo instituto figuram ministros de Estado e dos tribunais superiores, e advogados renomados, vários deles defendendo clientes com ações que tramitam no STF presidido por Mendes.

A Lei Orgânica da Magistratura deixa dúvidas sobre os limites da atuação de juízes além dos tribunais. O parágrafo 2º do artigo 36 diz ser vedado exercer cargo de direção ou técnico de sociedade civil, caso do IDP, mas nada diz sobre possuir ações ou cotas do empreendimento. Magistrados mais antigos sempre interpretaram que a lei só permite ao juiz dar aulas remuneradas, nada mais. A visão tem mudado. Estudiosos do Direito como David Teixeira de Azevedo, professor da Universidade de São Paulo, e Dalmo Dallari, professor aposentado da USP, afirmam que não há nada na legislação que proíba expressamente a participação societária em empresas privadas. "É preciso ver, porém, se o juiz se valeu de sua condição para obter qualquer tipo de benefício."

O que se pode dizer do IDP é que gravitam ao seu redor nomes de peso da República. O corpo docente é formado por 87 professores, entre eles dois ministros do governo Lula, Nelson Jobim (Defesa) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Eventualmente dão palestra no instituto, José Antônio Toffoli, advogado-geral da União, e Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Unger, por exemplo, esteve lá na quinta-feira 2, na abertura do 11º Congresso Brasiliense de Direito Constitucional.

Vários dos colegas de tribunal também são docentes do instituto: Carlos Alberto Direito, Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia Rocha, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Há ainda diversos titulares do Superior Tribunal de Justiça.

O presidente do STF tem dois sócios na escola. Um deles é o procurador regional da República Paulo Gustavo Gonet Branco, o outro, o advogado lnocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de 1981. De acordo com a junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil reais, num total de 1, 2 milhão de reais, para fundar o IDP.

O investimento parece ter dado frutos. O IDP mantém, por exemplo, contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualmente presidido por Carlos Ayres Britto, que substituiu na função Marco Aurélio Mello. Já o faturamento em contratos com a União cresceu após Mendes ter sido nomeado ministro do Supremo. De 2003 para cá, o valor somou 1, 6 milhão de reais, segundo dados disponíveis no site Contas Abertas (www. contasabertas. com. br). O mês de setembro foi particularmente pródigo: 350 mil reais em convênios. Todos, repita-se, firmados sem licitação.

No Portal da Transparência da CGU. mantido pelo governo federal, há dados interessantes sobre os contratos do instituto. Dentro das guias de pagamento do portal, aparece um acordo com a Receita Federal até para trabalho aduaneiro.

Têm sido comuns também contratos com a Força Aérea Brasileira. Tanto interesse da FAB nas consultorias do instituto do ministro Gilmar Mendes tem uma razão de ser. O diretor geral do IDP é um experiente coronel da reserva da Aeronáutica, Luiz Fernandes de Oliveira, segundo ele mesmo, com carta-branca dos sócios para fazer tudo, "menos fechar o IDP". Aviador por formação, com cursos de administração pública na Fundação Getúlio Vargas e de Ciências Políticas Militares, no Exército, o coronel Fernandes é um velho conhecido do brigadeiro Juniti Salto, com quem trabalhou na FAB. Bem articulado, o diretor-geral fechou bons contratos para o IDP, e não somente na Aeronáutica.

Os valores recebidos da União pelo IDP, em 2008, devem-se, sobretudo, a três contratos firmados com o Senado Federal, o STJ e a Receita Federal. Do Senado, o instituto do ministro Mendes recebeu 125 mil reais, para ministrar um curso de Direito Constitucional para "consultores e demais servidores" da Casa. No STJ, o curso é de Direito Tributário, voltado para servidores lotados em gabinetes de ministros, ao custo de 88, 2 mil reais. E, finalmente, da Receita Federal o IDP recebeu 117, 9 mil reais para também aplicar um curso de Direito Tributário a funcionários do órgão.

Pelo Portal da Transparência é possível saber que a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional contratou o IDP para gerir o programa de "Recuperação de Créditos e Defesa da Fazenda Nacional", por 11 mil reais. O interessante é que, entre os professores do IDP, há três procuradores da Fazenda Nacional: Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, José Levi Mello do Amaral Júnior e Rodrigo Pereira de Mello.

Há mais. Em 2006, a Receita Federal pagou 16 mil reais ao IDP na rubrica "Administração do Programa" e "Arrecadação Tributária e Aduaneira" do Aeroporto de Brasília. Segundo a assessoria do órgão, a Receita pagou curso de pós-graduação em Direito Tributário a servidores. Na mesma linha, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do MEC pagou 58 mil reais ao IDP para "Controle e Inspeção da Arrecadação do Salário-educação e sua Regular Aplicação" dentro do programa de Gestão da Política de Educação.

Os cursos oferecidos pelo IDP também foram contratados pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), que pagou 690 mil reais para oferecer a 92 procuradores do DF pós-graduação em Direito Público, entre março de 2006 e junho de 2007. Assim como nos outros contratos, a licitação foi considerada "inexigível". No período em que Jobim presidiu o STF, entre 2005 e 2006, o tribunal gastou quase 50 mil reais em cursos e eventos oferecidos pelo instituto de Mendes, tudo sem licitação, na modalidade "inexigível", ou seja, a partir do pressuposto de não haver outra entidade capaz de prestar serviços semelhantes. De fato, ao congregar quase uma centena de advogados, ministros, promotores, juízes, auditores, procuradores e auditores no corpo docente do IDP, Gilmar Mendes praticamente anulou a possibilidade de surgirem outras instituições capazes de prestar os mesmos serviços em Brasília.

Em 2006, reportagem do jornal O Globo denunciou uma das relações estranhas do IDP com o STF. Então presidente interino do Supremo (a titular, Ellen Gracie Northfleet, estava de licença médica), a única saída de Mendes foi transformar em "bolsa de estudos" um empenho de 3, 6 mil reais referente a um curso de mestrado em Ações Constitucionais ministrado pelo IDP a três funcionários do Supremo. Ao se justificar, o ministro alegou não ter havido irregularidade porque cabia aos servidores escolher o curso e a escola onde pretendiam fazer as especializações. Só se esqueceu de dizer que, como o IDP tem o monopólio desses cursos em Brasília, o instituto não só foi o escolhido como, claro, caiu na modalidade "inexigível" de licitação.

Ainda assim, as poucas tentativas de impedir o presidente do STF de usar de influência para conseguir contratos no governo, até hoje, foram em vão. A primeira delas ocorreu em abril de 2002, pouco antes de ele ser nomeado ao STF, quando o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade administrativa justamente por Mendes ter contratado o IDP para dar cursos no órgão do qual era o principal dirigente, a Advocacia-Geral da União. No STF, onde o caso foi parar, a ministra Ellen Gracie (indicada por Jobim, referendada por FHC) decidiu pelo arquivamento da ação. O Supremo nem sequer analisou um recurso do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, contra a decisão.

A sede do IDP é um amplo prédio de quatro andares, onde, segundo o site do instituto, há 22 salas de aula "amplas e confortáveis", uma biblioteca informatizada (não é verdade), um foyer para realização de eventos acadêmicos, um auditório com capacidade para 240 espectadores (ainda em construção) e estacionamentos interno e externo (neste caso, trata-se das ruas ao redor da escola). Na fachada do edifício há uma placa na qual se lê: "Empreendimento financiado com recursos do Fundo Constitucional do Centro Oeste FCO". Trata-se de dinheiro gerenciado pelo Banco do Brasil, a partir de um contrato fechado durante um churrasco na laje do IDP, em 2006, quando o prédio ainda não estava pronto.

Antes, um pouco de história. O IDP começou a funcionar, em 1998, na casa do ex-procurador-geral Inocêncio Coelho, no Lago Sul, uma área de casarões em Brasília. As aulas ocorriam em uma só sala, mas, com o aumento da procura pelos alunos, os três sócios acharam por bem procurar outro lugar. Em 2004, encontraram um terreno de 2, 5 mil metros quadrados na Quadra 607 da avenida L2 Sul, ao preço de 2, 2 milhões de reais.

Para viabilizar a compra, o grupo recorreu, então, ao Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo ex-governador Joaquim Roriz (PMDB). O Pró-DF II tem corno objetivo gerar emprego e renda a partir de benefícios fiscais dados aos empresários, principalmente os de pequeno porte. Para isso, o governo do Distrito Federal diminui impostos e dá descontos de até 80% no valor do terreno a ser utilizado pelo empresário. O subsecretário do programa, Engels Rego, não sabe explicar como o IDP foi enquadrado na rubrica de "setor produtivo".

De acordo com o subsecretário, pelos parâmetros atuais, definidos no governo Arruda, o IDP não teria recebido um terreno na L2 Sul, área central do Plano Piloto de Brasília, onde praticamente não há mais espaços disponíveis. "A política da secretaria nessa gestão é incentivar o setor produtivo nas regiões administrativas, para desafogar o Plano Piloto e desenvolver as outras áreas da cidade", afirma.

Autor de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o Pró-DF II, por não concordar com a política de composição do conselho deliberativo do programa, o presidente da Federação das Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Fempe-DF), Sebastião Gabriel de Oliveira, conta jamais ter visto um micro e pequeno empresário local conseguir terreno no Plano Piloto, como o do prédio do IDP. "As micro e pequenas empresas nunca tiveram esse privilégio, a gente não tem cacife para isso", garante.

Os trés sócios do IDP assinaram o contrato com o Pró-DF II em 1° de setembro de 2004, quando Mendes já estava no STF. Os donos do instituto conseguiram enquadrar o negócio nos parâmetros do programa do governo distrital e obtiveram, ao fim do processo, o maior desconto possível, de 80%. Assim, o terreno, cujo preço original era de 2, 2 milhões de reais, foi financiado, em cinco anos, por 440 mil reais - o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.

A boa estrela, digamos, do IDP não parou de brilhar por aí. Em fevereiro de 2005, quando se iniciaram as obras no terreno da L2 Sul, o caixa do instituto, segundo o diretor-geral Luiz Fernandes, dispunha de 3 milhões de reais. O dinheiro, diz ele, não era suficiente para levantar o prédio totalmente, razão pela qual Fernandes teve de correr atrás de um empréstimo, inicialmente, sem sucesso. Quando o primeiro piso do edifício ficou pronto, organizou-se a chamada "festa da cumeeira", com o tal churrasco assado sobre a laje pioneira. Um dos convidados, conta Luiz Fernandes, era um gerente do Banco do Brasil que, entre uma picanha e outra, quis saber de Inocêncio Coelho a razão de não haver nenhuma placa do banco na frente da obra. "Não tem placa porque não tem financiamento algum", disse o sócio do IDP. Foi quando o gerente os aconselhou a procurar o Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), gerido pelo Banco do Brasil e, normalmente, destinado a projetos muito diferentes dos propostos pelo instituto.

No primeiro balanço trimestral de 2008, o FCO liberou mais de 450 milhões de reais. Pouco mais de 190 milhões (40%) foram destinados a micro e pequenas empresas. As companhias de médio porte receberam 32%, ou 150 milhões de reais. A prioridade de investimento do fundo é, porém, o meio rural, que recebeu 278 milhões de reais (60%). O setor de comércio e serviços aparece apenas em terceiro lugar, com desembolso de 62 milhões de reais, ou 13% do fundo. Mesmo assim, e sem se encaixar exatamente no perfil, o IDP apresentou-se como "pequena empresa" do setor de serviços para solicitar o financiamento.

A política do FCO visa, preferencialmente, atividades comprometidas com a utilização intensiva de matérias-primas e mão-de-obra locais, sobretudo na produção de alimentos básicos. A análise dos pedidos de empréstimos leva em conta a preservação do meio ambiente e busca incentivar a criação de novos pólos de desenvolvimento capazes de reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões.

Ainda assim, graças ao churrasco da laje, o IDP conseguiu arrancar do fundo, com prazo de pagamento de dez anos, um financiamento de 3 milhões de reais, com base na rubrica "instalação, ampliação e modernização de estabelecimentos de ensino e de prática de esportes". Como garantia para o empréstimo, diz Fernandes, os sócios ofereceram patrimônios pessoais. Mendes colocou à disposição do Banco do Brasil uma fazenda em Mato Grosso. Inocêncio Flores e Paulo Gonet, as casas onde moram, no Lago Sul de Brasília. Nenhum dos três atendeu aos pedidos de entrevi sta de Carta Capital. A assessoria de imprensa do presidente do STF deu, em particular, uma desculpa que até agora causa perplexidade. Segundo a assessoria, Mendes não costuma conceder entrevistas.

A escola tem 22 funcionários, segundo informação do diretor-geral. Os 87 professores anunciados no site não são contratados formalmente, mas profissionais requisitados para cursos específicos, para cursos específicos, pagos pelo sistema de Recebimento de Pagamento Autônomo (RPA). O corpo docente recebe, em média, 6 mil reais por mês, a depender do status acadêmico ou de poder de cada um.

Antes de ser inaugurado, em setembro de 2007, o prédio do IDP sofreu um embargo de seis meses da Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SDET) do Distrito Federal, comandada pelo maior empreiteiro da cidade, o vice-governador Paulo Octávio.

Os fiscais da secretaria descobriram que a obra tinha avançado três metros além da altura máxima permitida pelo gabarito de ocupação da capital. Fernandes garante ter resolvido o assunto burocraticamente, sem interferência política.

Mendes, pelas limitações da Lei Orgânica da Magistratura, não ocupa cargo executivo no IDP, mas costuma fazer retiradas em dinheiro. Na última, pagou 20 mil reais. No STF, seu salário é de 24, 5 mil reais por mês. Além disso, de acordo com Fernandes, o IDP tem restituído aos sócios, em parcelas mensais, 125 mil reais que cada um foi obrigado a desembolsar, no ano passado, para completar o dinheiro da obra do prédio.

O diretor-geral admite ter suspendido as pretensões de contratos com o STF, em 2006, quando veio a público a ligação de Mendes com o instituto. Isso não o impediu, porém, de fechar contratos com o STJ, de onde são oriundos sete professores do IDP. Nem no Senado Federal, onde a influência do presidente do STF ajudou a consultoria jurídica da Casa a escolher, sem licitação, o instituto em detrimento das propostas de três universidades, entre elas a Brasília (UnB), onde muitos dos magistrados contratados pelo IDP também dão aula.

Há outros conflitos de interesses evidentes. O sistema de busca de processos no site do STF mostra que 35 professores do IDP, entre advogados, promotores e procuradores, têm ações em tramitação no Supremo. Ou seja, atuam como parte interessada em processos no tribunal atualmente dirigido por seu empregador.

O nome de um dos sócios de Mendes no instituto, Inocêncio Coelho, aparece 14 vezes na consulta ao site do tribunal.

Por Leandro Fortes.



  Escrito por Idelber às 07:07 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 22 de abril 2009

"Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso"



  Escrito por Idelber às 22:33 | link para este post | Comentários (62)




Um magnífico texto


O Estado, diria Gramsci, é “mais ou menos aquilo que o Foucault vai dizer daqui a algumas décadas sem me dar o devido crédito por ter dito isso primeiro, careca miserável”. Não é só o que o Hegel chamava de sociedade política, o Estadinho lá, com seu congressinho, seu presidentinho, sua policinha, capitão Nascimento, Sarney, essas coisas. É isso também, bem entendido. Mas também é a articulação disso tudo com a sociedade civil, a escola e as academias que elaboram e desenvolvem a visão de mundo dominante, o saber assim produzido, os sindicatos reformistas e partidos social-democratas que mantém o conflito sob controle, a mídia que fixa os limites do debate, a família que transmite os valores dominantes e consagra hierarquias, etc. Se você conquista o Estado czarista, você caia ele de vermelho e os burocratas que obedeciam o czar obedecem você. Mas de nada adianta conseguir uma adesão puramente externa (quem é que era contra o Stalin na frente dele?) em termos de ideologia, sentimentos, valores, saberes. Ou você consegue convencer, sensibilizar, justificar-se, descrever a realidade, ou você, cedo ou tarde, ao invés de impor sua visão de mundo, vai ser lentamente colonizado pelos dominantes conquistados.


Enquanto o Biscoito não desenferruja, confira o magnífico texto sobre a hegemonia, no blog Na prática a teoria é outra.

Concordei com 98% e saí muito inspirado da leitura. Recomendadíssimo.



  Escrito por Idelber às 11:30 | link para este post | Comentários (11)



sábado, 18 de abril 2009

Maranhão: Os Tribunais Eleitorais como instrumentos do golpe de estado

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Depois de quarenta anos de controle absoluto sobre o Palácio dos Leões, a oligarquia Sarney foi derrotada em eleições livres para o governo do Maranhão em outubro de 2006. Jackson Lago (PDT) recebeu 1.393.754 votos no segundo turno e venceu Roseana Sarney (PFL) com quase 100.000 votos de diferença. Ontem, aconteceu o desfecho esperado, que acelera a desmoralização dos tribunais superiores no Brasil. O TSE aceitou a representação da coligação da família dona do estado. Jackson Lago foi cassado por “abuso de poder econômico” durante a eleição. É quase uma piada pronta: um adversário de Sarney ser cassado no Maranhão por abuso de poder econômico.

O desfecho era esperado porque, como sabemos, os Sarney são, literalmente, os donos do Maranhão. Como já notou o blog Loco por ti, no Maranhão você nasce na Maternidade Marly Sarney. Para sua educação, você tem várias opções, as escolas Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney. A oligarquia é dona do jornal O Estado do Maranhão, da TV Mirante (filial da Globo), das Mirante AM e FM e de 35 emissoras de rádio e 13 retransmissoras da TV Mirante no interior. Mas a coisa não pára aí. No Maranhão, o Tribunal de Contas chama-se Roseana Murad Sarney. Caso você queira reclamar, terá que ir à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney, localizada no Fórum José Sarney.

O processo contra Jackson Lago foi tão inacreditável que a presidenta do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (adivinhem como ela se chama? Nelma ..... Sarney!) pediu a presença da polícia para a cerimônia em que a Assembleia Legislativa empossaria Roseana Sarney como nova governadora. Até aí, tudo bem. O singelo adendo é que faz a diferença: o pedido foi feito antes da decisão do TSE. Parece até que já sabiam.

Como meu masoquismo não tem limites, acabei fazendo o que, na minha opinião, os jornalistas deveriam fazer antes de dizer suas bobagens pouco fundamentadas: ler a sentença. Ela está disponível neste pdf. Jackson Lago foi cassado por 11 acusações que, na verdade, se reduzem a duas, compra de votos e abuso de poder na assinatura de convênios. Quanto àquela, as “provas” apresentadas pela oligarquia foram testemunhas, uma das quais, inclusive, se retratou depois. Avaliando esse episódio, o Ministro Marcelo Ribeiro afirmou (p.18): Realmente, Senhor Presidente, causa certa especle que a pessoa venda seu voto e em seguida declare isso em cartório, registre escritura, para, logo após, retratar-se e dizer que não o vendeu.

Talvez o Ministro Marcelo Ribeiro devesse fazer uma viagem ao Maranhão para conhecer o poder de coação da oligarquia Sarney. Alguém em sã consciência acredita que os Sarney teriam alguma dificuldade para encontrar no Maranhão testemunhas dispostas a jurar que foram abduzidas por seres extraterrestres?

Vamos aos convênios. Nada nas 114 páginas da sentença demonstra que os convênios tenham sido em nada diferentes dos milhões de convênios firmados entre governos estaduais e prefeituras pelo Brasil afora. Que esses convênios, em geral acompanhados de comícios, têm objetivo eleitoral, me parece o óbvio do óbvio. Cassemos todos então? O parecer do Ministério Público Eleitoral citado na sentença inacreditavelmente afirma: Basta a probabilidade de comprometimento da normalidade e equilíbrio da disputa para que o diploma seja cassado. A probabilidade. Vejam só.

Roseana já foi empossada pela Assembleia e Jackson Lago continua no Palácio dos Leões, acompanhado de centenas de correligionários. Chegou a declarar que só sairia de lá morto ou arrastado. Ontem, Noblat noticiou que Lago havia voltado atrás e sairia às 9 da manhã de hoje, segundo "sua assessoria". Como o blog de Noblat tem pouca credibilidade, eu não encontrei confirmação em nenhum outro lugar, e já são 9 da manhã aí em Brasília, aguardo mais notícias por outras vias. Maranhenses que estão acompanhando o processo apostam que Roseana vai se licenciar por razões de saúde, voltar ao Senado logo depois e deixar que assuma seu vice, que já comandou um esquadrão da morte.

O prefeito de Campo Novo-MA também foi cassado pelo TRE e a população, revoltada, tocou fogo na Câmara e na Prefeitura. Ainda no Maranhão, o Tribunal de Justiça condenou à aposentadoria compulsória um juiz de pouco mais de quarenta anos. Parece que ele estava incomodando. As notícias maranhenses não controladas pela oligarquia Sarney aparecem no Jornal Pequeno. Aqui é possível ouvir uma entrevista com Jackson Lago. Aqui, você pode ler a constituição do Maranhão, cujo artigo 61 afirma claramente: Vagando os cargos de Governador e de Vice-Governador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga. § 1o - Ocorrendo a vacância nos dois últimos anos do pe­ríodo governamental, a eleição para ambos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembleia Legislativa, na forma da lei..

Não houve, evidentemente, nenhuma eleição na Assembleia. Simplesmente empossaram Roseana.

PS: A foto é daqui. Para a produção deste post, contei com a ajuda e saber jurídico do amigo Alexandre Nodari. A responsabilidade pelo dito aqui, claro, é só minha.



  Escrito por Idelber às 09:57 | link para este post | Comentários (121)



quarta-feira, 15 de abril 2009

Oximoro, nosso tropo

O Brasil é um país em que

a independência ante Portugal foi proclamada por um português,

a República foi proclamada por um monarquista,

o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,

a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,

a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),

o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,

o racismo é encoberto por um termo ('democracia racial') inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,

a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,

a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,

a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,

só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,

a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante,

a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ....

numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes. Essa incongruência não diz algo sobre o que somos?

O Luiz Antonio Simas, em cujo texto este post se inspira, me lembrou de como começo os fatídicos cursos de "Introdução à cultura brasileira" que às vezes me cabe ditar. Peço que abram o dicionário no verbete "oximoro" e começamos a conversa a partir daí.

Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (53)



segunda-feira, 13 de abril 2009

A luta pela democratização da mídia na Argentina

Aí vai o texto meu deste mês na Revista Fórum

Está ouriçada a grande mídia argentina, e particularmente seu maior grupo, o Clarín. Tramita no Congresso desde o dia 18 de março um projeto enviado pelo governo de Cristina Kirchner, que revisa a legislação imposta em 1980, no auge da pior matança ditatorial da história do país. O projeto de Lei de Serviços de Comunicação Audiovisuais limita o poder midiático que um único grupo pode exercer, reduz de 24 para 10 o número de concessões que um indivíduo poderá receber e elimina as restrições à liberdade de informação em nome da segurança nacional contidas na lei da ditadura. Em qualquer sentido que se olhe, ele promove uma democratização ou, pelo menos, as condições para alguma alteração no quadro monopolista de hoje.

Foi o suficiente para que O Globo fizesse uma matéria que, sob a manchete “Casal K faz nova investida contra a imprensa”, conseguia ser ao mesmo tempo sexista – a presidenta é Cristina – e factualmente falsa. Não há, ao longo de todo o projeto, uma linha que atente contra a liberdade de expressão ou informação, muito pelo contrário – ele elimina as que havia na lei de 1980. O projeto de Cristina Kirchner limita, sim, a “liberdade” de que um único grupo controle 70% do mercado. Os números propostos no projeto (limite de 35% para um prestador de serviço em nível nacional, reserva de 33% para entidades sem fins lucrativos) estão bem longe, inclusive, de limitar severamente o grande lucro privado.

Segundo a lei de 1980, o organismo regulador da mídia deve ser composto por militares, empresários e serviços de inteligência. O projeto de Kirchner muda sua composição para representantes da legislatura (incluindo-se a segunda e a terceira minorias) e do Poder Executivo, além de um conselho de trabalhadores do setor, entidades sem fins lucrativos e universidades. Segundo a lei de 1980, os veículos da mídia são obrigados a denunciar os jornalistas que “atentem contra a segurança nacional”. O projeto de Cristina transfere os marcos dessa regulação aos tratados internacionais de direitos humanos.

Mesmo assim, o inacreditável Clarín, que em 1980 saudava a “paz” da carnificina de Videla, sai a bradar contra os supostos ataques à “liberdade de imprensa” que o conglomerado hoje, na Argentina, exerce com plenitude. Em 1980, quando a ditadura argentina assassinava jornalistas, escritores, estudantes, sindicalistas e professores sem que as mães tivessem acesso aos cadáveres, Clarín e La Nación lhe davam apoio – não só com o silêncio cúmplice, mas com a entusiasmada apologia. Agora, diante de uma lei que simplesmente limita o monopólio e garante total liberdade de expressão, os grandes conglomerados fazem o escândalo de dondocas ameaçadas. O Globo chegou a mentir, falando do “trâmite em segredo” de um projeto amplamente debatido na sociedade argentina e sobre o qual o Google já registra centenas de milhares de menções. Não dá para começar a medir o cinismo.

Sejamos justos, no entanto, com o Clarín. Se é verdade que a ditadura argentina matou e traumatizou em níveis ainda superiores aos da ditadura brasileira – e portanto pode se argumentar que o apoio do Clarín a ela é até mais repugnante moralmente que o do conglomerado Globo aos militares brasileiros –, também é verdade que o histórico de criminalidade do grupo argentino ainda não alcançou o da Globo. Pelo menos ele jamais tentou fraudar fisicamente as urnas (como a Globo e o Proconsult, em 1982, contra Brizola), jamais fabricou falsas filiações partidárias de sequestradores (como a Globo em 1989, contra o PT) nem jamais escondeu o maior acidente aéreo da história do país para exibir fotos ilegalmente obtidas de um delegado (como a Globo, em 2006, contra Lula).

As situações dos monopólios no Brasil e na Argentina são relativamente comparáveis. Mas o histórico de bandidagem do oligopólio brasileiro é pior, o grau de concentração da mídia no Brasil – tanto na impressa como na TV aberta – é mais alto, o nível de corrupção dos grupos midiáticos mais agudo e a formação ética e intelectual de seus funcionários infinitamente inferior à dos argentinos. Ou seja, vivemos, neste aspecto, em situação pior. A tramitação deste excelente projeto no Congresso, mesmo sob todo o bombardeio, e a existência de um jornal de alcance nacional à esquerda do centro como o Página 12, sem equivalente no Brasil, são expressão disso.

Há uma certa ousadia que, neste tema, falta ao governo brasileiro e sobra nos Kirchner (tanto no mandato de Néstor como no de Cristina). Mas há também o outro lado. Popularíssimo, o governo Lula tem sido bem mais hábil politicamente que a coalizão de centro-esquerda peronista. Não há dúvidas de que: 1) o governo de Cristina Kirchner sofre um processo intenso e real de desgaste desde o confronto com o ruralismo em 2008; 2) o bombardeio midiático contribuiu com o desgaste, mas este nem de longe pode ser atribuído unicamente àquele.

Pelo contrário: é a falta de alternativas políticas na esquerda argentina que faz com que o cerco do conservadorismo ruralista-midiático tenha condições de sangrar o governo como tem feito. Se os leitores de jornal do Brasil não têm uma opção como Página 12, os sujeitos políticos argentinos não têm uma alternativa aos tentáculos burocráticos do PJ (Peronista) comparável à renovação que o Partido dos Trabalhadores, com todas suas limitações, construiu como alternativa ao populismo brasileiro clássico.

Conjugada com a forma divisionista e polarizante de governar que têm os Kirchner, essa falta de alternativas tem sido fatal para as causas progressistas na Argentina. Mesmo considerando-se o oportunismo do vice-presidente Cobos, a situação de ruptura com ele é daninha e segue contribuindo ao sangramento do governo. A própria estrutura do Partido Justicialista, muito regionalizada, expôs a base do governo à ofensiva ruralista, com severos prejuízos eleitorais e políticos. Pessoalmente, não sou dos mais otimistas quanto às chances do excelente projeto de mídia do governo no Congresso. Mas a experiência argentina continua sendo, nas suas semelhanças e diferenças com a nossa, um processo imprescindível de se acompanhar



  Escrito por Idelber às 15:57 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 08 de abril 2009

Um link fácil ao Heidegger e ao Derrida de Potel

Como se sabe, as obras de Heidegger e Derrida compiladas pelo Prof. Horacio Potel foram retiradas da internet por ordem judicial, a partir de demanda da Editora Minuit e da Câmara Argentina do Livro. Mas quem quiser descarregá-las, pode fazê-lo no Easy Share.

Seria divertido se o Prof. Potel colocasse um link ao Easy Share nos antigos sites. Afinal de contas, a ordem judicial manda que ele retire os textos; ela não diz nada acerca de links a esses mesmos textos hospedados alhures.

As belíssimas compilações derridiana e heideggeriana do Prof. Horacio Potel já estão salvas em dois outros servidores. A internet resiste.


PS: Obrigado, Alexandre Nodari.



  Escrito por Idelber às 08:41 | link para este post | Comentários (11)




Consultor Jurídico e suas mentiras

Um garoto com razoáveis aulas de interpretação de texto em nível de segundo grau não teria muitas dificuldades para desmontar a farsa armada pelo site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Mendes, a partir dos rascunhos (pdf) arrancados do computador do Delegado Protógenes Queiroz durante a recente ofensiva contra ele. Não surpreende, evidentemente, o timing da “matéria”, bem na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI, aquela presidida por Marcelo Itagiba, que declarou que vai pedir o indiciamento do delegado por falso testemunho caso ele não diga a “verdade” hoje. Resta saber qual é a “verdade” que o Sr. Itagiba, de conhecidas ligações com Dantas, quer realmente ouvir.

A farsa do Consultor Jurídico começa com uma manchete escandalosa, ao estilo Veja: “Quem são os jornalistas perseguidos por Protógenes”. Mas ao ler os rascunhos de Protógenes, não se nota perseguição nenhuma, e sim uma série de anotações acerca de escutas telefônicas realizadas legalmente, ou seja, uma investigação. Não há obsessão em perseguir nenhum jornalista em particular, só tentativas de compilar e analisar informações que sustentem uma hipótese que vai se mostrando, aliás, bem verossímil na medida em que se avança na leitura: a de que Dantas usou setores da imprensa como cúmplices.

A primeira frase da farsa do Consultor Jurídico também é uma mentira deslavada: Pelo menos 25 jornalistas de renome, que atuam em grandes veículos de comunicação, foram acusados pelo delegado federal Protógenes Queiroz de fazer parte de um esquema conspiratório a favor do banqueiro Daniel Dantas... Mas se você ler os rascunhos, verá que não há acusações contra “25 jornalistas”. Há suspeitas contra alguns, mera menção de outros, utilização de reportagens feitas por outros na sustentação dos fatos etc. O Consultor Jurídico, em manobra retórica de extrema pobreza, tenta confundir tudo sugerindo que há “acusações” contra 25 jornalistas. Não há. É só ler o texto.

Daí em diante, o Consultor Jurídico arrola muitos adjetivos, poucos fatos, bastante distorção do texto de Protógenes e o coroamento triunfal: um quadro em que se listam “os jornalistas citados no relatório”, como se todos eles tivessem sido acusados por Protógenes. Não foram. A matéria publicada pela Carta Capital no dia 09 de abril de 2008, por exemplo, é citada pelo delegado como evidência de que os tentáculos de Dantas na mídia estavam, também, sendo analisados por alguns veículos. Mino Carta e Jonathan Wheatley, do Financial Times, são citados nos rascunhos de Protógenes como fontes de informações, não como braços de Dantas.

O Consultor Jurídico faz um quadro misturando os nomes de todos sob o anódino particípio “citados”, talvez com a esperança de confundir o seu leitor. Assim:

nomes-citados-relato1.png

Luiz Antonio Cintra, da Carta Capital, um dos jornalistas “citados” na montagem do ConJur e supostamente defendidos por eles contra o orwelliano delegado, já se manifestou:

A lista de jornalistas, da qual o meu nome faz parte, trata de misturar suspeitos e não suspeitos, de modo a desqualificar o trabalho do delegado Protógenes. A mesma estratégia da defesa de Dantas.

No texto, o autor afirma que a lista refere-se aos jornalistas “acusados” de receber dinheiro do DD. Ao ler o relatório, percebe-se que em nenhum momento o delegado fez tal acusação. Trata-se, obviamente, de difamação, pela qual o site terá de responder na Justiça.

Note-se que a divulgação da tal lista ocorreu no mesmo dia em que a CPI confirmou o depoimento do delegado para amanhã. Mera coincidência ou estratégia jurídica?

Saudações,
Luiz Antonio Cintra
CartaCapital

O site Consultor Jurídico continua mentindo no segundo parágrafo: No relatório, o delegado parte da premissa de que o banqueiro Daniel Dantas armou um esquema para corromper jornais, revistas e jornalistas em geral para que todos trabalhassem a favor de seus objetivos escusos. Ora, o-pdf-ao-que-o-ConJur-teve-acesso-não-se-sabe-como não é, evidentemente, um “relatório”, já que ele não estava pronto para ser entregue a ninguém. Eram anotações pessoais, rascunhos, trabalho em processo.

E assim caminha a farsa armada pelos representantes de Gilmar Mendes na internet jurídica, ao ritmo de uma mentira por frase. Tomados de pânico corporativo, os jornalistas da grande mídia repercutem a manobra acriticamente, linkando a mentirada do ConJur e não oferecendo sequer o link direto às páginas confiscadas do computador de Protógenes, onde, diga-se, não existe "lista" nenhuma.

Eu mencionei que tudo isso aconteceu na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI de Itajiba e um dia depois que a turma de Gilmar Mendes derrubou um prefeito legitimamente eleito em Diamantino, no momento em que ele iniciava a auditoria nas contas do antecessor, Chico Mendes, irmão de Gilmar?

PS: Bati um papo por email com o Guilherme Póvoas.



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sábado, 04 de abril 2009

Processo judicial retira da internet as melhores páginas sobre Heidegger e Derrida

A notícia e quase todos os links me chegam via Catatau. A bolorenta, naftalínica e anacrônica lei de copyright continua fazendo seus estragos pelo mundo afora. Horacio Potel, professor de filosofia da Universidade Nacional de Lanús, na Argentina, é o responsável por dois sites dedicados às obras de Heidegger e Derrida, nos quais ele havia compilado, desde 1999, com financiamento próprio e sem fins lucrativos, uma impressionante coleção de traduções castelhanas dos dois filósofos. Elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.

Eis que a editora francesa Minuit aciona a embaixada francesa em Buenos Aires e esta aciona a Câmara Argentina do Livro, de triste memória. O professor Potel recebe a singela visita da polícia, que lhe comunica que ele é vítima de um processo judicial por violação da lei de copyright. Avisam-lhe que ele pode receber de um mês a seis anos de cadeia por tornar disponíveis esses textos, ainda protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos. Avisam-lhe também que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.

É difícil sobredimensionar o que representaram essas páginas para os estudantes de filosofia sem grana em toda a América Latina. As edições espanholas têm preços proibitivos nos países hispanoamericanos. Não é raro que uma brochura de 80 páginas chegue a Buenos Aires custando o equivalente a 60 dólares. O site feito pelo Professor Potel com as obras de Nietzsche – livre da querela judicial, já que o bigodudo morreu em 1900 – recebeu mais de quatro milhões de visitas. Eu mesmo conheço vários alunos latinoamericanos que se iniciaram nestes autores através do trabalho voluntário do Professor Potel, e depois, inclusive, passaram a comprar os livros. heidegger.jpg

Sei que do ponto de vista jurídico não há o que discutir. Os sites configuravam, sim, violação à lei de direitos autorais. O irônico na história é que toda a obra tardia de Derrida está justamente dedicada a desenredar a teia que enlaça os conceitos de sujeito e de autoria com suas ramificações legais nas leis de copyright e de propriedade intelectual. Não tenho a menor dúvida de que Derrida teria visto com carinho o trabalho de Potel. Entre 1999 e 2004, Derrida com certeza teve amplas oportunidades de ouvir falar desse site, e não moveu uma palha para desativá-lo. Este mp3 traz uma entrevista com Horacio Potel, em que o educador relata toda a história.

O Catatau nos prestou o inestimável serviço de colocar links para cada um dos textos na Wayback Machine. Aqui estão as obras de Heidegger e aqui está a impressionante compilação de Derrida. Como sói acontecer com as demandas jurídicas envolvendo a internet, os querelantes remam contra a maré do nosso tempo. Seguindo os links do Catatau é possível copiar, guardar e reproduzir esses textos, deixando que a infinitamente livre circulação de informações pela rede mundial de computadores faça o trabalho de corroer uma lei injusta e anacrônica (enquanto a Wayback Machine não é censurada também). O Biscoito deixa sua solidariedade – e o profundo agradecimento de educador – a Horacio Potel, que está passando por um verdadeiro inferno neste momento.


PS: Alguns dos links acima afirmam que a Editora Minuit só publicou uma obra de Derrida. A informação está incorreta. A Minuit publicou sete obras de Derrida. O que não muda nada na história, claro.

PS 2: A semifinal do basquete universitário começa daqui a pouco. A final é na segunda à noite. Se você gosta do blog, torça pelo meu time, porque se perdermos o Biscoito sofrerá um tremendo baque. Eu trocaria, feliz da vida, as cinco Copas do Brasil por mais esse título para os Tar Heels. A CBS Sports transmite pela internet. Imperdível.

PS 3: Parabéns, imensa nação colorada!



  Escrito por Idelber às 19:21 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 03 de abril 2009

Acabou o Lexotan em Higienópolis




O que faz a República Morumbi-Leblon quando os fatos a contrariam? Ora, mentem descaradamente e distorcem os fatos, é claro.

Fontes próximas ao Biscoito Fino e a Massa confirmam que a próxima edição do programa de Jazz da Rádio Senado será dedicada à música triste e elegíaca de Ornette Coleman.



  Escrito por Idelber às 06:47 | link para este post | Comentários (77)



quarta-feira, 01 de abril 2009

Eurípides Alcântara e Revista Veja derrotados nos tribunais

Em sentença histórica -- na medida em que não é muito comum que um grupo de mídia processe um jornalista por reportagens dedicadas a estudar esse mesmo veículo --, o Juiz Carlos Henrique Abrão, da 42a Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida por Revista Veja e seu diretor de redação Eurípides Alcântara contra Luis Nassif. A fundamentação da sentença é magnífica. Escreve o magistrado:

A liberdade plena de imprensa, maior conquista das democracias ocidentais, observa o ângulo da transparência, seriedade e compromisso com a verdade. Difícil manter a harmonia quando interesses econômicos, políticos, sobretudo empresariais, sem sobra de dúvida, flexionam os limites da ética e da moralidade da imprensa.

Falando daquilo que o autor deste blog considera como um caso típico de litigância de má fé do conglomerado Civita e de seu subordinado útil Eurípides Alcântara contra Luis Nassif, o Juiz Carlos Henrique Abrão escreve:

Desenhada a arquitetura da lide, o seu ambiente divergente, feito o bosquejo do essencial, e tendo em mira a mudança de mentalidade surgida com a guerra midiática dos informes eletrônicos, blogs, equipamentos disponíveis, sopesando, um a um, todos os aspectos, a prova amealhada não permite, salvo melhor juízo, o acolhimento desta ação. Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações, abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado.

No entanto, o jornalista não está obrigado a agradar, o fundamental, assinale-se uma vez mais, dependerá da investigação em andamento, a cargo da autoridade competente, no modo de ver do réu, se alguns jornalistas da Veja tinham contato com o banqueiro, seus escritos somente poderiam contar com a anuência do diretor de redação. E neste sentido, segundo se extrai de fonte segura, teria constado no relatório da Policia Federal capitulo especial dedicado às relações do banqueiro com a mídia, ou seja, em outras palavras, a exposição não desbordou os lindes exigidos pela Lei maior e de imprensa. Não houve qualquer dolo especifico de querer ferir suscetibilidade, tanto que na sua fala derradeira, o próprio réu reconhece, nenhuma intenção de ofender, expressa preocupação com a verdade. Deveras pode ter se precipitado ao estampar a matéria sem prévia consulta, mas seria ingenuidade pressupor que haveria confirmação, douto ângulo, sem findar a investigação e esmiuçar toda a teia multifacetária das alianças, não se pode concluir que houve despautério ou mesmo ofensa à honra do jornalista.

Atendo-se à letra da lei, o Juiz avaliou precisamente o que deve ser avaliado numa de ação de danos morais: o dolo, por um lado, e a relação e o dito e a verdade, por outro. O Juiz concluiu que não houve dolo (Eurípides continua lá, como chefe de redação) e demonstrou a plausibilidade de que tudo o que Nassif diz sobre a Veja seja verdade mesmo – que é o necessário aqui. Técnico, impecável, o magistrado reitera que julga a ação, não a veracidade da reportagem de Nassif. Mas estabelece claramente que Nassif seguiu pautas jornalísticas em seu trabalho. Categórico, o Juiz desmonta a pretensão da Revista Veja de extorquir cem mil reais de indenização do jornalista.

Muito pouco apreço pela verdade e pela própria dignidade terá qualquer advogado que recorra desta decisão em nome da Revista Veja. Trata-se de uma sentença histórica em defesa da genuína liberdade de imprensa, não desse falso slogan que evocam os grupos de mídia quando são contrariados. A sentença está disponível na íntegra neste pdf.


PS: Agência Carta Maior e Imaginação Sociológica lembram-se do aniversariante golpe, que foi mentiroso até na data.

PS 2: Morreu Raúl Alfonsín, um homem que apesar de fazer algumas concessões em momentos difíceis, foi um político epocal, digno, que nos brindou uma memória indelével: os fascínoras da Junta Militar sendo julgados nos tribunais. Alfonsín era um homem de idéias, um político que gostava de ter gente pensante ao seu lado. Sua vitória em 1983 foi a primeira vez em 40 anos que o peronismo perdeu uma eleição livre.



  Escrito por Idelber às 07:00 | link para este post | Comentários (37)



segunda-feira, 30 de março 2009

Links

Ainda no terreno jornalistas-processando-e-silenciando blogueiros, atente-se para o caso do Prof. Wladimir Ungaretti, da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cujo Ponto de vista satirizava e desmascarava a picaretagem da grande mídia, incluindo-se aí as manipulações de imagem de um jornalista apelidado de Fotonaldo. Eis que Fotonaldo, sem responder nenhuma crítica, consegue a ordem de retirada dos materiais que lhe dizem respeito do site do Prof. Wladimir, que acabou deixando o silêncio em forma de protesto enquanto recorre. Escreve sobre o caso a Ariela Boaventura. Li em primeiro lugar sobre essa lamentável decisão judicial no RS Urgente.

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O Groselha News está de casa nova.

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Guaciara, Urbanamente e Sorriso de Medusa são blogs de velhos amigos deste espaço que passaram a fazer partes dos links aí à esquerda.

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O Estado de Minas dá o seu chilique (atentado??) no episódio em que a UFMG ganhou nos tribunais um direito de resposta depois suspenso pelo TRF da primeira região. Para um contraponto, leia Direito de resposta e liberdade de imprensa, de Luis Nassif.

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Ainda os tribunais: jogador de futebol ganha indenização de jornalista que o havia chamado de QI de alface. Onde? Em Minas Gerais, evidentemente. Time? Ex-Ipiranga, óbvio.

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Sobre a prisão e subsequente liberação de Eliana Tranchesi, ofereço dois links para pontos de vista bem diferentes: Leonardo Sakamoto e Ely Ery Roberto Correa (este via Jayme, que outro dia disse tudo o que penso e nunca escrevi sobre Ferreira Gullar).

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Todo mundo já recebeu emails-corrente propondo boicote a isso e aquilo. Só Rafael Galvão, no entanto, é capaz de tomar um deles como mote para fazer arte. Leia também, da lavra do Paraíba, Sobre livros e Pequena eulogia a um gênio da raça que desgraçou a si e ao seu mister. O Paraíba é um blogueiro preguiçoso. Tece posts com a urgência de um Caymmi diante do mar. Às vezes, larga o blog às moscas. Quando volta, reassume seu lugar de direito: um dos melhores prosadores da internet brasileira.


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Links em outras línguas:


Entendamos a diferença entre a grande mídia brasileira e a argentina. O Brasil não possui um veículo como o Página 12 que, faz um mês, é o único jornal latinoamericano que leio. Confira o Nuevo diccionario de la derecha criolla.

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A Sorbonne está em pé de guerra.

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Confesso que tenho desenvolvido um certo prazer sádico em ler textos sobre a lenta e inapelável agonia do jornalismo em sua forma, digamos, canônica das últimas décadas. Em inglês, aí vai uma seleção. A algum deles com certeza eu cheguei via Tiago Dória.

Pesquisa do Pew Research mostra que a grande maioria dos americanos não está nem aí para a morte dos jornais regionais.

Na Slate, Jack Shafer põe os pingos nos i's: É hora de jogar fora a idéia de que jornais são essenciais para a democracia. A liberdade de imprensa é essencial para a democracia. Jornalistas que estão agonizando na grande mídia adoram confundi-la, essa liberdade, com a existência de conglomerados mídiaticos na forma que os conhecemos hoje.

No Guardian, Nick Cohen faz um alerta interessante à BBC.

Até John Nichols and Robert W. McChesney no The Nation, quem diria, no meio de uma bela análise da situação, dão essa idéia maluca de criar um imposto para sustentar jornal. Socialista convicto, peço que me incluam fora dessa.

Segurem mais uma: conglomerados de mídia vão ao Google pedir que se manipule a fórmula para que saiam melhor colocados nas buscas. É inacreditável (via Piro).

Finalmente: entrevista com Bill Moyers sobre Jornalismo e democracia.



  Escrito por Idelber às 13:11 | link para este post | Comentários (67)



sexta-feira, 27 de março 2009

Jornalista Felipe Vieira foge do pau e se agarra à vara dos tribunais

Vejam vocês, para usar um termo caro à parte querelada, a dêmencia em grau inaudito:

Se jornalista não processa jornalista era o lema dos funcionários dos grandes grupos de mídia no passado, com a internet e o mínimo trabalho de ombudsman que fazem certos blogs, passamos à fase seguinte da brincadeira. Agora as dondocas da grande mídia correm aos tribunais para processar jornalistas-blogueiros independentes quando estes lhe cobram explicações as mais razoáveis sobre seu trabalho e seus vínculos.

O Sr. Felipe Vieira é âncora de um programa da Bandeirantes RS e signatário de um site “jornalístico” irrelevante com patrocínio de dinheiro público gaúcho. Processa os blogueiros do Nova Corja por um post de quase um ano atrás, dedicado na verdade a outrem (que já processou o NC e perdeu, aliás). Naquele post, o Nova Corja questionava a lógica do patrocínio, apontava a realidade de chapabranquismo no jornalismo gaúcho e dava o link ao site do Sr. Vieira, para que os leitores pudessem julgar por si próprios. No seu site de “jornalismo”, entre dezenas de manchetes, não há uma única que aluda ao atual colapso político, moral, institucional e financeiro do governo Yeda Crusius. Parece um gaúcho escrevendo na Suécia.

O Sr. Vieira, que tem site próprio patrocinado com dinheiro público, tem acesso à Bandeirantes do Rio Grande do Sul, e foi citado uma vez num blog que jamais apaga comentários e que publicaria com destaque e na íntegra a sua resposta, caso enviada, escolhe não encarar o debate e corre para os tribunais. Sobre essa desfaçatez, Marco já disse tudo.

Examinemos o contexto do processo.

Ele é primo de outro, movido por Políbio Braga contra a Nova Corja. Você conhece Políbio Braga? Eu também não, mas ele ficou mais conhecido quando processou o NC e perdeu, sendo condenado pelo Juiz a pagar os custos do litígio e os honorários.

A atual, fútil querela do Sr. Felipe Vieira pode ser lida na íntegra neste pdf. Ela contém pelo menos duas gafes. Em primeiro lugar, confundem-se e processam o Jones Rossi errado. Em segundo lugar, demonstram não saber – ou fingem não saber, dá na mesma – o que significa a palavra “relevância”. Tomam-na como injuriosa, quando ela de fato se refere a realidade mensurável e universalmente conhecida por quem usa a internet.

Como já demonstrou o Leandro Demori, ex-integrante do NC e também interpelado neste processo, “relevância” é categoria objetiva medida por ferramentas como Alexa, Technorati, Google Page Rank. Você pode discutir qual é a melhor. Inegável é o fato de que segundo qualquer uma delas, o site do Sr. Felipe Vieira é irrelevante mesmo. Para dar um exemplo, o site do Sr. Vieira, que aparece na mídia e recebe dinheiro público, tem Google Page Rank 3. Tanto o NC como o Biscoito, artesanais e independentes, têm Page Rank 5.

Através de seus representantes, o Sr. Vieira, com site próprio patrocinado com dinheiro público e acesso à Bandeirantes do Rio Grande do Sul, afirma que o post de um ano atrás do Nova Corja afetou sua “autoestima”. O Biscoito Fino e a Massa sugere que ele pare de gastar dinheiro com advogados – pressupondo que com salário de jornalista ele pague advogados tão caros – e invista na psicanálise. O Biscoito recomenda a freudiana, que não está presa à superstição ego-psicológica de que baixa autoestima se resolve através de uma aliança do analista com a parte saudável do ego.

Confio que qualquer juiz sensato verá que temos aqui uma querela fútil, pouco fundamentada, de potencial daninho à liberdade de expressão e ancorada numa leitura abusiva dos artigos referentes a injúria e difamação.

Atualização: Träsel também falou do assunto, cometendo generosidade de que fomos incapazes, que é dar o link para o Sr. Vieira. O Biscoito teria dado o link caso o Sr. Vieira tivesse discutido o assunto em seu site. Não o fez, não ganha pirulito. Penso em adotar a seguinte regra aqui: trabalha na grande mídia e processou blogueiro por crime de opinião, não ganha pirulito no Biscoito, pelo menos não no corpo do post. O leitor que ache pelo Google.



  Escrito por Idelber às 19:11 | link para este post | Comentários (48)



terça-feira, 24 de março 2009

Links: Lei de democratização da mídia na Argentina

cristinak.jpg

Em meio a inegável desgaste desde o conflito com o ruralismo iniciado ano passado, o governo de Cristina Kirchner produziu um belo projeto de lei limitando os oligopólios na mídia e retirando as restrições à liberdade de expressão presentes na lei anterior, de 1980. Já o enviou ao Congresso. O projeto transforma o organismo de regulação da mídia, que segundo a lei da ditadura deve ser integrado por militares, empresários e membros dos serviços de inteligência, em conselho composto por representantes do parlamento (inclusive da segunda e terceira minorias), Executivo, trabalhadores do setor, entidades sem fins lucrativos e universidades. Limita em 35% o naco de mercado de qualquer oligopólio e em 10 o número de concessões permitidas a um único indivíduo. Enquanto a lei de 1980 obriga os veículos de mídia a denunciarem o jornalista que atente contra a "Segurança Nacional", o projeto de Cristina estabelece os tratados internacionais de direitos humanos como marco.

Mesmo assim, Clarín e Globo já deram os previsíveis chiliques sobre o governo argentino supostamente estar tentando "controlar" a mídia. A manchete do Globo falou em "investida contra a imprensa" e sua matéria chegou a mentir, cometendo a incrível gafe de se referir ao "trâmite em segredo" de um projeto debatido em blogs, botecos e sindicatos em cada canto da sociedade civil argentina, e sobre o qual o Google registra dezenas de milhares de menções.

Para ler a íntegra do excelente projeto do governo de Cristina Kirchner, baixe o pdf aqui. Em breve publico um texto mais encorpado sobre essa iniciativa, mas por enquanto aí vão alguns links:

Conseguirá Cristina fazer o que Lula não fez?, de Venício A. de Lima.
Os inimigos da mídia hegemônica, de Mário Augusto Jakobskind.
Nova legislação para a comunicação argentina, de Jonas Valente.
Todas as vozes, todas, de Emir Sader.
Los cambios que introduce el proyecto, resumão do Página 12.
Hay que cambiar esta ley de la dictadura, de Javier Lorca
Ley de medios... hay que ver si no se incendia el país”, entrevista com Juan Pablo Feinmann.

Aqui e aqui você pode ler críticas ao governo de Cristina Kirchner, algumas das quais acho pertinentes. Mas o projeto de lei sobre a mídia é de potencial democratizador sequer imaginável no Brasil de hoje, o que não quer dizer que o Congresso argentino o aprovará, claro. A batalha contra os oligopólios de mídia é sempre duríssima.

PS: No Brasil, cresceu bastante o número de entidades que apoiam a realização de uma Conferência Nacional de Comunicação, que já gera suas resistências.



  Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 23 de março 2009

Gilmar Mendes "sabatinado" na Folha

Servindo-me de vários links e informações contidas no blog do Mello, encaro a tarefa – sim, a estas alturas não é nem prazer nem exercício, mas pura tarefa cívica -- de circular mais uma vez algumas sugestões e perguntas que estão entaladas na garganta de muitos brasileiros que têm acompanhado as lamentáveis incursões do presidente do STF pelos holofotes midiáticos.

Como não há sentido em republicar post na íntegra, dirijo de novo a atenção dos leitores para as 25 perguntas que formulei no fim do ano passado, uma das quais (a número 8) chegou a ser feita no Programa Roda Viva. A pergunta – “O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?” -- continha, por falta de traquejo jurídico meu, uma imprecisão, ou um erro, como queiram. Faltava-lhe, no final, a expressão sequer a julgamento em primeira instância. Sabendo muito bem, suponho, o que a pergunta queria dizer, Gilmar Mendes aproveitou a imprecisão para desqualificá-la sem responder. Neste pdf é possível ler a amplamente documentada reportagem que Leandro Fortes publicou na revista Carta Capital, fonte de algumas das informações usadas nas perguntas.

Desde então, tivemos o episódio da ameaça ao jornalista acreano que fez uma pergunta legítima acerca da preferência do magistrado do STF por denunciar violências cometidas por membros do MST e silenciar sobre a infinitamente mais disseminada e poderosa violência do latifúndio armado.

Desde então tivemos o epidósio do programa da TV Câmara sobre o qual Gilmar Mendes exerceu efetiva censura, telefonando a Michel Temer e exigindo sua retirada do site da Câmara, segundo informa o jornalista – este sim, jornalista de verdade – Leandro Fortes:


25 perguntas, pois, que para mim continuam pendentes. E o Mello fez mais algumas. A sabatina acontece nesta terça, das 10h às 12h, no Teatro Folha (av. Higienópolis, 618, no shopping Pátio Higienópolis).



  Escrito por Idelber às 20:21 | link para este post | Comentários (33)



domingo, 22 de março 2009

Tortura, verdade e democracia

(aí vai o texto da minha coluna deste mês na Revista Fórum)

Os últimos oito anos em que a coalizão de ultradireita que governou os EUA assumiu a prática da tortura como política estatal só aumentaram a importância de se dirimir alguns mitos acerca do tema. Um desses mitos é a crença – disseminada amplamente entre setores da esquerda – de que a prática da tortura seria uma espécie de negação da essência da democracia, ou que a democracia seria algo como um antídoto contra a tortura, ou que esta, no fundo, negaria os valores democráticos, de racionalidade e liberdades individuais. O fato histórico concreto, no entanto, é o oposto: no momento em que “democracia”, “verdade”, “racionalidade” estavam sendo inventadas, a prática da tortura foi componente fundamental no processo em que esses ideais se faziam. Ali, na origem mesma da democracia, a tortura já era um de seus elementos chave.

Tortura e verdade (Editora Routledge, 1991, não traduzido no Brasil) é um livro revolucionário da classicista estadunidense Page DuBois sobre a prática judicial da tortura, na Grécia Antiga, em suas relações com a produção da noção filosófica clássica de verdade, assim como na construção da oposição binária entre escravo e cidadão livre. O livro parte de uma premissa: “a assim chamada alta cultura – práticas e discursos filosóficos, forenses e civis – vai de braços dados, desde o começo, a partir da antiguidade clássica, com a inflição deliberada de sofrimento humano”. DuBois passa a mapear o processo pelo qual, na pólis ateniense, o corpo do escravo é juridicamente convertido em objeto de tortura e em canal privilegiado da verdade. Por um bom tempo nos tribunais atenienses, o homem livre não podia ser torturado, mas o escravo sim. Não só era comum torturar escravos, mas se pressupunha que o escravo produziria a verdade quando torturado.

A palavra que designa “tortura” em grego, basanos, evolui de um sentido anterior de “pedra de toque que testa o ouro” para uma acepção mais ampla de “teste que define se algo é genuíno ou real”. Com o tempo, o vocábulo teria passado a significar “interrogatório através de tortura” e o próprio ato de torturar. Numa reconstrução cuidadosa, DuBois examina os contextos em que basanos aparece na épica homérica, em poetas aristocráticos como Teógnis e Píndaro, em trágicos como Sófocles e Ésquilo, na sátira de Aristófanes, na historiografia de Heródoto, nos discursos de Demóstenes e Licurgo e nas obras filosóficas de Platão e Aristóteles. É em Sófocles (aprox. 497-406 a.C.) que DuBois observa a transição do sentido de basanos de “teste” para “tortura”. A tortura não só era amplamente praticada na democracia ateniense, mas foi um componente fundamental de como a verdade viria a ser concebida e de como a diferença entre cidadão e escravo seria estabelecida.

Na democracia grega, o testemunho jurídico do escravo era tido como verdade se, e somente se, esse testemunho fosse extraído sob tortura. Na medida em que o escravo era uma valiosa propriedade, passível de ser danificada pela tortura, era a prerrogativa de seu dono oferecê-lo para o basanos. Essa prática não podia ser aplicada a cidadãos, aos homens livres. A tortura operou, então, para fixar e controlar a própria instabilidade da dicotomia entre cidadão e escravo. O pensamento grego nunca conseguiu naturalizar a separação entre homens livres e escravos, já que os livres de hoje podem converter-se nos escravos de amanhã, por exemplo através da derrota numa guerra. Esse pensamento tentou, mas foi incapaz de fundamentar biológica ou ontologicamente o fato social da escravidão, apesar dos melhores esforços de Aristóteles, que naufragam na tentativa de explicar por que os escravos são desprovidos de razão. Se há uma diferença natural entre o cidadão e o escravo, como é possível que os livres possam se tornar escravos ao serem derrotados no campo de batalha? Como justificar ontologicamente a estrutura política que permite a sistemática imposição de dor sobre certos seres humanos e não sobre outros?

O Livro III da Política, de Aristóteles, encara essa mais inglória das tarefas, definir o que, afinal de contas, é um cidadão e o que o diferenciaria do não-cidadão: “Os residentes estrangeiros [metoikoi] (...) não participam senão imperfeitamente da cidadania, e os chamamos de cidadãos só num sentido qualificado, como poderíamos aplicar o termo a crianças que são jovens demais para estar registradas ou a idosos que foram desobrigados das funções estatais”. Metoikoi é o nominativo masculino plural derivado do verbo metoikos, que significa “mudar de residência, emigrar e estabelecer-se em outro lugar”. Quanto mais Aristóteles acredita que a expressão exata é “imaterial” e que “o que queremos dizer está claro”, mais embaçada e confusa torna-se a fronteira. Quando Aristóteles termina de excluir as mulheres, as crianças, os escravos, os idosos, os residentes estrangeiros e outros não-cidadãos, resta-nos uma categoria à beira do desmoronamento. Não se trata de que pouco a pouco, depois de eliminar todos, não permaneça ninguém. Alguém sempre se qualificará como “cidadão”: o domínio dos homens adultos nascidos em Atenas, falantes de grego e donos de propriedades mostra que a ontologia pode estar capenga, mas isso não a impede de operar politicamente para favorecer os mais poderosos.

O que Aristóteles chama de “cidadão” é aquele lugar virtualmente vazio que sobra uma vez que eliminemos todos os não-cidadãos. O horror da não-cidadania é também um vazio voluptuoso que ameaça tragar todos os cidadãos, porque eles poderão ficar velhos, perder suas propriedades, ser exilados ou conhecer a derrota na guerra. Como diferenciar o cidadão do não-cidadão se o destino daqueles é juntar-se a estes quando fiquem velhos, se exilem ou percam uma guerra?

A prática da tortura na democracia grega cumpriu um papel na estabilização dessas fronteiras meio impossíveis de estabilizar, entre cidadão e não-cidadão e entre homem livre e escravo. O escravo é aquele que pode ser torturado. E por que ele é torturado? Porque da tortura [basanos], emerge a verdade [aletheia]. Ali, ao lado dos tribunais onde se torturavam os escravos, a filosofia ocidental inventava o conceito de verdade, a prática política inventava a democracia e a jurisprudência inventava o que se entenderia por justiça. Que fique estabelecido, pois, que nenhuma dessas disciplinas tem as mãos completamente limpas se formos relatar em detalhe a história da tortura no Ocidente: a própria invenção dos seus conceitos chave é parte da institucionalização da tortura na pólis grega.

A hipótese de DuBois é que o estabelecimento do corpo do escravo como corpo que pode ser torturado (e que será necessariamente verdadeiro quando submetido à tortura) foi chave na constituição mesma do conceito de aletheia, de “verdade”, para os gregos. Se recordamos A verdade e as formas jurídicas (pdf), texto de Michel Foucault apresentado pela primeira vez no Rio de Janeiro em 1973, duas concepções de verdade entraram em choque no pensamento grego. Por um lado, há a compreensão mais antiga da verdade como produto de uma luta, uma batalha, uma prova através da qual algo emerge: concepção épica. Por outro lado, há a concepção da verdade como essência enterrada e escondida, esperando para ser desvelada e trazida à luz, extraída de uma interioridade desconhecida que o conhecimento tentaria penetrar: concepção mais propriamente filosófica. Esta é a ideia sexualizada, bem masculina de verdade, que prevaleceria em última instância. Esse processo de extração da verdade mantém uma dívida com a tortura exercida sobre o corpo do escravo, já que é a sanção jurídica da tortura que confere à filosofia a metáfora que organiza o seu conceito central, a verdade.

O basanos dissolve a resistência, traz à luz, arrasta rumo à visibilidade. A metáfora que descreve a tortura replica o movimento do filósofo que arranca a verdade de sua condição velada. É n' O Sofista, de Platão, que melhor se deixa ver o laço entre, por um lado, a extorsão através da qual o filósofo traz à luz a verdade, arrancando-a do sofista, que permanece cego, inconsciente e, por outro lado, o processo característico da produção jurídica da verdade através do corpo do escravo: “A melhor maneira de obter a confissão da verdade seria submeter o próprio enunciado a um leve grau de tortura [basanistheis]”, diz Platão. Há uma analogia entre o suplício sofrido pelo escravo no tribunal e aquele imposto ao sofista. Como o escravo, o sofista somente revela a verdade sob violento interrogatório e pressão. As odiosas narrativas hipotéticas com que a administração Bush e seus lacaios na mídia racionalizavam a tortura – “imagine um terrorista com informação sobre a explosão de uma bomba nuclear, etc.”: o cúmulo da ficção – não deixam de ter, é importante sublinhar, seus antecessores mais “nobres”, nas origens mesmas da democracia e filosofia ocidentais.

É possível mapear, no pensamento grego, uma concepção antidemocrática de verdade entendida como algo que se arranca do corpo do outro. O processo descrito por Platão evoca diretamente o basanos em seu contexto legal. A metáfora platônica transforma o sofista num corpo que deve submeter-se a um sofrimento, um suplício imposto pelo logos. A lógica e a dialética são artes da tortura, nela estão implicadas e assim foram teorizadas, no momento mesmo de sua constituição e sistematização, no texto platônico. A caça ao sofista inaugura uma longa tradição de metaforização da verdade como encarceramento na filosofia ocidental, tropo que retornaria, por exemplo, na luta épica de Descartes para impor uma derrota humilhante à dúvida.

A violência através da qual emerge o conceito de verdade na Grécia traz marcas das hierarquias de gênero. O pensamento grego estabeleceu extensos vínculos entre a verdade e o escondido, o segredo, a potencialidade feminina, a interioridade tentadora encerrada no corpo humano. A mulher e o escravo são receptáculos da verdade que não têm, eles mesmos, acesso a ela como sujeitos. Sua função é fornecer o acesso ao homem livre, ao cidadão. A confecção do conceito de verdade foi contemporânea da sexualização das metáforas baseadas no ato de arrancar à luz algo dormente numa interioridade. A extração da verdade seria, então, um tropo sexualizado por excelência, que funda a compreensão que tem o Ocidente da diferença sexual. Os pólos masculino e feminino vêm a ser dialeticamente constituídos num processo violento e assimétrico, no qual o feminino é o espaço circunscrito como interioridade e penetrado pelo masculino. A tarefa viril do filósofo seria extrair a verdade de um receptáculo e trazê-la à luz num processo de extração – e assim, claramente, teoriza-a Platão, n’O Sofista.

A tortura não é, portanto, antagônica à verdade ou antídoto da democracia. Não é de uma esfera alheia ao direito. A tortura nunca foi escandalosa em democracia nenhuma (algumas delas simplesmente exportaram, “terceirizaram” sua prática para outras comarcas). A sanção jurídica da tortura no mundo ocidental nasce não só contemporaneamente a, mas também em relação de sustentação mútua com o albor de todas essas noções: verdade, democracia, justiça, direito.

A diferença entre uma visão materialista histórica e uma visão liberal da atrocidade e da tortura se remete, em grande parte, a um abismo: o liberalismo é incapaz de compreender essa história – as origens comuns da tortura e da democracia, da tortura e do direito, da tortura e da verdade –, pois afinal de contas ele próprio, liberalismo, não passa de um capítulo dessa mesma história. O materialista histórico, comprometido com o legado dos vencidos, não pode se dar ao luxo de ignorar que o estado de emergência que vivemos com os torturadores de Bush e Olmert não tem sido a exceção, mas a regra.

Ilustração: "Tortura com água". Xilogravura. Praxis Rerum Criminalium (1556), de Joost de Damhoudere.



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sexta-feira, 20 de março 2009

Carta aberta aos jornalistas do Brasil, de Leandro Fortes

A carta aberta que reproduzo a seguir foi escrita por Leandro Fortes, da Carta Capital.

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.


Leandro Fortes

Jornalista



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terça-feira, 17 de março 2009

Lula e Obama

Oferece-se esta foto à pobre direita brasileira, que tanto falou acerca da política externa “anti-americana” de Lula, Celso Amorim e barbudos do Itamaraty:

lulaobama.jpg
Foto: White House / Pete Souza / Creative Commons.

Nesse intercâmbio de olhares e sorrisos entre um Obama que não fala português e um Lula que não fala inglês, comunicam-se muito mais Brasil e EUA, trocam muito mais profundamente esses dois países tão comparáveis e tão diferentes do que jamais foi capaz FHC e seu inglês de Yázige, seja com Clinton, seja, pior ainda, com Bush.

Foi sobretudo colonizada a política externa que impuseram FHC, Lafer e cia durante o tucanato. Se não chegou aos excessos das “relações carnais” de Menem, ela sem dúvida colocava o Brasil como um CSA, no máximo um Vitória-BA ou Goiás, quando nós sabemos que o Brasil é um Grêmio ou Corinthians. Satélite dos EUA, sem tomar iniciativas Sul-Sul, o Brasil do tucanato ainda nos brindava aquele patético espetáculo: nosso presidente falando, com muitas limitações, a língua forânea de um chefe de estado estrangeiro em território nacional, sempre que o visitante era anglo-, franco- ou hispanofalante. Eu morria de vergonha daquilo triplamente: como cidadão brasileiro, como sujeito político e como professor de línguas.

A limitação colonizada da nossa direita falou em “problemas” para a política externa brasileira por Lula não saber idiomas. Como se o papel de um presidente fosse ser poliglota, e não ser presidente e representar a experiência de um povo. Como se o Brasil não tivesse uma das Chancelarias mais equipadas linguisticamente do planeta. Como se um chefe de estado russo, chinês ou sul-africano aceitasse falar outra língua que não a sua para conduzir negócio de estado.

E eis que um milênio que começou com o diálogo impossível – FHC que desprezava Bush e este que desprezava FHC – reserva, oito anos depois, para o chefe de estado brasileiro, o maior líder operário de sua história, a condição de primeiro líder de país emergente recebido na Casa Branca do primeiro presidente americano negro; na verdade, o primeiro líder a ser recebido mesmo, com visível empatia. Até mesmo segundo blogs conservadores, Lula deu o tom.

A direita brasileira tem todos os motivos para estar morta de raiva: depois de torcer contra Lula, depois de torcer contra Obama, depois de seis anos e meio de uma política externa brasileira independente, acusada por ela de ser “anti-americana”, esse encontro epocal se produz. Depois de tentar associar Lula ao chavismo (ou, mais delirante ainda, sugerir que ele é "manipulado" pelo caudilho venezuelano), ela vê os Estados Unidos da América e a República Bolivariana da Venezuela autorizarem-no a mediar possíveis gestos de reaproximação.

Como sempre, os portais da grande imprensa brasileira preferiram destacar o que o “não se conseguiu” na conversa, como se uma primeira visita fosse para “conseguir” algo. Rodada de Doha, redução das tarifas ao biocombustível brasileiro, tudo isso avançará ou não conforme a lógica que tiverem as negociações. Mas o encontro entre Lula e Obama é prova de que o Fórum Social Mundial tem razão: outro mundo é possível.

Atualização: Contrastando com a superficialidade dos portais, Sergio Leo escreveu um excelente balanço da visita.



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sexta-feira, 13 de março 2009

Obama's walking the walk

No caso de que tenha passado batido pela imprensa brasileira: a indicação feita por Obama, de Shere Abbot, para Diretora Associada do meio ambiente no Gabinete de Ciência e Tecnologia da Casa Branca é dessas notícias alvissareiras, promissoras, que não podem passar sem registro. Obama's fucking walking the walk, pelo menos na maioria dos temas. Estas primeiras semanas deixam claríssima a mensagem: ciência é ciência, e fica nas mãos dos cientistas.

O que se faz com a ciência depois em termos de política pública é questão que uma sociedade democrática decidirá através dos instrumentos que já construiu. Mas deixem os cientistas pesquisarem em paz, em primeiríssimo lugar.

A diferença entre as políticas de Bush e de Obama para a ciência não se dá entre posições conservadora e liberal, de direita e de esquerda, mercadolivrista e keynesiana. Nesse sentido não há "dois lados", não sinhô. Trata-se de uma diferença entre os minimamente sanos e os completamente malucos.

Volta a ser possível fazer ciência com os temas sobre os quais os completamente malucos pontificam, baseados num livro de fábulas escrito há milênios. Já sei de cientista que se exilou no Canadá ou Europa e está planejando voltar. A extensão e profundidade da devastação deixada nestes oitos anos são aterradoras, e só estão tornando-se completamente visíveis agora -- mas o país começa a ficar respirável de novo para os cientistas.



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terça-feira, 10 de março 2009

Revista Veja denuncia: Protógenes Queiroz grampeou Bush, Rumsfeld, Cheney, Idi Amin, o Papa e Deus

proto.jpgEm mais um furo de reportagem, a Revista Veja revelou que o Delegado Protógenes Queiroz grampeou o ex-presidente dos EUA, George W. Bush, o ex-vicepresidente Dick Cheney e o ex-Secretário de Estado Donald Rumsfeld durante os preparativos para a Guerra do Iraque. A revista não divulgou qualquer áudio da gravação, mas publicou a transcrição da conversa entre Cheney e Rumsfeld na qual se decidiu pela guerra. O diálogo não revela qualquer ilicitude na conduta dos antigos homens de estado americanos, mas prova a extensão da teia de espionagem construída pelo delegado brasileiro:


Rumsfeld: Talvez Saddam ainda decida renunciar às suas armas de destruição em massa e nos permita evitar a guerra e o derramamento de sangue.

Cheney: Sim, afinal de contas o mais importante é criar as condições para um planeta mais justo e pacífico.

Rumsfeld: Em todo caso, se a guerra for inevitável, já estabeleci todos os parâmetros para que as convenções humanitárias sejam respeitadas e a população civil seja resguardada.

Cheney: E eu já avisei aos executivos da Haliburton que não esperem nenhuma vantagem especial nos contratos do pós-guerra somente pelo fato de terem um acionista na vicepresidência. Estão todos avisados de que terão de disputar dentro da lei.


Procurados pela Revista Veja, Dick Cheney e Donald Rumsfeld confirmaram o conteúdo das conversas e asseguraram que a transcrição era correta.

No cemitério Ruwais, na cidade saudita de Jeddah, onde se encontra enterrado, o ex-ditador de Uganda Idi Ami Dada confirmou que suas conversas com o líder congolês Patrice Lumumba também foram grampeadas por Protógenes Queiroz e que as transcrições apresentadas pela Revista Veja são corretas. “A teia de espionagem de Protógenes arregimentou preferencialmente os membros das etnias Kakwa, Lugbara e Nubian”, afirmou Idi Amin à Veja direto de sua sepultura em Jeddah.

No Vaticano, o Papa Bento XVI confirmou à Revista Veja que Protógenes Queiroz grampeou suas conversas com Deus, nas quais o Supremo Pontífice pedia pela salvação da alma das duas células impiedosamente assassinadas pelos Drs. Olimpio Moraes e Sérgio Cabral no corpo de uma garota pernambucana de 9 anos de idade. A revista não apresentou os áudios das gravações, mas tanto o Santo Papa como Deus confirmaram que foram vítimas do grampo do Delegado Protógenes.



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domingo, 08 de março 2009

Apoio às feministas e ao CISAM no caso da menina de 9 anos, estuprada em Alagoinha

Reconhecemos e aplaudimos a solidariedade, compromisso e eficiência que determinou o aborto legal realizado pela equipe de atenção à saúde do CISAM - Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, e em especial aos médicos Prof. Olimpio Moraes e Dr. Sérgio Cabral. Esta instituição mostrou seu compromisso com a saúde, com a vida, com a cidadania e direitos humanos da população que por ela é atendida.

A crítica contundente de setores conservadores religiosos a um trabalho tecnicamente competente e em consonância com as leis nacionais e normativas internacionais reflete uma vez mais seu arcaísmo e desumanidade.

O mundo acompanha atentamente a história desta menina pernambucana de 9 anos de idade, e seguramente apoiará a perspectiva daquelas/daqueles que defendem os direitos reprodutivos como direitos humanos.

É a íntegra do abaixo-assinado da Comissão de Cidadania e Reprodução, que merece todo o apoio. Assine lá.



Atualização: Ainda sobre o mesmo assunto, ofereço, meio horrorizado, mais este link.



  Escrito por Idelber às 17:35 | link para este post | Comentários (41)



quarta-feira, 04 de março 2009

Registro

No dia 27 de fevereiro passado, Paulo Henrique Amorim reproduziu em seu blog as 25 perguntas a Gilmar Mendes escritas por mim e publicadas aqui no Biscoito no dia 15 de dezembro de 2008. A reprodução muito me honra, mas ela foi feita sem créditos ao autor. Pior ainda, o Paulo diz que são 25 perguntas “segundo Ricardo Noblat”, o que só pode ser uma piada, posto que Noblat teve amplas oportunidades de fazer perguntas genuinamente jornalísticas durante o Roda Viva de dezembro passado e não fez nenhuma.

No mesmo dia, o PHA foi avisado pelo leitor Marcos de que aquelas perguntas tinham autor. O post continuou sem atribuição de autoria. Jean Scharlau, por duas vezes, colocou lá o link correto para a fonte onde elas foram originalmente publicadas. Mesmo assim, quase uma semana depois, o post continua dizendo que as perguntas são “segundo Ricardo Noblat”.

Como já afirmei aqui, não perco sono com copia / cola sem atribuição de autoria. Mas não deixo de registrar quando acontece comigo.

Atribuição correta de autoria é componente essencial da credibilidade de qualquer blogueiro.




PS: Já que de corrigir se trata, que fique registrado que o PHA também errou ao dizer, sobre a vitória de Obama, que “as pesquisas estavam erradas” e que “ninguém previu a vitória de goleada de Obama”. Como registram os arquivos do Biscoito e do Five Thirty-Eight, as pesquisas sérias – Rassmussen, Gallup etc. – acertaram o resultado da eleição americana na mosca. Tabulando-as, o Nate do 538 previu com exatidão o resultado final, acertando até a casa dos decimais. Quem acompanhou por aqui não teve surpresa nenhuma.



  Escrito por Idelber às 13:39 | link para este post | Comentários (57)



terça-feira, 03 de março 2009

Agora descasque o abacaxi, Dona Kathleen

KathleenSebelius.jpg Com as últimas notícias da hecatombe econômica, está chegando a 50 milhões o número de estadunidenses sem seguro de saúde, algo que nos EUA deixa-o a uma fratura de tíbia de distância do endividamento eterno. Sofreram duros golpes nos últimos anos tanto o Medicare – o atendimento do governo para maiores de 65 anos – como o Social Security, o programa mais amplo de benefícios para idosos, desempregados e descapacitados, do qual o inesquecível George W. Bush uma vez reclamou que querem que o governo controle, como se fosse lá um tipo de programa federal. O presidente anterior chegou a declarar que não podem dizer que há gente sem cuidado médico na América, afinal é só ir na sala de emergência, num país em que uma ou duas visitas à sala de emergência sem seguro podem derrubar um orçamento familiar. Em 2007, 6,8 milhões de americanos já haviam perdido assistência médica desde a posse de Bush. Neste contexto, ter uma cabeça como a de Barack Obama preocupada com o problema já é um alívio.

Estrangulado pelo oligopólio das seguradoras – o lobby mais poderoso de Washington, segundo estudo do Center for Responsive Politics –, o sistema de saúde americano é daqueles angus de caroço sem cuja resolução o próprio futuro do país fica ameaçado. Ele não prioriza a prevenção, privilegia o capitalismo-sem-risco, especulativo das seguradoras, deixa médicos e enfermeiras na posição de pouco mais que servos-executores de suas políticas, sem muito contato individualizado com pacientes. Para completar, implica sempre um custo proibitivo para pobres e classe média. A definição clássica de um sistema quebrado.

A última tentativa dos democratas de reformá-lo aconteceu em 1993, e foi um dos fracassos mais estrepitosos do Partido. A cargo de Hillary Clinton, a estratégia era uma espécie de pacote-surpresa para o Congresso, ao qual nem mesmo os senadores democratas foram convidados a contribuir. Claro que não deu certo. Isolada, Hillary foi presa fácil para o lobby das seguradoras, que trituram-na sem dó nem piedade ao longo de 1993. Dali o projeto foi para a gaveta e nós viemos morro abaixo.

Kathleen Sebelius, governadora do Kansas, é a escolhida de Barack Obama para Health and Human Services, o equivalente do Ministério da Saúde. Tem o apoio entusiasmado deste blog. Acompanho Sebelius há anos. Ela era minha candidata a vice-presidente, até que acabei sendo convencido pela escolha mais pragmática de Joe Biden.

Católica, mas com longa história de defesa dos direitos das mulheres ao aborto, ela provoca o ódio dos grupos anti-abortistas mais delirantes, mas governa com sucesso o estado conservador do Kansas há dois mandatos. Moderada, centrista, ela tem um perfil parecido com o de Obama: conciliadora e diálogica, mas firme na defesa do que é da ordem dos princípios. Eliminou 1,1 bilhão da lambança de dívidas deixada pelos antecessores no Kansas, não aceitou contribuições de seguradoras e tem uma história de compromisso com a educação pública. Fala bonito mas firme, sem afetação. Aderiu à campanha de Obama no primeiro momento.

Não há como desarmar essa bomba-relógio sem algum grau de confronto com o lobby do capitalismo-sem-risco das seguradoras. Mas a briga tem que ser preparada em terreno favorável, e Kathleen sabe disso. A tarefa de Sebelius não é menos complicada que a de George Mitchell no Oriente Médio. Mas não sei de outra pessoa mais qualificada.


PS 1: Está de casa nova – e bonita – o Marcos Donizetti.

PS 2: Bem vindos ao blogroll, Cloaca News.



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segunda-feira, 02 de março 2009

Ato Público contra a Folha de São Paulo: dia 07/03, às 10 h

Está crescendo bastante a mobilização para o ato público convocado para o próximo sábado, dia 07, às 10 da manhã, em frente ao comitê central da candidatura Serra prédio da Folha de São Paulo, na Alameda Barão de Limeira, 425. Trata-se de uma concentração popular em protesto contra o insulto à memória das vítimas da ditadura militar no editorial da Folha do dia 17 passado e em solidariedade com os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, insultados pelo jornal.

A manifestação foi convocada pelo Eduardo Guimarães, conta com o apoio do Biscoito e já tem um selinho, feito pelo Mello:

ditabranda.gif


A lista de blogs que estão divulgando o ato público inclui o Luis Nassif, o Viomundo, a Maria Frô, o Óleo do Diabo, o Estado Anarquista e muitos outros. O blog Nas Retinas pede a colaboração dos paulistanos que por ventura tenham acesso a uma rede wifi nas imediações da Barão de Limeira. O genial Latuff já fez sua charge contra a “ditabranda”:


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Além de oferecer a modesta ajuda na divulgação do ato, eu apresento o recibo de cancelamento da minha assinatura:

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Todas as fontes confirmam que o impacto do episódio fez com que se batessem muitas cabeças na redação da Folha de São Paulo. Sem saber muito bem como lidar com a grande repercussão, sem ter a dignidade de se desculpar, desprovido da transparência de repensar a sua colaboração com a ditadura, o jornal embarcou numa sequência de emendas que pioraram muito um já péssimo soneto. Publicaram umas poucas linhas de Benevides e de Comparato, sem resposta injuriosa mas sem retratação. Escalaram um colunista, Fernando Barros e Silva, para “discordar” do editorial num texto cuja ênfase maior era uma bizarra comparação entre a metáfora usada por Comparato – de que o jornal deveria se desculpar ajoelhado em praça pública – e os métodos da Revolução Cultural chinesa (haja liberdades com as metáforas alheias!). O coroamento foi um post de Marcelo Coelho que afirmava que “há pelo menos 30 anos, a Folha reprova o autoritarismo”, omitindo a simples matemática de que em 1979 a Folha já tinha 15 anos de leais serviços prestados à ditadura militar.

O episódio reitera mais uma vez algo que o Biscoito vem afirmando há tempos: os funcionários da grande mídia continuam sem ter a menor idéia da grande revolta que toma conta de parte significativa do público leitor. Como a internet tem sido o principal meio de expressão dessa revolta, eles seguem colocando a culpa da febre no termômetro.

O Biscoito apóia o ato do próximo sábado e convoca os amigos paulistanos: dia 07/03, às 10 da manhã, na Alameda Barão de Limeira.



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segunda-feira, 23 de fevereiro 2009

Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides

Convenhamos que de ser “cínica e mentirosa” a Folha de São Paulo entende. Mas ela nunca, sejamos justos, havia nomeado dois profissionais, professores de currículo infinitamente superior ao de qualquer um dos membros de seu Conselho Editorial, para uma injúria gratuita. Com a agressão a Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, o jornal já conhecido como Façamos Serra Presidente chegou a um novo limite, um mais recente e enlameado piso. Pouca coisa o diferencia do lamaçal de publicações como a Veja. Neste episódio, o mais urgente, acredito, é assinar a petição em defesa dos Professores e de protesto contra a injúria. A petição é encabeçada pelo maior crítico literário brasileiro, o Mestre Antonio Candido.

O já infame editorial da Folha, além de insultante à memória das vítimas da ditadura militar brasileira e comprometido com a ocultação da história colaboracionista do próprio jornal, fazia exatamente o contrário do que deve fazer o jornalismo: ele desinformava, contava uma mentira. Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado.

Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).

O termo não tem qualquer história bibliográfica no Brasil para designar o período 1964-85, e é curioso que um jornal suspeito de ceder seus automóveis para a repressão, colaboracionista até a medula na divulgação das versões mentirosas dos assassinatos cometidos pelo regime, venha fingir que a ditadura brasileira tenha sido chamada de “ditabranda” -- e, para completar, chame de “cínicos e mentirosos” dois professores com os currículos de Fabio Konder e Maria Benevides, pelo simples fato de eles não aceitarem a chantagem da falsa comparabilidade entre o regime cubano e os regimes militares da América do Sul com os quais a Folha colaborou.

Por uma postura de opinião – abalizada por vastas obras, diga-se –, intelectuais são chamados de “cínicos e mentirosos”, sem direito de resposta, por um jornal de tiragem de 300 mil exemplares, cuja história colaboracionista é vastamente conhecida. Não é o máximo? São esses os lacaios que vêm nos falar de “liberdade de imprensa” todas as vezes em que são questionados. São esses os lambe-botas que vêm posar de “linchados” quando sua cumplicidade com os poderosos é desvelada. São esses os que falam de “apurar notícias” e até hoje não nos disseram quais são os jornalistas que recebem dinheiro de Daniel Dantas e se a lista que circula por aí – com Noblat, Fernando Rodrigues, Miriam Leitão – é verdadeira ou falsa.

Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de "linchadores" os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?

O mais cretino, o mais absurdamente revoltante dessa história, o mais fundamental que passou até agora sem menção, é que se você tomar os currículos de todos os jornalistas funcionários do Globo, da Folha, da Veja e do Estadão – eu disse se você tomar todos eles em conjunto --, você não chega a algo remotamente comparável ao currículo de Fabio Konder Comparato. Não adianta o Pedro Dória honestamente matutar de lá pra cá se ele não entender essa premissa básica que deve estar sobre a mesa para o início da conversa: o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira. Além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos.

Não percebem, por exemplo, que é vergonhoso o maior jornal brasileiro não saber de onde vem o termo “ditabranda”.

Com o insulto a Fábio Konder e Maria Benevides, o portal UOL perdeu de vez minha assinatura. O Biscoito entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.



  Escrito por Idelber às 22:55 | link para este post | Comentários (260)



segunda-feira, 02 de fevereiro 2009

Nos 200 anos da imprensa no Brasil

A Revista UFG, da Universidade Federal de Goiás, publicou um excelente número especial, faz uns três meses, celebrando os 200 anos da imprensa no Brasil. É um dossiê imperdível para quem se interessa pelo tema. Foi-me pedido um texto, que republico agora no blog.

Poucos eventos foram tão emblemáticos da situação da grande imprensa brasileira como as prisões e liberações do banqueiro Daniel Dantas, acusado, depois de extensa investigação da Polícia Federal, de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e espionagem. Levada a cabo na gestão de Fernando Henrique Cardoso, a privatização das telefônicas é um capítulo da história do capitalismo brasileiro no qual Daniel Dantas cumpre papel central. Conhecido por recorrer à espionagem e à fabricação de dossiês sobre adversários para divulgação como “notícia” (plantada através de contatos com jornalistas com os quais a intimidade vai bem além da relação tradicional entre repórter e fonte), Dantas é o elo entre aqueles que talvez sejam os dois maiores escândalos da política brasileira na última década e meia: a “privataria”, na qual enormes frações do patrimônio público foram sub-avaliadas para posterior venda a grupos privados financiados pelo próprio BNDES, e o “mensalão”, no qual vastas quantias de dinheiro trocavam de mãos ilegalmente no interior da base aliada do governo do Presidente Lula. O fortalecimento do poder econômico, político e jurídico de Daniel Dantas depois das privatizações instalou-o como uma espécie de avalista e financiador mor da grande política brasileira.

Não foi a grande imprensa e sim a internet quem deu a primeira notícia da prisão provisória de Dantas, concedida no dia 08/07/2008 pelo juiz Fausto de Sanctis, da 6a Vara Criminal de São Paulo, a pedido do Delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal. Bob Fernandes, com fontes na PF, deu o furo no site Terra Magazine, às 07:48 da manhã. Antes que os grandes veículos de comunicação corressem atrás, os blogs já debatiam o assunto. Na repercussão que teve na internet esse raro acontecimento – a prisão de um banqueiro que mantém relações umbilicais com o poder político e com a imprensa --, já se antecipava que o Supremo Tribunal Federal (em recesso e com Gilmar Mendes de plantão) soltaria Dantas. Poucas horas depois, antes mesmo que os advogados de Dantas entrassem com o pedido de habeas corpus no Supremo, Gilmar Mendes deu violentas declarações contra a Polícia Federal, criticando uma suposta “espetacularização das prisões” (Jornal da Globo, 08/07/2008). Na cobertura do evento nos telejornais da noite, praticamente nada se disse sobre as atividades ilegais de Dantas, o que é o Grupo Opportunity ou como ele se transformou no que é. Toda a ênfase foi colocada na “espetacularização” das prisões. A grande imprensa começava a preparar a fritura do Doutor Protógenes Queiroz, responsável pela prisão do banqueiro.

Conhecedora dos tentáculos de Dantas no judiciário, a equipe do Dr. Protógenes sabia que ele seria solto pelo STF. Tinha na manga um outro pedido de prisão, desta vez preventiva, baseada na filmagem feita pela Polícia Federal de uma tentativa de suborno. Concedida novamente pelo juiz Fausto de Sanctis, esta prisão ocorreu no dia 10/07 e não poderia, legalmente, ter sido objeto de habeas corpus ao Supremo. Antes, teria que ter sido julgada pelas instâncias inferiores. A prisão preventiva, prevista no artigo 312 do Código de Processo Penal para os casos de obstrução de investigação, claramente se aplicava, já que estava documentado o suborno a um delegado federal. Mesmo assim, o Presidente do STF, Gilmar Mendes, fez hora-extra para novamente soltar Dantas no dia 11 de julho. Rasgava-se a súmula 691 do próprio STF, que determina o respeito às instâncias. Rasgava-se o artigo 312 do Código Penal, que regula a prisão preventiva. Confirmava-se que tinha razão o próprio Dantas, quando declarara que só temia as instâncias inferiores da justiça, já que no Supremo ele “teria facilidades”.

A imprensa cumpriu papel central na justificativa das ilegalidades cometidas pelo Presidente do Supremo. No dia 10 de julho, a Folha de São Paulo veiculou a versão de Dantas: “Defesa de banqueiro volta a ameaçar governo”, “Senadores vão à tribuna criticar operação” e “Conduta de delegado divide cúpula da PF” foram algumas das manchetes. No dia 13 de julho, sob o título “Delegado narra a luta do 'bem' contra o 'mal'”, a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre a “linguagem truncada” e o “português precário” do relatório de Protógenes Queiroz que havia incriminado Dantas. Ficava nítida a tentativa de desqualificar o trabalho da Polícia Federal. Para azar do jornal, a própria matéria continha erros de português. A Revista Veja (23/07/08, pag. 47), caracterizando o relatório de 245 páginas do Dr. Protógenes como um “desastre de dimensões dantescas”, chegou ao ponto de citar um jurista que questionava o flagrante da PF, por ter sido “preparado”, como se a legislação só aceitasse flagrantes acidentais. Não havia uma palavra sobre as acusações nem, muito menos, claro, sobre as relações de Dantas com a própria revista. Na televisão, foi mais explícito ainda o intento de queimar a operação.

Enquanto isso, na internet, Bob Fernandes continuava sendo a fonte com informações reais acerca da operação da PF. Nos blogs e portais, os comentários circulavam com rapidez, dando vazão a uma revolta da sociedade brasileira que era invisível na grande imprensa. Uma petição solicitando o impeachment de Gilmar Mendes recolhia milhares de assinaturas em poucas horas. Comunidades de apoio ao delegado Protógenes Queiroz e ao juiz Fausto de Sanctis se multiplicavam no Orkut. Também pela internet se prepararam manifestações de protesto contra Mendes em todo o Brasil para o sábado, dia 19. Blogs políticos como o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, o de Luis Nassif e o Biscoito Fino e a Massa reuniram um histórico de tentáculos de Dantas nos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e na própria mídia. Esta última continuava tentando desqualificar a operação da Polícia Federal. Com Dantas já solto, alguns erros de português do relatório do delegado e um absolutamente corriqueiro empréstimo de agentes da ABIN à PF, a grande mídia reuniu elementos suficientes para transformar Dantas em vítima, o delegado Protógenes em investigado e Gilmar Mendes em baluarte da justiça.

Somente nas mídias alternativas foi possível conhecer o método de Dantas de plantar na grande imprensa “notícias” com caráter de denúncia contra seus adversários. Só pelas mídias alternativas foi possível saber que Gilmar Mendes, quando era Advogado Geral da União, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -- do qual o mesmo Gilmar Mendes era um dos proprietários -- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Só nos blogs independentes foi possível saber que Gilmar Mendes liderou o lobby no Supremo para estender o foro privilegiado a ações de improbidade administrativa. Só nas mídias alternativas noticiou-se o “trem da alegria” patrocinado por Gilmar Mendes na Advocacia Geral da União, que permitiu que assistentes jurídicos não concursados e sem qualificação técnica, a maioria já aposentados, fossem enquadrados como Advogados da União e obtivessem expressivo aumento – retribuindo o favor sob a forma de lobby para que o próprio Gilmar Mendes fosse indicado ao Supremo. Mesmo sem essas informações, a esmagadora maioria da população brasileira percebia que o Presidente do Supremo era uma autoridade aberta a fazer concessões à criminalidade de colarinho branco, mesmo tendo a grande mídia sistematicamente se prestado ao papel de ser seu porta-voz. Um marciano que aterrizasse no Brasil em julho de 2008 e só se informasse pela grande imprensa sairia com a impressão de que Daniel Dantas era vítima de um complô totalitário da Polícia Federal e que o STF havia interferido para garantir a lei. Além disso, não teria nem idéia de que na disputa entre Protógenes / De Sanctis e Dantas / Mendes, a população havia se alinhado esmagadoramente com aqueles.

A imprensa brasileira chega a seu 200° aniversário, portanto, com um legado contraditório. A multiplicação do acesso à Internet e o fenômeno dos blogs fizeram com que praticamente sobre qualquer assunto – inclusive a política –, a informação disponível na rede seja de qualidade e variedade superior à dos jornais. No caso das revistas semanais, a crise é ainda mais profunda. Obsoletas como fontes de notícias numa época em que a circulação da informação se mede por minutos, as revistas tentam encontrar um nicho entre a análise semi-ensaística, de alcance restrito, e o caminho adotado pela Veja, de produção de acusações incendiárias com muita adjetivação e escasso fundamento na realidade. De acordo com dados do Datafolha, para os jovens das classes A e B, a internet é o meio de comunicação mais importante, com larga vantagem em relação à TV (43% a 26%). Mesmo na classe C, a internet já se aproxima da TV (21% contra 33%). Entre os veículos impressos, os jornais foram citados como meio preferido de informação por 19% dos jovens, enquanto as revistas tiveram apenas 3% das respostas. Ou seja, de cada 100 jovens brasileiros, só 3 têm nas revistas seu meio de informação privilegiado. Enquanto isso, as mídias interativas, com base na rede mundial de computadores, vão produzindo um fenômeno promissor. No Brasil, ele ainda não chegou ao ponto em que se encontra nos Estados Unidos, onde blogs como o Talking Points Memo já fazem investigações independentes capazes até de derrubar políticos. Mas não há dúvidas de que a democratização trazida pelas mídias interativas, por um lado, e a concentração econômica nos oligopólios da mídia tradicional, por outro, são os vetores fundamentais para se acompanhar nesta efeméride.

PS: Leia, do meu amigo Sergio Leo, Blogs e jornalismo, um rico texto sobre o qual vou tecer algumas considerações em breve. Leia também o contraponto indispensável: Criando um álibi, de Leonardo Bernardes.



  Escrito por Idelber às 17:51 | link para este post | Comentários (60)



domingo, 25 de janeiro 2009

O Obâmetro

Eis aqui um link para se guardar nos próximos anos: o Obâmetro, que compilou mais de 500 promessas de campanha de Obama e está catalogando-as sob “cumpridas”, “em andamento”, “solução de compromisso”, “nenhuma ação”, “paralizadas” e “quebradas”.

Até agora, 5 cumpridas, 14 em andamento, nenhuma quebrada em definitivo.

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488 esperam ação.

Imaginem se seria sequer possível um site desses sobre o governo Bush. É aquela mágica palavrinha inglesa, accountability, que define o contexto onde o cidadão tem como saber o que está sendo feito e cobrar.

PS: Salve, salve ciência. Welcome back. O Science Blogs já respondeu ao chamado de Obama a uma discussão sobre o lugar da ciência na nova administração.



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post | Comentários (21)



sábado, 24 de janeiro 2009

"Cinco EMBRAERs por ano": Chico de Oliveira e o pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma

chico.jpgNuma entrevista que contém alguns momentos de análise econômica clara e brilhante e em outros surpreende pela revisão que faz o autor de suas posições políticas, o grande sociólogo brasileiro Francisco de Oliveira, talvez o principal crítico à esquerda que teve o PT nos últimos anos, propõe um pacto político – um “1930 varguista” para o século XXI, define ele – para impedir o retrocesso que seria uma vitória da coalizão serrista em 2010:

CMQue espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...

Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

[...]

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?

Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.


Leia a íntegra no site da Carta Maior. Chico, vale lembrar, é o autor da ilustre tese que toma o ornitorrinco como metáfora do capitalismo brasileiro, dualismo expresso na polaridade PSDB / PT, na qual este último, para Chico, já estaria reduzido a partido representante dos administradores de fundos de pensão. A simpatia de Chico pelo PSOL durou pouco, e se esvaiu completamente no dia em que Heloísa Helena apareceu na TV dizendo que a solução para o crime era "construir mais prisões".

Sempre atento à conjuntura, ele aparece aí sugerindo um pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma, se refere a Serra como 'um caso psiquiátrico' e fala do retrocesso que seria a vitória de uma coalizão privatista em 2010: 'eles ficariam por aí mais dez anos', prevê o sociólogo brasileiro.

Pode-se discordar de Chico, mas é sempre um sujeito que está pensando a realidade, sem importar frases feitas de ninguém.



  Escrito por Idelber às 18:07 | link para este post | Comentários (43)



sexta-feira, 23 de janeiro 2009

M. chega em tempo recorde ao ventilador

Há uma avalanche de notícias das primeiras 72 horas de Obama: ordem executiva decretando o fechamento de Guantánamo em um ano, reinstalação do Manual do Exército (que não admite tortura) como parâmetro para qualquer interrogatório, ordem de fechamento das prisões secretas da CIA fora do país, amplas medidas de aumento da transparência e possibilidade de escrutínio da Casa Branca (de site novo), uma boa nomeação para o Oriente Médio (George Mitchell), entre outras.

Mas não pode passar batida a entrevista de Russell Tice a Keith Obermann, na qual Tice, ex-analista da National Security Agency, bota a boca no trombone acerca do programa de espionagem da administração Bush, que foi pior do que qualquer um imaginava.



O resumo da ópera é que todo mundo estava sendo espionado: uma giganteca e orwelliana teia de escuta e leitura ilegal de telefonemas, emails e faxes cobria todas as comunicações do país, mesmo as que se davam entre “americanos normais”. Até as comunicações daqueles que jamais se relacionaram com o exterior eram monitoradas.

Tice sofreu pressões durante o governo Bush e já nos primeiros dias de Obama resolveu dar com a língua nos dentes. Entre os grupos especialmente visados, ele mencionou os jornalistas. Já dá para imaginar quais seriam alguns dos outros (árabe-americanos, por exemplo). Não está claro neste momento se haverá condições político-jurídicas de processar os responsáveis. Obama está lá, caladinho, o que é do seu feitio.



  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post | Comentários (25)



quarta-feira, 21 de janeiro 2009

Retrospectiva 2008

Em janeiro, os sábios do jornalismo descartavam a pré-candidatura de Obama como um breve prelúdio à coroação de Hillary. Em fevereiro, de um lado do mundo um adeus, de outro massacres que continuavam. Em março, enquanto Barack Obama se preparava para revolucionar a campanha eleitoral eletrônica e interativa, o judiciário brasileiro inventava a campanha eleitoral sem internet. Em abril, a oposição brasileira e seus aliados na imprensa batiam cabeça, enquanto só em maio, depois de meses de cobertura blogueira, o escândalo do DETRAN gaúcho estourava na grande imprensa. Em junho, claro, completamos 50 anos de existência adulta como país de verdade. Em julho, boa parte da grande imprensa brasileira se revelou bem amiga de Daniel Dantas e bem interessada em fulminar o Doutor Protógenes. Em agosto, John McCain deu um presente chamado Palin para Obama, mas os sábios do jornalismo falaram em “golpe de mestre”. Em setembro, começou a desabar o castelinho da desregulamentação do capitalismo Bush e desapareceram os profetas do livre-mercado, agora ocupados em pedir socorro financeiro do estado para seus patrões corporativos. Em outubro, a população brasileira fez de PPS, DEM e PSDB os três partidos que mais perderam votos em todo o território nacional, mesmo com a caipirice do PT mineiro e o lampejo de semi-cidadania da República Leblon. Em novembro, a noite inesquecível. Em dezembro, o jornalismo brasileiro nos proporciona dois espetáculos televisivos grotescos, com Gilmar Mendes e com o Doutor Protógenes.

Alexandre Inagaki não deixou de fazer, evidentemente, seu tradicional e imperdível balanço.



  Escrito por Idelber às 04:12 | link para este post | Comentários (85)



terça-feira, 20 de janeiro 2009

Posse de Obama

Só para que não fique sem registro, aí vai um filminho de parte das celebrações da posse de Obama, em Washington. O Biscoito documentou toda a caminhada da vitória, desde o início.


Vi lá no Pictura Pixel.

No próximo post, voltamos ao esquema normal, com comentários e tudo o mais. Grato aos comentaristas pela paciência, neste período em que o blog funcionou em regime meio emergencial -- e mesmo assim sem conseguir documentar nem uma ínfima parte da atrocidade.



  Escrito por Idelber às 04:53 | link para este post



terça-feira, 23 de dezembro 2008

Um comentário a um blog da Folha

Aqui vai uma cópia do comentário que acabo de postar no blog de Fernando Rodrigues. Logo que ele for liberado -- e acredito que deve ser -- eu coloco uma atualização, avisando que o jornalista o publicou*:

Como acadêmico que acompanhou o jornalismo dos EUA dos últimos 20 anos, posso lhe garantir que um repórter que perguntasse a delegado de força policial (FBI), que conduziu uma investigação com colaboração de agentes de inteligência (CIA), JÁ COM CONDENAÇÃO, por que esses agentes não disseram “alô, bandido, sou o agente tal”, receberia uma gargalhada na cara com um convite a que voltasse ao primeiro semestre da faculdade ou ao ensino médio, onde se ensinam coisas como a possibilidade de anonimato de agentes da lei em investigação judicialmente autorizada. Você não sabe ou finge não saber? Ao ler o trecho que fala do áudio “mencionado”, você sabia ou fingiu não saber que se tratava da pag. 81? Sobre o grampo inventado na Veja, você já ouviu falar da expressão “ônus da prova”? Já leu o relatório inteiro do Protógenes? Tem alguma noção de Direito? Já leu o artigo 312 do Código de Processo Penal? Conhece algum blogueiro que, no próprio blog, receba 122 comentários, sendo 110 desfavoráveis? Como se explicar agora?

O leitorado do Biscoito tem uma das equipes de comentaristas de mais saber jurídico da blogosfera brazuca. Convido qualquer profissional do Direito que discorde do que temos colocado aqui a que se manifeste, com toda a liberdade e todo o espaço, na caixa de comentários.

* Atualização: como previsto, comentário publicado.O que é notável -- além do espírito de tolerância à crítica do administrador do blog -- é a contenção dos comentários. Praticamente nenhum comentarista, da imensa maioria que o criticou, proferiu insulto ou algo limítrofe. Não deixa de ser importante também.



  Escrito por Idelber às 16:35 | link para este post | Comentários (99)




Mix

É meio vergonhosa para o jornalismo dos grandes veículos a justaposição entre as duas últimas edições do Roda Viva, o espetáculo de servilismo a Gilmar Mendes proporcionado por todos (menos Eliane Cantanhêde) na semana passada e o espetáculo de indignação irrelevante e corporativista que proporcionaram outros quatro jornalistas nesta segunda à noite com o Delegado Protógenes Queiroz. O sujeito investiga a fundo a organização criminosa de mais longos tentáculos do capitalismo brasileiro, publica um relatório de 210 páginas e os jornalistas não têm uma única pergunta sobre o conteúdo que foi revelado ali? Têm que dedicar um bloco inteiro a insistir que um delegado da Polícia Federal especule sobre como uma revista de pouca credibilidade inventou um grampo acompanhado de uma acusação? Será que perderam completamente a noção do significado da expressão ônus da prova? Fernando Rodrigues quis interrogar o delegado sobre o pedido de prisão a Andrea Michael, da Folha. Não pré-julgo a jornalista, mas se Rodrigues queria se referir ao “áudio citado” por Protógenes, não teria que ter lido o trecho anódino que leu, mas por exemplo a página 81 (pdf). Fica difícil diferenciar, às vezes, o que é ruindade pura e simples do que é má fé no jornalismo brasileiro. Leram o raio do relatório inteiro ou não? O último segmento do programa foi um baile de Protógenes, a quem o blog deixa seus parabéns. De minha parte, reduzi radicalmente, nas últimas semanas, o tempo dedicado a consumir o jornalismo dos grandes veículos: 20 minutos diários no máximo. O Roda Viva desta segunda, com certeza, foi meu último por um bom tempo.

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A Carta Capital publicou um editorial demolidor sobre o Roda Viva da semana passada.

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Aconteceu em Santa Teresa e no Santa Efigênia, domingo, uma cervejada d'O Biscoito Fino e a Massa com alguns dos seus leitores belo-horizontinos e as ilustres presenças de Cibbele (se gosta de crianças, veja esse blog), Túlio, Cynthia, Cláudio, Ana Letícia, Thiago, Bruno, Ana e uma turma de não-blogueiros, incluindo-se alguns dos melhores comentaristas jurídicos que conheço na blogosfera. No cardápio, um papo sobre os rumos do nosso Judiciário em que, evidentemente, houve bastante concordância -- e lamentos pelo nosso querido 312, enterrado como princípio universal.

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No Amálgama, muita gente bacana falou dos seus livros de 2008.

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Lucia Malla escreve um post importante sobre Peter Rost.

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Está imperdível a série de posts do Liberal Libertário Libertino sobre o racismo brasileiro. O Alex encontrou lá um método de revirar as típicas denegações que aparecem na caixa de comentários para, logo depois, transformá-las em post. A coisa vai ficando irresistível.

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O Governador Aécio Neves tem o direito de namorar quem quiser, mas ser pego nisso aqui, ainda por cima em Santa Catarina, enquanto as enchentes devastam o interior de Minas, convenhamos, fica um pouco feio.

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angu.jpg

Tem lugar no Estúdio B, na Av. do Contorno, às quintas-feiras, uma daquelas experiências musicais belo-horizontinas típicas: seis músicos absurdamente talentosos – todos com projetos paralelos, três deles já com história na música da cidade – se reúnem e produzem as versões mais insólitas de um repertório que vai de Kraftwerk a Nelson Cavaquinho, além de composições próprias (ou que eu, pelo menos, não identifiquei como covers). A banda se chama Angu Estéreo Clube e não tem nada na internet: nem mp3, nem disco, necas. Tem que ir lá pra ver. A música de algumas regiões é associada à força de um gênero; de outras, a certos padrões rítmicos; de outras, a um certo tipo de instrumentação. O que marca toda a boa música feita em Belo Horizonte, independente de seu gênero (e como há gêneros diferentes aqui!) é a originalidade do seu trabalho harmônico. Com o Angu Estéreo Clube não é diferente.

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Estou lendo Transparência Pública, Opacidade Privada: O Direito como instrumento de limitação do poder na sociedade de controle (2007, Ed. Revan), do Doutor em Direito e amigo Túlio Vianna. É uma análise jurídica fascinante das relações entre o privado e o público na era do biopoder, da monitoração de comunicações, das vigilâncias eletrônicas. É leitura essencial para os nossos dias.



  Escrito por Idelber às 03:52 | link para este post | Comentários (44)



sexta-feira, 19 de dezembro 2008

Gilmar Mendes perde a compostura: Balanço do Roda Viva

Eu faço um balanço positivo do ruim programa de entrevistas da TV Cultura na última segunda. Fraco de qualquer ponto de vista que tenha um mínimo de rigor jornalístico, consistindo principalmente, como prevíamos, em “levantadas de bola” para o entrevistado, o programa não foi, no entanto, o que ele teria sido se não tivesse havido a mobilização de blogs como o do Nassif, do PHA, do Mello, deste próprio espaço e de uma legião de outros blogueiros e leitores que entraram em contato com a TV Cultura. Sim, sei que fazer história contra-factual, imaginar o que “teria sido”, é sempre hipotético. É evidente. Mas esta é minha hipótese: não que o programa “tenha repercutido” na internet mas, pelo contrário, a internet repercutiu dentro dele, exercendo influência especialmente na postura da colunista Eliane Cantanhêde -- a quem devemos parabéns -- e também na coordenadora Lilian Witte Fibe. Os outros foram o que esperávamos.

Da colunista da Folha de São Paulo sempre achei que é inteligente e autora de boa frase, mas também sempre me pareceu que ela ganharia muito em credibilidade se explicitasse seus vínculos pessoais e de simpatia com o tucanato. Não há nada de errado em tê-los e os tucanos são uma força política importante e legítima no Brasil. O problema é deixá-los nebulosos e pretender / fingir / supor que fala a partir de uma posição politicamente equânime.

Em todo caso, não há dúvida que a enxurrada de bits que circularam na internet influíram nela. Não me cabe julgar se Cantanhêde – cuja coluna na página 2 da Folha não foi exatamente combativa na época da Satiagraha – estava sendo “sincera” ou “fazendo média” com a maioria do público brasileiro ou se foi mesmo sendo convencida de que há que se interrogar Mendes. O fato é que, dentro de seus limites, tentou fazer jornalismo de verdade. Lilian também não foi mal, apesar do absurdo gesto pedindo contenção a Eliane no momento do bate-boca com Mendes, quando havia sido este que a interrompera.

Confrontado por Eliane com perguntas acerca do grampo fajuto e da quase unanimidade jurídica contra ele na época do segundo habeas corpus a Dantas, Gilmar Mendes foi grosseiro com uma dama que lhe fizera uma pergunta legítima. Falsamente acusou-a de estar querendo ensinar-lhe. Perdeu a compostura de magistrado. Lamentável. Parabéns, Eliane.

Aliás, salvo engano, nenhum comentário sobre o Roda Viva até agora notou o óbvio: as únicas a se comportarem com um mínimo dignidade jornalística na bancada foram as duas mulheres, enquanto um dos marmanjos, Carlos Marchi, se omitia, e os outros dois, Reinaldinho e Márcio Chaer, se esforçavam para levantar bolas, não como Ricardinho, mas como um tosco, desajeitado e afobado levantador que tivesse nas mãos, não nove, mas somente seis ou sete dedos.

Se o portal Consultor Jurídico ainda tinha qualquer credibilidade no meio jurídico, maculou-a severamente na segunda à noite, com a postura indigna do Sr. Chaer, que confundiu jornalismo com puxa-saquismo. Incrivelmente, na mesma noite em que tentava ajudar a coroar Gilmar Mendes como o paladino da liberdade de expressão, o Sr. Chaer sugeriu enquadrar “jornalistas de aluguel” por .... formação de quadrilha! Isso sem citar nomes ou fazer acusação concreta (qual é o problema? É Paulo Henrique Amorim? É Luiz Nassif? Diga o que tem a dizer então e coloque as cartas na mesa).

Reinaldinho, coitado, é aquilo ali. Pelo menos acredita no que diz. Usa o programa para traficar a imputação de terrorismo a quem lutou contra a ditadura. Transforma a bancada em palanque para tentar nos fazer crer que é inverossímil a hipotese de que um senador pefelê, Mendes e a revista de menos credibilidade do Brasil tenham sido pegos na mentira. Corrige, coitado, no post das 18:47 de 16/12, o “Schmidt” do ombudsman só para ir lá e, ele mesmo, escrever que “o sobrenome do Carl não é "Schmidt", mas Schimitt” errado também. A mesma fúria com que seus leitores anônimos defendiam a TV Cultura antes do programa foi dirigida contra ela depois que o ombudsman notou o óbvio (aliás, não sei se Ernesto Rodrigues reparou que implicitamente, depois do programa, ele deu razão à “reação em cadeia” da internet que antes ele criticara. Tínhamos ou não tínhamos razão, meu chapa, em atacar a composição da bancada? Estávamos “pré-julgando” ou simplesmente notando o óbvio?).

A pergunta 8 da lista formulada por mim na segunda-feira foi feita durante o programa: O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância? . Faltou-lhe, evidentemente, uma palavrinha: julgamento. Por que não foram a julgamento? Disso se tratava, como saberia qualquer um com um mínimo de contexto e boa fé. A responsabilidade pela formulação imprecisa da pergunta é única e exclusivamente minha, já que a magnífica reportagem de Leandro Fortes, na qual ela se baseava, havia formulado a dúvida certinho.

Favorecido pela falta da palavra que teria tornado a pergunta juridicamente exata, Mendes escapou pela tangente e, desqualificando a indagação, só deixou claro seu desconforto com ela.

A isso, mes amis, o gênio de Oswald de Andrade chamou a contribuição milionária de todos os erros. Havia 24 perguntas formuladas em termos factuais. Aquela que continha uma imprecisão vocabular, uma errata, um piolho nas palavras – como diria Flaubert – foi a que acabou sendo a mais reveladora.


PS: Parabéns, Fernando Meirelles.

PS 2: Aguarde-se, claro, um Roda Viva bem mais duro com o Delegado Protógenes, na próxima segunda.

PS 3: Cobrem-me um post sobre a imensa desonestidade intelectual das menções a Carl Schmitt no programa: uma levantada capenga de Reinaldinho para uma cortada – indigna de um acadêmico – em que Gilmar Mendes tentava enlamear o Juiz Fausto de Sanctis.



  Escrito por Idelber às 17:57 | link para este post | Comentários (69)



segunda-feira, 15 de dezembro 2008

Gilmar Mendes entrevistado na TV Dantas

Como já sabem a torcida do Corinthians e os leitores do Mello, do Luiz Nassif e do Paulo Henrique Amorim, o Roda Viva, da TV Cultura, vai ao ar nesta segunda com uma entrevista a Gilmar Dantas Mendes, o presidente do Supremo Tribunal Federal. Até mesmo para os padrões do horrendo jornalismo que se pratica no Brasil, é vergonhosa a operação realizada pela TV Cultura com o Roda Viva desta segunda. Os escalados para entrevistar Gilmar Mendes são Eliane “vacinem-se contra a febre amarela!” Cantanhêde, Reinaldo Azevedo, cuja ignorância, truculência e hidrofobia dispensam comentários, Carlos Marchi, do Estadão e Márcio Chaer, editor do site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Dantas Mendes.

O Roda Viva escalou quatro levantadores de fazer inveja a Ricardinho. A TV Cultura realizaria algo mais próximo do jornalismo se escalasse como entrevistadores quatro capangas ou funcionários de Mendes. A obviedade da manobra terminou, pelo que parece, saindo pela culatra. Uma enxurrada de protestos chegou ao site da TV Cultura.

Mas a coisa ainda piora. O ombudsman – cargo que Houaiss define como jornalista que, de maneira independente, critica o material publicado e responde às queixas dos leitores – resolveu tecer suas próprias teorias sobre a avalanche de protestos que lhe chegaram. Num texto em que abdica completamente da função para a qual foi contratado, Ernesto Rodrigues afirma, sobre os emails, que em todos eles, exatas 10380 palavras, independentemente se eram de remetentes simpáticos ou não à bancada escolhida de entrevistadores, não houve uma única linha com sugestões de perguntas, cobranças ou acusações específicas a serem feitas ao ministro Gilmar Mendes na entrevista. O que só reforça a sensação de que esses telespectadores remetentes, em especial, não pareciam muito interessados no conteúdo da entrevista. Parece brincadeira, mas essas são as palavras de um ombudsman -- um sujeito que é pago para te representar, leitor.

Tendo acompanhado a reação na internet, fica difícil acreditar que nem um único email contivesse sugestões de perguntas a serem feitas a Gilmar Dantas Mendes. No espírito, então, de colaborar com o ombudsman da TV Cultura, enviei-lhe o seguinte email:

Prezado Jornalista Ernesto Rodrigues:

No texto em que Sr. comenta a indignação que tomou conta dos telespectadores da TV Cultura ante a escalação da bancada que entrevistará Gilmar Mendes nesta segunda-feira no Roda Viva, o Sr. afirma que nem um único email continha sugestões de perguntas a serem feitas ao entrevistado. Confesso que não entendi a frase acerca dos emails conterem 10380 palavras, talvez por deficiência minha na decifração de anacolutos. Confio que este email não repetirá o cabalístico número.

No espírito de corrigir o que certamente terá sido uma indesculpável desatenção dos missivistas, incluo aqui 25 perguntas que eu – e, tenho certeza, muita gente mais – gostaria que fossem feitas ao Presidente Gilmar Mendes.

1.O sr. sabe algo sobre o assassinato de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes, por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso?

2.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando o sr. era advogado-geral da União?

3.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2004, quando o sr. já era presidente ministro do Supremo Tribunal Federal?

4.Quantas vezes o sr. acompanhou ministros de Fernando Henrique Cardoso a Diamantino, para inauguração de obras?

5.O sr. tem relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel? Qual a natureza dessa relação?

6.Quantos contratos sem licitação recebeu o Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o sr. é acionista, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso?

7.O sr. considera ética a sanção, em primeiro de abril de 2002, de lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro pago em tributos pela Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, da qual o sr. é um dos donos, em descontos para os alunos?

8.O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?

9.O sr. tem algo a dizer acerca da afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria “facilidades”?

10.O segundo habeas corpus que o sr. concedeu a Daniel Dantas foi posterior à apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal. O sr. não considera uma ação continuada de flagrante de suborno uma obstrução de justiça que requer prisão preventiva?

11.Sendo negativa a resposta, para que serve o artigo 312 do Código de Processo Penal segundo a opinião do sr.?

12.Por que o sr. se empenhou no afastamento do Dr. Paulo Lacerda da ABIN?

13.Por que o sr. acusou a ABIN de grampeá-lo e até hoje não apresentou uma única prova? A presunção de inocência só vale em certos casos?

14.Qual a resposta do sr. à objeção de que o seu tratamento do caso Dantas contraria claramente a súmula 691 do próprio STF?

15.O sr. conhece alguma democracia no mundo em que a Suprema Corte legisle sobre o uso de algemas?

16.O sr. conhece alguma Suprema Corte do planeta que haja concedido à mesma pessoa dois habeas corpus em menos de 48 horas?

17.Por que o sr. disse que o deputado Raul Jungmann foi acusado “escandalosamente” antes de que qualquer documentação fosse apresentada?

18.O sr. afirmou que iria chamar Lula “às falas”. O sr. acredita que essa é uma forma adequada de se dirigir ao Presidente da República? O sr. conhece alguma democracia onde o Presidente da Suprema Corte chame o Presidente da República “às falas”?

19.O sr. tem alguma idéia de por que a Desembargadora Suzana Camargo, depois de fazer uma acusação gravíssima – e sem provas – ao Juiz Fausto de Sanctis, pediu que a "esquecessem"?

20.É verdade que o sr., quando era Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais?

21.Quais são as suas relações com o site Consultor Jurídico? O sr. tem ciência das relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT?

22.É correta a informação publicada pela Revista Época no dia 22/04/2002, na página 40, de que a chefia da então Advocacia Geral da União, ou seja, o sr., pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o sr. mesmo é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos? O sr. considera isso ético?

23.O sr. mantém a afirmação de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio”?

24.Por que o sr. se opôs à investigação das contas de Paulo Maluf no exterior?

25.Já apareceu alguma prova do grampo que o sr. e o Senador Demóstenes denunciaram? Não há nenhum áudio, nada?

Se pelo menos duas ou três dessas perguntas forem feitas ao entrevistado nesta segunda-feira, caro jornalista, eu me juntarei a V. Sra. na avaliação de que a revolta que se viu na internet não é representativa do pensamento da maioria dos telespectadores do Roda Viva.

Atenciosamente, me despeço, desejando boa sorte à sua credibilidade,

Idelber Avelar


PS. Escreva para o ombudsman você também. Faz diferença. Vai lá.

PS 2: O Palestino foi escandalosamente roubado, e mesmo assim arrancou um heróico 1 x 1 na primeira partida da decisão do Clausura chileno contra o Colo-Colo, o time chapa-branca de Pinochet. Recuerdo / cuando Pinocho / te compró un estadio entero / con la plata que a mi pueblo le robó é um conhecido cântico chileno.

PS 3: Cardoso Czarnobai, pioneiro da internet brasileira, fez bacaníssima referência a este blog. Mil gracias.



  Escrito por Idelber às 03:50 | link para este post | Comentários (145)



terça-feira, 09 de dezembro 2008

Ladainhas da mídia: A suposta decepção da esquerda com Obama

Os memes da mídia se repetem com tediosa previsibilidade. Enquanto no Brasil as Folhas e Globos tentam desesperadamente – e cada vez com menos sucesso -- fabricar algo que atinja Lula, nos EUA o meme da vez na grande mídia é a “decepção” da esquerda com os nomes escolhidos por Obama para compor seu ministério. É impossível ligar a televisão ou abrir um jornal sem topar com a ladainha de que a esquerda estaria decepcionada com um gabinete recheado de centristas. O curioso é que essa versão da realidade nunca chega pela boca de alguém realmente de esquerda. Na maioria das vezes, são os mesmos que, há dois meses, nos apresentavam Obama como um perigoso esquerdista. Não é sensacional?

Esmiucemos a história. Quem vem repercutindo o meme da “decepção” da esquerda com Obama? Wall Street Journal, National Review, Politico, Pat Buchanan: a fina flor da direita americana. Nas incontáveis histórias acerca da tal “decepção”, invariavelmente, nenhuma figura de esquerda é citada, a não ser algumas poucas vozes que já eram antagonistas do projeto de Obama desde o começo, como, por exemplo, a turma do Counterpunch.

Esses memes vão criando vida própria e, de tanto serem repetidos, começam a influir na realidade que a princípio apenas falsificavam. Um alto assessor de Obama, Steve Hildebrand, chegou a escrever um artigo para acalmar a esquerda. Ele não cita um único desses supostos críticos progressistas que estariam nervosos com o presidente eleito. A vagueza e a condescendência da acusação acabaram, aí sim, gerando um monte de críticas entre a esquerda.

No mundo real, quais são os fatos? 89% dos democratas apoiamos a transição e as escolhas feitas pelo presidente eleito. Não há a menor semelhança entre a organizada e metódica transição de Obama e o caos dos primeiros meses de Clinton. Quem se lembra de 1992 sabe disso. O Media Matters, um grupo de observação dos meios de comunicação de massa, compilou um extenso material e concluiu que a tal “decepção” da esquerda com Obama é uma pura invenção. Trata-se da mesma mídia que, durante meses, insistiu no “problema” de Obama com os trabalhadores brancos, com as mulheres e com os latinos, enquanto nós aqui no Biscoito, desde março, avisávamos que os níveis de apoio de Obama entre esses setores eram iguais ou maiores aos historicamente conseguidos pelos candidatos democratas. O resultado foi o que se viu: votação recorde, inclusive entre as mulheres.

Entre os que participamos da campanha desde o primeiro momento, ninguém tinha a ilusão de que Obama fosse um Miguel Rossetto gringo. Ao longo das primárias, ele repetiu insistentemente que aproveitaria talento de vários lados. Já em 2005, na época da confirmação do juiz conservador John Roberts no Senado, Obama adotou uma estratégia pragmática e deu-se ao trabalho de ir ao Daily Kos – o maior coletivo de esquerda da internet americana – para explicar sua posição. É esse tipo de atitude que alimenta minha admiração por Obama: a convicção de que pragmatismo, ponderação e bipartidarismo não são sinônimos de traição aos próprios valores. Obama é, acima de tudo, um centrista que entende que o centro não é estático. O centro do espectro político americano se moveu para a direita durante três décadas e, no último ano, ele vem no movimento oposto. “Regular Wall Street”, por exemplo, há alguns anos seria uma bandeira que identificaria seu defensor como alguém de esquerda. Hoje trata-se quase de um consenso no país.

Hillary Clinton é uma magnífica escolha para a Chancelaria. Depois de oito anos de desprezo pela ONU, o representante americano na Organização terá estatuto de ministro e a escolhida para o cargo é a notável Susan Rice. A opção por manter Robert Gates no Ministério de Defesa revela um presidente que tem confiança no seu taco. Ele aposta que o trânsito de Gates no Pentágono será importante para que se implemente a política que ele, Obama, estabeleceu como promessa de campanha. Não há nada que indique que ele não cumprirá essas promessas – por exemplo, a de uma saída do Iraque ao longo de 16 meses, mais ou menos, com os detalhes dependendo das condições reais no país.

Se essas promessas não forem cumpridas, eu serei o primeiro a criticar. Mas não vou sair desse time aos cinco minutos do primeiro tempo, muito menos antes do jogo começar. Os Babás e os João Fontes, que romperam com o governo Lula logo depois do apito inicial, estão hoje na lata de lixo da história, enquanto o sapo barbudo surfa nos seus 70% de aprovação.


PS 1: Fiquem à vontade se quiserem usar esta caixa para comentar também os últimos memes da mídia brasileira, especialmente o meme da “crise”.

PS 2
: Enquanto isso, o Almirante descobre uma importante certidão de nascimento.



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (81)



quarta-feira, 03 de dezembro 2008

A questão racial brasileira e a ansiedade gringa

A Palgrave, prestigiosa editora acadêmica de Nova York, que nos últimos anos publicou verdadeiras obras-primas, além de volumes escritos por lideranças de destaque em suas disciplinas, já havia tido uma decaída publicando livros de blogueiros atleticanos. Mas neste ano de 2008, a editora cometeu um atentado ecológico que é de tema relacionado aos discutidos neste blog, razão pela qual eu rompo hoje o hábito de jamais publicar resenhas de livros acadêmicos aqui. O atentado se intitula White Negritude: Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity e a autora se chama Alexandra Isfahani-Hammond. Nunca a vi na vida e não lhe desejo mal.

Romper o costume de não resenhar livros acadêmicos (correndo o risco de prejudicar no blog a carreira de alguém) foi decisão difícil, mas ela se baseou num fato: pela primeira vez, eu li um livro de gringo sobre o Brasil – e olha que eu já li besteira escrita por gringo sobre o Brasil – em que eu genuinamente não sabia: 1) se a autora é completamente analfabeta em cultura brasileira e língua portuguesa ou 2) se a autora escreve de má fé. Juro sobre o manto alvi-negro que a dúvida é genuína.

O livro é sobre Gilberto Freyre, Jorge de Lima e Joaquim Nabuco. Ela ignora não só esses três, mas todos os outros que cita. Como diria Macedonio Fernández, faltou tanta coisa no livro que não cabia mais nada. Comecemos pela página 6, onde ela comenta um artigo de Hermano Vianna. O que está em inglês é dela, o que está em português é Vianna:

Vianna observes that it was not easy 'inventar esse orgulho de ser mestiço no Brasil' in face of eugenic theories to which 'o pensamento brasileiro corajosamente tentou dizer o oposto: que misturar diferenças é bom'. He adverts that this tradition should not be abandoned in favor of identity politics, attributing to Racial Democracy a quasi-messianic potential: 'uma experiência única de valorização da mestiçagem, que não foi levada ainda às suas últimas libertárias conseqüências'.

A autora atribui a Hermano a crença “quase-messiânica na democracia racial” por causa da frase acima sobre a mestiçagem, em que Hermano, justamente, afirma que a mestiçagem, que não é a democracia racial, evidentemente, não foi levada às suas conseqüências mais libertárias.

Por que ensaístas brasileiros como Hermano Vianna, Antonio Risério (e, desta vez, vou ser imodesto e me incluir, principiante, nesta lista) continuamos a escrever a palavra mestiçagem e os gringos que se dedicam a estudar raça no Brasil continuam traduzindo-a como racial democracy? É imbecilidade ou é má fé? Professora, a Sra. fingiu que Hermano escreveu “democracia racial” ao invés de “mestiçagem” ou a Sra. acha que as duas coisas são sinônimas? Não deu para entender.

Continuemos com o mais catastrófico livro gringo sobre o Brasil que este blogueiro leu na última década. A parte sobre Gilberto Freyre é pior. Para que vocês tenham uma idéia: a figura traduz “mestiço” como “white”. Sim, sem mais nem menos, a palavra “mestiço” passa a significar “branco”. E com base nessa tradução monstruosa, logo depois, a autora acusa Gilberto Freyre de “apagar” [erase] o mestiço da cultura brasileira! Freyre pode ser acusado até de ser flamenguista. Mas de excluir o mestiço?

Sigo citando para que ninguém ache que invento. Página 74, onde ela alude a Freyre falando do troca-troca entre o sinhozinho e o muleque: troca troca as a symbol for the transmission of identity reflects an instability Freyre compensates for by insisting upon the inability of socioeconomically identified 'African descendants' to imitate or absorb whiteness.

Eu desafio a professora a me mostrar uma linha de Gilberto Freyre, escrita nos anos 30, 40, 50, 60, 70 ou 80 em que Freyre afirme ou sugira que afro-descendentes são 'incapazes' (inability) de imitar ou absorver qualquer coisa da cultura branca, européia, euro-brasileira, senhorial, patriarcal, luso-colonizadora ou o que seja (assim como esta, claro, também deles absorveu). Sobre essa bobagem, fiquemos por aqui, porque é longo o festival de atrocidades que a autora nos proporciona.

Num ato de suprema má fé, o livro se propõe a falar de “raça” e “cultura e identidade brasileira” numa língua em que desapareceram os vocábulos mestiço, mulato, cafuzo, mameluco, índio, mulato claro, escuro, bombom e caboclo. Como uma espécie de carimbadora racial SS, a autora divide os brasileiros entre “brancos” e “negros” e começa a falar do poeta alagoano Jorge de Lima como um branco sufocando e apropriando-se da voz da Nega Fulô. É sujeito branco pra lá, voz branca pra cá. Mas Jorge de Lima não é branco assim sem mais nem menos.

“Pode ser” branco, vestindo terno, circulando com poder num determinado ambiente. Muito especialmente num estado mais negro, como a Bahia. Vestindo camisa rasgada, de chinelo, com essa cabeça de cearense e esse nariz afro-mestiço, ele pode, muito bem, deixar de ser branco rapidinho, especialmente em São Paulo ou Rio Grande do Sul, digamos.

A julgar pelo livro que escreveu, a professora é incapaz de entender o dito no parágrafo anterior.

Num gesto de imensa ignorância e arrogância, a autora vai distribuindo rótulos de “branco” e “negro” e interpretando textos brasileiros sem entender o mais básico dessas sutilezas: que definir Jorge de Lima como “um poeta branco” não é tão simples assim. Acusar sua poesia de ser feita para “apropriar-se” da voz da mulata para um projeto “eurocêntrico” parece-me, sinceramente, um delírio. É possível fazer uma leitura feminista e / ou racial do poema de Jorge de Lima. Mas o que fez autora é um panfleto que está mais próximo à infâmia.

A difamação continua num capítulo sobre Gilberto Freyre, em que autora toma a valiosíssima pesquisa da brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, sobre os albores da vida intelectual do pernambucano e, retalhando citações numa espécie de samba da loira doida, tenta desenterrar uma ou outra linha escrita na juventude de Freyre para justificar a idéia de que ele teria sido uma espécie de branco-supremacista, que alguma vez elogiou a Ku Klux Klan (pag. 125). Daí ela salta para as últimas décadas do Freyre vivo, salazarista e pró-militares, para dizer que era tudo uma coerência só, e que esse “intervalinho minúsculo pouco importante” de nomes Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso – obras que a autora nunca estuda em seu livro -- não muda muito o quadro, pois afinal nele Freyre apaga negros e mestiços e promove uma visão eurocêntrica. Imagine alguém recortando citações para “provar” isso sem jamais ler nada desses três livros. Agora imagine que a pessoa erra na tradução dos termos mais básicos. Agora imagine que a figura tem uma agenda altamente panfletária, de total desrespeito pelo texto que “estuda”. É isso.

A grande qualidade do livro de Alexandra Isfahani-Hammond é que ele nunca é monótono. Em cada página há uma hecatombe. Na 132 ela se refere a Freyre's camouflaged biologism para sugerir, sim, é isso mesmo, que Freyre era um biologista. Todas aquelas centenas de parágrafos de Freyre que você já leu, dizendo que não é a “raça” nem a “biologia”, mas a história, a bagagem cultural, as trocas, as relações sociais etc. que serão o objeto do estudo? Lembra-se deles, leitor? Pois é, depois de traduzir “mestiço” por “branco” e “mestiçagem” por “democracia racial”, a autora nos diz que todos aqueles parágrafos eram uma “camuflagem” em que Freyre escondia seu secreto biologismo.

Voltando a falar do troca-troca, a autora alude a Freyre's paradigm for the unilateral, seignorial incorporation of black identity – and, by extension, for the unilateral capacity for the white to perceive and represent the black. De novo: eu desafio a autora a me mostrar uma linha de Freyre onde ele diga que é o branco que tem, unilateralmente, a capacidade de perceber e representar o outro. A autora não lê português, nunca leu Freyre ou age de má fé?

O monstruoso ato de condescendência racial que é sua leitura de um artigo de Marilene Felinto merece uma observação à parte. A situação da autora vai piorando consideravelmente, claro, porque Marilene é uma morena mulata brasileira que rejeita o rótulo “escritora negra” com que um certo ensaísmo gringo quer apropriá-la. Na Folha de 19 de março de 1995, Felinto escreve um artigo basicamente de apoio à visão freyreana da mestiçagem. É um texto lúcido (que não posso linkar mas que copiarei na caixa de comentários), em que Felinto se refere à visão freyreana dos colonizadores portugueses que se multiplicaram em filhos mestiços numerosos.

E não é que a Profa. Isfahani-Hammond traduz “mestiço” como “branco” de novo e diz que Felinto substitui a criança mulata pelo penetrador branco como produto híbrido do contato europeu / africano (pag. 73)? Para piorar a situação, ela não se limita a desler o artigo de Marilene como desleu a obra de Freyre. Ignorando que o artigo da Folha é, ora bolas, só uma coluna de resumo, e que a obra de Freyre é uma obra – que a autora não parece ter lido --, ela sugere que no fundo Felinto compreendeu mais que Freyre, porque afinal Felinto, mesmo sendo “apologista” de Freyre, tem outro “background” étnico, ou seja, é negra.

Sobre as atrocidades cometidas contra Joaquim Nabuco nesse livro, deixo que se pronuncie Alex Castro, que conhece Nabuco melhor que eu. As infâmias sobre Freyre que eu deixei de mencionar aqui encheriam outro longo post.

Que fique claro que o problema não é “detonar” e criticar o Brasil. O papel de um acadêmico é fazer isso mesmo. Não importa de onde seja o seu passaporte, você tem direito de se dedicar ao estudo de qualquer coisa, e ter sobre ela uma visão tão crítica quanto lhe pareça apropriado. Mas não pode ser desqualificador, beirando o difamatório, sobre seu objeto de estudo, especialmente se demonstra ignorância de seus aspectos mais básicos.



  Escrito por Idelber às 03:31 | link para este post | Comentários (67)



sexta-feira, 28 de novembro 2008

Convites e links

Um convite aos paulistanos: O grande blogueiro, músico e nadador soteropolitano Ricardo Cury está lançando o seu livro, Para colorir, neste sábado. Sou velho fã do blog dele e recomendo o evento. Dia 29 de novembro, às 16h, na Livraria Pop, Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo.

Um convite aos cariocas
: minha amiga, a jornalista e pesquisadora Carla Rodrigues, tem um artigo no livro organizado por Paulo Cesar Duque-Estrada, Espectros de Derrida, que será lançado no dia 3 de dezembro, quarta-feira, na livraria Argumento, no Leblon, a partir das 19h.

Parabéns ao Cury e à Carla e, quem puder, apareça.

Cardoso convidou e eu também gravei um trecho para o Mil Casmurros, um projeto em parceria com a Rede Globo.

O cartógrafo Thomas Lessman reúne numa só página sua vasta produção de mapas históricos. Aqui, o mapa-mundi de 800 DC, com o Emirado Ummayad ocupando uma enorme maioria do que hoje é a Espanha. Aqui, um outro mapa, do ano 1200, já com os reinos de Castilha e León, que se uniriam depois. Aqui, um belo livro sobre Al-Andalus, a região de controle islâmico na qual judeus, cristãos e muçulmanos viveram em (relativa) paz durante séculos.

Pedro Dória tem boas anotações sobre os ataques em Mumbai, na Índia. Em inglês, há uma cronologia do horror e uma série de links no Juan Cole, que lembra o recente ataque extremista hindu a cristãos no leste da Índia.


Nos EUA, Barbara Walters fez uma baita entrevista com Barack e Michelle:

Na medida em que Obama vai anunciando seu time, eu só consigo me lembrar do final de novembro/ dezembro de 1992, em que Bill Clinton iniciava aquela que seria uma das transições mais caóticas de todos os tempos: uma guerra de facções e interesses “plantava” notícias na mídia como estratégia de conquista de espaço; mulheres, negros, gays, latinos e todas as minorias imagináveis disputavam espaço “proporcional”; havia confusão de porta-vozes; a própria liderança, Bill, não anunciava o time compactamente porque ia usando as vagas para tentar administrar o caos. Um verdadeiro pesadelo para os progressistas, foi o fim de 92/começo de 93. O contraste com o que está sendo a transição de Obama é tão abismal que me excuso de fazê-lo.

Digby não se importa e Josh Marshall tem suas dúvidas. Eu, pelo contrário, achei Chanceler Hillary Clinton uma super escolha, epocal e inteligente (ao contrário do que teria sido escolhê-la para Vice). Hillary tem tudo para desfazer pelo menos parte da lambança dos oito anos de política externa de Bush.

Atualização: E sobre as eleições venezuelanas, quem matou a pau, de novo, foi Mauricio Santoro.



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 25 de novembro 2008

Três livros indispensáveis

Sands, Philippe. Torture Team: Rumsfeld's memo and the betrayal of American values (Palgrave, 2008). Este é o livro que detalha como a institucionalização da tortura nos EUA sob Bush foi uma operação meticulosamente dirigida a partir do Ministério de Defesa de Donald Rumsfeld. Como uma espécie de cronista do mal absoluto, Philippe Sands reconstrói a trama dos memorandos, ordens executivas, substituições de pessoal. Vasculha cada reunião de gabinete em que Cheney / Rumsfeld se impuseram sobre Colin Powell. Documenta toda a programação da atrocidade nas mais altas esferas da administração americana, de novembro de 2001 (captura do detento 063 no Afeganistão) à saída de Rumsfeld, já nas ruínas da lambança, em dezembro de 2006. O recheio da história é o memorando escrito por Jim Haynes, advogado e conselheiro do Ministério de Defesa de Rumsfeld, propondo as novas “técnicas de interrogação.” Junto à assinatura de aprovação, o suplemento macabro, o mal na sua banalidade absoluta, a imagem que fornece a capa do livro de Sands: a anotação de Rumsfeld à mão, com a ordem, “defendo 8-10 horas por dia. Por que limitar o período em pé a 4 horas?”

É o argumento definitivo contra qualquer patacoada que se tente sugerir acerca do caráter supostamente fortuito ou ocasional da tortura em Guantánamo e no Iraque. Depois deste livro, não há como não reconhecer: a democracia mais antiga do mundo abriu o século desenhando um programa meticuloso e global de tortura, uma paulatina desmontagem de suas próprias regras militares e constituição, realizada por uma trituradora metódica que tinha seu eixo na Vice-Presidência e no Ministério da Defesa, Cheney e Rumsfeld. A prosa de Sands é factual, pouco adjetivada. O livro é abundamente documentado com notas. Li, confesso, só uns 80% das 250 páginas. Foi mais que suficiente para confirmar que, em muitas interpretações razoáveis dos direitos humanos e do direito internacional, Cheney e Rumsfeld seriam passíveis de aprisionamento por crimes de guerra em qualquer viagem que façam a território não-americano. Se esta é uma hipótese possível ou provável, é outra história. Mas a documentação reunida por Sands é inequívoca. Sands é advogado e esteve envolvido com o trâmite de casos de tortura como os de Pinochet e os dos detentos britânicos de Guantánamo.

Bugliosi, Vincent. The prosecution of George W. Bush for murder (Vanguard, 2008). Aqui está o caso jurídico, apresentado bonitinho, mentira por mentira, falsificação por falsificação. Bugliosi, segundo as pautas do direito internacional, explica o porquê da imputabilidade a George W. Bush tanto de crimes de assassinato como de crimes de guerra. A fabricação de mentiras com o objetivo deliberado de provocar a invasão do Iraque – primeiro o inexistente vínculo Sadam / Al Qaeda, depois as inexistentes armas de destruição em massa – está documentada o suficiente, argumenta Bugliosi, para que o caso de assassinato pelas mortes no Iraque seja cristalino. Em 17/09/2003, Bush reconhece ante advogados que não havia “nenhuma evidência” de que Saddam Hussein estivesse envolvido nos ataques de 11/09/01. Em incontáveis ocasiões depois de setembro de 2003, Bush continuaria a mentir à população americana e sugerir o oposto do que ele mesmo havia admitido em resposta aos advogados. Ao longo do livro, demonstra-se que não foram as “falhas de inteligência” ou “inteligência incompleta ou contraditória” que levaram à desastrada invasão do Iraque. Tratou-se de um plano que já estava na gaveta desde os primeiros anos da administração Bush e que seria implementado não importa qual mentira ele exigisse. Apesar de também bastante documentado, o livro de Bugliosi é escrito numa lingugem mais pop, que traz aquela indignação do senso comum ante a revelação de cada absurdo. Se você tem um amigo com interesse em política e que ainda não está convencido de que este foi o pior pesadelo da história presidencial americana, o livro de Bugliosi é um ótimo presente.

Suskind, Ron. The way of the world. A story of truth and hope in the age of extremism (HarperCollins, 2008). De longe, o mais bem escrito dos três. Combina um exame minucioso da degeneração dos serviços de inteligência americanos – manipulados pela patota que se apoderou da Casa Branca – com o acompanhamento de alguns personagens: um estudante afegão, de intercâmbio, que vai levando sua família anfitriã, no Kansas, a enfrentar-se com os limites do seu próprio progressismo; um jovem de ascendência paquistanesa, formado nas melhores universidades americanas, que passa a viver um pesadelo depois do 11 de setembro; uma advogada abnegada que enfrenta uma montanha de burocracia para tentar rever o caso de um homem injustamente encarcerado em Guantánamo. Suskind vai intercalando essas histórias num relato que se lê como um romance. Mas o livro que não deixa nada a dever aos outros dois na documentação da atrocidade.

Serão três livros fundamentais para o amargo veredito que história reserva para o governo Bush.



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 21 de novembro 2008

20 de novembro e a dívida

lula-candido.jpgPara quem se lembra da época em que Aldir Blanc e João Bosco tiveram que substituir, por causa da censura, “o almirante negro” por “navegante negro” na letra de Mestre-Sala dos Mares, há algo de especial em se ver um presidente operário inaugurando uma estátua de João Cândido, o líder da Revolta das Chibatas, no Rio de Janeiro. João Cândido é daquelas idiossincrasias brasileiras: um negro rebelde, líder e revoltoso em 1910, que vinte anos depois se rende ao charme da Aliança Integralista Nacional, de Plínio Salgado. Em todo caso, um herói popular, especialmente do povo negro, pela memória gloriosa do que fez em 1910.

Foi lendo um belo texto da Cidinha que cheguei, este ano, à minha reflexão anual de todo 20 de novembro: a de que o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana. Isso coloca os movimentos negros numa posição particularmente chata, pois sua demanda é vista como ameaçadora de um mito nacional muito querido. Num contexto assim, os movimentos negros estão certos de martelar o fundamental, que é o sistêmico e onipresente abismo racial no Brasil, dos hotéis às agências de propaganda, do elevador à reunião de chefia à blitz policial à sala de aula.

Antonio Risério tem razão que a importação de um paradigma binário americano para se pensar a raça no Brasil pode ser daninha. Mas até aí tem razão. Deixa de tê-la cada vez que permite que sua voz ecoe em conjunto com a cruzada Kamel-Magnoli contra as cotas raciais. Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste. Por isso, um pensador como Risério, que escreveu um livro absurdamente bom, agora deve manter a nuance e encarar o desafio de seguir pensando fora dessa aliança mais fácil e confortável, com a versão Globo-Veja da mitologia da mulatez nacional.

Não há realidade da mulatez nem singularidade brasileira que contorne o fato de que minha amiga e aluna Renata foi barrada ao tentar visitar meu quarto de hotel, às 20:15, sob a desculpa de que a partir de tal hora não subia ninguém, menos de 24 horas depois de que seu (ex)marido, branco, também aluno e amigo meu, subisse sem problemas às 20:45.

Hotel Rondônia, região ali do Catete, no Rio, se alguém quer saber onde foi.

Isso no Brasil acontece todo dia. Acontece uma vez para cada ocasião em que um profeta anuncia a nossa incomparável singularidade de povo totalmente mestiço.

Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara. Que o Senado faça algum remendo numérico nas porcentagens ou não, o mais provável é que se reconheça que a maioria da sociedade brasileira resolveu encarar essa dívida dessa forma, pelo menos por algum tempo. O que é bom.


Links: Blog do Nei Lopes
Blog do Juarez
E se Obama fosse africano, no blog da Cidinha.
O Brasil Negro, da Ana César.
Adeus Césaire, do Salamandro.
O magnífico poema de Ricardo Aleixo sobre a negritude subterrânea em Paris.
Movimento Brasil Nagô.


PS: O Globo fez uma listinha meio furreca de filmes brasileiros sobre o negro, mas se esqueceram – não é mesmo, Rafex e Bia – do melhor deles: It's all true, de Orson Welles.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (78)



segunda-feira, 17 de novembro 2008

Balanço da campanha de Obama

A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.


Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.

Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.

As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.

Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.

O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.

Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.

É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.

Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.

Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.

O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.

Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.

PS: Este texto também está publicado na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 12:49 | link para este post | Comentários (40)



terça-feira, 04 de novembro 2008

Cobertura ao vivo da noite histórica do Presidente Obama

Este post será atualizado ao longo da noite. Estamos tendo alguns problemas com o servidor, portanto, ao escrever seu comentário, guarde-o num processador de texto e tente de novo caso ele não entre. O problema não é causado pelo excesso de visitas, mas pelo excesso de chamadas ao site (cliques nos links de comentários e pedidos para que se renove a página). Portanto, quem usa leitor de RSS pode acompanhar tudo com este link, que inclui também os comentários. Seu pitaco é importante. Não desanime.

11:48: Até agora, Obama já levou Vermont, New Hampshire (que McCain tinha esperança de vencer), Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware, o Distrito de Colúmbia (da capital Washington), Maine e Illinois.

McCain já levou Kentucky, Carolina do Sul, Tennessee, Oklahoma.

Até agora, as grandes notícias são as vitórias de Obama na Pensilvânia e em New Hampshire. O resto era tudo esperado. Trata-se agora, basicamente, de confirmar Ohio ou Flórida e sair para o abraço.

12:00
. Fecharam-se as urnas em toda a região central do país e em Nova York. Dentro de uma hora, acho que dá para anunciar o resultado com certeza.

12:03: Para quem está com a televisão ligada: a MSNBC está dando um banho na CNN. Pulem pra lá.

12:04
: Faltam oito estados decisivos. McCain precisa vencer todos os oito.

12:08
. Começaram a chegar os votos de Fairfax County e de Charlotesville, em Virgínia. A diferença, que andava em 10% a favor de McCain, já caiu para 3%. Tentei fazer uma regra de três aqui, para determinar se dava para anunciar vitória. Ainda não dá, mas está com cara boa.

12:17. Os números da Flórida são bons para Obama. A disputa está muito apertada, mas a julgar pela votação de Jacksonville -- que é área militar, de McCain --, dentro de uns 30 minutos dá para ter notícias de lá.

12:31. Alguns leitores me avisam que a MSNBC já declarou Ohio para Obama. Sem ter visto o anúncio deles, o Biscoito está pronto para prever: Obama vencerá Ohio. Por que? Obama lidera sem único voto de Cuyahoga County. Ou eu fiquei doido, ou fiz a regra de três errado, ou o mapinha do NYT está errado. Tirando isso, Ohio é Obama!

12:34. Chegou a hora. Você leu aqui primeiro: BARACK OBAMA É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Daqui pra frente, é só matemática. Comemorem, porque não tem volta.

12: 47: A coisa na Flórida também está bonita, meus caros. Miami-Dade é território democrata, eu sei. Mas em geral é 55 x 45. Obama está vencendo por lá com 60 x 40. Nas áreas militares, em que McCain esperava ter grande vantagem, a diferença é pequena.

12:55. Uma multidão gigantesca se reúne em Chicago, no meu querido Grant Park, onde até joguei futebol. Meus queridos leitores, eu estou muito, muito emocionado. Este blog já errou muito, mas nesta, modéstia às favas, nós acertamos do começo ao fim. No dia 28 de janeiro, o blog declarou seu apoio a Obama e iniciou a jornada.

01: 06
. Pedro Doria me enche o saco porque McCain venceu na Louisiana. Olhe os votos de New Orleans, Pedro!

01:44. Obama lidera na Flórida com 80% dos votos apurados. Mas, como em Palm Beach, reduto obamista, somente 27% votos já foram contabilizados, o Biscoito está pronto para anunciar: Obama vencerá a Flórida!

01: 52. Uma revolução no voto popular acaba de ser confirmada: Barack Obama, um senador negro formado em Harvard, vencerá as eleições em Virgínia, estado do sul segregacionista. O Biscoito explicou o porquê há algumas semanas.

02: 00. Oito minutos depois do Biscoito, a CNN canta Virgínia para Obama. A última vez que Virgínia votou democrata, Castelo Branco era o presidente do Brasil.

03:00
. A festa começou por aqui. Chega de blogar. Amanhã, mais detalhes desta noite inesquecível.



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (132)




Avisos e links

Um breve aviso aos navegantes: trabalharemos aqui hoje somente com os números oficiais da apuração. Não vou nem olhar números de pesquisa de boca de urna. Eles não são confiáveis nos Estados Unidos. Se você lê inglês, dê uma olhada nas dez razões pelas quais você deve ignorar pesquisas de boca de urna aqui nos EUA, do Nate Silver. Claro que você pode deixar comentários com links a pesquisas de boca de urna, mas esses números só me farão ficar mais nervoso do que já estou.

Aí vão alguns links que nos acompanharão madrugada adentro:

Cnn.com: Das grandes cadeias de mídia, é a melhor. A mais confiável, o site mais elegante, com mais recursos. Este ano, eles acrescentaram um quadrinho em que você escolhe as eleições para o Senado e Câmara que quer acompanhar. Eles personalizam a entrega dos números para você.

Talking Points Memo: Eles são, mes amis, tudo o que qualquer blog político gostaria de ser. Revolucionaram a brincadeira. Não têm nenhuma pretensão de "neutralidade" ou "isenção". Trata-se de um site democrata de notícias. Mas a credibilidade é tudo. Eles nem precisam dar fontes, porque o trabalho independente deles, muitas vezes, é a própria fonte. É claro que torcem por Obama, mas se você me apontar um erro factual numa matéria do TPM, eu visto a camisa do ex-Ipiranga aqui no blog.

Daily Kos: Aqui já é um pouco mais complicado. Não os uso como fonte de notícias, mas como termômetro da militância mais entusiasmada. É uma operação gigantesca, no entanto, e sempre vale a pena conferir.

Five Thirty-Eight: A grande novidade blogueira desta eleição. Nate Silver, também eleitor de Obama, revolucionou a tortura dos números. Dá para ficar horas por ali, mastigando estatísticas. O homem é um monstro.

Hullabaloo: A linda, maravilhosa Digby foi um oásis de sanidade nas duríssimas primárias democratas entre Obama e Hillary. Ela apoiava Hillary, mas só ganhou o meu respeito pela forma como conduziu o debate. Ao contrário do Talk Left e do Left Coaster, que nesta eleição viveram sua decadência definitiva.

Red State: Para ver o que anda pensando o lado de lá, evidentemente.

Em lusitana língua, claro, o Pedro Doria estará conosco ao longo da noite.



  Escrito por Idelber às 17:37 | link para este post | Comentários (31)



sexta-feira, 31 de outubro 2008

A Onda Verde e a substituição da política pela moral

trevo.jpgFoi bonita, entusiasmada e criativa a campanha que se armou em torno de Fernando Gabeira para prefeito do Rio. Pelo papel que cumpriu a blogosfera e pelas novidades na sua composição, teria sido de se esperar um balanço mais detido da candidatura. Não aconteceu, talvez pelo excesso de proximidade emocional, talvez pela falta de instrumentos de quem poderia fazê-lo. Em todo caso, este blogueiro – que por falta de afinidade política nem passou perto de sentir que podia apoiar, mas que quiçá no fundo torcesse secretamente pela vitória de Gabeira – oferece aqui seus dois centavos de análise. A onda verde foi a mais recente articulação de um fenômeno (que pode ter encarnações “legais” e “bacanas”, como Gabeira) próprio da política brasileira dos últimos anos: a constituição de uma frente de classe média que quer reescrever a política com o vocabulário da moral.

Poucas vezes no Brasil se viu tanta insistência em reduzir a diferença política entre dois candidatos a uma diferença ética. A campanha de Gabeira praticamente não falou de outra coisa senão da superioridade moral de seu candidato. Assinalo isso não para negar que esta realmente exista – é evidente que é possível fazer contraposições éticas entre Gabeira e Paes --, mas para sublinhar que a campanha de Gabeira trabalhou o tempo todo com a convicção de que esta contraposição era suficiente, não só no terreno eleitoral mas também no político. Não percebeu quão extremamente classe média é esse valor, e na maioria das vezes se irritava ante a simples análise da longitude geográfica do seu candidato.

Esta desqualificação do outro lado não se limitava à figura de Paes, mas incluía também o seu eleitorado, frequentemente caracterizado como comprável e sujeito ao fisiologismo, por oposição à “metade” que supostamente seria “consciente” no Rio. Este estereótipo sofreu um duro golpe dos números no domingo, ao se revelarem em Copacabana taxas de abstenção que rondavam os 30%, em muito superiores às observadas na Zona Oeste. A “metade” “consciente” do eleitorado carioca brindou seu candidato com taxas recorde de abstenção, num fenômeno que este blog ainda gostaria de ver melhor analisado. Porque o número chave não é o “menos de um Maracanã lotado” que foi a diferença entre Paes e Gabeira. O número chave para a análise são os quase vinte Maracanãs que se abstiveram. Calculando-se proporcionalmente a abstenção no território verde (no eleitorado de Gabeira), seriam, na verdade, uns trinta Maracanãs.

Discordo de gente inteligente que minimizou ou racionalizou fenômenos como o encontrão de Gabeira com a vereadora Lucinha ou a desastrada declaração sobre a feijoada e o samba. Desculpe, mas se você não vê nesses episódios algo que revela uma visão de mundo, é melhor ajustar a lente. Gabeira não disse só “analfabeta política” para caracterizar uma pessoa, o que seria perfeitamente aceitável. Ele associou esse analfabetismo a uma visão “suburbana” da política. É verdade que o fez numa sucessão de orações subordinadas, mas o vínculo causal estava explícito: analfabeta porque suburbana, não adianta negar. Negá-lo é como negar má intenção no comercial de Marta contra Kassab – só é possível com viseira. Que o estopim tenha sido a proposta de um aterro sanitário em Paciência só acrescentava involuntária ironia ao fato.

Da mesma forma, a campanha de Gabeira não compreendeu bem o imenso faux-pas que foi a declaração de que certos sambistas iriam a um evento com Paes por causa da feijoada. Não se trata de discutir se Paes seria capaz de suborno ou se haverá gente que se submeta a isso. A resposta é afirmativa nos dois casos. No entanto, o X da questão não era esse, e sim o singelo fato de que não se insulta o samba e a feijoada assim. O objeto da injúria não era Paes, portanto não adianta retrucar com a cantilena da diferença moral entre os dois candidatos. Os objetos do insulto eram duas instituições supra-partidárias, simbólicas e, sim, sagradas para muita gente. Não se tratava ali de deslizes ou tropeços, mas de episódios reveladores -- que a coalizão verde, por ter refletido pouco sobre sua origem de classe, talvez tenha subestimado.

Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação. A mensagem ética, calculou-se, era suficiente. No domingo, enorme fração do eleitorado respondeu ficando em casa. Ou indo à praia. Ou viajando para a região dos Lagos. Ou indo à feijoada e ao samba porque, como se sabe, na Zona Sul também se faz feijoada e samba, e dos bons.

O problema com a redução da política à moral é a impossibilidade de realizá-la. Você pode se perguntar pelas relações entre esses dois termos, mas não conseguirá reduzir um ao outro. Pela milésima vez: isso não significa que não haja diferença ética entre Gabeira e Paes. É claro que há. Significa que no momento em que você decide responder todas as perguntas políticas com uma afirmação ética, você dinamita a própria ética. “Ser mais ético” é uma locução defectiva como o verbo “inovar”. Se você inova, há que dizê-lo o outro. Quando você é o candidato “da ética”, não pode fazer desse plus a sua única fonte de diferença política, sob o risco de abandonar a própria ética. Afinal de contas, se há algo que caracteriza o sujeito ético é a permanente suspeita de que não está sendo ético o suficiente.

Como dizemos por aqui, you can't have it both ways: se toda a sua diferença política se ancora na diferença moral, você não pode se recusar a aplicar a si mesmo o teste ético pelo qual o outro candidato não passaria – mesmo que o outro seja o candidato das milícias, do establishment da corrupção e do oportunismo. Ao contrário da política, a ética não é uma prática de trocas negociadas.

PS: Para uma avaliação da importância e também do limite da Onda Verde, considere-se os números claramente: dos 4,5 milhões de eleitores, quase 1 milhão se absteve. Dos 3,5 milhões, mais 4,8% votou nulo e 2% em branco. Dos restantes 3,3 milhões, Gabeira obteve 49%. Trata-se, portanto, de 36,5% do eleitorado, um número estupendo, mas bem mais próximo de “um terço do Rio” que de “metade do Rio”. É um número que merece ser comparado ao “piso / teto” de Marta Suplicy em SP, não por equivalência entre as duas pessoas, mas para se entender a política de alianças possível no Brasil hoje.

PS 2: Merece um super parabéns a iniciativa do amigo Pedro Doria em favor de seu candidato. Foi mais uma bela contribuição do seu blog à política. Que o amigo tenha cometido -- sem maldade, claro -- a injustiça de me atribuir "ojeriza irracional" ao Gabeira (numa tarde em que eu aterrizava em Georgetown, a convite de Bryan McCann, para palestrar analítica e elogiosamente sobre Gabeira!) não mudou em nada minha admiração pela dedicação do Pedro à candidatura em que acreditou e que ajudou a construir.

PS 3: Este blog completou 4 anos no dia 28 e o blogueiro completa 40 hoje. Sobre os poderes cabalísticos do 4, claro, Jorge Luis Borges escreveu um belo relato.



  Escrito por Idelber às 16:15 | link para este post | Comentários (114)



domingo, 26 de outubro 2008

Comentários -- eleições

Este post será atualizado -- em intensidade bem menor que na eleição do primeiro turno -- com alguns comentários sobre a votação deste domingo. Confirmou-se em São Paulo a vitória de Kassab por larga margem, o que deixa um ponto de interrogação sobre o futuro de Marta Suplicy como candidata a cargos majoritários na cidade e no estado. No Rio, parece que a onda verde não foi suficiente para levar Gabeira à vitória. Com 93% das urnas apuradas, Paes tem uma pequena vantagem e deve levar.

O PT conquista pela primeira vez a prefeitura de Canoas, vence em Anápolis e amarga uma derrota que eu, pelo menos, não esperava -- em Juiz de Fora.

18: 55. O RS Urgente relata mais um abuso da Polícia Militar do Coronel Paulo Roberto Mendes, no Rio Grande do Sul: eleitores presos em Canoas e Porto Alegre por portar bandeiras.

18:58. Nenhuma surpresa em Contagem (MG), onde Marília Campos (PT) é reeleita. O poder econômico de Ademir Lucas (PSDB), que já teve seus bens temporariamente embargados pela justiça, não foi suficiente.

19:07. O número que mais me surpreende até agora é a abstenção na cidade do Rio de Janeiro. Numa eleição acirradíssima, 20% dos eleitores cariocas, ou quase 1 milhão de pessoas, não votaram.

19:11. Eduardo Paes é eleito prefeito do Rio de Janeiro. Se pelo menos 7% do enorme eleitorado que se absteve tivesse ido às urnas sufragar Gabeira, teria sido suficiente para a onda verde.

19:29. O poste está eleito em Belo Horizonte com 59% dos válidos. Dos males, o menor. Parte da midia tentará apresentar este resultado como uma vitória de Aécio. Esse efeito tem o reforço da eleição (relativamente surpreendente) do tucano Custódio Mattos em Juiz de Fora. Considerando-se as expectativas que tinham de levar no primeiro turno em Belo Horizonte, esse veredito de "vitória" de Aécio precisará ser ligeiramente massageado. Fernando Pimentel sai derrotado, sem dúvida: terá que encarar correligionários furiosos com ele.

19:47. Em Macapá Roberto Góes (PDT) derrota Camilo Capiberibe (PSB). Para coisas do Amapá, me valho sempre do que escreve a jornalista e blogueira Alcinéa Cavalcante.

20:04: Contagem, S.B.do Campo, Guarulhos, Mauá, Joinville, Canoas, Petrópolis e Anápolis elegeram prefeitos do PT no segundo turno. O PT sofreu viradas em Juiz de Fora e Santo André e perdeu em Salvador pela margem prevista pelas pesquisas, o que não deixa de ser digno de nota.

20:18. Pense o que você quiser pensar sobre as forças políticas paulistanas, petistas e tucanos concordarão que a campanha de Kassab foi superior à de Marta. Parabéns ao Jayme Serva.

20:33. No Rio de Janeiro e em São Paulo, independente de por quem você estivesse torcendo no segundo turno, é inegável que se produziu um fenômeno interessante no voto: a polarização de classe, fortemente marcada na tensão centro x periferia em SP e na cisão Zona Sul x Zonas Norte e Oeste no Rio. Há que se escrever com mais calma sobre estas duas eleições, mas continua me impressionando que, numa abstenção municipal de 19%, a de Copacabana tenha sido 28%.

20:45. Vitórias do PMDB: Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA); Porto Alegre (RS); Florianópolis (SC); Campos (RJ); Montes Claros (MG); Bauru (SP), Campina Grande (PB) (compilação do leitor Marcos D.). O PMDB é uma espécie de Partido Peronista (Justicialista) Brasileiro, com as ligeiras diferenças de que nunca foi líder de porra nenhuma, nunca conquistou direitos sociais ou trabalhistas reais para o povo, nunca foi majoritário nacionalmente no voto livre e, bem, nunca teve Perón e Eva. Apesar de tudo isso, nunca esteve realmente fora do poder. É a garganta elástica e a carcaça sem a qual fica difícil governar, em geral, no Brasil. Neste sentido, e só neste, o PMDB é um equivalente brasileiro do Partido Justicialista. Num Brasil que tivesse uma reforma política real e justa, o PMDB não precisaria existir.

21:00. Derrota de Gabeira provoca noite melancólica na internet.

21.11. Fábio Carvalho argumenta acertadamente no blog do Pedro Dória que atribuir a derrota de Gabeira à esquerda é muito míope. Houve figuras de esquerda que o apoiaram (Marina Silva), outras que se mantiveram neutras (Chico Alencar, Alessandro Molon) e outras que o antagonizaram (Jandira). Gabeira escolheu um leque de alianças e sabia o que fazia. Inimaginável seria que unisse a esquerda. Mais em breve, em outro post.



  Escrito por Idelber às 17:40 | link para este post | Comentários (155)



sábado, 25 de outubro 2008

Endosso ao poste

Conterrâneos relatam que Belo Horizonte encontra-se num marasmo só para a eleição de domingo, ao contrário do que tem sido a tradição recente. Aconteça o que acontecer, a aliança idealizada por Aécio e Pimentel, da qual se esperava vitória no primeiro turno, já foi derrotada -- pelo menos na forma em que tomou. A idéia, mascarada como “superação do Fla x Flu entre PT e PSDB”, acabou criando um Fla x Flu entre a política e a verdade, o que é pior, muito pior.

Márcio Lacerda se revelou um candidato com fortes traços autoritários, práticas nebulosas e pouquíssimo comprometimento com a bem sucedida experiência de 16 anos da esquerda no leme em BH. O retrocesso já aconteceu e foi sacramentado no momento em que a dissidência de esquerda, aglutinada em torno a Jô Moraes(PC do B), não conseguiu encaixar uma campanha propositiva, perdeu-se no ressentimento e acabou em terceiro lugar. No segundo turno contra Lacerda, um anacronismo monstruoso do século XII, Leonardo Quintão: uma legítima versão tupiniquim de Sarah Palin, membro de um clã obscurantista com histórias que envolvem fanatismo religioso, perseguição a vozes discordantes, trabalho escravo e nepotismo. Barra pesadíssima. *

Por isso, já tendo exercido o sagrado direito de criticar e zombar da negociata Pimentel-Aécio -- e depois de entrevistar gente, ler e assistir materiais eleitorais, informar-se mais sobre os Quintão e lembrar-se bem da devastação que foi a prefeitura do PMDB de Sergio Ferrara em BH --, o blog adere ao slogan Merda por merda vote no Lacerda e convida seu leitor belo-horizontino a não se manter neutro neste domingo, mesmo que esta seja a eleição mais melancólica da história recente da cidade.

Convido também o leitor a abrir uma cervejinha depois da votação e torcer por uma vitória de Lacerda por 50,1%. O tapa de luvas das urnas já terá sido dado. Ainda está por se ver qual será o grau de controle de Aécio sobre uma eventual prefeitura Lacerda, mas não será pequeno. Manter as conquistas dos últimos 16 anos será uma batalha morro acima. É impossível, no entanto, brincar com um retrocesso como o representado por Quintão. Vale a pena tapar o nariz e sufragar o poste.

Depois, já é outra etapa do jogo.

* Atualização: sobre trabalho escravo no Brasil e alhures, ver o indispensável Blog do Sakamoto.



  Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post | Comentários (69)



domingo, 19 de outubro 2008

TRE-RJ censura, mídia e blogs se calam

Há tempos eu digo que a judicialização do debate político é daninha e deve ser combatida. Os blogs já foram vítimas desse processo várias vezes no Brasil. Os Tribunais Eleitorais Regionais e o Superior vêm empilhando absurdo em cima de absurdo, com decisões judiciais estabelecendo até mesmo quando pode ser dito o quê numa página pessoal. Quem acompanha este blog há anos sabe das incontáveis ocasiões em que intervim contra esses abusos, na maioria das vezes, inclusive, em defesa de pessoas cujas opiniões políticas são radicalmente diferentes das minhas (caso Imprensa Marrom, caso Marco Nascimento, caso Alcinéa, caso Álvaro, caso Novo Jornal, caso em que defendi os apoiadores de Gabeira quando ELES foram censurados, caso das fotos dos espancadores de prostitutas).

Por isso acho cínico e intolerável que algum blogueiro passe a considerar natural que um partido político seja proibido de, caramba, imprimir um panfleto.

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro mandou apreender um panfleto produzido por PT, PSB, PDT e PC do B, que simplesmente trazia as fotos de Fernando Gabeira e César Maia e, no verso, as frases Diga não à continuidade do prefeito César Maia. Pense nisso! No panfleto não havia mais nada: nenhuma injúria, nenhuma calúnia, nenhum ataque à honra de ninguém. O volante vinha assinado pelos quatro partidos e continha CNPJ. Tudo dentro da lei. Considerando o fato de que o Partido Verde esteve com César Maia em 1996, 2000, 2004 e 2008, ele simplesmente apresentava uma versão sobre um fato político real e verdadeiro. Seja qual for sua opinião sobre essa versão, ela está a milhas de distância de qualquer coisa que deveria ser censurada numa sociedade democrática.

Se, em algum país da América do Norte ou da Europa, eu relatar que um panfleto como este

panfleto.jpg

foi apreendido pela Justiça em meio a uma campanha eleitoral, algum interlocutor mais desavisado pensará que o Brasil ainda vive sob ditadura militar. O conteúdo do panfleto é idêntico, ipsis litteris, às dezenas de comerciais que Barack Obama vem fazendo há meses contra John McCain: McCain representa mais quatro anos de Bush. Ele nada tem a ver com os comerciais de McCain que insinuam que Obama tem ligações com terroristas, calúnia cujo equivalente carioca seria imprimir um panfleto chamando Gabeira de, por exemplo, seqüestrador e maconheiro. A simples idéia de que um panfleto que contém a afirmação Diga não à continuidade do prefeito Cesar Maia possa ser censurada seria incompreensível em outro país.

Mas, no Brasil, como o autor do panfleto é o PT, não se ouviu um pio dos que falam de “estado policial”. Não se viu um único protesto nos jornais paladinos da “liberdade de expressão”. O juiz Fábio Uchôa, responsável pela pérola, explicou que o panfleto é irregular porque não apresenta o nome de Eduardo Paes como beneficiado pela crítica a Gabeira. É uma piada. O juiz quer legislar como o panfleto deve ser escrito.

Na horda fanaticamente anti-petista que freqüenta o blog do Noblat, a apreensão dos panfletos foi suficiente para que uma pilha de comentários escritos em algo que vagamente se assemelha à língua portuguesa pedisse a prisão dos responsáveis! Que se prenda aquele que ousa insinuar que Gabeira representa uma continuidade de César Maia! Um único leitor, Alexandre Porto, deu um baile de argumentos na turba inteira.

Evidentemente, não se ouvirá um único protesto dos colunistas do Globo, da Veja e da Folha, sempre tão solícitos nas insinuações de que o governo Lula cerceia a “liberdade de imprensa”. Espero, sinceramente, ler um pouco mais de repercussão nos blogs, que devem examinar com carinho a hipótese de que é hipócrita protestar contra a censura somente quando o censurado compartilha nossas opiniões.

PS: O ombudsman da Folha faz o balanço do é casado? Tem filhos? do comercial de Marta contra Kassab. A Folha dedicou a essas duas frases exatamente quatro chamadas de capa, 11 abres de página, 24 matérias, oito colunas, seis notas e 1.172 centímetros de texto.

* Crédito da foto: Marcos Tristão.



  Escrito por Idelber às 04:36 | link para este post | Comentários (107)



sexta-feira, 17 de outubro 2008

Dois mineirim

-- Só precisamos encontrar um candidato maleável, sabe como é?

-- Eu já tenho. Vai ser o Márcio mesmo.

-- Será que cola? Ninguém conhece. Além de tudo tem a fortuna dele, a história do valerioduto, aquela falcatrua na CEMIG....

-- Deixa de ser bobo, Fernando. Como está a aprovação da prefeitura?

-- Por volta de 82%.

-- Mais a máquina do estado. A imprensa já está orientada. O Estado de Minas, como sempre, fiel. O MG TV já está martelando a idéia da unidade para o bem de Minas. Transcender as divisões artificiais que nos separam, aquela coisa toda. Vai ser no primeiro turno.

-- Tem legenda?

-- Claro, o PSB daqui está no bolso.

-- Se vamos de PSB, não é melhor a Ana Lúcia, que tem história, é conhecida na cidade?

-- Vetada. Não é maleável. Tem mania de ser independente demais. Não dá para confiar. E os radicais do PT?

-- Fica tranqüilo. Esses a gente esmaga na convenção. Só no Santa Inês ontem nós filiamos mais 300. Com as Kombis, os sanduíches, coisa e tal.

-- E o Patrus e o Dulci?

-- Estão lá com o Lula. Não vão arriscar o desgaste.

-- Se o Patrus baixa aqui em BH, ele ganha eleição direta até para presidente do Cruzeiro.

-- O Patrus é atleticano.

-- Pois é.

-- Não se preocupe. A gente solta a notícia quando já for fato consumado.

-- E se os radicais lançam um Rogério Correia da vida com o PC do B?

-- Não têm fôlego, não têm grana. Não dão nem para a saída.

-- Então está limpo o terreno.

-- Limpíssimo.

-- É, meu caro, você pode ir pensando no seu vice para o Palácio da Liberdade em 2010.

-- Tenho a sua palavra, então.

-- Claro. E para a minha jornada ao Planalto já está tudo acertado com o PMDB se o Vampiro encrespar lá em São Paulo.

-- Conte comigo. E como começamos a campanha?

-- Um ato conjunto pela unidade do estado. Minas volta ao protagonismo na cena nacional. Retoma sua tradição de reconciliação e negociação.

-- Seu avô se orgulharia de você, amigo. E depois?

-- Já está marcada a caminhada de sábado com o Márcio no Mercado Central.

-- Nos encontramos lá então?

-- Sim, mas tem que mandar o motorista buscar o Márcio.

-- Por quê?

-- Ele não sabe chegar no Mercado Central.

-- Qual o seu cálculo de resultado?

-- Venceremos no primeiro turno com 65%. É só esperar abrir as urnas.



  Escrito por Idelber às 05:50 | link para este post | Comentários (68)



quarta-feira, 15 de outubro 2008

Homofobia e falsa indignação

Nos EUA, costuma-se distinguir entre racismo e o que chamamos race-baiting, que é usar o racismo alheio para benefício próprio, geralmente político-eleitoral. Ninguém em sã consciência diria que Bill Clinton é racista, mas parece-me inegável que ele tentou se aproveitar do racismo sulista contra Barack Obama nas primárias democratas da Carolina do Sul. Há que se conhecer o contexto americano para saber tudo o que se escondia na aparentemente inocente frase ah, não se preocupe, Jesse Jackson também ganhou as primárias da Carolina do Sul em 1984 e 1988.

A campanha de Marta Suplicy errou, e errou feio, ao introduzir as perguntas é casado? tem filhos? no final de um comercial em que fazia uma série de indagações legítimas sobre o passado político de Gilberto Kassab. Se existe algum falante de português deste lado do Atlântico que ainda não viu o anúncio, ele está aqui. Não me parece honesto negar que essas perguntas tentavam jogar com a homofobia alheia. Não me parece honesto dizer que “são perguntas como quaisquer outras”. Não me parece respeitoso com a inteligência alheia tergiversar, como o fez Jilmar Tatto (PT-SP), dizendo que “quando vou à periferia, me perguntam se sou casado, essas coisas”. A pergunta claramente tentava induzir uma reação homofóbica. A resposta do grupo LGBT de apoio à Marta, criticando o comercial, foi na veia. Acho que Marta errou uma segunda vez ao não assumir a responsabilidade pelo anúncio, colocando-o nas costas do marqueteiro. Um anúncio veiculado por uma campanha é de responsabilidade do candidato. Se viu ou não viu, se aprovou ou não aprovou, importa pouco. Ela é responsável pelo que sua campanha veicula. Reitero: condeno o comercial e condeno o fato de que Marta lavou as mãos.

Mas é no mínimo curioso ver os dois pesos e duas medidas da mídia brasileira. A Folha de São Paulo dedicou praticamente metade de seu caderno Brasil desta terça a essas duas frases no comercial de Marta. Vejamos qual é o histórico da Folha de São Paulo no respeito à vida pessoal da própria Marta Suplicy. Infelizmente, os links são restritos a assinantes.

No dia 28/10/2002, a Folha publicou coluna de Danuza Leão que dizia: Os estrangeiros usavam camisa esporte, e o único de terno e gravata era Luis Favre, com seu olhar de mormaço. No dia 18/05/2002, o Painel se preocupou em dizer: Depois de cada ato ou inauguração, a prefeita de SP, Marta Suplicy (PT), invariavelmente telefona para Luis Favre. Para relatar como foi o evento. Como se isso fosse notícia relevante. Ou como se tivesse sido notícia no caso de um político homem. O jornal não demonstrou nem meia linha de indignação no dia 10/08/2002, quando Garotinho disse: prefiro falar sobre o assunto com o franco-argentino que é de fato prefeito de São Paulo. Tampouco apareceu indignação alguma no dia 29/10/2001, quando Paulo Maluf se referiu a Favre como “gigolô”. Pelo contrário, o jornal designou a reação dos petistas contra a injúria como “discurso ensaiado”. No dia 15/02/2002, a Folha publicou coluna de Bárbara Gancia que concluía com a monstruosidade: Sabe por que ele é franco-argentino e não vice-versa? Porque não existe argentino-franco.

Não, leitores, essa baixaria xenófoba não saiu na Veja nem na Capricho. Saiu na Folha. O mais respeitado jornal brasileiro.

No dia 21/04/2001, a Folha reproduziu um texto de Cláudio Humberto – sim, aquele mesmo – que continha tantos insultos contra Marta Suplicy e Luis Favre que o Biscoito, simplesmente, se recusa a linkar. Era um anúncio pago de pura difamação, publicado pelo maior jornal brasileiro. Procurem no google. O fato é que o próprio ombudsman sugeriu um “erramos”, que jamais foi feito.

Eu poderia continuar até amanhã de manhã, linkando matérias em que a vida de Marta foi enxovalhada e ridicularizada, numa mescla perversa de sexismo e xenofobia. Que ela seja criticada pelas duas frases sobre Kassab que jogavam com a homofobia alheia. Mas quando será que os mesmos arautos da falsa indignação reconhecerão o seu telhado de vidro? Será que o jornal O Globo tem autoridade para criticar Marta por envolvimento na vida privada do adversário quando esse mesmo jornal, no dia 14/12/1989, publicou esse editorial sobre a infinitamente mais desprezível tática de Collor contra Lula no caso Miriam Cordeiro? No blog do aprendiz de pitbull da Veja, é hora de indignação contra o comercial de Marta. Talvez o blogueiro da Veja tenha se esquecido de que seu histórico de referências a gays e lésbicas é uma coleção de monstruosidades.

Comentando a repercussão do comercial em seu blog sob o título “O milagre de Dona Marta”, Noblat afirma que nunca antes na história deste país os mais destacados blogueiros haviam falado a mesma língua, defendido o mesmo ponto de vista. A lista de links fornecidos por Noblat é, salvo um, de funcionários da grande mídia. Com a exceção de Pedro Dória, não reconheço nenhum deles como “destacado blogueiro”. Suponho, caro Noblat, que há diferentes listas de “destacados blogueiros”. A minha inclui Alexandre Inagaki, Marco Aurélio Weissheimer, Fal Azevedo, Mary W. Certamente não inclui Daniel Piza ou Rosane de Oliveira. Na minha lista de “blogueiros destacados” não houve unanimidade nenhuma. O post mais inteligente, de longe, foi o da Mary W. Outra coisa que talvez valesse a pena dizer a Noblat é que o epíteto “Dona Marta” é insuportavelmente sexista.

Suponho que é consenso entre os leitores do Biscoito que a vida privada de cada um é problema de cada um. Suponho que também seja consensual que, para gays e lésbicas, sair ou não sair do armário é decisão de foro íntimo, que inclui consideração de tantos fatores que a última palavra é sempre decisão pessoal e intransferível. Mas quando há suspeitas de que um prefeito cria uma secretaria de desburocratização para abrigar seu suposto companheiro, a pergunta sobre o nepotismo e a transparência é, sim, de interesse público. A campanha de Marta não soube levantá-la. Espero que a indignação moral contra Marta leve a nossa mídia a um pouco de reflexão sobre o seu próprio telhado de vidro.



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (191)



sexta-feira, 10 de outubro 2008

Drops

Há algumas citações recentes ao Biscoito que eu gostaria de agradecer. Fomos citados naquele perigoso órgão do comunismo internacional, o Guardian. Fiquei muito lisonjeado. Continuo sonhando com um Brasil que tenha pelo menos um jornal da qualidade do Guardian.

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A Revista Bula fez uma pesquisa entre universitários brasileiros e o Biscoito foi um dos dez blogs mais citados. Gracias muy mucho.

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Falzuca, a poderosa madrinha, vem arrasando nos lançamentos do seu novo livro e me citou nessa entrevista. Só de ter representado alguma coisa para uma pessoa tão iluminada como a Fal já vale a pena ter tido blog.

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Aliás, no dia 28 deste mês o blog completa quatro anos. Três dias depois, no Halloween – ou no dia do Saci-Pererê, segundo o companheiro Aldo Rebelo – o blogueiro completa quarenta...

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Salve: Mino Carta está de volta à blogosfera.

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Mais uma daquelas ótimas descobertas: um blog só sobre imagens que fracassaram (dica da Daniela Arrais lá no Favoritos).

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zizek.jpgAlô, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O grande Slavoj Žižek vai ao Brasil, para o lançamento de A visão em Paralaxe. Dia 12, na Boa Terra, às 15 horas, no Instituto Cultural Brasil-Alemanha; dia 13, no Teatro de Arena da UFRJ, campus Praia Vermelha, às 20 horas; dia 14, no Sesc Vila Mariana, às 19:30. Mais detalhes aqui. Se puder, compareça. Só ver o cabra transpirando já é um espetáculo em si.

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Aqui nos States, o tema eleitoral da última semana foi a queda completa da campanha de John McCain nas acusações desesperadas a Obama por “associação com terroristas”. Veja este vídeo para ter uma idéia do clima de ódio que anda imperando nos comícios de McCain. A cobertura completa está no TPM. Enquanto isso, eleitores de Nova York recebem cédulas com o nome Osama em vez de Obama. Foi um erro “tipográfico”, afirmaram os responsáveis. Claro que este blog não acredita em teorias da conspiração...

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Perdido lá no cantinho do “Painel”, da Folha, está a notícia de que a investigação da Polícia Federal concluiu que não houve grampo nenhum em Gilmar Mendes. Paulo Henrique Amorim pergunta-se, com razão: e se o veredito fosse o contrário? Qual o seria o tamanho da manchete de primeira página? Aliás, a Folha vai continuar fingindo que não foram publicadas denúncias seríssimas contra o homem que ocupou mais de 30 manchetes do Caderno Brasil nos últimos dois meses?

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A Folha de São Paulo realmente escondeu uma pesquisa do DataFolha sobre o segundo turno em Belo Horizonte?

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Altamiro Borges faz um bom balanço do desempenho da esquerda nas eleições municipais. Concordo com tudo, mas acho que a mesma crítica que se faz ao PT do Rio de Janeiro deve ser feita ao PC do B do Rio Grande do Sul.

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Mas foi Mestre Inagaki quem fez o post definitivo sobre as eleições municipais.

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Abraços aqui de Rutgers University, em New Brunswick, Nova Jersey, onde o blogueiro palestra neste fim de semana, convidado, desta vez, pelos alunos.



  Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post | Comentários (69)



quinta-feira, 09 de outubro 2008

Agora é São Paulo

Acabo de trocar emails com Soninha Francine, que é leitora do Biscoito. Mandei-lhe meu quixotesco apelo, cheio de argumentos, a que ela apoiasse Marta Suplicy no segundo turno em São Paulo -- já sabendo, em todo caso, que eu não tinha muitas chances. Soninha me respondeu, como sempre, amável e atenciosíssima, e também cheia de argumentos. O resumo da ópera é: sem chances.

Também troquei emails com militantes do PSol, fazendo a eles o mesmo apelo, também infrutífero. Acaba de sair a resolução do PSol sobre o segundo turno em São Paulo. Publico-a aqui, na íntegra. Reitero que discordo frontalmente da resolução, mas publico-a para seu conhecimento.

Resolução do Diretório Municipal do PSol em São Paulo

No Segundo Turno em São Paulo: duas candidaturas do mesmo projeto

Queremos agradecer aqueles que depositaram sua confiança na candidatura Ivan Valente e nos candidatos e candidatas do PSOL. Queremos reiterar nosso compromisso com as lutas sociais a começar pela presença do PSOL na jornada de lutas preparadas pelos setores combativos dos movimentos sindical e popular. O PSOL segue firme nas lutas do nosso povo, em defesa de seus direitos e na construção de uma sociedade socialista.

Chegamos ao final da campanha eleitoral com o sentimento de dever cumprido, fizemos uma campanha programática que defendeu inversão de prioridades, retomada de mais verbas para educação e a defesa da implantação do Sistema Único de Saúde 100% público e denunciamos o pagamento da dívida pública que compromete 13% do orçamento, as privatizações, a corrupção e a troca de favores na administração municipal.

Combatemos o financiamento privado das campanhas por grandes empresas, bancos e empreiteiras sendo a única candidatura a revelar os financiadores de sua campanha antes de 5 de outubro. Com independência política e econômica realizamos uma campanha militante, que contou com a contribuição voluntária de centenas de companheiros e companheiras que dispuseram seu tempo e energia política para defender nossas propostas nas ruas, escolas e locais de trabalho por todos os cantos da nossa cidade.

Com isso reafirmamos a coerência política que originou o PSOL. Somos oposição ao governo Lula e sua política econômica e ao governo Serra e seu ataque aos serviços públicos em São Paulo. A campanha demonstrou que as diferenças existentes entre PT, PSDB e DEM são muito menores que as semelhanças de seus projetos atualmente.

Reafirmarmos em alto e bom som a necessidade de uma alternativa de esquerda para São Paulo e repudiamos os que iludiram o eleitorado com a imagem de uma nova alternativa, mas que não hesitaram em colaborar com a velha direita se tornando linha auxiliar de candidatura do Kassab e que agora, no segundo turno, revelam suas reais intenções.

Decidimos não apoiar nenhum dos dois candidatos, pois nenhuma das candidaturas representa uma mudança para São Paulo e ambas estão atreladas politicamente ao poder econômico sendo financiadas por grandes corporações.

Como afirmamos em nossa campanha: São Paulo não precisa de mais um gerente para administrar o mesmo projeto. Precisa de outro projeto construído com o povo.



  Escrito por Idelber às 07:35 | link para este post | Comentários (147)



quarta-feira, 08 de outubro 2008

Open thread de Belo Horizonte

Lacerda, Quintão ou voto nulo?



  Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post | Comentários (120)




Políbio Braga publica texto alheio sem citar fonte

Cristóvão Feil, do blog Diário Gauche, publicou um texto que demonstra como foi burra a estratégia do PC do B gaúcho ao dividir a Frente Popular e lançar Manuela D'Ávila para a prefeitura de Porto Alegre. Cristóvão mostra como o PPS brittista colocou seus ovos em duas cestas, apoiando formalmente a Manuela mas mantendo quadros – como Cézar Busatto, ex-chefe da Casa Civil da Yeda Crusius (PSDB), ou a esposa de Busatto, Clênia Maranhão – na campanha de Fogaça (PMDB). A tática é conhecida e “chupa” a densidade eleitoral de um partido para ser capitalizada por outro.

O resultado foi um desastre para o PC do B. O PPS teve 842 votos na legenda e elegeu três vereadores para a Câmera. O PC do B? Teve 14.796 votos na legenda e não colocou nenhum vereador na Câmara. Deixo para os gaúchos a tarefa de calcular quantos vereadores o PC do B poderia ter elegido no interior da Frente Popular.

No dia 06 de outubro, segunda-feira, às 13:10, o jornalista Políbio Braga publicou o texto de Cristóvão sem crédito, com o cabeçalho “Opinião dos leitores”, o que evidentemente dá a entender que o texto era de autoria de um leitor seu. Foi publicado assim: sem fonte, sem link, sem nada. Como está documentado no Diário Gauche, ainda na segunda-feira, às 20:22, Políbio foi avisado por email, pela Cláudia Cardoso, que o texto havia sido escrito pelo Cristóvão. À uma hora da manhã desta quarta-feira, mais de vinte e oito horas depois, Políbio ainda mantinha o texto plagiado em seu site, sem qualquer crédito ao devido autor ou reconhecimento do grave erro.

Políbio é jornalista e trabalhou na Zero Hora e na Veja.



  Escrito por Idelber às 00:37 | link para este post | Comentários (20)



terça-feira, 07 de outubro 2008

Números das eleições de domingo

O leitor Marcos D. fez a gentileza de produzir esta compilação sobre os resultados nas maiores cidades brasileiras. Agradeço-lhe muito pelo trabalho e publico só os números, sem comentários.

Número de prefeitos eleitos por cada partido nas cidades com mais de 200.000 eleitores:

PT:
1) Rio Branco (AC);
2) Fortaleza (CE);
3) Cariacica (ES);
4) Vitória (ES);
5) Betim (MG);
6) Recife (PE);
7) Belford Roxo (RJ);
8) Nova Iguaçu (RJ);
9) Porto Velho (RO);
10) Carapicuíba (SP);
11) Diadema (SP);
12) Osasco (SP);


PC do B:

1 Olinda (PE);
2)Aracaju (SE);


PP:
1) Maceió (AL);
2) Uberlândia (MG);
3) Maringá (PR);

PMDB:
1) Aparecida de Goiânia (GO);
2) Goiânia (GO);
3) Campo Grande (MS);
4) Uberaba (MG);
5) Campos (RJ);
6) Volta Redonda (RJ);
7) Caxias do Sul (RS);
8) Guarujá (SP);
9) Santos (SP);
10) Ananindeua (PA);

PDT:
1)Serra (ES);
2)Niterói (RJ);
3)São Gonçalo (RJ);
4)Campinas (SP);

PSB:
1)João Pessoa (PB);
2)São Vicente (SP);

PSDB:
1) Curitiba (PR);
2) Jaboatão dos Guararapes (PE);
3) Teresina (PI);
4) Duque de Caxias (RJ);
5) Franca (SP);
6) Jundiaí (SP);
7) Piracicaba (SP);
8) S.José dos Campos (SP);
9) Sorocaba (SP);


DEM:
1)Feira de Santana (BA);
2)Mogi das Cruzes (SP);
3)Ribeirão Preto (SP);
4)Blumenau (SC);


PR:
1)São João do Meriti (RJ);

PV:
1) Natal (RN);


2º. Turno –
1) Macapá (AP) -(PSB X PDT);
2) Manaus (AM)- (PTB X PSB);
3) Salvador (BA) -(PT X PMDB);
4) Anápolis (GO) - (PT X PMDB);
5) Vila Velha (ES) - (PR X PMDB);
6) São Luís (MA) - (PSDB X PC do B);
7) Cuiabá (MT) -(PSDB X PR);
8) Belo Horizonte (MG) - (PSB X PMDB);
9) Contagem (MG) - (PT X PSDB);
10) Juiz de Fora (MG) - (PT X PSDB);
11) Montes Claros (MG) -(PMDB X PPS);
12) Belém (PA)- (PTB X PMDB);
13) Campina Grande (PB) - (PMDB X PSDB);
14) Londrina (PR) - (PP X PSDB);
15) Ponta Grossa (PR)- (PSDB X PPS);
16) Petrópolis (RJ) - (PT X PSB);
17) Rio de Janeiro (RJ) - (PMDB X PV);
18) Canoas (RS)- (PT X PTB);
19) Pelotas (RS) - (PT X PP);
20) Porto Alegre (RS) - (PMDB X PT);
21) Bauru (SP) - (PSDB X PMDB)/
22) Guarulhos (SP) - (PT X PSDB);
23) Mauá (SP) - (PT X PSB);
24) Santo André (SP) - (PT X PTB);
25) S.Bernardo do Campo (SP) - (PT X PSDB);
26) S.José do Rio Preto (SP) - (PSB X PT);
27) São Paulo (SP) - (DEM X PT);
28) Florianópolis (SC) - (PMDB X PP);
29) Joinville (SC) - (PT X DEM);


Número de cidades em que cada partido disputará o 2o. turno:

PT - 15
PMDB - 11
PSDB - 10
PSB - 6
PTB - 4
PP - 3
DEM - 2
PR - 2
PPS - 2
PDT - 1
PC do B - 1
PV - 1

Nestas 77 cidades:

Prefeitos eleitos pelos partidos da base de Lula: 34
Prefeitos eleitos pela oposição a Lula: 14
Cidades em que haverá segundo turno: 29
Cidades em que a base de Lula e a oposição se enfrentam no 2o. turno: 13
Cidades em que candidatos da base de Lula se enfrentam no 2o. turno 15
Cidades em que dois candidatos da oposição a Lula se enfrentam no 2o turno: 1



  Escrito por Idelber às 04:17 | link para este post | Comentários (58)



segunda-feira, 06 de outubro 2008

Open thread das eleições

A análise mais detalhada dos resultados deste domingo virá depois, já que eu tenho que ir ali pegar um avião para palestrar em Georgetown University.

Não vou sem antes, no entanto, dizer que se terá que fazer muito malabarismo para ler nesses resultados algo diferente do que aconteceu: uma vitória avalassadora da base de sustentação do presidente Lula, e muito especialmente das forças de esquerda (PT, mas também PC do B e PSB), que elegeram no primeiro turno, para limitar-nos às capitais, os prefeitos de Vitória, Rio Branco, Recife, Fortaleza, Aracaju, Porto Velho, Boa Vista, João Pessoa e Palmas, além de enviar candidatos petistas, socialistas ou comunistas aos segundos turnos de Salvador (enterrando ACM), Porto Alegre, São Paulo, São Luís, Macapá, Manaus e, dependendo de como você olhe a coisa, Belo Horizonte. Além disso, a base de sustentação do governo, com forças que não são de esquerda, venceu em Goiânia, Maceió e Campo Grande e está no segundo turno em Florianópolis, Cuiabá e Belém. O governo só foi derrotado no primeiro turno de Natal, Curitiba, Teresina e, dependendo de como você veja a coisa, Rio de Janeiro.

Nas cidades médias do chamado G-79, a onda vermelha inclui uma longa lista de vitórias no primeiro turno, que vai de Betim a Nova Iguaçu, de Belford Roxo a Osasco, além de uma série de vantagens largas para o segundo turno em muitas outras.

A coisa ficou tão feia para a direita que o blogueiro da Veja está comemorando o fato de que Luiz Marinho (PT), em São Bernardo do Campo, "só" conseguiu 49% dos votos e terá que confirmar a vitória no segundo turno.

Em Minas Gerais, o PT elegeu mais de 100 prefeitos e venceu na grande maioria das cidades importantes. Não fosse a ambição e a visão estreita de Fernando Pimentel, o PT teria varrido Aécio Neves das cidades grandes e médias de Minas.

Claro que Natal foi um revés importante, na medida em que Lula tomou a coisa meio emocionalmente e sua candidata perdeu. É evidente que Porto Alegre e São Paulo serão pelejas duríssimas que, em caso de derrota, relativizarão a avalanche.

Até mesmo a lambança feita em Belo Horizonte tem o seu lado positivo -- o eleitorado rejeitou o coronelismo e recusou-se a eleger um candidato que tinha tudo nas mãos: as máquinas estadual e municipal, a TV, o dinheiro.

Sobre o Rio de Janeiro, uma palavra: é de um cinismo atroz que os apoiadores de Fernando Gabeira achem natural receber endosso automático do PC do B, do PT e do PSOL, enquanto todas as forças políticas que sustentam Gabeira -- o PPS, o PSDB, o PV -- se aninham com Fogaça em Porto Alegre e com Kassab em São Paulo, optando por compor alianças contra a esquerda em todas as cidades importantes onde a escolha se apresenta. No Rio, a esquerda é de uma incompetência terrível, mas ela será o fiel da balança, com seus 17%. Há duas alternativas para o PT e o PC do B no Rio de Janeiro. Apoiar Gabeira não é uma delas.



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domingo, 05 de outubro 2008

Cobertura das eleições municipais

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Este post será atualizado várias vezes no dia de hoje, provavelmente a partir do final da tarde, com links, números e comentários sobre as eleições municipais brasileiras. São 5.563 municipios elegendo prefeitos e vereadores. No G-79, ou seja, as 26 capitais e outras 53 cidades com mais de 200.000 eleitores, pode haver segundo turno. Chegando das urnas, deixe aí o seu depoimento. Dentro de algumas horas eu começo a acrescentar informações e comentários ao post.



23:12. Que vergonha a sua cobertura, Josias de Souza. Eu me sentiria envergonhado de ser pago para fazer isso. Derrota de Lula? Onde? Em Natal e mais onde?

22:56. Nova Iguaçu (Lindberg Farias, PT), Belford Roxo (Alcides Rolim, PT) e Niterói (Jorge Roberto da Silveira, PDT) também aderiram à onda vermelha.

22:50. O PT já venceu ou está na frente na maioria das cidades importantes do interior de São Paulo: Diadema, Guarulhos, Mauá, Osasco, São Bernardo do Campo, Carapicuiba, Santo André. O aliado PSB, também de esquerda, lidera em São Vicente e São José do Rio Preto. A esquerda perdeu em Santos, Franca, Bauru e Jundiaí.

22:42. Rondônia e Roraima são vermelhas. Roberto Sobrinho (PT) vence com 59% em Porto Velho e Iradílson Sampaio (PSB) leva em Boa Vista com 54%.

22:37. Onda vermelha no Acre. Angelim, do PT, decide a parada no primeiro turno em Rio Branco e vence com 50,8% dos votos.

22:34. Maria do Carmo (PT) é a prefeita eleita de Betim, numa vitória histórica, no primeiro turno, com 50,8% dos votos. Se não fosse a ambição pessoal do Sr. Fernando Pimentel, o PT teria varrido Aécio Neves de praticamente todas as cidades importantes das Alterosas.

22:30. O PT superou todas as expectativas no interior de Minas. Além dos sensacionais resultados em Juiz de Fora, Ipatinga, Betim, Contagem, Pouso Alegre, Varginha e Alfenas, o PT fez barba, cabelo e bigode no Leste: Governador Valadares (Elisa Costa), Coronel Fabriciano (Chico Simoes), Caratinga (Joao Bosco Pressine).

22:09. Reta final empolgante em Betim. Com 98% dos votos apurados, Maria do Carmo (PT) contabiliza 50,6% e tem tudo para levar no primeiro turno. Seria uma grande vitória para a esquerda. Betim é parte do G-79.

21:56. A esquerda venceu em toda a região metropolitana de Belo Horizonte. Em Contagem, Marília Campos (PT) vai para o segundo turno como favorita, tendo recebido 43% dos votos. A disputa é com Ademir Lucas (PSDB), antiquíssimo cacique local, que teve 37%. Marília deve receber o apoio de Carlin, do PC do B, que teve 11%. Outra vitória petista que se anuncia em Minas.

21: 04. Além de Maceió, o outro revés da onda vermelha nas capitais do Nordeste é Natal (RN). É um revés importante. Lula jogou pesado na tentativa de levar Fátima Bezerra (PT) ao segundo turno. Venceu Micarla, do PV que, no Nordeste, incrivelmente, é uma filial dos pêfêlês. Vitória de Agripino (DEM).

21:00. O sul de Minas é vermelho! O PT ganha de lavada nas principais cidades da região: Varginha: Eduardo Corujinha (PT) tem 51,84% com 90% dos votos apurados. Em Pouso Alegre, Agnaldo Perugini (PT) tem 52,30%, com 83% dos votos apurados. Em Alfenas, Pompílio (PT) venceu com 46,58%.

20:50: Em outro momento, vou elaborar um pouco mais minha posição sobre isso, mas eu acho que no segundo turno em Belo Horizonte e no Rio, a esquerda (PT, PC do B, PSOL) deve se sentar com Fernando Gabeira e com Márcio Lacerda, com papos diferentes. A Lacerda, dizer: olha, meu chapa, nós pilotamos esta joça com sucesso durante 16 anos. Para nós, dá na mesma esta merda, que já está feita. Quer o nosso apoio? Queremos X, Y e Z, senão apoiamos Quintão e vamos humilhar a você e sua máquina. X, Y e Z não seriam cargos nem falcatruas, mas certos compromissos de gestão e de espaço. A Gabeira, dizer: beleza, quer o nosso apoio? Vamos pensar numa coalizão que leve este barco um pouco à esquerda e com relações diferentes com o governo Lula. Se não, apoiamos Paes, que pelo menos está na base no governo agora. Conversar. Mas conversar duro.

20:38: No momento, o blogueiro só tem olhos para a eleição em Betim, importantíssima cidade da região metropolitana de BH, onde a guerreira Maria do Carmo (PT) pode levar no primeiro turno. Pode. Ainda não está confirmado. Atenção a Betim, por favor, leitores. É uma cidade chave. A disputa lá é com Rômulo Veneroso, da coalizão tucano-pêfêlê, apoiada pelo PSB mineiro, que é uma chapa-branca aecista.


20:37
: O Vale do Aço é vermelho! Um quadro histórico do PT, líder metalúrgico com muita estrada e com quem compartilhei grandes momentos, Chico Ferramenta, derrota Sebastião Quintão (pai de Leonardo Quintão, que está no segundo turno em BH) e é o novo prefeito de Ipatinga.

20:29. A cidade é pequenininha, mas é importante para o blogueiro: Onda vermelha em Ibiá, no Triângulo Mineiro, onde Mendes, do PC do B, derrotou a múmia tucana Paulo Jibóia. Ibiá é vermelha.

20:11: Onda vermelha nos pampas! Em Porto Alegre, está confirmado: o segundo turno acontecerá entre o atual prefeito Fogaça (PMDB) e Maria do Rosário (PT). O PC do B pagou o preço por uma escolha precipitada, de uma jovem e promissora liderança de 27 anos de idade que ainda não tinha por que se candidatar (também defendo que no Rio de Janeiro, o PT foi divisionista e burro, ao não apoiar o PC do B de Jandira). O Rio Grande do Sul tem mais três cidades no G-79: em Pelotas, Fernando Marroni (PT) está no segundo turno, contra Adolfo Fetter Júnior (PP). Em Canoas, os tucanos foram humilhados na sua vitrine: Jairo Jorge (PT) liderou a votação e está no segundo turno contra Jurandir Maciel (PTB). Do G-79 gaúcho, o PT só perdeu em Caxias, onde foi reeleito José Ivo Sartori (PMDB). Além disso, o PT venceu em Esteio, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Gravataí e Erechim. Maria do Rosário tem tudo para vencer no segundo turno em Porto Alegre. É preciso costurar as alianças com habilidade agora.

19:50. Onda vermelha baiana! O blogueiro abre sua primeira Beck's. Com 96% das urnas apuradas, está sacramentado o sepultamento, a humilhação definitiva do carlismo na Boa Terra! O tampinha ACM Neto -- aquele que ameaçou bater em Lula e que sem guarda-costas não encararia nem meu filho de 12 anos -- está fora do segundo turno! Ele será disputado por Walter Pinheiro, do PT, e João Henrique, do PMDB, dois candidatos lulistas. Do ponto de vista prático da esquerda, talvez até tivesse sido preferível que Pinheiro enfrentasse o sinhozinho ACM no segundo turno, pois o derrotaria facilmente. Mas do ponto de vista simbólico, é muito importante enfiar a última pá de cal nesse clã. Salve, Walter Pinheiro. Salve, Bahia!

19:49. Alô, Tribunal Superior Eleitoral, que tal arrumar um servidor que dê conta do tranco?

19:35: Uma exceção à onda vermelha no Nordeste: Cícero Almeida (PP) derrota Judson (PT) em Maceió e leva no primeiro turno, com acachapantes 81% dos votos.

19:29. Onda vermelha sergipana! Com 99% das urnas apuradas, Edvaldo Nogueira, do PC do B, apoiado pelo PT e pelo PSB, está reeleito como prefeito de Aracaju, com 51,7% dos votos. Parabéns, Paraíba! Passem lá no blog do Paraíba para dar-lhe as felicitações, pois ele é um dos artífices desta vitória.

19:24. Só a burrice da esquerda impediu que a onda vermelha se estendesse até Florianópolis. Afrânio Boppré (PSOL), Angela Albino (PC do B) e Nildomar Freire (PT) não se uniram e o segundo turno será disputado por Dário Berger (PMDB), e o ex-governador Esperidião Amin (PP)

19:16. Com 95% das urnas apuradas em Juiz de Fora, as notícias são sensacionais! Enfrentando o velho cacique local Tarcísio Delgado (PMDB) e o tucano Custódio Matos (PSDB), a petista Margarida Salomão deu uma arrancada fabulosa no final e conseguiu 40,9% dos votos. Vai para o segundo turno como favorita, contra Custódio, que teve 28,3%. O cacicão Delgado foi humilhado, ficando com apenas 20,4%. Está fora do segundo turno. Dona Margarida Salomão é a senhora que está no canto superior direito da montagem fotográfica que ilustra este post. Onda vermelha em Juiz de Fora. Margarida tem tudo para se eleger no segundo turno.

19:07: Onda vermelha na Paraíba! Ricardo Coutinho (PSB, em coligação com PT, PC do B e vários outros partidos) leva no primeiro turno com aproximadamente 73% dos votos. O tucano João Gonçalves ficou com cerca de 23% dos votos. São as oligarquias nordestinas sendo demolidas nas urnas, uma por uma.

18:45. O leitor Roberson confirma: o grande derrotado nas eleições goianas é o PSDB de Marconi Perillo. Além da vitória da coalização PT-PMDB em Goiânia, o candidato do PT em Anápolis, Antonio Gomide, deu uma arrancada no final e está no segundo turno, liderando com folga: 43% dos votos com 80% das urnas apuradas. A segunda vaga é disputada pau-a-pau por Santilo (PMDB) e Ridoval (PSDB), empatados com 20,3% cada um.

18:43. A Globo já decidiu qual é seu candidato no segundo turno carioca. É Fernando Gabeira, a exemplo do que havia ocorrido no primeiro. Nós aqui pelo menos assumimos para quem torcemos.

18:38. Onda vermelha em Tocantins. Raul Filho (PT) é reeleito prefeito de Palmas.

18:35: Onda vermelha capixaba! João Coser (PT) está reeleito no primeiro turno, com aproximadamente 71% dos votos. Coser é petista histórico, fundador e quinto filiado do PT no Espírito Santo.

18:25. Salve, Janduís, Rio Grande do Norte.

18:22: Íris Resende (PMDB) está reeleito como prefeito de Goiânia, com apoio do PT. Teve 75% dos votos válidos segundo a boca de urna.

18:11. O PSOL perderá todo o meu respeito se optar por abster-se no segundo turno em São Paulo.

18:06: Preparem-se para a onda vermelha no interior de Minas. Ibituruna foi o primeiro município a oficializar resultado em MG. Francisco Pereira, do PT, está reeleito.

17:57. É patético, comovente mesmo, ver o esforço de Reinaldinho Azevedo para não enxergar a vitória avassaladora da esquerda neste primeiro turno. O coitado fica gritando: Não ganharam em Curitiba! Márcio Lacerda não é lulista! (o que é falso, aliás). É difícil brigar com os fatos.

17:52. O blogueiro aguarda ansioso a confirmação da derrota de sinhozinho ACM em Salvador para abrir a primeira cerveja.

17:50. Boca de urna no Rio de Janeiro: Eduardo Paes (PMDB): 33%Gabeira (PV): 23%Marcelo Crivella (PRB): 20%. A diferença entre Gabeira e Crivella está dentro da margem de erro. Tudo indica que o segundo turno será entre Paes e Gabeira, mas não dá para afirmar com certeza baseado só na boca de urna.

17:48. A esquerda vence em Campinas! Dr. Hélio (PDT) tem 70% dos votos nas pesquisas de boca de urna e está eleito.

17:41: Beto Richa (PSDB) está reeleito como prefeito de Curitiba. Teve 78% nas pesquisas de boca de urna. Gleisi, a lindíssima candidata do PT, chegou a 19% e se cacifou para a disputa de uma vaga no Senado. Richa deve servir só dois anos na prefeitura, para depois se candidatar ao governo do estado. Sobre Beto Richa, leia este texto do blogueiro Catatau, que é curitibano.

17:39: Tentaram derrotá-lo no tapetão, mas não teve jeito. Recife é vermelha! João da Costa (PT) tem 54% e Mendonça (DEM) tem 24% nas pesquisas de boca de urna. A diferença está fora da margem de erro. O PT continua pilotando a Veneza brasileira.

17: 36: Marta Suplicy vai enfrentar um segundo turno duríssimo em São Paulo, como já se esperava. Boca de urna em Sampa: Marta (PT), 36%Gilberto Kassab (DEM), 32%Geraldo Alckmin (PSDB), 21%. É importante lembrar, claro, que a transferência de votos de Alckmin a Kassab não é automática, que há um grupo tucano disposto a apoiar Marta e que o PT cresce nos segundos turnos. Mas será duro.

17:25. Boca de urna na Boa Terra: João Henrique (PMDB), com 31%, Walter Pinheiro (PT) com 31%, sinhozinho ACM (Pêfêlê), com 27%. A margem de erro é 2% para baixo ou para cima. Ou seja, a chance é bem grande de que sinhozinho fique fora do segundo turno.

17:23. De acordo com as pesquisas de boca de urna em Fortaleza, Luizianne Lins (PT) recebeu 53% dos votos. A margem de erro é de 2%. Tudo indica que Luizianne leva no primeiro turno.

17:03: Alô, belo-horizontinos, reparem em qual esquina o Márcio Lacerda foi tomar seu chopinho pós-eleição. Já diz muito, eu acho.

16:45: Faltam 15 minutos para o fechamento das urnas e o começo das apurações. Grandes expectativas do blog: a confirmação de Walter Pinheiro (PT) no segundo turno em Salvador, quem sabe já com derrota de ACM Neto; a possibilidade de vitórias já no primeiro turno de Luizianne Lins (PT) em Fortaleza, Edvaldo Nogueira (PC do B) em Aracaju, João Coser (PT) em Vitória, Raimundo Angelim (PT) em Rio Branco e João da Costa (PT) em Recife; o desempenho de Marta Suplicy em São Paulo; a ida de Maria do Carmo (PT) e Margarida Salomão (PT) ao segundo turno, respectivamente em Betim e em Juiz de Fora; a confirmação de Maria do Rosário no segundo turno em Porto Alegre; a possibilidade de uma onda vermelha no ABC paulista.

12: 27. O blog errou: no post do dia 26 de agosto, eu teci várias considerações sobre as eleições em SP, RJ, BH, PoA e Fortaleza, cidades cujas corridas eleitorais eu acompanho com atenção. Mantenho tudo o que disse sobre elas. No final, fiz um comentário leviano sobre o candidato petista em Salvador, Walter Pinheiro, baseado nos fatos de que ele é evangélico e de que o jornal A Tarde publicara uma matéria que sugeria hostilidade dele contra o candomblé. Um sujeito com a minha experiência já deveria ter aprendido a não confiar num jornal como A Tarde. A história estava mal contada. Fui corrigido pelo Galinho e pelo Franciel, amigos baianos, e agi como ajo sempre nessas horas: fui fazer meu dever de casa. Pesquisei muito sobre Pinheiro e não encontrei absolutamente nada que sugerisse proselitismo ou misturas entre religião e política. Descobri um parlamentar de trajetória impecável, com longa história na construção do PT baiano. Fica aqui, portanto, o reconhecimento do erro, o pedido de desculpas aos eleitores de esquerda da Boa Terra e a forte torcida para que Pinheiro esteja no segundo turno, de preferência deixando sinhozinho ACM de fora. Aqui a gente erra na primeira página e corrige na primeira página. Nada de errar na manchete e corrigir no cantinho da página 56.



  Escrito por Idelber às 09:39 | link para este post | Comentários (276)



sábado, 04 de outubro 2008

Esquentando os tamborins para as eleições de amanhã

Vou ali votar e já volto. Por aqui, trata-se de tentar mandar Cedric Richmond ao Congresso americano. Convido-os a que passem pelo Biscoito na tarde e na noite deste domingo, para que comentemos os primeiros números das eleições municipais brasileiras. No site do TSE, é possível baixar um programa chamado Divulga 2008, que lhes mantém informados sobre as apurações. Enquanto isso, fiquem com alguns links:

O Futepoca relembra um dia histórico para a democracia brasileira.

O Rovai oferece um panorama das eleições nas capitais.

O Altamiro Borges escreve sobre algumas afinidades eletivas de Fernando Gabeira.

Uma conhecida liderança do PT mineiro, Rogério Correia, denuncia Márcio Lacerda, o candidato aécio-pimentelista à prefeitura de BH, por violação de correspondência.

Apesar de engajadíssima na campanha de Kassab, a Folha não pôde deixar de relatar o crescimento do PSDB pró-Marta.

Em Porto Alegre, a última pesquisa da Revista Voto mostra Maria do Rosário (PT) abrindo cinco pontos sobre Manuela (PC do B) na disputa pela vaga anti-Fogaça no segundo turno (via RS Urgente).

No Rio de Janeiro, não se sabe o que vai acontecer, mas uma coisa é certa: a derrota fragorosa de César Maia, o pior prefeito brasileiro entre todas as capitais, segundo a avaliação do eleitorado. Para que se confirme a quase-extinção dos pefelês – reduzidos, quem diria, a São Paulo – falta chegar a boa notícia da Boa Terra: sinhozinho ACM fora do segundo turno. Será?



  Escrito por Idelber às 07:10 | link para este post | Comentários (58)



quinta-feira, 02 de outubro 2008

Ovas de peixe voador e filhotes de enguias

Apesar do já tradicional tom desqualificador usado para se referir à Operação Satiagraha, do Doutor Protógenes Queiroz, a revista IstoÉ publicou matéria que confirma algo que Paulo Henrique Amorim já havia dito há 20 dias. A procuradora Lívia Nascimento Tinôco estaria investigando um jantar ocorrido na noite de 11 de junho – ou 12, segundo PHA – no restaurante Original Shundi, na quadra comercial 408 Sul, em Brasília, com as presenças de assessores de Gilmar Mendes e de advogados de Daniel Dantas.

Apesar da manchete dada pelo Noblat, a reação de Gilmar Mendes não foi a de pedir apuração nenhuma. Ele, que acusou a ABIN de espioná-lo e até hoje não apresentou uma mísera prova, declarou, sobre o caso: divulgam-se para a imprensa falsas notícias e informações, com o propósito de colocar o juiz em situação de descrédito e intimidação.

É desnecessário dizer que a única pessoa que trouxe descrédito a Gilmar Mendes foi o próprio Gilmar Mendes, com uma seqüência de atitudes completamente incompatíveis com a posição de Presidente da Suprema Corte do país. A Folha de São Paulo, que nos últimos meses forneceu a Mendes praticamente uma manchete diária no Caderno Brasil, reproduzindo declarações anódinas, suspeitas e ilógicas sem oferecer qualquer contraponto, até agora não deu uma linha sequer acerca da investigação sobre o referido jantar.

PS: À noite eu volto, com o showzaço Biden-Palin.



  Escrito por Idelber às 06:06 | link para este post | Comentários (66)



terça-feira, 30 de setembro 2008

Convite ao debate e notas sobre a crise

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O Biscoito gostaria de convidá-lo para acompanhar ao vivo, na quinta-feira, às 22 h de Brasília, aquele que promete ser um dos eventos políticos mais inesquecíveis do nosso tempo, o debate entre os candidatos a vice-presidente dos EUA, o Senador língua-solta Joe já-não-dá-para-comprar-chiclete-em-Delaware-sem-ouvir-sotaque-indiano Biden e a Governadora criacionista-fundamentalista Sarah sei-de-política-externa-porque-vejo-a-Rússia-da-minha-janela Palin. Você, claro, está intimada a aparecer. Pedrão estará ao vivo ao leme do blog dele, com certeza. Se aparecer uma boa turma, dá para ter uma caixa de comentários tão divertida como as do Impedimento em dia de cobertura em tempo real. O debate será memorável, não tenho dúvidas.

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Enquanto no Brasil Lula chega a níveis soviéticos de aprovação (com a diferença, claro, de que os números de Lula são reais), aqui na República dos Estados Unidos Soviéticos da América, como sabem, foi dia de colapso total. Mais um banco dobrou: o Wachovia, outrora valente instituição que havia sido meu primeiro banco nos EUA. Ali guardei meu primeiro chequinho de 300 mangos. Sobraram Citigroup, Bank of America e JP Morgan Chase. São os States, no rumo inexorável do socialismo leninista.

Ante o fracasso do pacotão, John McCain disse que não era hora de procurar culpas, duas horas depois de pôr a culpa em Obama, que é membro do partido que votou em peso pelo socorro, enquanto o partido de McCain votou massivamente contra ele – apenas 90 minutos depois de McCain se declarar responsável pelo “sucesso” da votação que ocorreria. É o samba do branquelo doido, a campanha de McCain.

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Obama diz que se Bin Laden pintar na parada no Paquistão, ele manda bomba mesmo. McCain ironiza isso como ingenuidade. Sarah Palin diz a mesma coisa que Obama (claro que sem frases completas). McCain e Palin aparecem juntos para tentar consertar. É hilário:

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Que me desculpem os amigos d'álem-mar, mas é impressionante a ignorância da esmagadora maioria da blogosfera portuguesa ao falar de política externa. É o único lugar do universo onde se toma como autoridade em EUA o aprendiz de pitbull da Veja, que não saberia diferenciar Montana e New Hampshire num mapa. Disseram que McCain esteve “mais à vontade” no debate. Então tá, como dizem os mineiros. Um sujeito que não conseguia olhar para o outro estava mais “à vontade”? No Brasil, o único que deu vitória para McCain no debate foi um português. Alô, amigos, querem trocar um jornalista por um técnico de futebol?

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Vejam que coisa de gênio, vejam as maravilhas da internet: o gerador de entrevistas de Sarah Palin, no qual você pode produzir centenas de respostas palínicas para a mesma pergunta, antes de passar para a próxima (via Piro, que sei lá como encontra essas coisas).

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Caetano Veloso tem todo o direito de espinafrar o jornalista que quiser em seu blog. Tem todo o direito de não publicar comentários fora de assunto ou que contenham grosserias. Mas no momento em que opta por não publicar um comentário como esse, vai perdendo a credibilidade de blogueiro. Cada um é cada um, mas só estou dando meu palpite de fã. Critério na pilotagem aí, Hermano. É só uma sugestão amiga. Aliás, bem-vindo, Caê, ao blogroll do Biscoito.

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Quanto ao colapso do RUSA (novo nome do país), quem teve o insight genial foi Mestre Sergio: a culpa da quebradeira logo no aniversário da morte de Machado? Foi do bruxo alienista, claro, que se vingava de Gustavo Franco, pela cara-de-pau de ter proclamado o autor de Quincas Borba como precursor do neoliberalismo e do dogma da sapiência infalível do mercado desregulado.

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No portal de notícias da Globo, o link que anunciava o recorde de aprovação a Lula passou o dia apontando para a matéria sobre a queda da Bovespa. No começo da noite, o link saiu da capa.

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Em tempo: Para quem lê inglês, acaba de sair um livro – um número especial, na verdade, da boa revista Portuguese Literary and Cultural Studies – dedicado inteirinho a Machado, e composto quase que somente por feras: Rouanet, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Raúl Antelo, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, Hélio de Seixas Guimarães e outros. Entrou lá um blogueiro atleticano de gaiato, falando sobre Machado e a música.

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Ficamos combinados, então. Quinta-feira, 22 h de Brasília. O debate do século.



  Escrito por Idelber às 03:38 | link para este post | Comentários (46)



segunda-feira, 29 de setembro 2008

A esquerda e as eleições no Rio de Janeiro

jandira.jpgSeria possível escrever 30 volumes sobre a história dos erros da esquerda no Rio de Janeiro. É uma infindável lista, desde a criminosa intervenção dirceu-delúbica contra o resultado da convenção do PT em 1998, impondo uma aliança com Garotinho, até a declaração de Jandira Feghali sobre o aborto na última eleição, que lhe custou nada menos que uma vaga no Senado Federal. Essa história explica o insólito fato de que o Rio não possui hoje uma estrutura política de esquerda consolidada e enraizada na população, ao contrário de São Paulo, BH, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza. Digo que o fato é insólito porque o eleitorado carioca é até mais esquerdista que o paulista ou o mineiro. Em 1989, o Rio deu a Lula uma vitória retumbante contra Collor; em 1982, quando em outros lugares a extrema-esquerda do elegível era Franco Montoro ou Tancredo Neves, o Rio escolheu Brizola; em 2006, Heloísa Helena teve lá seu melhor desempenho.

A situação das pesquisas eleitorais no Rio exige uma atitude urgente de Alessandro Molon (PT) e de Chico Alencar (PSOL). Segundo o Datafolha, Eduardo Paes, que troca de partido como quem troca de cueca, tem 29%. O Carolão Crivella e o tucano verde Gabeira tem 15% cada um. Jandira Feghali é a candidata de esquerda mais bem colocada, com 13%. Molon e Chico têm índices pequenos, em torno de 3 a 4%. É pouco, mas pode fazer toda a diferença. Caso Molon e Chico renunciem às suas candidaturas e coloquem sua militância para trabalhar por Jandira, a esquerda pode ter um nome no segundo turno. Se não, o Rio corre o risco de ver o pesadelo de um segundo turno entre Paes e Crivella.

Já começou a movimentação entre os petistas cariocas para pedir que Molon renuncie e apóie Jandira. O deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) fez um apelo. A mesma iniciativa está em marcha entre alguns amigos de Chico Alencar. É importante lembrar que o PC do B, e também o PSB, agiram de forma responsável em São Paulo, apoiando Marta Suplicy. O Presidente Lula sempre quis uma unidade de esquerda em torno a Jandira.

Este blog respeita a história de Fernando Gabeira. Mas, hoje, ele se encontra no terreno oposto ao projeto de país articulado pelo governo Lula. Seus aliados preferenciais são os tucanos e o PPS. É uma candidatura que está no campo da direita, sejam quais forem as convicções pessoais dele. Para quem apóia Molon e Chico, a opção é claramente Jandira.

Molon e Chico: a hora é agora! Depois, não adianta chorar se tiverem que escolher entre Paes, Crivella e/ ou Gabeira.

PS: Vejam a incrível cara-de-pau desta declaração de Eduardo Paes: Sou Portela e vascaíno, mas adoro a torcida do Flamengo. Minha família toda é tricolor [...], o Botafogo é um time glorioso e o América é o time do meu coração. Coisa típica de político oportunista. Quem gosta mesmo de futebol detesta essas coisas. Para a prefeitura de BH, eu não teria nenhum problema em votar num candidato cruzeirense com o qual eu coincidisse politicamente. Aliás, já o fiz. Mas olharia ressabiado para alguém que viesse com esse papo de que “torço pelo Cruzeiro e pelo Atlético”. Por isso eu gosto dos gaúchos. Se você fizer isso no Rio Grande, perde a eleição de cara. Colorado respeita Tricolor e vice-versa. Mas nenhum dos dois respeita quem faz isso.



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quarta-feira, 17 de setembro 2008

O massacre de Pando

Inacreditavelmente, a imprensa brasileira noticiou o massacre de Pando, na Bolívia, na semana passada, como um “confronto” entre partidários e opositores de Evo Morales. Assim, como se tivesse sido um enfrentamento.

Vínhamos como fazemos sempre, acompanhados de mulheres e crianças, mas desgraçadamente encontramos uma emboscada no povoado Porvenir, recordou Rodrigo Medina, Secretário da Federação de Camponeses Mãe de Deus de Pando. Todos os veículos do governo do estado foram usados na caça aos camponeses. Em cada um deles, mais de trinta capangas com rifles e metralhadoras, pagos para assassinar. Um dos grupos perseguiu os camponeses entre o riacho Porvenir e o rio Tahuamano. O outro caçou-os estrada afora. O terceiro já esperava para matá-los no próprio povoado. Os camponeses que correram para o rio foram abatidos pelas costas ou assassinados na própria água, morrendo como cães.

Eles iam para uma reunião de federações camponesas bolivianas.

O autor intelectual dos massacres é Leopoldo Fernández, senhor de controle quase feudal sobre a região há décadas, empregado das ditaduras de Luis García Mesa (1980-81), Celso Torrelio y Guido Vildoso (1981-1982) e Hugo Banzer-Jorge Quiroga (1997-2002).
(fonte).

Veja o testemunho de dois sobreviventes, enquanto os cadáveres dos camponeses eram recolhidos:

(via Cidadania)

Eis aí o que a Folha de São Paulo, ainda hoje, chama de “confrontos” entre partidários e opositores de Morales.



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segunda-feira, 15 de setembro 2008

Links

O Alaska é um dos locais de ecossistema mais inóspitos e delicados existentes, cheio de biomas diferentes, todos relacionados às temperaturas gélidas: florestas boreais, oceanos frios, taiga, tundra, estuários, montanhas fascinantes - o belo e temido Denali está lá. É habitat natural de diversas espécies de seres vivos, entre elas grandes mamíferos como as baleias jubarte, belugas e lontras, todos ameaçados de extinção. Isso para não falar das plantas, fungos e da sua importante e rica área costeira.

Atendendo a um pedido deste blog, a amiga Lucia Malla traz todo seu conhecimento a um post sobre o que está em jogo para o meio ambiente nas eleições americanas.

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Ainda sobre as eleições americanas, Obama e o possível fim da política do medo é um texto meu ainda não publicado na íntegra aqui. Ele só havia circulado na edição do mês passado da Revista Fórum.

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Muitos de vocês já terão visto, mas não dá para deixar de chamar a atenção para esta inacreditável história narrada pelo Träsel, acerca da “oferta” feita a ele pelo portal de blogs da Abril: migrar o blog para lá, produzir conteúdo de graça, ceder todos os direitos sobre ele, não ter direito a pôr publicidade enquanto a empresa ganha com banners em cima do conteúdo expropriado e tudo isso em troca de .... poder ser chamado blogueiro VIP da Abril! Exemplar a resposta do Träsel. Vale a leitura.

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Recomendo também a ótima e bem informada análise de Sergio Leo sobre a situação na Bolívia (via Pedro).

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Acabei de devorar as 1500 páginas de My Life, de Bill Clinton. Magnificamente escrito, o livro está por aí. É para se morrer de depressão com o rumo tomado pelo país depois.



  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post | Comentários (20)



sábado, 13 de setembro 2008

Um link

Viúva de Paulo Freire escreve contundente resposta à Veja.



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quarta-feira, 03 de setembro 2008

E dá-lhe factóide

Não, certamente não. A Abin, como instituição, não fez e não faz essas coisas [grampos], mas quando digo que não descartamos nenhuma hipótese é porque trabalhamos com seres humanos. Agora, se você me perguntar qual é a probabilidade [de agentes terem realizados a escuta], eu diria que é baixa, porque os chefes têm controle de seus funcionários, disse o General Félix.

Manchete da Folha? Agentes podem ter feito grampo, diz general

Nojo, nojo, nojo infinito da imprensa brasileira.



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terça-feira, 02 de setembro 2008

Gilberto Rincón Gallardo (1939-2008)

gallardo.jpgMorreu neste sábado, aos 69 anos de idade, um dos maiores defensores dos direitos das minorias em toda a América Latina. Foi, com certeza, o mais valente batalhador pelos direitos de gays e lésbicas que já teve o México. Gilberto Rincón Gallardo foi dirigente do Partido Comunista Mexicano e do Partido Socialista Unificado do México. Em 1989, fundou o Partido da Revolução Democrática, com Cuauhtémoc Cárdenas. Foi candidato a presidente do México em 2000, com uma campanha que colocou no centro da discussão a discriminação por motivos de deficiência física ou de orientação sexual. Era o presidente do Conselho Nacional contra a Discriminação.

Foi preso político entre 1968 e 1971. Aliás, ostentava com orgulho um título sensacional, o de mexicano mais encarcerado da história: exatas 32 vezes ele foi preso, em todas elas por lutar pela democracia. Amado, reverenciado pelas comunidades gay e lésbica do México, ele se preparava para representar o país numa comissão das Nações Unidas encarregada de fiscalizar a aplicação das leis anti-discriminação. Era também conselheiro da UNICEF. Um de seus últimos artigos foi sobre a volta do racismo.

Vejo com muita tristeza a imprensa brasileira dedicar cadernos inteiros à criação e à exploração de um factóide, e nem uma única linha sobre a morte do Dr. Rincón Gallardo. O blog deixa aqui sua homenagem. Leitores gays, lésbicas: prestem hoje seu tributo a ele. O velho batalhou, em condições duríssimas, pelo seu direito de ir para a cama com quem bem entenderem.



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segunda-feira, 01 de setembro 2008

Veja: Gilmar Mendes e suas mentiras

Às vesperas da eleição presidencial de 2006, o Ministro Marco Aurélio de Mello veio à público com uma “denúncia” de que seus telefones e os de outros dois ministros do TSE estariam sendo grampeados. Ele chegou a insinuar que o governo Lula era responsável pelo grampo. Era mentira. Em 2007, Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello vieram à tona com a história de que estavam sendo grampeados. Até a Globo noticiou: era mentira. Em 2008, quando a Operação Satiagraha do Doutor Protógenes conseguiu colocar na cadeia o banqueiro Daniel Dantas, Gilmar Mendes fez hora extra no fim de semana para soltá-lo duas vezes. Alguns dias depois, Mendes disse que havia ouvido da desembargadora Suzana Camargo a acusação de que o juiz Fausto de Sanctis o havia grampeado. Curiosamente, a desembargadora fez essa gravíssima acusação e depois pediu que a “esquecessem”. O grampo? Era mentira.

E eis que a Revista Veja agora publica uma “reportagem” que “demonstra” que a ABIN teria grampeado ... quem? Gilmar Mendes, claro! O mesmo que vem tentando há um ano convencer-nos de que é vítima de um totalitário estado que grampeia seus telefones. Quem afirma que houve grampo? Uma revista especializada em públicar mentiras sobre dólares em caixas de uísque ou guerrilhas colombianas financiando o partido do presidente. Qual a fonte? Um “anônimo” da ABIN, que teria passado à revista a notícia do grampo ilegal realizado pela própria agência de inteligência em que trabalha! Qual o conteúdo do grampo? Uma conversa do palhaço Mendes com um senador da oposição, na qual o presidente do STF aparece como destemido aliado da luta contra a pedofilia. Qual a evidência apresentada? A transcrição da conversa, cuja veracidade é avalizada pelo ..... próprio Gilmar Mendes! Alguma outra evidência? Nada, além da palavra do próprio palhaço que encontra no factóide a justificativa para a ladainha que ele vem há um ano inventando – e sendo desmentido pelos fatos. É o único grampo da história da humanidade feito para que o grampeado fique bem na fita! Não é coisa de gênio? Se algum escritor iniciante me apresentasse isso como enredo de uma farsa em três atos, eu diria: volte para o computador, meu filho, comece tudo de novo e escreva algo mais verossímil.

A imprensa controlada por oligopólios é ruim no mundo todo, mas em pouquíssimos países organizações com uma história de criminalidade comparável às da Revista Veja e da TV Globo operam com tal grau de desfaçatez. A triste novidade deste quadro é que um jornal que costumava ter um pouco de decência -- a Folha de São Paulo – está no mesmíssimo barco. Revisem as manchetes do Caderno Brasil da Folha do dia 18 de agosto ao dia 29. O que elas têm em comum? O palhaço Mendes está presente em todas as edições desse período, sempre pontificando sobre algum vago “estado policial” que ele, paladino da justiça, enfrenta com bravura. Nem uma palavra contraditória. Nem uma palavra sobre a reputação deste senhor. Nem uma palavra sobre como ele é detestado pela sociedade brasileira. Nada. Só o jornal servindo como seu megafone. Aliás, o portal UOL deve um pedido de desculpas aos seus leitores. Ao longo do sábado, o UOL publicou a manchete ABIN espionou Gilmar Mendes. Assim, como se fosse fato comprovado. Só na virada do sábado para o domingo o UOL acrescentou o importantíssimo diz a Revista Veja.

Em retórica, costumamos diferenciar o modo constativo do discurso do modo performativo. Frases como 1) está chovendo agora em New Orleans, 2) Lula foi eleito com 62% dos votos 3) o Flamengo é sistematicamente beneficiado pelas falcatruas da CBF descrevem fatos da realidade. São frases que estão no modo constativo. Mas a linguagem não serve só para comunicar ou descrever. Ela também é usada para moldar, produzir a realidade. O exemplo clássico é o padre ou o juiz que enuncia eu vos declaro marido e mulher. A frase não descreve um estado de coisas anterior à sua enunciação. Os personagens da frase viram marido e mulher pela própria intervenção do ato lingüístico. É a linguagem no modo performativo.

Uma das operações mais desonestas que se pode fazer com a linguagem é lançar enunciados pretensamente constativos com um objetivo que é, na verdade, performativo. É uma das desonestidades mais típicas de Gilmar Mendes. Quando ele diz que “o país passa por um quadro grave de crise institucional”, ele finge não saber que o Brasil não passa por crise institucional nenhuma. Nesse fingimento, ele quer é produzir a crise que supostamente descreve. Desonestamente, usa o constativo para mascarar uma operação performativa. Tudo isso para, num segundo momento, ter a cara-de-pau de dizer que o presidente Lula tem que ser "chamado às falas", para responsabilizar-se pela crise que ele mesmo, Mendes, produziu, com a ajuda inestimável do panfletinho criminoso da Editora Abril.

É possível que a ABIN tenha grampeado Mendes? Sim. É possível que uma pessoa alfabetizada ainda acredite, por um motivo que não seja a pilantragem, numa denúncia veiculada pela Revista Veja? Sim. Tudo é possível. Eu me encontro, neste momento, numa cidade de 700.000 habitantes que acreditam piamente que Elvis Presley não morreu no dia 16 de agosto de 1977. Mas, por enquanto, a tarefa mais urgente é continuar o processo de desmoralização da Veja e de denúncia desse arremedo de jurista, excrescência farsesca e vergonha nacional que é Gilmar Mendes.



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sábado, 30 de agosto 2008

Balanço da convenção democrata e do presente de McCain

1. A idéia de aceitar a candidatura no Mile High Stadium foi um gol de placa. Quando Barack anunciou que faria seu discurso num estádio de futebol, não faltou quem previsse um desastre, como brancos nas arquibancadas ou falhas técnicas. Mas o que ficará marcado será esta imagem:

denver.jpg

Há um detalhe que você só lerá aqui: o nome oficial é Invesco Stadium, construído em 2001 para substituir a casa anterior dos Denver Broncos, potência do futebol americano. Houve uma ovação estrondosa quando, na quarta-feira, Barack anunciou que a convenção se reuniria tomorrow at Mile High. Boa parte dos fãs de futebol americano se recusa a usar o nome corporativo do novo estádio e continua a chamá-lo pelo nome da casa antiga, Mile High. É simbólico e significativo. É um ato de resistência. É mais ou menos como continuar chamando de 2 de Julho o Aeroporto de Salvador. Ali, nessas duas palavrinhas, já se vê toda uma diferença com John Kerry que, em 2004, teve uma de suas maiores gafes quando errou o nome do Lambeau Field, em Green Bay, o templo mais legendário do futebol americano. O analfabetismo futebolístico de Kerry quase nos custou a vitória em Wisconsin. Com Barack, esse flanco está coberto.

2. O discurso de Hillary foi memorável. Concordo com o Rude Pundit: foi um discurso não-hipócrita. Sem fingir amizades que não existem, ela foi ao cerne: o programa de governo e as diferenças imensas, de política, de estilo e de caráter que existem entre Barack e John McCain. Deu um recado direto aos seus eleitores: entraram nesta jornada por aquilo que eu represento? Pois então votem em Barack Obama. Não forçou nem inventou. Foi pura substância. Classuda, coordenou um "pass" da delegação da Califórnia na votação, para que ela mesma pudesse -- na certa cumprindo um acordo feito antes -- convocar a confirmação de Obama por aclamação (parece que o blog da Folha não entendeu as situações em que se usa um "pass" numa convenção americana).

3. Confirmou-se em Denver o que o blog vem dizendo há meses: "Hillarites for McCain" é uma invenção sem qualquer base na realidade. Quinze dias atrás, antes da convenção e depois das primárias mais acirradas e disputadas da história, Barack já havia chegado a 83% de apoio entre os democratas. O teto histórico é 92% -- sempre há defecções. Mas a Folha de São Paulo insiste em falar de eleitoras democratas órfãs de Hillary Clinton, insatisfeitas tanto com a indicação de Obama como com a não-escolha da senadora para vice sem apresentar qualquer indício ou prova de que essas eleitoras tenham existência estatisticamente significativa. A tal "classe trabalhadora" que supostamente "resiste" a Obama já lhe dava, antes da convenção, uma vantagem de 66 x 33 sobre McCain. No entanto, continuamos ouvindo nonsense sobre o "problema" de Obama com os "trabalhadores brancos". Não se ouve uma palavra, claro, sobre o "problema" de McCain com os "trabalhadores negros", eleitorado no qual ele perde por 90 x 10.

4. Big Dog deu um show. Bill Clinton é das figuras retoricamente mais hábeis da história da política. Sempre digo: xinguei os Clintons de 1992 a 2000, mas como faz diferença ouvir Clinton depois de 8 anos de Bush! Há uma antiga queixa de Bill -- justificada, em parte -- de que Barack quase nunca se refere aos anos de prosperidade da sua administração. É difícil para um candidato com mensagem tão centrada na mudança e no futuro fazer alusões a uma era dourada do passado. Mas desta vez, Obama fez questão de encher a bola do governo Clinton.A união do partido não é pró-forma. Os Clintons sabem que uma derrota de Barack não é de seu interesse.

5. A sabedoria tradicional manda que o candidato se exima de fazer ataques ao adversário no discurso da convenção. O normal é deixar esse papel para os outros oradores. Barack mais uma vez quebrou a tradição. Alinhavou sua história de vida e propostas de governo com aquela estratégia que os militares chamam de ataque defensivo: tomou cada uma das acusações feitas por McCain nas últimas semanas e rebateu-as uma por uma, mas sempre atacando, sem se enrolar em justificativas. Não foi o típico discurso positivo, inspirador de Obama. Foi porrada, com classe. Este não é um novo Michael Dukakis, mes amis. Podemos até perder, mas não será com um patinho feio que apanha calado.

6. Minha foto favorita da convenção é esta. Dois delegados de Illinois se abraçam, emocionados, no momento da confirmação histórica do primeiro negro candidato a presidente:

conv.JPG

7. E eis que John McCain, no dia do seu aniversário -- a campanha manteve rigoroso silêncio sobre o fato de que ele completou ontem 72 anos -- nos dá esse extraordinário presente: sua escolha da companheira de chapa. Situada uns 15 quilômetros à direita de Garrastazu Médici, Sarah Palin é governadora de um estado que tem menos gente que Betim; antes disso, foi prefeita de uma cidade de 8.000 habitantes; 30 dias atrás, perguntava-se o que um vice-presidente faz mesmo? Grande fã de armas, ela está envolvida até o pescoço num escândalo que deve aflorar nos próximos dias (dentro de umas duas semanas a Folha descobre): as tentativas de demitir seu ex-cunhado, Michael Wooten, policial do Alaska que está em batalha judicial -- divórcio, guardas de filhos etc. -- com a irmã de Palin. Depois que o chefe de Wooten se recusou a demiti-lo, Palin mandou embora o próprio chefe, desencadeando uma investigação legislativa sobre abuso de poder que pode estourar na véspera da eleição. Aqui e aqui você tem a cobertura do TPM, aqui a entrevista com o chefe demitido e aqui a reportagem do canal local sobre o escândalo. A escolha de McCain foi, evidentemente, uma tentativa de chegar às eleitoras de Hillary, insultando-as com a idéia de que uma mulher praticamente fascista, apoiadora de ninguém menos que Pat Buchanan em eleições anteriores, representaria seus anseios. A obviedade da manobra e o escândalo no Alaska têm tudo para fazer o tiro sair pela culatra.

PS: Já estamos em Memphis, na companhia do Imortal. Tudo bem por aqui. Estou acompanhando meio ansioso a trajetória do tal Gustav, que parece ter dado um giro bem na direção de New Orleans.



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terça-feira, 26 de agosto 2008

O Biscoito e as eleições municipais

Belo Horizonte: Como era de se esperar, com o começo do horário eleitoral gratuito, Márcio Lacerda (PSB), o candidato da coalizão Aécio-Pimentel, encostou em Jô Moraes (PC do B). A disputa agora deve se dar entre os dois: ele com a máquina, ela com o reconhecimento popular. Na televisão, a diferença é tipo 12 minutos contra 1, uma loucura. Apesar do tremendo conchavo que o nomeou candidato, Márcio Lacerda não tem o perfil tecnocrático típico dos cabeças dessas chapas impostas de cima para baixo. Tem uma história respeitável. Uma eleição de Lacerda não seria um desastre para o projeto popular que governa BH há 16 anos, mas uma vitória de Jô seria um grande evento para a democracia, sem dúvida. O Biscoito apóia Jô e espera que Patrus Ananias tire a bunda da cadeira e faça campanha.

feghali.gif Rio de Janeiro: Paula Toller, Adriana Calcanhoto, Leila Pinheiro, Dado Villa-Lobos, Caetano Veloso, Daniel Filho e Nelson Motta já declararam apoio a Fernando Gabeira. Se a eleição fosse só no Leblon, Copacabana e Ipanema, Gabeira levaria no primeiro turno. Como felizmente o Rio é muito mais que isso e ele não penetra eleitoralmente nas Zonas Norte e Oeste nem que a vaca tussa, o Biscoito torce para que o pior não aconteça: um segundo turno entre os dois mais horrendos candidatos, o carolão Crivella e o camaleão Eduardo Paes. O apoio deste blog vai, claro, para Jandira Feghali (PC do B), com a esperança – irreal, eu sei – de que Molon (PT) e Chico Alencar (PSOL) abram mão dos seus respectivos 4% já no primeiro turno, para empurrar Jandira para o segundo. Vã esperança, mas o blog tem muita fé que Jandira chega e que a paranóia anti-abortista não lhe tirará a prefeitura como lhe tirou a vaga no Senado.

São Paulo: O centro e a direita têm candidatos superiores, em Sampa, aos que uma vez tiveram. Vários relatos confirmam que Kassab realmente é um prefeito bem razoável. Jayme Serva, que eu respeito muito, votará no Kassab. Em todo caso, não há como deixar de notar que o grande porta-voz da moderna e organizada administração – o PSDB de Higienópolis – mais uma vez dá um show de bagunça organizativa, com um candidato de situação que faz campanha de oposição, Geraldo Alckmin. Aliás, há que se suspeitar de qualquer candidato que, depois de três eleições, ainda não decidiu se usa o nome ou o sobrenome -- convenhamos. Marta Suplicy subiu tanto que agora a preocupação de Alckmin e Kassab é que ela não leve no primeiro turno. O blog torce muito intensamente por Marta e não pode deixar de notar que, ao noticiar a pesquisa que confirmou a disparada dela na dianteira, a Folha de São Paulo deu duas manchetes. Uma dizia Alckmin tem 10 pontos sobre Kassab e a outra anunciava Marta se isola. Toda atenção é pouca com a cobertura desta eleição nos jornais.

Porto Alegre: No estado cuja governadora tem em comum com John McCain o fato de que nenhum dos dois parece saber muito bem onde mora, o apoio irrestrito do blog vai para Maria do Rosário (PT). A esquerda reunida – ela mais Manuela D'ávila (PC do B) e Luciana Genro (PSOL) -- tem muito mais votos que Fogaça, que busca a reeleição, mas na contagem do primeiro turno ele ainda lidera. Seria muita utopia, claro, esperar que o PC do B e Manuela compusessem com o PT já de cara, o que poderia liquidar a parada no primeiro turno. Mas a expectativa é de uma vitória da esquerda no segundo.

Fortaleza
: Luizianne Lins (PT), aquela que José Dirceu quis destruir, fez, segundo vários relatos, uma bela administração. Mesmo com os fanáticos religiosos em pé de guerra na cidade, lançando campanhas de out-door contra a prefeita, ela goza de sólidos 35% já no primeiro turno. É seguida por um demo-boy e logo depois por Patrícia Saboya (PDT). O conflito com os evangélicos foi por causa de bobagem: ela vetou uma compra de Bíblias para as escolas municipais, o que é um gesto simbolicamente importante, mas não essencial na luta por uma sociedade laica. Voltou atrás, mas já era tarde. Até comercial chamando-a de Belzebu já tem. Desde o início dos ataques dos fanáticos religiosos, ela subiu mais 5%. O Biscoito é, claro, Luizianne e não abre.

Salvador: A minha tendência, evidentemente, é sempre torcer pelos candidatos da esquerda, mas por um candidato evangélico na Bahia de São Salvador eu não consigo torcer. Ainda por cima ele vai, envergonhado e sem entrar, visitar o Candomblé vestido de preto! Que se foda. Que ganhe qualquer um, menos o Tampinha Invocado Neto do Malvadeza, terceira geração de uma vergonha, como uma vez lindamente disse a Maria Helena Nóvoa.

A casa, sempre escancarada nas suas escolhas políticas, está neste pé com as eleições municipais. Acabo de dar-me conta de que torço por cinco mulheres nas cinco capitais que acompanho de perto. Caixa aberta para quem quiser defender suas escolhas ou comentar as eleições municipais.

Atualização: Apesar de manter a política de não simpatizar de jeito nenhum com candidatos evangélicos, o blog pode ter se apressado na avaliação de Salvador. Ver outra versão da ida de Walter Pinheiro ao Candomblé aqui. (Valeu, Paulo Galo).



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sexta-feira, 22 de agosto 2008

Obama prestes a anunciar o vice

A convenção democrata começa na segunda-feira, Barack Obama já declarou que o candidato a vice na sua chapa foi escolhido, os preteridos já estão recebendo telefonemas de cortesia e o nome deve ser anunciado nas próximas horas. Mesmo assim ninguém sabe ainda quem é. A campanha prometeu aos ativistas e doadores que nós receberíamos a notícia primeiro, o que na era da internet, claro, significa algo assim como uma vantagem de dois minutos.

É bem possível que a decisão estivesse pronta ontem, mas a campanha de Obama recebeu um presente sensacional para dominar o ciclo de notícias das últimas 48 horas: uma entrevista de McCain em que ele confessa não saber quantas casas possui (as estimativas vão de 8 a 12). Anunciar o vice ontem teria sido matar essa deliciosa história.

Aí vão alguns nomes que estão flutuando há tempos:

Evan Bayh: Senador de Indiana. Seria a escolha conservadora e “segura”. Branco centrista de meia idade não-polêmico, seria uma espécie de vice “nem fede nem cheira”. Tem a vantagem de ser muito querido em Indiana, que este ano é um estado indefinido. Tem a desvantagem de ter votado pela Guerra do Iraque e portanto contradizer a mensagem de mudança da campanha. Entre os principais nomes, é o que está mais à direita. Por outro lado, tem a vantagem de ter sido apoiador de Hillary nas primárias, e ter trânsito com setores do eleitorado potencial que têm alguma resistência a Obama.

Joe Biden: Senador de Delaware. Ainda no terreno branco centrista de meia idade, Biden é muito mais polêmico. Traz a vantagem de ter muita experiência em política externa, que é percebida pelos eleitores como o forte de McCain e o fraco de Obama. Tem a vantagem adicional da língua ferina: ele com certeza trituraria qualquer Republicano no debate entre os vices. Tem a desvantagem de ter a língua ferina e soltar gafes periodicamente. Chegou a dizer, uma vez, que Obama era o único negro articulado, culto e limpo que ele havia conhecido. É capaz de coisas como essa. Se for Biden, prepare-se para ver os Republicanos tocarem esse vídeo ad infinitum. Também votou a favor da Guerra do Iraque. E é Senador há 36 anos.

Hillary Clinton: Senadora de Nova York. Era considerada carta fora do baralho, mas nos últimos dias voltou a se falar muito dela. Sem dúvida, é a que teria mais impacto eleitoral imediato, trazendo para a campanha alguns setores do eleitorado ainda reácios. É uma escolha que contraria uma das regrinhas do sentido comum: você não escolhe para vice alguém que tenha uma taxa de rejeição maior que a sua. Se Obama a escolheu, prepare-se para ouvir durante meses o clip em que ela diz, durante as primárias, que McCain estava pronto para ser presidente, e Obama não. Mas o maior problema seria um eventual governo: administrar o país com Bill Clinton, Mark Penn e Terry Mcauliffe na Casa Branca seria um pesadelo para qualquer um. Por outro lado, é fato que Hillary faria picadinho de Mitt Romney ou qualquer outro candidato a vice que McCain escolhesse. Também votou a favor da Guerra do Iraque.

Tim Kaine
: Governador da Virgínia. Ao contrário dos outros três, é de fora do status quo de Washington, o que casa melhor com o tema da campanha de Obama. É bem jovem, o que, se por um lado reforça o tema da mudança, por outro enfatiza a imagem de “inexperiência” da chapa. Tem a grande vantagem de colocar em jogo o estado da Virgínia, swing state pelo qual passa um dos itinerários mais fáceis para uma virtual vitória de Obama. Uma grande desvantagem é que significaria o fim da hegemonia democrata duramente conquistada depois de décadas na Virgínia. Kaine seria sucedido no governo do estado pelo lieutenant governor, que é um Republicano ultra-conservador.

KathleenSebelius.jpgKathleen Sebelius: Governadora do Kansas. É a candidata do Biscoito Fino e a Massa. Também teve a coragem de se opor à Guerra do Iraque quando ela foi anunciada. É governadora com índices estratosféricos de aprovação num estado que tradicionalmente vota Republicano. Alheia ao status quo de Washington, ela não contradiz, mas reforça o tema da mudança. Tem uma ótima química com Obama, a quem apóia desde o começo. Coloca não só Kansas, mas Colorado, Novo México e Dakota do Norte na parada para os Democratas. A única objeção que circula ao nome dela é que muitas apoiadoras de Hillary poderiam se revoltar contra a indicação de outra mulher para vice. Essa estranhíssima suposição, contrária a qualquer princípio feminista, é muito mencionada, mas não há nenhuma pesquisa que a sustente (o que não quer dizer que ela esteja incorreta; há maluco para tudo). O nome de Sebelius foi muito badalado no começo, depois ela foi progressivamente para a rabeira nas casas de aposta, e nos últimos dois ou três dias ganhou ímpeto de novo. Seria uma escolha muito corajosa e arriscada mas, na minha opinião, a mais coerente politicamente.

Há outros nomes menos cotados, como Brian Schweitzer, governador de Montana, e até mesmo Al Gore ou John Kerry, ex-candidatos a presidente em 2000 e 2004.

O anúncio deve ser feito amanhã, e este blog provavelmente publicará a primeira análise em língua portuguesa. Fique ligado aí no fim de semana, entre um jogo de vôlei e outro.

Atualização: Está confirmado que o Gov. Tim Kaine e o Sen. Evan Bayh receberam os telefonemas de cortesia avisando que não são eles os escolhidos. Está confirmado também que o anúncio sai neste sábado de manhã. Toda a especulação está se centrando no nome de Joe Biden nas últimas horas.



  Escrito por Idelber às 20:25 | link para este post | Comentários (12)



sexta-feira, 15 de agosto 2008

Mais um golpe contra a liberdade de imprensa em Minas: Retirado do ar site jornalístico que continha denúncias contra Aécio Neves

O site de notícias Novo Jornal, conhecido pelas denúncias que tem veiculado contra o governador Aécio Neves, foi retirado do ar ontem, em ação conjunta da Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos e da Polícia Militar. Foram apreendidos os computadores do site. Ao acessar a página, o internauta chega a esse aviso do Ministério Público de Minas, que anuncia que a página foi “suspensa” e que está sob investigação por “indícios de prática de crimes”. A imprensa noticiou que a ação foi fruto de uma representação recebida pela Procuradoria que alegava que o site publicava matérias atentatórias à honra de autoridades públicas como o Procurador Geral de Justiça do Estado, Jarbas Soares Junior, e principalmente o governador Aécio Neves . Nenhum veículo de imprensa noticiou quem foi o autor da representação.

No momento em que foi retirado do ar, o Novo Jornal trazia em sua primeira página uma matéria com pesadas críticas ao Presidente do STF, Gilmar Mendes. A matéria ainda pode ser lida no cache do Google. O Novo Jornal também denunciou que o governador Aécio Neves pagou US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão na compra da Light. A denúncia, feita em minucioso detalhe, mostra que o governo mineiro criou uma empresa, a RME -- Rio Minas Energia Participações S/A -- que teria pago por 79,57% das ações da Light e adquirido somente 75,40% das mesmas, transferindo para fundos credores da Globo nos Estados Unidos o montante de 269 milhões de dólares. Simultaneamente, Aécio nomeava o ex-presidente da holding do Grupo Globo, Ronnie Vaz Moreira, presidente da tal RME e diretor-financeiro da Light.

Ainda é possível, também, ler no cache do Google o editorial do Novo Jornal que denunciava a censura à imprensa em Minas Gerais, assim como uma missiva de um leitor com críticas a Gilmar Mendes. Ainda pelo cache do Google, é possível rastrear nos arquivos do site censurado 21 menções ao Governador Aécio Neves e 11 menções ao Procurador Jarbas Soares Junior. O Novo Jornal acusa o Procurador de barrar toda e qualquer apuração de denúncias. Evidentemente, é de grande importância preservar esses textos.

Com a subserviência que lhe é própria, a “grande” imprensa mineira noticiou a criação da Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos dizendo que com o crescente número de crimes praticados por usuários da rede, o MPE decidiu pela sua implantação, sem oferecer ao leitor qualquer fundamentação da veracidade da premissa de que o número de crimes online é mesmo “crescente”. Com a mesma subserviência, o grupo Diários Associados noticiou que o Procurador Jarbas Soares encaminhava ao PG da República uma ação que removia obstáculos à atuação dos promotores sob a incrível manchete MP luta contra a mordaça em Minas – título que adquire tons bastante irônicos à luz da última ação do MP mineiro.

Desnecessário é dizer que o Biscoito se solidariza com o jornalista responsável pelo Novo Jornal, Marco Aurélio Flores Carone, a última vítima da ditadura aecista. Seria muito, muito divertido ver esses textos reproduzidos por aí à exaustão. Este blog já gravou três ou quatro dos mais incisivos e vai republicá-los em breve.



  Escrito por Idelber às 17:23 | link para este post | Comentários (39)



quinta-feira, 14 de agosto 2008

Os Estados Unidos na geopolítica mundial depois do conflito na Geórgia

Convenhamos que é meio humilhante começar a atirar e 48 horas depois implorar de joelhos por um cessar-fogo. Há algo de comovente em ver uma nação dar-se conta de que durante muito tempo acreditou num conto da carochinha. Segundo os relatos que chegam, o estado de espírito na República da Geórgia pode se resumir com uma pergunta atônita: onde estão os americanos que disseram que nos protegeriam, que eram nossos amigos? Os georgianos descobriram, na base da porrada, o que os latino-americanos minimamente informados já sabem há mais de um século: o que os EUA querem dizer quando alardeiam seu compromisso com a “liberdade e a democracia”.

As analogias históricas não funcionam muito bem para se compreender o conflito desta semana porque a Geórgia é – ou era, até a semana passada – um dos poucos lugares da galáxia onde o presidente americano goza de popularidade real. Como se sabe, a estrada que leva ao aeroporto de Tbilisi foi batizada com o tenebroso nome de George W. Bush. Ao longo dos últimos 16 anos em que predominou uma paz tensa na Ossétia do Sul e na Abkházia, e muito especialmente desde a eleição de Mikhail Saakashvili em 2004, a Geórgia tem sido a menina dos olhos do entrismo da OTAN.

Em abril deste ano, Bush defendeu abertamente a entrada da Geórgia no Tratado, sob os olhares estupefatos dos europeus, que sabiam muito bem a provocação que isso representaria para a Rússia. Logo em seguida, 1.000 marines foram enviados à base militar de Vaziani, na fronteira com a Ossétia do Sul, para treinamento do exército georgiano. Desde a visita de Bush ao país em 2005, os EUA apresentam a Geórgia como modelo de democracia, não se importando muito com as incontáveis denúncias de violações dos direitos humanos. Tudo indica que Saakashvili imaginou que contaria com algo mais que declarações verbais americanas no momento em que iniciasse a aventura militar na Ossétia do Sul (região onde, diga-se de passagem, fala-se língua da família irânica, sem relação com o georgiano, que é língua do grupo sul-caucasiano). Para piorar sua situação, as tropas russas são detestadas na Geórgia, mas são populares na Ossétia. Resumindo: a Geórgia imaginou que tinha entrado no clube.

Não é de se estranhar que a imprensa não tenha dito muito sobre as centenas de milhões de dólares em armas, treinamento, equipamento eletrônico, aviação e morteiros fornecidos por Israel para a Geórgia nos últimos anos. Por volta de 100 agentes israelenses participaram da preparação da invasão georgiana à Ossétia do Sul. O contato aqui foi via Davit Kezerashvili, ministro da defesa georgiano, ex-residente de Israel. Outro ministro, Temur Yakobashvili, deu entrevista a uma rádio israelense no dia 11 de agosto, afirmando que um pequeno grupo de soldados georgianos foi capaz de dizimar uma divisão militar russa inteira, graças ao treinamento israelense. Tampouco é de se estranhar que depois da surra levada pela Geórgia, Israel tenha subestimado o seu papel no processo.

Mas o que salta aos olhos neste conflito é a completa desmoralização da liderança americana. Há tempos não se via os EUA espernearem tanto com tanta impotência. O vice-presidente Dick Cheney falou em não deixar a agressão russa sem resposta e os russos solenemente ignoraram. O candidato republicano John McCain, cujo principal conselheiro foi lobista do governo georgiano durante anos, batucou seus queridos tambores de guerra sem que os russos dessem o menor sinal de preocupação. O New York Times relatou que duas altas autoridades americanas chegaram ao ponto de afirmar que os EUA estão aprendendo a hora de ficarem calados. Enquanto isso, McCain declarava que no século XXI, as nações não invadem outras nações, talvez imaginando que as invasões americanas no Afeganistão e no Iraque aconteceram no século XVIII.

Se o cálculo da direita americana foi se aproveitar do episódio para reforçar um belicismo que costuma lhe render dividendos eleitorais, há bons motivos para se imaginar que o tiro pode ter saído pela culatra. Não há indicadores claros de que a atual viagem de Condoleeza Rice à região, à reboque do presidente francês Sarkozy, possa reverter esse quadro significativamente. O que é certo é que o presidente Mikhail Saakashvili – que num discurso no sábado passado chegou a evocar McCain, um candidato a uma eleição num país estrangeiro – já pode falar sobre tiros pela culatra com a autoridade de um doutor honoris causa.

Atualização: Este texto também está publicado na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 06:10 | link para este post | Comentários (38)



sexta-feira, 08 de agosto 2008

O conflito Rússia – Geórgia e as eleições americanas

Como já sabem, a situação vai se complicando na província separatista pró-russa da Ossétia do Sul, situada em território da Geórgia. Junto com a província de Abecásia, a Ossétia do Sul conquistou uma espécie de “independência de fato” da Geórgia no fim dos anos 1990, monitorada por forças de paz russas. Os conflitos começaram a acontecer a partir da eleição de Mikhail Saakashvili à presidência da Geórgia em 2004. Saakashvili fez da unificação nacional um dos eixos de sua plataforma. Desde ontem, a região separatista está sob ataque da Geórgia. A Rússia mandou tropas e reagiu. Há relatos, ainda não confirmados, de centenas de mortos.

Numa situação tão complexa como esta, é de se esperar moderação e tranqüilidade de um líder norte-americano. Barack Obama deu uma declaração instando as duas partes a cessarem as hostilidades e sentarem-se à mesa de negociação. John McCain condenou a Rússia de forma unilateral e exigiu que ela abandone “imediata e incondicionalmente” as operações militares. Eis aí uma amostra do que está em jogo nestas eleições americanas.

Agora, a parte que você não sabe: o principal conselheiro de política externa da campanha de John McCain chama-se Randy Scheunemann. Ele ó o fundador da Orion Strategies e foi lobista contratado pelo governo da Geórgia durante 5 anos, mais exatamente entre 2003 e Março de 2008. Somente no ano de 2007, Scheunemann recebeu do governo da Geórgia honorários no valor de US $240.000. Não há nada de ilegal nisso, mas fica aí mais um exemplo dos possíveis conflitos de interesse que assombram um candidato à presidência dos EUA que se cerca de lobistas.

As relações de Scheunemann com o governo da Geórgia foram noticiadas na época de sua ascensão ao comando da política externa da campanha McCain, mas até agora nenhum grande jornal americano -- que dirá brasileiro -- se lembrou desse pequeno detalhe no noticiário sobre o conflito. A dica é da antenadíssima TPM.

O que seria de nós sem a blogosfera e a imprensa independente?



  Escrito por Idelber às 18:18 | link para este post | Comentários (39)




Compasso político

Este foi um meme que circulou por aí e do qual eu nunca havia participado. É um teste que mede sua posição política num quadro atravessado por dois eixos, um eixo horizontal direita x esquerda e um eixo vertical libertário x autoritário. Sem muitas surpresas, fiquei no extremo esquerdista libertário:

compass.jpg

As perguntas, em inglês, estão aqui. Se fizer o teste, deixe aí o testemunho.

PS: Novidades da semana? Nenhuma. Israel continua assassinando crianças, atirando em gente amordaçada, matando mais crianças e, enquanto falam de paz, roubando mais terra palestina.

PS 2: Nos EUA, tampouco nada de muito novo, exceto a revelação de mentiras e mais mentiras do governo e da mídia na preparação do clima que antecedeu a Guerra do Iraque, desta vez no caso dos ataques com antraz. Veja aqui John McCain em outubro de 2001, no programa de David Letterman, sugerindo "evidências" que vinculavam os ataques de antraz a Saddam Hussein.



  Escrito por Idelber às 05:22 | link para este post | Comentários (49)



quinta-feira, 07 de agosto 2008

Ecoterrorismo e fundamentalismo natureba

Eu teria um pouco mais de simpatia por veganos, zoófilos e naturebas em geral caso eu tivesse deles ouvido, pelo menos uma vez na minha vida, uma palavra de condenação aos incontáveis incêndios, bombardeios e espancamentos perpetrados contra estudiosos e pesquisadores por auto-intitulados “defensores dos animais”. Nos Estados Unidos, e particularmente na Califórnia, está ficando impossível conduzir pesquisa laboratorial sem medo de que algum maluco da Frente de Liberação dos Animais toque fogo na sua casa ou destrua seu espaço de trabalho. Segundo o FBI, já são 1.100 crimes desde 1976, com prejuízos de 100 milhões de dólares.

O crime desta semana aconteceu na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. O professor David Feldheim, que pesquisa a formação do cérebro, teve sua casa bombardeada por um artefato descrito pela polícia como “Molotov com esteróides”. O Prof. Feldheim, com sua esposa e os filhos de 6 e 7 anos de idade, escaparam pela escada para o segundo andar, enquanto a fumaça tomava conta do primeiro. Os retratos, nomes e endereços de Feldheim e de outros 12 pesquisadores que usam ratos em laboratórios apareceram em panfletos eco-fundamentalistas deixados num café de Santa Cruz, junto com o simpático aviso abusadores de animais, cuidado. Em janeiro, explodiram uma bomba na varanda de um pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Na Universidade da Califórnia em Berkeley, pelo menos 24 pesquisadores foram atacados nos últimos meses, alguns com suas casas e automóveis vandalizados. Para quem não sabe – e esses malucos agem como se não soubessem –, o sistema universitário da Califórnia, assim como qualquer outra universidade americana séria, exige ampla documentação e justificativa antes de que se autorize o uso de animais na pesquisa, incluindo-se aí uma demonstração de que o menor número possível de animais será utilizado. Mas não adianta: com aquele fervor típico dos religiosos, os malucos tocam fogo até em laboratórios e bibliotecas de botânica.

Não basta um tépido ah, eu defendo os animais mas não aprovo esses atos de violência. Isso não é suficiente porque no movimento de defesa dos animais já se disseminou uma crônica, incurável self-righteousness, aquela pompa pontificadora de alguém que já inicia uma conversa pressupondo que ocupa um lugar de superioridade moral. Nada é mais instrutivo que ver um fundamentalista vegano tentando enfiar suas crenças religiosas goela abaixo de alguém. Na segunda ou terceira rodada da argumentação, o oponente que defenda o razoabilíssimo argumento de que a natureza é bicho comendo bicho e que nenhuma dieta tem superioridade moral sobre qualquer outra já estará sendo objeto de uma pseudo-psicanálise: coitado, ainda não evoluiu!, nós entendemos, você sente a necessidade de se justificar. Paupérrimo recurso retórico: começam atacando e, ao ouvir a contra-argumentação, replicam que “entendem” que você queira “se justificar”. Deveriam, para começar, aposentar essa cretina palavra especismo, cunhada para igualar moralmente o uso de um rato em laboratório ou o abate de um boi para um churrasco a um ato de racismo contra outro ser humano. Não cola.

Suponho não ser necessário dizer que sou contra qualquer crueldade contra animais. Imagino que eu tampouco tenha que dizer que a preservação do meio ambiente é causa séria, importante, que deve ser tratada com estudo e dedicação – especialmente pelos efeitos que ela terá para a nossa vida. Mas enquanto o etos dominante entre os auto-intitulados defensores dos animais for a de que os meus atos (e os da torcida do Grêmio e do Internacional) de comer nosso sagrado churrasco for o equivalente moral de um assassinato, eu os continuarei considerando cúmplices silenciosos dos crimes perpetrados contra gente como o Prof. Feldheim. E, até lá, o seu fervor terá de mim a mesma simpatia que devoto ao fervor religioso de uma Testemunha de Jeová.

PS. Leia também: Manifesto em defesa das baratas e Ecologia e hipocrisia, da lavra do Paraíba.

PS 2: Eu jamais imaginei que viria a este blog elogiar a Suprema Corte do Estado do Mississippi. Hora de queimar a língua: por 6 votos a 3, ela negou ao grupo Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais o acesso a documentos de pesquisa em andamento na Universidade do Estado do Mississippi. Decisão corretíssima, evidentemente. Nada, absolutamente nada lhes dá o direito de bisbilhotar a pesquisa de ninguém. Se há ilegalidades na pesquisa, que o Estado se encarregue de investigar.



  Escrito por Idelber às 06:18 | link para este post | Comentários (135)



quarta-feira, 06 de agosto 2008

Mainardi condenado na justiça

José Rubens Machado de Campos, advogado de Paulo Henrique Amorim, manda a notícia:

“A 5ª. Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo acatou, por unanimidade, o relatório do Desembargador Oldemar Azevedo e deu provimento a recurso de Paulo Henrique Amorim para condenar a Editora Abril e Diogo Mainardi ao pagamento de 500 salários mínimos (R$ 207.500, 00), ao reconhecer a ocorrência de danos morais quando da publicação (em 6 de setembro de 2006) da coluna “A Voz do PT”, na revista Veja. A Câmara considerou que houve ‘abuso da liberdade de imprensa’. A Câmara confirmou que as contestações oferecidas eram inexistentes por falta de procuração. Cabe recurso ao STJ.”

Via Conversa Afiada.



  Escrito por Idelber às 18:22 | link para este post | Comentários (28)




Um guia para as pesquisas eleitorais americanas

Com a aproximação da eleição americana, é bem provável que cheguem ao Brasil notícias incompletas ou distorcidas a respeito de pesquisas eleitorais. Aconteceu esta semana, com uma chuva de fogos de artifício no blog da Veja, festejando a divulgação da primeira pesquisa Gallup que apontava John McCain na frente de Barack Obama. É provavelmente certo que – por uma série de motivos para serem discutidos outra hora -- houve algum movimento nos números durante os últimos dias. Mas em nenhum site de notícias brasileiro vi menção do fato de que se tratava, por exemplo, de uma pesquisa com “eleitores prováveis” (likely voters – LV) e não com “eleitores registrados” (registered voters – RV), o que, acreditem, nesta campanha faz a maior diferença. Em todo caso, que conste que a última Gallup já mostra Obama na frente de novo, por quatro pontos.

Mas o objetivo do post de hoje não é especular sobre os números atuais, e sim oferecer a lista de perguntinhas que acredito que você deve fazer quando vir notícias sobre alguma pesquisa nos EUA. São dicas para quem é, como eu, fanático por pesquisas eleitorais -- sempre lembrando que três sites indispensáveis são o Real Clear Politics, o Five Thirty-Eight e o Pollster.

1.Os números se referem a eleitores prováveis ou a eleitores registrados? Os institutos usam diferentes métodos para calcular um “eleitor provável”. Sabe-se, por exemplo, que tradicionalmente os eleitores mais velhos vão às urnas em números mais altos que os mais jovens; que os mais escolarizados votam em maior número que os menos escolarizados; que os brancos comparecem em maior proporção que os negros. Baseados nisso, os institutos de pesquisa ajustam o universo da pesquisa. As pesquisas deste ano baseadas em “eleitores prováveis” tenderão a sub-representar o apoio de Obama. Por quê? Porque não há dúvidas que os jovens, por exemplo, votarão em proporção maior que em anos anteriores. E os jovens favorecem Obama massivamente. Para quem lê inglês e tem paciência de elefante, esta é fonte para entender como os vários institutos selecionam o "eleitor provável". Ponto para o Gallup, que apresenta seus critérios com mais transparência.

2.Os números foram ajustados para refletir a ausência dos celulares? Todos os institutos de pesquisa já perceberam que a limitação das pesquisas telefônicas a aparelhos fixos dá um quadro distorcido do universo pesquisado. Alguns poucos já criaram algoritmos para tentar levar isso em consideração. Entende-se: a população que abandonou o fixo em favor do celular é predominantemente jovem. A pesquisa num universo de telefones fixos também tenderá a sub-representar o apoio de Obama. Ponto para a Rassmussen, que sacou isso antes e vem tentando calcular com exatidão o impacto dessa variável.

3.Se a pesquisa é nacional, o movimento detectado por ela é notado também nos estados decisivos? Nunca é demais repetir: o voto na eleição americana não é universal direto. Elegem-se delegados estaduais, com o vencedor em cada um levando a totalidade dos votos daquele estado no Colégio Eleitoral. São favas contadas que McCain vencerá em Oklahoma. São favas contadas que Obama vencerá em Connecticut. Estes estados não interessam (sim, o voto de um eleitor desses estados para presidente não vale nada. O meu voto, aqui na Louisiana, por exemplo, tampouco vale nada). A eleição se decidirá no grupo de swing states (estados decisivos) que, este ano, poderíamos reduzir a doze: Nevada, Colorado, Novo México, Missouri, Indiana, Ohio, Michigan, Flórida, Virgínia, Carolina do Norte, New Hampshire e Montana. Algum Republicano muito otimista poderá incluir a Pensilvânia nesse grupo. Acho difícil que Obama perca por lá. Acompanhe especialmente, claro, os estados maiores, com maior número de delegados. Na Flórida, por exemplo, McCain ainda é favorito. Mas uma virada de Obama por lá torna a coisa muito difícil para o Republicano. Praticamente não há mapa de vitória para McCain que não inclua a Flórida. Obama, por outro lado, pode perfeitamente vencer sem a Flórida e mesmo sem Ohio. Segundo o mapa do RCP, linkado acima, 238 votos do Colégio Eleitoral hoje tendem para Obama. 163 tendem para McCain. 137 permanecem indefinidos. Ganha quem chegar a 270.


PS: E vão caindo os mitos, um a um. A campanha de Hillary afirmou incessantemente que Obama tinha um “problema” com eleitores brancos de classe trabalhadora. Na última pesquisa, Obama bate McCain nesse eleitorado 2 por 1.* Repetiu-se ad nauseam que Obama não teria o voto latino, porque “latinos não votam em negros”. As pesquisa apontam balaiada de Obama entre os latinos. Muita tinta foi gasta para dizer que Obama faria o Partido Democrata perder o voto judeu. Incrivelmente, Obama tem mais aprovação entre o eleitorado judeu que o próprio Joe Liberman. Alguns poucos fizeram bastante barulho com a previsão de que o eleitorado de Hillary nas primárias não migraria para Obama. Entre os democratas, o nível de apoio de Obama anda por volta dos 84%, não muito longe dos patamares normais, que sempre incluem uns 10 a 12% de defecções.

PS 2: Parece -- eu disse parece -- que Obama escolherá mesmo o Senador centrista da Indiana, Evan Bayh, como seu candidato a Vice-Presidente. Você leu aqui no Biscoito primeiro. É uma escolha que tem prós e contras. Confirmada, publico uma análise.

PS 3: O Biscoito inagura hoje uma nova coluna aí à esquerda, um “mini-observatório” da imprensa. É um espaço para apontar gafes e erros da nossa imprensa escrita. Contribua, leitor, com indicações diárias. Só erros factuais ou gafes notórias. Nada que demande muita análise.

* Correção apontada pelo leitor Henrique: o 2 por 1 se refere à classe trabalhadora como um todo. Entre os trabalhadores brancos, a vantagem de Obama é de 47 a 37. Gracias, Henrique.



  Escrito por Idelber às 06:45 | link para este post | Comentários (32)



terça-feira, 05 de agosto 2008

Mais um blog censurado pela Justiça Eleitoral no Brasil

A pérola da semana vem da Juíza Eleitoral Isabella Joseanne Lopes Andrade de Souza, da cidade de Teixeira, Paraíba, que acaba de decretar a retirada de uma série de posts de um blog e proibir o seu autor de elogiar ou criticar candidatos na rede. Sim, é a famigerada 22.718 de novo. Quando essa desastrosa resolução foi promulgada, redigi o post Judiciário brasileiro inventa a campanha eleitoral sem internet. Recebi várias interpelações de amigos que disseram que não era necessário tanto “alarmismo”. Limitei-me a ouvir e a torcer para que eles estivessem certos e eu errado. Mas como atleticano, não posso deixar de ter a perfeita consciência de que as coisas sempre podem piorar.

Pois bem, o blog de Álvaro Dantas, de Maturéia, cidade de 5.000 habitantes na Paraíba, a 300km da capital João Pessoa, foi vítima de decisão judicial da qual eu reproduzo a primeira e a quinta (última) páginas:

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Álvaro é irmão do candidato a prefeito de Maturéia pela coligação PMDB/PSB, Daniel Dantas (nenhuma relação com o outro, claro) e não tem nenhuma pretensão de neutralidade. O blog do Álvaro diz claramente, no seu banner, que este blog tem lado. Na sua decisão, a Juíza determina que o representado se abstenha de fazer comentários acerca do pleito eleitoral vindouro ... no sentido de favorecer ou denegrir, com imagens, comentários ou fotografias. Não tenho a menor idéia de quem é o melhor candidato a prefeito de Maturéia. Mas sei que proibiram o Álvaro de falar, e ele tem toda a minha solidariedade.

O parágrafo inicial da resolução 22.718 afirma que ela dispõe sobre a propaganda eleitoral e as condutas vedadas aos agentes públicos em campanha eleitoral. Mesmo dentro dos limites desta estapafúrdia resolução, teria sido perfeitamente possível preservar o direito do Álvaro à liberdade de expressão. Se a resolução "dispõe sobre as condutas vedadas aos agentes públicos em campanha", as limitações estabelecidas por ela não deveriam se aplicar a apoiadores, fãs ou familiares. Mas não foi a compreensão da Juíza Isabella. Viu-se mais uma vez que eu tinha boas razões para me preocupar.

Na fundamentação de sua sentença, a Juíza Isabella nos brinda uma pérola. Trata-se de uma geringonça escrita por Edson de Resende Castro, intitulada Teoria e prática do direito eleitoral, parida pela Editora Mandamentos, de BH, em 2008. Afirma o autor (erros de pontuação mantidos): as regras para o rádio e a TV aplicam-se às empresas de comunicação social na Internet, ou seja, aos provedores (art 45 § 3). Os Partidos e candidatos podem manter sítios na rede, mas não podem fazer propaganda nos provedores [...]. Entende-se este tratamento. O sítio na rede, mantido pelo Partido ou pelo candidato, é visitado por quem o desejar, tal como por exemplo, alguém que vai a uma banca comprar um jornal. É uma fonte de informação a que ninguém está obrigado a acessar. Já os provedores são de acesso obrigatório para aqueles que querem navegar na Internet. Por isso são comparados, no tratamento legal, às emissoras de TV, já que a lei não quer que o internauta seja surpreendido pela propaganda eleitoral na página do provedor.

Sim, pessoas como estas escrevem livros. É impressão minha ou o autor confundiu provedor com portal de notícias, provedor com site pessoal, e tudo com tudo? Como é possível discutir esse trecho sem chegar à conclusão de que o autor não tem idéia do que é a internet? Evidentemente, a "página do provedor" não é de acesso obrigatório para quem quer navegar a internet. O meu provedor de acesso à net, a AT & T, tem uma página que eu nunca visitei. O blog do Álvaro, igualzinho a uma banca de jornais, só é visitado por quem quer. Não sei qual é pior: se as analogias feitas pelo autor Edson ou o fato de que a Juíza Isabella as use para fundamentar o cala-boca no blog do Álvaro. Em todo caso, fica o registro dos absurdos do Judiciário, parte 3.451.

PS: Na Folha de São Paulo de ontem, Álvaro Pereira Júnior cita pesquisa que demonstra correlação entre escolaridade e gosto pela MPB para concluir que isso é a prova definitiva de que estudar não serve para nada. Sim, coisas como essas são impressas nos jornais. Engraçadinho, ele, não?

PS 2: Na Folha de São Paulo de hoje, João Pereira Coutinho alude ao agitador de extrema-direita David Horowitz como "especialista" em "matérias" como a escravidão. Conclui dizendo que é "cômica" a afirmativa de que a escravatura e a segregação racial contribuíram para o estatuto secundário que os negros americanos ocupam nos Estados Unidos. Afirmativa que, claro, seria mais propriamente caracterizada como óbvia ou como o que chamamos em filosofia um truísmo. Está ficando grave a situação da Folha. Alguém salve o jornal, please.



  Escrito por Idelber às 05:53 | link para este post | Comentários (58)



segunda-feira, 04 de agosto 2008

Drops

Um dos factóides requentados na semana passada foi a matéria da Revista Cambio sobre os supostos “contatos” das FARC com o governo brasileiro. Quando Eliane Cantanhêde desqualifica algum ataque ao PT como desprovido de substância, é porque a coisa é embaraçosamente sem fundamento. Sobre esse factóide, nada tenho a acrescentar ao que o Pedro Dória, insuspeito de simpatias petistas, já disse aqui.

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A suposta “traição” do Itamaraty aos seus aliados na Rodada Doha, seguida pelo fracasso das negociações para o destravamento do comércio internacional, foi outro assunto que gerou um sem-número de clichês. Nessas horas, sempre é bom ler quem entende do assunto. Na blogosfera, Sergio Leo foi quem acompanhou mais de perto e com mais informações o impasse diplomático e comercial. Veja as análises do Sergio aqui, aqui e aqui.

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Se você quiser ter uma aula sobre a eleição belo-horizontina e uma explicação de por que BH tem um elenco de candidatos superiores aos das outras capitais, leia esse excelente comentário do leitor Ricardo Amaral, que conta boa parte da história política recente da cidade.

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Como já sabem todos, o delegado Protógenes Queiroz inaugurou um blog, que mantém até agora um ritmo lento de postagem. Será interessante ver até que ponto o delegado se anima a comentar os eventos que levaram ao seu afastamento dos interrogatórios. A idéia de um delegado da Polícia Federal com um blog é tão contra-intuitiva que valerá a pena acompanhar. Pessoalmente, não acredito que dure muito, mas torço para estar errado.

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O zumbido da semana passada nos blogs de tecnologia foi o Cuil, motor de busca criado por ex-participantes do projeto Google. A promessa era de um motor de busca que rivalizasse com o Google e priorizasse relevância e conteúdo, ao invés de popularidade. As resenhas não foram muito boas. Fiz uns testes com meu nome, por exemplo, e achei os resultados bem estranhos. Artigos antigos foram repetidos várias vezes, outros artigos que sei que estão na internet não foram acusados, entradas que teriam mais relevância deram lugar a outras onde sou citado no pé de página. Outras buscas deram resultados igualmente decepcionantes.

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Por falar em competição, o próprio Google lançou o Knol, com o objetivo de oferecer uma alternativa à Wikipédia. Ao contrário da Wikipédia, os artigos do Knol são assinados e os acréscimos e revisões podem ser feitos somente com a autorização do autor. É um projeto que tem muito potencial, porque corrige um problema crônico da Wikipédia, a diluição da autoria no mínimo denominador comum. Há um bom artigo na Wired sobre o projeto.

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Lucia Malla deu uma aula sobre a língua coreana na semana passada. Vale a pena a visita.

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PS: Dei uma reduzida no blogroll, retirando os links quebrados e aqueles que apontavam para blogs não atualizados nos últimos meses. Aos amigos: se voltarem a atualizar, avisem.



  Escrito por Idelber às 07:37 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 30 de julho 2008

Religião e insanidade

O filme se repete, ad nauseam, com previsibilidade digna dos laterais do Galo. Em algum recanto dos grotões da América, juntam-se um punhado de ingredientes: o cenário é uma escola ou uma igreja; o personagem é um homem revoltado contra a conspiração dos “liberais”, dos gays, dos imigrantes ou de outro bode expiatório conveniente; o instrumento é uma arma, comprada no exercício do sagrado direito de proteger a propriedade contra as “ameaças externas”; o enredo é sempre o mesmo, um massacre com vítimas que morrem sem ter nem idéia do porquê. É um tipo de crime tão americano como a torta de maçã.

Desta vez, aconteceu em Knoxville, Tennessee, cidade simpática, que hospeda a boa universidade do estado e destoa do atraso cultural imperante na região. Quando estourou a notícia de que mais um lunático havia entrado numa igreja para fuzilar inocentes, com duas fatalidades e sete feridos, os sites de extrema-direita salivaram com as possibilidades: Assassinando cristãos? Deve ser um ateu! Provavelmente um radical de esquerda! Na certa um terrorista islâmico!

De novo, como havia sido o caso com Timothy McVeigh, tratava-se de um homem branco, armado até os dentes e cheio de revolta contra “liberais e gays”. Bastava saber um pouco sobre a igreja que sofreu o ataque para suspeitar. A Unitarian Universalist Church é a única igreja americana que conheço que exibe um cartaz enorme, bem na porta, com as palavras gays welcome. Lugar bacana, ecumênico, de gente tolerante e pacífica, envolvida com grupos de apoio e iniciativas de direitos civis para gays e lésbicas, a Unitarian Universalist Church reúne judeus, muçulmanos, cristãos, ateus; heteros e homos; pretos e brancos.

O assassino, David Adkisson -- no momento em que descobriram que era branco, desapareceu a palavra terrorista --, escreveu uma carta de quatro páginas detalhando seu ódio aos “liberais e gays”. Em seu carro, foram encontrados livros de Bill O'Reilly, Sean Hannity e Michael Savage. O primeiro é o mais conhecido âncora de extrema-direita dos EUA, da famigerada Fox News. Os outros dois são membros do poderoso movimento ultra-conservador que se congrega nos programas de “entrevistas” de rádio nos EUA. Savage é o autor de um livro com o inacreditável título O liberalismo é uma doença mental (Liberalism is a mental health disorder).

Não sei qual é a percepção aí no Brasil, mas morando há 18 anos nos EUA e observando a coisa de perto, não vejo muito como fugir da conclusão: vamo' que vamo' ladeira abaixo.


PS: Ainda sobre religião e insanidade, veja essa incrível história: numa missa no campus da Universidade da Flórida Central, um garoto recebe a hóstia e não a ingere. Guarda a bolacha no bolso para mostrá-la a um colega que queria informações sobre a fé católica. A partir daí, sua vida se transforma num inferno. Escândalo nacional. A imprensa começa a publicar matérias sobre como o garoto havia seqüestrado a hóstia. A porta-voz da diocese compara o ato a um crime de ódio (hate crime). Começam a discutir a expulsão do estudante. O covarde presidente da UCF, em vez de defender seu aluno, se dedica a fazer média com a hierarquia católica. O garoto, Webster Cook, pode ter simplesmente destruído o seu futuro acadêmico porque foi pra casa com um pedaço de farinha no bolso. Inacreditável.



  Escrito por Idelber às 06:55 | link para este post | Comentários (50)



terça-feira, 29 de julho 2008

Jô Moraes para a prefeitura de Belo Horizonte!

j%F4.jpg Declaro aqui o meu apoio à deputada federal Jô Moraes, do PC do B, para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008. Jô Moraes, não Márcio Lacerda (PSB), é a herdeira do excelente trabalho realizado pela prefeitura de BH nestes últimos 16 anos. Foi Jô Moraes, não Márcio Lacerda, quem esteve durante 30 anos na militância ao lado do Doutor Célio de Castro. Jô Moraes, não Márcio Lacerda, é verdadeiramente conhecida pelos belo-horizontinos. É ela, não ele, quem conhece a cidade. Fui um dos 111.130 mineiros que votaram em Jô para deputada federal em 2006. Ela não decepcionou, sendo a autora, entre outros, do projeto de lei que regulamenta o piso salarial para professores da rede pública, um avanço – mínimo, sim, mas real – na quilométrica estrada de recuperação do sucateado ensino brasileiro.

Faço questão de linkar um post anterior em que eu argumentava que a Executiva Nacional do PT não devia bloquear automaticamente as conversas que se desenvolviam entre Fernando Pimentel e Aécio Neves, inclusive por razões táticas. Não sou da esquerda que demoniza o PSDB por tudo e termos como “tucanalha” não têm lugar neste blog. Não acredito que um entendimento entre petistas e tucanos seja uma idéia necessariamente ruim. Mas a forma como se deram as conversas em Minas, as motivações personalistas e carreiristas que subjazam a elas e o nome altamente questionável que foi escolhido para representá-las tornam impossível que este blog veja com simpatia a candidatura de Márcio Lacerda, o mais rico entre todos os aspirantes a prefeito no Brasil inteiro, com um patrimônio de 55 milhões de reais.

Como contribuição à cultura política da articulista da Folha de São Paulo, Eliane Castanhêde, que declarou nunca ter “ouvido falar” de Jô Moraes, o Biscoito apresenta um pouco do seu currículo: paraibana, radicada em Minas desde a época da militância contra a ditadura, na década de 1970, Jô Moraes já recebeu da capital mineira o título de Cidadã Belo-Horizontina. Talvez Eliane Castanhêde não saiba, mas existe uma coisa chamada União Brasileira de Mulheres. Jô Moraes é fundadora da entidade. Também participou da criação da Conselho Estadual da Mulher, em 1982. Foi também a primeira presidente do Movimento Popular da Mulher. Jô é parlamentar há 12 anos. Foi vereadora por dois mandatos, deputada estadual por um mandato e em 2006 foi a deputada federal mais votada de toda a esquerda de Minas Gerais. É a presidente do PC do B no estado.

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Com a infinita cara-de-pau que lhe é peculiar, o ex-deputado José Dirceu quer dar lições de moral e fidelidade partidária aos petistas belo-horizontinos que, em número cada vez maior, estão migrando para a campanha de Jô Moraes e recusando o conchavo Pimentel-Aécio que usa como laranja o PSB, o mesmo PSB mineiro -- não confundir com o PSB de Luiza Erundina e Eduardo Campos -- que fez oposição à prefeitura do Doutor Célio de Castro com o grande goleiro e péssimo político João Leite.

O ex-deputado José Dirceu não nos diz onde estava a sua crença na fidelidade partidária em 1998, quando ele comandou uma cavalaria cossaca que esmagou a decisão democrática da convenção do PT fluminense, que havia escolhido Vladimir Palmeira como candidato ao governo do Rio, com o objetivo de impor uma aliança com ninguém menos que Garotinho. O ex-deputado José Dirceu tampouco nos diz onde estavam suas convicções acerca da fidelidade partidária em 2004, quando seu grupo arregimentou outra cavalaria cossaca, desta vez contra o PT cearense, que escolheu Luizianne Lins para a prefeitura de Fortaleza e terminou vencendo, mesmo sendo sabotada pelos caciques paulistas. Nesta eleição de BH, quem comete infidelidade partidária contra a orientação do PT nacional, diga-se de passagem, é o grupo do Prefeito Fernando Pimentel, que escolhe – por motivos de ambição pessoal – apoiar um candidato sem nenhuma história, um pau-mandado de Aécio, um aspirante a prefeito que, como bem lembrou o leitor Jeferson Melo, não sabe chegar da Savassi ao Centro sem motorista. Tudo isso contra uma candidata de credibilidade e competência infinitamente maiores, Jô Moraes, que sempre esteve ao lado das prefeituras de esquerda em BH durante os últimos 16 anos.

Eis aí, portanto, minha declaração de voto. Faço um apelo aos leitores de BH a que se engajem na campanha de Jô. Ela enfrenta duas poderosas máquinas administrativas. Lidera nas pesquisas, mas não será fácil. Márcio Lacerda tem 12 minutos na televisão, contra 2 minutos de Jô. A vitória, se vier, será na raça. Mas será um delicioso triunfo da democracia contra o caciquismo.

O Biscoito é Jô. Vamo' lá.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



segunda-feira, 21 de julho 2008

Cópia de um email ao ombudsman da Folha de São Paulo

Caro Sr. Carlos Eduardo Lins da Silva:

Sou leitor diário da Folha de São Paulo há exatos 27 anos. Apesar da campanha explícita do jornal em favor de um dos candidatos à Presidência em 2006, da transformação da “Ilustrada” em caderno de fofocas e futilidades e da incrível proeza do suplemento “Mais!”, de ser ao mesmo tempo irrelevante para especialistas e incompreensível para não-especialistas, continuo considerando a Folha o melhor jornal brasileiro.

No caso da cobertura das prisões de Daniel Dantas, o sr. reconhece, em sua coluna (para assinantes) deste domingo, que a maioria absoluta dos leitores que se manifestaram teceram críticas à cobertura do jornal. Pertenço a essa maioria. No entanto, o sr. atribui muitas das críticas à “guerra sectária de petistas e tucanos que envenena o ambiente social e político brasileiro”. É uma leitura possível. Mas ela é francamente contraditória com os seus próprios parágrafos seguintes. Tome-se o trecho:

O jornal também não mostrou ainda com detalhe o grau de enraizamento do grupo de Daniel Dantas na política brasileira. O perfil do financista foi curto e ralo. Não foram exploradas a fundo suas relações com PSDB, DEM, PMDB, além do PT, nem com figuras de frente desses partidos.

O uso da locução adverbial antes da menção ao PT torna a frase ambígua. O ombudsman está reconhecendo que o jornal somente explorou as relações de Dantas com membros do PT? Se é assim, não seriam as críticas ao jornal algo mais que expressão da “guerra sectária” entre PT e PSDB? Sua própria frase não estaria implicitamente reconhecendo que essas críticas são observações de um fato, de uma parcialidade real?

A hipótese parece corroborada pelo seu penúltimo parágrafo: Houve omissões importantes e injustificáveis. Nenhuma linha foi publicada sobre a relação de negócios entre a irmã de Dantas e a filha de José Serra, apesar de esta ter até divulgado um comunicado de imprensa para esclarecê-la.

Ora, se o governador do estado mais poderoso do país, ex-candidato a presidente, ex-ministro e favorito à sucessão do atual presidente tem uma filha com relações de negócios com Daniel Dantas, não seria isso um fato de interesse público? Como é possível reconhecer que nem uma única linha foi publicada sobre o assunto e continuar culpando a “guerra sectária” entre petistas e tucanos pelas críticas ao jornal?

Por que o número de manchetes dedicadas ao tema da “espetacularização”, das algemas e dos vazamentos foi tão superior ao espaço dedicado ao conteúdo revelado pela investigação, que supostamente seria o tema de maior interesse público? Por que a Folha transmitiu a nítida impressão de estar tentando desqualificar o relatório apresentado pelo delegado Protógenes? Por que fazer uma matéria dedicada a “erros de português” do relatório? Por que, depois da revelação de uma gravação em que a repórter Andréa Michael menciona uma “matéria de encomenda” a Daniel Dantas, o jornal não deu uma explicação aos seus leitores, ou mesmo ofereceu o espaço para que a jornalista se defendesse? Por que a Folha disse que Michael se encontrava viajando e “não pôde ser localizada”? Na era do email, do fax e do celular, a Folha é incapaz de localizar um jornalista seu que está viajando? Por que a cobertura do jornal pareceu ser, mais que parcial ou falha, francamente suspeita e desprovida de transparência?

A coluna do sr. neste domingo, mesmo tendo apontado com pertinência alguns erros do jornal, não me pareceu responder a contento estas interrogantes.

Um abraço do seu leitor,

Idelber Avelar



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post | Comentários (74)



sábado, 19 de julho 2008

Sobre o papel do subjuntivo no mascaramento da bandidagem

protog.jpgÉ oficial: Protógenes Queiroz e o Juiz Fausto de Sanctis viraram réus. O inacreditável aconteceu. Uma operação policial que revirou os intestinos da maior quadrilha do capitalismo brasileiro se transformou numa novela sobre como Protógenes usa o subjuntivo (Johnson estava errado; o último refúgio do canalha não é o patriotismo: é a gramática); sobre se houve vazamento ou não; sobre se deveria haver filmagem ou não; sobre se De Sanctis desrespeitou o STF ou não; sobre se Dantas pode ser algemado ou não. Revirem as manchetes dos jornais. Procurem informações sobre o conteúdo do que as investigações revelam sobre Dantas, a privatização das teles e seus bilionários negócios. Não há.

Protógenes vai fazer um “curso” e De Sanctis vai tirar férias. A conclusão é inevitável: o lado de lá, a corja, venceu. Em parte, pela covardia do governo Lula, que incrivelmente escala um Ministro da Justiça para dizer que o afastamento de Protógenes era um ato de “rotina”. Calculou errado, por medo da avalanche da mídia, que só quer saber da parte em que a maracutaia respinga no PT. Quando se deram conta de que a opinião popular já não se pauta pela mídia -- coisa que o governo Lula deveria ter aprendido com sua própria vitória em outubro de 2006 –- tentaram voltar atrás e era tarde demais.

Nélio Machado, o advogado de Dantas, agora pauta a Folha de São Paulo. É inaudito: as frases do advogado de um criminoso sobre o Presidente da República ganham primeira página nos jornais. Deve ser inédito na história da imprensa brasileira. Até manchete com ameaças de Nélio Machado ao PT foram publicadas. Aliás, é boa coisa que meu caríssimo e admirado Mário Magalhães tenha abandonado a função de ombudsman do jornal antes do estouro deste escândalo. Porque a lama da Folha neste episódio ultrapassa os limites do ombudsmanizável.

Sim, estou estuprando a língua portuguesa, em homenagem aos cães de guarda que enfiam vírgulas entre sujeito e predicado e escrevem matérias zombando do “português truncado” de Protógenes.

Sou de família de advogados. A minha paixão pelo Direito é antiga, apesar de eu ter escolhido Letras. Fucem por aí: juízes federais, procuradores da república etc. O que mais tem é Avelar. Nunca li um relatório policial em que o português não fosse “truncado”. Jamais me incomodou. Agora, de repente, o uso do subjuntivo num relatório policial que desvenda a maior quadrilha do capitalismo brasileiro virou tema de comoção na mídia nacional. E o conteúdo do relatório sumiu. Ninguém diz nada.

As gravações reveladas nesta semana demonstram claramente duas coisas: as de Dantas mostram um bandido que quer chegar a Lula, quer atingir Lula (maior êxito aqui, menor êxito acolá). As gravações da PF mostram um grande brasileiro – Protógenes Queiroz – seguindo à risca, rigorosamente, uma tarefa na qual ele sabe que está cercado de inimigos por todos os lados. Mesmo assim, o governo Lula não teve a coragem de dizer: Truco! Querem colocar todas as cartas na mesa? Querem revelar tudo? Vamos fritar toda a bandidagem, de todos os partidos, mesmo sabendo que a mídia escolherá a fritura que mais lhe convém? O governo Lula não apostou no discernimento da população brasileira neste episódio. Quando se deu conta disso, Inês já era morta.


PS: Pretendo dar um tempo deste episódio pelo mesmo motivo que dei um tempo do Galo aos sábados. É derrota demais. Derrota na política, derrota no futebol. O Biscoito Fino e a Massa provavelmente se transformará num blog sobre literatura e música. Ali, pelo menos, a derrota é matéria-prima da arte, e não da infâmia.

PS 2: Há manifestações hoje, em todo o Brasil, pelo impeachment de Gilmar Mendes. Elas têm o apoio deste blog. Mais detalhes no Nós apoiamos De Sanctis.

PS 3: Admiração; admiração e respeito infinitos por Protógenes Queiroz e Fausto de Sanctis. Nunca vou me esquecer do nome destes dois brasileiros.



  Escrito por Idelber às 04:53 | link para este post | Comentários (69)



terça-feira, 15 de julho 2008

Afastaram Protógenes

Protógenes Queiroz, o delegado que pediu duas vezes a prisão de Daniel Dantas, foi afastado do caso. Sobre o envolvimento da imprensa, Sergio Leo escreve um texto que vale a pena ser lido.

A íntegra do relatório da PF, em cinco pdfs, está aqui.

PS
: No próximo dia 24, às 22 horas, a TV Brasil exibe um especial sobre os 90 anos do maior crítico literário brasileiro vivo, Antonio Candido. No domingo, a TV Brasil exibe o "De lá para cá", sobre a obra de Guimarães Rosa. Mais detalhes no site da TV Brasil.

PS 2: Minha palestra aqui na USP, sobre crítica e valor, acontece amanhã, quarta-feira, às 14 horas, no prédio da História e Geografia, na sala Ilana Blaj (H).



  Escrito por Idelber às 19:03 | link para este post | Comentários (65)




Prof. Paulo Ghiraldelli Jr. explica o que está errado com a lei Azeredo

São 9:30 minutos de vídeo mas, acreditem, vale a pena.


PS: Soninha, Soninha que prazer te conhecer. Noite memorável em São Paulo. Até o impossível apareceu.



  Escrito por Idelber às 04:17 | link para este post | Comentários (27)



segunda-feira, 14 de julho 2008

Manifestações e petição online contra Gilmar Dantas

fora.jpg Estão sendo convocadas, Brasil afora, uma série de manifestações contra o Presidente do STF, Gilmar Mendes, para o próximo sábado, dia 19. Aqui em São Paulo ela acontece na Avenida Paulista, a partir das 10 horas da manhã. Quem convoca é o Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem-Mídia, que tem experiência bem-sucedida com esse tipo de evento. Em Belo Horizonte, o ato acontece na Praça da Liberdade, também a partir das 10 horas. Em Porto Alegre, a manifestação será na Feira do Brique da Redenção, no mesmo horário. A concentração se iniciará no Monumento ao Expedicionário. Ajude a divulgar, é importante. Se souber de iniciativas em outras cidades, avise.

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Há uma petição online exigindo a saída de Gilmar Mendes do Superior Tribunal Federal. A petição rapidamente amealhou 1.500 assinaturas. Assine e divulgue você também.

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Paulo Henrique Amorim, que vem dando um show de cobertura do caso – ele realmente entende do assunto –, noticia que apareceu um “Gilmar” nas fitas gravadas pela Polícia Federal. Quem será? Gilmar dos Santos Neves, claro, o maior goleiro do Brasil em Copas do Mundo, aquele em quem tudo parava.

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Nem na campanha explícita a favor de Geraldo Alckmin en 2006 a Folha de São Paulo se prestou a papel tão vergonhoso como o que ela assumiu nestes últimos dias. A matéria (para assinantes) sobre os “erros de português” do relatório do Dr. Protógenes Queiroz é uma peça para envergonhar qualquer jornalista. A matéria também afirma que o delegado acusa “sem provas”. Desde quando, ó Folha de São Paulo, vocês se preocupam com provas quando a acusação lhes é conveniente? Quem diria, o Estadão tem sido bem mais digno. Nenhuma maravilha, mas um pouco mais de dignidade, pelo menos.

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Quando você vê algum veículo de imprensa dizendo que os "erros" da Polícia Federal ou o mau uso das preposições no relatório do Dr. Protógenes contribuem para que os bandidos sejam inocentados, você não tem a sensação de que eles usam o modo performativo fingindo que usam o modo constativo? Ou, dito sem retoriquês, você não fica com a sensação de que eles fingem que descrevem uma coisa quando na verdade estão enunciando o seu desejo?

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Nas rodas de acadêmicos do Congresso da Abralic, aqui em Sampa, um consenso: esta crise está mostrando quem é quem no Brasil. Limpinho, cristalino. É só saber ler.

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Agradeço e parabenizo aos colegas da Universidade de São Paulo, que estão organizando o décimo-primeiro Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, que começou neste domingo. Mas vou me permitir uma crítica construtiva: não há razão para se organizar um congresso tão gigantesco, com interesse potencial fora dos muros da universidade, fazendo um site trancado por senhas, onde o público não tem como se informar sobre palestras que possa querer assistir. Vamos destrancar as coisas na internet, gente.

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Obrigado aos queridos Alessandra e Pandini, por um adorável jantar aqui na megalópole incomparável. Como se come bem nesta Sumpaulo, meus orixás.

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Há um belo blog novo na praça, sobre cultura e atualidade. Com vocês, Amalgama, que está aceitando candidatos para escrever sobre cinema e política. Se você tem interesse em participar, entre em contato com eles pelo formulário. É obra de Daniel Lopes e amigos. Coisa boa.

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Inaugura-se hoje, no Museu da Língua Portuguesa, aqui em Sampa, uma exposição sobre Machado de Assis. A curadoria é de dois alunos de José Miguel Wisnik e a consultoria é do próprio. Ou seja, promete.

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Parece que hoje vou conhecer pessoalmente uma ídola muito querida. Assunto não faltará.

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Nota aos amigos: meu celular belo-horizontino já não funciona aqui em Sampa. Sempre funcionou no Brasil todo, quando era Telemig Celular. Aí virou Vivo, que virou não sei o quê, que virou índio quer apito. Não funciona mais.



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domingo, 13 de julho 2008

O repetitivo, tedioso factóide dos grampos

Vejam como se produz um factóide. Em meio ao prende-e-solta de Daniel Dantas esta semana, estoura uma bomba: o Superior Tribunal Federal teria sido “grampeado”. Acusa-se o juiz Fausto Martin de Sanctis de ter instruído a Polícia Federal a monitorar as conversas do Presidente do STF, Gilmar Dantas, digo, Gilmar Mendes. Não é preciso ser advogado para saber que se trata de acusação de extrema gravidade. Não era necessário ter um doutorado em retórica para saber que a história era meio estranha. Um juiz de primeira instância, que corajosamente está enfrentando criminosos poderosíssimos, com aliados no Congresso, na imprensa e no Judiciário, expondo-se assim? Com um comportamento ilegal? Meio insólito, convenhamos.

A imprensa chegou a noticiar a história como fato e, logo depois, a suposta fonte da acusação, a desembargadora Suzana Camargo, vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, teria dito me esqueçam. Como assim? Posso acusar um juiz federal de cometer um crime e depois dizer “me esqueçam”? Mas há uma razão pela qual eu digo que a Dra. Suzana é a suposta fonte da acusação. Para entender esta cautela, regressemos a um post do Biscoito de setembro de 2006.

Às vesperas da eleição presidencial de 2006, o Ministro Marco Aurélio de Mello veio à público com uma “denúncia” de que seus telefones e os de outros dois ministros do TSE estariam sendo grampeados. Chegou a dizer que o grampo “podia ter vindo do estado”. Foi o suficiente para que as Organizações Globo – aquelas que esconderam o maior acidente da história da aviação brasileira para divulgar fotos ilegalmente obtidas com o intuito de eleger seu candidato – começassem a falar em “estado policial”. Depois que a Polícia Federal fez varredura completa e não encontrou nem sombra de grampo, o Ministro Mello, com a ironia calhorda e leviana que lhe é peculiar, afirmou que “então faz de conta que não houve grampo algum”. Reiterou que confiava na conclusão da empresa privada que faz a varredura mensal no TSE e que lançara a acusação.

A história é curiosa porque a empresa responsável pela denúncia que Mello repercutia chama-se Fence, estranhamente contratada por José Serra, sem licitação, durante o governo FHC, pela bagatela de $R 1,8 milhão por ano, para fazer varreduras para as quais a PF está mais do que equipada. A Fence Consultoria Empresarial, de propriedade do ex-dirigente do SNI, o coronel reformado do Exército Ênio Gomes Fontenelle, é a empresa que foi denunciada em 2002 por espionagem a favor de José Serra, no episódio em que pilhas de dinheiro foram encontradas no escritório de Roseana Sarney.

Um dia depois, o próprio presidente do TSE, Athayde Fontoura Filho, afirmava que “os grampos já podem ter sido retirados” e que “provavelmente agora não vão encontrar nada”. A imprensa começa a voltar atrás. Um ano depois, em 2007, a mesma história se repete no STF, e até as Organizações Globo tiveram que noticiar, peremptoriamente: Denúncia de grampo no STF era falsa. No caso das eleições de 2006, Mauricio Cardoso lembrava, no Estadão, que o TSE havia deferido 64 demandas a favor de Alckmin e 17 a favor de Lula, para concluir com a pergunta retórica: “a quem interessam os grampos no TSE”? A pergunta era uma clara tentativa de incriminar Lula.

Segundo Bob Fernandes, de quem é a informação de que a desembargadora Suzana Camargo denunciou a Gilmar Mendes que o juiz De Sanctis o havia grampeado? De Maurício Cardoso, da revista Consultor Jurídico, que tem feito uma cobertura claramente alinhada a Gilmar Mendes.

Ontem, foram os próprios técnicos do Supremo -- não a PF -- quem fez a varredura no gabinete de Mendes e não encontrou nada. Sabemos, então, que De Sanctis não mandou grampear Mendes coisa nenhuma. Mas quem está mentindo? Maurício Cardoso? A desembargadora Suzana? Vocês com a bola.



  Escrito por Idelber às 01:46 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 11 de julho 2008

Gilmar Mendes e as "facilidades" de Dantas no STF

Não se tem notícia, na história recente do Brasil, de revolta tão grande contra um membro do Poder Judiciário. Mesmo com a farta documentação recolhida pela Polícia Federal e com provas materiais de uma tentativa de suborno a um juiz, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, mandou soltar duas vezes, em menos de 24 horas, um banqueiro sobre quem pesam as acusações de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e espionagem. Gilmar Mendes fez plantão para um criminoso, negou que a PF houvesse coletado dados novos e ignorou a jurisprudência que diz que liminar em habeas corpus liberatório só pode ser concedida em casos de abuso evidente.

O Sr. Gilmar Mendes atuou como cúmplice de um criminoso. O juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, Wálter Maierovitch (também fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi), disse claramente que Mendes está atuando com abuso de direito e que está na hora de se pensar num impeachment para Gilmar Mendes. No momento em que escrevo este post, 130 juízes federais lançam uma carta duríssima de protesto, que afirma que o estado democrático de direito foi atingido e que a decisão de Mendes foi “inédita e absurda”.

Seria muito bom se os outros membros do tribunal suspendessem suas férias. Nos próximos dias, o titular deste blog espera poder recolher material para escrever um relato acerca de como a revolta popular na Argentina levou a uma completa limpeza na Corte Suprema daquele país, em 2003. Não custa lembrar, claro, que o STF possui um serviço para que você envie sua mensagem.

Atualização: Está no ar o blog Apoiamos o juiz federal Fausto de Sanctis.



  Escrito por Idelber às 21:01 | link para este post | Comentários (62)




Advogados vão ao Supremo de novo e Dantas promete “detonar”; Dallari contesta Mendes

Atualização: Gilmar Mendes mandou soltar Dantas de novo. (via Pedro Dória)

A imprensa noticiou que os advogados de Daniel Dantas entraram com uma petição no Supremo Tribunal Federal contra a prisão preventiva do banqueiro, decretada ontem, algumas horas depois da concessão de habeas corpus pelo Ministro Gilmar Mendes. No interrogatório conduzido esta tarde pelo delegado Protógenes Queiroz, produziu-se, segundo Bob Fernandes, um diálogo sensacional:

- ...sua grande ruína foi a mídia...você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso...sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente...
Daniel lê, atentamente.
O delegado volta à carga.
- Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou...
Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:
- Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão... eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados...e se você insistir agora será com a família toda...serão duzentos anos de prisão...
Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:
- ...vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo....
Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição:
- Eu vou contar tudo!
E faz jorrar, devastador:
-...vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004...
- Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll...?
Prossegue a torrente de Daniel:
- ...tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso... tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa...
O delegado, avança:
- Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil...quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa...
Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:
...você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!

Enquanto isso, em entrevista à Ultima Instância, um dos mais respeitados juristas do país, Dalmo de Abreu Dallari, afirma que ficou difícil justificar a liberação de Dantas agora e diz que mantém tudo o que disse sobre Gilmar Mendes em 2002, quando de sua nomeação ao STF por Fernando Henrique Cardoso: falta-lhe a necessária reputação ilibada.



  Escrito por Idelber às 16:25 | link para este post | Comentários (64)



quinta-feira, 10 de julho 2008

Dantas preso de novo!

É, meus caros.

O Brasil do Dr. Protógenes Queiroz, o Brasil do Dr. Vitor Hugo Rodrigues Alves, o Brasil do Dr. Fausto Martin de Sanctis, não vai se curvar assim tão fácil ao Brasil de Gilmar Mendes.

Daniel Dantas está preso de novo. A prisão agora é preventiva. Bob Fernandes já noticiou e deve escrever mais nas próximas horas.

Com a palavra, a super equipe de profissionais do direito que freqüenta o blog. E todos os outros leitores, é claro.

Atualização: o detalhe saboroso da história é que qualquer pedido de habeas corpus terá agora que percorrer o trâmite normal de primeira instância, segunda instância etc. Não poderá ser julgado diretamente pelo Supremo. O HC anterior foi julgado assim porque havia sido impetrado preventivamente.

Atualização II: No jogo de xadrez em que se converteu este caso, a vantagem até agora está com o brilhante delegado Queiroz e o valente juiz Martin de Sanctis. Leia: Queiroz dá drible da vaca em Mendes. A metáfora futebolística de Paulo Henrique Amorim está perfeita.

Atualização III: Está crescendo na internet o movimento para enviar mensagens ao Supremo Tribunal Federal externando opiniões sobre a postura do Presidente Gilmar Mendes neste caso. Para enviar também a sua mensagem -- educada, por favor -- ao STF, clique aqui.



  Escrito por Idelber às 16:11 | link para este post | Comentários (57)




Operação Satiagraha: o ranking do nervosismo

Eu, que sou um mero crítico literário atleticano, não tenho todos os elementos para fazer esse ranking. Mas o Biscoito Fino e a Massa gostaria de dar sua contribuição à medição do nervosismo de certas figuras da política e do jornalismo brasileiros à raiz da operação Satiagraha, da Polícia Federal. Apresento o meu top 8 da preocupação pindorâmica, em ordem alfabética, e convoco meus eruditos e bem informados leitores a que organizem o ranking como bem lhes aprouver. Ou que acrescentem outros nomes, evidentemente.

Eduardo Azeredo: segundo os que acompanham o Senado, era visivelmente o parlamentar mais alterado. Coitado, justamente na semana em que ele tentava criar impressões digitais para rastrear todos os usuários da internet, encontram suas impressões digitais no maior bandido de Pindorama. Nervosismo estilo Lazaroni.

Reinaldo Azevedo
: logo depois de decretada a prisão de Dantas, Reinaldinho entrou em verdadeiro surto psicótico. Insistiu que a prisão de Dantas demonstrava que vivíamos num perigoso totalitarismo bolchevique. Fantasiou que estávamos a um passo de adentrar uma ditadura na qual agentes da Polícia Federal invadiriam sua casa e estuprariam suas filhas com grossos tomos de Lênin. Nervosismo estilo Zagallo.

Fernando Henrique Cardoso
: o príncipe sociólogo tem bons motivos para julgar-se a salvo, mas nossas fontes não deixaram de notar que FHC não quer nem saber de remexer histórias acerca de um certo encontro em que tratou com Daniel Dantas do tema da diretoria da Previ. Ou das relações de Pérsio Arida, que o serviu no BNDES e no Banco Central, com Dantas. Nervosismo impassível, estilo Ademir da Guia.

José Dirceu: quase 36 horas de silêncio absoluto sobre a prisão de Dantas num blog basicamente dedicado a comentar as manchetes dos jornais do dia. Para piorar, acham suas digitais nas tentativas de sabotagem à operação do Dr. Protógenes. Quando falou, foi para condenar a “espetacularização” da PF, encontrando finalmente suas afinidades eletivas com Reinaldinho da Veja. Nervosismo estilo Roberto Dinamite.

Guilherme Fiúza: escreveu um inacreditável post em que apresentava a filmagem de um ex-prefeito e bandido em sua casa, no momento da prisão, de pijama de mangas compridas, como uma elaborada tortura chinesa jamais vista em Pindorama. Nervosismo hiperbólico, estilo Dadá Maravilha.

Miriam Leitão: escreveu um inacreditável post em que se perguntava por que, afinal de contas, remexer essas coisas tão velhas como as falcatruas de Dantas. Contrapôs a operação Satiagraha às boas notícias veiculadas no exterior sobre o Brasil, como se combate à corrupção fosse sinônimo de corrupção. Fingiu não entender que o mensalão não é a origem de Dantas, mas exatamente o contrário. Nervosismo pretensamente burro, estilo Dunga.

Marinhos, Kamel e Globo: esses não têm com que se preocupar, já o sabem há tempos. Mandam em Pindorama. Para quem viu o Jornal Nacional de ontem, é impossível não concordar com Paulo Henrique Amorim. A Globo já rifou Dantas. Nervosismo zero, estilo Vicente Feola.

Gilmar Mendes: presidente da Suprema Corte do país, passou pela inacreditável humilhação de ver um bandido dizer que, no seu tribunal, ele tem “facilidades”. Ao invés de dar o habeas corpus em 24 horas, preferiu fazê-lo em 36, para não dar muito na cara. Nervosismo dissimulado, estilo Parreira.



  Escrito por Idelber às 05:11 | link para este post | Comentários (64)



quarta-feira, 09 de julho 2008

A contagem regressiva para a liberação de Dantas e a desmoralização do STF

Meus leitores sabem do interesse – leigo, mas intenso – que dedico às questões do direito (preciso, inclusive, achar o tempo para criar uma tag que identifique as dezenas de posts que o blog já fez sobre o assunto). Não me lembro, na história recente, de uma desmoralização tão pública do Supremo Tribunal Federal como a que o Ministro Gilmar Mendes protagonizou nas últimas 24 horas. Seguindo-se à prisão do criminoso Daniel Dantas e de vários associados seus ontem pela manhã, veio à tona uma declaração anterior do banqueiro. Hugo Sérgio Chicaroni, contratado por Dantas para se aproximar dos delegados que investigam o Opportunity, disse ao delegado da PF a quem ele tentava subornar que a preocupação de Dantas seria só com o processo na primeira instância, uma vez que no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF) ele resolveria tudo com facilidade. A declaração foi gravada legalmente pela Polícia Federal.

Eis que poucas horas depois da prisão preventiva dos criminosos, o Ministro Gilmar Mendes -– que, pela própria declaração de Dantas sobre o STF, deveria ter mais cuidado -– vem a público criticar a “espetacularização” das prisões. Qual espetacularização?, pergunto eu. Foi a própria esposa de Celso Pitta quem confirmou que a chegada dos policiais federais à sua casa foi tranqüila; que eles em nenhum momento foram mal-educados ou agressivos; que Pitta saiu sem algemas; que a operação transcorreu na mais absoluta calma. Quem deu uma aula de direito foi o juiz federal Fausto de Sanctis, que escreveu: Não se trata de medida midiática, mas absolutamente indispensável para uma apuração séria e criteriosa, buscando a eficácia das investigações. Ponto.

É verdade que a Polícia Federal cometeu o erro de pedir a prisão de Andréa Michael, jornalista da Folha de São Paulo que anunciou há dois meses a existência dessas investigações. Se houve vazamento, cabe à corporação investigar internamente. A Constituição assegura ao jornalista o sigilo de fonte. A justiça, corretamente, negou o pedido. Mas “espetacularização”? Não vejo nenhuma.

O trabalho republicano da Polícia Federal cria nervosismo em certas comarcas e produz as afinidades eletivas mais insólitas. Quem são as duas vozes que acompanham o Ministro Gilmar Mendes -- que já atacou a Polícia Federal com termos impróprios para um magistrado -- na crítica à “espetacularização” da PF? Reinaldo Azevedo e José Dirceu. Visivelmente nervoso, soltando impropérios e insultos em letras maiúsculas, o colunista da Veja afirma que qualquer um de nós pode estar sujeito a isso sem que nossos advogados nem mesmo saibam do que estamos sendo acusados. Ora, Reinaldinho, Dantas sabe do que é acusado. Vamos à lista? Formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, espionagem. Em seu blog (no momento fora do ar), José Dirceu condena o “espetáculo” da PF. Mendes, Azevedo, Dirceu. Não é curiosa a convergência? Eu me alistaria para jogar na zaga de qualquer equipe que enfrente essa linha de atacantes.

Tenho orgulho da Polícia Federal do meu país e não perco a oportunidade de dizê-lo pessoalmente aos policiais, cada uma das muitas vezes que entro ou saio do Brasil. Resta ao Judiciário fazer a sua parte e não repetir decisões anteriores, lamentáveis.

PS: O jornalista Leonardo Sakamoto nos lembra: sigam os bois de Dantas.



  Escrito por Idelber às 14:27 | link para este post | Comentários (67)



terça-feira, 08 de julho 2008

Links sobre a prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta

É o assunto do dia, evidentemente. Foram 24 mandados de prisão e 56 mandados de busca e apreensão cumpridos hoje pela Polícia Federal, na operação Satiagraha, ou “firmeza” (agraha) na “verdade” (satya), em sânscrito. Os crimes: formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, espionagem.

O furo foi de Bob Fernandes, que ofereceu também um histórico do caso. A matéria da Reuters também vale a pena ser lida. O RS Urgente explica as ramificações gaúchas da operação criminosa e o Juca Kfouri lembra que Dantas é um dos responsáveis pela ruína do outrora glorioso Esporte Clube Bahia. Luis Nassif compilou de novo a documentação sobre Dantas e a Veja.

Já começaram as apostas sobre quantas horas passarão antes que algum juiz emita o habeas corpus.

PS: Alô, gays e lésbicas, da 5a vara da família de Santo Amaro chega uma bela notícia.



  Escrito por Idelber às 13:31 | link para este post | Comentários (39)




Ajude a barrar o projeto de Eduardo Azeredo

A abominável monstruosidade parida pelo Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para regular a Internet foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Numa semana de péssimas notícias para a Internet, começou a mobilização para tentar barrar a aprovação em plenário desse projeto substitutivo, que cria a figura do provedor delator, criminaliza o compartilhamento de arquivos e, absurdo dos absurdos, transforma em criminoso todo aquele que obtiver “dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização do legítimo titular”.

Em outras palavras, o Senador Eduardo Azeredo quer criminalizar basicamente tudo o que fazemos na internet: citar, copiar, colar, compartilhar. Não tenho nada a acrescentar ao que vários colegas blogueiros já disseram sobre o assunto. Limito-me, então, a convidar os leitores a que assinem a excelente petição escrita por Sergio Amadeu e André Lemos. O selinho que segue foi retirado do blog do Sergio Amadeu (veja que fantástico: se aprovado o projeto de Azeredo, eu estaria cometendo um crime ao circular este selinho):

contra.png

É uma vergonha para o estado de Minas Gerais ser representado no Senado por Eduardo Azeredo.



  Escrito por Idelber às 02:41 | link para este post | Comentários (32)



sábado, 28 de junho 2008

Ministério Público gaúcho quer rasgar a Constituição

O Ministério Público do Rio Grande do Sul está em meio a uma inacreditável ofensiva de criminalização do MST, com linguagem retirada diretamente dos piores manuais anti-comunistas. As peças produzidas pelo MP gaúcho parecem inverossímeis no Brasil de 2008. Algumas delas baseiam-se no relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti que, entre outros delírios, afirma que análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano estratégico, formulado a partir de tal “convênio”, que inclui o domínio de um território em que o governo manda nada ou quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo.

O MP e a Brigada Militar do Rio Grande do Sul procederam a executar despejos dos sem-terra até mesmo de áreas que estavam cedidas por pequenos proprietários para a instalação das famílias. O Dr. Jacques Távora Alfonsin, procurador do Estado aposentado e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, relatou que a petição chegou a Carazinho no dia 16 de junho e o despacho do juiz, de 20 laudas, saiu no mesmo 16 de junho. Ou seja, tudo aponta para uma ação orquestrada de criminalização dos movimentos sociais, e em particular do MST. Que fique claro: eles foram desalojados de terras arrendadas, não invadidas. Teríamos dificultades, imagino, de encontrar um precedente.

Do MP gaúcho vem a esdrúxula proposta de “extinguir” o MST, como se a Constituição brasileira não garantisse o direito à livre associação. Se é fato que, nos últimos 20 anos, a demonização do MST na mídia brasileira tem sido coisa sem paralelo desde a época em que o Partido Comunista era acusado de comer criancinhas no espeto, também é fato que as ações recentes do MP gaúcho demonstram um nível de truculência e desrespeito à Constituição raras vezes visto.

Não importa o que você pense do MST. As denúncias são gravíssimas e é a democracia que está em jogo.



  Escrito por Idelber às 05:05 | link para este post | Comentários (34)



terça-feira, 24 de junho 2008

Drops de Buenos Aires

Como já saberão os mui bem informados leitores do Biscoito, acabou o bloqueio de estradas na Argentina e o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol está tramitando no Congresso. A sensação é de que o governo passou à ofensiva, sem uma única ação de repressão dura contra o bloqueio. Se você quiser saber qual é a diferença entre um governo Peronista e um governo Radical, ei-la aí: Peronista é aquele governo que banca e sai intacto de uma queda-de-braço com produtores agropecuários que entrangulam durante 100 dias o acesso às cidades. Um governo da UCR é aquele que desaba depois de 48 horas de piquetes.

Há tempos eu queria ouvir uma explicação inteligente sobre a penetração que teve o bloqueio entre os pequenos produtores da pampa úmida. Hoje, na Biblioteca Nacional, três economistas (Eduardo Basualdo, Alfredo Zaiat, Alejandro Roffman) esclareceram direitinho: a figura do pequeno ou médio produtor que vive de parte de sua colheita e vende o resto (o que entrou no imaginário argentino como chacarero) é, cada vez mais, uma raridade. Não é que ele não exista. Ele simplesmente passou a alugar sua terra para os grandes conglomerados da soja e viver desse aluguel. Rende muito mais do que produzir.

A Folha de São Paulo, que tem publicado boas matérias sobre a Argentina, precisa entender que não são “aumentos de impostos sobre as exportações de grãos”. É a soja e o girassol, não o trigo, não o milho. A diferença é fundamental porque aqui ninguém come soja. 98,5% se exporta. O aumento das retenções é justamente uma forma de estimular os outros cultivos ante o rolo compressor da sojicultura. Será que alguém poderia avisá-los? Há anos, evidentemente, eu não escrevo cartas a Painel de Leitor. É perda de tempo na época dos blogs.

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Melhorou sensivelmente a situação da cerveja em Buenos Aires. Se há alguns anos você era obrigado – exceto em lugares muito especializados – a escolher entre a fraca Quilmes servida em temperatura quase ambiente e aquela bebidinha bíblica feita de uvas, hoje em dia a belga Stella Artois está disponível em qualquer lugar. Opte sempre pela garrafa litro, que vem bem mais gelada. A garrafinha (porrón), por alguma misteriosa razão, chega morna.

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Da série “Coisas argentinas que você jamais verá no Brasil”: Sexta-feira à noite, sob um temporal, quase uma centena de pessoas se deslocam à Biblioteca Nacional para escutar uma leitura de poemas do grande, do incomparável Leónidas Lamborghini, que anda já pelos 80 anos de idade. Sem tematizar explicitamente a política, Lamborghini é o responsável pela incorporação de uma série de ritmos, tons, gírias da política à poesia argentina. Foi uma honra celebrar com o velho os 50 anos da publicação de El solicitante descolocado, que ganhou nova edição. A poesia de Lamborghini é um laboratório para se entender o que faz a grande poesia com a política. Nada ver com "literatura engajada".

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Das últimas conversas com meu amigo e genial escritor Ricardo Piglia, ficou esta frase sua: gosto dos escritores que dividem o público. Não sei de onde vem essa idéia de que os bons escritores devem ser do agrado de todo mundo. Discutíamos a obra de Sergio Chejfec, que tem essa qualidade: produz seguidores devotos e um vasto leque de leitores que insistem na pergunta: o que vocês vêem nesse cara? Eu, por certo, estou no primeiro grupo.

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Esta dica você não encontrará em nenhum guia de Buenos Aires: se quiser respirar o que restou da atmosfera dos primeiros contos de Borges, aqueles das lutas de facas, esqueça o Centro Cultural Borges, o cemitério da Recoleta, toda essa bobajada. Vá até a rua que leva seu nome, esquina com Guatemala, em Palermo. Lá se encontra um lugar chamado El preferido. É um raro espécimen do que se chamava uma pulpería: um armazém com pilhas de enlatados e conservas nas prateleiras, mas que vende comida como se fosse um restaurante popular. Imperdível (obrigado, Julia).

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É fato: o micro-centro está tomado por hordas de turistas da República Morumbi-Leblon-Mangabeiras. Eles vêm a Buenos Aires e passam cinco dias dentro de um shopping center, de preferência a intragável Galeria Pacífico. Saem de lá só para gritar uns aos outros: Benhêê, olha lá o Obelisco. O horror.

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Acredito ser esta uma lei universal sobre os donos de cachorros: quanto mais soberbos e pseudo-aristocráticos, mais eles pressupõem que todo o planeta deve gostar dos seus bichinhos e que estes são donos do espaço público. Ao vir a Buenos Aires, caminhe bastante por Palermo e descubra por que o bairro é um dos corações da efervescência cultural, gastronômica e livresca da cidade. Mas não ande de cabeça erguida por mais de 60 segundos. As solas de seus sapatos agradecerão.

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Pude constatar por que a Boutique del Libro é a livraria mais badalada em certos círculos literários da Argentina. Claro que o famoso Ateneo, da Avenida Santa Fé, é visita obrigatória. Mas eu gosto de livrarias menores, com personalidade, estoque bem escolhido, um bom café, funcionários que entendem de livros. Nesses quesitos, a Boutique é insuperável. Rua Thames, 1762. Em Palermo, claro.

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O Biscoito já fez uma resenha do fantástico Museu da Paixão Boquense num post anterior. Para os simpatizantes do clube xeneize no Brasil, é imperdível o excelente (e bem barato) restaurante El gardelito, ponto de encontro boquense. Fica também em Palermo, na Thames, quase esquina com Nicarágua (obrigado, Martín Kohan).

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Por falar em futebol, tenho vários amigos de luto por aqui: o Racing Club, a famosa Academia, um dos cinco verdadeiramente grandes do futebol argentino, está a um passo da Segunda Divisão.

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Já está completando 13 anos de existência uma das mais inovadoras revistas de ensaios da América Latina: Pensamiento de los confines, dirigida pelo meu amigo (e torcedor do Racing), o ensaísta Nicolás Casullo, pode ser lida, parcialmente, na internet.

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Recomendei, em 2007, El director, de Gustavo Ferreyra, como o melhor livro que eu havia lido no ano. Conversando com ele hoje, tive a grata notícia de há outros dois romances no prelo. O próximo sai pela Planeta, em novembro.

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Ao receber a notícia da morte de seu pai, uma mulher descobre que a lojinha já decadente que ele administrava e na qual ela trabalhava não era, como ela pensara, fonte de ganhos cada vez menores, mas de monstruosos prejuízos. Desempregada, com seus bens liquidados, ela conta as moedas para o ônibus que a levará a outra peregrinação infrutífera em busca de trabalho. Numa das incontáveis entrevistas, ela decide levantar levemente a saia. É o mote para a trama sensacional que organiza uma das últimas obras-primas do inesgotável romance argentino: não perca El trabajo, de Aníbal Jarkowski.

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A velha história: faça campanha como candidato "pró-vida". Grite histericamente contra o direito das mulheres ao aborto. Pontifique sobre "os direitos dos não-nascidos". Aí presencie a sua ex-namorada testemunhar que você a forçou a fazer um aborto (via TPM).

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Algum generoso leitor poderia oferecer uma mini-resenha do Roda Viva com José Miguel Wisnik?



  Escrito por Idelber às 03:11 | link para este post | Comentários (35)



quinta-feira, 19 de junho 2008

Dica

Hoje, às 23:00, participarei do programa de rádio dos intelectuais argentinos Elsa Drucaroff e Alejandro Horowicz, para falar de literatura, política e cultura.

É na FM Identidad, que pode ser ouvida online.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (10)




Manifestação multitudinária na Praça de Maio

Nos vemos mañana en la plaza. Há que se estar familiarizado com a história argentina para entender todo o poder simbólico que carrega essa simples frase. Existem dezenas de praças em Buenos Aires, mas só uma é la plaza. Exatos 53 anos e 3 dias atrás, dez toneladas de bombas foram lançadas pela marinha argentina sobre a Praça de Maio para tentar matar Perón, o presidente reeleito com 68% dos votos. 300 pessoas morreram. Um ônibus com 80 garotos de Santiago del Estero – que haviam vindo conhecer o Presidente – foi carbonizado. Vinte e poucos anos depois, um grupo de mulheres com lenços brancos na cabeça se transformariam, ali, nas mães mais famosas do mundo. A Praça deixava de ser só dos peronistas para se transformar no lugar por excelência da cidadania argentina.

Éramos mais de 100.000 ontem à tarde na Praça de Maio, no ato em defesa da institucionalidade democrática e contra o bloqueio latifundiário das estradas:

mayo.jpg


Desta vez, sim, a convocatória foi ampla. Compareceu o peronismo, mas também estiveram lá todos os setores que – mesmo tendo críticas ao governo – já não toleram o cerceamento do direito dos argentinos irem e virem. Não foi um ato oficialista, embora a presidente fosse a única oradora. Compareceu, por exemplo, o Partido Socialista, crítico do kirchnerismo. Compareceu em massa o sindicalismo. A classe média portenha estava lá em peso. Até mesmo o La Nación, o mais direitista dos grandes jornais argentinos, reconheceu que a praça superlotou. As colunas iam chegando por todas as vias de acesso:

mayo2.jpg

Anteontem, Cristina Kirchner recuou e anunciou, em cadeia nacional, que está enviando o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol ao Congresso Nacional, onde o peronismo tem maioria em ambas câmaras. Se tivesse feito isso há três meses, teria evitado um grande desgaste. Em todo caso, antes tarde do que nunca. O envio do projeto ao Congresso, combinado com o estrondoso sucesso do ato na Praça de Maio, dão fôlego ao governo e colocam na defensiva os latifundiários da soja, que mesmo assim anunciaram que a paralização continua até sexta-feira.

O discurso de Cristina foi duro e polarizante, acusando a “quatro pessoas em quem ninguém votou” (os quatro líderes das Federações Agrárias) de desrespeitar o direito de todos os argentinos. Apesar de que há muita gente – por exemplo, este blogueiro -- que vê torpeza, falta de tato e setentismo no governo Kirchner, as forças democráticas vão se unificando na defesa das instituições e na condenação ao que é, na prática, um ato de terrorismo dos latifundiários. Já são mais de seis milhões de litros de leite desperdiçados. No ato da Praça de Maio, o povo mais pobre era, visivelmente, o mais radicalizado. Falta política ao governo Kirchner. Mas aos seus opositores no campo falta decência e senso de cidadania.

PS:
Sim, eu assisti ao jogo de ontem. Sim, torci pelo Brasil. Até os 10 minutos do segundo tempo. E vocês?



  Escrito por Idelber às 04:18 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 17 de junho 2008

Comentários sobre a mídia

Está confirmado: na partida decisiva da Copa do Brasil, na quarta-feira passada, na Ilha do Retiro, a Rede Globo de Televisão manipulou deliberadamente o áudio para que parecesse que os 1.000 corinthianos presentes no estádio haviam “calado” os 35.000 rubro-negros pernambucanos. Captada em um canal diferente daquele reservado para o resto do estádio, a cantoria da torcida do Corinthians foi sobredimensionada, enquanto o barulho da torcida do Sport era eliminado na mesa de edição. Muitos dos que assistimos à partida estranhamos o fato de que as palavras de ordem dos corinthianos aparecessem com tanto destaque, quando obviamente a Ilha do Retiro, lotada, também cantava. A manipulação foi tão óbvia que mesmo antes da confirmação da falcatrua já estava nítido que algo de errado havia.

A transmissão da partida foi outra das pérolas de parcialidade com as quais gaúchos, mineiros, baianos, pernambucanos, goianos, paranaeneses já nos acostumamos. Cléber Machado não conseguia disfarçar a decepção com os gols do Sport. Arnaldo César Coelho – aquele que apitou uma final de Campeonato Brasileiro em que um jogador foi pisoteado sem que seu algoz fosse expulso – procurava pênaltis para o Corinthians e punições para os jogadores do Sport. Tudo como dantes: o jogo foi narrado como se uma equipe fosse brasileira e, a outra, estrangeira. Com isso já estamos acostumados. Mas falsificação de áudio, convenhamos, é capítulo digno de nota mesmo no já ilustre currículo da emissora que participou de tentativas de fraudes eleitorais, manipulou edições de debates presidenciais, colaborou com a tortura e escondeu o maior acidente aéreo da história do Brasil para divulgar, com objetivos eleitorais, fotos ilegalmente obtidas.

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A Selecinha de Dunga levou um previsível vareio de bola do Paraguai. De quem é culpa? Ora, segundo Lucia Hippolito, a culpa é do Lula, claro.

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É inacreditável o esforço que faz o Grupo RBS para blindar o governo de Yeda Crusius (PSDB-RS) no escândalo de corrupção que desviou, via Detran, 40 milhões de reais dos cofres públicos gaúchos. Depois de ignorar as denúncias durante meses, a Zero Hora não teve como não noticiar eventos como a violenta repressão da Polícia Militar do Coronel Mendes a uma manifestação pacífica na semana passada. Como o fez? Dizendo que os manifestantes haviam “entrado em conflito” com a polícia, quando todos os testemunhos confirmam que a polícia militar atacou de forma totalmente não provocada uma manifestação pacífica.

No Jornal Nacional, da Globo, foi pior: a manifestação contra a corrupção do governo Yeda foi descrita como “protesto contra a alta dos alimentos”. No Jornal do Brasil, uma grotesca manchete anunciava "Corrupção abala governo do PT". Depois, a Zero Hora fez uma pesquisa sobre a atuação repressiva da PM na qual os cidadãos que telefonavam para o número que designava “ação exagerada” encontravam as linhas ocupadas. É verdade que nós, mineiros, estamos acostumados com o pior jornal do planeta, o Estado de Minas. Mas a Zero Hora leva o pseudo-jornalismo a níveis de criminalidade poucas vezes alcançados. Para acompanhar a crise no Rio Grande, a melhor fonte, você já sabe, é o RS Urgente.

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Em definitivo: quaisquer que sejam as restrições que você possa ter ao alinhamento automático do Página 12 com o kirchnerismo, não se informe sobre a crise argentina pelo Clarín. Saio às ruas, vou ao supermercado, converso com atores sociais, visito manifestações dos dois lados, acompanho os acontecimentos de perto. Chego em casa, leio o Clarín e tenho a sensação de que estão falando sobre outro país, talvez o Iraque.

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Por tudo isso, é bom ficar de olho nos desdobramentos do Fórum de Mídia Livre, que acaba de se realizar no Rio de Janeiro. Rovai falou, Marco Aurélio Weissheimer fez a síntese e Katarina pensou com o brilhantismo de sempre.

Atualização. A propósito deste tema, Soninha escreveu um belo texto: Pesos e medidas.



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domingo, 15 de junho 2008

Dia tenso na Argentina

A situação aqui na Argentina, embora não seja a hecatombe que às vezes pinta o Clarín, vai ficando bem grave. O dia de hoje foi o mais tenso dos últimos três meses de crise. Caminhando por Buenos Aires ao léu, vi nada menos que quatro grandes manifestações: três contra o governo e uma a favor, na Praça de Maio. Em primeiro lugar, há que se esclarecer que o aumento das retenções imposto pelo governo não é à exportação de “grãos”, como afirmou hoje a Folha de São Paulo. Aplica-se à soja e ao girassol. De acordo com o decreto original, de maio, que provocou a crise, as retenções sobre o trigo e o milho baixaram, inclusive. 98% da soja produzida pela Argentina se destina à exportação.

Observando as manifestações contra o governo no chiquérrimo bairro de Belgrano, é impossível não perceber uma curiosa ironia: as panelas, em geral, são utilizadas em passeatas por gente que não tem muita intimidade com elas. É aquele desjeito que você vê, por exemplo, nas mãos de um não-fumante forçado a segurar um cigarro. Do lado do governo, o patetismo chega quase ao mesmo nível. Hoje, o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina e chefe do Partido Peronista, foi participar da manifestação pró-governo na Praça de Maio, junto com ministros de estado. Quando a passeata se transforma em instrumento de governo de um país de 40 milhões de habitantes, é porque a coisa vai mal. O peronismo (kirchnerismo), por sua própria natureza, impede o surgimento em seu interior de políticos como Hermes Binner, ao mesmo tempo comprometidos com um idéario de esquerda mas capazes de gestão e negociação.

A grande derrota do governo, até agora, é da ordem das relações públicas: uma queda-de-braço com os exportadores de soja é quase universalmente percebida como um conflito com “o campo”. Essa percepção vai, é claro, informando as atitudes dos próprios sujeitos agrários, que são diversificados entre si, mas que passam a ver-se representados, mesmo que imaginariamente, nos interesses dos sojicultores -- percepção reforçada pelo milenar ressentimento das províncias contra Buenos Aires. Até as Mães da Praça de Maio racharam: enquanto Hebe de Bonafini, fiel ao governo por sua política de direitos humanos, pede prisão de 15 anos para os que bloqueiam as estradas, Mireya González, das Mães de Gualeguaychú, defende a “luta social” dos dirigentes agropecuários. A situação entre os prefeitos também é de cisão: na província de Buenos Aires, 52 prefeitos apóiam “o campo” e 68 apóiam o governo. Em Córdoba, a esmagadora maioria dos prefeitos está contra o governo. Em Santa Fé, a coisa está mais ou menos pau a pau. Ainda não há desabastecimento para valer em Buenos Aires, mas é uma possibilidade real. Em várias províncias, faltou combustível.

Aí vai uma coleção de links para quem quiser acompanhar a crise pelos blogs argentinos de política.

Um lado:
Lomas nuevo o lomas viejo
Homus economicus
NerdProgre
Ramble Tamble
El magma

O outro lado:
50 amaneceres
Nanopoder
Abuelo económico.

PS. Vem-me à memória uma citação de Julio Cortázar, d'O livro de Manuel: O campo é esse lugar onde os frangos passeiam crus.



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (13)



quarta-feira, 11 de junho 2008

A crise argentina

Já dura três meses a queda-de-braço entre o governo de Cristina Kirchner e o que imprensa convencionou chamar “o campo”. Em março, o governo decidiu por um aumento de 45% nos impostos sobre as exportações de produtos como a soja. A partir daí, o locaute patronal, o bloqueio de estradas e o confronto marcado pela incapacidade do governo de conseguir aliados no campo vêm polarizando a Argentina. Os entidades patronais rurais parecem ter conseguido arrebanhar a simpatia dos pequenos produtores, e o governo enfrenta dificuldades também entre setores da sociedade civil que são críticos dos métodos da família Kirchner, hoje hegemônica dentro do Partido Justicialista (Peronista). A polarização chegou à imprensa, com o Clarín se transformando num verdadeiro porta-voz da oposição e o Página 12 ocupando posição mais alinhada ao oficialismo.

O “racha” na sociedade argentina é mais agudo que qualquer cisão que tenhamos experimentado no Brasil em anos recentes e é incompreensível sem referência a dois elementos bem antigos na Argentina: o abismo político entre Buenos Aires e as províncias (que se remonta ao século XIX) e a falta de alternativas políticas reais ao Peronismo. Ao contrário do que pode parecer, a cisão não é exatamente contígüa à divisão entre direita e esquerda, apesar da linguagem usada pelo governo contra seus opositores (“gorilas”, “golpistas” etc.).

Para entender melhor a crise argentina, o Biscoito deixa aqui alguns links a textos publicados pelas partes envolvidas: a Carta Aberta assinada por milhares de intelectuais e ativistas em apoio ao governo; o Acordo do Bicentenário assinado por um grupo de docentes que tomou distância do kirchnerismo; por fim, o texto Nem com o governo nem com os patronais do campo, assinado por aqueles que mantêm posição crítica a ambos os lados do conflito. A Carta Aberta provocou uma resposta de Vicente Palermo, que faz uma crítica interessante do que poderíamos chamar a "política do possível". Essa intervenção foi contestada – no meu modo de ver de forma não muito convincente – por Horacio González. A polarização chegou ao ponto em que Hebe de Bonafini, líder de um setor das Mães da Praça de Maio (e alinhada com o governo), pediu a prisão dos membros da comissão de enlace do campo. A polêmica já gerou um texto sugestivo sobre a Nova Direita.

PS: O blog transmite de Buenos Aires de amanhã até o dia 27 de junho. Para quem me perguntou sobre o curso sobre música popular e cidadania, aí vão os detalhes. Nesta sexta-feira, nos reunimos de 14:00 às 20:00 na sede da Universidad San Andrés no centro da cidade. No sábado, a aula acontece de 9:00 às 13:00 no auditório da FUNCEB.

PS 2: Alguns outros posts do Biscoito sobre a Argentina:
Esses estranhos seres vegetarianos.
Biblioteca básica de literatura argentina.
Desde Buenos Aires: Revelación de mi identidad.

PS 3: Ela passou por Belo Horizonte. Foi bom demais vê-la, porque brigamos muito nestas primárias americanas. A visita foi com direito a um presentinho para mim – um livro de Nelson Rodrigues com dedicatória inesquecível. Valeu, valeu. A idéia dela é que a gente redirecione o Clube de Leituras para trabalhar mais freqüentemente com contos. Achei ótimo e estou aberto a sugestões.



  Escrito por Idelber às 22:59 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 06 de junho 2008

Drops de política

Existe uma deliciosa expressão no inglês norte-americano que, dizem as más línguas, foi consolidada por ninguém menos que Cindy Lauper: to throw something or somebody under the bus, que na política significa algo assim como “livrar-se de aliados inconvenientes em nome da elegibilidade”. O exemplo clássico foi o governo Clinton, que depois de lançar gays, lésbicas, negros, feministas, ambientalistas e ativistas pró-imigração pra baixo do ônibus, chegou àquele ponto em que a sensação era que o próprio ônibus já estava sendo lançado pra baixo do ônibus. Numa política bipartidista, caracterizada pela ação incessante de uma direita feroz no uso da tática do "culpado por associação", a vida do Partido Democrata tem sido, nas últimas décadas, um perene lançamento de aliados pra baixo do ônibus. Depois de confirmado como candidato democrata, Obama fez o seu primeiro discurso ante o lobby pró-Israel AIPAC. Ninguém era ingênuo de imaginar que Obama não faria as tradicionais declarações de lealdade a Israel sem as quais, nos EUA, você não se elege nem síndico de prédio. Hillary Clinton foi muito bacana no processo: já há tempos merecedora da confiança do lobby sionista, acompanhou Obama e apresentou ao público a sua certeza de que ele será um bom amigo de Israel. Mas ninguém, acredito que nem mesmo a liderança da AIPAC, esperava que Obama – além de declarar que impedirá o Irã de conseguir armas nucleares, que defenderá a integridade territorial do aliado americano no Oriente Médio, etc. etc. -- fosse declarar que Jerusalém é a capital indivisível de Israel. Evidentemente, isso contraria todos os planos internacionais de paz e todas as resoluções da ONU sobre o tema, que prevêem controle palestino sobre Jerusalém Oriental. Contraria até mesmo a posição oficial dos EUA, que não reconhecem a ocupação de Jerusalém Oriental. Previsivelmente, os primeiros a serem lançados pra baixo do ônibus nesta campanha americana são os palestinos. É o velho padrão dos democratas: ofereça concessões além do esperado e depois fique com as mãos atadas.

Atualização, 09/06: Ou, pensando bem, talvez não. Veja o esclarecimento do Daniel abaixo e a minha resposta.

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Falando no tema, eu e Pedro Dória estamos adiando o debate sobre o livro de Ilan Pappe, The Ethnic Cleansing of Palestine, que estava marcado para a próxima segunda-feira. Os livros do Pedro não chegaram a tempo, e eu confesso que o adiamento me serve bem, dado o acúmulo de trabalho. Algumas pessoas também me haviam sugerido que precisavam de mais tempo. Está mantida a idéia do papo, mas para outra data a ser decidida em breve.

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Notícias do front da cicatrização: houve melhora significativa no clima dentro do Partido Democrata nas últimas 48 horas. Como já é sabido, Hillary enviou email aos seus apoiadores confirmando que no sábado realizará um ato em que suspenderá a campanha e começará a pedir votos para Obama. A história de bastidores é que o núcleo duro da campanha em Nova York jogou pesado e forçou a barra para que ela tomasse a atitude logo. Parece que a voz do deputado federal Charlie Rangel, aliado antiquíssimo dos Clinton, foi bem decisiva. Também houve uma sensível aliviada na pressão para que Hillary fosse escolhida vice. Uma das vozes mais respeitadas da blogosfera feminista, a Bitch Ph.D., junto com centenas de leitoras, argumentaram pesado contra algumas apoiadoras de Clinton que chegaram a falar em não votar em novembro, ou mesmo a votar em McCain. Os republicanos estão a um voto de derrubar Roe v. Wade na Suprema Corte e o próximo presidente indicará, muito provavelmente, mais um ou dois juízes (Justice Stevens tem 88 anos e Justice Ginsberg tem 75). Uma vitória de McCain em novembro é praticamente a garantia do fim do direito ao aborto nos EUA por, pelo menos, uma geração. Na pontuação criada pela principal entidade de defesa dos direitos reprodutivos nos Estados Unidos, a NARAL, Barack Obama tem nota 100%.

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Lembram-se de uma recente matéria do New York Times sobre a piração dos veteranos da Guerra do Iraque? Pois vejam a última: Kirk Coleman, 27 anos, soldado para-quedista veterano da invasão, estuprou uma garota de três meses. Sim, três meses. O bebê teve fratura em 17 ossos e sofreu dano cerebral. Fizeram um acordo judicial para que ele fosse processado só por “tentativa de abuso infantil”. Com esse acordo, a pena máxima que ele poderá receber será de 5 anos de cadeia.

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Parece que está se tornando insustentável a situação do governo de Yeda Crusius, governadora do Rio Grande do Sul, com a recente revelação de gravações que demonstram que o esquema de corrupção no Detran gaúcho, que desviou mais de $40 milhões dos cofres públicos, envolvia elementos de cúpula do seu governo. Estou acompanhando o caso desde o começo pelo show de cobertura dado pelo RS Urgente, que driblou toda a grande mídia neste caso. Do paladino da moralidade Pedro Simon, até agora, nem uma palavra.

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Gostei dessa: as oito melhores -pedia que não são a Wikipedia (via Últimas de Babel).

Atualização: O mais popular entre os radialistas americanos de extrema-direita, Rush Limbaugh, está conclamando seus ouvintes a assinar a petição de apoio à idéia de Hillary Clinton como vice-presidente. Não podemos acusá-lo de não ser transparente: batizou a empreitada de "Operação Caos".



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 04 de junho 2008

Noite histórica para a democracia: Barack Obama é o candidato

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Em novembro, os cidadãos norte-americanos vamos às urnas. Temos a chance de derrotar a mais desastrosa coalizão política da história dos EUA. A que mais danos fez à imagem e ao legado do país. A que mais rastros de sangue, mentiras, déficits e ilegalidades deixou atrás de si. Barack Obama será o candidato do Partido Democrata, como já sabiam os leitores deste blog desde 20 de fevereiro. Ontem, depois de uma sucessão de endossos de super-delegados ao longo do dia, Obama chegou ao número mágico com a vitória em Montana. A festa da vitória foi bem no terreiro deles. A escolha do lugar foi deliberada: em Minnesota, onde o Partido Republicano realizará sua convenção em setembro para confirmar John McCain como seu candidato, Barack e Michelle Obama reuniram 20.000 pessoas. Foi um momento inédito, mágico da política. Quando a possibilidade soa como um átimo, esse átimo merece a eternidade. O discurso de Barack, dedicado a unir o partido, foi recheado de longos elogios a Hillary Clinton.

Sabia-se que não haveria discurso de concessão de Hillary. Não é do estilo dela reconhecer que perdeu. Ao longo destas primárias, nem uma única vez Hillary Clinton felicitou Barack Obama por suas vitórias. Ao longo da campanha, nem uma única vez Barack Obama deixou de parabenizar Hillary por seus triunfos, incluindo-se aqui o de Dakota do Sul na noite passada. Nessa singela diferença, já fica nítido que separou as duas campanhas.

Mas ninguém esperava o patético e lamentável espetáculo que foi o discurso presenciado por algumas centenas de pessoas no porão de Baruch College, em Manhattan, lugar deliberadamente escolhido por não ter televisões nem possibilidade de sinal para celulares ou Blackberries, de tal forma que ninguém se inteirasse de que o mundo já havia reconhecido Barack Obama como o candidato do Partido Democrata. Para começar, o chefe de campanha Terry McAuliffe – como é possível que em algum país da América do Sul ainda exista gente inteligente acreditando ser feminista uma campanha dirigida por Terry McAuliffe? -- anuncia Hillary com a seguinte pergunta: Vocês estão prontos para a próxima presidente dos Estados Unidos? Sim, eles vivem no universo paralelo. No discurso de Hillary, nem uma única palavra de reconhecimento da vitória de Obama. Depois, a estranhíssima frase I won't be making any decisions tonight, como se houvesse alguma decisão a tomar. Para completar, a repetição patológica de que ela é a melhor candidata (tudo ao som de “Simply the Best” de Tina Turner) e a martelada esquizofrênica de que ela “teve mais votos” -- bizarra matemática à qual eles chegam excluindo os estados que usaram assembléias em vez de cédulas. E excluindo os estados que começam com I e com M. E excluindo os estados de três sílabas. E excluindo não sei mais qual estado no malabarismo de Mark Penn. É como se o Vasco, depois de ser derrotado pelo Flamengo na decisão estadual, decidisse comprar uma taça no armazém da esquina e desse a volta olímpica em torno de São Januário. É inacreditável.

Como sabem os leitores deste blog, eu acompanho política bem de perto. Acho que nunca disse desde quando. Pois bem, é desde a gloriosa campanha de Sandra Starling ao governo de Minas, pelo PT, em 1982, na qual cumpri algum papel, como sabe ela. Nunca, na minha vida, vi uma campanha tão sem classe, tão baixa. Até a manhã de ontem, eu era dos que ainda acreditavam ser possível uma chapa Obama / Hillary. A partir de ontem à noite, juntei-me às centenas de milhares de eleitores norte-americanos que já enviaram mensagens a Barack: Hillary, de jeito nenhum. É fundamental para a democracia americana que se acelere a decadência de um clã que não soube ajustar-se ao bonde da história. É uma dinastia responsável por dois mandatos presidenciais bastante bons (e, em comparação retrospectiva com os anos Bush, melhores ainda), mas que infelizmente não soube cair com dignidade. Chegaram ao final chamando jornalistas de "scumbag" (dou o prêmio para a tradução mais criativa do insulto) por matérias verídicas e recheadas de fontes. Meu amigo Pedro Dória, que é consideravelmente mais moderado, cauteloso e elegante que eu para expressar desgosto, não resistiu e disse: É incrível. Ela não larga o osso.

Pois agora vamos à luta contra os responsáveis pelo desastre que os EUA criaram para si e para o mundo nestes oito anos. Vamos, de preferência sem Clintons na cédula. A unidade do Partido Democrata se dará por outras vias. Não é digna da vice-presidência de Obama uma candidata que se recusa a reconhecer a derrota, pede a seus eleitores que mandem emails com sugestões sobre o que fazer e enviem contribuições para que ela saia do buraco financeiro em que se meteu, enquanto dá sinais de que está interessada na vice-presidência, mas também sinaliza que não a aceitará e que não admitirá que o cargo seja oferecido a outra mulher. Essa é a heroína feminista que não é apoiada por NOW, nem por NARAL, nem por MoveOn.org, mas que algumas sul-americanas mal informadas insistem em coroar como a herdeira da luta das mulheres dos anos 60. Nós, eleitores americanos democratas, poderíamos estar festejando unidos agora. Mas estamos muito ocupados decidindo qual é a melhor estratégia para evitar que esse clã vingativo e ressentido nos destrua. A tática agora é aquela que tenho certeza ser conhecida do meu amigo Marco Weissheimer: chega de articulação. Queremos bater chapa.

Este eleitor americano já se juntou ao movimento que defende a extraordinária mulher Kathleen Sebelius, governadora de Kansas, para a vice-presidência na chapa do possível primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Estou otimista. Moderadamente otimista, como bom atleticano já calejado por tragédias. Mas acho que dá. As pesquisas de opinião decidirão se o Biscoito transmitirá de Missouri ou da Flórida no dia 04 de novembro. Louisiana é deles, apesar da lavada que lhes daremos em New Orleans.

Atualização: Vejam se faz sentido tomar Hillary como vice. Seus porta-vozes já iniciaram a pressão para que ela seja escolhida, mas seu chefe de campanha continua dizendo que ela venceu. Como lidar com esse povo?

Atualização II: Aí vai uma pequena amostra da revolta entre os democratas.

Atualização III. Do venerável Rude Pundit: chamar Hillary para VP é como convidar a raposa para tomar conta do galinheiro (ou qualquer outra tradução criativa que você encontre para family of lemurs inviting a boa constrictor over for dinner).



  Escrito por Idelber às 03:11 | link para este post | Comentários (75)



segunda-feira, 02 de junho 2008

Judiciário brasileiro inventa a punição a José pelos atos de João

Repercutiu bastante na internet a atitude do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, que intimou Fernando Gabeira e exigiu a retirada dos banners de apoio a ele em vários blogs brasileiros que apóiam a sua candidatura a prefeito. Pedro Dória cumpriu, claro, mas denunciou e logo depois ofereceu algumas reflexões sobre o que se entende por censura. Sem estar comprometido com nenhum candidato a prefeito do Rio, não posso deixar de oferecer a solidariedade ao amigo.

Quando da publicação da inacreditável resolução 22.718 (pdf) do TSE, que regulamenta a campanha eleitoral deste ano, eu cantei a parada e previ o desastre. Alguns advogados me contestaram, afirmando que era alarmismo desnecessário, já que a introdução diz claramente que a resolução dispõe sobre as condutas vedadas aos agentes públicos em campanha eleitoral. Não sendo o blogueiro candidato a nada, não haveria razão para se preocupar. Ouvi calado, não citei os casos que já conhecia e não quis polemizar pois, no fundo, torcia para que eles estivessem certos e eu errado. Mas ora, quantos exemplos ainda são necessários para que se entenda que, com o judiciário brasileiro, sempre há motivo para se preocupar?

O mais estapafúrdio da exigência é que ela contraria um dos princípios básicos do direito: o de que cada um é responsável pelos seus próprios atos. Os indíviduos blogueiros que exibem seus banners de apoio a um candidato tiveram que retirá-los para que esse candidato – que não pediu, nem pagou, nem organizou a manifestação – não fosse impugnado. É o mundo às avessas. É como se eu fosse interpelado judicialmente por ser parte do blogroll de algum blogueiro que cometeu um crime. A ironia não escapou à atenção de um leitor do Pedro: poderíamos começar a exibir banners de apoio a Garotinho e Maluf, impugnando assim suas candidaturas. Que tal?

A censura se apóia na proibição da campanha eleitoral antes do dia 06 de julho. Pode-se discutir se essa proibição é boa coisa. Eu, pessoalmente, acho uma bobagem, pois é sempre subjetivo determinar se um político, ao proferir tal discurso ou inaugurar tal obra, está ou não fazendo “campanha”. Em todo caso, a lei existe. Mas o que chega às raias do absurdo é interpretá-la de forma que abarque não só os candidatos, mas os próprios eleitores. Daí à mordaça é um passo. Nada é mais urgente no Brasil que introduzir nossos juízes ao básico do básico sobre o funcionamento da internet.

É verdade que o Pedro Dória, putíssimo e com razão, pode ter exagerado ao afirmar que a liberdade de expressão é um valor absoluto. Acredito estarem certos os profissionais do direito que lhe lembraram que, na jurisprudência, nenhum valor é absoluto – o direito é, por definição, um sistema, ou seja, um complexo onde o valor de cada elemento é balanceado em relação com os outros. Mas neste caso, não há dúvidas: a liberdade de expressão na internet foi seriamente atingida e o Pedro tem minha total solidariedade.

PS 1: Muita gente escreveu sobre o caso. Comece o percurso pelo Bereteando e pelo Outra política, que fizeram posts recheados de links.

PS 2: Alguém aí é capaz de imaginar uma entrevista como essa num jornal brasileiro?

PS 3: Às vezes, na internet, você lê coisas que tocam e emocionam. Obrigado, Katarina.



  Escrito por Idelber às 02:51 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 28 de maio 2008

Decisão sobre porte de drogas pode criar importante precedente jurídico

É promissora e polêmica a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que no último dia 31 de março absolveu Ronaldo Lopes, anteriormente preso por portar 7,7 gramas de cocaína. O tribunal entendeu que o porte de drogas para consumo próprio não é crime. Para fundamentar a decisão, o juiz José Henrique Rodrigues Torres argumentou que a proibição ao consumo de drogas é inconstitucional porque viola os princípios da ofensividade (não ofende a terceiros), da intimidade (trata-se de opção pessoal) e da igualdade (uma vez que portar bebida alcoólica não é crime). A íntegra da sentença está disponível online (pdf). A singela ironia é que se trata do mesmo tribunal que proibiu a marcha da maconha.

A condenação de Ronaldo havia se dado com base na famigerada lei 11.343, de 2006. Para o Juiz Torres, a lei é inconstitucional. Ronaldo alegou que a droga era para consumo próprio e, como a acusação de que ele traficava havia sido feita anonimamente, ela foi desconsiderada. Há outro dado que é, até onde sei, inédito. O Juiz Torres afirmou que a quantidade de droga que portava Ronaldo era irrelevante para caracterizá-lo como traficante.

É bem curioso ver a discussão que se armou entre os advogados no Consultor Jurídico. Não há como negar que ambos os lados do debate têm argumentos embasados na lei. Mas a decisão do Juiz Torres pode se transformar num precedente importante para aqueles que há tempos nos batemos por uma política de drogas que as entenda como caso de saúde pública e não de polícia.

Ronaldo Lopes ficou preso durante um ano.



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terça-feira, 13 de maio 2008

A 120 anos da Lei Áurea: a ação de inconstitucionalidade contra as cotas

Neste 13 de maio em que se celebram 120 da Lei Áurea, o Supremo Tribunal Federal está julgando duas ações diretas de inconstitucionalidade, uma contra a política de cotas nos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro e outra contra o programa ProUni. Estas ações são promovidas pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) e foram apoiadas por 113 figuras públicas, num texto que tem alguns méritos, mas que escolheu um título bastante infeliz: 113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais.

O título é infeliz porque se ancora naquele velho truque retórico: igualar o racismo real – a discriminação e a exclusão vividas cotidianamente por negros e mulatos ao longo de séculos no Brasil – com um remédio paliativo, que é o sistema de cotas que cria incentivos para a entrada de negros e mulatos às instituições de nível superior, como se “racista” fosse este último! Daí, é um passo para aqueles que se opõem a essas políticas se auto-intitularam os “anti-racistas”, implicitamente etiquetando de “racistas” aqueles que as defendem.

A posição do blog sobre as cotas raciais sempre foi a de que é possível que pessoas razoáveis e genuinamente preocupadas com a justiça social tenham posições divergentes sobre elas. Eu mesmo, de posição entusiasticamente favorável, tendo ouvido muitos argumentos, passei ser mais sensível à idéia de que talvez a legislação racializada possa ser substituída, com melhores efeitos, por políticas de cotas sociais (destinadas, por exemplo, a alunos de escolas públicas) e por investimento maciço em combate ao racismo e em incentivo educacional à população negra e mulata. Posso, por exemplo, discordar da atual política de cotas da UFRGS, que determina que 30% das vagas sejam reservadas para alunos das escolas públicas, sendo metade destas para negros. Mas parece-me inaceitável que se tente silenciar o debate sobre as cotas com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal.

Em outras palavras, é perfeitamente possível que você seja contra as cotas e, ainda assim, torça para que o STF siga o voto do relator Carlos Ayres Britto, que foi pela sua constitucionalidade. Isto significaria simplesmente que você não acredita que seja o momento da suprema corte do país sufocar iniciativas que permitiram a entrada de centenas de milhares de cidadãos brasileiros à universidade. Por isso, alegrei-me muito de encontrar o manifesto que defende a constitucionalidade das cotas (pdf), assinado também por um time respeitável. Trata-se de um extenso documento, com ampla fundamentação e sólida pesquisa. Recomendo, com muita ênfase, a leitura. Você pode acrescentar seu nome assinando aqui.

O Brasil conta hoje com 20 mil cotistas negros cursando a graduação em várias universidades do país. 20 mil. Não é muito, veja só. Ao contrário do que se apregoa, as pesquisas acerca do desempenho dos cotistas mostram resultados muito bons. O ProUni já alocou 440.000 bolsas e conta com 310.000 alunos. Considerando-se os beneficiados pelo ProUni, aí sim, as iniciativas de inclusão no ensino superior já estariam em vias de produzir um impacto real na sociedade brasileira.

Pode ser que em algum momento deste processo, a sociedade brasileira – ou a maioria de suas universidades – decida que as cotas racias não são o caminho a seguir. Mas impugná-las hoje, por decreto, via Supremo Tribunal Federal, seria lamentável.

* Meus agradecimentos ao Jayme Serva, pelo convite a escrever este post e pelo link que me levou ao manifesto em defesa da constitucionalidade das cotas.



  Escrito por Idelber às 04:12 | link para este post | Comentários (134)



sábado, 10 de maio 2008

Robert Fisk relata a guerra por procuração no Líbano

Outra humilhação americana. Os pistoleiros xiitas que passavam de carro em frente ao meu apartamento em Beirute ocidental ontem à tarde buzinavam, faziam o V da vitória e apareciam pelas janelas dos utilitários desportivos com seus rifles no ar, provando aos muçulmanos da capital que o governo eleito do Líbano perdeu.

E perdeu mesmo. O exército nacional ainda patrulha as ruas, mas só para impedir matanças ou massacres sectários. Longe de desmontar o sistema de tecomunicações secreto do Hizbollah pró-iraniano – ou de desarmar o próprio Hizbollah – o ministério de Fouad Siniora permanece no velho e turco Serail (palácio de governo), denunciando a violência com a mesma autoridade que o governo do Iraq na zona verde de Bagdá.

O exército libanês assiste o Hizbollah construir barricadas. E não faz nada. Como conflito Teerã versus Washington, o Irã venceu, pelo menos por enquanto. Walid Jumblatt, o deputado e líder druso e apoiador pró-americano do governo de Siniora, está isolado em sua casa em Beirute ocidental, mas não lhe foi feito nada. O mesmo se aplica a Saad Hariri, um dos mais proeminentes deputados e filho do primeiro-ministro assassinado Rafik Hariri. Ele continua em seu palácio de Beirute ocidental, em Koreitem, protegido pela polícia e por soldados, mas incapaz de se mover sem aprovação do Hizbollah. O simbolismo é tudo.

Mais que de um golpe de estado ou de uma guerra civil, Robert Fisk prefere falar da guerra por procuração (proxy war) entre Irã e EUA no Líbano. Fisk é, sem dúvida, o jornalista ocidental que mais profundamente conhece o Líbano, onde reside há décadas. Tem aquela particularidade: não é um “enviado especial” que escreve no hotel. Ele vai atrás do barraco. Ele estar vivo até hoje é um mistério e uma dádiva. As colunas de Fisk no Independent serão indispensáveis nos próximos dias.

PS: Há outras boas matérias disponíveis em português, de Tariq Saleh, para a Folha (link para assinantes) e de Robert F. Worth e Nada Bakri para o NYT.



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quinta-feira, 08 de maio 2008

A decadência de um clã: Balanço das primárias democratas

michelleobama2.jpg O declínio de um clã tende a ser mais melancólico que o de uma pessoa, já que ao indivíduo costuma estar dada a possibilidade de ir descendo com um pouco mais de dignidade. Os clãs, especialmente os da política, têm excessivas obrigações, digamos, teatrais. Quanto maiores e mais poderosos são, mais ampla será a discussão interna acerca de como admitir, com classe, que sofreram a derrota emblemática, a que indica, nas palavras do NYT, uma troca da guarda. É a história dos Clinton nos últimos poucos meses e, especialmente, nesta semana.

“Derrota” aqui é relativo, claro. Hillary continua senadora poderosa de NY e Bill uma referência ineludível de presidente de sucesso, apesar de tudo. Eles mantêm considerável poder de barganha e força no partido. Mas a história recente indica a derrota, mais que da candidatura Hillary, da estratégia que os Clinton canonizaram nos 90: a combinação entre a apropriação de bandeiras republicanas -- rigor fiscal, “transição do welfare para o trabalho” etc. --, as táticas violentas de corpo-a-corpo contra os adversários políticos e um componente populista com algumas bandeiras, defendidas com a consciência de que apelos simbólicos bem manipulados são suficientes para manter feliz uma parte cativa do eleitorado do Partido Democrata (leia-se aqui: negros).

Este último componente sustentou aquele escandaloso mito, o de Bill Clinton como o “primeiro presidente negro” dos EUA -- idéia que talvez seja a principal baixa, o mais ilustre cadáver da campanha destas primárias, em que Hillary concorreu contra Barack Obama como se ela fosse a candidata do Partido Republicano. Os Clinton não esperavam cair assim: no ano da “candidata inevitável” (slogan da campanha de Hillary até aproximadamente jan./08), surpreendidos por um garoto de 40 e poucos anos, senador júnior, ao mesmo tempo de origem humilde e de Harvard e, para piorar, mais brilhante retoricamente que Bill, pondo-o no chinelo na batalha discursiva da campanha. Para completar o baile, ainda por cima, o cara é preto. É surpresa demais para quem traz a história que trazem os Clinton.

Por isso há que se dar tempo para combinem entre si a forma mais elegante de ir admitindo a derrota (de qualquer forma, não interessa a Barack Obama ser coroado semi-oficialmente na semana que antecede a primária da Virgínia Ocidental). Esta derrota não seria difícil de assimilar para um grupo menos ambicioso que os Clinton: caramba, não é vergonha para ninguém perder por aproximadamente 52 x 48 no cômputo geral, mantendo um assento no senado por Nova York e a opção de ser líder da maioria ou qualquer outra coisa que quiser (não a Vice-Presidência na chapa Obama, que não é boa idéia para ninguém). Mas, para os Clinton, é uma dinastia que se desmorona.

Quando se diz aqui “os Clinton”, entenda-se não só Bill e Hillary, mas todo um grupo (cuja estratégia política fica em mãos de James Carville, Mark Penn etc.) que é diretamente responsável por uma campanha eleitoral que foi a maior acumulação de sandices das Américas desde que Parreira inventou o 6-0-4. Primeiro havia que se coroar Hillary antes de começar o jogo, pois era a candidata “inevitável”. Esta tática durou até as primárias de Iowa – estado branquelíssimo -- em que Barack levou, John Edwards ficou em segundo e Hillary em terceiro. Daí houve o breve momento pseudo-feminista da campanha, a rápida virada de Hillary em New Hampshire com o choro emocionado num diner e o tema do I found my voice. Quem conhecia sua trajetória com as bandeiras feministas --- assim como com as sociais, as raciais, as democráticas – sabia que a transcendência delas para Hillary sempre havia sido eminentemente eleitoral. Feministas atrás de feministas atrás de feministas já haviam aderido à campanha de Obama. Em todo caso, o momento morreu ali porque nas primárias seguintes Obama passou a vencer também entre as mulheres, na maioria dos estados.

Daí foi morro abaixo: dos ataques pessoais contra Obama inaugurados na Carolina do Sul aos argumentos usados para desqualificar os estados que votaram nele na Super-terça, definiu-se o que seria o perfil da campanha de Hillary. Era a chamada kitchen-sink strategy, que se poderia traduzir livre e futebolisticamente como abaixo do gogó tudo é canela ou se não sangrou nem fraturou, não é falta. A barragem de ataques foi coisa que não se via em décadas no Partido Democrata. Paralelamente, operava a tática da inevitabilidade: as vitórias do adversário haviam que ser desqualificadas. Não valem vitórias em estados que certamente votarão Republicano no outono (Utah, Idaho), não valem vitórias no Sul de concentração negra (Mississippi, Geórgia, Louisiana), não contam os estados que usam assembléias em vez de cédulas (Maine, Alaska, Kansas). Havia que se pensar no candidato que poderia derrotar McCain nos chamados swing states. Daí Obama passa a vencê-la em vários swing states (Virgínia, Colorado, Wisconsin, Missouri) e a estratégia da desqualificação assinada por Mark Penn e Carville em nome dos Clinton passa a precisar de malabarismos ainda mais mirabolantes. A última tentativa foi grudar em Obama o rótulo de inelegível porque ele continuava perdendo entre o eleitorado hillbilly dos Apalaches:

Appalachian_Region_of_US.jpg
(fonte do mapinha: Wikipedia; sobre o delírio que é apresentar Obama como inelegível porque "somente" consegue 40% dos votos num eleitorado pequeno, caipira e reacionário, que geralmente vota Republicano de qualquer forma, cobre-se-me outro post. Esta é a única cordilheira que conheço razoavelmente bem).

Enquanto Obama se consolidava como o “candidato da esperança e da mudança”, Clinton se credenciava como a candidatura que dizia duas coisas: 1) “essas mudanças não acontecerão tão facilmente como vocês imaginam”; 2) elections are a full-contact sport [eufemismo para vamos dar porrada mesmo] and if you can't take it, drop out of it. Quando eclode o escândalo fabricado com o pastor Jeremiah Wright e Obama tem seu primeiro momento de baque real, ao invés de abraçar a chance de fazer uma campanha coerente com a história do partido, Hillary embarca na tática do culpado por associação de estirpe republicana: e dá-lhe declarações de que eu teria saído daquela igreja, dá-lhe falsa indignação com ele ficou 20 anos naquela igreja, dá-lhe vídeos estilo política do medo, dá-lhe hesitação calculada em cadeia nacional ao responder a pergunta sobre ela saber ou ou não que Obama sempre foi cristão e nunca muçulmano.

O que é mais promissor nestas primárias é que Obama teve N chances de desenterrar esqueletos dos Clinton para uma campanha negativa e não o fez (e, acredite, como há esqueletos no armário! Comecemos onde? Em 1975?). Algumas dessas possibilidades de adoção da kitchen-sink strategy viraram até enquete no blog. Obama as recusou, como a maioria. Criticou, claro, Clinton em questões legislativas (seu voto pela guerra do Iraque, a demagógica proposta de suspender o imposto da gasolina por um verão e fingir que as petroleiras pagarão a conta), mas só quem falsifica a realidade em nome da preferência eleitoral ou da “ponderação” veria, nestas primárias americanas, as baixarias como responsabilidade das duas campanhas. Não. Foi a estratégia de um clã em declínio, recusada pelo outro lado.

Essa é a gigantesca tarefa do luto com a qual se defrontam hoje os Clinton: não só era um senador júnior; não só deu um baile retórico em Bill; não só chegou a Harvard tendo sido pobre; não só, heresia das heresias, era preto. Ainda por cima ganhou jogando limpo. É muita petulância. Ora, ora, desde 1992 se sabia – supúnhamos – que política não é um jogo que se ganha jogando limpo.

A reversão desta "lei" é o legado da vitória parcial de Obama e a imensidão do choque que os Clinton têm sobre o seu colo. Que caíssem num tiroteio contra a extrema-direita de Rush Limbaugh e Kenneth Starr era um final heróico para o qual estavam preparados. Que tenham caído agindo como Limbaugh, contando com o apoio de Limbaugh (que os preferia como adversários) e tentando manchar um jovem senador negro que veio como candidato da esperança foi, sem dúvida, uma amarga ironia que a História reservou para os Clinton. Por mais traições que tenham cometido, eles talvez não a mereciam. Mas é fato que ainda têm tempo de lidar com ela dispondo de alguma grandeza.



  Escrito por Idelber às 18:34 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 05 de maio 2008

Maio de 68 e jabás

Grosso modo, os 40 anos de Maio 68 produziram três reações:

1) “Maio 68 é responsável por todos os males que vivemos hoje: falta de autoridade, relativismo absoluto, crise dos valores”;

2) “Maio 68 é responsável por todas as conquistas das quais o presente pode se gabar: pluralismo, direitos das minorias, laicismo, anti-autoritarismo”;

3) “Maio 68 teve coisas geniais e coisas estúpidas”.

A pior, a mais medíocre, conformista, ignorante e reacionária é obviamente a terceira.


Acompanhei de perto a enxurrada de textos sobre maio de 68 em vários países. Adivinhem onde encontrei o texto mais brilhante. Alan Pauls, mestre como sempre. Leia o texto de Alan e depois confira, no caderno especial (link para assinantes) da Folha de São Paulo, a sucessão de exemplos do que ele chama de “reação medíocre e conformista” ao legado de Maio 68.

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Jabás vários:

Por iniciativa da extraordinária escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif, e com o apoio de sumidades literárias como Chinua Achebe, John Berger, Mahmoud Darwish, Seamus Heaney e Harold Pinter, inicia-se na quarta-feira, dia 07 de maio, o Festival Literário da Palestina, que levará à Cisjordânia um belo time de escritores. Do material de divulgação do evento: “reconhecendo as dificuldades que os palestinos enfrentam, sob ocupação militar, para viajar em seu próprio país, o festival viajará rumo a seu público, em Jerusalém, Ramallah, Jenin, Belém.” Mais detalhes do site do festival. Salam, Ahdaf.

Você se interessa por quadrinhos? Chegou o blog que vai abafar neste tema. Senhoras e senhores, HQ e Cultura, do meu amigo Afonso Andrade. Bem-vindo à blogosfera, Afonso.

Outro leitor histórico, Alexandre Nodari, também se rendeu à blogagem e inaugura um espaço que merece seu bookmark desde já. Boas vindas também ao Cultura e barbárie Consenso, só no paredão.

Nas minhas andanças por aí, achei mais um blog que me impressionou muito pela qualidade do texto. Bookmark também no Histórias do Brasil. O post sobre a Copa de 1974 é um primor.

Já é de conhecimento da comunidade blogueira musical, mas talvez algum leitor do Biscoito ainda não saiba: Mestre Tom Zé anda blogando a mil (acho que cheguei lá pela primeira vez via Animot).

Para se entender o México e a cultura mexicana, tão diferente da nossa, há um livro fundamental: La jaula de la melancolía. Acabei de inteirar-me de que o seu autor, o grande Roger Bartra, já está blogando há oito meses.

E aí vai uma idéia que seria interessante aproveitar no Brasil: Cuento mi libro, o primeiro vídeo blog de escritores latino-americanos (via Oliverio Coelho que, apesar do sobrenome, não é brasileiro, mas argentino).

Boa navegação.



  Escrito por Idelber às 19:22 | link para este post | Comentários (31)



domingo, 04 de maio 2008

Sobre a marcha da maconha

Conto com leitores e leitoras dispostos a escandalizar-se junto comigo ante o fato de que agentes da lei ainda confundam a apologia do uso de drogas com a apologia de uma mudança na legislação que criminaliza o uso das drogas?

Parece uma distinção relativamente fácil de se fazer, não?



  Escrito por Idelber às 18:20 | link para este post | Comentários (51)



sábado, 03 de maio 2008

Novidades promissoras no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos

roberto.jpgHá novidades no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos. Como sabem os leitores do blog, a biografia escrita por Paulo Cesar foi proibida em abril de 2007 depois de um acordo-arapuca em que o autor, representado pela editora e sem a presença de sua própria advogada, se viu sem condições de enfrentar o massacre jurídico. O acordo assinado previa o recolhimento dos livros e reservava a Roberto Carlos, inclusive, o direito de comprar quaisquer exemplares que ainda fossem encontrados nas livrarias e ser ressarcido pela editora.

Aí vai, em primeira mão, a última notícia: na vigésima vara cível do Rio de Janeiro, a juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros acaba de proferir uma sentença promissora. De mensagem pessoal enviada a mim por Paulo Cesar de Araújo (e publicada aqui, claro, com sua permissão), chegam notícias alvissareiras:

<< Sobre a reclamação do artista de que o livro faz uso indevido de sua imagem e expõe sua intimidade, a magistrada argumenta que "as pessoas célebres, em face do interesse que despertam na sociedade, sofrem restrição no seu direto à imagem. Admite-se que elas tacitamente consentem na propagação de sua imagem como uma conseqüência natural da própria notoriedade que desfrutam".

A magistrada reconhece que Roberto Carlos é portador de uma doença chamada TOC (transtorno, obsessivo, compulsivo) e, por isso, ela afirma na sentença que "o interesse processual não pode firmar-se na obsessão compulsiva de tudo controlar sobre si mesmo, com o alheamento do direito democrático constitucional de informação, sobrepujador do direito à proteção da imagem e da honra, se a pessoa é pública e a informação verdadeira". Na bibliografia citada no texto da juíza consta o livro "Mentes e manias: entendendo melhor o mundo das pessoas sistemáticas, obsessivas e compulsivas", de Ana Beatriz Barboza Silva (Editora Gente. 2004).

Sobre a reclamação do artista de que o autor do livro estaria obtendo indevidamente ganhos financeiros com a sua história, a magistrada diz que o uso não autorizado de imagem alheia também pode ocorrer "sempre que indispensável à afirmação de outro direito fundamental, especialmente o direito à informação - compreendendo a liberdade de expressão e o direito a ser informado". Por essa presunção de interesse público nas informações, diz ela, fica justificada a utilização da imagem alheia "mesmo na presença de finalidade comercial, que acompanha os meios de comunicação no regime capitalista".

Entretanto, apesar deste parecer contrário a Roberto Carlos e de condená-lo no pagamento das custas processuais e em honorários advocatícios, a juíza manteve a proibição do livro sob a justificativa de que houve aquele tal acordo entre as partes no foro criminal de São Paulo, ano passado. Diante disso, a minha advogada Dra. Deborah Sztajnberg entrou com o recurso "embargos declaratórios" dirigido à própria juíza Márcia Cristina. >>


O blog não pode senão celebrar as decisões da juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros detalhadas nos três primeiros parágrafos da mensagem e parabenizá-la por reconhecer o que sabemos todos que acompanhamos o caso: que se trata aqui de direito elementar de estudo, pesquisa e informação de fatos públicos da cultura brasileira. Este direito foi cerceado de uma forma embaraçosa para a democracia do país, com recolhimento de um livro -- coisa própria de ditaduras. Obrigado à juíza Márcia Cristina por ajudar a estabelecer mais um precedente favorável à liberdade de pesquisa e informação.

Dadas as condições precárias e desequilibradas que cercaram a audiência de "reconciliação" (o substantivo aqui é inadequado, daí as aspas) onde foi assinado o acordo, esperamos que a juíza Márcia Cristina possa rever com simpatia a ação de embargos declaratórios e proferir mais uma sentença que a consolide como magistrada que entende a gravidade do caso: a proibição e o recolhimento de um livro de pesquisa universalmente elogiado por quem o leu e censurado por imposição de um dos artistas mais poderosos do país em meio a um massacre jurídico. Marcada para um momento em que o autor tinha razões para crer que seria representado pela editora (e em que sua advogada pessoal se encontrava em compromisso inadiável em Brasília), a audiência onde foi assinado o acordo foi caracterizada por sérios indícios de parcialidade de quem a presidiu.

Como leigo -- mas interessado -- em direito, suponho que existam suficientes elementos para rever o caso a partir desta sentença, não?



  Escrito por Idelber às 17:06 | link para este post | Comentários (36)



segunda-feira, 28 de abril 2008

Ah, esses mineiros!

A Executiva Nacional do PT não tem um histórico muito bom quando decide interferir nas decisões das sessões locais do partido. A situação calamitosa do PT fluminense vem de longe, mas foi sacramentada em 1998, depois que a convenção escolheu a candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado. A mando de José Dirceu e cia., a cavalaria cossaca do PT paulista invadiu o Rio para impugnar a decisão e impor Benedita da Silva como vice numa chapa com .... Garotinho!, na mais burra coalizão já feita na história do partido. A lógica do golpe era garantir uma aliança nacional com um Leonel Brizola que, naquele momento, já tinha menos peso eleitoral que Enéas. Os petistas fluminenses sabiam quem era Garotinho e previram o desastre, mas a Avenida Paulista falou mais alto outra vez. Não digo que Vladimir ganharia a eleição, mas ele tinha chances. O fiasco com Garotinho só trouxe, para o PT fluminense, uma desmoralização da qual ele não se recuperou até hoje (à luz desse episódio, diga-se de passagem, fica claro o imenso cinismo de José Dirceu, comemorando a vitória das “bases” sobre os “caciques” na recente prévia em que Maria do Rosário derrotou Miguel Rossetto em Porto Alegre: os petistas do Rio conhecem o respeito que Dirceu tem pelas bases).

Agora, a história é ao revés. A sessão local quer fazer uma aliança e a Executiva Nacional impugnou. Já não é segredo para ninguém que o prefeito Fernando Pimentel (PT-BH), político com índices de aprovação superiores aos de Lula entre seus representados, anda de namoro com Aécio Neves (PSDB-MG), com vistas a uma aliança na qual o PSB (sim, os socialistas, não os tucanos) indicaria a cabeça-de-chapa para a prefeitura de Belo Horizonte e o próprio Pimentel sairia como candidato ao governo do estado, apoiado por Aécio. Qualquer um que saiba a diferença entre a Savassi e o Cachoeirinha entende que, com os apoios de Aécio e Pimentel, até José Roberto Wright se elege prefeito de Belo Horizonte. Pimentel foi eleito no primeiro turno com 69% dos votos e sua taxa de aprovação anda por volta dos 74%. A aliança PT-PCdoB-PSB governa Belo Horizonte há 16 anos.

A nota da Executiva que veta o acordo afirma que O DN e o Diretório Estadual de Minas Gerais consideram o governo Aécio Neves uma administração comprometida com políticas frontalmente distintas daquelas que compõem nosso ideário e o nosso programa de governo . Dez anos atrás, essa frase teria sido defensável. Hoje, depois das alianças do PT com José Sarney e Jáder Barbalho, ela soa cínica aos olhos de grande parte do eleitorado. Não discuto o mérito dessas alianças. Minha posição é que elas só poderão ser eliminadas depois de uma reforma política. O problema é concreto: o que vai pensar o eleitor petista em Minas, vendo o partido jogar pela janela a possibilidade de governar o segundo maior estado da federação? A pior parte da nota da Executiva é o ponto seguinte, que estabelece que o partido não autorizará, em nenhuma hipótese, o PT a participar de qualquer coligação da qual faça parte o PSDB naquela capital . Note-se que o virtual candidato a prefeito de BH não é do PSDB; é do PSB, partido historicamente aliado ao PT. Sabedora de que a aliança não prevê apoio a nenhum candidato do PSDB, a Executiva vai além e proíbe a participação em qualquer coligação na qual o PSDB esteja presente. Não custa lembrar que o carlismo foi enterrado na Bahia com não desprezível papel de uma série de alianças PT-PSDB. Em Minas, Aécio age de olho em sua candidatura a presidente? É óbvio que sim. Mas também está claro que Aécio, que dá nó em pingo d'água, sabe que essa aliança não lhe garante nada quanto à posição do PT – um partido complexo – em 2010.

Não defendo a coalizão mineira necessariamente, mas acho que o PT nacional não está lidando com o desafio da forma mais inteligente. O PT já poderia, por exemplo, ter deslocado o nome que está sobre a mesa, do Secretário Estadual do Desenvolvimento Econômico, Márcio Lacerda (PSB), sobre quem pairam dúvidas de ordem ética, em favor do outro nome que havia sido oferecido, a excelente ex-reitora da UFMG, Ana Lúcia Gazzolla (PSB), sobre cuja integridade e competência não paira nenhuma dúvida. Agora parece que já é tarde. Mesmo em Minas, há setores resistentes ao acordo, especialmente na esquerda do PT. O argumento é que se for para abrir mão da cabeça-de-chapa em BH, que seja em favor de uma velha aliada, a deputada federal do PC do B Jô Moraes (em quem votei, aliás). Ela é a atual líder das pesquisas em qualquer cenário que não inclua Patrus Ananias. Se o PT terminar indicando o vice de Jô Moraes ao invés de costurar o acordão com Aécio, isso pode repercutir nas eleições de São Paulo, emplacando Aldo Rebelo como vice de Marta Suplicy. Aliás, já está impossível acompanhar as duas corridas isoladamente. Reitero que não sou fã de Aécio Neves, mas o PT vai passar por um desgaste muito grande se dinamitar essa aliança sem tato e aparecer, daqui a dois anos, fazendo campanha para Ciro Gomes.



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sábado, 26 de abril 2008

Um vídeo imperdível

O governo de Michelle Bachelet, no Chile, enfrenta oposição cerrada à direita e à esquerda. Seu gabinete é uma coalizão da Democracia Cristã, do PPD (Partido para a Democracia, centro) e do seu próprio Partido Socialista, este último em posição minoritária. As taxas de popularidade da presidente chegaram a um nível baixíssimo com a implementação da Transantiago, o novo sistema de transporte coletivo da capital, recebido com muitos protestos. A violenta repressão ao movimento secundarista, em 2007, não ajudou muito as coisas. No mês passado, o movimento em favor dos direitos reprodutivos sofreu uma derrota no Chile: a Suprema Corte, por 5 votos a 4, proibiu o sistema público de saúde de distribuir a pílula do dia seguinte. Sublinhe-se que a presidente Bachelet lamentou a decisão.

Recentemente, as taxas de aprovação de Bachelet voltaram a subir, mas a oposição de esquerda continua protestando vigorosamente contra a utilização das leis anti-terrorismo de Pinochet contra líderes mapuches. No começo deste ano, a líder mapuche Patricia Troncoso concluiu uma greve de fome de 109 dias, arrancando do governo algumas concessões. Recentemente, lideranças mapuche entregaram ao Conselho de Direitos Humanos da ONU um relato da repressão contínua que vêm sofrendo os protestos. Quase um milhão de pessoas se declaram de origem mapuche; os falantes nativos da língua, no Chile, são aproximadamente 200 mil.

Chega-me agora este belo vídeo do grupo Sub(verso), que trabalha alguns desses temas. Confira o rap:


PS: Leia: O obstinado mal alheio.



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quinta-feira, 24 de abril 2008

Ocupação colonial, feminismo e vida nua

Do loooongo trabalho que vou apresentar hoje à tarde aqui no Simpósio de Direitos Humanos na Universidade de Minnesota, escolhi três parágrafos polêmicos para traduzir e publicar aqui no blog. Aí vão, dedicados à Mary W, para quando ela tiver tempo de passar por aqui:


Um outro exemplo de como se negociam as fronteiras no discurso dos direitos humanos se encontra num artigo publicado por Piya Chatterjee e Sunaima Maira, intitulado An Open Letter to All Feminists: Support Palestinian, Arab, and Muslim Women. O artigo levanta uma questão interessante, ao assinalar que as feministas norte-americanas têm apoiado fortemente as lutas contra os assassinatos “de honra”, a mutilação genital e os casamentos forçados no mundo árabe, mas não dizem praticamente nada sobre a violência sofrida pelas mulheres árabes como resultado das ocupações ocidentais. Nas palavras de Chatterjee e Maira: “incomoda-nos o fato de que as feministas norte-americanas ... estejam participando num discurso seletivo de direitos humanos que ignora os crimes de guerra e os abusos de direitos humanos dos Estados Unidos.” Segundo as duas autoras, uma série de afirmações de feministas norte-americanas acerca das mulheres árabes ou muçulmanas têm sistematicamente se focalizado nelas somente como vítimas de sua própria cultura, e não como vítimas da violência colonial ou imperial perpetrada pelas ocupações. Note-se que Chatterjee e Maira em nenhum momento sugerem que as feministas parem de denunciar, por exemplo, a mutilação genital ou os casamentos forçados. Não se trata disso.

Não estamos aqui diante do velho debate do universalismo contra o particularismo, da defesa dos direitos humanos versus a defesa das tradições culturais locais. Na realidade, mais atenção, por parte das feministas norte-americanas, ao trabalho realizado por mulheres do Terceiro Mundo sobre essas questões já as teria levado à conclusão de que a própria oposição entre universalismo e tradições locais – ambos os termos, ou seja, a totalidade da dicotomia – só se mantém na medida em que nos situamos no ponto de vista do sujeito imperial do Primeiro Mundo: “é assustador que nestes tempos catastróficos, muitas feministas liberais dos Estados Unidos só enfoquem as práticas misóginas associadas com as culturais particulares locais, como se estas existissem em cápsulas, longe da arena da ocupação imperial”. Ao usar a expressão “discurso seletivo dos direitos humanos universais”, as autoras levantam um aparente paradoxo, na medida em que a universalidade supostamente eliminaria a seletividade. O universal, pensaríamos, não é seletivo.

Na verdade, por trás desse paradoxo se encontra o processo de constituição de todo universal. Qualquer categoria universal se fundamenta sobre uma abjeção, um elemento expelido que demarca suas fronteiras, uma exclusão que chamaremos aqui de lá fora constitutivo. Para o sujeito dos direitos humanos no nosso tempo, uma dessas abjeções constitutivas se emblematiza na categoria de combatentes fora-da-lei (unlawful combatants), termo com o qual a administração Bush exclui os detentos de Guantánamo não só das Convenções de Genebra, aplicadas a prisioneiros de guerra, como também da Convenção sobre a Tortura, aplicada a todos os seres humanos. A categoria de combatente fora-da-lei constrói, portanto, não só um sujeito extra-jurídico, mas também um lá fora da humanidade mesma.



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terça-feira, 22 de abril 2008

Dois links e um esclarecimento

O jornalista Luis Nassif publicou outro capítulo do dossiê Veja, com referência a fatos que foram debatidos à exaustão aqui no blog nos últimos dias. À luz de tudo o que foi dito, gostaria de tecer algumas considerações sobre o meu post anterior.

1. O post fazia uma crítica violenta a Luis Nassif pela sua resposta a um questionamento de Gravataí Merengue. A resposta envolvia a vereadora Soninha, gesto pelo qual Nassif já se desculpou. O post cumpriu a função de chamar a atenção a essa injustiça.

2. O post também insistia na presunção da inocência de uma jornalista que estava sendo acusada sem que se tivessem suficientes elementos sobre a mesa. Neste aspecto, o post também cumpriu, acho, um papel positivo, ao insistir em que ninguém se precipitasse a julgar. Apesar de um ou outro excesso de parte a parte, o debate que se produziu foi extremamente positivo e se ateve aos fatos. O leitor que visitar as duas caixas de comentários dedicadas ao assunto terá amplos elementos para julgar por si próprio.

3. No entanto, ao criticar a precipitação, eu cometi, eu mesmo, no post original, duas ou três precipitações. Me referi ao post do Gravata como “absolutamente irrefutável.” Ora, irrefutável, nesta vida, pouquíssimas coisas são. Esse post do Gravata não é uma delas, apesar de que cumpriu um papel positivo. Mais adiante, eu afirmava que Nassif havia dado “um tiro na credibilidade do dossiê Veja”. Essa metáfora era inapropriada. O correto haveria sido insistir no fundamental naquele momento: a falta de elementos suficientes para se julgar uma acusação. Não me limitei a isso e redigi duas ou três frases que davam a entender que eu já havia resolvido, na minha cabeça, a questão, dando razão a um dos lados. Por essa precipitação eu peço desculpas ao conterrâneo Luis Nassif.

4. Que fique claro o que significam e o que não significam estas desculpas: significam que eu reconheço que me excedi nas críticas a Nassif, ao redigir um post que já praticamente atribuía a razão total a um dos lados. As desculpas não significam que eu tenha me decidido pela culpabilidade de quem quer que seja. O novo capítulo do dossiê Veja está aqui e a contra-argumentação poderá ser acompanhada no blog da Janaína Leite, visita que o Biscoito recomenda para que o leitor possa cotejar todas as versões dos fatos.

5. A decisão editorial da casa, para este post, é manter a caixa de comentários fechada. Acredito que devo uma satisfação aos leitores por ela: não me sinto confortável transformando uma caixa de comentários do meu blog em imenso tribunal armado ao redor de uma fogueira de Torquemada, ante a qual se debate a integridade de uma colega blogueira (seja ela de que posição política for). Os foros apropriados para este debate são o blog do Nassif e o blog da própria Janaína, ambos dotados de moderação de comentários, sagrado direito blogueiro que o Biscoito prefere não exercer.

6. Ficam aqui, pois, o esclarecimento e os links a todos os textos relevantes deste debate.



  Escrito por Idelber às 13:51 | link para este post



segunda-feira, 21 de abril 2008

Pautas possíveis para a imprensa esportiva independente

O excelente Impedimento fez uma reunião de pauta um dia desses. Comecei a redigir um comentário e ficou extenso demais, razão pela que acabei transformando-o em post. Como apreciador de futebol, vejo uma infinidade de temas para cuja investigação a imprensa esportiva tem sido extremamente tímida. Nessa carência podem entrar os bons blogs de futebol, como o Impedimento, o Balípodo, o Futepoca, o De Primeira, o Além do Jogo e outros poucos blogueiros equipados para fazê-lo, como o Marmota e, na grande imprensa, o indispensável Juca.

1.As contas da CBF são uma caixa preta, escondida sob a brecha legal que estabelece que se trata de uma organização privada. Trata-se de uma falácia lógica, mas juridicamente sustentada hoje no Brasil. A CBF administra um bem essencialmente público, um patrimônio que pertence ao país; ela opera como dona de marcas que são de todos, como a da Seleção Brasileira. Recentemente, revelou-se que a Seleção Francesa recebia da Nike um valor 5 vezes maior que o do Brasil. Para onde vai o dinheiro é pergunta de resposta nebulosa, que a imprensa não investiga.

2.Inúmeras suspeitas já foram levantadas sobre o funcionamento do Conselho de Arbitragem e a escalação de juízes. A imprensa não seguiu nenhuma dessas pistas.

3.Incontáveis indícios de relações incestuosas entre os chefes de organizadas e os cartolas – coisa que vai além da já conhecida distribuição de ingressos, subsídios e viagens – permanecem sem investigação na imprensa.

4.Há um par de semanas, a Placar noticiou um inquérito da Polícia Federal sobre os irmãos Perrella, do Cruzeiro, acusados de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal. Uma ou outra nota apareceu na televisão, mas na imprensa escrita mineira, pelo que vejo, há um silêncio absoluto. Como é possível que haja repórteres vivendo o dia-a-dia de um clube sem saber de algo que é comentado à boca pequena até no Café Nice da Afonso Pena?

5.Também há uns 15 dias, o Ipatiga teria efetuado uma tentativa de suborno sobre o Villa Nova, de acordo com o testemunho de um jogador, o goleiro Glaysson (que denunciou o caso à diretoria e fez um partidaço, sendo chave na vitória de 3 x 2) e o atacante Ricardinho, que não jogou e curiosamente foi parar no Ipatinga na seqüência, depois de expulso do Villa Nova em condições estranhas. A Gazeta deu notinha, depois mais nada. Tem imprensa atrás desse fato? Se tiver, será uma surpresa para mim.

6.Que fique claro: também adoraria que se investigassem as contas do Galo, especialmente das diretorias pós-Elias Kalil. Naquela época, o Galo tinha um dos patrimônios mais sólidos do país, junto com o São Paulo e os dois do Sul, além de possuir um naco enorme da Seleção Brasileira – jogadores vendidos por valores que, puxa, eu adoraria ver como entraram ao clube em sua totalidade. Depois, sobre grandes vendas como a de Gérson (centroavante, ex-Inter), há muitas perguntas. Tem investigação jornalística atrás disso? No creo.

7.Há gente bem informada com motivos para suspeitar que pelo menos parte da matéria da Veja com o árbitro Edilson Pereira de Carvalho também pode ter atendido interesses – evidentemente, a matéria baseia sua verossimilhança no fato de que o próprio culpado se confessa. Que Edilson se envolveu em corrupção de um jeito ou outro, é fato. Não afirmo com certeza quem foi o corruptor. Algumas das arbitragens dos jogos anulados pareceram – no contexto escabroso da arbitragem brasileira – bastante razoáveis. A anulação foi chave para que Corinthians ultrapassasse o Internacional em 2005 e a nova tabela – com o hipotético “como ela ficaria com a anulação dos jogos apitados por E.P.C.” -- já acompanhava a primeira matéria da Veja sobre o escândalo. Será que está no radar do Nassif? Será que não valeria a pena entrar no radar do jornalismo esportivo independente?

8.O glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama merece um microscópio especial, posto que hors-concours em termos de falcatruas no topo. Mas aí, claro, já é tarefa para quem não tem muito amor à vida.

Outros fãs de futebol com certeza seriam capazes de lembrar de ocasiões e histórias nebulosas que deveriam ser investigadas. É pesquisa difícil e, em alguns casos, barra-pesada. Mas, se os blogs em algum momento preenchessem essa demanda da qual 95% da imprensa não parece dar conta, seria um grande salto.



  Escrito por Idelber às 05:18 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 18 de abril 2008

Direitos humanos

Artigo 5°
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

A oito meses de seu sexagésimo aniversário, a Declaração Universal dos Direitos Humanos continua a ser diariamente pisoteada ao redor do mundo, hoje talvez mais que nunca. Poucos documentos combinam de tal forma o prestígio e a irrelevância; poucos são tão universalmente reconhecidos e aceitos ao mesmo tempo que universalmente desrespeitados. A Carta completa 50 60 anos justo quando se revela que, na outrora exemplar democracia americana, não só a tortura é legalizada como a cúpula governamental se reúne para decidir quais técnicas serão usadas em quais prisioneiros. É fartamente sabido pelos historiadores que os Estados Unidos têm uma longa história de promoção da tortura ao redor do mundo, mas a situação que vivemos hoje é de gravidade inédita.

Talvez a universidade americana que mais consistentemente tenha trabalhado com o tema seja a Universidade de Minnesota, onde se encontra, inclusive, um programa de estudos, um centro dedicado exclusivamente ao assunto e uma vasta biblioteca digital em cinco línguas. Para marcar o aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, a Universidade de Minnesota reúne, nos dias 23 e 24, nove acadêmicos que apresentarão palestras longas, de um hora, sobre o tema. Por engano ou distração, convidaram este atleticano blogueiro – que anda meio em pânico de falar diante de um público de feras especialistas, que inclui até mesmo ex-comissários das Nações Unidas.

Meu trabalho está em preparação (portanto, se eu desaparecer do blog, vocês já sabem o que é). A idéia é falar um pouco do que foi e é excluído do espaço delimitado pelo “humano” na expressão “direitos humanos”. Será, enfim, um trabalho sobre o lá fora dos direitos humanos, assim como suas fronteiras, ao longo da história. A lista é longa e abarca desde as mulheres que, em várias sociedades, enfrentam incontáveis obstáculos a exercitar o controle sobre seus próprios corpos até os sujeitos recolhidos em Guantánamo, figuras não-jurídicas, fora de toda lei, desprovidos da mais básica humanidade; desde os palestinos, subtraídos do artigo décimo quinto da declaração (e por extensão de todos os outros) até gays e lésbicas, formalmente reconhecidos como iguais pela lei, mas freqüentemente impedidos de exercitar o direito de andar de mãos dadas sem serem espancados.

O pensador italiano Giorgio Agamben cunhou a expressão vida nua para designar esse mais além (ou mais aquém) do humano – esse sujeito que se constitui num espaço limítrofe, desprovido de direitos, reduzido a uma existência nua. A obra de Agamben tem sido iluminadora para pensar o problema das fronteiras e do lá fora dos direitos humanos.

O objetivo deste post é abrir o espaço para que meus generosos leitores contribuam com o que quiserem. O que quiserem, mesmo. Se você é advogado e se interessa pelo tema, deixe aí o depoimento. Se tem atuação política e já refletiu sobre a situação dos direitos humanos, no Brasil ou em qualquer lugar, escutarei seu pitaco com atenção. Se já parou para pensar sobre os direitos específicos às mulheres, aos gays e lésbicas, aos imigrantes, aos negros, aos indígenas, às crianças, aos presos ou a qualquer outro grupo social, deixe aí seu comentário. Se trabalha com artes ou literatura e já parou para pensar na representação deste mais cabeludo dos temas, escreva aí. Bons links são muito bem-vindos.

Open thread dos direitos humanos, para ajudar o blogueiro a não passar vergonha no meio dos gente grande lá em Minnesota semana que vem.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (40)



quinta-feira, 17 de abril 2008

Elogio a um gesto nobre

O jornalista Luis Nassif publicou um post retratando-se com a vereadora Soninha, pelo fato de tê-la atacado depois das críticas feitas pelo Gravataí Merengue, seu ex-chefe de gabinete, a um capítulo do dossiê Veja. Este blog, que criticou Nassif durissimamente por essa confusão, não poderia deixar de linkar o post e louvar sua atitude. É próprio dos grandes reconhecer quando erram. O post de Nassif não só usa as palavras minhas desculpas como oferece o link para o texto em que Soninha lhe responde. As desculpas foram aceitas por Soninha e este aspecto do episódio está encerrado.

Sobre o conteúdo da discussão, o que posso dizer é que estou em contato com Nassif por email, li com muita atenção os 124 comentários postados até agora e reservo julgamento por enquanto. Em breve, será publicado um novo capítulo do dossiê Veja. Para finalizar, fica o agradecimento ao inacreditável time de comentaristas que exerce um controle de qualidade permanente sobre este blog. Obrigado.



  Escrito por Idelber às 08:47 | link para este post | Comentários (145)



terça-feira, 15 de abril 2008

Nassif dá tiro no pé: o assassinato de reputação contra Janaína Leite e o gol de placa de Gravataí Merengue

Antes das minhas posições políticas e do meu desgosto com certos veículos de comunicação, está minha coerência e meu compromisso com a verdade. Mesmo exausto depois de uma palestra e várias reuniões aqui no Novo México, com dor de cabeça e o corpo seco por causa da altitude, não posso deixar de escrever agora sobre o que aconteceu nas últimas 24 horas.

O jornalista Luis Nassif pisou na bola, feio. Acaba de dar um tiro na credibilidade do seu dossiê Veja. Vamos aos fatos. Como sabe o leitor desta bodega, eu emprestei minha solidariedade à série de reportagens feita por Nassif sobre a Veja. Nela, se elencavam uma série de fatos de difícil refutação, que mostram como a publicação da Abril enveredou por algo que já não pode ser chamado de jornalismo. Se você prestar atenção, verá que, ao listar os argumentos, eu me abstive de qualquer referência ao caso Daniel Dantas / Telecom, por dois singelos motivos: 1) sobre este imbróglio eu não sei nada e, para dizer a verdade, nem quero saber; 2) nota-se visivelmente que Nassif tem um envolvimento de intensidade bem maior com este assunto que com os demais. Tudo bem. Nada disso tira a credibilidade dos outros fatos levantados pelo dossiê. Aos leitores que me interpelavam dizendo que Nassif tem interesses, eu respondia – e continuo respondendo – que o que importa é a veracidade dos fatos que ele levanta.

Mas no caso Daniel Dantas, eu estranhei, já na primeira leitura, uma série de ilações – sim, ilações – feitas contra a jornalista Janaína Leite, que cobriu o assunto para a Folha de São Paulo. Visitei o seu blog e tive as impressões de 1) uma jornalista íntegra, séria; 2) um texto extremamente qualificado; 3) uma pessoa de posições políticas radicalmente diferentes das minhas. O assunto ficou, para mim, na lista dos que mereciam ser revisitados. Eis que chega Gravataí Merengue e faz o que todo bom pesquisador, jornalista ou não, deve fazer: ouvir todos os lados, checar fontes, reunir documentação, cotejar versões. E faz um post absolutamente irrefutável demonstrando o total vazio das ilações de Nassif contra Janaína. Sem qualquer prova ou indício, Nassif inventa um “caso Janaína Leite”. Insinua que a jornalista faz parte de um grupo de Dantas e tenta incriminá-la com o fato absolutamente banal de que uma fonte tenha declarado, sob pressão judicial, ser efetivamente fonte da jornalista, tudo isso sem contestar qualquer dado factual da reportagem de Janaína na Folha. Está tudo pacientemente demonstrado lá no Gravata, não vou repetir. Não é preciso saber muito sobre esse angu de caroço das telecom para observar um típico assassinato de reputação, para usar a própria expressão de Nassif. O texto de Gravata atém-se rigorosamente ao tema em questão. Coteja os argumentos de Nassif com a base inexistente sobre a qual ele se “sustenta”. Defende a jornalista difamada. Oferece ao acusador, em outras palavras, uma ótima oportunidade para que ele se explique.

O que faz Nassif? Escreve um ridículo post intitulado Soninha vai à guerra, no qual não refuta um só argumento de Gravata sobre o caso; não dá o link; não o cita pelo nome, preferindo a alcunha “assessor de Soninha”; acusa-o de usar “apelidos desqualificadores”, o que Gravata não faz em momento nenhum; insinua que o Imprensa Marrom havia sido “cooptado” sabe-se lá por quem; lança um ataque contra Soninha, que não tem absolutamente nada a ver com o caso. Em outras palavras, foge do assunto e delira mais que um fã de Grateful Dead mergulhado em cogumelos californianos. Baseado em conspirações realmente existentes, Nassif parece ter concluído que tudo no mundo é conspiração.

Caro Nassif, talvez você não saiba, mas o Imprensa Marrom é uma instituição da blogosfera brasileira. É um blog mais antigo que o seu. Antecede o trabalho de Gravata com Soninha. Foi o primeiro blog brasileiro condenado judicialmente por um comentário, por um crime de opinião. A resposta que você ofereceu à paciente e detalhada desmontagem crítica de Gravata das suas ilações contra Janaína Leite é das coisas mais repugnantes e vergonhosas já escritas na blogosfera brasileira. Aprenda de uma vez por todas que nós, blogueiros, quando criticamos, damos o link, coisa que Gravata faz e você não faz. Que fique claro de onde está vindo esta nota de solidariedade: se eu fosse paulistano, votaria em Marta Suplicy, não em Soninha.

Convoco especialmente aos meus amigos blogueiros de esquerda a que emprestem seu apoio irrestrito à Janaína Leite e ao Imprensa Marrom neste episódio – pelo menos até que Nassif apresente alguma prova contra ela, o que, pelo jeito, ele não está em condições de fazer. Se quiser, escreva, na seqüência, um post detonando as opiniões de Janaína sobre o governo Lula ou o MST. Mas nestas questões de integridade e honestidade profissionais, não é possível transigir. O Biscoito Fino e a Massa não transige. É a credibilidade e a coerência que estão em jogo.

PS: Retrate-se, Nassif. É melhor que fazer outro post dizendo que Tulane University “foi cooptada”. Tente redirecionar esse dossiê para o caminho do jornalismo. Há muita coisa valiosa lá.

PS 2: Comentários abertos, como de costume. Você pode atacar ou defender o que qualquer um escreveu. Não pode atacar a integridade de ninguém. Confio no seu discernimento.



  Escrito por Idelber às 05:25 | link para este post | Comentários (146)



segunda-feira, 14 de abril 2008

Adeus a uma revista fundamental

punto-de-vista2.jpg Deu adeus na semana passada uma das revistas culturais e políticas mais importantes da América Latina. No Brasil, para variar, nem notícia. Depois de 30 anos, 90 números e um papel central em todos os principais debates intelectuais da Argentina, Punto de Vista pendurou as chuteiras. Para mim, pessoalmente, o adeus tem um gostinho de tristeza e melancolia. Se eu tivesse que fazer uma relação das revistas mais formativas da minha vida, Punto de Vista estaria em primeiro lugar. Se eu fosse listar as 10 pessoas que mais admiro no planeta, a diretora da publicação, Beatriz Sarlo, certamente estaria entre elas.

Punto de Vista foi fundada por Beatriz junto com Ricardo Piglia, Carlos Altamirano e Elías Semán em 1978, no auge do horror da ditadura argentina. Depois se somariam intelectuais do porte de Hilda Sábato, Maria Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti. Em condições de total pesadelo político – no qual uma intelectual com passagem pelo maoísmo, como Beatriz, certamente corria perigo permanente –, Punto de Vista foi se constituindo em um dos poucos espaços onde era possível fazer crítica literária, cultural e política com alguma independência. A revista foi responsável pela introdução de nomes como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina. Nela se publicaram as primeiras leituras sérias da rica literatura contemporânea do país. Ali se chamou a atenção pela primeira vez, por exemplo, para a obra de Juan José Saer, que vinha sendo escrita desde os anos 60 e lida somente por um pequeno grupo de iniciados. Com a chegada da democracia, a revista teve que aprender a fazer tudo de novo, nas palavras de Beatriz. Reciclou-se brilhantemente. Ali se publicaram algumas das melhores reflexões sobre as Mães da Praça de Maio, os julgamentos dos militares, o novo cinema do país, os monumentos aos desaparecidos.

Desde a ditadura, Beatriz tem as portas abertas das melhores universidades americanas e inglesas, à sua disposição. Optou por ficar na Argentina. Jamais alardeou essa escolha. Nunca se encerrou na torre de marfim da academia. Em cada um dos momentos chave da história do seu país, posicionou-se clara, inequivocamente. Fez auto-críticas, revisou posições. Não tem absolutamente nenhum medo de errar. Sofre ataques horrendos, mas debate sempre com lealdade, atirando nas idéias, nunca nas pessoas. É impossível concordar com ela todo o tempo. Sobre a conjuntura argentina atual, por exemplo, minha visão está mais próxima à de Martín Kohan que à sua. Mas não consigo pensar num intelectual contemporâneo pelo qual eu tenha mais respeito.

Na despedida, Beatriz declarou: Cuando se dirige una revista el alerta es constante frente al acostumbramiento (que es mortal) o la incapacidad para conocer su actualidad (una revista vive en tiempo presente). Sólo cuando es un instrumento imprescindible para quienes la hacen, sale bien .... Algo ha comenzado a fallar y es mejor reconocerlo ahora, cuando no se ven consecuencias, que en un capítulo decadente. Una revista que ha estado viva treinta años no merece sobrevivirse como condescendiente homenaje a su propia inercia. Por eso el número 90 es el último.

Em 2003, publicou-se um CD-ROM com os primeiros 75 números da revista. Apesar de que Punto de Vista jamais quis ser uma publicação massiva, o CD-ROM esgotou três edições. Há uma quarta edição ainda à venda. No mesmo ano de 2003, eu tive a honra de publicar um artigo lá. Se você nunca leu a revista, dê uma conferida no índice de alguns números e no resumo de alguns artigos. Acredite, leitor: se você quiser dar um presente à sua inteligência – seja qual for a sua área de interesse –, invista 30 dólares nessa coleção. É coisa para a vida inteira.

No meu panteão pessoal, o adeus de Punto de Vista só se compara ao fim do Velvet Underground e à morte de Telê Santana. Nada mais chega perto.

PS: Homenagens também lá no Linkillo e no Tomás Hotel.

PS 2: É possível que Jimmy Carter e Al Gore dêem o empurraõzinho que falta para terminar a primária democrata.



  Escrito por Idelber às 06:03 | link para este post | Comentários (13)



quarta-feira, 09 de abril 2008

Viva o povo brasileiro: Uma releitura decepcionante

Eu sabia que Viva o Povo Brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, seria uma boa escolha para o curso que estou ditando aqui este semestre, sobre ficção e populismo. Apesar de minha leitura ser antiga, eu me lembrava que era um romance perfeito para se analisar a operação do populismo na ficção – a construção da imagem de um “povo” essencialmente sem fraturas, exceto por aquelas que o opõem a uma elite também imaginada de forma binária. Mas eu confesso que não me lembrava que o romance era tão ruim.

Aconteceu algo que raramente ocorre nos seminários por aqui. Todos os 10 pós-graduandos chegaram à primeira aula sobre o romance babando sangue e não gastaram mais que um par de horas para depenar o livro. Apesar de, em geral, tentar evitar juízos de valor taxativos em sala de aula, fui obrigado a concordar com eles. A fúria com que desconstruíam o livro era contagiante.

O projeto de João Ubaldo é ambicioso: atravessar quatro séculos de trajetória do Brasil contando o “avesso” da história oficial. O romance revela como os heróis se constroem pelo engodo (Perilo Ambrósio, um dos personagens da elite, tira onda de herói de uma batalha assassinando um escravo e sujando-se com seu sangue), como a mestiçagem foi, com freqüência, o produto da violência sexual contra as negras (Vevé, escrava, é estuprada por Perilo e paga um preço alto por uma gravidez que não provocou), como a igreja foi cúmplice desse sistema de dominação (o Cônego é um poço de racionalizações da estrutura colonial e escravista), como os oprimidos (representados por Budião e Maria da Fé) vão forjando os seus instrumentos de luta e como os mestiços em busca de ascensão social (representados por Amleto) vão ocultando suas origens e adotando as práticas da elite.

Este blogueiro eminentemente esquerdista não teria nenhum problema com o argumento, exceto por um detalhe: é tudo artificial demais. Todos os ricos malvados, todos os pobres altivos e batalhadores. Para não dizer que só há isso, o romance inclui o mulato malandro, Leléu, que faz o meio-de-campo entre as duas forças. Depois de 500 páginas de didatismo populista, o romance ainda nos brinda com um cego (só podia ser!) perorando durante uma dezena de páginas sobre como a história oficial oculta as coisas. É de lascar. Sublinhe-se: não há qualquer ironia no título do livro.

Gosto de João Ubaldo; do seu jeitão, da sua simpatia. É amigo de um querido amigo meu e, além de tudo, baiano. Considero Sargento Getúlio um romance importante da nossa literatura e, apesar de achar A Casa dos Budas Ditosos um dos piores livros já escritos no Brasil, cheguei, depois de mais de vinte anos, a essa releitura de Viva o Povo com muita boa vontade. O projeto do curso é fazer uma análise crítica do populismo na ficção, mas os outros livros lidos até agora (Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, Catatau, de Paulo Leminski) renderam bastante. Nem toda a boa vontade do mundo deu jeito em Viva o Povo.

PS 1:
Agradeço ao leitor Enio Vieira a cessão de sua tese sobre Viva o Povo, defendida na UNB. Sem dúvida, a tese do Enio é muito melhor que o livro.

PS 2:
Boas vindas ao Pedro Dória, que estará aqui em Gringolândia em breve, com uma bolsa na chiquérrima Stanford University.

PS 3: E essa história do boicote aos Jogos Olímpicos, hein, como anda?



  Escrito por Idelber às 02:47 | link para este post | Comentários (30)



quinta-feira, 03 de abril 2008

A tediosa sucessão de factóides

Às vezes, sinceramente, sinto um pouco de compaixão da oposição tucano-pefelê. Idolatram tanto o capitalismo laissez faire, mas não aprenderam nada com o Tio Sam sobre como construir uma direita verdadeiramente golpista, fria e implacável. Parecem a zaga do Íbis batendo cabeças em cobranças de escanteio. Será que a única coisa que a oposição consegue contra o governo Lula é martelar a possibilidade de que alguém do Planalto tenha elaborado um anódino dossiê de 13 páginas sobre os gastos de FHC? E requentar durante mais de uma semana o escarcéu artificial criado sobre o tema? Será que eles têm alguma esperança de, com isso, produzir algum arranhão na presidência mais popular de todos os tempos? Por que não falam de projetos políticos? Por que não debatem, por exemplo, o projeto de taxação de milionários apresentado pelo deputado Maurício Rands (PT-PE) com argumentos um pouco melhores que os de Dornelles? Por que se recusam a entender que essa história de dossiê não cola mais? Será que têm alguma ilusão de que vão ganhar votos com isso? Será que não perceberam que alguma transformação ocorreu no Brasil nos últimos anos e que a democracia tupinambá se encontra em outra fase, mais madura? Por que a Folha de São Paulo embarcou nessa?

Aí vão alguns links sobre esse patético caso:

Leitor de Josias de Souza pega blogueiro na atribuição falsa de citação a Dilma Rousseff.

Senador tucano admite que dossiê passou por suas mãos.

Noblat acusa Lula de crime, para logo depois reconhecer que foi a oposição quem divulgou o tal dossiê, levando na seqüência um baile dos leitores de Nassif por curiosamente tomar como fonte definitiva de notícia uma declaração feita por parte interessada, além de funcionar como moleque de recados da oposição.

Senador pefelê insulta Dilma Rousseff com xingamento sexista e provoca bate-cabeças na oposição, levando até o Arthur “vou dar uma surra no Lula” Virgílio a pedir que ele retire o insulto.

Noblat manda recadinho para que Pedro Simon fale do dossiê em plenário e o ex-Mr. Integridade obedece e pede desculpas. A que triste paródia de si mesmo foi reduzido o Senador Simon!

Noblat vira porta-voz de FHC.

Lula Miranda analisa mais esse patético papel da grande imprensa brasileira.

Gilson Caroni Filho discute o duro golpe sofrido pela credibilidade de Noblat neste episódio.



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quarta-feira, 26 de março 2008

Judiciário brasileiro inventa a campanha eleitoral sem internet

Numa mesa-redonda com a participação da editora Luciana Villas Boas, do escritor Paulo Cesar de Araújo e da advogada Deborah Sztajnberg que se realizará às 16 horas de sexta-feira, aqui em Tulane, como parte do congresso da BRASA, eu defenderei a tese de que a grande ameaça contemporânea à democracia brasileira é a inacreditável tacanhice, ignorância, atraso e reacionarismo do seu Judiciário. Que se critique o que for no Executivo e no Legislativo, mas que se reconheça: o Judiciário é hors-concours.

Considerando que a história recente do Judiciário brasileiro inclui os atos de proibir livros, condenar um blog por um comentário anônimo feito seis meses depois do post, lavrar sentença concedendo a um político o direito de resposta num blog extinto pela própria sentença, multar jornalista a priori por ofensa que pudesse vir a ser feita, impedir a divulgação de sentença do próprio judiciário e finalmente proibir joguinhos, eu não precisava de mais nenhuma munição para a intervenção nessa mesa-redonda em solidariedade ao grande pesquisador Paulo Cesar de Araújo. Não precisava, mas é claro que nestes casos, desgraça pouca é bobagem.

Acabo de ler a inacreditável resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral, que regulamenta a campanha deste ano no Brasil. Não se fiem do meu resumo. Sigam o link e leiam por si próprios. O artigo 1 estabelece que a propaganda eleitoral nas eleições municipais de 2008, mesmo quando realizada pela Internet e por outros meios eletrônicos, seguirá o determinado pela resolução. Até aí, tudo bem. Daí em diante, começa o Febeapá.

O artigo 3 estabelece que a propaganda só será permitida a partir de 6 de julho. Se alguém resolver fazer campanha para seu candidato no seu próprio blog antes disso, vão fazer o quê? Tirar o blog do ar? Impugnar a candidatura? O artigo 18 é a pérola mais sensacional: a propaganda eleitoral na internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Em outras palavras? Ou eu já não entendo a língua portuguesa ou o Tribunal Superior Eleitoral acaba de proibir a campanha política na Internet, com a exceção de uma página para cada candidato. Está proibida, nos blogs, no orkut, no facebook, qualquer manifestação de preferência eleitoral que possa ser entendida como campanha.

A proibição refere-se, claro, a uma realidade sobre a qual ela não tem nenhum controle. A Internet continuará ignorando o Judiciário brasileiro – talvez não tanto como este a ignora, mas o suficiente para que suas resoluções continuem caindo no ridículo. Mas também me parece evidente que a repetida publicação de resoluções como esta vai criando aberturas judiciais para atos de supressão de opinião, justamente num momento em que a democratização proporcionada pela Internet revoluciona a experiência política em países da América do Norte e da Europa. Chega a ser comovente a ignorância dos togados brasileiros -- com raras e honrosas exceções -- sobre os princípios mais básicos de funcionamento da rede mundial de computadores. O problema é que eles insistem em querer regulá-la.

O TSE, no fundo, está dizendo: não permitiremos que apareça um Barack Obama por aqui. Cabe a nós dar o troco.

PS: Está de casa nova a melhor fonte de notícias sobre o Rio Grande do Sul.



  Escrito por Idelber às 16:55 | link para este post | Comentários (61)



segunda-feira, 17 de março 2008

O crime internacional de Uribe, as Farc e o respeito às fronteiras nacionais

Os poetas conhecem como ninguém o processo pelo qual as palavras vão se gastando, sujando e perdendo o poder denotativo que tinham. Exemplo típico, em nossos tempos, é a palavra “terrorismo”. A partir dos acontecimentos de 11/09/2001 – atos indubitavelmente terroristas no sentido clássico –, a manipulação do vocábulo pela administração Bush e pelos seus aliados ao redor do mundo passou a convertê-la numa espécie de epíteto a que se recorre para justificar qualquer coisa, uma sorte de xingamento conveniente e inquestionável. Essa é a lógica que preside alguns dos argumentos acerca do recente imbróglio entre Colômbia e Equador, que deixou nítida, mais uma vez, a monumental ignorância brasileira sobre seus vizinhos, até mesmo de parte de gente bem instruída.

Para começar, o que os gringos chamam full disclosure (abrir o jogo): tenho razões muito pessoais para detestar as Farc. Já me atingiram de perto, seqüestrando gente próxima a mim – gente de esquerda, inclusive. Quem quiser xingá-los de terroristas ou narcobandidos, que fique à vontade. Mas não acredite que, com isso, esteja aproximando-se um centímetro de compreender o conflito colombiano. O lamentável editorial d' O Globo deste domingo, por exemplo, é uma descarada justificativa do crime internacional perpetrado pelo governo de Uribe -- distorce os fatos ao ponto de dizer que os presidentes Chávez e Correa ficaram isolados! O editorial ainda desce a lenha na atuação do governo brasileiro que, do ponto de vista diplomático, me pareceu impecável. Em coluna na Folha de São Paulo, Nelsinho Motta – a quem conheço, admiro e quero bem – abusa dos xingamentos às Farc e dá um espetáculo de desconhecimento do tema, ao perguntar-se as Farc não pretenderiam tomar o poder e instalar um governo “bolivariano”. Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema no maior jornal brasileiro e não saber que as Farc jamais reinvindicaram qualquer referência ao “bolivarianismo”? É preocupante que o autor do artigo não saiba que a referência nem sequer teria sentido na Colômbia. Sugere que ele esteja confundindo a Colômbia com a Venezuela, dois países que têm muito pouco em comum além da fronteira. Sei que é chato usar argumentos assim, mas produz cansaço ver, pontificando sobre o conflito colombiano e distribuindo epítetos, gente que não saberia localizar Antioquia ou o Vale do Cauca num mapa.

As Farc eram uma guerrilha onde se misturavam inspirações guevariana e maoísta com um elemento profundamente colombiano, a saber: desde muito tempo --- desde o fracasso do pacto de 1854 que uniu liberais e conservadores contra o General Melo, ou, diriam outros mais modestos, desde o período conhecido como “La violencia”, entre o fim da década de 1940 e os anos 1950 –, a militarização da sociedade colombiana põe em cena um horrendo teatro da vingança no qual bandos armados, oficiais ou não, permitem que filhos possam ir à forra pelos assassinatos de seus pais. Imaginem a espiral viciosa desse gigantesco horror de órfãos e viúvas. Nas últimas décadas, as Farc passaram a adotar várias práticas do banditismo comum, como a extorsão e o seqüestro não motivado politicamente (claro que um seqüestro como o de Ingrid Betancourt tem motivação política; refiro-me a outros, para ganho econômico).

O tráfico de drogas está envolvido? É evidente que sim. Qual o problema com a definição “narcoguerrilha”? Ela finge ignorar o fato mais básico, que o dinheiro da droga financia todos os lados do conflito colombiano, incluído aí o estatal. Isola-se um dos atores desse conflito para receber o prefixo “narco”, como se o tráfico estivesse ausente em outras comarcas. Realiza-se, portanto, uma operação de desonestidade intelectual. É pior ainda o rótulo de “terroristas”, já que o que caracterizou tradicionalmente as Farc nunca foi o ato terrorista no sentido clássico, como a bomba em lugares públicos. Não são incapazes desses atos, mas o que os marca é a trajetória que vai do combate guerrilheiro à paulatina incorporação de métodos do banditismo. Uma boa parte de seus membros não são guevaristas nem muito menos terroristas, mas camponeses que se viram compelidos a se incorporar a alguma força armada no contexto de uma espiral de violência já ancestral.

Boa parte da população camponesa e agricultora colombiana está acostumada a viver com até três extorsões: das Farc, dos paramilitares (AUC) e do próprio estado, este último “representado” por bandidos que utilizam para proveito próprio a guerra de extorsões entre os vários bandos armados. O que consegue Uribe, nos últimos anos, é simplificar esse terror: de um imposto ternário, passamos a um binário. A extorsão paramilitar de direita aninha-se ao interior da operação estatal. É impossível discutir a situação da Colômbia sem levar em conta a reinserção dos paramilitares na legalidade, com muitos deles incorporados ao estado (reinsertarse é o verbo que se usa na Colômbia para definir o processo de abandono das armas e passagem à legalidade). A recente popularidade de Uribe se apóia na diminuição real dos índices de violência, que tem um conjunto de causas: a legalização dos paramilitares (que passam assim a contar com os recursos do estado e já não recorrem tanto ao assassinato), a reinserção do M-19, o trabalho comunitário inovador de prefeituras como a de Bogotá e, inclusive, opções táticas recentes das próprias Farc, que têm perfeita consciência do seu isolamento. É evidente que a "linha dura" de Uribe tenta capitalizar politicamente sobre uma série de resultados sobre os quais ela tem responsabilidade só parcial.

A grande cartada que tem Uribe é a utilização do espectro do “terrorismo” para demonizar um único ator do conflito -- quando o rótulo é igualmente (in)aplicável a todos os outros. Se há algo que, em definitivo, não interessa ao governo colombiano é a reinserção pacífica e ordenada das Farc. Se tudo o que ele conseguiu em termos de popularidade foi na carona da redefinição das Farc à luz da retórica do terrorismo da era Bush, por que abrir mão do manipulável fantasma? Se pouca gente fora da Colômbia sabe que os níveis de violência podem ter baixado, mas que as taxas de mortalidade por assassinato entre os “reinseridos” de esquerda continua altíssima? Visite um camponês cundiboyacense e observe no seu semblante o terror produzido pela menção de duas curtas palavrinhas: los paras. Na seqüência, faça um levantamento do número de candidatos a cargos eletivos assassinados pelos paramilitares ou por agentes do próprio estado em comparação com o número de políticos mortos pelas Farc. Depois volte aqui e dê uma gargalhada na cara do direitista tupiniquim que quer entender o conflito colombiano como uma oposição entre o “narcoterrorismo” e o “estado democrático de direito”.

É possível que tenha havido contatos entre as Farc e os governos da Venezuela e do Equador mais além das normais conversas em torno ao tema da paz? Sim. É possível que tais contatos tenham envolvido grana? Sim, é possível. Embora eu ache pouco provável, estaria disposto a considerar este novo dado, caso apareçam indícios ou provas. Não, os conteúdos de um laptop ao qual só Uribe teve acesso não valem como prova de nada. Até agora, o que temos é esse mapa político nos quais os interesses me parecem bem nítidos.

É por tudo isso que é inaceitável que um latino-americano justifique o crime internacional cometido pelo governo de Uribe na semana passada – Raúl Reyes era a figura designada pelas Farc para a negociação de paz que, como sabemos, já envolveu outros governos da região. Será que é muito difícil perceber que o assassinato de Reyes tem muito pouco a ver com o combate ao "terrorismo" e tudo a ver com impedir que Hugo Chávez capitalize politicamente com a negociação para a libertação de reféns? Por que o jornal O Globo, em editorial, se refere como “base” a um acampamento de onde jamais havia saído nenhuma operação militar? Ah, como seria bom se existisse uma direita nacionalista no Brasil! Não se pode brincar com o respeito às fronteiras nacionais logo ali na Amazônia, numa época em que o governo Bush já deu amplas demonstrações de que não respeita direito internacional nenhum.



  Escrito por Idelber às 09:09 | link para este post | Comentários (78)



sexta-feira, 14 de março 2008

Open thread do selinho da Veja

Para um futuro selinho, me diga lá qual slogan você prefere. A idéia é fazer algo bem humorado; nada raivoso, do tipo "Não leia, não compre, bombardeie bancas que vendam, fuzile o vizinho que assina e beba seu sangue em chapéus inspirados no Reinaldo Azevedo."

Não, nada disso. Algo assim como esses aí de baixo. Escolha um deles ou invente outro. A quem puder ir fazendo selinhos (sem armas!) com os slogans mais votados, a casa agradece.

Veja - Leia a do seu vizinho

Veja -- Leia só em versão pirata

Veja - Leia, mas não acredite

Eu acredito em gnomos e na Veja

Vamos parar de levar a Veja a sério

Veja: cancele sua assinatura e gaste o dinheiro em algo útil

Leia a Veja. Depois vá se informar

Atualização: O leitor Frank já fez o primeiro. Quem quiser ir fazendo outros, é só me enviar que eu coloco aqui.

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  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (86)



quinta-feira, 13 de março 2008

Luis Nassif, o dossiê Veja e a judicialização do debate jornalístico no Brasil

Está começando a ficar ensurdecedor o silêncio da grande mídia sobre o dossiê Veja elaborado por Luis Nassif. Embora alguns de seus colunistas tenham tratado do tema em blogs, nenhum dos grandes jornais brasileiros noticiou a reportagem. Além do silêncio, a resposta dos defensores da Veja têm oscilado entre dois polos: 1) os processos judiciais; 2) os ataques ad hominem ao jornalista que está apurando os fatos, sem qualquer refutação dos mesmos.

O primeiro caso é curioso, porque foi das comarcas da Veja – mais precisamente de Diogo Mainardi – que veio o argumento de que jornalista não processa jornalista. Agora, seus patrões estão processando um jornalista por uma série de reportagens acerca de um veículo que tem muito mais circulação que a página web que contém as denúncias. Onde está Diogo Mainardi para dizer jornalista não processa jornalista? Onde estão os jornalistas dos grandes veículos que se indignaram – com justa causa – quando Aldo Rebelo processou Millôr Fernandes? A correlação de forças me parece bastante favorável à Veja. Caso os fatos estivessem do seu lado, seria fácil para a revista refutar as denúncias utilizando as suas páginas. Se os próprios defensores da Veja admitem que a internet inteira já sabe do assunto, não cola muito bem, me parece, a desculpa de que não o refutam porque não querem “amplificar” o dossiê Nassif.

Os ataques a Nassif procuram criar a ilusão de que todos são iguais – ele, afinal de contas, teria também seus interesses. Obviamente os terá, mas ninguém questionaria o direito da Veja publicar um dossiê verdadeiro contra o governo obtido de alguém que tivesse seus interesses. O problema com as “notícias” publicadas pela Veja é que, via de regra, se não são falsas, são grosseiramente distorcidas. Ou encontraram provas de que Cuba enviava dólares ao PT em caixas de uísque? Encontraram algum indício de que Lula tenha conta em paraíso fiscal? O problema com ditas matérias não eram os interesses de suas “fontes”. É que se tratava de calúnias, pura e simplesmente.

No intuito de ajudar os defensores da Veja a organizarem sua defesa com base nos fatos, o Biscoito publica hoje um resumão de algumas das perguntas que teriam que ser respondidas caso eles queiram, em algum momento, deixar de xingar ou processar Nassif e debater a realidade. Vamos lá.

1. É ou não é fato que durante 2005 a Veja publicou pelo menos cinco louvações ao publicitário Eduardo Fisher e editorializou supostas reportagens para intervir na “guerra das cervejas” tal como detalhado aqui?

2. É ou não é fato que a estranha passagem de matéria laudatória ao COC a uma diatribe baseada em distorções da entrevista de seu diretor coincide com a entrada da Abril no ramo dos livros didáticos, tal como explicado aqui?

3. É ou não é fato a tentativa de “assassinato de reputação” do presidente do STJ Edson Vidigal sem que houvesse contra ele nenhum fato incriminatório, exceto uma liminar que contrariava os interesses do Opportunity, tal como fartamente documentado aqui?

4.São ou não são fatos as bizarras manipulações de critérios de inclusão na lista de livros mais vendidos, para que o romance de Mário Sabino -- elogiado nas páginas da revista pelos seus subordinados – pudesse nela entrar, tal como detalhado aqui? (Aliás, o dito cujo tem a extraordinária desfaçatez de afirmar sou um autor bem-sucedido depois de um romance ao qual ninguém, exceto seus subordinados na Veja, deu a menor importância; alguém aí que estuda literatura brasileira a sério já ouviu falar do “bem-sucedido” escritor Mário Sabino?).

Além de tudo isso, das falsas contas de Lula, dos falsos dólares em caixa de uísque, da campanha eleitoral explícita em favor de Alckmin em 2006 e das tentativas de assassinato de reputação de gente brilhante como José Miguel Wisnik, eu poderia listar outros 300 fatos que fazem das demonstrações de Nassif algo bem próximo do irrefutável.

Até quando a imprensa vai fingir não está vendo? Por que Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi pararam de dizer que jornalista não processa jornalista? Por que ainda há gente que insiste em dizer que a esquerda só começou a criticar Veja porque esta faz oposição a Lula se as denúncias anteriores a 2002 estão amplamente documentadas? Será que a recente queda de vendagens da revista pode ser creditada às intensas críticas veiculadas na internet, que culminaram com o dossiê Nassif?

PS: Parabéns ao Bender -- simpático gremista a quem conheci em Porto Alegre Novo Hamburgo -- pela idéia da "Google Bomb do bem" que sigo aqui neste post: linkar a palavra Veja com o site das denúncias do Nassif. As buscas por "Veja" no Google só indicavam o dossiê Nassif lá pela terceira ou quarta página. Agora, ele já está na primeira página, na sexta colocação, no momento.

PS 2:
Falta agora um selinho, não do Dossiê Nassif, que já tem vários, mas de uma nova campanha blogueira contra a revista. Poderia ser algo do tipo: Não colabore com o crime organizado; cancele sua assinatura de Veja. Se alguém quiser fazer, eu colaboro na circulação.

PS 3: Milton Ribeiro, não tenho palavras para agradecer a generosidade. Obrigado, Katarina e Marco. Obrigado, Luiz. Obrigado, Porto Alegre.

Atualização: Rolou o selinho, graças ao leitor Theo. Obviamente, é para pegar e circular. Você pode embutir no selinho, se quiser, o link para o dossiê Nassif. Estamos repensando o "lema" do selo aí na caixa de comentários (razão pela qual eu retirei a imagem que esteve aqui no post por algumas horas).



  Escrito por Idelber às 02:37 | link para este post | Comentários (71)



domingo, 02 de março 2008

Israel continua a matança genocida em Gaza: Mais de 60 mortos. Pelo menos um terço são crianças

O estado nazi-sionista continua com sua matança indiscriminada em Gaza. Israel conseguiu bater recordes de criminalidade internacional neste sábado: bombardeios a civis, assassinatos de crianças e bebês de seis meses de idade, ambulâncias metralhadas. Mais de 60 mortos, sendo pelo menos um terço crianças; mais de 200 feridos, boa parte deles em estado muito grave. Israel simplesmente faz o que quer e a comunidade internacional se cala.

Explicam-se com a velha desculpa esfarrapada, quando até mesmo a imprensa israelense está cansada de saber que há meses o Hamas vem mandando enviados com propostas de trégua. É a estratégia denunciada pelo próprio israelense Dorom Rosemblum como “Só mais um”. Só mais uma matança, só mais uma “incursão”, só mais uma chacina. Quando algum desses “razoáveis” e “ponderados” cúmplices do nazi-sionismo objetar ao uso do termo “Holocausto” para descrever o que está acontecendo em Gaza, avise que é o próprio Ministro de Defesa de Israel que está prometendo Holocausto. Assista, se agüentar, as imagens do genocídio em Gaza:

O mínimo que podemos fazer é escrever à embaixada dos nazistas para manifestar o que pensamos sobre o assunto. O email da embaixatriz nazi-sionista no Brasil é ambassadorsec@brasilia.mfa.gov.il

Nada, nada vai fazê-los parar até que a pressão da comunidade internacional se torne insustentável. Boicote Israel. Boicote os produtos israelenses. Boicote as firmas israelenses. Não há conversa “ponderada” e “equilibrada” possível sobre este assunto. Só a hostilidade incondicional do resto do mundo tem alguma chance de deter esses assassinos.



  Escrito por Idelber às 04:52 | link para este post



sexta-feira, 29 de fevereiro 2008

Israel continua seus massacres em Gaza

A sanha assassina do estado de Israel não tem fim. 33 palestinos assassinados em dois dias. 10 deles bebês e crianças. Casas bombardeadas indiscriminadamente em Gaza. Assista se tiver estômago.




  Escrito por Idelber às 18:49 | link para este post



terça-feira, 26 de fevereiro 2008

O Adeus de Fidel

Dedicado a Ju Sampaio, que insistiu.

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Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.

Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.

O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.

Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana -- causa mui legítima -- simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.

O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.

Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.



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sexta-feira, 15 de fevereiro 2008

Carta aberta aos senadores americanos

O texto é meu, mas está tudo na primeira pessoa do plural porque a versão que será publicada em inglês e enviada ao Senado será assinada por uma série de professores universitários. Na versão em português, embuti algumas explicações para facilitar a compreensão do leitor brasileiro.


Prezados Senadores dos EUA:

Atônitos, assistimos esta semana ao Senado dar seu aval, por duas vezes, a mais de cinco anos de espionagem ilegal do governo Bush contra cidadãos americanos. Como infelizmente já é de conhecimento do resto do planeta, a invasão de privacidade, a violação de correspondência, o grampeamento de telefones e o monitoramento de atividade eletrônica já viraram rotina nos EUA. O presidente admite que faz uso dessas práticas sem qualquer amparo na lei. O FISA – Foreign Intelligence Surveillance Act --, de 1978, detalha as condições sob as quais o governo pode legalmente monitorar a comunicação de cidadãos americanos por razões de segurança nacional, estabelecendo a obrigatoriedade de um mandado judicial concedido por um tribunal específico, composto por juízes anônimos. Nas dezenas de vezes em que a FISA foi emendada desde então, invariavelmente houve consenso no Congresso, tratando-se, na maioria dos casos, de adaptar a lei à evolução das novas tecnologias. Nas atividades ilegais do governo Bush, não só a FISA foi repetidamente desrespeitada; várias empresas de comunicação conspiraram junto com o governo, fornecendo a ele, ilegalmente, informações de caráter pessoal de cidadãos americanos cumpridores da lei.

O Senado teve a oportunidade de rejeitar essas práticas e reafirmar os parâmetros estabelecidos pelo FISA – os parâmetros da democracia e da liberdade -- como os únicos aceitáveis para o monitoramento de qualquer comunicação por razões de segurança nacional. Esse era, em essência, o conteúdo da emenda da Senadora Dianne Feinstein (D-CA): reafirmar a lei, à luz de seu sistemático descumprimento pelo atual governo. Apoiada por 57 senadores contra 41, ela não conseguiu os 60 votos necessários para a aprovação de emendas que foram objeto de obstrução (filibuster). Na prática, o Senado rasgou a lei e entregou ao governo Bush uma carta branca para a continuação de seu programa de espionagem contra cidadãos americanos. Para completar uma semana lamentável para a democracia americana, foi derrotada por 67 votos a 31 a emenda dos Senadores Russ Feingold (D-WI) e Christopher Dodd (D-CT), que eliminaria a inacreditável imunidade legal retroativa para as companhias telefônicas que colaboraram com o programa ilegal de espionagem. O Senado decidiu que, mesmo tendo atuado criminosamente, violando a privacidade e fornecendo dados pessoais sem ordem judicial, a lei não vale para elas. Não poderão ser processadas por esses atos.

Parabenizamos o Senador Christopher Dodd pelo seu inesquecível discurso em prol de nossa privacidade. Não terá sido em vão a fúria com que o Sr. defendeu a liberdade e a inviolabilidade da comunicação pessoal até altas horas da noite na tribuna do Senado. Não serão esquecidas suas palavras, que fecharam uma das derrotas mais dignas da história da Casa: Esta será uma daquelas decisões que, daqui a 30 anos, as pessoas olharão e dirão, que raios eles estavam pensando? Parabenizamos também a Senadora Dianne Feinstein pela luta incansável pela aprovação da sua emenda. Obrigado. A Sra. honrou o mandato que lhe conferiu o povo da Califórnia. Sua indignação ante a triste realidade da mais antiga democracia do mundo sendo corroída pela espionagem governamental e pela manipulação do medo tampouco serão esquecidas. Como o(a) próximo(a) presidente da nação será um membro do atual Senado, nos dirigimos aos atuais candidatos individualmente.

Senador Barack Obama (D-IL), obrigado por interromper a campanha eleitoral para participar nestas históricas votações do lado da liberdade e do direito à privacidade nos dois casos. Agradecemos o seu apoio à emenda Feinstein e à emenda Feingold/Dodd. Os seus votos a ambas nos dão esperanças de que esses direitos básicos serão restaurados num eventual governo seu.

Senador John McCain (R-AZ), lamentamos os seus votos contra as emendas Feinstein e Feingold/Dodd. Lamentamos que um homem conhecido por sua integridade não tenha ficado do lado da lei em duas votações nas quais estavam em jogo o direito dos americanos à privacidade em suas comunicações pessoais. O que aconteceu com o Partido de Lincoln, Senador? Como podem os defensores da individualidade e da livre iniciativa sancionar a espionagem ilegal contra cidadãos cumpridores da lei? Os seus votos contra as emendas Feinstein e Feingold/Dodd teriam envergonhado Lincoln e Einsenhower.

Senadora Hillary Clinton (D-NY), lamentamos a sua ausência nestas que foram duas das mais importantes votações da história recente do Senado. Lamentamos que algumas horas antes de seu discurso de campanha em defesa da democracia, esta tenha sido solapada no Senado com a ajuda decisiva de sua abstenção. Não era possível reservar 3 horas para deslocar-se e votar em favor da inviolabilidade de nossas comunicações pessoais em face do crescente monitoramento ilegal? Tememos, Senadora, que não tenha sido pela falta de tempo. Suspeitamos que sua recusa a votar as emendas Feinstein e Feingold/Dodd tenha algo a ver com sua condição de senadora democrata que mais contribuições recebeu das companhias telefônicas parceiras da espionagem do governo Bush. Tememos que sua recusa a nos apoiar nesta mais justa das causas advenha de sua conhecida associação com lobistas das empresas telecom. A Sra. acaba de entrar para a história como a única senadora democrata a não ter votado contra a espionagem ilegal do governo Bush.



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quarta-feira, 06 de fevereiro 2008

Acredito ter encontrado a fonte do erro da Folha

Levantei-me hoje bem tarde e li, estupefato, comentários de leitores que me chamavam a atenção para uma matéria da Folha de São Paulo que declarava vitória de Hillary Clinton na Super Terça e “noticiava” que “as chances de Obama diminuíram”. Como pode atestar qualquer pessoa que não more em Plutão e saiba usar a internet, tais “notícias” não condizem com os fatos. Sabendo que era um caso de erro e não de distorção deliberada, comecei a matutar acerca de qual seria a fonte do equívoco da Folha.

E não é que encontrei? Acho que encontrei, quero dizer.

Josh Marshall relata que ontem à noite viu uma manchete do New York Times que dizia que Obama estava “atrás” e colocava Clinton junto com McCain como os “vencedores” da noite. Josh pode errar, mas não mente. Garanto. Ele conta que a manchete foi retirada e substituída pela que agora se encontra no site e na versão em papel, que diz, mais ou menos, que Clinton e Obama “trocaram vitórias” -- o que é o correto. Obviamente, ele lamenta não ter feito o printscreen da manchete anterior.

Hohoho, de onde será que veio o erro da Folha?

Alguém sabe se é possível recuperar eletronicamente uma manchete que esteve no site do NYT durante poucos minutos, ou talvez um hora, ontem à noite? Impossível, correto?

Atualização: Ao contrário dos jornais brasileiros, a própria campanha de Clinton declara que não venceu a Super Terça.



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quarta-feira, 30 de janeiro 2008

Como a Veja virou o desastre que é

Uma seqüência de reportagens de Luis Nassif começa a demonstrar, passo a passo, como a Veja virou a merda que é.



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quarta-feira, 23 de janeiro 2008

A violência, entre a biologia e a sociologia

Tenho sensações contraditórias com o qüiproquó que se armou acerca da pesquisa do neurocientista Jaderson da Costa, da PUC-RS e do geneticista Renato Zamora Flores, da UFRGS. O projeto consiste em determinar os fundamentos da violência e da agressividade através da análise do cerébro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre. É o tipo de pesquisa que provoca compreensíveis suspeitas em todos nós, das ciências humanas: a aplicação de conceitos biológicos na explicação de fenômenos sociais tem uma triste história nos séculos XIX e XX, vinculada a atrocidades bem conhecidas. A pesquisa dos Profs. Flores e Costa provocou um irado abaixo-assinado de protesto, com signatários de várias disciplinas, especialmente da psicologia e do direito.

Foi o suficiente para que Reinaldinho Azevedo gritasse censura!, hipocritamente esquecendo-se de que foi ele mesmo quem organizou uma turba de fanáticos semi-analfabetos para linchar o trabalho de acadêmicas paulistas que desenvolviam pesquisa na área de redução de danos no consumo de ecstasy. A hipocrisia de Reinaldo Azevedo não consegue nem mesmo ser inteligente. Segundo ele, os signatários do protesto agem pelo medo de que se encontre algum componente neurobiológico no comportamento homicida, que ele supõe corroborar sua tese de que bandidos “escolhem” ser bandidos. Na verdade, a hipótese dos cientistas gaúchos vai exatamente na contra-mão desse pseudo-individualismo, ao (tentar) relativizar neurofisiologicamente a noção de escolha. É o próprio Prof. Flores quem diz: "Nessa questão o livre arbítrio está indo pelo ralo: as pessoas não escolhem ser violentas", argumento que ele usa, inclusive, para defender uma reavaliação da tradição jurídica sobre punição. Tudo isso, o Hermenauta já demonstrou no melhor post sobre o assunto.

Dito isso, eu acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Que os seus 68 signatários escrevessem 68 textos individuais descendo o sarrafo nas hipóteses de trabalho de Costa e Flores (de preferência com argumentos melhores e mais elegantemente escritos que os encontrados no protesto), e eu os apoiaria, feliz da vida, aqui no blog. Mas abaixo-assinado contra uma hipótese de pesquisa, por mais suspeita que ela seja? Não dá. Um abaixo-assinado pela libertação de um refém, pela revogação de uma sentença judicial, pela realização de um plebiscito ou contra uma distorção midiática é absolutamente legítimo. Mas não se reúnem iguais para fazer um abaixo-assinado contra o trabalho de um igual, muito especialmente na academia. Por mais preconceituoso ou racista que possa ser o trabalho.

Evidentemente, eu não entendo patavinas de neurofisiologia e, ao contrário dos funcionários da Veja, não finjo entender do que não entendo. Mas acredito ter algo a dizer sobre 1) retórica; 2) lutas sociais em torno de como se legitima um saber. É sobre isso que proponho que conversemos aqui, porque o caso dá muito o que pensar (claro, quem entender de biologia, intervenha, melhor ainda). Lendo a retórica do Prof. Zamora, fica bem difícil não perceber o tremendo preconceito que se imiscui na sua ciência. Ele diz:

Mas se eu abrir um laboratório dizendo vendo testes de predisposição para você evitar do seu filho ter um risco aumentado de ser alcoolista ou homossexual, você não se interessaria? Mais cedo ou mais tarde vai haver um teste desses.

Ora, ora, evitar que seu filho seja homossexual? O que é isso? Vai justificar isso com qual ciência? Qual ciência legitima a comparação da homossexualidade com o alcoolismo? Há, sim, razões ética e cientificamente legítimas para se pesquisar se a opção sexual é ou não genética. Já acompanhei um debate fascinante em que ativistas gays americanos argumentavam que, caso se comprovasse alguma base biológica para a opção sexual orientação sexual, a descoberta poderia ser uma arma contra o preconceito – como as descobertas genuinamente científicas costumam ser, aliás. Mas no caso dessa retórica eivada de preconceito do Prof. Zamora, a afirmação de que os grupos gays daqui de Porto Alegre também acompanham nosso trabalho e nunca protestaram me soa a 1) engano; ou 2) mentira. Pesquisando um pouco mais sobre seu colega, o Prof. Flores, descubro que é ele quem defende que há diferenças de aptidão entre os sexos em todas as atividades muito competitivas. Eu adoraria que algum cientista me explicasse como se isola esta variável no interior de uma sociedade onde a mulher sempre teve uma posição subordinada.

No entanto, como dito acima, acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Um abaixo-assinado contra uma pesquisa ainda não realizada só entrega argumentos de bandeja nas mãos dos Reinaldinhos da vida. Em segundo lugar, lamento que não haja um profissional de Letras entre os signatários, porque o texto está, pura e simplesmente, muito mal escrito. Numa frase como

Privilegiar aspectos biológicos para a compreensão dos atos infracionais dos adolescentes em detrimento de análises que levem em conta os jogos de poder-saber que se constituem na complexa realidade brasileira e que provocam tais fenômenos, é ratificar sob o agasalho da ciência que os adolescentes são o princípio, o meio e o fim do problema, identificando-os seja como "inimigo interno" seja como "perigo biológico", desconhecendo toda a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes, que culminou na aprovação da legislação em vigor - o Estatuto da Criança e do Adolescente.

estão faltando, pelo menos, dois pontos finais. Não se trata de picuinha. Se você quer intervir socialmente com o seu saber – e num abaixo-assinado de acadêmicos se trata sempre disso –, seja claro no que diz. Não misture alhos e bugalhos. Se a pesquisa viola o Estatuto da Criança e do Adolescente, explique o porquê. Trata-se de política, e não se faz política efetiva escrevendo assim. A frase pensar o fenômeno da violência no Brasil de hoje é construir um pensamento complexo, que leve em consideração as Redes que são cada vez mais fragmentadas, o medo do futuro cada vez mais concreto e a ausência de instituições que de fato construam alianças com as populações mais excluídas me dá a impressão de não ter sido lida antes de ser impressa. Pensar a violência é construir um pensamento? Que leve em consideração as Redes? Quais redes? A oração que inicia o parágrafo seguinte -- Enquanto a Universidade se colocar como um ente externo que apenas fragmenta, analisa e estuda este real, sem entender e analisar suas reais implicações na produção desta realidade -- me provoca calafrios. Será que não havia mais um cantinho para repetir a palavra real pela quinta vez? Reitero que não é implicância nem picuinha. Ao assinar um texto léxica, sintática e conceitualmente tão pobre, entregou-se a razão ao outro, mesmo que ele não a tivesse no começo da conversa. Se são 68 contra 1, fica mais feio ainda.

Por mais preconceituoso que possa ser o Prof. Costa, não dá para discordar quando ele diz que o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica. O abaixo-assinado entrega de bandeja a posição de pesquisador genuíno a professores que podem, muito bem, estar trabalhando com motivos pouco confessáveis (lembremos que um dos alunos de mestrado no grupo é o secretário da Saúde do Estado, Osmar Terra, deputado federal licenciado pelo PMDB).

Os responsáveis pelo projeto afirmam que seus estudos não pretendem reduzir tudo ao neurofisiológico e que as variáveis “psicológicas e sociais” também serão levadas em conta. Sendo assim, seria coerente da parte do Prof. Flores, antes de acusar os psicólogos sociais que, de modo geral, desconhecem o conjunto de áreas do conhecimento denominadas de neurociências e que incluem, desde a bioquímica e a genética, até a neurologia e a psiquiatria , demonstrar um pouquinho de conhecimento sobre a vastíssima bibliografia sociológica e filosófica sobre a violência, boa parte da qual, talvez, levante algumas dúvidas sobre suas hipóteses. Essa bibliografia – indispensável para quem queira estudar as “causas” da violência, por mais que pretenda localizá-las no cérebro – é arqui-conhecida e já foi compilada até mesmo em livros ruins sobre o tema.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post | Comentários (52)



terça-feira, 15 de janeiro 2008

A última do judiciário, parte 328

Estou pensando seriamente em abrir dois blogs. Um continuaria se chamando Biscoito Fino e a Massa e traria o cardápio de sempre: futebol, política, música, literatura. O outro se dedicaria a publicar posts diários sobre os absurdos do judiciário brasileiro. O Febeapá não tem fim. Mais uma vez, tenho que adiar o post que tinha preparado para hoje e fazer outra denúncia, com o tradicional pedido de que você me ajude a disseminar o absurdo, porque, de novo, o nome do jogo é censura.

No dia 04 de novembro do ano passado, Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21 e um menor de idade agrediram, usando um extintor de incêndio, um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca. Receberam uma pena leve, de serviços comunitários. Foram dadas a eles várias opções, entre as quais escolheram a de trabalhar oito horas por semana como garis, durante um ano. O caso ganhou notoriedade quando Fernando Mattos Rois, o pai de um dos criminosos, deu entrevistas dizendo que eles não fizeram nada demais. Foi só uma brincadeira de criança.

Pois bem: o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do 9 Juizado Especial Criminal do Rio, proibiu os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Extra e O Dia e as emissoras de TV Globo, Bandeirantes, Record, Rede TV!, CNT e Brasil (ex-TVE) de veicular imagens e ou até mesmo de publicar os nomes dos três universitários que gostam de sair por aí espancando prostitutas. A multa fixada pelo Dr. Joaquim para quem descumprir a proibição é 10 mil reais. Em outras palavras: há uma sentença judicial que condenou três criminosos, mas a imprensa está proibida de citar seus nomes ou divulgar suas imagens.

Segundo O Globo, o juiz achou que os jornais estavam rotulando os jovens. Na sua sentença, outra pérola do judiciário tupinambá, o Meritíssimo afirma: Pouco interessa a origem ou classe social dos envolvidos, ou a profissão ou o gênero a que pertence a vítima: para ser isenta, a matéria deveria relatar um conflito entre dois jovens recém entrados na vida adulta (e, por isso, penalmente responsáveis ) e um outro ser humano (pouco importa se homem ou mulher) que foi agredido .

Em primeiro lugar, Meritíssimo, a língua portuguesa possui palavras mais adequadas para descrever o que aconteceu na Barra da Tijuca em 04 de novembro. Não houve um “conflito”. Houve uma agressão, um espancamento. Em segundo lugar, qualquer estudante de psicologia percebe o que está em jogo na menção ao gênero, profissão e classe social dos envolvidos (alô alô, debate sobre a questão racial): é a clássica denegação freudiana. O doutor quer dizer que se os agressores fossem pretos e pobres, e o agredido branco e rico, a “imagem” daqueles também seria “protegida” por uma sentença sua? É isso? Por que sentiu necessidade de dizê-lo? Conte outra.

Nos comentários ao lúcido texto de Luiz Weiss no Observatório da Imprensa, apareceram dois advogados defendendo a censura. Sempre aparece um, não tem jeito. O Dr. Ricardo Pierre, de Santos, afirma que A lei manda não colocar os condenados em situação de inconveniente notoriedade, buscando protegê-los de represálias . Eu gostaria que o doutor me informasse qual é a lei que proíbe a divulgação de informações sobre condenados pela justiça; qual é a lei que coloca a proteção da “inconveniência” acima da liberdade de informação garantida pela constituição federal. O Dr. Charles Bakalarczyk, de São Luiz Gonzaga, nos sai com uma pérola ainda melhor: A mídia não foi proibida de noticiar o fato (e a condenação), mas de expor os nomes dos condenados e suas imagens. Será que o Dr. Charles poderia nos informar como é possível noticiar a condenação de Fernando Mattos Roiz Jr. e Luciano Filgueiras Monteiro sem citar os nomes de Fernando Mattos Roiz Jr. e Luciano Filgueiras Monteiro? Mas o Febeapá não termina aí. O Dr. Ricardo volta à baila, tentando defender a decisão do juiz com um argumento escrito numa língua que vagamente se assemelha ao português: A configuração do uso ou do abuso é matéria probatória, com toda a certeza, mas há alguns parâmetros que poderiam ser estabelecidos pela jurisprudência quanto a quais são os fatos perinentes (sic) e relevantes na configuração do abuso, sobretudo para que o jurisdicionado não fique com a impressão de que sofreu uma decisão "ad personam"... .

Traduzindo para o vernáculo, o Dr. Ricardo quer, eu acho, que a jurisprudência determine o que é uma informação abusiva e o que não é. Ouvi de um outro advogado o argumento de que a divulgação dos nomes dos condenados os expõe ao "linchamento". Isso me parece risível. Cometeu-se um crime, do tipo que negros e pobres sofrem todos os dias. E é a divulgação do nome dos criminosos que cria o risco? Ora, conte outra. De minha parte, não quero viver num mundo onde esses togados determinem o que eu posso ler, ver ou ouvir.

Já botaram a boca no trombone: Sergio Leo, Vejo tudo e não morro, Na média, Acorda Brasil. Bote você também.

Atualização: O Panóptico fez o melhor post sobre o caso.

PS: O Biscoito Fino e Massa recebeu o prêmio de blog com melhor conceito artístico do Spoiler News, em eleição com 2640 votantes. Valeu, pessoal.



  Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post | Comentários (35)



quinta-feira, 10 de janeiro 2008

Aniversários

2008 marca vários aniversários importantes e alguns deles serão lembrados durante todo o ano aqui no blog. Apertem os cintos:

No dia 25 de março o Glorioso primeiro campeão brasileiro completa 100 anos de existência. Foi ali no Parque Municipal, esquina de Afonso Pena com Bahia -- a dois quarteirões de onde Drummond, Pedro Nava, Abgar Renault e cia. aprontariam das suas uns poucos anos depois – que 19 benditos moleques resolveram matar aulas, sem saber que estavam inventando a maior paixão do povo de Minas. A idéia é, ao longo do ano, pesquisar e conhecer um pouco mais da história do único de clube de futebol do planeta a ter derrotado a Seleção de Pelé.

Começo com uma perguntinha de Trivia Games: alguém aí sabe quem é o autor do primeiro gol da história do Clube Atlético Mineiro? Os que conhecem um pouquinho de literatura brasiliera se assustarão com a resposta. Guglem aí que depois eu completo. A dica para acompanhar o dia-a-dia do Atlético é Galo é amor.

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No dia 29 de setembro comemora-se outro centenário, o da morte de Machado de Assis. Depois do incrível mico que foi a “biografia” de Daniel Piza – onde José Bonifácio vira português, o violento entrudo se transforma em festa de salão e Bentinho é rebatizado assassino, entre outras inacreditáveis gafes – o ano promete uma série de publicações e eventos de qualidade, por gente que estuda o assunto antes de escrever. O epistolário será editado por Sergio Paulo Rouanet; Ubiratan Machado coordena a edição de um dicionário para a Academia Brasileira de Letras; a Casa de Machado também organiza uma série de palestras aí no Rio, a partir de abril; a famosa Obra Completa em 3 volumes, da Aguilar, recebe segunda edição, bem mais fornida (por incrível que pareça, ainda não há uma edição verdadeiramente completa das obras de Machado); em julho a Globo lança a minisérie “Capitu”; a Record prepara uma recriação de 12 contos de Machado com autores contemporâneos (fonte). Ótimo momento, pois, para mergulhar em Machado.

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Em 2008 também se completam 60 anos do Nakba, palavra árabe que significa “catástrofe” e que é usada pelo povo palestino para designar o processo de expulsão e confisco sofrido por eles para a implantação do estado de Israel. A expulsão de 800.000 habitantes e a destruição de 531 vilas palestinas em menos de seis meses do ano de 1948 é história pouquíssimo conhecida, e freqüentemente soterrada sob uma série de mitos. Depois de vir à luz uma copiosa documentação desse evento, com o livro The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador Illan Pappe, já não há desculpas para ignorá-la. Ao longo do ano, o blog publicará parte dessa documentação aqui.

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Finalmente, no dia das bruxas eu completo 40. Espero que até lá o Aldo Rebelo não tenha conseguido transformar o 31 de outubro em dia nacional do Saci Pererê. 43 dias depois, claro, nosso querido AI-5 – o golpe dentro do golpe – também vira quarentão. 1968 marcou muito. Será interessante revisitar o seu legado aqui. É isso. Esqueci algum aniversário?

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PS: continua o papo ali embaixo, sobre a questão racial, com um desses leitores que são a razão pela qual vale a pena ter blog.

Atualização: E há o importantíssimo centenário de Simone de Beauvoir, ótimo pretexto para reler a pensadora de O Segundo Sexo (Obrigado, Cynthia).



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (42)



segunda-feira, 07 de janeiro 2008

Joguinho político

Se você morasse nos EUA, qual seria sua posição sobre a guerra do Iraque, o casamento gay, a assistência médica, a política fiscal? Jogue este fascinante joguinho e descubra -- depois me conte -- qual é o seu candidato a presidente dos EUA.

(é uma animação em flash; pode demorar um pouco para carregar, mas vale a pena).



  Escrito por Idelber às 13:42 | link para este post | Comentários (35)




O livro do ano

ubmn.jpg Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.

É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.

Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.

É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.

Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.

Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.



  Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post | Comentários (95)



sexta-feira, 21 de dezembro 2007

A última asneira do judiciário, parte 327

O Febeapá do Judiciário brasileiro não tem fim. Depois de proibir livros, condenar um blog por um comentário anônimo feito seis meses depois do post e lavrar sentença concedendo a um político o direito de resposta num blog extinto pela própria sentença, eis que os nossos togados acabam de inventar outro bicho-grilo jurídico: a multa definida a priori por ofensa que possa vir a ser feita. A juíza Tonia Yuka Kôroko acaba de conceder liminar determinando que Juca Kfouri está proibido de “ofender” o deputado Fernando Capez (PSDB), ou pagará multa de 50 mil réis. É Pindorama, sempre inovando.

Qual o grande crime do Juca? Ter dito que o deputado Capez fracassou no combate à violência das torcidas organizadas quando era promotor e que mesmo assim elegeu-se deputado graças à notoriedade alcançada pela campanha. A outra grande ofensa? Ter dito que o curso de Direito dirigido pelo tucano teve nota abaixo da média tanto no Provão do Ministério da Educação como na OAB. Em outras palavras, o grande crime do Juca foi ter relatado dois fatos.

Obviamente, o que constitui “ofensa” é matéria subjetiva. Na prática, a Dona Kôroco proibiu Juca Kfouri de falar do Deputado Capez, num país democrático e de imprensa livre. O cabra tem que ver seu time na segunda divisão e ainda por cima ser vítima de deputado e juíza como esses. O Juca, que é dos meus, não cala a boca, claro. Vai lá e faz um post.

Proponho que nos solidarizemos com o Juca espalhando por aí esses dois fatos: 1) o Deputado Capez fracassou como promotor no combate à violência das torcidas, mas se elegeu deputado graças à visibilidade adquirida ali; 2) o Deputado Capez dirigiu um curso de Direito que teve nota abaixo da média tanto no Provão como na OAB. Que ele processe o universo.

Se você tem blog, ajude a divulgar. O próximo processado a gente nunca sabe quem será.

PS 1: Roubaram um Picasso e um Portinari? O Almirante traz mais detalhes.

PS 2:
Se você se interessa por política econômica, não perca a caixa de comentários daqui de baixo. Há um debate muito bom rolando ali.



  Escrito por Idelber às 05:38 | link para este post | Comentários (13)



terça-feira, 18 de dezembro 2007

Debate Biscoito x Torre de Marfim

Como contribuição minha e do Marcos Matamoros à idéia de que duas pessoas com posições políticas completamente diferentes podem ter um debate amistoso, divertido e civilizado, realizamos no dia 24 de novembro, em São Paulo, uma conversa que agora se transforma em podcast. São três arquivos de aproximadamente 30 minutos cada um. Quem tiver fôlego para ouvir tudo, nos diga aí depois o que achou:


[clique aqui para ouvir a primeira parte do podcast]

[clique aqui para ouvir a segunda parte do podcast]

[clique aqui para ouvir a terceira parte do podcast]

PS: Agradecimento especial ao mestre Fabio Sampaio pela ajuda na parte técnica.



  Escrito por Idelber às 16:30 | link para este post | Comentários (109)



sexta-feira, 14 de dezembro 2007

Delete essa delivery, ou, yéndose por las ramas con Aldo Rebelo, perdido no chemin des écoliers: Notas sobre a Weltanschauung albanesa

Em meio a todo o auê pela queda da CPMF, passou quase desapercebida a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de uma das maiores demências já concebidas na história de Pindorama. Trata-se do projeto do deputado Aldo Rebelo, que determina que toda palavra ou expressão escrita em língua estrangeira e destinada ao conhecimento público no Brasil virá acompanhada, em letra de igual destaque, do termo ou da expressão correspondente em português. Essa excrescência passou pelo Senado e, sendo aprovada pelo plenário da Câmara, se transformará em lei. A punição para os infratores ainda está por ser determinada.

O projeto é uma tentativa de proibir o uso de termos estrangeiros no Brasil. Parte de uma premissa completamente equivocada, a de que a “invasão” de termos do inglês “ameaça” a “sobrevivência” do vernáculo. Demonstra uma ignorância total da lingüística mais elementar, que reza que a língua evolui por processos que incluem a decantação progressiva de préstamos de outros idiomas. Revela uma visão pobre de cultura brasileira, que insiste em acreditar que ela é uma coitada que precisa de defensores e guardiões – em outras palavras, que ela não pode se misturar, pois será engolida. O deputado vive num mundo onde a Tropicália não aconteceu. Ele ainda tem medo de que a guitarra elétrica acabe com o samba. Está 40 anos atrasado.

Não é por acaso que não há um único lingüista de renome emprestando o seu apoio a essa cruzada xenófoba. O especialista John R. Schmitz, da UNICAMP, escreveu seis ensaios desmontando a baboseira. Um dos maiores lingüistas do Brasil, meu amigo Mário Perini, da UFMG, já explicou que a assimilação de vocábulos estrangeiros segue pautas próprias à evolução da língua. Alguns empréstimos desaparecem porque o referente se torna obsoleto (boogie-woogie, ban-lon), outros são substituídos por termos vernáculos (corner / escanteio, goal-keeper / goleiro) e outros são graficamente assimilados. Nem todo mundo se lembra, mas há poucas décadas sutiã era soutien; gol era goal; nocaute era knock-out. O falante hoje usa esses termos sem a menor preocupação sobre sua origem estrangeira. Se algum Aldo Rebelo tivesse sido ditador do Brasil nos anos 40, teríamos sido obrigados a dizer "porta-seios". A ironia é que não estaríamos nos sentindo nem um pouco mais brasileiros por isso. Acabo de visitar Campinas e não me consta que a língua portuguesa esteja em perigo por lá pelo fato de que bugrinos e ponte-pretanos se referem ao seu clássico como derby.

O deputado apela ao “homem simples” que, supostamente, precisaria da sua proteção. Sou de família pobre e convivi muito com “homens (e mulheres) simples”. Jamais vi algum deles preocupado com isso. Pelo contrário, no momento em que passam a se interessar por tênis, por exemplo, aprendem rapidinho o que é um tie-break. Se aparecerá ou não um termo vernáculo para substituí-lo, é questão que jamais deve ficar nas mãos de um Komintern da gramática. Sobre a língua viva não se legisla. Não se iluda: o apoio ao projeto de Aldo Rebelo não vem do “homem simples”, mas de grupos semi-fascistas como esse Movimento Nacional em Defesa da Língua Portuguesa. Quer defender a língua? Escreva bons textos, de preferência sem preconceito, xenofobia e intolerância.

Proteste contra este projeto, leitor. Escreva ao seu deputado. Recrute o apoio da sua Faculdade de Letras local, com o excelente argumento de que ela finalmente está em condições de intervir numa questão de interesse público. Converse com um lingüista. Pare a demência. Enquanto é tempo.

PS: Misturas lingüísticas são bem vindas nos comentários. Um doce para o estrangeirismo ou neologismo mais criativo.

PS 2: Obrigado, Guto.

Atualização: minha irmã Larissa, nos comentários, nos chama atenção para um livro importante, que acaba de ser publicado. O comentário merece destaque aqui no post. Eis a informação sobre o volume: “Estrangeirismos – Guerras em Torno da Língua”, da Parábola Editorial, organizado por Carlos Alberto Faraco, com artigos de Marcos Bagno (USP), John Robert Schmitz (PUC-SP, Unesp e Unicamp), José Luiz Fiorin (USP), Sírio Possenti (Unicamp), Paulo C. Guedes (UFRS).

Segue resenha do próprio Faraco: O livro é uma crítica ao raciocínio simplista, segundo o qual a língua portuguesa está sendo ameaçada pelos chamados estrangeirismos. Os autores, todos pesquisadores em lingüística e/ou professores de língua, consideram dever profissional demonstrar os equívocos e as impropriedades do projeto de lei 1676/1999 ­ sobre a promoção, proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa, do deputado federal Aldo Rebelo [PcdoB]. Aqui se encontram os principais argumentos contrários ao projeto de lei, a começar pela crítica radical à concepção de língua ali adotada. Alguns textos rebatem os apelos patrioteiros do deputado e todos eles trazem farta exemplificação da dinâmica histórica que atravessa os modos como os falantes gerem o funcionamento do léxico de sua língua, o que por si só já é motivo para a dispensa de tutores, censores e guardiães de um ideal de língua que ninguém pratica. Ao mesmo tempo, o livro ultrapassa e supera o projeto, ao defender que a língua não aceita mordaça, nem se deixa domesticar por mera pirotecnia legislativa. O discurso desse livro se faz a muitas vozes, todas unânimes na afirmação de que a língua muda para atender às necessidades de seus falantes e de que é impossível regulamentar a língua humana, porque a variação é inerente às línguas e ninguém até hoje conseguiu reverter essa dinâmica.



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (72)



quinta-feira, 13 de dezembro 2007

A OTAN e suas atividades terroristas

hoita.jpg Há dois anos, o respeitado historiador suiço Daniele Ganser publicou um livro assombroso. Produto de anos de pesquisa, NATO's Secret Armies: Operation Gladio and Terrorism in Western Europe documenta quase 50 anos de envolvimento da OTAN, em coordenação com a CIA, o Pentágono, o serviço secreto britânico MI6, o serviço secreto israelense Mossad e as polícias secretas de uma série de estados europeus na manutenção de exércitos clandestinos e terroristas em toda a Europa Ocidental. Caracterizada em 1990 pelo jornal britânico The Times como “coisa que parece saída de romance policial”, a operação Gladio (“espada”, em italiano) incluiu assassinatos seletivos, tortura, intimidações e uma série de atentados de terroristas cometidos com o objetivo explícito de incriminar forças políticas de esquerda na Europa. A documentação apresentada por Ganser é impressionante.

Ganser demonstra que a OTAN comandou uma rede clandestina que operava em 18 países: EUA, Reino Unido, Itália, França, Espanha, Portugal, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Grécia, Turquia, Suécia, Finlândia, Suiça e Áustria. Na Alemanha, ela recrutou ex-oficiais da SS. No capítulo dedicado à Itália, Ganser recopila a documentação que prova que o atentado de Peteano, que sacudiu o país em 1972 e foi atribuído à esquerda, na verdade havia sido cometido por um militante de um grupo de extrema-direita. Até aí nada novo, pão com manteiga. No entanto, o que a pesquisa de Ganser demonstra é que esse grupo (Ordine Nuovo) atuava em estreita colaboração com os exércitos clandestinos mantidos pela Organização do Tratato do Atlântico Norte. Ganser também mostra a cumplicidade da OTAN com os atentados de 1954 no Egito, inicialmente atribuídos aos muçulmanos, mas de responsabilidade direta de agentes do Mossad, naquele que ficou conhecido como o caso Lavon.

Não foram poucas as vítimas dessa gigantesca operação terrorista comandada a partir das altas esferas da OTAN (leia-se: CIA, Pentágono, MI6). Só na Itália, foram, no mínimo, 491 mortos entre 1969 e 1980, boa parte deles vítimas de assassinatos ou ataques realizados com o objetivo de incriminar o poderoso Partido Comunista Italiano. Essas brigadas clandestinas também tiveram papel central no apoio a golpes de estado de direita na Grécia e na Turquia, na eliminação de adversários políticos na Espanha e Portugal e no assassinato de Eduardo Mondlane, líder independentista moçambicano. Mesmo a operação já sendo de conhecimento público há anos, somente na Itália, na Bélgica e na Suíça houve investigação formal sobre sua história.

O blog recomenda enfaticamente a leitura de uma entrevista com Daniele Ganser e a visita à sua página pessoal. Agradece ao amigo espanhol Jon Kepa pela dica e deixa uma singela pergunta: em meio às incontáveis resenhas de livros advindos dos Think Tanks conservadores norte-americanos, alguém viu uma única menção a esta obra na nossa imprensa?

PS: Excelente blog acadêmico, vale a visita: Que cazzo.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (14)



quarta-feira, 12 de dezembro 2007

Rodrigo Maia e a tentativa de reciclagem do PFL

Chega a ser patético ver a UDN, digo ARENA, ou seja PFL, quer dizer DEM, tentar se reciclar como “democrata” e “liberal”. O seu presidente, Rodrigo Maia, assinou o último mico, um artigo na Folha em que uma boa dose de má fé se mistura a uma boa dose de confusão. Para benefício dos sem-UOL, reproduzo trechos do artigo em itálicos e depois comento:

Democratas, sim, e daí?
RODRIGO MAIA

A QUESTÃO não é nova, mas aflorou com intensidade nos últimos dias, quando as firmes posições dos Democratas -quanto à fidelidade partidária e à batalha contra o achaque dos impostos, agora via CPMF, que sustentamos desde o princípio- levaram ao reconhecimento de que há um novo ciclo no partido, abrindo espaço para novas lideranças e claros delineamentos políticos na nova democracia brasileira.

O deputado mente ao dizer que sua turma é contra o “achaque dos impostos, agora via CPMF .... desde o princípio”. O “princípio” da CPMF se remonta a 24 de outubro de 1996, lei número 9.311, patrocinada pelo governo da coalizão PSDB/PFL. Qual “princípio”, cara-pálida?

O fato de os Democratas assumirem abertamente a condição de liberais, no sentido de origem, afirmarem sua ideologia e seus compromissos fora do transnoitado embate entre os tradicionais de esquerda e de direita assustou alguns e os animou a abandonar suas tocas para lançar dúvidas quanto a nossas afirmações de democratas sem adjetivos. Pois bem, cartas à mesa. Os Democratas são liberais, sim.

Mentira, deputado. Os liberais são, por definição, favoráveis em quaisquer circunstâncias à democracia representativa, às eleições diretas, à liberdade de organização partidária. O seu partido tem suas origens na ARENA e seus integrantes são, na esmagadora maioria, ex-apoiadores da ditadura militar. Qual é o sentido de “origem” da palavra “liberal” que incluiria apoiadores de um golpe militar contra um governo legítimo? Entendeu agora por que quase ninguém acredita em vocês? Espelhe-se nos direitistas americanos e tenha a coragem de declarar o que é, deputado. Outra coisa: o PFL não anda assustando ninguém mais. “Assustar” é um verbo que vocês não andam em condições de usar sem cair no ridículo.

Nossos compromissos começam com a liberdade que só se afirma num Estado democrático de Direito e com garantias de mínimos sociais. Quando nos caluniam cavilosamente, não analisam nossas ações, mas, quem sabe, se assustam com os espaços que temos ocupado.

Quais espaços? A única vez em que vocês lançaram um candidato a presidente da república, em 1989, tiveram menos de 1% dos votos, com Aureliano Chaves. Nas últimas eleições, perderam até mesmo a sua tradicional base, a Bahia, numa derrota acachapante do seu maior coronel, Antônio Carlos Magalhães. Seu reduto eleitoral, o Nordeste, vem sendo carcomido pelo sapo barbudo. Vocês têm a prefeitura de São Paulo graças a uma renúncia do eleito, que não cumpriu a promessa de terminar o mandato. Com a exceção da prefeitura do Rio de Janeiro, a quais “espaços” mesmo o sr. se refere, já que os seus votos só vêm minguando?

Para ser preciso tecnicamente na nossa autodefinição: professamos o "empenho pelo direito à liberdade de cada indivíduo e a manutenção da dignidade humana", independentemente da diversidade cultural, social e econômica.

Preciso tecnicamente? Que precisão é essa? Demonstremos a imprecisão, deputado: encontre uma força política que não declare ser a favor do “direito à liberdade de cada indivíduo e a manutenção da dignidade humana” e depois tente sacar alguma conclusão sobre como sua retórica é vazia.

Lutar pela democracia -como valor, além de sistema- exige essa permanente reflexão sobre tática e estratégia, da qual não podem escapar de julgamento os que negaram o voto a Tancredo Neves (o que redundava num presidente do regime que se superava) e negaram a sua assinatura na Constituição de 1988, que hoje lhes dá as garantias que não tinham.

Vocês jamais lutaram por democracia nenhuma, deputado. Solaparam-na de 1964 a 1985. Ninguém “negou voto” a Tancredo Neves porque “voto” pressupõe a ida de eleitores às urnas e Tancredo jamais foi candidato a presidente pelo voto. Acredito que o sr. se refira aos que se negaram a participar do colégio eleitoral implantado pela ditadura militar, não é? Pois bem, naquele momento havia uma emenda constitucional estabelecendo o voto, emenda derrotada no Congresso com inestimável contribuição do grupo político no qual se origina o seu partido. Segundo: É verdade que a Constituição de 1988 nos dá garantias que não tínhamos. Por que será que não as tínhamos mesmo? Terá algo que ver com o fato de que a sua turma, aliada aos militares, havia implantado um regime de terror no Brasil?

Todos os partidos orgânicos brasileiros -se comparados com os europeus- estão em sua formação com menos de 30 anos das instituições democráticas implantadas. Afirmamos nossas utopias -não como o inalcançável, mas como um processo permanente de aperfeiçoamento partidário, político e institucional.

Decida-se, deputado. Ou é utopia, ou é um processo permanente de aperfeiçoamento. As duas coisas, sinceramente, não dá. Aconselho uma consulta ao dicionário sobre o sentido da palavra “utopia”.

Os donos da verdade já produziram as catástrofes de que todos se lembram.

Com certeza nos lembramos. Torturas, mortes, seqüestros e terror entre 1964 e, pelo menos, 1979. Posteriormente, quebradeira do país, pauperização e dilapidação do patrimônio público entre 1994 e 2002. Lembramo-nos, certamente. Que tal o sr. se lembrar de qual era a turma que então se encontrava no poder?

Depois não entendem por que continuam levando surras nas urnas. Faço minhas as palavras de alguém insuspeito de ser esquerdista, o Marcos Matamoros: a direita brasileira anda tão perdida que seu mais novo herói é um cara que pinta os cabelos e escreve novelas. Quando a alternativa é Rodrigo Maia, até Aguinaldo Silva parece um estadista.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (30)



domingo, 25 de novembro 2007

Cala-boca morreu em Ayacucho

Os tapuias que celebraram com tanta ênfase o pito do Rey Juan Carlos em Hugo Chávez talvez tenham se apressado um pouco. Vejam aqui um curioso desdobramento do caso. Edmílson, volante do Barcelona e pentacampeão do mundo pela Seleção Brasileira, deu na semana passada uma daquelas declarações completamente anódinas e típicas de jogador de um time que passa por um mau momento. Disse que nem todos estão se empenhando e que há “ovelhas negras” no vestuário. Bastou para que o diário Mundo Deportivo estampasse a foto do jogador com o já banalizado bordão ¿por qué no te callas?.

cal.jpg

A relação entre os dois cala-boca merece ser explorada. A colonização espanhola na América Latina tinha uma peculiaridade desconhecida em outras latitudes, a instituição do requerimiento. O dito cujo era um texto que os colonizadores espanhóis liam diante dos indígenas (em espanhol, obviamente), advertindo-lhes de que aquelas terras agora pertenciam, com a graça de Deus, à sua majestade o Rei de Espanha, e que eles deveriam se render e converter-se ao catolicismo ou aceitar ser dizimados. O requerimiento era, portanto, um ato de fala, um speech act no sentido que dão ao termo Austin e Searle: um enunciado lingüístico que não comunica nada, mas opera sobre a realidade (o exemplo de Searle é o padre/ juiz que enuncia eu vos declaro marido e mulher: frase que não é comunicação de algo que está acontecendo na realidade, mas confecção dessa própria realidade).

Há mais coisas em comum entre o requerimiento e o ¿por qué no te callas? que sonham os nossos tupinambás que o celebraram. A maioria das reações ao evento foi uma tremenda inversão de valores: chegou-se a dizer que o rei da Espanha havia dado uma “aula de democracia” ao “ditador” venezuelano. Dá para imaginar uma inversão maior? Um monarca ungido por Francisco Franco, que nunca recebeu um voto na vida, interrompe com um ¿por qué no te callas? um presidente que já venceu meia dúzia de eleições internacionalmente monitoradas, e que reclamava da participação criminosa da Espanha numa tentativa de golpe de estado na Venezuela. Este cala-boca é interpretado como aula de democracia? Curiosa concepção de democracia.

Hugo Chávez é um chato intragável, eu reconheço. Sim, eu preferiria compartilhar uma Westmalle com Zapatero ou com o Rei Juan Carlos, antes de fazê-lo com Chávez. Mas não é disso que se trata. Trata-se de alertar os compatriotas tamoios a respeito de uma obviedade: comemorem o cala-boca imperial no moreninho venezuelano, e o próximo moreninho silenciado será você.

O uso do pronome informal -- por qué no te callas -- com verbo em modo imperativo, em situação onde não há informalidade pressuposta entre os interlocutores, é agressiva, grosseira e mal-educada. Chefes de estado se tratam por usted. É o pronome do respeito. Ao escolher a forma , o monarca ungido por Franco deixou muito claro o fato de que não respeitava o seu interlocutor como um igual, fato pouco observado pelos aimorés que celebraram o cala-boca como "aula de democracia".

Até onde sei, nem Zapatero, nem Aznar, nem Juan Carlos desmentiram a acusação de Chávez – a de que a embaixada espanhola transformou-se em centro de tramóia golpista contra um governo venezuelano legitimo. Por que não celebrar como aula de democracia o fato de que o presidente legitimamente eleito derrotou o golpe e depois teve a oportunidade de confrontar os chefes dos estados que estimularam o golpe com a acusação clara, cara a cara, não desmentida por nenhum dos ibéricos? A peroração de Zapatero sobre a possibilidade de se "discrepar radicalmente" sem "desqualificar" o interlocutor não poderia ser mais falsa. É falsa ética e historicamente. A possibilidade de se discrepar de forma suave e bem educada é, historicamente, prerrogativa dos dominadores. Os dominados, quando conseguem falar, não costumam ser muito suaves.

Gosto da Espanha. Madri está no meu top 5 mundial, devo tudo o que tenho ao meu aprendizado de seu idioma e sou muito bem tratado quando vou lá. Mas o uso do cachimbo deixa a boca torta. É difícil encontrar acadêmicos espanhóis – e cito minha área porque a conheço melhor -- que não entendam a “colaboração” com a América Latina de forma hierárquica. Na maioria dos casos, nem em colaboração pensam.

Eu, particularmente, jamais, jamais celebrarei um cala-boca espanhol – ainda mais do rei franquista, por mais elegante que seja! -- sobre um latino-americano -- ainda mais um presidente legitimamente eleito, por mais chato que seja. Cuidado, pois, com as pecinhas que nos prega o imaginário no momento da identificação.



  Escrito por Idelber às 23:59 | link para este post | Comentários (100)



domingo, 18 de novembro 2007

Tréplica de Jon Anderson a Diogo Schelp

Depois de apelar ao seu vigoroso programa anti-spam como desculpa para não ter recebido a resposta de Jon Anderson, em que o maior biógrafo de Che Guevara aceitava seu pedido de entrevista, Diogo Schelp, da Veja, enviou-lhe uma grosseira réplica em que acusava -- divertidamente -- o jornalista da New Yorker de "anti-ético" por ter divulgado a "comunicação" entre os dois. Nessa réplica, escrita para justificar a peça de propaganda insultante publicada pelo folheto semanal da Editora Abril sobre Che Guevara, Diogo Schelp também ameaçava Jon Anderson -- um dos maiores jornalistas do mundo -- com o terrível castigo de jamais aparecer de novo nas páginas da Veja. Pois bem, Daniel Lopes entrou em contato com Jon Anderson e publicou em seu blog a tréplica, em inglês, do jornalista norte-americano. Eu cheguei a traduzir dois parágrafos do texto ao português antes de ver que o Pedro Dória já o havia traduzido e publicado em seu blog. O que segue abaixo, então, é a tradução do Pedro Dória (impecável, como sempre) da tréplica de Jon Anderson, cujo original está disponível aqui.

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube, graças a você, que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez você devesse configurar seus sistema como ‘moderdo’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Você questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson



  Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post | Comentários (38)



sexta-feira, 09 de novembro 2007

Revolução Russa, 90 anos

kand_209sm.jpgFoi do cacete. Diga lá se não foi. É desses aniversários que, mesmo com dois dias de atraso, não se pode deixar de celebrar. 7 de novembro de 1917, Moscou, São Petesburgo: operários, camponeses e soldados desmontando um regime milenar, sacudindo um adormecimento de séculos.

Liberais e conservadores, diferentes em tantas coisas, coincidem na crença de que a Revolução Russa abriu um período histórico que estaria hoje definitivamente clausurado. Eles gostariam de ter certeza disso. Afirmam-no com tanta ênfase e com tanta freqüência que a gente acaba pensando que eles não tem tanta certeza assim do que dizem, que a afirmação é só uma espécie de preocupada conjura.

Não que a esquerda tenha a verdade sobre esse incomensurável evento, longe disso. Entre ela, a discussão mais comum é sobre quando a coisa começou a degringolar. 1921? 1924? 1928? 1930? Tem gente até que acha que a verdadeira traição à revolução ocorreu em 1956, depois da morte de Stalin, veja só que divertido. Alguns, mais fanáticos, insistirão que a decadência real só aconteceu mesmo em 1989. Na direita, há variações mais ou menos pobres de um mesmo exercício de automatismo histórico: os gulags de Stalin já estavam anunciados nos sovietes de 1917. Por quê? Ora, porque é sempre assim, porque não há outro caminho para a utopia socialista. Porque se assim foi até hoje, assim será para todo o sempre. Curiosa forma de imaginar a história.

Não é verdade que a a ocorrência da Revolução Russa tenha sido totalmente contraditória com o texto de Marx. É fato que ele manejou a hipótese de uma revolução que aconteceria antes nos países avançados. Mas também é certo que, na medida em que percebeu como ia funcionar a exportação da miséria e da contradição mais brutais para os países atrasados, Marx entreteve a possibilidade de que a brincadeira começasse alhures. Está tudo lá, nos escritos sobre a Índia, sobre a própria Rússia. Marx era fascinado, intrigado pela Rússia.

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Junho de 1917, congresso de operários e soldados.

Diga-se o que quiser, mas eu desconheço exemplo comparável de uma saída da letargia política, cultural e social para um período de efervescência alucinada e criativa como os primeiros anos da Revolução Russa: a mais sofisticada produção e reflexão cinematográficas da época, a criação da crítica literária moderna, transformações profundas no teatro, nas artes plásticas, na poesia. Quase que do nada, inventava-se outra experiência de organização da sociedade. Lênin, Trótski, Kolontai, Maiakóvski, Eisenstein, Malevich, Eichembaum, Jakobson: é incrível como indivíduos geniais vão aparecendo quando uma coletividade começa a se mexer. c_russian_poster.jpg

De janeiro de 1941 a junho de 1945, a URSS enfrentaria 78% das tropas nazistas alemãs e daria 13 milhões de soldados na luta contra o fascismo, fato convenientemente esquecido pelas versões hollywoodianas, americanas heróicas da II Guerra, que insistem na brutal distorção de que os EUA "salvaram" a humanidade. Ancorada na força do planejamento, a URSS daria um salto gigantesco em comparação com todos os países capitalistas -- a um custo humano imenso, claro, e nisto nossos amigos liberais e conservadores têm toda a razão.

Quem estuda com paixão o período 1917-24 na Rússia o faz apostando, talvez insensatamente, que essa tragédia humana posterior não era inevitável.

Em todo caso, tim-tim aos 90 anos daquele inesquecível barraco.

PS: Se algum erudito cinéfilo quiser ajudar a montar uma lista de filmes que retratam o período da Revolução, o blogueiro ficaria muito agradecido.



  Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post | Comentários (38)



terça-feira, 06 de novembro 2007

REUNI

Segundo dados do Censo da Educação Superior, o Brasil contava em 2005 com 176 universidades: 52 federais, 33 estaduais e 5 municipais, com um total de 1.192.189 matrículas. O setor privado respondia por 3.260. 967 matrículas em 1.934 instituições, só 86 das quais são universidades. Na pós-graduação, são 124.000 matrículas, com 9.000 doutores formados por ano. As públicas concentram 93% dos programas de pós e 97% da pesquisa feita no Brasil.

Sabedor de que havia chegado a um ponto de esgotamento o modelo dos anos 90 -- congelamento de investimentos no setor público e proliferação de matrículas no particular -- , o governo lançou o REUNI, decreto promulgado com generalidades e depois parcialmente esclarecido com diretrizes (pdf). As respostas ao REUNI até agora são uma amostra microscópica do paradoxo por excelência do governo Lula: ele se apropria de pautas de eficiência liberais. Aqueles que sempre foram ideólogos dessas pautas ficam na confusão, pois se trata de um governo visto como de esquerda (e atacado por ser de esquerda) que as implementa. Por outro lado, esperneiam os sindicatos das categorias afetadas, que eram base do partido do atual presidente na sua época de oposição. No fim das contas, o governo Lula tem conseguido derrotar -- "dobrar" -- essa resistência. São 35 ou mais as universidades que já aderiram ao REUNI, apesar dos intensos protestos da ANDES e de parte dos alunos.

Apesar de já ter lido o decreto e acompanhado parte da discussão sobre ele, não tenho opinião totalmente formada, além de:

1) me agrada a idéia de um projeto que inclua incentivos em investimentos para quem cumprir certas pautas de produtividade. Esta é a essência do REUNI; não há "punição" a universidade nenhuma com redução de verbas, nem obrigatoriedade de adesão ao programa. Não é um ataque à autonomia universitária, mas uma legítima "proposta de mercado" feita pelo estado a quem quiser aderir.

2) Não sou fã necessariamente de um dos pilares da reforma curricular proposta nas diretrizes, que é a proliferação de cursos "genéricos" (bacharelados em humanidades, artes ou ciências), como antídoto contra uma suposta "profissionalização precoce" no ensino superior brasileiro. Mas enquanto este modelo "meio norte-americano" de licenciatura for uma opção entre outras, não tenho nada contra.

3) É razoável a reivindicação dos professores de que o governo considere os alunos de pós-graduação nas contas que seriam feitas para se cumprir a meta de 18 alunos por professor (lembre-se que os alunos fazem 4, 5 cursos). Mas se o movimento docente quer entrar em combate contra as adesões, teria que apresentar argumentos mais sólidos que estes (pdf) ou estes. Não adianta lançar hipérboles.

Dito isto, é mais que legítima a lembrança de que a universidade brasileira ainda não tem o investimento que mereceria. Seria absurdo eu querer invalidar todas as críticas feitas pelo movimento docente ao decreto, mas acho que ANDES e cia. devem se preocupar com o desgaste político de apresentar argumentos que parecem carregados de corporativismo.



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (5)



sexta-feira, 02 de novembro 2007

Antonio Risério: A utopia brasileira e os movimentos negros

Eu vou ali pegar um avião, visitar essa bela cidade, a convite dessa baita instituição, e já volto. Deixo-os com uma entrevista que dá muito, muito o que pensar. É uma conversa de José Castelo com o historiador e antropólogo Antonio Risério, a propósito de seu próximo livro, intitulado A utopia brasileira e os movimentos negros. A entrevista foi publicada originalmente no Valor Econômico. Nela, Risério fala do que considera sua "solidão" no debate racial brasileiro de hoje, dividido entre, por um lado, os que negam a existência do racismo e simplesmente se recusam a reconhecer a relevância do tema e, por outro lado, os que, segundo Risério, tentam importar ao Brasil categorias raciais norte-americanas, bicolores. Aí vai a íntegra da entrevista, enviada por cortesia de meu amigo Armando Almeida.

P: Em seu novo livro, você defende a idéia de que, ao tratar da cultura brasileira, não podemos nos iludir com fantasias fáceis, novos truques ideológicos e maniqueísmos simplificadores. Você se empenha, ainda, em não fugir da questão chave posta pela idéia de uma democracia racial e cultural. Contra quais idéias dominantes você escreveu este novo livro? Em que direção vai esse caminho original que você vem nos oferecer?

R: Estou nadando, clara e decididamente, contra a maré "bem-pensante", hoje, no Brasil. De uns tempos para cá, enquanto negromestiços norte-americanos passaram a reivindicar sua "identidade birracial", aproximando-se assim do modelo brasileiro, o que está acontecendo aqui é um movimento inverso: negromestiços tentando enfiar a rica e múltipla realidade racial brasileira na camisa-de-força do padrão dicotômico norte-americano, que é essencialmente racista e foi criado pelos senhores brancos do sul dos EUA. Os EUA são o único país do mundo onde a existência de mestiços de branco e preto não é socialmente reconhecida – basta uma gota de "sangue negro" para fazer do indivíduo um "negro" (jamais um "branco", é claro). É isto o que está sendo transposto para cá, por nossos acadêmicos racialistas e agrupamentos ativistas neonegros. Trata-se de tentar transformar o Brasil num campo racial nitidamente polarizado, com base no que aconteceu na vida norte-americana, como se a experiência histórica de um povo pudesse ser simplesmente substituída pela experiência histórica de outro. Daí que o racialismo político-acadêmico de professores e militantes tenha baixado o decreto ideológico de que inexistem mestiços em nosso país. De que nossos morenos e mulatos não passam de uma perversa ilusão de ótica. É certo que a mestiçagem brasileira recebeu, no século passado, uma interpretação senhorial, mistificadora. Mas a solução não é abolir o problema, mesmo porque continuamos mestiços. Temos de saber encarar os fatos. Mestiçagem não é sinônimo de igualdade, nem de harmonia. Não exclui o conflito, o racismo. E a melhor prova disso é o próprio Brasil. É claro que nunca vivemos numa democracia racial. Mas realizamos conquistas que nos autorizam a acreditar que podemos avançar nessa direção. Que podemos realizar o mito, fazendo com que ele se encarne na história.

P: O multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma idéia muito rica e uma idéia contaminada de mal-entendidos e confusões. De qualquer modo, ela parece estar no centro dos principais debates culturais de hoje. O multiculturalismo é uma característica crucial da cultura brasileira. Mas, você mostra, nenhuma das culturas que aqui chegou conseguiu conservar sua "pureza", nesse sentido somos o país das impurezas. Que dificuldades, mas também que vantagens essas contaminações nos oferecem?

R: Minha visão é algo diferente. De um modo geral, podemos dizer que existem países multiculturais e países sincréticos. O Brasil é um país essencialmente sincrético. Não temos aqui nada de parecido com o bilingüismo paraguaio, com as divisões que detonaram a antiga Iugoslávia, com os cingaleses e tâmeis que fragmentam o Sri Lanka, com o que acontece na Nigéria e na Indonésia. Não temos conjuntos culturais fechados, ensimesmados. Aqui, apesar das crueldades da escravidão, as coisas se mesclaram em profundidade. Daí que eu costume dizer que, culturalmente, mesmos os brancos brasileiros são mais africanos do que os negros norte-americanos. Mas há, ainda, uma outra distinção. Uma coisa é a realidade multicultural de um país, outra é a ideologia multiculturalista. O multiculturalismo se opõe às interpenetrações culturais, defendendo o desenvolvimento separado de cada "comunidade" étnica, de modo que esta possa permanecer sempre idêntica a si mesma, numa espécie qualquer de autismo antropológico. Ora, nem o Brasil é multicultural, nem há lugar aqui para o multiculturalismo, a não ser que, como dizia Adam Smith, neguemos a evidência dos sentidos em nome da coerência de nossas ficções mentais. Hoje, de resto, a experiência sincrética brasileira se tornou referência para o mundo globalizado, com todos os seus encontros e atritos interétnicos.

P: Você estuda, em particular, a presença da cultura negra no cinema brasileiro e na música popular brasileira. E faz, sempre, um contraponto com o que se passa na cultura norte-americana. Por que?

R: Sublinho o assassinato espiritual do africano nos EUA. Lá – sob a pressão cruel e poderosa do poder puritano branco – as culturas africanas foram destroçadas, varridas do mapa. É por isso que não há orixás nos EUA (eles só começaram a voltar no século 20, com migrações antilhanas). Os pretos abraçaram a Bíblia. Criaram uma variante do cristianismo puritano. E como elementos, práticas e sistemas simbólicos de origem nitidamente africana inexistem na sociedade norte-americana, também inexistem na criação estética desta mesma sociedade. Dessa perspectiva, a cultura norte-americana pode ser resumida em poucas palavras: nunca ninguém fez nenhum "despacho" na cabana de Pai Tomás. O que vemos no Brasil é justamente o contrário disso. Faço o contraponto para mostrar as enormes diferenças que existem entre as experiências históricas e sociais do povo brasileiro e as do povo norte-americano, com a sua rígida separação entre um mundo cultural branco e um mundo cultural negro, coisas que são fundamentais, mas que nossos atuais racialistas político-acadêmicos não levam em consideração. Se o que aconteceu nos EUA tivesse acontecido também no Brasil, em Cuba e no Haiti, não teríamos hoje sequer vestígios de deuses africanos em toda a massa continental das Américas. Teria sido melhor assim? Não creio.

P: Você se esforça para mostrar que essa influência negra não deve ser tratada só como um elemento de formação, como um aspecto importante do passado, mas também como algo presente, e ainda, como algo que diz respeito ao futuro de nossa cultura. Que exemplos você poderia oferecer da vitalidade da tradição negra? Onde e por quem ela é anulada, e onde consegue não só sobreviver, mas se fortalecer?

R: O ponto principal é que signos culturais de origem africana fazem parte de nosso presente social e cultural. Impregnam e imantam a nossa ambiência. Por isso mesmo, não comparecem, na criação estética brasileira, como dados arqueológicos ou como relíquias salvas de um naufrágio. Pelo contrário: aparecem como produtos concretos da vivência pessoal de nossos criadores (muitos deles, negromestiços) ou, pelo menos, como coisas que existem objetivamente à sua volta. Veja a criação plástica de Rubem Valentim, que é uma espécie de Mondrian dos terreiros, a um só tempo ancestral e construtivista. Veja a obra de alguns criadores do cinema novo, a produção poético-musical de Caetano Veloso, a literatura brasileira, onde Iansã pode irromper até mesmo nas Galáxias de Haroldo de Campos. O fato é que temos a presença ancestral da África na arte brasileira de invenção. Quanto à segunda pergunta, vejo um quadro complicado. Se o candomblé se fortaleceu em meio às elites, está se enfraquecendo em âmbito popular. As massas negromestiças brasileiras estão abandonando os terreiros e aderindo às igrejas neopentecostais, que se utilizam, diabolicamente, de crenças populares e de práticas das religiões negras, como a técnica do transe. Não quero fazer profecias, mas acho que estamos caminhando para a formação de um neocandomblé, não só em São Paulo, mas também na Bahia. Um neocandomblé que se configura a partir da presença, nos terreiros, de pessoas das mais diversas cores, classes e formações culturais.

P: Apesar do prestígio do futebol brasileiro, o futebol continua a ser um tema recalcado em nossa cultura. Você não se esquiva dele e mostra como, apesar de ser um esporte da elite inglesa, ele logo sofreu entre nós uma sábia apropriação popular. Mostra, ainda, como a expansão do futebol afetou o crescimento do rádio e da imprensa brasileira, como ele se tornou produto de exportação e como fomentou uma indústria. Mas como, apesar disso tudo, nunca perdeu a liberdade e a criatividade. Em que medida a recriação ou reinvenção do futebol pelo povo brasileiro ainda é desprezada e por que? Que fatores levaram, entre nós, a uma valorização estética do futebol, a ponto de ele se tornar um "futebol-arte"? Você chega a dizer que o futebol brasileiro é "filho do barroco" – o que isso significa exatamente?

R: Não acredito que haja desprezo, hoje, por essa proeza popular de recriação ou reinvenção de um esporte inglês. Dos tempos de Mario Filho e Nelson Rodrigues para cá, cresceu e muito, por sinal, a legião dos que examinam, estudam e buscam entender a escola brasileira de futebol. E não vejo como situá-la fora da matriz barroca que está na base mesma de nossa formação e vem marcando há séculos, de uma ponta a outra, tanto em plano "erudito" quanto no "popular", a criação cultural brasileira, da arquitetura ao desfile das escolas de samba. Visões do barroco como arte do excesso, como criação lúdica e sensual, como artesanato feito para enfeitiçar os sentidos definem perfeitamente o futebol brasileiro, da folha seca de Didi ao lance desconcertante de Ronaldinho Gaúcho, ou da bicicleta de Leônidas às pedaladas de Robinho, passando pelo deus Pelé. É o gosto pela curva, pelo floreio, pelo efeito, pela voluta, pela estetização extrema de cada jogada, pela surpresa. O povo brasileiro reinventou o futebol com a inteligência corporal específica de sua formação etnocultural. Na base, o samba e a capoeira. O ritmo e a malandragem. Não é por acaso que usamos uma mesma palavra – e de origem africana: ginga – para falar de sinuosos movimentos corporais de sambistas, capoeiristas e jogadores. E esta recriação se deu em horizonte barroco. É por isso que, acompanhando alguns estudiosos, chego a falar, sinteticamente, de uma escola barroco-mestiça de futebol.

P: Que marcas a escravidão, e também o movimento abolicionista que a enfrentou, deixam, ainda hoje, na cultura negra brasileira? Em que medida esses não são apenas eventos do passado, mas marcas que ainda hoje se disseminam, com força, na vida brasileira? Como se comportam, hoje, nossos movimentos negros em relação a esse passado que se perpetua no presente?

R: Raramente nos lembramos de que durante séculos, no Brasil, ninguém foi contra a escravidão em si. Os tupinambás praticavam a escravidão, assim como os portugueses e os africanos. Quando um determinado grupo negro se rebelava contra a sua situação, travava uma luta específica: queria se libertar do seu cativeiro, mas não hesitaria em escravizar outros grupos. Havia escravos em Palmares. E os negros malês, que se sublevaram em 1835, pretendiam escravizar os mulatos. Ou seja: do século 16 ao século 19, fomos todos escravistas. Foi com o movimento abolicionista que, pela primeira vez em nossa história, a escravidão como sistema foi colocada em questão. E, também pela primeira vez, formou-se uma ampla aliança de classes e cores, em função do combate ao sistema. Negros – livres e escravos – participaram ativamente do processo. Nesse sentido, o 13 de Maio (ainda hoje, apesar de tudo, a nossa maior revolução social) foi, também, uma vitória negromestiça. E penso que nossos atuais movimentos negros não deveriam estigmatizar a data, desprezando a longa e dura luta vitoriosa de seus antepassados. O problema é que as nossas elites impediram a realização completa do projeto abolicionista, que visava à integração final do negro na sociedade brasileira. Não promoveram as reformas moral, educacional e agrária que eram reivindicadas pelas lideranças abolicionistas. Nabuco dizia que acabar com a escravidão não bastava: era preciso liquidar todos os vestígios do regime. E isto não foi feito. É por isso que a maioria dos negromestiços vive ainda no subsolo da sociedade brasileira. E que ainda estamos lutando para completar a obra apenas iniciada pela Abolição. O que não acredito, ao contrário dos movimentos negros, é que a luta tenha de se dar, necessariamente, por linhas étnicas rígidas. Pela adoção do modelo racial norte-americano. Temos de pensar o Brasil por nossa própria conta e risco – ou os equívocos continuarão se sucedendo vertiginosamente. É mais difícil, mas, certamente, menos enganoso e falsificador.

P: Você trata da existência de uma "nova história oficial brasileira", que se distingue da velha história oficial, que era tramada na perspectiva dos colonizadores. Você chega a dizer que ela é "uma espécie de contra-história brasileira". Como ela se define? Em que medida ela construiu novos dogmatismos e novos clichês? Que aspectos e contradições de nossa história essa "contra-história", formulada nos anos 70, tratou, ela também, de dissimular e esquecer? Em que medida ela apenas substituiu mitos antigos por mitos novos?

R: Existe a velha história oficial do Brasil, que se institucionalizou a partir da obra de Varnhagen e da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E existe a nova história oficial do Brasil, que nasceu na década de 1970, invertendo os sinais algébricos da "velha", e se institucionalizou mais recentemente, gravando-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Falo de "contra-história" porque ela pouco mais é do que uma inversão de sua antecessora. Se a "velha história" celebrava a colonização lusitana, a "nova história" celebra irrestritamente negros e índios, condenando o colonizador português ao fogo do inferno. De uma parte, ela é a história do índio eco-feliz e do negro gloriosamente empenhado na luta por sua liberdade. De outra, é a história do colonizador branco como um animal invariavelmente estuprador e assassino. De um maniqueísmo absoluto, reduz a história do Brasil, que é altamente complexa, a um filme de bandido e mocinho, idealizando os dominados e caricaturando os dominadores. Daí que passe bem ao largo de coisas como o caráter essencialmente agressivo e belicoso da cultura tupinambá ou do fato de que os nagôs vieram parar aqui porque foram vendidos aos brasileiros pelos reis do Daomé. Enfim, é uma história de povos-anjos e povos-demônios, que converte os nossos antepassados em fantasias a-históricas. E, assim, não faz mais do que substituir mitos antigos por mitos novos – ou mentiras surradas por mentiras recentes. Se quisermos de fato nos conhecer, temos de superar esse primarismo "rousseauniano", feito sob medida para debutantes mentais.


P: Contrariando a idéia dominante, você faz em seu livro uma aproximação estreita entre o Brasil e Cuba. O fio de ligação principal é a santería, a religião dos orixás, e, em particular, a figura de Exu. A maior parte dos brasileiros tende a ver Cuba como um país atrasado, parado no tempo, e imobilizado sob o peso de um regime de exceção. Que elos secretos, ainda assim, seriam esses que nos unem a Cuba?

R: O traço de união entre o Brasil e Cuba é a África. Em termos históricos, genéticos e culturais. Costumo dizer que Cuba foi uma Bahia tardia e, ao mesmo tempo, mais avançada. Mais tardia porque o apogeu da economia açucareira cubana aconteceu no século 19, quando os canaviais baianos se encaminhavam para a decadência final. Mais avançada porque o que se implantou lá foi um parque açucareiro moderno, efeito e causa da chamada "revolução agrícola" cubana. Nessa época, as populações negras do Brasil e de Cuba experimentaram uma mudança notável. Os bantos estavam desde o início em ambos os lugares. Mas a revolução agrícola em Cuba e o estabelecimento de nexos comerciais diretos entre o Brasil e o golfo do Benim, na África, trazem para os nossos países levas e mais levas de iorubanos – chamados "nagôs" no Brasil e "lucumís", em Cuba. E os iorubanos vão marcar profundamente e para sempre as duas regiões, irmanando-as. Isto é muito claro no campo da produção cultural. Uma antropologia das formas estéticas no Novo Mundo mostra com clareza a presença africana, sobretudo banto e nagô (ou lucumí), nas criações brasileiras e cubanas. Antes que "hacienda" de Fidel Castro, Cuba é, mais profundamente, terra de Iemanjá e Xangô. Como a Bahia.

P: Como você se sente e se vê no cenário cultural brasileiro de hoje? Quais são seus principais interlocutores e quais são os principais obstáculos que enfrenta? Quais são, a propósito, seus novos projetos de livros?

R: No campo específico da discussão das relações sócio-raciais no Brasil, hoje, minha sensação é de isolamento. De uma certa solidão política e intelectual. Por um lado, o que temos é a velha conversa de que não existe racismo no Brasil. Por outro, o que predomina é o racialismo político-acadêmico, a militância neonegra, lendo o Brasil com lentes norte-americanas. Ou seja: por um lado, o clichê insustentável; por outro, a alienação universitária e o capachismo ideológico. Nesse último caso, não se trata de combater "idéias fora do lugar", mas de lembrar que as concepções raciais norte-americanas não são conceitos, categorias universais, mas noções "nativas", indestacáveis da experiência histórica dos EUA, que procuram injetá-las em nosso meio através de suas instituições e financiamentos de pesquisas. Além disso, o poder se comporta com excessiva reverência diante do discurso racialista. E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas. O clima, enfim, é de inibição do debate. Fico, então, com as exceções. Com a paixão da troca clara e honesta de idéias. E, portanto, com poucos interlocutores, a exemplo de Peter Fry, Eduardo Giannetti, João Santana e Caetano Veloso. Quanto a novos livros, não sei. Tenho escrito muito sobre a cidade no Brasil. Mas, no momento, quero que venha à luz este novo, "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros".



  Escrito por Idelber às 08:58 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 31 de outubro 2007

José Padilha

O diretor de Tropa de Elite, José Padilha, esteve na Folha de São Paulo e foi sabatinado, numa conversa bem conduzida por Marcelo Coelho, Gilberto Dimenstein e Bárbara Gancia. Para quem está acompanhando o impacto inédito do filme na sociedade brasileira, vale a pena conferir o vídeo da entrevista. Gostei especialmente do comentário de Padilha sobre a percepção do Capitão Nascimento como herói.



  Escrito por Idelber às 03:37 | link para este post | Comentários (8)



segunda-feira, 29 de outubro 2007

Cristina Kirchner

cristina.jpgO peronismo é o eixo central, a variável sem a qual não se entende a política argentina. A eleição de 1983, de Raúl Alfonsín (da União Cívica Radical), foi a primeira vez, em 40 anos, que o peronismo foi derrotado em eleições abertas. Primeira e última, até agora. Voltaria a sê-lo em 1999, com a vitória de de la Rúa (obrigado, dra). Mas até este domingo, a reeleição de Perón em 1952 havia sido a única vez que o peronismo havia renovado a Casa Rosada por eleições democráticas em final de mandato completamente concluído. Em outras palavras, a única vez em que o Peronismo passou as faixas democraticamente a um sucessor foi quando Perón, reeleito, entregou-as a si mesmo. (dra me corrige com razão: Menem também o fez em 1995; seu programa era tão pouco "peronista" que eu havia me esquecido). De lá para cá, a Argentina acrescentou alguns nomes à lista de presidentes depostos. Até a ditadura militar teve presidentes que renunciaram, coisa insólita para padrões latino-americanos.

O modelo argentino difere daquele do Chile que, ao longo de sua história (exceto, claro, de 1973 a 1989), consagra o tripartidarismo representado por socialistas/comunistas, democracia cristã e direita; diferencia-se também do bipartidarismo liberais/ conservadores próprio à Colômbia, ao Paraguai e à América Central; tem pouco a ver com o modelo mexicano, que é um virtual unipartidarismo construído via burocracia estatal pós-Revolução; tem também pouco a ver com a salada brasileira, que mistura períodos de ditadura militar partidarizada (1964-79) com perídos de tripartidarismo (1945-64) com épocas de explosão partidária fisiológica e confusa (1982 até agora).

Ao contrário dos partidos brasileiros, em geral, os (dois) partidos argentinos são muito representativos. Na realidade, é este o seu problema: são representativos demais. Não existe representação fora deles. Nos últimos anos, aliás, com o fracasso de alternativas que apareceram à esquerda (como o Frepaso, de Chacho Álvarez, que sumiu) e o colapso da União Cívica Radical, não existe representação fora do partido peronista (Justicialista), ponto final.

Daí que não seja má notícia a eleição de Cristina Kirchner, por mais que se possa dizer que o casal se sustenta no clientelismo que levou gente como Beatriz Sarlo a romper com o governo. As alternativas não eram animadoras: a segunda colocada, Elisa Carrió, tinha posições “à esquerda”, mas era uma espécie de Heloísa Helena de São Tomé das Letras, uma “engajada” que chegou a dizer que falava com Deus (por mais coincidência programática que eu tenha com alguém, jamais votaria em quem diz falar com Deus. Acreditar e pedir, tudo bem; falar com, de jeito nenhum. Pessoas que falam com Deus são perigosas). Roberto Lavagna, versão mais tecnocrática do mesmo pacto que elegeu Kirchner, não conseguiu o segundo lugar; apanhou até da esquerdona maluca. A direita argentina, agrupada em torno a López Murphy, havia tido 17% na eleição anterior, agora despencou para 1,1%, percentual que não leva dito cujo nem mesmo ao Congresso.

Pelo menos em dois sentidos faz muita diferença ter Cristina e não Néstor (daí minha alegria moderada com esta eleição): é provável que Cristina esteja mais distante de Chávez do que esteve seu marido. Mais próxima de Lula e até, em algum sentido, dos EUA. O que, quem sabe, talvez não seja ruim. Por outro lado, é significativo que seja uma mulher a assumir o poder. Cristina não é a primeira, claro, mas María Estela Martínez de Perón entre 1974 e 1976 foi menos uma presidente que um frango no abatedouro. Vale a pena apostar que a história não se repetirá, o que já é alguma coisa.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (16)



sexta-feira, 26 de outubro 2007

A sociedade brasileira está mais polarizada?

O tema do post de hoje me foi sugerido por “ Identidades em fúria”, texto publicado pelo Marcelo Coelho na Folha de São de Paulo de quarta-feira. Marcelo faz um diagnóstico da situação atual da sociedade brasileira que, segundo ele, estaria excessivamente polarizada e cheia de debates cada vez mais violentos. Para Marcelo, os blogs teriam alguma responsabilidade nisso. Já que o link ao UOL é fechado para assinantes, transcrevo um trecho longo do texto e comento logo depois:

A vontade de discordar tornou-se mais forte do que a de chegar a um consenso. É que as manifestações, os artigos, as entrevistas que ultimamente têm aparecido na esfera pública estão perdendo, a meu ver, o caráter geral, propositivo, civil que deveriam ter. Tornaram-se desabafos, manifestações de impaciência, de exasperação.

Mutatis mutandis, o "cansei" das elites é também o "senta o dedo" do capitão Nascimento, ou não sei que grito de guerra do gangsta rap em versão adaptada para a periferia paulistana.

Não se trata de alternativas políticas em confronto, nem mesmo de expressão de diferentes pontos de vista subjetivos: a forma dos debates, das polêmicas em curso, tem sido mais e mais calcada na questão das identidades sociais do que na das propostas políticas.

É como se importasse menos dizer "o que eu quero" e mais "quem eu sou". E a posição de cada um -se é negro, branco, pobre ou rico- conta mais do que o que cada um diz.

Faço essa avaliação sem querer exagerar no pessimismo. Na verdade, seria estranho que numa sociedade tão desigual todo debate transcorresse em clima de chá das cinco. Muitos setores que até recentemente não tiveram acesso a meios públicos de expressão conseguem, hoje, se fazer ouvir: internet, câmeras digitais, centros culturais estão ao alcance de mais pessoas, e não haverá de ser sem raiva o recado que têm a transmitir.

Ao mesmo tempo, entretanto, diminuiu o leque das alternativas políticas, das respostas ideológicas para os problemas a que se dá expressão. O resultado é uma espécie de radicalismo sem rumo, de extremismo em striptease, de terrorismo confessional, de provocação via computador.

Durante as eleições presidenciais o caso ficou bem claro: nos blogs e nos e-mails, adeptos de Lula e de Alckmin se entredevoravam com radicalidade assustadora; eram pouco perceptíveis, entretanto, as diferenças programáticas entre os candidatos. Mas um era um, e o outro era o outro; já era o bastante para ninguém se entender.

Nisso -numa questão de identidades, não de alternativas- parecem resumir-se muitas das polêmicas em curso. Se cada envolvido, narcisisticamente, procura apenas afirmar-se onde está, é natural que não se chegue a lugar nenhum.

Trascrevo o texto porque concordo, na essência, com ele. Mas também concordo com o comentário feito pelo Arranhaponte no blog do Marcelo, pondo o dedo na ferida: A exasperação identitária pode ser um bom sinal, de que o debate fugiu ao controle das elites pensantes, e de que a democracia se aprofunda. Tem um preço em qualidade, é claro, mas ganha-se em representatividade . A dúvida que move o post de hoje – e sobre a qual eu peço a opinião do leitor – é se a sociedade brasileira está mais polarizada do que era antes, ou se a democratização dos meios de publicação está só expressando mais fielmente uma polarização que sempre existiu. Acho que o Arranhaponte disse uma coisa certa: talvez isso não seja ruim, no final das contas. Uma leitora do Marcelo criticava a “ombudsmanização” dos meios de comunicação pelos blogs, coisa que eu acho extremamente positiva. Sempre me espanto quando vejo jornalistas queixando-se de que estão sendo “censurados” quando são criticados, como se toda crítica fosse um chamado ao silenciamento. Lembro-me, por exemplo, da reação ao artigo do Janine Ribeiro quando do assassinato do garoto João Hélio no Rio de Janeiro. Não conheço Janine pessoalmente, mas sei que é uma pessoa afável, cordata. A julgar pelo seu texto seguinte, posterior à polêmica, ele parece ter ficado extremamente assustado com a reação que provocou. Mas fica a pergunta: não seria esse choque o sintoma de um aprofundamento da democracia? Não estaria aí um material sobre o qual a grande imprensa deveria refletir?

Sempre achei que uma das pragas do Brasil é a mitologia da cordialidade, essa espécie de pacto do compadrio que escamoteia diferenças, foge da polêmica, mascara tensões com um tapinha nas costas. Os blogs, de alguma forma, dão vazão a essas tensões mascaradas pelo homem cordial. Eu acompanho de perto a blogosfera argentina, e os debates por lá acontecem com uma violência que fazem a pancadaria pré-eleitoral aqui do Biscoito parecer brinquedo de criança. Por lá eu nunca vi ninguém reclamar de que está sendo “patrulhado” -- termo que, aliás, nem parece ter equivalente exato em espanhol, já que o verbo patrullar não chegou a migrar do terreno policial para o terreno metafórico, discursivo, no qual nós o utilizamos em português.

Por outro lado, o Marcelo Coelho parece ter razão quanto à polarização cada vez mais aguda da sociedade brasileira. É meio assustador ler blogs que falam de “varrer os petralhas do mapa”. Posso até ter dado minha contribuição a essa polarização, mas o ótimo motor de busca do blog não registra nenhuma ocorrência do termo “tucanalha”, por exemplo. Em todo caso, o assunto é chave e merece ser debatido. Vocês aí com a palavra.



  Escrito por Idelber às 06:19 | link para este post | Comentários (40)



quarta-feira, 24 de outubro 2007

Monica Weinberg e suas “pesquisas”

A Revista Veja publicou, em sua penúltima edição, uma entrevista até muito boa com o Ministro da Educação, Fernando Haddad (obrigado por reproduzir, Tão). Nela, a jornalista Monica Weinberg demonstrou mais uma vez que mente sempre que usa a palavra “pesquisas”. Em edições anteriores da revista, ela já havia se referido a “pesquisas” que “provam” (acreditem!) que produtos com fertilizantes e agrotóxicos são tão saudáveis como os orgânicos; já havia mentido sobre Cristovam Buarque; já havia mentido sobre as escolas do MST.

Na entrevista com Haddad, no entanto, ela se supera. Num dado momento, Monica Weinberg pergunta:

O governo estabeleceu um piso salarial para os professores, mas pesquisas internacionais mostram que o aumento de salário tem muitas vezes efeito zero sobre a qualidade de ensino...

Sim, leitor. É isso mesmo o que você leu. A jornalista Monica Weinberg afirma que “pesquisas internacionais” mostram que o aumento de salário dos professores não tem efeito sobre a qualidade de ensino. A citação é literal. Conhecedor das pesquisas – estas sim, sem aspas – de J.Stonge, C. Gareis e C. Little e também das de Lisa Banicky (pdf), que demonstram abundantemente a relação entre estes dois fatores, eu convido os leitores do blog a desafiarem a jornalista, enviando-lhe o link deste post: aponte-nos uma só pesquisa que mostre que “o aumento de salário tem muitas vezes efeito zero sobre a qualidade de ensino”.

Só para lembrar, cara jornalista, “pesquisa” quer dizer: coleta e organização de dados, explicitação de metodologia, dedução de conclusões e publicação dos resultados em periódicos ou monografias avaliados pelos pares. Não precisa ser "pesquisas". Mostre uma só. No singular. Quero ver.

PS: Excelente artigo na Boston Review sobre mais uma faceta do desastre americano no Iraque: a tragédia dos refugiados.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (44)



quarta-feira, 10 de outubro 2007

Tropa de Elite, de José Padilha

rio_tropa01.jpg Atenção: esta resenha contém "spoilers".

Tropa de Elite é o tema da vez. Assisti e achei um filmaço – com algumas simplificações bem brutais, sem as quais ele teria sido ainda mais efetivo no que quer fazer. Mas é um filmaço. Em primeiro lugar, como filme apresentado do ponto de vista de um policial não corrupto, de batalhão especial, que acredita sinceramente no que faz, Tropa de Elite é uma mui bem vinda novidade na cinematografia sobre o tema. Há um debate acontecendo (os links vão todos ao final), e seria muito ruim que ele se reduzisse a uma torcida organizada do Capitão Nascimento, à direita, e uma rejeição simplista, à esquerda – o filme é muito mais rico.

Acusa-se o filme de ser manipulador e maniqueísta. As duas acusações são falsas. Em primeiro lugar, a beleza de qualquer arte narrativa é criar um narrador “manipulador”, ou seja, uma voz crível o suficiente que nos leve, nos convença, ora, a sair do mundo real duas, ou dez, horas e entrar nesse mundo alternativo. Dostoiévski fazia isso: carola, czarista e caretão, imaginava protagonistas rebeldes que convenciam qualquer anarquista ou revolucionário que lesse aquilo. Padilha cria o Capitão Nascimento, chefe de uma ilha de credibilidade num universo de policiais que recebem propina de traficante, policiais que trasladam cadáveres para adulterar estatísticas, policiais que saqueiam as viaturas que usam a trabalho, oficiais que exigem propina de qualquer soldado que vá tirar férias. Só esquecendo 70% do filme é possível lê-lo como celebração da força policial. É uma autópsia da podridão. Neste mar de lama, o BOPE é o lugar do ponto de vista. É dali que se conta a história. O BOPE tortura e mata, mas não se corrompe nem assassina indiscriminadamente. Cria identificação em parte do público? Claro. O filme sanciona esse ponto de vista de forma inequívoca? De jeito nenhum. Pensar assim seria escolher não ver uma série de coisas que estão lá.

O filme é essencialmente honesto ao usar a voz em off do Capitão Nascimento como narrativa distanciada daqueles eventos. “Manipulador” no mau sentido da palavra teria sido criar uma voz em off supostamente “neutra”, “documentarizando” aquela ficção e, no fundo, repetindo a ideologia do Cap. Nascimento e do BOPE como a única possível; afinal de contas, ali ela estaria legitimada pela aura de verdade do narrador não-diegético, não participante da trama, o narrador “Deus”. Padilha faz o contrário: expõe o personagem não só na tela mas também na narração e comentário do filme. Ele está ali para ser avaliado, julgado, escrutinado também. Se o espectador abdica dessa tarefa, claro, problema dele. Há quem abdique para celebrá-lo como Rambo. Há quem abdique para condenar.

É difícil a tarefa do espectador que quer abraçar a ideologia do Capitão Nascimento, porque afinal de contas enquanto Nascimento ficou lá, foi implacável e incorruptível, mas teve que sair. Senão, provavelmente não viveria para criar seu filho. Digo que “teve que sair”, claro, porque agora ele nos narra o filme em off, já supostamente substituído por Matias, se vamos – como acho que devemos – ler simbolicamente o último tiro do filme, o tiro iniciático, de incorporação ao batalhão, que Matias desfere na cara do traficante “Baiano” (e na do espectador, já que a câmera é colocada no chão, sob a arma, convidando-nos à condição de assassinados).

Matias é o único preto do filme que não é parte da paisagem. A escolha é interessante porque toda a pendenga é a substituição do Capitão narrador, para a qual, depois do brutal treinamento, restam dois candidatos: Neto, o valente burro que termina morrendo na favela com um tiro nas costas, e Matias, que é inteligente mas está “amaciado” pelo convívio com os pequeno-burgueses da faculdade, lugar onde ele ainda utopicamente acredita que o direito e a instituição policial são sinônimos, contíguos, facilmente harmonizáveis. Nessa ingenuidade ele não está sozinho: afinal de contas, ele estuda numa faculdade onde o professor e os alunos (todos eles brancos, exceção a um mulato claro ao fundo) fazem uma inacreditável aula em que se sonha que Foucault alguma vez falou de poder em termos de aparatos repressivos de estado. rio_tropa02.jpg

Mas não cobremos exatidões francesas de filme de ficção feito num país onde um colunista da maior revista semanal afirma que, para Foucault, a loucura era uma construção discursiva (leu isso onde, Reinaldinho?). O que me incomoda nas cenas da faculdade em Tropa de Elite é a artificialidade com que todos se colocam contra Matias com argumentos simplistas sobre a polícia e a violência. Padilha estereotipa ali o discurso anti-violência policial, assim como estereotipa as ONGs, ao mostrar um diretor que já oferece a Matias material eleitoral de um senador no seu primeiro minuto de visita à sede. Forçadas de barra como estas, há algumas. O filme teria sido ainda mais poderoso se tivesse introduzido um mínimo de complexidade nos verdadeiros antagonistas de Nascimento: os burguesinhos-baseado, não tão diferentes do semi-burguês-comprimido- para-dormir que é o próprio Capitão, viciadaço em drogas farmacêuticas quando o bicho pega. É por isso que, apesar das forçadas de barra, o filme não resvala no maniqueísmo: não o permite a complexidade de seus personagens e seu olhar cáustico sobre o angu-de-caroço que é o par tráfico / segurança pública no Rio.

Inclusive a personagem de Fernanda Machado é complexa. Ela é a única mulher do filme que não é parte da paisagem. Burguesinha, gostosinha e com consciência “social”, colabora na ONG da favela de uma forma não muito diferente da que Nascimento – e depois Matias – trabalham no BOPE: com total crença no que faz. Ela cai, inclusive, do mesmo jeito que Nascimento: este descobre que é impossível se manter no BOPE e criar seu filho, ela descobre que é impossível ser burguesa de “consciência social” na favela sem colaborar com o tráfico (ou sem trair a comunidade colaborando com a polícia). Quanto acontece a aproximação romântica entre ela e Matias, o espectador sabe que está fadada ao fracasso: o único espaço em que estão unidos como iguais, a faculdade, tornou-se lugar irrelevante. A burguesinha-branca-de-esquerda e o preto-povão-em- ascensão-via-polícia (e, sonha ele, via faculdade) não podem se amar: a verdade está na favela, e ali eles ocupam espaços irreconciliáveis. É bobagem acusar a voz do Cap. Nascimento de “manipuladora” num filme em que dois mocinhos, o único preto e a única mulher, tampouco encontram caminho nenhum, romeuejulietamente fracassando na favela.

Tropa de Elite é um filmaço porque torna a posição de todo mundo desconfortável. Traz uma voz não ouvida e não a exime de contradições. É Cap. Nascimento, claro, quem nos diz ao princípio que só há três saídas para o policial no Rio: omitir-se, corromper-se ou ir à guerra. Imune à segunda, ele opta pela terceira ao longo do filme mas é obrigado a escolher a omissão quando nasce o filho. Esse momento da paternidade é lindo, diga-se. Foi ali que mais me identifiquei com ele: a omissão como gesto de amor.

É verdade que Nascimento insiste com o burguesinho encontrado na roda de fumo que foi ele quem, ao comprar drogas ali, matou a ocasional vítima favelada do tiroteio. Neste sentido, sim, o filme apresenta fortemente o ponto de vista de que é o burguesinho-maconheiro que sustenta o tráfico: mas acreditar nessa tese é acreditar que a voz do filme é a de Nascimento falando com o burguesinho, a de Matias falando com os alunos da faculdade. Eu, de novo, me recusaria a reduzir o que o filme diz ao que o personagem diz. Nascimento também é o responsável direto pela morte do “fogueteiro”, pobre que, sob tortura, denuncia a “ponte” da carga e é depois, claro, sumariamente executado pelos traficantes. Nascimento sabe que, ao extrair uma delação sob tortura e depois não oferecer proteção policial ao seu dedo-duro, ele efetivamente o matou. Vive esse remorso às vésperas de ser pai e pergunta à mãe do rapaz se era seu único filho.

Qual é a relação de causalidade mais direta? A que liga o burguesinho- maconheiro ao tráfico ou a que liga a atuação incorruptível do BOPE à morte de seus colaboradores? Colocar essa pergunta, com esse grau de complexidade, é um grande mérito do filme.

Outros links sobre Tropa de Elite:

Torre de Marfim
Marcus Pessoa
Catatau
Sérgio Lima
Artigo de Wagner Moura
Diário de um Policial Militar
Overmundo
Pedro Dória
Depoimento sobre a PM do Rio
Blog da Segurança Pública
Global Voices Online
Arnaldo Heredia
e Mary W aqui e aqui .



  Escrito por Idelber às 02:19 | link para este post | Comentários (43)



terça-feira, 09 de outubro 2007

Che Guevara, por Ricardo Piglia

Che_Guevara-07-b-py.jpg O que segue é uma tradução minha de trechos de "Ernesto Guevara, Rastros de Lectura", texto de Ricardo Piglia publicado no seu El último lector (Anagrama, 2005). O livro está disponível no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Heloísa Jahn. O artigo sobre Guevara é longo (pags. 103-38) e exibe o brilhantismo habitual de Piglia. Abaixo, algumas seleções minhas. Ao saltar algo, indiquei a elipse com reticências [...]

ERNESTO GUEVARA, RASTROS DE LEITURA

de Ricardo Piglia (tradução I. Avelar)

Há uma tensão entre o ato de ler e a ação política. Certa oposição implícita entre leitura e decisão, entre leitura e vida prática. Esta tensão entre a leitura e a experiência, entre a leitura e a vida, está muito presente na história que estamos tentando construir. Muitas vezes o que se leu é o filtro que permite dar sentido à experiência; a leitura é um espelho da experiência, define-a, lhe dá forma.

[...]

Há uma cena na vida de Ernesto Guevara à qual também Cortázar chamou a atenção: o pequeno grupo que desembarca do Granma foi surpreendido e Guevara, ferido, pensando que está morrendo, recorda um relato que leu. Escreve Guevara, nas Passagens da guerra revolucionária: “Imediatamente me pus a pensar na melhor maneira de morrer nesse minuto em que parecia tudo perdido. Recordei um velho conto de Jack London, onde o protagonista apoiado num tronco de árvore se dispõe a acabar com a própria vida com dignidade ao saber-se condenado à morte nas zonas geladas do Alasca. É a única imagem de que me lembro.”

Pensa num conto de London, “To build a fire”, do livro Farther North, os contos de Yukon. Nesse conto aparece o mundo da aventura, o mundo da exigência extrema, os detalhes mínimos que produzem a tragédia, a solidão da morte. E parece que Guevara teria recordado uma das frases finais de London: “Quando havia recobrado o fôlego e o controle, sentou-se e recriou em sua mente o conceito de afrontar a morte com dignidade”.

Guevara encontra no personagem de London o modelo de como se deve morrer. Trata-se de um momento de grande condensação. Não estamos longe de um Dom Quixote, que procura nas ficções que leu o modelo da vida que quer viver. Com efeito, Guevara cita Cervantes na carta de despedida a seus pais. . . Não se trataria aqui só do quixotismo no sentido clássico, o idealista que enfrenta o real, e sim do quixotismo como forma de ligar a leitura e a vida. A vida se completa com um sentido que se toma do que se leu numa ficção.

[....]

Há uma foto extraordinária, na qual Guevara está na Bolívia, trepado numa árvore, lendo, em meio à desolação e à experiência terrível da guerrilha perseguida. Sobe numa árvore para isolar-se um pouco e fica lá, lendo.

No princípio, a leitura como refúgio é algo que Guevara vive contraditoriamente. No diário da guerrilha no Congo, ao analisar a derrota, escreve: “O fato de que eu escape para ler, fugindo assim dos problemas cotidianos, tendia a distanciar-me do contato com os homens, sem contar que há certos aspectos de meu caráter que não tornam fácil a intimidade”.

A leitura se assimila à persistência e à fragilidade. Guevara insiste em pensá-la como vício. “Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura”.

[...]

Na história de Guevara há distintos ritmos, metamorfoses, mudanças bruscas, transformações, mas há também persistência, continuidade. Uma série de longa duração percorre sua vida apesar das mutações: a série da leitura. A continuidade está ali, todo o demais é desprendimento e metamorfose. Mas esse nó, o de um homem que lê, persiste do princípio até o final.

[...]

o outro elemento que está presente é justamente o tipo de uso da linguagem. Devemos recordar que o identifica um modismo lingüístico ligado à tradição popular. É conhecido como “Che” porque sua maneira de usar a língua marca, de modo muito direto, uma identidade. Por outro lado, o uso do “che” o diferencia dentro da América Latina e identifica-o como argentino. Jovem, em suas viagens, às vezes exagera-o para chamar a atenção e conseguir que o recebam e hospedem: sabe o valor dessa diferença lingüística. Ao mesmo tempo, o “che” funciona como identidade de longa duração, quiçá o único sinal argentino, porque em tudo o mais Guevara funciona com uma identidade não-nacional, é o estrangeiro perpétuo, sempre fora de lugar.

O uso coloquial e argentino da língua se nota imediatamente em sua escrita, que é sempre muito direta e muito oral, tanto em suas cartas pessoais e diários como em seus materiais políticos [...] A carta final a Fidel Castro está assinada simplesmente “che” e assim ele assinava as cédulas do banco que dirigia. A prova da autenticidade do dinheiro em Cuba era sua assinatura (dificilmente haverá outro exemplo igual na história da economia mundial, alguém que autentica o valor do dinheiro com um pseudônimo).

[...] Claro, Guevara não propõe nada que ele mesmo não faça. Não é um burocrata, não manda os demais fazerem o que ele só opina. Esta é uma diferença essencial, a diferença que o converteu no que ele é. Ele paga com sua vida a fidelidade ao que pensa. É semelhante à experiência dos anarquistas do século XIX, quando tentam reproduzir a sociedade futura em sua experiência pessoal. Vivem modestamente, repartem o que têm, se sacrificam, definem uma nova relação com o corpo, uma nova moral sexual, um tipo de alimentação. Propõem-se como exemplo de uma nova forma de vida.

cheleyendo.jpg

E no final de Guevara as duas figuras [o leitor e o político] se unem outra vez, porque estão juntas desde o começo. Há uma cena que funciona quase como uma alegoria: antes de ser assassinado, Guevara passa a noite prévia na escolinha de La Higuera. A única que tem com ele uma atitude caridosa é a professora do lugar, Julia Cortés, que lhe traz um prato de guisado que a mãe está cozinhando. Então – e isto é o último que diz Guevara, suas últimas palavras --, Guevara mostra à professora uma frase que está escrita na lousa e lhe diz que está mal escrita, que tem um erro. Ele, com sua ênfase na perfeição, lhe diz: “falta um acento”. Faz esta pequena recomendação à professora. A pedagogia sempre, até o último momento.

A frase (escrita na lousa da escolinha de La Higuera) é: yo sé leer. Que seja esta a frase, que ao final de sua vida o último que registre seja uma frase que tem a ver com a leitura, é como um oráculo, uma cristalização quase perfeita.

Morreu com dignidade, como o personagem no conto de Jack London.



PS: Comentários moderados, no post de hoje.

PS 2: Ainda sobre Ricardo Piglia, a quem interessar possa, deixo link de artigo meu recente, publicado em Crítica Cultural, revista acadêmica online sobre cultura feita no Sul do Brasil, com vários contatos também na América Latina (Obrigado pelo convite, Joca).

PS 3: Copiar, sem dar o link ou sequer indicar quem é o autor, um texto escrito por outra pessoa quatro dias antes, caro conterrâneo, é feio. Na internet, ao fazer essas coisas, acaba-se perdendo a credibilidade (Obrigado à Paula pelo toque e envio do link).

Atualização: O plagiário denunciado no PS número 3 decidiu fazer o mais fácil, que é apagar o post. A denúncia cumpriu sua função, pois, mas o link dado acima já está quebrado.



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (14)



segunda-feira, 01 de outubro 2007

Sobre a democracia unicameral

Este blog tem a honra de contar com um mestre, o poeta e filósofo Antonio Cícero, entre seus leitores. Uma das boas novidades da imprensa escrita brasileira nos últimos tempos é a coluna semanal de Cícero na Folha, de onde retiro um texto com cujo espírito concordo, mas com o qual eu gostaria de registrar um pequeno – mas importante – desacordo.

Escaldado pelas manifestações de indignação ante a absolvição de Renan Calheiros, Cícero nos adverte a não jogar fora o bebê junto com a água do banho: a desmoralização de alguns senadores não deve significar a desmoralização do Senado. Não devemos nos deixar iludir por promessas de democracias “diretas”, plebiscitárias, as quais terminam tornando-se sempre, de uma forma ou outra, ditaduras. Ao contrário da democracia parlamentar, onde todas as decisões são reversíveis, na democracia plebiscitária os perdedores são perdedores absolutos. O texto desenvolve estes argumentos em mais detalhes, mas esta é, me parece, a essência.

Concordo em gênero, número e grau, mas protesto contra a implícita inclusão dos unicameralistas na turma dos potenciais inimigos da democracia. Diz Cícero:

Nessas circunstâncias, é imperativo que os brasileiros que defendam uma sociedade aberta e democrática conservem o sangue-frio. Devemos resistir à tentativa açodada de convocar uma assembléia constituinte que tenha o objetivo precípuo de dar fim ao sistema bicameral. Lembremo-nos, por exemplo, que, num país de imensas desigualdades regionais, como o Brasil, um fator importante da unidade nacional é que haja uma Câmara -o Senado- em que todos os Estados da federação tenham o mesmo peso.

O trecho parece sugerir que não poderíamos contar os unicameralistas entre aqueles que “defendem uma sociedade aberta e democrática.” É verdade que a bandeira da abolição do Senado ganhou alguma (efêmera) visibilidade com a trapalhada do Senado este mês, mas também é correto que há uma parcela das forças políticas brasileiras que sempre foi defensora de um sistema unicameral. Eu me incluo nessa parcela. Acredito que uma democracia rigorosamente representativa e unicameral seria um passo na correção de uma série de distorções do sistema político brasileiro.

Não sonho – não mesmo – com democracias “diretas” e plebiscitárias. Concordo com Cícero que seus defensores não costumam ser capazes de exemplificar sua existência sem recorrer a países que, cedo ou tarde, terminaram convertendo-se em ditaduras. Mas que não se inclua a nós, unicameralistas, na turma dos que desprezam as instituições democráticas. Há uma concepção rigorosamente democrática e representativa de sociedade civil que mantém que o unicameralismo é a melhor e mais justa forma de organização do parlamento.

Em todo caso, tudo o que se pede aqui é que se escutem os argumentos dos defensores do unicameralismo sem automaticamente associá-los ao desprezo pelas instituições democráticas. São unicamerais, vale lembrar, os regimes políticos de: Portugal, Grécia, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Coréia do Sul e Suécia, entre outros. Não questiono o papel histórico do Senado em países marcados por pactos genuinamente federalistas, como os EUA. No caso brasileiro, tenho minhas dúvidas. Conheço os argumentos a favor da representação equitativa de todas as unidades da federação. Eles não me convencem, porque são contraditórios com o princípio universal da democracia, que é o de que os votos de todos os cidadãos devem valer o mesmo.



  Escrito por Idelber às 07:03 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 28 de setembro 2007

Mais um blogueiro ameaçado por político

sakamoto.jpg Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em ciência política pela USP, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos maiores conhecedores da realidade do trabalho escravo no Brasil (e há tempos recomendado cá neste blogroll), foi ameaçado de processo na tribuna do Senado Federal no dia 25 de setembro. A senadora Kátia Abreu (PFL DEM-TO), conhecida líder da bancada “ruralista”, reagiu a uma simples informação – a de que ela votou de acordo com os interesses de latifundiários flagrados no uso de trabalho escravo – com uma ameaça de processo sobre o jornalista. O discurso da senadora, como costuma acontecer nesses casos, foi um arrazoado de incorreções:

Disse a digníssima na Tribuna do Senado: Sr. Leonardo Sakamoto, dono do site Repórter Brasil, financiado por recursos públicos, como consta no Contas Abertas, o senhor recebe dinheiro público para financiar o seu site e me acusa dizendo: A Senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando Deputada Federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo esse tipo de crime e atuou contra. Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do Governo, que financia esse site irresponsável, o qual não tem crédito.

Na sua contudente resposta, Sakamoto refuta ponto por ponto:

1) Uma organização não-governamental, com diretoria e estatuto devidamente registrados, não tem dono e sim associados que elegem uma diretoria, da qual faço parte. Não sou proprietário de nada na Repórter Brasil.

2) A senadora cortou a frase que escrevi. A sua íntegra é a seguinte: "A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática". A matéria na íntegra pode ser lida clicando aqui.

Um exemplo: No dia 11 de agosto de 2004, 326 deputados federais aprovaram, em primeira votação, a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado, considerado uma das bandeiras da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A então deputada Kátia Abreu e mais nove parlamentares posicionaram-se contra. Depois disso, a PEC 438/2001 não foi colocada em votação em segundo turno devido à pressão realizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados, o que tem beneficiado os fazendeiros que utilizam mão-de-obra escrava. De acordo com parlamentares e entidades que atuam no combate ao trabalho escravo, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais atuantes para que isso acontecesse.

3) Ao contrário do que informou a senadora Kátia Abreu, eu não mamo "nas tetas do governo". Ou seja, eu não "colho benefícios financeiros ilícitos de empresa ou administração pública" (conforme o dicionário Houaiss). Essa sim é uma declaração passível de um processo por calúnia e difamação. Meu cargo na direção da Repórter Brasil não pode ser, nem é, remunerado, como manda o estatuto da entidade.

Como se lembram os que acompanharam este blog na época da campanha eleitoral, processos judiciais de senadores contra blogueiros já têm história e triste memória no Brasil. O Biscoito empresta sua solidariedade irrestrita a Sakamoto, deixa a sugestão de que os eleitores do Tocantins escrevam à sua senadora com pedidos de esclarecimentos e convida os amigos blogueiros a repercutirem a notícia.

Minha aposta é que depois da resposta de Sakamoto e do desagravo do Senador Nery ao jornalista, a Senadora Abreu não volte mais ao assunto. Mas permaneçamos atentos ao desenrolar dos eventos. Em todo caso, minha convicção é que isso só vai deixar de acontecer quando os parlamentares e membros do Executivo perceberem que a força da internet já é tal que os custos políticos de ficar ameaçando blogueiro serão altos demais para valer a pena. Com a palavra, a turma que é criativa com banners e que esteja disposta a compor uma caricatura da senadora pefelê, nos moldes do grande sucesso que foi o Xô, Sarney.

(notícia via Blue Bus via Querido Leitor)

PS 1: A Revista Bula, em parceria com o Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado da UEG/GO, pediu a 400 usuários de internet que indicassem os melhores blogs do Brasil e publicou o resultado. Com muitíssima justiça, Pensar Enlouquece ficou em primeiro. Meus agradecimentos a quem participou e votou cá neste blog.

PS 2: Belo texto do Hermano Vianna sobre hip hop (via Blog vermelho do hip hop).

PS 3: Maravihoso post da minha amiga Lucia Malla sobre a bendita readaptação do ex-expatriado.

PS 4: Aos participantes do Clube de Leituras do Borges: confirmado o tema do papo de quarta-feira. É o conto "Emma Zunz" (disponível na internet em português e no original)



  Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post | Comentários (26)



terça-feira, 25 de setembro 2007

Ufa! Mas não tem resenha

unger_left_propose.jpg Acabei de ler o livro do Ministro do Longo Prazo, o Roberto Mangabeira Unger, What should the left propose? [O que a esquerda deveria propor?]. Li não porque acompanhe Unger -- é o primeiro livro dele que leio -- nem porque esteja no campo de estudos dele, mas por pura vontade de resenhar algo diferente aqui no blog, que poderia ter alguma relevância, sei lá, para debates brasileiros.

Mas confesso que ficou impossível. Alguém aí já leu? Hermê? Catatau? Mauricio? mary w? Arranhaponte, Marcos, leram? Ju, Laura? Sergio Leo? Pedrão? Se não leram, pois leiam. Ou tentem. A geringonça está disponível inteira na internet.

Meu amigo Michael Bérubé já desmontou o livro numa resenha publicada na revista Dissent, infelizmente não disponível online. Eu não saberia como fazê-lo, sinceramente.

Claro que a última coisa que um acadêmico sério deve fazer é dar pitaco na área de outro acadêmico sério, especialmente quando este é um dos líderes da sua disciplina. Mas não resisto: não entendo, mesmo, a fama do Unger. O cara é -- não há dúvida -- um dos poucos brasileiros reconhecidos como líderes da sua disciplina em nível mundial. Não há discussão, por exemplo, sobre o tal critical legal studies (riquíssima escola de reinterpretação do direito) que contorne a obra do Unger.

Aí você lê o livro do cara que supostamente prometeria "alternativas" para a esquerda, e suspira: uai, mas que enrolação! Pelo menos foi a minha reação ao texto. Para que vocês tenham idéia, caras amigas feministas, a solução para a paulatina aniquilação do direito ao aborto nos EUA é... "criar um melhor sistema de ônibus" para transportar mulheres para estados onde o aborto é legal! Assim fica fácil, né? Dá a batalha por perdida e sugere um remendo.

E se algum leitor do blog puder me explicar -- de preferência sem xingar ninguém -- qual era a necessidade política do Lula de incoporar Unger ao ministério (era só para satisfazer José Alencar?), eu também agradeceria, visto que o Lula ficou visivelmente constrangido de tê-lo aí e chegou a avisar à Ministra Dilma: o primeiro pepino você resolve.

A resenha em português desse livro, pois, que algum de vocês aí se sinta interpelado para fazer. Seria um bom espaço para debate.



  Escrito por Idelber às 22:54 | link para este post | Comentários (52)



segunda-feira, 24 de setembro 2007

Dois silogismos de pé quebrado

Lendo alguns arautos da direita brasileira, nota-se algo curioso, que aflorou mais uma vez na polêmica sobre os livros didáticos. A direita brasileira (não toda ela, é verdade) repete insistentemente dois bordões contraditórios entre si. Os colunistas da Veja, por exemplo, deveriam se decidir:

1. Ou o Brasil é um país no qual está em curso uma perigosa doutrinação nos colégios e universidades, onde professores cripto-comunistas manipulam os jovens com conteúdo esquerdista nas aulas.

2. Ou o Brasil é um país no qual o Sapo Barbudo só tem o apoio de desdentados miseráveis que se vendem pelo prato de comida do Bolsa Família, enquanto as pessoas instruídas e bem-informadas votam com a oposição.

Acreditar nas duas coisas fica meio difícil, né? Os dois postulados, não sei se deu para perceber, são contraditórios entre si.



  Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 23 de setembro 2007

Reinaldo Azevedo, o monoglota

“I am not going to go on a graduate study program at Harvard University,”

disse Lula
hoje ao New York Times.

Tradução de Reinaldo Azevedo, no seu post das 07:17?

Falando sobre o que fará quando terminar o mandato, mandou ver: “Eu não vou para um programa de graduação na Harvard”.

Essa é a turma que se auto-declara "instruída", e faz troça do suposto analfabetismo de quem vota diferente. Agora vamos ver quanto tempo ele vai demorar para consertar, esconder o erro e fingir que não cometeu outra gafe, desta vez de primeiro semestre de CCAA.



  Escrito por Idelber às 20:02 | link para este post | Comentários (31)



sexta-feira, 21 de setembro 2007

Ali Kamel e seu mais recente delírio

Brainwashing-front.jpg Na maioria das vezes, quem grita contra lavagem cerebral ou doutrinação está julgando a inteligência alheia com o metro de que é capaz a própria. Em época de Google, falar de lavagem cerebral em 7a, 8a série – qualquer que seja o conteúdo do livro didático – é passar atestado de completa ignorância da realidade da sala de aula do século XXI, seja no Brasil ou em qualquer lado, em escola pública ou particular.

Estou completando, em 2007, 23 anos de magistério ininterrupto: só parei durante o furacão Katrina. Já ouvi reclamações, algumas, de alunos: por excesso de leitura, por excesso de rigor na correção, por marcação gramatical cerrada. Mas mesmo estando algumas milhas à esquerda de 95% do meu alunado, nunca ouvi reclamação por “manipulação”, proselitismo político ou coisa que o valha– e aqui nos EUA temos avaliações anônimas no final do semestre. A última tese de doutorado que orientei (a vigésima na carreira) foi de um homem extremamente religioso e eleitor de Bush em 2004. Com ele tive um dos diálogos intelectuais mais proveitosos da minha vida professional. Ao longo destes 23 anos, nunca encontrei um professor (ótimo, bom, regular ou ruim) que topasse trocar a experiência de uma boa discussão, debate e implantação de dúvidas e questionamento nos alunos por uma aceitação passiva de um ponto de vista político, por mais caro que lhe fosse o dito cujo.

Com a sua infinita capacidade de distorcer e enxergar fantasmas, o diretor executivo da Globo, Ali Kamel, assinou um artigo de opinião – chamemo-lo “opinião” para ser generosos, porque nem de análise, nem de leitura, nem de jornalismo se trata – sobre um livro didático que, para ele, é uma perigosa tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Ao final de uma série de tediosas citações que não passam nem perto de provar o afirmado, Kamel se desespera porque nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos .

Parece brincadeira, mas não é. O chefe dos inventores da enganação televisa moderna no Brasil, o chefe dos aspirantes a ladrões da eleição fluminense de 1982, o chefe dos manipuladores do debate de 1989 nos alerta contra os perigosos efeitos de um livro didático de 8a série que diz que Cuba resolveu problemas básicos de saúde e educação, que Mao era chefe militar e estadista, e que a Princesa Isabel era feia. É o motivo da última revoada de indignação da direita brasileira. Claro que Reinaldinho Azevedo já aproveitou e declarou a guerra santa.

Não resisti e fiz um experimento. Disse a cinco compatriotas, nenhum deles de esquerda e nenhum deles eleitor do atual governo, que o diretor executivo da Globo está conclamando a lutar contra a manipulação esquerdista nos livros didáticos. De todos eu tive resposta essencialmente igual: uma gargalhada satírica ou uma observação acerca do fato de que, afinal de contas, de manipulação eles entendem. Ninguém que tenha experiência real de sala de aula leva a sério, claro, esse papo de lavagem cerebral – a não ser em raríssimos casos e em má fé. Mas um sujeito que há cinco gerações não vê um pedaço de giz se julga no direito de gritar por censura sobre um livro escolhido livremente por milhares de professores.

O livro tem problemas? Não sei. Ao contrário dos funcionários da Veja, não escrevo sobre o que não li. Não julgo livros por citações pinçadas (atualização às 19:11: já acabei de ler o livro e mantenho tudo o que disse). Mas as citações feitas pelo autor, na sua resposta, já mostram que Kamel mentiu. Quero dizer mentiu mesmo, escreveu de má fé. Será que Kamel pinça citações com menções positivas ao maoísmo e se esquece de ler o trecho que diz O Grande Salto para a Frente tinha fracassado. O resultado foi uma terrível epidemia de fome que dizimou milhares de pessoas. (...) Mao (...) agiu de forma parecida com Stálin, perseguindo os opositores e utilizando recursos de propaganda para criar a imagem oficial de que era infalível.” (p. 191) “Ouvir uma fita com rock ocidental podia levar alguém a freqüentar um campo de reeducação política. (...) Nas universidades, as vagas eram reservadas para os que demonstravam maior desempenho nas lutas políticas. (...) Antigos dirigentes eram arrancados do poder e humilhados por multidões de adolescentes que consideravam o fato de a pessoa ter 60 ou 70 anos ser suficiente para ela não ter nada a acrescentar ao país... Será que Kamel escreve de má fé comparável àquela da Globo ao tentar roubar a eleição de 1982 ou ao contribuir para eleger Collor em 1989? Será que atribui intento de manipulador ao livro de Mario Schmitt para esconder suas próprias manipulações, feitas à base de citação seletiva?

Kamel não sabe nem mesmo qual é a acusação que quer fazer ao livro. Ele próprio, no primeiro parágrafo, acusa-o de dizer que o socialismo só fracassou por culpa de burocratas autoritários. Mais adiante, cita o trecho que diz que na URSS os profissionais com curso superior tinha[m] inveja da classe média ... dos países desenvolvidos. Não leu o que citou ou não releu o que escreveu? Ou será que está tentando enganar o leitor?

Notoriamente, de enganação e manipulação da cabeça alheia as organizações Globo e seus chefes entendem, embora felizmente com menos eficácia que antes, dada a democratização paulatina da informação. Em todo caso, os medos de Kamel são infundados: a molecada de hoje não é o Homer Simpson que deseja o âncora do Jornal Nacional. Qualquer livro que tente pintar, para o meu filho de 10 anos, uma imagem rósea de Cuba, que esconda o negativo, vai encontrar questionamento: uai, mas não é um regime de partido único? Uai, mas não perseguem homossexuais? Não há presos políticos? A molecada pergunta, surfa no controle remoto, vai ao Google. Mas claro, Kamel sonha com lavagem cerebral e lobotomia. Deve ser a força do hábito.

No caso do livro em questão, e baseando-me somente nas citações que vi, parece que (atualização às 19:11: baseando-me na leitura feita hoje) há uma estratégia de certa simplificação, da qual eu não comungo, mas muita gente sim. O ideal nas ciências humanas, claro, é que se exponha o maior número de perspectivas possível sobre a história, a política, a cultura, com o maior respeito possível ao que for fato histórico (objetividade total, obviamente, não existe nessas disciplinas). Se o livro de Schmidt contempla esse ideal, não sei (atualização depois da leitura do livro: não, não contempla ao ponto que eu gostaria para um livro de 8a série. Deve ser por isso que saiu da lista do MEC. Mas está longe de ser essa conspiração de lavagem cerebral marxista. Se há algo que se pode condenar no livro, é uma certa simplificação pop dos fatos, não uma ortodoxia esquerdóide. Agora, os que se declaram "sem partido" e "sem ideologia" deveriam refletir sobre o porquê de Kamel desenterrar esse livro para essa campanha Torquemada). Alguns professores acharam que contempla, sim, outros que não. Mas para Kamel isso não é suficiente: o Torquemada de plantão quer banir o livro, iniciar guerra santa; o grande defensor do mercado não quer deixar o mercado escolher.

Que a sociedade brasileira se envolva no tema dos livros didáticos, desde que se continue respeitando as decisões soberanas dos professores sobre o que ensinar. Mas que o futuro nos livre de um mundo onde os juízes da isenção, do equilíbrio e da objetividade seja gente da laia de Ali Kamel e dos colunistas da Veja. Não porque eles sejam capazes de manipular nossas crianças, claro – mas porque as coitadas morreriam de tédio.

PS: Tiquim de paciência hoje. Liberação dos comentários por volta das 13 h de Brasília.

Atualização: Muito boa a colagem de citações com a qual o Hermenauta demonstra o óbvio: pinçando trechos de livros, você sugere qualquer coisa sobre o texto alheio. E, com ampla informação sobre todo o processo de escolha de livros didáticos omitida por Kamel, Luis Nassif põe a última pá de cal.

Atualização II: Que última pá de cal, que nada. O Hermenauta desenterra o texto de onde Kamel requentou a denúncia -- contra um livro, sublinhe-se, que já saiu da lista do MEC. Para completar, mais uma demonstração do tosco método Kamel de distorção via citação seletiva.



  Escrito por Idelber às 02:39 | link para este post | Comentários (62)



quarta-feira, 19 de setembro 2007

A esquerda e a absolvição de Renan

renan.jpg No episódio Renan Calheiros, o que menos importava, para todos os senadores e partidos políticos envolvidos, é se Renan havia recebido dinheiro da Mendes Júnior ou não; se tinha bois voadores ou não; se mentiu para a Receita Federal ou não; se usou laranjas para comprar emissoras de telecomunicações ou não. Isso importa, claro, para a cidadania, que deve exercer o direito de fiscalizar a política. Mas a política mesma não é um ramo da ética nem nunca vai ser. O que não quer dizer que não se deva lutar por mais ética na política. Só significa que àquele que faz do brado pela ética o seu único bordão, sempre cabe perguntar: “ok, e sua próxima proposta, qual é?”

Dito isto, eu acho que o PT – ou a maior parte de sua bancada – cometeu um erro gravíssimo no episódio Renan. Político, não ético. A partir da preocupação legítima sobre a base de sustentação do governo no Senado, não soube adequar-se ao clima do país, responder a ele e utilizá-lo em seu favor. Ficou a reboque da oposição e teve que se contentar, no final das contas, com o discurso de que não foi o maior culpado pela absolvição do grande vilão da política brasileira em 2007. O PT tem 12 senadores e está longe de ter a maior bancada do Senado. O discurso do “não venham nos atribuir a culpa” está, portanto, correto matemática, mas não politicamente.

As respostas da esquerda à não-cassação de Renan Calheiros são um espectro impressionante de opiniões diferentes – o que mostra como é delirante a visão de certos setores da direita que enxergam uma vasta conspiração bolchevique para controlar o Brasil. Senão, vejamos. Paulo Henrique Amorim e Emir Sader insistem na mesma tecla, a de que a absolvição de Renan é uma derrota da mídia golpista. Não discuto que haja setores golpistas na mídia; tampouco discordo de que haja uma tremenda vontade de desgastar o governo Lula; também não discrepo de quem aponta que, ao reperticutir certos escândalos, a grande mídia age a partir de interesses que têm pouco a ver com a “ética” e que vão muito além da busca de audiência. O problema com as análises de PHA e Emir Sader é que são extremamente simplistas. Só enxergam isso. A partir daí, com esse quadro, pintam um cenário onde só há bandidos e mocinhos. Ao contrário dos protestos desses dois contra a fúria midiática anti-Lula durante as eleições de 2006, as atuais análises não repercutem com a população, porque esta sabe que Renan Calheiros representa o que há de pior na política brasileira.

Já o PSOL está no extremo oposto. Quer fazer da ética o seu único diferencial em relação ao PT – e a mensagem simplesmente é rejeitada pela maioria da população. O comentário deixado por um psolista no blog do Emir é emblemático: diz que PSDB e DEM “pegaram carona” nos ataques a Renan, quando o que aconteceu foi justamente o contrário. Foi o PSOL quem pegou carona no discurso moralizante, udenista daqueles que apoiaram o Renan ministro e agora agem como se não o tivessem feito; que apoiaram em 2003 as sessões secretas contra a emenda de Tião Viana (PT-AC) que as tornaria públicas, e agora falam como arautos da transparência (note-se que, segundo Noblat, o próprio DEM reconhece que deu seis votos a Renan: seis de 17; que oposição é essa que não consegue reunir nem 65% de sua bancada para cassar um corrupto aliado ao governo? Quais desses aqui mentiram?). O PSOL perdeu assim a oportunidade de fazer uma oposição genuinamente de esquerda ao governo Lula. Neste sentido, mesmo o PSOL tem sua parcela de culpa na absolvição de Renan: não havia pessoa pior para defender a representação que Heloísa Helena, com seu moralismo histriônico. Entregaram a Renan, de bandeja, o lugar da vítima.

Mas há outras análises de esquerda mais matizadas sobre o fenômeno: a de Marco Aurélio Weissheimer e a de Alon Feurwerker foram as que mais me agradaram. Curiosamente, são análises opostas. Alon inclusive afirma que não teria votado pela cassação, o que decididamente não é o meu caso. Mas ambas são análises políticas da coisa, e por não confundir política com ética conseguem ir mais fundo.

O que eu acho, então, que o PT deveria ter feito? O que fizeram – provavelmente – Suplicy, Paim, Arns e Delcídio, ou seja, votado a favor da cassação. Mas não sem antes negociar politicamente com a oposição sobre a composição da próxima mesa. Querem a cabeça de Renan numa bandeja? Entregá-la-emos. Para nós é uma concessão, já que ele é fiel componente da base aliada. Vocês, agora, que façam as concessões que acharem que devem. Conversemos. Na política, você não é devedor de ninguém a não ser que o credor esteja em condições de cobrar. Um Renan sem mandato é só um cacique regional, mais nada. Enganam-se os que acham que Renan tinha poder de fogo porque “conhece os podres” de vários senadores. Conhece, sim, mas na posição de franco-atirador sem mandato isso importa pouco.

O problema do PT não foi, então, “lama ética”, mas burrice e ingenuidade política. Acumulou outro desgaste desnecessário, com essa esdrúxula opção de liberar a bancada para votar “segundo a consciência”, para depois tentar escapar da culpa. O fato é que falta à bancada petista no Senado um líder, uma figura de peso. Suplicy poderia ter sido essa figura, se a turma de Dirceu não tivesse passado uma década solapando seu capital político no partido. Mercadante também poderia ter sido mas, assustado com os respingos da história do dossiê, prefiriu não fazer política, escondendo-se em cima do muro. E Ideli Salvatti, em definitivo, não tem envergadura para ser líder de nada. O PT se equivocou no episódio Renan não por falta de ética, mas por falta de política. O que – dada a incompetência da oposição – talvez nem importe muito no fim das contas, já que, segundo informa o Alon, a própria oposição está reduzida a torcer para que Tião Viana (PT-AC) assuma o Senado caso Renan caia. . .

PS 1: Depois de dito tudo isto, eu vou aderir, sim, à campanha: Vergonha nacional.

PS 2: Alô, Bahia! Inaugura-se hoje, aí no Pelourinho, o Museu da Música Brasileira.

PS 3: Impossível não linkar: exame para PM no Rio só aceita candidatos com um mínimo de 20 dentes.



  Escrito por Idelber às 01:07 | link para este post | Comentários (16)



terça-feira, 11 de setembro 2007

Fernando Henrique Cardoso: Entrevista à Piauí

fhc.jpgPor um puro acidente, não resenhei aqui A arte da política, o último livro de Fernando Henrique Cardoso, que li com muito gosto e proveito. A resenha não saiu, mas outras vezes aqui no blog eu toquei naquele que considero ser um dos paradoxos deliciosos do Brasil: não costuma haver ninguém, entre os que vociferam contra “Lula, o analfabeto”, que tenha lido um livro de Fernando Henrique Cardoso. Eu, como leitor assíduo do príncipe sociólogo (para uma discussão mais longa com ele, ver o capítulo 2 desse livrinho), não posso deixar de notar este curioso dado com algum deleite. A recente matéria da Piauí com FHC triplica a ironia do fato.

Foi pelo belo post da Mary W que cheguei no texto de João Moreira Salles, uma das melhores, se não a melhor matéria já feita com FHC. Ela foi realizada na esteia da estadia de FHC nos EUA, em Brown University, Providence, estado de Rhode Island (um dos cumes do brasilianismo daqui). Tomo a liberdade de recortar e colar alguns trechos, com comentários. Em itálicos, a Piauí:

A América, para ele, é como a madrinha excêntrica, que provê — convive-se com ela mais por necessidade que por gosto. Naquele dia, o ex-presidente se queixava dos hábitos alimentares de seus anfitriões: “Essa coisa de comer com as mãos, eu não sei fazer isso. E eles gostam de conversar enquanto comem sanduíche. Eu digo não: ou eu falo, ou eu como”.

O trecho estabelece o ritmo da coisa: para FHC, erudito “europeu” (ainda que “mulato” e “com pé na cozinha”, segundo sua própria definição), a América é uma sorte de bárbara terra onde semi-civilizados nouveaus riches comem com as mãos e falam enquanto se alimentam. Na verdade, não há muita sociologia que prove que a taxa de gente que fala enquanto come seja mais alta aqui que em qualquer lugar. É, sim, comum o brown bag lunch, onde intercala-se o falar e o comer. A frase de FHC ligeira, mal-intencionadamente, confunde as duas coisas.

Em tempos de rebuliço político na América Latina, pedem-lhe cada vez mais que opine sobre Chávez. Lula deixou de ter graça nas universidades americanas. “Ele perdeu pontos quando decidiu ser sensato. A sensatez não apaixona. Lula não quebra, Chávez quebra. Esse pessoal de esquerda gosta dos nietzschianos. Lula é cartesiano — a seu modo, pelo menos. Está sempre do lado do senso comum.”

Nota-se aqui o sociólogo aventurando-se em terreno pouco conhecido, a filosofia, e comentendo ali o erro contra o qual se funda a filosofia: tomar a aparência pela essência, o que as coisas parecem pelo que elas são. Chávez “tem arroubos” e daí FHC o associa a Nietzsche. Lula é político e conciliador, daí o sociólogo-profissional-filósofo-amador associa-o ao cartesianismo. A verdade é, claro, o contrário: quem sabe de cálculo e auto-reflexividade é Chávez, quem sabe de vontade de poder é Lula. Essa é umas das razões das surras de urnas e popularidade que os tucanos e FHC levam de Lula ultimamente: tratam-no como um mero cartesiano.

Fora do país, o ex-presidente firmou um contrato de cinco anos com a Universidade Brown. “Eles me pagam um dinheirão, 70 mil dólares por ano, com a obrigação de eu passar no mínimo quatro semanas aqui. Tirando os impostos, dá uns 5 mil por mês. Faz as contas, é muito bom. Antes recebi um convite de Harvard, não aceitei. Brown me pagava o dobro. A Ruth ficou indignada. Mas é Harvard!’ Eu disse: ‘Ruth, a essa altura do campeonato, eu não preciso de glórias. Preciso é de dinheiro’.

Esta foi a parte em que eu caí da cadeira. Peralá. Por partes. Entendo que FHC não é um homem rico. Entendo que FHC ache 70 mil um excelente salário, embora o mui europeu mulato e internacionalmente reconhecido sociólogo tenha se esquecido de acrescentar: para padrões brasileiros. Para padrões universitários americanos ou europeus, está longe de ser. Agora, se Harvard lhe ofereceu 35 mil anuais, ela merecia uma resposta contundente: que os serviços do ex-Presidente do Brasil e sociólogo de renome internacional, com dez livros publicados, não estão disponíveis por um salário que se aproxima mais ao que Harvard paga a um encanador. Até um recém-doutor, beginning Assistant Professor, parte com quase o dobro disso. Decepcionante, presidente. Aceite, claro, a oferta que quiser, mas não ter percebido a ironia sociológica desses números foi revelador.

"Queriam que eu concorresse ao governo de São Paulo. Eu disse: aí eu ganho e no dia seguinte tem rebelião em presídio e prefeito querendo encontro. O Senado é igual. Aquela convivência é muito desinteressante. Chega.” Fala com convicção, parece sincero: depois de trocar idéias com Chirac e Clinton, deve ser meio desanimadora a perspectiva de puxar conversa com Epitácio Cafeteira.

É o eterno pecado de FHC: essa melancolia tropical. O Senado tem, sim, uma maioria de Cafeteiras. Mas também tem uma minoria de senadores respeitáveis, tanto no governo como na oposição. FHC só somaria, com sua experiência e inteligência. Mas prefere esnobar: “estou acima dessa instituição”. Depois não entende por que funciona como espanta-voto.

No meu governo, universalizamos o acesso à escola, mas pra quê? O que se ensina ali é um desastre. A única coisa que organiza o Brasil hoje é o mercado, e isso é dramático. O neoliberalismo venceu. Ao contrário do que pensam, contra a minha vontade.

Algum dia eu gostaria de escutar uma explicação sobre como o neoliberalismo (entendido como a onda de privatizações, desregulamento da economia, etc. que marcou os 1990) triunfou “contra a vontade” de FHC. Em todo caso, FHC e os tucanos têm que decidir: ou defendem ao neoliberalismo que gestionaram e impuseram ou explicam por que ele aconteceu “contra sua vontade”.

Batizaram de Consenso de Washington a constatação de que o Estado estava falido e de que não se pode gastar o que não se tem; se tivessem batizado de Consenso de La Paz, não teria havido problema.

Bom, o tal Consenso de Washington é mais que isso, não é, Presidente ? Não é só a constatação de que o estado estava falido. Essa constatação é quase universal. Há um motivo pelo qual ele se chama Washington e não La Paz. Mas há um pulo enorme daí para a idéia de que o estado faliu por culpa dos gastos sociais e que a receita para a falência é mais privatização -- receituário estilo FMI que, ironicamente, teve sua grande parcela de culpa na falência e desfinanciamento do estado. É o clássico: receitam como remédio o que era a causa da doença para começo de conversa. Aí depois dizem que foi inevitável e “contra sua vontade”. Esperam que o povo acredite.

Nem sabia que dava pra ganhar esse dinheirão todo com uma palestra só. Fiquei cliente do Harry Walker, o mesmo agente do Clinton. Em média, me oferecem 40 mil dólares; ele fica com 20%. Minha vantagem é que eu me viro em quatro línguas, três delas muito bem.

Pára com isso, presidente. O sr. se comunica em três línguas, o que é diferente. “Muito bem”, proficiência superior, não tem em nenhuma das três. É fantástico que o sr. se comunique bem o suficiente para ser um professor visitante na França, nos EUA e na América Hispânica falando a língua deles. Nada de errado em ter isso como motivo de orgulho. Mas por soberba ter se submetido, em território do Brasil, sendo seu chefe de Estado, a capengar no idioma de um presidente estrangeiro foi imperdoável, Presidente. Eu achava aquilo imperdoável. Opinião pessoal, claro.

Reage à idéia de que a América Latina estaria se voltando para a esquerda: “Não é esquerda, é populismo: o líder falando diretamente com as massas, sem o intermédio das instituições”. Esse é um ponto crucial. Se Chávez é percebido como progressista, imediatamente FHC se torna um conservador, rótulo do qual tenta se livrar a todo custo. Repetirá inúmeras vezes que o populismo é autoritário e regressivo. “Esquerda clássica é o Allende, esse sim queria romper com o sistema capitalista. Chávez opera no nível ideológico. Na prática, ele vende para os americanos e a burguesia venezuelana está ganhando dinheiro”, argumenta

Análise bem fraca, acho eu, prejudicada por esse inconfundível tique de FHC: sendo um político que, fundamentalmente, aplicou um receituário da direita, vira e mexe se arvora a julgar qual é a esquerda autêntica. Populismo não é “falar diretamente com as massas, sem instituições”, Presidente, como se algumas das mais sólidas instituições (como os sindicatos, a burocracia estatal, etc.) não tivessem justamente sido criadas pelos populismos varguista, peronista e congêneres. Populismo, na bibliografia dos últimos 30 anos, Presidente, é um termo que designa a confecção de um certo pacto de classe via estado, seja lá qual for a avaliação (positiva ou negativa, total ou parcialmente) que se tenha sobre ele. Não essa ficção de “comunicação direta”. O Sr. anda com trauma de “comunicação direta”. De qualquer forma, relaxe, porque essa categoria é completamente furada (ok, a sua sociologia não explica o porquê, mas Derrida explica). Chávez parece incomodá-lo, na verdade, porque é um esquerdista que não opera na pobreza. Para o ex-sociólogo progressista do “esqueçam o que escrevi”, esquerdista legítimo é o morto, com palácio bombardeado. Ou o derrotado nas eleições, claro. Qualquer outro é acusado de não ser esquerdista de verdade -- por ele, que está bem à direita no espectro político brasileiro. FHC tem que se resolver: ou se dedica a defender seu legado político ou fica julgando quem são os esquerdistas autênticos. Dedicando-se tão preocupadamente à segunda tarefa, ele acaba se embananando na primeira.

PS: genial post da Lulu alinhavando Kurosawa e Agamben.



  Escrito por Idelber às 23:37 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 02 de julho 2007

Abaixo-assinado em apoio ao Baladaboa

O blog convida seus leitores, com muita ênfase, a emprestar seus nomes ao abaixo-assinado em apoio ao projeto Baladaboa, das Profs. Maria Teresa Araujo Silva, 67, professora titular de psicologia da USP e Stella Pereira de Almeida, 43, pós-doutoranda de psicologia na USP. O financiamento deste projeto foi suspenso pela Fapesp depois de uma campanha de calúnias orquestrada por um jornalista da Revista Veja.

Juntando sua assinatura à petição, você só está dizendo que as professoras devem ter a liberdade de pesquisar em paz. Só isso.

O blog solicita, encarecidamente, o seu apoio.

(direto de Santiago onde, sem muito sucesso, tive minha primeira experiência secando a seleção Nike-Dunga).



  Escrito por Idelber às 09:00 | link para este post | Comentários (29)



segunda-feira, 25 de junho 2007

A Fapesp deve explicações

Viu-se na semana passada mais um exemplo da forma irresponsável e caluniosa de se fazer política própria a alguns colunistas da Revista Veja. Uma pesquisa coordenada pelas Profs. Stella Pereira de Almeida e Maria Teresa de Araújo Silva (cujos currículos podem ser vistos aqui e aqui) levou à confecção de folhetos informativos dirigidos a usuários de ecstasy, como parte de um projeto intitulado Baladaboa. Ancorado en anos de investigações em Neurociências e Psicologia Experimental, o projeto maneja o modelo conhecido como redução de danos, que parte da premissa de que em situações de dependência química, é importante trabalhar com o fato de que a droga será consumida, reduzir ao máximo os riscos à saúde do dependente, orientá-lo médica e higienicamente e, a partir daí, estabelecer uma intervenção preventiva. A Prof. Stella dedicou ao tema nada menos que sua tese de doutorado.

Pois bem, um dos panfletos informativos produzidos sob a supervisão dessas especialistas cai nas mãos de Reinaldinho Azevedo da Veja. Inicia-se o linchamento das professoras, acusadas de “gastar dinheiro público incentivando o consumo de drogas”. Na caixa de comentários do dito cujo – que, até que comece a linkar aqueles a quem ataca, será aqui nomeado sem link – começa uma verdadeira chuva de impropérios contra as professoras, inclusive com acusações graves, judicialmente defíniveis como calúnias ou injúrias. Resultado? Algumas horas depois, Fernando Cunha, o assessor de comunicação da agência financiadora, a Fapesp, avisa a ele, mas não às professoras, que o financiamento do projeto estava suspenso. A comunicação enviada é um verdadeiro documento do perigo que se corre com a fábrica de calúnias montada no portal da Revista Veja:

Prezado Reinaldo Azevedo,
Envio Nota Oficial da FAPESP sobre a notícia “Dinheiro público, da Fapesp, é usado para ensinar o ‘consumo responsável’ de ecstasy. Sim, você leu direito!”, publicada em seu blog.
Um abraço,
Fernando Cunha
FAPESP
Assessor de Comunicação

ÍNTEGRA DA NOTA

Dada a gravidade das denúncias veiculadas pela imprensa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, determinou a imediata suspensão da liberação de recursos para o projeto de pesquisa "Implantação e avaliação de programa de redução de danos para o uso de Ecstasy na cidade de São Paulo" até que sejam averiguados completamente os fatos denunciados.
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP
18/6/2007

O Sr. Reinaldinho Azevedo -- que já se cansou de escrever estrema-esquerda em seu blog, mas tem como passatempo predileto corrigir o português alheio para desqualificar o interlocutor -- acha que é capaz de julgar o mérito do trabalho acadêmico de duas pesquisadoras de neurociências a partir da leitura de um título ou de um panfleto. Sobre a imensa hipocrisia de um liberal que brande consignas individualistas quando lhe convém, mas escuda-se na tutela de uma mera portaria ministerial para demonizar qualquer tratamento mais sensato da questão das drogas ilegais, o Gravataí Merengue já disse tudo. Sobre a tremenda incoerência do incendiário que volta atrás e tenta apagar o próprio incêndio quando se dá conta de que a agência financiadora do projeto é de um estado governado por seu querido PSDB, o Hermenauta já disse tudo. Sobre a fábrica de calúnias armada no portal da Veja e o dano provocado neste caso, Luis Nassif também já disse o necessário.

Eu, de minha parte, acrescento que não sou competente para julgar se a política de redução de danos – ancorada em anos de pesquisa das Profs. Stella e Maria Teresa – já deu ou dará resultados. Mas sei ler currículos e sei reconhecer duas pesquisadoras sérias quando as vejo. E também sei reconhecer um canalha quando o vejo. Também sei que, em qualquer área do conhecimento, até que você tenha a oportunidade de pesquisar, ora ora, é impossível saber.

Por isso, acho que a Fapesp deve explicações sobre a suspensão deste projeto sem qualquer motivo que não o incêndio criminoso armado por um ex-monitor de química que acha que pode julgar doutoras e lançar turbas de fanáticos para caluniar uma equipe de pesquisa. Que tal uma singela e educada consulta? O email da ouvidoria da Fapesp é ouvidoria@trieste.fapesp.br.

PS: O amigo Marcos VP me chama para mais um meme, perguntando se acho que existe competição na blogosfera. Acho que existe, sim, como em qualquer lugar. Mas, como em qualquer área, quem está tranqüilo com o que faz não costuma se preocupar muito com isso. Aí estão vários excelentes blogs, como o do próprio Marcos VP, para confirmar.

PS 2: Biajoni acaba de ganhar importantíssimo processo contra a Fiat. Parabéns!



  Escrito por Idelber às 00:21 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 22 de junho 2007

Pedofilia na Igreja Católica

Se você entende inglês falado ou está disposto a fazer o esforço de ler legendas em italiano, não deixe de investir 39 minutos para assistir este estarrecedor documentário intitulado “Sex crimes and the Vatican”. O documentário é produto de extensa investigação da BBC que demonstra:

1. que a prática da pedofilia e do abuso de menores é global na Igreja Católica.

2. que mesmo nos casos de réus confessos, como o padre Oliver O´Grady (que aparece no documentário simulando a sedução de um menor), a atitude da Igreja Católica foi sempre a de esconder os culpados, trasladando-os de paróquia em paróquia com o objetivo de abafar os escândalos.

3. que uma série de casos de traslado de padres coincidem com o estouro de denúncias de pedofilia e abuso sexual.

4. que a Igreja chegou a compor um manual que ensinava como esconder os pedófilos e desqualificar as vítimas. O autor do manual? Cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa.

5. que a prática da pedofilia inclui não só a Europa e os EUA (onde mais de 4.500 denúncias já foram feitas), mas também o Brasil, como mostra o caso detalhado no documentário, ocorrido no interior de Goiás.

6. que um secretíssimo documento interno da Igreja, produzido já em 1962, orientava os bispos a impor silêncio às vítimas que denunciassem casos de estupros cometidos por padres contra crianças.

Vale a pena conferir o documentário.

(cheguei lá via Flavio Prada).



  Escrito por Idelber às 07:12 | link para este post | Comentários (53)



segunda-feira, 18 de junho 2007

Lamarca

mor_1971_carlos_lamarca_foto.jpgA Folha de São Paulo e até mesmo o Estadão são capazes, via de regra, de articular posições conservadoras com tranqüilidade e ponderação. Mas quando o tema é a ditadura militar, ah, mes amis, neste caso costumam sair-lhes as garras raivosas. A propósito da recente indenização concedida à família de Carlos Lamarca, assassinado pelo exército brasileiro em 17 de setembro de 1971 – sim, assassinado, não “morto em combate” --, o Estadão publicou um editorial em que abusa de termos como “facínora” e “terrorista” para caracterizar Lamarca, concluindo com a pérola de que vivemos um despencar generalizado de valores éticos. Talvez a ética da qual o Estadão sinta saudades seja a ética da tortura a adversários políticos, realizada com a cumplicidade dos grandes veículos de mídia que, salvo poucas exceções, docilmente reproduziram as versões e o vocabulário do aparato repressivo. A Folha de São Paulo tem todo o direito de se opor à indenização, mas não tem o direito de mentir, afirmando em editorial que Lamarca foi “morto em combate”, versão amplamente desacreditada pela historiografia do período. A própria Folha reconhece, em reportagem publicada no mesmo dia, que a indenização é simplesmente uma conseqüência da decisão da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça que, em 1996, estabeleceu que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir.

Lamarca desertou do exército cinco anos depois que o exército havia desertado da democracia. Junto a outros setores da esquerda que haviam rompido com o PCB, participou da opção pela luta armada que incluiu, sim, assaltos a bancos e uma expropriação de armas do exército, realizada no dia de sua deserção, 24 de janeiro de 1969. Mas não há sentido aceitável da palavra “terrorista” que se aplique a Lamarca. Cuidado aí com a banalização dos termos, senhores editorialistas. Sim, a desastrada teoria foquista, inspirada em Régis Debray e Che Guevara, propunha que a revolução brasileira seria possível a partir das ações de um grupo vanguardista armado e bem treinado, visão adotada por setores da esquerda ante o recrudescimento da repressão, o imobilismo do PCB e a completa desarticulação da oposição democrática. Salvo pouquíssimos casos, seus autores pagaram amargamente pela avaliação equivocada. Mas o termo “terrorista” simplesmente não se aplica.

A indenização à família de Lamarca foi feita nos termos da lei e é independente de qualquer avaliação que se faça sobre a deserção ou a luta armada. Durante anos, o exército propagou a versão de que Lamarca teria sido morto em troca de tiros com agentes do exército. O diálogo que ele teria tido com seus perseguidores, segundo a já desacreditada versão oficial, é digna de algum sargento que assistiu demasiados filmes de bang-bang: ‘Quem é você?’ – ’Carlos Lamarca.’ – ‘Sabe o que aconteceu com a Iara?’ – ‘Ela se suicidou em Salvador.’ – ‘Onde está sua mulher e seus filhos?’ – ‘Estão em Cuba.’ – ‘Você sabe que é um traidor da Pátria?’. Lamarca teria morrido sem responder a esta última pergunta (fonte).

Note-se aí, claro, o clichê cinematógrafico do herói que morre sem responder a última pergunta; a inverossimilhança da declaração atribuída a Lamarca, reconhecendo o “suícidio” de sua companheira Iara e endossando a versão do exército (já desacreditada e revista por historiadores); e, por último, a extrema improbabilidade de que os perseguidores do temido atirador Lamarca se limitassem a “bater um papinho” com um capturado ainda em condições de reagir. Sabem do que falo aqueles que conhecem a sucessão de mentiras produzidas para justificar mortes sob tortura durante o regime militar, desmascaradas em definitivo com o caso Herzog.

Merecem meus parabéns os que deram boas respostas às reações da mídia acerca da indenização à família de Lamarca: o Prof. Luiz Felipe de Alencastro, o jornalista Mário Magalhães (que, sem alarde, vem fazendo um brilhante trabalho como ombudsman da Folha, tendo desconstruído neste domingo o editorial publicado pelo jornal na sexta), Alan Feuerwerker (embora eu não concorde com a analogia entre o regime militar brasileiro e a França ocupada, o que me impede de concordar com a comparação entre Lamarca e Maurice Thorez) e o blogueiro Jayme Serva (valeu, gugala). Foram as vozes mais sensatas a se opor à histeria da mídia que, em sua forma mais abjeta - a da revista Veja , claro - incluiu até mesmo a criação do obsceno termo "bolsa-terrorismo".

PS:
Registro a alegria e a honra de ter conhecido pessoalmente alguém cujo trabalho eu admiro muito, o grande poeta e artista multimídia mineiro Ricardo Aleixo.

PS 2: Bem vindo à blogosfera, mestre Antonio Cícero.



  Escrito por Idelber às 04:09 | link para este post | Comentários (52)



quarta-feira, 13 de junho 2007

Reforma Política

Vai começar hoje no Congresso o debate sobre a reforma política. Acabei de ler a gerigonça. As alianças contra e a favor do projeto são um verdadeiro angu de caroço. Nenhum partido tem posição unânime sobre o tema. Segundo a reportagem da Folha (link para assinantes), aproximadamente 60% das bancadas de PT, PMDB e PSDB e 80% do DEM (ex-PFL) apóiam o projeto. O leque de apoiadores vai de Ronaldo Caiado (DEM-GO) a José Dirceu. Não surpreende. Tal como está, o projeto interessa, fundamentalmente, aos caciques dos grandes partidos e aos atuais detentores de mandatos.

A partir da percepção correta de que a corrupção e o clientelismo são, em grande parte, produtos da fragilidade do sistema partidário brasileiro, as lideranças políticas do Congresso preparam uma reforma que é uma grande tunga na patuléia, como costuma dizer o Elio Gaspari. Os pontos mais polêmicos são a chamada “lista fechada”, a cláusula de barreira e o financiamento público de campanha.

O primeiro é de uma desfaçatez atroz e, no meu modo de ver, é o mais daninho dos componentes do projeto. Em português claro: o eleitor não teria mais o direito de eleger seus deputados e vereadores. Os votos dados a todos os candidatos de cada partido seriam somados e determinariam o número de vagas que caberia a esse partido no parlamento. Se o partido tiver direito a 30 cadeiras, entram os 30 primeiros candidatos de uma lista pré-definida por cada agremiação. Isso mesmo. Você, caro eleitor do PSDB, pode votar em André Montoro e eleger um Paulo Renato. Você, caro eleitor do PT, pode votar em Soninha Francine e eleger um Delúbio.

Na sua argumentação em favor do projeto, José Dirceu sugere que as listas seriam democraticamente definidas pelos filiados. Balela. Nem mesmo no PT – que, queiram ou não, é marcado por mais participação dos militantes nas decisões – é possível dizer que as listas não seriam fruto das manipulações da burocracia partidária. Na imprensa, Elio Gaspari (link para assinantes Folha-UOL) tem sido o mais ferrenho crítico do projeto. Alon Feuerwerker também é contra, com excelentes razões. A resposta de Dirceu à coluna de Gaspari não me convence. Afirma, por exemplo, que o fechamento de questão nas bancadas, com a conseqüente submissão da minoria à decisão da maioria, é prática universal em todos os partidos nos países democráticos. Uma rápida olhadela às votações dos Congressos americano ou europeus desmente a afirmativa de Dirceu.

Sou a favor de mecanismos severos que coíbam o troca-troca de partidos. Se esses mecanismos são os que estão presentes no projeto, é outra história. Também sou a favor de que se criem instrumentos para limitar a proliferação de legendas de aluguel. Tenho minhas dúvidas de que isso se realize com a chamada cláusula de barreira (que limita o funcionamento parlamentar apenas às legendas que, em cada eleição, obtiverem, no mínimo, 2% dos votos válidos, distribuídos em 1/3 ou mais dos estados, e que elejam, pelo menos, um representante em cinco desses estados). Sou a favor de medidas que coíbam a influência do dinheiro nas eleições. Sobre se o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais é o caminho eu também tenho minhas dúvidas.

Não chega a surpreender que um tema tão importante para o futuro da democracia não esteja sendo mais debatido, nem na mídia tradicional nem na blogosfera. Não tenho posição fechada sobre todos os aspectos do projeto e convido aos eruditos leitores do blog a que dêem seus pitacos. E olho no Congresso aí, pessoal.

PS. o post scriptum de hoje vai dedicado às leitoras: deliciem-se com "Tortura Moderna", essa hilária história de uma depilação.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (42)



segunda-feira, 11 de junho 2007

Sobre autonomia universitária

ufmg.jpg Um dos efeitos mais daninhos do recente imbróglio na USP é a confusão entre a autonomia universitária (consagrada pela constituição federal) e uma suposta “falta de prestação de contas” dos gastos da universidade. Eu já tratei do tema aqui, mas se um dos melhores blogs jornalísticos do Brasil insiste em reproduzir essa confusão, ela deve ser mais disseminada que eu imaginava. Volto ao assunto.

Nesse post do dia 24 de maio, o Alon perguntava: por que as universidades públicas devem ter autonomia absoluta para gastar o dinheiro do povo como bem entenderem? Nos comentários, pelo menos 5 leitores diferentes explicaram que autonomia universitária não é bem isso; que o Tribunal de Contas da União tem a prerrogativa de fiscalizar as contas das universidades e já o faz; que é simplesmente falso, em outras palavras, dizer que as universidades não prestam contas do uso do dinheiro do contribuinte (na máquina de distorções de Reinaldinho Azevedo, por exemplo, procurem alguma referência a essa já existente prestação de contas; não há. Os desavisados que o lêem acham que não existe fiscalização dos recursos repassados à USP).

Pois bem, apesar das explicações dos leitores do Alon terem sido claríssimas, no post de 7 de junho, relativizando o caso Trofim Lysenko, emblema do desastre que acontece quando as universidades são submetidas aos ditames do poder executivo, o Alon volta a sofismar: quantos prêmios Nobel tem a melhor universidade brasileira, a autônoma e rica USP, na qual ninguém pode colocar a mão? Nos comentários, ele explica sua posição: O cidadão que paga imposto (todos os cidadãos, portanto) tem o direito de influir no que a universidade faz. Se, por exemplo, a universidade enlouquecer e decidir colocar montanhas de dinheiro para pesquisar a guerrilha do Araguaia, eu quero saber como faço para tentar mudar essa prioridade. Eu acho, por exemplo, que a universidade investe muito menos do que deveria na pesquisa de uma vacina para a malária. E aí? Como é que fica a autonomia? . Em resposta, o leitor Paulo Araújo fez um excelente comentário: Você tem a percepção que a universidade faz menos do que deveria no campo dos estudos sobre a malária. Sua percepção está equivocada. Entre no Google com a expressão "vacina contra a malária". Tenho certeza que a sua percepção sobre o que é a pesquisa brasileira para erradicação da malária vai mudar para melhor. Talvez o Alon não conheça o trabalho que se faz na USP com a malária.

Tomemos o argumento dos Prêmios Nobel e depois falemos de autonomia. Parece que a diatribe de Alon contra a autonomia universitária repousa no fato de que a USP nunca ganhou um Prêmio Nobel. Limito-me aqui a fazer uma observação sobre a minha área, a literatura. Componhamos uma lista de escritores do século XX que nunca receberam um Prêmio Nobel? James Joyce, Marcel Proust, Franz Kafka, Robert Musil, Bertolt Brecht, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges. Em 1922, enquanto Joyce publicava Ulisses, o Prêmio Nobel foi dado a quem? Jacinto Benavente. Já leram? Tentem ler e depois me contem. A Guatemala tem um Prêmio Nobel de literatura, o Brasil não tem nenhum. Nem o guatemalteco mais patriota diria que sua literatura é superior à brasileira. O Chile tem dois Prêmios Nobel na área, a Argentina nenhum. Conheço meia Santiago e jamais encontrei um chileno que considerasse sua literatura superior à argentina. Pode ser que nas ciências a discrepância entre a premiação e a realidade não seja tão aguda. Mas convenhamos, não é um bom critério para se avaliar a universidade brasileira.

Mas suponhamos que seja. No país que é campeão em Prêmios Nobel, os EUA, jamais se levaria a sério o argumento de que as pautas de pesquisa da universidade devem ser definidas pelo “cidadão” (e incomoda-me que esta categoria seja reduzida a seu conteúdo fiscalista, ao ato de pagar impostos, porque daí para a conclusão de que quem paga mais deve ser mais “cidadão” que os outros é um pulo). Um dos segredos da pujança econômica dos EUA é o investimento maciço em ciência e tecnologia, refletido na força das suas 4.000 instituições de ensino superior. Não sou dos que acham que os EUA devem ser modelo para o Brasil em todos os casos, mas se o argumento é a relação entre Prêmios Nobel e autonomia universitária, aí, meu amigo, é só olhar o caso americano, onde a autonomia é sagrada. Imaginem um plebiscito entre os contribuintes para definir se a USP deve ou não continuar oferecendo cursos de sânscrito ou hebraico. Já dá para imaginar o resultado, não é? Agora imaginem 30 ou 40 plebiscitos assim e vocês têm a fórmula para destruir a melhor universidade da América Latina.

A educação é, sim, uma mercadoria – comprada ou subsidiada –, mas trata-se de uma mercadoria de caráter distinto às outras. Quando quero comprar um sapato, sei qual é o modelo que desejo. Imponho minha vontade ao vendedor. Se ele não tem o que procuro, vou a outra loja. Posso escolher, claro, a universidade em que quero estudar, mas por definição estou adquirindo um produto cujo conteúdo eu ainda não conheço. Por isso sou radicalmente contrário à “paridade” entre alunos, professores e funcionários nos órgãos decisórios da universidade (faço questão de incluir este argumento para que não se diga que eu concordo com tudo o que quer o movimento estudantil). Aluno não tem que ter paridade com professor coisa nenhuma. O dia em que o conteúdo dos meus cursos de literatura for matéria de plebiscito, eu pego meu boné e vou vender pipoca na esquina – ou quem sabe vá oferecer meus talentos de centroavante ao Glorioso das Minas Gerais, porque pior que Galvão ou Vanderlei eu tenho certeza que não sou, mesmo com meus 15 Carltons diários. Por sorte, onde eu trabalho isso é simplesmente inimaginável. Nos EUA não há jornalistas achando que devem ter o direito de definir as prioridades do Departamento de Imunologia da universidade.

Um exemplo prático? O nosso departamento de espanhol e português em Tulane – que está entre os melhores do país – acaba de perder uma colega na área conhecida como siglo de oro da literatura espanhola (que na verdade são quase dois séculos, que vão da década de 1520, quando Juan Boscán e Garcilaso de la Vega trazem o verso petrarquista de 11 sílabas à Espanha, até 1695, quando morre Sor Juana Inés de la Cruz). Somos inteiramente autônomos para definir que não queremos substituí-la com um outro siglodeorista, mas com um especialista na literatura contemporânea escrita por latinos nos EUA. Ninguém, nem outra instância universitária nem extra-universitária jamais dará um pio sobre essa decisão. Se ela estiver equivocada, nós pagamos o preço depois. A universidade se diferencia das outras instituições educacionais por ter tarefas não só de repassar e reproduzir o conhecimento já adquirido -- ensino -- mas também de produzir conhecimento novo: pesquisa. Esta não existe a não ser em situação de autonomia completa. O resto é colégio técnico, importante e essencial, mas com outras tarefas.

Nos comentários ao post do Alon, o leitor Paulo Araújo fez outra observação muito pertinente. Segundo ele, se há duas coisas que funcionam bem no Brasil, são o Itamaraty e a pesquisa em ciência e tecnologia (eu acrescentaria a Polícia Federal). Podem melhorar? Claro. Mas o que deve mudar no ensino superior brasileiro são outras coisas: por exemplo, investimento que garanta mais acesso da população à universidade. E, na minha opinião – heresia das heresias para setores do movimento estudantil e docente – um mecanismo salarial de incentivo à produtividade. Se eu decidisse voltar e trabalhar no Brasil, por exemplo, eu provavelmente entraria como Professor Adjunto IV (categoria reservada aos professores que têm doutorado) e ganharia o mesmíssimo salário se trabalhasse na UFMG, na UFRJ ou na UFTO. Não acho justo. Quem produz mais deve ganhar mais. É ruim que um Adjunto IV que publica um livro a cada quatro anos e meia dúzia de artigos por ano, orienta cinco teses, dá palestras no exterior e regularmente apresenta trabalhos em congressos ganhe o mesmo salário de um Adjunto IV que vai à universidade, dá suas aulas e volta pra casa. Nesse ponto eu estou de acordo com os críticos do movimento docente.

Mas quanto à autonomia, deixemos de dizer inverdades sobre ela. Os gastos das universidades são escrutinados. Melhorar a universidade pública brasileira não é tarefa para um tribunal de Torquemada. Eu já mencionei que o Tribunal de Contas da União fiscaliza os gastos das universidades? Por que aqueles que dizem que a universidade “não quer prestar contas” continuam omitindo este fato? A melhoria da universidade pública brasileira tem a ver com incrementar investimentos, garantir acesso e recompensar quem produz. A pesquisa que se faz ali já é, sim, de altíssima qualidade. Digo isso com a tranqüilidade de quem não é parte dela.

Foto: Campus da UFMG.

Atualização: O Alon respondeu. Vale a pena conferir.



  Escrito por Idelber às 06:28 | link para este post | Comentários (37)



sábado, 02 de junho 2007

Uma crítica contundente e uma resposta insatisfatória

vania.gif Minha amiga Helena Costa deu um show de análise da imprensa nesta semana. O objeto foi a matéria intitulada "Risco de favelização", publicada n'O Globo do dia 20 de maio e dedicada às reivindicações das comunidades quilombolas da Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro. Em 1971 a Marinha brasileira, por cessão da ditadura militar, instalou na região o Centro de Adestramento da Ilha de Marambaia (Cadim), apontado pelas comunidades locais como responsável pela violação de direitos tão básicos como o de ir e vir ou de privacidade de correspondência.

A matéria d'O Globo definia as populações locais como supostos descendentes de quilombolas que reivindicavam um direito que dizem ter. Na verdade, quem diz que essas populações têm o direito sobre a terra é o decreto 4.887, promulgado no primeiro ano do governo Lula, 2003. Helê também demonstra que a matéria realiza uma curiosa mudança na forma de medir terras. Cito do artigo de Helê:

Em matérias sobre disputas de terra é mais comum utilizar hectare como medida. Metros quadrados, entretanto, parecem mais adequados quando podem ser contados aos milhões, claro. Mais adequado ainda quando convertidos em curiosa e incomum unidade de medida: maracanãs. A legenda informa que o território requerido pelos quilombolas equivale a setenta daquele que ainda hoje é tido com o maior estádio do mundo.

Se a comparação se refere às dimensões do campo de futebol, qualquer estádio oficial serviria como metáfora. Mais simples: 70 campos de futebol são suficientes para expressar a idéia que se quer passar de muita terra para pouca gente. Mas pra indignar o leitor contra os "supostos" são necessários drama e hipérbole, imagens mentais tão grandiosas quanto a foto da capa.

Helê apresenta uma série de outros argumentos contundentes que demonstram a manipulação. Fatos -- como a ascendência quilombola das populações locais ou o seu direito sobre a terra -- são apresentados como "supostos", como algo que eles "dizem ter". Suposições feitas pela Marinha -- como o tão decantado "risco de favelização" -- são utilizadas no título e na descrição do assunto, como se fossem fatos. Em outras palavras, Helê demonstra, com um show de análise retórica, que a matéria expressava, pura e simplesmente, o ponto de vista da Marinha.

A resposta de Paulo Motta, editor de Rio d'O Globo, é um arrazoado de grosserias (como as do primeiro e do último parágrafos), inconsistências lógicas, non sequiturs, generalizações, falsos silogismos e analogias enganosas. No que contém de substantivo, a resposta se limita a dizer que há outras matérias anteriores d'O Globo onde a perspectiva dos quilombolas é contemplada; que o jornal não havia tido acesso ao ponto de vista da Marinha; que só agora esta havia se manifestado e que As afirmações da Marinha, obviamente, não são de nossa responsabilidade, bem como não eram as dos quilombolas, das ONGs, do MP e do Incra .

Apresentar o ponto de vista da Marinha neste caso é obrigação jornalística. Apresentar suposições da Marinha como se fossem fatos já demonstra manipulação. Utilizar o sintagma "que dizem ter" para referir-se ao direito das populações sobre a terra é, pura e simplesmente, uma falsidade. E, sobre a utilização do Maracanã -- por que não o campo da Rua Bariri? -- como unidade de medida de terras, acredito que não seja necessário dizer mais nada.

Na verdade, a exemplo da surra que levou Ali "Não Somos Racistas" Kamel dos leitores do Observatório da Imprensa na época das grosseiras manipulações eleitoreiras da Globo, o texto de Paulo Motta pressupõe um leitor Homer Simpson: alguém que não saiba diferenciar entre ouvir e apresentar um ponto de vista e escrever a matéria a partir daquele ponto de vista, como se ele fosse o único e verdadeiro. Claramente, o leitor que Paulo Motta é capaz de imaginar não é o leitor do Observatório da Imprensa.

Para piorar, o jornalista desenterra matérias de 2002 para sugerir que Helê deve se preocupar em ter um mínimo de informações sobre o conteúdo do que vai analisar , como se o fato de que um veículo de mídia tenha coberto com isenção a eleição de, digamos, 1960 justificasse a manipulação de fatos referentes à eleição de, digamos, 1989. Para justificar o tendencioso título "Risco de favelização", o jornalista Paulo Motta nos sai com esta pérola: é fato que áreas ocupadas por instalações militares [...] têm estado livres da favelização e da especulação imobiliária. A frase implicitamente oferece uma solução para o problema de todas as favelas, não é mesmo?

Mas a passagem mais cômica do texto de Paulo Motta -- que, prometeu ele no primeiro parágrafo, seria, ao contrário do de Helê, "breve e substantivo" -- vem no miolo da pseudo-argumentação. Referindo-se às Organizações Globo, ele diz: Não manipulamos informação, não ajudamos a construir estereótipos e não reativamos preconceitos.

Alguém acredita?



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 31 de maio 2007

Rapidinhas

Na Folha de hoje, caderno de esportes, lemos a manchete (link para assinantes): Zaga vacila, e Santos congela no Sul. Depois, o subtítulo: Ávalos faz pênalti tolo, e Adaílton perde bola boba nos gols que dão vantagem ao Grêmio na semifinal da Libertadores. É curioso. No jogo que eu assisti, parecia haver uma equipe, vestida de azul, branco e negro, que fez aqueles gols. Êta imprensa esportiva brasileira! Mais uma vez tratam o Rio Grande do Sul como se fosse outro país.

Também na Folha, Fernando Henrique Cardoso declarou, sobre a Operação Navalha: Acho que o nível de corrupção extrapolou. Não me refiro especificamente a este caso. Mas eu acho que temos assistido a uma série infinita de processos de corrupção. Alguém poderia explicar a ele a diferença entre a febre e o termômetro? "Assistimos" uma série infinita de processos de corrupção porque há alguém trazendo-os à luz, não é mesmo, ex-presidente? Quando os casos de corrupção não estão sendo revelados, fica um pouco mais difícil "assisti-los", não é?

Em São Paulo, hoje, às 19:30, no Instituto Cervantes (Paulista, 2.439), a ensaísta argentina Beatriz Sarlo conversa com o Prof. Jorge Schwartz, da USP. Se você está em Sampa, gosta de literatura e nunca viu Beatriz falar, compareça. É uma das 4 ou 5 pessoas que mais admiro no mundo hoje. Sem exagero.



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terça-feira, 29 de maio 2007

Caco Barcellos

O link cômico de hoje não foi unanimidade, então aqui vai um link muito sério.

Caco Barcellos é um dos maiores jornalistas investigativos da história do Brasil. Especialista com décadas de trabalho sobre violência policial, é o autor de Rota 66: A polícia que mata, livro que documenta o assassinato de 4.200 pessoas, todas jovens e pobres, pela Polícia Militar de São Paulo. Caco já venceu duas vezes o Jabuti e recebeu dezenas de prêmios por reportagens especiais. Obviamente, coleciona também ameaças de morte.

Se você quer ter uma aula sobre as raízes da violência no Brasil, com lúcida explicação dos papéis do Estado, da polícia e da imprensa, dada por quem pesquisa a coisa de perto, leia esta entrevista em duas partes com Caco Barcellos. Ela não é nova, mas continua atualíssima.

PS: lembrei-me do Caco numa troca de emails com o Biajonicus.



  Escrito por Idelber às 18:44 | link para este post | Comentários (10)



segunda-feira, 28 de maio 2007

USP

Eu vou ter que discordar do meu amigo Gravata. Não de todo o texto, mas do ângulo geral da coisa. Não sou necessariamente apoiador da invasão da reitoria da USP – estando fora do país e acompanhando o caso pela imprensa, aliás, me sinto desobrigado de emitir um juízo de um lado ou de outro. Como a partir do impasse que se arrasta há 3 semanas na USP, no entanto, muito se disse por aí sobre autonomia universitária, eu achei que deveria acrescentar uns pitacos.

1. Pessoalmente, não sou fã do método de invasão de reitoria, desde minha época de estudante. E não por ser contra a invasão em si – a ocupação de uma fábrica como forma extrema de forçar a discussão de problemas de uma categoria, por exemplo, me parece atitude justificada. Mas há uma diferença entre ocupar uma fábrica e ocupar uma reitoria. Ocupa-se uma fábrica com o objetivo de pará-la. Ocupando-se uma reitoria não se para muita coisa, como é, aliás, o caso na USP, onde várias escolas continuam tendo aulas. No fundamental e formador para todos -- discentes e docentes -- que é a pesquisa, quem faz continua fazendo a sua, mesmo se vinculado a escolas que estão paradas.

2. Na longa seqüência de posts feitos sobre o assunto pelo Reinaldinho Azevedo da Veja – que, até que comece a linkar ou pelo menos nomear aqueles a quem ataca, será aqui nomeado sem link – eu já vi execração pública de professores de currículo muito superior ao dele, grosseiras caracterizações dos estudantes ocupadores como “remelentos” e maconheiros e chamados à invasão imediata da PM, além dos indefectíveis vitupérios nas caixas de comentários, exigindo fechamento dos cursos de humanas ou privatização já.

3. Mas não vi nenhuma discussão do fato de que um dos decretos de Serra – do qual, inclusive, ele já recuou como fruto do movimento na USP – impunha como membro do Conselho de Reitores o “Secretário de Ensino Superior” nomeado pelo Governador! Ora, se isso não fere a autonomia universitária sacramentada na constituição, vocês me leiam aí de novo, por favor, o artigo 207 da Carta Magna. Conselho de Reitores das Estaduais Paulistas? Chefiado por um “Secretário” indicado politicamente pelos PFL’s da vida? O CR que reúne os reitores responsáveis por 50% da pesquisa e pós-graduação brasileiras? Que invasão é essa de um corpo intra-universitário?

4. Sim, sim, nesse decreto o Serra já voltou atrás. Sim, sim, os reitores já disseram que os decretos que restaram não ferem nada. Disseram-no, em parte, como resultado do impasse produzido pelo movimento, sublinhe-se. E é ou não preocupante que decretos assim sejam impostos num contexto em que o “Secretário” em questão envia cartas como esta a uma reitora, impondo apadrinhados seus à pós-graduação da melhor universidade da América Latina?


cartapinotti.jpg (fonte)

Ora, se você é um reitor submetido a um acosso assim, não é complicada a presença do Secretário em questão como membro do Conselho de Reitores? Não começa a parecer nebuloso todo esse remanejamento? No seu artigo sobre o problema, o Secretário Pinotti diz que os supostos decretos que cerceariam a autonomia universitária não existem -- pena que quase ninguém se dê ao trabalho de procurá-los e analisá-los . Ora, eu me dei ao trabalho de procurá-los. Sacumé, né secretário, tô de férias, e trabalho numa universidade onde a autonomia gerencial-orçamentária do meu departamento nem a minha autonomia de ensino e pesquisa estão ameaçadas. Aí dá tempo até de fazer umas leituras a mais.

Nos decretos que restam, ainda há muito que é preocupante aos olhos de uma parcela significativa das comunidades da USP, Unicamp, Unesp. É injusto dizer que não se explicou claramente qual o problema com eles. O blog da Ocupação traz um relato minucioso com documentação linkada sobre o que o movimento vê de problemático nos decretos.

Em particular, o decreto 51.460 é daninho. O seu art. 4, inc. III transfere as Universidades Estaduais para a Secretaria de Ensino Superior e o seu artigo 7, inc. XII transfere o Centro de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETPS) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para a Secretaria de Desenvolvimento. Em outras palavras? Arranca o fomento à pesquisa do âmbito da educação e transfere-a ao “desenvolvimento”. Quebra o laço institucional da FAPESP com as universidades. Quebra o vínculo entre ensino e pesquisa. Fere, na tora, o artigo 207 da Constituição.

O decreto 51.471 reza que ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial. Ora, se o decreto 6283, de janeiro de 1934, define a USP como autarquia de regime especial, como é que o 51.471/2007 não representa a possibilidade de congelamento de contratações na USP, alguém me explique? Basta, para debelar esses medos, uma declaração de boas intenções de um político?

Perguntou-se “para que serve” a autonomia universitária. Caro contribuinte paulista que por ventura leia este blog: a autonomia jamais quis dizer falta de prestação de contas. O Tribunal de Contas da União é responsável pela verificação das contas das universidades, e isso ele já faz. No caso das estaduais paulistas, elas recebem esses 9,57% do ICMS, o uso dos quais é escrutinado pelo TCU. A USP, a Unicamp e a Unesp respondem por mais de 50% da pesquisa e da pós-graduação brasileiras. A USP continua sendo, tranqüilamente, a melhor universidade da América Latina. O dinheiro está sendo bem empregado: a questão é garantir acesso de amplas camadas da população ao ensino universitário com qualidade USP. O que há que se melhorar ali -- e muito haverá -- não é da ordem do "prestar mais contas ao estado". É muito mais estrutural que isso.

Sem autonomia orçamentária (possibilidade de remanejar recursos internamente) e autonomia completa de definição de pautas de pesquisa e ensino (o que significa, sim, que a existência do curso de sânscrito na USP não está aberta a plebiscito entre os contribuintes paulistas), sem isso, pois, não existe universidade – no máximo, um colégio técnico. Não digo que o movimento grevista esteja correto em todas suas interpretações. Mas há alguns sinais preocupantes no governo Serra, sim, quanto à relação com a universidade.

Aproveito para deixar um abraço especial aos leitores da megalópolis querida, Sampa, o desejo de que os direitos de todos -- grevistas e não grevistas -- sejam respeitados e o convite a que você dê o seu pitaco na caixa de comentários.

PS: Sobre a universidade, recomenda-se, com muita ênfase, a leitura de um grande livro do filósofo chileno Willy Thayer: La crisis no moderna de la universidad moderna (Epílogo del conflicto de las facultades). Santiago: Cuarto Propio (editora feminista daquelas bandas trans-andinas), 1996.

Atualização: Na Folha de hoje, há uma excelente coluna (link para assinantes) de Fernando de Barros e Silva sobre a questão.

Atualização II: O blog da ocupação deveria ter, pelo menos, moderação de comentários que impedisse que qualquer um fosse lá insultá-los sob pseudônimo e um email para contato na página principal -- o básico do básico. Falta assessoria blogueira aí, rapaziada. Logo em Sampa, onde é impossível sair na rua sem tropeçar com um blogueiro.



  Escrito por Idelber às 03:41 | link para este post | Comentários (22)



quinta-feira, 24 de maio 2007

A idioletice de Aldo Rebelo

Já falou-se muito de liberdade de expressão aqui no blog, e eu já me posicionei várias vezes acerca de processos judiciais onde foi cerceada a expressão de alguém. Jamais achei que o direito à livre expressão tivesse fronteiras com o direito à calúnia (se Diogo Mainardi disse que Franklin Martins traficou influência no Congresso Nacional e participou da quebra do sigilo do caseiro, por exemplo, que apresente provas do que disse ou que responda pela sua boca na justiça; é o que acho que vale dizer sobre esse caso).

Mas o processo que é matéria deste post é outro, é claramente de liberdade de expressão e me é muito caro, porque trata de legislação sobre o uso da língua portuguesa. Para quem acompanhou os primórdios deste blog, é assunto antigo. Mas não o é para quem chega agora, e por isso vale a pena recapitular a história: na sua coluna da semana passada na Veja, Millôr Fernandes confirmou que está sendo processado por Aldo Rebelo por ter chamado de idioletice o projeto do deputado que proíbe estrangeirismos na língua portuguesa. O projeto, na sua imensa ignorância (e quem o chama de ignorante sou eu, Idelber Avelar), determina o seguinte:

Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira, ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... será considerado lesivo ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei. . . . Toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira .... ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... terá que ser substituída por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data de registro da ocorrência.

Quem quiser ler a excrescência por inteiro, pode fazê-lo aqui. Sobre esse projeto, Millôr comentou, na Folha: "Ele sabe do que está falando? Quanta idioletice!". Resposta do Dep. Aldo Rebelo? Um processo judicial.

Há que se dizer, em primeiro lugar, o seguinte: o projeto de Aldo Rebelo é de ignorância mastodôntica, infinita, no que diz respeito a como funciona a linguagem. Eu não sou o primeiro profissional da área de letras a dizê-lo. O prof. John Schmitz, da UNICAMP, já escreveu seis ensaios demonstrando a encefalia da coisa. Meu amigo Mario Perini, lingüista da UFMG, com elegância, já desancou o absurdo. Para resumir o que colegas mais pacientes que eu diriam de outra forma, o projeto de Aldo Rebelo contra os estrangeirismos é de imbecilidade:

a) sociolingüística, porque ignora que sobre a língua viva não se legisla.

b) filológica, porque não sabe que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros. Ou será que a digníssima esposa do deputado usa porta-seios, ao invés de sutiãs? Será que ele ignora que este último foi, um dia, um vocábulo estrangeiro?

c) pragmática, porque ignora que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subseguinte com os outros falantes atuará, corrigindo-o.

d) psicolíngüística, porque quer cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua.

Em outras palavras, em todos os ramos da linguística, o projeto do deputado Aldo Rebelo – conhecido por querer instituir o dia do Saci Pererê e legislar sobre a composição da farinha de mandioca – é de uma idiotice sem fim. E ele está processando Millôr porque este chamou o projeto de idioletice (criação do Millôr, claro, formada pelo sufixo -ice na palavra "idioleto", que significa língua ou dialeto individual).

Agora imaginem: como explicamos para o deputado que, ao processar Millôr por chamar sua excrescência de projeto de idioletice, ele está passando o atestado de idiotice mesmo? Ou seja, está automaticamente julgando seu reclamo improcedente? E quantos querem apostar que há juiz por aí que daria ganho de causa ao digníssimo xenófobo deputado sobre Millôr neste processo?



  Escrito por Idelber às 05:38 | link para este post | Comentários (32)



quarta-feira, 23 de maio 2007

Copyright perpétuo x liberdade de criação

Em 1998, os EUA aprovaram o Copyright Term Extension Act – também conhecido aqui como Mickey Mouse Protection Act. A essência daquela legislação era estender o copyright – que até então cobria a vida do autor e mais 50 anos, ou 75 anos para criações de corporações – para inacreditáveis “vida do autor mais 70 anos” e 95 anos para corporações. Era a Disney deitando e rolando com seu lobby na Washington D.C. de Clinton, "protegendo" Mickey Mouse e cia. Bons tempos aqueles, os da ameaça de impeachment por uns boquetes. Éramos felizes e não sabíamos.

Mas tergiverso.

Eis que no New York Times (link aberto temporariamente), o Sr. Mark Helprin – vá lá, leitor, ajude-nos a saber quem é – propõe copyright perpétuo sobre bens intelectuais. Sim, isso mesmo é o que a proposta significa: que se daqui a 800 anos você quiser fazer uma adaptação teatral d’ "A Terceira Margem do Rio", terá que negociar pagamento com algum deca-neto maluco de Guimarães Rosa, que sacará do colete uma tabelinha de preços. Isso é o que “copyright perpétuo” significa. Não se trata de nada que tenha a ver com garantir ao autor da obra uma compensação justa por sua criação – que é a idéia da legislação original de copyright –, mas sim algo que aprisiona a posteridade nessa farsa que é a posse sobre bens intelectuais passando de geração a geração.

Sabe do que falo quem acompanha a batalha ingrata que livram os estudiosos da obra de James Joyce com um neto possessivo, maluco, obsessivo e frustrado. A ironia, claro, é que, na obra do avô, essa figura caberia em algo assim como meia linha.

Pois bem, logo depois da publicação da idéia absurda no New York Times, surgiu uma página estilo wiki com argumentação copiosa contra o copyright perpétuo. O primeiro argumento já rebate de cara a analogia proposta por Helprin com a posse dos bens físicos: esta última é um jogo de soma zero. Para que eu compre a casa da Main Street número 50, alguém tem que se desfazer dela. A posse do direito de uso -- citação e transformação -- de bens intelectuais, imateriais, obviamente não implica isso.

Meu direito de usar e citar e transformar Guimarães Rosa não altera o direito de ninguém fazer o mesmo. A posse do direito de uso de bens intelectuais não é uma equação de soma zero.

Este blog é pelo fim total do direito de herança sobre bens intelectuais. Vê lá se não tenho coisa melhor para deixar aos meus filhos que o direito e a tarefa de ficar decidindo quem pode ou não reaproveitar coisas que escrevi em parcos livrinhos. Ora bolas.

Atualização: A partir de hoje, o blog terá duas ou três atualizações diárias, ao invés do tradicional texto semi-diário. Você, que visita as caixas de comentários, acostume-se a descer a barra de rolagem. O site está programado para exibir, na página principal, os posts dos últimos 15 dias. Se, com o novo ritmo, ela ficar pesada, avisem.



  Escrito por Idelber às 17:02 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 17 de maio 2007

Sobre a violência na virada cultural em Sampa

Roubei o texto que segue do blog do meu camarada Pedro Alexandre Sanches. Ele foi escrito por Franklin Ruão, que é jornalista da Revista Paisà:

DESCULPA BROWN"

POR FRANKLIN RUÃO

"São Paulo, seis de maio de 2007. Praça da Sé, São Paulo. Outono. Agora eu quero ver se a Praça da Sé é o lugar! Quero ver se aqui é o lugar!"

Com estas palavras, Mano Brown dava início ao show dos Racionais MC's que depois se transformaria em uma batalha pelas ruas de São Paulo.

Naquela madrugada não compareci à Praça da Sé para atuar como jornalista, fui apenas como mais um espectador disposto a ver o show junto com a multidão e deixo aqui meu ponto de vista de quem foi testemunha ocular dos fatos e esteve exatamente dentro do olho do furacão.

Às três e quinze da madrugada de domingo, eu e dois amigos (Hector, veterano de vários shows dos Racionais MC's, e Issao, recém-chegado do Japão em féria na cidade) subíamos a alameda Barão de Limeira rumo ao show. Não nos preocupamos em chegar no horário divulgado pela organização da Virada Cultural, porque tínhamos certeza absoluta que o show começaria atrasado.

A Praça da Sé estava completamente tomada pela multidão e as ruas ao redor também. Apenas com muita disposição conseguimos atravessar o oceano de pessoas e nos aproximamos do lado direito da praça, bem onde a rua terminava e começava a calçada. Exatamente em frente da banca de jornal. Notei que apesar da praça estar lotada ainda não havia ninguém em cima da banca que oferecia um local estratégico para ver o show.

Enquanto esperávamos, o teto da banca de jornal já começava a ser tomado por um grupo de pessoas. Simultaneamente outras começaram a escalar a marquise da farmácia que ficava na mesma calçada da banca de jornal e logo dezenas de jovens ocupavam vários andares de todos os prédios disponíveis. Um rapaz pulou na varanda do conjunto comercial, em questão de segundos já estava dentro do prédio, abrindo a janela da sacada ao lado e ajudando seus companheiros a subir.

Não havia ninguém realizando segurança no local, nenhuma força policial do Estado ou seguranças privados. Quando o show da banda de abertura começou, os mais audaciosos já estavam escalando o prédio para realizar pichações.

Do local onde estava pude acompanhar o teto da banca ceder gradativamente à medida que o número de pessoas em cima dele aumentava. Quando o teto estalou pela primeira vez a policia já estava no local. Com a mesma agilidade que utilizaram para subir na banca e nos prédios, todos desceram rapidamente debaixo de golpes de cassetete. Os que haviam invadido o prédio se esconderam dentro dos escritórios.

Tudo leva a crer que a polícia não se manteve no local, pois quando o show dos Racionais começou o grupo de escaladores voltou a ocupar a banca de jornal e os prédios ao redor.

Recordo nitidamente quando o rapaz sem camisa e usando boné que ficou escondido dentro do prédio escreveu com a lata de spray preto "Desculpa Brown" na parede do lado de fora do sexto andar. Quando vi aquela cena, tive a certeza que ele estava escrevendo o testamento de toda a multidão. Pela primeira vez na noite comecei a me preocupar.

No palco era possível ver e sentir todo o carisma messiânico de Mano Brown. Com um visual genuíno de quem sabe do que está falando e usando óculos escuros, Mano Brown logo após a primeira música, parou em um lado do palco e comentou com toda a sua manha adquirida em anos de sobrevivência na periferia: "Dizem que não pode ter show do Racionais... Que a gente fala mal da policia. Quem fala mal da policia?", para em seguida emendar "Eu sou 157", levando o público ao delírio.

A esta altura a PM já começava a bater em todos que estavam nos arredores da banca de jornal. Uma clareira começava a ser aberta. Na parte de baixo da Praça da Sé era possível ver uma multidão que havia sido afastada e isolada pela PM, que agora se preparava para marchar sobre nós.

Mano Brown é o nome mais importante do cenário musical brasileiro da atualidade e será preciso ainda muito tempo e reflexão para compreender todas as idiossincrasias de sua personalidade. Mano Brown não está apenas cantando suas composições, ele realmente acredita de corpo e alma naquilo que está dizendo e sua disposição de ir até o final e sacrificar-se como um mártir ficou clara para todos que compareceram na Praça da Sé naquela madrugada.

Após a multidão incitada ter atirado várias garrafas de vidro, pedras e até barras de gelo contra a PM, tudo que restou foi assistir ao massacre anunciado. Várias pessoas foram brutalmente agredidas. Quando a PM disparou contra nós, fomos empurrados pelos que fugiam, caímos no chão e por pouco não fomos esmagados pela massa que fugia. Issao milagrosamente recuperou seu tênis perdido e junto com outras pessoas tentávamos nos abrigar atrás de uma das palmeiras imperiais que adornam a Praça da Sé.

Durante todo o tumulto, as camadas de espectadores que nos separavam da PM foram sendo retiradas e agora estávamos frente a frente com os homens da tropa de choque. Centenas de pessoas levantaram as mãos mostrando nitidamente para a PM que não estávamos armados e não iríamos atacá-los. Muitos estavam sendo retirados da rua com as mãos na cabeça e Mano Brown reafirmou sua posição de permanecer na Praça da Sé: "Vocês podem ir, eu vou ficar, eu vou ficar aqui".

Neste momento algumas pessoas que estavam com as mãos levantadas começaram a bater palmas, tentando fazer a PM entender que aqueles que estavam sendo detidos eram os verdadeiros baderneiros e que o restante queria continuar assistindo o show em paz. Mano Brown não deixou este fato passar incólume e comentou, visivelmente aborrecido: "Batendo palma pra PM?".

Acredito que na verdade as palmas eram uma ironia contra a PM que estava agredindo a todos indiscriminadamente. Neste momento ficou evidente o abuso de autoridade e o excesso de violência utilizado contra o público. Um soldado que ficaria marcado na memória de todos, com seu bigode negro no melhor estilo de general de república do terceiro mundo, portando uma carabina, disparou contra nós e em seguida recebemos as bombas de gás lacrimogêneo.

Não havia mais nenhum lugar seguro para ficar e corremos em direção ao palco para buscar abrigo. Ao pular a barreira da área VIP em frente ao palco distendi um músculo da perna, mas consegui atravessar a barreira junto com a multidão que também fugia. Olhei para trás e vi Issao tentando pular a barreira, com os olhos irritados pelo gás lacrimogêneo. Mesmo ferido voltei para resgatar meu parceiro em dificuldades, contornamos a barreira e ficamos logo abaixo do palco.

Ainda sofrendo os efeitos do gás, acreditávamos que agora finalmente a PM nos deixaria em paz para poder assistir ao final do show. Mas isto não aconteceu: a tropa de choque continuou agredindo o restante do público que estava concentrado do lado esquerdo da Praça da Sé e que até aquele momento ainda não havia sentido a fúria da policia, pois nós que estávamos no frente absorvermos todo o impacto da primeira onda de ataque.

O público que permaneceu apenas queria ver o show, mas a PM estava determinada a estragar a festa. Eles continuaram atacando até que não houvesse mais condições de permanecer no local. Mano Brown, que já havia mudando seu discurso há algum tempo, tentava acalmar os ânimos e encerrou o show preocupado em preservar a integridade física daqueles que ainda resistiam.

O último desafio foi sair correndo da Praça da Sé. A PM começou a organizar um "corredor polonês" ao mesmo tempo que conduzia todos que fugiam para um verdadeiro beco sem saída. Aqueles que não conheciam as ruas do centro foram seguindo na direção indicada pela PM e com certeza não encontraram nenhuma luz no fim do túnel.

Conhecedor das ruas do centro, segui por outro caminho em relativa segurança junto com meus amigos. Mesmo assim foi impossível esquecer a imagem da multidão seguindo para o matadouro. Este foi apenas um dos muitos detalhes que a imprensa não noticiou.

Esta apresentação do Racionais MC´s já garantiu seu lugar na galeria de shows mitológicos do Brasil, ao lado da banda Sepultura na Praça Charles Miller em 11 de Maio de 1991, show este que eu também compareci e cujo saldo final foi uma morte.

No final perguntei para o meu amigo Issao sua opinião sobre tudo aquilo e para a minha surpresa ele respondeu animado: "Adorei! No Japão não tem nada parecido!".

*********************

Antes da publicação do testemunho de Franklin Ruão, Xico Sá, outra testemunha ocular do ocorrido na Praça da Sé, já havia desmentido a nota à imprensa publicada pela Secretaria de Segurança Pública do governo de São Paulo, que diz que a polícia conteve o tumulto no local. Gilberto Dimenstein, ponderado, argumenta que a violência foi um produto de vários fatores, o que é certo. Mas que a ação da polícia, de acordo com várias testemunhas, parece ter sido premeditada, ah, isso parece. Quem conhece o tratamento normalmente dispensado a pretos, pobres e suburbanos pelas polícias brasileiras não se surpreenderia caso o intuito premeditado e criminoso da polícia se confirmasse. O YouTube está cheio de vídeos do ocorrido que, por si sós, dizem mais que toda a cobertura da grande mídia, que de novo não perdeu a chance de estereotipar os rapeiros e manos da periferia como seres violentos por excelência.



  Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post | Comentários (24)



segunda-feira, 14 de maio 2007

Dos jornais

1. O pai, presidente do Comitê de Direitos Humanos de Antioquia, foi assassinado em 1987 pelos paramilitares que aterrorizavam aquela região da Colômbia. Vinte anos depois, o filho lança, em Buenos Aires, uma reconstituição da vida do assassinado: El olvido que seremos, de Héctor Abad Faciolince. Esperemos uma rápida tradução ao portuga, pois esse calhamaço de 700 parece oferecer, além de um belo panorama do conflito na Colômbia, uma resposta interessante acerca de como representar uma figura paterna positivamente na literatura. O que, se formos pensar bem, é uma baita questão.

2. São aproximadamente 2 milhões de iraquianos fugidos do país e mais 1.9 milhão deslocados internamente: a Guerra do Iraque já é ocasionadora do maior êxodo no Oriente Médio desde 1948. É do New York Times o balanço do lamaçal de exílios criados pela aventura de Bush e cia. no Iraque.

3. Houve gritaria de alguns jornalistas católicos contra o fato de que Bento 16 não teria sido bem recebido pelo governo brasileiro. Acho balela. O Papa foi recebido com honrarias e forte esquema de segurança. Falou em paz e liberdade à grande população católica do Brasil. Ao acenar com propostas estapafúrdias como o regresso da obrigatoriedade do ensino religioso em escolas públicas, recebeu um diplomático não do governo brasileiro, postura que me parece absolutamente correta. Não se pode dizer, no entanto, que a pressão do Vaticano não tenha surtido efeito: a exemplo do que fez no primeiro mandato (naquele momento mais por pressão da bancada evangélica), Lula faz concessões às custas da saúde das mulheres para não desagradar a Igreja. Missão cumprida, pois. Vida que segue.

4. Decidido: na mudança à minha casa definitiva aqui em New Orleans, mês que vem, não carrego comigo o satélite receptor da TV Globo Internacional. O Campeonato Brasileiro que inicia promete ser dos mais medíocres, chatos, moderrentos e nivelados por baixo desde que Manga era um jovem arqueiro que havia sofrido um frango numa Copa. Se Grêmio, Inter e São Paulo são os favoritos, com os times que têm, imaginem o resto. Vou investir meus 40 mangos em ver jogos da Europa. Dá mais certo. Entre a corrupção, as falcatruas de arbitragem, o êxodo de jogadores e a violência nos estádios, a nossa cartolagem consegue arruinar até o entusiasmo do torcedor mais fanático.

Boa semana para todos :-)



  Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post | Comentários (20)



quarta-feira, 09 de maio 2007

Horrendo

Este blog tinha um post ameno quase pronto, concordando com o Juca Kfouri e o Milton Ribeiro sobre os campeonatos estaduais. Mas fica para amanhã.

Hoje, um link a uma monstruosidade: a nota escrita pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo depois do assassinato de Luiz Carlos Barbon Filho é das coisas mais repugnantes que uma entidade já disse depois da morte de um ser humano. Ela já foi criticada, devidamente e com elegância aqui e, sem elegância e pelas razões erradas, aqui. Mas atentem para o vocabulário dos guardiões do diploma: insistem em chamar Barbon, que morreu fazendo jornalismo, de "colunista".

Eu, que não faço jornalismo investigativo, aposto a minha credibilidade que a frase O jornal Realidade, de sua propriedade, foi fechado pois nunca esteve regularizado é falsa. Independente de qualquer coisa, ela é infame.



  Escrito por Idelber às 07:48 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 08 de maio 2007

Crime à brasileira

Triste o país onde ainda se assassinam jornalistas por terem dito verdades sobre alguns poderosos de plantão: morte anunciada, como costuma ser o caso. Luiz Carlos Barbon Filho foi vítima de um clássico assassinato de encomenda à brasileira, frio, business-like, executado por mixaria a mando de algum bandido desmascarado pelo seu trabalho jornalístico. Eu penso nos garotos de 14 e 10 anos que deixou esse pai, morto de peito aberto por covardes de capuz contratados por algum corrupto, cafetão ou pedófilo. Se esses garotos poderão sempre falar dele de cabeça erguida, também é certo que o legado não substitui o que teria sido estar com esse pai na adolescência, na juventude, na vida adulta – com essa figura que, tudo demonstra, era excelente profissional, bacana, íntegro, dedicado ao trabalho, à investigação e à verdade. Ao longo da dor, Juliana e Luiz Felipe terão orgulho do pai: a poucos a expressão morreu como homem se aplica tão bem como a Luiz Carlos Barbon Filho.

É revoltante que o Brasil, sequer no interior de seu estado mais desenvolvido, não dê segurança básica a jornalistas cujo trabalho investigativo incomoda os interesses de poderosos. Sabia-se de onde poderiam estar vindo as ameaças a Barbon. Como com Chico Mendes e com tantos outros, executou-se a morte como anunciada, com aquele odor de crime de colarinho branco à brasileira, cujos culpados nunca vêm à luz ou, quando são julgados e condenados, acabam por sair da cadeia ou reeleger-se.

Encontrar os mandantes desse assassinato a sangue frio não é só uma questão de justiça para a família, os amigos, os leitores de Barbon. É um daqueles marcos para a própria democracia, um medidor da sua capacidade de garantir liberdade de jornalismo. Encontrar os covardes mandantes e aplicar punição exemplar, mesmo que seja necessário mobilizar a PF e a imprensa nacional numa blitz à cambada de suspeitos na região de Porto Ferreira: não deveria ser muito sonhar com solução assim para crimes tão odiosos.

Num sentido bem literal, Barbon deu a vida pelo meu, seu direito de acesso à verdade: afinal, um país onde assassinos como os de Barbon permanecem impunes acaba cultivando o péssimo hábito de varrer para debaixo do tapete os podres que descobre sobre si.



  Escrito por Idelber às 06:37 | link para este post | Comentários (9)



sexta-feira, 27 de abril 2007

O bule emprestado

Slavoj Zizek escreveu recentemente um livro intitulado Iraq: The Borrowed Kettle, no qual relata a divertida sucessão de silogismos de pé quebrado que antecederam a invasão do Iraque. O momento número 1, de princípios de 2003, rezava que o Iraque possuía armas de destruição em massa que colocavam um “perigo claro e iminente” não só para Israel como também para os estados ocidentais democráticos. O que fazer, então, quando em setembro de 2003 David Kay, o próprio oficial da CIA encarregado da busca, reconhece que o país havia sido revirado pelo avesso mas as armas não haviam sido encontradas? Passa-se ao segundo momento: mesmo que Saddam Hussein não tenha nenhuma arma de destruição em massa, ele está envolvido com (deals with) a al-Qaeda, autora dos ataques do 11 de setembro. A guerra seria necessária para impedir tais ataques no futuro. O que fazer quando o próprio presidente Bush reconhece, em setembro de 2003, que “não há evidência de que Saddam Hussein estivesse envolvido com os ataques de 11/09”? Ora, passa-se ao terceiro momento: mesmo que não tivesse armas e nem estivesse envolvido com a al-Qaeda, Saddam era um perigoso ditador que representava uma ameaça ao seu próprio povo....

A mentirada inventada pela junta bushista como justificativa da guerra de rapinha no Iraque replica, para Zizek, a estrutura de uma anedota contada por Freud para ilustrar a estranha lógica dos sonhos. Um sujeito empresta um bule a um amigo. Recebe de volta o bule danificado. Ante a reclamação do dono, retruca:

1. Eu jamais tomei nenhum bule seu emprestado.
2. Aliás, eu lhe devolvi o bule inteirinho!
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado!

Pois bem, o blog hoje abre sua caixa de comentários para que você crie a sua própria variação desse joguinho de afirmativas incongruentes que é o relato freudiano do bule emprestado. Histórias que contenham Mangabeira Unger, Zagallo, Reinaldo Azevedo ou Galvão Bueno terão preferência :-)



  Escrito por Idelber às 05:23 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 18 de abril 2007

Matança em Virginia Tech

VT.jpg Na época do furacão Katrina, Virginia Tech recebeu 24 estudantes de Tulane. Sinto gratidão pela acolhida que meus alunos receberam por lá. Os laços entre as duas instituições são estreitos; eu sou professor de várias pessoas que perderam conhecidos ou amigos na matança de Blacksburg, ocorrida nesta segunda-feira. O Departmento de Línguas Estrangeiras, acabo de receber a notícia, foi o mais atingido: perderam dois instrutores e duas salas cheias de alunos de francês e alemão.

Na manhã de terça, meus alunos de graduação, jovens como a maioria das vítimas em Blacksburg, me olhavam com aquelas caras de quem espera uma resposta. Por quê? Eram as mesmas caras que vi depois das matanças de Columbine e de tantas outras, tão freqüentes e tão tipicamente americanas: massacres a tiros sem vínculo com o crime organizado ou com qualquer organização política; sem relação com o tráfico de drogas ou com a vingança; não motivadas por disputas de qualquer natureza. Só um rapaz – em geral solitário e macambúzio – armado até os dentes, invadindo alguma escola na qual, em geral, ele mesmo estuda, e atirando em quem aparecer pela frente, matando quantos puder até ser abatido pela polícia ou cometer suicídio, como foi o caso esta semana em Virginia Tech.

A campanha Brady para prevenir a violência com armas dá à legislação do estado de Virgínia uma nota C-. Traduzo do site da campanha algumas perguntas relevantes:

Há um período de espera na compra de armas? Não
Há alguma limitação na venda de armas semi-automáticas? Não.
Pode o “attorney general” – autoridade judicial – regular a venda de armas? Não.
As cidades podem responsabilizar legalmente os fabricantes de armas? Não.
Há limitações sobre a posse de armas por menores de idade? Parcial. Não há limites para a venda de rifles ou espingardas para maiores de 12 anos.
Há algum requisito de licença para a compra de armas? Não.
Há algum treinamento para os compradores de armas? Não.
As cidades têm autonomia para estabelecer regras mais estritas para a compra de armas? Não.

E por aí vai. No dia 13 de março, Seung-Hui Cho, coreano residente há anos nos EUA, comprou, na Roanoke Firearms, uma Glock 19 de 9 mm. No dia 09 de fevereiro, já havia comprado uma arma calibre 22. Não se sabe por que um moleque de 23 anos precisaria de uma arma em Blacksburg – que é uma espécie de Conceição do Mato Dentro com uma grande universidade. O lobby de defesa das armas, treinado para manipular os fatos, já saiu dizendo que, se não fosse proibido carregar armas no campus de Virginia Tech, talvez mais alunos tivessem se salvado. Mais um vez, o interesse dos que lucram com a morte tenta extrair dos fatos uma mensagem exatamente oposta àquela que eles transmitem.

A pobre direita brasileira, coitada, quando não especula, no melhor estilo racista, que se houve matança é porque deve ter sido islâmico, encontra-se ocupada em atribuir o poderio econômico dos EUA ao direito de qualquer moleque comprar uma arma semi-automática em menos de 15 minutos – demonstrando assim profundo desconhecimento do próprio país que eles insistem em querer imitar.

PS: ótima cobertura da matança lá no Tiago Dória.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (44)



segunda-feira, 16 de abril 2007

Sobre o aborto

É muito promissor para o debate sobre a descriminalização do aborto o editorial (link para assinantes) publicado pela Folha de São Paulo neste domingo, no qual o jornal se compromete com a causa que une feministas, ativistas dos direitos humanos e boa parte dos profissionais da saúde, além de outros setores da sociedade civil. As pesquisas indicam que a maioria da população brasileira ainda é contrária a mudanças na legislação atual, que só permite o aborto em casos de estupro e de risco à vida da gestante. Mas também é verdade que este é um tema que ainda não foi abertamente debatido na sociedade brasileira com a profundidade que merece.

O sucesso dos que defendemos o direito da mulher escolher interromper sua gestação legalmente, com segurança e assistência médica dependerá, eu acho, de alguns fatores:

1. Rechaçar a etiqueta de “abortistas’: ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona (link via Hermenauta).

2. Dirigir-se com especial atenção à população religiosa, apontando que, como demonstram as Católicas pelo Direito de Decidir, a identificação entre um feto de algumas semanas e uma vida humana é bem recente na história da Igreja. Não há nenhuma base científica para essa identificação. Quem se preocupa mesmo com a vida deve se perguntar: a proibição da cirurgia e a criminalização da gestante que a ela recorre é realmente uma defesa da vida? Mesmo? Pense bem, amigo católico.

3. Cobrar coerência dos que defendem a manutenção da criminalização da cirurgia. Se se trata da “eliminação de uma vida”, ora, os que a praticam e as que recorrem a ela teriam, por coerência, que ser julgados como assassinos. Quantos estão dispostos a encarcerar como homicidas as mulheres que recorrem ao aborto?

4. Entender que a descriminalização do aborto é uma peça num conjunto de medidas de prevenção e de educação sexual que são as únicas que podem alterar o triste quadro atual, de mortes e seqüelas ocasionadas por abortos de fundo de quintal.

5. Combater a desinformação. Num lamentável artigo (link para assinantes) escrito para a Folha, o deputado Luiz Bassuma (PT-BA), cometeu o seguinte disparate: Em 1988, ainda se questionava nos meios acadêmicos e científicos sobre o instante em que a vida tem origem. Hoje, com os avanços extraordinários da genética e da embriologia, não há espaço para qualquer dúvida: a vida começa no exato momento da concepção. Obviamente o deputado não cita nenhum geneticista ou embriólogo para apoiar tão descabelada afirmativa. O blog deixa aqui o desafio público para que ele nos cite qual é a base científica da afirmação de que a vida “começa no exato momento da concepçào”.

O resultado do plebiscito recente em Portugal é animador. A batalha é morro acima, sem dúvida. Mas vale a pena.

Texto anterior do Biscoito sobre o tema: Todo o apoio ao projeto de descriminalização do aborto.



  Escrito por Idelber às 05:29 | link para este post | Comentários (39)



sexta-feira, 30 de março 2007

Qual foi mesmo o grande absurdo dito pela Ministra Matilde?

A turba que enlouquece de raiva sempre que o tema do racismo brasileiro entra em pauta e que se especializa em criar simetrias ilusórias do tipo “os negros também são racistas” recebeu da ministra Matilde Ribeiro o presente que esperava: uma declaração que não tem nada de absurda, mas que, tirada do contexto, foi suficiente para que a República Morumbi-Leblon começasse a queima em efígie da Ministra como uma perigosa Goebbels afro-tupiniquim. A hipocrisia de certas reações à fala da ministra demonstra o quanto o Brasil ainda está longe de enfrentar o tema das relações raciais. O motivo para tanto escarcéu? A seguinte citação:


BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?

Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

Vamos por partes. A primeira lição retórica que todo político progressista deveria aprender não é a de dar boas respostas; é a de desconstruir perguntas tendenciosas. Em primeiro lugar, como residente dos Estados Unidos há 17 anos, não sei a que “racismo de negro contra branco” nos EUA o entrevistador se refere. Estará pensando nas instituições exclusivamente negras (como universidades) criadas na época em que aos negros não era permitido entrar nas instituições brancas? Se é verdade que nos EUA há mais separação e segregação racial que no Brasil, só um lunático da Klux Klux Klan atribuiria isso ao “racismo de negros contra brancos”. O tema do racismo nos EUA é longo e complexo; não quero me estender sobre ele aqui. Mas a primeira coisa que a Ministra deveria ter feito é questionar essa estranha comparação, ancorada num factóide que o entrevistador pressupôs mas não demonstrou.

Daí vieram as frases que deliciaram a turba, louca para lançar suas pérolas de que “os negros são racistas” (até o termo gentinha, de ilustre história racista, foi ressucitado nos ataques de indignação). A frase Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco, quando justaposta à frase seguinte, me parece de sentido óbvio: o racismo é uma estrutura social que faz com que negros diariamente apanhem da polícia por serem negros, que sejam enviados ao elevador de serviço por serem negros, que sejam barrados na boate por serem negros, que se vejam privados de um emprego ou um financiamento porque se requer “boa aparência” (essa pérola eufemística do racismo brasileiro). Entendido como estrutura social que priva o outro de oportunidades e lhe diminui em sua condição humana – entendido nesse sentido – o “racismo de negro contra branco” obviamente não existe; não estão dadas as condições sociais para que ele exista. É só isso o que disse a ministra. O racismo como estrutura social não pode ser comparado à hipotética animosidade que pode sentir um negro contra um branco (será que a turba atentou para o uso do artigo indefinido singular aqui?) porque são fenômenos de ordens completamente diferentes. São alhos e bugalhos. A operação de criar simetrias ilusórias para justificar situações de opressão é conhecida. A ministra foi ingênua politicamente. Só isso.

Passemos ao tema de se é “natural” a hipotética animosidade do negro contra o branco. Aqui faço, como dizem os gringos, uma full disclosure ou, em bom tupiniquim, ponho os pingos nos i’s: dado meu interesse por candomblé, samba, funk, secondlines, capoeira e outras manifestações da cultura negra, eu provavelmente já passei mais tempo no interior de comunidades afrodescendentes do que a maioria. Incontáveis vezes já participei de desfiles em New Orleans ou shows na periferia de Belo Horizonte onde, entre centenas de pessoas, eu era um dos únicos brancos. Jamais senti qualquer agressividade, animosidade ou olhar do tipo “o que esse branquelo está fazendo aqui?” - o que não quer dizer que eu não acharia compreensível que isso ocorresse. Quando e se ocorrer, agirei – quero acreditar – de forma a minorar essa hipotética animosidade, em vez de tomá-la calhorda, hipocritamente, como prova de que “racismo é tudo igual” e que um gesto de hostilidade é equivalente a 500 anos de sujeição, desumanização e preconceito.

As reações à fala da ministra dizem muito, muito mais sobre a ansiedade da República Morumbi-Leblon com o tema da raça e da etnia do que qualquer coisa que a ministra tenha dito. Um pouquinho mais de compreensão sobre o que se está debatendo aqui, rapaziada.

E viva Nei Lopes.

Leituras relacionadas:

o caso Grafite
o debate sobre as cotas I
o debate sobre as cotas II
A cor não é transparente, no blog Diário da Lulu.



  Escrito por Idelber às 05:32 | link para este post | Comentários (53)



terça-feira, 20 de março 2007

Um link

Irretocável o texto do Pedro Dória sobre o triste quarto aniversário da guerra do Iraque. Discordo veementemente de muita coisa que o Pedro escreve sobre outros rincões do Oriente Médio, mas assino embaixo e ao lado desse texto. Como já é de tradição em vários dos excelentes blogs do NoMínimo, dispensa-se a leitura da caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 14:54 | link para este post | Comentários (13)



terça-feira, 13 de março 2007

Observação rápida

Anda se estabelecendo no Brasil, pelo menos desde as últimas eleições, um padrão curioso, que se repete com tediosa previsibilidade:

Momento 1: Algum grande meio comunicação de massa ou mui visível figura pública diz uma asneira.

Momento 2: Os blogs, comunidades online, foros, listserves debatem a dita cuja, com uma cacetada de argumentos.

Momento 3: Começa a surgir a troupe dos defensores do "coitadinho" que disse a asneira, que supostamente estaria sendo vítima de "patrulhamento", "linchamento" ou "fúria persecutória". Não debatem o tema em questão. Só ficam choramingando contra a poderosa "patrulha".

Discordo da posição do Alberto Dines e do Marcelo Coelho. Trata-se, simplesmente, de entender que na era da internet o dito recupercute mais ampla e rapidamente, só isso. Talvez Renato Janine Ribeiro tenha subestimado o efeito que suas palavras teriam. Mas se quer participar do debate público - e bem ou mal ele atualizou, no Brasil, a figura do filósofo "participante", "propositivo", "ativo na sociedade civil e na mídia" - tem que estar disposto a ouvir também.

O que eu acho inconcebível é um intelectual público escrever algo, presenciar centenas de pessoas de posições políticas diferentes criticá-lo - independentemente e sem notícia umas das outras - e depois ele (ou algum "defensor") vir reclamar de "patrulha", como se as reações tivessem sido produto de uma torcida organizada.

Coisa mais chata, né não, Bia? Lição do imortal Vicente Matheus: está na chuva, é prá se queimar. Quer fazer um "desabafo" com desejo de tortura e morte na Folha de São Paulo? Maravilha. Segure o rojão depois. Não se constrói debate público sem a escuta de argumentos contraditórios - que podem vir a fazer um barulho proporcional à visibilidade de quem iniciou a conversa. Lançou o debate? Escute o barulho. É a regrinha da brincadeira na era da internet.

O que não vale é lançar o debate e sair dele reclamando que está sendo vítima de patrulha. Não é uma boa ética para uma sociedade democrática. Nesses casos eu estou sempre contra a "vítima", esteja ela na esquerda, direita, centro, em cima ou embaixo.

E acho que alguém deveria convidar o Alberto Dines para comentar futebol domingo à noite. Não seria pior do que o que ele anda fazendo como comentarista de mídia e política no Observatório da Imprensa.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (22)



sexta-feira, 02 de março 2007

Resposta a Renato Janine Ribeiro

janine.jpgRenato,

Você não se lembra de mim e provavelmente não lerá isto, mas achei por bem fazer este post em forma de carta e evitando o tratamento de Sr. que, se justificável pela diferença etária e curricular existente entre nós, talvez pudesse, aqui no caso, soar irônica. Não é a intenção.

Mas convenhamos: que cagada, hein cara? Eu vou lhe contar uma coisa: com esse artigo que você escreveu para a Folha de São Paulo do dia 18/02, você pode ter jogado por terra toda a reputação construída ao longo de pelo menos 16 livros, uma centena de artigos e uma presença impecável na vida intelectual brasileira. A estas alturas do campeonato, você já deve ter se arrependido amargamente do que disse. Você quis agradar a direita e sacudir a esquerda, e acabou ridicularizado por aquela e desmontado por esta – para não falar na tunda que o Elio Gaspari lhe deu, na lição de classe que o italiano Andrea Lombardi, seu colega de USP, lhe brindou e nas aulas que você andou levando blogosfera afora. Você conseguiu desagradar todo mundo; ficou mal com gregos e baianos.

Tudo isso para satisfazer a sanha linchadora da turba depois do assassinato do menino João Hélio? Tudo isso para mostrar que o intelectual também pode ser durão como o Jornal Nacional, indignado como o Fantástico, paladino e denunciador como a Veja? Tudo isso pelo medo de remar contra a maré? Tudo isso para pegar carona nos discursos simplistas, por medo de discutir com argumentos um pouco mais tridimensionais o complicadíssimo problema da violência no Brasil? Você abdicou da principal tarefa do intelectual, que é desconfiar do senso comum e não ter medo de estar em minoria. Juntou-se à turba com argumentos tão patéticos que ela própria se encarregou de expulsá-lo do cerimonial do linchamento.

Você escreveu: Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte . . . Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido . janine-livro.gif

Custa acreditar que quem escreveu essas frases é a maior autoridade brasileira no ramo da filosofia conhecido como ética. Aliás, o que anda acontecendo com os professores de ética aí em São Paulo, hein? Primeiro, o Roberto Romano descobre o tucanato como culminação da razão ocidental; agora, no maior jornal do país, você fantasia estuprar e torturar prisioneiros com o argumento de que “pena de morte é pouco”. Você se lembra da época em que explicava o imperativo categórico kantiano (aja a cada momento como se o seu ato fosse ser universalizado) com a frase a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la? Sem dúvida, trata-se de uma explicação boa, compreensível, que capta o essencial da Crítica da razão prática. Como é que você vai explicar o imperativo categórico kantiano agora, hein Renato?

Você sabe, já li uma penca de livros seus. Meu favorito é A sociedade contra o social. Quando estou no Brasil, assisto ao seu programa sempre que posso. Ana também gosta. Era um belíssimo precedente de incorporação da filosofia, de forma aplicada, aos meios de comunicação de massa. Digo “era” propositalmente. Não é irônico que os episódios mais recentes tenham sido exatamente sobre a diferença entre justiça e vingança, sobre a irredutibilidade daquela a esta? Como é que você se esqueceu dessa diferença? Com que cara você vai apresentar esse programa agora?

Para satisfazer a turba, você disse: Se há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamente antropomorfo, como admite Ele esse mal extremo, gratuito, crudelíssimo? . . . Não vejo diferença entre eles e os nazistas . . . Os nazistas foram culpados do que fizeram. Optaram pelo mal. Como esses assassinos.

Nazistas? Mal gratuito? Que pilha de platitudes pré-kantianas é essa? Depois de um homícido culposo, produto de uma trapalhada de um assalto feito com arma de brinquedo? O sofrimento horrível da criança e dos seus pais vai agora sair da esfera privada e virar inspiração para políticas públicas? Como é que você vai ensinar agora, aí na USP, a diferença entre um indivíduo culpado de um crime e uma política de exterminação estatal de mais de uma década? Você cometeu o pior erro que um progressista pode cometer em política: aceitar discuti-la com categorias morais.

Fiquei sabendo que no próximo domingo, no Mais!, você vai tentar “explicar” que não defendeu a pena de morte nem a tortura. Sabe, Renato, em Minas temos um bom ditado: merda, quanto mais mexe, mais fede. Não tente dizer que não o entendemos. Retire o que disse, retrate-se. É o mais digno.

Já sei: não faltará quem diga que estou absolvendo os criminosos. É o que sempre acontece quando alguém tenta introduzir um pouco de racionalidade no debate sobre o castigo. É fácil gritar: mais porrada, mais cadeia, mais polícia. Falamos de prevenção do crime, de políticas públicas para tentar atenuar a violência, e o patrulhamento só vê nisso a absolvição dos criminosos e a justificativa dos seus atos.

Veja bem, não nego que possam existir argumentos razoáveis a favor da redução da maioridade penal para 16 anos; não nego mesmo que possam existir argumentos razoáveis a favor da pena de morte. Eu sou radicalmente contra esta última, especialmente num país como o Brasil, onde o judiciário quase só funciona contra os pobres. Mas deixemos de fingir que a punição é a chave maior para resolver o problema, num país onde só 3% dos homicídios são esclarecidos.

Discutamos também as experiências reais, ainda que limitadas, de redução da violência. Diadema é um exemplo. Belo Horizonte não fez milagres, mas melhorou. Nas experiências com algum grau de sucesso, em geral se vê uma combinação de fatores: iniciativas educacionais, melhoria das condições de trabalho da polícia, programas de reintegração. Discutamos também alguma mudança na absurda política de drogas do Brasil, talvez a nossa grande chance de reduzir rápida e significativamente a taxa de homicídios dolosos.

Não, não acho que a “sociedade” seja culpada pelo crime dos assassinos do João Hélio, pelo menos não dessa maneira simplista; da mesma forma, Renato, que a lamentável ausência de um discurso de esquerda sobre a segurança pública no Brasil (que acaba deixando o tema nas mãos da direita) não é a culpada pela monumental cagada que você cometeu na Folha.

Mas não há dúvida que a luta contra a violência passa, sim, por medidas educacionais, ambientais e também penais, assim como a formulação de um discurso progressista sobre a segurança pública talvez possa impedir que no futuro apareçam no Brasil professores de ética defendendo a tortura de presos.

Atentamente,

Seu leitor.



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domingo, 25 de fevereiro 2007

A última asneira da justiça brasileira

roberto.jpg O festival de absurdos dos tribunais não tem fim. Depois da condenação ao Imprensa Marrom (por um comentário anônimo num post velho de seis meses!), da condenação a Emir Sader (por chamar de racista um senador que declarou, jubilante, que agora ficaríamos livres dos petistas, “esta raça”), da condenação a Alcinéa Cavalcanti (por uma charge de um senador publicada num blog) e do universalmente ridicularizado bloqueio ao YouTube (por um único vídeo que exibia uma modelo fazendo sexo na praia), eis que chega a última pérola do judiciário brasileiro: O juiz Maurício Chaves de Souza Lima, da 20ª Vara Cível do Rio de Janeiro, determinou que sejam interrompidas publicação, distribuição e comercialização do livro Roberto Carlos em Detalhes, fruto de 15 anos de pesquisas do jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo.

A justificativa da decisão é outra pérola: a biografia de uma pessoa narra fatos pessoais, íntimos, que se relacionam com o seu nome, imagem e intimidade e outros aspectos dos direitos da personalidade. Portanto, para que terceiro possa publicá-la, necessário é que obtenha a prévia autorização do biografado, interpretação que se extrai do art. 5º, inciso X, da Constituição da República.

O artigo 5o, inciso X da Constituição brasileira afirma: são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

Desse inciso, o Meritíssimo interpreta que é proibido escrever uma biografia (amplamente documentada em fontes) de uma pessoa pública sem a autorização do biografado! Bem vindo à 20a Vara Cível do Rio de Janeiro, onde o inciso constitucional que garante o direito à privacidade passou a significar que agora é proibido escrever livros sobre cantores sem sua autorização! Qual seria – pergunta o senso comum - o “dano moral” que terá sofrido Roberto Carlos com o livro de Paulo Cesar? O que há, enfim, no livro? Acusações de plágio, de roubo, de assassinato? Será que o Meritíssimo leu o mesmo livro que eu e o Ricardo Schott lemos? Será que pensou sobre o que é esse gênero, a biografia? Será que refletiu um pouquinho sobre os limites entre o público e o privado num caso como este, que inclui o cantor mais popular do Brasil? paulo-cesar.jpg

O mais revoltante da história é que Roberto Carlos em Detalhes é obra de um historiador meticuloso e de um fã apaixonado. Não há “fofocas” no livro; daí que a capa da revista Época sobre o assunto seja tão enganadora. Apoiado em duas centenas de entrevistas, o livro de Paulo Cesar reinvidica a importância central de Roberto Carlos para a história da cultura brasileira. Reconstrói sua trajetória da infância ao presente. Recopila praticamente tudo o que se publicou sobre Roberto ao longo das últimas décadas. Extrai desse material um retrato extremamente positivo do cantor, no qual, inclusive, não há uma palavra crítica sequer acerca da mesmice em que arrasta a carreira de Roberto há tanto tempo. Mas segundo "o Rei", nada disso é suficiente; para ele, a minha vida particular é só minha.

Apesar de não ter o menor interesse por Roberto Carlos, venho acompanhando o caso desde o começo, em primeiro lugar porque é aterradora a sucessão de decisões judiciais brasileiras que ferem os princípios mais elementares da liberdade de expressão. Neste caso em particular, eu tinha muita esperança de que a justiça não interferisse com o trabalho sério de um historiador que documentou meticulosamente seu livro, seja com entrevistas, seja com a consulta a fontes públicas.

cachorro-nao.jpgTenho acompanhado o caso também porque Paulo Cesar de Araújo é dos profissionais que mais admiro entre os que se dedicam ao estudo de música popular. Baiano de Vitória da Conquista e consumidor de música considerada brega, Paulo Cesar teve que batalhar muito para se estabelecer como profissional. Já havia publicado, em 2002, pela Editora Record, um livro que revira a história da música brasileira: Eu não sou cachorro não, obra de pesquisa que mostra a importância da música cafona, sempre desprezada por acadêmicos e jornalistas, para a formação da sensibilidade musical de camadas enormes do público brasileiro. Livro muito elogiado, Eu não sou cachorro não também demonstra que, ao contrário do que se pensa, Odair José, Waldik Soriano e outros foram muito mais censurados pela ditadura militar do que os artistas de prestígio da MPB.

Quando publicou seu primeiro livro, Paulo Cesar já compilara, durante anos, os materiais para a biografia de seu maior ídolo, Roberto Carlos – o mesmo que acionou advogados para retirar de circulação um livro que é um tributo sério, cuidadoso e acima de tudo apaixonado. Note-se que não há notícia de absolutamente nenhuma afirmação falsa no livro de Paulo Cesar. Note-se que as resenhas do livro têm sido unanimemente elogiosas, como se pode ver aqui, aqui ou aqui (este último link requer cadastro gratuito). Depois de realizar um trabalho dessa qualidade sobre seu maior ídolo, eu imagino quão dilacerante deve ser, para o autor, se ver vítima de um processo tão mesquinho.

A decisão do Meritíssimo da 20a Vara Cível do Rio de Janeiro determina que a Editora Planeta têm 72 horas para cumprir a sentença, a se contar a partir da entrega da notificação judicial, que deve acontecer nesta segunda. A menos, claro, que os advogados da Planeta consigam cassar essa absurda liminar.



  Escrito por Idelber às 22:04 | link para este post | Comentários (37)



quarta-feira, 22 de novembro 2006

Mentiras de marqueteiro

xosarney.jpg

O marqueteiro Antônio Melo, que fez a campanha de Jackson Lago (PDT) ao governo do Maranhão, teve, pasmem leitores, a parcimônia, a cara-de-pau, o desplante de reivindicar a paternidade da campanha Xô Sarney, iniciada pela blogosfera em solidariedade aos ataques jurídicos do coronel maranhense à blogueira e jornalista Alcinéa Cavalcanti. Em entrevista ao panfleto conhecido como Veja, o marqueteiro afirma:

Veja - Roseana começou a disputa com 66% das intenções de voto. Como essa vantagem foi invertida?
Melo - O primeiro passo foi prender José Sarney no Amapá. Achávamos que, se ele tivesse problemas para se eleger senador por aquele Estado, deixaria a campanha da filha no Maranhão em segundo plano.

Veja - Como vocês fizeram isso?
Melo - Espalhamos na internet a frase "Xô Sarney", que apareceu em uma pichação em Macapá. Sarney censurou os sites que a divulgaram. Com isso, deu ainda mais corda ao caso.

Os que acompanharam a campanha sabem muito bem que não foi nada disso. Sarney entrou na justiça contra a publicação de uma charge no blog de Alcinéa, conseguiu uma absurda decisão judicial a seu favor e a partir daí multiplicou-se o movimento de desafio ao coronel, com reproduções da charge em todo o Brasil. Obviamente, o jornalismo "investigativo" do panfleto conhecido como Veja publicou a mentira sem corrigi-la, apesar de que a estas alturas do campeonato eu, minha avó e a torcida do Corinthians sabemos que o movimento Xô Sarney foi iniciado por Alcinéa, e não por marqueteiro nenhum. Quem quiser saber mais sobre a história pode visitar os posts de política deste blog ou ler o resumão do Inagaki.

DSC02895.JPG
Eu e umas cachacinhas mineiras ao fundo. A camiseta foi presente de Alcinéa.

Crédito a quem de direito: o primeiro grito contra a mentira foi do blog Aqui não, Genésio!. Também já protestaram o blog Bomfinado e o Cejunior. Seria muito bom, claro, que o maior número possível de blogueiros repercutissem o desmentido. Seria igualmente interessante que o Reinaldo Azevedo, que na época prestou solidariedade à Alcinéa, ajudasse a corrigir mais essa mentira veiculada na revista onde trabalha, ainda que desta vez por um entrevistado.



  Escrito por Idelber às 11:55 | link para este post | Comentários (60)



segunda-feira, 13 de novembro 2006

Políticos processando cidadãos

orwell.jpg Nos últimos anos, quatro episódios envolvendo três processos e uma ameaça de processo a cidadãos comuns por supostas injúrias ou calúnias contra políticos de diferentes ideologias colocaram de novo na mesa o debate sobre a livre expressão no Brasil. Em defesa, não da imparcialidade, mas da coêrencia deste blogueiro, diga-se que nos quatro casos eu me coloquei inequívoca e publicamente do lado dos processados - ao contrário, imagino, de boa parte dos que me criticam (alguns anonimamente) por defender `cegamente´ o governo Lula ou o PT. Dois dos políticos que moveram ou ameaçaram mover processos nesses quatro casos eram do PT.

Na semana passada, Emir Sader foi condenado a um ano de reclusão (a ser cumprida em liberdade, dada sua condição de réu primário) e, pasmem, à perda de um cargo na UERJ, por haver se referido à `mente suja´ e ao ´racismo´ do senador Jorge Bornhausen, que declarara jubilante, antes da surra do 29 de outubro, que o Brasil iria `ficar livre dessa raça´ [o PT] por ´trinta anos´. Num processo por crime de opinião, movido por um parlamentar que goza de imunidade, contra um cidadão comum (seja jornalista, sociólogo ou o que for), você, me desculpe o maniqueísmo, só pode ocupar um de dois lugares: o lado da liberdade de expressão ou o lado do cala-boca. Não há meio-termo. Daí que os debates sobre o acerto da opinião de Emir Sader sobre Bornhausen ou sobre a estatura intelectual de Sader sejam, agora, completamente inapropriados – e eu tenho minhas opiniões sobre o que infelizmente disse Marcelo Coelho aqui ou o que desdenhosamente disse, na Folha, o desconhecido Fernando de Barros e Silva aqui , ou o que afirmou, com incomum cretinice, Bárbara Gancia aqui (os dois últimos links para assinantes). Agora, o que importa é uma coisa: você acha que o cidadão deve ser livre, ´neste país´, para achar que as declarações de um senador podem ter sido movidas por racismo, ou acha que não? Por achar que sim, assinei o manifesto de solidariedade a Sader encabeçado pelo meu mestre Antonio Candido. O Biscoito convida: assine você também.

Durante a recente campanha eleitoral, o coronel ex-ARENA, ex-PDS, ex-Frente Liberal e neolulista José Sarney processou a minha amiga blogueira e jornalista Alcinéa Cavalcanti, numa seqüência de ataques covardes que resultaram em condenações a indenização monetária e, pasmem, direito de resposta em blog pessoal que já tinha sido tirado do ar como resultado do próprio processo judicial! Na época, o apoio deste blog a Alcinéa expressou-se aqui, ali, e acolá; o resumão do movimento de solidariedade blogueira a Alcinéa foi feito por mestre Inagaki, da forma classuda de sempre, aqui.

No dia 14 de abril de 2005, Demétrio Magnoli publicou, na Folha de São Paulo, um artigo em que se referia ao Ministro Tarso Genro como o Ministro da Classificação Racial. Tarso, que sempre gostou de se apresentar como ´intelectual´no PT, atualmente está movendo contra Mignoli um processo que ainda aguarda sentença. O Biscoito manda a inequívoca e incondicional solidariedade a Magnoli e o repúdio à infeliz decisão de Tarso Genro.

Em novembro de 2003, o talentosíssimo sociólogo Francisco de Oliveira, lenda viva do pensamento de esquerda no Brasil, referira-se ao então todo poderoso ministro José Dirceu como `espertalhão´ e, ao contrário do que afirmou a Folha de São Paulo, não o chamou de ´safado´, e sim disse, literalmente, A política não se resume a rapapés, salamaleques e golpes de espertalhões que pensam que estão inventando a roda, como esse ministro José Dirceu. Nisso, ele se parece com qualquer político safado do Brasil . Na época, o ex-guerrilheiro e ex-chefe da ´Articulação´ que criou os Delúbios ameaçou publicamente, do alto da sua condição de ministro da Casa Civil, um processo contra Chico. O professor Chico, como cavalheiro que é, emitiu uma retratação meia-boca para acalmar o espertalhão, e evitou-se o processo. Na época em que Dirceu ainda era o ministro poderosão, num site com um público leitor considerável, dentro e fora do Brasil, eu escrevi em inequívoca solidariedade a Chico o ponto número 7 desse texto aqui (alguém que saiba inglês traduza o parágrafo aí nos comentários).

Por isso, leitor que ocasionalmente, de forma educada ou não, tenha questionado a minha defesa do governo nesta campanha eleitoral, dê uma olhadinha no histórico do blog no quesito ´defesa da liberdade de expressão´. Nos comentários a este post, como sempre, você é livre para discordar e achar que uma ou mais dessas quatro vítimas cometeram crime passível de processo. Mas sinto-me obrigado a dizer que qualquer comentário que ataque Chico, Magnoli, Alcinéa ou Sader com injúrias será apagado. No minifúndio deste blog, a palavra final sobre qual comentário ultrapassou a linha da injúria cabe, obviamente, a mim.

De minha parte, acrescento: esse negócio de político com imunidade parlamentar ou ministerial processando cidadão comum por crime de opinião tem que acabar. E você, o que acha? Estou particularmente interessado em saber se você vê alguma diferença importante entre esses quatro casos. Diga lá.



  Escrito por Idelber às 01:43 | link para este post | Comentários (62)



sexta-feira, 10 de novembro 2006

A Internet do Sr. Eduardo Azeredo

cartorio.gifO Senador Eduardo Azeredo, não contente em entrar para a história como a origem do mensalão, decidiu achar um caminho mais rápido para a imortalidade. O destino reservava-lhe papel mais grandioso, o de ser o senador que tentou aprovar um projeto que exige a identificação dos usuários antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros. O projeto já foi saudado como demente, absurdo, inconstitucional, orwelliano, ditatorial, e produto de uma massa encéfalica que não tem a menor idéia de como funciona a internet.

Os primeiros cinco adjetivos se aplicam, sem dúvida, mas pelo que vi até agora só os leitores do Nova Corja sabem que No texto do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar intitulado “As Cabeças do Congresso”, de 2003, o senador Eduardo Azeredo (PSDB/ MG) é descrito da seguinte forma: “É especialista em tecnologia da informação, tendo sido presidente da Empresa de Processamento de Dados do Estado de Minas Gerais, superintendente da DATAMEC, da Empresa de Processamento de Dados de Belo Horizonte, além de presidente do Serviço Federal de Processamento de Dados – SERPRO”. O senador teve o financiamento de R$ 150 mil para sua campanha de 2002 da Scorpus Tecnologia S.A. (link). O Rodrigo Alvares do Nova Corja vai além e mostra o interesse do Bradesco, financiador de Azeredo, nesse projeto.

Mais adiante, o mesmo blog apontou que Quando a Receita Federal decidiu ampliar seus serviços na internet, adivinhe qual empresa chamou garantir os certificados digitais. Isso mesmo: a Serpro de Eduardo Azeredo (PSDB/ MG). Desde 2001, com a criação da Infra-estrutura de Chaves Públicas (ICP-Brasil), a empresa passou a emitir certificados para órgãos da Administração Pública Federal. O negócio foi tão lucrativo que a empresa apostou no novo negócio e começou a oferecer a certificação como um produto para seus clientes.

Fui eu quem passou batido em algum detalhe ou o Nova Corja deu um baile investigativo no Globo, Folha, Estadão e congêneres? O máximo que me lembro ter lido na Folha foi uma referência a um vago "lobby dos bancos". Como se sabe, a votação do projeto foi adiada. Mas que ele tenha sido aprovado na Comissão de Educação do Senado já é motivo suficiente para que façamos barulho.

PS: O bonequinho eu roubei via Träsel.



  Escrito por Idelber às 13:26 | link para este post | Comentários (26)



segunda-feira, 30 de outubro 2006

À minoria

lula-paulista.jpg
imagem roubada dela

Foram 58,3 milhões de votos, 5 milhões a mais que em 2002. Nos votos válidos, uma acachapante vitória de Lula por 61 x 39. Pela primeira vez na história das eleições presidenciais, um candidato regrediu do primeiro para o segundo turno. Além de não ganhar nenhum eleitor, Alckmin perdeu quase 2,5 milhões que haviam votado nele no primeiro turno e desistiram de repetir o voto no segundo. Os votos de Heloísa Helena e Cristovam Buarque migraram massivamente para Lula. O New York Times falou em “landslide”, o Página 12 comemorou e Reinaldo Azevedo reconheceu que foi uma derrota humilhante.

Durante certo tempo, parcela do eleitorado tucano falou de Lula como o candidato “dos grotões”. Chegou a brincar-se com fantasias secessionistas para o Sul e o Sudeste do país. A brincadeira não durou muito: Minas Gerais deu a Lula 65% dos votos e o Rio de Janeiro nada menos que 70%. Em São Paulo, onde Alckmin esperava ganhar de muito, levou por pouco, 52 x 48 (um resultado que esteve além do esperado para Lula e que, por sinal, fortaleceu Marta Suplicy para o jogo político no futuro próximo).

No Nordeste, a surra foi de 77 x 23. No Amazonas, estado daquele senador tucano que gosta de ameaçar o Presidente da República com agressões físicas, a balaiada foi de 86 x 14. Lula venceu em vinte estados. O único que deu ao candidato “moderno” uma maioria significativa foi Roraima. Em 2002 Lula tinha o apoio de 4 governadores quando se elegeu. Hoje conta com 16. A base do governo em 2002 girava em torno de 200 deputados. Hoje ela engordou para 300. Ainda não é o suficiente para aprovar emendas constitucionais – para as quais são necessários 308 deputados, ou 3/5 da Câmara – mas é uma situação bem melhor que a de 2002.

O PT, que havia elegido três governadores em 2002, desta vez elegeu 5 (Sergipe, Bahia, Pará, Piauí e Acre). Esteve longe, muito longe de levar a surra que se chegou a prever: entrou nas eleições com 81 deputados federais e elegeu 83. Não é, de forma nenhuma, indicação de que o eleitorado tenha esquecido as lambanças feitas pelo partido ou esteja assinando um cheque em branco. A vitória é acima de tudo do lulismo; o PT deve explicações à sociedade e uma reformulação à sua militância. Mas dançou quem apostou no estilo Jorge “essa raça” Bornhausen de fazer política. Quem apostou no ódio como plataforma dançou. E vai continuar perdendo o bonde da história quem se agarrar a explicações paupérrimas como "o país está bêbado" ou "venderam-se por um prato de comida". É incrível que uma parcela significativa dos que esbravejam contra Lula, "o analfabeto", não consiga ler a realidade com fórmulas um pouquinho mais sofisticadas que essas.

Lula, que não é bobo, sabe que não é hora de tripudiar. Mas é a oposição, principalmente o PSDB, quem tem que decidir qual é a cara que terá. A campanha que terminou ontem teve mais pinta de Arthur Virgílio e Reinaldo Azevedo que de Gustavo Fruet e Aécio Neves. E o PSDB pagou caro pela escolha. Não acho Fruet e Aécio dois modelos de políticos, mas por ali o PSDB pode conseguir revitalizar-se. Apostar no xingatório e no lacerdismo só fará deles uma presa do moribundo PFL (que elegeu, viva, um mísero governador, só no DF!) e os condenará a serem o eterno anti-PT.

Que todas ações do governo federal sejam sempre fiscalizadas e que os responsáveis por quaisquer irregularidades sejam punidos. Mas ficar apostando fichas nas denúncias de uma combalida revista semanal para virar eleição não é papel que se espere de um partido político sério. Apresentar-se como “os únicos éticos” contra “os corruptos” é uma zombaria da inteligência do eleitor. O PSDB pode e deve ter mais a dizer do que disse nesta campanha.

Um primeiro passo é abandonar as esdrúxulas explicações que os peessedebistas de Higienópolis, por exemplo, deram à Folha ontem (para assinantes): O eleitor do Lula é o povo do interior ou do Nordeste, que não tem acesso à informação, disse uma delas. Trata-se de frase ironicamente infeliz, ou infelizmente irônica, já que mostra que é ela quem ainda não teve acesso a um simples mapa eleitoral do Brasil. Uma executiva chegou a dizer que Alckmin perdeu porque seu programa tinha nível alto demais: É triste, mas só ganha quem reduz a qualidade do discurso para atingir o maior número de eleitores possível, frase que é uma monstruosidade de cegueira, como se o programa do candidato tucano tivesse sido uma riqueza de propostas que o pobre eleitor analfabeto não conseguiu descifrar.

O PSDB pode escolher insultar os eleitores brasileiros com ofensas ou insinuações, ou pode elaborar um programa político para reconquistar a hegemonia política. Pode escolher ecoar as asneiras das entrevistadas de Higienópolis ou pode construir uma cara mais conforme com a herança de Montoro e Covas. Se optar pela última alternativa, mais sensata, tem todas as condições de brigar pela presidência em 2010.

PS: Há exatamente dois anos, em 29 de outubro de 2004, nascia este blog, filho de um erro.



  Escrito por Idelber às 04:25 | link para este post | Comentários (55)



sábado, 28 de outubro 2006

Uma correção

Em ponderada crônica escrita hoje para o Globo, Teresa Cruvinel fez uma avaliação das razões da vitória de Lula e da implosão da candidatura de Alckmin no segundo turno. É uma apreciação crítica de ambos os lados: petistas e tucanos deveriam lê-la.

Mas num dado momento a colunista diz: Muito se escreveu, com frustração ou preconceito, sobre uma suposta leniência brasileira com a corrupção. Houve até uma pesquisa sustentando que os mais pobres, os mais negros e os menos escolarizados têm menor exigência ética que os mais ricos, brancos e cultos.

Na verdade, a segunda frase é falsa. Não houve nenhuma pesquisa "sustentando" isso. Houve uma pesquisa que não encontrou, entre esses grupos, nenhuma diferença de atitude que excedesse a margem de erro. Mesmo assim, o jornal Estado de São Paulo permitiu-se a manchete: Rigor com a corrupção na política varia com região e condição social.

Não houve, como supôs Cruvinel, uma pesquisa "sustentando" o que afirma a manchete do Estadão. Houve uma manchete que não condizia com a informação dada na matéria. Só isso. Quando aconteceu, nós apontamos.



  Escrito por Idelber às 19:55 | link para este post | Comentários (9)




Debate da Globo

lula-alckmin.jpg As últimas pesquisas fizeram desmoronar a tese de que Lula só se elegerá graças aos pobres e ao Nordeste. Elas confirmam, por exemplo, o empate técnico entre eleitores com nível superior e a considerável subida de Lula no Sul e no Sudeste. Revelou-se péssima sociologia a tese do “Brasil arcaico versus o Brasil moderno”, com que Fernando Henrique Cardoso entreteve jornalistas argentinos e tentou explicar a divisão do eleitorado. Nessas explicações ele nunca foi bom, mas as últimas têm sido particularmente sofríveis.

Se alguma influência o debate puder exercer nas eleições de domingo, ela terá sido de poucos pontos. Será interessante ver se se realiza a previsão dos que viram uma “vitória” de Alckmin, que talvez leve [...] uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Eu acho exatamente o oposto: que o debate ampliou a vantagem de Lula. 62% é a porcentagem de votos que Lula teve no segundo turno contra Serra em 2002. Chegar a esse número depois dos tropeços e dos ataques cerrados sofridos na segunda metade do mandato seria simbólico de uma grande vitória.

Para os indignados da Zona Sul que ainda não conseguiram entender por que o povo escolheu Lula, o debate foi um resuminho de tudo. Nada do que Alckmin disse “estar mal” no Brasil estava melhor sob FHC. Nada: nem juros, nem emprego, nem educação, nem saúde, nem microcrédito, nem acesso do povo pobre à cidadania. Como diz o Alon, o que derrotou Alckmin não foi o marqueteiro ruim e sim uma discussão política, na qual o terreno de jogo, os termos nos quais dava a peleja, foram definidos pela coligação Lula, que partiu para o ataque já no dia 02 de outubro. A dificuldade com que Alckmin respondeu aos ataques feitos ao passado privatista do PSDB foram a expressão da sua sina neste segundo turno, a de debater nos termos ditados por Lula.

Na última volta do parafuso da privatização, não deixou de ser cômico assistir ao candidato tucano acusar Lula de estar "privatizando" a Amazônia. Não se trata de discutir aqui a lei nº 4.776, de 2005, claro. Simplesmente aponto o óbvio: um Alckmin que esteja acusando Lula de "privatizar" já está debatendo em termos determinados pelo adversário. Por ali não vence nunca.

Como notou a Mary W, Alckmin transmite a péssima impressão de que está sendo condescendente quando tenta explicar algo em termos populares. Em algum momento do debate cheguei a achar que o olho-no-olho que Lula lhe dirigia podia ter passado da medida e que o candidato do PT poderia perder pontos por excesso de agressividade com um adversário já derrotado. Mas a força com que Lula investiu sobre Alckmin e a insistência em fazer gestos de conciliação a Aécio Neves e José Serra já podem ser parte do mapa pós-eleitoral. Para o PSDB, continua o desafio de conseguir ser algo que não um mero anti-PT. Seria muito bom para o Brasil.

Boa eleição para todos.



  Escrito por Idelber às 07:10 | link para este post | Comentários (29)



terça-feira, 24 de outubro 2006

Cidadania cultural

candeal.jpg Depois de umas semanas só trabalhando “para os outros” (dando aulas, corrigindo trabalhos, revisando teses, escrevendo cartas de recomendação, etc.), arrumei finalmente um tempinho para trabalhar numa coisa minha, que é um projeto de artigo sobre a relação entre algumas formas de música popular no Brasil e novas práticas cidadãs. O que me interessa não é analisar canções que “falem do tema da cidadania", mas mostrar como certas práticas musicais a transformaram, em diferentes pontos do país (meus guias são Chico Science e o Mangue Beat).

Há trabalhos recentes que fazem isso. Há um estudo interessante, por exemplo, de Goli Guerreiro, que mostra a trajetória do projeto musical de Carlinhos Brown no Candeal, em Salvador, e detalha o impacto gigantesco que ele teve na auto-estima da comunidade.

A formulação mais influente do conceito de cidadania nas ciências sociais, durante algumas décadas, veio da obra de T.H. Marshall, Citizenship and Social Class (1950). Ela associa a cidadania à condição de “ser membro pleno” de uma comunidade, independendemente das desigualdades econômicas existentes. A noção de universalização do direito como característica do cidadão é mais antiga, claro. É grega, e vem acompanhada sempre da salutar ressalva que o princípio da universalidade ali não incluía mulheres nem escravos.

Marshall separa a cidadania em três tipos – civil, econômica e política – e entende que há considerável independência entre eles, chegando ao ponto mesmo de designar um período formativo para cada tipo: fim do século XVIII para o civil, século XIX para o econômico, século XX para o político (períodos que devem ser entendidos de forma flexível e elástica, claro).

O que vários estudos contemporâneos têm feito é sublinhar que há uma esfera não necessariamente dos direitos civis, econômicos ou políticos através da qual a cidadania também é articulada. Chamemos-na de cidadania cultural. São todas as iniciativas que passam pela cultura (música, internet, teatro, o que seja), mas que têm impacto real na condição de cidadãos dos sujeitos envolvidos nela; são, numa palavra, práticas que redefinem a cidadania a partir da cultura. Há uma corrente que é bem entusiasmada com essa noção de cidadania cultural. Há outra mais cética, que diz que esse papo de cidadania cultural tira a atenção do mais importante, que é o direito ao feijão no prato, ao décimo-terceiro salário e ao voto na urna.

Já reuni uma baita bibliografia para esse artigo e sei que no Overmundo há um zilhão de casos, mas adoraria escutar quaisquer pitacos sobre histórias que você conheça, sobre iniciativas culturais que têm potencial cidadão, sobre como a música realiza mediações entre você e a polis. Diga lá uma coisa bem inteligente para que seu blogueiro possa cumprir suas obrigações acadêmicas e voltar para escrever novos posts.



  Escrito por Idelber às 23:33 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 20 de outubro 2006

Homer Simpson da TV Globo leva baile dos leitores do Observatório da Imprensa.

homer-1.jpg Nesta quinta-feira, ao tentar responder à reportagem de Raimundo Pereira na Carta Capital, o editor-executivo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel – sim, aquele que escreve livro para negar a existência do racismo no Brasil – levou uma das maiores lavadas que já vi alguém levar na história da internet brasileira. O episódio já é, em si, um marco desta campanha eleitoral e mostra a força democratizadora do “jornalismo cidadão” feito na internet por gente como Mino Carta, Luis Nassif, Paulo Henrique Amorim e Luis Weis.

A reportagem da Carta Capital demonstrou como o jornalismo da Globo foi cúmplice do delegado Bruno – que fotografou, na véspera da eleição, o dinheiro apreendido com petistas quase duas semanas antes, para depois pedir divulgação no Jornal Nacional e exigir mentira dos veículos para explicar aos seus superiores o vazamento (além de cometer várias outras ilicitudes, como implicitamente confessar que o fazia por motivos políticos). As fotos do dinheiro que talvez pudesse ter origem ilícita e poderia ter sido usado para comprar um dossiê contra José Serra que talvez não contivesse nada de grave contra o tucano (contaram os condicionais?) receberam, nos dois Jornais Nacionais imediatamente anteriores à eleição, cobertura ampla, histérica e raivosa que excedeu inclusive o tempo dedicado a um dos piores acidentes aéreos da história do Brasil, em que mais de uma centena de famílias haviam sofrido perdas. Isso no sábado, porque na sexta-feira o JN curiosamente ainda não sabia que o avião da Gol havia caído. O Sr. Ali Kamel sofisma, faz traça da inteligência de seu leitor e não oferece explicação satisfatória para o fato de que a CNN e o New York Times noticiaram a queda do avião da Gol horas antes da TV Globo. Essas horas são cruciais, claro, porque entre aquelas foi exibido o Jornal Nacional com a farra das fotos. Na reportagem em que detalhou como a Globo omitiu informações cruciais na divulgação do dossiê, Raimundo Pereira incluiu as dez perguntas que havia encaminhado ao responsável pela Central Globo de Jornalismo. O Sr. Ali Kamel não respondeu nenhuma das dez perguntas feitas pelo jornalista Raimundo Pereira quando da confecção da reportagem.

Seis dias depois da ampla circulação da reportagem da Carta Capital e de sua repercussão na internet, o Sr. Ali Kamel veio ao Observatório da Imprensa tentar se explicar. A reportagem da Carta Capital havia perguntado porque o JN não destacara um repórter para a investigação das relações entre Barjas Negri e Abel Pereira em Piracicaba. Perguntava porque a Globo omitiu o conteúdo da conversa que atestava participação na ilegalidade cometida pelo delegado Bruno. Perguntava porque a Globo adotou critérios diferentes para divulgar as fotos (obtidas ilegalmente) na véspera da eleição e não divulgar o dossiê de Cuiabá sob a alegação de que o material estava sob suspeita. Perguntava várias outras coisas. Quantas dessas perguntas o Sr. Ali Kamel responde no seu longo arrazoado de enrolações produzido seis dias depois da publicação da CC? Nenhuma. globo.jpg

Para tentar defender a si e ao Jornalismo da Globo, Ali Kamel escreveu um texto que se enrola em contradições, longas citações fora de assunto, omissões de explicação para fatos já sabidos, meias-verdades, clichês desprovidos de credibilidade e todo um sem-fim de fraquíssimos truques retóricos para evitar responder claramente o perguntado. Como exercício de argumentação num hipotético curso de graduação em retórica, o texto de Kamel mereceria nota não maior que D até mesmo na Faculdade de Conceição do Mato Dentro.

O artigo de Kamel tenta fazer-nos crer que o acidente da Gol já não era fato sabido às 20:30 de sexta-feira, e sua mentira é desmascarada por vários leitores que testemunham terem lido sobre o acidente antes do JN (em vários outros veículos, como a CNN e o Terra) e terem ligado a televisão na Globo com a esperança – a certeza – de que o JN o noticiaria. Leva o primeiro tombo ali. Também tenta desqualificar as 10 perguntas apresentadas por Raimundo Pereira usando um velho truque retórico: simplesmente ignora 8 delas e toma 2, jogando uma contra a outra como se elas fossem contraditórias entre si. Não são. Elas perguntam coisas diferentes sobre a não-cobertura das atividades de Abel Pereira. É pego na mentira uma segunda vez. Escreve como se a frase Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional, dita pelo delegado Bruno, tivesse sido editada pela Carta Capital. Não foi. Pego na mentira a terceira vez. No final coloca um PS dizendo que Cópias da fita com a conversa gravada entre o delegado e os repórteres, divulgadas por alguns sites, estranhamente têm uma qualidade sofrível. Duas horas depois ele é pego na mentira pelo próprio site da Globo que, diante da pressão criada na internet, coloca no ar a gravação da conversa – pelo menos quatro dias depois da sua divulgação em outros blogs, como o de Paulo Henrique Amorim - ironicamente desautorizando seu chefe de jornalismo com o título Leia e ouça, com nitidez e na íntegra, conversa do delegado do caso dossiê com repórteres. Kamel também é contradito outras vezes, como quando afirma que esses diálogos mostram claramente que CartaCapital se baseou numa edição parcial das frases do delegado. Os leitores do Observatório demonstram repetidas vezes, de diferentes formas, como é Kamel que está omitindo o fundamental: a motivação política, vingativa e a atitude ilegal do delegado Bruno com a cumplicidade da direção de jornalismo da Globo, que recebeu a fita não depois do dia 29 de setembro e agiu como se não a tivesse recebido.

Enquanto que as inverdades são muitas, as meias-verdades não são menos numerosas: Kamel repete duas vezes no seu texto que o delegado Bruno, ao vazar as fotos, conversara com quatro repórteres, “nenhum deles da TV Globo”, sem dizer que uma delas era do jornal O Globo, sem dizer que além disso um repórter do JN é explicitamente mencionado na conversa,sem dizer que o material é prometido a ele e sem dizer que o jornalismo da TV Globo sim recebe a gravação não depois de 29 de setembro e decide acobertar a mentira que ali está. Esqueceu de dizer isso tudo? Ora, ora, quem está trabalhando com uma edição parcial das frases do delegado?

Depois de umas poucas horas no site do Observatório, o texto de Kamel já havia sido esmigalhado, minuciosamente desmontado, desconstruído, depenado por 90% - sim, pelo menos 90% - dos 286 leitores que lá haviam escrito até a madrugada de hoje. Os leitores não puderam senão recordar, claro, a sujíssima história da TV Globo em episódios como o quase-roubo da eleição estadual de 1982 das mãos de Brizola (em conluio com o Proconsult) e a edição do debate Collor / Lula em 1989. Este episódio das fotos ilegais para atingir Lula e a posterior – posterior em seis dias – “explicação” de Kamel demonstra que a TV Globo vai além de ter na chefia do maior telejornal do país alguém que pensa em seu tele-espectador como um “Homer Simpson”. Demonstra também que o chefe de jornalismo da Globo ainda não conseguiu diferenciar os leitores de um site como o Observatório da Imprensa dos seus Homers imaginários. Demonstra que o Sr. Ali Kamel ainda não aprendeu o básico do básico sobre o jornalismo político dos nossos tempos: que na era da internet, o buraco é mais embaixo. Tudo indica que pagará caro em perda de credibilidade por achar que o Observatório da Imprensa era o sofá de Homer Simpson.



  Escrito por Idelber às 05:27 | link para este post | Comentários (110)



quarta-feira, 18 de outubro 2006

Links

Começa amanhã em São Paulo, na Livraria da Vila, uma Balada Literária que tem programação imperdível até o dia 31. Armação do super-ativo Marcelino Freire.

No Rio de Janeiro, a grande dica é a mostra O Negro no Cinema Brasileiro, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Se você nunca viu Barravento (1962), de Gláuber Rocha, na telona, amanhã é a chance. A mostra inclui debates com cineastas e críticos. Infelizmente para nós, o melhor que já se escreveu sobre o negro no cinema brasileiro está em inglês: Tropical Multiculturalism, do meu amigo Robert Stam.

Conheça melhor a trajetória de Raimundo Pereira, ícone do jornalismo brasileiro e responsável pela reportagem da Carta Capital que detalha como os grandes veículos de comunicação do país não só omitiram a fonte, o que é procedimento corrente no jornalismo, mas mentiram com a fonte no caso do vazamento das fotos que inundaram a mídia na véspera da eleição. Ouça a gravação ou leia a transcrição da conversa do delegado Bruno com repórteres aqui. Das organizações Globo, até agora, alguma palavra?

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Saiu o novo Datafolha e Lula abriu vinte pontos sobre Alckmin. Depois de 2 anos sob fogo cerrado na mídia, Lula se aproxima da votação consagradora que teve contra Serra há quatro anos. É o povo se vendendo por um prato de comida, como querem alguns colunistas? Não é bem isso, explica o Alon num de seus melhores posts.

Enquanto isso, a o ódio de classe na Zona Sul mostra suas garras.

No mesmo dia em que reconhece a derrota iminente de seu candidato, Reinaldo Azevedo afirma : Lula termina o segundo mandato? É razoável apostar que não. Tenho as licenças de Vossas Senhorias para chamar isso de golpismo?

Um espectro paira sobre o Observatório da Imprensa: o que aconteceu com o Alberto Dines? Num texto irreconhecível, ele supõe que há "indícios claros" de que a Veja está dizendo a verdade e a Polícia Federal está mentindo. Quais os argumentos apresentados? Nenhum. Leiam o texto de Dines, mas leiam também, com cuidado, a excelente caixa de comentários. Dines é minuciosamente desconstruído por mais de 100 leitores, incrédulos com a mainardização do antigo crítico arguto da mídia. Vale a pena presenciar. Sobre o mesmo episódio, e contrastando com a crença de Dines nas ilações da Veja (sim, ilações, pois não há testemunhas nomeadas, provas, literalmente nada), vejam os textos de Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif e Luis Weis.

A grande notícia: depois de ajudar a eleger o novo governador de Sergipe, o Paraíba voltou com tudo.

PS 1, aos amigos: já tenho data de chegada ao Brasil de novo: 10 de dezembro. Pelo jeito, com as coisas nos devidos lugares, Lula reeleito e Galo na Primeira Divisão. Só falta o time chapa-branca cair, aí fica bonito mesmo.

PS2: Houve um debate na TV Cultura entre Mino Carta e Clóvis Rossi. Eu seria capaz de vestir uma camisa do ex-Ipiranga para ter acesso a esse debate. Alguém aí gravou ou sabe se será reprisado?

PS3: A partir de hoje a tolerância com certos termos na caixa de comentários será um pouco mais baixa do que tem sido. Descer o sarrafo nas idéias que eu defendo pode. Insultar e xingar não pode. Confio no bom senso de todos para discernir o limite entre as duas coisas e manter o blog como espaço aberto de debate sem moderação de comentários.

Atualização: Ao falar de CPI da mídia nesse post, eu não me referia à discussão de conteúdo ou "censura" do que entra no jornal ou na novela. Mas acho que a população tem o direito de saber quanto a Globo recebeu da ditadura militar, por exemplo; quanto ela deve ao BNDES; quais foram as barganhas feitas. Mesma coisa no caso do grupo Civita. Não tem nada a ver com censura, e tudo a ver com saber qual tem sido a relação desses conglomerados com o erário público.



  Escrito por Idelber às 00:31 | link para este post | Comentários (61)



segunda-feira, 16 de outubro 2006

A explícita campanha eleitoral da mídia brasileira

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Que duas das últimas quatro capas da revista Veja demonstrem claramente que ela está empenhadíssima na campanha de Alckmin não deve surpreender. A Veja há tempos perdeu qualquer respeitabilidade como veículo de comunicação com pretensões à isenção: matérias insultantes, moleques caluniadores assinando colunas, versões fantasiosas dos fatos e grosseira parcialidade na cobertura são o prato de toda semana nessa que é ainda, tristemente, a mais vendida revista semanal brasileira.

Mas do maior jornal brasileiro costumávamos esperar um pouco mais. Sim, é fato sabido que a Folha de São Paulo foi parte integrante do golpismo anti-Jango de 1961 a 1964; também é abundantemente sabido que esse jornal emprestava suas C-14 para recolher torturados durante a ditadura militar; é igualmente de conhecimento público que o Sr. Frias apoiava de forma explícita a mais sinistra opção para a sucessão de Ernesto Geisel, o general linha-dura e delirantemente fascista Sílvio Frota, comandante do Exército; é também sabido que durante os oito anos de FHC a Folha, com raríssimas excessões, abriu mão completamente do papel investigativo da imprensa ante as suspeitas privatizações realizadas pelo tucanato. Tudo isso é fartamente sabido.

Se o seu suplemento literário já há tempos perde de goleada do "Prosa e Verso", do Globo, na cobertura política acostumamo-nos a esperar um mínimo de decência e imparcialidade da Folha. Nesta campanha eleitoral, no entanto, ante a vantagem de Lula e a perspectiva de outra derrota eleitoral dos seus queridos tucanos, a Folha resolveu arregaçar as mangas e entrar na campanha de cabeça. Já não fazem qualquer questão de escondê-lo. A deturpação, parcialidade e manipulação de manchetes estão chegando às raias do que seria de se esperar da Veja.

No caso do dossiê anti-Serra que foi decisivo para a realização do segundo turno, a imprensa brasileira simplesmente omitiu que conseguiu as tão desejadas fotos do dinheiro através de uma mentira de um delegado ("tomem, mas vou mentir aos superiores dizendo que foi vazado da minha escrivaninha; tem que sair no Jornal Nacional, viu?"). Não há defesa de sigilo de fonte que justifique a omissão de que a foto havia sido conseguida através de procedimento criminoso. Josias de Souza, com a desonestidade própria aos que se dedicam a servir os poderosos, acha normal a omissão das circunstâncias em que se conseguiu a foto, normal o esquecimento de qualquer pergunta sobre o conteúdo do dossiê, normal a omissão do fato de que a campanha tucana havia chegado ao local antes da PF. Há que se reconhecer um mérito naquele blog: o blogueiro leva uma surra diária dos seus leitores e continua lá, fazendo sua campanha, incólume. Enquanto isso, lembremos: Soninha continua proibida de falar de política em seu blog. folha-14.jpg

As manchetes da Folha nesta última semana parecem saídas do Pravda. Depois da declaração do coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, de que fiizemos alguns reajustes importantes que vão nos dar hoje uma situação mais equilibrada. Não precisaremos dar os pinotes que foram necessários para, entre outras coisas, atender à necessidade do nosso funcionalismo público, a Folha estampou na capa do dia 14: PT vai dar reajuste menor a servidor se vencer a eleição. Esqueceram-se de dizer, claro, que os reajustes dados no governo Lula foram infinitamente superiores aos dos oito anos de FHC. Ante a declaração de campanha do presidente Lula, de que querem privatizar o que resta neste país. Como eles nunca trabalharam, querem vender o que têm, o jornal, no dia 13, escolhia como manchete: Lula insiste em dizer que Alckmin vai privatizar Petrobrás, BB e Caixa.

Prestem especial atenção aos verbos e substantivos que não são de responsabilidade do entrevistado ou da fonte, mas de escolha do jornal: ante a notícia de que a votação de Lula foi de 93% na cidade de Manaquiri (AM), onde 75% das famílias recebem o Bolsa-Família, a Folha estampou, no dia 08, a manchete: Medo é cabo eleitoral de Lula no Amazonas. Não, leitor, você não está delirando. A manchete foi essa mesma. Na discussão sobre a dimensão privatista do programa de Alckmin - sobre o qual, diga-se de passagem, ele ainda não disse nada - a Folha, no mesmo dia 08, estampou a incrivelmente cretina manchete: PT ressuscita chavões de oposição para atacar tucano. "Ressussita chavões?" Desde quando chavão em política é exclusividade de alguém? E desde quando um jornal relata a versão de sua fonte com esses termos grosseiros? O outro lado da mesma notícia? Sim, o outro lado aparece, claro, na manchete Alckmin nega que fará privatizações e reprova petistas. Note-se o óbvio: a versão de Alckmin é dada com palavras dele. A versão do PT é caracterizada na manchete como "ressureição de chavões", numa grotesca paráfrase que poderia ter sido tirada de um panfleto do . . . do . . . próprio Alckmin! É a "imparcialidade" do jornal.

Será que é preciso ter um doutorado em retórica para perceber o que está em jogo aqui? Acredito que não. Acho, inclusive, que o grosso do povão já o percebeu. O sentimento anti-imprensa no Brasil está chegando a níveis comparáveis aos tempos do bordão o povo não é bobo / abaixo a Rede Globo, com que os pobres profissionais da organização eram saudados nos comícios das diretas em 1984, depois que o "jornalista" Roberto Marinho publicou sua carta de louvor à ditadura.

É urgente uma CPI da mídia no Brasil. Quando e se ela acontecer, a última coisa que vou querer ouvir é algum jornalista reclamando, "ai, meu Deus, é censura!"

PS 1. Um melhores blogs do Brasil no momento: Blog do Alon (eu dei pitaco nesse importante post).

PS2: O Kit Básico da Mulher Moderna completa quatro anos de existência! Tim-tim. Um dia eu chego lá :-)



  Escrito por Idelber às 03:27 | link para este post | Comentários (121)



sexta-feira, 06 de outubro 2006

Post com pedido de notícias

Acho que já avisei aqui, mas em todo caso: este blogueiro se encontra no Rio de Janeiro, participando desde segunda-feira de um evento acadêmico organizado pela Casa de Rui Barbosa em homenagem aos 70 anos de Silviano Santiago. Em vinte anos de carreira acadêmica, nunca vi coisa igual: os trabalhos começam às 9 da manhã e vão até as 9 da noite. Doze horas de labuta, diária.

Resultado: faz cinco dias que não leio jornais. Não sei de nada. No post anterior há belas conversas que acompanhei, mal e porcamente, mas das quais não pude participar.

Pedidos encarecidos: Contem-me o que anda acontecendo. Como anda a cobertura da imprensa do segundo turno? Meu caro leitor Cesar me diz que o tom da cobertura do segundo turno está bem diferente do primeiro. Meu também caro leitor Frank me diz que a Veja chegou ao cúmulo de falar dos lados `positivos´ do governo Lula. Ficaram loucos? Contem-me por favor se o Brasil ainda está no mesmo lugar depois destes cinco dias em que ando enfurnado na casa em que morou Rui Barbosa. Sei que consegui eleger minha candidata a deputada federal e não consegui eleger meu estadual. De resto não sei nada.

Contem tudo aí, por favor, e em grata retribuição eu prometo um post legal antes da minha viagem de volta aos EUA, no domingo. Abraços do blogueiro que anda dormindo 3 horas por noite,



  Escrito por Idelber às 02:20 | link para este post | Comentários (39)



domingo, 01 de outubro 2006

A angústia do batedor na hora do pênalti

votaçao.jpgHá um clima de euforia na imprensa. Na Folha de hoje, Eliane Castanhêde anuncia, jubilante: “segundo turno à vista”! O mais provável é que, sim, o percentual de votos de Lula esteja em curva descendente, depois de semanas de bombardeios ao PT pelo episódio da compra do dossiê. A reta final da campanha de Lula não poderia ter sido mais repleta de trapalhadas: depois de ver a “central de inteligência” colocar em risco o certo (a eleição nacional) em nome do improvável (uma virada em São Paulo), Lula escolheu a forma mais desastrada de não ir ao debate. Fez com que auxiliares plantassem o boato de uma possível ida, obrigou a Globo a esperar até o último minuto e só aos 44 do segundo tempo avisou que não ia. O desgaste foi maior que o necessário. Claro que as fotos do dinheiro da compra do dossiê - cuja origem ainda não está esclarecida - foram o grande prato da mídia no fim de semana.

Mesmo que o episódio do dossiê não tenha custado a Lula a eleição, foi uma ducha de água fria na militância, que começava timidamente a voltar às ruas. Em estados importantes como o Rio Grande do Sul, Pernambuco e Pará, onde a perspectiva do PT disputar o segundo turno era real, a tendência sofreu um refluxo. A luta interna dentro do partido deve se reacender, com a crescente revolta de muitos filiados de todo o país contra o setor mais aparelhista, eleitoreiro e inescrupuloso cujo centro se encontra em São Paulo. A tendência de distanciamento entre Lula e o PT, que já era nítida, deve se acentuar no caso de um segundo mandato – com conseqüente diminuição do espaço do partido no governo.

O terço do Senado que será renovado hoje traz perfil bem conservador, com exceções como Eduardo Suplicy (PT-SP), possivelmente Jandira Feghali (PC do B-RJ), José Eduardo Dutra (PT-SE) e quem sabe - alegria das alegrias para este blog, caso ocorra – Cristina Almeida (PSB-AP). Com seu partido abalado, sofrendo bombardeio de parte significativa da imprensa e vendo a oposição ouriçada, Lula terá que costurar o seu segundo mandato com mais eficácia e habilidade do que demonstrou na última semana de campanha.

PS: Para não dizer que não dei minha declaração de voto completa, aí vai:

Presidente: Lula
Governador: Nilmário Miranda - 13 (PT)
Senadora: Maria da Consolação - 500 (PSOL)
Deputada Federal: Jô Moraes - 6565 (PC do B)
Deputado Estadual: Ricardo Duarte - 13013 (PT)

PS 2: Belo post da Kellen sobre a diferença entre um programa de assistência baseado na solidariedade particular e um programa centrado no direito.

PS 3: Na medida que forem sendo divulgados os resultados, fiquem à vontade para debatê-los, com um olho muito especial para o Amapá, por favor.

Atualizaçao, I: Imperdível texto da pesquisadora Ivana Bentes (UFRJ), convidada a escrever no Caderno Mais! da Folha de hoje e logo depois convenientemente "desconvidada" pelo jornal quando apresentou o seu texto (obrigado ao leitor Hermes pelo link).



  Escrito por Idelber às 04:13 | link para este post | Comentários (138)



quinta-feira, 28 de setembro 2006

Links, na porta do avião

secondline2.jpg
Minha última secondline em New Orleans antes de embarcar para o Brasil.

secondline3.jpg
Sim, o carinha ao fundo é Bono Vox, que passou por aqui. Em primeiro plano, minha amiga e aluna Renata
.

Direto do Louis Armstrong International Airport (não é maravilhosa uma cidade onde o aeroporto tem nome de músico, e não de ex-presidente? Belo vínculo entre New Orleans e o Rio; só falta agora um vôo direto), deixo-lhes alguns links e recados:

Embarco agora para o Brasil para votar, mas também para participar de um evento de uma semana, intitulado "Crítica e Valor", no qual uma série de críticos literários e ensaístas do Brasil e do exterior se reunirão, de 02 a 06 de outubro, na Casa de Rui Barbosa, para prestar homenagens aos 70 anos do grande, do genial, do one and only Silviano Santiago. A programação está disponível no site da casa e as inscrições estão abertas. Se você não conhece a obra deste indispensável escritor, comece com Stella Manhattan ou Em Liberdade.

Direto do Planeta Mary W, um belo comentário dela sobre o debate em SP: E o Plínio perguntou "em quem você votou pra presidente do PT, Mercadante, em mim ou no Berzoini?". E o Mercadante não respondeu. E ficou mal. Ele que tinha feito um debate apenas ruim, descambou pro péssimo. Isso NÃO teria impacto no grande eleitorado e ele não ficaria com pecha de fujão. Comentário meu: Ah, o Plínio é muito sabido mesmo. Engole o Mercadante de primeira e sem fazer força. Essa pergunta foi o má-xi-mo! E o Mercadante é tão burro que nem lhe ocorreu a resposta fácil, mesmo que falsa: "em nenhum dos dois. Votei no Raul Pont. Jamais votaria num candidato que abandona um partido no intervalo entre o primeiro e o segundo turnos de uma eleição para presidente. Ou sai antes ou valida a eleição inteira, senão é oportunismo." Mas quem é o Mercadante para pensar numa resposta dessas? Nem que a vaca tussa. Parece que o Plínio comeu o debate em SP com garfo e faca; pelo menos é o que me disseram observadores parciais e imparciais.

Outra citação: eu fico estupefato com esse tipo de pensamento que achata o mundo e iguala um Mário Covas a um Paulo Maluf, um Jefferson Peres a um José Janene, um Hélio Bicudo a um Erasmo Dias, um Darcy Ribeiro a um Roberto Jefferson, um Jorge Viana a um Hildebrando Pascoal. No mínimo, é muita falta de conhecimento histórico, uma demonstração do que existe de mais nocivo, mais estéril nesse desprezo desinformado pela classe política como um todo. Escolher os homens e mulheres que decidirão os rumos desta nação pelos próximos anos certamente influenciará a sua vida muito mais do que a aquisição de uma roupa nova. E dizer que nenhum candidato lhe satisfaz, como se absolutamente ninguém dentre os milhares de nomes que concorrem às vagas de deputado, senador, governador e presidente não corresponda minimamente a qualquer uma de suas expectativas com relação a educação, saúde, transportes, turismo ou economia, me soa como uma tremenda falta de vontade em ao menos conhecer as propostas, o plano de governo ou as prioridades elencadas por cada postulante. Estou sinceramente saturado desse tipo de queixa genérica, balbuciadas do tipo "ah, esse país não tem mais jeito mesmo, ninguém presta", coisas de quem não lembra em quem votou, nunca entrou em contato com um vereador ou deputado para cobrá-los por suas decisões, de quem deixa de fazer a sua parte, seja saindo às ruas e participando de manifestações, seja se engajando em alguma atividade que vise o prol coletivo, limitando-se a resmungar por causa dos "patifes", seja lá quem forem eles. É Alexandre Inagaki matando a pau no último post, embaixo do qual o Biscoito assina integralmente. Nada, nada me irrita tanto como o santo e indignado discurso - muito comum no eixo que eu chamo de Leblon-Morumbi-Mangabeiras - que atribui à política enquanto tal uma sujeira inescapável, e aos políticos, todos eles, a mesma falta de "moral" ou de "ética" (acho curiosíssimo o sentido em que essa palavra vem sendo usada na campanha eleitoral brasileira). Discurso tranqüilo, reconfortante e preguiçoso que Ina desmonta com maestria no último post.

Já que o Biscoito estava certo de que não houve grampo no TSE coisa nenhuma, não seria o caso de o Ministro Mello, ao invés de dar uma entrevista como essa, vir a público para pedir desculpas à sociedade brasileira pelas suas absurdas ilações? O Biscoito continua perguntando: por que ele fez denúncias e 24 horas depois fez questão de dizer que a PF não acharia nada?

Sobre o debate no Rio, o que eu ouvi falar foi que Denise Frossard perdeu uma ótima chance e que o único que se saiu razoavelmente bem foi o Eduardo Paes. Confere?

O blog volta com um post "reta final" no sábado. Amigos de BH: estarei na cidade, no telefone de sempre, de sexta a domingo. Amigos do Rio: de 02 a 08 estarei por aí, encontrável no Golden Park, Rua do Russell, Glória. Abraços e boa eleição para todos.



  Escrito por Idelber às 14:27 | link para este post | Comentários (33)



terça-feira, 26 de setembro 2006

Estadão descobre que nordestinos, pretos e pobres são os culpados da corrupção

Vejam a que ponto chega a manipulação de informações e pesquisas nesta bela crítica de Franklin Martins a um editorial do Estadão (valeu, Duas Fridas).

PS: Então, a idéia dessa campanha é pôr o nariz de palhaço, e depois? Fazer o quê? Qual é a proposta mesmo? Não me comoveu não - para não mencionar o fato de que qualquer movimento em que participe o Ivan Lins imediatamente deixa de contar com meu apoio.



  Escrito por Idelber às 00:28 | link para este post | Comentários (69)



segunda-feira, 25 de setembro 2006

E essa história do grampo no TSE, hein?

grampo.jpgBem discreta, no canto do “Painel”, na Folha de São Paulo deste domingo, encontrava-se a notinha assinada por Renata Lo Prete que dizia (link para assinantes): Trote? A PF considera grande a possibilidade de não ter havido grampo em telefones do TSE, e sim um erro da empresa que fez a varredura.

Trote? Erro? Tentemos reconstituir o relato voltando até 2002, quando se revelaram os laços entre tal “empresa” e o Sr. José Serra.

A mui mal contada história dos grampos sobre o TSE é um exemplo de como se repetem, nesta campanha eleitoral, curiosos padrões de misturas entre ilações e fatos. No último dia 17, em meio ao escândalo sobre a compra dos dossiês, explode a bomba: o Presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello, denunciara que “a empresa responsável” pela varredura dos telefones do TSE havia detectado grampos nos telefones dele e de dois outros colegas seus do tribunal, Cezar Peluso e Marcelo Ribeiro.

No momento em que noticiou a denúncia, a Folha de São Paulo fez questão de dizer que foi Ribeiro quem começou a condenar o que julga invasão do candidato ao Planalto no tempo de propaganda dos candidatos aos governos estaduais e ao Congresso. Desde o início da campanha, a candidatura de Lula já perdeu mais de 10 minutos nos programas e inserções. No meio da denúncia não comprovada a matéria sugeria, portanto, o interesse da candidatura de Lula no grampo.

Transgredindo qualquer paradigma de neutralidade magistrada, o presidente do TSE dá entrevista dizendo que Se partiu do Estado, aí merece a excomunhão maior. E revela a quadra de opressão que nós vivemos. Claro que isso foi o suficiente para que a imprensa anunciasse que Grampo pode ter partido do Estado, o que, por sua vez, foi suficiente para que Alckimin culpasse o PT pelo grampo. Imediatamente, o blog do Estadão fazia a "inocente" pergunta retórica A quem interessa o grampo?, lembrando que Alckmin havia tido 64 decisões a seu favor no TSE, contra 17 de Lula.

No dia 18, curiosamente, o presidente do TSE começa a declarar que dificilmente a PF acharia os responsáveis pelo grampo, numa "inexplicável" interferência no trabalho da Polícia Federal. O diretor-geral do TSE, Athayde Fontoura Filho, dá entrevista especulando que os grampos já poderiam ter sido retirados, tudo isso 24 horas depois da “revelação” do “fato” e antes que a Polícia pudesse ter feito seu trabalho. Não é estranho?

Pois bem, qual é a empresa que, segundo as investigações da Polícia Federal relatadas por Renata Lo Prete, pode ter cometido o “erro” de ter visto grampo onde não havia? Trata-se da Fence Consultoria Empresarial, de propriedade do ex-dirigente do SNI, o coronel reformado do Exército Ênio Gomes Fontenelle. Trata-se da mesma empresa que foi denunciada em 2002 por espionagem a favor de José Serra no episódio em que pilhas de dinheiro foram encontradas no escritório de Roseana Sarney. No dia 17 de setembro de 2002, o jornalista Jânio de Freitas escreveu:

Nada do que o Ministério da Saúde disse sobre a contratação da Fence Consultoria Empresarial merece crédito. Suas pretensas explicações não se conciliam nem com o que diz o próprio representante da empresa, coronel e ex-SNI Enio Fontenelle, sobre o contrato feito na gestão de José Serra na Saúde, alegadamente para vistoria de possíveis escutas clandestinas em instalações do ministério.

Atual ministro e secretário executivo do ministério ao tempo de Serra, Barjas Negri emitiu nota oficial afirmando que o valor do contrato multiplicou-se por seis, dois meses antes da mudança de ministro, porque a freqüência de verificações aumentou. De mensais, passaram a semanais. O custo, para os cofres da Saúde, passou de R$ 308.670,84 por ano (média mensal de R$ 25.722,57), segundo o contrato firmado em abril de 99, para R$ 1.872.576,00 (média mensal de R$ 156.048,00), conforme o contrato assinado em 19 de dezembro de 2001.

Ao passar de verificações mensais a semanais, a lógica levaria o valor do contrato a subir quatro vezes, de R$ 308.670,84 para R$ 1.234.683,36. Há, pois, R$ 537.892,64 não explicados pelo contrato para ‘varredura’ no Ministério da Saúde.

O número mesmo de ‘varreduras’ indicado pelo governo é falso. Em tranqüilo esclarecimento dado à Folha na tarde de sexta-feira, o coronel Fontenelle negou a ocorrência de periodicidade regular entre vistorias. A referência à periodicidade mensal, no primeiro contrato, deveu-se a conveniências de contratos no serviço público. No contrato feito dois meses antes da saída de Serra, a palavra ‘mensal’ foi retirada do texto. Apenas ‘foi pedida’, mas sem menção no contrato, ‘mais freqüência de verificações’, nas palavras do coronel.

As ‘varreduras’ eram ‘sem periodicidade definida’ e, esclarece Fontenelle, não abrangiam todos os pontos de cada vez. ‘Segunda-feira e terça, alguns. Mais tarde, outros. Não existe ‘varredura’ todos os dias.’

Barjas Negri deu a dimensão desse trabalho: ‘600 itens’ de verificação a R$ 260,08 por item, o que leva aos montantes anual e mensal do novo contrato. Observação inicial: o coronel Fontenelle diz que ‘não verifica todos os itens a cada inspeção’, mas um grupo de cada vez, ‘até para não despertar suspeita’. Logo, não caberia multiplicar os 600 itens por seu valor unitário para fixar ou explicar o valor do contrato. Mais uma demonstração, portanto, da impropriedade do alto valor considerando-se apenas o serviço das ‘varreduras’ referidas.

Outra observação sobre os itens a serem verificados: os 600 citados por Barjas Negri são produto de uma conta de chegar, para bater no total do contrato. O número é falso. ‘São mais ou menos uns 80 itens’, esclareceu o coronel Fontenelle, já 24 horas depois de divulgada a nota de Barjas Negri com o número fabricado.

Ainda em seu atabalhoado e duvidoso socorro a quem o fez ministro, Barjas Negri diz que a ‘Abin [Agência Brasileira de Inteligência, o SNI criado pelo atual governo’] e a Polícia Federal não teriam condições de fazer varreduras quinzenais ou mensais’, por falta de pessoal e de estrutura. É mentira. Palavras do coronel Fontenelle: ‘Para fazer ‘varredura’ de um telefone, um minuto e meio. Para fazer uma sala, meia hora’. (E acrescenta o pormenor técnico: ‘Sempre fora do expediente, de preferência à noite’). Abin e Polícia Federal têm tal habilitação para ‘varreduras’, seja em que periodicidade for, que são as incumbidas de fazê-las na própria Presidência da República (os negritos são de responsabilidade deste blogueiro).

Na época da arapongagem que beneficiou Serra na eleição presidencial, vários parlamentares indagaram sobre o porquê da contratação, sem licitação, de uma empresa particular de escuta telefônica por R$ 1,8 milhão por ano se a Polícia Federal possui os mais modernos equipamentos para realizar tal serviço. O Deputado Federal João Herrmann Neto protocolou representação junto ao Tribunal de Contas da União em que se denunciava

- falta de proporcionalidade entre os serviços realizados e a quantia paga como contraprestação;
- desproporcionalidade do valor pago pelo Ministério da Saúde em relação a outros órgãos públicos que fizeram contratações semelhantes;
- ausência de licitação;
- existência de instituição pública encarregada da realização de serviços da espécie (Agência Brasileira de Inteligência - ABIN);
- incompatibilidade entre as funções precípuas do Ministério da Saúde e o ramo de atuação da empresa Mundo da Segurança (“especializada na venda de kits de espionagem”);
- expressivo incremento, no exercício de 2002, dos valores contratuais, comparativamente com o que se verificou em exercícios anteriores.
(lembremos, claro, que 2002 foi o ano da eleição).

Chegou-se a anunciar que a empresa seria investigada pelo Senado. Para vários setores da sociedade, as relações entre Serra e a arapongagem realizada pela empresa do coronel ex-SNI eram dadas como mais do que conhecidas. Na época, o senador Bello Parga protocolou pedido de auditoria no Ministério da Saúde para investigar as relações entre Serra e a Fence Consultoria Empresarial mas, segundo o próprio Estado de São Paulo – jornal absolutamente insuspeito de ter simpatias petistas - uma manobra dos governistas impediu ontem a aprovação de auditoria para investigar se a Fence Consultoria Empresarial teria feito espionagem a pedido do Ministério da Saúde. E a coisa ficou por isso mesmo.

No governo Lula, o contrato do Ministério da Saúde com a Fence Consultoria Empresarial foi rescindido e logo depois o STJ fez o mesmo. Esta é a empresa que, segundo o presidente do TSE Marco Aurélio de Mello - aquele que, segundo Elio Gaspari, precisa conter a devoção que tem pela voz do doutor Marco Aurélio de Mello - "descobriu" grampos que "poderiam vir do estado".

São estes os grampos que, segundo a Renata Lo Prete segundo a Polícia Federal - podem não ter passado de ficção. A quem interessava essa ficção? E o que faz o Tribunal Superior Eleitoral contratando os serviços de uma empresa sobre a qual pesam tão fortes suspeitas de já haver realizado espionagem em benefício de um ex-candidato a presidente?

PS: Imperdível análise do Imprensa Marrom sobre as últimas duas pesquisas eleitorais.



  Escrito por Idelber às 03:08 | link para este post | Comentários (37)



quinta-feira, 21 de setembro 2006

Amapá Urgente: Mais notícias das agressões de Sarney contra a jornalista Alcinéa Cavalcante

camisa.jpgAo longo desta campanha eleitoral, José Sarney e seus capangas têm tentado silenciar e censurar o blog da jornalista Alcinéa Cavalcante. Sucessivas ações na justiça eleitoral do Amapá terminaram retirando do ar o blog que Alcinéa tinha no UOL, com vergonhosa cumplicidade do portal. Sarney havia conseguido que o TRE-AP ordenasse a retirada de uma charge que Alcinéa fotografou; o UOL se adiantou e retirou o blog inteiro do ar. A censura desencadeou revolta na blogosfera e gerou uma gigantesca campanha Xô Sarney. A história foi contada aqui no Biscoito e também no Pensar Enlouquece, e recebeu atenção da mídia internacional.

Já com o blog hospedado no Blogspot, ela recebeu, ontem, uma notificação de que Sarney havia ganhado o direito de resposta em seu blog. Isso mesmo: um direito de resposta num blog pessoal, onde Sarney tem o cinismo de assinar uma frase como Alcinea Maria Cavalcante Costa publicou matéria difamatória e caluniosa contra o Senador José Sarney, homem sério, digno, honrado e que tem prestado valiosos e imprescindíveis serviços ao Estado do Amapá nos seus mais de 50 anos de vida pública. O que você acha disso?

Este blog convida lulistas, alckmistas, helenistas, buarquistas e votonulistas a dar uma resposta à grotesca escrevinhação de Sarney no blog de Alcinéa. Além de deixar os seus comentários lá na Alcinéa, o leitor pode também escrever diretamente ao senador, para compartilhar com ele qual sua percepção sobre todo esse processo.

O TRE-AP que vem dando ganho de causa a Sarney e obrigando o blog de Alcinéa a retirar posts do ar, pagar multas e publicar cartas do coronel pode ser contactado neste email ou em algum desses.

A caixa de hoje está fechada, para que todos os comentários se concentrem lá na Alcinéa, especialmente na resposta ao Sarney. Para os que querem continuar debatendo os últimos acontecimentos do imbróglio com o dossiê, a caixa de comentários de ontem está aberta.

Toda a solidariedade à Alcinéa. Não deixe de dar o seu recado lá.

Atualização: por causa da configuração do blogspot, o permalink à resposta de Sarney abre o post na página como se ele não tivesse caixa de comentários. Tem. Por isso atualizei todos os links. Em vez de remeterem ao post específico, remetem agora ao blog de Alcinéa. Para ver a cartinha do coronel, desça até o post das 5:20 do dia 20/09.

Atualização II: Sarney se desespera e troca marqueteiro (gracias, Celinho).



  Escrito por Idelber às 03:20 | link para este post



quarta-feira, 20 de setembro 2006

Contra o golpismo, desta vez com ponderação

datafolhafotos.gif A coisa esquentou aqui ontem. Já era esperado. O post foi escrito num momento de indignação com o papel da mídia nos recentes escândalos. Acho que traduzi o sentimento de muitos colegas blogueiros sobre o episódio. Levei cacetadas de outros colegas também. Já outros amigos pediram ponderação. Tudo é parte do jogo.

Não retiro nada do que disse, mas coloco na mesa, em outro tom, algumas observações sobre o caso do dossiê contra Serra e a compra deste por integrantes do PT.

1. Quem já fez campanhas políticas sabe: dossiês incriminatórios contra concorrentes é o que há de mais comum. Perguntem ao Rafa. Comprar informação não é crime. Se a informação veiculada é falsa, configura-se crime de calúnia, obviamente. Se o dinheiro usado para a compra da informação é sujo ou de origem escusa, trata-se de outro crime. Mas a compra de dossiê, por si só, não é ilegal. Se eu tiver aqui um dossiê incriminando um candidato a prefeito de BH e quiser vendê-lo, o problema é meu e do comprador – contanto, repito, que o dossiê não contenha calúnia e o dinheiro seja limpo.

2. No caso da compra do dossiê sobre a suposta participação de José Serra no esquema dos sanguessugas, nada, absolutamente nada foi provado sobre a origem do dinheiro nem sobre a veracidade (ou não) das acusações que poderiam se desprender dali. A partir da prisão de Gedimar Passos e de Valdebran Padilha com R$1,7 milhão pela Polícia Federal – e da confirmação de que se tratavam de petistas – a mídia brasileira abandonou completamente a investigação do conteúdo da denúncia e iniciou a caça às bruxas sobre a compra do dossiê, como se a compra de um dossiê fosse mais importante que um mega-esquema de superfaturamento de ambulâncias que já opera há anos. A suposta compra de um dossiê que está na internet há tempos ganhou prioridade sobre os documentos e cópias de cheques revelados pela matéria. A parcialidade e a ânsia de produzir fatos contra a candidatura Lula é gritante.

3. Gedimar revela à PF que seu contato para a compra do dossiê era “um tal Freud ou Froud” – é curioso que um advogado e ex-policial federal se lembre em termos tão vagos do nome do contato de uma transação de R$1,7 milhão. Chega-se a Freud Godoy, assessor direto de Lula. A partir daí o PSDB e o PFL protocolam junto ao TSE um pedido de investigação da candidatura Lula! Começa a circular na mídia a palavra "impugnação"! Qual a prova existente contra Freud? Nenhuma, a não ser uma menção de alguém em poder da polícia. Mas isso é suficiente para que a oposição queira impugnar a candidatura de Lula. Começam a exigir que “Freud explique.” Explique o quê? Estão invertidas as coisas agora? Não é quem faz a acusação que tem que provar? Para piorar, a imprensa começa a publicar coisas como Envolvidos receberam dinheiro da União. Ora, se eles trabalham para a União, receberiam de quem? De Nelson Mandela? É como se eu fosse acusado de algo aqui e logo depois se publicasse: “Idelber Avelar recebe dinheiro de Tulane”. Acho que para a população não cola, sabe? Mas para o TSE, como se trata de investigar Lula, cola. Por outro lado, a CPI já instaurada para investigar a máfia dos sanguessugas não teria a obrigação de ouvir José Serra, que é o objeto das denúncias? Não, diz o membro da CPI José Carlos Aleluia (PFL-BA), porque afinal de contas ele é um homem de bem. Dá para engolir?

4. No meio da tarde de ontem, a Revista Época divulga uma nota em que afirma que um de seus repórteres havia sido procurado por Oswaldo Bargas, ex-secretário do Ministério do Trabalho e atual responsável pelo capítulo de Trabalho e Emprego do programa de governo de Lula. Segundo a Época, a reunião ocorreu e teve também a presença de Jorge Lorenzetti, analista de risco e mídia da campanha de Lula. Ainda segundo a revista, Bargas teria afirmado que as denúncias seriam fortes o suficiente para desmoralizar o candidato do PSDB ao governo do Estado de São Paulo, José Serra, e o ex-ministro da Saúde, Barjas Negri. O relato da revista conclui com a notícia de que Berzoini, presidente do PT, havia sido avisado da reunião mas não do teor das denúncias. O que faz a Folha? Lança uma manchete que diz Berzoini sabia da reunião de Bargas!, manchete essencialmente desonesta, na medida em que leva a crer que Berzoini soubesse do que se tratava. Logo depois a Época teria recebido um telefonema dizendo que o denunciante havia desistido do caso. Pergunta: mesmo que tudo tenha acontecido como relata a revista, o que, exatamente, nesta trajetória, configura crime? Nada, mas isso não importa. Páginas e mais páginas são dedicadas aos churrascos de Lorenzetti. A figura, obviamente, pede demissão.

5. Depois de prometer revelar o nome de outro petista “ilustre” envolvido no escândalo, o blog do Noblat anuncia que o famosíssimo Expedito Afonso Veloso, diretor de Gestão de Risco do Banco do Brasil, teria participado ativamente da operação de montagem do dossiê. Na verdade, ele teria dito a um amigo que “fui eu que investiguei tudo e montei o dossiê.” Filiado ao PT, foi gerente de divisão do banco, um cargo de quinto escalão. A filiação ao PT, claro, é importantíssima para a imprensa. Menos importante, e não formulada, é a pergunta óbvia: por que o PT pagaria R$ 1,7 milhão por um dossiê montado por um de seus filiados?

6. Em todo o imbróglio, a imprensa simplesmente abandonou a denúncia sobre a máfia dos sanguessugas e tratou o caso da compra de um dossiê como se fosse o estupro de uma criança de 4 anos. Onde está o crime, não visto até agora por ninguém exceto pelos mesmos de sempre?

7. Os exemplos do papel lamentável da imprensa são legião, mas assistam esse vídeo da entrevista da TV UOL com o Presidente do TSE, Marco Aurélio Mello. A primeira pergunta do repórter já deixa claras as intenções: o que precisa acontecer para que a candidatura de Lula seja impugnada? A pergunta é tão vergonhosa e tendeciosa que o próprio repórter engasgou e sentiu a necessidade de inserir um “ou não” depois do subjuntivo do verbo “ser.”

8. Em todo o episódio, o Ministro Mello comprometeu seriamente sua neutralidade magistrada ao entreter a hipótese de impugnação da candidatura Lula, ao dar entrevistas especulando sobre a possível responsabilidade “do estado” nos grampos telefônicos e também ao supor que seria “muito difícil” detectar os responsáveis. Tudo isso antes de qualquer investigação. No meio da crise, o Ministro Mello não só acata a requisição contra Lula, mas também recebe os presidentes de PSDB e PFL para um “bate-papo”. Esse é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Não seria o caso de se manter uma posição um pouco mais equidistante?

9. O post de ontem pode ter sido um pouco incendiário, mas acho que ele reflete o que pensam muitos brasileiros. Inclusive, já com mais de 48 horas de escândalo, as pesquisas não se alteraram. Se você ler com cuidado os comentários feitos até mesmo em blogs visivelmente pró-tucanos como o de Josias de Souza, verá que eu não sou o único. Até mesmo ali a defesa do mandato de Lula e a indignação com o golpismo ganham por vasta maioria. Não acredito que os leitores de Josias sejam exatamente beneficiários do bolsa-família.

10. Aos amigos que questionaram o meu uso de comentários do blog de José Dirceu: continuo tão crítico de José Dirceu como sempre fui. Mas não acho que isso deva desqualificar aqueles que ali escrevem. Por outra parte, como dito acima, eu poderia ter recolhido comentários idênticos até mesmo no blog do Josias Tucano de Souza.

Sim, o futebol nos ensina várias coisas. Uma delas é que um time que está perdendo de 6 x 2 não tem nenhuma autoridade para pedir ajuda ao juiz ou recorrer ao tapetão. Fica feio.

Por tudo isso, na sexta-feira da semana que vem pego o avião para depositar meu voto belo-horizontino em Lula. Confesso que com o clima criado pelo golpismo lacerdista, é difícil não sentir um gostinho especial nesse voto e na vitória de Lula. Gostaria sinceramente de ver o debate político no Brasil atendendo ao pedido de meu amigo Inagaki, que clama por mais civilidade e menos polarização. Pelo que vi até hoje dos métodos usados pela oposição para “sangrar” Lula, acho difícil, infelizmente.

PS: para desarmar os espíritos, um belo post de Cláudio Costa sobre os sapos e a filosofia. Vão .



  Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post | Comentários (146)



terça-feira, 19 de setembro 2006

A direita golpista mostra suas garras

Seleção de comentários retirados, todos, do blog do José Dirceu:

Então o Lula, com a eleição garantida, vai mandar comprar um dossiê que já rola nos blogs e na internet há dias? E o pior: pagar 02 milhões por um dossiê que já é de domínio público? Ah, e com um suposto ex-agente federal que é um suposto advogado, que, assim que foi preso começou a "cantar" que nem um passarinho e já foi logo entregando um assessor do Lula? Menos, direitona, menos! Vocês pensam que estão lidando com uma manada de burros?
(Igor Romanov)

Lembram como nasceu a CPI dos correios? Um vídeo, gravado clandestinamente, mostrando uma propina de R$ 3 mil, deu o mote para instalá-la. Toda a mídia e oposição esqueceram a forma e valorizaram exclusivamente o conteúdo da fita. Agora há denúncias de que ministros receberam grandes e continuadas propinas. Há acusações verbais e indícios. Há um vídeo onde os tucanos narram a criação da máfia das sanguessugas. O fazem com muito orgulho. Estranhamente a oposição e a midia só falam na forma. Esquecem o conteúdo. Aleluia faz tudo para evitar Serra na CPI. Muita incoerência. Ou pura hipocrisia?
(Riacho Seco)
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A mesma mídia que parece não ter a menor curiosidade em apurar o quanto há de verdade no suposto dossiê. A coordenação de eventos é que espanta: vai me dizer que os homens da Planam e outros envolvidos nem imaginavam que poderiam estar com telefones grampeados e com a PF em sua cola? Dá pra acreditar em tamanha ingenuidade, principalmente sde levando em conta que um dos envolvidos é ex-agente da PF? Enfim, as camisetas do PT já devem estar preparadas para serem vestidas nos envolvidos a pedido dos fotógrafos. Se não estiverem, não tem problema: um Photoshop rápido resolve...
(Carlos)

É a primeira vez que vejo criminosos celebrando a descoberta de um crime. Serra e Alkimin estão enebriados com a descoberta da compra do suposto dossiê contra eles. Isso é loucura, onde já se viu a mídia deixar de cobrir e noticiar o criminoso para atacar o meio termo que é a suposta transação de compra e venda?
(João Calazans)

É incrível o rumo dado pela imprensa a qualquer fato que envolva o PT. Se a Polícia Federal tivesse prendido dois integrantes do PSDB que tentavam comprar um dossiê que incriminaria o LULA, certamente o foco da imprensa seria o conteúdo do dossiê e a Polícia Federal estaria sendo colocada como agindo em defesa do LULA. Ou seja a verdade seria o DOSSIÊ contra o LULA, não os integrantes do PSDB que teriam sido presos praticando um ato "ilícito", mas heróico, de desmascarar o LULA. Afinal a opinião pública precisa saber do que trata este suposto dossiê, ou não?
(Evaldo)

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Quero dizer uma coisa à elite podre desse país, consubstanciada nos partidos PSDB,PFL e PPS: Vocês estão brincando com fogo! Uma coisa é participar do jogo político, dos embates políticos característicos do sistema democrático! Outra, diferente, é navegar pelas águas turvas das tentativas canhestras e mirabolantes da conspiração e do golpismo! Como aprendizes de golpistas, vocês têm de melhorar muito! Até a oposição raivosa da Venezuela é mais inteligente que vocês! Como é que vocês montam uma presepada chinfrim dessas, e querem que o povo lhes dê credibilidade? Vocês acham crível essa estória, esse imbróglio? Francamente, a direita já foi mais inteligente e mais astuta! Vocês caíram muito, de 64 pra cá! Também, vocês não têm um Castelo, um Golbery! Quem é a cabeça pensante de vocês? FHC? Borhausen? Tasso Jereissati? Vocês estão mal de liderança, hein? Aviso: Párem de brincar de dar golpe! A caserna está quieta, por enquanto! Não queiram ouvir nosso ruído! Respeitem a vontade do povo!

(Mascarenhas)

Leituras relacionadas: Vedoin acusam Serra.
Na época do Serra era mais fácil.

Ao presidente Lula, o que assina este blog só tem um recadinho: cadeia nacional de televisão, presidente. Avise à canalha golpista que se houver brincadeirinha de impugnação de candidatura, ou do seu segundo mandato, o sr. leva o povo às ruas. E aí vamos ver se golpistas como esse ou esse têm coragem de dizer o que o dizem na frente do povo.

À canalha golpista, o que assina este blog tem outro recado: muito, muito, muito cuidado com o que estão fazendo.



  Escrito por Idelber às 02:57 | link para este post | Comentários (86)



segunda-feira, 18 de setembro 2006

Aécio Neves e Andréia Neves: a censura e a mordaça sobre a imprensa em Minas Gerais

Marco Nascimento tinha longa história na Rede Globo de Televisão – incluindo-se uma chefia de redação em São Paulo – quando aceitou a direção de jornalismo da Globo em Minas. O objetivo era recuperar a audiência perdida para o SBT e, segundo suas palavras, “blindar a emissora contra a utilização indevida do jornalismo para fins políticos pelo poder público.” Depois da exibição de uma reportagem sobre o consumo de crack no bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte, a Globo Minas passou a receber insistentes telefonemas de Andréia Neves, irmã do governador Aécio Neves, com reclamações de que isso afetava a “imagem” do governo do estado. Andréia Neves conseguiu uma reunião com o diretor nacional de jornalismo da TV Globo, Carlos Henrique Schroder. Poucos dias depois Marco Nascimento estava demitido. Também afastado foi o chefe de redação, Luiz Ávila.

igual-a-covas.jpgEm setembro de 2003, o editor de economia do Estado de Minas, Ugo Braga – também profissional com longa trajetória no jornalismo – publicou uma minúscula nota que informava que a popularidade de Aécio, naquele momento, era a terceira pior entre os governadores do país e só ganhava dos de Sergipe e de Roraima. Também depois de pressão do governo do estado, foi chamado por seu superior e convidado a aceitar ser realocado. Aceitou, mas logo depois foi convocado a uma segunda reunião e informado que nem mesmo a solução da realocação era mais possível, pois “a pressão era muito forte.” Ugo Braga foi demitido do Estado de Minas ali mesmo.

No dia 02 de junho de 2004 jogaram Brasil e Argentina no Mineirão pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Ante o estranhíssimo fato de que somente 40.000 ingressos haviam sido colocados à venda, Jorge Kajuru, então repórter da TV Bandeirantes, foi à entrada reservada aos portadores de necessidades especiais e ali noticiou que 10.000 convites haviam sido distribuídos pela CBF e pelo governo de Aécio Neves. Depois de denunciar o fato e ser encorajado a continuar com a denúncia pelo seu próprio superior (que lhe falava ao vivo, ao ouvido, no que os jornalistas chamam de “ponto”), Jorge Kajuru chamou o intervalo comercial com um “voltamos já”. Jamais voltou e foi demitido uma semana depois.

O ex-editor de esportes da TV Minas, Ulisses Magno – também profissional com longa trajetória na cobertura esportiva em Minas Gerais – gravou uma seqüência de imagens em que aparecia o então técnico do Cruzeiro, Vanderlei Luxemburgo, esbravejando e xingando um jogador. O vídeo da TV Minas deu voltas no Brasil todo e repercutiu nacionalmente. Zezé Perella, presidente do Cruzeiro e ex-deputado pelo PSDB, avisou em tom de brincadeira a Magno que “agora que Aécio vai assumir vamos te mandar embora.” Aécio é conhecido torcedor do Cruzeiro. A lei proíbe a demissão de funcionários estaduais durante os primeiros 100 dias de um mandato do governador. Magno foi demitido da TV Minas depois de 103 dias da gestão de Aécio.

Em todos esses casos, as vítimas testemunharam que seus veículos de comunicação sofreram intensa pressão do governo do estado, especialmente na pessoa da capanga-mor Andréia Neves. Também testemunharam que depois de suas demissões ninguém em Minas Gerais aceitava dar-lhes emprego, nem mesmo, como disse um deles, de “jornalista de sindicato do interior.”

Toda essa história está contada com detalhes nesse imperdível vídeo-documentário intitulado Liberdade, essa palavra. Se você se interessa pela liberdade de imprensa, reserve 22 minutos para assistir Liberdade, essa palavra. O documentário é trabalho de conclusão de curso de jornalismo (na UFMG) de Marcelo Baêta, e mostra também o amordaçamento do sindicato dos jornalistas em Minas Gerais e a presença censora constante do governo do estado, até mesmo fisicamente, nas emissoras de rádio e redações de jornal. Naturalmente, o trabalho de Baêta já passou a ser devidamente caluniado por um vídeo-propaganda circulado pela máquina aecista.

O documentário nos dá uma idéia horrenda do que seria, sob Aécio Neves, o Brasil – país cuja revista de maior tiragem tem hoje, semanalmente, ampla liberdade para caluniar e insultar o presidente da República.

Leituras relacionadas:
Sobre o vídeo Liberdade, essa palavra.
Aécio Neves pratica censura em Minas Gerais, do Centro de Mídia Independente.
Mordaça na Imprensa Mineira, de José Luiz Barbosa.
Entrevista com Marcelo Baêta, autor de Liberdade, essa palavra.
Aécio Neves infla contas da saúde em R$668 milhões, na Folha Online.
Programa mineiro de saúde usou só 7% dos recursos previstos, na Folha Online.
Ecoando denúncia sobre censura em Minas Gerais, do Cyrano.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (48)



sábado, 16 de setembro 2006

Sarney e seus capangas em apuros no Amapá: Cristina Almeida sobe 11 pontos nas pesquisas

cristina.jpg Pesquisa do Ibope divulgada na noite desta sexta-feira pela TV Amapá (filiada da Globo) mostra Cristina Almeida com 40% das intenções de voto para a vaga amapaense ao Senado Federal, 11 pontos acima do registrado na última pesquisa, na qual ela tinha 29%. O coronel José Sarney, que tinha 50%, já caiu para 47% (esta notícia chegou via minha amiga Alcinéa Cavalcante. Nesta sexta o site do Ibope estava fora do ar; se aparecer alguma matéria na grande imprensa remetendo a essa pesquisa, por favor avisem).

Como o Ibope tem uma longa história de favorecimento a Sarney, a coligação que apóia Cristina Almeida avalia que a queda do coronel deve ser muito maior. Pesquisas realizadas de forma independente pelo comitê de apoio a Cristina chegaram a indicar, nesta semana, que ela já teria uma vantagem de 6 pontos sobre o censor de blogs e jornais. São nítidos o nervosismo e a preocupação na coligação que apóia o coronel.

O Biscoito volta a convocar todos os leitores que tenham amigos ou parentes no Amapá a que participem do esforço para tirar Sarney do Senado. Você pode também contribuir com a campanha de Cristina, que tem sido feita com pouquíssimo dinheiro.

A vitória de Cristina seria his-tó-ri-ca, para o Amapá, para a democracia e para a blogosfera.

Atualização: Chegou o link à pesquisa do Ibope, confirmando a informação divulgada pela TV Amapá (obrigado ao leitor Expedito).



  Escrito por Idelber às 03:01 | link para este post | Comentários (41)



quinta-feira, 14 de setembro 2006

TRE-Amapá dá a Sarney direito de resposta num blog que já não existe

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Do blog da Alcinéa Cavalcante:

Fui notificada agora pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá que foram julgadas procedentes as representações 448, 449, 450, 451, 452 e 453/2006 movidas contra mim por Sarney.

O pleno do TRE deferiu o pedido de resposta feito por Sarney para ser publicado no alcinea.zip.net - que, repito, o UOL já tirou do ar faz tempo - e me aplicou uma multa de R$ 25 mil,

Quem está acompanhando a história sabe: Sarney primeiro conseguiu que o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá obrigasse Alcinéa a retirar um post do ar. Antes de que Alcinéa pudesse cumprir a ordem judicial, o UOL, sempre tão solícito com ditadores, retirou o blog inteiro do ar.

Agora Sarney ganhou - pasmem - direito de resposta num blog que já não existe. Isso mesmo: o ditadorzinho bigodudo que controla todos os meios de comunicação de massas do Amapá ganhou direito de resposta num blog pessoal que ele já havia conseguido - graças à cumplicidade do UOL - retirar do ar. Alcinéa no momento já deve R$45.000 em multas.

Sabe o que acho? Que seria um bom exercício de cidadania escrever para o tal tribunal com uma opinião sobre essa decisão. Para você que escreve cartas à moda antiga, o endereço é:

Tribunal Regional Eleitoral do Amapá
Av. Mendonça Júnior, 1502 - Centro
CEP 68900-020 - Macapá-Amapá

Se tem disponibilidade para telefonar, pode ligar para:
(96) 3214-1722 / 1723

Ou pode-se mandar uma correspôndencia para este email ou para algum dos membros da secretaria jurídica do TRE-AP, cujos endereços eletrônicos estão aqui.

Sabe como, não é? Um rápido e cordial email relatando sua opinião sobre decisões como essas, e um pequeno lembrete de que o mundo está de olho nas eleições do Amapá. Algo me diz que os capangas, aprendizes de ditadores, lambe-botas da ditadura, censores de blogs - e seus amigos nos vários poderes constituídos - estão começando a temer a internet.

PS: Enquanto isso, o blog da Alcilene Cavalcante, o Repiquete no Meio do Mundo, que havia desaparecido até do cache do Google desde o último dia 25, misteriosamente voltou ao ar, justo no dia em que Sarney ganhou direito de resposta nele. Curioso, não?



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (37)



terça-feira, 12 de setembro 2006

Extra! Reinaldo Azevedo descobre que o Brasil é na Islândia

Só 6% são negros no Brasil. 52,1% são brancos. E há 41,4% de mestiços.

Eu. Não. Estou. Inventando. Tirei. Daqui.

Por onde começar a desconstruir as asneiras dessa turma? E depois não entendem por que estão levando essa surra nas pesquisas.



  Escrito por Idelber às 18:18 | link para este post | Comentários (42)




Sobre a enquete para presidente

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Pois bem, nossa enquete. Depois de 107 comentários, eu havia contabilizado 88 votos e a coisa estava assim:

Lula: 50%
Cristovam Buarque: 23,2%
Nulo: 11,6%
Alckmin: 8,1%
Heloísa Helena: 6,9%
Partido Verde: 2,3%

Observações:

1. Não computei o meu voto, que é do sapo barbudo também.

2. Participaram mais ou menos 3.5% dos visitantes diários do blog, ou seja, o resultado nos diz algo sobre os comentaristas, não sobre os leitores do blog (ei, você aí que não comenta, ser misterioso!). Os outros leitores podem muito bem ser, todos eles, eleitores do Alckmin. Nunca se sabe.

3. A porcentagem de Lula aqui é mais ou menos a mesma que ele tem nas pesquisas nacionais. A partir daí muda tudo. Cristovam aqui tem mais ou menos a mesma colocação de Alckmin nas nacionais. Alckmin aqui tem mais ou menos o mesmo que Heloísa Helena no Ibope e no Datafolha. Heloísa Helena, aqui no blog, tem menos que nas pesquisas nacionais.

4. Como o Roberson observou, é notável a votação do Cristovam aqui no blog. Foi bacana: sempre respeitei o Cristovam, e acho lamentável a forma como ele foi despedido do governo. Seria interessante que ele tivesse uma boa votação, inclusive, sonhar não paga, credenciando-o para compor um futuro governo Lula. Sei que é difícil, mas coisas mais estranhas já aconteceram.

5. Não deixa de surpreender que Heloísa Helena aqui tenha menos votos que nas pesquisas nacionais. É curioso, considerando que em seus posts de política, este blog passou um ano e tanto criticando o governo Lula pela esquerda. A candidata que supostamente representaria a oposição de esquerda a Lula tem, aqui, porcentagem mais baixa de adeptos do que em outras comarcas. O blog está à esquerda da média de seus comentaristas ou sou eu que estou certo ao insistir que a candidatura de HH não é realmente de esquerda? Adoraria ouvir teorias sobre por que, no blog que fez posts como esse, esse e aquele, a votação de Heloísa é tão fraca.

5. O voto nulo. Ah, o voto nulo. Os melhores argumentos sobre o nulo estão no blog da mary w. É uma seqüência de posts que vale a pena acompanhar. A declaração mais poética sobre o nulo aqui no blog foi do Rica P, do blog Caravana: depois de breve período de crença, volto ao nulo. Adorei. O que eu esqueci de contar a vocês foi que recebi, outro dia, um telefonema de uma repórter da Agência Reuters, para falar de voto nulo. Ana pilotava o carro na Fernão Dias, voltando de Sampa a BH, e eu dissertava sobre o voto nulo no telefone com a moça da Reuters. Uma graça. Parece que estão bem colocados, no Google, os posts que fiz sobre o assunto há uns tempos, ainda na época de UOL. A conversa foi uma baita decepção para a repórter, porque ela queria um discurso a favor do voto nulo, e eu insistia em analisar o porquê da colocação do assunto no contexto de hoje. Acho que nada do que eu disse lhe foi muito útil, porque tudo era matizado demais. No final, sugeri que ela procurasse o Pedro Dória e o Marcelo Träsel, que já escreveram sobre o tema manifestando simpatia pela opção do nulo. Parece que a moça queria saber onde estava "o movimento de blogueiros" em favor do voto nulo. Acho que ela se decepcionou um pouco com a notícia de que, er, não existe exatamente um "movimento blogueiro em favor do voto nulo". Pelo menos não que eu saiba.

6. Para quem insiste em absolutamente não "entender" como a população brasileira, assim como a maioria dos comentaristas deste blog, optará por reeleger Lula, eu recomendo o estudo desses números e a reflexão sobre notícias como a de que os 20% mais pobres do Brasil, sob Lula, cresceram mais que 90% dos países do mundo (o segundo link vem via Hermenauta).

Digam lá o que acharam.

PS: A entrevista do Pedro Alexandre Sanches com Ferréz está im-per-dí-vel. Como eu gosto do blog do Pedro. Vão lá conferir.



  Escrito por Idelber às 01:07 | link para este post | Comentários (38)



segunda-feira, 11 de setembro 2006

A vitória do terrorismo, com a mãozinha de Bush

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Kelly Dougherty, co-fundadora do Iraq Veterans against the War

Este mês eu já disse adeus a mais gente que posso contar. Alguns dos “adeuses” foram apressados e furtivos – do tipo que você dá à noite ao vizinho que recebeu uma ameaça de morte e está partindo ao raiar da madrugada, quieto.

Alguns dos “adeuses” foram emotivos e demorados, a amigos e parentes que já não conseguem viver num país que está se despedaçando.

[...]

Em horas como esta eu me lembro de um discurso feito por Bush in 2003: uma das grandes realizações que ele reclamava para si era o retorno de ‘exilados’ iraquianos cheios de júbilo ao seu país depois da queda de Saddam. Eu gostaria de ver alguns números sobre os iraquianos que vivem fora do país que vocês estão ocupando. Para não mencionar os iraquianos refugiados internamente, abandonando suas casas e cidades.

Este é um dos muitos relatos do infernal cotidiano no Iraque ocupado, segundo o blog Baghdad Burning, escrito por uma mulher em Bagdá.

Os números que a garota de Bagdá procura estão, na verdade, disponíveis: Os exilados iraquianos já são milhões, os mortos mais de sessenta mil, os refugiados internos contam-se pelas centenas de milhares e as mortes diárias medem-se, num "bom dia", pelas dezenas.

5 anos depois do começo da “guerra ao terrorismo” de Bush, Cheney & Rumsfeld e dos traficantes de petróleo e armas por eles representados, o responsável pelos atentados de 11/09/2001 não foi capturado, o Taliban já recupera o sul do Afeganistão, o Iraque é um lamaçal de mortes, as desculpas para a guerra se provaram todas falsas, as perspectivas de paz para palestinos e israelenses mostram-se cada vez mais distantes, os EUA são mais detestados mundialmente do que jamais tinham sido, a revolta no mundo árabe é maior que nunca e uma série de garantias constitucionais de privacidade e liberdade tão caras aos EUA – precisamente o que os fazia diferentes de tantos outros regimes políticos no mundo – têm sido repetidamente violadas. Os EUA hoje são associados a prisões clandestinas, encarceramento ilegal, prática de tortura, tráfico de prisioneiros, perseguições a jornalistas e mentiras sistemáticas como instrumento de política externa e interna. É o legado da era Bush.

Sobre a invasão ao Afeganistão que deu início à “guerra ao terrorismo”, eu continuo mantendo o que disse no Correio Brasiliense há cinco anos, e me alegro que alguns amigos liberais que apoiaram o bombardeio que deu início a esta seqüência de desastres estejam revendo suas posições.

São os apoiadores das guerras os que verdadeiramente insultam a memória dos assassinados em 11/09. São eles os que colocam mais uma cereja nessa tremenda vitória do terrorismo e da intolerância. Por outro lado, cada vez mais familiares das vítimas do 11/09 mandam seu recado, alto e em bom som: Guerras de agressão e de rapinha? Não em nosso nome.



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (19)



quinta-feira, 07 de setembro 2006

Mais notícias da vigília anti-censura

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Amapá urgente: Zé Sarney e seus capangas entraram com outras 5 ações no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá exigindo a retirada de posts do novo blog de Alcinéa. Vejam bem, são outras cinco interpelações judiciais para retirar posts do blog de Alcinéa, diferentes das anteriores, que terminaram provocando a saída do ar do antigo blog (com a cumplicidade do UOL).

Agora Alcinéa está no blogspot, hospedado no exterior. Ou seja, o buraco é mais embaixo. Mas acompanhemos com atenção e, óbvio, deixemos lá a solidariedade com a Alcinéa.

A primeira lição da história o Serjones já sacou: blogueiros iniciantes, não montem seus blogs no UOL.



  Escrito por Idelber às 23:22 | link para este post | Comentários (24)




O chique manifesto internacional pró-Heloísa Helena

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Esquerda? Até que ponto?

Eu hesitei antes de fazer este post, porque vou criticar pessoas que admiro. Mas não há como não dizer algo sobre esse manifesto que intelectuais socialistas do exterior lançaram em apoio à candidatura de Heloísa Helena (original em inglês). Assina-o um time de respeito: o lingüista e militante Noam Chomsky, o sociólogo Michel Löwy, o filósofo Slavoj Zizek, o historiador Howard Zinn, o grande geógrafo Mike Davis e la crème de la crème da esquerda internacional. Até o Partido Democrático do Povo da Indonésia assinou. Meu amigo Sergio Leo ironizou o manifesto, dizendo que espera dos signatários, ansioso, o compromisso de se mudarem para o Brasil, para viver no país durante os quatro anos de gestão da moça, se eleita, e nos dez anos seguintes, para usufruir das conseqüências. Eu até estaria disposto a defender o direito desses intelectuais de dar pitaco nas eleições brasileiras. Mas o texto é fraco demais.

Não deixo de ter, pela figura de Heloísa, uma certa simpatia que vem de longa data: eu militei durante anos (de 1983 a 1987, para ser exato) na mesma corrente política com a qual se filiava, e ainda se filia, Heloísa Helena. Trata-se da Democracia Socialista, seção brasileira da IV Internacional fundada por León Trotsky, e da qual também fazem parte figuras que permaneceram no PT, como Raul Pont e Miguel Rossetto. Depois de desligado da corrente continuei próximo a ela e nunca deixei de manter a interlocução com as pessoas que continuaram lá. Naturalmente, ter militantes em dois partidos diferentes (o PT e o PSOL) coloca a DS hoje numa situação bem esquizofrênica.

Com todo respeito aos amigos que vão votar em Heloísa Helena, à candidata e aos signatários do documento, esse manifesto é um tiro no pé e demonstra desconhecimento básico da realidade brasileira. Clama por rejeição da Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA), como se esta não fosse a atual posição do governo brasileiro. Defende o fim do pagamento da dívida externa sem mencionar que o Brasil, sob o governo Lula, não renovou o acordo com o FMI. Apóia Heloísa Helena em solidariedade com os pobres e as massas brasileiras exploradas, precisamente o setor social onde Heloísa Helena tem menos apoio. Não é segredo que os pobres estão massivamente com Lula e que Heloísa Helena conseguiu angariar muito mais apoio entre a classe média indignada. O manifesto conclui falando em "reforma agrária radical" e mais nada. É um amontoado de clichês. Se você vai dar palpite na eleição de outro país, faça pelo menos uma análise minimamente sofisticada.

Mesmo votando em Lula (não sem críticas ao governo, que fique dito), eu não teria qualquer problema com uma candidatura de extrema esquerda, contanto que fosse realmente de extrema esquerda. Mas Heloísa é das grandes adversárias do projeto de descriminalização do aborto – bandeira importante do movimento feminista. Heloísa também é contra a descriminalização das drogas – com o fraquíssimo argumento de que “a cocaína destrói as pessoas”, como se a questão fosse essa. Heloísa tampouco é das mais entusiastas defensoras do projeto de cotas para afro-descendentes. Caramba, com uma extrema esquerda destas, quem precisa de direita? Não é bem curioso que eu já tenha sido interpelado cinco vezes por tucanos ou pefelês que exigem de mim coerência com minhas críticas ao governo e um voto em Heloísa Helena? Por que se preocupam tanto com o voto de um xiita raivoso como eu? Quando a direita que sempre governou o país se vê formulando essas pautas de coerência para a esquerda, há que se olhar a coisa com um pouco mais de cuidado.

O discurso que Heloísa Helena apresentou até agora na campanha não é de esquerda. Trata-se de um discurso de indignação moral – que é basicamente uma forma de se reduzir a política a uma questão de caráter. O problema é que essa indignação moral apela justamente para as pessoas que não querem nem ouvir falar em nada que cheire a socialismo. Essa contradição, nem Heloísa Helena nem o PSOL explicaram ainda. Quanto aos intelectuais europeus e americanos que assinaram o manifesto, acho que perderam uma ótima oportunidade de ficarem calados e serem úteis depois, num momento que realmente demande uma aliança internacional. Quanto pintar essa demanda, é provável que Löwy ou Chomsky já tenham se "queimado" com parcela significativa da opinião pública brasileira. O que é uma pena, porque os cabras são bons. Mas desta vez, pisaram na bola. E duvido que tenham ajudado sua candidata.

PS: Obrigado a todos os que particaram da enquete que coloquei ontem, e que ainda está aberta, obviamente. Dentro de uns dias publico uma reflexão sobre os números, que me surpreenderam, para dizer a verdade.

PS2: Que Consulado de Houston que nada. Estarei em Belo Horizonte no dia das eleições, depositando meu votinho na minha zona eleitoral. Iuhuu. E depois vou ao Rio. Detalhes em breve.



  Escrito por Idelber às 04:27 | link para este post | Comentários (63)



quarta-feira, 06 de setembro 2006

Enquete

Esta é última enquete realizada por este blog antes das eleições e não tem, obviamente, nenhuma pretensão científica, exceto a de dar uma pequena amostra do perfil político de quem comenta por aqui. Você, que normalmente não comenta, fique à vontade para participar desta. Não dói, não.

Diga aí:

Em quem você pretende votar para Presidente da República? Claro que também vale dizer "nulo", "branco" ou "não sei ainda".



  Escrito por Idelber às 00:04 | link para este post | Comentários (119)



segunda-feira, 04 de setembro 2006

CRISTINA ALMEIDA para o Senado Federal, Amapá - É hora de Xô Sarney!

Este blog é político até os ossos e a raiz dos cabelos, mas nunca fez campanha para qualquer candidato a um cargo eletivo. As regrinhas existem, no entanto, para serem quebradas: estou pedindo votos e apoio para Cristina Almeida (PSB), a linda líder comunitária negra e já testada administradora, amapaense da gema, que tem a chance histórica de chutar o rabo de José Sarney para fora do Senado Nacional:

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Depois que o coronel José Sarney e seus capangas protagonizaram lamentáveis episódios judiciais contra:

1. a jornalista e blogueira Alcinéa Cavalcante, vítima de nove representações, agressões sistemáticas, desiguais e covardes que forçaram seu antigo blog a sair do ar e mudar-se do UOL, ataques que antigiram também a irmã de Alcinéa, Alcilene Cavalcante, cujo blog Repiquete no Meio do Mundo foi apagado até mesmo do cache do Google.

2. rádios e jornais do Amapá, várias vezes ameaçados e processados para que não veiculassem matérias de desagrado do coronel Sarney e sua coalizão política;

3. até mesmo o Google Brasil, contra quem o antigo servidor da ditadura e atual aprendiz de censor da Internet moveu processo, pasmem, para tirar do ar matérias que continham críticas à Sua maranhense Excrecência, pedido que foi - ainda há razão neste mundo e no judiciário - negado;

depois disso tudo, dizíamos, e de conhecer um pouco da biografia da candidata que o desafia, este blog decidiu colocar-se à disposição da campanha de Cristina Almeida, pedir votos para ela a todos os leitores amapaenses que por ventura vejam este post e incentivar qualquer ajuda possível a essa que pode ser a responsável por uma derrota histórica do coronelismo no Brasil. Enquanto o coronel Sarney e sua equipe de advogados tentam calar blogs e até fazer expurgos no Google – coroando coerentemente uma vida de proximidade ao poder, oportunismo político e manipulação de feudos – Cristina Almeida tem uma biografia bem diferente. Tirado do seu site:

... aprovada no primeiro concurso público para ingresso de mulheres no quadro da Polícia Militar do Amapá. Cristina passou a integrar a primeira turma de policiais femininas do ex Território.

... formada em Administração de Empresas pela Universidade da Amazônia. Foi aprovada em dois concursos públicos e desde1990 é funcionária da Assembléia Legislativa do Estado.

... militante do movimento negro desde 1998, através da UNA (União dos Negros do Amapá). No ano seguinte fez parte da fundação do IMENA – Instituto de Mulheres Negras do Amapá. Participa ativamente das festividades populares tradicionais compondo o grupo de Marabaixo da Comunidade de Campina Grande.

.... Secretária Estadual da Indústria, Comércio e Mineração (SEICOM) durante o segundo mandato de João Alberto Capiberibe no Governo do Estado. Em 2003, assumiu a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMAT), na Prefeitura de Macapá. De 2003 a 2006 exerceu a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA/AP.

.... à frente do INCRA foi responsável pela primeira titulação de áreas quilombolas no Amapá: Conceição do Macacoari e Mel da Pedreira, reconhecidas pela Fundação Palmares como remanescentes de quilombos.

... ainda no INCRA, Cristina foi responsável pelo único levantamento fundiário feito em terras públicas no Amapá, que resultou em denúncia formal junto ao Ministério Público Federal apontando autoridades locais como responsáveis pela grilagem de terras da União.

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Aproveitando o embalo do Xô Sarney, o engajamento dos blogs na campanha eleitoral para o Senado no Amapá poderia fazer a diferença, num contexto em que Cristina Almeida já subiu de 15% para quase 30% - e o desgaste dos episódios censores de Sua Excrescência o coronel maranhense ainda não foi medido por nenhuma pesquisa; afinal, esse desgaste só está começando. Alô, blogs amapaenses apoiadores e simpáticos à campanha da líder comunitária negra e testada administradora Cristina Almeida, estamos com vocês para o que precisarem. Para quem usa o Orkut, está disponível a comunidade Xô Sarney. Também há a possibilidade de contribuir diretamente com a campanha de Cristina Almeida.

Pensem bem: esta é uma campanha na qual podem se engajar eleitores de Lula, Alckmin, Heloísa Helena, Cristovam Buarque. Contribuir para tirar Sarney do Senado seria uma vitória inesquecível da democracia e possivelmente mais um passo adiante no caminho da maturidade política dos blogs no Brasil. Circule os links, imagens e biografia de Cristina Almeida se gostar da idéia.

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PS: A foto acima é de camiseta com charge criada por Ronaldo Rony, vestida por Patrícia Andrade.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (74)



sábado, 02 de setembro 2006

Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia

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Imagine um país que é o melhor do mundo no futebol, mas cujo esporte é dirigido por máfias, enraizadas em redes capilares de clientelismo local que se ramificam até os altos escalões dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Imagine que esse país há década e meia vive sob ditadura militar, regime que se alimenta de e reforça o controle destas máfias sobre a maior paixão cultural e esportiva de seu povo. Imagine que esse sistema se reproduz por toda sorte de falcatruas, incluindo-se aí o suborno, a corrupção, o deslavado uso de vagas no Campeonato Nacional como instrumento de troca política, a total falta de prestação de contas do uso do dinheiro público repassado à Confederação Nacional de Desportos e do dinheiro arrecadado pelos clubes, uma estrutura ditatorial baseada na ausência de poder decisório dos responsáveis pelo espetáculo (os jogadores), submetidos a concentrações e a decisões autoritárias nunca discutidas. Imagine que essa cultura anti-democrática se reproduz pelo terror, já que todos os jogadores sabem que a carreira é curta, o país é cheio de craques, o “passe” (ou seja, o direito de ir e vir de um emprego) não lhes pertence e, para os poucos que conseguem a fama, esta é efêmera. Imagine o medo. Imagine o Brasil em 1979.

Agora imagine que os jogadores e comissão técnica de um dos dois clubes mais populares do país se reúnem e decidem: de aqui em diante, aqui nesta casa reina a democracia. Tudo será decidido entre todos, tudo é passível de discussão, do detalhe na camisa à tática de jogo aos planos para a semana de folga. Nossa vida será permanentemente reinventada pelo diálogo coletivo. Tudo será novo.

Continue lendo Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na revista literária Germina. A edição deste mês está belíssima e inclui também um dossiê sobre Minas Gerais.



  Escrito por Idelber às 20:07 | link para este post | Comentários (15)



quinta-feira, 31 de agosto 2006

Sentença judicial contra Imprensa Marrom abre perigoso precedente na blogosfera brasileira

Acaba de ser lavrada em São José dos Campos uma sentença judicial que abre um precedente perigosíssimo para a liberdade de expressão na blogosfera brasileira. Para os que acompanham blogs há algum tempo, a história é conhecida. Para benefício dos que por ventura ainda não a conheçam, aqui vai o relato, desde o começo.

Em 2004, um dos sócios de uma empresa de recolocação profissional, cuja reputação pode ser averiguada com uma consulta ao Google, sentiu-se ‘ofendido’ com um comentário publicado no blog Imprensa Marrom, e conseguiu uma liminar que tirou o blog do ar. O Imprensa Marrom logo depois conquistou o direito de voltar ao ar, mas na sua volta já não incluía espaço para comentários. Enquanto isso a ação continuava tramitando. Três detalhes são cruciais para se entender o caso:

1. o comentário havia sido feito por um usuário não identificado num post de mais de seis meses de idade. Ou seja, foi colocado num espaço onde ele dificilmente seria lido, já que é raro que algum leitor de blog leia caixas de comentários tão antigas.

2. a empresa em questão e o sócio que se sentiu ofendido jamais entraram em contato com o Imprensa Marrom pedindo que o comentário fosse apagado.

3. a empresa em questão é a mesma que já havia ameaçado, em termos bem grosseiros, o blogueiro Cris Dias com um processo judicial por causa de comentários publicados em seu blog.

Tudo isso torna o caso extremamente suspeito. O que vocês diriam de uma situação em que um anônimo escreve um comentário ofensivo a alguém num post de seis meses de idade, e quatro dias depois você é surpreendido com uma ação na justiça? Estranho, não? Pois bem, a ação desse senhor contra o Imprensa Marrom foi, na semana passada, parcialmente deferida, com o responsável pelo blog sendo condenado a pagar 10 salários mínimos por danos morais.

O Biscoito Fino e a Massa entende que essa é uma decisão equivocada. Meu argumento não é, obviamente, que se deve possuir o direito de dizer o que quiser sobre os demais nos nossos blogs. Os crimes de calúnia e difamação são previstos no código penal e se aplicam à internet da mesma forma que a outros veículos. No caso em questão, no entanto, parece-nos que a juíza – sem sequer realizar uma audiência – não atentou suficientemente para os fatos de que a ofensa não foi proferida num post do blog, e sim num comentário antigo, e que em nenhum momento foi dada ao blog a oportunidade de apagar o comentário ofensivo. Tive acesso à sentença e, apesar da juíza fazer a ressalva de que a responsabilidade do requerido se mantém, pois que, ao disponibilizar o espaço para divulgação democrática (termo utilizado na contestação) do conteúdo inserido por terceiros, assume o risco sobre as expressões ofensivas veiculadas, não foi dada, neste caso, absolutamente nenhuma chance de que a "ofensa" fosse sanada com um simples apagamento do comentário.

Este blog confia que essa decisão em primeira instância será revertida. Enquanto isso, manifesto total solidariedade ao amigo Gravataí Merengue, responsável pelo Imprensa Marrom. Manifesto também minha compreensão com a recomendação feita pelo Gravataí, de que à luz desta sentença os blogueiros brasileiros retirem ou instalem moderação em suas caixas de comentários. Compreendo a posição dos que optam por essa alternativa, mas o Biscoito continua com sua caixa de comentários aberta, confiante que esse perigoso precedente contra a liberdade de expressão será revertido em segunda instância.

Leituras relacionadas: Aberta a temporada de caça aos blogs, post de Alexandre Inagaki feito na época da liminar que tirou o Imprensa Marrom do ar; Justiça às turras com a Internet, matéria de Alex Castro sobre o imbróglio; Porque os comentários deste blog passarão a ser pré-aprovados antes da publicação, post de hoje de Alexandre Inagaki sobre o episódio; Na mira da justiça, de Rodney Brocanelli; Decálogo dos direitos do blogueiro, cá deste blog.

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PS: E não é que enquanto eu concluía este post fui surpreendido com outra história de lamentável cerceamento à liberdade de expressão na Internet brasileira? Alcinéa Cavalcante, respeitada jornalista e blogueira do Amapá, já recebeu nove representações judiciais do sr. José Sarney, com demandas absurdas como o apagamento de posts do blog e de comentários de leitores, além da aplicação de multas. O "crime" de Alcinéa? Simplesmente o fato de ter fotografado e publicado em seu blog uma charge vista num muro. Pois bem, este blog se junta à enorme rede que decidiu republicar a charge e desafiar o coronel maranhense:

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Urgente, atualização: nesta sexta-feira as tesouras censoras do coronel Sarney conseguiram, na justiça, uma liminar que ordenava a retirada de seis posts do blog de Alcinéa Cavalcante. Num completo desrespeito aos leitores, o UOL tirou o blog inteiro do ar. Alcinéa se recusa a ser silenciada e já montou um novo blog no blig e outro blog hospedado no exterior. Por favor, ajudem a divulgar.

Atualização 2: O caso Alcinéa já repercutiu no Global Voices Online, com um excelente post de Jose Murilo Junior.



  Escrito por Idelber às 16:34 | link para este post | Comentários (46)



sexta-feira, 25 de agosto 2006

Mais uma das nossas muitas histórias de racismo

Cenário: Rio de Janeiro, Zona Sul, agosto de 2006. Hotel três estrelas.

Um casal de hóspedes, branco, recebe suas primeiras visitas durante a estadia no hotel, um casal amigo que chegava; ele, norte-americano, também branco, e ela, carioca, negra. Na entrada do hotel o casal que sobe responde perguntas sobre se ficariam por muito tempo e ouvem algo sobre o regulamento do horário de visitas no hotel. Não dão importância - a alegria do reencontro com o casal amigo que espera acima é grande. O relógio marcava algo como 20:30.

Segunda noite da estadia no hotel, o mesmo casal de hóspedes combina uma farra com um grupo grande de amigos, e um dos que a eles se juntam antes da saída para a rua é o amigo da noite anterior, americano, branco. Veio sem a namorada, a carioca, negra – ela se encontrava com indisposição estomacal. Ao anunciar-se na portaria, foi-lhe dito que subisse, sem que nada lhe fosse perguntado. O relógio marcava 21:30.

Terceira noite da estadia no hotel, o mesmo casal de hóspedes combina com o mesmo casal de amigos uma saída para um restaurante. Agora vêm os dois, ela já melhor da indisposição estomacal da noite anterior. O dado novo em relação à primeira noite é que eles chegam separados, pois vinham de lugares diferentes da cidade.

Ela – carioca, negra – chega não depois de 20:30 e ao anunciar-se na portaria, enfrenta uma bateria de perguntas sobre quanto tempo ficaria, se sabia do horário de visitas do hotel, se “demoraria”. Atônita, responde como pode.

Ele – o americano, branco – aguardado pela namorada e pelos amigos no quarto para a saída ao restaurante, chega não muito atrasado mas em todo caso não antes de 20:45. Anuncia-se na portaria. Sobe sem que nada lhe seja perguntado.

Relato verídico, dedicado singelamente a todos os que, por ingenuidade ou por maldade, dizem – com todas as letras ou meias-palavras – que “não há racismo” no Brasil.


PS: Rosana Hermann descobriu – através de um leitor de seu blog, ah, os leitores de blog, mes amis, não tema nada neste mundo mas tema um leitor de blog! – que o “jornalista” Miltinho Cunha roubou toneladas e toneladas de posts seus, durante tempos, e publicou-os no jornal O estado, de Florianópolis. O caso é de plágio imenso, descarado, burro e comprovado. Ver os posts da Rosana com toda a documentação do roubo aqui e também a nota do Blue Bus e o post de Cesar Valente. Na época em que se comprovou o plágio cometido por Carlos Alberto Parreira, o Biscoito fez esse post.



  Escrito por Idelber às 06:02 | link para este post | Comentários (30)



sexta-feira, 18 de agosto 2006

A brilhante proposta de Bárbara Gancia

Tempo fechadão em Sampa, gripe que quase me derruba, pilhas de trabalho acadêmico nem tão prazeroso, eis que lendo a imprensa, encontro o insólito:

Na Itália, só foi possível acabar com o seqüestro quando as autoridades passaram a congelar a conta bancária de seqüestrados, e de suas famílias, para impedir o pagamento de resgates.
(grifo meu, I.A.)

Pois eu sugiro que todos os jornalistas assinem um manifesto afirmando que, caso sejam seqüestrados, eles proíbem terminantemente a exibição de vídeo ou a publicação de texto de interesse de grupos criminosos. Desde segunda-feira venho falando com colegas sobre minha proposta. Até agora, só um se dispôs a assinar o documento.

É Bárbara Gancia (link para assinantes UOL ou Folha), com sua brilhante "solução" para resolver o problema dos seqüestros. Ela se espanta de que só um colega assinou seu manifesto. Eu me horrorizo de que alguém tenha assinado um termo de compromisso de que não aceitará que se negocie a exibição de um vídeo para salvar a própria vida! É dose. Já é testemunho suficiente da barbárie, não a do PCC, mas a dos "justiceiros."

A colunista deveria ler com mais atenção alguns blogs, como o dele e o dela. Quem sabe não lhe ocorreriam outras idéias.



  Escrito por Idelber às 17:22 | link para este post | Comentários (17)



segunda-feira, 14 de agosto 2006

Evento imperdível em BH

Belo-horizontinos: hoje, às 19:30, há um evento imperdível, parte da programação do Salão do Livro. Reúnem-se para uma mesa redonda sobre o tema "A literatura em tempos de repressão política" o escritor argentino Martín Kohan e a ensaísta brasileira Paloma Vidal (PUC-RJ). Se você acompanha este blog há mais de dois meses, já leu uma discussão sobre a obra de Kohan e uma entrevista com ele. Paloma é ex-blogueira (sim, eles existem) e sabe tudo sobre o assunto. Eu aparecerei por lá.

Kohan já está por aqui, foi entrevistado hoje e já deve ter provado seu primeiro frango com quiabo.

Antes, às 18:30, o entrevistado é João Gilberto Noll. O Salão do Livro acontece na Serraria Souza Pinto. Vale a pena.



  Escrito por Idelber às 06:13 | link para este post



sábado, 29 de julho 2006

A "única democracia do Oriente Médio"

guerra-israel.jpg

(tirado daqui)



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post



segunda-feira, 24 de julho 2006

As cotas raciais em debate

paim.jpg
Curiosos, para dizer o mínimo, os resultados da pesquisa publicada pela Folha de São Paulo neste domingo: ouvidas 6.264 pessoas, 65% são favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras. Para lembrar, o Estatuto da Igualdade Racial (pdf), de autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), em tramitação no Congresso, adota, entre outras medidas, cotas de 20% para afrodescendentes no serviço público e nas instituições de ensino superior.

A maior taxa de aprovação ao projeto ocorre entre pessoas com escolaridade fundamental (71%); a coisa se inverte entre os que têm escolaridade superior: neste grupo, 55% são contra as cotas. Estes números, assim como os números da popularidade de Lula, podem ser lidos basicamente de duas formas: os pró-cotas tenderão a interpretá-los segundo a lógica da preservação do privilégio; os anti-cotas tenderão a lê-los segundo a lógica do “esclarescimento”. Para aqueles, os mais instruídos são majoritamente anti-cotas porque não querem abrir mão daquilo que têm e que, sentem, pode vir a ser ameaçado. Para os anti-cotas, a resistência ao projeto entre os mais escolarizados mostra que estes, segundo Roberto Romano (UNICAMP), “sabem que não existem soluções mágicas, conhecem as dificuldades do ensino e da pesquisa dentro da universidade”. O debate se acirrou bastante nos útimos dias, com manifestos contra e a favor do projeto.

Tanto de um lado como de outro, já vi referências meio equívocas à experiência dos EUA, que é bom esclarecer: nos EUA, jamais houve “cotas”, se por isso entendemos uma reserva percentual de vagas. O que chamamos por lá affirmative action não é exatamente um sistema de “cotas”. No caso da universidade, por exemplo, a admissão não se dá com base numa única prova, como o vestibular no Brasil: levam-se em consideração não só as provas chamadas SAT, mas também cartas de recomendação, histórico escolar, necessidade ou não de auxílio financeiro, etc. Dentro desse “pacote” onde vários elementos contam, negros e latinos recebem uma quantidade determinada de “pontos” no início do processo, como forma de corrigir disparidades históricas. Mas jamais houve uma reserva percentual de vagas.

Entre os anti-cotas, é falacioso o argumento de que o “sistema de cotas” nos EUA “não deu certo.” Inclusive entre boa parte dos conservadores que pedem sua abolição nos EUA, o argumento é precisamente o oposto: que a affirmative action já cumpriu o seu papel ao criar uma sólida classe média negra e que portanto já não seria necessária. Acho difícil levar a sério o argumento de que a affirmative action “acirrou as tensões raciais” nos EUA. Quem conhece a história das relações raciais nos EUA sabe que a tensão vem de muito antes.

Os primeiros estudos sobre a experiência brasileira mostram que os cotistas têm se saído muito bem. Mas entre os críticos do projeto há um argumento sólido: o governo não demonstra entender que as universidades precisam de apoio financeiro maciço para implementar o estatuto. Este blog já debateu o assunto em abril do ano passado e fez uma enquete naquele mesmo momento. Mas hoje, sem dúvida, muito mais gente já leu e se informou sobre o projeto. Opinem aí à vontade.



  Escrito por Idelber às 08:00 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 05 de junho 2006

Aberta a temporada de caça ao escritor austríaco Peter Handke

(o post é bem longo, mas peço uma leitura atenta. O assunto é muito importante)

handke.jpgNo dia 18 de março deste ano, o escritor austríaco Peter Handke, um dos maiores ficcionistas e dramaturgos da história da literatura em língua alemã, compareceu ao enterro de Slobodan Milosevic, em Pozarevac, Sérvia. No dia 06 de abril, uma certa Ruth Vicentini publicou, na revista francesa Nouvel Observateur, uma nota em que ela diz que o escritor austríaco, ao lado de 20.000 “fanáticos”, havia “tremulado a bandeira sérvia”, se referido aos sérvios como “as verdadeiras vítimas da guerra”, “defendido o massacre de Srebrenica”, “depositado flores no carro fúnebre de Milosevic” e, finalmente, designado Milosevic como “um homem que defendeu o seu povo”.

O que acontece é que todas as afirmações acima, feitas na nota de Vicentini, eram falsas. E daí? dirão vocês, foi só o Nouvel Observateur tendo o seu dia de Veja. Mas é que a história só está começando.

A partir da nota publicada na revista, Marcel Bozonnet, diretor da Comédie Française, decide cancelar a temporada da obra teatral de Handke já programada pela instituição. Uma enxurrada de linchamentos ao “defensor do genocida Milosevic” começa a circular em toda a imprensa européia: em inglês, em francês, em alemão, em espanhol. Handke havia recebido o prêmio Henrich Heine, talvez o mais importante das letras alemãs. Logo depois do artigo calunioso e do linchamento que se seguiu, teve início o processo – ainda em curso – de confisco do prêmio.

Imediatamente depois da publicação das mentiras de Vicentini, o escritor austríaco escreveu uma carta ao Nouvel Observateur, em que ele detalhava o que era falso no artigo e citava textualmente o conteúdo do seu discurso no enterro de Milosevic. Mais de três semanas depois a revista ainda não a havia publicado, nem se retratado pelo erro. Só o fez quando um grupo de intelectuais europeus escreveu uma carta aberta à revista, em solidariedade a Handke. A revista finalmente publicou a missiva de Handke, justificando-se com o argumento de que “a pessoa responsável pela correspondência dos leitores estava de férias”.

O que foi, finalmente, que disse Handke no enterro de Milosevic? Handke domina perfeitamente o servo-croata e nessa língua discursou. Ele mesmo traduziu o discurso ao francês para a revista. Traduzido por mim do francês ao português, o texto é este:

O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre a Iugoslávia, a Sérvia. O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre Slobodan Milosevic. O assim chamado mundo sabe a verdade. Por isso, o assim chamado o mundo está hoje ausente, e não somente hoje e não somente aqui. Eu sei que não sei. Não sei a verdade. Mas olho. Ouço. Sinto. Recordo-me. Por isso estou hoje presente, perto da Iugoslávia, perto da Sérvia, perto de Slobodan Milosevic.

Qualquer que seja a sua opinião sobre a guerra nos Balcãs e sobre a extensa produção escrita de Handke sobre ela, o texto está a quilômetros de distância do “defensor de massacres” que neste momento sofre o linchamento nas mãos da Europa bem-pensante. A própria revista assim o reconheceu, ao publicar a correção de Handke sem reparos, infelizmente só depois que o dano já havia sido feito e a calúnia tivesse dado três voltas ao redor do planeta.

Até chegar em Pindorama. No blog Todo Prosa, Sérgio Rodrigues publicou no último dia 03 um post em que dizia:

A vida do escritor austríaco Peter Handke piorou muito desde que ele compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, em março, e fez um emocionado discurso de adeus ao ex-ditador sérvio, o último grande genocida de um século rico nesse gênero.

O post atribuía a Handke a afirmação de que Milosevic foi “um defensor do seu povo”, quase um mês depois dessa afirmação ter sido desvelada como uma calúnia na própria revista que originalmente o publicou. Tudo bem, todo mundo erra. Conto a história para que se veja como se fazem e se destroem reputações, e como nossas “democracias” vilificam e lincham com a mesma facilidade com que pressupõem que a censura é exclusividade de comunistas, fundamentalistas islâmicos e outros bichos estranhos.

Desde então, e seguindo-se a um comentário que eu publiquei lá (e que é uma versão resumida da história relatada acima), a falsa atribuição de citação foi felizmente removida do post, infelizmente sem que se seguisse a ética blogueira de que, quando se altera um post ao qual os leitores já responderam, indica-se no corpo do post qual foi a alteração feita. Ou seja, como está, para que você saiba qual foi o post publicado no dia 03 você tem que ler a caixa de comentários.

Seguindo-se ao meu comentário, o Sérgio me ofereceu uma resposta da qual eu cito os três primeiros tópicos em itálicos. Intercalo minhas tréplicas:

1.Agradeço a informação sobre a notícia sensacionalista do Nouvel Observateur e lamento ter dado curso à frase sobre o “defensor de seu povo” - de todos (sic) as “calúnias” citadas no comentário, a única que veio parar neste blog. Como não tenho compromisso com o erro, já retirei a frase da nota. Não faz a menor falta.

De nada. Com certeza, uma falsa atribuição de citação não faz a menor falta num blog da qualidade do Todo Prosa. Lamento que, mesmo sabendo o que afirmação provocou na Europa, o colunista ainda prefira manter a palavra calúnia entre aspas. Também lamento que a retirada da frase não tenha seguido a ética blogueira de que se altera um post indicando no corpo do post qual a alteração feita. Parecem bobagem, mas não é. 20 leitores responderam a um post que não é o que está lá. Nesses casos, transparência é tudo.

2. As fontes que deram curso à tal frase são muitas, da agência alemã Deutsch Welle (sic) ao jornal The Guardian, para citar apenas duas acima de qualquer suspeita. O Yahoo foi linkado aqui porque trazia um resumo mais amplo da história.

Sérgio tem toda a razão que tanto Deutsche Welle como o Guardian reproduziram a calúnia da nota de Vicentini. O que só prova que há que se suspeitar de todas as fontes secundárias, incluídas as que estão “acima de qualquer suspeita”. Neste caso, claro, a fonte primária era o Nouvel Observateur, onde a calúnia já tinha sido exposta há quase um mês.

3. A frase é, obviamente, secundária. O comparecimento ao velório de um genocida de carteirinha fala por si - e lamento informar a Idelber e Curiango que esse atributo de Milosevic está longe de ser uma questão histórica aberta, infelizmente.

Em qualquer falsa atribuição de citação, a frase nunca é secundária. A frase “secundária” é parte de um amontoado de mentiras que provocaram considerável dano à reputação e à carreira de um dos maiores escritores contemporâneos. Secundária?

Quanto à “informação”, agradeço. Talvez o Sérgio devesse dá-la também aos especialistas em história dos Balcãs, nenhum dos quais usa a expressão “genocida de carteirinha” assim com tanta confiança. Talvez devesse dá-la à Comissão Internacional de Direitos Humanos que investigou a guerra nos Balcãs e explicitamente excluiu a palavra “genocídio” de seu relatório. É o especialista William A. Schabas que afirma, no livro Genocide and International Law (Cambridge University Press, 2000): “quando ficou claro que o líder iugoslavo Slobodan Milosevic pretendia expulsar os Kosovars do território, e não destruí-los fisicamente, as referências a genocídio declinaram. Uma resolução adotada pela Comissão de Direitos Humanos no fim de abril de 1999 descrevia a realização de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas não mencionava genocídio. Quando foi ouvido o pedido da Iugoslávia de medidas provisórias contra os estados da OTAN no começo de maio de 1999, os estados qualificaram as ações em Kosovo como limpeza étnica, não genocídio. Pelo Tribunal de Crimes Internacionais . . . Milosevic não foi acusado de genocídio" (página 500).

Como se vê, a afirmação de que está longe de ser uma questão historicamente aberta que Milosevic foi um “genocida de carteirinha” está tão equivocada como a citação atribuída a Handke e originalmente presente no post. Isso não quer dizer que não tenham ocorrido massacres e crimes: o massacre de Srebrenica feito pelos sérvios, o massacre croata em Krajina, massacres contra a minoria sérvia pelo Exército de Libertação de Kosovo. Simplesmente quer dizer que a palavra “genocídio” deve ser usada com cuidado, ou ela perderá a credibilidade. E que a guerra dos Balcãs está longe de ser um conflito em que há um lado “genocida” e um lado “inocente”. Esta caracterização, presente ainda na mídia, tem atendido interesses que não são os de estabelecimento da verdade.

É só isso que Handke tem dito, desde os anos 90.

Quanto à conclusão do post do Sérgio,

Continuo achando difícil conciliar o autor de “Asas do desejo” e o exaltador de Milosevic na mesma pessoa,

eu deixo o desafio de que ele me aponte uma única linha escrita por Peter Handke que possa ser interpretada como de “exaltação” a Milosevic. Já adianto que nem em Ein Wortland. Eine Reise durch Kärnten, Slowenien, Friaul, Istrien und Dalmatien nem tampouco em Unter Tränen fragend. Nachträgliche Aufzeichnungen von zwei Jugoslawien-Durchquerungen im Krieg, März und April 1999, os dois livros de Handke sobre os Balcãs, ele não a encontrará.

Por isso eu sempre achei que a defesa do direito de expressão, o direito de opinião, é sempre, por definição, o direito de ter qualquer opinião, até a aparentemente mais repugnante. Esse direito é como a virgindade: ou você tem ou não tem. Não há meio termo. E esse direito está sendo, no momento, tirado de um grande escritor contemporâneo, com censura, cancelamentos, confisco de prêmios e um linchamento nas mãos dos bem-pensantes.

Por isso acabo de assinar a carta dos acadêmicos norte-americanos em apoio a Peter Handke. Não há meio termo: toda a solidariedade a Handke.



  Escrito por Idelber às 05:11 | link para este post | Comentários (41)



sexta-feira, 26 de maio 2006

Os pecados da gula

Os números do Datafolha mostram que Garotinho perdeu 1,3 ponto por cada quilo perdido na greve de fome. 6,2 quilos a menos na balança, 8 pontos a menos nas pesquisas.

Com mais duas dobras do pneuzinho que tivessem ido embora, a brincadeira teria ficado bonita :-)



  Escrito por Idelber às 17:39 | link para este post | Comentários (7)



segunda-feira, 22 de maio 2006

Pela descriminalização do consumo de drogas

Eu preparava um post sobre toda a discussão gerada a partir dos ataques do PCC em São Paulo na semana passada e os assassinatos de pelo menos 107 “suspeitos” pela polícia logo depois. E eis que encontro um texto que traduz, melhor que eu poderia, o que penso.

Não deixem de ler A Matança dos Suspeitos, da psicanalista Maria Rita Kehl.

O que eu tenho para acrescentar a toda a discussão sobre a necessidade de equipar melhor a polícia, de bloquear celulares na prisão, de investir em educação de forma a dar um pouco de perspectiva ao jovem da periferia, etc. etc. é algo que não vi comentado em lugar nenhum: é fundamental a descriminalização completa de todo o consumo de drogas, especialmente das drogas leves como a maconha.

O tráfico de drogas é a galinha dos ovos de ouro da bandidagem organizada, e ela se sustenta no monopólio que detêm os traficantes. Esse monopólio só pode ser quebrado com a descriminalização completa do uso. O monopólio tem uma relação direta com o poder assombroso do crime organizado e também com a propina para o policial - fruto da possibilidade que tem este de intimidar e chantagear o usuário real ou o "suspeito" de ser usuário.

Não, essa legislação que temos ainda não é suficiente, pois ainda prevê pena de até 2 anos para os atos de "Adquirir, guardar, ou trazer consigo, para uso próprio, substância entorpecente" (artigo 16 da lei 6.368). Mais que a legislação, é necessário mudar a política pública de drogas. Não conheço ninguém da minha geração e classe social que nunca tenha tido experiência com drogas, mas paira na sociedade brasileira uma resistência hipócrita a discutir o assunto. Com freqüência temos que ouvir diatribes moralistas de "especialistas" como padres, que não sabem nada sobre o assunto: ouve-se, por exemplo, que "da maconha o viciado passa para as drogas mais pesadas", o que é o equivalente de se dizer que quem gosta de suco de abacaxi amanhã vai se apaixonar por suco de groselha. Os usuários não passam de uma droga a outra por um misterioso motivo químico ou bioquímico. Os usuários passam de uma droga a outra porque ambas vêm do mesmo traficante, que está em condições de dizer: hoje não tem do preto, leva do branco. Afinal de contas, o "branco" dá mais lucro, vicia mais, cria laços mais fortes com o tráfico que o "preto". Para quem não tem grana para o "branco", dá-lhe crack, essa droga horrorosa que é quase um caminho sem volta.

Será algum dia possível fazer a contagem de todos os jovens (quase todos pobres, quase todos pretos) engolidos pela criminalidade organizada ao serem lançados no sistema carcerário por posse de drogas para uso próprio?

Não há dúvida sobre o dano que fazem as drogas ao organismo - algumas mais, outras menos: ter para a maconha a mesma política que se tem para a heroína e o crack é burrice e seria o equivalente do Ministério da Saúde ter a mesma política para a Aspirina e o Gardenal - mas a "guerra às drogas" copiada dos EUA continuará sendo aí no Brasil, como aqui nos EUA, um desastre completo.

Que fique claro o que estou dizendo: não incentivo ninguém a usar droga nenhuma, e a única que eu uso, o cigarro, eu tenho muita esperança de derrotar este ano. Mas tratar o consumo de uma substância como a maconha como caso de polícia só reforça o poder da bandidagem. Obviamente o problema é complexo e são necessárias outras medidas. Mas sem a descriminalização do consumo, nada vai a lugar nenhum. Eu me considero razoalvelmente capaz de entreter outros pontos de vista e de olhar as coisas por ângulos diferentes do meu, mas neste caso, sinceramente, eu não consigo entender como há gente que não enxerga isso.

PS: Não deixem de ler o blog do Ferréz. Pura integridade, lá de dentro do olho do furacão.



  Escrito por Idelber às 01:45 | link para este post | Comentários (48)



quinta-feira, 11 de maio 2006

... a primeira como tragédia, a segunda como farsa...

Houve uma época em que as greves de fome tinham dignidade. Ela foi ferramenta de luta de gente muito respeitável: Mahatma Gandhi, Nelson Mandela. Nas suas memórias, Mandela conta que nas assembléias do African National Congress, o partido anti-apartheid, ele em geral votava contra a greve de fome como estratégia. Mas uma vez decidida pela maioria, ele se transformava no mais ferrenho executor e defensor da iniciativa. Conquistaram vitórias importantes com ela nos porões do apartheid, e pelo menos numa conseguiram provocar uma inédita greve de fome dos carcereiros.

Ancorado numa visão de mundo que acredita no jejum periódico como purificação, Gandhi fez algumas greves de fome, as políticas nem sempre vitoriosas.

Em 1981, 10 irlandeses deram a vida numa greve de fome numa prisão inglesa, lutando pela manutenção de seus estatutos como presos políticos. Em Guantánamo, continua a haver greves de fome dos presos, em protesto contra maus tratos e o estado de limbo jurídico em que vivem.

Mas o Brasil – talento infinito para avacalhar até a mais desesperada das formas de luta – inventa um outro espécimen: o político no poder que faz greve de fome!

Um sujeito cuja digníssima esposa governa o segundo ou terceiro estado mais importante da federação, que é pré-candidato a Presidente da República, sobre o qual pesam citações na justiça por práticas irregulares e que, apesar de poder chamar uma coletiva de imprensa a qualquer hora para se explicar sobre uma série de denúncias, entra em greve de fome por estar sendo “perseguido”?

É desmoralização definitiva da greve de fome como arma política no Brasil, claro, qualquer que seja o fim desse patético teatro de Garotinho. O próximo bispo que quiser protestar contra as obras no Rio São Francisco, que escolha outra forma de luta: a greve de fome está queimada.

A menos que - e seria um momento de glória para a política brasileira – Garotinho resistisse bravamente mais 84 dias e, ao final desses 95 de jejum, entrasse para o Guinness Book of Records batendo o recorde mundial da mais longa greve de fome! Seria o ápice: Brasil hexacampeão e Garotinho entrando para o Guinness.

Eis aí uma bandeira que pode unir petistas, tucanos, defensores do voto nulo, anarquistas, conservadores: todo apoio à greve de fome de Garotinho até o final.

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Seria uma morte gloriosa, e aos pobres 7 ou 8 por cento da população que estão dispostos a votar nesse sujeito para Presidente, lhes permitiríamos fundar a Igreja do Sto. Garotinho e viver em paz, num Brasil onde a maioria continue escolhendo quem manda no Estado.

Mas é claro que isso é só um sonho e o mais provável é que a palhaçada acabe antes da convenção do PMDB no sábado.


PS 1: Leitura indispensável sobre a rede e a blogosfera: Linkania, dissertação de Hernani Dimantas, defendida na PUC-SP em 2006 (link via Nemo Nox).

PS 2: Leitura indispensável sobre o imbróglio Bolívia-Petrobrás: Sergio Leo.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 20 de abril 2006

Depoimento de um passageiro, a quebra da Varig e o dedo de Gerald Thomas

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Eu moro nos EUA há 16 anos e viajo ao Brasil no mínimo duas, às vezes três vezes por ano. Só aí são umas 40 viagens. Além disso, viajo à beça para congressos ou palestras. Devem ter sido umas 120 viagens aéreas nesses últimos 15 anos. Viajei Varig no máximo umas 4 vezes. Por quê? A passagem sempre saía mais cara, e o programa de milhagem não se compara ao da American. Com a American, numa média de cada duas viagens ao Brasil eu ganhava – e ganho – uma de graça.

No começo, eu ainda atazanava a minha agente com os pedidos insistentes “olha, veja se acha uma passagem pela Varig que não seja o dobro do preço. . .” Depois, desisti. Em condições iguais de temperatura e pressão, eu escolho o produto nacional, mas não dá para se fazer filantropia com empresas na hora de comprar passagens aéreas. E se é verdade que os vôos da Varig traziam algumas regalias que, já havia muito tempo, estavam ausentes nos outros – melhor comida, cervejinha grátis na classe econômica, etc. – a verdade é que para o passageiro típico, o mais importante é o preço e o programa de milhagem. E a quebra da Varig tem muito a ver com o investimento num padrão de qualidade que a empresa não tinha condições de sustentar, além de uma dependência parisitária do Estado.

Lembremos que foi por um decreto do ditador Médici, em 1973, que a Varig recebeu o monopólio dos vôos internacionais no Brasil. Esse monopólio só terminou nos anos 90. Luiz Martins, ex-presidente da própria companhia, disse à Exame: "A Varig sempre achava que o governo iria dar um jeito. Seus controladores imaginavam que, de repente, uma fada madrinha resolveria o problema com uma varinha de condão. Não entenderam que o Estado brasileiro tinha mudado" (link, para assinantes). Desde 1995, nada menos que 11 indivíduos e 1 comitê passaram pela presidência da companhia.

Mas Gerald Thomas – o mais talentoso entre todos os diretores teatrais que só dizem besteira – nos avisa que a Varig está quebrando por negligência do governo Lula!! É mole? Gerald Thomas, que escreveu sobre New Orleans confundindo cajun com creole, nos diz que os US$10 milhões investidos na viagem do astronauta brasileiro mostram que Lula está tentando tirar a dignidade da Varig!! Claro que ele não nos diz que US$10 milhões representam pouco mais de 1% da dívida da Varig. Na manifestação de artistas em defesa da Varig, Gerald Thomas - que já comparou Gilberto Gil com Goebbels e acusou o ministro de "assassino" (porque supostamente "assassinou" o teatro brasileiro!) - nos brindou com essa pérola: Quando o Lula fala que é a falência de uma companhia, não é a falência de uma companhia, ele está decretando a falência do próprio Brasil. Bem-vindo ao mundo das metonímias geraldianas! Para completar, um gesto obsceno, o do dedo, ao presidente Lula, o grande vilão.

Entendo a relação romantizada que muitos brasileiros, de uma geração anterior à minha, têm com a Varig. Sim, para quem está no exterior é uma alegria ver uma companhia brasileira que demonstre um padrão de qualidade superior. Sim, é verdade que muitas vezes os balcões da Varig são verdadeiras embaixadas brasileiras.

Mas acusar o governo por não desviar dinheiro de seus programas "sociais" para a Varig - colocando o "sociais" assim, entre aspas mal-intencionadas - e depois criticar a imprensa por não apresentar soluções, como fez Alberto Dines nesse texto (link via Flávio Prada) me parece uma asneira sem tamanho.

Numa matéria feita para a Valor Econômico no ano de 2002, o jornalista Sergio Leo já citava um estudo do BNDES, que concluía que por ser propriedade de uma associação dos próprios funcionários, a Varig teria sofrido conflito de interesses entre os sócios e os funcionários.

Enfim, trata-se de um clássico caso de má gestão e dependência do Estado. Não me produz nenhuma alegria ver a mais tradicional empresa aérea do Brasil nessa situação, mas não entendo a raiva com que algumas pessoas cobram do governo uma solução para seus problemas. Símbolo nacional? Se é para cuidar dos símbolos nacionais, que estatizem a CBF, que escandalosamente administra como empresa privada um patrimônio que é público.

PS: Ana Maria Gonçalves lança no dia 12 de maio, na livraria Quixote, em Belo Horizonte, o super romance Um Defeito de Cor, pela Editora Record. Se você estará em BH nessa data e quer receber um convite para a tarde de autógrafos, mande um email para blog arroba idelberavelar ponto com.



  Escrito por Idelber às 04:16 | link para este post | Comentários (28)



terça-feira, 11 de abril 2006

A Eleição Presidencial, a Ética na Política e o Discurso da Indignação Santa

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A ética é como a virgindade: se você bate no peito para dizer que a tem, provavelmente não tem coisa nenhuma ou está doido para perdê-la.

É muito bom para Lula, mas péssimo para a politização da sociedade brasileira, que a oposição aparentemente tenha escolhido centrar o seu discurso no terreno da ética.

Continue lendo A Eleição Presidencial, a Ética na Política e o Discurso da Indignação Santa, minha colaboração com o Bombordo.

(vou deixar a caixa de comentários fechada hoje para que o debate se concentre lá no Bombordo).



  Escrito por Idelber às 03:29 | link para este post



sexta-feira, 07 de abril 2006

Aforismo do dia

O Partido Democrata americano é uma equipe de futebol que, perdendo de 1 x 0 aos 10 minutos do segundo tempo, jogando em casa, com um jogador a mais, o juiz a favor e os adversários brigando entre si, decide substituir os atacantes por zagueiros.

É de lascar.

Ah, tão mais divertida é a política tupiniquim, com suas histórias mirabolantes!

Sugestão do dia: Flamewars Survival Guide, genial post do Ratapulgo.



  Escrito por Idelber às 00:25 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 31 de março 2006

No aniversário do golpe, véspera do dia da mentira

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Copiem, circulem (eu tirei daqui).

O vídeo do mentiroso é esse aqui.



  Escrito por Idelber às 20:36 | link para este post | Comentários (35)




Censura na blogosfera do Grupo Folha

soninha.jpg Em nome da "isonomia" e da "isenção", Soninha já não poderá falar de política em seu blog, hospedado na Folha Online. Está claro que houve uma nítida intervenção censora, que revoltou os leitores do blog. Enquanto isso, Josias de Souza desfila seu tucanismo incólume num blog também hospedado pelo Grupo Folha e cheio de "notícias" tendenciosas, ilações e insultos morais a membros do governo federal.

É a "isenção" da mídia brasileira.

Soninha merece muito mais, mas que conste: o idelberavelar.com e a Verbeat já se colocaram à disposição de Soninha caso ela queira mandar a hospedagem do grupo Folha ao raio que o parta.

PS: o Juca Kfouri, de quem eu gosto muito, pisou na bola nessa caixa de comentários, ao dizer que passou a "indicar, em seu blog, este, da Soninha, exatamente porque, agora, deixou de ser partidário". Isso é ridículo, seu Juca. Seria como eu não linkar a Fefê porque ela é cruzeirense, o Inagaki porque a política dele é diferente da minha, ou a Leila porque ela é anti-tabagista. Ou você gosta do blog e linka, ou não gosta e não linka, mas linkar um blog porque ele foi censurado e passou a ser "apartidário" - condicionar a linkania ao "apartidarismo" num momento em que este é produto de um "cala-boca" - é ser conivente com a censura. Bola murcha para o Juca nessa aí.



  Escrito por Idelber às 02:46 | link para este post | Comentários (59)



quinta-feira, 30 de março 2006

O aniversário do golpe, o dia da mentira, as confusões entre ética e política, os cowboys gays, a cara-de-pau da Primeira Leitura e a ‘coerência’ do tucanato

Sabe-se que o golpe militar brasileiro – o aniversário vem aí – só se consumou realmente no dia primeiro de abril. Sim, foi em 31 de março que o general Olympio Mourão Filho partiu com suas tropas para o Rio de Janeiro, movimento que Castello Branco julgou intempestivo e tentou bloquear com um telefonema a Magalhães Pinto. Sim, foi em 31 de março que se unificaram no Vale do Paraíba as tropas do General Murici e as do General Morais Âncora, este último encarregado por João Goulart de prender Castello Branco. Âncora desobedeceu, optando por evitar o que provavelmente teria sido o estopim de uma guerra civil.
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Foto: Tanques na Avenida Presidente Vargas (obrigado pela correção, Tania)

Mas é no dia primeiro de abril que ocorre a unificação de toda a liderança militar e a consumação do golpe, que havia sido marcado para o dia 04 de abril, tendo sido depois adiado para o dia 08 porque, segundo o general Carlos Guedes, nada que se faz em lua de quarto minguante dá certo.

Fugindo da lua de quarto minguante, a camarilha golpista terminou condenada ao dia da mentira, cuidadosamente evitado nos livros de história por uma sutil manobra sofista.

E haja sofisma, nesta época eleitoral.

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Um dos momentos mais divertidos que tive ano passado no Brasil foi durante a exibição de um Manhattan Connection, em que Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo comentavam – sem haver assistido – o filme Brokeback Mountain. Repetiam a cantilena da extrema direita americana: trata-se uma “politização” inaceitável do western, da utilização de um gênero para avançar a “agenda gay”, etc. e tal.

Foi a cena mais divertida da minha estadia: ver Reinaldo Azevedo, com aquele anelzinho, desmunhecando vigorosamente contra os cowboys gays.

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E agora eis que a Primeira Leitura, revista que abertamente se assume tucana, não vê nada de errado em receber dinheiro de um banco estatal de São Paulo, um estado administrado por um tucano. Esses são os mesmos que falam do “maior escândalo de corrupção da história”. Não vêem nada de errado nisso, por quê? Segundo Azevedo, porque

Primeira Leitura, de fato, foi criada por Luiz Carlos Mendonça de Barros. Mas não pertence mais ao ex-ministro desde setembro de 2004. Como informa o próprio jornal, “de outubro de 2004 até julho de 2005 (...), Primeira Leitura circulou com anúncios de página dupla da Full Jazz”. Ou seja: Mendonça de Barros já não tinha mais qualquer vínculo com a revista, de que deixou de ser, infelizmente, até mesmo colunista.

Como se Primeira Leitura tivesse deixado de ser tucana depois que Mendonça de Barros a abandonou, como se o governo de São Paulo não tivesse sido tucano entre outubro de 2004 e julho de 2005, como se um vínculo como esse, entre uma revista partidarizada e um fundo de dinheiro público – gerenciado, ainda por cima, por um pré-candidato a presidente – não fosse tão ou mais escandaloso que qualquer evento do suposto “maior escândalo de corrupção da história”, o do governo do PT.

Mas as justificativas esfarrapadas não terminam por aí. Segundo Azevedo, o mais “importante” é que seu apoio a José Serra durante o processo de decisão do PSDB o eximiria de qualquer responsabilidade nessa maracutaia:

Se estivéssemos mesmo fazendo site e revista a soldo de Geraldo Alckmin, seríamos, ademais, notórios traidores, vira-casacas. Que saibamos, Primeira Leitura foi o único veículo de comunicação que anunciou seu apoio à pré-candidatura de José Serra à Presidência da República (link)

Ou seja, como apoiamos outro pré-candidato na disputa interna do PSDB, está provado que somos inocentes de qualquer acusação. É como se um deputado do PT beneficiado com o caixa 2 de Delúbio se defendesse dizendo que pertence a uma corrente interna diferente da corrente de Delúbio dentro do PT. Com a diferença, claro, que todo o dinheiro dos anúncios da Nossa Caixa na Primeira Leitura é dinheiro público.Na seqüência de sofismas, Azevedo conclui:

No texto da primeira página, afirma a Folha, referindo-se inclusive a nós: “Os demais acusados também negam irregularidades”. Pergunta-se ao jornal: do que somos “acusados” exatamente? (link)

Expliquemos de novo, então: vocês são acusados de receber dinheiro público para financiar uma revista partidária, dinheiro que curiosamente vem do estado administrado pelo partido de vocês. Disso vocês são acusados. E não se explicaram ainda.

***************

Mas a Primeira Leitura não tem só colaboradores como Reinaldo Azevedo, que recorre a sofismas de escola de primeiro grau para justificar maracutaias piores que aquelas que o “escandalizam” tanto, desmunheca contra os cowboys gays, tece loas ao Papa mais reacionário dos últimos tempos, e em fevereiro diz que as "agressões" dos partidários de Alckmin “imitam” o estilo petista para em março declará-lo salvação do país.

Tem também colaboradores de outro nível, como Roberto Romano, professor de Filosofia da UNICAMP. Roberto Romano não é um idiota, não é um Olavo de Carvalho. É autor de uma respeitável obra. Mas vejamos o que ele dizia antes e o que ele diz agora.

Em 2000, quando FHC e Paulo Renato submetiam as universidades federais brasileiras ao maior sucateamento da história, o Prof. Romano dizia:

É muito interessante que comecemos a falar de universidade, porque o que aconteceu nestes últimos seis anos no Brasil foi um desmonte programado, intencional, racional, de todo um sistema de produção de saberes. . . . Fernando Henrique . . . e o seu ministério, a começar pelo ministro Paulo Renato, têm uma responsabilidade muito grande sobre o que está acontecendo. Ao abraçar o Antônio Carlos Magalhães, e ao abraçar essa via do possível, o que fez ele? Escolheu o caminho da tradicional dominação brasileira, violentíssima, paternalista e mentirosa.

Numa louvável denúncia do que o tucanato fez com a universidade brasileira, o Prof. Romano chegou a falar de “genocídio programado”. Curiosamente, em janeiro deste ano, ele dizia que

O PSDB é uma das últimas fronteiras políticas em prol do Estado democrático de direito.

Claro que a todos é dado o direito de mudar de opinião, mas nada nos textos do Prof. Romano nos explica como o partido que patrocinou o “genocídio programado” que ele denunciou há seis anos se converteu, num passe de mágica, em bastião da moralidade. Prof. Romano, se o sr. quer defender as CPIs com o argumento de que

sem CPI, quantos saberiam algo sobre as façanhas de PC Farias, dos Anões do Orçamento, do mensalão, do Land Rover do Silvinho, do conúbio entre Delúbio e certos agentes pouco ortodoxos do mercado, etc? (link)

o sr. poderia explicar por que os apoiadores do PSDB bastião do "Estado democrático de direito" sufocaram nada menos que 69 pedidos de CPIs na Assembléia Legislativa de São Paulo? Nenhuma delas se justiificava segundo o "Estado democrático de direito"?

Mas o Prof. Romano vai mais longe. Defendendo, em janeiro, a candidatura de Serra a presidente, ele dizia que o documento assinado por José Serra, em que ele se comprometia a ficar 4 anos na prefeitura de São Paulo era um “papelucho” sem valor porque

. . . um ato humano só pode ser válido quando feito sem constrangimentos externos, quando o diálogo que conduz a ele é efetivado com plena boa-fé do seu beneficiário . . . Serra foi constrangido por um truque petista (link).

Ora, Prof. Romano, assista esse vídeo aqui, em que Serra promete ficar 4 anos na prefeitura, e me diga se ele foi constrangido por algum “truque petista”.

Mas a coisa ainda piora para o lado do professor. Dando uma nítida “carteirada” de autoridade – como se ele, autor de pelo menos um belo livro, precisasse disso – o Prof. Romano afirma:

Como o PT possui gente que se arvora em especialista na filosofia de Spinoza (mas até o nome do filósofo deturpam, grafando-o contra toda a tradição como “Espinosa”), citarei a Ética e a Política spinozana para aclarar o caso da assinatura de Serra no documento/armadilha que lhe apresentaram.

Com essa grosseira referência, Romano obviamente alude a Marilena Chauí, autora de vasta obra espinosiana. Ora, que coisa feia, professor! Aprenda com os blogueiros! Quando se quer criticar alguém diretamente, nomeamos-no e damos o link. Deu para entender? Não é difícil. Se quer criticar Chauí, maravilha. Se quer questionar sua leitura de Espinosa, eu, particularmente, seria todo ouvidos, porque o tema me interessa muito. Mas deveria evitar essas referências grosseiras, não nomeadas, a uma mulher que tem um currículo infinitamente superior ao seu.

Sobre Marilena Chauí, há que se dizer, professor, e o senhor sabe disso, apesar de fingir não saber: ela não “se arvora” em especialista em Espinosa (sim, com E mesmo, escrito à brasileira). Ela é reconhecida em vários círculos espinosianos como a maior autoridade do mundo na obra de Espinosa, e como tal validada em italiano, em alemão, em francês, em espanhol.

Até agora não ouvi falar de ninguém que estivesse aprendendo português para ler o senhor ou a Primeira Leitura. Sei de vários estudiosos que o estão fazendo para ler a obra de Chauí. Ela jamais diria, por exemplo, uma platitude como essa do senhor:

Na Ética (Livro Quarto, proposição 72), Spinoza afirma: “O homem livre não age nunca com fraude, mas sempre de boa-fé” . . . Serra não agiu de má-fé quando assinou um “compromisso” que dele retirava a própria existência política. (link)
spinoza.jpgProf. Romano descobre Espinosa, o fundador do PSDB.

Era só o que nos faltava: o vampiro da meia-noite é o homem livre espinosiano! Ora, professor, mais respeito com a nossa inteligência. Em todo esse debate, eu me encontro mais próximo da sua esposa, a grande acadêmica Maria Sylvia Carvalho Franco, que conclui uma entrevista dizendo:

Estamos num mato sem cachorro.

Atualização 1: Não, Sr. Reinaldo Azevedo, o deputado Henrique Fontana (PT-RS) não o acusou de ser financiado com dinheiro do PSDB. Acusou-o de ser financiado com dinheiro público. E o sr. continua sem se explicar.

Atualização 2: Se o Prof. Roberto Romano - que acha que o PSDB é bastião do "Estado democrático de direito" - teve a excelente idéia de fazer um blog para disseminar seus textos, seria elegante de sua parte abrir uma caixa de comentários, não é mesmo? Ou alguém poderia achar que ele não quer debater o que escreve.



  Escrito por Idelber às 05:28 | link para este post | Comentários (26)



domingo, 18 de dezembro 2005

Agentes federais investigam estudante nos EUA por causa de livro de biblioteca

Um estudante de quarto ano de faculdade na Universidade de Massachusetts recebeu a visita de agentes federais há dois meses, depois de ele ter pedido [por empréstimo inter-bibliotecas] um exemplar do tomo de Ma-Tsé-Tung sobre o comunismo, intitulado O livro vermelho.

[...]

O aluno, que estava completando um trabalho de pesquisa sobre o comunismo para um curso do Professor [Robert] Pontbriand sobre fascismo e totalitarismo, preencheu um formulário do pedido deixando seu nome, endereço, telefone e número de registro no seguro social. Ele seria depois visitado na casa de seus pais em New Bedford por dois agentes do Department of Homeland Security.

O aluno disse aos Profs. Pontbriand e [Brian Glyn] Williams que os agentes lhe disseram que o livro estava numa "lista vigiada" e que a sua história de vida, que incluía um tempo significativo no exterior, os havia levado a investigar mais. "Eles trouxeram o livro consigo mas não o deixaram com o estudante", disseram os professores.

Apesar de que o Standard Times sabe o nome do aluno, ele não se mostrou, porque teme repercussões no caso de seu nome tornar-se público.

É espantosa a regularidade com que esse tipo de coisa vem acontecendo nos Estados Unidos.


Atualização, dia 24/12: Apesar de que a história relatada pelos professores ao jornalista e por este ao público era verdadeira, revelou-se depois que estes haviam sido enganados pelo garoto (link via Ned Sublette). Que um garoto possa enganar tanta gente durante tantos dias com uma história assim (link via Alex Castro), claro, é um testemunho do estado de incerteza que se vive nos EUA sobre as táticas de vigilância do governo. Mas fica registrada a correção dessa história em particular.



  Escrito por Idelber às 05:34 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 12 de dezembro 2005

Perfil do direitista tupiniquim, em dez traços

10. Ao contrário dos direitistas gringos, europeus ou mesmo mexicanos – virulentamente patrióticos ao ponto da xenofobia – o direitista brasileiro odeia o Brasil. É curioso, porque nenhuma direita traz tantas marcas do seu lugar de origem como a brasileira. Até quando fala de Chesterton.

9. O direitista brazuca sofre de profunda nostalgia. Entende-se: ele um dia teve Carlos Lacerda e Paulo Francis. Hoje deve contentar-se com Diogo Mainardi e outros funcionários da Veja. Ou seja, já completa uma geração em total orfandade de gurus. Andam tão carentes que seu mais novo mestre é um auto-intitulado "filósofo" de cujo trabalho nenhum profissional de filosofia jamais ouviu falar.

8. Os direitistas tupiniquins em geral se dividem em dois grupos: os raivosos e os blasé. Aqueles vociferam em blogs, lançam insultos, ordenam que os adversários se mudem para Cuba. Reagem histericamente à própria infelicidade. Os blasé, em busca de uma elegância copiada de algum filme gringo, intercalam em suas frases expressões inglesas já completamente fora de uso. Reagem esquizofrenicamente à sua infelicidade, à sua incapacidade de reconciliarem-se com o que são.

7. O direitismo brasileiro costuma ser um grande clube do Bolinha. Tem verdadeiro pânico das mulheres, especialmente das mulheres fortes, seguras, profissionalmente bem-sucedidas. Estas últimas costumam ter o poder de fazer até mesmo do blasé um raivoso.

6. O direitista tupiniquim adora lamber as botas de Bush. Numa época em que até vozes do conservadorismo tradicional norte-americano reconhecem o caráter da mentirada (link via Smart) sobre a qual se sustenta Bush, o direitista daqui ainda defende o genocídio praticado pelos EUA no Iraque.

5. Por alguma razão, o direitista brasileiro sente-se profundamente incomodado com o cinema iraniano. Talvez, se a história do menino que perdeu um sapato fosse contada em inglês, com um orçamento milionário, dois personagens maniqueistamente representando o bem e o mal, algumas explosões e um final bem moralista, o direitista tupiniquim o saudaria como uma pérola.

4. O direitista brazuca adora declarar-se “liberal”. Sonha com o capitalismo preconizado por Adam Smith, quem sabe nalguma ilha onde ainda exista “livre competição pelo mercado”. Afinal de contas, no capitalismo realmente existente o que vemos são quatro megaconglomerados controlando toda a indústria musical do mundo, ricos impondo barreiras e tarifas aos produtos dos pobres, oligopólios praticando dumping, guerras de rapinha para saquear petróleo dos outros. Ao ser confrontado com esses fatos, o máximo que o direitista aceitará é que no “verdadeiro” liberalismo essas coisas deverão ser “corrigidas”. Talvez no dia em que o direitista consiga impor seu modelo de capitalismo à ilha de Robinson Crusoé.

3. O direitista tupiniquim tem pânico de discutir questões relacionadas a raça e etnia. Quando aflora qualquer conversa sobre a discriminação racial ou sobre o lugar subordinado do negro na sociedade, ele raivosamente acusa os interlocutores de estarem acusando-o de racista. Para essa “vestida de carapuça” Freud inventou um nome: denegação. É a atitude preferida do direitista quando o tema é relações raciais.

2. O direitista tem verdadeiro ódio da MPB. Vocifera, por exemplo, contra o silêncio de Chico Buarque sobre o caixa dois do PT, ao mesmo tempo em que idolatra pop stars americanos que silenciam sobre o genocídio no Iraque. Faz sentido: as áreas nas quais, em quantidade e em qualidade, o Brasil tem a mais respeitável produção do mundo desmentem a ficção auto-depreciatória com que o direitista tupiniquim transfere para o país o seu incômodo consigo mesmo.

1. O direitista brasileiro louva e idolatra o mercado, mas curiosamente pouquíssimos espécimens dessa turma se estabeleceram no mercado com o próprio trabalho. É mais comum que herdem um negócio do pai, recebam via jabaculê o emprego que terão pelo resto da vida ou, mais comum ainda, que concluam a quarta década de vida morando com a mãe e tomando toddyinho.



  Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post | Comentários (220)



segunda-feira, 21 de novembro 2005

Vestibular Político-Futebolístico

Considerando que tanto o Galo como José Dirceu já há semanas ficam brincando de adiar o que parece inevitável, que tal uma brincadeirinha de escolher a alternativa correta?

a. O Galo escapa da segunda divisão e José Dirceu escapa da cassação.

b. O Galo escapa da degola, mas José Dirceu não.

c. O Galo cai para a segundona e José Dirceu perde o mandato.

d. O Galo cai, mas José Dirceu se salva.

e. nenhuma das alternativas, pois vai se melar tudo.


PS: A enquete é sobre o Galo não só porque o blog é atleticano: depois da vergonhosa roubalheira de ontem contra o Internacional, perpetrada pelo Sr. Márcio Rezende de Freitas - o mesmo que entregou o Campeonato Brasileiro de 1995 ao Botafogo, o mesmo que roubou escandalosamente o Grêmio numa final de Copa do Brasil contra o mesmo Corinthians, o mesmo que roubou o Atlético-MG em pelo menos três clássicos contra o ex-Ipiranga - alguém tem alguma dúvida de que este será o título mais manchado da história do Campeonato Brasileiro?



  Escrito por Idelber às 03:57 | link para este post | Comentários (25)



quinta-feira, 10 de novembro 2005

O Fox-Trotezinho de Bush

fora-bush.jpg

Pode-se concordar ou não com a avaliação do New York Times de que a visita de George W. Bush à América Latina foi desastrosa, mas o fato é que a Cúpula das Américas de Mar del Plata teve um grande palhaço: o presidente Vicente Fox, do México, perdeu várias oportunidades de ficar calado.

Ao chegar à Argentina e se deparar com as manifestações nas quais dezenas de milhares de pessoas (entre elas Diego Armando Maradona) protestavam contra Bush e a ALCA, Fox declarou que encontrou em Mar del Plata uma "bagunça" e um "futebolista com a cabeça cheia de fumaça metendo-se em política". Levou uma seqüência de tamancadas da sociedade argentina e no seu próprio país que colocaram as coisas nos eixos. Provavelmente sessenta anos de sistemáticos assassinatos de opositores políticos no México deixaram a presidência sem muita noção de que os protestos são parte da democracia e que os jogadores de futebol também têm o direito de participarem neles. Provavelmente os últimos anos de política externa ultra-subserviente ante os Estados Unidos impedem o ex-executivo da Coca-Cola de reconhecer que, em qualquer país do planeta que George W. Bush ponha os pés, ele será recebido com faixas de protesto e repúdio.

Depois da conclusão do encontro sem que os Estados Unidos conseguissem impor seu plano, o patético presidente mexicano declarou que a ALCA avançaria "com ou sem o Mercosul" e que Néstor Kirchner "estava orientado para a opinião pública" e que por isso os acordos continentais não haviam se realizado. Recebeu de novo a tamancada que merecia. O presidente argentino, que trabalhou com o Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela para barrar a ALCA e levantar de novo o problema das assimetrias no tratado e dos subsídios agrícolas americanos, respondeu afirmando que diplomacia não é abaixar a cabeça ante os poderosos: "que ele se ocupe do México". O próprio senado mexicano deu razão ao argentino e envergonhou-se do seu presidente.

O mais curioso é que qualquer que seja a opinião que se tenha sobre a ALCA, sabe-se que ela é um tratado nos moldes do NAFTA, celebrado entre EUA, Canadá e México. Em outras palavras: o tratado estenderia ao resto do continente a condição que o México já usufrui. Se o acordo impulsionado pelos EUA é tão bom, por que tanto desespero do mexicano em estender a todos os outros países um "privilégio" que ele, México, já possui?

No México, 11 anos depois da implementação do NAFTA, aumentou a pobreza no campo, cresceu a dependência do país da importação de alimentos, 88% das exportações passaram a ir aos Estados Unidos (dando a estes últimos, obviamente, controle quase completo da economia do vizinho) e um milhão de pequenos proprietários perderam seu sustento. A imigração mexicana atingiu níveis record: dos 9.9 milhões de residentes ilegais dos EUA, 58% são mexicanos e 20% são centro-americanos, cidadãos de países que já têm o "privilégio" de terem tratados de livre comércio com os EUA.

Nota-se nas declarações de Fox, claro, a vontade clara que "ficar bem" com o Império, depois que a rejeição de 90% da população mexicana à Guerra do Iraque tornou absolutamente impossível que o presidente mexicano lambesse as botas de Bush também naquele episódio.

O candidato favorito à sucessão de Fox é o oposicionista de esquerda López Obrador. Cardenal Hinojosa, do PAN, partido de Fox, segue muitos pontos atrás.

Por aqui, o amiguinho de Bush não deixou nenhuma saudade.



  Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post | Comentários (23)



domingo, 23 de outubro 2005

Até que enfim acabou esse referendo!

Ganhou o não. Ganhou bem e limpamente. Não deixa de ser um fenômeno eleitoral: uma bandeira que começou a campanha com 80% de apoio nas pesquisas foi rejeitada por 2/3 da população.

Conclusão: não há bandeira política que sobreviva ao apoio do governo federal.



  Escrito por Idelber às 23:27 | link para este post | Comentários (62)



segunda-feira, 17 de outubro 2005

Observações sobre a Campanha do Referendo das Armas de Fogo

Este não é um post destinado a convencer ninguém a votar sim no referendo do próximo domingo. Como eu já disse, mais do que defender minha preferência, meu objetivo aqui é abrir espaço para o debate. Deixo alguns comentários sobre a campanha, tentando ser o mais ponderado possível, sem abrir mão da minha posição, é lógico:

1. Discordo dos queridos amigos que insistem que o referendo é uma perda de tempo e de dinheiro. Eu nunca havia visto a sociedade brasileira debatendo de uma forma tão ampla as raízes, causas e remédios para a violência no país. Por si, isso já é um exercício em democracia. É sempre difícil medir o que causou a diminuição ou o aumento de índices de violência, mas não me surpreenderia se os índices de homicídios caíssem no Brasil independente do resultado do referendo, como uma simples conseqüência de sua realização e do debate (que tem tido, nos seus melhores momentos, efeitos educativos sobre as causas da violência, sobre o uso de armas, etc.).

2. Dito isso, é verdade que o referendo está causando uma polarização inédita inclusive nas eleições, talvez porque as pessoas estejam mais dispostas a se polarizar em nome de uma idéia do que em nome de um político. Já tive notícias de amizades rompidas e famílias divididas. Em alguns foros de debates dá para se cortar a tensão com uma faca (com o perdão da metáfora, hehehe). Portanto, nestas horas é bom lembrar: a sociedade brasileira está discutindo a aplicação de um artigo de um estatuto de 37 artigos já em vigor. Só isso. É um artigo importantíssimo, claro, mas não é a linha divisória entre "os do bem" e "os do mal" e tampouco entre "patrulheiros" e "patrulhados". O que a maioria decidir é legítimo, porque ambos os lados estão tendo amplas oportunidades de fazer suas campanhas sem perseguições, caça às bruxas ou fraudes eleitorais, o que é bem mais do que temos visto recentemente nas "democracias mais perfeitas do mundo".

3. Talvez este referendo entre para a história como a primeira grande campanha marcada pelo spam. A quantidade de informações errôneas circuladas por meio de spams é assombrosa. Tomemos uma delas: apesar de que os próprios fabricantes de armas já cansaram de dar entrevistas dizendo que, no caso da vitória do sim, eles dirigiriam toda sua produção para o mercado externo, circula por aí um email que diz que "a lei do comércio exterior" (sic) impede um país de exportar aquilo que proíbe dentro de suas fronteiras, e que portanto, no caso da vitória do sim, o Brasil seria proibido de exportar armas. O spammer, obviamente, não cita que "lei" é essa, mas isso não impediu essa baboseira de circular abundamentemente, ferindo a credibilidade de quem a circulou. A Organização Mundial do Comércio não inclui nada disso em seu regulamento. Prova? Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration é responsável pela expedição de licenças de exportação para produtos não permitidos em território americano, como se pode comprovar neste link. Inúmeros produtos farmacêuticos americanos, por exemplo, já teriam que ter deixado de existir se essa baboseira fosse real. Portanto, você pode ter suas razões válidas para votar não, mas a preocupação com as exportações nacionais não é uma delas.

4. Na sua coluna de ontem no Globo, o ilustre romancista João Ubaldo Ribeiro cita esse spam tal qual, e diz que ele "parece ser" verdadeiro. Parece por quê, cara-pálida? Porque chegou à sua caixa de correio? Já ouviu falar em checar uma informação? Numa coisinha chamada Google? Por isso nós, blogueiros, prezamos tanto o link. Linkar uma informação não garante, claro, que ela esteja correta, mas dá ao leitor a possibilidade de avaliar a fonte. Para coroar uma coluna construída ao redor de um spam, o ilustre romancista afirma que Carlinhos Judeu faturou uma grana federal na bolsa de apostas que se formou em torno das altas questões referendais. Confesso que eu já tinha encontrado toda sorte de argumentos simplistas nesse debate, mas nosso romancista extrapolou e conseguiu introduzir até uma grosseria anti-semita na discussão. Triste.

5. Uma das queixas mais recorrentes que eu tenho encontrado em certas vozes que defendem o não é a de que estão sendo "patrulhados" e tratados como "párias". Confesso: sempre que alguém reclama de que está sendo patrulhado eu ligo meu desconfiômetro. Essa queixa tem, de mim, a mesma simpatia que merece a reclamação de José Dirceu de que está sendo "perseguido". Neste debate, há simplificações dos dois lados, há argumentos razoáveis e ponderados dos dois lados, e dizer-se vítima de "patrulha" porque seus argumentos a favor do "não" estão sendo atacados é tão bobo como dizer que defender o sim é ser "do bem" e defender o oposto é ser "do mal". Este blog completa 1 ano no fim do mês, e todas as vezes que discuti política aqui levei tamancadas homéricas na caixa de comentários. Algumas vezes deixei a tamancada lá, ecoando junto com os outros argumentos, outras vezes fui até a caixa debater e, se o leitor passa do limite com algo que julgo que é da ordem do insulto ou da calúnia, tenho a opção de apagar o comentário. Mas vou escrever post choramingando que sou vítima de "patrulha"? Pelo amor de Deus. Quem entra no debate é para ouvir argumentos opostos, quem está na chuva é para se queimar, como diria o imortal Vicente Matheus. Grow up. Isso é democracia. Lembra? Nós tivemos uma entre 1946 e 1964, imperfeita mas tivemos. Aos "patrulhados pelo politicamente correto", um lembrete: a moda não é ser "politicamente correto". Essa moda já passou. Isso é anos 80. A moda hoje é declarar-se patrulhado. Quem está na moda são vocês, não os "patrulheiros".

6. Mas as baboseiras não são exclusividade da turma do não. Abundam na turma do sim também. Entre elas, essa bobinha associação entre o sim e as "forças progressistas" e o não e as "forças conservadoras." Para esses paladinos da "paz", não há outro motivo para se votar no não exceto ser "de direita". Daí, partem para atacar qualquer um por causa de suas "companhias." Ora, numa eleição plebiscitária, não se pode desqualificar ninguém pelas companhias, porque todos estarão em companhias que não lhe agradam. Desqualificar alguém que vota não por estar do lado de Bolsonaro é um argumento intelectualmente desonesto. Lembrete: ACM Neto apóia o sim. Dos dois lados há gente com quem eu adoraria tomar várias cervejas, e há gente com quem eu não aceitaria tomar um cafezinho. Assim funcionam as votações plebiscitárias.

7. Aliás, há que se reconhecer: a campanha do não avançou, recuperou terreno, e o resultado está totalmente indefinido. As razões parecem ter algo que ver com a insistência dessa campanha na posse da arma como uma questão da ordem do direito individual, mas eu acredito que tenha muito que ver com a associação implícita entre a campanha do sim e o governo - associação, aliás, fomentada pelo próprio governo. Todos se lembram do Ministro Thomaz Bastos declarando que "ganharemos" o referendo, ou do artigo (link só para assinantes) escrito por Lula para a Folha defendendo o sim. Pois bem, estão pagando o preço pelo próprio desgaste do governo. Enquanto isso, a campanha do sim optou por programas bonitinhos, estilo Duda Mendonça, e negligenciou os melhores argumentos.

8. Se essa observação vale para criticar o governo, também vale para o estapafúrdio argumento da turma do não, de que o referendo seria uma "cortina de fumaça criada pelo governo para desviar a atenção de seus problemas." O argumento é esdrúxulo porque o projeto de lei que deu origem ao referendo é de 1999, muito anterior, portanto, ao governo Lula. Não custa lembrar que o projeto é de autoria do Senador Gérson Camata (PMDB-ES), que de lulista ou petista não tem nada.

De forma que fica aí o convite do Biscoito para esta última semana de campanha: ouça os dois lados com calma, cheque as informações, use o Tio Google e vote com a sua cabeça. E que o lado perdedor saiba aceitar o resultado, porque mais aberto do que este debate tem sido, acho difícil.

PS: Mais uma morte por arma de fogo numa briga de torcidas de futebol.

PS 2: Estreamos hoje um outro formato na caixa de comentários: ao invés da ordem cronologicamente ascendente, os comentários estarão em ordem descendente, de forma que o primeiro que comentar terá o seu texto aqui pertinho do post, e os demais se seguirão abaixo. Os comentários aos posts anteriores foram reformatados assim também. Acho que isso facilitará a leitura. Vocês me dirão.



  Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post | Comentários (49)



terça-feira, 11 de outubro 2005

Sobre o Referendo - Comércio de Armas de Fogo

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Eu confesso que estou observando meio estupefato, aqui do Chile, a discussão sobre o referendo pela proibição do comércio de armas de fogo e munições no Brasil. Não pelos argumentos em si, que são conhecidos e repetidos ad nauseam dos dois lados, mas pela tremenda polarização e pelas manifestações iradas que o assunto tem provocado.

Mais uma vez uma "eleição" me pega fora do país, então não poderei votar. Mas desde já declaro meu apoio ao sim e abro o espaço da caixa de comentários para a discussão. Sintam-se bem-vindos, defensores do sim e do não. Faço uma ressalva:

Se algum defensor do sim - artista ou quem seja - sugeriu ou deu a entender que com a vitória da proibição entraremos num róseo período de harmonia social e de fim da violência, obviamente está fazendo demagogia barata. É uma defensora do sim, a advogada Maria Eduarda Hasselman, que afirma: Todas as medidas internas de restrição de armas não serão eficientes se não houver concomitantemente o amparo pela fiscalização das fronteiras, o combate ao contrabando e a imposição de regras sobre a importação e exportação de armas. Feita essa ressalva, examinemos alguns dos argumentos apresentados por aí contra a proibição:

1. A proibição desarma o "cidadão de bem" e mantém os bandidos armados. O que me parece mais curioso neste argumento é que todos os que o apresentam acreditam que o mundo está dividido entre "cidadãos de bem" e "bandidos". Acreditam que eles são "cidadãos de bem" e que "bandidos", bom, bandidos são os outros, incluindo-se aí a Dona Maria que roubou um shampoo na loja da esquina. Quando confrontados com o óbvio fato de que uma grande parte dos homicídios são cometidos por pessoas sem nenhum antecedente criminal, o maniqueísmo da teoria cai por terra: quando comprou sua arma, o nosso ilibado executivo era um homem de bem, mas quando a usou para matar um motorista principiante que trombou em seu carro no trânsito, ele virou um "bandido"? Ou será que continuou sendo "homem de bem"? Quem era quem quando? Você está realmente certo de que é um "cidadão de bem" 100% do tempo?

2. Com a proibição, o cidadão não terá como defender sua casa da invasão de ladrões e bandidos. Como podem testemunhar inumeráveis vítimas de reações a assaltos, ter uma arma em casa aumenta exponencialmente o risco de que o dono da arma (ou um familiar seu, ou uma criança, ou um vizinho) seja a vítima. Não o bandido, mais acostumado com armas e operando, com frequência, com o fator surpresa. A prevenção da violência se faz com políticas sociais e com combate à criminalidade, não armando a população. Não é à toa que inúmeros profissionais da área de segurança apóiam o sim.

3. Com a proibição, aumentará o comércio ilegal de armas e só os bandidos as possuirão. Smart já comentou esse argumento apresentando o dado pertinente: só uma pequena parcela das armas atualmente em mãos da bandidagem provém de contrabando. Uma grande parte foi legal um dia e depois terminou roubada ou expropriada, ou mesmo vendida a bandidos pelo próprio "cidadão de bem". O pesquisador Ignácio Cano demonstrou que 75% dos crimes são cometidos com armas brasileiras e de calibre permitido. Obviamente há que se combater o contrabando também, mas dizer que o combate à comercialização das armas de fogo brasileiras não ajuda em nada me parece um argumento que não condiz com a realidade.

4. Os proprietários rurais ficarão sem instrumentos para defender suas propriedades. O argumento é falacioso porque ignora um simples dado sociológico: a imensa maioria dos crimes de homicídios relacionados a conflitos no campo são de responsabilidade de latifundiários e seus jagunços e capangas, não dos "bandidos" do MST. Mais uma razão para desarmar esse setor que - frequentemente intitulando-se "homens de bem" - operam numa paralegalidade que tem exarcerbado a violência no campo. Não, eu não acredito que o latifúndio irá se desarmar depois que triunfe o sim. Mas aí ele terá que fazer a opção por atuar flagrantemente na ilegalidade, o que dará ao estado um mínimo instrumento de coerção sobre ele.

5. A responsabilidade pelos acidentes e assassinatos passionais não deve ser creditada à arma, mas a pessoas que não sabem usá-las. O argumento é tão fraco que não resiste a um escrutínio. Numa discussão sobre políticas públicas, desviamos o foco para o caráter individual das pessoas. A justa condenação que devemos dirigir aos que fizeram bobagens com armas é usada para mascarar o fato de que foi a disponibilidade dessas armas que permitiu que a bobagem tomasse proporções mortais e irreversíveis, com perdas de vidas humanas. É muito fácil discutir políticas públicas pressupondo um cidadão perfeito, sensato e justo. Difícil é entender a imperfeição do mundo e tentar, sobre a base dessa imperfeição, melhorar um pouco a realidade.

Daí ser importante frisar: o Estatuto do Desarmamento já trouxe, sim, alguns resultados positivos. Pela primeira vez em 13 anos o número de homicídios no Brasil caiu. Ele ainda é escandalosamente alto, mas a campanha educativa - ao contrário do que diziam os profetas do "entregue sua arma e o bandido agradecerá" - provocou uma diminuição, não um aumento da violência.

Este post é parte da blogagem coletiva do Nós na Rede, que reúne blogueiros que votarão tanto pelo sim como pelo não. Passe por lá. Eu recomendo especialmente os posts do Fernando, do Smart, da Christiana Nóvoa.

PS: Este post é dedicado à memória de meu tio Luís Flávio Vasconcelos, morto com uma arma de fogo legalmente comprada e registrada por um cidadão de bem.



  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (66)



domingo, 02 de outubro 2005

O desarmamento segundo a revista Veja

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Meu texto sobre a questão do desarmamento ficará para outra oportunidade. Com certeza, há argumentos razoáveis para se votar tanto não como sim no referendo do próximo dia 23 de outubro, sobre a proibição do comércio de armas de fogo no Brasil.

Infelizmente, eu não poderei votar, pois estarei fora do Brasil. Mas desde já o Biscoito está aberto para esse debate.

Eu ouvi com cuidado os argumentos que circulam por aí, de um lado e de outro. Mas se havia alguma chance de eu desistir de apoiar o sim à proibição, ela se esvaiu neste fim de semana. Por quê? Ora, porque a Veja apóia o não. Com os argumentos mais estapafúrdios.

Segundo a Veja, a pergunta O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil? é um "disparate". Para a revista, conhecida pela sua "honestidade", a forma "honesta" de fazer a pergunta seria O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma arma de fogo?

Eis aí a honestidade segundo a Veja, bem visível na capa da revista.

Compare-se o texto da Veja a esta análise do problema, feita pela advogada Maria Eduarda Hasselmann (link via Guto).

Prometo para breve um texto com as minhas razões para apoiar o sim. E vocês aí, já tomaram posição?



  Escrito por Idelber às 03:29 | link para este post | Comentários (47)



quinta-feira, 29 de setembro 2005

Alguns projetos de lei apresentados pelo novo presidente da Câmara

Graças ao trabalho intenso do governo na liberação de verbas para emendas parlamentares e ao lobby do Planalto e de alguns ministros, Aldo Rebelo (PC do B-SP) foi eleito ontem presidente da Câmara dos Deputados no segundo turno, por uma diferença de quinze votos.

Aí pensei que seria interessante listar os projetos de lei apresentados à Câmara pelo novo presidente Aldo Rebelo. Deliciem-se:

PL-4681/2001: Estabelece a obrigatoriedade da dublagem em português, feita em território nacional, para filmes estrangeiros a serem exibidos na televisão.

PL-4679/2001: Dispõe sobre a obrigatoriedade de adição de farinha de mandioca refinada, de farinha de raspa de mandioca ou de fécula de mandioca à farinha de trigo.

PL-2867/2000: Proíbe a utilização de sistema de catraca eletrônica nos veículos de transporte coletivo de passageiros.

PL-2217/1999: Altera o art. 4º da Lei nº 6.766, visando construir um campo de futebol a cada 1000 lotes e a cada 1000 unidades habitacionais.

PL-859/1999: Torna obrigatório o exame prévio de DNA para a cremação de cadáveres.

PL-4224/1999
: Proíbe a instalação de bombas de auto-serviço nos postos de abastecimento de combustíveis.

PL-2861/1998: Proíbe a exigência de declaração de idade em currículo profissional.

PL-4502/1994: Proíbe a adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra.

PL-1676/1999: Dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa, proibindo o uso de estrangeirismos na língua pátria (sobre essa palhaçada eu já escrevi, ainda na casa velha do Biscoito: aqui, ali e acolá).

E para terminar, a pérola das pérolas:

PL-2762/2003: Institui o dia 31 de outubro (por coincidência o aniversário deste blogueiro) como o Dia Nacional do Saci Pererê.

Este é o novo presidente da Câmara. Vocês com a palavra.



  Escrito por Idelber às 04:39 | link para este post | Comentários (60)



quarta-feira, 28 de setembro 2005

Todo apoio ao projeto de descriminalização do aborto

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Hoje é o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, e este blog participa da iniciativa do Nós na Rede de fomentar a discussão sobre o tema.

Foi entregue ontem à Câmara dos Deputados o projeto de lei que descriminaliza o aborto nas 12 primeiras semanas e em qualquer idade gestacional quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má formação fetal incompatível com a vida. Ele será incorporado ao projeto de lei 1.135, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Neste momento, é muito importante que a sociedade brasileira, e especialmente as pessoas de formação religiosa, entendam: realizam-se no Brasil aproximadamente 1 milhão de abortos clandestinos por ano. A maioria deles ocorrem em condições precárias e perigosas. A existência dessa indústria clandestina do aborto só favorece ainda mais o apartheid social brasileiro: quem tem dinheiro, paga por um aborto seguro que, como bem diz o advogado Túlio Viana, é um crime pelo qual ninguém vai preso. Quem não pode pagar, a vasta maioria, arrisca a vida em clínicas de fundo de quintal com agulhas de crochê.

Se você é católico e é a favor de que se mantenha essa vergonhosa criminalização de uma cirurgia porque "a Bíblia manda", releia a Bíblia: como sabem os que conhecem a história da Igreja, e como já demonstraram as Católicas pelo Direito de Decidir, só na segunda metade do século XIX a Igreja começa estabelecer essa absurda identificação entre feto e ser humano. Se um feto fosse uma vida, obviamente ele não precisaria de um outro corpo durante nove meses. O corpo da mulher deve ser de única responsabilidade da mulher, o papel do estado sendo unicamente o de dar condições dignas e adequadas para que cada mulher cuide dele.

O aborto é uma questão de saúde pública, não uma questão moral. Ser contra o direito ao aborto com julgamentos morais sobre a mulher que engravidou é de uma hipocrisia e/ou ignorância sem tamanho: engravida-se por mil motivos, e se a ciência já nos forneceu condições de interromper a gravidez indesejada de forma higiênica e segura, por que trazer ao mundo mais seres humanos que não terão como serem cuidados?

Defender o direito à vida é defender que todo ser humano que venha ao mundo tenha condições dignas de sobreviver. Pró-vida somos nós, que defendemos o direito de que as mulheres tenham acesso aos meios necessários para que seus filhos usufruam da vida em toda sua beleza.

Por isso, há que se entender: ninguém, nem a feminista mais radical, é "a favor do aborto". Não existe isso, ser a "favor do aborto". Quem já conversou e conviveu com uma mulher que abortou sabe: trata-se sempre de uma decisão dura e difícil para a mulher. Insistimos no direito ao aborto que - combinado com mais educação sexual e mais acesso a métodos contraceptivos e planejamento familiar - produziria, inclusive, uma redução no número de abortos efetivamente realizados.

O que não podemos aceitar é que a criminalização, por motivos religiosos, de um procedimento cirúrgico continue colocando em risco a vida de tantas mulheres ou, por outro lado, continue forçando-as a trazer ao mundo crianças que engrossarão as fileiras da marginalidade.

Por isso, neste 28 de setembro, o Biscoito convida seus leitores a que se informem: visitemos o Dossiê Aborto Inseguro, não imaginemos que podemos fazer juízos morais sobre a mulher que aborta e sobre as razões que a levam a abortar e, acima de tudo, entendamos que é hipocrisia ignorar que os abortos clandestinos continuarão ocorrendo caso essa estúpida criminalização se perpetue. Mais mulheres morrerão ou se mutilarão com agulhas de crochê.

Feto é feto, ser humano é ser humano. E temos milhões de seres humanos aqui no Brasil, vivendo em condições precárias. É importante cuidar deles. Inclusive para que esses seres humanos não sejam, depois, vítimas fáceis da criminalidade, da marginalidade ou da pedofilia.

Neste 28 de setembro, pense nisso. Converse com um profissional da saúde. Converse com uma mulher que já passou pela cirurgia. Não se lance a julgar moralmente a mulher que engravidou. Pense nas mil e uma circunstâncias que podem produzir uma gravidez indesejada. Pense no custo de se trazer ao mundo uma criança não desejada pelos pais. Visite os blogs que participam da iniciativa do Nós na Rede. E deixe sua opinião aqui no Biscoito.



  Escrito por Idelber às 01:14 | link para este post | Comentários (44)



terça-feira, 20 de setembro 2005

A Eleição no PT

Eu não sou daqueles que torcem para que a ex-mulher fique enrugada, gorda, pelancuda e suicida. De jeito nenhum. Tudo o que é parte do meu passado é parte de mim.

Como sabem os que acompanham este diário adolescente, eu me desfiliei do PT em 2004. Ensaiei a desfiliação em 1998, quando a quadrilha de José Dirceu pisoteou o PT fluminense, impondo-lhe Garotinho goela abaixo. Eu havia entrado no partido em 1981.

E apesar de que não há blog "de esquerda" que tenha descido tanto o sarrafo no PT como este, eu acompanho com interesse tudo o que acontece no PT, e torço para o partido consiga limpar a lambança feita pelo grupo dominante. Discordo totalmente - já disse isso várias vezes - de todas as platitudes do tipo "o PT é igualzinho aos outros partidos", "política é tudo igual", "o PT aplicou a única política econômica possível", e outros clichês que deixam a nossa triste realidade social com aquela carinha de coisa inevitável que não pode ser transformada nunca.

Dito isso, vamos aos comentários sobre a eleição direta para presidente do PT:

São uns 820 mil filiados em condições de votar. O medo dos petistas era que, devido à crise, a eleição não atingisse o quorum, 15% (ou seja, uns 120 mil eleitores). A eleição realizada domingo bateu de longe o quorum: escrevo depois do boletim parcial das 20 horas de segunda-feira e as projeções são de que o número de votantes ultrapasse os 270 mil.

Qual foi mesmo a última vez que PSDB ou PFL levaram 270 mil filiados às urnas para escolher Eduardo Azeredo ou Jorge Bornhausen como seus presidentes? Comparando-se o funcionamento interno do PT com o dos outros partidos, e sem esquecer por um momento todas as falcatruas, não há como negar que há uma grande diferença no grau de envolvimento dos filiados com a vida do partido.

Candidatos: São 7 candidatos, 5 com votação expressiva de mais de 10%. No Campo Majoritário - de onde saem todos os petistas acusados de corrupção - o problema passou a se chamar José Dirceu: desmoralizado nacionalmente, ele continua tendo poder suficiente para que um ex-ministro da educação (Tarso Genro), chamado para consertar a barafunda, não consiga retirá-lo da chapa. Como Tarso não se prestou a participar de uma chapa com os criadores do mensalão, Ricardo Berzoini, outro ex-ministro, teve que ser chamado às pressas para ser o candidato do oficialismo. É o único candidato que defende incondicionalmente as políticas do governo Lula.

Na esquerda, 4 posições: Maria do Rosário, crítica do Campo Majoritário, praticamente confunde-se com ele, ao dedicar mais tempo a atacar a esquerda petista que os coronéis que desmoralizaram o partido. De todos os candidatos, pareceu-me a que tem o discurso mais fraco: "resgatar a utopia socialista", "voltar a ser o fermento na massa dos oprimidos" e outros clichês.

Valter Pomar é o candidato da "Articulação de Esquerda" e, neste momento, o que parece ter mais chances de ir ao segundo turno contra Berzoini. Foi muito beneficiado pelo apoio que recebeu, em São Paulo, do grupo de Marta Suplicy. Tem uma boa análise do que aconteceu com o PT, mas durante todo o processo disse muito pouco sobre a política econômica que, afinal de contas, é a principal responsável pelo fato de que o governo Lula é praticamente indistinguível do governo FHC.

Completam o quadro da esquerda os dois candidatos sobre os quais repousam minhas preferências. Eu ficaria feliz se um deles conseguisse chegar ao segundo turno e derrotar o ex-Campo Majoritário:

Plínio de Arruda Sampaio, fundador do PT, faz críticas ferozes ao sufocamento da democracia interna, à política de alianças com partidos de direita, à cantilena do "superávit primário" e à onda marqueteira pós-Duda Mendonça que tomou conta do PT. Na minha opinião, fragilizou sua candidatura ao acenar, várias vezes, que dependendo do resultado da eleição ele poderia abandonar o partido.

Raul Pont, também fundador do PT, autor de um dos melhores livros sobre a história do partido, ex-prefeito de Porto Alegre, é o candidato da Democracia Socialista, a tendência de esquerda mais numerosa e bem estruturada do PT. Compartilha com Plínio as críticas à política econômica e à política de alianças, mas se coloca inequivocamente na posição de quem quer resolvê-las dentro do PT. É o candidato que vem propondo uma "refundação" do PT nos moldes de um novo estatuto para o partido. A candidatura de Pont também não está isenta de contradições: faz duras críticas ao governo, mas é parte dele, já que a DS administra o Ministério do Desenvolvimento Agrário (o Ministro Miguel Rossetto é membro da tendência).

Pois bem, os números do segundo boletim, com 200 mil votos totalizados, mostram Berzoini com 42%, Pomar com 17%, Plínio com 13,4%, Pont com 12,7% e Maria do Rosário com 12%. Ou seja: o Campo Majoritário já não é majoritário e Berzoini enfrentará um segundo turno. Não se sabe se contra Pomar, Plínio, Pont ou Maria do Rosário.

Na DS, há a expectativa de que Pont ainda possa chegar lá: só foram totalizados 56% dos votos gaúchos e 25% dos votos mineiros, dois estados onde o apoio a Pont é forte.

De qualquer forma, já está claro que a composição do novo Diretório Nacional (também eleito proporcionalmente neste processo) impedirá que continue se reproduzindo o que acontecia: que o grupo de Zé Dirceu decidisse a portas fechadas o que fazer e depois homologasse sua decisão no Diretório com a maioria de pau mandado.

Se o PT continuar fazendo lambança, será por outros motivos.

Para terminar, diga-se que achei de infelicidade e covardia supremas a decisão do presidente Lula de não votar nessa eleição. Se ele estivesse em visita oficial aos EUA ou a Burundi, ou resolvendo algo urgente em Brasília, tudo bem. Mas o cabra estava em São Bernardo do Campo, onde tem o seu domicílio eleitoral. Não votou por quê?

PS: Há uma entrevista deliciosa com a Falzoca no Cronópios (link roubado da Cláudia Letti).



  Escrito por Idelber às 01:34 | link para este post | Comentários (18)



sexta-feira, 12 de agosto 2005

Ascensão e Morte do PT de c.d.

(este post foi originalmente publicado em 30 de novembro de 2004. Pouca gente o conhece, porque naquela época o Biscoito tinha meia dúzia de leitores. Republico-o sem mudar uma palavra, porque resultou profético. Foi o primeiro post meu linkado por alguém. Obrigado, Pedro Dória)

POST ORIGINAL
(digamos que c.d. é um personagem fictício que hoje tem 36 anos)

1981: aos 13, c.d. junta-se à formação do PT na sua BH natal, durante potente greve dos professores; 1982: c.d. faz campanha de Sandra Starling e combate o voto útil tancredista; época do lema terra trabalho liberdade; 1983: intensa mobilização do movimento secundarista de BH: petistas punks pacifistas anarquistas contra o PC do B; fim do ano traz os primeiros comícios do PT pelas diretas; 1984: gigantesca campanha das diretas; c.d. se aproxima da DS, trotskista mas fortemente comprometida com a construção do PT; 1985, terminando o 2o grau, c.d. se filia ao PT e se converte em militante da DS; Virgílio Guimarães, então da DS, tem grande votação para prefeito em BH; vitória em Fortaleza; 1986: c.d. lidera a vitória petista sobre o PC do B no DA da Letras-UFMG; c.d. tem vida leninista, 25 reuniões por semana; cresce o PT; Virgílio eleito à constituinte; 1987: DS consegue passar no congresso do PT a auto-definição como partido socialista; vitória de c.d. no DCE da UFMG; numa das maiores federais do país, caía a hegemonia do PC do B sobre o movimento estudantil; c.d. profissionaliza-se como militante; 1988: enlouquecido de tanta reunião e militância, c.d. continua no PT mas desliga-se formalmente da DS para terminar curso de letras; reunião tensa e difícil na célula; 1989: volta completa à militância durante campanha de Lula; brutal a derrota; 1990: já no exterior, c.d mantém contato com petistas e continua considerando-se parte do partido; pelos próximos 14 anos, passará 4 meses por ano no Brasil; 1991: reuniões na CUT sobre o impeachment de Collor; 1992: c.d. participa de corpo (no Brasil) e pela escrita (nos EUA) da campanha pelo impeachment; vitória contra Collor; 1993-94: c.d. discorda violentamente da punição a Luísa Erundina; participa por umas semanas na campanha fracassada de Lula; 1995-96: c.d. vê com muita preocupação a acumulação de poder de Dirceu no partido; Porto Alegre elege um militante da DS, Raul Pont, como seu prefeito; 1997-98: c.d. participa menos intensamente na campanha de Lula e envia carta protestando o "massacre promovido pela Direção Nacional e sua cavalaria cossaca contra o PT carioca"; quando a burocracia do PT paulista decide enfiar Garotinho goela abaixo do PT carioca, c.d. considera a possibilidade de desfiliar-se mas não o faz; derrota acachapante de Lula para FHC; 1999-2001: Crescente burocratização do partido, mas c.d., morando no exterior, identifica-se com o PT e dá palestras sobre a história singular do partido; 2002: c.d. participa da última semana da campanha no Brasil e celebra o domingo 27/10 numa comuna operária do Chile, em meio a retratos de Salvador Allende; grande emoção; péssimos sinais, no entanto, no que diz respeito à vontade nítida do novo governo de agradar aos banqueiros; consolida-se nacionalmente a sinistra figura de Delúbio; 2003: movido pela esperança em Lula e por uma década de militância, c.d. publica na revista progressista argentina Punto de Vista uma crônica e defesa do PT; quando sai o artigo de c.d. Dirceu já fez sua grosseria mor com Gabeira; c.d. vê com horror a punição aos radicais Babá, Heloísa e Luciana; conversa com ex companheiros, agora co-autores de A Economia Política da Mudança, volume que desmonta as premissas da política econômica paloccista; c.d. decide desfiliar-se, mas mesmo assim não o faz; 2004: revelação cristalina do governo do PT como governo neoliberal, burocratizado, perdido, incompetente e refém do calculismo de sua própria politicagem; c.d. queima filiação, bandeiras e camisas do PT e manda o projeto de um partido de massas, pluralista, democrático e socialista para o raio que o parta.

OS POST SCRIPTA SÃO DE HOJE, 12/08/05
PS: Curiosamente, César Maia publicou em seu blog posts falando de impeachment para Lula e depois de almoçar com Jorge Bornhausen deletou os posts. Alguém avise a ele que isso não se faz?

PS 2: É hoje! Belo Horizonte está recebendo vários blogueiros para o evento desta sexta-feira no Salão do Livro. Biajoni chegou e já fez um estrago no estoque de cerveja da cidade. Falzoca já chegou. Viva e Bruno chegam nesta manhã. Inagaki está a caminho. Dr. Cláudio, Ana Letícia, Mônica, Fefê e Leandro Oliveira já confirmaram presença. Invasão blogueira. Nem só de papel vive o Salão do Livro.



  Escrito por Idelber às 04:51 | link para este post | Comentários (25)



quarta-feira, 10 de agosto 2005

Reflexões sobre a enquete

E agora, como fazer um balanço dessa enquete? Confesso que lá pelo 50o comentário eu tinha um texto mais ou menos pronto na cabeça. Agora já estou perdidinho.

Em primeiro lugar os resultados. Até as 3 da manhã de quarta, os números eram: 117 respostas. Lula, 24 votos; Nulo, 17; Alckmin, 13; Heloísa Helena, 12; José Serra, 4; César Maia, 4; Nelson Jobim, 3; Enéas, 1; Branco, 1. Além desses, foram votados vários políticos que não apareciam na minha lista: Eduardo Suplicy, 6; Palocci, Cristovam Buarque, Mangabeira Unger, Zé Maria do PSTU, Aécio Neves e Ciro Gomes, 1 voto cada.

Maravilha das maravilhas, nem um único leitor meu vota em Garotinho. Vocês são lindos.

A contagem não é exata porque nem todo mundo votou sem ambigüidade. Quando alguém se declarou em dúvida entre dois candidatos, computei votos para ambos.

Uma palavra sobre os que ficaram fora da lista: Eduardo Suplicy não entrou porque não tem a menor chance de receber a indicação do PT para a presidência. É mais fácil eu ser eleito presidente do Atlético Mineiro que o Suplicy conseguir passar por cima da máquina dirceu-delúbica e arrebanhar a indicação petista à presidência. Ciro Gomes tem sido um ferrenho defensor do governo e já fechou com Lula. O seu projeto é para 2010. Acredito que o projeto de Aécio Neves é ser candidato em 2010 também. Alguns leitores reclamaram a presença de Germano Rigotto, governador do Rio Grande do Sul. Sobre o PMDB eu sei menos, mas não acredito que, caso as ambições de Garotinho sejam derrotadas dentro do PMDB, Rigotto consiga acumular suficiente força para receber a indicação. O que a imprensa tem noticiado é que os governadores peemedebistas que se opõem a Garotinho podem tentar uma saída "magistrada", com um nome como Nelson Jobim. Mas sobre o PMDB é bem possível que eu esteja errado. Enfim.

Considerações sobre o resultado: Alguns leitores se surpreenderam de que tanta gente queira votar no PSDB. Alguns outros se indignaram de que tanta gente ainda queira votar em Lula. Para mim, o espanto é outro: o verdadeiramente espantoso é que tão pouca gente ainda queira votar em Lula. Explico-me.

Este é um blog de esquerda. Não faz a menor cerimônia sobre suas posições políticas e não tem nenhuma pretensão de ser "imparcial". Como vocês já estão fartos de saber, quem o escreve foi filiado ao PT entre 1981 e 2004. É claro que leitores de todas as posições políticas são bem-vindos, mas tratando-se de um blog de esquerda, é razoável supor que o seu leitorado está à esquerda da média nacional (eu disse supor; claro, a gente nunca sabe, ainda mais em blogs...).

Pois bem, num blog de esquerda Lula não teve nem mesmo 25% dos votos. Boa parte dos que declararam seu voto em Lula prefaciaram-no com comentários como "por falta de melhor opção", "apesar de tudo", "entre esses da lista" e atenuantes parecidos. É a prova definitiva da grande decepção que tem sido o governo. Obviamente, a soma dos votos dos candidatos de oposição batem Lula de longe.

Lá na casa velha do Biscoito, tivemos duas discussões interessantes sobre o voto nulo, aqui e aqui. A discussão gerou vários outros posts pela blogosfera. Rafael Galvão, por exemplo, retrucou aqui. Eu ainda não sei se exercitaria esse direito (especialmente porque eu tenho que viajar para votar), mas insisto que é uma opção política tão válida como qualquer outra. Pode-se ser contra o exercício desse direito, mas eu só escuto com atenção os que o atacam com argumentos políticos, não morais. Nada mais irritante que alguém que descarta o exercício do direito ao voto nulo com retórica moralizante, como se aquele que anula o voto fosse necessariamente um "alienado".

Ou seja: no meu modo de entender não há absolutamente nenhuma recusa da democracia ou processo eleitoral em si quando votamos nulo. Estamos simplesmente recusando a lista (como bem definiu o grande Flávio Prada, às vezes nossas escolhas políticas se parecem a escolher o que comer em um restaurante debaixo de um bombardeio). Eu, que nunca votei nulo na vida, tenho simpatia pelos leitores que manifestaram tendência a ele aqui.

A ressalva é importante porque eu jamais admitiria que se confundisse o meu voto nulo em 2006 (caso eu opte por ele) com qualquer tipo de saudade da ditadura. Outro dia vi por aí na internet a frase bons tempos em que os três poderes eram o exército, a marinha e a aeronáutica. Não sei de quem é, e não me lembro de onde a vi, mas do infeliz que diz coisas assim eu quero distância. Sei, e minha família sabe, o que custou chegar aqui.

A outra observação curiosa foi a Viva quem tirou da minha boca: boa parte dos paulistas afirmava só vota em Alckmin quem não vê o descalabro em que anda São Paulo, e boa parte dos cariocas falava só vota em César Maia quem não presencia o descalabro do Rio. Interessante, não?

A outra observação que faço é que os partidos políticos continuam frágeis e pouco representativos no Brasil. Vários leitores diziam que votariam em Alckmin mas não em Serra. Em Suplicy, mas não em Lula. Grande parte da simpatia que alguns políticos despertam parece ser totalmente supra-partidária.

Bom, essas são minhas conclusões provisórias. E vocês, o que acharam? Muito obrigado.



  Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post | Comentários (34)



segunda-feira, 08 de agosto 2005

Enquete - Eleições para Presidente

Vocês topariam fazer uma brincadeirinha? Só para que a gente tenha uma idéia.

Se as eleições presidenciais acontecessem hoje
, em quem você votaria?

1. Lula
2. José Serra
3. Geraldo Alckmin
4. Garotinho
5. Nelson Jobim
6. César Maia
7. Heloísa Helena
8. Enéas
9. Em Branco
10. Nulo

Eu confesso que não tenho a menor idéia do que vai acontecer, mas estou curioso. Se você lê este blog mas nunca comenta, agora é a hora. É uma oportunidade para que nos conheçamos melhor. Se quiser votar mas não publicamente, use um nick ou vote anônimo. Se quiser justificar e defender o seu voto, fique à vontade. Obrigado por participar.

Atualização às 2:00 da manhã de terça
: Acabo de colocar na caixa o meu próprio voto também. Até o 68o comentário, se eu contei direito, a coisa ia assim: Lula, 13; Nulo, 11; Alckmin, 11; Heloísa Helena, 9; Serra, 3; César Maia, 3; Jobim, 1; Branco, 1. Além de votos a pessoas que não apareciam na minha lista: Suplicy, 3; Cristovam Buarque, 1; Palocci, 1 (para os leitores que se declararam em dúvida entre dois candidatos, eu computei votos para ambos). Na madrugada desta quarta-feira eu publico um outro post, com uma análise da nossa enquete. Enquanto isso, quem não votou, pode votar. Quem quiser ir começando a análise do que já viu, fique à vontade.



  Escrito por Idelber às 03:25 | link para este post | Comentários (129)



quarta-feira, 03 de agosto 2005

Vamos ver se eu entendi

1. Waldomiro Diniz foi amigo de José Dirceu durante doze anos, dividiu uma casa com ele, foi nomeado por Dirceu para o cargo mais importante de articulação entre a Casa Civil e o Congresso, era conhecido neste último como 'o braço direito do Zé', mas do comprovado ato de corrupção de Waldomiro, Dirceu não sabia nada.

2. Silvinho Pereira e Delúbio Soares devem suas carreiras políticas internas ao PT a José Dirceu, são conhecidos dentro do Partido como integrantes da "turma do Zé", este último compartilhou com ele um posto na Executiva Nacional do PT anterior a 2002, são ambos reconhecidamente burocratas sem expressão eleitoral, "homens do Zé Dirceu", como ouvimos tantas vezes dentro do PT, mas dos empréstimos irregulares contraídos por Delúbio ou das propinas recebidas por Silvinho (das quais o Land Rover é exemplo confesso), ora, disso Dirceu não sabia nada.

3. Mauro Marcelo, demitido da Abin após investir contra a CPI, continua sendo, segundo a Folha de São Paulo, receptor de emails regulares de José Dirceu nos quais ele oferece detalhes sobre sua defesa. Mas o ex-diretor da Abin atuou na investigação dos correios sem que o todo-poderoso Ministro-Chefe da Casa Civil José Dirceu soubesse de nada.

4. Dirceu foi o homem-forte do governo Lula na área política durante 30 meses, foi o responsável direto pela articulação das alianças com forças políticas de direita no congresso, foi o chefe de toda a costura política do governo, coordenou a campanha de Lula à presidência em 2002, mas de tratos monetários entre o PT e outros partidos da base aliada ele não sabe nada.

5. Há registros de pelo menos 12 visitas de Marcos Valério ao Planalto, o empresário mineiro atuava em parceria com Delúbio Soares (também conhecido como "homem do Zé") num esquema de arrecadação e repasse ilegal de recursos a parlamentares, mas disso Dirceu não sabia nada.

6. A ex-esposa de José Dirceu foi contratada pelo BMG em 2003 por intermediação de Marcos Valério, contraiu um mês depois um empréstimo com o Banco Rural (ambos os bancos envolvidos no escândalo do mensalão), mas disso Dirceu nao sabia nada.

7. Os deputados petistas que fizeram saques (pessoalmente ou através de assessores) nas contas de Marcos Valério são João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP), Paulo Rocha (PA), Josias Gomes (BA) e João Magno (MG), todos eles pertencentes ao "grupo do Zé", alinhadíssimos com José Dirceu e conhecidos pela obediência que devotam ao ex-todo-poderoso, mas dessas irregularidades Dirceu não sabia nada.

8. A ex-direção do PT (especialmente o Trio Ternura, Genoíno, Silvinho e Delúbio) não dava um passo político, não fazia uma costura eleitoral, não realizava uma aliança sequer sem consultar José Dirceu, mas das relações desse grupo com o valerioduto, com a distribuição de dinheiro, com o tráfico de influência no governo e com o mensalão Dirceu não sabia nada.

**************

Decepção do dia: Chico Alencar (PT-RJ), da esquerda petista, homem que eu admiro, e que foi massacrado por Dirceu durante anos no interior do PT, usou 25 minutos do nosso tempo para bater papinho com Dirceu sobre conjuntura política, sem fazer sequer uma pergunta que o colocasse contra a parede.

**************
Melhores momentos do depoimento de ontem:

Troféu óleo-de-peroba: Jamais fiz tráfico de influência ou lobby no governo (JD).

Troféu faça-me-rir: Eu nunca fui arrogante quando eu era ministro (JD).

Troféu nóis-é-tudo-brimo: Vossa Excelência desperta em mim os instintos mais primitivos (Jefferson a JD).

Troféu help-us-Pasquale: Não aceito que me atribuiam esses fatos (JD).

Troféu melhor-cobertura-do-evento: Não tem prá Noblat nem prá Moreno. As que arrasaram de verdade foram a Fal Azevedo e a Doidivana. Show de cobertura.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 02 de agosto 2005

Contra a renúncia e pelo gozo demorado

Eu já havia reservado pipoquinha e refrigerante para desfrutar hoje, transmitido em cadeia nacional, o esmigalhamento de José Dirceu, aprendiz de ditador que é o principal responsável pelo mergulho na lama realizado pelo Partido dos Trabalhadores.

Mas eis que segundo o blog do Moreno – sempre bem-informado – na madrugada de hoje Dirceu já considera seguir Valdemar Costa Neto e renunciar a seu mandato de deputado, para impedir uma cassação que o tornaria inelegível até 2012. Para quem prometia "lutar até o fim", parece que o fim chegou bem cedo, logo depois da revelação de hoje sobre Dirceu, de que Marcos Valério intermediou emprego até para sua ex-mulher.

Pois eu acho isso um absurdo. Ver Dirceu sendo triturado é direito inalienável de todos. Espero que ele não nos roube esse direito antes das 15 horas de hoje. Ouvir o discurso de renúncia de Dirceu não será tão prazeroso como vê-lo esmigalhado pela Comissão de Ética. Mas em todo caso já terá valido a pena.

Se ele renunciar, que todos se lembrem de qual é a razão: manter a possibilidade de reeleger-se em 2006. E se os paulistas reenviarem os Dirceus e os Valdemares ao Congresso em 2006, poderemos dizer, com mais propriedade que nunca, que cada povo tem o governo que merece.

Enquanto isso, as elites, que segundo Lula estão insatisfeitas...



  Escrito por Idelber às 04:52 | link para este post | Comentários (27)



segunda-feira, 25 de julho 2005

No Que Eles Querem que a Gente Acredite

Alguns fatos:

1. Está provada a existência do mensalão. À ínfima minoria que ainda acredita que se trata de um complô para desestabilizar o socialista e revolucionário governo Lula - cuja política econômica é de responsabilidade do líder proletário Henrique Meirelles, oriundo das brigadas do Bank of Boston - pede-se mais uma vez que encare os fatos. Um bom lugar para começar seriam os 200 últimos posts do Noblat e os últimos 6 ou 7 dias da Folha ou do Globo.

2. A dupla Dilúvio e Velório, digo, Delúbio e Valério, optou pela estratégia óbvia: negar, negar, mentir, mentir. Sabedores de que a prática do caixa 2 é disseminada, confessam só a irregularidade do dinheiro não contabilizado, que é um crime eleitoral com pena máxima de 3 anos de reclusão. Flagrados só nesse crime, como réus primários, poderiam até mesmo cumprir a pena em liberdade ou simplesmente prestar "serviços à comunidade".

3. A quebra do sigilo bancário de Valério revela uma gigantesca máquina de corrupção envolvendo contribuições a campanhas, depois licitações fraudadas e retribuição dos beneficiados à camarilha em forma de milhões de reais que alimentam o lamaçal conhecido como mensalão. Fala-se hoje em quase 200 parlamentares sobre os quais a história teria respingado (lembram-se do Luiz Inácio que falava dos 300 picaretas com anel de doutor?).

O que Delúbio e Silvio Pereira querem que acreditemos é que essas centenas de milhões de reais movimentados via Valério, passando às mãos de parlamentares (ou a seus assessores ou cônjuges), eram só isso, "pagamento de despesas de campanha". Que eles fossem mentir era previsível.

O absurdo é que o Presidente Lula, ao invés de utilizar a entrevista concedida a Melissa Monteiro na França (e depois vendida por ela à Globo) para dar mostras de que quer a verdade, repete a cantilena de que "o que PT fez é simplesmente o que sempre foi feito no Brasil". Em outras palavras: O Presidente compromete-se com a versão de Delúbio e Valério, versão que facilmente desmoronará face à documentação já vista. Diz isso ao mesmo tempo em que se confessa - para eximir-se de culpa - "afastado" da vida partidária. E continua vendendo o conto do faz-de-conta, um delírio completamente inverossímil.

O PT ganharia muitos pontos com a sociedade e faria um grande serviço a si mesmo se tomasse a iniciativa de punir e desfiliar os membros - e o chefe - da gangue. Sim, porque trata-se de uma gangue. Com muitas ramificações, mas gangue. Antecipando-se, punindo quem deve ser punido e pedindo desculpas à sociedade, o partido poderia até, talvez, resgatar algo do seu compromisso histórico com a ética.

Acredito que isso vá acontecer? Não. É mais fácil o Galo ganhar o Campeonato Brasileiro que o PT fazer a autocrítica que deve fazer e tomar as providências necessárias. O mais provável é que o PT não faça nada e continue tapando o sol com a peneira. Francisco de Oliveira parece estar correto quando diz que o partido passou a representar outra classe: a dos ex-sindicalistas administradores de fundos de pensão. Mesmo sendo o mensalão a operação de uma gangue bem circunscrita, o pano de fundo que o possibilita é a ascensão de toda essa nova classe. Defendem seus privilégios com a raiva e o ódio que só possuem os novos-ricos. Por isso é bem provável que a vaca já tenha ido para o brejo e a "refundação" do PT fique no sonho.

Mas como eu sou atleticano, eu não desisto nunca.

O PT deve explicações à sociedade e a seus 800 mil filiados inclusive porque, por exemplo, como muita gente sabe, nem Chico Alencar, nem Eduardo Suplicy, nem Ivan Valente, nem Olívio Dutra, nem Miguel Rossetto, nem Marina Silva, nem dezenas de outras lideranças petistas que eu poderia citar, de todo o Brasil, estão envolvidas em esquemas de corrupção de licitações e superfaturamentos para pagamento de suborno a ninguém. E precisamente para que não paire dúvidas sobre os inocentes, o próprio PT deveria punir os culpados.

Porque além dos muitos que a gente sabe serem inocentes, está a turma da gray area, aqueles pelos quais eu não poria a mão no fogo.

E há, claro, os que nós sabemos serem bandidos.

Diz o jornalista José Casado no Globo, em excelente matéria publicada neste domingo: Dirceu se move no Congresso e no governo com a meticulosidade de quem se preocupa em construir uma defesa coordenada com a do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, o ex-secretário do partido Sílvio Pereira e seus antigos assessores Waldomiro Diniz e Marcelo Sereno. Foi uma das sugestões que ouviu recentemente, para limitar a ação de adversários em busca de eventuais provas nessa etapa do processo político. “Não conseguiram encontrar indícios nem provas”, reafirmou em nota, sexta-feira.

O colunista Ilimar Franco, também no Globo, menciona o movimento interno para que Dirceu siga Silvinho e saia do partido. Isso seria, para mim, grosseiramente insuficiente. Estamos falando do chefe, ora bolas. Não basta ir embora. Tem que confessar e responder pelo que fez.

Também via Ilimar sabemos que ao partido ele [Dirceu] tem dito que desconhecia totalmente a operação financeira entre Delúbio Soares e Marcos Valério.

É possível tamanho cinismo?

É nisso que ele quer que a gente acredite.

Se o PT quisesse realmente investigar, de verdade pedir desculpas à sociedade e mudar de rumo - o que, insisto, seria não só eticamente correto mas políticamente inteligente - o primeiro passo seria chamar o chefe de Delúbio e de Silvinho, ou seja, José Dirceu, e exigir: conte tudo. Quem for culpado cai com você. Já não estamos discutindo se você vai perder ou não seu mandato. Estamos discutindo se você vai para a cadeia ou não.

Como isso não acontecerá, o PT passará mais uma vez pela vergonha de ir à reboque dos acontecimentos: no dia 02 de agosto, Dirceu será destroçado por Roberto Jefferson, pelo motivo bem simples de que este, neste caso, está dizendo a verdade. E aquele, a cada vez que fala, soa mais e mais como alguém que tem coisas a esconder.

E vai ser doce ver o aprendiz de ditador desmoronar, assim como foi doce ver Heloísa Helena tendo o seu dia de vingança interrogando Delúbio, que havia sido testemunha de acusação (imaginem!) no processo de expulsão imposto a ela pela camarilha de Dirceu em 2003.

Talvez, a longo prazo, algo muito bom saia de tudo isso.



  Escrito por Idelber às 00:40 | link para este post | Comentários (36)



quarta-feira, 13 de julho 2005

Balanço de um mês de incêndio no PT

PT.jpg

Recapitulando: Bob Jefferson denuncia corrupção com detalhes e o PT perde duas semanas negando o óbvio, esperneando contra um não-existente "complô da imprensa". As denúncias se acumulam, ganham consistência e sistematicamente apontam para a "turma do Zé": Delúbio, Silvinho Pereira, José Dirceu. Cai Delúbio. Logo depois do fatídico saí daí, Zé pronunciado por Bob Jefferson, cai o outrora todo-poderoso Ministro-Chefe da Casa Civil José Dirceu. No fim de semana, é preso com 100.000 dólares na cueca o assessor do irmão de José Genoíno, parlamentar no Ceará. Já encurralado, cai Genoíno também. O PT descobre que tem que recompor sua direção.

Tarso Genro deixa o Ministério da Educação e assume a presidência do PT. A Nova Executiva toma algumas medidas positivas, como a adoção de mecanismos de transparência nas relações com doadores.

A posição deste blog é a seguinte: eu discordo de qualquer análise simplista que se limite a dizer é tudo farinha do mesmo saco. Não é. O PT não é o PFL (este é infinitamente mais esperto, diga-se de passagem: viram a rapidez com que expulsaram o bispo que carregava sete malas de grana?). Covas não era FHC, Gabeira não é Dirceu, Suplicy não é Genoíno. Eu acredito em separar o joio do trigo.

Também acredito - apesar de ter passado os últimos quatro ou cinco anos criticando sem cessar o PT, por exemplo aqui, ali e acolá - que o Partido dos Trabalhadores é uma experiência chave na história política brasileira: enlameada nos últimos tempos, é verdade, especialmente pelo vale-tudo imposto por um certo grupo de caciques paulistas. Mas trata-se para mim de uma experiência sobre a qual a última palavra ainda não foi dita.

A questão é: o PT está irrevocavelmente lançado à vala comum dos partidos fisiológicos brasileiros? Para mim, é óbvio que os caciques do grupo dominante da Articulação em São Paulo estão metidos até o pescoço em práticas bastante suspeitas. O problema é saber se o organismo já está totalmente comprometido ou não. Gente que eu admiro muito - por exemplo o sociólogo e fundador do PT Francisco de Oliveira - já perdeu a esperança (link via Elenara).

Gostei da indicação de Tarso Genro para a presidência? No quadro atual, qualquer nome fora do esquemão Dirceu-Gushiken- Mercadante- Greenhalgh já é um avanço. Mas não foi nada promissora a forma como foi decidido o cargo. Depois de uma reunião entre caciques - os de sempre, Marta, Dirceu, João Paulo, etc. - o grupo majoritário impôs à esquerda do partido o nome de Tarso como "inegociável". Tem sido sempre assim: a cúpula toma as decisões e as apresenta ao partido como "inegociáveis". Foram todas elas decisões desastrosas para o PT e para o projeto progressista que ele um dia encarnou: aliança com Garotinho no Rio, coligação com o PL, indicação de Meirelles para o Banco Central, tudo decidido por um comitê de caciques e apresentado ao partido como decisões "inegociáveis".

É importante dizer que todas as denúncias de corrupção envolvem membros de uma mesma corrente do PT, o grupo majoritário, também conhecido como "Articulação". Em outras palavras, não há uma única denúncia de corrupção envolvendo um parlamentar ou ministro alinhado com a esquerda petista. Com isso não quero fazer inferências sobre a pureza de ninguém, simplesmente relatar um fato: a lama em que se meteu o PT foi obra de um grupo muito particular dentro do partido. Se ainda é possível arrancar o PT das garras dessa gente, são outros 500.

Para isso, seria importante que a esquerda começasse a se articular para a eleição de setembro, que renovará toda a direção nacional do PT; que se rejeite qualquer manobra para adiar a eleição; que as centenas de milhares de suspeitíssimas filiações feitas nos últimos anos sejam fiscalizadas; que a esquerda publicamente cobre da direção nacional a investigação de todas as denúncias envolvendo petistas (ao invés de se esconderem nesse papo-furado de que tudo é complô da imprensa); que a esquerda publicamente coloque a direção atual contra a parede e questione a ética e a tática adotadas nos últimos anos.

E sobretudo que a esquerda petista deixe claro ao grupo dominante - e o faça publicamente, sem medo - que o Sr. José Dirceu tem explicações detalhadas a dar à sociedade brasileira sobre o que ele andou fazendo durante o período em que ocupou a Casa Civil. Que a esquerda deixe claro ao grupo dominante que ele perdeu a moral e que deveria começar a negociar com menos arrogância.

Ao contrário de camaradas que achavam que dar vazão às denúncias de Bob Jefferson era "jogar o jogo da direita", este blog sempre acreditou que a verdade é libertadora. Se a cúpula está atolada em corrupção, que a base o saiba o quanto antes. Se o PT corre o risco de se transformar em outro partido fisiológico, que aqueles que o construíram ao longo dos anos tenham acesso à informação necessária para, pelo menos, remar contra a maré.

Não tenho nenhuma ilusão quanto à transparência das eleições de setembro no PT. Mas Plínio de Arruda Sampaio, Raul Pont, Valter Pomar, Maria do Rosário e outros líderes de tendências minoritárias de esquerda devem conversar e planejar estratégias conjuntas. Ficar no papo-furado de "defender o PT" não é suficiente (por isso a proposta de resolução do grupo de Pomar, a Articulação de Esquerda, ainda é fraca).

Seja qual for o resultado dessa eleição, a esquerda tem uma oportunidade histórica nas mãos: ou mostra que não é feita do mesmo material dos Delúbios e que tem um projeto alternativo para o partido, ou afunda junto com o barco que nem teve oportunidade de pilotar.

Atualização
: também assino embaixo da reflexão sobre o PT realizada, de outro ângulo, por Maria Alzira Brum Lemos e intitulada O Inimigo é o Vazio.



  Escrito por Idelber às 01:25 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 08 de julho 2005

O Terrorismo, a Esquerda e a Tristeza: We're all British today

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Mais um atentado, mais um banho de sangue e, de novo, a compulsão e a cobrança de dizer algo sobre o indizível.

Por que escrever de novo sobre todo o sabido, escrever que o círculo vicioso do terrorismo-resposta-imperialista- mais-terrorismo foi levado a um ponto irreversível depois de uma invasão do Iraque calcada em mentiras, invasão particularmente humilhante para os povos árabes, dado que destruidora de Bagdá, berço da civilização nossa, a ocidental, sim senhor, nascida entre o Tigre e o Eufrates, assim como da civilização por vezes de forma tão simplista chamada de muçulmana? E qual é a diferença entre as duas? E são duas mesmo?

E por que voltar ao assunto de que foi a fermentação estadunidense de uma guerrilha religiosa anti-comunista, regada a muitos petrodólares nos anos 80, a que nos deu esse monstro, o terrorismo islâmico, que tantos hoje nos querem apresentar como anti-ocidental, quando ele é na verdade a cria mais legítima da “democracia” ocidental?

E por que escrever de novo sobre as contínuas intervenções e a manipulação criminosa feitas por Bush dos ataques aos EUA realizados pelos seus próprios (ex) aliados – família Bush e família Bin Laden que fizeram negócios durante mais de uma década –, digo, por que voltar a tudo isso agora se tudo é sangue e desolação?

Se nesta madrugada eu continuo sem saber notícias de John Kraniauskas, David Treece, Jens Andermann e tantos outros amigos londrinos? Como não pensar na gratidão pelo carinho recebido em Birkbeck College?

Se nesta madrugada eu só consigo me lembrar da hospitalidade londrina, do tratamento tão especial recebido lá, do especial que é aquela cidade?

Na tarde deste 08 de julho, tentando, com a ajuda dela, falar com Londres, eu compartilhava com os camaradas do blog-left uma mensagem:

Não sei qual é a sensação de vocês, mas na esteia desses ataques terroristas, fica clara a sinuca em que anda a esquerda. Simplesmente não tem um discurso para tratar do assunto. Estive passeando aí pelos blogs e reacende-se o mesmo bate-boca entre os que adotam o discurso à la Bush (mandar mais soldados ao Iraque! acabar com todos eles!) e os que implicitamente justificam os atentados com o argumento (verdadeiro, mas insuficiente) de que este lamaçal foi criado pelo belicismo anglo-americano.

Nesse bate-boca, não tem havido espaço para uma análise de esquerda, que não deixasse de imputar responsabilidade a Bush, Blair e cia. mas que AO MESMO TEMPO mostrasse que o terrorismo tem sido um desastre para os próprios povos em nome dos quais ele age, e é um legítimo produto da falta de opções políticas naquelas sociedades. Enfim, é um triste círculo vicioso. A cada ataque, piora mais.

O pior é que as pessoas começam a cobrar: "o que você vai dizer sobre o assunto?", quando na verdade o assunto já está colocado de um jeito em que só há duas posições, ambas insatisfatórias para mim.


A esta mensagem minha desolada, tanto Leila Couceiro como André Kenji retrucavam, com razão, que há uma ampla gama de blogs e veículos de imprensa progressistas que têm essa compreensão de “esquerda” do terrorismo, a do terrorismo como produto da situação social criada nas sociedades árabes, em parte pela intervenção ocidental. Estão sem dúvida corretos, e o grande livro de Tariq Ali é a confirmação de que essa é a análise que vai mais fundo nos fatos.

Certíssimos estão ambos, portanto, mas a sinuca a que eu me refiro não é analítica e sim política: ou seja, embora exista um espaço para a análise óbvia, a ponderada – a de que o militarismo anglo-americano constrói, com o terrorismo islâmico, um círculo vicioso onde eles mutuamente se justificam – não há espaço político para que essa análise se coloque dentro da sociedade sem que seja apedrejada por supostamente “compactuar com o terrorismo”. A derrota de John Kerry foi a prova mais cabal: fizemos tudo certinho, e mesmo assim perdemos.

De forma que todos, na esteia de ataques como este, caem na armadilha de esbravejar contra os “terroristas”, como se isso adiantasse algo.

Terroristas são como traficantes de drogas: você pode ser contra eles, defender a sua execução sumária, e tudo o mais. Isso não quer dizer que possam desaparecer por um fiat lux repressivo. Só uma alteração da política que os criou pode eliminá-los.

O problema é que a força encarregada de eliminar os terroristas – no mundo de hoje, o bushismo – não está interessada em revelar suas causas profundas, posto que manipula o medo do terrorismo para benefício próprio. O dia em que o terrorismo acabar, acaba o bushismo. São filhos diletos um do outro.

No meio da noite, chega o email: Dear Idelber: yes, everything is fine here with us, and as far as I know with all my colleagues too. I didn't go in to work today, and Carol went in on the train, but heard about an explosion on the underground and just came back home. Thanks a bunch for writing; and see soon (in Puerto Rico?). Hope all is well. Abrazos, John K

Alegria incontida, alegria: John está a salvo, e eu me lembro de que John sai para dar aulas cedo via Russell Square, e quantas vezes tomamos juntos aquele metrô? e a elegância dos britânicos, que têm a delicadeza, sempre que peço informações, de me dizer subway, em vez de tube, pensando que sou americano?

We’re all British today, porque nessas horas identificar-se com a vítima é o mais humano e o mais digno que se pode fazer. A tragédia é que sabemos que, politicamente, tudo isso só terminará quando aqueles que detém hoje o lugar dos ocupadores, dos interventores, entenderem que os povos árabes só produzirão mais e mais homens-bomba enquanto continuarem as ocupações e as intervenções.

PS: Bem-vindos ao blogroll cinco blogs que já deveriam ter sido linkados há muito tempo, e não o haviam sido por pura distração ou ignorância minhas: o grande jornalista Sergio Leo, o pioneiro Alfarrábio, o excelente Mad Tea Party, o camarada Imaginação ao Poder e o amigo Striptease Cerebral. Desculpem o atraso.

PS 2: Olavo de Carvalho foi mandado embora do Globo e as olavetes esbravejam: Censura! Complô do PT! Não lhes ocorre, claro, que o jornal tenha simplesmente chegado à conclusão de que o sujeito não está à altura de escrever para um veículo como o Globo.



  Escrito por Idelber às 06:31 | link para este post | Comentários (29)



domingo, 03 de julho 2005

Ultimato ao Galo no Blog

galoucura1.jpg

Estamos saindo, neste domingo, eu e ela, para ver Galo x Flamengo no Mineirão. É a primeira vez que ela vai ao Gigante da Pampulha.

Fica prometido, ante todos os quinze leitores deste blog, que se o Galo cometer, com ela, a suprema indelicadeza de perder dentro de casa para esse time do Flamengo, as palavras Clube Atlético Mineiro serão doravante tratadas como spam neste blog, e que não mais falaremos no primeiro campeão de Minas primeiro campeão do Brasil primeiro campeão da Copa Conmebol primeiro e único clube de futebol do mundo a derrotar a Seleção Brasileira, não mais falaremos dessa entidade, pelo menos até a copa de 2014 ou até o Galo armar um time decente, o que venha primeiro.

A primeira vez que eu prometi banir o Galo da minha vida foi em 1983, quando chegou às semifinais do Brasileirão contra o Santos, precisando fazer um golzinho para chegar à revanche contra o mesmo Flamengo, e o golzinho não saiu.

A segunda vez que eu prometi banir o Galo da minha vida foi em 1985, quando chegou às semifinais com o Coritiba, Bangu e Brasil de Pelotas, e espetacularmente conseguiu perder o título.

De lá para cá, foi uma seqüência de promessas não cumpridas, a cada campanha empolgante interrompida na boca da botija.

Mas dessa vez não haverá quebra de promessa: se perder do Flamengo na estréia dela, está banido do blog.

O Galo entra em campo com Danrlei, George, André Luiz, Henrique e Rubens Cardoso; Walker, Amaral, Ramon e Fábio Baiano; Euller e Marques.

Eles vestem as camisas que há exatos 25 anos eram de João Leite, Orlando, Osmar Guarnelli, Luisinho e Jorge Valença; Chicão, Cerezzo e Palhinha; Pedrinho, Reinaldo e Éder.

Suspiro.

'Bora comer tropeiro do Mineirão e depenar Urubu.

PS 1: Série coisas-maravilhosas-de-Minas-que-eu-já-tinha-esquecido. Mineiro dando informação sobre como chegar em algum lugar, e eu juro que não estou inventando: "O senhor sobe a Rua Rio Verde até ela ficar meio estranha e ali, mais ou menos um quarteirão antes de onde ficava o posto de gasolina, o senhor vire à esquerda. Não tem como errar".

PS 2: Um lindo blog que anda subindo depressa no meu ranking de favoritos: Onde anda Su?, da antenadíssima Suzana Gutiérrez. Êta gauchada boa de serviço.

PS 3: Feliz Aniversário, Gravatá!

Atualização: Ela não só é pé quente, como previu o resultado correto: Galo 3 x 1 Flamengo. Mais um show inquesquecível da Massa Alvi-Negra no Mineirão. 30.000 pessoas e muita cantoria. O Galo continua sendo um tema válido no blog.



  Escrito por Idelber às 05:13 | link para este post | Comentários (23)



sábado, 02 de julho 2005

Sobre uma mui urgente conversa entre acadêmicos e jornalistas

Mantenhamos na pauta do Biscoito o projeto de uma importante aliança e conversa que se deve construir: falo da conversa e da aliança entre profissionais da universidade e profissionais da imprensa, "acadêmicos" e "jornalistas", essas duas turmas que com freqüência trocam farpas, mas que hoje, no Brasil, têm muitos interesses em comum e estão começando a se enxergar melhor. Os blogs, a blogosfera, são em parte responsáveis pelo fato de que esse diálogo ocorra hoje em termos mais ricos que os de outrora.

Acadêmicos e jornalistas têm em comum o fato de que são tomados como bodes expiatórios sempre que alguma coisa vai mal com o poder.

Acadêmicos e jornalistas têm em comum o fato de que, com freqüência, são desautorizados, desqualificados in toto, como se todo acadêmico fosse um bolorento preso numa torre de marfim, como se todo jornalista fosse um simplificador e banalizador que não sabe do que está falando.

Acadêmicos e jornalistas muitas vezes se acusaram, mutuamente, de serem exatamente isso que descrevo no parágrafo anterior. Com bastante freqüência protagonizaram brigas recheadas de mal-entendidos.

Mas cada vez mais acadêmicos descobrem a riqueza do trabalho dos jornalistas, e cada vez mais jornalistas descobrem a abertura ao diálogo de muitos, muitos dos profissionais da universidade.

É lógico que não é fácil: os acadêmicos que decidimos transgredir os muros da universidade e defender nossos pontos de vista "aqui fora" enfrentamos obstáculos dentro da academia, sim, a começar por um permanente desprezo pela "popularização" do trabalho intelectual.

E os jornalistas que decidem, também aqui "fora", defender seus pontos de vista e sua prática, enfrentam constantes obstáculos dentro dos meios de comunicação no qual trabalham, e também freqüentes incompreensões "aqui fora".

De minha parte, como mero acadêmico, venho protestar contra a verdadeira busca de bode expiatório que tem acompanhado as trapalhadas do governo federal, sempre disposto a pôr a culpa da crise na imprensa, como se a responsabilidade pelo incêndio no circo fosse do profisssional que o está fotografando.

Em todo caso, neste sábado - que sempre é um dia mais paradão no blog - deixo um post dizendo o óbvio:

Nem todo acadêmico é um neurótico especialista em uma minúscula e irrelevante área, incapaz de dialogar com o resto dos mortais. E nem todo jornalista é um banalizador, como tantas vezes nós, acadêmicos, injustamente pensamos.

O diálogo entre essas duas turmas é de muita importância para o Brasil de hoje.

Por agora, que fique o protesto: tropa de choque do governo, chega de culpar a imprensa pelo desastre sobre o qual vocês estão presidindo. Um pouquinho de humildade para reconhecer os próprios erros faz bem.



  Escrito por Idelber às 03:42 | link para este post | Comentários (16)



segunda-feira, 27 de junho 2005

Conversas com a Militância do PT em São Paulo

(os links abaixo são da Folha e só estão disponíveis para os assinantes do jornal ou do UOL)

No momento, minhas posições políticas podem ser resumidas assim: elas desagradam boa parte dos meus amigos e agradam gente que eu não quero agradar. Paciência. Deixar de pensar o que penso, não posso. E pelo que tudo indica, o descompasso é temporário. Cada vez menos amigos estão dispostos a defender o governo Lula e a situação calamitosa em que a invasão dos Delúbios deixou o Partido dos Trabalhadores.

Na semana que passei em São Paulo pude conversar com alguns militantes históricos do PT. Eu gostaria que todos os que esbravejam é complô da imprensa, é culpa da Folha de São Paulo e da Veja! tivessem a oportunidade de conversar com esses militantes. Falo dos militantes honestos, da base, não dos comissários, burocratas e delúbios.

Foi triste ver o estado de desmoralização, melancolia, falta de alternativas dessas pessoas que dedicaram, em alguns casos, trinta anos de suas vidas à construção do PT (sim, porque em 1975 o núcleo do que seria o PT já se gestava no movimento sindical).

Conversei, por exemplo, com X, metalúrgico de 1973 a 1980, e desde então militante do PT, e também com Y, intelectual e filiado ao partido desde a primeira hora. Protejo seus nomes porque elogios vindos de uma pessoa como eu, que já chutou o pau da barraca com este governo, só pode prejudicar a luta duríssima que essas pessoas ainda livram no interior da máquina sequestrada pelos delúbios.

A Y eu dizia:

- bicho, como vocês vão fazer campanha nos movimentos sociais em 2006? Não há nada a apontar, não há um único índice social que tenha se movido minimamente, não há uma única realização social que diferencie este governo.

-é, Idelber, vai ser foda. O mais provável é que seja uma campanha como foi a da Marta, totalmente "profissionalizada", terceirizada, e que eles só chamem a militância no caso de terem medo de perder. Eu não tenho que encarar os movimentos sociais. Imagine o cara lá do movimento de bairros, vai dizer o quê? A Marta pelo menos tinha realizações de verdade.

X, que voltava do ato em "defesa" do PT ao qual compareceu toda a cúpula e ministros petistas, relatava duas coisas insólitas.

- Havia uns caras de 2 metros de altura do meu lado gritando Delúbiô! Delúbiô!

Agora uma singela pergunta para os leitores do Biscoito: que cidadão da República de Pindorama gritaria Delúbio! Delúbio! em público hoje em dia a não ser que estivesse sendo pago para isso? Não satisfeita em contratar cabos eleitorais pagos e defenestrar a militância (para depois chamá-la no desespero para "defender" o partido quando o bicho pega), não satisfeita em arregimentar sindicalistas [expressão usada originalmente e retirada às 15:30 depois de diálogo abaixo com leitor André: "contratar mercenários"] para gritar palavras de ordem em defesa de José Dirceu no Congresso Nacional, a cúpula contrata capangas para entoar em coro o nome de bandidos. A esse ponto chegamos.

Segundo relato escabroso de X:

- Na hora em que Eduardo Suplicy foi falar uns caras ensaiaram umas vaias.

Ironias de Pindorama: em qualquer lugar deste Brasil em que ele apareça, do Oiapoque ao Chuí, o senador Eduardo Suplicy será aplaudido. Exceto, claro, num ato de "defesa" do Partido dos Trabalhadores convocado pela claque de José Dirceu. Poucas horas antes, no show de Wynton Marsallis no Ibirapuera, Y havia se encontrado com Suplicy, que panfletava.

Y presenciou uma cena bem típica: uma mãe e uma criança passavam pelo lugar. A criança perguntou: “mãe, ele é político do PT?” Resposta da mãe: “sim, filha, mas não é bandido como os outros não”.

Enquanto isso, para os que continuam no interior do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu - que nunca foi representante de movimento social nenhum, que sempre foi "expressão da máquina partidária" como bem disse Paulo de Tarso Venceslau (expulso do PT em 1997 depois de denunciar um esquema de corrupção envolvendo um amigo de Lula) - continua tirando onda de representante de uma suposta "ala progressista" do governo.

Um sujeito que é representante do que de pior existe no ex-Partido dos Trabalhadores.

Um sujeito capaz de dizer que participou e não participou de uma coisa.

Um sujeito que, num momento em que o Brasil passa a limpo a sua história, nega até mesmo a uma pesquisadora um depoimento sobre sua trajetória pessoal. Por que será?

Um sujeito que, depois de arquitetar e tramar durante meses a expulsão de três parlamentares, é capaz de chegar na reunião da Executiva Nacional e, com a cara lavada que só possuem os verdadeiros calhordas, dizer eu não tenho nada com isso.

Um sujeito capaz de se disfarçar e mentir para a própria esposa durante anos.

Um sujeito que, não nos esqueçamos, foi o primeiro chefe da Casa Civil da República Federativa do Brasil a ameaçar com processo judicial um professor universitário por uma opinião (e não foi um reles professor como eu, e sim um fundador do PT e um dos maiores sociólogos da nação, o Dr. Francisco de Oliveira).

Um sujeito que é incapaz de dizer eu não sou corrupto ou eu sou inocente mas, que, ao contrário, só repete não há provas contra mim, com o sorriso nervoso que só ostentam os muito preocupados.

Um sujeito que - por causa de sua ambição de governar São Paulo - foi o responsável direto pela perda da possibilidade de uma aliança histórica entre PT e Mário Covas em 1993, para depois, claro, chafurdar o PT na lama de alianças com Sarney, ACM e cia. em 2002.

Um sujeito que, não satisfeito em ser derrubado por indícios de corrupção e quase levar o resto do governo junto, arregimenta pessoas que agem como capangas para irem ao Congresso e a comícios "defenderem" o seu nome, astutamente confundido com o nome do PT, justo no momento em que ele acaba de liderar o estrangulamento deste último.

Um sujeito que foi o responsável direto pela derrota do candidato da bancada do PT, Virgílio Guimarães, à presidência da Câmara e pela subida de Severino, embora os mal-informados e os mal-intencionados insistam em colocar a culpa na oposição, na imprensa e na torcida da Portuguesa.

Um sujeito que - como vocês sabem - é responsável por muita coisa mais, que não vou dizer aqui porque não posso provar.

Esse é o sujeito que quer se fazer passar por representante das "causas progressistas" no governo Lula. O MST, obediente, repete a fábula oficial.

Enquanto isso, se você ainda se define como simpatizante do PT, evite os atos de "defesa" do partido. Passaram a ser povoados por capangas que gritam nomes de bandidos.

Atualização: Recomendo enfaticamente a entrevista à Folha dada hoje pela mui lúcida socióloga e cientista política (e fundadora do PT) Maria Victoria Benevides.



  Escrito por Idelber às 08:44 | link para este post | Comentários (38)



quinta-feira, 16 de junho 2005

Da lama no ventilador e da lama escondida - Crônica de uma queda anunciada

A verossimilhança não é a verdade. A verossimilhança é essa propriedade que as coisas têm - ou não - de parecerem verdadeiras, de serem críveis. O verdadeiro nem sempre é verossímil, como sabem as vítimas de um tsunami ou de uma arbitragem de José Roberto Wright. Por outro lado, a historinha mais verossímil pode ser a mentira mais deslavada. No episódio do depoimento do Dep. Roberto Jefferson à Comissão de Ética da Câmara há uma divisão clara entre quem está preocupado com a verdade e quem está preocupado com a verossimilhança. Nós nos contamos entre os primeiros. Os últimos ficam, a cada dia, mais nervosos.

A esmagadora maioria da população - este blog incluído - interessa-se pela verdade das acusações de que a alta cúpula do PT estaria envolvida num esquema criminoso de mensalões. Quem até hoje acha que defender a cúpula do PT significa defender o governo, ou pior ainda, o país, parece preocupar-se só com a verossimilhança da acusação, ou seja, com a possibilidade de que seja provada. Ante a ausência de "provas" no discurso de Roberto Jefferson, querem nos convencer que estão respirando aliviados, enquanto aguardam nervosos a próxima acareação.

À uma sociedade que quer saber a verdade sobre algo, a merda no ventilador é sempre preferível à merda escondida. Por isso, discordo radicalmente de Marcelo Coelho que, na Folha, lamentou e disse que se tratava de um dos dias mais "deprimentes" da história republicana. Eu acho que foi um dos dias em que o Congresso Nacional foi mais verdadeiro.

Alguém que tenha assistido o depoimento detalhadíssimo de Roberto Jefferson está disposto a apostar que ele mente e que dizem a verdade os enlouquecidamente nervosos Valdemar Costa Neto e Sandro Mabel? Só quem ainda acha que abafar essa história é do interesse do governo, ou pior ainda, do país.

Desde o começo da crise, a resposta da cúpula do PT tem sido patética. Poucas horas depois das denúncias de Jefferson na Folha, lançaram uma nota inócua, negando algo que nem se havia podido averiguar. A nota teve o lamentável destino de ser implicitamente desmentida pelo próprio presidente Lula, pelo Ministro Ciro Gomes, pelo Deputado Miro Teixeira, pelo Ministro Aldo Rebelo e pelo Ministro Mares Guia, todos eles confirmando que ouviram, sim, menções de Jefferson sobre o mensalão.

Todas as denúncias passam pelo tesoureiro do PT, Sr. Delúbio Soares. Quem lê este blog sabe que há meses - há anos, em outros foros - eu pergunto quem é esse Sr. Delúbio Soares, como chegou a tesoureiro do PT, como acumulou tanto poder e desde quando está lá. Na sua nervosíssima defesa, cheia de contradições (primeiro nega haver recebido presidentes de partidos, depois reconhece), Delúbio colocou seus sigilos fiscal e bancário à disposição da justiça, mas e o telefônico? Ou alguém acha que se paga mensalão com cheque? Se todos os meios de comunicação confirmam que o presidente Lula era favorável ao afastamento do Sr. Delúbio da tesouraria do PT - e se Lula é o grande emblema, o grande símbolo desse partido - como é que a Executiva Nacional pôde ter a cara-de-pau de alardear como uma vitória a manutenção desse senhor no seu cargo?

Tal como no caso Waldomiro Diniz - indivíduo comprovadamente corrupto que operava em nome do governo - o nervosismo é que a coisa respingue no Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Trata-se aqui do grande responsável pelo 'novo PT', o da política entendida como combinação entre truculência, cooptação e conchavo, sob a ética da vitória a qualquer custo. Esse método não é o método histórico do PT. Foi imposto pelos arautos do "realismo". Quando protestávamos, a resposta era sempre: "vocês são ingênuos"; "política é assim"; "estamos aqui para ganhar". Taí o resultado.

Meia palavra para bom entendedor: Formei minha opinião sobre o Ministro Dirceu no interior do PT em meados dos anos 80 e essa opinião nunca mudou. Só se reforça a cada dia. Sobre Dirceu, Fernando Gabeira disse, na Veja: Acho que o temor dele é que as pessoas ocupem o seu espaço, que ameacem aquele trono que ele construiu tão duramente, através de tantas reuniões e tanto café frio. Imagine uma pessoa que coleciona sessenta grupos de trabalho!

O discurso de Roberto Jefferson é o da raposa que foi traída, está enfraquecida, já tem pouco a perder, sabe coisas que comprometem muita gente e quer aproveitar as circunstâncias para limpar sua biografia. Um sujeito assim raríssimas vezes mentirá, porque já não lhe interessa a mentira. Foi colocado, pela própria burrice da estratégia do governo, na posição do que pode dizer toda a verdade. É só olhar a história e encontrar outras raposas que, traídas, jogaram a lama no ventilador. Zinoviev e Kamenev, na Revolução Russa, são dois exemplos. Nenhum deles era santo. Mas quando denunciaram Stalin não mentiam não.

Tentar abafar essa história do mensalão desqualificando Jefferson - matando o mensageiro - é a estratégia mais desastrada que se pode escolher. Há hipócritas do PSDB e do PFL utilizando-se do episódio para arvorar-se em paladinos da ética e da justiça? Sem dúvida. Mas os dirigentes do PT vão jogar fora tão descaradamente o bebê da justiça e da ética junto com a água suja da sua defesa oposicionista hipócrita? Quem mais - além de José Genoíno e a tropa de choque - está disposto a defender essa burríssima estratégia?

Se o presidente Lula está realmente esperando para defenestrar Dirceu quando a saída já não pareça uma resposta a Jefferson (como mantém os colunistas que acompanham o caso), talvez essa queda anunciada já esteja chegando com dois anos de atraso.

Para os que ainda insistem que o mensalão 'não pode ser provado', experimentemos uma acareação entre Jefferson / Delúbio, uma quebra do sigilo telefônico de Delúbio e, como sugeriu Fernando Rodrigues na Folha, a quebra do sigilo bancário de todos os saques acima de R$200.000 realizados nos meses de maio, junho e julho de 2004 no Banco do Brasil e no Banco Rural. Aí a gente vê se se pode provar ou não.

PS: É no dia 16 de junho que transcorre a história do livro dos livros, o maior romance do século XX, o enlouquecimento feito livro. Joycianos no mundo inteiro comemoram hoje o Bloomsday. Em Sampa a festa é sempre no Finnegan's Pub, infelizmente já sem o joyciano maior, Haroldo de Campos. Em Belo Horizonte a festa está a cargo do Oficcina Multimedia. Na blogosfera, o Odisséia Literária pilota as comemorações. Drink one for Ireland, drink one for Joy(ce) tonight.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (18)



terça-feira, 07 de junho 2005

A Esquerda e a Crise do Governo

Com uma caixa de comentários rica como a de ontem, seria um pecado não aproveitá-la para continuar a discussão. Uma coisa que me alegra neste blog é a diversidade: há leitores que eu consideraria direita clássica (liberalismo econômico, discurso anti-estado, etc.). Há outros que reproduzem o ponto de vista de que "os políticos são todos iguais" e que "o PT foi cínico quando estava na oposição" e o que estaríamos presenciando agora seria a "queda da máscara". Eu não me identifico com essa explicação também não.

Mas o que mais me preocupa é a profunda divisão e confusão da esquerda que presenciamos hoje. Durante os últimos 22, 23 anos (desde as eleições de 1982), o PT tem sido a coluna vertebral e o definidor de pautas na esquerda. Pouca gente se lembra, mas no começo dos anos 80 as alianças preferenciais do então PCB e do PC do B eram com o PMDB. O argumento era que o PT dividia "a oposição democrática". O PT corretamente insistiu na sua independência e cresceu até o ponto em que o PC do B, por exemplo, teve que vir à reboque. O PT conquistou politicamente o direito de capitanear a esquerda.

Hoje, estamos presenciando um realinhamento da esquerda cujos rumos ainda não conhecemos. A prova é que vários leitores que se identificariam como de esquerda defendem posições antagônicas com respeito à crise atual.

O leitor Artur afirmou aqui ontem: quando votamos em um candidato subscritor da 'Carta aos Brasileiros', sabíamos (ou deveríamos saber) que a rota adotada era outra, que nos comportaríamos como 'bons moços', que entre o 'respeito aos contratos' estava o 'respeito' às seculares maneiras de conduzir governo por aqui. Com respeito ao Artur, essa é a identificação que acho daninha para a esquerda. Com a "Carta aos Brasileiros" e o "respeito aos contratos" justifica-se a situação desastrosa de um governo refém de Jeffersons e Severinos.

Meu amigo Pedro Alexandre Sanches, na mesma linha, afirma: me cansa profundamente o argumento fácil, sempre guardado no bolso, do "eu não falei?", do "eu já sabia", da decepção com Lula, da decepção com o PT, da decepção com todo e qualquer partido político que passar pela frente e não corresponder a metas idealizadas e nunca concretizadas (...) por essa via caímos no mero moralismo, no nhenhenhém que compõe 505 anos de Brasil.

São esses os meus interlocutores preferenciais, porque é a eles que tenho a esperança de convencer que a nós, de esquerda, não interessa dizer que 'respeito aos contratos', implica 'respeito' às 'seculares maneiras de conduzir governo por aqui'. Ao nos defendermos assim, entregamos a faca e o queijo à direita. Afinal de contas, que argumentos pode ter um governo que se identifica como novo, mas cada vez que é acusado de não sê-lo, insiste em que política é assim mesmo?

A palavra 'golpismo', que foi usada aqui para caracterizar a atividade da oposição, me parece uma cortina de fumaça. Não é que não existam delírios golpistas na oposição pefelê e tucana. Mas atribuir a crise ao "golpismo" da oposição só vai servir para que se mascare as responsabilidades do próprio governo. Ou alguém aqui achava que o PSDB e o PFL seriam doce de côco na oposição? Na verdade, mais do que 'golpe', eu vejo, junto com outros leitores, outra estratégia na oposição: enfraquecer o governo Lula e deixá-lo 'sangrando', em apuros para conquistar uma reeleição que até poucas semanas atrás parecia quase certa.

Com Rafael Galvão, concordo que essa crise é o que poderia ter acontecido de pior ao governo Lula. Que o governo demonstrou incompetência. Que caiu no engano de confundir compromisso com fisiologismo. Com o perdão do 'eu não falei?' que tanto irrita o Pedro, é isso que vários de nós temos falado há dois anos. Sempre que criticamos o fisiologismo, vêm nos dizer que política é compromisso. Ora, ninguém imaginou que seria brincadeirinha lidar com o Congresso não, mas nem em sonhos eu imaginei que o mandato popular recebido por Lula, seu tremendo apoio entre a população seriam simplesmente ignorados na negociação com as raposas petebistas ou pepistas. Lidou-se com essa gente sem colocá-los contra a parede. Ganharam espaço. Cederam-se anéis. Foram os dedos juntos. Ajudados pela confusão da coordenação política, converteram o governo Lula em seu refém. Enquanto isso, os Chico Alencar e os Eduardo Suplicy são tratados como semi-criminosos, destruidores da unidade, cúmplices da oposição de direita, etc.

Não nos interessa ignorar esse processo e ficar eternamente batendo na tecla de que é tudo culpa da oposição e que os críticos de esquerda do governo estamos "fazendo o jogo do PSDB/PFL". Não cola, simplesmente não cola. Quem faz o jogo da oposição é quem insiste que se deve governar igualzinho ao que fez aquele bloco quando lá esteve.

A defesa cega do governo, movida pelo compreensível desejo de que ele dê certo, me lembra às vezes a história do cara que pegou emprestado um bule e o devolveu estragado. Ante a reclamação do dono, ele diz: 1) eu não lhe devolvi o bule estragado; 2) o bule já estava estragado quando o tomei emprestado; 3) eu jamais tomei bule seu nenhum emprestado. Às vezes dizem que não há fisiologismo no governo; às vezes dizem que há, mas que sob FHC era pior; e depois completam que toda política é fisiológica. Ora, resolvam!

Antes de vir redigir este post, vi na televisão uma entrevista com José Genoíno. Um homem patético, que diz uma coisa às 10 e outra às 12; que não transmite nenhum sentido de liderança; que cospe palavras vazias e repete o que lhe impõem: um pau mandado do poder. Esse é o presidente do 'maior partido de esquerda do Ocidente'. Pensei comigo: com um sujeito desses "liderando" o PT, quem é que precisa de oposição golpista?

PS curioso: Não sei se foi a liberação da tensão da viagem recente de volta ao Brasil ou a tristeza com meu Galo ou uma pizza suspeita, mas enquanto vocês debatiam aqui rolou um piripaco geral no meu corpo: 10 horas de vômitos, calafrios, dor de cabeça, um inferno. A última vez que me senti mal assim foi em 5 de março de 1978. Se eu não voltar hoje é porque o chá de boldo não fez efeito. Pilotem o blog à vontade.



  Escrito por Idelber às 20:48 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 06 de junho 2005

Estarrecedora . . .

é a denúncia de Roberto Jefferson, que me chegou cedão via Rafa. Mas eu fiquei estarrecido mesmo foi com a entrevista do cabra. Qualquer que seja o passado de Roberto Jefferson, o que importa aqui é a verdade, e quem conta o caso com aquela precisão ali não está mentindo, não. Às dez da manhã, antes, portanto, de que se pudesse apurar qualquer coisa, o PT lançou nota negando. É mole?

Diante das denúncias e dos fortíssimos indícios de sua veracidade, o Biscoito renova a pergunta e o desafio: um doce para quem me disser qual é a data de filiação do Sr. Delúbio Soares no Partido dos Trabalhadores, quais cargos ele ocupou até chegar a tesoureiro do partido, como e com aval de quem ele chegou lá. Eu confesso que não sei. Mas estou louco para saber.



  Escrito por Idelber às 13:41 | link para este post | Comentários (42)



quinta-feira, 02 de junho 2005

Carta Aberta ao Senador Eduardo Suplicy

Prezado e Ilustre Senador Suplicy:

Chego um pouco atrasado à conversa, mas não poderia deixar de lhe escrever. Esta é uma carta cheia de admiração. Acompanhei pela imprensa o relato acerca das centenas de mensagens de apoio à assinatura que o Sr. emprestou à CPI encarregada de apurar o escândalo de corrupção nos Correios. Parabéns por honrar o mandato recebido.

Escrevo não só para expressar apoio à decisão do Sr. de assinar o requerimento da CPI, mas também para compartilhar preocupação com a forma como a direção do Partido dos Trabalhadores tem tratado as diferenças que afloraram no partido nos últimos anos. Esse escândalo reuniu ingredientes das piores práticas instaladas no PT.

Em primeiro lugar, a cena de corrupção envolvia o indicado de um dos “neo-aliados” mais manjados do governo federal, o Sr. Roberto Jefferson, ex-chefe da tropa de choque de Collor, contra cuja presença no governo nós, da chamada “esquerda” do PT, insistentemente protestamos. Uma vez provado o ato de corrupção, o governo federal – ao invés de se lançar à apuração e punição dos responsáveis, que não eram do PT – optou pelo caminho mais suspeito e menos inteligente, o de bloquear a apuração da denúncia. Ao fazê-lo, o governo simplesmente entregou a faca e o queijo ao PSDB e o PFL.

A seqüência de trapalhadas incluíram visitas ao Sr. Jefferson – com pedidos que, segundo este, chegaram às raias do “pelo amor de Deus” – telefonemas ao Sr. Garotinho e uma verdadeira sanha de perseguição contra os parlamentares petistas que ousaram desafiar essa suspeita e desastrada estratégia.

Se o corrupto era o Sr. Marinho e o responsável pela indicação o Sr. Jefferson, o que realmente a direção do PT queria esconder? Por que tanto desespero em proteger o ex-aliado número 1 de Collor? Por que o Ministro da Casa Civil, de acordo com todos relatos, parecia tão preocupado?

O Sr. sofreu a primeira punição, ao ter seu nome alijado da chapa que concorre à direção do PT. O Sr. já indicou que ainda assim votará no candidato da situação – desta situação horrenda que aí está – que é o Sr. José Genoíno, o mesmo que, apesar de não ter 5% do seu currículo, referiu-se ao Sr. nos termos mais desrespeitosos possíveis.

Respeito o voto do Sr. na eleição petista, Senador Suplicy, mas permito-me discordar. Hoje, eu não votaria no Sr. Genoíno nem para síndico do meu prédio. Não porque ele não seja um homem ilibado e honesto. Tenho certeza de que o é. Mas já perdeu a credibilidade ao converter-se num repetidor do que lhe mandam dizer, mera correia de transmissão que justifica qualquer absurdo para preservar a “unidade partidária”, definida sempre nos termos que convêm ao poder, é claro. Há outros candidatos à presidência do PT que poderiam – se eleitos, o que é muito difícil, dadas as centenas de milhares de recentes, estranhas filiações – trazer alguma credibilidade e ar fresco de volta à direção do partido.

Tudo indica, Senador, que o Sr. será o próximo nessa fritura. Por que não partir, então, para o ataque e oferecer o seu voto a um candidato que se oponha a essa truculência, a esse esmagamento da democracia partidária? Um exemplo é o Dr. Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre, um homem infinitamente mais preparado, inteligente e comprometido com a democracia que o Sr. Genoíno.

Eu não conheço o suficiente sobre os bastidores para saber se eles pensam roubar-lhe a indicação ao Senado na próxima eleição. Já fizeram coisas piores. Eu imagino que mesmo odiando o Sr. com todas as forças, eles têm muito medo de fazê-lo, porque sabem que o Sr. seria capaz, concorrendo por qualquer outro partido, de esmagar o candidato deles nas urnas. Mas é bom ficar atento.

O que eu não consigo entender ainda é por que cargas d’água uma reunião em que se lhe comunica a “punição” tenha que ser feita com o Sr. Delúbio Soares, tesoureiro do partido. O Sr. tem alguma idéia? Por que será que esse é um assunto para o tesoureiro? Não é o cúmulo da vergonha que o PT chegue ao ponto em que Delúbio Soares comunique uma punição a Eduardo Suplicy? Será que eu sou o único entre os petistas filiados no começo dos anos 80 que jamais ouviu falar da história desse Sr. no partido? De onde ele saiu? Qual foi a trajetória da ascensão dessa emblemática e misteriosa figura?

Apesar de já ter rasgado minha filiação ano passado e portanto não estar habilitado a votar nas eleições do PT que se aproximam, Senador, eu deixo ao Sr. minha admiração, minha solidariedade e meu desejo de que suas próximas decisões sejam sábias e cuidadosas. Sei que éticas e impecáveis elas serão.

PS: Estou enviando-lhe esta missiva por email mas também a publicarei no meu blog. Dentro de uns dois dias lhe encaminharei também os comentários que por ventura meus leitores fizerem. Um abraço do seu admirador.



  Escrito por Idelber às 23:29 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 27 de maio 2005

Exercício de memória política no condicional

lula-comicio.jpg

Como sabe quem lê este blog, seu autor foi militante do PT durante muito tempo e lamenta muito que Lula não tenha sido eleito em 1989, na eleição em que Fernando Collor de Mello, com inestimável ajuda extra-campo, ganhou a parada. Naquele momento o PT previa posição dura contra o sistema financeiro internacional, pesada taxação do capital especulativo e outros elementos de um programa bem mais radical que o de hoje. O que teria sido do Brasil se Lula , não em 2002 ou 1998 ou 1994, mas em 1989? Caos? A mesma coisa? Algo muito mais interessante? O mundo seria hoje o mesmo?



  Escrito por Idelber às 03:51 | link para este post | Comentários (7)



quinta-feira, 26 de maio 2005

A mais nova crise do governo Lula

O governo Lula enfrentou nesses últimos dias mais uma crise de gerenciamento político no parlamento. Depois de um flagrante envolvendo Maurício Marinho, indicado do PTB de Roberto Jefferson para os Correios, a oposição – previsivelmente – passou a levantar a bandeira de uma CPI para apurar as denúncias. A forma como a direção petista lidou com o problema foi um festival de bateção de cabeças.

Eu não tomo a existência dos Waldomiros Diniz e dos Maurícios Marinho como prova de que “político é tudo igual” e que “o PT é igual aos outros”. Não necessariamente. O que se espera de um governo não é que jamais haja um caso de corrupção no primeiro, segundo ou terceiro escalões. O que se espera é que, uma vez substanciada uma denúncia, a apuração seja feita. Se a oposição se apóia num "denuncismo", a melhor maneira de combatê-lo é efetivamente investigar as denúncias reais (e neste caso havia muito mais que uma denúncia: havia provas).

Se o PT tivesse tomado a iniciativa da CPI ou da apuração, ele teria esvaziado a iniciativa da oposição, e de quebra teria se fortalecido para as negociações com o PTB dentro da base do governo. Escolheu o caminho que era, ao mesmo tempo, o menos ético e o mais burro. A direção petista tem usado o argumento de que a oposição quer desestabilizar o governo – o que não deixa de ser verdade – para implementar um projeto autocrático de partido. Justificam absolutamente tudo com o fantasma da volta da direita. Justificam, inclusive, a adoção de métodos que já não os diferenciam da direita.

Depois da aprovação da CPI, ontem no congresso nacional – para a qual contribuíram suas assinaturas 19 deputados petistas e um senador, Eduardo Suplicy – o PT já fala em punição dos rebeldes. Ou seja, o partido que até pouco era considerado o repositório ético da política brasileira pensa em punir parlamentares porque eles apoiaram uma proposta de CPI para apurar uma comprovada cena de propina no governo. Parece inacreditável. O PT no qual eu militei ao longo da década de 80 teria se envergonhado dos episódios desta semana. A Folha de hoje noticia:

A cúpula do PT decidiu que tratará os deputados federais que mantiveram a assinatura no pedido de criação da CPI dos Correios como "bancada paralela", dando início a um processo de punição que pode resultar num novo expurgo de rebeldes do partido. Segundo a direção petista, 8 dos 19 petistas que aderiram acabaram recuando. Sobraram 11, número considerado alto -mais de 10% da bancada de 91 deputados.
Em relação ao senador Eduardo Suplicy (SP), que anunciou que assinaria o pedido de CPI depois de a bancada ter decidido em reunião de manhã que não endossaria a investigação, a cúpula do governo espera que ele desista de concorrer a senador pelo PT. (...) Os 11 deputados que mantiveram o apoio serão internamente responsabilizados pela cúpula do PT como os principais responsáveis pelo fracasso do esforço para retirar as assinaturas. O governo avalia que foi mais ou menos esse o número de assinaturas que não conseguiu reverter.

A política econômica conservadora e o gerenciamento político autoritário e autocrático são minhas duas críticas recorrentes ao governo. No episódio da tentativa de abafa da CPI dos correios, esse gerenciamento político equivocado chegou a um cúmulo de ruptura com os princípios históricos do PT.

Ao tentar construir a base de sustentação do governo no parlamento, o PT em nenhum momento jogou com o notável mandato popular que Lula recebeu em outubro de 2002. Ao buscar maioria a qualquer custo, acharam que estavam entregando os anéis e, quando se deram conta, os dois braços já haviam ido. No início do mandato, a coalizão PT-PL poderia ter construído um marco bastante sólido de governabilidade, mesmo considerando o fato de que só possui 100 e poucos deputados. Como? Usando politicamente o mandato popular para pressionar o Congresso, para colocar os deputados mais fisiológicos na posição de ter que ceder e votar os projetos de interesse do governo, sob pena de ser execrados pela população e perder a boquinha na próxima eleição. Quando nós, na época na esquerda do PT, falamos da importância de partir do imenso apoio a e admiração por Lula entre a população para negociar no congresso, a tropa de choque delúbica-genoínica se recusou a conversar e veio nos dar aulas de "realismo". "Ingênuos! Não sabem que é necessário negociar? Não sabem que o mundo é mais complicado que os sonhos de vocês?", eram e são as caricaturas usadas para desqualificar as críticas à grotesca política parlamentar adotada pela administração Lula. Fizeram os acordos mais espúrios sem consultar o partido. Começaram a falar em "ala progressista" do PP, "ala progressista" do PTB, e outras asneiras. Viraram escravos da sua própria falta de princípios, reféns de raposas políticas que não têm 5% da representatividade de Lula. Afinal, nesse jogo, os ACMs e Jeffersons da vida são muito mais espertos que os Genoínos. Esse é mais um episódio que demonstra que a direção do PT deveria pensar nas críticas que ela vem recebendo dentro do partido. É a culminação do que poderíamos chamar o “hegemonismo” da direção do PT: conquistar maioria a qualquer custo, bombardeando e alijando, no processo, os “ingênuos” e “idealistas” que se atrevem a protestar.



  Escrito por Idelber às 03:44 | link para este post | Comentários (21)



quinta-feira, 19 de maio 2005

Parlamentar Escocês George Galloway Detona Mentirada Norte-Americana sobre Iraque nas Barbas do Senado

galloway.jpg

(Loucos para encontrar algo para defenestrar Kofi Annan da ONU, os EUA acusaram o parlamentar britânico anti-guerra George Galloway de receber dinheiro de Saddam Hussein irregulamente no programa Petróleo-por-Comida - que é a atual cortina de fumaça usada nos EUA para desviar atenção da mentirada e do lamaçal do Iraque. Ao intimar Galloway a depor ao comitê que "investiga" o Petróleo-por-Comida, o senado gringo não imaginava que o valente deputado escocês passaria ao ataque e os esmagaria dentro da sua própria casa. Foi um grande dia para a verdade. O que se segue é boa parte do depoimento de Galloway ontem ao senado norte-americano. Tradução e negritos são responsabilidade minha. Original aqui e vídeo aqui; boa matéria aqui; enquanto lêem, imaginem a corja engolindo seco).

DEPOIMENTO AO SENADO AMERICANO - GEORGE GALLOWAY

Senador, não sou nem nunca fui comerciante de petróleo nem nunca ninguém o foi em meu nome. Nunca vi um barril de petróleo, ou fui dono de um, ou comprei ou vendi um - nem ninguém nunca o fez em meu nome.

Bem, eu sei que os padrões se deterioraram um pouco em Washington nos últimos anos, mas para um advogado o sr. é notavelmente descompromissado com qualquer idéia de justiça. Estou aqui hoje porque na semana passada o sr. já me julgou culpado. O sr. difamou meu nome pelo mundo sem ter me feito uma única pergunta, sem ter me contactado, sem ter escrito ou telefonado, sem fazer qualquer esforço para contactar-me. E o sr. chama isso de justiça.

Agora quero lidar com as páginas que me dizem respeito nesse dossiê e apontar as áreas onde há - sejamos caridosos e digamos, erros. Aí quero colocá-lo no contexto em que acredito que tenha que estar. Na primeira página do seu documento sobre mim o sr. afirma que eu tive "muitos encontros" com Saddam Hussein. Isso é falso.

Eu tive dois encontros com Saddam Hussein, um em 1994 e outro em agosto de 2002. Nenhuma esticada da língua inglesa pode caracterizar isso como "muitos encontros". Na realidade, eu encontrei Saddam Hussein exatamente o mesmo número de vezes que Donald Rumsfeld o encontrou. A diferença é que Donald Rumsfeld encontrou-o para vender-lhe armas e dar-lhe mapas para melhor direcionar aquelas armas.

Eu o encontrei para tentar trazer um fim às sanções, ao sofrimento e a guerra, e na segunda ocasião encontrei-o para tentar persuadi-lo a que deixasse o Dr. Hans Blix e os inspetores de armas da ONU entrar de volta ao país - um uso bem melhor dos encontros com Saddam Hussein do que o seu secretário de estado fez dos dele.

Eu era opositor de Saddam Hussein quando os governos britânico e americanos estavam vendendo-lhe armas e gás. Eu participava nos protestos em frente à embaixada iraquiana enquanto autoridades britânicas e americanas entravam para fazer comércio.

O sr. verá nas atas parlamentares, Hansard, de 15 de março de 1990 em adiante, volumosas provas de que tenho um histórico de oposição a Saddam Hussein muito melhor do que o sr. ou qualquer outro membro dos governo americano ou britânico. O sr. diz nesse documento, o sr. cita uma fonte, tem a cara-de-pau (gall, literalmente a bílis) de citar uma fonte, sem jamais ter me perguntado se a alegação dessa fonte é verdadeira, de que eu sou dono de uma empresa que teve lucros substanciais comerciando petróleo iraquiano.

Senador, eu não sou dono de nenhuma companhia, além de uma pequena companhia cujo único objetivo é receber a renda dos meus ganhos como jornalista do meu empregador, a Associated Newspapers de Londres. Eu não sou dono de empresa que tenha comerciado petróleo iraquiano. E não é da conta do sr. traficar uma citação completamente não fundamentada e falsa, sugerindo o oposto.

Então, o sr. não tem nada sobre mim, senador, exceto meu nome numa lista de nomes do Iraque, muitos dos quais foram colocados na lista depois da instalação do seu governo-marionete em Bagdá. Se o sr. tivesse contra mim quaisquer das cartas que tinha contra Zhirinovsky, ou mesmo Pasqua, elas teriam aparecido no seu show de slides para o seu comitê aqui hoje.

O sr. tem meu nome numa lista fornecida ao sr. pela investigação de Duelfer, fornecida a ele pelo ladrão de bancos e fraudador condenado Ahmed Chalabi, que muitas pessoas no seu país agora percebem, para crédito delas, que cumpriu um papel decisivo em levar o seu país ao desastre no Iraque.
(....)

Enquanto estamos no assunto, quem é essa autoridade iraquiana com o qual o sr. conversou ontem? Não acha que eu tenho o direito de saber? Não acha que o comitê e o público tem o direito de saber quem é realmente essa autoridade iraquiana entrevistada ontem que o sr. cita contra mim?

Bem, um dos erros mais sérios que o sr. fez nesse conjunto de documentos é, para ser franco, uma torpeza de garoto de escola que tornam ridículos todos os seus esforços. O sr. afirma na página 19, não uma mas duas vezes, que os documentos que aos quais o sr. se refere cobrem um período diferente dos documentos do Daily Telegraph, que foram tema de uma ação de calúnia vencida por mim na High Court da Inglaterra no fim do ano passado.

O sr. afirma que o artigo do Daily Telegraph citava documentos de 1992 e 1993 e que o sr. lida com documentos de 2001. Senador, os documentos do Daily Telegraph têm a data idêntica aos documentos com os quais lida o sr. Nenhum dos dos documentos do Daily Telegraph lida com o período de 1992, 1993. Eu não havia posto pé no Iraque até 1993 - nunca na vida. Não poderia haver documentos relacionados a questões do Petróleo-por-Comida em 1992, 1993, porque tal programa não existia na época. E mesmo assim o sr. alocou toda uma seção desse documento, dizendo que os seus documentos eram de uma era diferente daqueles do Daily Telegraph, quando o contrário é verdadeiro.
(...)

Senador, eu dei meu coração e alma para opor as políticas que o sr. promoveu. Dei o sangue de minha vida política para tentar parar a matança de iraquianos pelas sanções, elas, que mataram um milhão de pessoas, a maioria delas crianças, a maioria dessas mortas antes de que soubessem que eram iraquianas, mas mortas por nenhuma razão exceto a de ser iraquianas com o azar de ter nascido naquele momento. Dei o coração e alma para impedir que vocês cometessem o desastre que cometeram ao invadir o Iraque. E eu disse ao mundo que o argumento de vocês para a guerra era um bando de mentiras.

Eu disse ao mundo que o Iraque, ao contrário das suas alegações, não tinha armas de destruição em massa. Eu disse ao mundo, ao contrário de suas alegações, que o Iraque não tinha nenhuma relação com a Al-Qaeda. Eu disse ao mundo, ao contrário das suas alegações, que o Iraque não tinha nenhuma relação com a atrocidade do 11/09. Eu disse ao mundo, ao contrário das suas alegações, que o povo iraquiano resistiria uma invasão americana e britânica de seu país e que a queda de Bagdá não seria o começo do fim, mas seria o fim do começo.

Senador, em tudo o que eu disse sobre o Iraque, eu estava certo e o sr. estava errado e 100.000 pessoas pagaram com suas vidas; 1600 deles soldados americanos enviados à sua morte por um bando de mentiras. 15000 feridos, muitos deles desabilitados para sempre, por causa de um bando de mentiras.
(...)

Se o sr. houvesse ouvido a mim e ao movimento anti-guerra da Grã-Bretanha, não estaríamos nesse desastre em que estamos hoje. Senador, essa é a mãe de todas as cortinas de fumaça. O sr. está tentando desviar atenção dos crimes que o sr. apoiou, do roubo de bilhões de dólares da riqueza iraquiana.



  Escrito por Idelber às 01:44 | link para este post | Comentários (30)



terça-feira, 17 de maio 2005

Os Garotinhos e a Justiça

Todos já sabem mas não custa recapitular: na sexta-feira a juíza Denise Appolinária dos Reis Oliveira, da 76ª Zona Eleitoral de Campos (RJ) declarou inelegíveis por 3 anos o casal Garotinho, por abuso de poder político e compra de votos. O casal atacou a juíza abusando da palavra "terrorismo" e tentando desqualificá-la. A Associação dos Magistrados defendeu a Dra. Denise e cabe agora ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) confirmar ou não o seu veredito.

Não opino sobre os particulares da política fluminense. Mas sempre achei o casal Garotinho representantes do que há de mais atrasado na política: populismo do mais descarado, demagógico e vazio.

Na minha opinião, um dos momentos decisivos da ruptura do PT com alguns de seus princípios fundadores ocorreu em 1998. A convenção do PT-RJ (realizada na UERJ, como bem lembrou outro dia o Pedro Dória) optou pela candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado. Iludidos pela necessidade da aliança com um Brizola que já era um zero à esquerda, a Executiva Nacional do partido interviu no PT-RJ para obrigar os petistas fluminenses a coligarem-se com Garotinho. A cavalaria cossaca dos Delúbios e Genoínos esmagou o PT fluminense e o desastre foi o que se viu. A cúpula do PT tem, então, sua parcela de culpa na ascensão dos Garotinhos, porque falta de aviso dos petistas cariocas não houve. Eles foram literalmente triturados e silenciados.

Mas o que importa é que agora está dada a oportunidade de ver o casal Garotinho inelegível e alijado do acesso ao aparato estatal, que é a grande fonte de suas negociatas. Nesses momentos, eu sempre me lembro da organização da sociedade civil antes do impeachment de Collor. Nunca se sabe se qualquer mobilização será necessária ou possível, ou se fará qualquer diferença, mas nessas horas sempre acho que é possível fazer algo: a caixa de comentários d'O Biscoito está à disposição dos que queiram opinar sobre o caso. Por mim, nós já começaríamos a fazer pressão internética em defesa da decisão da dra. Denise e em defesa da apuração detalhada das atividades dos Garotinhos. Sempre é bom ficar de olho, porque quanto mais pública for a coisa, pior para eles.

Morro de curiosidade: alguma viv'alma que lê este blog discorda do dito acima sobre a recente decisão judicial? Alguém apóia os Garotinhos? À esmagadora maioria que sei que concorda comigo no que se refere a esse casal, eu perguntaria quem estaria disposto a mobilizar-se para defender o cumprimento dessa decisão da justiça.



  Escrito por Idelber às 01:59 | link para este post | Comentários (43)



domingo, 15 de maio 2005

Nova Investigação de Verbitsky. Perfil de Niemeyer no NYT

Horacio Verbitsky talvez seja o mais respeitado jornalista investigativo da Argentina. Conhecido pelo seu trabalho de documentação dos crimes da ditadura militar e da cumplicidade da igreja com ela, neste domingo Verbitsky marcou outro gol de placa: revelações documentadas de recebimento ilegal de dinheiro pela cúpula católica durante o menemismo.

"Na minha cabeça, a música de Tom é uma casa desenhada pelo Oscar" é a frase de Chico Buarque de Hollanda incluída no extenso retrato de Oscar Niemeyer feito pelo New York Times Magazine. Não sou fã de auditório de Nieyemer; gosto de algumas obras, de outras menos. Talvez por não ter tido tempo de explorar a cidade direito, nunca me senti muito acolhido no espaço urbano de Brasília. Agora, dá ou não dá um gostinho ver a direita tupiniquim morrer de despeito e engolir Niemeyer festejado no New York Times com direito a slideshow?

Matthew Felling, Diretor do Center for Media and Public Affairs, de Washington, D.C. opina: "Os blogs são a razão principal pela qual o jornalismo anda limpando a casa hoje em dia". Via o excelente blog português Ponto Media.

Pesquisa recente calcula que 30% dos americanos já lêem blogs. Achei o número meio alto. Aliás 30% dos americanos lendo qualquer coisa parece-me um número exagerado.

Sim, o grande sambista Nei Lopes já tem blog. Visitei Nei e segui os fantásticos links desse post do Sovaco de Cobra sobre a cantora brasileira Elsie Houston. O Zé Carlos realmente faz um gol atrás do outro.

O que está acontecendo com o Galo, hein?



  Escrito por Idelber às 02:14 | link para este post | Comentários (14)



domingo, 08 de maio 2005

Mais Dois Palestinos Assassinados

Na quinta-feira a Folha referiu-se a eles como "mais dois palestinos". Seus nomes eram Jamal Jaber, 15 anos de idade e Uday Mofeed, 14 anos de idade: assassinados pelas forças de ocupação israelenses em Beit Liqya, quando protestavam contra o muro do Apartheid. Os disparos foram a uma distância curtíssima. A ambulância que os levou, sangrando, a Ramallah, provavelmente teria chegado ao hospital a tempo se as forças de ocupação o houvessem permitido.



  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 05 de maio 2005

Fragmentos de uma conversa com Leila Couceiro sobre a Esquerda

Sei que minha amiga Leila Couceiro não se importará que eu reproduza aqui no Biscoito a interação que tivemos ontem no blogleft, já que afinal o intercâmbio só envolveu uma rápida troca de idéias. Dei uma desenvolvida melhor na resposta à pergunta que Leila me colocava ontem. Dizia ela:

Uma comentarista no meu blog lembrou que, enquanto a
direita americana considera Chomsky um radical
incendiário, em seus tempos de universidade de
Jornalismo nos anos 80 a galera de esquerda o
detestava, e usava a onomatopéia "chomsky, chomsky",
para denotar um hipopótamo chafurdando na lama. E
enquanto no Brasil já dizem que Lula é de direita, nos
EUA, John Kerry, capitalista típico que até votou a
favor da guerra no Iraque, é pintado como left-wing.

De qualquer forma, sinto no Brasil uma vergonha grande
das pessoas de assumirem ou como direita ou como
esquerda. Todo mundo é de centro.

Nos EUA, tanto os progressistas quanto os
conservadores não sentem o menor pudor de declarar que
são ou direita ou de esquerda. Mesmo os que, no
Brasil, seriam considerados de centro.

Idelber, você que já mora aqui nos EUA há mais tempo,
poderia dar uma explicação para isso?


Leila, não sei se eu compartilharia uma parte da sua análise. Nos EUA a palavra left-wing, para designar uma posição política realmente assumível na arena pública, já desapareceu há bastante tempo. Ninguém aqui se diz de esquerda, nem Jesse Jackson. Nesse aspecto é no Brasil, não nos EUA, que as pessoas sentem-se à vontade para designar-se como de esquerda. Até José Genoíno e Palocci se dizem de esquerda no Brasil. No Brasil não há absolutamente nenhum problema em se dizer: 'sou de esquerda'. Na verdade, é a posição dominante.

Bem diferente em gringolândia. Nos EUA o que há 25 anos era considerado direita (digamos, as posições associadas com o reaganismo) hoje são consideradas 'centro'. Por quê? Porque a extrema direita religiosa e armamentista tomou conta do discurso político e empurrou o eixo cada vez mais para o lado deles. Gente que é completamente extremista (o vice-presidente Cheney, por exemplo) é hoje a face aceitável da polis. Se há trinta anos, ‘socialista' já era um xingamento que designava um perigoso radical, hoje em dia é a palavra 'liberal' que nomeia o suposto "extremista". Ou seja, até a palavra "liberal" já virou xingamento contra a esquerda nos EUA, tal a dominação que mantém a direita sobre os sentidos das palavras no jogo político. Veja como John Kerry fugiu do rótulo de 'liberal' como o diabo da cruz. Não vejo saída para essa avalanche lingüística da direita fora de uma quebra do sistema bi-partidário. Enquanto os democratas tiverem que parecer moderados dentro de um sistema bi-partidário a coisa está na mão da direita.

O fundamental da oposição entre direita e esquerda é que a própria dicotomia repousa sobre o fato de que a direita não se apresenta enquanto tal. O dia em que ela se apresentar como direita, os termos em que o jogo político esteve colocado até agora desmoronam. Em outras palavras: a vitória da esquerda no debate político só ocorrerá quando a direita se apresentar como direita. Aí sim, a esquerda terá imposto os termos da brincadeira. Quando isso vai acontecer? Nunca, claro. O que não quer dizer que não devamos trabalhar para que um dia aconteça.

Acho que o fenômeno que você nota é outro, Leila. O fenômeno que você nota é que nos EUA os dois campos estão mais claros. O governo é tão extremista que fica bastante fácil diferenciar progressistas de conservadores. Nos EUA ‘liberais’ são os que defendem o direito ao aborto, política externa mais multilateral, controle do porte de armas, respeito aos direitos gay, etc. No Brasil a divisória entre esquerda e direita é mais complicada porque temos um governo de esquerda implementando políticas econômicas associadas com a direita. Sendo um governo de esquerda, ele sofre ataques da direita (do PFL, por exemplo) mesmo tendo aplicado a mesma política que o pefelê aplicou. Por outro lado, há inúmeros ataques vindos da esquerda: PSOL, PSTU, independentes, a metade impotente do próprio governo, todos os já desiludidos, etc. Como o governo que define o eixo do político é um governo com credenciais de esquerda aplicando políticas de direita e sendo atacado dos dois lados (criando-se portanto um efeito de 'centralização" deste governo), a coisa toda fica menos nítida ainda. Note-se que não faço juízo de valor, estou só descrevendo o quadro. Ninguém discordaria da afirmação de que "de esquerda" essa política econômica não é. Senão o FMI não a estaria elogiando.

Como disse Caetano, no EUA branco é branco, preto é preto, e a mulata não é a tal. No Brasil a indefinição é a lei. Não é vergonha de definir o que é isto ou aquilo. É uma outra interação do mapa político com o sentido que as palavras carregam. Como Caetano, eu curto mais essa indefinição pindorâmica. Acho um pouco chata a previsibilidade que as palavras têm no jogo político norte-americano.

PS 1 O Galo venceu e está nas quartas de finais da Copa do Brasil e o próximo adversário é o Ceará. Como esperado, derrotamos o Ituano no Mineirão por 3 x 1. Que nenhum camarada atleticano conte vantagem antes de que cheguemos às finais desta joça que, lembre-se, é a única brincadeirinha do futebol nacional que o Galo jamais ganhou. Se passar pelo Ceará o Galo deve jogar semifinais no Mineirão em 01 de junho, e aí com certeza o Biscoito transmitiria de lá naquela noite. Mas primeiro tem que despachar o Ceará.

PS 2 Soltei um leve veneno a um comentarista deste belo post do Roberson.

PS 3: Eu gosto dela.

PS 4: De alguma forma em diálogo com este post sobre rótulos políticos, o post de hoje do Inagaki está armado a partir das recentes trombadas Brasil-Argentina, nessa relação que se anunciava como tão promissora depois das eleições de Lula e Kirchner.



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 04 de maio 2005

Blog, Cidadania

Caso de um blog como exercício anônimo de cidadania: Foi a Lucia Malla quem foi lá e fez o post sobre um importantíssimo caso noticiado pelo Times: no laborátorio nuclear Alamos, nos EUA, um blog coletivo serviu como fomento de uma rebelião contra um chefe e como forma de exercício de cidadania, anônima ainda por cima, já que se tratava de cientistas, gente escolada em andar por aí sem deixar cookies. Formou-se debate, exerceu-se cidadania, via blog. Leia o belo post de Lucia Malla.

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Caso curioso envolvendo propriedade intelectual:

Biscoito Fino e Massa 1 x 1 Alemães ladrões de textos

Volto a contar o caso porque contei faz muito e porque há novidades. O InfoBrazil encomenda e eu faço um texto sobre o governo Lula. O texto é traduzido parcialmente, em dois lugares, ao alemão sem o meu conhecimento e sem o conhecimento do pessoal do InfoBrazil. Além de traduzir recortado e sem minha autorização ou a dos anfitriões originais do texto, os caras-de-pau dos alemães – provavelmente pensando o que pensou Rod Stewart de Jorge Ben, ou seja, deste cabra paraíba podemos roubar porque não vai inteirar-se – metem-lhe o titulo “Ein selbstverliebter Messias”, um “Messias muito apaixonado por si mesmo”, palavras que eu jamais usei para referir-me ao Presidente Lula. Enfiaram palavras num texto assinado por mim, simplesmente. Claro, não imaginavam que eu lesse a língua. Ainda na casa antiga, no UOL, eu berrei aqui no blog e mandei email enraivecido para as duas instituições. Fim do capítulo 1.

O email dizia basicamente: já vi que vocês fizeram isto, traduzam a porra toda com o título certo ou tirem-na do ar. A Freitag imediatemente tirou o texto do ar, escreveu desculpando-se e explicou que estavam acostumados a reproduzir artigos da Zmag (sem explicar porque o fizeram parcialmente e com título adulterado no meu caso). A Zmag havia surrupiado o InfoBrazil mas pelo menos mantido o texto intacto. Muito bem. O pessoal desta universidade, além de surrupiar o texto, não se dignou a responder o email. Ou seja, agiram de forma lamentável. Não vou fazer nada agora, mas não elimino a possibilidade de fazê-lo no futuro. Por enquanto, fique dito: a Universität Kassel rouba e deturpa textos de maneira grosseira para suas publicações. Fim do capítulo 2.

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Por falar em cidadania: liberdade, expressão, comunicação e blogoseira são os eixos do manifesto escrito pelo pessoal do Verbeat. O portal abriga belos blogs como os de Milton Ribeiro, Gejfin, Tiagón, Olivia e vários outros blogs bacanas que ainda não explorei. O Biscoito vai colaborar produzindo a versão castelhana do texto, que já está quase pronta.

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Ainda no campo blogs-cidadania: depois um começo meio atropelado como "blog-prog", que incluiu certa confusão e a patética aparição de um coitado de um espião que se desmoralizou completamente como um pobre infeliz, está funcionando muito bem o listserve de blogueiros de esquerda. Se você é blogueiro e se identifica políticamente como de esquerda, entre em contato.


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. . . o estudo mostrou que 16% (uma de cada 6 pessoas) da população dos EUA já lê blogs. É possível que algumas pessoas estejam lendo blogs sem percebê-lo
. A história inteira, em inglês, aqui.

Nos últimos seis meses aqui em gringolândia, o leitorado dos jornais caiu em 1,9%.


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Estarei mesmo em Sampa no fim de semana de 17-20 de junho, rumo a um congresso internacional em Araraquara. Passagem confirmada. Vários amigos blogueiros paulistanos já foram contactados para pelo menos um encontro no sábado dia 18. Vou usar o blog para armar essa pizza também. Dizem até que é possível que eu entreviste admiradas escritoras.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 29 de abril 2005

Vamos Culpar a Vítima?

Vejam a canalhice: o Comitê Executivo da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) reuniu-se nesta quinta e reiterou a bobajada de que tudo o que acontece no futebol deve ser julgado por tribunais desportivos. Sem nem sequer citar o argentino Desábato e o brasileiro Grafite, a vetusta instituição afirma que "Os órgãos disciplinares do esporte são os encarregados de julgar os atos que violam as regras de jogo da moral em campo, dentro das quais encontra-se o racismo". Parabéns! Julgá-los-ão quando mesmo? Obviamente é mais fácil que o Guarani do Inagaki ganhe a Libertadores da América que o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) puna algum dia um crime de racismo. Todo mundo que acompanha futebol com um mínimo de senso crítico sabe que o chavão de que nada do que ocorre dentro das quatro linhas deve ser tratado por tribunais não-desportivos só serve para perpetuar o poder da cartolagem corrupta.

O documento insultante vem assinado pela cúpula da Conmebol, incluindo-se o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, o mesmo que, depois do incidente com Grafite e Desábato, bateu no peito para dizer que racismo era inaceitável no Brasil. O link é este.

A minha pergunta é: onde está o Ministro dos Esportes agora? Onde está ele quando precisamos que diga ao sr. Ricardo Teixeira que ele está assinando na Conmebol um documento que contraria a lei brasileira, que prevê que o racismo é crime inafiançável e não é julgável por tribunal desportivo? Onde está a anta albanesa, que no dia do incidente quis ganhar pontos políticos fazendo cartinha que atacava um jogador argentino que estava atrás das grades? Onde está o pior ministro dos Esportes da história agora que a lei requer que ele contrarie seus amiguinhos da CBF? A confederação sul-americana implicitamente critica a vítima, o presidente da CBF assina embaixo e o ministro se cala, como vem se calando há tempos sempre que se trata de contrariar a cartolagem. Enquanto isso, as agressões racistas continuam acontecendo.

Não há dúvida: a gestão do futebol no governo Lula é um desastre. Todo o trabalho de José Luiz Portella foi jogado por terra.

Quanto ao clube argentino, sem dúvida o episódio baqueou os caras. Depois de perderem para o River Plate por 4 x 0 pelo Campeonato Argentino, foram ontem eliminados da Libertadores na Bolívia com gol contra de Desábato. Esse rapaz realmente entrou num período duro da vida.


Da série falaram de mim
Nos últimos dias, duas alegrias:
1. Luiz Biajoni, um dos mais talentosos escritores da nova geração, acorda com a imagem de uma faca no travesseiro, escreve uma beleza de relato e me dedica o conto. Obrigado, Bia.

2. O escritor argentino Alan Pauls – autor do melhor romance sobre o voyeurismo que conheço (El pudor del pornógrafo, 1987), autor de um dos mais inovadores romances policiais (El coloquio, 1990) desse país ríquíssimo em policiais – publicou em 2003 seu romance El pasado, um calhamaço de 550 páginas que acompanha 25 anos da vida de dois personagens. Só agora terminei de lê-lo. Eis que lá pela página 300 e poucos aparece um Idelber Avelar! É um tradutor, bizarro à beça e talvez metido em negócios escusos. Fala coisas muito insólitas ao telefone. Não dá nenhuma indicação de ser trotskista. Foi boa a experiência de ler o livro e bem estranha (mas gostosa) essa de ver-se retratado como personagem de ficção por um baita autor. Gracias, Alan.

Estamos na última semana de aulas, de defesa de teses e projetos de tese, e além de tudo semana de JazzFest em New Orleans. Emails atrasados, feedback atrasado, avaliações atrasadas, atraso é o nome do jogo. Ou seja, paciência com o blogueiro.

Curso da contística: Valeu a pena ter cancelado a última aula sobre os contistas contemporâneos publicados em livro e ter dedicado a semana a circular a alunada pelos blogs. A discussão em sala fechou com chave de ouro um semestre em que recebi um presente dos deuses: um grupo de 10 alunos inteligentíssimos, fluentes em português, com faro literário e com perfeita química uns com os outros. Baita seminário, foi esse. Na aula final, muitos contistas-blogueiros foram elogiados e nos proporcionaram momentos de bom debate. Este conto de Fal foi um dos favoritos. A meninada gosta de uma mulher que se ergue com classe nos escombros.

Aniversário-zinho: Não passará em brancas nuvens e será devidamente comemorado com lagostins e cervejinha. Há 20 anos, no dia 29 de abril de 1985, um fuleiríssimo (mas abençoado) cursinho de inglês chamado American Brazilian Center, no Baixo Belô (Rua Tupinambás), assinava minha carteira de trabalho como professor pela primeira vez. Eu tinha 16 anos na época e mal começava a dominar a língua que passava a lecionar. De la para cá não passei nem um único semestre letivo em branco. Vinte anos de magistério completados hoje! Saravá.



  Escrito por Idelber às 02:00 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 22 de abril 2005

Enquete - Cotas na Universidade Pública

O post sobre a questão racial continua recebendo comentários, e como o tema está longe de esgotar-se, eu pensei em oferecer algumas das minhas razões para apoiar as cotas para afro-descendentes na universidade pública e depois propor uma votação sobre um projeto imaginário. Eu li com cuidado todos os comentários e é à luz deles que vão meus últimos pitacos e a enquete.


1. Pensar no vestibular como medidor de “mérito” é risível. Dessa joça nós conhecemos o ganhador em quase todos os casos: os que tiveram dinheiro para colégios particulares. Decidamos como sociedade se queremos continuar filtrando o acesso ao ensino superior por esse joguinho de múltipla escolha para ricos bem-treinados e, muito ocasionalmente, pobres ultra-excepcionais. Eu não sou contra a meritocracia. Eu tenho outro conceito de mérito: um negro, pobre, que chegou ao 3º ano do segundo grau em boas condições de escrita, argumentação e cultura geral pode ter, para mim, um mérito maior que um milionário da zona sul de resultado dez pontos mais alto no vestibular, mesmo que este último saiba qual é a capital da Finlândia e aquele não. Não proponho que se deixe de medir pontos. Mas há que se manejar um conceito mais amplo de mérito, onde entrem outras variáveis além do número de x's corretos numa prova. O sistema de cotas temporário pode ser um bom instrumento para a reforma desse monstro, o vestibular.

2. Os laços afetivos que as cotas tendem a promover não são os que imaginam os críticos da iniciativa. A grande maioria dos efeitos afetivos das cotas seria positiva: mais conhecimento da realidade do outro, diálogo, turmas genuinamente inter-racias – que não são lá tão comuns assim nas principais universidades brasileiras, especialmente nos cursos de elite.

3. Sim, é possível que alguém seja agredido racialmente dentro da universidade sob o pretexto das cotas, claro, embora eu creia que aconteceria menos do que imaginam alguns. É ingenuidade pressupor que essa mui esporádica e hipotética agressão possa ser causada pelas cotas. Se acontece é porque a agressão já está lá. A agressividade não pode ser atribuída às medidas paliativas dos efeitos do racismo, ela é anterior a estas. A agressividade está relacionada ao próprio racismo, não às medidas de reparação. Que a agressão aconteça (e depois possa ser conversada, punida, etc.) parece-me preferível, inclusive, a que ela continue engarrafada e fermentando. O que não se pode fazer é ficar negando o problema e pôr a culpa na febre cada vez que a enfermidade aflora. Quantos Grafites, até que todos entendam que é obsceno culpar a vítima?

4. As cotas não “tiram” vagas de ninguém: o branco que foi eliminado e perdeu a vaga porque há um sistema de cotas para favorecer negros é uma figura imaginária. Ela satisfaz uma fantasia e não existe sociologicamente, pelo menos não é deduzível a partir de nenhum estudo. Há outras garantias de que o cotista está qualificado, inclusive porque a alteração produzida pelas cotas na nota necessária para a aprovação dos não-cotistas é mínima. Em cima disso, lembremos a dimensão do abismo: na melhor universidade da América do Sul, localizada numa cidade que é pelo menos metade negra e parda, como São Paulo, praticamente não há negros. Vamos esperar até que os lentos efeitos das reformas criem chances para a população negra daqui uns quatrocentos anos?

5. Meu amigo Smart Shade of Blue mencionou a possibilidade de que os professores sejam interna ou externamente forçados a avaliar melhor os cotistas, e que isso ajudaria a explicar os bons resultados observados na UERJ. A meu ver, há que se separar duas coisas aqui: como alguém que leciona há 20 anos eu digo que sim, um aluno que teve que enfrentar muitos obstáculos para chegar até ali provavelmente contará com uma simpatia extra que é natural. Mas daí a achar que essa simpatia natural não seria monitorada pela ética da profissão que traz cada um é achar demais. Achar que externamente pode haver existido pressão que tenha feito diferença estatisticamente significativa é muito prematuro, parece-me. Como disse muito bem Cláudio Simões: Professores podem ficar com medo de reprovar alunos cotistas pra não serem acusados de racistas? Alguns podem. Os inconscientes. Os professores de verdade vão procurar fazer desses alunos bons profissionais. E acredito que muitos destes alunos serão melhores profissionais do que alunos de algumas faculdades particulares que pressionam os professores para aprovarem alunos que não estudam somente porque esses alunos pagaram. Falou bonito.

6. Não se deve opor a política de cotas à reforma do ensino fundamental, aquela é parte desta. Como veterano de muitos e velhos debates sobre a educação, sei que a reforma do ensino no Brasil é projeto para muito tempo – gerações. Dessa reforma fazem parte paliativos como o bolsa-escola, mas também medidas de reparação imediata que, inclusive, teriam um grande efeito na própria reforma do ensino básico: mais negros na universidade também significa mais crianças negras com modelos reais de sucesso no ensino fundamental. Deu para sacar a relação dialética entre uma coisa e outra? Dá para ver a importância do empurrão inicial? Dá para ver que sem um empurrão na “mão invisível” do mercado essa joça não se move? E que movê-la é uma questão urgente?

7. As cotas também são um auxílio aos brancos e às classes média e alta brasileiras: nesses anos tentando escutar relatos, eu me convenci de que o branco brasileiro conhece pouquíssimo da realidade social dos negros, do preconceito cotidiano, da violência policial, da constante pressuposição de culpa do negro até que se prove em contrário. Seria um serviço imenso ao país ter uma classe média e alta mais consciente da realidade do seu outro. O contato na universidade pode ser chave.

8. O cotista traz saberes que o aparato universitário ainda não domina e portanto ajuda transformar a própria natureza do que ali se produz e reproduz. Alguém duvida que o ensino da história do Brasil, da antropologia, ou da música popular – para tomar três exemplos óbvios – não se transformaria e se enriqueceria significativamente com uma presença mais forte da população negra? Será que nós, da universidade, estamos realmente com essa bola toda? Será que podemos prescindir desse saber que vem da experiência do outro? Será que a abertura um pouco mais generosa das portas não é do nosso próprio interesse, do interesse de disciplinas que, com freqüência, se debatem em problemas abstratos, divorciados da realidade brasileira?

9. Razão definitiva e fundamental é a que eu chamo de ética, de razão que dá sentido às outras: a “dívida histórica”. O Brasil tem uma dívida de séculos com a população negra. Sim, com toda a sua população trabalhadora. Mas faz uma grande diferença ter sido escravo e não ter sido. Faz uma grande diferença ser vítima constante de violência policial arbitrária e não sê-lo. A dívida com o negro – exacerbada pelo preconceito que, sabemos, existe – é singular, é de natureza diferente. Isto não impede que se coloquem em ação outros mecanismos de reparação dirigidos aos pobres não-negros. Simplesmente significa que a universidade de alto nível no Brasil continua a não ter nada que ver com a composição étnica do país. E que sendo a universidade um dos (parcos, sabe-se) instrumentos de ascensão social, a restituição dessa “dívida histórica” com a população negra tem que passar por uma reparação na universidade. Temporária, entende-se. Até que ela não seja mais necessária.

Votação: Eu quero saber qual a porcentagem dos comentaristas concorda comigo. Imagine um projeto de lei que garanta para negros e pardos, ou afro-descendentes, 25% das vagas das universidades públicas, porcentagem ajustável para mais ou menos segundo a demografia do estado ou da cidade. Este projeto seria entendido como uma lei temporária por, digamos, 10 ou 15 anos. Você seria contra ou favor do princípio das cotas expresso neste projeto? Discordou, não deixe de registrar. Em cima do muro, a mesma coisa. Se, depois das abstenções, 40% da caixa estiver de acordo com o princípio da reparação via cotas temporárias na universidade pública, eu já acharia que valeu a pena e que foi uma conquista. Vocês com a palavra.



  Escrito por Idelber às 00:43 | link para este post | Comentários (110)



domingo, 17 de abril 2005

O Brasil Pós-Grafite, Racismo e Cotas

grafite.jpg

Qualquer que seja sua opinião sobre a prisão do jogador argentino Leandro Desábato por ofensas racistas a Grafite, não há dúvida que o episódio muda muita coisa no Brasil. Abre-se um precedente jurídico importante. De outros blogs e da ampla discussão que aconteceu aqui nos últimos dois dias, selecionei algumas citações:

Imprensa Marrom: Os brasileiros precisam tentar - pelo menos TENTAR - entender que o futebol não é algo sagrado. É um esporte como qualquer outro, pelo menos do ponto de vista jurídico. O árbitro de futebol não é uma “autoridade” no campo; seus poderes não são similares ao do comandante de um avião, por exemplo. Por fim, o crime de injúria, qualificada por ser ofensa racial, não pode JAMAIS ser tratado por um tribunal desportivo. O texto de Gravataí Merengue é muito lúcido. Quando o assunto é futebol, trabalha-se com a noção de que as quatro linhas estão suspensas no ar, não sujeitas às regras e leis extra-campo e que o árbitro é uma autoridade inquestionável. Uma das grandes formas de reprodução do poder obsceno que mantêm as cartolagens nacional e internacional é o dogma de que as leis da sociedade civil não podem imiscuir-se no futebol. A queixa de Grafite e o acatamento desta pelo delegado ajudaram a desestabilizar um dos grandes mitos nacionais: a inviolabilidade das quatro linhas.

Blogueiro Ricardo Antunes, aqui no Biscoito: ofensas racistas já aconteceram em jogos nacionais, sem que ninguém seja denunciado. Espero então que, a partir de agora, os racistas brasileiros sejam também punidos . . . Porque é fácil jogar um argentino que ninguém conhece na cadeia. Queria ver é fazer isso com o Diego, por exemplo, que em 2002, quando defendia o Santos, ofendeu o lateral Kléber, então no Corinthians. Concordo com o Ricardo que esse evento tem o potencial de mudar o grau de tolerância com a ofensa racista por parte dos atletas negros. É importante separar as duas coisas: o fato de que provavelmente o assunto teria passado incólume se o ofensor tivesse sido brasileiro não quer dizer que a denúncia de Grafite fosse menos válida ou que a coisa tivesse sido “armada”, como ridiculamente acusou o vice-presidente do Quilmes. Agora, sem dúvida o precedente coloca as futuras denúncias em outro patamar. Se Grafite, num jogo de Libertadores da América contra o respeitado futebol argentino, tendo sido expulso da partida, teve a coragem de denunciar a ofensa à justiça, é de se esperar que futuras vítimas sintam-se muito mais respaldadas. Isso só pode ser positivo.

Blogueiro Emerson, que esteve no Morumbi, no Biscoito: Ali, na hora, não entendemos o porquê de sua expulsão mas, sei lá, intuitivamente, aplaudimos e gritamos seu nome mesmo sendo expulso. Um comportamento anormal esse, pois a torcida do São Paulo mais vaia do que aplaude. Findo o jogo, descobrimos que fizemos a coisa certa ao aplaudir o Grafite. Para quem está preocupado com os próximos jogos de brasileiros na Argentina: nada acontecerá, tirando, talvez, mais vaias e xingamentos. Concordo em gênero, número e grau. Eu já vi situações semelhantes às descritas pelo Emerson, nas quais a expulsão de um jogador por revidar ao ter sua honra atingida foi aplaudida pela torcida. Concordo com Emerson no que se refere ao jogo de Buenos Aires pelas eliminatórias: será um jogo tenso, não há dúvida. Mas quem acha que o poder público argentino estará armando ‘armadilhas’ para levar alguém preso não conhece a diferença entre a Argentina de Carlos Menem e a Argentina de Néstor Kirchner.

Blogueira Daniela Silva, no Biscoito, desmontando mais uma vez o pedestre argumento de que no Brasil não há preconceito racial, só econômico: A discriminação existente no Brasil é econômica? Tsc tsc tsc, que argumento elementar!!! Quer dizer que, se a pobreza acabasse num toque de varinha de condão o racismo iria junto? Quer dizer que negros mais abastados, de classe média não sofrem preconceito? Ah, então diga isso pro guarda que me para todo dia na porta do shopping onde fica a minha academia e pergunta pra onde eu vou(são 6 da manhã e o shopping está fechado). Engraçado é que eu estou com roupas de ginástica e ele não para nenhum dos brancos. Vai ver ele acha que alguém da minha cor não pode pagar aquela academia. Mas, perái, o preconceito não é econômico?? Como em todas as outras intervenções aqui, Daniela foi ao cerne da questão. Está mais que provado que 1) a exclusão econômica atinge desproporcionalmente a população negra; 2) que a intimidação e a violência policiais, para não ir mais longe, atingem preferencialmente a população negra; 3) que as várias formas de desigualdade social se reproduzem racialmente também. Por isso não há o menor sentido em se discutir, por exemplo, se “branquelo de merda” ou “alemão-zão de merda” seriam igualmente imputáveis como crimes racistas. Trata-se de um reductio ad absurdum. Quem arma um argumento assim não vive na realidade, vive na sua própria medrosa fantasia. Ninguém nunca foi escravo no Brasil por ser branco. Os brancos não têm que lidar cotidianamente com práticas de exclusão baseadas na cor da pele. Pelo que me lembro, não é comum em língua portuguesa agredir alguém com termos como branco sai daí ou branco, você não vale nada. Tampouco é comum que se peça a alguém que troque de elevador por ser branco. Em outras palavras, quem quer sufocar a discussão sobre o racismo criando simetrias-zinhas falsas com expressões que nunca feriram os brancos está simplesmente fugindo do assunto. Na maioria dos casos porque se sente incomodado com o tema, acha que sabe algo sobre ele, e não tem humildade de escutar as vítimas reais.

Foi o que disse brilhantemente Cláudio Simões aqui no Biscoito: Daí que achei ridículo o argumento de algumas pessoas de que o próprio nome que o jogador escolheu, Grafite, já é ofensivo. Pra mim, pouco importa se o nome tenha vindo do ato de grafitar ou da substância. Ele escolheu ou assumiu e, a partir daí, não há nenhuma intencionalidade de ofensa. Como não há ofensa quando Gilberto Gil batiza a filha de Preta, ou o cantor se chama de B-negão ou Brown. Pelo contrário, há aí uma afirmação da diferença, o que passa longe do preconceito. Em segundo lugar, a ofensa, como no caso do jogador, está na junção da palavra "negro" com a expressão claramente ofensiva: "de merda". É portanto uma ofensa com intenção racial, punida por nossas leis. O Grafite teve a coragem de denunciar e fez muito bem. Para os que experimentam cotidianamente a agressão à sua humanidade pela cor da pele, é lógico que um ataque como o que sofreu Grafite não é só a junção da palavra "negro" + a palavra "merda". A operação racista promove uma identificação entre essas duas palavras, que remete a uma história específica de escravidão, exclusão, discriminação.

Será que é tão difícil entender isso? Será que a maioria dos brancos brasileiros continuará agindo de maneira nervosa e defensiva quando o tema é discriminação racial? Será que não está faltando a humildade de sentar e escutar as vítimas um pouquinho? Parar de pressupor que se sabe o que é racismo sem nunca ter sido vítima dele? Que tal se todo mundo que argumentou aqui contra as cotas para negros nas universidades tomasse os próximos dias para conversar com um secundarista ou universitário negro sobre o assunto? Que tal se todos os que criticam a iniciativa procurassem informar-se sobre os resultados da UERJ, que mostram que os cotistas tiveram aproveitamento em média superior aos não cotistas? Que na verdade a convivência foi não só excelente como instrutiva para os não-cotistas, que insistentemente disseram que tomaram contato com realidades que não conheciam?

No momento em que a blogueira Daniela ofereceu links que levavam a estudos sobre o tema das cotas, o blogueiro Ricardo Montero – que é amigo do Biscoito – respondeu dizendo: não vou acessar seu link por já ter pesquisado o assunto quando escrevi alguns artigos para o jornal do Centro Acadêmico de Direito/USP, há uns três anos. Ora, em qualquer universidade séria, se eu disser que não vou olhar uma referência bibliográfica porque há três anos escrevi sobre o assunto, vou receber uma gargalhada na cara. Diga-se de passagem que foram nos últimos três anos que nós, apoiadores das cotas para afro-descendentes, vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos feitos tanto no Rio de Janeiro como na Bahia.

E no entanto, a atitude da grande maioria das pessoas que se propõe a combater as cotas para afro-descendentes tem sido: não ler a bibliografia disponível, bater pé em que as cotas “criariam discriminação” mesmo quando todos os estudos sugerem o contrário, insistir que “seria impossível porque brancos se aproveitariam disso” (como se tais brechas não existissem em tudo quanto é lei de reparação ou redistribuição social), argumentar que “no Brasil é impossível saber quem é realmente negro”, como se essa dúvida alguma vez existisse quando se trata de violência policial ou de uma discreta sugestão de que se use o elevador de serviço.

Em outras palavras: dizer sou contra as cotas porque sou contra o racismo é uma asneira sem tamanho, só enunciável por quem não tem idéia do que é ser vítima de racismo - eu não digo que eu a tenha, mas digo que nos últimos 20 anos tenho tentado ler um pouquinho sobre o tema e acima de tudo escutar o relato da experiência de quem é vítima. Acredite-se, igualar racismo com medida reparatória a favor de vítimas do racismo é uma triste fantasia do privilegiado que quer continuar cego ante seu privilégio. É uma operação pobre, moral e intelectualmente. Igualar 450 anos de discriminação, séculos de escravidão, constante desumanização da população negra, violência policial e elevadores de serviço, igualar tudo isso a uma medida reparatória, chamando as duas coisas de “racista”, é pura e simplesmente recusar-se a discutir a questão com um argumento de má fé.

Em suma, não tenho nada contra brancos. Inclusive, alguns dos meus melhores amigos são brancos. Não me importaria, de forma nenhuma, que minha filha se casasse com um branco. Mas acho que entre os brancos brasileiros ainda falta relaxar geral sobre o tema raça. Ele não vai desaparecer. Se quiser criticar a iniciativa das cotas, sou todo ouvidos. Agora, nesta discussão eu só presto atenção aos argumentos de quem procurou informar-se e refletir um pouquinho sobre o tema. Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo.

Que tal se todo mundo procurasse hoje ou amanhã ouvir o depoimento de alguém que já foi vítima de racismo e ler um pouquinho sobre o assunto? E voltasse aqui para falar do tema das cotas? Não acho que todas as pessoas sensatas tenham que defender políticas estatais reparação para a população negra, como o fazemos eu e Daniela. É possível ser contra as cotas com argumentos bem-informados. Mas ainda não foi o caso de nenhum que eu tenha ouvido aqui neste Biscoito.

PS 1: Alexandre Cruz Almeida morreu e nasceu Alexandre Castro; com este nome o enfant terrible blogará e doutorar-se-á. Quem puder, que deixe lá votos de axé ao novo nome.

PS 2: Dentro de algumas horas pego o avião para Williams College para dar duas palestras, uma sobre Chico Science e outra sobre o tema da violência. Só volto na terça-feira. Nesta segunda e nesta terça haverá blogueiros convidados no Biscoito. Quem serão? Aguardem.



  Escrito por Idelber às 00:07 | link para este post | Comentários (68)



sexta-feira, 15 de abril 2005

Sobre a ofensa racista a Grafite, a prisão de Leandro Desábato, o racismo no futebol e as trapalhadas de Agnelo Queiroz

argentino-preso-2.jpg

Quilmes e São Paulo jogaram anteontem em São Paulo pela Libertadores. O jogo da Argentina havia registrado agressões racistas aos jogadores negros do São Paulo, pelas quais o clube cervejeiro argentino desculpou-se numa carta enviada ao Tricolor que, por sua vez, devolveu ao Quilmes um aceite do pedido de desculpas. Tudo isso antes da peleja de anteontem.

Aí a coisa aconteceu pela segunda vez, desta feita em território pindorâmico: Leandro Desábato xingou mais de uma vez, com epíteto racista. Grafite, que foi expulso do jogo por reagir com agressão, apresentou queixa. O delegado Dr. Nico, depois do jogo, acatou e prendeu Leandro. O argentino já passou duas noites em cana e deve ser liberado depois de fiança nesta sexta. Não se sabe quanto tempo terá que ficar em território brasileiro para trâmites legais. O crime de racismo é inafiançável no Brasil, mas Leandro foi enquadrado em crime de injúria com agravante em discriminação racial, este sim, fiançável.

O evento ocupou a página de esportes da Folha, do Globo e foi notícia no New York Times. Já é, sem dúvida, um caso que estabelece precedentes.

Como acontece sempre que uma vítima de racismo busca amparo legal, alguém tem que dizer um absurdo, e dessa vez quem se prestou a isso foi Marcelo Tas que, mal iniciado o desenrolar do episódio, falou de "tempestade em copo d'água" e decretou que acusar o argentino de racismo como se o cara fosse um Hitler, pra mim passou do ponto. A partir daí, Tas passou a ser esmigalhado pelos seus próprios leitores, por ter tão monumentalmente perdido a oportunidade de ficar calado.

Eu jogo futebol. Há uma diferença enorme entre dizer coisas como negão, maneire na caixa de ferramentas ou você quer sair na porrada, nêgo? e chegar na cara de um ser humano e dizer negro de mierda ou negrito ou negro safado, especialmente num contexto onde, na partida anterior e conforme admitido em carta de desculpas do Quilmes, já havia rolado a palavra macaco e a sugestão que se enfiasse banana em algum lugar.

Ora, meu amigo, não pode. No território da República Federativa do Brasil não pode. É lei. É lei porque ofende outro ser humano na dignidade dele. E a palavra “macaco” ou a expressão “negro de merda” só é proferida com intenção de ferir nessa dignidade. Por isso não pode.

Daí ser falsa a “explicação” de que a palavra “negro” não é “ofensiva” na Argentina. Ora, Daniel, eu falo castelhano com argentinos há 15 anos e lhe digo que não há grande diferença entre a semântica e a pragmática da palavra negro/a no castelhano de Buenos Aires e no português do Brasil. Há uma diferença na quantidade de seres humanos de raça negra e há várias diferenças culturais, com certeza. Mas não há grandes diferenças na palavra. Também no Brasil a palavra pode ter “sentido carinhoso” e também no Brasil pode ser usada “sem” conotação racial. O sentido da palavra negra é exatamente o mesmo em vou dar um sacolejo na minha nêga e em me llevo mi negra a la parranda. É a mesmíssima coisa.

Mas não foi isso que rolou no Morumbi. Ocorreu ofensa em cima de uma agressão racista que já havia rolado e sido desculpada por escrito pelo Quilmes.

Durante toda a tarde desta quinta, o Clarín fingiu não saber ou enganou-se, dizendo que Desábato havia sido preso por chamar Grafite de “negro”, manchete que foi mantida horas depois que o jogador já havia admitido haver dito muito mais. A cobertura do La Nación foi mais isenta. [Permito-me um adendo a este parágrafo às 14:30 de Brasília: é um pedido de desculpas ao meu amigo e blogueiro argentino Daniel Link que havia se referido com ironia ao argumento do cônsul argentino sobre a "inocência" do epíteto. Eu li o post de Daniel como se o dito lá fosse literal. Agradezco la corrección.].

Diz o Globo:

A versão do Grafite, que é corroborada em parte por imagens de TV, é de que o atleta argentino o chamou de filho da p..., negro de merda e negrinho. Já o jogador argentino disse que, durante a viagem, ouviu dizer que Grafite comemoraria um gol fazendo uma banana e, por isso, teria apenas mandado ele enfiar a banana - explicou o advogado do São Paulo, José Carlos Ferreira Alves.

Desábato confessou, em depoimento, ter chamado Grafite de 'negrito de mierda', confirmando também a referência à 'banana', conforme consta no boletim de ocorrência, assinado pelo jogador.

Há muitas testemunhas de como Desábato é uma pessoa super bacana. Parece que mais uma vez, ironicamente, a primeira aplicação de uma lei pega alguém de forma meio sacrificial. Mas isso não altera a justiça da aplicação da lei. Desábato foi simplesmente o primeiro a ser pêgo, porque Grafite foi lá e denunciou.

Achei que seu Nico, o delegado, agiu corretamente acatando a denúncia. Havia suficientes provas. Levaram o jogador direito, alimentaram, trouxeram policiamento para que o plantel do Quilmes saísse do Morumbi. O cônsul argentino foi à delegacia prestar assistência e fez a parte dele. Até aí tudo bem.

Aí às 17:21 o UOL noticia que a anta monumental, o ministro dos esportes que não sabe a diferença entre uma bola de gude e uma bola de basquete, o pior ministro dos esportes desde que o ministério foi inventado, o ministro dos esportes sob o qual a cartolagem corrupta recuperou todo o poder que havia perdido sob o ministro anterior, a anta albanesa divulga nota à imprensa politizando o incidente, atacando o jogador argentino que já estava sendo punido da forma legalmente cabível, e arvorando-se em paladino da causa do fim do racismo no esporte. Exatamente o que a República Federativa do Brasil não precisava neste momento: palhaçada do ministro stalinista que “comanda” o esporte sem saber o que é um centroavante. Realmente as cotas do PC do B neste governo são um desastre: um ministro da coordenação política que quer banir a palavra linkar e um ministro dos esportes que se dedica a atacar, para proveito político, um cidadão estrangeiro já preso em terrítório nacional.

Eu estava disposto a comprar briga com a imprensa argentina pela cobertura: ir lá no Clarín, especialmente, escrever cartas e tal (não vou brigar com o Olé, claro). Mas depois da palhaçada desse ministro resolvi que meu papel de cidadão brasileiro seria vir ao blog e

1) apoiar a decisão do delegado;
2) lembrar a todos que é importante observar rigorosamente os trâmites de lei e dar todas as garantias e boa vontade ao Leandro Desábato, que se arrependeu e encarou a situação com dignidade e cabeça erguida;
3) repudiar, repudiar com ênfase infinita, essa carta imbecilóide do Ministério dos Esportes, ministério que tem, deste blogueiro, nota zero pela sua performance até hoje.

Num contexto em que os incidentes racistas passam a ser mais denunciados no futebol da Europa, é certo que este caso estabelecerá precedentes. Num contexto em que o Corinthians Paulista transformou-se em Timón, o episódio acendeu a antropologia racial comparada entre os jogadores.

São 4:00 da manhã em Nova Orleans, 6:00 da manhã em Brasília. Eu sinceramente desejo que o presidente Lula escolha manter silêncio sobre esse episódio.

O papel de discussão é da imprensa, dos blogs, da sociedade civil, não dos políticos proselitistas que deveriam estar governando e não imiscuindo-se num caso que já está na justiça.

Dois lembretes: 1) quaisquer ofensas racistas aqui são apagadas (nunca aconteceu, ainda bem); 2) quaisquer ofensas ao povo argentino e à República Argentina são sumariamente apagadas também (já aconteceu uma vez, infelizmente).

Sei que esses lembretes não são necessários para 99.5% dos leitores do Biscoito, mas eles são feitos em beneficio dos outros 0.5%, porque espero uma caixa de comentários bem animada nesta sexta.

Vocês com a palavra. Debatam à vontade.



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segunda-feira, 04 de abril 2005

Caso Importante na Suprema Corte Americana envolvendo Direito Intelectual

É um caso que vai estabelecer precedentes no tratamento da lei de copyright, portanto é bom acompanhá-lo de perto: a Suprema Corte dos EUA começou a ouvir esta semana os argumentos do processo MGM versus Grokster. Mais uma vez posando de defensor dos criadores intelectuais, o cartel do entretenimento, capitaneado pela MGM, quer fazer o sofware Grokster responder pelas trocas ilegais de arquivos feitas na internet com o programa. Os advogados do Grokster argumentam – logicamente – que o programa foi desenvolvido para usos legais e que os criadores do software não tem controle sobre os usos dele feitos na internet. Impugná-lo porque há usos ilegais do mesmo seria como ter proibido a máquina de xerox quando ela foi inventada.

Há tempos a indústria do entretenimento vem tentando estrangular o compartilhamento de arquivos na internet, fazendo dele um bode expiatório para a severa crise que atravessam as indústrias discográfica e cinematográfica. Lembremos o óbvio: não há nenhuma prova de que haja uma relação causa-e-efeito entre o desenvolvimento de tecnologias de compartilhamento de arquivos online e a paulatina queda das vendas da indústria de discos e de bilheterias na indústria de filmes.

Espera-se uma decisão final no MGM v. Grokster para junho ou julho. O Biscoito, interessado em questões de copyright e direito intelectual, acompanha de perto.

PS de esporte 1: O Biscoito comemora seu primeiro acerto nas previsões para os campeonatos estaduais. Em fevereiro contrariamos os especialistas e previmos corretamente que o caneco iria para o São Paulo, que faturou ontem o título com duas rodadas de antecedência.

PS de esporte 2: O Biscoito saúda Lucia Malla e toda a torcida do Fluminense, pela bela tamancada de ontem no Flamengo. Como é linda essa camisa do Flu com listras verticais verde, grená e branca. Que os amigos flamenguistas não fiquem bravos: pelo time que tinham, sabem que chegaram longe demais.

PS de esporte 3: Eu passei pelo site Colorado Portão 8 e fiz o vestibular da história do Sport Club Internacional. Olha que chique: acertei todas as vinte perguntas, e juro que não "guglei" nenhuma.

PS de esporte 4: A TV a cabo brasileira passa o jogo final do basquete universitário estadunidense? Ele acontece na noite desta segunda, às 8:40, horário da costa americana leste, 11:40, horário de Brasília. Se for passar, eu recomendo mesmo. É muito bom.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 21 de março 2005

POLÍTICA E DESENCANTO

Há 72 horas eu deixei aqui uma pergunta, não mais que uma pergunta -
acompanhada de um raciocínio no condicional em sua defesa. Era a pergunta pelo voto nulo: a besta, a chutada de balde, a mandada à merda, a “alienação” , “niilismo”. Já recebi quase uma centena de respostas. Clóvis Rossi, da Folha, me diz por email: sou contra voto nulo. Seria mais útil que os blogueiros se organizassem para criar/reformar/revolucionar um partido político e com ele disputar a eleição para mudar. Voto nulo não muda rigorosamente nada. abs. Sempre gentil é o Clóvis, mas eu lhe respondi que, depois de 22 anos de PT (9 aí realmente envolvido, 13 aqui nos EUA), eu não tenho saco, e quem entre vós já passou 20 anos construindo um partido que tenha virado o que o PT virou, ora bolas, que atire a primeira pedra. É como disse a leitora Gin , patrulhe quem quiser - não é o caso de Clóvis, claro, nem de *quase nenhum* dos leitores que se manifestaram aqui, mas o tema voto nulo ativa uma legião de patrulhadores. Eu não sei se votarei nulo em 2006, mas pedra nos que votarem este *Biscoito* não atirará. Bem vindos aqui sempre serão os discípulos de Bakunin. Há anos eu venho escrevendo sobre a necessidade de se *criar um lugar para o afeto na política* e os que se expressaram aqui simpáticos ao voto nulo manifestaram *afetividade* que está faltando, em geral, nas discussões políticas que ouço por aí. Eu acredito nos blogs como resgate dessa afetividade.

Tony Pereira passou por aqui e disse que (traduzo) é impossível saber o impacto que isso poderia ter. Essa impossibilidade de se prever o resultado do ato político é sempre chave para mim. Por isso não aceito a pergunta “o que conseguiríamos com isso?” Ora bolas, se o soubéssemos já não valeria a pena experimentá-lo. A pergunta teleológica antecipando-se à ação nunca me atraiu. Mas também tem razão Tony ao dizer que a história do abstencionismo na esquerda não nos autoriza a ser muito otimistas. Smart [link] levanta um lado interessante, o referendo e o plebiscito como instrumentos de intervenção política. Como afirmei na resposta a um leitor: este blog acredita na conjunção E, em fazer uma coisa E outra. Lançar um par de plebiscitos que confrontassem o petismo com suas traições históricas não seria má idéia. Rafael Galvão dedicou um maravilhoso post à discussão. Numa primeira versão Rafael havia sido injusto comigo, ao dizer que eu “havia pregado” voto nulo. Quando compartilhou o texto comigo por MSN, eu lhe assinalei isso e Rafael trocou o “pregar” pelo verbo justo, que era “considerar” – isto, garotos, chama-se *debater em boa fé*. O dia que eles wunderaprenderem a fazer isso eles chegarão aos calcanhares de Rafa e de Smart. Não discordo dos argumentos de Rafael contra os que “não votaram nele porque ele iria mudar tudo e agora descem o sarrafo porque ele não mudou nada”.

Mas não acho que a decepção seja uma questão de “falhas” ou “falta de
coragem” ou “de vontade” do governo - que são os três eufemismos que
usa Rafa. Para este blogueiro houve *traição profunda*. É uma diferença filosófica fundamental. Também não é correto, como diz Rafa, que Heloísa Helena tenha abandonado o time aos 5 minutos do 1º tempo – a não ser que consideremos a indicação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central como parte da mera preliminar do jogo. Ora, quando você indica um sujeito como o presidente do BankBoston e lhe confere autonomia abençoada pelo monetarismo paloccista, bem, amigo, você está bem prá lá dos 5 minutos do *segundo* tempo, com o jogo perigosamente definindo-se em favor do time adversário, e com o seu próprio treinador mandando que você recue mais. A sequência de desastres entre Aldo e Zé
Dirceu, reconhecida pelo próprio Rafa, foi instaurada por essa dinâmica, de manter quadros históricos com a responsabilidade de justificar a traição à história. É ingenuidade crê-la mera falha técnica.

Por outro lado, Rafael tem razão ao dizer que dificilmente Lula deixará de se reeleger. Portanto, depois de 72 horas, que tal inverter o jogo? Ao invés de eu e os leitores simpáticos ao voto nulo oferecermos razões pelas quais ele pode ser relevante, que tal algum dos eleitores de Lula oferecer uma única razão, encontrável nestes últimos 27 meses, pelas quais nós devemos considerar a possibilidade de votar nele? Rafa nos pergunta o que conseguiu Heloísa Helena saindo do governo. Nós retrucamos: o que conseguiram Marina Silva e Miguel Rossetto *ficando* no governo? Será que algum dos eleitores governistas amigos nossos nos ajudará a empurrar em um centímetro a medieval discussão sobre o aborto entre essa padraiada, esses delúbios do PT? O que será que os eleitores de Lula têm a dizer às dezenas de mulheres que se manifestaram aqui ou por email com simpatia pelo voto nulo?

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  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post



sábado, 19 de março 2005

Voto Nulo, Blogagem, Mulher, Ciber-formas de Protesto

(impossibilidade, dificuldade de começar o post, teu nome é mulher: descoberta estupefata e orgulhosa de que 70% dos que escrevem neste Biscoito nas últimas semanas são do sexo feminino, que 60% dos blogs à esquerda são escritos por mulheres; no dia de intensa discussão sobre o voto nulo, primeira visita dos ¡Drops da Fal! ao Biscoito; blogueiro que se derrete de metido)

Resumamos, então: Há 24 horas o *Biscoito Fino e Massa* colocou a
pergunta sobre um possível voto nulo para presidente em 2006. Desde
então, 687 diferentes IPs estiveram aqui. 42 pessoas deixaram 47
mensagens diferentes e outras dezenas enviaram-me emails. O que estas
dezenas disseram? Nem me pergunte, amigo, há de tudo.Consideram o voto
nulo, junto com o *Biscoito*, Guto, Elisa, Púrpura, Alline, Ana Lucia, John, Tiagón, Fefê, Lilian, Silvia, Helena, outros blogueiros e leitores. Não eliminam a possibilidade de anular Cláudio Simões, Luanna, meus amigos Dr. Cláudio Costa, Milton Ribeiro e outros leitores. Resistem à idéia os blogueiros Smart, Fernando, Horvallis, o leitor Umberto. Rafael Galvão deixou claro que não a considera, e escreverá sobre o assunto. *25 leitores* se disseram já prontos para anular ou dispostos a considerar a hipótese de anular em 2006. Outros 11 leitores se manifestaram fortemente, ou ligeiramente, contrários à idéia. Outra dezena se manifestou neutramente ou sobre outras coisas. Fora tudo o que eu recebo por email. No blog de um antigo membro do PT, o voto nulo ganha de Lula 2 por 1 nem bem entrado o terceiro ano de governo. Tiremos as conclusões deste fato. Que vergonha que este seja um fato. Sinal de um profundo fracasso do governo Lula, um acomodamento seu em sua mediocridade.

80% das leitoras mulheres que se manifestaram na caixa de comentários
e/ou por email reforçam ou tendem ao voto nulo*. Será coincidência? Não sei, mas lembremos que este Biscoito já registrou, em semanas
passadas, a lambança que faz o governo do PT na área de direitos das
mulheres. O sr. mais identificado com a reflexão do PT sobre os
“direitos humanos” (Dr. Hélio Bicudo) não *aceita nem discutir *com o
maior jornal do país a questão do aborto, nem mesmo em casos extremos.
Ou seja, para a intelligentsia responsável pela compreensão jurídica do que são “direitos humanos” no governo brasileiro, os direitos das
mulheres sobre seus corpos não fazem parte da brincadeira. Aos que
apresentaram o argumento de que o voto nulo pode ser *perigoso*,
acreditem: o blogueiro está refletindo sobre isso. Há anos eu reflito
sobre a palavra *perigo*. Em alemão, por exemplo, Gefahr (perigo) tem uma relação etimológica com Erfahrung (experiência). Ou seja, só há experiência genuína se há perigo. A filosofia de Heidegger não é senão uma exploração dessa relação por dezenas de milhares de obsessivas páginas. Votar em Lula era *perigoso* em 1989, e quem me dirá que não teria sido preferível uma vitória ali, por oposição à pseudo-vitória de 2002?.

Perguntas: Sabem qual é o mínimo necessário de votos nulos para anular uma eleição? Conhece casos? Há algum candidato que faça com que você *desconsidere* o voto nulo? Quem conhece casos da esquerda brasileira ou internacional de voto nulo, e qual é o balanço que se faz deles? Não poderá o voto nulo contribuir a um rearranjo do quatro partidário, impondo um sacolejo ao PT e ao PSDB?



  Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post | Comentários (2)



sexta-feira, 18 de março 2005

Você apoiaria uma campanha pelo voto nulo em 2006

Tanto a cientista política Lucia Hippolito como o jornalista Ricardo Noblat já notaram que:

A campanha pelo voto nulo começa a ganhar espaço na imprensa, em cartas de leitores, em e-mails de ouvintes e em movimentos de internautas.

Considerando que:

1) o voto nulo, como movimento organizado da sociedade civil, pode ser
uma forma legítima para que o eleitorado expresse seu descontentamento
com a progressiva desaparição de toda a diferença entre os projetos
políticos colocados na mesa;

2) o atual governo completa 27 meses não tendo melhorado nem um único
mísero índice social,
tendo aplicado a mesmíssima receita ortodoxa, monetarista e
concentradora de renda do governo anterior e utilizado todos os seus
métodos mais fisiológicos, inclusive com extensa evidência de acobertamento de crimes;

3) o Partido do Trabalhadores chega ao cabo de um processo de
liquidação completa de sua democracia interna;

4) o quadro partidário brasileiro mostra a consolidação de dois blocos
(PT junto com PL, PP, PC do B e PTB, do outro lado PSDB junto com PFL e PDT, com migalhas do PMDB caindo dos dois lados) *absolutament
idênticos em sua política econômica, prática política e pautas (não)éticas;

Considerando tudo isso, não espanta que vários setores da sociedade
civil e da blogosfera, incluindo o *Biscoito Fino e a Massa*, estejamos considerando participar de uma campanha cívica pelo voto nulo de protesto em 2006, não só para presidente como para os cargos
legislativos também.

Não me cobrem, por favor, que eu *saiba* de antemão o que se conseguiria com uma acachapante, escandalosa porcentagem de votos nulos em 2006. Não sei. Mas uma multidão votando nulo de forma organizada *pode produzir algum movimento.

Caso você seja contra, por favor poupe-me do cliché de que é importante votar em Lula para que a “direita” não volte ao poder. A direita está no poder. Se for criticar a iniciativa, eu sou todo ouvidos (ainda estou tomando minha decisão), mas apresente um argumento mais inteligente.

Eu confesso que morro de curiosidade: Você está também considerando a possibilidade de anular seu voto em protesto? Você participaria de uma campanha pelo voto nulo? Seria receptivo a ela?



  Escrito por Idelber às 01:12 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 08 de março 2005

A puxada de tapete a Suplicy

Como sabem os que acompanham a escalada da podridão interna nos bastidores do PT, há mais de um ano parte do Komintern petista de São Paulo maquina um golpe contra Eduardo Suplicy para tirar-lhe a indicação ao senado. Os artícifes são pessoas de cuyo nombre no quiero acordarme, mas vocês já imaginam, não é, se não imaginam continuem lendo.

Pois bem, chega-me informação de uma fonte muito boa – que obviamente
não é um jornal brasileiro – dizendo que nos últimos dois ou três dias
*suspendeu-se* este plano de puxar-lhe o tapete, não porque o Komintern petista tenha ficado ético ou criado vergonha na cara do dia prá noite, mas porque receberam pesquisa interna confirmando que qualquer candidato petista ao senado que não fosse Suplicy seria *esmagado* por G. Alckmin caso este decida candidatar-se (hipótese não necessariamente provável, mas possível). Até onde eu pude averiguar, os blogs jornalísticos e as versões online dos jornais não disseram nada sobre esse recuo ainda.

Aos amigos que acham que não devemos expor a progressiva chafurdada na lama do PT, com medo de que “a direita” ganhe pontos com isso, poupem minha inteligência: o rei está nu já há bastante tempo.

Minha pergunta é: algum jornal brasileiro já noticiou a suspensão do
golpe contra Suplicy, que não era segredo e já vinha sendo noticiado há mais de ano? Alguém tem informação sobre isso? Eu tenho alguns outros lugares onde posso tentar confirmar este dado, mas senti vontade de ver se alguém entre os leitores do *Biscoito* poderia ter informações frescas sobre mais esse capítulo da completa desmoralização do partido que eu ajudei a construir.



  Escrito por Idelber às 17:59 | link para este post



domingo, 06 de março 2005

Morreu Gladys Marín

O Biscoito Fino e a Massa se junta aos milhões de chilenos que hoje estão chorando a morte de Gladys Marín. Quem lê o *Biscoito* já sabe que isto estava por acontecer.


Gladys, a comunista, /la dirigenta, como le decían/. Mulher
[link] que a ditadura sempre
odiou e nunca conseguiu destruir, mulher
[link] que conheceu o
sacrifício *indizível* de separar-se dos filhos *para* salvá-los, ela
sabia levantar uma multidão só com o poder da sua voz. Eu me orgulho
*demais* de tê-la visto de perto.

Uma vez eu tive a chance, fomos oradores no mesmo colóquio: ela havia
arrancado lágrimas dos meus olhos com sua fala. Uma multidão a esperava do lado de fora. Desisti de ir atrás. Mas fiquei olhando: a aura que emanava de sua figura era poderosíssima.

O *Biscoito* celebra o fato de que *Gladys Marín* morreu rodeada do amor dos seus e do amor de tanta gente pelo mundo, enquanto que o *verme tinhoso* se arrasta desmoralizado, fingindo-se de louco para não ser preso como assassino e ladrão.

Eu dedico esta festa que estamos fazendo com a música brasileira a
*Gladys Marín*, uma das mulheres mais extraordinárias da história
recente da América Latina, e convido meus compatriotas a conhecerem um pouco sobre a vida singular, impecável de Gladys, em circunstâncias dificílimas. Evoé, Gladys, descanse em paz.
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  Escrito por Idelber às 18:51 | link para este post



quinta-feira, 16 de dezembro 2004

Punindo as Pororocas Pátrias III

(/terceiro e último post sobre a lei 1676/1999/)

Depois de publicar o post abaixo, sobre a lei Aldo Rebelo, que quer
criminalizar as pororocas pátrias com as de outros idiomas, tive várias
surpresas agradáveis. O Nemo já havia feito um *post sobre o assunto*
[link] e o Alexandre havia
feito *outro*
[link] .
Ambos no mesmo espírito de repúdio à tutela estatal sobre a língua. Na
caixa de comentários do *post mais recente*
[link]
do Alexandre sobre isso, há uma conversa interessante também.

*Esclarecimentos*

Óbvio que como qualquer falante da língua, tenho minhas opiniões sobre
estrangeirismos particulares. A questão não é essa, e sim passar um
cheque em branco para que um Komintern decida punições aos que não se
adequarem à norma determinada. Invariavelmente, todas as vezes que o
estado se propôs regular a língua, as consequências foram nefastas e se
fizeram sentir muito além da língua.

*Exemplos práticos*

´Printar´ e ´startar´ eu acho que não sobrevivem e não precisam do
empurrãozinho do Rebelo.

´Deletar´ eu já acho bonitinho. Minha prima M., de 14 anos, me dizia
anteontem, logo depois de eu ter feito o post: ´Deletei Paulinho da
minha vida´. Eu caí na gargalhada por causa da coincidência. Expliquei a
polêmica a ela. M., inteligente que é, veio com a resposta perfeita:
´esses políticos não tem mais o que fazer não?´ ´Deletar´ eu acho que
sobrevive com lei ou sem lei. Deletar alguém não é apagar, excluir,
eliminar nem descartar. Deletar é deletar.

´Delivery´ funciona no Brasil como marca de status. Essa marca de status
associada à língua inglesa não vai acabar da noite pro dia, e muito
menos com alguma lei. Se o Sr. Aldo Rebelo quer fazer algo para
estancá-la, que tal convencer o governo do qual ele é líder a parar de
enviar quase 5% do nosso PIB aos banqueiros de língua inglesa?

Fla-Flu, Gre-Nal, Atle-Tiba, Galo x Cruzeiro são *clássicos*. Guarani
versus Ponte Preta é *derby*, a palavra que se usava no começo do
século. No entanto, a brasilidade e a comunicação em Campinas continuam
muito bem, obrigado.

*Desafio mantido*

Fica mantido o desafio: eu faço uma fogueirinha de São João com meus
diplomas de licenciatura, de mestrado e de doutorado – diplomas que não
me fazem melhor que ninguém, claro, mas que me são caros posto que
conquistados com esforço – se o Sr. Aldo Rebelo ou algum apoiador desta
lei me apontar um único lingüista com produção acadêmica que esteja
disposto a defendê-la.

*Genug!*

Prometo que é o último post sobre o assunto até que essa palhaçada vire
lei, o que, dado o calendário generoso do nosso Congresso, não poderá
acontecer antes do Carnaval. Por culpa dessa lei quase fico sem ingresso
para a partida de ludopédio entre Atlético-MG e São Caetano.

Trilha sonora: ´Samba do Approach´, Zeca Baleiro


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terça-feira, 30 de novembro 2004

Ascensão e Morte do PT de c.d.

(digamos que c.d. é um personagem fictício que hoje tem 36 anos)

1981: aos 13, c.d. junta-se à formação do PT na sua BH natal, durante
potente greve dos professores; 1982: c.d. faz campanha de Sandra
Starling e combate o voto útil tancredista; época do lema terra trabalho liberdade; 1983: intensa mobilização do movimento secundarista de BH:
petistas punks pacifistas anarquistas contra o PC do B; fim do ano traz
os primeiros comícios do PT pelas diretas; 1984: gigantesca campanha das
diretas; c.d. se aproxima da DS, trotskista mas fortemente comprometida
com a construção do PT; 1985, terminando o 2o grau, c.d. se filia ao PT
e se converte em militante da DS; Virgílio Guimarães, então da DS, tem
grande votação para prefeito em BH; vitória em Fortaleza; 1986: c.d.
lidera a vitória petista sobre o PC do B no DA da Letras-UFMG; c.d. tem
vida leninista, 25 reuniões por semana; cresce o PT; Virgílio eleito à
constituinte; 1987: DS consegue passar no congresso do PT a
auto-definição como partido socialista; vitória de c.d. no DCE da UFMG;
numa das maiores federais do país, caía a hegemonia do PC do B sobre o
movimento estudantil; c.d. profissionaliza-se como militante; 1988:
enlouquecido de tanta reunião e militância, c.d. continua no PT mas
desliga-se formalmente da DS para terminar curso de letras; reunião
tensa e difícil na célula; 1989: volta completa à militância durante
campanha de Lula; brutal a derrota; 1990: já no exterior, c.d
mantém contato com petistas e continua considerando-se parte do partido;
pelos próximos 14 anos, passará 3-4 meses por ano no Brasil; 1991:
reuniões na CUT sobre o impeachment de Collor; 1992: c.d. participa de
corpo (no Brasil) e pela escrita (nos EUA) da campanha pelo impeachment;
vitória contra Collor; 1993-94: c.d. discorda violentamente da punição à
Luísa Erundina; participa por umas semanas na campanha fracassada de
Lula; 1995-96: c.d. vê com muita preocupação a acumulação de poder de
Dirceu no partido; Porto Alegre elege um militante da DS, Raul Pont,
como seu prefeito; 1997-98: c.d. participa menos intensamente na
campanha de Lula e envia carta protestando o "massacre promovido pela
Direção Nacional e sua cavalaria cossaca contra o PT carioca"; quando a
burocracia do PT paulista decide enfiar Garotinho goela abaixo do PT
carioca, c.d. considera a possibilidade de desfiliar-se mas não o faz;
derrota acachapante de Lula para FHC; 1999-2001: Crescente
burocratização do partido, mas c.d., morando no exterior, identifica-se
com o PT e dá palestras sobre a história singular do partido; 2002: c.d.
participa da última semana da campanha no Brasil e celebra o domingo
27/10 numa comuna operária do Chile, em meio a retratos de Salvador
Allende; grande emoção; péssimos sinais, no entanto, no que diz respeito
à vontade nítida do novo governo de agradar aos banqueiros; consolida-se
nacionalmente a sinistra figura de Delúbio; 2003: movido pela esperança
em Lula e por uma década de militância, c.d. publica na revista
progressista argentina *Punto de Vista *uma *crônica e defesa do PT*
[link] ; quando
sai o artigo de c.d. Dirceu já fez sua grosseria mor com Gabeira; c.d.
vê com horror a punição aos radicais Babá, Heloísa e Luciana; conversa
com ex companheiros, agora co-autores de *A Economia Política da
Mudança*
[link] ,
volume que desmonta as premissas da política econômica paloccista; c.d.
decide desfiliar-se, mas mesmo assim não o faz; 2004: revelação
cristalina do governo do PT como governo neoliberal, burocratizado,
perdido, incompetente e refém do calculismo de sua própria politicagem;
c.d. queima filiação, bandeiras e camisas do PT e manda o projeto de um
partido de massas, pluralista, democrático e socialista para o raio que
o parta.

Trilha sonora: Cartola, "Fita meus olhos", com Nelsinho no Trombone (1977)

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