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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 04 de dezembro 2014

Idelber Avelar responde

1- Depois de deixar os inquisidores urrarem durante uma semana, coloquemos alguns pingos nos is sobre sexo, privacidade e crimes na internet, em 20 partes.

2- Ouvi calado durante sete dias uma das maiores tentativas de assassinato de reputação da história da internet brasileira, baseada em divulgação criminosa de mensagens privadas.

3- Se estou movendo ações cível e criminal contra os responsáveis, tanto pela violação de privacidade como pela difamação? É evidente que sim. Agora, já em posse da ata notarial que permite a responsabilização penal dos responsáveis, respondo.

4- Em primeiro lugar: os linchadores estão falando de alguém com 29 anos de magistério, centenas de ex-alunas, dezenas de ex-orientandas já professoras e ZERO reclamações formais por seu comportamento com mulheres dentro de sala de aula ou na universidade, além de média sempre, em todos os cursos, superior a 4,5 na escala de 5 pontos através da qual professores/as são avaliados por alunos e alunas.

5- Comecemos por aí, então. É dessa pessoa que estão falando.

6 – Deixei que os inquisidores recolhessem suas “provas” e o que conseguiram?

a) Um print de interação privada erótica com mulher adulta, não só criminosamente publicado, mas propositalmente recortado.

b) Um print de conversa com menor de idade que logo terminou por minha iniciativa e exatamente por isso, à luz da revelação da idade dela.

c) Dois relatos anônimos completamente mentirosos, vejam só, um deles já apagado!, não sem antes ser devidamente registrado em ata notarial.

7- Ou seja: tentaram durante uma semana e não conseguiram UMA, umazinha “denúncia” assinada por quem quer que seja.

8- Ficou alguma dúvida da combinação entre ressentimentos pessoais e ressentimentos políticos que motivou a abundante prática de crimes contra a honra na internet brasileira nos últimos sete dias?

9 – O moralismo reduzido aos métodos do macarthismo e do stalinismo.para assassinato de reputação não conseguiu nada melhor que isso.

10– Sim, gosto de sexo. Sim, falo muito de e faço muito sexo. Com quatro regrinhas claras: consensualmente, com adultas, jamais com chefes ou subordinadas e em privacidade.

11 – Anal, ménage, BDSM, cuckolding: é isso que escandaliza o “feminismo” no século XXI? Coisas que fariam Sade bocejar de tédio no século XVIII? Retrocedemos 250 anos, é isso?

12 - “Feminismo”, sim, entre aspas, pois essa mistura de fogueira inquisitorial, moralismo e misandria nada tem a ver com Beauvoir, Butler, Muraro, Irigaray, Michele Barrett, Chodorow, Mary Wollstonecraft e tantas outras que me ensinaram a pensar e ler o mundo.

13 - Por que são sempre anônimas aquelas que a fogueira inquisitorial chama de "vítimas"? Medo de quê, a não ser de assumir publicamente que também eram parte do jogo, que são donas de seu desejo?

14 – Termos como “abuso” ou “assédio”, aplicados a conversas virtuais nas quais duas partes estão em interação ativa, e para as quais o botão “bloquear” está sempre disponível, só significa uma coisa: a confinação da mulher ao lugar de vítima, como se ela não fosse dona de seu desejo.

15 – Alunas de Tulane foram assediadas por inquisidores em busca de alguma declaração de que eu as tivesse tratado com algo que não fosse profissionalismo e respeito. Conseguiram? NADA.

16- Ex-colegas e ex-orientandas minhas foram caçadas pelo tribunal em busca de alguma manifestação de que eu as tivesse tratado com algo que não fosse profissionalismo e respeito. O tribunal conseguiu? NADA.

17 -- Às centenas de pessoas que me escreveram em solidariedade nos últimos dias: muito obrigado.

18- Às muitas pessoas que me escreveram perguntando como poderiam ajudar, a resposta é simples: divulguem este comunicado entre os amigos e entre aqueles que disseminaram difamação. O comunicado está disponível também em meu Facebook: https://www.facebook.com/idelber.avelar e no Twitter (http://twitter.com/iavelar). E cobrem de blogs, revistas e tuiteiros a veiculação do direito de resposta, tema do qual se reclama tanto quando a “grande mídia” publica algo de que não gostamos.

19- As arrobas que já estão com seus crimes lavrados em ata notarial terão o prazer de descobri-lo por si sós, quando receberem a notificação judicial já em curso.

20- Por motivos que suponho também óbvios, só voltarei a falar do tema depois que transitar em julgado a sentença que, tenho certeza, punirá os responsáveis.



  Escrito por Idelber às 09:06 | link para este post



segunda-feira, 21 de fevereiro 2011

Crônica de uma visita à Coreia do Sul

Aconteceu entre os dias 23 e 25 de abril de 2010, na época em que o blog estava hibernando, o Primeiro Encontro das Literaturas da Ásia, África e América Latina, em Incheon, na Coreia do Sul, para o qual tive a honra de ser um dos três convidados latino-americanos. É uma história que há tempos quero contar aqui, em parte para que o blog volte à sua rotina pré-eleitoral de misturar a política com outros assuntos, mas também pelo interesse e curiosidade que gera aquela parte do mundo.

Já aviso de cara que todos os meus comentários são baseados numa visita de uma semana, que eu não entendo uma palavra de coreano, e que há pelo menos duas blogueiras que conhecem a Coreia por longas estadias. Elas estão muito mais equipadas que eu para responder perguntas gerais sobre o país. Relato só o que vi e as impressões que tive.

O encontro era parte de um esforço cada vez mais visível, que vai muito além dos estudos literários: construir pontes de diálogo Sul-Sul, através das quais África, Ásia e América Latina possam interagir sem a mediação das potências do Atlântico Norte. Para o encontro de Incheon, infelizmente, os dois outros convidados latino-americanos—dois dos mais aclamados escritores cubanos, Miguel Barnet e Nancy Morejón—não puderam comparecer, por motivos que desconheço. Éramos, portanto, vários asiáticos, vários africanos e eu. Esta era a turma que se reuniu em Incheon:

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Era a primeira vez que eu visitava um país cuja língua desconheço completamente (ok, eu estive na Holanda, mas ali não conta: em Amsterdã, pelo menos, todo mundo fala inglês). Cheguei ao aeroporto de Incheon no dia 22 de abril e, já de saída, fui tomado pela sensação que seria constante nos dias que se seguiriam: a de completa ignorância. Na van que nos levava ao hotel, juntos com dois membros da equipe de organização, estávamos eu e o romancista vietnamita Ho Ahn Thai (que depois apresentaria uma comunicação impressionante sobre o processo de perdão aos estadunidenses no Vietnã). Qual foi o primeiro medo que sentiu a besta quadrada aqui? Puxa, será que as línguas coreana e vietnamita são mutuamente compreensíveis e eu vou ficar boiando? Logo descobri que as duas não têm nada a ver e que o idioma ali na van seria o inglês.



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Lanternas no Cheonggyecheon. Foto: Denise.


Ao longo da estadia em Incheon e Seul, meus dois grandes choques foram: a verdadeira paixão dos coreanos pelo caraoquê e o tremendo impacto da separação entre as Coreias sobre uma parcela enorme das famílias do país. Numa das noites em que saímos por Seul, eu, Harry Garuba, crítico literário nigeriano radicado na África do Sul, e outros amigos fomos parar num caraoquê em que havia uma única mesa enorme, com umas quinze pessoas. O nosso grupo era composto, na sua totalidade, por gente reconhecivelmente estrangeira.

Com a típica amabilidade, a turma da mesa trocou a música coreana por sucessos do pop americano (claro que sem saber que alguns de nós preferimos qualquer música coreana a “Hotel California” e congêneres). Acabamos contagiados pela alegria dos anfitriões e dançamos bastante. Conversando com uma senhora bem idosa, descubro que ela tem um filho do outro lado da fronteira, a quem ela não vê desde 1953. A separação entre coreanos significa isolamento total: sem telefone, sem comunicação de qualquer espécie, sem notícias. Ela não tem como saber se o filho está vivo. Praticamente todos os coreanos com quem conversei têm histórias dolorosas sobre um pedaço da família do outro lado da fronteira. É algo muito mais presente do que eu imaginava. Todos os assuntos, em algum momento, resvalam ali. Quando acontece, é visível a mudança na expressão facial das pessoas.


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Cartaz do encontro


Ao longo da minha estadia, foi se reforçando a sensação de que os coreanos se parecem a nós, brasileiros, bem mais que os chineses, japoneses ou vietnamitas. Apesar da intransponível barreira da língua, seu jeito afetuoso e sorridente trazia algo de conhecido. A hospitalidade é impressionante: tudo funcionava à perfeição. Não só os tradicionais componentes de um congresso bem organizado (horários, transporte, programação etc.), mas também coisas mais intangíveis. Dou um exemplo: depois da última palestra, nos avisaram que havia presentes para os convidados na saída do auditório. É claro que imaginei que todos receberíamos a mesma coisa, ou coisas parecidas. Ao pegar a sacolinha, me dei conta de que os presentes eram personalizados. Na minha, havia vários agrados, incluindo-se uma coleção de contos coreanos traduzidos para o português. Dali nos levaram a um banquete inesquecível.

A comida coreana é requintada, mas de sabor fortíssimo para o nosso paladar. Talvez a iguaria mais famosa seja o kimchi, uma espécie de repolho fermentado com bastante tempero. Algas marinhas são presença frequente. As sopas são bastante apimentadas. Peixes cozidos são comuns no café da manhã. Mesmo na megalópole Seul não é muito fácil encontrar culinária ocidental em meio aos restaurantes coreanos, japoneses e chineses. Só graças à Denise Arcoverde, colega de blogosfera a quem conheci pessoalmente na Coreia, pude ter a minha única refeição ocidental em toda a estadia.

Tive a honra de conhecer intelectuais e escritores gigantes: Lui Zhenyun, romancista chinês que vende nada menos que 5 milhões de exemplares, em média, dos seus livros; Makerand Paranjape, crítico indiano que conhece o Brasil melhor que muitos de nós; Harry Garuba, pesquisador nigeriano que foi o grande companheiro de cervejas durante a visita e com quem aprendi muito sobre a África; o ensaísta palestino Fahri Saleh, exilado na Jordânia e proibido de visitar suas laranjeiras, que brincava dizendo que eu era “mais palestino” que ele; a grande escritora egípcia Salwa Bakr:

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a poeta sul-africana Sindiwe Magona, de quem você terá uma versão das letras sul-africanas completamente diferente da mais canônica, consagrada pela Prêmio Nobel Nadine Gordimer:

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e finalmente o decano das letras filipinas, Francisco Sionil José, um verdadeiro cidadão do mundo, com uma vida dedicada à luta pela justiça, e com quem aprendi dezenas de palavras em tagalo que são idênticas às do espanhol:

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Tivemos situações bem divertidas com a língua. Durante o congresso, todos os não-coreanos fizemos nossas apresentações em inglês, com a exceção dos chineses, que usavam o mandarim. Havia, então, serviços de tradução simultânea entre mandarim e coreano, entre inglês e coreano, e entre mandarim e inglês. No congresso, tudo perfeito. Num passeio pela ChinaTown de Incheon, resolvemos entrar numa loja. Éramos vários: o nigeriano, a egípcia, eu, o filipino, o chinês, o vietnamita, a sul-africana. Mas nenhum coreano. A garota da loja só falava chinês. Mas Lui Zhenyun, o chinês que andava conosco, não falava inglês. Resultado: dizíamos, em inglês, ao vietnamita, o que queríamos; ele transmitia o pedido em vietnamita ao chinês, que entendia o idioma. Este, por sua vez, se comunicava com a garota da loja no idioma nativo de ambos. Invariavelmente voltava uma explicação que nos chegava, em inglês, já meio incompreensível. O mais sensacional telefone-sem-fio que já presenciei.

Com o idioma, registre-se, fui um fracasso completo. A sensação de ser analfabeto e ter diante de mim caracteres indecifráveis era mais tranquila dentro da universidade, onde todos, de alguma forma, tínhamos uma língua em comum. Nas vezes em que me aventurei sozinho pela cidade, a sensação de desamparo era constante. A cada dez minutos, enfiava a mão nos bolsos das calças para ter certeza de que ainda tinha o endereço do hotel anotado para entregar ao taxista. Apesar de ter decorado a sequência de fonemas, por exemplo, da palavra “obrigado”--samkahamnida gamsahamnida--, só depois de uma semana pude pronunciar a última sílaba com a entonação exigida. Conversando com meu anfitrião, o Prof. Suk Kyun Woo, perguntei num certo momento:

-- Você convive com ocidentais aqui há décadas. Conhece algum que tenha aprendido a língua?

-- Não. Nunca. Nenhum.



  Escrito por Idelber às 18:43 | link para este post | Comentários (19)



sábado, 20 de novembro 2010

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

luis-gama.jpg
"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."
Luiz Gama

Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.


A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.


Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.


Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

PS: Fonte da imagem.

* *P.S. em 24/11: O livro Caçadas de Pedrinho é publicado pela Editora Globo. Agradeço a correção ao prof. Edson Lopes Cardoso, mestre em Comunicação Social/UnB e editor do jornal Ìrohìn, pelo envio de seu excelente artigo "A propósito de Caçadas de Pedrinho".


Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor
20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra




  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (167)



domingo, 26 de setembro 2010

Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 3, final)

(se você caiu aqui do nada, leia primeiro isto, depois isto e aí volte).


--Is that a soccer jersey? era uma pergunta simples de se responder, mas o garoto não resistiu: começou a tentar recitar as glórias do Tricolor do Morumbi que, sabemos, são muitas. Ele não havia chegado à terceira palavra quando o pai e a mãe interromperam o que faziam para acompanhar a conversa do filho com o “americano”, com aquela cara radiante e subserviente só encontrada na República Morumbi-Leblon e nos ladinos da América Central. Ele não havia chegado à quinta palavra quando eu subitamente lhe dei as costas, como se ele não existisse, e passei a conversar de novo com L.T., que a estas alturas já havia sacado qual era a brincadeira. Enquanto o garoto ainda balbuciava e os pais nos olhavam, à espera de atenção, eu disse a L.T.:

-- Die Schuhe. Sag etwas über die Schuhe.

Meu alemão falado é horroroso, péssimo, capenga mesmo. Mas L.T. é generoso comigo sempre que—em geral animado por umas biritas—resolvo praticar um pouco com ele, que tem proficiência nativa. A mudança de língua ali tinha a função de garantir que os membros do Brasil dos 4% não entendessem que a senha agora era uma gozação aos mocassins. Emendando de bate-pronto, com os burgueses paulistanos ainda sem entender por que eu havia feito uma pergunta e lhes dado as costas, L.T. dirige um olhar ostensivo aos mocassins do sujeito, escandalosamente aponta com o dedo, vira em minha direção e diz bem alto:

-- Who wears mocassins with golden chains around them? For God's sake, where did those come from?

Eu nem precisei fazer força. O entusiasmo de L.T. era tal, sua gargalhada-Sílvio Santos tão contagiante, que eu também terminei rindo com vontade. De vez em quando, dirigíamos o olhar a eles, para que ficasse bem claro que era deles que estávamos rindo. Agora sim. Não sei se compreenderam a frase, mas com certeza começaram a entender que estávamos tirando um sarro.

Nessas horas você vê a natureza essencialmente colonizada da República Morumbi-Leblon. Se estivéssemos fazendo a mesma coisa na condição de brasileiros, a pancadaria já teria comido solta no Aeroporto de Miami. Se estivesse acontecendo em português essa brincadeira idiota (sim, sim, reconheço, era uma brincadeira babaca, grosseira e esnobe a que fazíamos, mas lembrem-se, aqueles sujeitos passaram um bom tempo ali humilhando uma família negra), a reação com certeza teria sido outra. Como éramos “gringos”, o olhar deles era simplesmente aquele sorriso meio sem graça, impotente.

A brincadeira ia encaminhando-se ao seu final, mas ainda faltava o golpe de misericórdia. Dirigindo-me ao pai da família, soltei a pergunta:

-- Where are you all from?

Essa ele me respondeu de bate-pronto:

-- Brazil.

Era a senha de que eu precisava:

-- Oh, Brazil! Do you know Sancho Santos, by any chance?

Aqui cabe uma explicação. “Sancho Santos” é uma criação da banda de rock da Carolina do Norte, Southern Culture on the Skids. A canção, se não me falha a memória, intitula-se “Viva de los Santos”. A gozação feita pela banda em seus shows alude à total ignorância do estadunidense médio acerca de tudo o que está ao sul do Rio Bravo. Sempre que se encontra com alguém da América Latina, o personagem pergunta: como vai o Sancho Santos? Em outras palavras, a banda sugere que para o gringo médio, México ou Uruguai, Honduras ou Brasil, é tudo Sancho Santos.

Evidentemente, não há nenhum Sancho Santos para se conhecer no Brasil, mas o sensacional é que sempre que você encontra a burguesia colonizada brasileira e pergunta, em inglês, pelo Sancho Santos, eles dizem que ele vai muito bem. Não falha nunca.

-- How's Sancho Santos doing?

-- He is fine, he is fine.

L.T. já estava tendo convulsões de gargalhadas. Enquanto ele ria e preparava a facada final, eu dava as costas à família racista e me dirigia agora aos meus conterrâneos, falando com eles em tom de voz bem baixo, inaudível para a turma que estava do outro lado:

-- Boa noite, pessoal, vocês são de Minas, não são?

-- Somos, como você sabe?

-- Eu reconheci o sotaque. É parecido com o meu, sacumé. São de Belo Horizonte?

-- Sim, de BH.

-- Eu sou da Cidade Nova, e vocês?

--- Pertinho! Do Caetano Furquim.

Sim, leitores, no Brasil de Lula existem famílias do Caetano Furquim viajando ao exterior.

-- A gente viu o que estava acontecendo aqui. Queria ser solidário. Ainda faltam duas horas e meia para o voo. Eu conheço um bar/restaurante cubano aqui ao lado, muito bom. Eu e meu amigo queríamos convidá-los para tomar uma cerveja, dar um refrigerante aos meninos. Vamos?

-- A gente tem medo de perder o voo, somos novatos.

-- Deixem com a gente, não tem perigo. Tem muito tempo. É bobagem ficar em pé naquela fila que fazem, não faz diferença.

Do lado de lá, eu ouvia um L.T. ainda gargalhante dizer:

-- That's funny. I always thought that Sancho Santos didn't exist. But maybe he does.
[engraçado, sempre pensei que o Sancho Santos não existisse. Mas talvez ele exista].

Falando agora bem alto, em português, para que a família de racistas me ouvisse, eu disse:

-- L.T., vamos ali no La Carreta tomar uma cerveja com meus conterrâneos.

L.T., cujo português, eu já disse aqui, é impecável, respondeu:

-- Vamos sim. Isso aqui já deu.

Os racistas nos olharam estupefatos. O intercâmbio em português tinha, evidentemente, o propósito de transmitir aos racistas a única mensagem que importava transmitir ali: vocês se comportam como verdugos ante seus compatriotas negros e como cachorrinhos amestrados com qualquer gringo que apareça tirando sarro de vocês. Se havia melhor maneira de transmitir essa mensagem, ela não estava disponível pra mim naquele momento. Fiz o que deu, com os recursos que tinha.

Na saída, dirigi um olhar cheio de hostilidade e desprezo aos racistas, virei as costas, peguei na mão do garoto de 12 ou 13 anos da família belo-horizontina negromestiça e nos dirigimos todos ao La Carreta, que fica a menos de 50 metros do saguão onde estávamos. Passamos uma hora agradabilíssima, em que conversamos, inclusive, sobre as semelhanças entre as culinárias mineira e cubana.

Aos racistas mais eu não disse e mais não me foi perguntado.

Não, eu não os vi dentro do voo.



  Escrito por Idelber às 08:08 | link para este post | Comentários (209)



sábado, 25 de setembro 2010

Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 2)

Em primeiro lugar, impõe-se um comentário antes de continuar a história (se você caiu aqui do nada, leia isto primeiro). Eu não esperava todo esse surto de interesse que se gerou na caixa de comentários. Honestamente falando, o post só ficou incompleto porque já era bem tarde e eu não tinha condições físicas de escrever mais, o que eu espero que não aconteça hoje. A história, na verdade, não é tão interessante assim, portanto rebaixem as expectativas.

Em segundo lugar, à guisa de explicação aos leitores mais novos que chegam do Twitter e não conhecem a trajetória do blog, recorro ao testemunho dos leitores históricos para que fique claro que não sou do tipo de pessoa que sai dando carteiradas. Há 1.200 posts e mais de 38.000 comentários aqui, e em nenhum deles você encontrará o anfitrião dizendo tenho tal e qual título ou ganhei tal e qual prêmio. Já entrei de sola em muitas discussões, mas não com esse tipo de argumento.

Faço a ressalva porque dar uma carteirada foi exatamente o que fiz na noite do dia 22 de setembro em Miami, com a família racista típica do Brasil dos 4%. Digo isso sem orgulho nem vergonha, foi simplesmente o que aconteceu. Foi só a forma que encontrei para revidar aquela agressão que a família negromestiça vinha sofrendo ali. Tratou-se, no entanto, de uma carteirada de um tipo muito particular. Continuemos a história, pois.

Havíamos parado no momento em que eu e L.T. nos sentamos no chão, de frente para as duas famílias que ocupavam, cada uma, uns seis assentos daquelas insuportáveis salas de embarque do Aeroporto de Miami. Como dito, havíamos chegado conversando em espanhol mas, exagerando um pouco no tom de voz, eu disse a ele:

Now we're gonna have some fun. When I switch languages, you do the same, right away. [tradução livre: vamos brincar de Neymar e Ganso com esses bacacas. Mude de língua na hora em que eu mudar]

Meu amigo belga, cujo Q.I. está bem mais próximo de Goethe que de Eliane Cantanhêde, sacou imediatamente que alguma gozação viria. Pela altura da minha voz naquela frase, ele deve ter percebido que a gozação jogaria com a minha completa certeza de que eles não entenderiam, ou entenderiam precariamente, o que nós disséssemos em inglês. Foi dito e feito.

Cabe aqui uma explicação para quem não tem tantas horas de aeroporto como eu. Nada faz os racistas da República Morumbi-Leblon se transformarem de carrascos sádicos em cordeirinhos dóceis e obedientes como a chegada de um estadunidense. Qualquer um. Eles tiram a pele de lobo e adotam aquela constrangedora subserviência colonizada, estilo Celso Lafer. Como L.T. fala com perfeito sotaque do meio-oeste e o inglês é praticamente uma língua de infância para mim, o sucesso da impostura estava garantido. A ignorância da República Morumbi-Leblon é algo com o qual você sempre pode contar.

O leitor Ticão, num comentário ao post anterior, adivinhou exatamente a indumentária do chefe da família racista: jeans Yves Saint Laurent e um par de mocassins cheios de penduricalhos dourados. A senhora fazia o gênero perua, com um collant de oncinha e uma quantidade enorme de quinquilharias nos braços. O filho, de uns 20 e poucos anos, trazia seu iPod e vestia uma camisa de mangas compridas—no calor de Miami em setembro!--do São Paulo Futebol Clube. Essa camisa do Tricolor do Morumbi será importante para a continuação da história. Nos outros três assentos ocupados pela família paulistana, uma quantidade imensa de badulaques eletrônicos se amontoava, desde telas planas de computador até, incrivelmente, uma tostadeira.

A primeira frase havia chamado a atenção da família racista, mas não o suficiente. Ainda não prestavam atenção em nós. Era o que eu queria – só lançar uma primeira isca-- para ter alguns segundos e dirigir, sem que eles me vissem, olhares de cumplicidade, sorrisos e sinais de positivo com o polegar para a outra família, que a estas alturas tampouco sabia que eu era brasileiro. Depois de estabelecido esse primeiro contato de cumplicidade, fiz a eles o tradicional gesto com a palma da mão direita estendida na vertical, como quem diz deixa com a gente.

Nesse momento, no entanto, L.T. quase estragou meu plano. Ao bater os olhos na gigantesca tostadeira, ele não se conteve e começou a rir. L.T. tem uma gargalhada bem parecida com a de Sílvio Santos, então vocês imaginem. Já havíamos chamado a atenção de todo mundo. Era necessário agir rápido. Apontando para a camisa do rapaz, perguntei:

Is that a soccer jersey?

Enquanto o rapaz, em inglês balbuceante, tentava me responder, eu ia arquitetando em minha cabeça a vingança, que será narrada em detalhes na terceira e última parte desta saga.



  Escrito por Idelber às 06:06 | link para este post | Comentários (90)



sexta-feira, 24 de setembro 2010

Em Miami, olhei nos olhos do Brasil que perdeu (parte 1)

Um dia terei que reunir meus causos de aeroporto. Eles parecem acontecer meio aleatoriamente, mas não há como negar que eu os procuro. Se aeroportos costumam ser lugares onde não ocorre nada de importante e tudo se arrasta na brutalidade do eternamente igual, os roces ocasionais entre pessoas, línguas, religiões e nacionalidades diferentes podem produzir a faísca, a centelha de um acontecimento. Ao longo dos anos, desenvolvi um certo faro para esses estranhos lugares e aprendi a reconhecer quando se aproxima uma história.

O Brasil dos 4%, da ressentida fração da classe média que lê a Veja, do Instituto Millenium, dos três jornalões, de Ivete Sangalo, Hebe Camargo, Ali Kamel e Regina Duarte, o Brasil, enfim, da rancorosa ignorância monoglota dos bairros chiques de São Paulo encontrou-se, pessoalmente, numa sensacional disputa de bola ombro-a-ombro, com o Brasil da nova classe C do Lula, o Brasil de pele negromestiça com algum dinheirinho sobrando no bolso, o Brasil dos nordestinos que se reúnem com parentes há muito não vistos no Sul Maravilha, alguns deles já com um carrinho, outros com a casa própria, outros fazendo sua primeira viagem ao exterior, todos eles, no entanto, com sua marca registrada, que é a nova dignidade estampada no rosto.

Essa disputa de bola aconteceu na noite do dia 22 de setembro, no Aeroporto Internacional de Miami. Meninos, eu vi.

Zanzando pelos aeroportos do mundo e, em especial, do Brasil nos últimos anos, aprendi a reconhecer um novo fenômeno: o olhar de ódio, desprezo e ressentimento que os membros dos 4% dirigem ao Brasil da Nova Classe C que, segundo eles, não deveria estar lá. É um olhar carregado de história, do sinhô que se sente desrespeitado pelo batuque do escravo à madame que se sente ultrajada quando a empregada doméstica reclama seus direitos trabalhistas. Se você quer entender a onda de ódio que caracteriza a campanha da oposição e da mídia nas últimas semanas, basta mapear a frequência com que esses encontrões têm acontecido no Brasil contemporâneo. Afinal, a Nova Classe C começou ocupar estacionamentos e saguões de aeroportos, lugares que os 4% acreditavam ser cativos seus, propriedade sua exclusiva.

O voo 927 da American Airlines, que sai de Miami rumo a Santiago, segue viagem rumo a Guarulhos, e isso explica a imensa maioria de brasileiros que se amontoava na sala de embarque na noite de 22 de setembro. Lado a lado, vi duas famílias: uma branca, dirigindo à vizinha, negromestiça, o olhar de ódio que aprendi a reconhecer. Eu havia topado com meu amigo L.T., belga de origem flamenga que, como sói ser o caso com seus compatriotas, tem uma grande facilidade para as línguas. Este dado é importante para entender o que se segue.

Decidimos nos sentar no chão, de frente para as duas famílias, e foi quando eu percebi que a hostilidade dirigida pela família branca à negromestiça não se limitava ao olhar. Acompanhavam-no com comentários do tipo tem gente que não se enxerga, feitos na cara da outra família, que tentava continuar seu próprio bate-papo enquanto circulavam entre si sua caixa de cookies adquirida, suspeitava eu (e depois comprovei que acertara), na visita a algum parente expatriado em busca de melhores oportunidades durante a era FHC. Aquilo foi me enchendo de raiva. Não demoro muito para identificar sotaques, e depois de 2 ou 3 minutos eu já havia detectado que a família branca era paulistana e a negromestiça, mineira.

L.T. e eu havíamos chegado à sala de embarque conversando em espanhol, que é uma das quatro línguas que usamos entre nós, segundo a conveniência e o humor (o português de L.T. é perfeito, com sotaque carioca e tudo). Vendo aquela agressão, e sem ânimo para um bate-boca que, com certeza, teria sido desagradável, bolei uma brincadeirinha. Poderia ter dado incrivelmente errado, mas deu certo.

A brincadeirinha com a qual L.T. e eu nos unimos à família da Nova Classe C, que terminou lavando a alma ante as agressões de membros dos 4%, na noite do dia 22 de setembro de 2010, no Aeroporto Internacional de Miami, será o tema do próximo post.



  Escrito por Idelber às 03:28 | link para este post | Comentários (98)



quinta-feira, 19 de agosto 2010

Diálogos no Formspring

Num dia em que as duas grandes notícias foram o protesto de Elba Ramalho pela falsificação de sua voz no programa de Serra e a fuga desesperada de Serra, com estudantes ao seu encalço, depois do debate no Tuca, não há muito mais que comentar sobre a campanha. O que é da ordem da informação imediata eu tenho compartilhado lá no Twitter.

Dando pausa nos textos sobre a campanha, então, aproveito para copiar e colar aqui a sequência de algumas conversas que tive com leitores lá no Formspring. Como saberá a maioria, o Formspring é um serviço que lhe permite fazer perguntas anonimamente a pessoas cadastradas lá. Nos últimos dias, recebi aproximadamente 200 e, destas, respondi 123. Se você é autor de uma das que sobraram, minhas desculpas. Aos outros leitores, espero que a montagem que segue faça sentido. Ela junta, para facilitar a leitura, perguntas que lá na página do Formspring estão dispersas, mas que são momentos de uma mesma conversa. Aí vão, separadas por tema. A caixa está aberta para a conversa sobre qualquer um deles, ou sobre outras perguntas já respondidas lá no Formspring.

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Conversas sobre moral e política:

Você pode explicar um pouco melhor o que é "moralização da política"?
"Moralização da política" é uma expressão que eu, pelo menos, sempre uso precedida do termo "discurso" ou "retórica". Ou seja, não é uma realidade existente, é um papo. É aquele papo de que "tem que acabar com a safadeza destes políticos que estão aí". É o discurso preferido dos sonegadores de impostos e subornadores de guardas de trânsito em lugares como o Leblon, Barra da Tijuca, Higienópolis e Mangabeiras.

O que seria "reduzir a politica à moral"? Isso é ruim? Por quê?
Ver a resposta abaixo sobre ser "nietzscheano em moral", para ver por que eu considero reduzir a política à moral um desastre escabroso.

Vc é marxista?
Em política, sim. Em psicologia sou freudiano, em ética espinosista, em moral nietzscheano, e em visão de mundo "geral", Weltanschauung, sou atleticano.

O que significa ser nietzscheano em moral e espinosista em ética? Obrigado.
Bem, acho que a Genealogia da Moral é um livro que deixa mais ou menos claro o que é ser nietzscheano em moral: é não acreditar que ela exista como fenômeno fundante e/ ou eterno. É não acreditar que existam essências como "o bem", "o mal" ou "o justo" em si mesmas. Para Nietzsche, primeiro há uma guerra, uma pancadaria, uma luta. Na origem, sangue. 

Depois dessa luta de caráter político, os vencedores estabelecem o que é "o bem" ou "o justo". A política funda a moral, não o contrário. Entender isso é ser nietzscheano em moral. 

Não vou me estender sobre o que é ser espinosista em ética mais além de sublinhar: a ética de Espinosa é uma ética radical (vai à raiz, é imanente, não precisa de nenhuma "muleta" transcendental) que privilegia a potência e a liberdade. Nisso, para além de toda a polêmica acerca do que é "Deus" em Espinosa, ela é uma ética radicalmente ateia.

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Sobre Trótski:

Por que Trotsky como referência?
1. Porque Trótski foi acima de tudo um cosmopolita. 

2. Porque Trótski foi, ao mesmo tempo que militante, escritor e polemista. Aliás o único, eu diria, em toda a tradição marxista, que foi escritor de verdade. 

3. Porque ele nunca traiu, da forma grosseira que outros traíram. Pode ter errado pra cacete, mas foram atos de ordem diferente. 

4. Porque foi o cara que encarnou a tradição dos vencidos, pensou o problema da derrota, que é um problema central para todos os que se consideraram revolucionários no século XX. E viveu a vida coerentemente com isso, como um derrotado. 

5. Finalmente, porque foi quem se manteve relevante. Você lê os livros doutrinários de Plekhanov e cia. hoje e não se aproveita nada. Mesmo Lênin (seus livros, não sua história) é algo irrelevante hoje. Você lê os livros de Trótski e há ali pensamento vibrante, é algo que te força a matutar. Minha Vida é uma das autobiografias mais reflexivas do século XX, sem dúvida. 

É nesse sentido que eu me digo "trotskista", claro. Não no sentido de que eu ache que a Quarta Internacional tem a verdade sobre a luta de classes, ou algo do tipo.


Na sua resposta à pergunta sobre Trotsky como referência, você diz "pode ter errado pra cacete, mas foram atos de ordem diferente.". Em que você acha que Trotsky errou?

Errou em 1921, mandando abater os marinheiros grevistas "como perdizes". Foram erros que favoreceram a burocratização. Pode ter errado também ao se isolar demais na época da IV Internacional, mas em meio a tantas desgraças não dá pra esperar que o sujeito seja o melhor estrategista.

Mas Trotsky estava certo no que se refere ao modelo de Estado que queria criar e aos rumos que queria para a Revolução?
Ninguém pode estar "certo" ou "errado" no que se refere a um modelo que o sujeito esperava realizar, mas não realizou. Como julgar o que o passado sonhou para o futuro se o sonho passou bem longe do que efetivamente aconteceu? Estar "certo" ou "errado" se aplica a algo que o sujeito histórico efetivamente fez, não ao que ele declarou como esperança para o futuro. 

Enquanto pôde "fazer", enquanto esteve ao leme (1917-1924), acho que Trótski acertou. Mas também acho que "acertar" e "errar" não se aplicam ao que ele imaginou depois que seria o comunismo quando realizado. Isso aí é algo que cumpre o papel de ficção constitutiva pro cara, não é algo ao qual se aplique "acertar" ou "errar": é o horizonte que torna possível o pão com manteiga da política cotidiana. Jefferson, Napoleão ou Robespierre também não "acertaram" no que sonharam para o futuro. O que não tira de nenhum desses sonhos o seu valor. 

É como eu vejo a coisa.

Porque alguns ex-trotskistas se tornam direitistas de "destaque" (R.A., Magnoli, Neocons)? Há algo no próprio trotskismo que permita "explicar" essa passagem?
Rapá, é dos mistérios mais complexos que existem. Teria que se fazer um estudo. Por um lado, acho que é porque os trotsquistas costumam ser muito hábeis com a palavra, bons polemistas, mas ao mesmo tempo figuras muito minoritárias. Se você juntar a isso a arrogância de que está treinado para achar que tem a verdade sobre a luta de classes, a potencialidade de endoidar pro outro lado é grande .

Mas reconheço que essa é uma análise simplista e muito mais coisa teria que ser dita.

*****************

Sobre a famosa metáfora do Fla x Flu:

Você acha mesmo que não há nada de bom no PSDB? Ninguém? A política no Brasil não anda muito chata com este Galo x Cruzeiro?
Não existe nenhum Galo x Cruzeiro. O PT tem a preferência de 26% dos eleitores brasileiros e a soma de todos os outros partidos não chega a isso. O PSDB não passa de 5%. Não existe nenhum Galo x Cruzeiro ou Fla x Flu. Existe um Inter de Milão x Madureira. Trate de adequar suas metáforas à realidade, minimamente. Para isso estão os números do IBGE.

Há alguém bom no Madureira? Ou só na Inter de Milão? rs
Existem jogadores de caráter no Madureira. Mas não é isso que importa. O que importa é o que o time, como um todo, fez em campo. E o que esses caras fizeram em campo entre 1995 e 2002 foi um desastre.

Torço para o Madureira. Mas acho você um cara correto. Acho que há gente boa e ruim de todo lado. Abraços e parabéns pelo espírito democrático. Abs.
Concordo que há gente boa e ruim de todo lado! Mas também acho que esse fato não pode obscurecer a observação tática de como o time está jogando, o que ele quer no jogo. Forte abraço.

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A mesma pergunta pessoal, feita em dois tons diferentes (e, portanto, respondida de formas diferentes):


Li que está nos Eua ha cerca de 20 anos. Pq não lecionar e desenvolver pesquisa aqui no Brasil?
Teria sido um prazer e uma honra começar a carreira numa universidade federal brasileira e essa era minha expectativa quando comecei a pós-graduação aqui nos EUA. Em 1996, quando terminei o doutorado, as federais brasileiras simplesmente não estavam contratando. Sabe como é? Era aquela época em que se falava de "desmontar a Petrobras osso por osso". 

Aí tive ofertas para ficar aqui e agora, com condições excepcionais de trabalho nos EUA (que me permitem inclusive passar quase a metade do meu tempo no Brasil), não me interessa voltar, no momento. Mas desejo encerrar a carreira no Brasil, dentro de década e meia, por aí.

Não é meio hipócrita ser marxista e ir trabalhar...nos EUA? Por q vc não vai pra China, Cuba, Coreia do Norte...?
Ora, por uma razão muito simples! Há muitos mais marxistas nos EUA que em Cuba, China ou Coreias! Falo sério mesmo: se você se interessa por debates interiores à teoria marxista, não há melhor lugar para se estar hoje que os EUA. E lembre-se que os EUA tomaram medidas dignas de Estados Unidos Soviéticos da América em pleno governo ... . Bush!

É óbvio que moro nos EUA porque aqui tenho melhores condições de trabalho, graças ao fenomenal sistema universitário deles. Lei da oferta e da procura, manja? Aquela coisa que os liberais anticomunistas adoram evocar. 

Mas não se avexe: graças às políticas do governo Lula (e à crise dos EUA), a greta entre os salários e condições oferecidos no sistema universitário americano e no brasileiro está encurtando muito. E o Brasil está começando a repatriar os seus cérebros, muitos de seus doutores perdidos durante a era FHC: eu sou um deles. 

E quanto até trotsquistas barbudos que são professores titulares em universidades de elite americanas (com direito a 1/3 do tempo no Brasil de graça!) começarem a ter motivos estritamente egoístas, econômicos pra voltar ao Brasil, pessoas como você vão ficar sem discurso, porque se nutrem de um rancor bobo, de Guerra Fria, que as afasta completamente de Jesus.



  Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post | Comentários (31)



terça-feira, 16 de junho 2009

LASA deve desculpas e explicações

A Latin American Studies Association deve um pedido de desculpas à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É provável que o conteúdo deste post não tenha interesse para a maioria dos leitores do blog e o dito aqui seria mais eficientemente expresso numa carta à direção da LASA. Opto pelo post, ao invés da carta, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não tenho a menor esperança de que a LASA reforme seus hábitos neocoloniais e, para ser honesto, interessa-me muito pouco o que pensa sua direção. Em segundo lugar, talvez valha a pena divulgar algo sobre os bastidores e as caixas-pretas das associações profissionais acadêmicas.

Qual o motivo da indignação? Cheguei ao Campus da Gávea na quinta-feira e vi algo que nunca havia visto em vinte anos de vida profissional e participações em congressos acadêmicos de todo tipo. A LASA havia contratado uma firma de segurança, com dezenas de meganhas engravatados, para policiar as portas das salas de aula e impedir a entrada de não-inscritos. A grande maioria dos não-inscritos que poderiam ter interesse em assistir o congresso eram, claro, pessoas daqui do Rio de Janeiro, especialmente alunos da PUC, que estava hospedando o congresso da LASA sem receber, para isso, nem um centavo.

Agora vejam a falta de noção: como é possível que uma associação gringa de estudos latino-americanos traga seu congresso para o Brasil e enfie dentro de um campus universitário uma legião de meganhas de uma firma de segurança privada sem perceber a significação simbólica disso num país como este? O que eles imaginavam? Que a favela ia descer em peso e ameaçar o congresso? Não há nada mais alheio à América Latina do que as associações gringas de estudos latino-americanos. Não aprendem. Não adianta.

Os pobres meganhas, engravatados, zanzavam como zumbis, sem ter muita ideia de onde se encontravam e de qual era a sua função, a não ser policiar os crachás pendurados nos cangotes dos congressistas. Força de segurança na porta de sala de aula. Foi vergonhoso, embaraçoso, constrangedor. Como é possível que uma associação gringa, num congresso realizado no Brasil e intitulado “Repensando as desigualdades”, possa fazer algo assim ser se dar conta da ironia implícita? Qual é realmente o grande prejuízo em deixar que as pessoas da comunidade entrem numa sala de aula e escutem uma palestra? Será que a LASA não percebe que está na contramão da história? Será que não percebe que a informação quer ser livre?

O caso passou a me interessar e acabei dando uma pesquisada. Vamos aos números.

A inscrição para o congresso da LASA custava US $240,00 para não-membros. Pelo câmbio de hoje, isso dá R$ 468,00. Se algum gringo sem noção da LASA estiver me lendo, saiba que isso representa, no Brasil, mais de um salário mínimo mensal. A LASA hospedou seu congresso, com milhares de associados, no campus da PUC-RJ sem pagar-lhe um centavo. Pagou as horas extra dos funcionários da PUC que trabalharam no congresso, mais nada. É verdade que a LASA oferece bolsas de viagem para alguns associados latino-americanos, mas esses gastos são amplamente cobertos por um fundo que advém de doações. Não seria decente que uma associação gringa multimilionária contribuísse em algo com o considerável aumento de custos operacionais que tem uma universidade brasileira que hospeda um congresso desse gigantismo?

Os pobres meganhas zumbis, policiais do crachá alheio, recebiam R$ 50 por um dia inteiro de trabalho, sem vale-transporte. O rapaz com o qual conversei vinha de Bangu. Deixo, para leitores que conhecem melhor que eu o sistema de transporte carioca, o cálculo de quanto esse rapaz gastou na viagem de ida e volta de Bangu para a Gávea. Limito-me a informar que a LASA calcula suas taxas em dólar e que, nos EUA, o salário mínimo é US$ 6,55 por hora. É só fazer as contas da exploração.

Fontes da Pontifícia Universidade Católica me confirmaram que:

1) Não receberam qualquer tipo de material que lhes permitisse divulgar o congresso entre a comunidade.

2) Os professores foram surpreendidos, na quarta-feira, quando a universidade ainda estava em aulas, por uma enorme força de segurança uniformizada. Estatelados, imaginaram que se tratava de uma blitz policial. Era, claro, o aparato de segurança da LASA. Bicho, é insultante demais.

3) Incontáveis propostas de mesa apresentadas por docentes da PUC foram rejeitadas. Aliás, os critérios de aprovação de mesas nesse tipo de congresso são outra caixa-preta. Não falo por interesse próprio, já que recebo muito mais convites do que sou capaz de atender. A própria LASA me convidou para organizar uma mesa neste congresso (convite que, suponho, depois deste post, terá sido o último; reitero que pra mim dá na mesma).

4) Evidentemente, todos os gastos de viagem e hospedagem – com a exceção das bolsas mencionadas, cobertas pelo fundo citado – correm por conta dos congressistas ou de suas instituições. Ora, se a LASA não pagou um centavo à PUC, se as bolsas de viagem oferecidas são cobertas por um fundo especial, se os pobres e inúteis meganhas receberam 50 mangos por dia, onde vão os 240 dólares de cada um dos milhares de congressistas? Algum dos associados que me leem tem ideia dessa caixa-preta? Não venham me falar de custos de publicação dos anais. Estamos na era da publicação barata.

A questão talvez interesse aos leitores do blog, no final das contas, por analogia com as associações profissionais brasileiras. Alguém tem realmente ideia de como funcionam, por exemplo, as finanças da OAB?

Para além da questão financeira, a LASA deve um pedido de desculpas à comunidade universitária brasileira. Não se enfia uma força especial de segurança no interior de um campus quando você está sendo hospedado. Não é possível que alguém estude a América Latina e não saiba o que isso significa. É muita falta de noção.



PS: Meu agradecimento à Pontifícia Universidade Católica pela hospitalidade.

PS 2: Obrigado, Rio de Janeiro. Obrigado. Vir aqui é renovar a alma e a alegria de viver.

PS 3: Minha palestra de daqui a pouco, no IFCS, é aberta ao público. A UFRJ não é a LASA.



  Escrito por Idelber às 09:40 | link para este post | Comentários (56)



terça-feira, 19 de maio 2009

Ajuda às vítimas das enchentes no Nordeste

Recebi, do blog Silenzio, No Hay Banda, um pedido que estou atendendo com este post. A situação é gravíssima no Nordeste brasileiro. As enchentes já atingiram 300 municípios em 11 estados. São pelo menos 184 mil desabrigados. Que tal tirar alguns minutos do seu tempo e doar dinheiro ou víveres aos compatriotas que estão sofrendo?

Ana está na Bahia, participando de debates sobre Um defeito de cor. Ela me disse que a situação em Salvador também é crítica. Parece que, faz alguns dias, até o Dique do Tororó transbordou. Deslizamentos de terra e desmoronamentos são comuns. Vamos dar uma força?

Aqui vai a lista de contas bancárias às quais você pode fazer doações:

Estado da Bahia

Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: Salvador - Centro (046)
Conta Corrente: 11.496-9

Estado de Sergipe
Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: Aracaju - Centro (005)
Conta Corrente: 12.880-0

Estado de Pernambuco
Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: Recife Centro (044)
Conta Corrente 17.900-7

Estado do Rio Grande do Norte
Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: Natal Centro (035)
Conta Corrente: 15.004-0

Estado do Piauí
Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: Teresina - Centro (056)
Conta Corrente: 18.611-5

Estado do Maranhão
Banco do Nordeste
Titular: BNB Solidário
CNPJ: 01.437.408/0001-98
Agência: São Luis - Centro (059)
Conta Corrente: 27.093-5

Estado do Ceará – Campanha Força Solidária
Banco do Nordeste
Titular: Ajuda Humanitária Cruz Vermelha – Filial Fortaleza
CNPJ: 07.315.986/0001-38
Agência: 016
Conta: 29.393-8


Se não quiser ou puder doar dinheiro, você pode contribuir com alimentos e roupas. A lista completa de entidades que estão recebendo esse tipo de doação está lá no Silenzio, No Hay Banda. Para ver como é grave a situação no Ceará, visite o Liberdade Digital. No Twitter, a tag é #enchentesnordeste.

Se você tem os números de outras contas bancárias, para estados cujas informações eu não consegui compilar, fique à vontade para divulgá-los aqui. Se você mora no Nordeste e quer dar um depoimento acerca de como andam as coisas, sinta-se em casa. Se tiver qualquer outra sugestão sobre o que podemos fazer, por favor avise.



  Escrito por Idelber às 06:36 | link para este post | Comentários (30)



quinta-feira, 14 de maio 2009

Choques culturais

Cheguei ao Brasil. Serão cem dias em solo pátrio: quase três meses na minha base belohorizontina, uma semana no Rio de Janeiro e outra no Mato Grosso do Sul. Na chegada, gosto de renovar alguns rituais vinculados ao treinamento dos ouvidos e do olhar expatriados. Há tempos me fascina o efeito que o cruzamento de fronteiras produz nos sujeitos. Sobre isso, escrevi um texto para a Revista Germina, onde eu tentava mapear algumas características bem próprias do expatriado brasileiro. Ao contrário dos mexicanos, por exemplo, que contemplam com credulidade absoluta com os símbolos pátrios, os brasileiros não temos uma data nacional – não há coisa mais insignificante para nós que o 7 de setembro --, nem heróis vitoriosos, nem revoluções, nem guerras de independência. Talvez nosso mais importante ritual de comunhão nacional seja a conversa e a piada acerca de quão esculhambado é o Brasil.

Até o momento, evidentemente, em que uma agência de notícias estrangeira decida fazer uma matéria sobre a violência no Rio ou em São Paulo. Aí saltamos como leões na defesa da honra pátria. Algumas das coisas mais violentas que já li na internet foram reações de brasileiros a algum filme, desenho animado ou série televisiva estrangeira que retratava algum aspecto da realidade brasileira de forma menos lisonjeira que gostaríamos.

A dinâmica psíquica do expatriamento é complexa, e mais ainda, acredito, no nosso caso, dado o considerável poder imaginário da chamada identidade brasileira. No texto da Germina, eu mencionava dois tipos de expatriados: por um lado, o brasileiro nostálgico, que odeia e despreza o país de adoção; por outro, o brasileiro “adaptado”, que não perde uma oportunidade para perorar sobre os horrores do Brasil. Às vezes, o mesmo sujeito oscila, num intervalo de alguns minutos, entre esses dois polos, na maioria dos casos sem perceber a contradição. Já vi um brasileiro tendo crise de choro nos EUA, pelo motivo (imaginário) de que o Bom Bril que lá gorjeia não gorjeia como aqui. Juro que presenciei essa cena.

Durante anos, o meu grande choque cultural ao chegar no Brasil eram os chuveiros. Não sei se era culpa dos chuveiros nacionais ou – mais provável – dos chuveiros aos quais eu tinha acesso. O fato é que a cada banho, eu tinha a sensação de um pinga-pinga insuportável, que me enchia de nostalgia pelas poderosas duchas americanas. Hoje tenho dois ótimos chuveiros aqui em BH e me livrei desse terrível trauma.

Os amigos que gostam de sorvete e iogurte dizem que os de fabricação brasileira não se comparam aos americanos. Não sei; laticínios não são minha praia. Nos EUA, você tem acesso a uma coleção superior de cervejas, tanto europeias como de microcervejarias gringas. No entanto, a cerveja brasileira de boteco, a de todos os dias – digamos, uma Bohemia – é muito superior às Budweisers e Miller Lites da vida. A carne brasileira é tão superior à americana como as estradas americanas são melhores que as brasileiras. E por aí vai.

Hoje, assisto a tudo isso com irônica, borgiana distância. Não sou imune aos efeitos do expatriamento, claro. Ao chegar, preciso ir ao um rodízio de churrasco. Devo sempre renovar minha adoração por Porto Alegre. Preciso comer pelo menos uma coxinha com Guaraná, mesmo sendo a Coca-Cola o meu refrigerante de todo dia e a coxinha algo perfeitamente encontrável nos EUA hoje em dia. Expatriado é assim.

Ainda me causa espanto, é verdade, a estranha mutação genética que acontece com os brasileiros, e particularmente com os belo-horizontinos, quando se convertem em motoristas de um automóvel. Gente hospitaleira, sorridente e generosa se transforma num exército viking assassino, sedento de sangue. Não consigo entender por que as pessoas dirigem como dirigem aqui. Não entendo, simplesmente. Acho que já desisti de entender. Se querem continuar se matando, se ferindo e se insultando no trânsito, paciência.

Fique à vontade, leitor, para iluminar essa dúvida metafísica que tenho, refletir um pouco sobre fronteiras e expatriamento, ou compartilhar histórias de choques culturais, mesmo as que envolvem diferentes regiões do Brasil. Esses relatos são sempre divertidos e me interessam muito.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post | Comentários (97)



sexta-feira, 24 de abril 2009

Estante de Walter Benjamin

DSC04394.JPG

Bom, parece que havia interesse em prateleiras de não ficção. Esta é a que fica imediatamente ao meu lado esquerdo, com os livros de e sobre Walter Benjamin.

Do lado direito, dois exemplares dos oximoros do Brasil: a primeira longa e competente exegese desse ensaísta errático que revolucionou o pensamento de esquerda foi feita pelo grande intelectual humanista que teve a direita brasileira em décadas passadas. Falo, claro, do Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, de José Guilherme Merquior (ed. 1969).

Segundo oximoro brasileiro-benjaminiano: uma das abordagens mais sistemáticas a Benjamin que se seguiriam foi feita por .... um ministro de Fernando Collor de Mello, Sérgio Paulo Rouanet. O édipo e o anjo e As razões do iluminismo estão aí (este último é só parcialmente sobre Benjamin).

O xerox encadernado é a edição francesa do Livro das Passagens, com a qual trabalhei muito, antes de que saísse a tradução inglesa, também aí na prateleira, e a magnífica versão da UFMG, que ainda não comprei. Fininha, ao lado de Rouanet, a tradução feita por meu amigo Marcio Seligmann-Silva d' O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão, a tese de doutorado de Benjamin. Também fininha, vermelha, aquela que eu reputo ser a mais magnífica tradução de fragmentos de Benjamin, a compilação Dialéctica en suspenso feita pelo amigo Pablo Oyarzún no Chile.

Para atiçar a sua curiosidade e suas habilidades googladoras, aí vão dicas para que se complete o post. Além das traduções de Benjamin que você vê aí, há nessa prateleira mais quatro livros brasileiros sobre Benjamin, escritos por três magnifícas ensaístas brasileiras (bem, uma delas por adoção). Do lado direito, deitado, no meio da pilha de três, a tradução inglesa das memórias mais poéticas já escritas sobre Benjamin. Há também três livros que representam as duas escolas que se degladiam na fortuna crítica angloamericana. Há um belo livro sobre fotografia e um esbelto e indispensável volume escrito por dois holandeses. E há um romance sobre a morte de Walter Benjamin, essa incrível alegoria do nosso tempo.



  Escrito por Idelber às 17:34 | link para este post | Comentários (24)



quarta-feira, 15 de abril 2009

Belo Horizonte em 1949

Ainda que fosse mudo, o documentário que se segue, sobre Belo Horizonte e seus arredores, já seria uma pérola. Foi feito em 1949, pelo Office of Strategic Services em parceria com o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs. A narração relata o extraordinário crescimento de Belo Horizonte na primeira metade do século e traz aquele inconfundível otimismo de amizade panamericana do pós-guerra. Até a Penitenciária de Neves fica parecendo uma maravilha. Tem tudo: JK prefeito, Praça da Liberdade, o solo de Itabira, a história de Ouro Preto, colégios Sto. Agostinho e Marconi, a Pampulha.

Imperdível para os mineiros, nostálgicos ou não:



(via No Holodeck via já lendário Google Reader de Ju Sampaio).



  Escrito por Idelber às 18:56 | link para este post | Comentários (26)



terça-feira, 14 de abril 2009

Livros de luto em BH: Morre o alfarrabista Amadeu, aos 92

P.L.: Então sua vida profissional sempre esteve cercada por estantes?

Amadeu: Sim, sempre no meu ramo. Até que uma vez um cliente amigo me ofereceu um emprego público. Ele era funcionário do governo. Era garantido. Eu ganhava 120 mil réis, e ele me oferecia 200 mil. Nesta vez eu quase saí.

P.L.: O que houve de errado? Ou “certo”, não sei dizer...

Amadeu: Bem, ele me deu um memorando e me mandou procurar o Presidente do Estado, Olegário Maciel. Naquela época ele atendia a todos pessoalmente. Era setembro de 1933. Estava uma fila enorme, cada qual “chorando as suas mágoas”, e quando chegou a minha vez ele me deu uma senha e me mandou voltar no dia seguinte.

P.L.: Já sei: o senhor não voltou...

Amadeu: Que nada! Voltei todo arrumadinho, até. O Palácio estava cheio de repórteres, todos num grande alvoroço. Quem não voltou foi ele. Havia morrido naquela manhã. (Risos)

P.L.: Quer dizer que se Olegário Maciel não tivesse morrido no dia em que morreu provavelmente hoje não existiria a Livraria Amadeu?

Amadeu: Pois é. Mas o fato é que morreu, e eu sempre trabalhei em livrarias. Aos poucos vi que as pessoas procuravam por livros usados e não havia onde comprá-los. Em 1948 apareceu um crítico literário amigo meu, que estava indo para o Rio, e falou “Amadeu, estou indo para o Rio e vou te vender minha biblioteca”. Eram uns mil volumes.

P.L.: Nasceu a Livraria Amadeu.
Amadeu: É. Montei meu sebo perto da Igreja São José, na rua Tamóios. No primeiro dia eu vendi apenas um livro: Poesias Completas de Manuel Bandeira.

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São trechos da entrevista de Ewerton Martins Ribeiro com Amadeu Rossi Cocco em outubro de 2004. Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas. Na Tamoios.

Era um daqueles alfarrabistas que amavam a singularidade de cada edição, um colecionista benjaminiano. Como a maioria no seu tempo, era profundamente francófilo e associava a narrativa francesa oitocentista – quiçá com muita razão, aliás – ao auge absoluto da literatura, do objeto livro de ficção enquanto tal. Mas ia atrás de tudo. Era um caçador de livros, que os cuidava e encaminhava com um carinho impressionante.

É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.

Todas as homenagens que houver na cidade serão insuficientes para dimensionar o que ele representou numa era pré-Internet, pré-bancos de dados, onde a procura bibliográfica era bem mais acidentada, dura, sujeita a erros.

Obrigado, Seu Amadeu, pelas incontáveis horas de leitura que me proporcionou. Que chatice chegar a BH neste maio sem ter o senhor aí.

Confira a crônica de João Antonio de Paula. Há um obituário no blog do Ewerton (via paulodaluzmoreira).



  Escrito por Idelber às 20:21 | link para este post | Comentários (25)



quinta-feira, 09 de abril 2009

Duas estantes

Nunca mandei para o Drops da Fal as fotos de estantes que uma vez ela compilou. Tendo enrolado além da conta, faço um post com as fotos já velhas, como um pretexto para falar de livros. São duas estantes, uma organizada e outra nem tanto. Ambas no meu gabinete, em Tulane. Os livros especiais eu guardo, claro, em casa. A primeira estante, que olha para o sul, para o Rio Mississippi, é esta:

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Aí está minha coleção de narrativa hispanoamericana em ordem alfabética por autor. Excetua-se a prosa argentina, que merece um par de estantes exclusivas em casa, e as magníficas Biblioteca Ayacucho e Colección Archivos, que também têm status de livros domésticos. No alto, em pastas, anotações à mão de seis anos de rato de biblioteca em tempo integral (1990-96) sobre tudo o que se imaginar, de Platão a Guimarães Rosa.

Segurando a pilha, no canto superior esquerdo da segunda prateleira, as Obras Completas de Mautner. Os quatro livrinhos negros mais adiante são uma coleção de romances da Revolução Mexicana. Na prateleira de baixo, os livros magros e escuros são as Obras Completas de García Márquez (até 1990), traduzidas ao português. Na seguinte, à esquerda, dois livros iguais, de lombada branca com tarja preta, são romances chatos mas não desprovidos de mérito, escritos pelo mexicano Fernando del Paso, que gosta de romanção. Mais adiante, os dois volumes grandes com pinta de velhos são as edições originais das obras do grande pedagogo e ensaísta uruguaio José Enrique Rodó, uma espécie de proto-tucano tangueiro.

Na última, lá embaixo, os dicionários. Aurelião no lugar de honra, ao alcance da mão. À direita, um dicionário alemão-inglês da HarperCollins. Do outro lado do Aurélio, o volume vermelho mais fino é o Larrousse espanhol e o mais gordinho e bonina é o Larrouse francês. Ao lado, laranja, está um incrivelmente inútil dicionário espanhol-português / português-espanhol, feito em Portugal, daqueles em que você procura asomar e ele traduz, triunfante, assomar. Sério candidato a livro mais inútil da coleção. O verde grossão é um dicionário de sinônimos do espanhol, esse sim, espetacular. Ao lado, em azul, o dicionário de música da Oxford.


Aquela é a estante organizada. A desorganizada é esta:

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Lá em cima, à esquerda, uma penca de livros em francês, edições da Gallimard, que há séculos não leio. Muito Proust e Balzac, mas também Zola, Beckett, Ionesco,Sartre. O volume verde grande, na prateleira seguinte, reúne as Obras (quase) Completas de Mark Twain e, logo abaixo, em azul, vê-se o volume das Obras (quase) Completas de Edgar Allan Poe. À esquerda, quadro volumes em branco reúnem as Obras Completas de Camões. Do outro lado, os dois volumes em negro são metade dos romances completos de Henry James (a outra metade está em BH). Mais adiante, a longa sequência de livros verdes são as Obras Completas de José de Alencar.

No andar de baixo, uma sequência de livros vermelhos: a coleção 50 grandes romances da literatura universal, da nossa querida Editora Abril. Ao lado e abaixo, há várias biografias: Oscar Wilde, James Joyce, Dostoiévski. Há até -- mato a cobra e mostro o pau -- a autobiografia do Príncipe Sociólogo, que é aquele volume negro na extrema-direita da penúltima prateleira. Na última, o livro grossão vermelho é a biografia de Caymmi. Deitada nas redondezas, a biografia de Nelson Rodrigues.

Mas meus livros favoritos -- toda a não-ficção (filosofia, teoria literária, antropologia etc.), a poesia amada, a literatura do Brasil, da Argentina e dos EUA, e todo o grande romance europeu --, eu guardo em casa mesmo.



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sábado, 07 de março 2009

Em Austin

Este é só um post meia-boca para dar notícias do meu paradeiro e abrir outra caixa de comentários para quem quiser oferecer notícias da manifestação de hoje contra a Folha de São Paulo, às 10 horas da manhã, na Alameda Barão de Limeira. Parece que o Biscoito terá uma fotógrafa nesse ato público. A se confirmar. Quem tiver ido, deixe aí o testemunho.

No momento, eu me encontro aqui, ó:

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O Google Maps me dizia que iam ser 8 horas e 50 minutos, mas fiz New Orleans-Austin em menos de 7 horas. Foi também a estréia triunfal do meu GPS, comprado na Amazon por 150 mangos. É uma daquelas maquininhas que te fazem pensar que não há mesmo limites para a tecnologia. Uma maravilha.

Estou em Austin -- única cidade do Texas que possui qualquer interesse para mim -- a convite dessa venerável instituição, para um colóquio sobre violência que teve um primeiro dia magnífico.

Na véspera do Dia Internacional da Mullher, mais uma extraordinária profissional, que recebeu a oferta de trabalho dos sonhos, para aquele salto definidor e definitivo, terminou recusando-a porque o marido -- que não é em sua profissão nem metade do que ela é na dela -- se sentiu, digamos, meio inseguro de se mudar. É impressionante a frequência com que vejo esse filme. Jamais o vi acontecer ao revés.

E, neste domingo, reencontraremos nosso velho freguês, desta vez na disputa do título regional. Se for passar aí no Brasil, não percam.



  Escrito por Idelber às 03:35 | link para este post | Comentários (51)



quinta-feira, 05 de março 2009

A encomenda

Já fui chamado algumas vezes de anti-americano por criticar a política externa ou a ideologia dominante nos Estados Unidos. Pois bem, peço licença hoje para descer o sarrafo numa venerável instituição latino-americana: a maldita encomenda. Há poucas coisas neste planeta que eu odeie mais que a encomenda. Ela praticamente não existe entre estadunidenses, que são um povo com nível altíssimo de simancol. Mas é uma verdadeira praga entre latino-americanos.

Qualquer latino-americano que viaja muito pelo mundo ou mora fora do país já foi vítima dessa execrável instituição. Acho que ela é mais comum, inclusive, nos países hispano-americanos que no Brasil. Em algumas nações – omitamos os nomes –, a encomenda é quase uma obrigatoriedade. Se há um incauto viajando para alguma comarca onde o mentecapto desprovido de simancol tem um amigo ou mesmo um conhecido, ele se sentirá na obrigação de mandar uma encomenda.

Um sujeito que, ante um compatriota que está visitando outro país, para um congresso de quatro dias, que se reúne em tempo integral, manda uma encomenda para ser entregue a um destinatário que a vítima nem conhece, sinceramente, esse sujeito merece ter que se ajoelhar em praça pública para pedir perdão (alô, Fernando Barros e Silva, este não é um blog maoísta; isto é só uma metáfora, ok?).

Claro que não aconteceu comigo. Eu não aceito encomenda. Não levo, não trago, não compro, não vendo e digo na cara de quem for. Mas não posso me recusar a hospedar alguém só porque essa pessoa traz uma encomenda que, na certa, vai terminar explodindo no meu colo, pois ninguém tem tempo de sair caçando destinatários de encomenda no meio de um colóquio que se reúne de 9 às 18 horas. É o anfitrião que termina com a mala sem alça.

Agora imagine que o destinatário é um médico, um cabra que dorme de três a quatro horas por noite, não tem tempo nem de comer, e de repente recebe uma ligação de um desconhecido dizendo: olha, Fulano, eu sou o Beltrano, que você não conhece, mas o Mengano, que você também não conhece, deixou aqui uma encomenda da Cicrana, que lhe mandou uns docinhos nicaraguenses. Que horas você pode passar para pegar? Ao sentir a respiração do cabra do outro lado, eu só pensava com meus botões: Bicho, você tem que escolher melhor seus amigos.

É evidente que nem toda encomenda é igual. Um parente ou amigo muito íntimo, que lhe pede algo que realmente é muito mais barato nos EUA e é facilmente transportável, avisando-lhe com a antecedência necessária para que você possa fazer a compra pela internet, esse ainda vai. Mas a maioria dos encomendeiros é de outra lavra.

Eis aqui uma cena inimaginável nos EUA: uma vez, no meio de um churrasco de família, no prédio onde tenho um AP-zinho, ali na Cidade Nova, em Belo Horizonte, um desconhecido se aproxima e diz: oi, eu sei que você mora nos EUA e vem aqui todo semestre. Eu queria lhe propor um negócio. A câmera tal e qual custa X reais por aqui. Lá custa Y dólares. Se você trouxer umas 5 por semestre e a gente vender e rachar a diferença, vamos ganhar Z reais. Na cara-dura, sem nunca ter me visto na vida, o sujeito me propunha virar contrabandista. Minha resposta, que é a minha típica nessas situações, já me rendeu fama de chato, mas dela não abro mão. Seco e direto, na veia: eu não trago encomenda. Foi divertido ver a cara do sujeito, tentando registrar uma frase que não estava, para ele, no domínio do inteligível. Como não traz encomenda?

É um insulto à cordialidade latino-americana você dizer que não traz encomenda. Eu o digo deliciando-me com cada sílaba, com um sadismo de que só um atleticano é capaz.

Depois disso, o sujeito, cujo nome eu nunca soube, parou de me cumprimentar nos corredores e elevadores do prédio. Desde então, claro, eu tenho insônias e remorsos terríveis por isso, preocupadíssimo que fiquei. Imagine: eu viajo ao Brasil pelo menos três vezes por ano. Moro nos EUA há vinte. Estou completando um milhão de milhas viajadas, mais que muito piloto por aí. Se eu quisesse ganhar dinheiro com muamba, o Galo já teria contratato o Kaká, pois afinal eu sou um socialista que reparte suas benesses com os mais necessitados.

Moral da história: caríssimo leitor, nem toda encomenda é uma mala sem alça. Mas assim como naquelas fórmulas matemáticas em que a coisa tende a zero, a encomenda tende a ser uma mala sem alça. Muita, muita moderação na hora de impô-la a um coitado que, como todo bom viajante, só quer zanzar livre leve e solto por este mundo de meu Deus.




PS: De vez em quando, na blogosfera, você se depara com coisa de gênio (via Milton).

PS 2: Leiam também o Zema Ribeiro. É um momento importante da história do Maranhão, esse estado que tem os piores índices sociais do Brasil e, ao mesmo tempo, uma capital -- ah, uma capital! -- que é das cidades mais absurdamente belas do planeta. Saudades de São Luís. O Maranhão não merece isso.

PS 3: Verbeat no seu quinto aniversário. Parabéns. Este atleticano blogueiro se orgulha de ter sido o tradutor do manifesto.



  Escrito por Idelber às 01:23 | link para este post | Comentários (72)



sexta-feira, 06 de fevereiro 2009

Meme confessional

Hermenauta passou, mas o meme já deu voltas e voltas por meia blogoseira. Cinco coisas que não se sabem sobre mim, pois:

1. Meu trauma de infância é uma decisão de Campeonato Brasileiro em que não jogava meu time – e ele não tem a ver com o resultado. Imagine uma decisão com duas equipes gigantes. Imagine o grande chutador da sua geração dando seu mais inesquecível espetáculo e encontrando o maior goleiro da sua geração fazendo o inacreditável. Aos sete anos de idade, você tem perfeita consciência de que ali se decide a dinastia do futebol brasileiro dos próximos anos. Se você não sabe do que falo, veja com seus próprios olhos o dia em que Figueroa marcou, Nelinho fez chover, mas Manga fez cair neve. Imagine que você vê um primeiro tempo eletrizante, vê o gol de Figueroa no começo do segundo tempo e cinco minutos depois tem que sair de casa para ... ser orador na formatura de sua turma de pré-primário. Sim, isso me aconteceu. Dali, tirei uma lição: às vezes, uma escola não tem noção do mundo ao seu redor. Até os torturados nas masmorras da ditadura estavam vendo os últimos 30 minutos daquele jogo – menos os infelizes moleques e pais de um obscuro jardim de infância de Belo Horizonte, de cuyo nombre no quiero acordarme.

2. Eu me vinguei do meu trauma de infância na própria cena do crime, 5 anos depois. Não na casa onde poderia ter visto o jogo, mas no próprio lugar onde ele acontecera. Eu sabia que Figueroa e Manga haviam decretado o nascimento de uma dinastia: depois de um bicampeonato brasileiro (1975/76), um octacampeonato gaúcho e um Tri Invicto no Brasileirão (1979), eu veria ao vivo, em Porto Alegre, o jogo que decretou o fim. O meu Galo massacrava a histórica máquina do Inter em pleno Gigante da Beira-Rio, com sonoros 3 x 0 na Semifinal do Brasileirão de 80, num jogo em que Éder, Luisinho e Pedrinho foram bons coadjuvantes, mas a dobradinha inesquecível foi Cerezo-Reinaldo. Até hoje, Paulo Roberto Falcão diz que o Galo de Éder-Cerezo-Reinaldo foi a maior máquina do Brasil pós-Pelé. A opinião é do jogador mais completo que vi jogar. Tudo isso, claro, me rendeu uma imensa simpatia pelo Internacional, que é para todos os efeitos o meu segundo time, junto com a Ponte Preta (embora, ao contrário de qualquer Colorado, eu torça para o Grêmio quando este joga com o eixo RJ-SP).

3. Confissão do século: Eu já torci para o ex-Ipiranga. Sim, quando criança. Só virei Galo em 1977, aos 8 anos. Na época da Libertadores de 1976, eu ainda era torcedor somente do Uberaba Sport e, vagamente, do Vasco. O ex-Yale jogava a Nega de uma melhor de três com o River Plate, em Santiago (onde obviamente a torcida era pró-Brasil). No 3 x 2 que marcou a maior conquista da história do ex-Palestra, ficou famosa a cobrança de Joãozinho no terceiro gol. De surpresa, rompendo as regras – que mandavam, claro, que Nelinho cobrasse –, ele fez o gol mais gingadamente brasileiro da história. Assistam e vejam como era o futebol (não se esqueçam de clicar na parte 2, que é o segundo tempo para a eternidade). O que poucos se lembram sobre aquela cobrança é que ela foi uma resposta moleque de Joãozinho à postura do árbitro no segundo gol do River, validando cobrança de falta enquanto se armava a barreira. O que pouquíssima gente sabe é que Aymoré Moreira, o técnico do ex-Ipiranga, repreendeu Joãzinho em meio às comemorações do título – por ter cobrado a falta que ganhou o dito cujo.

4. Eu já quebrei a perna de alguém deliberadamente. Acho que se enquadra na legitima defesa. Eu: 19 anos, 1,73m, 68kgs, centroavante com algum talento. Jogando contra o temido time do Cachoeirinha. Linha de zaga: Zarmário, Noite Ilustrada, Alemão e Ranca-Toco. O menor tinha 1,85m e 90 quilos. Aos 35 minutos, pelas minhas contas, me haviam jogado no chão umas 13 vezes. No intervalo, canela esfolada, eu sabia que essas situações têm 4 saídas: 1) você faz o que Rivellino às vezes fazia: joga de armandinho no meio-campo; 2) tenta escapar da porrada com tabelas em alta velocidade, o que era impossível naquele jogo: faltava espaço; 3) oferece seu corpo ao sacrifício, para virar carne moída, o que não era opção legal para o segundo tempo; 4) quebra a perna de um feladaputa para que saibam que você não vai apanhar calado.

Aos 5 do segundo, Alemão domina a bola na lateral de costas para o campo, muda o pé de apoio, eu meço o timing da tesoura e lanço um carrinho voador, fazendo as travas da minha chuteira esquerda encontrar com as da direita, convidando seu tornozelo de apoio a ser recheio do sanduíche. Ouço o indefectível crack. Alemão, que tinha de bíceps o que eu tinha de coxa, ia rumo ao hospital. O jogo, que estava 1 x 0 para eles, terminou 2 x 1 para nós, com um gol meu. Foi a única vez – excluindo as bofetadas normais de criança com seus primos e irmãos – que se pode dizer que agredi alguém fisicamente na vida.


5. Em 1971, aos 2 anos e 8 meses de idade, eu ganhei uns milhões de cruzeiros de Flávio Cavalcanti na TV, fazendo algo que algum dia conto. Deve estar nos arquivos da TV Tupi. Mais não conto e mais não me foi perguntado.

Agarre o meme aí quem quiser. E você que não tem blog, confesse aí na caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 01:04 | link para este post | Comentários (75)



sexta-feira, 30 de janeiro 2009

Em Los Angeles

A convite dessa magnífica instituição, vou passar uns dias em Los Angeles, cidade-véu por excelência que, por incrível que pareça, eu não conheço até hoje. Confiando que quem dirige em BH dirige em qualquer do lugar do mundo, aluguei um carrinho com GPS para o fim de semana na Califórnia. Volto na quarta e até lá o mais provável é que o blog fique meio largado.

Se você está na Costa Oeste dos States e quiser dar um pulo até a palestra, o papo é sobre estudos de masculinidade nas literaturas brasileira e hispanoamericana e acontece na segunda à tarde no Departamento de Espanhol e Português, sem dúvida um dos líderes da disciplina nos EUA.

Até já, pois.



  Escrito por Idelber às 16:41 | link para este post | Comentários (14)



quarta-feira, 26 de novembro 2008

Crônica de Thanksgiving

Natal ainda vai. Há algo no etos natalino – aquela história de amar ao próximo – que é bacana. A festa das crianças com o Papai Noel termina sendo, para quem é pai, um momento que vai encontrando seu espaço na galeria das lembranças. É fato que durante o Natal há que se ouvir patacoadas como esta (para assinantes), escritas como se o catolicismo cristianismo fosse uma minoria perseguida no Brasil. Esse tipo de discurso circula sem ser contestado porque, afinal de contas, retrucá-lo seria ofender parte daqueles 70% ou 80% de pessoas amadas que compõem o círculo de intimidade da maioria dos brasileiros ateus.

Mas, aqui entre nós, a pequena comunidade que lê este blog, combinemos: o Thanksgiving é um feriado irredimível.

Comemora um genocídio e escolhe fazê-lo da forma mais anti-ecológica possível, empanturrando-se de comida até o limite. Faz dessa grosseria o objeto das brincadeiras que envolvem o feriado. Marca, para muitas famílias, uma das únicas datas, senão a única, de reencontro, em geral cercada de ansiedade ou pavor de se rever o parente detestado. No cinema americano, há todo um sub-gênero que eu chamaria de Thanksgiving horror. Os mais eruditos que eu na sétima arte poderão fazer a lista.

Nadie rebaje a lágrima o reproche nada do que vai acima. Padeço, mas de ressentimento nunca. Nos meus 18 anos ao norte do Rio Grande, os feriados de ação de graças sempre foram prazerosos; sem excesso, mas fartos; com ótimas companhias e cerveja boa. No calendário da universidade, o feriado de ação de graças precede a última semana letiva. É a oportunidade de finalizar o semestre e o anúncio do desafogo que se aproxima. Nada a reclamar, portanto.

Mas é visível a melancolia mal mascarada que cerca a data. Há uma regressão à fase oral que fica ali, tão claramente pedindo uma leitura freudiana que você tende a rechaçá-la, por óbvia demais: o excesso de comida como denegação e sublimação de uma sociedade fundada no genocídio e na escravidão. Nos ideais de liberdade, autonomia, livre mercado e democracia também, é evidente. Mas esses ideais só surgem no terreno material já arado pelo genocídio e pela escravidão.

Tudo isso costuma fazer dos jantares de Thanksgiving – com ou sem futebol americano ao fundo – uma espécie de grande celebração do esquecimento.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (50)



terça-feira, 04 de novembro 2008

Um pedido

Um breve pedido, pessoal: por favor, dêem pelo menos 5 a 10 minutos entre cada atualização (cada F5) que vocês solicitarem ao site. Tentei montar um esquema para aguentar o tráfego, mas estamos começando a ter problemas.

Não é o número de visitantes. É a quantidade de F5's simultâneas.



  Escrito por Idelber às 20:16 | link para este post | Comentários (7)



terça-feira, 14 de outubro 2008

Jabá

lei-exp.jpgAcaba de sair aí no Brasil mais um volume com um artigo meu. Aproveito para fazer a divulgação do livro e convidar os leitores interessados em crítica literária e estudos culturais a que o adquiram. Ele é intitulado Leitura e experiência: teoría, crítica, relato. Os organizadores são Evando Nascimento e Maria Clara Castellões de Oliveira, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que edita o livro em parceria com a Annablume. São 16 ensaios sobre temas que vão de Machado de Assis a Woody Allen, com pesquisadores da UFJF, PUC-RJ, UFC, UERJ, UFBA, UFSC, PUC-GO, UFSM e UFES. Contribuo com um texto sobre a experiência do chamado "multiculturalismo" nos Estados Unidos, do qual reproduzo abaixo os cinco primeiros parágrafos. A íntegra, só no livro mesmo. Por coincidência, a Folha de São Paulo publicou hoje uma monstruosidade (para assinantes) sobre o mesmo assunto.


O Multiculturalismo nos Estados Unidos: História e Crítica

O termo multiculturalismo está associado a uma série de lutas simbólicas cujo principal terreno foram os meios acadêmicos norte-americanos nas últimas décadas. Tributárias dos movimentos de direitos civis dos negros e chicanos e das reivindicações feministas dos anos 1960 e 1970, essas lutas só adquirem essa rubrica específica ao se converterem numa prática acadêmica que passa a guiar não só boa parte da pesquisa produzida nas ciências humanas, como também a própria administração do aparato universitário. As lutas multiculturais conseguem alterações significativas na representação das minorias, mas são, por outro lado, incorporadas e neutralizadas por uma série de práticas de administração da diversidade, que passam a fazer parte do próprio poder econômico, estatal e militar do país. Refletir sobre o multiculturalismo é, então, refletir sobre uma experiência contraditória: democratizadora, mas sujeita a severos limites e demonstravelmente passível de absorção pelas formas mais reacionárias de poder, incluindo-se aí o bushismo, cujo gabinete “multicultural” leva a cabo a política externa mais sanguinária da história do país. O legado do multiculturalismo é, portanto, um debate sobre os limites e as realizações efetivas de uma política de reparação simbólica. A discussão não é simples.

Não há “um” multiculturalismo, e não se trata de uma “teoria” ou “ideologia”. Pensemos, para início da reflexão, no multiculturalismo como uma rubrica sob a qual se reúnem uma série de práticas, projetos e intervenções intelectuais, muitas vezes contraditórios entre si. Várias práticas de administração da diversidade étnica têm sido adotadas com inspiração nos movimentos multiculturais dos 80 e 90, e o termo está incorporado à língua inglesa em definitivo. Como sempre acontece no campo das conquistas simbólicas, boa parte da polêmica sobre o legado do multiculturalismo se resume a avaliar quais terão sido os efeitos “reais”, as conseqüências “sociais” ou “políticas” desses embates simbólicos. No caso específico desse fenômeno, há alguns efeitos bastante reais que se desentranhar, embora seja possível dizer que o auge do multiculturalismo termina com os ataques de 11 de setembro de 2001 e com a manipulação deles depois feita pelo governo Bush, ou seja, a instalação da guerra sem fim. Isso não quer dizer, claro, que políticas e trabalhos acadêmicos inspirados pelo ideal multicultural não continuem a ser produzidos, mas hoje, sem dúvida, eles deixaram de ser a forma dominante de se lidar com a diferença nos EUA.

Há vários momentos da história da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 60 que poderiam ser tomados como fundacionais para a história dessa tecnologia social da inclusão que é o multiculturalismo: as passeatas lideradas por Martin Luther King, a recusa de Rosa Parks em ceder seu lugar no ônibus, a pregação incendiária de Malcolm X pelo país, o encontro entre a luta afro-americana e a militância revolucionária de esquerda dos Black Panthers. As primeiras leis anti-segregação, impostas policialmente no sul dos EUA, poderiam ser consideradas as precursoras das políticas de reparação que depois estariam no centro do multiculturalismo. O movimento negro americano realiza essa ampliação fundamental da noção de direito ao argumentar que há uma esfera que é propriamente do direito civil, do direito à cidadania, mais além ou mais aquém do conceito de direitos humanos que, naquele momento, já completava cerca vinte anos de codificação relativamente universal e sancionada na Carta das Nações Unidas.

Quando se insiste sobre a noção de direito civil, fala-se de direito ao mesmo tempo num sentido mais restrito e mais amplo. Como sempre ocorre no momento em que um grupo oprimido qualifica, adjetiva um universal – neste caso, o direito –, o resultado é uma redefinição daquele conceito que tendencialmente o universaliza mais, ao apontar a limitada universalidade que ele possuía antes. Note-se que o grupo oprimido, subalterno, não entra na luta recusando o universal enquanto tal. Pelo contrário, ele diz: esse universal tem sido até agora falso, ele não se realizou ainda na sua plenitude, ele não nos inclui – a nós, como negros. O conceito de direitos civis, tal como usado modernamente, se cristaliza no momento em que a população à qual se havia negado o direito de cidadania se insurge para reclamar uma verdadeira universalização desse direito. A operação é desconstrutiva no sentido estrito da palavra. Ela toma um universal – o direito à cidadania – e demonstra como a sua constituição repousa sobre a delimitação de um lá-fora constitutivo e necessariamente excluído: o não-cidadão (negros, mulheres, índios, imigrantes, crianças, escravos). Esse lá-fora confere ao universal sua condição de possibilidade e demarca seu limite. Nesse primeiro momento, a operação desconstrutiva desvela o fato de que não há oposição binária que não seja, ao mesmo tempo, uma hierarquia. É o movimento negro norte-americano que realiza essa operação com a mais ilustrada e moderna das noções, o conceito de direito individual.

O primeiro postulado aqui seria, então, de que o multiculturalismo tem suas origens numa luta pela universalização da noção de direito cidadão na democracia mais antiga do planeta, quase 200 séculos depois de sua fundação. Essa universalização se ancora no reconhecimento da exclusão dos negros da cidadania na república americana, no momento de sua constituição. Em 1964 aprova-se a emenda constitucional americana que proíbe a discriminação em termos de cor, raça, gênero e origem nacional. Em 1965 promulga-se o Voting Rights Act, que garante a presença de observadores federais nos locais de votação, para garantir direitos políticos igualitários para os negros. A partir daí se promulgam leis que incentivam a “correção de discriminações passadas”. Nos EUA, foi a população negra que teve condições de realizar a crítica da noção moderna de direito. Daí o fato de que a experiência norte-americana do multiculturalismo seja tão racializada. Ao contrário da história da opressão dos negros nos EUA, no Brasil a segregação racial não se ancorou em formas legal, juridicamente sancionadas, por mais que a exclusão do negro tomasse dimensões tão grandes como aquelas vistas nos EUA. Boa parte das críticas depois sofridas pelo multiculturalismo americano no Brasil tenderiam a girar em torno das diferentes percepções do que é a segregação racial, como ela se perpetua, como combatê-la e, acima de tudo, o que diferencia o racismo encontrado nos Estados Unidos daquele vivenciado pelos afro-brasileiros.

A íntegra deste texto e 15 outros ensaios de pesquisadores brasileiros estão lá no volume da Annablume.



  Escrito por Idelber às 04:33 | link para este post | Comentários (41)



sexta-feira, 10 de outubro 2008

Drops

Há algumas citações recentes ao Biscoito que eu gostaria de agradecer. Fomos citados naquele perigoso órgão do comunismo internacional, o Guardian. Fiquei muito lisonjeado. Continuo sonhando com um Brasil que tenha pelo menos um jornal da qualidade do Guardian.

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A Revista Bula fez uma pesquisa entre universitários brasileiros e o Biscoito foi um dos dez blogs mais citados. Gracias muy mucho.

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Falzuca, a poderosa madrinha, vem arrasando nos lançamentos do seu novo livro e me citou nessa entrevista. Só de ter representado alguma coisa para uma pessoa tão iluminada como a Fal já vale a pena ter tido blog.

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Aliás, no dia 28 deste mês o blog completa quatro anos. Três dias depois, no Halloween – ou no dia do Saci-Pererê, segundo o companheiro Aldo Rebelo – o blogueiro completa quarenta...

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Salve: Mino Carta está de volta à blogosfera.

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Mais uma daquelas ótimas descobertas: um blog só sobre imagens que fracassaram (dica da Daniela Arrais lá no Favoritos).

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zizek.jpgAlô, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O grande Slavoj Žižek vai ao Brasil, para o lançamento de A visão em Paralaxe. Dia 12, na Boa Terra, às 15 horas, no Instituto Cultural Brasil-Alemanha; dia 13, no Teatro de Arena da UFRJ, campus Praia Vermelha, às 20 horas; dia 14, no Sesc Vila Mariana, às 19:30. Mais detalhes aqui. Se puder, compareça. Só ver o cabra transpirando já é um espetáculo em si.

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Aqui nos States, o tema eleitoral da última semana foi a queda completa da campanha de John McCain nas acusações desesperadas a Obama por “associação com terroristas”. Veja este vídeo para ter uma idéia do clima de ódio que anda imperando nos comícios de McCain. A cobertura completa está no TPM. Enquanto isso, eleitores de Nova York recebem cédulas com o nome Osama em vez de Obama. Foi um erro “tipográfico”, afirmaram os responsáveis. Claro que este blog não acredita em teorias da conspiração...

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Perdido lá no cantinho do “Painel”, da Folha, está a notícia de que a investigação da Polícia Federal concluiu que não houve grampo nenhum em Gilmar Mendes. Paulo Henrique Amorim pergunta-se, com razão: e se o veredito fosse o contrário? Qual o seria o tamanho da manchete de primeira página? Aliás, a Folha vai continuar fingindo que não foram publicadas denúncias seríssimas contra o homem que ocupou mais de 30 manchetes do Caderno Brasil nos últimos dois meses?

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A Folha de São Paulo realmente escondeu uma pesquisa do DataFolha sobre o segundo turno em Belo Horizonte?

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Altamiro Borges faz um bom balanço do desempenho da esquerda nas eleições municipais. Concordo com tudo, mas acho que a mesma crítica que se faz ao PT do Rio de Janeiro deve ser feita ao PC do B do Rio Grande do Sul.

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Mas foi Mestre Inagaki quem fez o post definitivo sobre as eleições municipais.

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Abraços aqui de Rutgers University, em New Brunswick, Nova Jersey, onde o blogueiro palestra neste fim de semana, convidado, desta vez, pelos alunos.



  Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post | Comentários (69)



sexta-feira, 01 de agosto 2008

Você sai sozinha?

Conversando com Ana ontem, apareceu um daqueles assuntos meus favoritos para especulação antropólogica, daqueles irresistíveis para um blog. Eu dizia que na minha experiência, uma das grandes vantagens que a sociedade norte-americana (da qual eu sou muito crítico, como sabem) ainda possui sobre a brasileira é a maior possibilidade que tem a mulher de sair sozinha para beber uma cerveja, almoçar, jantar, tomar um café. Evidentemente, não é uniforme no país todo, e com certeza será mais comum em Nova York, Nova Orleans e São Francisco que no Mississippi ou em Utah. Mas, no geral, ainda é infinitamente mais comum aqui do que aí, acredito eu.

Há o problema da violência, é claro. Eu imagino o receio que deve sentir uma mulher de sair sozinha no Rio de Janeiro, hoje em dia, para jantar. Mas abstraindo a questão da violência – se é que é possível abstrair esse albatroz gigante e onipresente na sociedade brasileira --, interessa-me a questão da aceitabilidade do ato. Estou interessado em saber mais um pouco sobre o desconforto que sente ou não uma mulher brasileira, casada ou solteira, não importa, ao ter vontade de simplesmente ir até um restaurante, sentar-se, consumir bebidas e comida, pagar e ir embora.

Falo por mim. Sou gregário, adoro reunir gente, mas também gosto muito de sair só. Preferencialmente, vou ao cinema sozinho. Já perdi a conta de quantas vezes fui a estádios de futebol, especialmente o Mineirão, sem acompanhantes. Sempre que chego a uma cidade estrangeira (“estrangeira”, para mim, é qualquer cidade não-brasileira e não-americana), meu primeiro impulso não é telefonar para os eventuais amigos, mas sair sozinho e explorar a cidade a pé. É o meu jeito de sentir a urbe.

Em Belo Horizonte, sei que é muito raro – belo-horizontinas, corrijam-me se eu estiver errado – encontrar mulheres sozinhas em bares, restaurantes ou cafés. A percepção que tenho é que isso é um pouco mais comum em São Paulo que no Rio de Janeiro. Mas que, no geral, ainda é muito desconfortável para uma mulher brasileira ter esse prazer tão simples – o de uma refeição ou uma bebida desacompanhada.

Diga lá: além da violência, que é um fator chave, você percebe desconforto ou discriminação ao sair sozinha? Ou você nem tenta? Homens: já pararam para pensar nisso?



  Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post | Comentários (87)



segunda-feira, 28 de julho 2008

Em Terapia

Quando filmou O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, Héctor Babenco se colocou uma pergunta interessante: como fazer um filme em que os personagens estejam entediados mas o público não? Foi o que me veio à mente neste fim de semana, enquanto eu e Ana encarávamos a maior maratona televisiva das nossas vidas: 43 episódios da série “Em Terapia” (In Treatment), da HBO, baseada num original de muito sucesso em Israel. Eu quase não assisto televisão, mas sou capaz de apostar que é das melhores coisas que a telinha produziu nos últimos tempos.

Filmes e programas sobre psicanálise são, em geral, tediosos e inverossímeis. In Treatment segue-se quase como um filme de suspense, alinhavado por uma bela fórmula: nos episódios de segunda a quarta, você acompanha três pacientes diferentes; na quinta, um casal; na sexta, o próprio terapeuta, Paul Weston (Gabriel Byrne), cada vez mais pirado, vai consultar Gina (Dianne Wiest), uma analista com quem ele tem velhos ressentimentos e discordâncias de método.

A série foi ultra elogiada pelos jornais de qualidade, como o New York Times e o Wall Street Journal. As resenhas negativas ficaram por conta do San Francisco Chronicle e da Slate. Na blogosfera brasileira, já andaram falando do assunto a Carla Rodrigues e a Ivana Arruda Leite, ambas com comentários positivos.

É irresistível a paciente das segundas: Laura, uma jovem e charmosa médica, está vivendo com Paul a clássica transferência erótica, só que desta vez com conseqüências imprevisíveis para o terapeuta. Nas terças, Paul encara Alex, um tenente negro da marinha americana cujo pai matou acidentalmente o avô ao bloquear sua respiração asmática para evitar ruídos durante um ataque da Ku Klux Klan à casa. Alex acaba de voltar do Iraque, onde jogou uma bomba numa escola e matou 16 crianças. Forte, imponente, arrogante e seguríssimo de que não sente culpas, Alex tem uma das trajetórias mais fascinantes da série. Nas quartas, Sophie, uma ginasta de 16 anos, chega de um acidente que pode ou não ter sido uma tentativa de suicídio, talvez provocada por uma bizarra situação familiar, na qual ela idolatra o pai egoísta e ausente enquanto despreza a mãe dedicada. Nas quintas, Jake, pobretão aspirante a compositor, e Amy, bem-sucedida mulher de negócios, farão parecer fichinha qualquer crise que seu casamento tenha passado. É o dia mais punk da série, e também aquele em que ocorre a reviravolta mais radical. As sextas estão reservadas para o choque de ver como o sagaz terapeuta transforma-se num cego papagaio de denegações quando o tema é sua própria crise. Na medida em que se aproxima do fim, a série faz as várias histórias se encontrarem.

O método retratado na série não é exatamente a psicanálise. Trata-se daquela variante bem norte-americana da psicologia, a terapia do ego, que parte da estranhíssima – para nós, freudianos – premissa de que o papel do terapeuta é forjar uma aliança com a parte saudável do ego do analisando. Daí o fato de que Paul fale bastante nas sessões, transformando a busca num romance policial onde a empatia com as personagens é inevitável. In Treatment está disponível para download por aí, inclusive com legendas em português. Vale a pela conferir, Doutor Cláudio.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (13)



quarta-feira, 23 de julho 2008

Pausa

O Biscoito Fino e a Massa faz uma pequena pausa, enquanto o titular do blog pega um avião de Belo Horizonte de volta a New Orleans, para reassumir o batente do ano letivo. Foi bom demais estar em Terra Brasilis. Obrigado, Belzonte; obrigado, Rio, Sampa, Três Corações.

A partir de agora o blog deve se concentrar nas eleições americanas, mas sempre com um olho em Pindorama.

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Mandaram avisar que lá no Facebook está rolando uma comunidade do Biscoito.

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Em breve, o blog declarará seu justificará com mais detalhes o meu voto nas eleições para prefeito de Belo Horizonte, que é de Jô Moraes (PC do B). Como sabem os leitores do blog, não fui reácio ao acordo Pimentel-Aécio em Minas Gerais. Mas pesquisando um pouco mais sobre quem é Márcio Lacerda, conversando um pouco mais com amigos de BH, investigando um pouco mais sobre como foi feito o acordo, acabei seguindo boa parte da base das últimas (muito bem-sucedidas) prefeituras de BH no apoio a Jô Moraes, que é, como sabem os memoriados leitores deste blog, a minha deputada federal.

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Na sua coluna na Folha desta terça-feira, Eliane Castanhêde declara nunca ter ouvido falar de Jô Moraes. Meu Deus, eu teria vergonha de escrever uma coluna sobre literatura no maior jornal brasileiro e declarar não saber quem é Antonio Candido.

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Por falar nisso, Mestre Candido fez 90 anos e o Biscoito ainda não prestou sua homenagem. Shame, shame.

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Em seu último post, o Paraíba tece hiperbólicos elogios. Mas ainda não aprendeu a história do futebol brasileiro: o fato básico de que em 1981 o time chapa-branca enfrentou o Galo três vezes e não ganhou nenhuma.

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Se você está na Zona Leste de Belo Horizonte e quer comer um espetinho de animal morto, o ponto é o Manoel do Espeto, ali perto da Feira dos Produtores. Mas, se for lá, avise ao cabra: é um crime colocar, num bar lindo -- com bela varanda, cerveja gelada, espeto de primeira --, um par de cantores breganejos com aparelhagem de karaokê num laptop. É inaceitável. Bebi 5 quando poderia ter bebido 15 Bohemias. Não há nada mais irritante para alguém que gosta de música que ouvir um bate-estacas de péssima qualidade. É melhor ouvir o silêncio. O próximo que passar por lá, avise.

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Um leitor deste blog escreveu um dos melhores romances argentinos -- ou seja, um dos melhores romances do mundo -- dos últimos anos: Mariano Siskind escreveu o extraordinário Historia del Abasto, que devorei, faminto, entre São Paulo e Belo Horizonte. Alô, editoras brasileiras, atenção.

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Na quinta-feira à tarde, aterrizo no caldeirão de New Orleans. Tomem conta da bodega.

Atualização: Veja o belo email que o leitor Tiago Mesquita escreveu ao Ombudsman da Folha acerca da insultante coluna de Eliane Castanhêde. Envie um você também :-)



  Escrito por Idelber às 01:12 | link para este post | Comentários (58)



quinta-feira, 17 de julho 2008

Sobre lugares, homens e mulheres

Nas minhas andanças pelo mundo, fui desenvolvendo umas teorias que aparecem no blog de vez em quando – como as cidades-véu e cidades-vitrine, que é o post favorito da Lucia Malla. São elocubrações sem qualquer rigor, que eu nunca colocaria num texto acadêmico. Mas são boas para gerar conversa no blog e não deixam de dizer algo sobre a experiência. É hora de testar mais uma, para que nos desintoxiquemos um pouco da política.

A teoria de hoje já foi apresentada oralmente a alguns amigos. Ela parte da observação de que há lugares no mundo onde as mulheres são mais interessantes, sexy, atraentes que os homens; ou seja, há rincões onde a feminidade dá de goleada na masculinidade. E há, sim, lugares onde os homens – para quem gosta de homem, é claro – costumam ser mais interessantes que as mulheres. Nem a teoria tem implicações práticas para mim – eu ando feliz na monogamia há anos – nem você tem que abrir mão da sua hetero- ou homossexualidade para tentar observar a coisa objetivamente. Dando sua contribuição a todo o leitorado que está no mercado da paquera, o Biscoito lança aqui algumas generalizações.

Belo Horizonte é um caso extremo. Eu realmente não gostaria de ser uma mulher heterossexual solteira em BH. Bandos gigantescos de mulheres lindas, bem vestidas, inteligentes, bem informadas, sensuais e de papo agradável zanzam pela noite da capital mineira. Os homens podem ser competentíssimos como profissionais e fantásticos como amigos, mas na arena da paquera são um desastre. Talvez pelo excesso de oferta, talvez pela herança católica, quiçá por outros fatores, os homens mineiros tendem a se juntar entre si, mesmo quando há uma festa de heteros com 5 mulheres para cada homem, o que em BH é super normal. Não é raro ver um casal e ter vontade de perguntar: mas o que essa mulher extraordinária está fazendo com esse zé-mané? As leitoras belo-horizontinas que me desmintam se eu estiver errado.

Já a Argentina é o oposto. As mulheres argentinas costumam ser independentes e brilhantes intelectualmente. Três dos cinco seres humanos que eu mais admiro no planeta são mulheres argentinas (Beatriz Sarlo, Graciela Montaldo, Sylvia Molloy). Mas em termos de sex appeal, para mim, pelo menos, é zero. Não sei se é a herança italiana, se é o frio, se é uma certa masculinização que elas abraçaram junto com a conquista de espaço, o fato é que vou à Argentina anualmente há quinze anos e me lembro de ter sentido tesão por uma argentina uma única vez, e mesmo assim fora do país. Os homens, por outro lado, dão de 10 x 0 nos mineiros. Vestem-se melhor, têm um papo mais agradável, gostam de estar com mulheres. Têm um toque sedutor. São, enquanto homens, mais interessantes que as mulheres argentinas costumam sê-lo enquanto mulheres – apesar de que estas costumam arrasar profissionalmente, em qualquer área.

Aí vai a lista de lugares, além de BH, onde acho as mulheres alucinantes, os homens nem tanto: Espanha (ah, as espanholas!), Colômbia, Cuba, Porto Rico. Eis aqui os lugares, além da Argentina, onde acho que a masculinidade é mais interessante que a feminidade, ou seja, onde a mulher hetero e o homem gay terão um mercado mais generoso que o homem hetero e a mulher gay: Itália, Canadá, Bélgica, África sub-saariana em geral (esta última eu nunca visitei, mas já convivi com muitos africanos e africanas nos EUA). Há um lugar onde acho que tanto os homens como as mulheres costumam ter um toque muito especial: a Holanda. Há lugares onde não costumo ver muito sex appeal nem nos homens, nem nas mulheres: México, Portugal.

Minha experiência é essa aí. Aguardo as discordâncias e as críticas. Só não critiquem a generalização -- o generalizador sabe que existem exceções.

Atualização I: O mais importante eu não disse: mulher, claro, é brasileira. As colombianas e espanholas vêm em segundo. Veja esse post.

Atualização II: Finalmente criei um perfil no Facebook. Estou gostando. Bonitinho, limpinho, nada a ver com o Orkut. Se você está por lá e é amigo, deixe um alô.



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (82)



quinta-feira, 15 de maio 2008

Drops

Depois de um post clássico na era MSN-Platão, o Almirante marca a época Última Ceia-Twitter. É mais um espécimen de um gênero favorito do Almirante, o clássico instantâneo.

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Só recentemente um veículo nacional, a Carta Capital, fez uma reportagem sobre o escândalo no Detran do Rio Grande do Sul. Já há tempos o RS Urgente vem dando em primeira mão as notícias do caso, para as quais não se pode contar, claro, com a grande imprensa gaúcha.

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Uma novidade não surpreendente, mas mesmo assim significativa, na campanha americana: a principal organização de defesa dos direitos reprodutivos, a NARAL, endossou Barack Obama.

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Auto-jabá:

Na segunda-feira, dia 19, às 14:30, haverá uma palestra minha no auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, no Campus da Pampulha, BH. Título: “"Para a crítica da violência": Benjamin, Derrida e o palestino ausente”. O convite é do Núcleo Walter Benjamin, a quem agradeço.

Na quarta, dia 21, às 19 horas, na mesma FALE-UFMG, outra palestra: “"Experiência, memória e masculinidade no romance argentino contemporâneo". O convite é de meu amigo Prof. Eduardo e do programa em Literaturas Hispânicas, a quem deixo o obrigado.

Os amigos belo-horizontinos estão convidados a ambas. A primeira é mais técnica, sobre um ensaio de Walter Benjamin e uma leitura dele feita por Derrida. Recomendo só se você tiver uma mínima conversa com pelo menos um destes dois autores. A segunda, a de quarta-feira, é bem mais light e de interesse mais geral, já que comenta alguns romances argentinos realmente muito bons.

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Nos últimos tempos, fazer a peregrinação aérea de New Orleans a Belo Horizonte tem significado não só preciosos reencontros familiares, mas também reencontros com uma turma que inclui Fefê Castro, cujo blog é cria das minhas amigas Mothern, que são amigas do Dr. Cláudio, que é pai de Ana Letícia, filho de Soié e, como Luiza Voll e Leandro Oliveira, apreciador da boa arte. Este blog tem muito orgulho de ser parte de uma rede de amizades blogueiras belo-horizontinas.

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Enfiar-se num avião em New Orleans para descer em Belo Horizonte também requer sempre alguns ajustes. Um dos graves é ir de um lugar plano e sinalizado, onde se dirige bem e os outros motoristas passam sorrindo, para um lugar onde as pessoas dirigem automóveis enlouquecidas. Sim, eu sei que o trânsito de SP é pior, mas em SP as pessoas dirigem bem. Em BH, bloqueia-se cruzamento, acelera-se para impedir a mudança de faixa do outro, zanza-se por várias pistas para saber qual irá mais rápido: é a selva em forma de impulso coletivo suicida. A resolução para os próximos três meses é andar bastante de táxi ou trocar o Escort 1995. Ou um, ou outro.

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Na minha bagagem vai The Ethnic Cleasing of Palestine, um livro sobre qual conversaremos no dia 09 de junho, num papo patrocinado por mim e por Pedro Dória. O Daniel Lopes já escreveu uma ótima resenha na Caros Amigos.

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A alguma editora brasileira que estiver prestando atenção: que se traduza El común olvido, romance da escritora argentina Sylvia Molloy. É uma daquelas jóias indescritíveis. O protagonista é um jovem que sai dos EUA (onde mora desde os 12 anos) de volta à Argentina, para depositar os restos mortais da mãe com quem emigrara. Só nessa viagem conhece, realmente, a mãe já morta, em meio a uma trama amarradíssima que vai desvendando camadas do passado dela que, ao mesmo tempo, vão dizendo ao jovem quem é ele. Trata-se de uma das vozes masculinas mais fascinantes que encontro na ficção em anos, criação justamente de Molloy, a autora de En breve cárcel, “romance lésbico”.

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Se tudo andar bem com o laptop e a rede mundial de computadores, durante os próximos três meses e meio este blog transmitirá de BH (a maior parte do tempo) e também de Juiz de Fora, São Paulo, Buenos Aires e Santiago do Chile, além da eventual viagem ao interior de MG e ao Rio. Passo em Sampa em breve, para o sempre excelente congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), que acontece na USP, do dia 13 ao 17 de julho.

É isso. Até já.

Update. Obama: The World Music Album.



  Escrito por Idelber às 04:28 | link para este post | Comentários (39)



segunda-feira, 10 de março 2008

Em Porto Alegre

A minha última visita a Porto Alegre havia sido em fase pré-blogueira, em julho de 2004, para o Congresso da Abralic daquele ano. Eu descia a Borges de Medeiros com dois amigos italianos. Tinha a cara tão feliz de estar ali e falava tão entusiasmado sobre as coisas do Rio Grande – se não me engano, o tema era a ida de Tesourinha para o Grêmio em 1954, que pôs fim a décadas de segregação racial no Tricolor – que um dos amigos chegou a comentar: puxa, achei que você fosse mineiro. Que não se acuse este post, pois, de puxação de saco com meus anfitriões. Minha história com o Rio Grande está documentada em resenhas musicais ainda na casa velha, homenagens ao Internacional 1975-76 e ao Grêmio 1983, louvações à capital e à culinária gaúchas, além de incontáveis anúncios desta visita. Sobre minhas conexões musicais gaúchas e minha admiração por sua lucidez, já escrevi outras vezes.

Interessam-me essas mitologias que os lugares constroem sobre si mesmos. Tome Minas Gerais. Trata-se de uma narrativa de identidade regional que cultua a dissimulação e a esperteza por trás das portas. Amo Minas, mas tenho uma relação bem ambígua com o relato dominante sobre a identidade mineira. Identifico-me muito mais com uma narrativa – como a gaúcha – que celebra a exterioridade, o peito aberto na defesa das próprias posições. Quem lê este blog sabe que, neste sentido, sou muito mais gaúcho que mineiro.

A diferença se manifesta até mesmo nos heróis de cada lugar. Os grandes heróis mineiros são figuras que entraram para a história na sua morte: Tiradentes e Tancredo, para não ir mais longe. No Rio Grande, há outra relação com a vida, completamente. Sim, sei que a morte de Getúlio Vargas também ficou famosa. Mas Getúlio venceu à beça antes de meter a bala no peito. Há aí uma diferença fundamental com os heróis mineiros, que parecem só aceder à história enquanto derrotados – apesar, claro, de toda a fama de espertinhos que temos.

Gaúchos não acreditam nessa viadagem da Terceira Via. O futebol, como sempre, é a metáfora perfeita. Porto Alegre compartilha com Belo Horizonte a condição de cidade sede de dois grandes clubes. Mas a rivalidade Galo x ex-Ipiranga não é nada em comparação com a rivalidade dos pampas. Em primeiro lugar, porque nós, mineiros, temos essa estranha entidade, o América-MG, que ainda arrebanha, sei lá, uns 3% da torcida, acolchoando a tensão entre os dois grandes. Em segundo lugar, em Minas Gerais você encontra, ao contrário do Rio Grande, esse esquisito ser, o sujeito que não torce para ninguém. Em BH isso é relativamente comum. Pode ser que exista um porto-alegrense que não tenha preferência clubística. Mas lhes digo: eu nunca vi.

Graças à generosidade de Milton Ribeiro, estive no Gigante da Beira-Rio pela primeira vez depois de 28 anos (a última visita havia sido na legendária semifinal do Brasileirão de 1980, quando o Galo pôs fim à maior dinastia do futebol brasileiro pós-Pelé com sonoros 3 x 0 no Internacional de Falcão). Neste sábado, compareci ao épico embate entre o Inter e os Xavantes do Brasil de Pelotas.

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Discutindo o carrossel colorado na arquibancada

O Inter é uma equipe que não empolga, parece sonolenta, mas cria uma quantidade absurda de chances de gol. O Brasil teve o azar de levar o primeiro aos 15 minutos de jogo e de perder um jogador por expulsão aos 25. Daí pra frente foi ataque contra defesa. Iarley perdeu três gols feitos e Fernandão parecia um sonâmbulo em campo. Mas mesmo assim o Colorado sobrou. Com 48.000 pessoas no Beira-Rio (11.000 mulheres entraram de graça pelo 08 de março), o Inter fez tranqüilos 2 x 0. O maior choque cultural dos atleticanos presentes no estádio foi a forma como a torcida assiste o jogo sentada; nada a ver com o enlouquecimento que toma conta da Massa no Mineirão. Eles saem de casa para ir ao estádio 20 minutos antes do jogo. É incrível!

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Milton, com seu modelito Valderrama; eu, com a camisa da seleção chilena; Alexandre, com a legendária número 3 de Elias Figueroa.

Depois, houve uma reunião memorável de blogueiros: Milton, Claudia Antonini, a futura parlamentar italiana, Tiagón, o visionário da Verbeat, Douglas Ceconello e Daniel Cassol, que escrevem o melhor blog de futebol do Brasil, Gabriela Zago, a futura Advogada-Geral de Defesa dos Blogueiros, Brigatti, o paulista expatriado, além de outros amigos. No dia seguinte, depois da visita de regra ao Brique da Redenção e de um super churrasco no legendário Barranco, um encontro com Katarina Peixoto, esse cérebro fulminante spinoziano,o Marco Weissheimer, de tantas afinidades políticas, o antenadíssimo César Animot e o leitor Luiz, que até chaveirinho do Grêmio me presenteou. Faltou a Suzana, que não apareceu; ainda tenho que ir atrás da Claudia Cardoso. Por aqui é possível sair à rua e encontrar gênios que escrevem essas coisas absurdamente brilhantes. Em definitivo: o Rio Grande está sobrerepresentado nas minhas preferências blogueiras.

Pois é. O post de hoje era só para agradecer essa hospitalidade gaúcha e dizer da alegria de estar aqui, especialmente de estar com esse amigo maravilhoso, com o qual me relacionei durante anos sem nunca vê-lo ao vivo. Venham ao Rio Grande.

PS:
Em algum momento desta segunda-feira eu completo o post com as fotos, que são boas. Faltou um cabo... Fotos: Bernardo Ribeiro.



  Escrito por Idelber às 00:29 | link para este post | Comentários (56)



terça-feira, 19 de fevereiro 2008

Anúncios

Aí vão uns anúncios que podem ser de interesse:

1.Eu estudei literatura com algumas sumidades, de Fredric Jameson a Silviano Santiago. Mas o professor que mais me influenciou na alegria da leitura e na atenção ao texto literário se chama Antônio Sérgio Bueno. Eis que descubro que Serginho, no seu Núcleo de Estudos Paidéia, está dando cursos de literatura para a comunidade – sem nenhum requisito, só a vontade de ler. Se você mora em Belo Horizonte ou imediações, gosta de literatura e quer se aprofundar no seu estudo, não perca. Os cursos que estão rolando no momento são sobre a linguagem poética, a memorialística de Pedro Nava, o Grande Sertão: Veredas, de Rosa, os romances da maturidade de Machado de Assis e a poesia de Drummond. O Paidéia fica na Av. Contorno 4023, Edifício Liberal Center, sls.: 601 e 602, ali no Santa Efigênia. Informações pelos telefones (31) 3281-3115 ou (31) 9791-1561, ou pelo email nucleodeestudospaideia arroba gmail ponto com. Confira.

2.Acontece nos dias 3 e 4 de maio deste ano, em Rosario, na Argentina, o Primeiro Encontro Nacional de Mulheres Lésbicas e Bisexuais. As rosarinas estão procurando atrizes, cantoras, fotógrafas e artistas plásticas que desejem participar. Informações no email informes arroba encuentrolb ponto com ponto ar.

3.Se você é acadêmico, trabalha em ciências humanas ou sociais, desenvolve pesquisa comparativa que relacione o Brasil com algum país do Cone Sul e tem interesse em apresentar uma comunicação no próximo congresso da Latin American Studies Association (11 a 14 de junho de 2009, na PUC-RJ), entre em contato comigo pelo email idelberavelar arroba gmail ponto com. A associação me pediu que organizasse uma mesa sobre o diálogo Brasil / Cone Sul. Só há quatro vagas e se houver muitas propostas, eu farei uma seleção, evidentemente.

4.Nos dias 27 a 29 de março, New Orleans será ainda mais brasileira do que normalmente já é. Reúne-se aqui a BRASA (Brazilian Studies Association), com a presença de centenas de acadêmicos brasileiros ou brasilianistas. A palestra de abertura será do meu chapa José Miguel Wisnik. Já comecei a receber uma enxurrada de emails com perguntas sobre a cidade. Se você vem à BRASA, se ligue aqui no blog porque em breve eu publico um post com um mini-guia a New Orleans. Já aviso que sobre os hotéis da cidade eu, por razões óbvias, não sei nada. Mas posso ajudar em outras coisas.

5.Se você é falante nativo de alemão ou tem proficiência em nível de Zertifikat Deutsch ou Großes Deutsches Sprachdiplom, mora em Belo Horizonte e tem disponibilidade para me dar umas aulas de conversação de maio a agosto deste ano, entre em contato comigo. Fecharam o raio do Goethe-Institut aí de BH.

PS: Amanhã, publico uma análise dos resultados das primárias democratas em Wisconsin e no Havaí. Neste, a expectativa é de vitória tranqüila de Obama. Em Wisconsin, as pesquisas indicam disputa acirrada. A demografia deveria favorecer Cliton: baixa população afro-americana e muita gente morando em subúrbios. Mas o embalo, como se sabe, é de Obama. A conferir.



  Escrito por Idelber às 03:16 | link para este post | Comentários (20)



domingo, 23 de dezembro 2007

Boas festas e feliz 2008

O Biscoito desarma a tenda por duas semanas, até dia 07 de Janeiro. Boas festas e feliz 2008 a todos que passaram por aqui.

Aos amigos do Clube de Leituras, um aviso: no semestre que vem, dou aqui em Tulane um curso de pós-graduação em literatura que se dedicará à leitura de quatro grandes sagas do romance brasileiro. O romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, Catatau, de Paulo Leminski, Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro e A República dos Sonhos, de Nélida Piñon. Começamos com Suassuna, já em janeiro. Quem estiver a fim de participar, se ligue, porque a minha idéia é repercurtir o seminário aqui no blog. Já estão convidados a começar a ler o Suassuna, pois.

Aos viciados em blogs, deixo abaixo alguns links de textos publicados este ano que ainda possam interessar. Voltamos no dia 07 de janeiro, com notícias de um livro imperdível.

Alguns textos do blog em 2007:

Páginas da Vida
Comentário a um texto de Renato Janine Ribeiro
Sobre uma declaração da ministra Matilde
Cripta em duas partes
Deus, um delírio
Os 100 melhores romances em castelhano
Entrevista com Paulo César de Araújo
Ali Kamel e seu mais recente delírio
A entrevista de Fernando Henrique
Estadão versus blogs
Tropa de elite
Entrevista com Antonio Risério

Feliz ano novo :-)



  Escrito por Idelber às 04:12 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 04 de dezembro 2007

Em Sampa

Pois então. Em alguns blogs da geração deste ou da anterior, pairou uma certa melancolia nos últimos tempos. Além do Träsel, a Alê Felix e outros ecoaram a sensação de que os blogs já não são mais os mesmos. Legítimo, claro, por mais que a gente saiba que as coisas não voltam e ponto. Mas não é que em dois dias em Sampa eu tive a maior aula da contrapartida? O que os blogs podem ser.

Debate Biscoito x Torre: Era para ser um experimento em debate civilizado entre direita e esquerda e foi muito mais que isso. Foi um super encontro de amigos. Eu, que fui jogar pelo empate, aterrizei numa partida onde todos ganhariam (quem escutar também, acredito), não porque a coisa tenha ficado morna, de jeito nenhum. Houve debate e discordância aberta. Houve também convergências em pontos não esperados. Eu não achava que o Marcos fosse, no essencial, favorável ao princípio do Bolsa Família. Provavelmente ele não achava que sou a favor de coisas como incentivo à produtividade no serviço público. Nos dois primeiros rounds, vocês notarão, eu perdi por pontos. Depois equilibrei o jogo nos contra-ataques. Em todo caso: uma feijoada de primeira, chope gelado (o Marcos na verdade na caipirinha) e 2 horas de papo político com um gentleman. Está gravado em fita cassete e logo que digitalizarmos, eu coloco o podcast aqui e o Marcos lá na Torre.

O debate com o Marcos me deu vontade, retrospectivamente, de que o papo da noite anterior tivesse sido gravado. Saímos para bebericar e comer com Sua Eminência, padrinho deste blog, Pedro Dória. Para quem não me lê há anos: Pedro foi o maior responsável pelo primeiro grande salto de visitação deste weblog, com um link a um obscuro post. O papo agradabilíssimo, regado a chope e tira-gostos, inevitavelmente caiu no tema Israel / Palestina, que tanto eu como ele acompanhamos em detalhe, ainda que com ênfases diferentes. Foi um bom debate, que em breve voltará à baila aqui numa resenha desse indispensável livro. A observação posterior da Ana, que estava conosco no bar, foi ótima: nos debates Israel / Palestina, há uma série de números que tomam o lugar de sujeitos da frase: “1967”, “1956”, “1948” significam uma complicação de coisas que vão ficando cada vez mais crípticas para quem chega, na medida em que outros termos complexos vão entrando na roda. É um debate formado por diferendos, no sentido que dá ao termo o pensador francês Lyotard: diferenças para as quais não existe nenhuma linguagem neutra, nomeá-las já é tomar partido. Independentemente das ênfases distintas, concordamos que a coisa está, hoje, mais longe de uma solução que jamais esteve. Que Bush em Annapolis foi um simples photo-op. E concordamos em muito mais. Este weblog fala menos do tema do que deveria porque, vou lhes contar, é barra-pesada. Com Pedro, claro, foi um grande papo. Valeu, cumpadi.

Mas tudo isso era só aperitivo.

Porque afinal eu ia me encontrar com ela. A ídola. Levei livrinho de presente e tudo mais. Estilo fã mesmo. Ela nos buscou lá no Filial, veio com o Klein, que é um barato. Enquanto ele estacionava, emplacamos um papo sobre certos buracos na noção de direitos humanos, que não inclui, na vasta maioria do planeta, o simples direito de que um casal gay ande de mãos dadas ou se beije. Histórias de blogs, a mil, rolaram na mesa de café na Vila Madalena, que também incluía o Marcos. Foram papos sobre guitarras com o Klein, sobre Fernando Henrique Cardoso com ela (que, como eu, gosta do cabra) e sobre muito mais. Eu falei um pouco da minha tese acerca da tancredização do Clube da Esquina e ela riu. Contei a ela de uma dissertação que oriento, sobre concursos de beleza, e ela achou o máximo. Falei de tudo que eu adoro no blog. A sintaxe, que é única, né? Os pontos finais. O uso dos itálicos. Os personagens. O professor de filosofia. Não há blog que misture o pessoal e o “político” como aquele. Aliás, para quem não sabe: não foi Kfouri, nem PVC, nem Tostão quem definiu, de cara, o escrete do Parreira em 2006. Foi Mary W, prevendo tudo lá atrás, quem sacou que Parreira armava um time no 6-0-4. Sem meio-campo. O link ao post original eu não tenho, claro, porque ela apaga periodicamente o blog. O que é ú-ni-co. Experiência singular, essa. Ensinar os leitores a fazer o trabalho do luto. O que, graças a uma turma que a esperava na Augusta, ela fez conosco de novo, ficando com uma dedicatória pela metade no livro e não aparecendo no encontro do Pacaembu.

Que rolou brilhante, graças ao meu irmão que arrasou na co-organização e divulgação: Branco Leone, Marconi Leal, Olivia, Roger, Jussara , Cris e Träsel eu não conhecia pessoalmente, foi super legal conhecer. Além de conhecer gente, revi os amigos: o bródi, a Lucia Malla, cientista brasileira premiada, Doni e Tuca, são-paulinos já cansados dessa chatice de comemorar títulos, Dra e André, leitores históricos. A Lu estava com o André, seu marido, que deu uma aula nesse post do Biscoito. Fui a tudo isso, claro, muito bem acompanhado.


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foto da Olivia, roubada daqui. Lucia Malla, Dra e Doni.

Voltei para New Orleans, via Guarulhos, com a idéia de que esse negócio de blogs vale a pena. E de que a brincadeira está só começando.

PS: Valeu, obrigado a quem votou.



  Escrito por Idelber às 02:10 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 27 de novembro 2007

Em São Paulo

Aqui vai um convite para quem estiver nas imediações de Campinas: realiza-se de quarta até sexta o encontro Escritas da Violência, na UNICAMP, com a participação de uma série de pesquisadores internacionais. Confiram a programação.

Será em Sampa, na próxima segunda, o lançamento do primeiro livro do meu amigo Marcos Donizetti, Meias vermelhas e histórias inteiras, publicação d' Os Viralata. Endereço, horário e detalhes, aqui.

Em Sampa acontecerá também o debate direita x esquerda que vai abalar as estruturas da blogosfera: O Biscoito Fino e a Massa versus A Torre de Marfim. Em breve, um podcast com a surra que provavelmente levarei do Marcos.

Ir a São Paulo sempre dá um friozinho na barriga. Lá, mais que em qualquer lugar, eu me lembro de que sou mineiro.

E parece que vou conhecer mais uma ídola.

Vamos ver como estará a conexão em Campinas e em Sampa. Se estiver tudo bem, o blog continuará com atualizações diárias. Se não estiver, tiro um break e vou ao Solar dos Biajoni tomar cerveja.

Em Viracopos a pista tem ranhuras, né?



  Escrito por Idelber às 16:39 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 26 de novembro 2007

Momento jabá

Minhas desculpas aos leitores a quem isso não vai interessar, mas acaba de ser publicado nos EUA um estudo que eu absolutamente não posso deixar de comemorar aqui no blog. Saiu o Faculty Scholarly Productivity Index do ano de 2007. Trata-se da auferição comparada da produtividade dos professores universitários do país todo, em todas as disciplinas.

Pois bem, o Departamento de Espanhol e Português de Tulane University acaba de emplacar um segundo lugar em produtividade entre as 375 universidades americanas que oferecem doutorado. Sim, somos os segundos mais produtivos entre todas as universidades norte-americanas em nossa disciplina. Quem conhece a competitividade do sistema acadêmico do Tio Sam sabe o que isso significa.

Ainda por cima, trata-se de um lugar maravilhoso para se trabalhar: sem invejas, sem facadas pelas costas, sem policiamento da escrita e magistério alheios. Um lugar onde as reuniões departamentais começam e terminam com risadas. Acreditem, isso existe. Para conhecer melhor as doze feras que trabalham comigo, clique aqui. Os últimos prêmios e distinções recebidos pelos professores de Espanhol e Português de Tulane estão listados aqui. Um pouco da nossa história, aqui. As últimas publicações, aqui. Parabéns, rapaziada. Muito especialmente, parabéns ao almirante da nau, meu brother Christopher Dunn.

Amém nóis tudo.

PS: Meu muito obrigado a Fernando Serboncini e ao pessoal do escritório do Google em Belo Horizonte, que nesta segunda-feira me recebeu para almoço e uma palestra -- em inglês! -- sobre meu projeto de pesquisa com a música brasileira. Fizeram um vídeo da palestra e acho que em breve ela estará no YouTube. De quebra, ainda conheci minha ídola Luiza Voll, uma das blogueiras mais admiradas do país. Valeu.



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sábado, 17 de novembro 2007

Filosofando às portas do trem

Maravilhas do jet lag: você passa 48 horas sem dormir, num bagaço, chega ao hotel às 11 da noite, em pânico porque tem que se levantar às cinco e meia para pegar um trem. Depois de seis horas de sono, você acorda, antes do despertador, e se sente como se tivesse dormido doze.

Acabei antecipando minha volta a New Orleans para hoje. Ia ficar aqui no Países Baixos até segunda, mas bateu canseira e saudades do meu amor.

Perguntar não ofende: por que as Nações Unidas, ao invés de ficar discutindo banalidades, não se reúnem e unificam o raio das tomadas no planeta inteiro? Algum dos eruditos leitores que entenda de correntes elétricas poderia me explicar por que isso é tão difícil? Acho que outro dia a Corinha escreveu uma crônica sobre o tema. Das coisas mais enervantes que há é chegar em outro país e procurar loja de materiais elétricos para a conseguir o adaptador certo.

Volto por Nova York, com conexão apertada. Não será desta vez que tomarei uma cervejinha com Deus.

PS 1: Alguém me disse que terça-feira é feriado aí no Brasil. Confere? Que feriado é esse, do qual eu não me lembro? Já não houve um anteontem?

PS 2: A partir do próximo sábado, o Biscoito transmite, durante uma semana, de Belo Horizonte e de Sumpaulo.



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quinta-feira, 15 de novembro 2007

Na Holanda e Bélgica, 3

Foi só mesmo depois de três dias na Holanda que me dei conta de que, pela primeira vez na vida, estava num país cuja língua desconheço totalmente. Em Amsterdã isso quase não se nota, porque todo mundo fala inglês. Mas tomando o trem para Nijmegen, já na área doméstica da estação, não deu para evitar um certo pânico: tudo em holandês. Aí me dei conta de que, ao vir para cá, agi como um verdadeiro gringo. Não comprei um dicionário de holandês, não dispendi o menor esforço para aprender algumas palavras básicas, não fiz nada. Resultado: me embananei e desci na estação errada. Não foi nenhum drama. Era só uma questão de esperar o próximo trem para Nijmegen. Mas, envergonhado, fui à livraria e comprei um dicionário básico de Nederlands.

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Vejam só a picaretagem que são essas maquininhas de tradução: se você for ao Altavista Translator e digitar “I am sorry I do not speak Dutch” (nessas máquinas é bom evitar as contrações), ela cospe de volta Ik ben droevig ik het geen Nederlands spreek, uma monstruosidade que faria um holandês morrer de rir (“ik ben droevig” é algo assim como “estou desolado e triste”) . O correto é um simples surry ik spreek geen nederlands. Todos os G's em holandês soam como R's guturais (como o H do inglês ou o J do castelhano). Você leu aqui no Biscoito primeiro.

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Palestrei ontem na Radboud Universiteit Nijmegen, para os catedráticos e alunos de literaturas hispânicas. O tema foi Dos veces junio, de Martín Kohan. Como o eixo do romance é o futebol, não resisti e comecei a dissertar sobre a Laranja Mecânica. Falei daquela bola do Resenbrink na trave, no final do jogo, que teria dado o título à Holanda em 1978. Discutimos uma questão interessante que Martín Kohan averiguou em suas pesquisas: se a Copa de 1978 foi transmitida em preto-e-branco para a Argentina, por que todas as pessoas a quem o autor dirigiu a pergunta se lembram dela a cores? Acabamos, depois, voltando para a literatura – se é alguma vez saímos dela.

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Nijmegen (pronuncia-se “Nái-mê-rren”) tem uma história interessantíssima. Confesso que a ignorava por completo. É uma cidade que, em 2005, comemorou 2000 anos de existência! Sim, é isso que você leu, não há nenhum zero a mais aí não. O nome, que soa tão nórdico, é na verdade a contração de Ulpia Noviomagus Batavorum, nome dado pelo imperador Trajano no século I. Daí virou Noviomagus, para depois evoluir ao seu nome atual. É a cidade mais antiga da Holanda, foi a primeira a cair em mãos dos nazistas, e foi fortemente bombardeada pelos norte-americanos. Visitei as ruínas.

Em Nijmegen, devo gratidão ao Prof. Maarten Steenmeijer e a um verdadeiro anjo da guarda, a super poliglota Prof. Brigitte Adriansen, que me ajudou bastante com o holandês e com as estações de trem. Dank u wel!

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Hoje palestrei na Bélgica francófona, na Université Catholique de Louvain. Esta palestra foi sobre El director, fascinante romance de 2005 do argentino Gustavo Ferreyra, e foi parte de um congresso sobre representações do apocalipse na literatura. O congresso continua amanhã aqui em Gante, na Bélgica flamenga. Deixo a nota de gratidão às Profs. Geneviève Fabry, de Louvain, e Ilse Logie, de Gante, responsáveis pelo convite que me trouxe à Europa.

A Bélgica passa por uma terrível crise política, fruto, em parte, de recentes alterações na legislação que regula o bilingüismo no país. Bruxelas, a capital, fica na parte flamenga, mas pelo menos 80% de seus habitantes são francófonos. Obviamente, na parte flamenga do país, é muito melhor se virar em inglês do que em francês.

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Está sendo bacana poder usar o francês um pouco. Há anos eu não o usava. Está um pouco enferrujado, mas sai.

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Por que será que, em qualquer país do mundo, os turistas norte-americanos são imediatamente reconhecíveis pela prepotência do seu comportamento, pela arrogante pressuposição de que todos devem falar sua língua, pelo constante desrespeito e falta de consideração pelas regras locais? Ontem houve um momento de justiça poética: um típico gringo esbravejava, dando faniquitos, na estação de trem. Um educadíssimo funcionário holandês lhe explicava, em inglês, que ele deveria aguardar até que o seu número fosse chamado. O turista passou a gritar insultos contra o país. Eu, apaixonado pela Holanda que ando, não resisti. Virei para ele, na frente de todo mundo, caprichando na entonação, e soltei: Sir. I think you should calm the fuck down. You’re not better than anyone. You’re in their country, there’s somebody explaining the rules to you in your language, and you still feel entitled to insulting them? Then you don’t understand why Americans are hated all over the world. Shut the fuck up and wait for your turn or just leave. O gringo calou a boca, enfiou o rabo entre as pernas e entrou na fila. Acredito ter visto alguns sorrisos discretos entre os holandeses.

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Não entendeu o que está escrito acima? Peça ao Reinaldo Azevedo para traduzir. O Reinaldinho, sabemos, é aquele que traduz "graduate study" por "curso de graduação", para, com base a sua tradução errada, fazer piada com a suposta ignorância de Lula. Ele agora deu para corrigir o inglês do Pedro Dória. Em breve, Reinadinho, o monoglota, corrigirá o alemão de Modesto Carone. Sobre mais este esdrúxulo episódio envolvendo a revista Veja, o Hermenauta já disse tudo. Mas vale sublinhar: todas as “correções” feitas por Reinaldinho à tradução do Pedro estão erradas. Pedro traduziu “accurate journalism” como “jornalismo imparcial”, o que pode até não ser exato. Mas “jornalismo cuidadoso ou acurado”, como sugere Reinaldinho, é péssimo. “Accurate” é correto, exato. Nada a ver com cuidadoso. O oposto de “accurate” é “wrong”, “errado”, não “desleixado”. Você pode ser perfeitamente cuidadoso e estar errado. Ou ser descuidado e acertar. “Acurado” não é adjetivo que se use em português para qualificar jornalismo. Das três traduções na mesa, a do Pedro é de longe a melhor. “Jornalismo correto” também funcionaria. A parte mais patética da “correção” de Reinaldinho é dizer que “to put flesh and blood” numa figura deve se traduzir como “pôr humanidade”, em vez do perfeitíssimo “pôr pele e osso” usado pelo Pedro (“pôr carne e osso” também serviria). Ora, a própria existência de seres como Reinaldo Azevedo é prova cabal de que “carne e sangue” não são, absolutamente, exclusividade dos humanos.

A cara de pau do cão de guarda da Veja não tem fim. Finge que sabe latim, finge que sabe inglês. Se o Reinaldinho Azevedo provar que é capaz de encadear cinco minutos de conversa fluente em inglês – coisa que para o Pedro Dória é o pão com manteiga de cada dia – eu fecho este blog e passo a torcer para o ex-Ipiranga.



  Escrito por Idelber às 21:40 | link para este post | Comentários (21)



domingo, 11 de novembro 2007

Amsterdã, primeiro dia

Para além de todo o auê em torno à cidade, eu sempre quis vir a Amsterdã porque ela se parece com New Orleans. É o outro exemplo, o deles administrativamente bem sucedido, de se realizar essa maluquice: uma cidade que se espraia em caracol, abraçada por corpos de água e situada abaixo do nível do mar. Veja como elas são semelhantes:

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A respiração da vida urbana das duas cidades é dada pelos canais de escoamento da água. Ao contrário de New Orleans, claro, Amsterdã tem sistemas de saúde e educação impecáveis, um transporte coletivo alucinantemente eficiente, população poliglota. Exatamente como New Orleans, tem uma cultura única, que você não vai encontrar em lugar nenhum do mundo.

A permissividade e tolerância, o erotismo exacerbado, a informalidade sorridente dos holandeses, seu incrível talento com as línguas, a beleza alucinante e compacta da cidade compõem um quadro impressionante. Cidade-vitrine, com certeza. Claro que é possível armar-se de um guia e fazer um roteiro das pontes, museus e tudo mais – pretendo fazê-lo. Mas a essência da cidade se oferece na caminhada ao léu, na qual você vai inevitavelmente trombar com o excesso de opções: arquitetura, pintura, música, comércio, beleza natural, diversão trash ou hardcore, vida cultural e gastronomia para ninguém botar defeito.

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Sempre gostei da Holanda. Os brasileiros da minha geração e das anteriores que aprecia(va)m o futebol sabem o que foi aquela camisa laranja na Copa de 1974 (né, seu Mirto?). O que ela representou de renovação das regrinhas e táticas da brincadeira foi assombroso.

Sempre simpatizei com os holandeses porque nas viagens a outros países aprendi a reconhecê-los: certa informalidade no vestir, mesmo quando chiques (barbas, sandálias e bolsas não são raras), inglês impecável (superior em entonação ao excelente que costumam falar os alemães) e movimento em bando, com sorrisos. Se for loiro, não tem erro: é holandês. As mulheres são bem mais informais, relaxadas que as alemãs ou belgas ou dinamarquesas. Mesmo quem não está interessado em paquera notará.

Sempre adorei o fundamento que organiza a sociedade holandesa, e especialmente este milhão e meio abençoado que vive aqui na Grande Amsterdã: quer se prostituir ou contratar prostituta/o? É legal, tem bairro para isso. Quer fumar sua erva? Vá aos cafés, onde é legal. Quer se submeter a elaborados rituais sado-masô? Há mil e uma opções. Escandaliza-me que nossos liberais e conservadores não defendam uma sociedade com base a estas regras, que me parecem tão óbvias. O apoio maciço a elas continua intacto entre os holandeses.

O sex museum da Damrak 18, perto da Estação Central, é uma parada que eu recomendo: de Valentino à arte da gravura, da pintura à instalação, da fotografia trash à artistica, o museu faz bonito com o tema. Joga com aquele humor que pende para o desconforto com muita gente. Sagaz, bem feito.

Entre as mil e uma atrações de Amsterdã, claro, está o fato de que você encontra (com alguma sorte) uma das cervejas mais elogiadas do mundo, a belga Westmalle (resenha, em inglês). Reparem na textura da espuma:

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Até terça o blog transmite daqui, depois dois dias da cidade universitária holandesa de Nijmegen, uns dois dias do campus da Louvain-la- Neuve, na Bélgica, e no fim de semana de volta a Amsterdã. Se tudo continuar beleza com a conexão.



  Escrito por Idelber às 21:10 | link para este post | Comentários (25)



sábado, 20 de outubro 2007

Rapidinhas colombianas

Que Capitão Nascimento que nada. Ser macho de verdade é viajar de ônibus – de buseta -- aqui na Colômbia. Entrei e saí do mato, de buseta, sem maiores percalços.

Cena impagável: ver uma turma de brasileiros tirando fotos ao lado dos pontos de ônibus, que aqui levam o singelo nome de parador de busetas.

Quando vier à Colômbia, não deixe de conhecer um povoado chamado Tabio, na savana. Fica pertinho de Bogotá. Na foto abaixo, uma turma de colombianos jogando capoeira angola em Tabio:

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Esta frutinha é deliciosa e se chama pitaya:

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Esta outra é mais usada para sucos. Também é muito boa. Chama-se lulo e, apesar do parentesco com a laranja, praticamente não tem acidez:

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Uma notinha para os leitores acadêmicos: A Universidade Nacional da Colômbia tem os melhores alunos de graduação que já vi na vida. Num programa de estudos rigorosíssimo, que às vezes inclui 35 horas semanais só para cumprir os requisitos, os cabras chegam ao final da licenciatura com a obrigação de produzir uma monografia que se compara a muita tese de doutorado por aí. Fiquei absolutamente assombrado com o nível dos alunos de Letras. O segundo número da revista feita por eles, chamada Educação Estética, é dedicado a Theodor Adorno. Compete em qualidade com qualquer publicação acadêmica norte-americana. Repito: é uma revista feita pelos alunos de graduação. A revista do departamento de literatura também é de altíssima qualidade e já vai pelo número 9.

A identificação dos colombianos com o Brasil é digna de nota. O carinho que eles demonstram como anfitriões é indescritível. Quando o visitante é brasileiro, bem, aí a coisa chega àquele ponto em que você fica até com vergonha.

Aqui em Bogotá dança-se muita salsa, merengue, tango. Se você, como eu, é fã desse primo do forró chamado vallenato (música de sanfona da costa caribenha colombiana), aí vai a dica: La trampa vallenata, que fica na 42 com quinta.

Um leitor me perguntou sobre a comida paisa (de Antioquia). O meu prato favorito tem sido a bandeja paisa. Escutem só: arroz, feijão (de caldo), carne moída, ovo frito, lingüiça, chicharrón, tomate, abacate e banana frita.

Não adianta. É da Tierra del Fuego até o México: os hispano-americanos não entendem como podemos comer abacate de sobremesa, com açúcar. Alguns ficam sinceramente indignados.

PS. Alguém aí recebeu o spamzão que está circulando, com a comparação entre MacGyver, James Bond e o Capitão Nascimento? Publico aqui ou não publico?

PS2: Quem me conhece de perto sabe que não sou exatamente um fanático defensor dos direitos dos animais. Mas isso aqui realmente é desprezível. Chapeau para o Mestre Ina por, mais uma vez, ter chamado a atenção para uma injustiça.



  Escrito por Idelber às 14:49 | link para este post | Comentários (13)



domingo, 14 de outubro 2007

Bogotá

DSC03781.JPG Estou em Bogotá. É a minha incrível sina de coincidir com a seleção brasileira no exterior (sim, vi alguns cartolas aqui no meu hotel – como são mais feios ao vivo!). Escrevo um daqueles posts corridos, no ritmo de quem está pagando 10 dólares por hora pela conexão e tem que bater 5 teclas para digitar um til. Aí vão as notícias, então, sem burilar muito o estilo.

Bogotá é, sem dúvida, uma cidade-véu, não uma cidade-vitrine, embora tenha um centro histórico não muito diferente do Pelourinho. É uma urbe gigantesca, de 7 milhões de habitantes, num desenho que se espraia ao longo dos cerros. Convivem relíquias da era colonial (a cidade foi fundada em 1538) com regiões ultra-modernas que lembram um pouco São Paulo. O primeiro impacto que senti foi o da militarização da vida cotidiana: militares com baionetas em tudo quanto é canto, inclusive nas portas dos hotéis. Ao contrário do Chile, as pessoas aqui olham os militares nos olhos e estes até arriscam um bom dia de vez em quando. A Universidad Nacional, minha anfitriã, me colocou num baita cinco estrelas onde a preocupação com a segurança é muito exacerbada: os militares no lobby se contam pelas dezenas.

Aí vão as dicas, baseado no que já fiz até agora. O Museo del Oro, financiado pelo Banco da República, tem uma bela coleção de arte pré-hispânica de um país cujas populações indígenas não costumam receber muita atenção. Contam-me que os utensílios abaixo serviam para administrar cocaína:

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Abaixo, o capitólio, situado na Praça Simón Bolívar, centro da parte histórica da cidade:

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Ainda na Praça Simón Bolívar, ficam a catedral que ilustra o início do post e o Palácio da Justiça:

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A faixa abaixo, pendurada num dos edifícios do centro histórico, protesta contra a decisão do Presidente Uribe de não desmilitarizar um território para as negociações de paz:

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Aliás, sobre o processo de paz colombiano e os testemunhos que se produziram aqui até agora, eu gostaria de escrever depois, com calma. Podem cobrar. A culinária colombiana, altamente regionalizada, como tudo aqui, é outro conto sobre o qual há que se escrever com calma. A comida paisa (ou seja, a comida do estado de Antioquia) é muito parecida com a mineira, com uma vantagem: é molhadinha.

O encontro sobre crítica literária organizado pela Universidad Nacional -- no qual eu estou escalado para uma incrível maratona de três palestras -- começa na terça-feira. Nesta segunda, faço uma rápida viagem à "savana" que bordeia a cidade de Bogotá, sobre cuja literatura eu até já escrevi, sem nunca ter visitado (na cara-de-pau mesmo).

Dando tudo certo com a conexão aqui, eu pretendo manter o ritmo de um post por dia, com detalhes sobre o encontro e sobre a cidade. Vai ser o nosso momento Viaje na Viagem.

PS: Que joguinho ruim, hein? Será que esse time só joga bem quando a gente torce contra?



  Escrito por Idelber às 21:20 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 12 de outubro 2007

Paulo Autran

Morreu o maior de todos:

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(foto: Autran em "O Avarento", de Molière).



  Escrito por Idelber às 21:47 | link para este post | Comentários (2)



sexta-feira, 05 de outubro 2007

Cerveja

Já há algum tempo o Biscoito acompanha a conversa que se desenvolve na blogosfera cervejeira nacional. Em países como os EUA e a Bélgica, a cerveja é tema de incontáveis blogs; tem sido gratificante ver como no Brasil a coisa vai amadurecendo. Hoje é o dia de dar os links, porque o pessoal merece.

No último fim de semana, aconteceu aí no Rio de Janeiro o II Concurso Nacional de Cervejas Artesanais, premiando cervejas em duas categorias: livre e stout. O grande vencendor foi o Ricardo Rosa, da já conhecida (entre cervejeiros) Cervejarte. Ricardo venceu na categoria livre com o English Barley Wine e na categoria Stout com uma Foreign Extra Stout que, me contaram, é coisa do outro mundo. Cervejeiros de vários cantos do Brasil (SP, RJ, MG, RS, SC) estiveram presentes e degustaram com pompa e circunstância:

Jurados.psd.jpg
(fonte)

Se você é um apreciador de cerveja e ainda não explorou as maravilhas da cultura do lúpulo, o Biscoito oferece algumas sugestões, todas elas em português: você pode se iniciar visitando esse fantástico ranking das cervejas mundiais, feito pelo pessoal do Brejas, que já catalogou centenas de cervejas segundo cinco critérios: aparência, aroma, sabor, paladar e impressão geral. Se você ainda não domina bem a diferença entre os vários estilos de cerveja, aprenda com um mestre na matéria, o campeão Ricardo Rosa, nesse quadro explicativo. Depois visite meu conterrâneo Rodrigo Lemos, que é um excelente resenhista de cervejas. Por fim, se você for daqueles que já estão avançados ao ponto de se arriscar na fabricação de sua própria cerveja, você pode consultar essa tabela do Ricardo ou ler um de seus exemplos de fabricação de cerveja caseira.

*************
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Nenhum post sobre cerveja estaria completo sem uma lembrança -- ainda que tardia -- da morte do mestre maior, Michael Jackson (não, não o cantor bocó, mas o fundador do jornalismo cervejeiro). Idolatrado por bebedores de cerveja de todo o mundo, Michael "The Beer Hunter" Jackson fez da apreciação da cerveja uma arte. Na Bélgica, especialmente, o britânico era Deus. Conhecido pela frase me chamo Michael Jackson, mas não canto nem bebo Pepsi, o mestre imortalizou a escola belga de cervejas com o livro Great Beers of Belgium (caso você queira saber mais sobre as poderosas cervejas belgas, comece aqui). Quando a França decidiu sobretaxar a cerveja belga, o Beer Hunter foi à guerra com um belo texto. M.J. viveu os últimos anos da vida com a doença de Parkinson, mas nunca perdeu a alegria de bon vivant, como se comprova nessa entrevista. Ao Beer Hunter fica dedicado este post, in memoriam.

PS: Começou ontem aí em Blumenau, claro, a Oktoberfest, paraíso cervejeiro. Se alguém tiver comentários sobre as cervejas Oktoberfest deste ano, deixe um alô.

PS 2: Por falar em Bélgica, este blog transmitirá de lá do dia 12 ao 18 de novembro, a convite dessa baita instituição. Antes disso, de 15 a 20 de outubro, trasmitiremos de Bogotá, Colômbia, a convite dessa outra bela instituição. Isso se tudo der certo com as conexões de internet nos hotéis, claro.



  Escrito por Idelber às 04:03 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 12 de julho 2007

Texto novo na Germina

A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 17 anos de residência nos Estados Unidos, embora eu sempre tenha cultivado amizades brasileiras, tornei-me cético e cínico quanto ao poder simbólico, ou mesmo imaginário, desses rituais de recuperação retrospectiva da identidade. Exilada no México durante as duas últimas ditaduras em seu país (1966-73 e 1976-83), a escritora argentina Tununa Mercado – cordobesa, não portenha, ressalte-se – nota, num belo livro intitulado En estado de memoria, que os argentinos que mais se queixavam da obsessão carnívora da cozinha argentina foram aqueles que, uma vez no México, entraram em depressão pela falta do bife de chorizo e do doce de leite. De volta, já na redemocratização, eles passaram a arrastar-se na saudade do chile chipotle mexicano que, no exílio, suportavam como um mal necessário e que agora -- ¡carajo!– era impossível encontrar em Buenos Aires. Se não se cuidar, o expatriado vira um mero projétil nesse monótono ping-pong do imaginário.

Continue lendo Expatriamentos, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na Germina. Fique à vontade para voltar e comentá-lo aqui.



  Escrito por Idelber às 01:22 | link para este post | Comentários (11)



quarta-feira, 04 de julho 2007

Ah-eroportos

aeroportos.jpg Meninos, eu vi. Deve ter sido o pior dia da história de Guarulhos. Se houve outro pior, que me mostrem os anais.

Domingo à noite, mochila nas costas, zarpo com Ana para o aeroporto de Santiago, depois de uma bela festa com amigos chilenos, só atrapalhada pela vitória de Robinho e do árbitro contra la Roja. Vôo marcado para as 2 da manhã, horário ideal. 6 da matina chego em Sumpaulo, às 9 nas Alterosas, penso eu na minha infinita estupidez mal-informada. Já na chegada ao aeroporto chileno, algo se via mal. Ou melhor, não se via nada. A neblina era cortável com faca. Já na sala de embarque, o aviso: todas as decolagens estão canceladas. Era o começo da odisséia.

As acomodações das salas de embarque do aeroporto de Santiago são melhores que costumam ser as brasileiras. Foi possível dormir, com interrupções, até a manhã de segunda, quando recebemos a notícia de que o avião sairia às 14 horas. Só aí já eram 12 horas de atraso. Na chegada a São Paulo, lá pelas 19 horas, eu achei que tinha retrocedido no tempo uns 90 anos, mais exatamente à tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques russos: multidão sem rumo, funcionários atônitos dando ordens contraditórias, câmaras de TV procurando cenas de caos, aglomerados que um dia talvez tivessem sido uma fila.

Claro que não embarquei na segunda. Encarei um amontoado gigantesco no check-in de transferência para validar o cartão de embarque que eu já possuía e ouvir da atendente da TAM que as malas deveriam seguir comigo para o hotel e ser despachadas na manhã seguinte – ou seja, que o check-in de transferência não era um check-in de transferência. Cheguei a BH às 14:30 de terça-feira, 38 horas depois de sair rumo ao aeroporto de Santiago. Sim, sim, eu sei que há gente por aí demorando 3 dias de Recife ao Rio. Mas não sou dos que se consolam com a desgraça alheia.

Sobre o caos nos aeroportos, aqui vão algumas observações:

1.Houve uma época em que a classe média tupiniquim era a arrogância em pessoa nos aeroportos. Insultava funcionários das companhias aéreas por qualquer coisa. Via no ato de viajar de avião uma espécie de salvo-conduto de classe. Nas 15 horas de caos que presenciei em Guarulhos, o que mais me chamou a atenção foi a docilidade de todos. Nem um único grito, nenhuma manifestação de indignação. Só rostos resignados e obedientes.

2.Não seria relativamente simples descongestionar o Galeão e Guarulhos construindo um aeroporto em, sei lá, Goiás, só para as conexões internacionais rumo ao Nordeste? Não entendo do assunto, mas me parece meio absurdo ver tanta gente sobrevoar a Bahia rumo ao caos de São Paulo para, depois de muita luta, voar rumo à ... Bahia! Sei que o caos que se viu esta semana em Guarulhos tem outras raízes, mas não seria a hora de se pensar um pouco mais seriamente na descentralização das hubs, dos portos de entrada e distribuição de passageiros?

3.Será que a TAM já está começando a pagar o preço por ter tentado dar “um passo maior que as pernas”?

Agora, com licença que eu vou ali em Confins pegar um avião para o Rio e depois um carro rumo a Parati. Com sorte, pintam por aqui alguns posts sobre a Flip deste ano, que promete.

PS 1: O NoMínimo morreu, viva o NoMínimo. Já estão a todo vapor, em novos endereços, dois amigos deste blog, o Pedro Dória e a Carla Rodrigues.

PS 2: O belíssimo trabalho do Global Voices Online agora tem versão em português! (via Alfarrábio)



  Escrito por Idelber às 01:31 | link para este post | Comentários (16)



quinta-feira, 07 de junho 2007

Gosto se discute (post republicado)

Este post já foi publicado antes; mas como faz mais de dois anos da postagem original, o tema é divertido e eu senti vontade de lhes deixar algo para que se entretenham enquanto pego o avião, aí vai a brincadeirinha de novo. Não é exatamente o mesmo post, porque alguns dos meus gostos já mudaram.

Meus favoritos:

Comida: 1. indiana; 2. árabe; 3. gaúcha/pampeana; 4. caribenha (incluindo a cajun); 5. mineira; 6. italiana; 7. vietnamita.

Carros: japoneses.

Cinema: italiano (tem um frescor e uma leveza tão próprios, mesmo quando se trata de drama ou tragédia).

Teatro: 1. alemão (sim, de Bertolt Brecht até Heiner Müller, é o teatro que mais me impressionou até hoje); 2. inglês.

Conto: argentino.

Romance: 1. anglo-americano (a quantidade de coisas de qualidade é impressionante, mesmo que o seja também a quantidade de porcarias); 2. argentino; 3. francês.

Religiões: marcianas (piores que as terráqueas não podem ser).

Música: 1. brasileira; 2. estadunidense; 3. cubana.

Poesia: 1. francesa, apesar de que a maior parte do meu tempo vai para a leitura da brasileira; 2. chilena; 3. portuguesa.

Televisão: nenhuma.

Cervejas: 1. inglesas; 2. alemãs; 3. de Wisconsin, USA; 4. tchecas.

Mulheres: 1. brasileiras; 2. brasileiras; 3. brasileiras.

Pronto. Podem acrescentar ou quebrar o pau.



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terça-feira, 29 de maio 2007

Conhecem o Paulinho?

Se você só tem 3:40 minutos para perder na internet hoje, perca-os aqui. O personagem tem 5 anos, mas o vídeo é para maiores de 18:

O menino é um caso para Mothern nenhuma botar defeito. É só parte do show do grupo de humor Óbvios que acontece toda terça-feira, às 21 horas, no Bar Radio Club Brasil (Av. Cotovia, 749, Moema) e que inclui também a poderosa Brenda Ligia, prima da Ana.

Estando livre aí em Sampa esta noite, pinte lá.



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sábado, 26 de maio 2007

Fim do vício

Confesso que, quando visito o lindo blog da Marina W, penso em revogar minha decisão, mas agora já não há volta. Parei.

O vício, amigo, é barra pesada: você se esconde ali no cantinho, jurando ao seu super ego que será a última vez. Esconde o ato ilícito do seu amigo, do seu cônjuge, até do seu psicanalista. Chafurda-se na lama do comportamento compulsivo, na ilusão de que é a última vez, de que já não cederá à vontade, de que amanhã você para. Você sabe que o vício é daninho à sua saúde física, mental, emocional. Você promete e quebra promessas no círculo vicioso da denegação e do auto-engano.

Até que um dia você . . . para e não sente mais vontade! Sim, é o que aconteceu comigo. Podem acreditar. Já fez cinco dias. E não sinto a menor vontade. Mesmo. Nem um único momento de tentação eu passei nesta semana.

Parei mesmo de seguir a novela das oito.

Uma satã e uma santa gêmeas é suspensão da descrença demais para o meu gosto. E aquele Olavo (como se chama o ator mesmo?), que vilão mais inverossímil! Não dá.

Dediquei meu tempo de novela da Globo a ler Don DeLillo. Amanhã, um post sobre ele.



  Escrito por Idelber às 16:52 | link para este post | Comentários (9)



quarta-feira, 25 de abril 2007

5 coisas para se fazer em BH

mineirao1.jpg Como o Biscoito só adere aos memes para os quais ele não é convidado, aqui vai minha contribuição ao mais recente que anda circulando por aí, o das “5 coisas para se fazer na sua cidade”. Quem levantou a bola foi o camarada Ian Black. A Cynthia completou, com dois posts imperdíveis sobre Boi... quero dizer, Goiânia. Eu tenho duas cidades, mas sobre New Orleans já escrevi bastante ultimamente. Aqui vão 5 dicas quentes do que fazer em Belo Horizonte:

1. Mercado Central: Se você não conhece, bem, sinto informar: você não sabe o que é Belo Horizonte. Não, não é um mercado como qualquer outro. É uma espécie de museu de tudo, o excesso mais obsceno, a hipérbole em estado puro. Localizado numa construção enorme, que ocupa um quarteirão inteiro naquele que era o centro da BH original – a Praça Raul Soares – o mercado é uma orgia de sons, cheiros, sabores. Encontra-se tudo para comprar, desde um avestruz até um alfinete persa, passando pela maior coleção de cachaças de Minas Gerais (no site do Mercado, clique em "lojas" e delicie-se). Nos bares que ocupam as entradas, montanhas de seres humanos se aglomeram tomando cerveja em pé, com o copo no balcão. Quem vê de longe não entende por que alguém tomaria cerveja naquelas condições. Misturam-se os que estão terminando a noite com os que estão começando o dia. Dica de um “insider”: Dadá Maravilha passa por lá aos sábados e pontifica sobre as problemáticas sem solucionática.

2. Pedacinhos do Céu: é uma das 5 maiores casas de choro do Brasil. Localizado no alto do Caiçara, o bar tem dois andares, mas o quente é chegar cedo (nunca depois das 9) para conseguir uma mesa de frente para a banda. O cidadão honorário de Belo Horizonte, Ausier Vinícius, comanda o show: choro da melhor qualidade, que passeia sempre por Pixinguinha, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Nas paredes, fotos de todas as lendas vivas que já passaram por lá. A galeria é um “who’s who” do choro e do samba, de Paulinho da Viola a Beth Carvalho. Os tira-gostos são divinos, mas o foco é a música. Não leve amigos chatos e falastrões. Em certa ocasião, às 2 da matina, depois de uma noite inesquecível, Christopher Dunn escreveu num guardanapo os títulos de 4 ou 5 choros obscuros da década de 1920. A banda tocou um por um, com modulações que brincavam com e reescreviam as versões originais. Chris quase se ajoelhou em sinal de respeito. Se você mora em BH, gosta de música e nunca foi ao Pedacinhos do Céu, eu não sei o que lhe dizer.

3. Chef Túlio: na Silviano Brandão, Sagrada Família. Sem dúvida, um dos maiores cozinheiros dessa terra de cozinheiros. Com mesas na praça, serve pratos de sua invenção, combinações de cozinhas de países diferentes e até iguarias de New Orleans, onde ele esteve fazendo cursos de culinária (a jambalaya do Chef Túlio não faz feio ante as melhores daqui de Nawlins). O lugar está fora do circuito óbvio do turismo em BH e só quem é de lá conhece. As explicações do Chef sobre cada prato são um show à parte. Vá com fome. macacos.jpg

4. Macacos: BH é rodeada de cachoeiras e atrações naturais de todo tipo, mas Macacos ainda é a opção mais deslumbrante. Arraial cuja origem se remonta a fins do século XVII, Macacos é aquela combinação maravilhosa de natureza e cultura. Matos, cachoeiras e montanhas, sim, mas sempre com uma cervejinha por perto. Catedrais e construções históricas, mas sempre com opções de um bom restaurante: há pelo menos oito de alta qualidade. Já anda no radar dos turistas, então se apresse.

5. Mineirão. Não tem Flamengo nem Corinthians. A torcida do Clube Atlético Mineiro é a paixão futebolística em estado puro. Para mim, conhecer uma cidade sempre significou conhecer seu principal estádio. Orgulho-me de conhecer os principais estádios brasileiros, e o Mineirão ainda é meu favorito, por várias razões. Dicas do "insider": escolha um jogo do Glorioso contra uma equipe de fora ou contra o América (a imigração italiana, que deu grandes frutos na Argentina, não foi muito feliz em BH). Tendo a opção, escolha o acesso pela Antônio Carlos. Suba a Av. Abraão Caram e não entre no estacionamento do estádio. Deixe o carro uns dois ou três quarteirões antes do fim da rampa; sempre há vagas. Caminhe até a Churrascaria Farroupilha, peça uma Bohemia e observe a chegada da nação alvi-negra entoando o mais cantado hino de futebol do planeta. O Mineirão tem quatro portões de acesso à arquibancada: 3, 6, 9 e 12. Prefira o 9, já que o 12 foi colonizado pelas "organizadas" (o 3 é reservado para o pequeno clube da colônia italiana). Depois da vitória, o seu carro estará à frente do trânsito. Dê a volta e pare num dos bares da Pampulha, com vista para a lagoa.

Digam lá, belo-horizontinos, do que me esqueci. E você aí na sua cidade, deixe a dica quente e colabore com a socialização da informação.

PS: Feliz aniversário, lindona!



  Escrito por Idelber às 06:52 | link para este post | Comentários (30)



terça-feira, 06 de março 2007

Páginas da Vida

paginas.jpgTodos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.

Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.

Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.

Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. MarcosCaruso.jpg

Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.

No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.

E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.

O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide - ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.

Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga - que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.

Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.

Foi bom seguir uma novela - tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 22 de novembro 2006

Recife e Olinda

Na falta de tempo para textos, aqui vão umas fotinhas:

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Praia da Boa Viagem, Zona Sul.

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Margens do Rio Beberibe, Centro de Recife.

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Litoral de Olinda/Recife, visto do pátio do Mosteiro de São Francisco.

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A fachada do Mosteiro.

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Detalhes do barroco no Mosteiro de São Francisco.

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Sacristia da Catedral da Sé, Olinda.

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No túmulo de Dom Hélder Câmara (Catedral da Sé). Arte no Mosteiro de São Francisco, o segundo mais antigo do mundo.

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Momento jabá gratuito: restaurante que adorei em Olinda, o Gameleira Regional. Bom e barato.

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O lugar onde morreu Chico Science (caminho de Recife a Olinda, nas imediações da Escola de Aprendizes de Marinheiros).

Leitores deste blog: não morram sem vir ao Recife.



  Escrito por Idelber às 11:14 | link para este post | Comentários (22)



sábado, 18 de novembro 2006

Crônica de expatriado

coxinha.jpg Anteontem, uma discussão acalorada com um amigo muito querido sobre o caderno Mais!, da Folha (que eu tenho achado cada vez mais fraco e que esse amigo defendia) me fez revisitar alguns dos paradoxos que assombram o expatriado. Depois do papo eu me vi recolocando velhas perguntas: quão distorcidas são as percepções do Brasil que temos os brasileiros que moramos fora? Eles são inevitáveis? Quais as distorções mais comuns? Por outro lado, quão distorcidas são as percepções que têm os nossos amigos daqui sobre as ilusões de ótica dos expatriados?

Em 17 anos morando fora, já encontrei brasileiros que se esqueceram completamente de fenômenos como a violência urbana e a miséria no Brasil, e passaram a idealizar um país de cordialidade e doçura que só existe, claro, em suas lembranças distorcidas. Já encontrei brasileiros que se esqueceram de tudo o que existe de positivo no Brasil e passaram a referir-se ao país com uma lamentável mistura de desprezo e ressentimento. Já encontrei brasileiros com crise de depressão "por causa da" falta de Bom Bril, coxinha de galinha ou Fanta Uva (as aspas se devem ao fato de que tais faltas não eram, claro, as causas reais da depressão). No outro extremo, já encontrei brasileiros que acreditavam piamente que jantar às 5:30 da tarde era uma demonstração de superioridade civilizatória. Mas também já encontrei, no Brasil, muita gente que está convicta de que é impossível para qualquer um que resida fora do país entender a dinâmica da sociedade brasileira.

O que gerou em mim essa reflexão foi a crítica que meu amigo me fazia, que nos levou a um ponto em que nenhum dos dois transigia: eu criticava o Mais!, ele dizia, porque eu estava partindo de paradigmas do jornalismo estadunidense ou europeu. Comparado com o NYT ou o Le Monde, claro, o Mais! é um caderno cultural fraco. Não, eu insistia. Eu não o comparava com nada; meu único termo de comparação implícito era o jornalismo cultural brasileiro de épocas anteriores. Não, retrucava o amigo. Você está pensando no primeiro mundo. Você não tem idéia de como é pobre a discussão intelectual sobre literatura e cultura nos jornais brasileiros. Não, não, eu respondia desesperado. Eu leio quatro jornais brasileiros diariamente, como não vou ter idéia? Mesmo comparado com cadernos culturais como o Radar, do argentino Página 12, o Mais! é fraco, redudante, pouco criativo, demasiado dependente de traduções de textos já conhecidos pelos especialistas e de nenhum interesse para o público médio. A partir do momento em que usei a Argentina como termo de comparação, abri a guarda: ora, você não pode nos comparar com um país letrado como a Argentina. No final da conversa decidimos que discordávamos até mesmo acerca das razões que nos faziam discordar. E pronto. Pedimos outro chope.

Em todo caso, este é um post sem conclusão. As distorções que provocam o expatriamento são, muitas vezes, invisíveis para o sujeito que mora fora. Ninguém deixa de ter uma relação forte com o país porque escolheu morar em outras plagas – mesmo que mascare essa relação com o ressentido “detesto o Brasil”. Mas também, entre os que moram aqui e têm amigos fora, é bem comum que se cometam injustiças: que se veja, por exemplo, uma ilusão de ótica ali onde só há a expectativa de que ela exista. Nada garante que seu amigo que trocou Governador Valadares por New Jersey não esteja observando a realidade brasileira de forma distorcida. Mas nada garante, tampouco, que você não esteja distorcendo as distorções dele.

PS: Como sabem meus amigos, não gosto de quem corrige português dos outros e não faço isso. Mas, relacionado ao assunto deste post, confesso que há uma imprecisão lexical me incomoda: é quando vejo algum expatriado brasileiro referindo-se a si mesmo como “exilado”. Ora, não há exilados brasileiros desde 1979. Mora fora quem quer.

PS 2: Parabéns ao campeão!

PS 3: Abraços e bom domingo para todos aqui da incomparável, ensolarada Recife.



  Escrito por Idelber às 19:46 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 15 de novembro 2006

Momento Fathern Coruja

Direto do jornalzinho da Escola da Serra, Belo Horizonte:

frase 0443.jpg

Isso é o que ela dizia quando tinha 6 anos. Agora tem 7.



  Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post | Comentários (13)



sábado, 04 de novembro 2006

Confesso

paginas.jpg

Estou viciado na Globo Internacional.

A última vez em que eu tive satélite recebendo sinal da Globo aqui nos EUA foi naquele campeonato brasileiro em que o Galo caiu na semifinal, de virada, sob um dilúvio em São Caetano. 2001? Acho que sim. O Galo tinha um bom time: Felipe, Valdo, Marques, Veloso. Caiu, de novo de virada, de novo na semifinal, de novo ante um time inferior. Para piorar, com narração de Galvão Bueno. Depois daquilo mudei de casa, larguei o satélite.

Agora com o Galo bombando na segundona e as eleições pegando fogo, resolvi me dar o luxo de novo. Não é muito caro: 40 dólares por mês. Nas transmissões de futebol da Globo Internacional, o Galo tem tido prioridade: exibem os jogos quase toda a semana. Também pudera. Os brasileiros no exterior, como se sabe, se dividem em dois grandes grupos: os mineiros de Governador Valadares e os outros.

O interessante da programação da Globo Internacional é que ela é reduzida ao pão e circo básico: jornais, novelas e futebol. Por aqui a gente vê mais futebol que qualquer brasileiro no Brasil que não tenha TV a cabo e Premiere Sports. São três jogos todo domingo e uns 3 ou 4 durante a semana. E no sábado, a segundona. A novela das 8 passa no horário normal e repete de madrugada. Mesma coisa com a das 7. De madrugada mostram documentários antigos, dos anos 70 e 80, que jamais são exibidos por aí.

Mas o mais curioso é a grade de anunciantes: advogados especializados em problemas de imigração, serviços de remessa de dinheiro ao Brasil, Bradesco Internacional, restaurantes gaúchos em Boston, festas da nostalgia mineira em Washington, lojas online com guaraná, doce de leite e paçoquinha. Ah, as pequenas alegrias dos expatriados!

E o pior é que estou gostando da novela. Imaginem se começamos a discutir Páginas da Vida aqui no blog? Arrasamos com a concorrência!



  Escrito por Idelber às 03:54 | link para este post | Comentários (32)



sexta-feira, 27 de outubro 2006

Sobre o café

café.jpg

Descubra, se puder, os autores de cada uma das seguintes frases sobre o café:

1. O café faz árabes fogosos; o chá, chineses cerimoniosos.

2. Ao tomar café, as idéias movimentam-se como os pelotões do grande exército no campo de batalha.

3. O café deve ser preto como o diabo, quente como o inferno, puro como um anjo, doce como o amor.

4. Leva sempre a ração de café, mesmo com prejuízo do pão.

5. A história do Brasil foi escrita com tinta de café.

6. O café é a bebida dos homens que nunca se embriagam.

7. Desses grãos escuros tiraram os enciclopedistas a força, o ardor, a petulância e as idéias.

Dicas: são três franceses, um português, um brasileiro, um estadunidense e um inglês.

PS: Vou assistir o debate da Globo esta noite. Sábado de manhã tem post.



  Escrito por Idelber às 00:04 | link para este post | Comentários (28)



quinta-feira, 12 de outubro 2006

Um exercício hipotético

comp_acidente_01.jpg imagem: daqui.

Imaginemos que dois pilotos brasileiros, voando em território estadunidense, colidissem com um avião de passageiros norte-americano, provocando um acidente com 154 mortos (obrigado pela correção, Alline). Suponhamos que houvesse crescentes indícios de que voavam na aerovia errada e de que haviam desligado o transponder, além de fortes suspeitas policiais de que se portavam irresponsavelmente na condução da aeronave.

Na improvável hipótese de que estivessem recebendo a assistência jurídica de qualidade que estão recebendo os pilotos americanos Lapore e Paladino no Brasil, e na igualmente improvável hipótese de que estivessem em liberdade num hotel cinco estrelas, haveria alguém, uma alma sequer, acusando as autoridades policiais americanas de "anti-brasilianismo" por haver apreendido seus passaportes enquanto se concluem as investigações? Acredito que não.

Mas assim costuma funcionar com os EUA. Quando a lei internacional é aplicada a eles, não falta algum acéfalo para gritar "anti-americanismo!". Lapore e Paladino são suspeitos de homício culposo cometido na República Federativa do Brasil. Se, e somente se, declarados inocentes depois da investigação, voltam pra casa.

Portanto, it's time to bring them home, vírgula, meu amigo. São objetos de investigação no Brasil e, pelo que consta, estão sendo tratados impecavelmente pelas autoridades. Se inocentados, voltam pra casa, entendeu, amigo? Assim funciona a lei internacional. São aquelas leis que costumavam valer também para os EUA antes de Guantánamo e Abu Ghraib, lembra?

Sobre o imbróglio, quem disse tudo foi Elio Gaspari (link para assinantes). Pode-se imaginar o seguinte: um jatinho de uma empresa brasileira rasga um Boeing de uma empresa americana e derruba-o sobre o Grand Canyon do Colorado. É exagero acreditar que os sete tripulantes e passageiros do Legacy acabarão em Guantánamo. Mas não é exagero garantir que nenhum deles será rapidamente liberado para escrever um artigo e dar entrevistas lançando suspeitas sobre o governo americano.

Eu vos digo, leitores do Biscoito: se tudo no Brasil funcionasse como a Polícia Federal e a Torcida do Galo, já teríamos umas três dúzias de Prêmios Nobel na mochila.

Atualização às 19:55: O blog do Joe Sharkey saiu do ar. Não sei por quê.



  Escrito por Idelber às 03:26 | link para este post | Comentários (33)



domingo, 08 de outubro 2006

Da antropologia dos aeroportos

Um doce, uma camisa do Glorioso ou as obras completas de Guimarães Rosa para o primeiro que me der uma resposta convincente para a seguinte pergunta, que me atormenta há vinte anos: por que os brasileiros são os únicos do mundo a amontoarem-se, em pé, diante do portão de um avião, 20 minutos antes do embarque, mesmo sabendo que há dezenas de cadeiras disponíveis no saguão e que a companhia os embarcará por ordem de assento?

Por quê?

Garanto-lhes que há uma maneira bem fácil de reconhecer, em qualquer aeroporto do mundo, se o vôo é para o Brasil: observe se há uma amontoeira de gente em pé na porta. Ninguém mais faz isso.

Alguém me explique? Confesso que é a única hora em que sinto um pouquinho de vergonha de ser brasileiro.

PS: O blog volta ao ritmo normal amanhã, segunda-feira, quando chego de volta aos EUA.



  Escrito por Idelber às 10:20 | link para este post | Comentários (26)



sexta-feira, 15 de setembro 2006

Uma crônica brasileira em New Orleans

Eu não sei quantos brasileiros vieram a New Orleans ajudar no trabalho de reconstrução, mas certamente são milhares. Hoje em dia, ouvir português nas ruas da cidade não é nenhuma surpresa. Em geral, eles dormem nas casas que estão desinfetando ou reconstruindo. Amontoam-se às dezenas numa mesma residência.

A maioria desembolsou de 10 a 15 mil dólares para entrar nos EUA ilegalmente. Em média, trabalham dois anos só para pagar os empréstimos feitos no Brasil. Não raro, ficam presos aos intermediários que fazem o contato com as empresas e exploram-nos de todas as formas imagináveis.

Na semana passada eu conheci o Sr. C. J., de uns 60 anos de idade. Deve ter no máximo 1,63m, mas impõe respeito pela pele calejada, por marcas de vida que traz o corpo, pelo português impecável – às vezes até excessivamente rebuscado – que fala. Pernambucano, ele chegou aos EUA há alguns anos. Morou na Flórida. Teve um tremendo desengano amoroso. Ouviu falar que havia trabalho em New Orleans. Veio.

Há quatro anos, ouvindo na internet um programa da rádio BH-FM, conheceu Maria, de Contagem, MG. Um pouco mais jovem que ele, Maria procurava um homem sério, trabalhador, honesto. Ele se apresentou. Começaram a relação. Apaixonaram-se. O Sr. C.J. conhece cada momento do cotidiano de Maria, cada gosto, cada mania.

Falam-se todos os dias pelo MSN ou pelo Skype. Maria também conhece cada recoveco da rotina do Sr. C.J: quais os melhores lugares para trabalhar, os patrões pilantras, os brasileiros que o trapacearam, as melhores receitas da cozinha créole, a cara do quartinho que ele aluga em New Orleans.

O Sr. C.J. me entrega uma cerveja gelada com aquela comovente hospitalidade nordestina. Tira um sarro com minha cara pela goleada que, na semana passada, sua equipe – o Náutico – impôs à minha – o Galo. Enquanto isso, ele me mostra as mudanças que está fazendo no quartinho para quando chegar a sua amada, Maria.

O Sr. C.J. e Maria se amam há quatro anos e nunca se viram ao vivo. Nesta semana, Maria faz uma viagem ao consulado norte-americano no Rio de Janeiro para tentar, pela terceira vez, um visto de entrada aos EUA que lhe permita vir ver seu amado.



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quinta-feira, 24 de agosto 2006

No Memorial da América Latina, Sampa

Ao lado do terminal da Barra Funda, ocupando quase 85 mil metros quadrados, mais com cara de Brasília que de Sampa, fica o Memorial da América Latina, inaugurado em 1989 e projetado por Oscar Niemeyer. É um complexo de edifícios com aquela marca registrada da utopia modernista brasiliense:

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De longe, o mais interessante é o museu, que cobre três grandes regiões, o Norte/Nordeste brasileiro, a Mesoamérica (México/Guatemala) e os Andes (especialmente Peru e Equador). É um recorte que privilegia áreas indígenas ou não urbanas. À direita, um tablado com bonecos de maracatu:

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Luxo carnavalesco e trabalho em madeira do Nordeste:

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Depois inicia-se o setor meso-americano, com o (para nós) quase ininteligível mundo das alegorias mexicanas

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e suas cosmogonias caveirocêntricas, onde tudo é Dia dos Mortos:

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Ainda na parte mesoamericana, o museu traz algumas peças da região maya - o sul do México (Chiapas, terra dos Zapatistas e dos indígenas, terra onde a Reforma Agrária mexicana nunca chegou) e o altiplano guatemalteco, que é de onde vêm os suéteres e o trabalho em cerâmica:

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A parte andina do museu traz algumas peças equatorianas, mas privilegia mesmo os departamentos de Ayacucho (em quechua: lugar dos mortos; lá se luta a última batalha pela independência hispano-americana, em 1824) e Cusco, ambos no Peru. Desse dois departamentos vêm, respectivamente, o trabalho de tecelagem e o tablado:

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O Memorial da América Latina foi produto, em grande parte, da vontade visionária do maior crítico literário hispano-americano da segunda metade do século XX, Angel Rama, um uruguaio que amava São Paulo. Além do museu, o Memorial contém um auditório, uma galeria de arte, um pavilhão e uma pequena biblioteca, que fiz questão de visitar para ver se recomendava. Não é uma coleção de impressionar, mas tem boas seleções de literaturas argentina e mexicana, além de algumas estantes de história e ciências sociais latino-americanas. A mítica Biblioteca Ayacucho, fundada por Angel Rama na Venezuela e dedicada a lançar edições críticas e comentadas de clássicos latino-americanos, está todinha lá:

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PS sobre outro museu: Também fui ao Museu da Língua Portuguesa, lá na Estação da Luz, mas sem máquina fotográfica. É uma rica coleção de aparatos, vídeos interativos, linhas evolutivas, quadros explicativos: um museu bem high-tech. O destaque é o mapa do Brasil acoplado a vídeos gravados em toda a Federação, que documentam a variação dialetal do português brasileiro. No primeiro andar há uma exposição (não sei se permanente) sobre o Grande Sertão: Veredas, que inclui mapas, reconstituições do ambiente e reproduções gigantescas do manuscrito com as correções de Rosa. Vale a visita, se seus ouvidos conseguirem abstrair os irritantes relinchos, cantos de pássaros e ruídos de água reproduzidos em playback. As explicações históricas sobre a evolução do latim, a hipótese da língua indo-européia e a origem do português são profissionais e bem-informadas. O "panteão" de 100 obras da literatura lusófona é escolhido e organizado por Alfredo Bosi, com a concepção romântico-grandiloqüente que o caracteriza. Nas placas identificatórias há pelo menos um erro: Corpo de Baile, de Rosa, é atribuído a Clarice Lispector. Não encontrei nenhum outro erro. Vale a visita.



  Escrito por Idelber às 00:59 | link para este post | Comentários (21)



quinta-feira, 03 de agosto 2006

Apontamentos para um livro futuro

Sempre que venho ao Rio revisito uma idéia. Entender a cultura brasileira é entender dois padrões migratórios. O nordestino que vai para São Paulo e o mineiro que vem para o Rio.

Sim, porque isso é o Brasil. Gaúchos e amazônicos migram pouco; viajam para dentro de si mesmos, o que é uma de suas maravilhosas características.

Mas voltando ao assunto, um dia quero escrever sobre isso: a construção da cultura brasileira na viagem de Minas ao Rio. A lista é legião: só na música, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Mílton Nascimento, Clara Nunes, João Bosco.... Na literatura, Drummond, Pedro Nava, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Autran Dourado....

Na política os nomes são legião também. Alguém se habilita a contribuir com a lista?



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sábado, 29 de julho 2006

Uns links, rumo ao Rio

* Desta segunda até o dia 09 de agosto, eu e a Ana estaremos no Rio. De segunda até quinta ocorre o X Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), lá na UERJ. A reunião bi-anual da Abralic já é considerada, entre muita gente, o mais importante congresso literário da América Latina. Este ano são quase 2.000 inscritos. Ao contrário da maioria dos congressos acadêmicos, em que dezenas de mesas simultâneas são muitas vezes feitas de modo arbitrário, os congressos da Abralic se organizam por "simpósios", grupos maiores que passam todas as tardes do congressos juntos, dedicados a um único tema - as manhãs são reservadas para as plenárias. Minha palestra acontece no dia 03 de agosto, às 14 horas, e o tema é a música popular no século XIX e a obra de Machado de Assis, assunto sobre o qual os leitores deste blog já leram algo. Claro que a apresentação será bem mais detalhada que o texto curto publicado aqui no blog. Estão todos convidados. Levarei o iPod com algumas gravações raras de maxixe.

* Aliás, como anda o tempo aí no Rio?

* Depois, no próprio dia 03, às 19 horas, na Livraria Argumento do Leblon, acontece o lançamento de Um defeito de cor, da Ana. Também convido os leitores cariocas a aparecerem e os amigos blogueiros a ajudarem na divulgação. Roubem o selinho à vontade:

ana-lançamento2.jpg

* Por falar em divulgação, aqui vai mais uma: O Carreira Solo, um dos projetos mais interessantes da internet brasileira, está promovendo um concurso para designers: crie a programação visual dos livros do Alex Castro. Passe por lá quem estiver interessado.

* Para a turma da literatura que ainda não conhece, vale a pena ler a excelente entrevista com Antonio Cícero. No bem cuidado site do autor, também há um depoimento valioso de Caetano sobre ele, extraído do livro Verdade Tropical.

* Para a turma do futebol: parece que o Zangaddo, quero dizer, o Dunga, já estreou em estilo, dizendo asneiras sobre Telê Santana, culpando-o pela derrota de 1982. Se Dunga está tão interessado em falar sobre as derrotas da seleção em Copas, ele poderia começar explicando quem foi aquele saco de batatas que desmoronou duas vezes ao lado de Zidane quando o craque magrebiano fez dois gols de cabeça no Brasil na final de 1998. Ou talvez ele prefira explicar quem era aquele outro saco de batatas que se espatifou com a bunda no chão depois de um drible humilhante de Maradona, que serviu a Caniggia o gol que eliminou o Brasil em 1990. Mexeu com Telê Santana, mexeu com este blog.

* Há exatamente um ano atrás, morria o maior escritor argentino das últimas décadas. Na única vez em que estive com Juan José Saer, ele quis que eu explicasse por que tantos brasileiros batem palmas quando o avião aterriza (tenho a sensação de que esse hábito era mais forte então do que hoje). Claro que eu não tinha resposta. Para conhecer melhor esse gigante do romance do século XX, há uma boa conversa com Horácio González, em espanhol, e outra boa entrevista feita em São Paulo. Há romances seus disponíveis em português, incluída a obra-prima O enteado.

* Um dos maiores intelectuais do Brasil, e colunista de futebol da Folha de São Paulo, José Geraldo Couto, andou fazendo elogios a este blog e às discussões que tivemos aqui durante a Copa do Mundo. Obrigado, Zé.

Atualização: Com dois dias de atraso, aqui vão os parabéns ao pioneiríssimo Alexandre Inagaki, pelo seu trigésimo terceiro aniversário. Ina foi destaque na recente matéria da revista Época sobre blogs, e nos brindou com uma bela lista de 25 momentos marcantes da blogosfera nacional. Parabéns e obrigado por tudo, Ina.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 24 de junho 2006

Parabéns vários

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Blogosfera belzontina em festa :-)

Um dos blogs pioneiros do Brasil, o Mothern, além de ser blog, livro, coluna de revista e "casa de ópio para mães internautas viciadas em guestbooks", como dizem elas, será programa semanal no GNT, com estréia programada para agosto e primeira temporada com 13 episódios.

Parabéns às Mothern, por mais essa vitória e conquista pioneira.

E a Laura, das Mothern, faz aniversário hoje.

E quem também faz aniversário hoje é a Fernanda, do lindo Cria Minha.

Parabéns às cancerianas e tim-tim.



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quarta-feira, 07 de junho 2006

Quem tem uma teoria sobre isso?

9 da matina em New Orleans, eu ainda dormindo - afinal havia ficado preparando uma aula sobre poesia mexicana até as 4 - toca meu celular.

- Alô, Sr. Idelber, aqui é da Slate Magazine. Estamos fazendo uma matéria sobre o futebol e queremos saber por que os jogadores da seleção brasileira, ao contrário dos de todas as outras seleções do mundo, são chamados só pelo apelido ou pelo nome de batismo, nunca pelo sobrenome. Qual a razão para isso?

Resposta minha: não tenho a menor idéia.

Alguém aí tem uma teoria sobre isso?



  Escrito por Idelber às 15:08 | link para este post | Comentários (44)



segunda-feira, 05 de junho 2006

Aberta a temporada de caça ao escritor austríaco Peter Handke

(o post é bem longo, mas peço uma leitura atenta. O assunto é muito importante)

handke.jpgNo dia 18 de março deste ano, o escritor austríaco Peter Handke, um dos maiores ficcionistas e dramaturgos da história da literatura em língua alemã, compareceu ao enterro de Slobodan Milosevic, em Pozarevac, Sérvia. No dia 06 de abril, uma certa Ruth Vicentini publicou, na revista francesa Nouvel Observateur, uma nota em que ela diz que o escritor austríaco, ao lado de 20.000 “fanáticos”, havia “tremulado a bandeira sérvia”, se referido aos sérvios como “as verdadeiras vítimas da guerra”, “defendido o massacre de Srebrenica”, “depositado flores no carro fúnebre de Milosevic” e, finalmente, designado Milosevic como “um homem que defendeu o seu povo”.

O que acontece é que todas as afirmações acima, feitas na nota de Vicentini, eram falsas. E daí? dirão vocês, foi só o Nouvel Observateur tendo o seu dia de Veja. Mas é que a história só está começando.

A partir da nota publicada na revista, Marcel Bozonnet, diretor da Comédie Française, decide cancelar a temporada da obra teatral de Handke já programada pela instituição. Uma enxurrada de linchamentos ao “defensor do genocida Milosevic” começa a circular em toda a imprensa européia: em inglês, em francês, em alemão, em espanhol. Handke havia recebido o prêmio Henrich Heine, talvez o mais importante das letras alemãs. Logo depois do artigo calunioso e do linchamento que se seguiu, teve início o processo – ainda em curso – de confisco do prêmio.

Imediatamente depois da publicação das mentiras de Vicentini, o escritor austríaco escreveu uma carta ao Nouvel Observateur, em que ele detalhava o que era falso no artigo e citava textualmente o conteúdo do seu discurso no enterro de Milosevic. Mais de três semanas depois a revista ainda não a havia publicado, nem se retratado pelo erro. Só o fez quando um grupo de intelectuais europeus escreveu uma carta aberta à revista, em solidariedade a Handke. A revista finalmente publicou a missiva de Handke, justificando-se com o argumento de que “a pessoa responsável pela correspondência dos leitores estava de férias”.

O que foi, finalmente, que disse Handke no enterro de Milosevic? Handke domina perfeitamente o servo-croata e nessa língua discursou. Ele mesmo traduziu o discurso ao francês para a revista. Traduzido por mim do francês ao português, o texto é este:

O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre a Iugoslávia, a Sérvia. O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre Slobodan Milosevic. O assim chamado mundo sabe a verdade. Por isso, o assim chamado o mundo está hoje ausente, e não somente hoje e não somente aqui. Eu sei que não sei. Não sei a verdade. Mas olho. Ouço. Sinto. Recordo-me. Por isso estou hoje presente, perto da Iugoslávia, perto da Sérvia, perto de Slobodan Milosevic.

Qualquer que seja a sua opinião sobre a guerra nos Balcãs e sobre a extensa produção escrita de Handke sobre ela, o texto está a quilômetros de distância do “defensor de massacres” que neste momento sofre o linchamento nas mãos da Europa bem-pensante. A própria revista assim o reconheceu, ao publicar a correção de Handke sem reparos, infelizmente só depois que o dano já havia sido feito e a calúnia tivesse dado três voltas ao redor do planeta.

Até chegar em Pindorama. No blog Todo Prosa, Sérgio Rodrigues publicou no último dia 03 um post em que dizia:

A vida do escritor austríaco Peter Handke piorou muito desde que ele compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, em março, e fez um emocionado discurso de adeus ao ex-ditador sérvio, o último grande genocida de um século rico nesse gênero.

O post atribuía a Handke a afirmação de que Milosevic foi “um defensor do seu povo”, quase um mês depois dessa afirmação ter sido desvelada como uma calúnia na própria revista que originalmente o publicou. Tudo bem, todo mundo erra. Conto a história para que se veja como se fazem e se destroem reputações, e como nossas “democracias” vilificam e lincham com a mesma facilidade com que pressupõem que a censura é exclusividade de comunistas, fundamentalistas islâmicos e outros bichos estranhos.

Desde então, e seguindo-se a um comentário que eu publiquei lá (e que é uma versão resumida da história relatada acima), a falsa atribuição de citação foi felizmente removida do post, infelizmente sem que se seguisse a ética blogueira de que, quando se altera um post ao qual os leitores já responderam, indica-se no corpo do post qual foi a alteração feita. Ou seja, como está, para que você saiba qual foi o post publicado no dia 03 você tem que ler a caixa de comentários.

Seguindo-se ao meu comentário, o Sérgio me ofereceu uma resposta da qual eu cito os três primeiros tópicos em itálicos. Intercalo minhas tréplicas:

1.Agradeço a informação sobre a notícia sensacionalista do Nouvel Observateur e lamento ter dado curso à frase sobre o “defensor de seu povo” - de todos (sic) as “calúnias” citadas no comentário, a única que veio parar neste blog. Como não tenho compromisso com o erro, já retirei a frase da nota. Não faz a menor falta.

De nada. Com certeza, uma falsa atribuição de citação não faz a menor falta num blog da qualidade do Todo Prosa. Lamento que, mesmo sabendo o que afirmação provocou na Europa, o colunista ainda prefira manter a palavra calúnia entre aspas. Também lamento que a retirada da frase não tenha seguido a ética blogueira de que se altera um post indicando no corpo do post qual a alteração feita. Parecem bobagem, mas não é. 20 leitores responderam a um post que não é o que está lá. Nesses casos, transparência é tudo.

2. As fontes que deram curso à tal frase são muitas, da agência alemã Deutsch Welle (sic) ao jornal The Guardian, para citar apenas duas acima de qualquer suspeita. O Yahoo foi linkado aqui porque trazia um resumo mais amplo da história.

Sérgio tem toda a razão que tanto Deutsche Welle como o Guardian reproduziram a calúnia da nota de Vicentini. O que só prova que há que se suspeitar de todas as fontes secundárias, incluídas as que estão “acima de qualquer suspeita”. Neste caso, claro, a fonte primária era o Nouvel Observateur, onde a calúnia já tinha sido exposta há quase um mês.

3. A frase é, obviamente, secundária. O comparecimento ao velório de um genocida de carteirinha fala por si - e lamento informar a Idelber e Curiango que esse atributo de Milosevic está longe de ser uma questão histórica aberta, infelizmente.

Em qualquer falsa atribuição de citação, a frase nunca é secundária. A frase “secundária” é parte de um amontoado de mentiras que provocaram considerável dano à reputação e à carreira de um dos maiores escritores contemporâneos. Secundária?

Quanto à “informação”, agradeço. Talvez o Sérgio devesse dá-la também aos especialistas em história dos Balcãs, nenhum dos quais usa a expressão “genocida de carteirinha” assim com tanta confiança. Talvez devesse dá-la à Comissão Internacional de Direitos Humanos que investigou a guerra nos Balcãs e explicitamente excluiu a palavra “genocídio” de seu relatório. É o especialista William A. Schabas que afirma, no livro Genocide and International Law (Cambridge University Press, 2000): “quando ficou claro que o líder iugoslavo Slobodan Milosevic pretendia expulsar os Kosovars do território, e não destruí-los fisicamente, as referências a genocídio declinaram. Uma resolução adotada pela Comissão de Direitos Humanos no fim de abril de 1999 descrevia a realização de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas não mencionava genocídio. Quando foi ouvido o pedido da Iugoslávia de medidas provisórias contra os estados da OTAN no começo de maio de 1999, os estados qualificaram as ações em Kosovo como limpeza étnica, não genocídio. Pelo Tribunal de Crimes Internacionais . . . Milosevic não foi acusado de genocídio" (página 500).

Como se vê, a afirmação de que está longe de ser uma questão historicamente aberta que Milosevic foi um “genocida de carteirinha” está tão equivocada como a citação atribuída a Handke e originalmente presente no post. Isso não quer dizer que não tenham ocorrido massacres e crimes: o massacre de Srebrenica feito pelos sérvios, o massacre croata em Krajina, massacres contra a minoria sérvia pelo Exército de Libertação de Kosovo. Simplesmente quer dizer que a palavra “genocídio” deve ser usada com cuidado, ou ela perderá a credibilidade. E que a guerra dos Balcãs está longe de ser um conflito em que há um lado “genocida” e um lado “inocente”. Esta caracterização, presente ainda na mídia, tem atendido interesses que não são os de estabelecimento da verdade.

É só isso que Handke tem dito, desde os anos 90.

Quanto à conclusão do post do Sérgio,

Continuo achando difícil conciliar o autor de “Asas do desejo” e o exaltador de Milosevic na mesma pessoa,

eu deixo o desafio de que ele me aponte uma única linha escrita por Peter Handke que possa ser interpretada como de “exaltação” a Milosevic. Já adianto que nem em Ein Wortland. Eine Reise durch Kärnten, Slowenien, Friaul, Istrien und Dalmatien nem tampouco em Unter Tränen fragend. Nachträgliche Aufzeichnungen von zwei Jugoslawien-Durchquerungen im Krieg, März und April 1999, os dois livros de Handke sobre os Balcãs, ele não a encontrará.

Por isso eu sempre achei que a defesa do direito de expressão, o direito de opinião, é sempre, por definição, o direito de ter qualquer opinião, até a aparentemente mais repugnante. Esse direito é como a virgindade: ou você tem ou não tem. Não há meio termo. E esse direito está sendo, no momento, tirado de um grande escritor contemporâneo, com censura, cancelamentos, confisco de prêmios e um linchamento nas mãos dos bem-pensantes.

Por isso acabo de assinar a carta dos acadêmicos norte-americanos em apoio a Peter Handke. Não há meio termo: toda a solidariedade a Handke.



  Escrito por Idelber às 05:11 | link para este post | Comentários (41)



terça-feira, 02 de maio 2006

José Miguel Wisnik: Entrevista Exclusiva

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Quem esteve em New Orleans na semana passada foi o crítico, ensaísta, compositor, intérprete e pianista José Miguel Wisnik, um dos pensadores e artistas brasileiros que eu mais admiro. Zé Miguel e sua esposa, a artista plástica Laura Vinci, tiveram um fim de semana memorável em New Orleans, com direito a ver um show do jazz de vanguarda do Astral Project no Snug Harbor (templo do jazz new-orleaniano), um show dos Soul Rebels, grande brass band da cidade, no Café Brasil, uma emocionante reabertura de um clube afro-americano com o já legendário trumpetista Kermit Ruffins, uma festa em sua honra na casa de Christopher Dunn e uma palestra extraordinária sobre música e literatura no Brasil, durante a qual os nossos alunos puderam comprovar porque Zé Miguel é hoje um dos principais intelectuais e artistas brasileiros. A amizade com Zé Miguel é daquelas especiais, não só pelo seu brilhantismo e gentileza, mas também porque suas paixões são as deste blog: música, literatura, política, futebol. Entre um acorde e outro, Zé Miguel me concedeu a seguinte entrevista. Os detalhes sobre seu novo e ansiosamente esperado livro, ora ora, você leu aqui no Biscoito primeiro.

I.A. Você prepara um aguardadíssimo livro sobre o futebol e a cultura brasileira, anunciado numa entrevista publicada no Sem Receita e agora em fase de conclusão durante sua estadia aqui nos Estados Unidos. Sem querer estragar a surpresa, pode nos adiantar do que se trata?

J.M.W. Na verdade é um tema difícil, começando pelo fato de que quem gosta de futebol e assiste futebol geralmente não está interessado em especular sobre futebol ou ler sobre ele. Por outro lado, quem se dedica a ler livros e especulações nem sempre conhece o futebol de dentro. Eu li outro dia um texto do Bourdieu sobre a sociologia do esporte em que ele dizia que os sociólogos geralmente não praticam esporte, não conhecem o esporte de dentro. Esportistas, por outro lado, não estão interessados em sociologia. No caso do livro sobre futebol isso é ampliado, porque com a extensão que tem o futebol no Brasil, o alcance e a imersão na vida futebolística se fazem de uma maneira que não passa por uma atividade refletida. Ou passa tanto que todo mundo se considera mais na posição de ensinar futebol do que aprender sobre ele, não é?

Tem-se escrito cada vez mais sobre futebol no Brasil, apesar disso, e não sei se na medida da importância que ele tem para nós. Há, claro, o livro clássico do Mario Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, suas crônicas, e tudo aquilo que ele até hoje produz como discussão em torno de si. Há Nelson Rodrigues, o clássico absoluto. Tem os textos de e motivados por Roberto da Matta, há historiadores como o do livro Footballmania (de Leonardo Pereira) que é uma muito boa história do futebol, do princípio até 1938, e as muitas teses que vêm sendo escritas nas universidades, como a que deu origem ao livro de Bernardo de Hollanda, O descobrimento do futebol, sobre relações com a literatura. Os interessantíssimos escritos de João Saldanha, o livro de João Máximo sobre João Saldanha, o de Ruy Castro sobre Garrincha, o de Alex Bellos sobre o Brasil e o futebol, o de Jorge Caldeira sobre Ronaldo. O texto soberbo de Anatol Rosenfeld escrito em 1956 para uma revista alemã, que se encontra em Negro, macumba e futebol. Estou dando apenas alguns exemplos que me ocorrem agora, de memória.

Mas eu observei, no período que estou passando em Berkeley e em que tive acesso a uma biblioteca ampla sobre o tema, que se escreve muito sobre futebol no mundo, cada vez mais nos últimos anos, e que a parte brasileira dessa bibliografia, no conjunto, acaba parecendo magra. A questão das identidades nacionais, ou grupais, na globalização, a violência, a presença de espetáculos esportivos de massa no cotidiano contemporâneo, o futebol feminino, as relações do futebol com economia, política, arte, moda, psicologia de multidões, a partir de muitos pontos de abordagem . A centralidade do futebol na vida dos povos mais diversos tornou-se um assunto mundial, assim como as relações transculturais que se dão através dele. Há coisas escritas sobre futebol africano, indiano, árabe, além, claro, do futebol europeu – aí você encontra a idéia de que só o futebol explica a Europa, de que a União Européia é ininteligível sem o futebol, o fato de que a FIFA ganhou uma dimensão mais extensa que a da ONU, de que o futebol é onipresente e que se tornou uma espécie de língua geral.

Há uma tendência crescente a que os estudos se deparem com a importância que o futebol ganhou no mundo. No entanto, basta alguém estudar o futebol e entrar no mérito do que é o jogo, que vai topar com o Brasil, que é o incontornável do assunto. O futebol é um assunto mundial que implica necessariamente o Brasil. Portanto estamos nessa jogada queiramos ou não (risos)

E aí eu vejo uma coisa curiosa. No Brasil, os estudos sobre futebol tendem a ser mais sociológicos, históricos, biográficos, e menos interpretativos, menos especulativos, menos ensaisticamente ousados do que os que se escrevem em língua espanhola, por exemplo. Há textos, nesta última, em que a bibliografia da crítica literária é fortemente convocada para pensar o futebol. Inclusive, há um livro de um boliviano sobre Garrincha que é surpreendente (Un pajarillo llamado ‘Mané’, de Luis Antezana). O mais belo ensaio interpretativo sobre futebol no Brasil, na minha opinião, é o Anatomia de uma derrota, de Paulo Perdigão, sobre a Copa de 50. Alguns poemas de João Cabral são ensaios concentrados. E quem tem escrito com sabedoria, ironia e muitas vezes ousadia interpretativa, além de esbanjar no conhecimento de causa, é Tostão, que, outro dia, teceu comentários sobre o real, o imaginário e o simbólico em Lacan! Tudo isso me confirmou algo com que venho trabalhando: pensar nas implicações culturais e no caráter artístico, poético, estético do futebol, repensar o tema eterno de como o futebol brasileiro se apropriou do futebol inglês, e porque este ganhou o alcance que tem no mundo.

Então digamos, esse é o sentido geral do livro, que se aprofundou aqui nos EUA, olhando o Brasil à distância e pensando no futebol como o mais mundial dos esportes: aquele jogo que quebra a hegemonia que a cultura americana assume como crivo e padrão da cultura de massa – veja o fato de que a ESPN não conseguiu implantar o basquete como esporte mundial, e que a Nike teve que lidar fora do seu programa com uma coisa que lhe era estranha (a biografia de Jorge Caldeira sobre Ronaldo explica bem isso). Quer dizer, o futebol, que é o mais mundial dos esportes, não faz sentido para os EUA, e os esportes que fazem mais sentido para os EUA estão longe de fazer sentido para o mundo na mesma medida. Esse é o curioso ponto em que se quebra o domínio do imaginário do império, que, se se completasse, fecharia um circuito absolutamente sem saída. Porque se fechariam todas as pontas . . . (risos)

E curiosamente, também, é justamente nesse lugar em que o império americano não completa o processo de dominação imaginária sobre as grandes fantasias de massa, de exercício do jogo e da vida, ali onde falha o império americano e onde falta a coca-cola dos esportes é que desponta uma coisa chamada Brasil, um negócio meio difícil de definir e que ganha uma certa clareza enigmática quando se trata de futebol.

I.A. O livro trata mais diretamente de algum período do futebol brasileiro ou trabalha sempre no nível mais amplo, digamos, do que seria a reflexão conceitual ?

J. M.W. Ele tem um capítulo sobre os jogos de bola e a constituição do futebol inglês. É um capítulo sobre o que distingue o futebol dos outros esportes modernos e porque ele teve esse alcance. Essa é uma parte do livro. Outra parte do livro é como isso foi apropriado e resignificado no Brasil – e aí passa pelos temas que são a formação do futebol brasileiro, o famoso problema do negro no futebol brasileiro e as epifanias, que se deram em diferentes momentos. A de 1938, a primeira epifania do futebol brasileiro, a copa de 1950, que é uma grande epifania em negativo, o ciclo de 1958 a 70. Depois disso vêm, Copa por Copa, as vicissitudes dessa sensação de grandeza e de fracasso, e o fato de se alternar tanto a imagem que fazemos da seleção brasileira, onde ela é tudo ou é nada. Isso é uma questão subterrânea do livro que faz com ele se chame Veneno remédio: o futebol e o Brasil.

I.A. Um tema que é bem apropriado para se tratar aqui em New Orleans é o do futebol como arena onde as relações raciais brasileiras adquirem ao mesmo tempo sua transparência e sua opacidade. Eu queria lhe perguntar em que o trabalho sobre o futebol pode tê-lo levado a refletir sobre as relações raciais brasileiras e até que ponto o futebol confirma, ou nega, ou matiza, Gilberto Freyre.

Puxa, esse é o tema crucial do qual eu espero dar conta minimamente. Eu acho que há uma tendência que vê o futebol como exemplo de uma integração que seria uma prova da democracia racial. E existe uma tendência que critica esta e que joga fora a indagação sobre em que o futebol consiste, porque contesta a idéia de democracia racial brasileira. Na verdade há um embate entre duas fórmulas insuficientes: uma é “o futebol é assim porque é a ginga, é a malandragem, são as capacidades adaptativas ligadas à mestiçagem que fazem com que o futebol ganhe essas propriedades tão únicas”. Por outro lado, há a idéia de que as categorias não são relevantes, e que o que há que se fazer é investigar as relações de classe, quais eram as posições de poder que estavam em vigor na constituição dos times, e que essas categorias (ginga, malandragem) seriam irrelevantes. E aí trazem outras que se mostram igualmente irrelevantes ... (risos)

Por exemplo: critica-se Mario Filho dizendo que ele narra, sem rigor científico, o mito infantil em que o negro está excluído, num primeiro momento do futebol brasileiro, depois ele entra, depois ele conquista um direito de cidadania e finalmente triunfa. Mas acho que inclusive no Mario Filho essa coisa está colocada de uma forma mais complexa. O livro é fartamente anedótico, mas pode ser lido como a partitura de um mito à maneira de Lévi-Strauss (não no sentido estruturalista, mas como rede complexa e não linear). Num primeiro momento o futebol oficial no Brasil é excludente e branco. Ele é bem representado, em Mario Filho, pela figura de Marcos de Mendonça, goleiro do Fluminense e da seleção brasileira, que mereceria um estudo à parte – ele foi o pai da crítica shakespeariana brasileira (é pai de Barbara Heliodora), e é o verdadeiro emblema da fase áurea do amadorismo de elite – o incluído branco, do Fluminense, rico e próximo da cultura letrada (fazendo eco ao papel desempenhado por Coelho Neto). No polo oposto estão os excluídos, os pretos, mulatos (e brancos) pobres. A galera que aparece nas fotos do livro Footballmania, encarapitada nos muros e telhados, vendo o jogo de fora. Mas há também o Friedenreich, que jogava na seleção com o Marcos de Mendonça: é o mulato que se disfarça de não mulato. Esse mulato que se disfarça de não mulato é, no entanto, o grande craque da época, antes de que começasse a entrada dos negros, na década de 20. Marcos Mendonça e Friedenreich são, sintomaticamente, os nomes mais importantes do período. Friedenreich tem a ambivalência do mulato nem rejeitado nem admitido, posição clássica de Machado de Assis no século 19, que procura estar como se não estivesse, posição que eu estudei em “Machado maxixe”. No escravismo mestiço brasileiro, o mulato é o não rejeitado nem admitido que guarda o segredo inconfessável do todo.Depois, e ainda no primeiro capítulo do livro, o Mario Filho fala no Manteiga, que é um preto que foi admitido e logo em seguida rejeitado. Ou seja, o anedotário de Mario Filho tem um espírito de sistema, e capta relações complexas entre incluídos de um lado, excluídos de outro, e as figuras ambivalentes daqueles que são nem incluídos nem excluídos, ou incluídos e ao mesmo tempo excluídos. Essa dinãmica fala, por si só, de uma rede de relações raciais complexas que não pode ser entendida na base do preto no branco. E o mulato vem a ser, justamente, no futebol e na literatura, o melhor intérprete dessa configuração cultural.

Leônidas da Silva será o grande craque do período seguinte, o da profissionalização, com Domingos da Guia, depois de rompidas as barreiras da exclusão. Mas Leônidas, como protagonista, será agora o admitido e rejeitado ao mesmo tempo. Mario Filho mostra isso bem. Ele é o veneno remédio. Ele triunfa como artilheiro da Copa e é contestado em vários momentos, criticado, vilipendiado, xingado. Já Domingos da Guia ecoa o modelo machadiano, com quem Mario Filho o compara, estilisticamente.

I.A. É o mulato elegante.

JMW: Exatamente, é o mulato elegante que queria ser aceito no Fluminense. O Leônidas da Silva é o momento da passagem, da virada, em que esse sujeito que era o negro negado vem a ser o negro afirmado. Então tudo isso é mais complexo e nos instrui mais do que uma mera ideologia da democracia racial, nos instrui mais do que a alternativa asséptica, que pretende desqualificar a questão racial como sendo não-pertinente ao futebol, ou entendê-la segundo um modelo racialista de tipo norte-americano, baseado na oposição binariamente marcada de branco e negro. Essa complexidade já está em Mario Filho. A partir daí, vem o desafio de ver como isso se traduz em linguagem propriamente futebolística, o que seria difícil de reproduzir aqui, mas o desafio do livro é não tratar desse assunto de um ponto de vista puramente sociológico e antropológico, mas também semiótico e poético.

I.A. Mais uma pergunta sobre a questão racial. Nos anos 70, Paulo César Caju dizia “eu sou tricampeão do mundo” mas não posso freqüentar uma boite da Zona Sul sem ser incomodado. Nos últimos anos, os incidentes envolvendo insultos raciais começaram a ganhar uma notoriedade que antes não tinham. Há os exemplos da prisão do argentino Leandro Desábato, do Quilmes, por ofensa racial ao Grafite num jogo da Libertadores da América contra o São Paulo e, algumas semanas atrás, o gesto racista feito por Antônio Carlos, do Juventude, contra o Jeovânio, do Grêmio, num lance que o Brasil acompanhou e que teve uma repercussão que ele jamais teria previsto. Por que isso tem acontecido – recrudesceu o racismo ou aumentou sua visibilidade?

J.M.W. Se vemos o documentário do João Moreira Salles sobre o Paulo César Caju, nota-se que não se pode tomar as declarações dele ao pé da letra. Ou melhor, não se pode tomá-la de maneira simplista. Ele entra e não entra nas boites da Zona Sul. Ele é ao mesmo tempo segregado e aceito. Quer dizer, aquele documentário é justamente sobre o sujeito que entra nas elites, que tem o charme, o prestígio de ser jogador, e ao mesmo tempo a decadência... O documentário é maravilhoso. Mostra facetas controversas e contraditórias da figura. O que o filme mostra é isso, inclusive na relação dele com a equipe de filmagem, que ele dribla várias vezes... Então não se pode tomar essa frase do Paulo César Caju como se fosse simplesmente a expressão reta da verdade, porque aí justamente a gente toma drible... (risos).

Ali se mostra um cara que circulou, em suma, na vida noturna, desfrutando dessa condição, sendo inclusive o pioneiro desse tipo de figura que apareceria depois e que existe hoje: o jogador brasileiro que circula na Europa, que desfila pelas boites, é solicitado pelas mulheres: ele figurou primeiro que ninguém isso. Claro que ele sabe também o quanto isso é ambivalente, mas eu acho que isso está ligado a essa duplicidade, que houve no Brasil desde que os jogadores passaram, como diz Anatol Rosenfeld, por uma “queda pra cima”: o jogador é sugado para o alto da sociedade. Ele é levado, com tudo o que tem sua história pessoal de precariedade, a uma situação onde ele circula por cima, enquanto durar essa sucção. Eu considero tudo isso, sempre, como “veneno remédio”, ou seja, são figuras do farmacós, que o futebol mobiliza intrinsecamente. É violencia e não violencia, é violência e superação da violencia. O futebol desperta posições de caráter racista, sexista, ao mesmo tempo em que ele é uma forma pela qual as culturas se deparam, trocam experiências, se admiram e se aceitam – em suma, jogam o mesmo jogo. Isso é uma coisa com a qual, justamente, o pensamento sociológico que não conhece o jogo tem dificuldade de lidar, porque as categorias sociológicas são mais estáticas (risos).

Falta a elas jogo. Se a gente for pensar direito a complexidade do jogo, mexe-se nas categorias sociológicas e portanto mexe-se na natureza mesma dos Estudos Culturais. Sobre os episódios mais recentes –Grafite etc. – eu acho que o que aconteceu foi que as coisas ficaram mais transparentes. Assim como no Brasil a utilização de dinheiro e poder públicos em benefício próprio é uma coisa secular e agora virou uma discussão pública – valores ligados à transparência e que desnudam esses procedimentos como ilegítimos vieram à tona e xingamentos em campo ganharam uma expressão jurídica e política. Então acho que é em parte isso. Não acho que seja um recrudescimento do racismo. Mostra o quanto ele está subjacente, não propriamente como racismo mas como choques – se entendemos o racismo como atitude ostensiva de desqualificação racial. Isso é algo para o qual eu acho que não há espaço no Brasil. Há algo em que New Orleans se parece vaga e fortemente com o Brasil, sobre o que conversamos antes dessa entrevista e eu concordo com você: aqui, no berço do jazz, os negros irradiam uma certa naturalidade de quem sabe que os símbolos da cidade, que se espalharam decisivamente sobre os Estados Unidos e o mundo, foram criados por eles. É diferente de negros num gueto de Washington, convivendo com os obeliscos, os capitólios e os pentágonos – a simbologia fálica dos brancos.


I.A. Há dois grandes mitos que habitam o futebol brasileiro há mais ou menos 30 ou 40 anos, que são os mitos do futebol força e do futebol arte. Uma das teses que eu fiquei de apresentar – e ainda não o fiz – aos leitores do blog é a de que o Brasil perdeu a Copa de 1982 no dia 05 de março de 1978, data da decisão do Campeonato Brasileiro de 1977, no qual a invicta equipe do Atlético-MG, formada por jogadores franzinos e associada a um imaginário de oposição à CBD da época, comandada pelo General Heleno Nunes – essa equipe que encarnou no gesto de Reinaldo o punho esquerdo fechado e erguido da Internacional Socialista – foi derrotada nos pênaltis pelo São Paulo de Minelli, capitão do futebol força, depois de um jogo muito violento em que inclusive um jogador do Atlético-MG, Ângelo, foi pisoteado por Chicão. Ali de alguma forma ganha força a idéia de que o Brasil devia copiar a Europa, de que futebol bonito não ganha jogo – mito que se reforçou sobremaneira depois da derrota do Sarriá, e mais ainda depois da segunda derrota do Telê em Copas, já em 1986. Fale um pouco desses mitos, da forma como eles têm sido reescritos ao longo dos anos e de como o seu Santos, o de Robinho, de alguma maneira resgatou o futebol arte que vinha com menos prestígio depois das conquistas de Parreira e Felipão em 1994 e 2002. Não sei se faz sentido essa contraposição.


J.M.W. Totalmente. Eu parto de um ensaio do Pasolini, que ele escreveu no ano de 1971, dizendo que o futebol se joga em prosa e em poesia. Segundo ele, os europeus jogam em prosa. Digamos, os alemães e os ingleses jogam em prosa realista, os italianos jogavam em prosa estetizante . . . (risos)

E os sul-americanos, especialmente os brasileiros, jogariam em poesia. E ele descreve semiologicamente isso. É um texto muito interessante, que coloca a questão do futebol brasileiro como um futebol de poesia. Há uma outra variante disso, que recrudesceu na década de 70, que é a do futebol força: ocupação de espaços, vigor físico para matar a pretensão de jogadas criativas. A Copa de 70 consagrou aos olhos do mundo um futebol poesia, e o desenrolar da década de 70 trouxe uma dúvida sobre isso, porque levantou o futebol força. O futebol em prosa ganhou uma espécie de dominância aparente que fazia, no Brasil, acreditar-se que a arte era uma coisa do passado. Isso está ligado às eternas oscilações entre reconhecimento e negação do ser brasileiro. Então justamente das Copas de 1974 a 1994, são 20 anos em que a pergunta é “entre a poesia e a prosa, qual é a superior”, que é a pergunta do Caetano Veloso na música “Língua”.

E esse episódio do Mineirão que você menciona – eu não sei se é o episódio inicial, mas é um episódio marcante desse desenrolar, que durou até o desrecalque de 94: uma seleção maciçamente defensiva, com um técnico acadêmico, que pensa em prosa acadêmica e que é uma sucessão do paradigma introduzido por Cláudio Coutinho, mas com um diferencial: um centauro com brilho, com um aríete de gênio.

I.A. Romário.

J.M.W. Romário, sem o qual o esquema todo não daria um passo. Então a dualidade continua... (risos). Foi uma Copa ganha sem o brilho de equipe, mas com o brilho de Romário: sempre recebendo duas ou três bolas por jogo e decidindo ali, né? Evitado até o último minuto pela comissão técnica. Serviu, de todo modo, para mostrar que é a oposição entre arte e força é um pseudo-problema no futbeol brasileiro, como Telê Santana sempre soube. Zagallo e Felipão disputam irritantemente com o craque, querem diminuir o craque, colocá-lo no devido lugar subalterno. Parreira hoje é um jogador de pôquer que tirou uma mão cheia de azes e reis, mas que, no fundo do fundo, e diante do espelho mais íntimo, como disse bem o Tostão, preferia ser o técnico da Inglaterra, um equipe mais mediana e aplicada. Na verdade, a poesia é instantânea. Assim como na literatura, dizia Edgar Allan Poe, não existe poema longo: o poema longo é feito de prosa poética com momentos de genuína poesia. O jogo de futebol também é assim: sem o arroz com feijão do jogo, sem jogar prosa, ninguem ganha coisa nenhuma. É preciso a prosa, a boa prosa, para que a poesia apareça. Hoje em dia essa questão parece equacionada, também pelo fato de que o futebol criativo mostrou uma capacidade de reafirmação, de recriação que dá entusiasmo para que a gente trate do assunto. Eu só me animei a escrever este livro depois do Santos de Robinho, o livro veio com ele. Se o futebol estivesse hoje tedioso, seria triste escrever sobre o assunto. Nós teríamos que aceitar mesmo que as coisas foram massificadas, padronizadas e que o futebol é só um espetáculo mercantilizado e nada mais que isso. No entanto, não é assim.

I.A. Perfeito. Mudando de assunto, Zé Miguel. Talvez o grande debate da crítica literária latino-americana, brasileira incluída, dos últimos 15, 20 anos tenha sido o impacto dos Estudos Culturais no estudo da literatura. No caso do Brasil, os paradigmas fundamentais da crítica literária contemporânea foram assentados pela escola uspiana, que tem uma relação orgânica com o ensaísmo de identidade nacional, de Sérgio Buarque de Hollanda para adiante. O pensamento uspiano tem sido muito criticado pelos praticantes dos Estudos Culturais, como pensamento que não foi atento o suficiente para questões de raça, de gênero, de orientação sexual, e que não foi atento o suficiente tampouco para a cultura popular. Por outro lado, os intelectuais uspianos têm reagido violentamente ao suposto “relativismo” dos Estudos Culturais e à suposta perda da possibilidade de se fazer juízos de valor na crítica literária. A sua posição nesse mapa é fascinante porque você é um intelectual formado nessa tradição uspiana, mas com uma relação com a cultura popular que não tem nenhum outro intelectual uspiano. Eu queria saber se você parou para pensar nessa sua localização, que é bem singular.


É o seguinte, Idelber: Fla-flu é bom em futebol. Na vida intelectual, é um tremendo atraso. No meu caso, eu tive uma formaçao uspiana, a qual se você se referiu, que está ligada principalmente ao rigor da análise de texto. É isso que define, para mim, a formaçao uspiana. Isso para mim se combinou com uma formação não acadêmica, mas simultânea, que é a da musica popular, da tropicália. O meu trabalho artístico e crítico resulta dessa combinação. E aí é necessário atentar para certas coisas.

Veja só, a perspectiva do Antonio Candido tem sido criticada como romântica e nacional. Eu acho que ela é uma versão letrada do processo de formação, no qual opera fortemente a categoria da nacionalidade, tendo o Romantismo como um de seus momentos. Eu vejo o Candido mais como um iluminista que como um romântico. Se há limitações, eu as vejo por aí.

Entendo que os estudos culturais têm criticado os processos de formação e suas metáforas biológicas. Mas veja como o futebol reacende o problema da formação, que é o problema que orienta Antonio Candido no tratamento da literatura: por um lado chega-se a Machado, por outro chega-se a Pelé. O que acontece é que no futebol e na literatura realizam-se, defasadamente, é claro, processos de formação, com linguagens, componentes e alcances diferentes, é óbvio, mas também com surpreendentes afinidades. Por isso, no Brasil é importante abrir espaço para pensar nesse processo que inclui a literatura e a música, que supõe a relação com a Europa, com a África, que mobiliza “idéias fora do lugar” e “lugar fora das idéias”.

Portanto, num estudo como este do futebol eu pretendo aplicar todo o rigor que aprendi na análise de textos da USP. E há dois mitos da critica cultural que eu quero driblar – em primeiro lugar, a idéia de que o Brasil é um falso problema. Pensar a singularidade do Braisl no mundo é uma questão que me interessa profundamente. E que eu acho que isso não interessa nem aos meus colegas da Usp nem ao campo dos estudos culturais.

Segundo, o valor literário é uma coisa que interessa, sim. A literatura é uma questão de densidade textual, que se junta com o seu valor de testemunho. É inerente à literatura a postulação do valor – isso é o que determina a capacidade que tem um texto de resistir ao tempo. É claro que a constituição desse valor está em constante mudança – portanto questionar o processo pelo qual ele acontece é legítimo. Mas isso não muda o fato de que há um valor estético que resiste ao tempo. Esse assunto está tratado por mim no livro de entrevistas de que participei, coordenado pela Santuza Cambraia Naves, chamado A MPB em discussão.

I.A. Qual o balanço da sua visita a New Orleans?

Incrível, comovente, impactante. Há meses em outra região dos Estados Unidos, posso sentir o quanto essa cultura da festa, da rua e da música é diferente de tudo, neste país, a ponto de se mostrar renascendo com força irresistível do dilúvio e do abandono. E sentir que o dilúvio pode dar a oportunidade para a destruição daquilo que ele não conseguiu destruir: a redução dessa riqueza humana à lógica da capitalização e uniformização generalizada.



  Escrito por Idelber às 14:58 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 28 de abril 2006

Belo Horizonte (post republicado)

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(aproveitando o embarque para Belo Horizonte nesta sexta-feira, republico um post do ano passado sobre a cidade)

Eu tenho por Belo Horizonte esse amor cheio de idealizações que é próprio dos expatriados. É curioso chegar aqui anualmente e renovar esse amor com rituais que beiram o patético: ir à Praça da Liberdade comer uma coxinha de galinha com guaraná; ir ao Mineirão ver um jogo; ir ao Santa Tereza e redescobrir que ainda há lugares onde as pessoas passam 8 horas numa mesa de bar, bebendo e cantando até o amanhecer. É difícil explicar como é, para um expatriado, descobrir o que já se sabe, ver o velho com olhos de novidade. Estar de volta no Brasil, estar de volta em Minas.

É curioso porque, analisando-se friamente, Belo Horizonte não é uma cidade das mais fascinantes. Não tem praias e hospeda a população mais obcecada com praia que há no mundo. Você quer falar de praia, tecer teorias sobre a praia, chame um mineiro. Você escutará as teorias mais insólitas.

Bonita a cidade não é, com certeza. Porto Alegre, por exemplo, é muito mais chamativa plasticamente. O trânsito de Belo Horizonte é o pior que eu conheço, e olha que eu já viajei por este mundo (sempre que digo isso, meus amigos paulistanos exibem o comprimento dos seus engarrafamentos e o tempo que passam no trânsito; em números absolutos, eles têm razão, mas acreditem: São Paulo não chega aos pés de BH em caos por centímetro quadrado).

BH é um arraial planejado para existir dentro de uma avenida circular, a Contorno. A cidade se espraiou loucamente em todas as direções e transbordou a Contorno por dezenas de quilômetros, mas continua existindo como se fosse o velho arraial. Enquanto que é perfeitamente possível, por exemplo, viver em Copacabana de forma relativamente auto-suficiente, em BH todos os cinemas, teatros, repartições públicas e tudo o mais continuam localizados dentro da Contorno. Todo mundo tem que ir ao centro por algum motivo. O centro é um aglomerado de ruas estreitas, planejadas para abrigar o movimento de uma população de, no máximo, uns 200.000. O resultado é que 3 milhões de pessoas vivem aqui em convergência permanente em direção a um espaço onde elas não cabem. Dirigir no centro de BH é das experiências mais enlouquecedoras que pode passar um ser humano.

De onde vem, então, o fascínio? BH combina, de forma singular, o cosmopolitismo e o provincianismo. Cosmopolita, cheia de opções culturais, BH mantém algo do velho Curral d’el Rey: os mineiros dão informação, por exemplo, como se ainda estivessem no arraial. Tudo é logo ali. Tudo tem uma certa intimidade que não noto nem mesmo em cidades menores, como Curitiba ou Fortaleza.

O salto cultural dado pela cidade nos últimos anos foi impressionante. Eu sou muito crítico do governo federal, mas há que se reconhecer que as sucessivas prefeituras petistas belo-horizontinas (em coalizão com o PSB e o PC do B) têm sido notáveis. BH é hoje a capital internacional do teatro de bonecos. É conhecida mundialmente pelos seus eventos de teatro de rua. Acontecimentos como o Salão do Livro e o Comida de Buteco continuam atraindo multidões anualmente. A cena musical continua tão rica como sempre foi, mas muito mais estruturada e com melhores canais de comunicação com a população. À pilhagem das igrejas evangélicas sobre os cinemas seguiu-se uma proliferação de cineclubes que fazem que a oferta de cinema hoje seja ainda melhor do que era quando a cidade possuía suas salas de cinema clássicas. Os bairros periféricos fervilham de atividades culturais inovadoras.

Há tempos escrevi um post, ainda no velho UOL, que diferenciava cidades-véu de cidades-vitrine, cidades que o abraçam quando você chega e cidades que exigem um guia. BH pertence a esta última categoria. Chegar aqui e zanzar ao léu, como é possível zanzar em NYC ou no Rio, é decepção na certa. A cidade não se oferece a você e não o seduz, como Salvador. Você tem que seduzi-la.

Tudo aqui é cheio de recovecos. As pérolas estão escondidas. Mais ou menos como na psicologia do mineiro, a melhor parte é a que se esconde atrás do véu e que só se descobre com o tempo.

É muito intensa a experiência de renovar esse laço com a cidade.



  Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post | Comentários (29)



sexta-feira, 14 de abril 2006

A minha mais insólita noite no Mineirão

A Milton Ribeiro

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O Flávio é um amigo de Belo Horizonte, e uma das figuras mais brilhantes que conheço: bacharel em história pela UFMG, mestre com uma dissertação nacionalmente premiada sobre a história oral entre deficientes visuais, doutor em música com uma tese sobre a educação musical e o canto orfeônico nos anos 30, campeão de natação, compositor, exímio violonista e ativo membro da comunidade que trabalha com direitos humanos em Minas Gerais.

Tudo isso já seria impressionante em qualquer ser humano, mas Flávio o faz com deficiência visual de praticamente 100%. Para ele, e para nós que somos seus amigos, isso é só um detalhe – mas importante para entender o que aconteceu conosco no dia 23 de julho de 2003. Era uma quarta-feira à noite e jogariam Atlético-MG e Juventude no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro.

Eu havia convidado o Frajola – como ele é conhecido entre nós – para ir ao Mineirão comigo. Ele estaria trabalhando na Faculdade de Educação da UFMG, que fica na Pampulha. Seria fácil passar por lá e pegá-lo. Na manhã do jogo desisto de ir ao estádio, telefono e cancelo o programa. De tarde, resolvo que vou, sim, e telefono de novo:

- Porra, Idelber, não dá. Você falou que não ia, eu saí de casa sem o meu radinho.
- Vamo’ embora. Eu narro o jogo para você.
- OK, então vamos. Mas tem um amigo meu mexicano que quer ir também.
- Beleza, ‘bora.

Foi dos jogos mais horríveis que já se viu na história do Estádio Magalhães Pinto. Como sabe a Massa, o Galo não joga futebol desde 1999/2000. Na minha tentativa de apimentar um pouco a coisa, Cicinho recebendo a bola na intermediária do Galo se transformava, na minha narração, em escapa Cicinho com perigo pela lateral direita, tem a opção de Guilherme na entrada da área . . . . De quando em quando, eu me virava para o mexicano – que usava uns óculos de fundo de garrafa – e dava uma explicação em espanhol sobre o Campeonato Brasileiro, porque o cabra, como bom hispano, não entendia patavina de português falado.

No princípio eu narrava baixinho, para não incomodar os outros torcedores. Na medida em que as pessoas iam dando-se conta da situação, armavam-se aquelas cenas insólitas que só acontecem nos estádios de futebol. Todo mundo dava palpite:

- Cara, você errou. Quem deu o passe foi o Paulinho!
- Fala pra ele que quem está afundando o time é o Tucho!

No final do primeiro tempo, aquele petit comité formado ali já era uma atração maior que o jogo. Todos discutiam e apresentavam diferentes versões ao Frajola. O mexica só olhava, atrás de seus portentosos óculos. Lá pelos 20 e poucos minutos do segundo tempo sai um gol do Galo, Deus sabe como. Eu me lembro de haver narrado o gol razoavelmente. Uns poucos minutos depois, o Juventude empata e o jogo volta à modorra em que estava: o Galo sem a menor criatividade para furar a retranca do time da serra gaúcha.

No momento em que nos preparávamos para sair, já aos 46 minutos do segundo tempo, aconteceu. O Galo ganhou um escanteio e o mais incrível é que eu vi o lance nascer desde o primeiro minuto. Por alguma razão, eu estava olhando na direção do goleiro Eduardo. De repente ele disparou, como louco: sai correndo Eduardo, atravessa a linha do meio-campo, entra na área adversária, chega o cruzamento, sobe Eduardo, cabeceia e é goooool, gol de goleiro aos 46 do 2º, incrível vitória do Galo ...

Ganhar com gol de cabeça do goleiro no último minuto já é insólito o suficiente, mas a história não termina aí. Na comemoração, Frajola lança os braços ao ar e os óculos de fundo de garrafa do mexica vão para o espaço. Esmigalhados.

Como é de costume meu, estávamos na parte mais cheia do estádio, no meio-campo, logo acima da faixa da gloriosa Dragões da FAO. O Mineirão não estava lotado, mas o público era bom: digamos, umas 25.000 pessoas. Todas enlouquecidas, claro, com uma vitória daquelas.

A minha tarefa era sair daquele fuzuê guiando dois cegos, só um dos quais falava português.

Eu nem me importei, claro, porque a alegria era grande. Agarrei um braço de cada um e fui gritando dá licença, dá licença até o estacionamento. Chegando no estacionamento, pergunto ao mexica:

- Onde você está hospedado? Vou te levar em casa.
- Eu não tenho o endereço aqui, mas é na Avenida do Contorno.
- Onde, na Avenida do Contorno?
- É num lugar que tem uma subida.. . .
- O quê???? Você está hospedado numa das mais longas avenidas de Minas Gerais e só sabe que está “numa subida”? Você sabe que essa avenida se chama Contorno porque ela contorna toda a cidade original?
- Eu acho que eu reconheço o lugar, se você chegar lá . . .
- Reconheceria com óculos, né?

E lá vou eu levar o mexica sem óculos, hospedado em “algum lugar” da Avenida do Contorno. Depois de muito zanzar, perto do bairro da Serra, ouço um “acho que é aqui . .”

Meto o pé no freio, deixo o cabra por lá mesmo, entrego o Frajola em casa e ainda chego ao meu bairro a tempo de comemorar com amigos a vitória do Galo com gol de goleiro no último minuto. Espero que o mexicano tenha achado o caminho de casa e tenha saído com boas memórias da sua estadia no Brasil.



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terça-feira, 04 de abril 2006

Manias

maniacs-800w.gifCrédito

A Christiana Nóvoa passou para o Biajoni, que me passou o meme das cinco manias. Para relaxar um pouco das discussões políticas, aí vão as manias minhas atualmente liberadas para disseminação pública:

1. Jamais fazer uma lista de cinco coisas. É sério. Qualquer outro número vale. Cinco não.

2. Nunca beber o café até o final, mas deixar um restinho suficiente para cobrir o fundo da xícara. Com a comida, a mesma coisa: nunca limpar o prato completamente, mas deixar meia garfada que seja. Essa mania é tão poderosa que venceu até a minha criação católica.

3. Com o cigarro, o contrário: nunca apagar um cigarro que não tenha sido fumado até o toco.

4. Jamais fazer baliza com o cinto de segurança afivelado. Alinhar o carro, soltar o cinto, depois fazer a baliza.

5. Organizar obsessivamente livros e CDs, por assunto e ordem alfabética. Todo o resto – roupas, calçados, documentos – vive numa desordem absoluta. Mas os livros e CDs têm que estar organizados: aqueles entre literatura (poesia e prosa) e livros de não ficção. Primeiro literatura brasileira, depois hispano-americana, anglo-americana, francesa, alemã, russa e depois os outros. Entre os de não ficção, só a ordem alfabética por autor, o que produz hilárias vizinhanças entre um livro sobre a Copa de 1954 e um tratado filosófico. Os CDs, a mesma coisa: música brasileira e não-brasileira. Dentro de cada grupo, ordem alfabética por sobrenome. A coleção brasileira vai de Fernanda Abreu a Tom Zé. A não brasileira vai de Louis Armstrong a ZZ Top (sim, eu tenho um disco de ZZ Top). Obsessivo-compulsivo, vai dizer?

6. Ao ler um livro acadêmico, sempre começar pela bibliografia.

7. Ao chegar numa cidade nova, reservar sempre uma tarde para perder-se . Sem mapa, sem roteiro, sem dicas, sem companhia. É uma mania antiga: sempre achei que é fácil aprender a andar numa cidade. Difícil é aprender a perder-se (um doce para quem souber quem eu estou citando aqui).

8. Ao chegar num estádio de futebol, tentar encontrar um assento exatamente na direção da linha do meio-campo. Só não foi possível quando fomos ao Estádio Nacional do Chile, onde os assentos no meio-campo são de luxo e custam uma fortuna.

Para quem eu passo a batuta? Para quem quiser.

PS: Hoje eu inaguro algo que vou tentar manter diariamente, uma sugestão de blog para fechar cada post. Aqui vai a sugestão do dia: a Bibi, do Bibi’s Box (um dos projetos mais interessantes, inovadores, úteis e inteligentes da internet brasileira) inaugurou há alguns meses, com sua competência habitual, um blog para cinéfilos. Com vocês, o Cinematógrafo. Recomendadíssimo.



  Escrito por Idelber às 22:03 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 10 de janeiro 2006

Brincadeirinha para passar tempo no aeroporto de Miami

Salve, salve, já estamos em gringolândia sem grandes percalços. O que mais fazer num lugar como o aeroporto de Miami senão pagar uma taxa absurda por umas horas de conexão wi-fi e visitar blogs?

A brincadeirinha que se segue foi roubada do meu bróde véio Michael Bérubé. Eu não passo corrente, mas quem quiser roubar ou completar nos comentários, que fique à vontade:

Quatro empregos que você já teve:
1. Office boy.
2. Carimbador de papéis em biblioteca.
3. Professor de inglês.
4. Professor de literatura.

Quatro filmes que você poderia assistir infinitamente:
1. Amacord.
2. Veludo azul.
3. Mulheres à beira de um ataque de nervos.
4. Fogo e paixão.

Quatro lugares em que você morou:
1. Uberaba, Minas Gerais.
2. Belo Horizonte, Minas Gerais.
3. Chapel Hill, Carolina do Norte, EUA.
4. Champaign, Illinois, EUA.

Quatro programas de TV que você adora assistir:
1. Loucos por futebol, ESPN Brasil.
2. The Daily Show.
3. Inside the Actor's Studio (valeu a lembrança, Cynthia)
4. Qualquer coisa que tenha a Soninha na tela.

Quatro lugares em que você já esteve de férias:
1. Buenos Aires.
2. Santiago.
3. Londres.
4. Serra do Cipó.

Quatro blogs que você visita diariamente:
1. Liberal Libertário Libertino
2. Megeras Magérrimas
3. Bibi's Box
4. Smart Shade of Blue

Quatro de suas comidas favoritas
:
1. Tutu à mineira, com lombo e couve.
2. Churrasco gaúcho / platense.
3. Frango curry indiano.
4. Cordeiro picadinho à moda árabe, com falafel e hummous.

Quatro lugares em que você preferiria estar agora (considerando que no momento estou no aeroporto de Miami, a resposta seria bem próxima a "qualquer um exceto Iraque e Afganistão", mas em ordem de preferência):

1. Bahia
2. Nova York
3. Rio
4. Porto Alegre

Quatro discos sem os quais você não pode viver:
1. Velvet Underground and Nico.
2. Africa Brasil, Jorge Ben.
3. Uma coletânea dos sambas de Caymmi, na voz de lui-même.
4. Uma coletânea qualquer de Lupicínio Rodrigues, na voz do próprio.

Quatro carros que você já teve:
1. 1986 Honda Civic.
2. 1985 Mazda não lembro qual modelo, o mais barato.
3. 1995 Escort Hobby 1.0 (o carrinho que ainda me transporta em BH)
4. 2001 Mazda Protegé (primeiro carro decente da vida, que milagrosamente sobreviveu à enchente em New Orleans graças a Alejandra Osorio e Felipe Victoriano).

PS: Às vezes você está num aeroporto, visita um dos seus blogs favoritos, e aí encontra uma coisa que parece escrita especialmente para você.

PS 2: Com atraso infinito, este blog regista o novo endereço do Almirante.



  Escrito por Idelber às 12:34 | link para este post | Comentários (18)



segunda-feira, 09 de janeiro 2006

Troféu tradução mais criativa

Cartaz de uma Lan House na Barra, em Salvador:

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Enquanto isso, o Smart Shade of Blue abre uma cadeia de supermercados que já chegou até São Tomé das Letras:

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  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (15)



sexta-feira, 06 de janeiro 2006

Começando o ano de Oxalá, na Bahia

Vocês conhecem alguém que tenha achado 2005 um ano bom? Eu não conheço, e a resposta, como todas as respostas, estava na Bahia: 2005 foi ano de Omulu, filho de Nanã, orixá que tem relação umbilical com a morte.

Se você sobreviveu a 2005, a boa notícia é que 2006 é ano de Oxalá.

Logo depois da tragédia em New Orleans, eu decidi uma coisa: precisava passar o réveillon na Bahia. Como explicar aquilo ali, eu não sei. Mas a energia renovadora do lugar é qualquer coisa de muito impressionante. Cada vez que vou lá, é como se tivesse nascido de novo.

Não dá para relatar tudo, mas o pôr-do-sol na Barra ainda continua sendo a mesma maravilha, e no Abaté continua existindo uma lagoa escura rodeada de areia branca:

DSC01661.JPG DSC01545.JPG

Das várias alegrias proporcionadas por essa viagem à Bahia, duas muito especiais:

1. comemorar o aniversário da queridíssima Goli Guerreiro, autora de A Trama dos Tambores (se não leu, não deixe de ler).

2. conhecer pessoalmente a primeira leitora deste blog, Cipy Lopes.

No meio da viagem, pergunto ao meu filho filósofo de 9 anos, Alexandre, quais diferenças ele via entre a Bahia e os outros lugares que havia conhecido. A resposta certeira:

- Bom, pai, já são quatro dias aqui e até agora não vi uma cara estressada!

Não mais disse, e não mais lhe foi perguntado.

PS 1: O que anda acontecendo com a Austrália, hein?

PS 2: Feliz Aniversário ao Donizetti, que além de ser um grande amigo blogueiro, tem a chatíssima tarefa de comemorar três títulos de futebol por ano.

PS 3: Rufem os tambores da blogosfera! Ela, a pioneira, está de volta.

PS 4: Nesta segunda-feira eu embarco para New Orleans, ou para o que restou dela. Quem for de reza, que reze. Quem for de Iemanjá, que faça oferendas. Quem for ateu, que ponha um pensamentozinho positivo. Vamos precisar.



  Escrito por Idelber às 21:42 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 27 de dezembro 2005

Até já

Eu vou ali dar uma viajadinha, para o mar, como bom mineiro. Já volto. A próxima atualização deste blog deve ser lá pelo dia 04 de janeiro.

Obrigado a quem passou por aqui neste ano. Que todos tenham um ótimo réveillon.



  Escrito por Idelber às 07:34 | link para este post | Comentários (28)



segunda-feira, 05 de dezembro 2005

Rumo a Juiz de Fora

O blog bateu o record de dias sem atualização e pode ser que o bata de novo em dezembro. Tendo que produzir academicamente num ritmo e quantidade não conhecidas há uns dois anos, meio enferrujado pelas férias e sabático e ainda por cima longe da minha biblioteca, não me tem sobrado tempo para escrever aqui. Aos que chegam agora, sugiro visitas aos arquivos sobre política, futebol, música, literatura e New Orleans.

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Palestra em Juiz de Fora:

Se você está nas redondezas de Juiz de Fora, está convidado a uma palestra minha sobre o "Multiculturalismo na América do Norte", nesta quarta-feira, dia 7, às 14h, no anfiteatro do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Quem me convida, gentilmente, é o Programa de Pós-Graduação em Letras da UFJF. Meu muito obrigado de antemão à Prof. Maria Clara Castellões de Oliveira e ao Prof. e amigo querido Evando Nascimento.

Por "multiculturalismo" entende-se uma série de práticas e discursos relacionados à "inclusão da diversidade racial e étnica" em várias instituições (educacionais, culturais, etc.) norte-americanas, entre os anos 60 e o presente. Essas práticas de inclusão tiveram seus grandes méritos e seus limites também. A idéia é desentranhar alguns deles com os amigos de Juiz de Fora.

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Se você se interessa pelos debates que ocorrem nos EUA sobre ensino de ciência nas escolas, vale a pena conferir a discussão com um dos defensores do furadíssimo "Intelligent Design" (disfarce pseudo-científico do criacionismo) no blog de Michael Bérube, aqui e depois aqui. Um blog que faz uma periódica desmontagem da falácia do "Intelligent Design" é o Pharyngula.

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Caso alguém aí não tenha visto ainda: dois dos discos brasileiros mais importantes das últimas décadas foram reeditados.

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Saudemos a recuperação do amigo blogueiro Bruno Viking Freitas, que acaba de ser operado para a remoção de um tumor. Foi um susto danado, mas parece que deu tudo bem! Our thoughts are with you, bro.

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Um aforismo sobre o Brasil de 2005:

A falta de graça que pairou sobre a comemoração do título corinthiano tem algo a ver com a falta de graça que pairou sobre a comemoração tucano-pefelê da cassação de José Dirceu. O ligeiro embaraço com que se fizeram ambas celebrações diz algo sobre o que foi 2005 no Brasil.



  Escrito por Idelber às 21:30 | link para este post | Comentários (14)



sexta-feira, 18 de novembro 2005

Memórias de Livros: Candide, de Voltaire

voltaire.jpg

A lembrança da leitura dos livros está em mim mais ligada à memória afetiva, do seu impacto, do que propriamente a datas, lugares ou circunstâncias de leitura. Candide, de Voltaire, certamente foi lido em edição da Abril, coleção Imortais da Literatura Universal, quando eu tinha talvez 10, 11, 12, não mais que 13 anos.

Candide inaugura o que os franceses chamam de récit philosophique, relato ficcional em forma de parábola, onde os personagens dramatizam o baile das idéias, ou sua luta. Historinha que vai, na França, de Voltaire a Sartre. Eu me lembro de uma rápida ficha que fiz num caderno – que eu talvez ainda exista em New Orleans – onde, no delírio de leitor iniciante, eu proclamava Voltaire “o maior filósofo de todos os tempos”, com o qual eu só queria dizer que ele era o principal ali, para mim, naquele momento. Como formulação de sistema de pensamento inovador ou chave para o que vem depois, Voltaire é um filósofo de segundo escalão, certamente não da estatura de Platão, Spinoza, Kant ou Hegel. Mas o cabra teve um impacto gigantesco sobre a história do mundo, ao ser determinante para a derrota de uma Igreja ainda medieval em mãos do iluminismo modernizante do século XVIII, no debate central da Europa daquele século. Nesse embate tanto Candide como a participação de Voltaire na discussão com a Igreja sobre o terremoto de Lisboa de 1755 foram fundamentais.

Candide fez o que poucos livros fizeram, criar um adjetivo: panglossiano, derivado do Dr. Pangloss, professor de Cândido e caricatura voltariana do otimista conformista pretensamente científico, mas na verdade idiota, que está sempre disposto a justificar o estado atual das coisas dando a historinha do que seria o mundo se aquela coisa não existisse, ou traçando a historinha do que levou o estado de coisas a ser o que é para justificar sua necessidade com base nessa história. Enfim, é um pretensioso que se alia aos poderosos para confundir o que é com o que pode ou deve ser, mas ao mesmo tempo figura muito bem construída como personagem, de forma a espelhar e parodiar os argumentos embolorados, conservadores, religiosos da época. A sífilis de um mendigo é necessária, por exemplo, porque remete, leva de volta à chegada dos europeus na América, e sem a propagação da sífilis não teria havido a propagação de coisas boas como o chocolate. E por aí vai. Pangloss é professor de “metafísico-teólogo-cosmo-nigologia” e inventor da expressão “melhor dos mundos possíveis”, que migrou para incontáveis línguas. Qualquer semelhança dele com fiofólogos de hoje não é mera coicidência. É, na verdade, o personagem principal do livro: a narrativa leva o nome não do personagem que fala, mas do personagem que escuta.

Nunca mais li Voltaire depois dos 13 ou 14 anos. Como havia lido tudo o que se publicou no grosso volume Contos da coleção da Abril (incluindo Candide, Zadig e umas duas dezenas de récits philosophiques) e peregrinado à biblioteca do SESC, na Rua Tupinambás, no centrão de Belo Horizonte, para pegar emprestado e ler quase tudo o que havia lá de Voltaire, inclusive as obras principais (Cartas sobre os ingleses, o maravilhoso Dicionário Filosófico, o Tratado sobre a Tolerância) eu “saldei as contas” com ele e nunca voltei. Depois, aos 16 ou 17, ainda comprei o volume d’ Os Pensadores, que traz 4 obras, se me lembro bem, incluindo uma boa seleção do Dicionário e o texto completo das Cartas. Mas nunca mais voltei a lê-lo e acho que só usei esse volume para catar uma e outra citação, folhear, sapear algumas frases e ler a biografia-introdução.

Mas eu tenho uma dívida infinita com Candide, que apesar de ser meio formulaico é saboroso na sua caricatura. E a caricatura não está longe da lógica de muitos discursos que vemos por aí hoje em dia. Engatinhando nas primeiras leituras de infância / pré-adolescência, eu superestimei o valor literário e a importância filosófica do texto, mas é verdade que a parábola ainda não perdeu sua força.

PS: perdi uns emails enviados à conta aqui do blog. Se você me escreveu àquela conta, reenvie por favor para iavelar arroba tulane ponto edu. É o email que anda funcionando no momento. O daqui do blog está meio gripado.



  Escrito por Idelber às 03:26 | link para este post | Comentários (19)



quinta-feira, 17 de novembro 2005

Post colcha de retalhos

Para desenferrujar o blog:

verbeat.gifA Verbeat, simpatiquíssima comunidade blogueira gaúcha com ramificações em todo o planeta, está promovendo uma pesquisa sobre o leitorado dos blogs. Vá lá e participe. Eu estou indo.

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Por falar em Porto Alegre, parece que sucesso total no lançamento do livro do Blog de Papel. banner_bdp.gif

Relatos sobre o evento no Milton Ribeiro e nos blogs dos outros autores. Li, gostei, escrevi o prefácio magérrimo e recomendo. Encomendas lá na editora.

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Nesta quarta, voltando do sul de Minas para BH, ouvi umas 30 canções do Depeche Mode. Quem gosta do Depeche Mode na blogosfera é a Bibi e a Renata. Eu estou aprendendo a gostar. Mais detalhes aqui (via Bibi).

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Este blog não é fã de Chávez, mas Fox sendo chamado de "cachorrinho do império" é tudo de bom. A coisa ficou muito feia entre México e Venezuela.

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Com o perdão de Roman, Afonso, Tiagón e Ticcia maravilhosa, o Biscoito é Colorado na reta final do Brasileirão, que ficou interessantíssima depois dos resultados desta quarta-feira. inter2.jpg Eu até já gostei do Corinthians (em São Paulo minhas simpatias são ponte-pretanas, sorry Inagaki), mas desde que armaram aquele time de bandidos em 98/99 não dá para torcer pelos caras. Depois da parceria iraniana, então, nem se fala. Dá-lhe Inter.

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Alguém anda sentindo falta de posts sobre as CPIs (digam que não, por favor)?

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Têm filhos que lêem inglês? Não perca a Children's Digital Library.

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O Biscoito informa: o sul de Minas continua lindo, São Tomé das Letras continua cheio de hippies que vêem discos voadores, e a estátua do Rei Pelé continua firme e forte no centro de Três Corações. Próxima viagem: em dezembro, Juiz de Fora, a convite dessa bela universidade.

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Para os leitores mineiros: neste domingo, às 17:30, enquanto o Inter decide com o Corinthians a sorte do campeonato brasileiro, a Rede Minas de TV exibe uma entrevista comigo sobre rock e literatura. Reexibição na quinta-feira às 10 da noite.



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quarta-feira, 16 de novembro 2005

Prova definitiva

Está provado: Fábio Sampaio é Deus.



  Escrito por Idelber às 14:06 | link para este post | Comentários (5)



sábado, 29 de outubro 2005

Gracias, Chile

Pegando o avião de volta para o Brasil, eu não poderia deixar de fazer este post:

Obrigado, Chile
, por essa hospitalidade maravilhosa.

Obrigado, mestre Pablo Oyarzún - o maior filósofo latino-americano - pelo convite. Obrigado, Willy Thayer, por tanta generosidade. Obrigado, Elizabeth Collingwood. Claudio, pela ida memorável ao Estádio Nacional. César. Roxana. Sérgio Parra. Nelly Richard. Seria uma lista infinita, a dos amigos queridos.

Obrigado, Universidade do Chile. Obrigado aos fantásticos alunos que fizeram do seminário sobre a violência uma experiência memorável.

Fotinhas, todas tiradas por ela, com exceção da última:

chile-1.jpg chile-2.jpg
esq: Biblioteca de Willy Thayer
dir: Estádio Nacional, Chile x Equador


chile-8.jpg chie-8.jpg
esq: Viña del Mar
dir: Valparaíso

chile-7.jpg chile-6.jpg
esq: Túmulo de Pablo Neruda e Matilde Urrutia em Isla Negra.
dir: Coleção de garrafas de Pablo Neruda.

chile-3.jpg chile-10.jpg
esq: Na varanda do apartamento onde a Universidade nos hospedou
dir: Casa de Neruda em Santiago

Compañero presidente: tu memoria vive. chile-13.jpg

Daqui a uns dias a gente volta a transmitir da capital das Alterosas.



  Escrito por Idelber às 01:00 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 22 de outubro 2005

Um sábio ditado gringo

beer.jpg wine.jpg

Eis aqui um sábio dito popular do sul dos Estados Unidos, cuja veracidade pude comprovar mais uma vez esta noite:

Wine on beer, never fear
Beer on wine don't combine.

Será que algum dos eruditíssimos leitores deste blog arriscaria uma tradução ao pindorâmico que mantivesse as rimas?



  Escrito por Idelber às 03:19 | link para este post | Comentários (35)



quarta-feira, 19 de outubro 2005

Blogueira convidada: Ana Maria Gonçalves

(carta dela, que fez um lindo blog sobre o Chile, aos meus filhos)

Santiago do Chile, 12 de outubro de 2005

Queridos Alexandre e Laura,

Hoje é dia das crianças aí no Brasil, e seu pai falou muito em vocês. Ele fala todos os dias, várias vezes ao dia, e tenho a certeza de que isso não significa nem uma mínima parte da quantidade de pensamentos nos quais vocês reinam absolutos. Será que vocês conseguem sentir isso? Acredito que sim, pois, ao contarem para ele como foi o dia de vocês, comentam apenas aquelas coisas das quais ele não participaria mesmo estando presente, como o dia na escola, os passeios com a mãe e os primos, os pensamentos mais secretos. Em tudo o mais, como quando vão dormir, comer, conversar, não comentam, pois estiveram juntos. Ou comentam apenas com aquele tom de observação de quem quer dividir o mesmo pensamento.

Queria contar para vocês das frutas chilenas, talvez por achar que algumas frutas são assim como as crianças. Principalmente as verdes, mas apenas as que são doces desde o início. Mas antes, queria que lessem um trechinho de um livro que compramos ontem, El viejo e el niño, de Efraim Barquero:

“Los dos se detienem casi al mismo tiempo, al descubrir la fruta em los árboles, uno con la dulzura de la edad y el outro con la premura de los años.
Y las frutas maduran.
El viejo toma una, la huele largamente y se la da l niño, quien se la come con gusto y se mira las manos que huelen a fruta acabada.
Hay que verlos en esta ocupación de recolectores.
- Están buenas como em otros años, dice el anciano, poniendo-se algo triste, del color de las frutas recordadas.
El chico mira y no sabe qué decir, porque sus ojos y su boca tienem siempre la edad de todas las frutas.
El anciano le indica que ésta es más dulce, que ésta tiene más sol y ésa otra más luna, pero non las prueba.
Las muestra solamente com el dedo como si tuvieram nombres de personas desconocidas para su pequeno amigo.”

Pronto, é isso. Já pensaram se, como diz o velho, as frutas tivessem mesmo nome de pessoas? Pois, em línguas que não conhecemos, podemos até mesmo brincar disso. Há pessoas que se parecem com frutas, já perceberam? Algumas são doces, outras são azedas; outras já são bonitas desde a casca, outras apenas quando vemos o interior; algumas são mais comuns, mais extrovertidas, outras se escondem para aparecerem apenas em determinadas épocas do ano. Algumas são raras, outras iguais a todo mundo. E por aí vai, crianças, pois tudo na vida é dado a comparações. Há muitas frutas diferentes no Chile, e estou mandando fotos de algumas. Bem, esta foto aí acima é de um limão, quase igual a que temos por aí, mas apenas para mostrar como são mais compridos e bicudos.

Esta outra foto é de mexerica, ou tangerina, como quiserem chamá-la. Está cortada feito uma laranja por que achei que combinava cortá-la como uma laranja, por causa desta casca que tem uma cor laranja magnífica. Está bem, confesso que também fiz isso porque não gosto muito de descascar com as mãos, fica aquele cheiro de sumo que mesmo depois de muitas horas todo mundo sabe que você chupou mexerica.

E já que estamos falando de frutas conhecidas, eis aqui o papaia chileno. Aquele mamão que aí conhecemos apenas como papaia, aqui ganhou um sobrenome e se chama papaia tropical. Apenas papaia é um pequenino, que fiz questão de fotografar junto com a minha mão para que vocês tenham idéia do tamanho. Tudo nele é diferente, a começar pela casca, muito mais fina, mas é muito mais diferente no gosto, é azedinho. A textura do miolo é de uma goiaba bem madura, mas o gosto de aproxima de uma maracujá, ou de um cajá, não sei bem. Vocês conhecem cajá? Também não sei como se comem aqui, mas eu como de colherinha, e aos montes, pois adoro fruta um pouco azeda. Então, misturando os nomes com os gostos, será que poderíamos chamar essa fruta de paracajá? Ou será que vocês têm nome melhor? Vão pensando aí porque depois vou querer saber.

Esta outra foto é de um fruta da qual não me lembro o nome. Por fora lembra um pequeno abacate, que aqui se chama palta e é usado em todos os sanduíches (seu pai não gosta, e sempre pede os sanduíches sem palta). Aliás, sabiam que aqui o abacate não é considerado fruta? Mas voltando às nossa fruta-da-qual-esqueci-o-nome, ela tem uma cor bonita, mas o gosto é um pouco estranho. É uma fruta pesada, não tem jeito de fruta, tem muita “massa” (nada a ver com macarrão, certo?). Até voltarmos, vou tentar descobrir o nome dela para contar para vocês.

Essa aí da foto é minha fruta preferida, por enquanto, pois tenho experimentado todas que vejo pela frente. O nome dela é “tuna”, bem estranho para algo que vive fora d'água, mas gostosa demais! Tem a aparência de um kiwi, mas a casca é fina e lisinha, e a textura novamente se assemelha a uma goiaba, não muito madura, talvez por causa das sementes. O gosto também não sei explicar muito bem, mas é docinho, e me lembra fruta fresca, como a melancia ou novamente aquelas frutas típicas do nordeste, das suculentas.

Por fim, a fruta preferida do seu pai, a chirimoya. Acho que é a versão chilena da nossa “fruta-do-conde”, um pouco mais durinha e um pouco menos doce. E é com ela que me despeço, com o seu pai aqui ao lado mandando um grande beijo que vai se juntar ao meu.

Com muito carinho, da amiga,
Ana

Atualização: esta caixa de comentários esteve com o link quebrado durante algumas horas. Já consertada.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 15 de outubro 2005

¿con palta o sin palta? Contribuição do Biscoito à diminuição do choque cultural dos brasileiros que venham comer sanduíches em Santiago do Chile

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Você é um paulista que se horroriza com um baiano colocando dendê na pizza? Ou um brasileiro que já teve ânsias de vômitos ao ver um norte-americano banhando a batata frita no catchup? Ou um argentino que se impacienta ante a heresia dos que preparam bifes na frigideira?

O grande choque cultural-gastronômico no Chile é: os sanduíches em geral vêm com abacate! Em fatias ou, mais comum, batido, como um guacamole.

Chegando aqui pela primeira vez, há onze anos atrás, eu escutei atônito a pergunta que se seguiu ao meu pedido de um sanduíche: ¿con palta o sin palta? (aqui no Chile não se usa a palavra espanhola mais universal, aguacate). Pensei comigo: que raio de pergunta é essa? Abacate no sanduíche?

Eu sou mineiro: abacate para mim é coisa que a gente corta, tira o caroço, joga açúcar dentro e come como sobremesa. Eu me lembro que ver abacate dentro dos sanduíches aqui no Chile me provocava uma gastura semelhante à de ver os gringos comerem batata frita com catchup.

Mas aí com o tempo fui me acostumando, da mesma forma como até brinco de catchup com meus filhos no McDonalds. Hoje eu como meus sanduíches chilenos con palta.

Pois então, quando vier ao Chile, decida se quer passar por essa barreira cultural-gastronônica. Se não quiser, terá que pedir seu sanduíche sin palta.

Quem tiver outras histórias sobre essas curiosíssimas diferenças no trato com a comida, registre-as aqui.

PS: Maravilhas da internet: O blog do Alex Castro, um apaixonado pelo capitalismo, tem mais leitores socialistas do que eu.



  Escrito por Idelber às 05:18 | link para este post | Comentários (43)



sexta-feira, 07 de outubro 2005

Rapidinhas de Santiago

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Este é o palácio presidencial chileno, La Moneda, bombardeado no dia 11 de setembro de 1973. Está em cartaz um documentário de Patricio Guzmán intitulado "Salvador Allende". Imperdível. Guzmán é autor de um dos documentários mais importantes da história do cinema latino-americano, La Batalla de Chile, um longo experimento de narração da vida chilena entre 1970 e 1973. Há uma cena antológica - já no período de recrudescimento da violência golpista - em que Guzmán filma um cinegrafista filmando sua própria morte. Mais cinéma-vérité que isso, impossível. Para quem não viu ainda: é um clássico, vale a pena. Nos próximos posts mando notícias do novo filme de Guzmán, desta vez enfocado só na figura de Allende.

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Santiago tem quase o dobro de habitantes de Belo Horizonte, mas é com a capital das Alterosas que ela mais se parece. Seria meio exagerado comparar a Cordilheira dos Andes com a Serra do Curral, mas tanto Santiago como BH são cidades impossíveis com um rio no meio. Na diferença entre cidades-vitrine e cidades-véu, Santiago e BH pertencem, sem dúvida, a esta última categoria. O Mapocho, rio que atravessa a capital chilena, também foi morada de muitos cadáveres durante o regime militar.

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Pela primeira vez em anos de visitas ao Chile, não estou no centrão, e sim numa zona ultra-burguesa chamada Vitacura, no extremo oriente da cidade. Dá um pouquinho de trabalho sair daqui, mas o apartamento é lindo. Como no Rio de Janeiro, em Santiago também as coisas funcionam com aqueles pilotinhos de gás que tanto pânico provocam em nós, mineiros.

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Pedir informação em Santiago é uma delícia. Às vezes eu sei onde fica a coisa, mas pergunto só para ouvir a maravilha: Usted siga por allí, por allá, hacia la cordillera, hacia la cordillera, y ¡ya está! ¿cachai? Ou então a única variação possível: Usted siga por allí, por allá, hacia el mar, hacia el mar y ¡ya está! ¿cachai?. Aqui só existem dois pontos cardeais, sul e norte, claro. O resto é mar e cordilheira. As noções de ´primeira à direita´ ou `segunda à esquerda` não existem. O mais divertido é que às vezes, estando-se no centro de Santiago, não se vê nem cordilheira nem muito menos mar. Mas o sentido inato de estão essas duas coisas define o chileno, por oposição ao estrangeiro.

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Às vezes, aqui, pensam que sou argentino, por causa do espanhol fluente com sotaque platense (o ll, por exemplo, eu pronuncio da maneira portenha, quase como um x). Entre pessoas que acabo de conhecer na rua, o tratamento melhora sensivelmente quando digo que sou brasileiro. É incrível isso, né?

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O Chile ultrapassou a Austrália como terceiro país que mais manda leitores a estas plagas. Vários amigos meus estão desvirginando-se em matéria bloguística. Aos que chegam: en la caja de comentarios se puede escribir en cualquier lengua, ¿cachai?

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A propósito do que eu escrevia outro dia sobre acadêmicos e blogs, há este texto fantástico que o Smart encontrou.

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Ainda sem internet no AP: ou eu blogo, respondo emails e escrevo as benditas cartas de recomendação, ou eu leio notícias de Pindorama. Alguma alma caridosa me avise das notícias das quais vale a pena saber, se é que elas ainda existem.



  Escrito por Idelber às 14:32 | link para este post | Comentários (21)



quarta-feira, 05 de outubro 2005

Notícias do Chile

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* Sobrevoar a Cordilheira dos Andes continua sendo, para mim, a coisa mais impactante que se pode experimentar dentro de um avião: nada me provoca a sensação de você-é-só-um-ser-humano-pequenininho como esse raio dessa cordilheira. Se alguma vez vier ao Chile, venha durante o dia.

* Depois de alguns meses trabalhando só nas minhas pesquisas, estou de volta à sala de aula. Sensação muito boa: como meu primeiro livro circulou razoavelmente por aqui, sempre que chego há um grupo de interlocutores mais ou menos prontos para o papo. Desta vez, na Universidade do Chile, não tem sido diferente.

*No Chile, a poesia representa mais ou menos o que representa a música popular no Brasil: é o nome do ser chileno. São dois Prêmios Nobel, milhares e milhares de praticantes em tudo quanto é canto, constantes recitais em bares ou mesmo na rua, uma efervecência permanente de escolas e movimentos poéticos. Para conhecer melhor a poesia chilena, veja essas belas páginas com a obra de: Gabriela Mistral, Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Nicanor Parra e Gonzalo Rojas, talvez os cinco maiores do século passado.

* O Chile se prepara para eleger a sua primeira mulher presidente: Michelle Bachelet (obrigado pelo link, Marcos), do Partido Socialista, também apoiada pela Democracia Cristã, é favoritíssima nas eleições presidenciais do próximo dia 11 de dezembro. Bachelet foi ministra da defesa do atual presidente Ricardo Lagos (que também é do PS) e é filha de um ex-ministro de Salvador Allende. Ela foi, junto com a mãe, vítima de torturas na época de Pinochet. A direita chilena anda bem desmoralizada, e seu candidato (Joaquín Lavín, uma espécie de Bolsonaro-que-baba-sangue), deve ficar bem abaixo do patamar histórico de votos da direita chilena. Apesar do ineditismo de uma mulher socialista presidente, o que se sente (pelo menos no grupo de pessoas com o qual convivo, que não é nenhum microcosmo da sociedade chilena, obviamente) é uma certa resignação, sem nenhum entusiasmo. Coisa do tipo: "vou votar nela, mas achando que dá tudo na mesma e que ela é só mais uma administradora do modelo neoliberal". Mais um exemplo do cansaço infinito com a política que parece tomar o planeta inteiro.

* O que mais está me chamando a atenção desta vez é como anda caro este raio de país. Desde que me entendo por gente o dólar vale 640 pesos chilenos. Agora anda valendo 505. Uma dose de Johnny Walker Red no bar custa 4.000 pesos, ou seja, 8 dólares (em algum lugar do Brasil paga-se 20 reais por uma dose de uísque? Nem no Morumbi ou no Leblon, né?). Uma corrida rápida de táxi do bairro ao centro custa 10 dólares. E por aí vai.

* A última vez que estive no Chile me reuni para ver uma partida de futebol entre Chile e Argentina com ex-alunos meus aqui do Instituto Pedagógico. A Argentina saiu ganhando de 2 x 0 no primeiro tempo, e parecia que engatilhava uma goleada. Contra todos, eu previ que la Roja empataria no segundo tempo. Riram da minha cara, mas não deu outra. Em pleno Monumental de Nuñez, o meio-campista Pizarro entrou no jogo, comeu a bola e o Chile arrancou um heróico 2 x 2. Neste sábado o Chile joga a suas últimas chances de classificação à Copa da Alemanha contra a Colômbia em Barranquilla. Precisa de pelo menos um empate para decidir a fatura em casa contra o Equador e alcançar a repescagem. Já me convocaram para trazer o pé quente. Torçam com a gente aí. Os chilenos merecem.

* Neste mês de outubro eu encaro dois cursos, três conferências acadêmicas formais e não sei quantas palestras informais. É possível que eu reduza um pouco a frequência de postagem no blog, e certamente ficarei meio desatualizado de notícias do Brasil, porque ainda estou sem internet em casa. Se acontecer alguma daquelas coisas sensacionais, tipo a cassação do Zé Dirceu, vocês passem aqui e me avisem, ok?

* O Galo perdeu do Paraná no Mineirão e desperdiçou dois pênaltis? Esse time está de brincadeira?



  Escrito por Idelber às 17:54 | link para este post | Comentários (18)



quarta-feira, 14 de setembro 2005

Os posts que eu ia fazer

Bom, para ir vagarosamente voltando à vaca fria, eu pensei em fazer um post sobre o estranho fato de que o PT é hoje o grande aliado de Severino na sua luta contra a cassação.

Aí pensei em fazer um post sobre a curiosa decisão do Campo Majoritário do PT, de apresentar ao Processo de Eleição Direta (PED) do partido, no próximo dia 18, uma chapa em que 5 membros são parlamentares envolvidos com o recebimento de recursos de Marcos Valério.

Aí pensei em tirar um sarro com essa incrível piada, o blog dos amigos do Zé Dirceu.

Aí falei, porque não deixar disso e fazer um post sobre o centenário do grande sambista Ismael Silva, que anda passando em brancas nuvens?

Aí pensei em recomendar dois novos e lindos blogs, o Garatujas e Garapas e o Quase Dois Irmãos (ambos via Falzoca).

Mas aí vi que eu realmente ando sem forças, e que essa tragédia de New Orleans abalou muito minha capacidade de escrever sobre outras coisas.

Então, paciência, môs fios, que com o tempo voltaremos à programação normal de futebol, literatura, política e música.

Por enquanto a coisa ainda anda difícil.



  Escrito por Idelber às 08:28 | link para este post | Comentários (40)



sexta-feira, 26 de agosto 2005

Desde Buenos Aires - Revelación de mi identidad

Queridos lectores:

Se acabó la broma. En el comentario 44 del post anterior, el lector Bear dio con mi verdadera identidad. Sí, soy un argentino que los ha engañado durante ocho meses haciéndose pasar por brasileño. Soy parte de una vasta conspiración de argentinos desparramados por el mundo - nuestro objetivo final es invadir Brasil y transformar esa tierra pindorámica en una república de verdad, sin mensalones.

El nuevo país se llamará República del Plata Pindorámico, y después que tomemos todo el territorio brasileño, nuestras primeras medidas serán:

1. José Dirceu será exiliado a Santiago del Estero.
2- Galvão Bueno será enviado al paredón.
3 - Bloggeros estalinistas de Sergipe no recibirán ciudadanía en la nueva república.
4 - Daniel Link será el ministro de la cultura.
5 - Santiago Llach será el ministro de los deportes (peor que Agnelo Queiroz no puede ser).
6 - El Rio Grande do Sul cambiará su nombre a Río Grande del Centro.
7- El Atlético Mineiro y el Boca Juniors se fusionarán en un solo club, y tendrán la más grande hinchada de América, sobrepasando fácilmente a un cierto equipo miserable.
8- Ya no se disputarán mundiales de fútbol, por absoluta falta de necesidad.
9 - El PT y el Partido Justicialista (Peronista) se fusionarán y consolidarán la democracia más perfecta del planeta, más perfecta que la de Cuba.
10 - Todos los bifes tendrán que tener por lo menos cinco centímentros de altura y medio metro de longitud. ¿Quién les dijo que tamaño no importa?

Después de todo esto, consolidada la nueva República, invadiremos América del Norte, para traer la civilización a las 270 milliones de personas que padecen por allá una horrible dictadura.

Aunque el castellano será la lengua oficial de la nueva República, los ciudadanos que insistan en ser monolíngues en portugués no serán discriminados.

Lamento haberlos engañado durante todo este tiempo, pero era estrictamente necesario para que se cumpliera la misión. Los argentinos somos talentosísimos para fingirnos de otra cosas, y no duden que entre los 170 milliones de ciudadanos presumiblemente brasileños hay varios otros argentinos como yo, disfrazados, realizando esta importante tarea.

Mañana: noticias de La Bombonera. Por ahora, aceptamos sugerencias sobre cómo deberá ser la bandera, la cultura, la música, las costumbres, la organización política y todo lo demás en la nueva nación, que se extenderá desde la Patagonia hasta la Amazonia.

Los saluda, desde la capital de la nueva República, Buenos Aires.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (39)



quarta-feira, 24 de agosto 2005

Esses estranhos seres vegetarianos, ou porque eu amo a Argentina

Essa foi minha primeira conversa aqui em Buenos Aires. Eu juro que não estou inventando. Alguma licença poética sim, mas tudo o que se segue é verdadeiro.

01 da manhã de terça-feira. O avião da TAM aterriza no meu conhecidíssimo aeroporto de Ezeiza, depois de um vôo muito turbulento, em que pela primeira vez na vida tive medo de que um avião caísse (desde terça há um dilúvio em Buenos Aires). Macaco velho, passo direto pelos táxis das grandes companhias e vou direto à entrada do aeroporto, onde algumas furrecas velhas de particulares se oferecem para levá-lo ao centro por 40 pesos (um táxi de empresa cobra até 70). Entro no carro. O taxista engata primeira, segunda, terceira, e eu puxo assunto. Segue-se o diálogo.

Eu: como vai o país, amigo? Faz quatro anos que não venho.
Taxista: A mesma merda. Isso aqui não muda nunca.
Eu: Como não muda? Eu vim em 2001 e o país estava desmoronando!
Taxista: Desmoronar é nosso estado natural.

(gargalhada do blogueiro; primeiro reencontro com o humor argentino; lembrança, num flash, de todas as razões que me fazem amar a Argentina)

Eu: A última vez que vim foi um pouco complicado, porque trouxe uma amiga gringa que era vegetariana.
Taxista: Vegetarianos são os que torcem para o Gimnasia Esgrima de Jujuy ou aqueles caras dessa nova seita que aparece na televisão?

(outra gargalhada do blogueiro; a palavra "vegetariano" soa tão insólita na Argentina que por um momento hesito: será que ele fala sério? será que ele realmente não sabe? opto por continuar com a brincadeira)

Eu: Vegetarianos são membros de uma nova e estranha seita que não come carne.
Taxista: Como? Os caras só ficam comendo frango?
Eu: Não. Nem frango eles comem. Nem peixe. Existem alguns mais radicais, chamados "vegans", que não comem nada derivado de animal. Ou seja, não comem queijo, nem ovos, nem tomam leite.
Taxista: Uai, então comem o quê? (sempre que eu disser uai neste post, entenda-se que o original foi tchê)
Eu: Comem pão, legumes, verduras.
Taxista: E depois?
Eu: Depois de quê?
Taxista: Depois da entrada, uai?
Eu: Digamos que para eles a entrada é a comida toda.
Taxista: Bem que eu falei com o padreco lá de Jujuy, a igreja fica com essas viadagens e agora estão só perdendo fiéis para seitas estranhas. Aqui na Argentina a sua amiga comeu o quê?
Eu: Comia pizza de brócolis.

(gargalhada do taxista)

Taxista: O sr. é um argentino muito gozador.
Eu: Eu não sou argentino.
Taxista: Como não é argentino?
Eu: Eu sou brasileiro.
Taxista: Sei, o sr. é um brasileiro de Corrientes e Callao (duas ruas do centro de Bs. As.)
Eu: Não, meu amigo, eu sou brasileiro mesmo. Eu falo assim porque leciono literatura argentina, venho muito aqui, aprendi direitinho.
Taxista: Bem que me avisaram em Jujuy. Esses portenhos são todos loucos. Adoram fingir que são outra coisa.

(gargalhada do blogueiro, que hesita: o taxista está de gozação? Tiro meu passaporte brasileiro? Deixo prá lá)

Taxista: Existem vegetarianos no Brasil?
Eu: São uma seita ainda sem muita aceitação. Mas existem.
Taxista: E no Brasil existe pizza de brócolis?
Eu: Eu nunca vi. Mas existe pizza de tomate, de azeitona. Há outras coisas que os vegetarianos podem comer.
Taxista: E o que vocês comem para bater aquelas faltas de curva por cima da barreira?

(gargalhada do blogueiro)

Eu: A gente come pão de queijo.
Taxista: E o que é pão de queijo?
Eu: É uma espécie de medialuna com mais fermento, outro tipo de farinha e mais tempo no forno.
Taxista: O Brasil é um país muito estranho.
Eu: Bota estranho nisso, meu amigo.
Taxista: E eu só digo isso porque sei que o sr. é um portenho que está tirando onda com a minha cara.

(chego ao Hotel Hispano, na legendária Avenida de Mayo, gargalhando).

PS: Nesta noite de quarta-feira, estarei em La Bombonera assistindo o tira-teima da Recopa Sul-americana entre Boca Juniors e Once Caldas, da Colômbia. Se eu não aparecer aqui no blog até sexta-feira, por favor mandem notícias ao Itamaraty, porque eu vou com a camisa do Galo.



  Escrito por Idelber às 01:27 | link para este post | Comentários (51)



segunda-feira, 22 de agosto 2005

Crônica: Mineiro no Rio

Qual é a última coisa que vai querer fazer um blogueiro mineiro no Rio? Blogar, é lógico.

Eu, que venho insistindo que a escrita dos blogs arma uma relação única com a experiência - distinta da que encontramos na literatura em livro, no jornalismo em papel ou na telinha, na produção acadêmica em artigos - acabei largando o blog por cinco dias pela primeira vez desde sua inauguração, por puro . . . acúmulo de experiências que não podiam ser interrompidas para dar lugar ao seu relato.

Mineiro quando vem ao Rio é um caso sério. Acha que o mar que vai se acabar. Eu já disse isso aqui: para mim, entender o Brasil passa, necessariamente, por entender dois fluxos migratórios, o do nordestino que vai para São Paulo e o do mineiro que vem ao Rio.

Tomemos o caso da crônica, esse gênero essencialmente carioca: depois de duas gerações de fundadores - Machado de Assis e depois Lima Barreto, João do Rio e outros - ela se constrói com mineiros exilados no Rio: Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Drummond e vários outros (Rubem Braga é a exceção capixaba que confirma a regra).

A história da música popular brasileira é impensável sem a mineirada que se radica no Rio: Ary Barroso, Ataulfo Alves, Clara Nunes, Mílton Nascimento, João Bosco e uma longa lista de etcéteras (sim, sim, Mílton nasceu no Rio, mas é mineiro, né?).

O Rio é o lugar onde os mineiros se sentem mais mineiros. Da mesma forma como a psicanálise insiste que entender-se é acertar as contas com a falta que lhe constitui, é no Rio que o mineiro entende, de verdade, a falta de mar que é a nossa essência.

Tudo isso para dizer que ainda nem dá para relatar a intensidade dos momentos vividos aqui, como eu gostaria, porque este blog afinal de contas está ficando cada vez mais confessional: cansaço infinito da política, cansaço infinito de ver meu time na lanterna do Brasileirão.

Num mesmo fim de semana - todo iluminado pela presença dela -, ter a honra de ser recebido na legendária Escola de Música da UFRJ (ainda hoje chamada por aqui de Escola Nacional de Música), onde os habituais Beethovens e Paganinis deram lugar, por um dia, a Chico Science (na minha palestra) e fandangos paranaenses (na fala do Dr. Edmundo Pereira); conhecer meus ídolos Cora Rónai e Luiz Gravatá (e visitar a legendária cobertura do Capitão Gravatá no Leblon, por onde já passou a nata da nata da cultura brasileira, devidamente registrada numa infindável parede de fotografias); coroar tudo com um belo encontro de blogueiros, onde velhos e novos amigos se reuniram para mais uma rodada de chopp. Foi um barato estar com o Marcos VP, a Lontra, a Viva e a Yvonne, o Henrique, o João Nababu, o Pedro, o Zé Maria, a Renata, e minha ídola e pioneira Claudia Letti, que ao vivo é ainda mais impressionante. O Bruno também pintou, mas eu já não estava lá. Também as leitoras argentinas Julieta e Matilde passaram por lá, assim como a Luninha, leitora deste blog, que trouxe uma daquelas lindas camisas novas do Fluminense, de cor laranja. O Nababu levou um gravadorzinho equipado para podcast, e eu não quero nem pensar na borrachada que eu disse e que ele deve ter registrado. Seria boa idéia eu ser bem bonzinho e cordial com o Nababu nesta semana.

Infelizmente as várias fotos terão que esperar, porque não foi possível passá-las para o computador do hotel de onde faço este post.

O mais provável é que também durante esta semana os posts fiquem mais espaçados, porque saio nesta segunda para Buenos Aires, e é claro que a última coisa que vai querer fazer, na Argentina, um blogueiro brasileiro apaixonado pelo país é blogar.

Mas talvez eu volte logo com um daqueles posts de amor pela Argentina que tanto irritam metade dos leitores do blog.

Aos conterrâneos, só resta dar um daqueles testemunhos que não deixam de ser uma das funções dos blogs: o Rio de Janeiro continua lindo, e os cariocas continuam não gostando de sinal fechado.



  Escrito por Idelber às 01:11 | link para este post | Comentários (31)



segunda-feira, 01 de agosto 2005

Convites, Links

Fica o convite aos leitores de Belo Horizonte (e aos de fora que quiserem vir) para o 6o Salão do Livro de Minas Gerais, que ocorre de 11 a 21 de agosto na Serraria Souza Pinto (belo casarão ao lado do Parque Municipal, sob o viaduto). O evento já tem a programação completa. No dia 12, sexta-feira, estenderemos o tapete vermelho para Alexandre Inagaki e Fal Vitiello Azevedo, que vão compor comigo uma mesa-redonda sobre blogs, idealizada e coordenada pelo Afonso Andrade, da prefeitura de BH. O Salão promete: serão 15 mesas-redondas, 8 entrevistas com autores e 11 apresentações artísticas à noite, fora a programação para as crianças. Entre os que estarão aqui, há escritores consagrados como Silviano Santiago, Moacyr Scliar e Adélia Prado, camaradas meus acadêmicos como os Profs. Reinaldo Marques, Eneida Maria de Souza e Lúcia Castelo Branco e figuras conhecidas na arte-literatura mineira, como Marcelo Dolabela. Há bons nomes entre os músicos que se apresentam nas várias noites do evento também. Está feito o convite. O Biajoni vem por aí.

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Outro convite, este aos cariocas, para um evento que acontece logo depois do Salão do Livro: nos dias 17 e 18 de agosto eu estarei no Rio participando de um simpósio organizado pelo Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ, sobre música e cidadania. No dia 17, às 18:30, falam Ana de Holanda, diretora da Câmara Setorial de Música do Ministério da Cultura, e a Prof. Alejandra Cragnolini, de Buenos Aires. No dia 18, às 10 da matina, falamos eu (sobre música em Minas Gerais) e o Dr. Edmundo Pereira, da Associação Cultural Caburé. O evento acontece na Escola de Música da UFRJ. Pelo convite, meu muito obrigado ao Dr. Samuel Araújo, da UFRJ (uma das maiores autoridades brasileiras sobre samba, o que não é pouca coisa, vai dizer?). Nos dias 19 e 20 sobrará um tempinho para o chopp com os amigos cariocas, antes do embarque para Buenos Aires, rumo ao Congresso da Associação Internacional de Estudos da Música Popular.

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Aos jornalistas que lêem este blog: não deixem de conferir a polêmica envolvendo o experiente jornalista Julio Nudler e o jornal considerado mais "progressista" e "alternativo" da Argentina, o Página 12. Nudler se demitiu depois de acusar o jornal de censurar denúncias suas de corrupção. O jornal respondeu com uma carta que não convenceu a todos. Vale a pena acompanhar o caso.

Até a Revista Veja já descobriu a intelectual argentina Beatriz Sarlo, tendo feito com ela a entrevista das páginas amarelas há umas três semanas. Sarlo, neste artigo, dá outro show de análise da política argentina e das eternas reviravoltas do partido peronista.

Ainda na Argentina, dois posts bacaninhas, aqui e aqui.

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A grande escritora indiana Arundhati Roy, autora de um dos romances mais assombrosos que li nos últimos tempos, O Deus das Pequenas Coisas, fala um pouco de Cuando la paz es la guerra.

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Por falar em romances assombrosos, estão imperdíveis as aventuras triangulares d' O Stalker, narrativa publicada por entregas (como num folhetim do século XIX) no blog de pecus bilis. Cheguei tarde à coisa, li 36 capítulos numa sentada e já estou irresistivelmente enlaçado pela trama. As caixas de comentários são um espetáculo à parte.

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Também chega tarde minha linkada para ajudar a promover a votação de uma capa para o volume de contos do Blog de Papel, que acontece lá no blog de Alê Felix. A votação se encerrou neste domingo, mas para quem ainda não viu, vale a pena passar e ver alguns trabalhos gráficos bacanas dos artistas que concorreram.

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Quem está de volta à blogagem, depois de sofrer uma difícil perda familiar, é o grande conterrâneo e amigo Guto. Welcome back!

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E quem esteve aqui em Belo Horizonte para uma cervejinha e um bate-papo foi o amigo Gravataí Merengue, a quem o Biscoito reitera todo o apoio no processo esdrúxulo e mal-intencionado movido contra o Imprensa Marrom. Deixemos por aqui por enquanto.

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Parabéns à Cogumelo Records, que festejou neste sábado 25 anos de existência como um dos principais selos discográficos independentes do Brasil. Prometo para esta semana uma resenha do show de aniversário, que foi memorável.

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A partir desta terça estarei postando, pelos próximos sete dias, direto de Três Corações, terra do Rei Pelé. Acho que uma foto da bendita estátua eu teria que pôr no blog, não é? Mas quero vasculhar mais algumas outras coisinhas da memória do Rei por lá.



  Escrito por Idelber às 01:05 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 28 de julho 2005

Máxima do Dia

Citação: Uma tabelinha de Pelé e Tostão é a prova, no século XX, de que Deus existe.
(Armando Nogueira, 1970).

Comentário: Um meio-campo com Walker e Ataliba é a prova de que, no século XXI, Deus morreu e abandonou suas criaturas às guerras de invasão, ao fim dos direitos humanos, ao assassinato gratuito, ao reino da tortura e ao da mentira.

Certas pessoas que acreditam em coisas insistem que Ele ressucitará para consertar tudo.



  Escrito por Idelber às 05:13 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 19 de julho 2005

EUA-Brasil: O Olhar

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Hoje eu li um livraço: Tocquevilleanas: Notícias da América, de Roberto DaMatta (Rocco, 2005), uma coletânea de artigos sobre os EUA, publicadas no Jornal da Tarde e no Estadão entre 1993 e 2004. Para quem não sabe, DaMatta é um dos principais, senão o mais ilustre antropólogo de Pindorama. Ao contrário dos antropólogos que preferem estudar índios, DaMatta fez a carreira estudando os mitos dos quais somos feitos: o Carnaval, o futebol, a cordialidade, o "jeitinho", a malandragem. Sua obra mais conhecida é o clássico Carnavais, Malandros e Heróis.

Como eu, DaMatta vive entre o Brasil e os EUA, já que está vinculado à bela universidade (católica) de Notre Dame, situada no cu do mundo chamado South Bend, Indiana (desculpe, Roberto, mas aquilo é cu do mundo mesmo).

Lendo o Roberto eu tenho uma curiosa sensação: concordo com tudo o que ele diz sobre os EUA e discordo de tudo o que ele diz sobre o Brasil. Isso não surpreende, dado que o autor é assumidíssimo admirador da tucanagem. A antropologia comparada do Roberto me deu a idéia de desenterrar, aqui no blog, 15 anos de anotações minhas sobre as diferenças e semelhanças entre os EUA e o Brasil. É tema fascinante e explosivo, que mexe com as entranhas de todo mundo.

Em primeiro lugar, uma palavra sobre o expatriado. O expatriado é um ser que nunca voltará ao lugar do qual saiu. Uma vez abandonada a pátria, babau. Você pode até desistir da empreitada e voltar, mas não se iluda com a idéia de que voltará ao país onde vivia antes. Aquele não existe mais. Sua percepção está para sempre afetada pela saída.

O expatriamento mexe com as vísceras e produz terríveis distorções de percepção. A não ser nos casos de exílio, claro, todo mundo que sai o faz porque quer, mas esse querer está sempre misturado com outras emoções. Vacilos, dúvidas, culpas vão produzindo uma racionalização da saída, através da qual a pátria deixada para trás se transforma num inferno do qual se escapou ou num paraíso perdido.

Em 15 anos de EUA já encontrei brasileiros em crise de depressão porque nos EUA não existe coxinha de galinha nem guaraná. Já encontrei um brasileiro em choro convulsivo porque não há Bombril nos EUA (meu Deus, como é possível viver sem Bombril?).

As opiniões dos expatriados sobre seus países de origem em geral são radicais, absolutas, taxativas. Já encontrei brasileiros que sustentavam piamente que nenhum carioca pode sair às ruas sem levar bala na cabeça; que todo homem brasileiro é machista; que nenhum brasileiro branco tem consciência da desigualdade racial do país; que o sistema educacional brasileiro é o pior do mundo; que os professores universitários brasileiros passam fome e que nas universidades brasileiras não há giz nem carteiras. E por aí vai.

No outro extremo, já encontrei expatriados que defendem que não há amizade nos EUA como no Brasil; que só no Brasil há companheirismo de verdade; que no Brasil brancos e negros convivem em harmonia e não há racismo; que tudo no Brasil é informal e doce.

Todas essas opiniões tomam algum aspecto verdadeiro da realidade e o mulplicam, distorcem, absolutizam. A idéia desta série que estou inaugurando hoje é fazer umas ponderações sobre esses mitos, sem deixar de notar as diferenças que acredito serem reais.

Uma delas é o olhar. Uma das coisas que me alegram ao chegar de volta ao Brasil é estar de novo num lugar onde as pessoas se olham na rua. Uma velha conhecida minha, baiana, ao comprar seu primeiro carro, me confidenciava: "Idelber, é muito legal! A cada semáforo alguém te paquera!"

Eis aí uma cena impensável nos EUA, a paquera no semáforo. Sem querer generalizar, uma adaptação curiosa que os professores estrangeiros têm que realizar nos EUA é acostumar-se com a idéia de que uma vez terminado o semestre, o aluno com o qual você trabalhou durante quatro meses cruzará com você no campus, mas não mais o olhará. Durante o semestre, sim, depois não. Não é que ele o ignore. Ele simplesmente não vê. Gastei anos para aceitar que era isso mesmo, até que dezenas de outros colegas, norte-americanos e estrangeiros, me relataram a mesma experiência. O sujeito não vê. Olha para adiante com aquele olhar vazio do qual só são capazes os norte-americanos.

Os olhares oblíquos, com double entendres, irônicos são raríssimos nos EUA, e em geral restritos aos ambientes mais cosmopolitas e povoados de estrangeiros. Roberto DaMatta notou o mesmo fenômeno: Nos Estados Unidos, não existe esse contato visual que nós, os antigos, chamávamos de flerte (pag.26). Roberto exagera, pero no mucho.

O olhar do centroavante que avisa ao cobrador do escanteio onde ele quer a bola não tem equivalentes nos esportes americanos.

O norte-americano é um ser que caminha olhando para um horizonte vazio.

Talvez isso tenha alguma relação com o fato de que tantos norte-americanos, depois do 11 de setembro, se perguntavam: Por que eles nos odeiam se somos tão bonzinhos e estamos sempre ajudando os outros países?

Atualização às 14 h: Como o assunto dá pano para manga, esclareço o que estou dizendo e o que não estou dizendo: Não estou dizendo que nos EUA as pessoas não se olham. Não é isso. Inclusive, em várias partes do país (como no Sul) é comum ocorrer algo difícil de se ver no Brasil, que é o "good morning" na rua, gratuito, a estranhos. Coisa bonita. E acho que o Roberto exagera quando diz que não há flerte nos EUA. Mas há uma gama de jogos de olhares oblíquos, irônicos, com duplo sentido, muito comuns entre nós, que são raros nos EUA. Na fórmula de Caetano: lá "branco é branco e preto é preto".



  Escrito por Idelber às 02:25 | link para este post | Comentários (36)



segunda-feira, 18 de julho 2005

Mais dois blogs

Aos 7 e 5 anos de idade, eles tomaram conta do controle remoto.

Agora, chego em casa e vejo que aos 8 anos, Alexandre criou um blog. Não satisfeito, o moleque ensinou à irmã de 6 como fazer o dela.

A gente mal se acostuma a ser blogueiro, já tem que se acostumar a ser pai de blogueiro.

Onde vai parar este mundo? Alguém aí tem filho blogueiro, para dar umas dicas?

PS: Viva as meninas do vôlei. Viva as meninas do vôlei. Viva Renatinha, Sheilla, Jacqueline, Sassá, Paula, Carol, todas. Que time lindo de se ver. Quem ficou acordado para ver a final contra a Itália não se esquecerá tão cedo.



  Escrito por Idelber às 05:12 | link para este post | Comentários (25)



quarta-feira, 06 de julho 2005

Perguntas irrespondíveis

1. Pai, se o Galo só fica perdendo, por que tanta gente torce prá ele?

2. Pai, Adão e Eva viveram antes ou depois dos dinossauros?

3. Pai, onde fica a América da novela?

4. Pai, por que aqueles caras chamam os outros de "Vossa Excelência"?

5. Pai, se Jesus morreu por que falam que ele é Deus?

6. Pai, quem inventou essa bobeira de que Batman voa?

E a minha favorita:

7. Pai, o que é mensalão?


Eu proponho a criação de um clube: blogueiros com filhos ou sobrinhos ou irmãozinhos que fazem perguntas impossíveis.

Quem já tiver encarado perguntas cabeludas assim, deixe o registro. E claro, quem quiser se habilitar a responder alguma dessas, eu agradeço . . .

Atualização 14:52: A Sheila Leirner do Quando Onde Como tem um maravilhoso post coletivo, com contribuições de muita gente, intitulado o Mundo Visto pelas Crianças. Recomendadíssimo.



  Escrito por Idelber às 03:23 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 29 de junho 2005

Feliz Aniversário, Laura

junina 019.jpg

29 de junho de 1999, Champaign, Illinois, EUA: o universo parou para admirar.

Hoje, pausa no blog: alegria em estado puro.

Laura: feliz aniversário, meu amor.



  Escrito por Idelber às 06:09 | link para este post | Comentários (41)



sexta-feira, 24 de junho 2005

Conspiração

galo-metal.jpg

Meus amigos:

Encontra-se em curso uma conspiração da extrema-direita, em aliança com forças irresponsáveis e divisionistas da extrema-esquerda, com a conivência do complô da mídia burguesa, para desacreditar o nosso Biscoito.

Não, dessa vez não é nenhum aspirante a algo com três leitores e meio nos atacando. Não, não é a liga dos católicos reclamando de que defendemos a reprodução deles próprios, esses tão estranhos seres. Não, não é a assessoria de imprensa da Casa Civil prometendo que vai "refutar" um artigo meu sem jamais fazê-lo. Não, não é algum louco gritando Zé Dirceu é meu amigo / mexeu com ele mexeu comigo nos nossos ouvidos. Não, desta vez os terroristas se insinuaram dentro das nossas próprias fileiras!

Senão vejam o email que acabo de receber:


----- Original Message -----
From: _____@uol.com.br
To: iavelar@tulane.edu
Sent: Thursday, June 23, 2005 11:42 AM
Subject: candidatura

.... nós viemos acompanhando o trabalho que o senhor realiza no seu blog de apoio ao glorioso, o CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, e sendo o senhor pessoa tão ilustre, sócio e tão conhecedor da história do nosso GALO, queremos propor que considere a possibilidade de se candidatar a PRESIDENTE DO GLORIOSO nas próximas eleições. Entre nossos amigos aqui na (nome da cidade), temos contatos com conselheiros do clube e poderíamos ajudar . . .


Considerando como as coisas se disseminam pela internet e considerando o que aconteceu na última vez em que se tentou uma candidatura independente à presidência do Galo, venho por meio deste humilde blog reiterar que não sou candidato a presidente do Atlético Mineiro e que acredito que seria um verdadeiro deleite para os adeptos do aspirante a nosso rival, o ex-Ipiranga, se o Galo passasse pela suprema humilhação de ter um presidente blogueiro.

Já pensaram se a moda pega? Nelson Moraes para presidente do Flamengo (ao leme, al-mirante)! Milton Ribeiro para presidente do Internacional! Tiagón e Cardoso para presidente e vice do Grêmio (pior do que está, garanto que não ficaria, com o bônus de que a diretoria do Tricolor Gaúcho ganharia muito em bom gosto musical); Ricardo Antunes para presidente do Coritiba (coxas-brancas: troquem esse O pelo U original da cidade!); Ubiratan Leal para presidente do Corinthians, Marcos Donizetti para presidente do São Paulo e Lucia Malla para presidente do Fluminense. E é claro, Alexandre Inagaki para presidente do Guarani, pois só o Pensar Enlouquece pode tirar o Bugrão da situação em que se encontra!

Blogueiro botafoguense eu não conheço.

Reitero ao generoso leitor: candidato à presidente do Galo, não, pelamordedeus. Eu tenho planos de ver meus filhos blogarem e se multiplicarem.

Mas no caso de que a moda pegue, alguém conhece algum blogueiro plagiador que pudéssemos escalar para técnico da seleção brasileira quando a blogosfera tomar o poder no futebol?

E poderíamos também escalar o Biajoni, o homem que mais odeia futebol neste país, para Ministro dos Esportes. Pelo menos o Bia sabe a diferença entre um escanteio e um arremesso lateral, o que seria já um grande avanço em relação à situação atual.



  Escrito por Idelber às 07:40 | link para este post | Comentários (27)



segunda-feira, 20 de junho 2005

Na Vila Madalena

Há muito tempo eu não tomava tanta cachaça com chopp em tal oblívio da necessidade de ingerir uma agüinha de vez em quando.

Depois da reunião de blogueiros no sábado o tylenol reinou inconteste no domingão. Nada que uma coca-cola, um almoço e uma rebatida na própria Vila Madalena não curassem.

Todo mundo era ainda mais divertido que o esperado. Calculo que umas 25 a 30 pessoas tenham aparecido, quase todos blogueiros.

Com o blogueiro pioneiro e meu ídolo Alexandre Inagaki falei de filmes, de livros, de spam, de comentários, de blogs.

Com e escritor Luiz Biajoni fala-se sempre de Sexo Anal, mas também falamos de imprensa, de rock, de pingas.

Com a genial blogueira e minha ídola Bibi falei de guglagem, de internet, de cinema.

Com o co-organizador do encontro Marcos Donizetti papeei sobre certas péssimas bandas mineiras e o Tricolor na Libertadores.

Com o simpático e sorridente Homem Baile (e esposa) falei de BH e da volta do casal às Alterosas para a próxima visita.

Com o Marmota falei de perder-me em São Paulo e por onde começar; também falei de futebol e de um dia visitar a Rua Javari. Marmota ainda não comeu o tropeiro do Mineirão.

Momento especial da noite: conhecer Alê Felix (e maridón) e falar de propriedade intelectual, da experiência de seu blog, de outros casos juridicamente interessantes na blogosfera brasileira.
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No meio da noite, esbaforido, chega da rodoviária, vindo do Rio, Alex Castro, a tempo de reclamar da hora em que os bares fecham em São Paulo.

Com a Roberta Febran, papos divertidos e deliciosas fofocas.

Foi também especial conhecer a Patrícia e a Ana, com quem papeei sobre psicanálise e otras cositas más.

E eis que de repente aparece o Iraldo, pronto para fazer as mais alucinantes fotos.

E todos pensávamos que o namorado de Bibi era o André Kenji, até que o verdadeiro Kenji apareceu, contando histórias da imprensa americana que só ele sabe mesmo.

Com o João do Nababu também falei de coisas internéticas já num grau bem alto de caos etílico.

O Gravataí Merengue também apareceu, mas as mesas começaram a formar estranhas letras como S ou Z, e não consegui papear com ele.

E muita gente mais, blogueiros e não blogueiros, pintou por lá.

A brincadeira, no melhor estilo paulistano, amanheceu na padaria.

PS: Meu muito obrigado a Paulo Fontes, historiador do trabalho - um dos mais importantes especialistas no tema no Brasil - pela hospedagem generosa na Vila Romana. A partir desta segunda, começo a participar do congresso sobre Jacques Derrida em Araraquara. Tentarei dar notícias de lá.



  Escrito por Idelber às 03:22 | link para este post | Comentários (20)



sábado, 18 de junho 2005

Sampa

sao-paulo.jpg

A última vez que eu estive em São Paulo, a moeda era o cruzado, ou o cruzeiro, ou o cruzado novo, ou talvez índio quer apito. O presidente, eu acho que era Itamar. O melhor time do Brasil era o Grêmio. É, faz tempo que não vou a São Paulo.

Nesses anos todos de expatriamento aprendi a zanzar tranqüilo pelo Rio, Buenos Aires, Nova York ou Londres, mesmo em áreas que não conheço bem, como a Tijuca, Palermo, Upper West Side ou Chelsea. Mas reconheço que São Paulo me amedronta um pouco.

Não é só o gigantismo: há uma certa intensidade e velocidade no cotidiano paulistano que assustam, especialmente a quem chega de Minas ou de Nova Orleans, lugares onde a vida não é exatamente veloz . Mesmo para quem tem o parâmetro de outras megalópoles como a Cidade do México, São Paulo é singular. Compare o DF mexicano, onde todo mundo é mais ou menos a mesma mistura de ibérico com índio, com os milhões de árabes, japoneses, italianos e mil outras nacionalidades e etnias sem as quais São Paulo seria impensável. É difícil explicar isso aos mexicanos sem ofender - explicar, em outras palavras, que São Paulo é muito melhor que a Cidade do México.

E foi uma imagem de Sampa que me serviu de capa para o meu primeiro livro.

Eu, que como Lucia Malla, sou um viajante anti-turístico (o que não quer tirar fotinhas, catalogar visitinhas, colher pedacinhos de souvenirs, mas experienciar a diferença da outra cidade), eu que adoro perder-me numa cidade sem a orientação de anfitriões, em São Paulo invariavelmente me vejo recorrendo às dicas dos locais: e aí, o que você sugere?

Não que eu não tenha história com a cidade. Estive em um ou outro comício histórico na Praça da Sé, cujas ocasiões nem dá vontade de lembrar nestes dias delúbicos. Presenciei uma das decisões mais importantes - politicamente falando - do futebol brasileiro, a do campeonato paulista de 1982, em que a Democracia Corinthiana derrotou não só o São Paulo (sorry, Marcos), mas também todos os que insistiam que uma equipe de futebol organizada democraticamente não poderia ser campeã.

Ainda me lembro de emocionar-me quando visitei o Bixiga, não porque houvesse encontrado nada especial, mas porque era o lugar que havia inspirado tantas canções especiais. Os anfitriões insistiam o Bixiga já não é o mesmo, e eu pensava, claro que não, você já viu algum lugar mítico que o seja? Claro que o Bixiga cantado nestas pérolas já não existia, mas quem se importa?

Hoje, conversando com ela, ríamos da coincidência de que todas as nossas amizades paulistanas têm algo em comum: jamais vi um paulistano reclamar você não liga mais, não respondeu aquele email, não visita mais o blog, não fala mais de mim ou coisa do estilo. Talvez seja mesmo porque o ritmo da vida não permite esse tipo de frescura. Encontrou, beleza. Não encontrou, fica para a próxima. Há um despojamento que me agrada muito - as pessoas são, como se diz em inglês, no bullshit. Ausência total de nhém-nhém-nhém.

Não sei se já repararam, mas a história da literatura brasileira segue a história das monoculturas: no século XVII praticamente só existe na Bahia, no século XVIII em Minas Gerais, no século XIX no Rio de Janeiro. A Semana de Arte Moderna de 1922 não foi só um grito de independência artística e liberdade criativa. Foi também o que possibilitou que hoje o amazonense Milton Hatoum e o gaúcho João Gilberto Noll escrevam com plena consciência de que são parte da mesma tradição. Na literatura, o deslocamento do eixo dominante para São Paulo - rapidinho e passageiro que foi - é o que faz do país um país.

Chego a São Paulo hoje e desta vez já sei que não terei tempo para usufruir da vasta oferta de museus, exposições, eventos musicais, literários, etc. Mas antes da reunião de blogueiros na Vila Madalena às 21 horas, talvez eu me anime a fazer o que sempre quis: perder-me por um dia em São Paulo.



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post | Comentários (34)



segunda-feira, 30 de maio 2005

Belo Horizonte

Eu tenho por Belo Horizonte esse amor cheio de idealizações que é próprio dos expatriados. É curioso chegar aqui anualmente e renovar esse amor com rituais que beiram o patético: ir à Praça da Liberdade comer uma coxinha de galinha com guaraná; ir ao Mineirão ver um jogo (não, eu não fui ver o vexame do Galo ontem; preferi passar o dia com meus filhos, decisão muito sábia); ir ao Santa Tereza e redescobrir que ainda há lugares onde as pessoas passam 8 horas numa mesa de bar, bebendo e cantando até o amanhecer. É difícil explicar como é, para um expatriado, descobrir o que já se sabe, ver o velho com olhos de novidade. Estar de volta no Brasil, estar de volta em Minas.

É curioso porque, analisando-se friamente, Belo Horizonte não é uma cidade das mais fascinantes. Não tem praias e hospeda a população mais obcecada com praia que há no mundo. Você quer falar de praia, tecer teorias sobre a praia, chame um mineiro. Você escutará as teorias mais insólitas.

Bonita a cidade não é, com certeza. Porto Alegre, por exemplo, é muito mais chamativa plasticamente. O trânsito de Belo Horizonte é o pior que eu conheço, e olha que eu já viajei por este mundo (sempre que digo isso, meus amigos paulistanos exibem o comprimento dos seus engarrafamentos e o tempo que passam no trânsito; em números absolutos, eles têm razão, mas acreditem: São Paulo não chega aos pés de BH em caos por centímetro quadrado).

BH é um arraial planejado para existir dentro de uma avenida circular, a Contorno. A cidade se espraiou loucamente em todas as direções e transbordou a Contorno por dezenas de quilômetros, mas continua existindo como se fosse o velho arraial. Enquanto que é perfeitamente possível, por exemplo, viver em Copacabana de forma relativamente auto-suficiente, em BH todos os cinemas, teatros, repartições públicas e tudo o mais continuam localizados dentro da Contorno. Todo mundo tem que ir ao centro por algum motivo. O centro é um aglomerado de ruas estreitas, planejadas para abrigar o movimento de uma população de, no máximo, uns 200.000. O resultado é que 3 milhões de pessoas vivem aqui em convergência permanente em direção a um espaço onde elas não cabem. Dirigir no centro de BH é das experiências mais enlouquecedoras que pode passar um ser humano.

De onde vem, então, o fascínio? BH combina, de forma singular, o cosmopolitismo e o provincianismo. Cosmopolita, cheia de opções culturais, BH mantém algo do velho Curral d’el Rey: os mineiros dão informação, por exemplo, como se ainda estivessem no arraial. Tudo é logo ali. Tudo tem uma certa intimidade que não noto nem mesmo em cidades menores, como Curitiba ou Fortaleza.

O salto cultural dado pela cidade nos últimos anos foi impressionante. Eu sou muito crítico do governo federal, mas há que se reconhecer que as sucessivas prefeituras petistas belo-horizontinas (em coalizão com o PSB e o PC do B) têm sido notáveis. BH é hoje a capital internacional do teatro de bonecos. É conhecida mundialmente pelos seus eventos de teatro de rua. Acontecimentos como o Salão do Livro e o Comida de Buteco continuam atraindo multidões anualmente. A cena musical continua tão rica como sempre foi, mas muito mais estruturada e com melhores canais de comunicação com a população. À pilhagem das igrejas evangélicas sobre os cinemas seguiu-se uma proliferação de cineclubes que fazem que a oferta de cinema hoje seja ainda melhor do que era quando a cidade possuía suas salas de cinema clássicas. Os bairros periféricos fervilham de atividades culturais inovadoras.

Há tempos escrevi um post, ainda no velho UOL, que diferenciava cidades-véu de cidades-vitrine, cidades que o abraçam quando você chega e cidades que exigem um guia. BH pertence a esta última categoria. Chegar aqui e zanzar ao léu, como é possível zanzar em NYC ou no Rio, é decepção na certa. A cidade não se oferece a você e não o seduz, como Salvador. Você tem que seduzi-la.

Tudo aqui é cheio de recovecos. As pérolas estão escondidas. Mais ou menos como na psicologia do mineiro, a melhor parte é a que se esconde atrás do véu e que só se descobre com o tempo.

É muito intensa a experiência de renovar esse laço com a cidade.



  Escrito por Idelber às 01:00 | link para este post | Comentários (38)



quarta-feira, 25 de maio 2005

Drops, Viagem

A angústia do itinerante diante da mala: Neste sábado eu já estarei na capital mundial do buteco. Tudo prontinho: laptop, drive, impressora portátil, máquina fotográfica novinha (thanks for the tip, Rafa) e iPods lotados de música – um de 15GB com brasileira e um de 20 GB com EUA, Reino Unido, Cuba, Argentina e Africa, que é até onde chega minha coleção (não, eu não ouço música alemã do século XIX). As prateleiras derridiana e musical da minha biblioteca já estão voando rumo a BH (falo sobre Jacques Derrida em Araraquara em junho e sobre Chico Science em Buenos Aires em agosto, então tive que mandar caixa de livros, porque, bem, perguntem se eu já rascunhei uma linha dessas palestras...). O embarque é sexta, e infelizmente o caminho desta vez é pela mais detestável cidade norte-americana: Miami. Por sorte são só três horas naquele buraco daquele aeroporto. Êta cidade baixo astral.

Por falar em iPod: o papa do neo-jornalismo blogueiro, David Gillmor, andou opinando que o iPod tende a ser substituído pelos telefones/agendas eletrônicas que também tocam mp3. A galera gritou. Eu também achei meio furado.

Um dos blogs que mais tenho lido nos últimos dias é o Marketing Hacker, do pioneiro Hernani Dimantas – que eu, na minha ignorância, ainda não havia conhecido (obrigado, escritora e leitora anônima). Como eu, Hernani é influenciado por Gilles Deleuze- filósofo das multiplicidades, do movimento, das revoluções moleculares, pensador da intensidade e da alegria. Se tivesse vivido mais uns anos, Deleuze teria se ligado no fenômeno dos blogs. A blogosfera é, de alguma maneira, a realização de sua filosofia. Infinitas e descentradas redes, onde qualquer ponto pode se conectar com qualquer outro a qualquer momento: rizomas.

Excelente notícia musical chega via BMTH : a coleção Revivendo lança um resgate do repertório do Terror dos Facões. O Terror dos Facões é um marco da música brasileira e principal grupo instrumental gaúcho de começos do século – suas gravações para a Casa Edison são de 1913 (‘Facões” era gíria da época para “músicos ruins”). Fundado pelo genial Octávio Dutra – especialista em todos os instrumentos de cordas dedilhadas – o Terror dos Facões foi disponibilizado recentemente em CD na caixa "Memórias Musicais" da Biscoito Fino, mas esta já se encontra esgotada. O cromatismo e o diálogo complexo entre flautas e cordas são marcas registradas das polcas, valsas, maxixes e schottishes do Terror dos Facões. Vale uma conferida. As gravações de 1913 me assombraram.

Tarde especial em Tulane: Há alguns anos, numa visita a Santiago do Chile, conheci um jovem ensaísta genial e convidei-o a que viesse fazer doutorado conosco. Em 2000 ele chegou a Tulane. Seu nome é Felipe Victoriano. Grande conhecedor não só de literatura, mas também de futebol, ele já blogou aqui no Biscoito. Pois bem, Felipe hoje defendeu sua brilhante tese sobre a literatura, a mídia e o cinema dos anos de chumbo da ditadura chilena. A tese de Felipe é comovente quando trata dos desaparecidos, ou do espinhoso problema da testemunha. O que é, realmente, testemunhar uma atrocidade? A tese responde lindamente a essa pergunta. E Felipe sabe do que fala: Gilberto Victoriano Veloso, seu pai, foi assassinado pela ditadura militar de Pinochet em 1985. Como toda grande obra, a tese de Felipe traz, cifrada, uma reflexão sobre a biografia do autor. Eu já orientei umas vinte teses de Ph.D., mas nenhuma me encheu de orgulho e alegria como esta. O sucesso de Felipe é o presente que me faltava antes de embarcar para BH.

O post de hoje é uma homenagem a Felipe e é dedicado, in memoriam, a don Gilberto Victoriano Veloso, por si nos da el tiempo.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post | Comentários (22)



terça-feira, 12 de abril 2005

Gosto se discute

Post-provocação com meus favoritos:

Comida: 1. indiana; 2. árabe; 3. gaúcha/pampeana; 4. caribenha (incluindo a cajun); 5. italiana

Carros: japoneses

Cinema: italiano (tem um frescor e uma leveza tão próprios, mesmo quando se trata de drama ou tragédia)

Teatro: alemão (sim, de Bertolt Brecht até Heiner Müller, é o teatro que mais me impressionou até hoje)

Conto: argentino (leitora brava, pode esbravejar: o Biscoito continua sustentando que a melhor contística do mundo se escreve em Buenos Aires)

Romance: 1. anglo-americano (a quantidade de coisas de qualidade é impressionante, mesmo que o seja também a quantidade de porcarias); 2. francês; 3. russo

Religiões: marcianas (piores que as terráqueas não podem ser)

Música: 1. brasileira; 2. estadunidense; 3. cubana (com esses três países você já tem a música que precisa para viver)

Poesia: francesa, apesar de que a maior parte do meu tempo vai para a leitura da brasileira

Televisão: nenhuma

Cervejas: 1. inglesas; 2. alemãs; 3. tchecas

Mulheres: 1. brasileiras; 2. brasileiras; 3. brasileiras

Pronto. Podem acrescentar ou quebrar o pau.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (47)



quinta-feira, 07 de abril 2005

Como é conhecer um ídolo?

No jantar desta quinta-feira conheci um grande ídolo meu, um escritor que eu leio há tempos e que nunca havia conhecido pessoalmente: Tomás Eloy Martínez, na minha opinião o maior escritor latino-americano de hoje, autor de O Romance de Perón, O Cantor de Tango, Santa Evita e O Vôo da Rainha, todos disponíveis aí no Brasil. Conhecer pessoalmente um ídolo sempre é complicado, não é? Criam-se expectativas. Você fica com medo de falar bobagem ou com receio de achar a pessoa chata ou arrogante.

Estes receios caíram por terra na primeira saudação de Tomás no restaurante etíope onde jantamos. Daí prá frente foi como se fôssemos velhos amigos. Ele nos encantou com suas histórias – éramos seis, quatro anfitriões e dois convidados. Foi, como deveria ser, o centro da conversa. Contou-me que prepara um novo romance que se passa na época da ditadura argentina mas que, ao contrário de todos os outros romances sobre o tema, é narrado do ponto de vista de uma simpatizante da ditadura. Falamos das excelentes traduções dos seus romances no Brasil. Como bons argentino e brasileiro, falamos de futebol; e obviamente falamos de blogs. O pessoal da mesa se entusiasmou com essa história de blogs que, como eu já lhes disse, é meio desconhecida para os acadêmicos.

A alegria de conhecer Tomás me lembrou de todas as vezes em que conheci ídolos meus. Quando conheci a escritora argentina Tununa Mercado minha admiração por ela se multiplicou. Quando conheci Jorge Mautner tive a sensação de ter sido amigo dele desde sempre. Por outro lado, quando conheci Chico César (no JazzFest de New Orleans do ano 2000) fiquei com a péssima impressão de uma pessoa que era ao mesmo tempo arrogante e subserviente: ao mesmo tempo que nos tratava com certo descaso, pedia desculpas profusamente por não falar inglês, que é o que mais me irrita em alguns convidados latino-americanos que, afinal de contas, se estão sendo convidados, será por seu trabalho em seus países de origem, não é? Enfim, Chico César deu belos shows em New Orleans e foi profissionalíssimo, que fique claro. Mas não me encantou, digamos.

Deixo com vocês esse relato e a pergunta: você já teve alguma terrível decepção conhecendo um ídolo? Já teve a confirmação de uma admiração?

PS: Eu sei que vocês vão acabar expulsando-me deste blog se eu continuar enchendo a bola da cultura e da política argentinas, mas eu tenho que dizer isso: quanto mais eu me decepciono com o presidente Lula, mais eu admiro o presidente Kirchner. Eu evitei me pronunciar sobre o papa, porque não queria ofender os católicos num momento de luto para eles, mas aqui vai uma pergunta completamente laica: Será que é realmente necessário levar ao Vaticano uma comitiva de dezesseis pessoas que inclui rabino, mãe-de-santo, xeque de mesquita e pastor luterano (além, claro, de Severino, Calheiros e cia.), todos viajando às custas do estado?

PS 2: papeiem à vontade sobre esses temas. Quando vocês estiverem lendo este post eu já estarei dando, ou terei dado, a palestra sobre Julio Cortázar. Depois conto como foi. Obrigado, de novo, pelas lindas mensagens de ontem.



  Escrito por Idelber às 22:18 | link para este post | Comentários (37)




Palestra, Avião, Angústia

cortazar-2.jpg

Parte do objetivo deste blog era divulgar um pouco o que faz um professor universitário. Parte era criar um espaço onde eu pudesse falar com uma voz que não fosse a de professor universitário. Vamos ver se a gente combina essas duas coisas neste post.

Hora de entrar no avião, dar palestra: eu morro de angústia. Acho que já dei umas 300 nesta vida, mas na hora de embarcar a angústia é a mesma. Em 12 horas eu pego o avião. Sou o “keynote speaker” (palestra de encerramento, de gala) de um congresso sobre o escritor argentino Julio Cortázar em Rutgers University. Não é uma circunstância tranqüila: a platéia inclui um dos três maiores, senão o maior escritor argentino de hoje, Tomás Eloy Martínez, a crítica literária que eu mais admiro neste planeta, minha amiga argentina Graciela Montaldo e duas experientes especialistas em Cortázar, Marcy Schwartz e Diana Sorensen.

Ou seja: é o vigésimo aniversário da morte de um herói nacional argentino e uma platéia de pensadores argentinos aguarda este blogueiro brazuca, que tem que fechar a brincadeira. É para se sentir intimidado ou não é?

Considerando-se que não farei uma “homenagem” à Cortázar, mas questionarei os termos um pouco simplistas, meio lisos demais, em que ele concebeu a relação entre arte e política, não deixa de ser uma situação para se preocupar. Não vou resumir a palestra aqui, mas a apresentação será uma saculejada-zinha nos termos em que Cortázar concebeu o conteúdo “político”, “revolucionário” da sua arte, desde a época em que ele era um jovem boêmio escrevendo alegorias da invasão peronista, passando pelos contos em que o fantástico oferece uma porta emancipatória até os contos tardios, vanguardista-políticos, em que a arte engajada sempre oferece uma saída. Em todas estas fases, permanece uma posição relativamente invariável, confortável para o artista-homem. Essa posição relativamente confortável para o artista de vanguarda, construída por Cortázar nos seus contos, é o que o blogueiro pretende questionar e criticar na palestra. Quem quiser ler alguns dos contos mais célebres de Cortázar e explorar este tema, o link é este.

Digamos o seguinte: é como se um argentino especialista em samba adentrasse a UERJ ou a UFRJ para apresentar uma palestra sobre Noel Rosa a sambistas cariocas, na qual esse argentino propusesse uma leitura crítica, não celebratória, de Noel. Imaginam? Este é o contexto dessa palestra sobre Cortázar que eu tenho que dar na sexta-feira. Não deixa de ser uma situação em que há que se ter cuidado.

Nessa trajetória de 10 anos de especialista em literatura argentina, eu já me senti tenso algumas vezes. Mas sempre fui bem recebido entre os argentinos. Isso é incrível, porque eu sou brasileiro, neste período nós fomos campeões do mundo de futebol duas vezes, a literatura de ficção da Argentina está entre as mais ricas do mundo e a crítica literária deles é infinitamente mais desenvolvida que a nossa. Sim, uma vez aconteceu um barraco terrível numa palestra minha em Buenos Aires, mas os que me atacavam eram basicamente gringos e os que me defendiam eram basicamente argentinos.

Na preparação da palestra desta sexta-feira, passei por muitas horas de angústia: angústia de já não ser realmente um especialista em literatura hispano-americana (já que eu passo 60% do meu tempo lendo blogs brazucas, de forma enlouquecida e irreversível) e, acima de tudo, angústia de não querer dedicar-me à escrita acadêmica, estando já viciado em escrita blogueira.

Nesta quinta de manhã pego o avião e sei que me sentirei da mesma forma, como se a palestra não estivesse pronta, como se fosse necessário ficar mais uma noite acordado, como se o sofrimento antecipado fosse o ingresso para outro sucesso. Amanhã à noite estarei em outro hotel desconhecido, dando retoques em um texto que não sei como será recebido.

Na sexta, às 11 horas de Nova Jersey, 12 horas de Brasília, eu encaro o auditório. Se houver boa conexão no hotel nesta quinta à noite eu postarei algo para vocês, nem que seja um link, um poema, um afago ou o compartilhamento da angústia da insônia da véspera.



  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post | Comentários (28)



segunda-feira, 21 de março 2005

Momento confessional do blog, e respirada na discussão do voto nulo,

Se alguém me dissesse há seis meses atrás que a inteligência mais aguda que eu encontraria na blogosfera nacional seria um *publicitário governista, que além de tudo seria um baiano que escolheu morar em Sergipe, eu teria desistido da vida de blogueiro antes de iniciá-la. Mas vejam vocês quão pouco dizem os rótulos. Sobre a bela resposta que ofereceu Rafael à minha provocação sobre o voto nulo, há que se dizer mais uma coisa, não dita em meu último post: que um stalinista baiano radicado em Sergipe não pode fazer piada de barbudinhos trotskistas! Quando fala em “barbudo” será que Rafa está pensando em Trotsky, em mim ou na Heloísa Helena?

Primeiro problema: 21 de março, o blogueiro tem compromisso de estar no Brasil 25 de maio e a passagem não está comprada. Não está porque eu não sabia se o plano era voltar para dar aula em janeiro (o sabático de set-dez, além das férias de mai-ago, estão garantidos) ou se era voltar em outubro. Por que voltar em outubro se só tenho que dar aula aqui em janeiro? Porque aí eu sairia daqui de Nova Orleans em direção a Santiago, para dar o curso que me comprometi dar lá em outubro, ao invés de sair de BH. E por que teria que dar essa volta? Porque, apesar de já poder acrescentar à cidadania brasileira a americana quando quiser, já que meu green card tem mais de 5 anos, eu não posso passar mais de 6 meses fora dos EUA de uma vez, se não quiser ter que começar a contar os 5 anos para a cidadania todos do novo. Então tenho que tomar um avião em
BH, indo para Santiago via New Orleans. É mole? A passagem é New Orleans - BH (maio) – BH – Buenos Aires – (em agosto, por 5 dias) – BH - New Orleans (outubro) - Santiago –-BH – New Orleans (em janeiro). Por onde eu começo a explicar à agente de viagem o que eu preciso?

Segundo problema: Nesses oito picotados meses que estarei em BH, o plano é escrever o livro sobre música brasileira. Mas o livro que eu terei que estar escrevendo caso receba uma das bolsas que pedi é sobre coisa mais chata (ensaísmo latino-americano). As bolsas que pedi me permitiriam estar em BH sem dar aulas não só de maio até janeiro / 2006, mas até agosto / 2006 (sim, é verdade, este blogueiro começa a comer alguns filés, mas acreditem, ralei muito prá chegar neles). Como estou começando a empacotar a casa aqui em New Orleans, tenho que escolher quais livros ponho num galpão e quais empacoto para enviar ao Brasil. Minha biblioteca aqui anda por volta de 5.000 volumes. O blogueiro está em pânico. Tenho que decidir qual será a minha biblioteca do próximo ano, porque no meu AP em BH ainda quase não há livros. Estou seriamente tentado a chutar o balde com o tema enviado às agências de fomento, estocar os livros de ensaísmo hispano aqui, mandar só livros legais ao Brasil (incluindo toda a minha coleção sobre música) e, caso saia alguma das bolsas para 2006, simplesmente dizer à agência: olha, vocês demoraram três anos para financiar essa porra, quando resolveram já era tarde, agora só me interessa Jorge Ben Jor. Não escrevo o livro sobre ensaísmo hispano, escrevo o livro sobre música brazuca e ponto. Acho que já ganhei esse direito, sinceramente. Ao enviar os livros a BH será que envio dicionários ou não? Envio romances em francês ou não? Que livros de filosofia envio? Arre, odeio essas decisões.

Vencedor do sorteio da caixinha de discos: Na votação realizada aqui no Biscoito, dos melhores discos da música brasileira popular, eu prometi sortear uma caixinha de CD-Rs. Hoje coloquei os nomes dos 50 eleitores numa cartolinha e tirei. O vencedor foi o blogueiro Guto . Parabéns, Guto e confirme por favor por email qual o seu endereço postal para que eu possa lhe mandar a caixinha. Obrigado a todos os que participaram.

Fenomenologia da Fumaça, semana 6: memória ainda meio ruim, tropeços generalizados, leitura ainda fraca, mas nenhum único cigarro. Estou próximo de bater meu record.

Futebol: o grande especialista é Ubiratan, mas ele previu Santos. Este blogueiro entende 1% do que entende Bira, mas suspeitava que num campeonato de pontos corridos daria o São Paulo de Leão. Parece que acertei. O Tricolor está bem à frente a seis rodadas do final. Ano passado acertei escandalosamente em quase todos os palpites. Vamos ver este ano. Meu Galo vai muito mal. Bira, traidor, previu Cruzeiro. No Rio minha previsão ainda é Botafogo. Bira previu Vasco, que já está quase fora

Campanhas: o Biscoito apóia o fim do voto obrigatório. E lança outra campanha possível para o Brasil: não deixe o presidente falar de improviso!

Contagem regressiva para o pontocom: SETE.



  Escrito por Idelber às 13:58 | link para este post



quinta-feira, 17 de março 2005

Pedido de ajuda para João Pedro de Prates Borges

João Pedro é um garoto de Viamão, grande Porto Alegre, que ontem
completou 14 meses de idade. O garoto nasceu com má formação e passa por
tratamento caro, que a família cobre com dificuldade. No momento João
Pedro está internado com pneumonia. O site mantido pela família do
garoto é este [link] e o site que tem
mais informações é este [link].
As contas bancárias para doações são: Banco do Estado do Rio Grande do
Sul - Banrisul - cod 041, Agencia 0835, Conta 39.859509.0-9 *OU* Banco
do Brasil, Agencia 1430-3, Conta 17535-8, ambas em nome de: Uliana
Prates de Prates, CPF 688.553.970-87. *Por favor, quem puder ajudar,
ajude. *Se você mora nos EUA: lembre-se de que enviar dinheiro ao Brasil
pela Western Union é mais barato do que pelo seu banco. Se você mora no
Brasil: veja por favor se pode ajudar a mobilizar canais de comunicação
com pessoas em condições de ajudar o João Pedro. Nestes momentos a
blogosfera pode fazer uma diferença. Fiquem à vontade para usar esta
caixa de comentários, *não* para elogiar nem agradecer nem falar da
saúde do garoto, por favor, mas para *dar outras idéias* de
como levantar recursos para ajudar o João Pedro, nomear figuras ou
instituições que possam ajudar, apresentar idéias *concretas* de como
podemos fazer algo mais. De momento, fica o apelo: faça uma doação se
puder às contas acima. Obrigado.

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  Escrito por Idelber às 00:29 | link para este post | Comentários (1)



terça-feira, 15 de março 2005

Drops e Links

Houve uma decisão da justiça da Califórnia, nesta sexta-feira, de
muito interesse para os blogueiros atentos ao estabelecimento de
precedentes jurídicos no tratamento de questões como direito de
expressão e livre informação na internet: um blog
[link] será legalmente obrigado pela *Apple* a
revelar onde adquiriu uma informação comprovadamente verdadeira. A
justiça decidiu que a empresa pode intimar o blogueiro à justiça para
revelar a fonte de uma informação que nada tinha de espionagem, nem de
segurança nacional, nem de caluniosa. Era informação neutra, comprovada,
sobre o lançamento de um produto. Mesmo assim, o direito ao sigilo de
fonte foi violado mais uma vez. A discussão anda quente no blog de Dan
Gillmor
[link];
no Brasil Rafael Galvão
[link] e Tiagón [link] já fizeram posts esclarecendo bem o assunto. Aqui nos EUA, sabe-se, um jornalista do *New York Times* já perdeu [link] esta imunidade num caso suspeito [link].

Enquanto eu saculejava em New Orleans, meus filhos Alexandre (8) e Laura
(5) se preparavam para um super domingo com a mãe no Mineirão. Alexandre
ostentava uma série invicta: nunca ter visto o *Galo* perder na
Pampulha. Era o batismo de Laura no estádio. Pois bem, o velho freguês
América nos surrou por 1 x 0
[link].
O assento do 1º tempo foi bem de cara para o sol e o do 2º numa
arquibancada inferior de onde não se via nada. A meninada escutou
palavrões, um torcedor agrediu o juiz e todos saíram *muito* bravos.
Alexandre, que já viu algumas vitórias do *Galo* no Mineirão comigo,
disse que topa voltar, mesmo depois do desastre de ontem. Laura já
deixou claro que não quer saber mais de Mineirão. Quando conversam,
Alexandre faz o gênero PMDB de Ulysses e Tancredo. Laura faz mais o
gênero PSTU. Alexandre é mais soul, Laura é heavy.

Há polêmicas que valem a pena e outras que não valem a pena.
Discerni-las é fundamental. Por exemplo: vou debater com alguém um tema
que eu pesquiso há 20 anos e sobre o qual esse alguém “acha” algo ou têm
alguma “opinião”? Só pode levar a desgaste. Eu caço briga, mas só com
cachorro do meu tamanho ou maior. Por isso eu acho que Smart Shade of
Blue [link] tem que esquecer Olavo de
Carvalho e Michael Bérubé [link] tem que
esquecer o sr. KC. Qual a importância de Olavo de Carvalho, meu Deus do
Céu? Quem já ouviu falar desse homem fora de Pindorama? Para qual jornal
ele escreve mesmo? *Who cares*? Bola prá frente!

O pensador alemão Walter Benjamin
[link] amava a figura do
colecionista, aquele que arranca os objetos do esquecimento e resgata
coisas que de outra maneira ficariam perdidas às margens. Na selva de
esquecimento vertiginoso que é a internet, há um blog* *que se dedica a
resgatar lindas peças do lírico, do insólito, do burlesco. O *Biscoito*
visita e recomenda Bibi’s Box [link].

*Boas-vindas e toques a quem chega*: Este blog se pauta pela seguinte
ética: eu retribuo *todas *as visitas, sem exceção, e papeio com todos os comentaristas, exceto os que dizem *linka meu blog aê!* Da mesma forma como eu fazia quando tinha 5 leitores por dia, ao invés dos quase 1000 atuais, eu não peço link, não retribuo link, não dou link quando pedido. Linkagem é ato unilateral e assim deve ser. Meu blogroll é uma lista de *endossos*, não no sentido de que endosso tudo o que dizem os 83 blogs listados aqui à esquerda, mas *que endosso o ato de visitá-los*. A lista muda constantemente e, acredite, eu estou *atento* a novos blogs. Se você está iniciando seu blog, minha única recomendação é: *continue escrevendo. *Dentro das minhas limitações, eu tentarei ajudar-lhe a encontrar sua turma. Não tenha tanta pressa. Reconheça a temporalidade baiana das coisas. Este blogueiro escreveu 40 artigos acadêmicos e 2 livros lidos por 17 seres humanos e meio ao longo de 10 anos, antes de ter um blog lido por um grupo mais numeroso que a torcida do América-MG. Horácio aconselhava ao jovem escritor guardar todos os seus escritos na gaveta por dois anos antes de circulá-los, o que sugere, claro, que Horácio não se daria muito bem na era da internet.
Mas um pouquinho de paciência é sempre bom. E continuar escrevendo,
claro. Continuar visitando os blogs que você acredita serem a sua turma ajuda também. Os leitores e as conversas virão.

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  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post



quinta-feira, 24 de fevereiro 2005

*Blogueiros armam confusão em

*Blogueiros armam confusão em sala de chat do UOL*

Dizem que ontem à noite, numa sala de chat do UOL, juntaram-se alguns
blogueiros para entrevistar o Alexandre Cruz Almeida, do Liberal
Libertário Libertino [link] ,
numa série promovida pelo Blogólogo [link] , que
agora conta com a especialista Elisa [link] .

Contaram-me que estavam presentes, além do Alê
[link] e da Elisa
[link] , o Rafael [link] , o
Biajoni [link] , a Mônica
[link] , a Tata
[link] , a DaniCast
[link] , o Guto
[link] , a Ana Lucia
[link] e outros blogueiros.

Contaram-me também que havia uma pessoa lá fazendo-se passar por mim,
dirigindo babações cheias de puxa-saquismo à astrologia afetiva do blog
de Tata [link] , à etnoblogologia de
Elisa [link] , à escrita de Mônica
[link] e a tudo quanto mais mulher
aparecesse pela frente.

Contaram-me também que este crápula que se fez passar por mim, num
imperdoável donjuanismo barato, cometeu a suprema crueldade de *seduzir
*uma internauta que se apresentava como "Solitária 4.2". Nosso cruel Don
Juan recebia as mensagens de Solitária no reservado mas respondia à
pobre coitada publicamente, com o único intuito de expor a miséria
humana das salas de chat.

Contaram-me também que este falso Idelber distribuiu senhas, tics e
macetes para que os homens aprendam a *fingir-se de lésbicas* em salas
de chat. Este depravado eletrônico, decidido a destruir minha reputação,
compartilhou com uma dúzia de blogueiros que, juntos, devem totalizar
dezenas de milhares de leitores diários, toda sorte de falsas promessas,
rituais pornográficos baratos e técnicas de ciber-sedução. Este clone
chegou a pesquisar minha vida o suficiente para saber que passo 4 meses
por ano no Brasil, e procedeu a usá-los para prometer visitas a
Solitária 4.2 e a outras internautas. Foi a pior falsificação, pior que
a de Catarpa debatendo falsas etimologias
[link] no blog de
Michael Bérubé
[link] , numa
época em que alguém, fazendo-se passar por Tristero
[link] , havia se apossado da senha de
Bérubé [link] e hackeado seu blog para fazer
joguinhos borgeanos [link] .

Eu esclareço que no momento em que a depravação de ontem acontecia na
sala de chat do UOL, eu me encontrava finalizando o trabalho sobre Chico
Science
[link]
que apresentarei amanhã em Northwestern University
[link] . Os meus anfitriões, obviamente, não
podem nem imaginar que há um falso Idelber por aí, brincando de
chat-donjuanismo, enquanto o verdadeiro esforça-se para terminar o seu
*primeiro* ensaio escrito em toda a *vida* sem a muleta do cigarro. A
última vez que escrevi sem cigarro foi uma coisa chamada "para casa".

Pego o avião às 8 da manhã de Nova Orleans, 11 de Brasília. Vocês, por
favor, tomem conta do *Biscoito*. Se aparecer algum Idelber escrevendo
aqui antes de domingo de manhã, desmascarem o impostor.

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  Escrito por Idelber às 22:21 | link para este post



quinta-feira, 27 de janeiro 2005

Cidades-vitrine e cidades-véu

Já há tempos eu tenho uma teoria que quero testar e agora é a hora.
Primeiro, uma coisinha sobre os gostos de quem fala. Tolstói começa Ana Karenina com aquela frase memorável: ‘Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira’. Para a minha sensibilidade, a diferença entre a cidade e o campo é a mesma, só que ao revés. Mato prá mim é tudo igual. Não importa que seja floresta, caatinga, serrado, cordilheira ou montanha. O meu desinteresse é o mesmo. Não tenho o menor saco para nada que seja natureza. Não tenho a menor vontade de conhecer o Pantanal, o Grand Canyon ou o Himalaia.

Teria o maior tesão de passar umas duas semanas em Tóquio ou em Praga, cidades que ainda não conheço.Topo qualquer parada, desde que seja na urbe.

Na minha experiência, há dois tipos de cidades: por um lado, aquelas que se oferecem para você, abraçam-no e não requerem, em absoluto, a guia de um conhecedor local. Só o desejo de entrega de quem chega. A cidade faz o resto. Nova York, Salvador, Madri, Rio de Janeiro e Buenos Aires são assim. Por outro lado, há as cidades que podem ser fascinantes, riquíssimas, múltiplas, mas cujos tesouros se escondem, seja numa imensidão, seja num desenho tortuoso, seja na pulverização. A guia de alguém que conhece torna-se imprescindível. Los Angeles, São Paulo, Belo Horizonte, Santiago do Chile e a Cidade do México são assim.

Isso não quer dizer, obviamente, que você não vá aproveitar muito mais
de Nova York se contar com um manhattanite ou de Salvador se contar com uma boa baiana de guia. Mas sim significa que se você se perder na cidade - a primeira coisa que faço quando chego a uma urbe nova é perder-me nela – a cidade mesmo assim estará ali para você. Você encontrará o fundamental. Se estiver aberto para que a cidade o abrace, ela o abraçará.

Conheço alguém que chegou a Belo Horizonte sem notícia das coisas,
zanzou da Praça da Rodoviária (teve o infortúnio de chegar de ônibus)
até a Praça Sete, daí à Praça Afonso Arinos, daí à Raul Soares e zanzou e zanzou e foi embora convencido de que BH é uma amontoeira de prédios e praças sem graça. As pérolas da intensa vida cultural da cidade estão escondidas. Claro, você pode comprar o jornal, mas mesmo assim, se não tiver um bom guia, o fundamental escapar-lhe-á entre os dedos.

Isso é impossível em Salvador. Qualquer que seja o lado que você
escolha, a essência da cidade estará ali, pronta para abraçá-lo. Mesma
coisa no Rio. Já em São Paulo, se não houver alguém que conheça bem
aquela joça prá lhe ajudar, você pode muito bem passar a experiência
mais frustrante da sua vida.

Experimente perder-se em Nova York. A surpresa inaudita, o acontecimento insólito vai aflorar. É muita densidade de opções. Sempre que vou a NYC evito os planos. Desço e começo a andar. Ë sempre o melhor caminho. Só lá para o terceiro dia eu resolvo comprar o jornal.

Experimente perder-se em Los Angeles. Você se sentirá um imigrante
pedestre miserável numa floresta de viadutos que lhe transmitem a
impressão de que não há nada mais na cidade.

Isso não quer dizer que NYC seja melhor que LA ou que o Rio seja melhor que São Paulo. Simplesmente que a exploração de cada uma requer uma arte diferente.

PS: Estou em fase final de revisão e formatação do texto da entrevista
com Jorge Mautner. Será postada logo logo.

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  Escrito por Idelber às 00:14 | link para este post



quinta-feira, 06 de janeiro 2005

The Letter of Violence

Eu tinha três assuntos para a blogagem de hoje, mas chegou um ´pacutim´ no correio que merece prioridade. *Saiu meu segundo livro*! Woo hoo!

O segundo livro da gente é como a segunda boa trepada de um ser humano,
o segundo hit de uma banda, o segundo título de um time ainda não é um
*Galo*. A gente faz *o primeiro*
[link]
direitinho, mas só no segundo você passa da fase ´ok, fiz um legal´ para
a fase ´I can do this´. O biscoito chama-se *The Letter of Violence:
Essays on Narrative, Ethics, and Politics* e pode ser encomendado
*direto na editora Palgrave*
[link] ou
*na Amazon*
[link] .
Custa 22 mangos gringos, o que é um absurdo, eu sei.

A introdução é um comentário acerca das novas tecnologias de destruição.
O capítulo 1 debate a tortura a partir da sua representação no cinema
(por Polanski em *Death and the Maiden*
[link] ) e de um curioso dado
historiográfico levantado por pesquisadores recentes: na origem da
democracia em Atenas, o depoimento jurídico dos escravos só era
considerado verdadeiro quando extraído sob tortura. A tortura era uma
das formas de estabilizar a cambaleante distinção entre o cidadão livre
e o escravo. Aquele jamais será torturado. Este deve ser torturado para
que diga a verdade. Disso eu tiro algumas conclusões sobre tortura e
verdade, tortura e democracia.

O capítulo 2 lida com o problema da ética da interpretação a partir de
uma deliciosa historinha de Jorge Luis Borges, ´*El etnógrafo*
[link] ´.
O capítulo 3 é um estudo do tratamento da violência na obra do filósofo
francês Jacques Derrida, incluindo-se aí uma polêmica sobre a a natureza
da violência nos territórios ocupados da Palestina. O capítulo 4 é um
longo estudo sobre o romance colombiano em meio às várias guerras civis
do país no século XIX. O epílogo é uma reflexão-zinha sobre onde andam
as coisas nos EUA desde o bombardeio do Afeganistão.

Se você mora no Brasil, é leitor deste *Biscoito* e gostaria de receber
um exemplar pelo preço de autor, envie-me um email (iavelar@tulane.edu
[link] ). O preço de autor deve andar por volta dos
12 ou 13 dólares. No dia 18 eu ponho no correio. A cervejinha de
comemoração está adiada até eu terminar um texto que estou escrevendo
com muito cuidado, o balanço do governo Lula para o *InfoBrazil.com*
[link]

PS: *As maravilhas da vida de quem não lê jornal*: o *New York Times*
[link] publicou o *seu insulto anual*
[link]
contra a associação profissional à qual eu pertenço, a *Modern Language
Association* [link] (que congrega os professores
universitários de línguas e literaturas nos EUA). O *MLA*
[link] se reúne anualmente entre o Natal e o Ano Novo, em
geral com cerca de 10.000 acadêmicos. Dia 2 ou 3 de janeiro, é batata: o
*NYT* [link] publica a brincadeirinha de mau gosto de
algum jornalista que vai lá e fuça o programa em busca de dois ou três
títulos que possam ser ridicularizados quando postos fora de contexto.
Meu bróde véio *Michael Bérubé* [link]
*protestou contra a palhaçada*
[link] .
Por sorte, gente como *Michael* [link] continua
levando essa desigual e importante luta. Eu já me cansei e chutei o balde.

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  Escrito por Idelber às 18:09 | link para este post